II Congreso Internacional
sobre profesorado
principiante e inserción
profesional a la docencia
El acompañamiento a los docentes noveles:
prácticas y concepciones
Buenos Aires, del 24 al 26 de febrero de 2010
II Congreso Internacional sobre profesorado principiante e inserción profesional a la docencia
Eje temático: Investigaciones y experiencias de iniciación a la docencia.
Particularidades de los diferentes ámbitos de inserción
Reportes de experiencias
FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DOS PROFESSORES:
A EXPERIÊNCIA DA OFICINA PEDAGÓGICA DE CIÊNCIAS SOCIAIS
Handfas, Anita
IFP 03941408-1
[email protected]
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Palavras chave: ensino de sociologia – formação inicial do professor – prática de ensino
Resumo
O objetivo do trabalho é apresentar a experiência de uma atividade da Prática de
Ensino de Ciências Sociais do curso de Licenciatura da Faculdade de Educação da
UFRJ. Trata-se da Oficina Pedagógica de Ciências Sociais realizada no ano de 2007,
cuja temática foi O uso do cinema no ensino de Sociologia. Tal iniciativa ocorreu
simultaneamente em três escolas que recebem licenciandos para o estágio docente e
teve como principal objetivo estimular a formação inicial dos professores em articulação
com os professores com inserção profissional recente nas escolas em que atuam. Como
resultado dessa experiência, destacamos: 1) a possibilidade de uma prática de ensino
que busque envolver os futuros professores em todas as etapas de planejamento do
ensino, mobilizando diferentes dimensões pedagógicas no ensino de sociologia, e 2) a
contribuição da universidade para uma prática pedagógica mais qualificada dos
professores que iniciaram recentemente sua atuação no magistério. Pretendemos
mostrar como essa experiência contribuiu para consolidar o trabalho que vimos
desenvolvendo na Prática de Ensino de Ciências Sociais, cujos princípios estão pautados
em uma concepção de formação de professores que, por um lado privilegia a articulação
entre a Universidade e as escolas e por outro, busca ampliar os espaços de formação,
considerando as múltiplas dimensões do processo de formação inicial do futuro
professor. Avaliamos que experiências tais como a Oficina Pedagógica de Ciências
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Sociais podem abrir novas possibilidades para a Prática de Ensino, favorecendo uma
formação inicial e continuada mais rigorosa e sistemática dos futuros professores de
Sociologia na Educação Básica.
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FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DOS PROFESSORES:
A EXPERIÊNCIA DA OFICINA PEDAGÓGICA DE CIÊNCIAS SOCIAIS
Introdução
No trabalho desenvolvido na Prática de Ensino de Ciências Sociais, a articulação
entre a teoria e a prática na formação inicial do licenciando tem sido o fio condutor das
atividades, sejam aquelas concernentes ao estágio supervisionado na escola, como
também aos projetos específicos, como foi o caso da Oficina Pedagógica. Nesse sentido,
nosso esforço tem sido o de fazer com que as atividades da Prática de Ensino estejam
permanentemente assentadas no exame dos conteúdos pedagógicos e das ciências
sociais nas aulas de Didática Especial.
A escolha do tema da Oficina Pedagógica de Ciências Sociais O uso do cinema
no ensino de Sociologia levou em conta a realidade do ensino de sociologia nas escolas:
a prática pedagógica do professor, as metodologias de ensino, os materiais didáticos e os
recursos utilizados.
Como se sabe, ainda é recente a presença da Sociologia na educação básica e
muito se tem discutido sobre as possibilidades do uso de ferramentas que possam
articular diferentes linguagens ao ensino dessa disciplina. Algumas delas já vêm sendo
utilizadas por professores, com o objetivo de tornar mais acessíveis aos alunos do ensino
médio os conteúdos da teoria sociológica. Entretanto, verifica-se que nem sempre o uso
dessas metodologias tem sido capaz de explorar todo o potencial que elas oferecem. Isso
ocorre com o cinema. Embora seja comum aos professores de sociologia a utilização do
filme em sala de aula, a maioria deles ainda não se debruçou sobre as implicações
metodológicas deste recurso didático, que ultrapassa um mero entretenimento ou artifício
de temas de aulas, mas pode se apresentar como “pré-texto”, possibilitando tratar, numa
perspectiva crítica, os temas da sociologia (ALVES, 2006). Nessa perspectiva, a
utilização do filme em sala de aula pode possibilitar o desenvolvimento de conceitos
sociológicos, constituindo-se em importante ferramenta de reflexão crítica sobre os mais
diversos fenômenos sociais, culturais, políticos e ideológicos inerentes às relações
humanas.
Assim, a Oficina Pedagógica buscou estimular o uso do cinema como método de
ensino que favoreça a aprendizagem de procedimentos de pesquisa, análise,
confrontação, interpretação e organização dos conhecimentos sociológicos, além de
expor de maneira didática a etapa teórica e a prática da experiência de refletir, articular,
organizar e desenvolver atividades com apoio de filmes e vídeos.
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A Oficina Pedagógica
A Oficina Pedagógica de Ciências Sociais estruturou-se em três etapas: uma
etapa de preparação, quando o grupo multidisciplinar elaborou a proposta da Oficina,
definindo a temática, estruturando a atividade e selecionando os filmes a serem exibidos
e o material didático de apoio; uma etapa, de leitura de textos e de discussão da temática
proposta; e finalmente uma etapa de aplicação dos conhecimentos apreendidos na
Oficina pelos licenciandos nas referidas escolas onde o estágio foi realizado.
Na etapa de preparação foram apresentados os objetivos da Oficina Pedagógica
aos alunos das duas turmas de Didática Especial e Prática de Ensino de Ciências
Sociais, em particular aqueles que realizaram seus estágios nas três escolas diretamente
envolvidas no projeto. Para tal, buscou-se envolver os alunos, relacionado a própria
temática da Oficina com a realidade que eles vinham vivenciando nas escolas,
reafirmando assim a necessidade do planejamento como instrumento indispensável na
prática pedagógica do professor.
A etapa posterior representou o ponto central e consistiu na discussão teóricoprática da Oficina. Este foi o momento em que a atividade reuniu todos os participantes,
permitindo uma reflexão mais sistemática sobre as questões ali colocadas. Orientados
pela leitura de dois textos (BRUNO & MARTINS, 2006; e SALES, 2005), os participantes
acompanharam uma palestra que a partir da contextualização das ciências sociais e de
sua relação com a imagem, em particular o cinema, pôde-se questionar as implicações
teóricas e metodológicas do uso deste recurso didático em sala de aula.
Foram selecionados três filmes 1 . A exibição levou os participantes a
compreenderem em que medida uma mesma mensagem pode ter percepções distintas
para o sujeito que a observa. Também foram discutidas as formas de avaliação e de
seleção do filme a ser exibido em sala de aula, assim como a relação entre o contexto de
produção do filme, sua linguagem e a realidade dos alunos do ensino médio.
Assim, as principais questões que nortearam as discussões foram: que critérios
devem ser levados em consideração na escolha do filme pelo professor? De que maneira
o professor deve conciliar o conteúdo programático do curso com a exibição de filmes?
Como planejar a preparação da turma para a exibição de um filme? Quais os materiais
didáticos necessários para introduzir a discussão sobre o filme? De que maneira os
conteúdos da sociologia podem ser trabalhados a partir da exibição do filme?
1
Os filmes exibidos foram os seguintes: Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade(1961); um
documentário produzido pela TV Maxambomba; e o documentário Boca do Lixo, de Eduardo Coutinho.
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O cinema é um instrumento político importante da modernidade, sendo necessária
uma constante reflexão crítica a respeito de sua crescente utilização. A imagem
cinematográfica é uma representação da vida social, não sendo, portanto uma mera
reprodução dos acontecimentos; ao contrário, ela constitui a reconstrução da realidade a
partir de um determinado contexto. A imagem, tratada na sua perspectiva em movimento
no cinema, é fruto de montagens e edições. Mesmo no caso de um documentário, o filme
é fruto do imaginário do autor, de seu olhar sobre certo tema. Possui, portanto sua
concepção do objeto a ser representado e de alguma maneira age sobre os imaginários
dos espectadores.
A imagem é compreendida por aquilo que nos mobiliza. Ela possibilita leituras
diferenciadas e o observador possui certa autonomia para interpretá-la. Os indivíduos
apreendem os mais variados conteúdos e significados através da exibição das imagens.
Essa relação que se estabelece entre o autor do filme e o espectador deve ser
problematizada quando a transportamos para a sala de aula. O filme significa uma forma
do imaginário do autor atuar sobre outros imaginários. Sobre essa questão, Burke (2004)
propunha que a imagem deve ser "interrogada" para que cheguemos a uma "evidência
aceitável". Assim, podemos indagar a respeito dos problemas relativos à percepção da
imagem, ou seja, de que maneira as imagens produzidas a partir de um determinado
grupo social ou cultural podem ser transmitidas para outros grupos.
A experiência da Oficina Pedagógica nas escolas
A etapa final da Oficina teve como objetivo ministrar uma aula de sociologia, no
âmbito do programa da disciplina, utilizando como recurso didático o cinema. A partir dos
conceitos básicos introduzidos na palestra, assim como a troca de experiências entre os
integrantes da Oficina, foi possível aplicar os conhecimentos apreendidos em uma
experiência pedagógica concreta, de modo a avaliar os limites e as possibilidades do uso
desse recurso no aprendizado da sociologia.
A atividade pedagógica organizada pelos licenciandos nas escolas demonstrou
como a Oficina, em todas as suas etapas, fez elevar qualitativamente o nível de
compreensão dos alunos de que a prática pedagógica do professor deve ser sistemática
e, como tal requer um planejamento de todas as etapas do processo de ensino e de
aprendizagem.
É interessante notar a diversidade das experiências entre as três escolas onde as
Oficinas foram realizadas. Tal diversidade deve-se entre outros a fatores sociais e
culturais dos alunos de cada uma das escolas, à prática pedagógica do professor, mas
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também à estrutura e à organização de cada uma delas e, um aspecto que nos interessa
particularmente, à relação de cada escola com a disciplina sociologia.
Os relatos a seguir atestam essa diversidade.
Colégio de Aplicação da UFRJ
O primeiro passo para a realização da atividade foi a seleção do filme. Para isso,
adotamos como critério principal a adequação do filme ao conteúdo programático da
disciplina que naquele momento indicava o Estado e os Regimes Políticos como os
conteúdos a serem trabalhados. O filme escolhido foi o documentário Entre Muros e
Favelas, de Susanne Dzeik, Kirsten Wagenschein e Marcio Jerônimo, cuja temática
central é a violência e a repressão policial no interior das favelas do Rio de Janeiro.
Inicialmente, foi feita uma breve introdução à temática, sugerindo à turma que
fizesse anotações e levantasse questões sobre o filme, uma vez que a proposta de
desdobramento daquela atividade era a realização de um debate na aula seguinte.
Ao final da aula, verificamos que a despeito de uma dispersão inicial dos alunos,
ao longo da exibição a maioria mostrou interesse pelo filme. Entretanto, em função do
tempo de aula ser limitado a 50 minutos, não foi possível exibir o filme integralmente, o
que nos obrigou a interromper e prosseguir na aula seguinte.
Na aula seguinte, optamos por iniciar a exibição imediatamente. Observamos que
a turma permaneceu atenta e ao final do filme, conforme havíamos proposto, fizemos um
debate com os alunos, em que decidimos atuar como mediadores, deixando os alunos
exporem suas idéias a respeito da problemática tratada no filme. Avaliamos que o debate
foi muito positivo, no sentido de que houve ampla participação dos alunos, inclusive
daqueles que não costumam se colocar e uma grande diversidade de opiniões.
Apesar da avaliação positiva, consideramos que nossa proposta para a Oficina
Pedagógica necessitava de um desdobramento final. Sendo assim, decidimos concluir as
discussões em uma terceira aula. Nossa proposta foi a de condensar tudo o que havia
sido visto e debatido, durante e após o filme, em uma discussão direcionada. Com isso,
nosso objetivo também foi o de fornecer alguns elementos que pudessem dar
continuidade ao programa da disciplina. Iniciamos uma discussão sobre quais seriam os
direitos e os deveres dos cidadãos e as obrigações do Estado para com eles,
relacionando com o tema do documentário.
Instituto de Educação
Para a realização da atividade no ISERJ, foi selecionado o documentário João
Guimarães Rosa: o Mágico do Reino das Palavras. A escolha foi motivada pelo fato de
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que os alunos haviam participado de uma atividade pedagógica envolvendo as disciplinas
de sociologia e literatura.
Outro motivo foi a adequação do filme à temática cultura que no momento da
Oficina era o conteúdo programático que estava sendo trabalhado. Na avaliação da
equipe, a obra de João Guimarães Rosa era apropriada, uma vez que em um dos seus
livros de maior destaque, Grande Sertão: Veredas, o autor aborda o encontro da cultura
sertaneja brasileira com a cultura erudita.
No romance, além de uma vasta descrição da interação do homem sertanejo com
a paisagem natural, seus costumes, valores e formas de organização da vida social,
pertencentes a esse universo do sertão/interior brasileiro, há, também, a construção de
uma linguagem própria, que traduz de forma rica, detalhes que permeiam a cultura de um
grupo social, constituindo a essência de sua identidade.
A história de Grande: Sertão Veredas é narrada por um jagunço sertanejo,
analfabeto, chamado Riobaldo. Este conta seus “causos”, apresentando sua visão de
mundo para um interlocutor – que não apresenta falas no romance – mas, ficando
subentendido que, provavelmente, veio de alguma cidade grande e parece ser um
homem muito letrado, que teve acesso aos estudos.
O autor realiza, então, o que alguns estudiosos de sua obra chamam de
transculturalidade, elemento que é citado como uma característica rara entre os
escritores latino-americanos; ou seja, Guimarães Rosa relata o encontro entre diferentes
culturas, mas o faz mediante uma deshierarquização entre essas culturas. Como no
exemplo acima, o escritor dá o “saber” a quem é analfabeto - pertencente a uma cultura
dita popular - e a “escuta/aprendizado” a quem veio de uma cultura tida como erudita ou
de elite. Há, então, uma espécie de intercâmbio entre culturas, produzindo certa idéia de
relativização no leitor e, por conseguinte, uma deshierarquização entre culturas mais ou
menos valorizadas socialmente.
Foram realizadas duas reuniões de planejamento e desde o início deparamo-nos
com dois desafios. Estávamos lidando com um tema amplo e controverso como é o tema
cultura. Sendo assim, o desafio que se colocou era o de saber como trabalhar com o
conceito, tendo em vista uma vasta bibliografia e diferentes enfoques. Além disso, era
necessário selecionar os pontos a serem trabalhados e adequá-los ao tempo disponível
em sala de aula, bem como à linguagem apropriada aos alunos. Outro desafio era o da
própria utilização de uma mídia no contexto da aula, com a preocupação de inseri-la
como um recurso a mais para a melhor compreensão do conceito. Mas, esta mídia que
seria o documentário sobre a obra do escritor Guimarães Rosa, trazia ainda um outro
desafio que era o de trabalhar com um novo recorte que consiste na abordagem das
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relações entre Ciências Sociais e Literatura. Não tínhamos como não investigar sobre a
teoria produzida pelas Ciências Sociais, através do conceito de cultura, tendo por objeto
de estudo as artes, sobretudo a literatura.
Na segunda reunião planejamos a aula: definição do tempo de exposição do
conteúdo; forma de apresentação do documentário; dinâmicas de discussão e confecção
de um instrumento de avaliação da atividade. Elencamos dez perguntas diversificadas
sobre o tema da aula. Todas as questões foram elaboradas, tendo em vista as seguintes
preocupações: a linguagem dos alunos; a provocação de uma reflexão teórica com base
em fatos da realidade; a pertinência do conteúdo com o que deveria ser exposto em aula
e/ou no documentário apresentado.
Foram definidos o roteiro da aula, assim como as questões teóricas a serem
apresentadas. Percebemos como estamos permeados pela linguagem acadêmica com
que fomos socializados na graduação. Era difícil falar de conceitos ou fatos sociais sem
que exigíssemos uma pré-noção dos nossos alunos não socializados na “Academia”.
Bem como, sentíamos dificuldades também em acessar suas gírias e hábitos culturais
ligados aos seus grupos identitários.
Como dissemos, nosso objetivo com a escolha do documentário foi utilizá-lo como
recurso para problematizar o conceito de cultura. Isso foi feito por meio de dez questões
formuladas e distribuídas aos alunos. Cada aluno recebeu uma questão e, com base na
aula, no filme e na discussão subseqüente, tinha que respondê-la por escrito. Fizemos
uma conexão com o conteúdo trabalhado anteriormente pela professora regente e
tentamos problematizar e relacionar as questões teóricas com a realidade, antes da
exibição do documentário. Ao final, fizemos a discussão, que inicialmente foi livre e
posteriormente passou a ser orientada pelas questões distribuídas no início da aula. A
avaliação das respostas dos alunos nos permitiu perceber que eles conseguiram
apreender
satisfatoriamente
os
apontamentos
a
respeito
do
tema
cultura
e,
principalmente, refletir a respeito do que havia sido proposto.
Colégio Estadual Souza Aguiar
Para a realização da Oficina no CESA, os licenciandos, em conjunto com a
professora regente de sociologia optaram pela exibição de dois filmes: Uolace e João
Victor - quarto episódio da série Cidade dos Homens exibida pela Rede Globo e
Extremos: flagrantes de um mundo desigual - um conjunto de slides criados no ambiente
da Internet para ser exibida nas telas de computadores.
O episódio Uólace e João Victor trata da desigualdade social entre os dois
personagens. Por um lado, Uólace, menor de idade, classe baixa, mora em uma favela,
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desconhece o pai e a mãe passa a maior parte do tempo fora de casa trabalhando. O
menino freqüenta a escola pública e tem um círculo de amizades dentro e fora da favela
em que mora. O outro personagem, João Victor, também é menor de idade, classe média
e filho de pais divorciados. Mora com a mãe que está sempre presente e é aluno de uma
escola particular. Uólace tem um círculo de amizades que inclui pessoas de classes mais
altas.
Apesar dos dois personagens pertencerem a classes sociais distintas, ambos
convivem com problemas relacionados ao seu universo afetivo e emocional. Uólace sente
a ausência de um pai como alguém que completaria o seu ideal de construção familiar e
por isso necessita dos cuidados da mãe que é obrigada a se ausentar longos dias de
casa para trabalhar. Por sua vez, João Victor despreza a figura do pai por não encontrar
nele qualquer significado para a construção familiar e coloca para si a tarefa de dar
atenção à mãe, que é vista por ele como uma pessoa sempre presente. O menino mais
pobre sente a falta da comida e o outro reclama da repetição do mesmo prato de comida
em casa. Para ambos, os bens de consumo amplamente divulgados na mídia são objetos
de desejos, do Hambúrguer ao tênis, passando pelo aparelho de Vídeo Game.
Quando os dois meninos se cruzam pelas ruas há um olhar mútuo de desprezo
racial e social. Não há nenhuma manifestação verbal, mas os dois manifestam seus
preconceitos apenas no plano das idéias e em alguns momentos, quando o medo (por
parte de João Victor) e a raiva (por parte de Uólace) chegam ao extremo, a fuga torna-se
a única saída, supondo-se que um fosse “atacar” o outro.
Antes do início da exibição, foi lido um roteiro de perguntas, dados os
esclarecimentos dos enunciados e a professora regente fez um breve comentário sobre o
filme. Solicitamos aos alunos que primeiramente respondessem as perguntas oralmente
para em seguida responder por escrito. Nas aulas seguintes, as respostas foram
recolhidas e o episódio foi tomado como modelo para recorrer a exemplificações em sala
e trabalhar os conteúdos da disciplina.
Os slides animados Extremos: flagrantes de um mundo desigual são transmitidos
por meio de correio eletrônico. Nessa apresentação digitalizada, o autor utiliza-se de um
único fundo musical para todas as telas. São cerca de 30 slides, cada um com uma ou
duas fotos legendadas, contendo textos de comentários do autor junto a cada imagem.
Os slides tratam da desigualdade social no mundo, evidenciando as diferenças entre os
objetos de consumo das classes mais altas em comparação aos objetos simples de
outras classes sociais. Os slides retratam a situação de fome e miséria em oposição à
luxúria e ao desperdício. Não há diálogos ao longo da apresentação, exigindo atenção na
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leitura dos textos, para identificar o problema ou o aspecto social que o autor quis
demonstrar.
Nessa exibição optamos por não apresentar nenhum roteiro de perguntas,
buscando estimular o diálogo entre os alunos, de modo que eles tivessem a iniciativa de
formular as questões. Posteriormente, a professora regente orientou a discussão
tomando por base as imagens apresentadas, levando os alunos a identificar os
conteúdos que já haviam sido trabalhados em sala de aula.
Nossa avaliação da atividade foi positiva. No caso do episódio Uólace e João
Victor, verificamos que o filme foi bem aceito, em função da identificação dos alunos com
a história do filme como se fosse a sua própria história de vida. Essa identificação
também se deu por meio da linguagem dos personagens e da trilha musical do filme.
Avaliamos também que a elaboração do roteiro de perguntas e a análise de cada
personagem da trama contribuíram para o resultado positivo da atividade.
Ao contrário deste, avaliamos que a exibição dos slides Extremos: flagrantes de
um mundo desigual não obteve a mesma aceitação por parte dos alunos. Observamos
que embora as imagens destacassem o contraste entre pobreza e riqueza, os slides
chamaram a atenção dos alunos pelas imagens que representavam a riqueza. Neste
caso eles limitaram-se a comentar seu deslumbramento com os objetos de consumo das
classes sociais mais altas. Uma das hipóteses que pode explicar as falhas detectadas
nessa atividade é o fato de, ao contrário do primeiro filme, não termos elaborado um
roteiro de perguntas que poderia ter motivado a turma e dado uma direção para a
discussão com os alunos.
Conclusões
São muitas as questões que se colocam durante o planejamento de uma atividade
que envolva a exibição de imagens, em particular o cinema. Entre elas, cabe destacar o
conflito entre o “gosto” do aluno e o do professor; a compatibilidade entre o tempo do
filme e o da aula; o cuidado com cenas de sexo, violência e drogas; o acesso a locadoras
que tenham um bom acervo; o custo do aluguel de fitas ou DVDs; e que tipo de avaliação
fazer.
O que parece ter ficado como mais importante da Oficina Pedagógica é a
importância de um planejamento bem feito para que a utilização de filmes nas aulas de
Sociologia não se limite apenas a uma atividade lúdica ou como forma de apresentar aos
alunos uma mídia que nem sempre eles têm acesso. Os filmes podem funcionar como
uma ferramenta realmente eficaz para trabalhar conceitos e conteúdos do programa de
Sociologia nas escolas.
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É importante ressaltar também que todo o processo de preparação e de
realização da atividade nos fez concluir que ao selecionarmos um filme, teremos que
levar em consideração a formação do aluno, sua cultura e trajetória, de modo a tirar o
maior proveito dessa ferramenta didática que é o cinema.
A Oficina teve um papel importante em sua proposição de problematizar e superar
a idéia de naturalidade com que as imagens são tratadas diante de uma tela de projeção.
Nesse sentido, como professores de Sociologia, temos que analisar todos esses
aspectos ao assistirmos aos filmes, antes de exibi-los, almejando que o aluno interprete e
dialogue com o enredo.
Avaliamos que experiências pedagógicas como foi a Oficina Pedagógica de
Ciências Sociais podem abrir novas possibilidades par a Prática de Ensino, contribuindo
com a formação inicial dos futuros professores de Sociologia.
Referências bibliográficas
•
ALVES, Giovanni. Trabalho e cinema: o mundo do trabalho através do cinema.
Londrina: Práxis, 2006.
•
BRUNO, Luiz Alberto e MARTINS, Ana Lucia Lucas. Imagem e prática
pedagógica: usos de filmes em aulas de História. Mimeo, 2006.
•
BURKE, P. Testemunha Ocular . Bauru, S. P. EDUSC, 2004.
•
SALLES, J. Moreira- “A dificuldade do documentário”. In: O Imaginário e o Poético
nas Ciências Sociais . Ed. EDUSC, 2005.
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