A Cidade do Rio de Janeiro e suas representações na/da paisagem: beleza e medo Autores: Marcos Vinicius Vieira Mestrando pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro Estrada do Piai 5873 quadra 7 lote 12, bairro: Sepetiba, CEP: 23.530-610 Cidade: Rio de Janeiro Estado: Rio de Janeiro Fone/FAX: 2417-6692 E.mail: [email protected] Rachel de Almeida Moura Graduanda pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro Rua Curupaiti, 347 apto 414, bairro:Engenho Novo, CEP: 20735-320 Cidade: Rio de Janeiro, Estado: Rio de Janeiro Fone/FAX: 3822-2794 E.mail: [email protected] Resumo O presente trabalho tem o objetivo de analisar como a apropriação mental e material da paisagem carioca, pela sociedade é capaz de participar do processo de construção da memória social, a partir de duas representações: uma cidade maravilhosa e uma cidade do medo. Tal discussão visa ainda compreender como a idéia da natureza carioca está presente nestas duas representações de tal forma que ajuda na construção da identidade dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Nesse sentido, os símbolos contidos na paisagem urbana, construídos ao longo da história da ocupação da cidade estão presentes na memória coletiva e podem explicar o atual uso do espaço na cidade. Palavras-chave: rio de janeiro, paisagem, beleza urbana, medo Abstract This paper aims at analyzing the role the mental and material appropriation of Rio de Janeiro’s landscape by society plays in building a social memory by means of two representations of the city: the one regarding it a city of wonder and that considering it a city of fright. We seek to understand how the image of Rio de Janeiro’s nature present in both representations helps build Rio de Janeiro’s inhabitants’ identity. In this manner symbols contained in the urban landscape, formed throughout the history of urban population, are found in the city’s collective memory and may account for the present use of its area. Key words: Rio de Janeiro, landscape, urban beauty, fright Introdução O presente trabalho busca compreender a construção social da cidade maravilhosa, e da cidade do medo. Ambas presentes na mesma cidade, o Rio de Janeiro, são identificadas por seus habitantes a partir da paisagem. Procuramos assim entender os símbolos contidos nela pelo víeis da geografia cultural, propondo uma leitura da mesma através de sua cultura, história e natureza. Na paisagem as sociedades imprimem suas marcas, sejam elas quais forem. Num estudo clássico, Carl Ortwin Sauer (1889-1975) assim a definiu como resultado da ação da cultura, ao longo do tempo, sobre a paisagem natural” (SAUER, 1998). Sendo assim, tanto o estudo da violência no contexto urbano quanto o estudo da estética interessa à geografia por apresentar construções no espaço urbano, sejam elas de condomínios fechados, de bolsões de pobreza, como as favelas, ou de uma natureza exuberante. Se o objecto da geografia são os fenômenos que existem à superfície da Terra, eles apenas lhe interessam na medida em que ocupam espaço, isto é, não são os fenómenos em si mesmos que lhe interessam (eles são, freqüentemente, objectos de estudo de várias ciências), mas sim a sua expressão geográfica - o padrão da sua distribuição no espaço (FERREIRA; SIMÕES, 1993, p. 20). Desta forma, este trabalho busca contribuir para o entendimento do uso do espaço na cidade do Rio de Janeiro a partir dos sentimentos, simbolismo e memória que seus habitantes fazem da paisagem. O conceito de Paisagem Diversas acepções se fizeram sobre o conceito de paisagem ao longo da história do pensamento geográfico. No presente estudo trabalhamos este conceito advindo do ramo da ciência geográfica conhecido como nova geografia cultural; abordagem que busca entender a experiência cultural humana e como esta modela o meio-ambiente, associando a dialética das relações sociais no espaço “ao papel complexo das paisagens, ao mesmo tempo suporte e matrizes das culturas” (CLAVAL, 2001, p.41). Nesse sentido consideramos que mais do que um campo de visibilidade, a paisagem é um campo de significação, o que permite a geografia a explorar estudos, através do seu víeis cultural, capazes de decodificar o imaginário em nosso tempo. Desta forma, o espaço citadino carregado de sentido é revelado pela paisagem.que também pode ser usada como referência para a memória de um povo, pois nela estão registrados as tensões, sucessos e fracassos da história de uma sociedade. A fim de perceber o caráter subjetivo presente nas paisagens cariocas dividimos neste estudo duas grandes idéias, imagens, representações sobre o Rio de Janeiro, de uma cidade maravilhosa e de uma cidade do medo, as quais correspondem a um modo de ver e se relacionar com o meio-ambiente, acreditamos, portanto, que o espírito de ser carioca pode influir sobre a sociedade. Para isso, utilizamos a concepção de paisagem oferecida pela geografia alemã, em que a partir de uma gama de interpretações e de utilizações mais ampla que nas demais escolas geográficas temos a compreensão da paisagem como um complexo natural total, representado de forma integrada, pela natureza e pelas ações humanas. A paisagem alemã – Landschaft – corresponde à inter-relação objetiva e subjetiva da paisagem. Nela se juntam os campos físico, biológico e espiritual do estudo geográfico e por essa razão, é, ao nosso entender, o mais correlato à análise das intricadas relações entre o morador da cidade do Rio de Janeiro e o seu meio físico; pois, as paisagens são partes integrantes do “ser carioca”, forte elemento de identidade de seus habitantes, portanto, as paisagens podem ser entendidas como “quadros sociais da memória” (SÁ, 2005). A cidade e suas representações Desde o período colonial, os viajantes naturalistas já se impressionavam com espetáculo da natureza do Rio de Janeiro (Lessa, 2000). Na confecção de um inventário do mundo tropical estavam sempre registrados seus encantamentos. Richard Flecknoe, em 1648, registrou em seu diário de bordo: “[...] ao avançarmos para além do forte que defende a baía, deparamos com a mais sedutora paisagem do mundo: um lago, com umas 20 milhas de extensão, todo salpicado de ilhas verdejantes de diversos tamanhos.” (FRANÇA, 1999, p.35) Entre inúmeros registros, um em especial chama atenção por sua atualidade. Esse texto representa mais do que uma narração impressionada da natureza a partir da observação de um viajante. Em 1792, Lorde Macarteney coloca toda a importância que a natureza do Rio de Janeiro tem e que virá a ter para o processo de colonização e desenvolvimento da região. Independentemente do destino que o Rio de Janeiro venha a ter, graças à natureza, essa cidade será sempre digna de atenção. Podese dizer que os seus contornos estão fortemente desenhados. Seu porto, suas montanhas, seus bosques e seus rochedos são grandes e majestosos. Suas produções crescem com vigor e a frescura da juventude, nada aí é pobre, árido ou decadente (FRANÇA, 1999, p.211) Independentemente do destino que o Rio de Janeiro venha a ter, a natureza desta cidade está sempre presente na sua organização espacial, pois durante todos os anos de colonização portuguesa e influência francesa, o povo carioca conviveu com a beleza de sua paisagem e com a dificuldade de drenar pântanos, abastecer a cidade com água, vencer serras para penetrar no interior do Estado e encontrar novos caminhos para o transporte de ouro das Minas Gerais, entre outros fatores. A natureza encontra-se presente ainda no reconhecimento de seus habitantes, resultando, ao longo da história, em duas grandes representações sociais. A primeira baseiase na paisagem como um cenário que revela a beleza urbana. Em contrapartida, a segunda representação traz a paisagem como aquela que é motivo de medo, pois encerra em si a memória da violência, fenômeno este presente em todas as metrópoles no mundo. Somado a sua expressiva beleza natural, no início do século XX, a cidade do Rio de Janeiro passa a ter necessidade em adequar sua forma urbana a criação, concentração e acumulação do capital, sendo sede do governo federal, se encontrava no meio das transformações capitalistas, e em pleno desenvolvimento econômico, devido à exportação do café. Precisava assim ser um símbolo nacional, no qual seria eliminada toda ligação com a cidade colonial e escravocrata. Como vitrine nacional de um ideário moderno, onde não há lugar para pestes, ruas estreitas nem sujeiras e sim para a ostentação da riqueza e do poder de uma burguesia emergente articulou-se grandes reformas urbanísticas na cidade a fim de fazer da capital porto de entrada não só de divisas, mas também de cultura, procurando ainda mais embelezar e valorizar os espaços citadinos. Assim, criam-se novos símbolos que representam mais uma vez a beleza urbana. Na administração do prefeito Pereira Passos (1902-1906) inicia-se diversas obras, entre elas, destacam-se: alargamento das principais artérias da cidade, calçamento de várias ruas do centro, embelezamento de praças e jardins. A reforma urbana ainda canalizou alguns rios, demoliu cortiços, realizou construções como a Vista Chinesa, Pavilhão do Campo de São Cristóvão, Teatro Municipal, Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, além de desapropriar casas e transferir a população pobre para o subúrbio da cidade (ABREU, 1997). É nessa cidade cosmopolita que se inicia a construção de dois grandes e tradicionais cartões postais que oferecem uma visão panorâmica do Rio de Janeiro, exibindo sua natureza singular: o Pão de açúcar, que desde os primórdios da colonização é um marco natural na entrada da baía da Guanabara no qual servia de referência para os navegadores. Sua paisagem se tornou verdadeiramente marca registrada com a construção do teleférico, em 1912, que sobe e desce os morros com uma vista que exerce um fascínio nos cariocas e visitantes. E, o monumento do Cristo Redentor sob a montanha do Corcovado, inaugurado em 1931. Construído com intenções religiosas tornou-se um símbolo da cidade e um grande atrativo turístico por possuir uma vista deslumbrante de todos os ângulos da cidade. Desta forma, se reafirma no imaginário social uma representação da natureza que ressalta o orgulho do carioca por sua beleza ímpar, ancorado ainda na idéia do Rio de Janeiro ser uma cidade moderna aberta para o mundo. É com a publicação do livro Rio: La Ville Merveilleuse, em 1912, de Jeanne Catulle Mendes que o título de Cidade Maravilhosa passa a tomar forma para a população. Tal ideário se consolidará com a música de André Filho, lançada em 1934 “Cidade Maravilhosa”, ainda hoje hino oficial da cidade, cujo refrão diz: “Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa coração do meu Brasil”. Outra paisagem que contribui para a representação de uma bela cidade é a praia. Alain Corbin, em seu livro “O território do Vazio” escreve como se deu à construção do imaginário social sobre a praia, que deixou de ser um espaço de medo e repulsa e passou a ser representada pelo fresco do maravilhamento, resultando numa invenção do seu uso. Nesse sentido, ao se referir ao Rio de Janeiro e suas praias o autor nos diz que é histórico e notório que a imagem exótica que a cidade do Rio de Janeiro passa para os indivíduos faz dela a “cidade maravilhosa” (Corbin, 1989). Além disso, para algumas classes, morar perto da praia significa status, riqueza, acesso à infra-estrutura urbana e exercer o ser carioca; para outras, que porventura possam estar disputando o mesmo espaço, este significa o meio pelo qual irão garantir sua subsistência. Vale destacar que o uso da praia ao mesmo tempo em que ocorre a interação entre as diversas classes transforma-se numa paisagem do medo pelos sucessivos arrastões promovidos, segundo as vítimas e reforçado pela mídia, como uma realização dos moradores das favelas. Isso altera os sentidos presentes na paisagem, anteriormente, de beleza e lazer para o medo, ansiedade e terror. Por fim, a idéia de uma cidade maravilhosa continua sendo alimentada pela mídia, principalmente na produção de telenovelas cujas histórias, em sua maioria, se passam no espaço carioca onde se divulga a cultura, em nível nacional, bem como suas memoráveis paisagens, e ainda pelas artes, através do cinema nacional e da música. A bossa nova, o samba, o Hip Hop e diversos outros ritmos musicais exaltam e reproduzem o mito da beleza na cidade do Rio de Janeiro. Ícone máximo é a paisagem do Pão de açúcar, citada anteriormente, que, segundo Mello (2003, p.67) “o povo e a mídia conferem um status de tal maneira ao Pão de Açúcar, que este passou a ser um símbolo compartilhado com orgulho pela coletividade carioca”. Todo esse trabalho realizado pela mídia e pela arte influencia na representação da natureza carioca tanto no Brasil quanto no mundo, ajudando a formar uma identidade do habitante que vivencia a cidade no cotidiano de uma metrópole, tendo por ela um sentimento de pertencimento baseado no uso de um espaço em sua beleza urbana. Além desta representação, a mesma cidade possui outros símbolos, relações e estruturas que dão forma e molde a representação de uma paisagem do medo. Assim, a violência urbana no Rio de Janeiro tem produzido em seus moradores, de uma maneira geral, uma terrível sensação de medo e de mudança de hábitos tão cariocas como ficar nas áreas de lazer até mais tarde, ter de assistir sessões de cinema ou peças teatrais iniciarem-se mais cedo, usar dos túneis e transportes de massa cada vez mais inseguros, e ter de caminhar apressadamente por calçadas vazias em uma cidade tão acostumada a ter nas calçadas extensões da sala. O cidadão está se transformando em um prisioneiro maquinal em sua residência. A ação, portanto, está associada diretamente a representação desses espaços tanto para os que transitam, como para aqueles que os usam diretamente como seu palco de vivências. A gênese do medo está associada, de modo geral, às circunstâncias exteriores, ambientais, englobando diferentes modos de ameaças. Assim, a paisagem, ao apresentar-se tanto como ‘construção mental’ e ‘entidade física mensurável’, pode transmutar-se em um cenário detonador de estados psicológicos variados, oscilantes entre as manifestações de sentimentos topofílicos e/ou topofóbicos, entre os símbolos de cosmos e de caos (GUIMARÃES, 2003, p.54-55). A percepção da violência, segundo Zuenir Ventura em “Cidade Partida” iniciou-se a partir de 1953, obviamente não com a força que o termo exprime na atualidade, até porque era um outro tempo assim como outra maneira de se observar o espaço. Nesse tempo, as representações simbólicas que impelissem o carioca ao medo, em pontos específicos da cidade, como as favelas não se faziam presentes, pois não era reconhecida como reduto do mal e da marginalidade e sim romantizada (LESSA, 2000). O crescimento urbano da então capital da república viu, ao longo do século XX acentuar-se a pobreza, a ocupação desordenada do espaço urbano e os neocortiços em direção aos subúrbios ou a costa. Então a favela começa a ser vista como foco de doenças, preguiçosos, vadios e problemas. Era o início de um processo de “satanização” do morador e do lugar. Uma das propostas encontradas para resolução desse problema foi a remoção, que embora se justificasse em aspectos como da insegurança da moradia, não vingou no Rio, até porque poderia esfacelar os processos de subsistência dessa população. Novamente Lessa (2000): As remoções reduziram muito pouco o ritmo de crescimento das favelas. Em 1987, o Iplan-Rio identificou 211 mil residências em favelas e 109 mil lotes irregulares. Isto está associado ao inequívoco empobrecimento da população carioca, durante a `década perdida`. Entre 1979 e 1985 a porcentagem da população economicamente ativa com um salário mínimo ou menos cresceu de 21,5% para 32,3% da população do Rio. Em 1991 o Rio teria 570 favelas, com 883 mil moradores. Nesta ocasião 318 mil estaria vivendo nos loteamentos irregulares. O ritmo de favelização tornou-se explosivo: surgiam quatro novas favelas por mês. Em abril de 1999 o Iplan-Rio estimou a existência de 604 favelas, 783 loteamentos irregulares ou clandestinos e quinhentos e oito conjuntos habitacionais populares. (LESSA, 2000, p.312-313). A dinâmica das relações entre os diversos agentes do espaço urbano tem produzido uma complexa rede de leituras espaciais e de formas; sentimentos e símbolos, memória e cultura. O espaço urbano é o meio pelo qual materializam as características acima levantadas. A violência da autosegregação e opulência de condomínios de luxo e o crescimento da “indústria” da segurança privada e milícias particulares têm contribuído na gênese de formas superiores de violência. Vale a pena ressaltar que são os moradores dessas áreas de horror, os pequenos prestadores de serviços. Por outro lado, na topografia da cidade, os morros imediatamente são satanizados como lugares do mal, e que no senso comum deveriam ser exterminados com os moradores. Lessa (2000) faz um importante comentário: A proliferação de ‘balas perdidas’, a violência explícita da grande metrópole, episódios como os ‘arrastões’ da praia em 1992, o barulho e os conflitos associados aos bailes funk, tudo isso converge para a neoestigmatização dos pobres, especialmente os favelados. Pela histeria e pelas ideologias de fácil assimilação tende-se voltar à idéia de que o pecado não está no crime, mas sim no ser membro de uma etnia, de um grupo social ou de lugar de moradia etc. No nazismo, as pessoas foram culpadas pelo que eram, e não pelo que faziam. A violência no espancar homossexuais e queimar mendigos é a manifestação histérica e extrema de um ascenso ideológico de extrema direita. A criminalização da pobreza pode ser o alimento para estimular esta onda histérica.(LESSA, 2000, p.329-330). Portanto, torna-se uma brutalidade associar à favela a violência urbana, pois se tem visto uma fatia considerável das classes médias sendo recrutadas pelo crime organizado. A diferença está no fato da desproteção que a favela tem das autoridades públicas e do acesso aos serviços urbanos. O ilícito aparece então muito mais como opção pela falta de perspectivas da juventude que por ser atrativo em sim mesmo. Características lamentáveis devem ser destacadas prosperando na sociedade, como a banalização da vida e da morte e naturalização do crime. A favela então é vista como terra da desordem e do medo. A mídia tem encontrado um vasto campo para exploração do tema, principalmente no Rio de Janeiro, que por ser cartão postal do Brasil encerra grande repercussão. O curioso é observar que muitos turistas em visita ao Rio, adquirem pacotes com visitas as favelas. A paisagem carioca é confeccionada com fragmentos que ora se associam, ora se repelem, porém não completamente em função das relações de troca e dependência que existem entre essas partes. O que tem ficado lamentavelmente latente é a falta de integração dos poderes públicos em todas as esferas, assim como de políticas públicas que integrem as favelas, com toda a rede de serviços públicos necessários e de direito aos moradores. Yi-Fu Tuan (2005) destaca que desde o século XIX a medicina justificava as favelas como pontos de doenças, pestes, etc. Não demorou muito, portanto, para a importação dessa idéia, para o Brasil. Esse discurso, facilmente aceito e reforçado pelas elites tende a fazer com que os problemas mais profundos sejam relativizados e jogados para um segundo plano. Vários exemplos podem ser citados como garantias de assistência social, distribuição de renda, acesso à educação, saúde, habitação, etc. Uma responsabilidade é associada àqueles que na verdade acabam por serem vítimas de tantas formas de violência. É ingênuo conceber violência relacionada a agressões físicas como uma expressão máxima desse fenômeno, pois se uma política é exercida de maneira a levar as pessoas à morte e ao sofrimento ou não assistir com o mínimo necessário às faixas etárias de acordo com suas necessidades, também é brutal! A representação da força para a população favelada é a conturbada relação com a polícia e o uso da força e ações diferenciadas em relação às áreas não faveladas. Entre muitos jovens então é estereotipada como composta por “bandidos” e os chefes dos morros como os “mocinhos”. As truculências nas ações e nas abordagens insistem. O não planejamento do espaço nas favelas também propiciou a entrada do tráfico de drogas e uma relação difícil com o poder público e com os moradores. A topografia muito contribuiu nessa instalação, pois acaba funcionando como que uma fortaleza, vigiada e com ampla visão da entrada do “inimigo”. Nos estreitos espaços de circulação um contingente circula inseguro, pois a ameaça de invasão de um grupo rival ou da polícia pode acontecer a qualquer momento. O que tem se acentuado é a expansão desse medo cada vez mais para as áreas vizinhas as favelas, pois essa continua em crescendo, e muitos dos bairros afetados são aqueles onde residem as classes mais abastadas da cidade,ou em vias de grande circulação por onde precisam passar. Tem sido observado uma “favelização” crescente acompanhada de um acentuado processo de pauperização da população carioca sendo urgente a necessidade de importantes ajustes sociais, políticos e econômicos. Conclusão Desde sua fundação, a cidade do Rio de Janeiro e sua marcha urbana foi orientada pela heterogênea topografia e planícies inundadas, logo o desejo e busca do domínio da natureza, de maneira peculiar, caminha com a história dessa cidade. E, de acordo com o conhecimento científico e grupos dominantes de cada período, intervenções urbanas foram confeccionadas. Isso se justifica no fato dos núcleos urbanos, inicialmente mais distantes das praias e em lugares altos para os mais abastados e mais tarde dirigindo-se às praias da Zona Sul, restando aos pobres dependentes da prestação de serviços ocuparem as áreas que ao capital imobiliário não interessavam. O problema foi o desenvolvimento de ideologias que associavam a pobreza as mazelas da sociedade, noção ainda presente e de certa maneira confortável para as elites. As promoções de intervenções urbanas “limpando” a área central da cidade dos pobres, expulsando-os para o entorno, na escassez de transportes, até que com o progresso da técnica a ferrovia conduziu-os aos subúrbios cada vez mais distantes. Importante a ser destacado também são os pesados investimentos que normalmente precisaram e assim ainda permanecem para “vencer” as barreiras naturais na cidade. Curioso, portanto, é que em muitas delas, a população pobre encontra-se presente, e tem resistido durante a longa história de tentativas de remoção, na luta pelo espaço e sua sobrevivência. Referências Bibliográficas ABREU, Maurício de Almeida. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO, 1997. CLAVAL, Paul. O papel da Nova Geografia Cultural na compreensão da ação humana. In: CORREA, R. Lobato & ROSENDAHL, Zeny (Org.). Matrizes da Geografia Cultural. Rio de Janeiro, 2001. Eduerj. SAUER, Carl O. A Morfologia da Paisagem. In: CORREA, R. Lobato & ROSENDAHL, Zeny (Org.). Paisagem, tempo e cultura. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998. pp. 12-74. CORBIN, Alain. O território do Vazio: A praia e o imaginário ocidental. São Paulo, 1989. Ed. Companhia das Letras. FRANÇA. Jean M. Carvalho (org). Visões do Rio de Janeiro Colonial: antologia de textos, 15311800. Eduerj: J. Olympio, 1999. LAMEGO, Alberto Ribeiro. O homem e a Guanabara. Rio de Janeiro, 1948. LESSA, Carlos. 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