O MERCADO DE EXPORTAÇÃO DE SOJA E OS PORTOS BRASILEIROS JOSÉ GONÇALVES MOREIRA NETO Especialista em Regulação de Serviços de Transportes Aquaviários da ANTAQ, Graduado em Estatística (1999) pela Universidade Federal de Minas Gerais, Pós-Graduado em Gestão Pública pela Faculdade Fortium. RESUMO: Esse artigo aborda o mercado de exportação de soja brasileira e os impactos da recente expansão da produção desse grão nos principais portos brasileiros utilizados para escoamento da produção. Traçou-se um histórico da evolução do produto nas últimas décadas, bem como se identificou as principais regiões produtoras e portos utilizados para exportação do produto. Mostrou-se, pelo estudo, um incremento significativo no tempo mediano de espera para atracação nos principais portos utilizados para exportação da soja em 2013, com destaque negativo para o Porto de Paranaguá, indicando uma saturação na capacidade operacional das instalações portuárias localizadas no sul e sudeste brasileiro para esse tipo de carga. PALAVRAS-CHAVE: Portos, Logística, Exportação, Soja ABSTRACT: This article discusses the export market for the Brazilian soybean and the impacts of the recent expansion of this grain production in major Brazilian ports used for the production shipment. A historical evolution of the product in recent years was elaborated and the main producing regions and ports used to export the product were identified. It was shown, by this study, a significant increase in the median waiting time for berthing in the main ports used to export the Brazilian soybean in 2013, with negative featured of the Port of Paranagua, indicating a saturation of the operational capacity of the port facilities in southern and southeastern of Brazil for that kind of load. KEYWORDS: Ports; Logistic, Exportation, Soybeans. SUMÁRIO: Introdução; 1 Principais regiões produtoras; 2 Portos utilizados para o escoamento; 3 Indicadores operacionais dos principais portos; 4 Considerações finais. INTRODUÇÃO O PIB do agronegócio tem apresentado sucessivos incrementos e, invariavelmente, se destacado no cenário atual de baixo crescimento econômico. Nesse contexto, a produção e exportação de soja em grãos no Brasil têm crescido vertiginosamente ao longo dos últimos anos, contribuindo significativamente para o superávit da balança comercial brasileira e para a geração de divisas para o país. Segundo Aliotte (2007), a cultura da soja passou por dois importantes períodos de expansão no Brasil. O primeiro, compreendido entre as décadas de 60 e 90 e o segundo após a abertura econômica a partir dos anos 90. O primeiro grande ciclo de expansão contou com o desenvolvimento tecnológico experimentado no processo de produção da soja, que permitiu além do incremento constante da produtividade (t/ha), também a adaptação da cultura em diversas condições edafobioclimáticas, gerando ganhos territoriais ao longo do tempo. O cultivo de soja expandiu-se para além da região sul (que a partir de 1950, passou a apresentar resultados favoráveis no seu plantio como planta forrageira no cultivo posterior ao do trigo), avançando em áreas conhecidas como de “Fronteira Agrícola” (Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás). Nesse período, a produção de soja passou de 206 mil toneladas em 1960 para quase 20 milhões de toneladas em 1990 (tabela 1). Tabela1 – Evolução da Produção de Soja de 1941 a 1990 Ano Área (ha) 1941 1949 1960 1969 1979 1990 640 28.000 171.440 906.073 8.800.000 11.584.734 Produtividade Produção (t/ha) (t) 0,70 450 0,89 25.000 1,20 206.000 1,17 1.056.000 1,70 15.000.000 1,73 19.897.804 Fonte: EMBRAPA A partir dos anos 90 houve a consolidação de um cenário mundial alicerçado pela supremacia ideológica do sistema capitalista frente ao socialismo, impulsionada pelo fim da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética e pela queda do Muro de Berlim em 1989. No Brasil, a promulgação da Constituição Cidadã de 1988 e a eleição de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura militar, em 1990, marcaram o período. O governo Collor ficou notadamente conhecido pela abertura comercial, e segundo Alliote (2007), uma nova conjuntura mundial em relação à comercialização de produtos entre os países, dentre eles a soja, constituiu-se a partir da intensificação de alguns processos, dentre eles: I. II. III. IV. V. VI. As privatizações realizadas em infraestrutura (rodovias, ferrovias e terminais portuários); O controle monetário; O acesso a melhores tecnologias de produção; O “boom” da comercialização eletrônica nas bolsas de valores; A percepção das vantagens comparativas que o país tem para a produção de alimentos, de energia limpa e renovável, frente aos demais países globalizados; A incorporação da logística no dia-a-dia dos agentes da cadeia da soja no planejamento produtivo e comercial. Nesse contexto, a soja passou a ser a cultura mais proeminente do agronegócio brasileiro, com sua produção aumentando de forma significativa a partir da década de 90, passando de 19.897.804 de toneladas em 1990, para algo em torno de 81 milhões de toneladas em 2013, alçando o Brasil à condição de segundo maior produtor e exportador de soja do mundo, alternando, por vezes, o primeiro lugar do ranking com os Estados Unidos, seu principal concorrente. Tabela2 – Evolução da Produção de Soja de 1990 a 2013 Ano Produção (t) 1990 19.897.804 1991 14.937.806 1992 19.214.705 1993 22.590.978 1994 24.931.832 1995 25.682.637 1996 23.166.874 1997 26.392.636 1998 31.307.440 1999 30.987.476 2000 32.820.826 2001 37.907.259 Fonte: IBGE Ano 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Produção (t) 42.107.618 51.919.440 49.549.941 51.182.074 52.464.640 57.857.172 59.833.105 57.345.382 68.756.343 74.815.447 65.848.857 81.699.787 Segundo Kiiihl (2006), o melhoramento genético alcançado pelos institutos de pesquisas (EMBRAPA, ESALQ, IAC, etc.), proporcionou à soja passar de uma simples planta forrageira a mais importante oleaginosa comercializada nos dias de hoje. Por se tratar de um grão rico em proteína sua utilização é bastante difundida na alimentação humana e na produção de ração animal. Outro fator de destaque foi a alteração de hábitos alimentares da população mundial, conforme destacado por Alliote: a elevação da produção de soja foi resultante de uma mudança nos hábitos alimentares da população que incorporou alimentos feitos a base de soja em suas dietas diárias (leite, carnes, óleos), impulsionando o mercado interno e uma elevação na demanda internacional. Todo esse volume produzido, no entanto, exerce uma pressão muito forte na infraestrutura de transportes do país. O Brasil de destaca frente aos demais países produtores agrícolas no que se refere à maior disponibilidade de terras, clima favorável, recursos humanos qualificados, estrutura de comercialização, potencial em bioenergia, capacidade de gestão e desenvolvimento tecnológico. Por outro lado, a carga tributária, a infraestrutura logística, a taxa de câmbio e as barreiras comerciais são consideradas os principais entraves ao desenvolvimento do agronegócio, segundo pesquisa realizada junto a empresas do setor (ANUT, 2008). Pelo fato do produto possuir um baixo valor agregado, o sistema logístico de escoamento da produção, das regiões produtoras para os principais portos utilizados para exportação da soja, passou a se constituir na principal estratégia que as empresas brasileiras utilizam para alcançar níveis de eficiência que contribuam para os seus resultados e de seus clientes. Em pesquisa realizada por Ripoll (2012), observou-se que os custos logísticos do estado de Mato Grosso (grande produtor de soja) responderam em média no ano de 2008 por aproximadamente 16% do valor FOB na exportação. Segundo NETO (2002), o sistema logístico cria um valor agregado ao produto definido pelo próprio processo de distribuição. Prazo reduzido de entrega, facilidade e agilidade para fazer um pedido, rastreabilidade do produto da origem até o cliente e a entrega dentro dos prazos são fatores que aumentam a competitividade dos produtos no mercado globalizado. Além disso, a otimização da logística traria outros benefícios para o país, como redução de consumo de combustível, fretes, melhor sistema de rotas de tráfego nas estradas e desgaste das rodovias (NETO, 2002), além das questões de ganho ambiental que impactam este mercado. No que tange à logística de transportes o nosso desafio é intensificar o uso da multimodalidade e da intermodalidade para o escoamento da safra. O transporte rodoviário transporta mais da metade da produção de soja do Brasil, mesmo com as desvantagens inerentes a esse modal, tais como maior poluição ambiental, alto consumo de combustível, grande índice de acidentes e menor produtividade para longas distâncias. Segundo HIIJAR (2006), um caminhão transporta cerca de 150 vezes menos soja do que uma composição ferroviária e cerca de 1.000 vezes menos do que um comboio de barcaças numa hidrovia como a do Rio Madeira. Para se ter uma ideia, quando se analisam as matrizes de transportes da soja da Argentina e Estados Unidos (maiores concorrentes do Brasil na produção e exportação do produto), observa-se que no primeiro, aonde as distâncias médias entre as regiões produtoras e o portos são de 300 km, 82% do transporte se concentra nos modais ferroviário e hidroviário. Já nos EUA, que possui, como o Brasil, distâncias médias entre 1.000 e 2.000 km, 61% da matriz é formada por hidrovias (ANUT, 2008; LOVATELLI, 2009). Segundo RIPOLL (2012) o custo de transporte por tonelada por km percorrido do modal hidroviário é 61% inferior que o rodoviário e 37% inferior que o ferroviário. Os entraves portuários brasileiros também apresentam parcela de contribuição para diminuir a competitividade da soja brasileira. Para DUBKE (2006), os fatores portuários que mais prejudicam a competitividade das exportações brasileiras são: elevado custo das tarifas portuárias; demanda superior à capacidade instalada dos terminais e armazéns; falta de investimentos na ampliação de instalações portuárias, ocasionando filas de caminhões e navios no período da safra; e a limitação de profundidade, impedindo a atracação de navios de maior porte em alguns portos. Segundo Pontes et all (2009), os principais problemas logísticos dos portos são: i. ii. iii. iv. Falta de infraestrutura adequada; Grandes congestionamentos no acesso terrestre (rodoviário e ferroviário) ao porto durante o escoamento da safra de soja; Falta de equipamentos (carregadores de navios e esteiras) modernos para o carregamento e descarregamento dos navios e, Grandes congestionamentos no acesso marítimo (navios) para atracação nos portos durante a safra de soja. Assim, aqui se propõe exibir dados concretos para a verificação objetiva da validade do gargalo apresentado no item (iv), acima descrito. Será apresentada a evolução do tempo mediano para atracação nos principais portos pelos quais foram exportadas quantidades significativas de soja durante o ano de 2013. Dessa forma, busca-se delimitar o problema em destaque, entender sua magnitude e desenvolver a percepção da evolução temporal, o que permitirá verificar se a dinâmica da fila de navios está se deteriorando ou não. Para tanto, serão utilizados entre outros os dados coletados e disponibilizados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), referência nacional e internacional na produção de dados estatísticos da área portuária. 1 PRINCIPAIS REGIÕES PRODUTORAS A época de semeadura é um dos fatores que mais influenciam o rendimento da soja. Como essa é uma espécie termo e fotossensível, está sujeita a alterações fisiológicas e morfológicas, quando as suas exigências, nesse sentido, não são satisfeitas. A época de semeadura determina a exposição da soja à variação dos fatores climáticos limitantes. Assim, semeaduras em épocas inadequadas podem afetar o porte, o ciclo e o rendimento das plantas e aumentar as perdas na colheita (EMBRAPA). A safra da soja no Brasil, de forma geral, tem seu plantio no período abrangido entre os meses de setembro a dezembro e colheita realizada entre os meses de janeiro a abril (figura1). Figura 1 – Período de safra da soja, milho e cana-de-açúcar no Brasil (fonte: Centro de Estudos em Gestão Naval - CEGN). Podem-se constatar, a partir das tabelas 3 e 4, as principais regiões produtoras de soja do país. É possível observar a importância do estado de Mato Grosso, que acumula praticamente um terço da produção da soja em grãos brasileira. Nesse estado, destaque-se sua região Norte, que sozinha representa aproximadamente 22% da produção nacional. Merecem realce ainda as regiões nordeste e sudeste do estado, com produção significativa. Outros estados de bastante relevância são o Paraná (destaque para as regiões centro-norte e oeste do estado), Goiás (em especial região sul), Rio Grande do Sul (noroeste do estado) e Mato Grosso do Sul (Sudoeste). Juntos esses cinco estados representam quase 80% da produção de soja do país. Tabela3 – Ranking dos estados produtores de soja na safra 2011/2012 Unidade da Federação Mato Grosso Paraná Goiás Rio Grande do Sul Mato Grosso do Sul Bahia Minas Gerais Maranhão São Paulo Tocantins Piauí Santa Catarina Rondônia Pará Distrito Federal Roraima Ceará Amazonas Produção (t) % 21.841.292 10.937.896 8.398.891 5.945.243 4.594.359 3.212.789 3.073.499 1.640.183 1.566.956 1.276.928 1.242.574 1.079.690 470.485 373.398 176.160 14.000 3.854 660 33,2% 16,6% 12,8% 9,0% 7,0% 4,9% 4,7% 2,5% 2,4% 1,9% 1,9% 1,6% 0,7% 0,6% 0,3% 0,0% 0,0% 0,0% % acumulado 33,2% 49,8% 62,5% 71,6% 78,5% 83,4% 88,1% 90,6% 93,0% 94,9% 96,8% 98,4% 99,1% 99,7% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Fonte Sidra/IBGE Tabela4 – Ranking das regiões produtoras de soja na safra 2011/2012 14.427.984 21,9 % acumulado 21,9 Sul Goiano - GO 6.466.273 9,8 31,7 Sudeste Mato-grossense - MT 3.710.839 5,6 37,4 Noroeste Rio-grandense - RS 3.585.710 5,4 42,8 Extremo Oeste Baiano - BA 3.205.298 4,9 47,7 Nordeste Mato-grossense - MT 3.135.953 4,8 52,4 Sudoeste de Mato Grosso do Sul - MS 2.866.384 4,4 56,8 Norte Central Paranaense - PR 1.971.571 3,0 59,8 Oeste Paranaense - PR 1.774.532 2,7 62,5 Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba - MG 1.748.213 2,7 65,1 Mesorregião Geográfica Norte Mato-grossense - MT Produção (t) % Centro Oriental Paranaense - PR 1.514.307 2,3 67,4 Centro Ocidental Paranaense - PR 1.496.872 2,3 69,7 Sul Maranhense - MA 1.485.143 2,3 72,0 Leste Goiano - GO 1.263.843 1,9 73,9 Sudoeste Piauiense - PI 1.238.344 1,9 75,8 Centro-Sul Paranaense - PR 1.197.309 1,8 77,6 Noroeste de Minas - MG 1.147.395 1,7 79,3 Centro Norte de Mato Grosso do Sul - MS 1.146.010 1,7 81,1 Norte Pioneiro Paranaense - PR 1.014.914 1,5 82,6 Oriental do Tocantins - TO 814.414 1,2 83,8 Sudeste Paranaense - PR 738.761 1,1 85,0 Fonte Sidra/IBGE Os dados demonstram que importantes áreas produtoras do país, como o norte do Mato Grosso, apresentam maiores distâncias em relação aos portos do sul e do sudeste, usualmente utilizados para o escoamento da safra para o exterior, impactando diretamente os custos logísticos envolvidos, transformando-os em importantes referências para a tomada de decisões sobre as rotas a serem utilizadas na comercialização, ou ainda, sobre os futuros investimentos. A figura 2, a seguir, ilustra a situação do escoamento das safras de soja e milho no país, em 2013. É possível observar que acima do paralelo 16 produzse 54,1% da soja e milho brasileiro. Para um consumo local de 17 milhões de toneladas e excedente exportado de 10,1 milhões de toneladas, a produção acima deste paralelo deixa livre para exportação outros 60,8 milhões de toneladas. Em contraponto, abaixo do paralelo 16 produz-se 74,6 milhões e consome-se 69,2 milhões de toneladas, com um superávit de 5,2 milhões de toneladas. Assim, no balanço entre produção e exportação, verifica-se que acima do paralelo 16 a relação produção:exportação é de 8,7 para 1, enquanto que abaixo dele é de 1,12 para 1. Pode-se inferir que, nessa divisão de áreas, a região mais ao norte possui vocação para se constituir como um centro exportador e a Sul e Sudeste como centro consumidor. No entanto, no tocante à logística de escoamento, a lógica dos deslocamentos do produto não é observada, já que a maior parte do embarque da soja se faz por portos abaixo do paralelo 16. Isso ocorre, entre outros fatores, pela infraestrutura portuária mais adequada dos portos mais ao Sudeste e Sul e pela falta de ligações ferroviárias e hidroviárias da região produtora para os portos no Norte e Nordeste. Figura 2 – Mapa da produção e consumo da soja no Brasil Fonte: Elaborado pela CNA 2 PORTOS UTILIZADOS PARA O ESCOAMENTO Em 2013, cerca de 43 milhões de toneladas de soja em grão foram exportados utilizando-se das instalações portuárias brasileiras, apresentando um crescimento de 27% em relação ao ano anterior, o que reflete a safra recorde observada no país (que evoluiu aproximadamente 24% de 2012 para 2013). O volume de soja exportada via portos correspondeu a 53% da produção de 2013 e colocou à prova a infraestrutura e eficiência portuária. A tabela 5 demonstra as principais instalações portuárias utilizadas para o escoamento das exportações de soja referente à safra 2012/2013. Tabela 5 – Exportação de soja por Instalação Portuária – 2013 Santos Paranaguá 11.957.711 7.563.762 27,7% 17,6% % acumulado 27,7% 45,3% Rio Grande 4.287.032 9,9% 55,2% São Francisco do Sul 4.177.047 9,7% 64,9% Itaqui 2.974.624 6,9% 71,8% TUP CVRD Tubarão 2.825.224 6,6% 78,4% TUP Bianchini 2.213.580 5,1% 83,5% TUP Cotegipe 1.778.558 4,1% 87,6% TUP Sucocítrico Cutrale 1.331.227 3,1% 90,7% TUP Hermasa Graneleiro 1.206.055 2,8% 93,5% Demais instalações 2.781.208 6,5% 100,0% Instalação Portuária Produção (t) % Fonte: SDP/ANTAQ Pode-se observar que a exportação de soja concentrou-se prioritariamente nos portos organizados de Santos, Paranaguá, Rio Grande, São Francisco do Sul e Itaqui (que juntos responderam a aproximadamente 72% das exportações). Tabela 6 – Comparação anual da Exportação de soja por Instalação Portuária – 2013/2012 Instalação Portuária % crescimento 11.957.711 10.864.327 10,0 2013 2012 Paranaguá 7.563.762 6.618.734 14,3 Rio Grande 4.287.032 2.189.842 95,8 São Francisco do Sul 4.177.047 3.321.150 29,1 Itaqui 2.974.624 2.744.687 8,4 43.096.028 33.850.660 27,3 Santos Total Fonte: SDP/ANTAQ A tabela 6 demonstra a evolução significativa da movimentação de soja nos principais portos exportadores do produto em 2013, com destaque para o porto de Rio Grande que apresentou expansão de 96% em relação ao ano anterior. O gráfico 1 ilustra o modo que a safra recorde obtida em 2013 demandou a infraestrutura e a superestrutura portuária, influenciando o desempenho dos portos no escoamento do produto para o comércio exterior. Pode-se notar que o pico de exportação concentrou-se no 2º trimestre (com destaque para o mês de abril) tanto em 2012 e 2013. No entanto, constatou-se que a safra demorou um pouco mais para ser escoada. Até junho de 2012, aproximadamente 76% de todo volume exportado já havia sido embarcado rumo ao exterior. Para 2013, tomando-se como referência o mesmo mês, o percentual foi de 69%. Isso nos dá indícios de que, a despeito do significativo aumento da movimentação de soja, a estrutura portuária não acompanhou tal expansão, provavelmente causando uma piora nos indicadores operacionais dos terminais e aumentando a fila de navios para embarque, problema em foco nesse artigo. Gráfico 1 – Volume de soja exportada por mês – 2012/2013 9.000.000 8.000.000 7.000.000 Em roneladas 6.000.000 5.000.000 2013 4.000.000 2012 3.000.000 2.000.000 1.000.000 0 JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ Fonte: SDP/ANTAQ 3 INDICADORES OPERACIONAIS DOS PRINCIPAIS PORTOS Como mencionado ao longo desse trabalho, a crescente produção e exportação do produto nos últimos anos tem pressionado todo o sistema logístico envolvido no escoamento de soja para o mercado externo. A supersafra observada no ano passado pôs à prova, particularmente, o desempenho operacional dos portos. A tabela 7 apresenta o tempo mediano de espera em dias para a atracação das embarcações utilizadas na exportação de soja em grãos nos principais portos exportadores de soja do Brasil. É possível se observar um grande aumento no tempo de espera para a atracação. Em Santos, o principal porto exportador de soja, o tempo de espera passou de 4 para 20 dias. Tendência semelhante nos portos de Rio Grande e São Francisco do Sul, de 2 para 18 e de 8 para 17 dias de espera para atracação, respectivamente. Já para o porto de Paranaguá, que já vinha apresentando um crescimento significativo e sistemático nos últimos anos, o tempo mediano de espera passou de 27 dias em 2012 para 80 dias em 2013. Tabela 7 – Evolução do tempo mediano de espera em dias para atracação por instalação portuária. Instalação Portuária Tempo Mediano de Espera para Atracação 2010 2011 2012 2013 Santos 3,39 0,73 3,86 20,37 Paranaguá 8,53 12,72 27,47 79,98 Rio Grande 0,26 2,93 2,14 18,14 São Francisco do Sul 12,0 10,38 8,69 17,41 Itaqui 0,04 0,04 0,04 0,08 Fonte: SDP/ANTAQ Utilizando o teste não paramétrico de Mann-Whitney para a comparação das medianas é possível observar para o ano de 2013 que o tempo médio de espera para atracação não apresentou diferenças estatisticamente significativas1 entre os portos de Santos, Rio Grande e São Francisco do Sul. O porto de Paranaguá, no entanto, destacou-se negativamente frente aos demais, apresentando um tempo de espera muito acima de seus pares. Por outro lado, o porto de Itaqui aparece com o menor tempo de espera para atracação. A tabela 8 mostra os p-values para os testes executados. O software utilizado foi o STATISTICA.64 v12. Tabela 8 – P-Valor2 para os testes não paramétricos para comparação de medianas - 2013 Instalação Portuária Santos Santos - Paranaguá 0,000000 - 0,973693 São Francisco do Sul 0,177301 0,000000 0,000000 0,000000 0,000000 0,273739 0,000000 Rio Grande Paranaguá 0,000000 Rio Grande 0,973693 0,000000 S. F. do Sul 0,177301 0,000000 0,273739 Itaqui 0,000000 0,000000 0,000000 - 0,000000 Itaqui 0,000000 - Observa-se a partir da tabela 9 que, com exceção de São Francisco do Sul, os tempos medianos de atracação também sofreram um acréscimo em 2013. Tal fato alinha-se com o aumento do tempo de espera para atracação e corrobora a interpretação de menor agilidade encontrada pelos portos para escoar a safra para o exterior. Outro fato relevante é a disponibilidade de berços para a movimentação de soja nos portos brasileiros, que desde 2010 se mantém inalterada. Segundo pesquisa realizada por Alliote (2007) uma vez que os equipamentos dos principais portos possuem capacidades de operação nominais muito semelhantes, o fator que influenciaria na agilidade da expedição das mercadorias seria o número de berços disponíveis. É possível inferir, portanto, que a piora observada nos tempos de espera e atracação se deve, entre outros fatores, a uma combinação explosiva de aumento expressivo da quantidade de 1 Neste trabalho foi adotado o nível de significância de 5%, isto é, a probabilidade de se errar ao tomar a decisão de rejeitar a hipótese nula de igualdade de medianas, sendo esta de fato verdadeira foi 0,05. Em termos práticos, rejeitou-se a hipótese nula de igualdade das medianas se o p-valor foi inferior a 0,05. 2 Probabilidade de se obter valores da estatística de teste calculada por meio dos dados menos favoráveis à evidência de validade da hipótese nula de igualdade das medianas, assumindo-a como verdadeira. soja exportada e manutenção das mesmas condições de infraestrutura e equipamentos nos portos brasileiros. Tabela 9 – Evolução do tempo mediano de atracação por instalação portuária Tempo Mediano de Atracação Instalação Portuária 2010 2011 2012 2013 Santos – 11 berços 2,58 2,91 2,63 3,12 Paranaguá – 5 berços 2,55 2,77 2,52 3,06 Rio Grande – 3 berços 2,58 3,09 2,69 3,31 S. F. do Sul – 1 berço 2,46 2,04 2,62 2,01 Itaqui – 1 berço 2,65 2,77 2,63 3,02 Fonte: SDP/ANTAQ 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O agronegócio tem representado papel importante na economia do país nas últimas décadas. O uso intensivo da tecnologia, aliado à expertise adquirida pelos nossos órgãos de pesquisa, contribuíram para o aumento significativo da produção de soja no país. A produtividade aumentou e hoje se consegue plantar mais em um espaço cada vez menor. As projeções indicam que a tendência para o futuro é de um acréscimo ainda maior nos anos vindouros. A mudança de hábitos alimentares da população, com a introdução da soja na dieta, bem como a forte demanda da China para produção de ração animal para seus vastos rebanhos, e a disparada no preço do produto no mercado internacional tem estimulado o aumento da produção brasileira. Nesse contexto, cada vez mais a eficiência da cadeia logística inerente à comercialização da soja torna-se fator preponderante para redução de custos, aumento das margens de lucro do produtor e melhoria da competitividade do produto brasileiro no cenário mundial. A cadeia de transportes e as operações portuárias ganham importância especial nesse quesito. O presente estudo apontou um desequilíbrio entre as regiões produtoras da soja brasileira e os caminhos de seu escoamento para os portos. Apesar de grande parte de a produção estar concentrada acima do paralelo 16, a exportação se dá utilizando-se, em grande medida, os portos do sul e sudeste brasileiros. Isso tem sobrecarregado os sistemas de transporte e portuário, causando imensas filas de caminhões e navios, aumentando o tempo necessário para a entrega do produto ao importador e incrementando os gastos com demurrage e fretes marítimos. É preciso que os portos nacionais estejam atentos ao esgotamento de suas capacidades operacionais, para que isso não comprometa os padrões mínimos necessários para escoar a mercadoria sem grandes prejuízos ao dono da carga. Todos os portos pesquisados apresentaram elevados tempos de espera para atracação, sempre com medianas iguais ou maiores a 17 dias e apresentando uma piora significativa em 2013. A solução para esse problema passa por um choque de oferta de novas instalações portuárias e berços especializados nos portos brasileiros, principalmente no eixo norte do país, viabilizando a exportação via corredor norte. Com o advento da Lei 12.815/2013 o arcabouço legal necessário para tal ação foi consolidada e os agentes públicos envolvidos (SEP e ANTAQ) nas licitações de novos arrendamentos e terminais privados têm trabalhado incansavelmente para disponibilizar à sociedade, no menor tempo possível, tais instalações. Ressalta-se ainda que, uma mudança na matriz de transportes, fazendo uso maior dos modais ferroviário e principalmente hidroviário melhorariam a eficiência e minimizariam os custos de escoamento da safra. BIBLIOGRAFIA ALIOTTE, Felipe Fontes. Desempenho logístico dos portos brasileiros para a exportação de soja em 2006. Monografia (Bacharelado em Ciências Econômicas) – Universidade de São Paulo, Piracicaba, 56 p, 2007. Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Cargas (ANUT). Solução para competitividade logística. 2005. Disponível em http://www.anut.org.br DUBKE, Alessandra Fraga. Modelo de localização de terminais especializados: um estudo de caso em corredores de exportação de soja. Tese (Doutorado em Engenharia Industrial) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 177 p, 2006. EMBRAPA. Tecnologias de Produção de Soja Região Central do Brasil, 2004. Disponível em: http://www.cnpso.embrapa.br/producaosoja/SojanoBrasil.htm. Acessado em 9 de junho de 2014. KIIHL, R. A. DE S. Como recolocar a “locomotiva” nos trilhos? Visão Agrícola, Piracicaba, v.5, p.4-7, jan/jun. 2006. RIPOLL, F.G. Proposta de uma análise logística no agronegócio como fator competitivo para a distribuição e comercialização da soja em grão no Estado de Mato Grosso. Custos e @gronegócio on line, v.8, n.1 – Jan/Mar – 2012. PONTES, H. L. J. et. all. 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