MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO SECRETARIA DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM TRANSPORTE FERROVIÁRIO DE CARGAS CONRADO NUNES UTILIZAÇÃO DE MÉTODOS DE ANÁLISE DE FALHAS EM UM SISTEMA DE SINALIZAÇÃO FERROVIÁRIA Rio de Janeiro 2012 INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA CONRADO NUNES UTILIZAÇÃO DE MÉTODOS DE ANÁLISE DE FALHAS EM UM SISTEMA DE SINALIZAÇÃO FERROVIÁRIA Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Transporte Ferroviário de Cargas do Instituto Militar de Engenharia, como requisito parcial para o título de Especialista em Transporte Ferroviário de Cargas. Tutor: Eng. Edson Rabelo de Morais Orientador: Eng. Dr. Marcelo Prado Sucena Rio de Janeiro 2012 INSTITUTO MILITAR DE ENGENHARIA CONRADO NUNES UTILIZAÇAO DE MÉTODOS DE ANÁLISE DE FALHAS EM UM SISTEMA DE SINALIZAÇÃO FERROVIÁRIA Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Transporte Ferroviário de Cargas do Instituto Militar de Engenharia, como requisito parcial para o título de Especialista em Transporte Ferroviário de Cargas. Tutor: Eng. Edson Rabelo de Morais Orientador: Eng. Dr. Marcelo Prado Sucena Aprovada em 29 de junho de 2012 pela seguinte Banca Examinadora: _______________________________________________________________ Eng. Edson Rabelo de Morais – Tutor da Empresa _______________________________________________________________ Eng. Dr. Marcelo Prado Sucena – Orientador do IME _______________________________________________________________ Eng. Dr. Luiz Antônio Silveira Lopes - Avaliador _______________________________________________________________ M.Sc Glaudson Bastos - Avaliadora Rio de Janeiro 2012 A meus pais, José e Suzete, pela educação e base sólida para alcançar vôos mais altos. Agradecimentos A meus pais, José e Suzete, por todo o apoio, educação e base sólidas para a minha formação pessoal, acadêmica e profissional. A minha namorada, Ana Carolina, pelo apoio e compreensão anteriormente e durante essa etapa da minha vida. A Christian Reis, em nome da MRS, pela oportunidade de realizar esse curso de especialização e de desenvolver o presente trabalho. A Edson Rabelo, pela tutoria neste trabalho e, principalmente, no dia-a-dia dentro da empresa. A Marcelo Sucena, pela orientação do trabalho, apesar dos contratempos durante o desenvolvimento. Ao Instituto Militar de Engenharia, que em parceria com a MRS Logística, tornaram possível este curso e, por consquência, este trabalho. Aos demais colaboradores da MRS que muito contribuíram com o desenvolvimento deste trabalho. Resumo NUNES, Conrado. Utilização de Métodos de Análise de Falhas em um Sistema de Sinalização Ferroviária. 2012. Monografia (Pós-Graduação) – Especialização em Transporte Ferroviário de Cargas, Departamento de Engenharia de Transportes, Instituto Militar de Engenharia, Rio de Janeiro, 2012. A sinalização ferroviária é de extrema importância para a segurança e eficiência operacionais. Com o crescimento da demanda na MRS Logística S.A., concessionária ferroviária de carga brasileira, viu-se a necessidade de se utilizar um novo conceito de controle de tráfego, o CBTC, sigla em inglês para Controle de Tráfego Baseado em Comunicações. O novo conceito, dentre outras coisas, requer um sistema de sinalização eletrônico e moderno. A instalação de um novo sistema de sinalização requer preocupações com a disseminação do conhecimento, principalmente aos colaboradores ligados à manutenção, de forma a reduzir os tempos de manutenção corretiva e seus impactos na operação ferroviária. Assim, este trabalho tem como objetivo elaborar um sistema teórico de sinalização, eleger um subsistema crítico dentro dele, utilizando uma metodologia baseada em FMEA, e estudar profundamente o subsistema escolhido de forma a elaborar árvores de falhas do mesmo. Ao fim, descobre-se que o subsistema de detecção de presença de veículos é mais crítico, que é onde a empresa deve focar seus esforços quando o assunto é sinalização. Além disso, a elaboração das árvores de falhas permite a disseminação do conhecimento sobre o sistema em implantação. Palavras-chave: Ferrovia, Sinalização Ferroviária, Análise de Falhas, Criticidade, FMEA, Árvores de Falhas, FTA. Abstract NUNES, Conrado. Utilização de Métodos de Análise de Falhas em um Sistema de Sinalização Ferroviária. 2012. Monografia (Pós-Graduação) – Especialização em Transporte Ferroviário de Cargas, Departamento de Engenharia de Transportes, Instituto Militar de Engenharia, Rio de Janeiro, 2012. Railroad signaling has extreme significance to both operational safety and efficiency. As the demand for transportation grows at MRS Logística S.A, brazilian cargo railroad concessionaire, the need for a new concept in traffic control has arised, CBTC, Communications-Based Train Control. The new concept, among other things, requires an electronic and modern signaling system. A new signaling system installation requires concerning about knowledge dissemination, mainly to those whose work are linked to maintenance, in a way that corrective maintenance times and their impact in railroad operation are reduced. Thus, this paper objectives to elaborate a theoretical signaling system, to elect a critical subsystem inside it, using a methodology based on FMEA, and to deeply study the chosen subsystem in order to elaborate fault trees from it. In the end, it is found that the vehicle presence detection subsystem is the most critical, which is where the company shall focus its efforts in matters of railroad signaling. Besides, the fault trees elaboration allows the knowledge dissemination over the system that is being deployed. Key-words: Railroad, Railroad Signaling, Fault Analysis, Criticity, FMEA, Fault Tree, FTA. Sumário Epígrafe ............................................................. Erro! Indicador não definido. Agradecimentos ................................................................................................ v Resumo ........................................................................................................... vi Abstract .......................................................................................................... vii Sumário ..........................................................................................................viii Índice de Figuras ............................................................................................. xi Índice de Tabelas ...........................................................................................xiii Índice de Equações ....................................................................................... xiv Capítulo 1: Introdução ...................................................................................... 1 1.1: Objetivos ................................................................................................ 1 1.2: Justificativa do Trabalho ........................................................................ 2 1.3: Estrutura do Documento ........................................................................ 3 Capítulo 2: Conceitos sobre o Sistema Ferroviário de Cargas ......................... 4 2.1: Subsistemas Ferroviários Típicos .......................................................... 5 2.1.1: Via Permanente ............................................................................... 6 2.1.2: Material de Tração ........................................................................... 9 2.1.3: Material Rodante ........................................................................... 10 2.1.4: Controle do Tráfego Ferroviário..................................................... 10 2.2: Operação Ferroviária de Carga............................................................ 13 2.2.1: Estrutura Ferroviária ...................................................................... 13 2.2.2: Tipos de Trens............................................................................... 15 2.2.3: Produtos transportados e vagões .................................................. 16 2.3: Segurança Operacional ....................................................................... 19 Capítulo 3: Sinalização Ferroviária ................................................................. 21 3.1: Evolução dos Sistemas de Sinalização ................................................ 22 3.1.1: Origens .......................................................................................... 22 3.1.2: Utilização de meios de comunicação ............................................ 23 3.1.3: Intertravamento e Sinais Mecânicos .............................................. 23 3.1.4: Circuitos de Via, Sinais Luminosos e Intertravamento a Relés ..... 25 3.2: Sinais ................................................................................................... 27 3.2.1: Sinais Luminosos .......................................................................... 28 3.3: Aparelhos de Mudança de Via ............................................................. 30 3.3.1: Chaves .......................................................................................... 31 3.3.2: Associações de Chaves ................................................................ 32 3.3.3: Máquinas de chave ....................................................................... 34 3.3.4: Máquinas de Chave Elétricas ........................................................ 35 3.4: Detecção .............................................................................................. 37 3.4.1: Propósito da detecção (THEEG & VLASENKO, 2009) .................. 37 3.4.2: Circuito de Via ............................................................................... 38 3.4.3: Contadores de Eixos ..................................................................... 38 3.4.4: Comparação entre circuitos de via e contadores de eixos ............ 40 3.5: Sistemas de Supervisão e Controle de Tráfego ................................... 42 3.5.1: Sistemas de Supervisão ................................................................ 42 3.5.2: Sistemas de Controle de Tráfego .................................................. 44 Capítulo 4: Métodos de Análise de Falhas ..................................................... 47 4.1: Confiabilidade ...................................................................................... 47 4.1.1: Outras Definições .......................................................................... 48 4.2: FMEA ................................................................................................... 48 4.2.1: Análise de Criticidade .................................................................... 50 4.3: FTA ...................................................................................................... 53 4.3.1: Estrutura e Simbologia .................................................................. 54 4.4: Relação entre FMEA e FTA ................................................................. 56 Capítulo 5: Análise de Criticidade do Sistema de Sinalização ........................ 58 5.1: A MRS Logística .................................................................................. 58 5.2: Sistema Teórico de Sinalização ........................................................... 60 5.2.1: Conhecimento, Decomposição e Diagramação Hierarquizada do Sistema .............................................................................................................. 61 5.2.2: Determinação dos Pesos e Cálculo do Índice de Risco ................ 62 5.2.3: Determinação do Sistema e Subsistema Críticos .......................... 64 5.3: Estudo Aprofundado do Subsistema Crítico ........................................ 67 5.3.1: Circuito de Via: o Subsistema Crítico ............................................ 67 5.3.2: Os Efeitos das Falhas do Subsistema Crítico ................................ 68 5.3.3: Árvores de Falhas do Subsistema Crítico ..................................... 69 Capítulo 6: Conclusões e Perspectivas .......................................................... 74 Bibliografia ...................................................................................................... 76 Índice de Figuras Figura 2.1 Infra e Superestrutura Ferroviária (adaptado de BRINA, 1979)....... 6 Figura 2.2 Esquema simplificado de um trilho (fonte: Google) ......................... 8 Figura 2.3 Estrutura Ferroviária (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) 14 Figura 2.4 Produtos Trasportados por Ferrovia no Brasil em 2009. Em mil TU. Fonte: ANTT .............................................................................................................. 16 Figura 2.5 Diferentes tipos de vagões de carga (adaptado de ROSA, 2011) . 17 Figura 3.1 Pátio de Cruzamento (CAZELLI, 2012) ......................................... 22 Figura 3.2 Sinal Mecânico (CAZELLI, 2012) .................................................. 24 Figura 3.3 Alavancas de Operação e Intertravamento Mecânicos (CAZELLI, 2012) ......................................................................................................................... 24 Figura 3.4 Esquema de um Circuito de Via (CAZELLI, 2012) ........................ 25 Figura 3.5 Sinaleiro Luminoso (fonte: o autor) ................................................ 26 Figura 3.6 Aspectos de sinais luminosos e seus significados (adaptado de ABNT apud CAZELLI, 2012) ..................................................................................... 30 Figura 3.7 Esquema de chave (adaptado de BRINA, 1979) ........................... 31 Figura 3.8 Exemplos de arranjos de chaves (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) .................................................................................................... 33 Figura 3.9 Partes de uma máquina de chave (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) .................................................................................................... 36 Figura 3.10 Sistema de Contadores de Eixos (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) .................................................................................................... 39 Figura 3.11 Utilização de contadores de eixos para detecção (fonte: CAZELLI, 2012) ......................................................................................................................... 40 Figura 3.12 Esquema em blocos de um Centro de Controle Operacional (CAZELLI, 2012) ....................................................................................................... 45 Figura 4.1 Exemplo de formulário para FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) .................................................................................................................................. 49 Figura 4.2 Elementos de uma Árvore de Falhas (adaptado de CLEMENS, 1993) ......................................................................................................................... 55 Figura 4.3 Relação entre FMEA e FTA (LAFRAIA, 2001) .............................. 56 Figura 5.1 Malha Ferroviária da MRS (MRS, 2012) ....................................... 59 Figura 5.2 Fluxograma procedimento para definição do componente crítico (SUCENA, 2002) ....................................................................................................... 61 Figura 5.3 Diagramação Hierarquizada do Sistema de Sinalização Ferroviária .................................................................................................................................. 62 Figura 5.4 Subsistemas com pontuação de acordo com especialistas da empresa .................................................................................................................... 64 Figura 5.5 Subsistemas com pontuação levada aos níveis acima ................. 65 Figura 5.6 Subsistemas hierarquizados de acordo com sua criticidade ......... 66 Figura 5.7 Codificação dos degraus do Circuito de Via Codificado ................ 68 Figura 5.8 Árvore de Falhas para Ocupação Indevida de CDV Codificado .... 70 Figura 5.9 Árvore de Falhas para Ocupação Intermitente de CDV Codificado .................................................................................................................................. 71 Figura 5.10 Árvore de Falhas para Ocupação Indevida de CDV DC .............. 72 Figura 5.11 Árvore de Falhas para Ocupação Intermitente de CDV DC ........ 73 Índice de Tabelas Tabela 2.1 Causa de Acidentes Ferroviários nos Estados Unidos (fonte: FRA) .................................................................................................................................. 20 Tabela 3.1 Tabela comparativa: Circuito de Via x Contadores de Eixos (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) ............................................................. 41 Tabela 4.1 Exemplo dos efeitos das falhas de componentes (adaptado de LAFRAIA, 2001) ........................................................................................................ 50 Tabela 4.2 Tabela de Probabilidade de Ocorrências (adaptado de LAFRAIA, 2001) ......................................................................................................................... 51 Tabela 4.3 Tabela de Probabilidade de Detecção (adaptado de LAFRAIA, 2001) ......................................................................................................................... 52 Tabela 4.4 Tabela de Severidade (adaptado de LAFRAIA, 2001) .................. 53 Tabela 4.5 Vantagens FTA x Vantagens FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) .................................................................................................................................. 57 Tabela 4.6 Utilização de FTA e FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) .......... 57 Índice de Equações Equação 4.1 Fórmula da Confiabilidade ......................................................... 48 Capítulo 1: Introdução O transporte sobre trilhos como se conhece existe desde o século XVI nas minas da Alsácia, região hoje pertencente à Bélgica (MRS, 2012). Sua alta eficiência energética faz com que a ferrovia seja o modal mais representativo na matriz de transporte de países com grandes extensões territoriais (CNT, 2012). Desde a concessão das concessionárias brasileiras ferrovias obtiveram federais excelentes iniciada em resultados, 1996, as tornado-se superavitárias, reduzindo acidentes, realizando investimentos e obtendo ótimas taxas de crescimento (ANTF, 2011). Destaca-se ainda a volta dos investimentos do governo federal na expansão da malha ferroviária nos últimos anos, como os vistos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) (TRANSPORTES, 2012). Porém, o modal ferroviário apresenta algumas desvantagens como alto investimento inicial, altos custos fixos, baixa flexibilidade e a necessidade de utilização de via própria e exclusiva. Além disso, a grande dispersão geográfica, dificuldade de acesso à linha férrea e a permanência de seus ativos a intempéries fazem com que a manutenção seja um dos pontos críticos de uma ferrovia. Em sistemas de transporte, do ponto de vista do cliente, há a necessidade de se garantir a segurança operacional e o nível de serviço de entrega de sua carga no ponto de destino. Para tal, a confiabilidade do sistema deve atender os níveis acordados. A maneira de se garantir a confiabilidade, como será apresentado, é reduzir o número de falhas do sistema e o tempo de reparo das eventuais falhas. 1.1: Objetivos Sabe-se que, além de erros de planejamento e operacionais, as falhas dos ativos de uma ferrovia são os principais responsáveis por atrasos, desvios e a consequente perda de produção. Portanto, reduzir o impacto causado por falhas, sejam elas quais forem, pode maximizar o nível de serviço, aumentar a produção, aumentar a receita da empresa e mitigar impactos ambientais. Neste contexto, este trabalho tem como objetivo principal aprimorar os conhecimentos relativos à manutenção de sistemas de sinalização ferroviária em geral. Deve-se elaborar um sistema teórico com todas suas partes e sub-partes integrantes e discorrer sobre a funcionalidade, importância e impacto quando à possível falha. Ao final, elaborar-se-á um estudo sobre o comportamento de uma sub-parte considerada crítica para o sistema ferroviário. Esse estudo será feito com base nas novas tecnologias dos novos equipamentos instalados na empresa. 1.2: Justificativa do Trabalho Sistemas de sinalização ferroviária, através da história, foram criados com a finalidade de evitar acidentes ferroviários, mais especificamente, colisões entre trens. Esses sistemas são necessários, pois um maquinista não consegue parar um trem no seu limite de campo de visão, devido ao baixo atrito entre as rodas da composição e os trilhos, ambos feitos de metal (FENNER, 2007; GODDARD, 2006). Ainda segundo FENNER (2007), a probabilidade de uma colisão aumenta com o aumento do volume de tráfego e não necessariamente de forma linear. Portanto, sistemas de sinalização existem para elevar o volume de tráfego de uma ferrovia sempre tendo em vista a segurança. Com a evolução da tecnologia e a facilidade de acesso à energia elétrica, esses sistemas foram deixando de ser mecânicos para se tornarem cada vez mais elétricos e eletrônicos. Assim, a ferrovia que desejar aumentar seu tráfego com segurança necessita atualizar, dentre outros ativos, seu sistema de sinalização ferroviária. Num cenário de crescente demanda por transporte ferroviário na empresa MRS Logística, viu-se a necessidade de se implantar um novo conceito de controle de tráfego ferroviário. Esse conceito se chama Controle de Trens Baseado em Comunicação (Communications-Based Train Control – CBTC). Para sua implantação, faz-se necessária a instalação de um novo sistema micro-processado de sinalização ferroviária que seja compatível com todas as funcionalidades do CBTC. Este trabalho, que preconiza o aperfeiçoamento do conhecimento dos sistemas de sinalização, permite que o novo sistema de sinalização em fase de implantação seja corretamente operado e, principalmente, mantido. 1.3: Estrutura do Documento Este trabalho está dividido nas seguintes partes: Capítulo 2: discorrerá sobre ferrovias, com foco no transporte de cargas, suas particularidades, vantagens e desvantagens em relação aos outros modais. Capítulo 3: ver-se-ão conceitos de manutenção em geral, bem como métodos de análise de falhas de sistemas. Capítulo 4: explicitará os conceitos sobre sinalização ferroviária, a sinopse história, evolução, diferentes paradigmas e tecnologias utilizadas atualmente. Capítulo 5: apresentará o sistema teórico desenvolvido e a metodologia para identificação de elementos críticos de um dado sistema, além de eleger a sub-parte crítica e seu posterior estudo aprofundado. Capítulo 6: estarão as conclusões e as perspectivas futuras deste trabalho. Capítulo 2: Conceitos sobre o Sistema Ferroviário de Cargas O transporte sobre trilhos é um meio de transporte de pessoas e mercadorias através de veículos sobre rodas percorrendo trilhos (WIKIPEDIA, 2012). Os trilhos podem ser caminhos feitos através de canaletas no terreno ou feitos através do posicionamento de material sobre o terreno, sendo o material madeira ou ferro. Dáse o nome ferrovia para os sistemas cujos trilhos têm como principal componente o ferro. O primeiro sistema de transporte sobre trilhos que se conhece data do século VI A.C., na Grécia antiga, onde barcos eram transportados por escravos entre o Golfo Coríntio e o Golfo Sarônico (LEWIS, 2012). Por volta de 1550, nas minas da Alsácia, hoje Bélgica, existiam vagões de minério com rodas flangeadas de madeira rodando sobre trilhos de madeira (MRS, 2012). Porém a ferrovia só tomou grande impulso no final do século XVIII com a invenção da máquina a vapor por James Watt e as invenções de seu pupilo William Murdoch ao perceber que poderia utilizar o vapor para movimentar as rodas de um veículo. No início do século XIX, Richard Trevithick construiu uma máquina a vapor que andava sobre trilhos, a primeira locomotiva do mundo (MRS, 2012). Numa comparação com os demais modais, o transporte ferroviário caracteriza-se por (BALLOU, 2004): Baixa velocidade média comercial para pequenas distâncias - pois gasta-se muito tempo com movimentação de materiais nos terminais de carga e descarga; Alta variabilidade dos tempos de entrega - por necessitarem de via própria, esse modal não possui flexibilidade, sendo que qualquer impedimento na via causa grandes atrasos; Altos custos fixos e baixos custos variáveis - manutenção da via e material rodante, manutenção de terminais pesam nos custos fixos de uma ferrovia. Além disso, segundo CNT (2012), Confederação Nacional dos Transportes: "O modal ferroviário tem como características o transporte de grandes tonelagens, longas distâncias, origem e destino fixos (baixa flexibilidade do modal) e baixa emissão de poluentes." Pelos motivos citados acima, o modal ferroviário é competitivo para o transporte de cargas que tenham demanda regular e alta e a longas distâncias. No Brasil, verifica-se que o transporte ferroviário é o mais competitivo para distâncias entre 400 e 1500 quilômetros (INTERMODAL, 2012). Do ponto de vista da engenharia, todos os sistemas ferroviários possuem as seguintes características (THEEG & VLASENKO, 2009): O caminho percorrido pelos veículos é determinado pelo sistema mecânico formado entre as rodas do veículo e a via férrea, podendo ser alterado somente por aparelhos de mudança de via; Baixo coeficiente de atrito entre rodas e trilho, o que faz com que as distâncias de frenagem, em velocidades operacionais, quase sempre sejam maiores que o campo de visão do condutor. Dessa forma, torna-se necessário a utilização de algum sistema que deva indicar antecipadamente ao condutor se ele deve prosseguir, parar ou reduzir a velocidade da composição. 2.1: Subsistemas Ferroviários Típicos Sistemas Ferroviários são subdivididos da seguinte maneira: Via Permanente; Material de Tração; Material Rodante; Controle do Tráfego Ferroviário. Cada um desses subsistemas será melhor explicado a seguir. 2.1.1: Via Permanente A Via Permanente é a superestrutura da ferrovia. Ela é constituída por sublastro, lastro, dormente, trilho e acessórios. A via permanente está sujeita ao desgaste do contato entre as rodas dos veículos e os trilhos e deve ser trocada assim que for necessário de acordo com padrões de segurança e qualidade da ferrovia (BRINA, 1979). Um esquemático da infra e superestrutura ferroviária podem ser vistos na figura 1. A seguir, encontram-se mais detalhes sobre cada parte da via permanente. Figura 2.1 Infra e Superestrutura Ferroviária (adaptado de BRINA, 1979) 2.1.1.1: Sublastro O sublastro é a camada que faz interface com a infraestrutura da via. Assim sendo, seu objetivo é a dispersão das cargas dos veículos que por sobre a via trafegam. Suas principais funcionalidades são (BRINA, 1979): Aumentar a capacidade da plataforma; Evitar a penetração do lastro na plataforma; Aumentar a resistência do leito à corrosão, e; Permitir relativa elasticidade ao apoio do lastro. 2.1.1.2: Lastro É a camada situada entre o sublastro e o dormente e tem por principais funcionalidades (BRINA, 1979): Distribuir as cargas provenientes da passagem de veículos sobre a via; Suprimir as irregularidades da plataforma, formando uma superfície contínua e uniforme para os dormentes e trilhos; Impedir o deslocamento dos dormentes; Facilitar a drenagem da superestrutura. O lastro pode ser feito de diversos materiais sendo os mais recomendados: cascalho, escória e pedra britada. Sendo esta a melhor opção por ser resistente, permeável, limitadamente elástica e não produzir poeira (BRINA, 1979). 2.1.1.3: Dormente Segundo BRINA (1979), “O dormente é o elemento da superestrutura ferroviária que tem por função receber e transmitir ao lastro os esforços produzidos pelas cargas dos veículos, servindo de suporte dos trilhos, permitindo a sua fixação e mantendo invariável a distância entre eles (bitola).” Assim sendo, deve ter as seguintes características (BRINA, 1979): Dimensões que forneçam uma superfície de apoio suficientemente grande para que a taxa de trabalho no lastro respeite certo limite; Espessura que forneça a necessária rigidez, sem deixar de lado a elasticidade; Resistente aos esforços; Durável; Permitir a socaria do lastro sob o mesmo; Permitir boa fixação do trilho. Os dormentes podem ser de quatro tipos: madeira, aço, concreto ou plástico, cada um com suas características que se adequam mais a determinadas situações. 2.1.1.4: Trilho e acessórios O trilho é a parte da superestrutura onde se tem a superfície de rolamento para os veículos ferroviários. Ele é feito de aço e subdividido em três partes: boleto, alma e patim. Um esquemático de um trilho pode ser visto na figura XX. Os principais componentes do aço são ferro, carbono, manganês e silício que conferem suas propriedades (BRINA, 1979). Figura 2.2 Esquema simplificado de um trilho (fonte: http://vfco.brazilia.jor.br/) Vários acessórios estão ligados aos trilhos, tendo a maioria deles funções relacionadas à fixação dos trilhos aos dormentes. Os principais são os seguintes (BRINA, 1979): Tala de Junção – tem como funcionalidade unir duas barras de trilhos. Pode ser dois tipos: isolada, quando há isolamento elétrico entre as barras; e seca, quando não há isolamento; Placa de Apoio – situada entre o trilho e o dormente. Serve para aumentar a área de apoio do trilho no dormente, reduzindo a pressão sobre e aumentando a vida útil do dormente. Possui furos para fixação da placa ao dormente; Fixação Rígida – constituem-se de pregos de linha ou tirefonds. Tem o objetivo de fixar a placa de apoio ao dormente; Fixação Elástica – tem a finalidade de absorverem choques e vibrações. Como exemplos, têm-se os tipos K ou GEO, elástico duplo, elástico simples e Pandrol. 2.1.2: Material de Tração O material de tração representa o conjunto de veículos ferroviários que tracionam a si mesmos e os demais veículos de uma composição. Eles podem ser divididos em locomotivas e carros motores. (BRINA, 1979) As locomotivas podem ser divididas de acordo com sua fonte de energia em: a vapor, elétricas e diesel-elétricas (ANTF, 2010). A seguir, ver-se-á uma explicação básica das locomotivas de acordo com ANTF (2010). 2.1.2.1: Locomotivas à Vapor “As locomotivas a vapor utilizam o vapor sob pressão para acionar os êmbolos que transmitem o movimento por puxavantes e braçagens às rodas. A energia para produção do vapor na caldeira vem da fornalha localizada mais atrás, queimando combustível - carvão, lenha ou óleo - que fica armazenado no tender, junto com a água para reabastecimento constante da caldeira. A caldeira é basicamente um tanque de aço resistente a altas pressões cheio d'água e com tubos interligando a fornalha à caixa de fumaça na parte da frente, por onde passa a chama para o aquecimento e produção do vapor. Na parte superior um conjunto de válvulas colhe o vapor e o distribui para os cilindros onde vai acionar os êmbolos, escapando depois por um tubo Venturi dentro da caixa de fumaça para a chaminé e com isto aumentando a tiragem para manter intensa a chama na fornalha. Sendo a locomotiva equipada com superaquecedor, o vapor, ao sair da caldeira, passa por uma serpentina de tubos em contato com a chama para aumentar sua temperatura e pressão, melhorando o rendimento.” 2.1.2.2: Locomotivas Elétricas “De uma forma geral as locomotivas elétricas captam a energia da rede aérea por um pantógrafo, ou do terceiro trilho por uma sapata lateral, e através de equipamentos de controle alimenta os motores de tração localizados nos truques. O mesmo princípio se aplica aos trens unidade de passageiros utilizados nos sistemas de transporte metropolitano.” “No Brasil a maioria dos sistemas de eletrificação com rede aérea opera com corrente contínua a 3.000 V, e com terceiro trilho com corrente contínua a 750 V.” 2.1.2.3: Locomotivas Diesel-Elétricas “Nas locomotivas diesel-elétricas o motor diesel aciona um gerador que produz a energia elétrica destinada aos motores de tração localizados nos truques e acoplados às rodas motrizes por engrenagens. Especialmente a partir da década de 1970 passou-se a utilizar o alternador, produzindo corrente alternada a ser retificada e enviada aos motores de tração de corrente contínua, sendo amplamente utilizada no Brasil desde então.” 2.1.3: Material Rodante O material rodante representa o conjunto de veículos ferroviários rebocados sobre a via férrea. Ou seja, são os veículos deslocados pelo material de tração. Eles podem ser divididos em dois grupos: carro, para transporte de passageiros; e vagão, para transporte de cargas. (BRINA, 1979) Devido às grandes diferenças entre os carros e os vagões, maiores detalhes sobre vagões serão abordados na Seção 2.2.3:, p. 16. 2.1.4: Controle do Tráfego Ferroviário O objetivo básico do Controle de Tráfego Ferroviário é fazer o transporte de pessoas e cargas de sua origem até seu destino de maneira segura e eficiente (AREMA, 2009). Na questão de eficiência, as principais atribuições são definir prioridades de trens e ordenar o tráfego. A segurança operacional será abordada na Seção 2.3:, p. 19. O controle do tráfego ferroviário pode ser visto sob duas ópticas: Do trem, que está na via e recebe licenças de movimento de acordo com o tráfego na região e seu destino; Da empresa, que está preocupada com o tráfego da malha ferroviária toda e tem como meta não atrasar seus trens, controlando-os através de licenças de movimento. De forma a garantir a segurança e a eficiência dos transportes ferroviários, alguns princípios são essenciais. Eles são apresentados a seguir. 2.1.4.1: Princípios de Separação de Trens Como mencionado no início deste capítulo, o baixo coeficiente de atrito entre as rodas dos veículos ferroviários e os trilhos, faz com que a frenagem e a parada daqueles necessite de muita distância livre à frente. Assim, o grande limitador de capacidade de uma operação ferroviária é o intervalo entre trens, ou headway. A separação entre dois trens depende dos seguintes critérios (THEEG & VLASENKO, 2009): 1. Como a licença de movimento é recebida pelo trem; 2. Como a via é liberada após a passagem de um trem. O primeiro critério pode ser satisfeito de diversas maneiras: Entrega da licença manualmente ao maquinista em estações ao longo da via, sendo ela um bastão ou um documento de autorização de movimento; Autorização verbal seja ela dada pessoalmente em estações ou via rádio; Sinais ao longo da via, que com diferentes aspectos indicam ao maquinista se o mesmo deve proceder ou parar, ou até mesmo a velocidade máxima autorizada; Indicação dentro da cabine da locomotiva, podendo ser ela através de dispositivos luminosos que simulam um sinal ou mesmo nos equipamentos de bordo da locomotiva. Cada uma das maneiras descritas acima está ligada com a evolução histórica das tecnologias de controle de tráfego ferroviário. Sendo as primeiras as mais primitivas e que permitem menor densidade de tráfego, e a última que fornece informações quase em tempo real e que permite maior densidade de tráfego. O segundo critério, por sua vez, pode ser satisfeito de duas maneiras: Blocos fixos: a ferrovia toda é dividida em blocos onde apenas um trem por vez pode ocupar cada bloco. Assim a liberação de um bloco só se daria após a cauda do trem terminar seu trajeto dentro do bloco; Blocos móveis: a representação de bloco passa a não estar mais na via, mas sim na cauda da composição. Dessa forma, em termos de ocupação da via, um trem ocuparia apenas a parte da via onde o mesmo realmente se encontra. Como se pode notar, a solução de blocos móveis permite uma densidade de tráfego muito maior que a outra. Todavia, como se está falando em diminuir o espaçamento entre trens, sempre se lembrando das altas distâncias de frenagem, a tecnologia envolvida numa solução de blocos móveis é muito mais avançada e cara. Informações complementares ao assunto serão abordadas no Capítulo 3:, página 21. 2.1.4.2: Princípios de Despacho Sempre levando em conta o princípio anterior e, consequentemente, a segurança, o tráfego ferroviário precisa também ser controlado, ou despachado. Assim, é possível garantir a qualidade do serviço de transporte ferroviário, evitando atrasos ou perdas de trens. O controle do tráfego pode ser feito de duas maneiras: descentralizada ou centralizada. 2.1.4.2.1: Controle de Tráfego Descentralizado Numa operação descentralizada, os trens são controlados localmente por chamadas estações de intertravamento. Em cada estação há um operador que se comunica com os operadores das estações adjacentes (THEEG & VLASENKO, 2009). Nesse modelo, a figura do despachador, que tem visão sobre muitas estações, pode ter duas funções de acordo com o modelo implantado pela ferrovia (THEEG & VLASENKO, 2009): Despachador é a autoridade - nesse modelo, o despachador emite as licenças para os trens. Para tal, os operadores de estação servem como "braços" do despachador. Operadores são a autoridade - nesse modelo, os operadores de estação emitem as licenças para os trens. O despachador apenas gerencia conflitos a fim de evitar congestionamentos e atrasos. 2.1.4.2.2: Controle de Tráfego Centralizado (CTC) Na operação centralizada, todas as máquinas de chave e sinais são remotamente operadas pelo despachador. Assim, a figura do operador de estação não mais é necessária. (THEEG & VLASENKO, 2009) Para esta operação são necessários: máquina para controlar os dispositivos remotamente, movimentos de trens licenciados por sinais e sistemas de detecção de via livre, ou bloco livre. (THEEG & VLASENKO, 2009) 2.2: Operação Ferroviária de Carga A operação ferroviária de carga tem como objetivo fazer o transporte de mercadorias de acordo com as necessidades dos clientes. Por necessitar de sua própria via de circulação, seu alcance fica limitado aos trechos onde há linha férrea. Para alcançar demais áreas é necessária a utilização de outros modais. 2.2.1: Estrutura Ferroviária A estrutura de uma ferrovia pode ser dividida em diversos segmentos. Cada segmento tem sua função específica. A Figura 2.3 mostra esses segmentos. A seguir, detalhar-se-á sobre cada uma delas. Figura 2.3 Estrutura Ferroviária (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) 2.2.1.1: Linhas de Circulação As linhas de circulação são assim chamadas por serem responsáveis pela circulação dos trens. Nessas linhas, os trens normalmente andam em velocidade máxima autorizada, com exceção em trechos com homens trabalhando ou com defeitos na linha. As linhas de circulação podem ser singelas ou duplas. As singelas são utilizadas em regiões onde há um sentido preferencial dos trens ou pouca circulação. Já as linhas duplas são utilizadas em trechos onde há intenso tráfego de trens nos dois sentidos, sendo uma linha responsável pelo tráfego em cada sentido. 2.2.1.2: Pátios e Desvios Dá-se o nome de pátio ao trecho de duas ou mais linhas em que é possível ao trem realizar a mudança da via em que trafega. Essa mudança só é possível com a utilização de aparelhos de mudança de via. Estes e, mais especificamente, as máquinas de chave, serão apresentadas na seção 3.3.3:, página 34. Os pátios, em linhas singelas, se caracterizam por terem duas conexões com a linha de circulação. Em linhas duplas, isso nem sempre ocorre, uma vez que as duas linhas são consideradas de circulação. Os pátios se dividem ainda em dois tipos: Cruzamento: tem a função de fazer o cruzamento de trens em sentidos opostos em linhas singelas. Normalmente o trem em um sentido aguarda na linha secundária do pátio a passagem de outro no sentido contrário pela linha principal, para assim então prosseguir viagem. Em linhas duplas podem ser utilizadas também apenas para a troca da linha de circulação. Manobra: tem a função de fazer a manobra de vagões para a formação de trens. Usualmente são compostas por diversas linhas em paralelo, cujos aparelhos de mudança de via são operados manual ou localmente. Essas diversas linhas não costumam ser controladas pelo despachador no centro de controle operacional. Os desvios caracterizam-se por terem apenas uma conexão com as linhas de circulação ou até mesmo das linhas de um pátio. Esses desvios podem ser utilizados para a entrada de terminais ou para o posicionamento de trens de serviço que realizam serviço dentro da própria ferrovia, por exemplo, pelas equipes de manutenção da via permanente. 2.2.1.3: Terminais Os terminais são os locais da ferrovia em que há a carga e/ou a descarga dos produtos transportados. Os terminais podem ser próprios da ferrovia ou dos clientes. À exceção da responsabilidade pelo terminal, pouco muda a operação se o terminal é próprio ou de terceiros. A localização de um terminal depende basicamente do tipo de produto e dos clientes a quem se destinam os produtos das composições que ali param. Os terminais podem tanto se localizar em um ponto definido estrategicamente pela facilidade de acesso a outros modais ou clientes quanto dentro das próprias instalações dos clientes. 2.2.2: Tipos de Trens Em sistemas ferroviários, existem, tipicamente, duas formações de trem bem distintas entre si: os trens unitários e os trens mistos. Os trens unitários são aqueles que, como o nome sugere, possui somente um tipo de vagão em toda a composição. Transporta apenas um produto e para um único cliente. Esses trens costumam operar em sistema carrossel, ou seja, sempre em trânsito entre um terminal de carga e um de descarga, sem paradas intermediárias (AREMA, 2009). Os produtos transportados por trens unitários costumam ser granéis com baixo valor agregado e com forte demanda. Tempo de ciclo entre duas cargas e o número de composições disponíveis para atender determinado cliente são o que definem a capacidade de transporte destes produtos. Os trens mistos, em contrapartida, são aqueles que transportam diversas cargas em diversos vagões. Quase sempre as diferentes cargas pertencem a diferentes clientes. Esses trens operam com itinerário e hora marcada de acordo com a demanda dos clientes. Os produtos transportados por trens mistos têm maior valor agregado, sendo muitas vezes produtos manufaturados de alta tonelagem. 2.2.3: Produtos transportados e vagões Como visto no início deste capítulo, devido às características operacionais da ferrovia, as cargas transportadas normalmente são de grande tonelagem, longa distância e origem e destino fixos (CNT, 2012). No Brasil, as principais cargas transportadas podem ser vistas na Figura 2.4. Como se pode ver, há predomínio do transporte de commodities, em especial, do minério de ferro. Figura 2.4 Produtos Transportados por Ferrovia no Brasil em 2009. Em mil TU. Fonte: ANTT Cada produto deve ser transportado por um tipo específico de vagão de acordo com suas características. A figura XX apresenta alguns vagões de carga. A seguir serão apresentados os cinco diferentes tipos básicos de vagões utilizados no transporte de cargas. Figura 2.5 Diferentes tipos de vagões de carga (adaptado de ROSA, 2011) 2.2.3.1: Vagão Fechado Segundo ROSA (2011), "os vagões fechados, como seu próprio nome indica, têm por principal característica a proteção de sua carga contra intempéries." A carga e a descarga podem ser realizadas pelas portas laterais (ROSA, 2011). Pode-se transportar produtos como cimento, celulose e até mesmo grãos. 2.2.3.2: Vagão Gôndola É o tipo de vagão que transporta produtos que não necessitam de proteção contra as intempéries (ROSA, 2011). É o mais comum no Brasil por ser o tipo mais comum no transporte de minérios. A carga e a descarga devem ser realizadas pela parte superior do vagão. Normalmente se utilizam viradores de vagão para a descarga dos mesmos (ROSA, 2011). 2.2.3.3: Vagão Plataforma Segundo ROSA (2011), "os vagões plataforma são o tipo mais flexível em termos de flexibilidade operacional, já que podem transportar todo tipo de carga." A carga e a descarga podem ser realizadas tanto pela parte superior quanto pela lateral e alguns podem ter complementos na lateral e cabeceiras (ROSA, 2011). As principais cargas transportadas são bobinas de aço, aços longos e contêineres. 2.2.3.4: Vagão Hopper Os vagões hopper se caracterizam pelo seu sistema de descarga. Sua estrutura é um grande funil na qual existem aberturas inferiores para a realização da descarga (ROSA, 2011). Podem ser tanto fechados quanto abertos, similares aos vagões gôndola. Os principais produtos transportados são grãos, farelos e até mesmo minérios. 2.2.3.5: Vagão Tanque Segundo ROSA (2011), "os vagões tanque são aqueles específicos para os granéis líquidos de todos os tipos, sejam eles corrosivos ou não, inclusive com alternativa para produtos pulverulentos." É formado por uma estrutura cilíndrica apoiada sobre estrados metálicos ou não, sendo a própria estrutura cilíndrica a estrutura do vagão (ROSA, 2011). Principais produtos transportados: combustíveis líquidos e produtos químicos, tanto líquidos quanto gasosos. 2.3: Segurança Operacional A segurança operacional é a base de qualquer operação ferroviária. Devido às grandes massas e inércias envolvidas, acidentes ferroviários costumam ser catastróficos e de grandes proporções. Além disso, causam perda de vidas, ativos e faturamento devido à interrupção do tráfego. Toda ferrovia possui seu ROF, sigla para Regulamento de Operação Ferroviária, documento que rege todas as regras a serem seguidas pelas pessoas ligadas diretamente à operação. Espera-se que o cumprimento dessas regras evite acidentes, resguardando pessoas, meio ambiente e equipamentos (ROF, 2008). Além disso, em muitos países existem órgãos governamentais que expõem em linhas gerais ao menos as regras básicas que toda ferrovia deve obedecer. Como exemplo tem-se a FRA, Federal Railroad Administration, nos Estados Unidos. A elaboração do conjunto de regras sintetizadas em um ROF não é um processo simples, necessitando de pessoas de diversas áreas da empresa e de um enorme esforço de cada uma delas, seja para sua elaboração ou revisão. Segundo DEVOE & STORY (1973), as regras devem ser as mais claras possíveis sempre contendo: procedimento, responsabilidade, autoridade, critério, definições, referências cruzadas e exceções. A importância da elaboração de regulamentos é evidenciada nos Estados Unidos. Como visto na Tabela 2.1, segundo FRA, o percentual dos acidentes ferroviários no país que tiveram causa fatores humanos passaram de 23,84% em 1976 para 36,20% em 2011. Ou seja, em 2011 mais de um terço dos acidentes foram causados por falhas humanas, dentre as quais se incluem descumprimento de procedimentos de diversos tipos. Segundo pesquisa com gestores de ferrovias norte-americanas (FRA, 1999), os principais problemas de cumprimento de regras de operações são os seguintes: Tabela 2.1 Causa de Acidentes Ferroviários nos Estados Unidos (fonte: FRA) Causa Primária 1976 2011 Variação Fatores Humanos 23,84% 36,20% +12,36p.p. Defeitos na Via 42,92% 34,14% -8,78p.p. Defeitos de Material Rodante 21,95% 11,55% -10,40p.p. Defeitos de Sinalização 0,11% 1,65% +1,54p.p Causas Diversas 11,19% 16,45% +5,26p.p. Velocidade Restrita: essa restrição acontece tipicamente quando há falhas no sistema de sinalização e, segundo a maioria dos regulamentos, define a velocidade máxima autorizada como "preparado para parar na metade do campo de visão"; Observância de Ordens via Rádio: erros de comunicação ou falta de entendimento levam os maquinistas a assumir que alguma mensagem era endereçada a eles, quando na verdade não o era; Inspecionar Composição: um maquinista deve inspecionar sua composição assim que a recebe, principalmente, o sistema de freios. A mesma pesquisa, porém, levantou maneiras de melhorar a observância das regras, que são as seguintes (FRA, 1999): Testes aleatórios de álcool e drogas; Testes anuais de regras; Testes de eficiência e observações do supervisor; Treinamento de novos empregados. Capítulo 3: Sinalização Ferroviária Como visto no Capítulo 2, segundo THEEG & VLASENKO (2009), as duas características principais de uma ferrovia são: o caminho percorrido pelos veículos é guiado pelos trilhos, necessitando de dispositivos para mudança de via; e, os veículos possuem grandes distâncias de frenagem devido ao baixo atrito entre rodas e trilhos. Aliado a isso, o fato de que os trens são guiados pela via, ou seja, o sistema possui apenas um grau de liberdade, faz com que colisões possam ser evitadas somente quando os veículos estão em determinado local em diferentes tempos (FENNER, 2007). De acordo com o exposto acima, o papel da sinalização ferroviária é garantir o máximo de trens percorrendo a mesma estrutura dada e, ao mesmo tempo, garantir que dois veículos não cheguem ao mesmo local ao mesmo tempo (FENNER, 2007). Para atingir tal objetivo, independentemente do sistema de sinalização utilizado, alguns princípios de segurança devem ser respeitados. Segundo THEEG & VLASENKO (2009), há três princípios: Todas as seções da via a frente de um trem devem estar livres e permanecer livres até a passagem desse trem; Todas as partes móveis da via devem permanecer alinhadas e travadas de acordo com a rota designadas para um trem até a passagem total desse trem pela parte móvel; As mudanças na velocidade de um trem devem ser iniciadas a uma distância suficiente para que o mesmo atinja a velocidade requerida no local desejado. Já FENNER (2007) considera que existem quatro princípios fundamentais: Ajustar, travar e proteger a rota de um trem; Permitir apenas um trem em uma seção da via; Travar uma rota até que o trem tenha passado completamente por ela ou parado com segurança; Minimizar as chances de um trem entrar em uma seção sem permissão. Assim, vê-se que apesar de algumas diferenças, ambos os conjuntos de princípios tem relação direta com a dificuldade que há para se parar um trem em situações de emergência. Ou seja, evita-se qualquer possibilidade de dois trens estarem no mesmo local ao mesmo tempo, desde que os veículos obedeçam às licenças e limites de velocidade estabelecidos pela sinalização ferroviária. 3.1: Evolução dos Sistemas de Sinalização A criação e a evolução dos sistemas de sinalização ferroviária estão intimamente ligados à necessidade de se aumentar o fluxo e a velocidade dos trens numa mesma malha ferroviária. 3.1.1: Origens Nas primeiras ferrovias existentes, não havia sistemas de sinalização quaisquer. O principal objetivo era fazer com que um trem saísse de sua origem e chegasse ao seu destino, sem causar acidentes (CAZELLI, 2012). Quando da existência de tráfego simultâneo nos dois sentidos, tornava-se necessário eleger um pátio para, obrigatoriamente, cruzar esses trens em sentido contrário entre a origem e o destino dos mesmos. Por exemplo, na Figura 3.1, vê-se que os trens um e dois só podem deixar a estação C quando ambos se cruzarem nesta mesma estação (CAZELLI, 2012). Figura 3.1 Pátio de Cruzamento (CAZELLI, 2012) 3.1.2: Utilização de meios de comunicação Conforme o volume de tráfego aumentava, tornou-se necessário aumentar o número de cruzamentos obrigatórios entre trens de sentidos opostos. Esse aumento tornou a operação cada vez mais complexa e houve necessidade de maior controle sobre o tráfego. Além disso, o aumento da velocidade de alguns trens tornou necessário o início de manobras de ultrapassagem. Assim, a utilização de comunicação entre estações e o registro das partidas e chegadas dos trens nas estações foi possível através do telégrafo. (CAZELLI, 2012) Concomitantemente, surge o conceito de licenciamento. O licenciamento nada mais é que uma autorização de movimento por ordem escrita. Assim, quando uma licença era emitida a um trem, a mesma era informada às estações seguintes para que os operadores dessas estações não licenciassem trens para o mesmo trecho (CAZELLI, 2012). 3.1.3: Intertravamento e Sinais Mecânicos Sinais mecânicos foram desenvolvidos com a funcionalidade de fornecer uma indicação aos maquinistas da posição da chave (CAZELLI, 2012). Um sinal levantado indicava que a chave estava corretamente posicionada e, assim, que o maquinista poderia prosseguir. A Figura 3.2 mostra um exemplo de sinal mecânico. Figura 3.2 Sinal Mecânico (CAZELLI, 2012) Por volta de 1860, os primeiros dispositivos mecânicos surgiram na GrãBretanha. Eles eram compostos de alavancas para operação de elementos a partir de uma estação e também provinha o intertravamento entre esses elementos (THEEG & VLASENKO, 2009). Figura 3.3 Alavancas de Operação e Intertravamento Mecânicos (CAZELLI, 2012) Um exemplo de intertravamento fornecido era a alavanca de um sinal mecânico, que só o poderia abrir se a chave próxima a ele estivesse corretamente posicionada. Em contrapartida, a alavanca do sinal que controla o sinal em sentido oposto ao mencionado ficaria travada com a abertura do mesmo sinal citado anteriormente (CAZELLI, 2012). No mesmo período surgiu o conceito de Seção de Bloqueio: "trecho de via férrea, de limites definidos, cuja utilização para movimento de trens é controlada por sinais de bloqueio". (CAZELLI, 2012). Segundo seu conceito, uma seção de bloqueio pode ser ocupada por apenas um trem por vez, portanto seus sinais de bloqueio devem permanecer fechados para qualquer outro trem que tente o adentrar. Com as tecnologias apresentadas, já se era possível controlar o tráfego de trens sem a necessidade de licenças verbais ou escritas passadas ao maquinista pelo operador de estação. Contudo, isso não era feito, pois toda a segurança estava nas mãos do homem. Dessa forma, as licenças ainda eram transmitidas aos maquinistas em todas as estações a fim de se mitigar possíveis incidentes e acidentes. 3.1.4: Circuitos de Via, Sinais Luminosos e Intertravamento a Relés Inventado em 1872 por William Robinson, o Circuito de Via é utilizado para a detecção de trens dentro de uma seção de bloqueio. Seu princípio de funcionamento é a injeção de uma corrente em uma extremidade da seção e a recepção pelo outro (CAZELLI, 2012). A passagem dos rodeiros na seção causa um curto-circuito de forma que a não chegada de corrente ao receptor indica a ocupação dessa seção de bloqueio. Um exemplo pode ser visto na Figura 3.4. Figura 3.4 Esquema de um Circuito de Via (CAZELLI, 2012) Com o advento e a diminuição do custo de utilização de energia elétrica, foi possível substituir os então sinais mecânicos por luminosos. Os sinais luminosos apresentam como principal vantagem sua melhor visualização, principalmente à noite. A Figura 3.5 mostra um exemplo de sinaleiro luminoso. Figura 3.5 Sinaleiro Luminoso Além disso, os sinais luminosos podem apresentar diferentes aspectos de acordo com a cor, combinação de cores ou intermitência. Cada aspecto indica uma velocidade máxima e um modo de operação até, normalmente, o próximo sinal. (CAZELLI, 2012). Ao fim da Segunda Guerra Mundial, surgiram os primeiros sistemas de intertravamento a relés (THEEG & VLASENKO, 2009). Esses sistemas se caracterizam pela utilização de relés especiais que minimizam a possibilidade de falhas inseguras. Segundo THEEG & VLASENKO (2009), as principais características desses relés são: Tem um alto limiar de operação, a fim de evitar que o mesmo seja energizado erroneamente; Todos os contatos que pertencem a uma mesma armadura rigidamente, de forma que se um contato está em uma posição, é possível afirmar que todos os demais também o estão; Os contatos são feitos de materiais especiais que não se colam ou se fundem. Com o advento das tecnologias descritas nesse tópico, foi possível a invenção do CTC, Controle Centralizado de Tráfego. Esse modelo de controle permitiu aumento significativo da velocidade e da densidade de tráfego na malha. Ele é apresentado nas seções 2.5.4 e 3.5.2. 3.2: Sinais O objetivo dos sinais é fornecer informações e instruções às pessoas, sejam elas maquinistas ou pessoas ao longo da via. Sinais são a interface entre os equipamentos e as pessoas (THEEG & VLASENKO, 2009). Exemplos de informação a ser comunicadas pelos sinais são (THEEG & VLASENKO, 2009): Licenças de movimento; Velocidade permitida; Direção da rota; Posição de chaves. Segundo THEEG & VLASENKO (2009), os sinais devem ainda satisfazer alguns requisitos: O maquinista deve reconhecer facilmente o sinal e seu aspecto; A informação dada pelo sinal não deve possuir ambiguidade; A mesma informação deve ser dada sempre da mesma maneira; A informação deve ser dada no momento certo, nem mais cedo, nem mais tarde; Falha segura. Em caso de falha, o sinal deve mostrar sempre um aspecto mais restritivo ou não mostrar aspecto algum. Os sinais utilizados mundialmente variam de acordo com o país e a empresa fornecedora da solução de sinalização. Sendo assim, os sinais possuem diversas classificações, dentre as quais se destacam (THEEG & VLASENKO, 2009): 1. Tecnologia de apresentação: a. Sinais de mão: manualmente por pessoas; b. Sinais mecânicos: de acordo com a posição de objetos que o compõem; c. Sinais luminosos: de acordo com o arranjo e diferença de cores; 2. Formação dos aspectos: a. Sinais luminosos coloridos: os aspectos são diferenciados apenas pela cor das luzes do sinal; b. Sinais luminosos de posição: os aspectos são diferenciados apenas pela posição das luzes do sinal; c. Sinais luminosos coloridos de posição: os aspectos são diferenciados por ambas cor e posição das luzes do sinal. Como os sinais luminosos são os mais utilizados atualmente e possuem tecnologia mais recente dentre os citados, eles serão abordados a seguir. 3.2.1: Sinais Luminosos Os sinais luminosos apresentam como principal vantagem em relação aos demais: a facilidade de ser visualizado, principalmente à noite; e, junto com sistemas de intertravamento a relé, serem comandados à distância. Esses sinais normalmente situam-se às margens das vias de forma a serem melhor visualizados pelos maquinistas. Sua principal função é transmitir visualmente os aspectos de licenças e limites de velocidade (CAZELLI, 2012). Os sinais luminosos mais usualmente utilizados são os coloridos, ou seja, a cor da luz acesa indica seu aspecto. Os sinais desse tipo podem ser construídos de duas maneiras: Sinais unifocais: o sinal é representado por apenas um foco, internamente há um conjunto de lentes de cores diferentes que se movem para formar o aspecto. Também conhecido como sinal searchlight; Sinais multifocais: cada sinal apresenta mais de um foco, ou seja, possui um foco para cada cor. Historicamente os sinais luminosos tinham como fonte de luz lâmpadas incandescentes. Por não haver soluções melhores, grande parte dos sinais ainda utiliza essa tecnologia (THEEG & VLASENKO, 2009). Recentemente, passaram-se a utilizar também diodos emissores de luz, ou LED, por possuírem maior vida útil, manutenção mais fácil, baixo consumo de energia (THEEG & VLASENKO, 2009). Os aspectos de sinais e seus significados variam de acordo com a ferrovia na qual estão instalados. Os aspectos são regulamentados de acordo com o Regulamento de Operações Ferroviárias de cada ferrovia. No Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT, criou um padrão de aspectos e significados. A Figura 3.6 ilustra esses aspectos. Figura 3.6 Aspectos de sinais luminosos e seus significados (adaptado de ABNT apud CAZELLI, 2012) 3.3: Aparelhos de Mudança de Via Os aparelhos de mudança de via são elementos que possuem partes móveis. Podem ser utilizados para transferir o material rodante de uma via para outra, fazer o cruzamento de vias e proteger que veículos façam movimentos não autorizados, através do descarrilamento dos mesmos. (THEEG & VLASENKO, 2009). Embora existam diversos aparelhos de mudança de via de acordo com as diversas situações em que se necessita suprir as funções descritas acima, este trabalho focará nas chaves. 3.3.1: Chaves Uma chave é um aparelho de mudança de via que faz a interface somente entre duas vias. A Figura 3.7 representa a estrutura de chave e suas principais partes. Figura 3.7 Esquema de chave (adaptado de BRINA, 1979) A máquina de chave é a parte responsável pelo dispositivo de movimentação da chave. Nela estão presentes os tirantes de operação, que causam a movimentação das agulhas; e, quando existentes, os tirantes de indicação, que indicam a correspondência da chave em uma posição: normal ou reversa. As agulhas são as partes efetivamente móveis de uma chave. Elas são as responsáveis por fechar o caminho a ser percorrido pelas rodas de um veículo ferroviário, levando-o para determinada via. Os contratrilhos são os trilhos que impedem que as rodas, ao passarem pelo jacaré, entrem na via errada e ocasionem um descarrilamento. O jacaré é a região de intersecção entre as duas vias. Neste ponto é onde podem ocorrer desvios de uma roda, causando descarrilamento do veículo. Desse fato surge a necessidade da utilização de contratrilhos. 3.3.2: Associações de Chaves De acordo com a necessidade, diferentes layouts podem ser formados a partir da associação de duas ou mais chaves. A Figura 3.8 apresenta as mais facilmente encontradas. Figura 3.8 Exemplos de arranjos de chaves (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) Um travessão é um arranjo simples entre duas chaves e solução típica de conexão entre duas linhas paralelas (THEEG & VLASENKO, 2009). Podem ser tanto operadas em conjunto quanto individualmente, porém o alinhamento de rotas depende de as duas estarem em posição favorável a essa rota. Um travessão duplo ou travessão universal é a junção de dois travessões, podendo ser juntos, como na Figura 3.8, p. 33, ou separados. Dessa forma, todas as possibilidades de rota podem ser realizadas. A fim de garantir a segurança, movimentos retos nas linhas podem ser realizados independentemente, mas qualquer rota com mudança de linha bloqueia outras rotas (THEEG & VLASENKO, 2009). Linhas em feixe são formadas por duas ou mais chaves com mesmo ângulo para separar uma linha em três ou mais (THEEG & VLASENKO, 2009). São utilizados normalmente em pátios de manobra com diversas linhas, pois sua configuração permite maior densidade de malha, ou seja, melhor aproveitamento do espaço. 3.3.3: Máquinas de chave Dá-se o nome de máquinas de chave aos dispositivos responsáveis pela movimentação das agulhas de um aparelho de mudança de via (CAZELLI, 2012). Sendo três, as funções associadas ao movimento (THEEG & VLASENKO, 2009): Alterar a posição da chave: aplicar força sobre as agulhas; Travar a chave: segurar as agulhas na posição após o término do movimento; Supervisionar a chave: indicar a posição atual das lâminas às pessoas de interesse e/ou ao sistema de sinalização. A indicação, em especial, é muito importante por questões de segurança. Um trem que passe sobre uma chave que não está corretamente posicionada e indicada pode gerar destruição da máquina de chave e, no pior dos casos, descarrilamentos ou colisões com veículos que estão na linha adjacente. As máquinas de chave podem ser talonáveis ou não-talonáveis. As primeiras permitem que os rodeiros do trem, ao passarem por sobre as agulhas em posição contrária, movimente-as a fim de permitir sua passagem e a não quebra da chave. As últimas, em contrapartida, não permitem esse movimento das agulhas, sendo elas travadas mecanicamente (CAZELLI, 2012). Os tipos mais comuns de máquinas de chave são (THEEG & VLASENKO, 2009): Manual: são operadas local e manualmente através da movimentação de uma alavanca; Eletro-pneumáticas: o movimento das agulhas é governado pela força do ar armazenado em reservatórios; Eletromagnéticas: a energia elétrica é transformada em energia mecânica através de solenóides; Eletromecânicas: a energia elétrica é transformada em mecânica através de motores conectados a engrenagens; Eletro-hidráulicas: o movimento das agulhas é governado por motores hidráulicos. 3.3.4: Máquinas de Chave Elétricas Dá-se o nome de máquinas de chave elétricas às maquinas eletromecânicas e eletro-hidráulicas, por serem as mais comumente utilizadas (THEEG & VLASENKO, 2009). Este trabalho focará apenas nas máquinas de chave eletromecânicas. As máquinas de chave elétricas possuem algumas características peculiares (THEEG & VLASENKO, 2009): Tempo de operação: dependendo do modelo, conseguem operar em até um mínimo de 2 a 7 segundos; Centralização da operação: podem ser operadas de maneira centralizada numa estação ou centro de controle, ou de maneira local; Travamento mecânico: podem ser talonáveis, ou não-talonáveis; Comutação dos circuitos operacionais e de supervisão: os mecanismos de contato são aplicados usando contatos mecânicos ou sem contatos. Esse tipo de máquina de chave também pode ser operado manualmente em modo degradado. Quando se utiliza essa operação, deve-se cortar a energia da máquina por questões de segurança (THEEG & VLASENKO, 2009). As características de centralização e pouco tempo de operação tornaram viáveis a operação remota e popularização desse tipo de máquina de chave. 3.3.4.1: Operação da Máquina de Chave Elétrica (THEEG & VLASENKO, 2009) A seguir serão apresentados a operação e os componentes de uma máquina de chave elétrica e sua interface com as agulhas do aparelho de mudança de via. A Figura 3.9 mostra as partes de uma máquina de chave. Figura 3.9 Partes de uma máquina de chave (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) A energia elétrica é convertida por um motor de corrente contínua ou alternada em energia mecânica. O rotor do motor está conectado em uma caixa de redução, formada normalmente por um jogo de engrenagens, para aumentar o torque aplicado. O movimento rotativo é transferido para a progressão dos tirantes de operação que movimentam as agulhas da chave. Os contatos de detecção verificam a posição das agulhas através da conexão com os tirantes de indicação. Os contatos fecham de acordo com o alinhamento das agulhas, indicando para qual posição a chave está alinhada, ou se não está alinhada corretamente para nenhuma das duas posições. 3.4: Detecção Os sistemas de detecção são utilizados para fornecer informação da posição de objetos e veículos na ferrovia. Essas informações são utilizadas, principalmente, para questões de segurança e prevenção de acidentes por licenciamento (THEEG & VLASENKO, 2009). Os tipos de objetos que podem ser detectados são os seguintes (THEEG & VLASENKO, 2009): Veículos ferroviários: trens e veículos rodoferroviários; Objetos em passagens de nível: veículos rodoviários e pessoas não relacionadas à ferrovia, que cruzam a mesma; Obstáculos: todos os outros objetos que possam de alguma forma interferir no movimento dos veículos ferroviários. 3.4.1: Propósito da detecção (THEEG & VLASENKO, 2009) Basicamente, a detecção tem três propósitos: detectar a chegada de um veículo a um determinado ponto, o término da passagem de um veículo de um determinado ponto, e a liberação da via. Cada um será detalhado a seguir. A chegada de um trem a determinado ponto é imprescindível para as seguintes situações ou funções: Fechar passagens de nível ativas com a aproximação de trens; Fechar um sinal assim que um trem o cruzar; Acendimento de sinais por aproximação, para economia de lâmpadas; Suporte a decisões de controle de tráfego; O término da passagem de um trem por determinado ponto é importante para definir que um veículo chegou a esse ponto e sua parte final também passou por esse ponto. Exemplos de utilização dessa informação são: Abrir uma passagem de nível ativa após a passagem do trem; Liberar uma rota após a passagem do trem por ela; Desbloquear determinado bloco após a passagem do trem. Por fim a detecção de via livre é utilizada para duas funções: a via deve estar livre para se permitir o licenciamento de um trem para ela; e, aparelhos de mudança de via necessitam estar livres, ou seja, sem veículos passando sobre eles, para serem operados. 3.4.2: Circuito de Via Como visto na seção 3.1.4:, p. 25, circuitos de via são utilizados para a detecção de trens através da injeção e recepção de corrente elétrica no trilho. Para delimitar um circuito de via e, também, evitar a interferência de um circuito no adjacente, são instaladas juntas isolantes entre os trilhos. Essas juntas, como o nome sugere, isolam eletricamente um circuito do outro. Circuitos de via funcionam no princípio de falha segura, ou seja, quando há alguma falha no circuito de via, ele indica uma situação mais restritiva. Nesse caso, a situação mais restritiva é a indicação de ocupação. Os circuitos de via podem ser de três tipos (CAZELLI, 2012): Circuito de via de corrente contínua: são normalmente utilizados para circuitos codificados, que transmitem informações de velocidade ou aspecto de sinal. Sua principal vantagem é o alcance de até 5.000m; Circuito de via de corrente alternada: também podem ser utilizados para codificação em frequência, porém seu alcance é menor, de até 3.000m; Circuito de via de impulsos de tensão elevada: injetam impulsos de tensão ao redor de 100V em determinada frequência. Sua grande vantagem é a alta imunidade contra interferências; Circuito de via em audiofreqüência: transmitem sinal em freqüências na casa de kilo Hertz. Usam chaveamento de frequência e sincronismo para comparar o sinal emitido com o captado. Podem ser instalados sem juntas isolantes. 3.4.3: Contadores de Eixos Outra maneira de detectar a presença de um trem em uma seção da via é a utilização de contadores de eixos. Esses dispositivos utilizam sensores eletromagnéticos instalados nos trilhos que, com a variação do fluxo magnético causado pela passagem dos rodeiros, contam-nos (CAZELLI, 2012). A Figura 3.10 mostra um exemplo de sistema de contadores de eixos. Figura 3.10 Sistema de Contadores de Eixos (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) Os contatos (sensores) detectam a passagem de um rodeiro. A fim de se detectar o sentido do movimento, utilizam-se dois sensores próximos (THEEG & VLASENKO, 2009). O digitalizador transforma o sinal analógico em digital. Normalmente são situados próximos aos sensores de forma a não perder o sinal analógico (THEEG & VLASENKO, 2009). O avaliador calcula informações de acordo com as informações do digitalizador. As informações fornecidas são “via livre” ou “via ocupada” de acordo com o número de eixos contados (THEEG & VLASENKO, 2009). Para funcionar como detetor de um segmento de via, é necessário a utilização de sensores nas duas extremidades dessa seção (CAZELLI, 2012). A Figura 3.11 exemplifica esse layout. Figura 3.11 Utilização de contadores de eixos para detecção (fonte: CAZELLI, 2012) O trem ao entrar nessa seção faz com que haja incremento do no contador de eixos. Ao sair da seção, passando pelo outro contador, causa um decremento no número de eixos da seção. A seção é dada como livre quando a conta chega a zero (CAZELLI, 2012). Erros típicos que podem acontecer nesse sistema são: eixo que passa sem ser contado, eixo contado duas vezes, eixo que não passa e é contado, eixo contado para a direção errada. Quando isso acontece, é necessário reiniciar os contadores, mas antes, deve-se verificar que realmente a via está livre (THEEG & VLASENKO, 2009). 3.4.4: Comparação entre circuitos de via e contadores de eixos A utilização de um sistema ou outro para a detecção é uma decisão técnica de cada ferrovia. Normalmente, utilizam-se circuitos de via onde se deseja obter informações de trilhos partidos ou para a transmissão de informação via trilhos. Já os contadores de eixos são mais utilizados quando se deseja somente a função de detecção, dada sua maior confiabilidade (THEEG & VLASENKO, 2009). A Tabela 3.1 compara as duas soluções, mostrando suas vantagens e desvantagens. Tabela 3.1 Tabela comparativa: Circuito de Via x Contadores de Eixos (adaptado de THEEG & VLASENKO, 2009) Item Circuito de Via Contadores de Eixos Não detecção de Veículos completamente Veículos colocados na via veículos ferroviários descarrilados há pouco tempo Detecção de obstáculos Somente em poucos Não casos Detecção de trilho Parcialmente Não Requerimentos dos Rodas e eixos condutores Rodas ferromagnéticas veículos elétricos Requerimentos da via Isolamento elétrico partido Sem requerimentos especiais Tratamento do retorno Necessárias medidas Não necessário de correntes de tração especiais Problemas de excesso Presente, devido ao de tensão (queda de aterramento de muitos raios) dispositivos aos trilhos Sensibilidade a Relativamente alta Baixa Limitadas pela eletricidade Ilimitadas Extremamente baixa Extremamente baixa Relativamente alta Baixa Leve influências climáticas Tamanho das seções de via Frequência de falhas inseguras Frequência de outras falhas 3.5: Sistemas de Supervisão e Controle de Tráfego Os sistemas de supervisão e controle de tráfego são utilizados para melhorar a segurança e a capacidade de uma ferrovia. Os sistemas de supervisão atuam diretamente nos trens, através de equipamentos de bordo, e os de controle são de nível gerencial, de manipulação do tráfego e emissão de licenças para os trens. Ambos os sistemas tem sua capacidade definida pelo sistema de sinalização utilizado, uma vez que é este que define o nível de sofisticação e os protocolos de comunicação entre campo e centro de controle e entre elementos do campo. 3.5.1: Sistemas de Supervisão Segundo FENNER (2007), historicamente os condutores não recebiam o mesmo tipo de suporte recebido pelos controladores de tráfego devido a suas tarefas serem muito baseadas em resposta a informações recebidas, ou seja, comandos por voz ou por sinalização de campo. Entretanto, conforme o avanço da tecnologia e o aumento de falhas humanas por descumprimento de licença, sistemas de supervisão começaram a ser utilizados através de equipamentos a bordo das locomotivas. Os sistemas de bordo não se limitam apenas a mostrar o aspecto do sinal à frente de maneira contínua ao maquinista, mas também à supervisão e monitoramento das licenças e velocidades dos trens de acordo com a tecnologia implantada (CAZELLI, 2012). A seguir serão apresentadas algumas tecnologias utilizadas para supervisão de trens. 3.5.1.1: Automatic Train Stop (ATS) A licença do veículo é monitorada e, sempre que há alguma quebra de licença, o sistema atua diretamente nos freios parando o veículo (CAZELLI, 2012). 3.5.1.2: Automatic Train Protection (ATP) Uma evolução do sistema acima pois monitora a velocidade constantemente. Quando um trem tem de reduzir sua velocidade devido a um sinal vermelho a frente, ou alguma restrição de velocidade do trecho, o processo de frenagem é supervisionado continuamente ou em certos pontos por este sistema (THEEG & VLASENKO, 2009). Para que haja monitoramento contínuo da velocidade, são necessárias curvas de frenagem para diversos trens-tipo que circulam na ferrovia (THEEG & VLASENKO, 2009). Todas devem estar armazenadas nos equipamentos de bordo e serem escolhidas de acordo com a formação do trem. 3.5.1.3: Automatic Train Operation (ATO) Também conhecido como piloto automático. São responsáveis por fazer a operação dos trens de acordo com a programação do centro de controle operacional (CAZELLI, 2012). Executa as partidas, marchas e paradas dos trens, controlando também o tempo de parada, abertura e fechamento de portas no caso de trens de passageiros (CAZELLI, 2012). Normalmente, os trens com sistema ATO possuem três modos de operação: Melhor desempenho (percurso em menos tempo), Economia de Energia e Baixa Aderência (para dias de chuva, por exemplo) (CAZELLI, 2012). As velocidades e curvas de frenagem de um sistema ATO são obtidas de um sistema ATP que fará a supervisão das mesmas (CAZELLI, 2012). 3.5.1.4: Automatic Train Control (ATC) De um modo geral, esses sistemas podem ser entendidos como a soma de dois sistemas apresentados anteriormente: ATP e ATO (CAZELLI, 2012). As principais funções desse sistema são (CAZELLI, 2012): Interpretar os códigos da via, que indicam a velocidade máxima autorizada; Emitir alertas quando há mudança de código na via, ou seja, mudança de velocidade; Supervisionar a velocidade real, comparando-a com a velocidade autorizada; Aplicar o perfil de frenagem quando da mudança de código na via; Aplicar frenagem de serviço quando há infração de velocidade; Aplicar frenagem de emergência na insuficiência da frenagem de serviço. 3.5.2: Sistemas de Controle de Tráfego Como visto na Seção 2.1.4:, p. 10, os sistemas de controle de tráfego são utilizados para gerenciar o tráfego ferroviário de acordo com as regras e prioridades de circulação. O Controle de Tráfego Centralizado (CTC) se tornou o modelo mais difundido de sistema de controle. Segundo CAZELLI (2012), "atualmente são concebidos com arquitetura distribuída (redundante), de conexão aberta, cliente-servidor, com conexão via rede local: consoles de comando, servidores, painéis de visualização e integração com sistemas gerenciais e corporativos." A Figura 3.12 mostra o esquema em blocos da estrutura do centro de controle e sua interface com o campo. Figura 3.12 Esquema em blocos de um Centro de Controle Operacional (CAZELLI, 2012) As principais funções de um Centro de Controle Operacional são (CAZELLI, 2012): Comandos de rotas, comando de rotas em modo automático; Comando de AMV e sinais, sinais em modo automático; Representação das vias e estados de seus componentes; Indicação de restrições na via; Rastreamento dos trens por prefixo; Programação operacional por Gráfico Horário de Trens (GHT); Despacho automático pela programação do GHT; Previsão de chegada ao destino; Registro de eventos; Estatísticas operacionais. Capítulo 4: Métodos de Análise de Falhas A manutenção é o processo pelo qual se busca garantir a minimização dos impactos causados por falhas de determinados sistemas em operação e, também, manter seus níveis de performance e disponibilidade. A manutenção pode ser corretiva ou preventiva. Segundo LAFRAIA (2001), manutenção pode ser definida como "conjunto de ações destinadas a manter ou recolocar um item num estado no qual pode executar sua função requerida." Do ponto de vista econômico, uma boa manutenção garante um custo de produção a um custo global otimizado (MONCHY, 1989 apud SUCENA, 2002). Ou seja, um bom plano de manutenção procura mitigar perdas inesperadas de produção devido a falhas em operação. De forma a auxiliar a compreensão e facilitar a manutenção desses sistemas, existem métodos de análise de falhas. Os dois principais, FTA e FMEA, serão melhor explicados neste capítulo. 4.1: Confiabilidade Quando se adquire um produto ou sistema, espera-se que o mesmo tenha a vida útil máxima possível e que apresente o mínimo de falhas possível nesse período (LAFRAIA, 2001). A confiabilidade tenta representar quantitativamente esse desejo. A confiabilidade de um sistema ou componente está relacionada com a probabilidade desse sistema ou componente não falhar. LAFRAIA (2001), assim a define: "Probabilidade de que um componente, equipamento ou sistema exercerá sua função sem falhas, por um período de tempo previsto, sob condições de operação especificadas." A partir dessa definição se pode verificar quatro pontos sobre a confiabilidade (LAFRAIA, 2001): É uma probabilidade; Há definição do desempenho esperado; Há definição do tempo de operação exigido entre falhas, e; Há definição das condições ambientais em que o sistema irá operar. Portanto, dadas as definições do desempenho esperado e das condições ambientais, a confiabilidade é a probabilidade de um sistema não falhar no tempo pré-estabelecido ou desejado. A confiabilidade, então, pode ser matematicamente representada assim (LAFRAIA, 2001): Equação 4.1 Fórmula da Confiabilidade Na Equação 4.1, C(t) representa a confiabilidade e F(t) a probabilidade de falha no tempo t. 4.1.1: Outras Definições Com o objetivo de se garantir o entendimento completo desse texto, alguns conceitos relacionados à confiabilidade precisam ser definidos. Os mesmos serão definidos segundo LAFRAIA (2001): Função: Toda e qualquer atividade que o item desempenha, sob o ponto de vista operacional; Falha: Perda de uma função; Causa da Falha: Circunstância que induz ou ativa um mecanismo de falha; Modo de Falha: Conjunto de efeitos pelos quais uma falha é observada. 4.2: FMEA A FMEA, Failure Mode and Effect Analysis, em português, Análise de Modo de Falha e Efeito, é uma ferramenta para prevenção de falhas de um sistema através da análise de falhas potenciais (TOLEDO e AMARAL, 2012). A FMEA pode se dividir em duas (LAFRAIA, 2001): FMEA de produto e FMEA de processo. A primeira tem como objetivo mitigar falhas no produto final que possam ser identificadas e corrigidas no projeto. A última, evitar falhas decorrentes do processo de fabricação de determinado produto. Alguns benefícios do FMEA são (LAFRAIA, 2001): Redução das falhas potenciais em serviço; Desenvolver uma metodologia de prevenção de falhas, em vez de haver tratamento reativo às falhas; Por tratar-se de análise de potenciais falhas, a equipe responsável por sua elaboração deve ser multidisciplinar (TOLEDO e AMARAL, 2012). Dentre os papéis, normalmente se encontram Engenheiros de Produção, Projetistas de Produto e Engenheiros de Qualidade (LAFRAIA, 2001). A utilização desta ferramenta é baseada na utilização de um formulário específico. Um exemplo deste formulário pode ser visto na Figura 4.1. Figura 4.1 Exemplo de formulário para FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) O primeiro passo é definir se o FMEA é de produto ou processo. Em seguida, preenchem-se as três primeiras colunas com os dados de Item, Componente/Processo e Funções (LAFRAIA, 2001). Os modos de falha, como mencionado anteriormente, são como as falhas são observadas. Portanto, os próximos passos são listar os possíveis modos de falha e seus efeitos para o sistema e para o usuário ou cliente. Logo em seguida, necessita-se levantar as causas das falhas e os meios de detecção. LAFRAIA (2001) mostra a relação entre causa, modo e efeito de falha de acordo com o nível de detalhamento que se deseja utilizar na análise. A Tabela 4.1 exemplifica essa questão. Tabela 4.1 Exemplo dos efeitos das falhas de componentes (adaptado de LAFRAIA, 2001) Sistema Subsistema Componente Parte Processo de Fabricação Efeito Modo Efeito Causa Modo Efeito Causa Modo Efeito Causa Modo Efeito Causa Modo Causa 4.2.1: Análise de Criticidade A criticidade representa o risco que uma determinada falha pode levar à segurança do sistema analisado ou do usuário/cliente. A análise de criticidade ou de risco "é o processo ou procedimento para identificar, caracterizar, quantificar e avaliar os riscos e seu significado." (LAFRAIA, 2001) O risco pode ser calculado pela seguinte fórmula, sendo cada elemento explicado em seguida (LAFRAIA, 2001): Risco = Probabilidade de Ocorrência x Detecção x Severidade Cada item deve ser observado independentemente, ou seja, embora se possa pensar diretamente no risco associado a uma falha (junção dos três parâmetros), cada um deve ser analisado separadamente. Por exemplo, o vazamento de resíduos nucleares de uma usina possui uma severidade altíssima, porém a probabilidade de ocorrência é baixíssima, o que leva ao risco não ser tão alto. A probabilidade de ocorrência está ligada diretamente a quão frequente cada sistema ou componente falha, independentemente de seus dos seus efeitos. LAFRAIA (2001) sugere uma classificação de acordo com a taxa de falhas, vista na Tabela 4.2. Tabela 4.2 Tabela de Probabilidade de Ocorrências (adaptado de LAFRAIA, 2001) Probabilidade de Falha Ranking Taxa de Falhas Remota: a falha é improvável 1 < 1 em 106 Baixa: relativamente poucas falhas 2 1 em 20.000 3 1 em 4.000 4 1 em 1.000 5 1 em 400 6 1 em 80 7 1 em 40 8 1 em 20 9 1 em 8 10 1 em 2 Moderada: falhas ocasionais Alta: falhas repetitivas Muito alta: falhas quase que inevitáveis A detecção está relacionada com a facilidade ou a probabilidade de uma falha ser detectada pelo usuário. LAFRAIA (2001) sugere uma classificação subjetiva de acordo com a probabilidade de detecção, vista na Tabela 4.3. Tabela 4.3 Tabela de Probabilidade de Detecção (adaptado de LAFRAIA, 2001) Probabilidade de Detecção Ranking Muito alta: a falha será certamente detectada durante o processo de 1 projeto/fabricação/montagem/operação 2 Alta: boa chance de determinar a falha 3 4 Moderada: 50% de chance de determinar a falha 5 6 Baixa: não é provável que a falha seja detectável 7 8 Muito baixa: a falha é muito improvavelmente detectável 9 Absolutamente indetectável: a falha não será detectável com certeza 10 A severidade está ligada à gravidade das consequências da falha de um determinado sistema ou subsistema. LAFRAIA (2001) sugere uma classificação subjetiva de acordo com a severidade das consequências, vista na Tabela 4.4. Tabela 4.4 Tabela de Severidade (adaptado de LAFRAIA, 2001) Severidade das conseqências Ranking Marginal: a falha não teria efeito real no sistema. O cliente 1 provavelmente nem notaria a falha Baixa: a falha causa apenas pequenos transtornos ao cliente. O 2 cliente notará provavelmente leves variações no desempenho do sistema. 3 Moderada: a falha ocasiona razoável insatisfação no cliente. O cliente 4 Ficará desconfortável e irritado com a falha. O cliente notará razoável 5 deterioração no desempenho. 6 Alta: alto grau de insatisfação do cliente. O sistema se torna 7 inoperável. A falha não envolve riscos à segurança operacional ou o descumprimento de requisitos legais. 8 Muito alta: a falha envolve riscos à operação segura do sistema e/ou 9 Descumprimento de requisitos legais. 10 Por fim, o RPN, Risk Priority Number, ou Número de Prioridade de Risco, do formulário da FMEA (Figura 4.1, p. 49) é anotado como o produto dos elementos citados anteriormente (LAFRAIA, 2001). Dessa forma é possível elencar quais falhas ou sistemas devem ser tratados prioritariamente. 4.3: FTA A Análise de Árvore de Falhas, ou Fault-Tree Analysis, é uma metodologia que, a partir de um evento de falha, busca descobrir todas as possíveis causas raiz. É um processo dedutivo e pode ser utilizado para avaliação de riscos (ERICSON, 1999). O descrito acima refere-se à análise qualitativa, porém a análise quantitativa também é possível para calcular a probabilidade de que um evento indesejado ocorra de acordo com as probabilidades de falhas das suas causas raiz (LAFRAIA, 2001). Segundo CLEMENS (1993), o FTA é melhor utilizado para eventos de alto risco, com diversos contribuintes e em sistemas ou processos complexos, de vários elementos. Já ERICSON (1999) diz que a metodologia pode ser aplicada para certificações, investigação de acidentes/incidentes/anomalias e para descobrir a causa raiz de eventos em cascata. Como limitações da metodologia, pode-se citar que ela não permite determinação direta de itens críticos e execução de análise de criticidade (LAFRAIA, 2001). Além de não ser um modelo para todas as falhas possíveis de um sistema (ERICSON, 1999). 4.3.1: Estrutura e Simbologia A árvore de falhas é montada à partir de um evento-topo, descendo até os eventos básicos, fazendo a inter-relação entre cada um deles. A Figura 4.2 mostra os elementos básicos de uma árvore de falhas. Figura 4.2 Elementos de uma Árvore de Falhas (adaptado de CLEMENS, 1993) Segundo CLEMENS (1993), os elementos assim se caracterizam: Evento Topo: representa o evento a ser estudado, evento previsível e indesejado; Evento Intermediário: representa um estado do sistema causado pelos eventos básicos. Utiliza o mesmo elemento do evento topo; Evento Básico: falha inicial, não desenvolvida adiante. Limita a análise; Porta OU: porta lógica que produz uma saída verdadeira quando qualquer uma de suas entradas for verdadeira; Porta E: porta lógica que produz uma saída verdadeira quando todas as suas entradas forem verdadeiras. 4.4: Relação entre FMEA e FTA Ambos FMEA e FTA são ferramentas para estudo e previsão de falhas em produtos e processos (LAFRAIA, 2001). Porém cada ferramenta tem suas características, prós e contras, como visto neste capítulo. Há, ainda, uma relação entre essas duas ferramentas. Segundo LAFRAIA (2001), cada um dos eventos intermediários são modos de falha que podem ter suas causas, evento básico na FTA, estudadas. Assim, é possível fazer a análise de risco para cada modo de falha. A Figura 4.3, exemplifica a relação. Figura 4.3 Relação entre FMEA e FTA (LAFRAIA, 2001) A Tabela 4.5 e a Tabela 4.6 mostram as diferenças entre os dois métodos. Tabela 4.5 Vantagens FTA x Vantagens FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) Característica (Melhor para) Analisar falhas múltiplas FTA FMEA X Analisar falhas isoladas Identificar eventos de alto nível causado por eventos de nível X X mais baixo Ter uma abrangência maior ao analisar a falha X Ter menos restrições e ser mais fácil de seguir X Identificar influências externas X Identificar características críticas X Tabela 4.6 Utilização de FTA e FMEA (adaptado de LAFRAIA, 2001) Característica (Deveria ser usado quando) Análise quantitativa FTA FMEA X Não há necessidade de se garantir que a falha de cada X componente seja analisada Avaliar alternativas de projeto/abordagem X Avaliar redundâncias X Avaliar integridade do projeto, incluindo: detecção de falhas e X failure-safe Análises dedutivas de cima para baixo Análises indutivas de baixo para cima X X Capítulo 5: Análise de Criticidade do Sistema de Sinalização Este capítulo trata da análise de criticidade do sistema de sinalização da MRS Logística, concessionária ferroviária. Apresenta a empresa, seu sistema de sinalização, bem como a análise de criticidade do mesmo. 5.1: A MRS Logística A MRS Logística nasceu em 30 de agosto de 1996 para participar do leilão de privatização da Malha Sudeste da Rede Ferroviária Federal S/A, ou RFFSA (MRS, 2012). A Malha Sudeste é composta pelas antigas Superintendências Regionais 3 e 4 (SR 3 e SR 4) da antiga RFFSA. A empresa está presente em três estados do Sudeste do País: Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Sua malha possui 1.642 quilômetros de via férrea que possuem acesso aos portos do Rio de Janeiro e de Itaguaí, ambos no estado do Rio de Janeiro; e de Santos, em São Paulo (MRS, 2012). A Figura 5.1 mostra o mapa da malha ferroviária da MRS. Figura 5.1 Malha Ferroviária da MRS (MRS, 2012) O transporte ferroviário de cargas é o foco da MRS sem, contudo, deixar de oferecer serviços com ponta rodoviária a seus clientes. Os principais produtos transportados pela empresa são divididos em dois grupos: Heavy Haul e Carga Geral. No primeiro estão minério de ferro, carvão e coque; no segundo, produtos siderúrgicos, cimento, bauxita, produtos agrícolas, contêineres e outros. Devido sua localização, e vocação histórica da região, os produtos Heavy Haul são responsáveis por mais de 70% de tudo que é transportado na MRS. Em 2011, o transporte Heavy Haul representou 74,6% do transporte da companhia, ficando a Carga Geral com os 25,4% restantes (MRS, 2012). 5.2: Sistema Teórico de Sinalização Como mostrado no Capítulo 3, o sistema de sinalização de uma ferrovia é extremamente importante para a segurança operacional e capacidade de produção. O estudo desse sistema se mostra de grande valia, uma vez que sua falha pode impactar na operação ferroviária. A primeira abordagem de estudo será a definição do elemento crítico de um sistema de sinalização. Para tal, um procedimento baseado na FMEA desenvolvido por SUCENA (2002) para definição de alocação de recursos financeiros em elementos críticos será utilizado. A metodologia desenvolvida tem como objetivo melhor alocar recursos financeiros para a manutenção dos subsistemas ferroviários de acordo com sua criticidade (SUCENA, 2002). A criticidade é definida de acordo com o impacto que a perda de uma função ou falha de componente tem na operação ferroviária. O intuito deste trabalho também é definir um elemento crítico, porém não para alocação de recursos financeiros, num primeiro momento, mas para o estudo aprofundado do subsistema crítico. Ainda no caso deste trabalho, analisar-se-á apenas o sistema de sinalização de uma ferrovia. O fluxograma desse procedimento pode ser visto na Figura 5.2. Figura 5.2 Fluxograma procedimento para definição do componente crítico (SUCENA, 2002) 5.2.1: Conhecimento, Decomposição e Diagramação Hierarquizada do Sistema O primeiro passo do procedimento é conhecer o sistema. Parte do conhecimento disponível na literatura foi abordado no Capítulo 3. Com esse conhecimento é possível avançar para o segundo passo para o sistema teórico. O segundo passo consiste na decomposição do sistema. A decomposição é feita de acordo com os subsistemas e componentes dentro da sinalização ferroviária (SUCENA, 2002). No terceiro passo é realizado a diagramação hierarquizada, ou seja, junta-se o sistema decomposto no passo anterior de forma que se possa estabelecer um relacionamento gráfico entre as partes que o compõem (SUCENA, 2002). O resultado desses três passos para um sistema de sinalização teórico é mostrado na Figura 5.3. Figura 5.3 Diagramação Hierarquizada do Sistema de Sinalização Ferroviária 5.2.2: Determinação dos Pesos e Cálculo do Índice de Risco Em continuação ao processo, no quarto passo determinam-se os pesos para cada subsistemas e cada critério. Os critérios utilizados são os mesmos da FMEA apresentados na Seção 4.2.1: (p. 50) para a análise de criticidade. Para cada critério, são determinados os pesos de acordo com as tabelas sugeridas por LAFRAIA (2001), que também se encontram na Seção 4.2.1: (p. 50). Os pesos devem ser determinados apenas para os subsistemas de nível mais baixo, ou seja, a base do diagrama hierarquizado (SUCENA, 2002). Para a determinação dos pesos pode-se utilizar duas metodologias: a Ad Hoc e a Delphi (BRANDÃO, 1996 apud SUCENA, 2002). Ambas são detalhadas a seguir: Ad Hoc: consiste em reunir especialistas em uma mesma reunião e, juntos, através de sua experiência, atribuir os pesos a cada critério; Delphi: consiste em entrevistar especialistas individualmente, ocasião na qual cada um atribui seus pesos aos critérios. As informações são compiladas e enviadas novamente aos mesmos para nova avaliação, com o objetivo de possuir um resultado mais homogêneo. Devido a sua flexibilidade, o método Delphi foi utilizado sem, entretanto, haver a reunião final para discussão dos resultados. Para tal, foram consultados quatro especialistas em sinalização ferroviária na empresa, tendo cada um deles determinado seus pesos para cada critério e cada subsistema. Em seguida, o quinto passo determina o cálculo dos índices de risco de cada subsistema de nível mais baixo. Esse índice é o mesmo apresentado na Seção 4.2.1: (p. 50), ou seja, é assim calculado: Risco = Probabilidade de Ocorrência x Detecção x Severidade A Figura 5.4 mostra os índices obtidos após obter as opiniões dos especialistas. Figura 5.4 Subsistemas com pontuação de acordo com especialistas da empresa 5.2.3: Determinação do Sistema e Subsistema Críticos O sexto passo consiste em alocar o valor máximo de índice de risco ao nível imediatamente acima. Dentre os subsistemas de nível mais baixo avaliados, identifica-se o que possui maior valor de índice de risco e o aloca no subsistema ou sistema de nível imediatamente superior correspondente (SUCENA, 2002). A Figura 5.5 mostra os resultados do sexto passo. Figura 5.5 Subsistemas com pontuação levada aos níveis acima O sétimo passo acontece assim que o passo anterior aloca o valor de índice de risco ao topo do sistema. O subsistema crítico é identificado como aquele que possui o maior índice de risco que está no segundo nível, de cima para baixo. Após a identificação do subsistema crítico, no oitavo passo é possível gerar uma lista hierarquizada dos componentes/subsistemas daquele identificado no passo anterior (SUCENA, 2002). A Figura 5.6 mostra os subsistemas hierarquizados de acordo com sua criticidade. Figura 5.6 Subsistemas hierarquizados de acordo com sua criticidade O nono passo não será realizado nesse trabalho, pois o mesmo deve ocorrer após alguma intervenção no sistema. Como resultado do procedimento apresentado, o componente crítico do sistema é a junta isolante dentro do subsistema de circuito de via. Como explicado na Seção 3.4.2:, p. 38, a junta isolante serve para delimitar dois circuitos de via, que normalmente correspondem a duas seções de bloqueio. 5.3: Estudo Aprofundado do Subsistema Crítico Uma vez hierarquizados os subsistemas, elencados pelos especialistas da empresa, cria-se uma lista de prioridades de acordo com a criticidade de cada um. Dessa forma, é possível focar esforços, de qualquer natureza, no determinado subsistema. No escopo desse trabalho, o esforço é em torno de criar conhecimento sobre o novo sistema de sinalização ferroviária em implantação na empresa. Para tal, as árvores de falhas do subsistema crítico serão desenvolvidas. 5.3.1: Circuito de Via: o Subsistema Crítico No novo sistema de sinalização em implantação, são utilizados dois tipos de circuito de via: circuito de via de corrente contínua e o circuito de via codificado. O circuito de via de corrente contínua já teve sua explicação fornecida na Seção 3.4.2:, p. 38. No projeto em instalação, esse tipo de circuito de via é utilizado apenas em circuitos de detetora de chaves e em final de linhas ou em desvios mortos sinalizados. Já o circuito de via codificado funciona através de uma codificação de tensão em degrau injetada nos trilhos que, de acordo com a frequência e espaçamento, determinam um código específico. Cada código tem seu significado para o intertravamento. Embora os circuitos de via também tenham seus limites estabelecidos por juntas isolantes, para a utilização desse circuito de via, é necessário que haja um sistema compatível nas duas extremidades do circuito. As duas extremidades transmitem e recebem códigos de maneira sincronizada. A sincronização das transmissões e recepções é dada pelo código 1, que também indica que o bloco está livre. A ausência de códigos na recepção indica que o bloco está ocupado. Os demais códigos são utilizados para determinar os aspectos dos sinais, quando estes estão abertos. A Figura 5.7 demonstra o funcionamento da codificação do circuito de via. Figura 5.7 Codificação dos degraus do Circuito de Via Codificado 5.3.2: Os Efeitos das Falhas do Subsistema Crítico Para o subsistema crítico eleito foram levantados os principais efeitos de suas falhas. Os efeitos são a forma como os usuários enxergam a falha do sistema, que será utilizada como evento topo na análise por árvore de falhas. Nos dois tipos de circuito de via utilizados, os principais efeitos são: Circuito de via ocupado indevido: ocorre quando o circuito de via indica uma ocupação mesmo quando não há veículos naquela seção de bloqueio. Ou seja, algo está causando a falha na recepção da corrente do circuito de via; Circuito de via ocupado intermitente: ocorre quando o circuito de via indica de maneira intermitente uma ocupação mesmo quando não há veículos naquela seção de bloqueio. Ou seja, algo está causando a falha intermitente na recepção da corrente do circuito de via. Embora os efeitos de suas falhas sejam os mesmos, os componentes e subsistemas que participam no seu funcionamento são, em parte, diferentes. Portanto, serão elaboradas árvores de falhas para cada um dos tipos de circuitos de via separadamente. 5.3.3: Árvores de Falhas do Subsistema Crítico A elaboração das árvores de falhas foi realizada a partir dos efeitos das falhas percebidos pelos usuários. Ela foi feita com base na verificação dos componentes que interferem nos circuitos de via, suas falhas e como se interrelacionam para gerar o efeito percebido pelos usuários. Esses efeitos serão utilizados como os eventostopo na árvore de falhas para terem suas causas-raiz encontradas. Como os principais efeitos são dois, ocupação indevida e ocupação intermitente, e; os tipos de subsistemas utilizados também são dois, corrente contínua e codificado, serão elaboradas quatro árvores de falhas. A seguir as seguintes figuras apresentarão as árvores de falhas conforme abaixo: Figura 5.8, p. 70: Ocupação Indevida em Circuito de Via Codificado; Figura 5.9, p. 71: Ocupação Intermitente em Circuito de Via Codificado; Figura 5.10, p. 72: Ocupação Indevida em Circuito de Via de Corrente Contínua; Figura 5.11, p. 73: Ocupação Intermitente em Circuito de Via de Corrente Contínua. Figura 5.8 Árvore de Falhas para Ocupação Indevida de CDV Codificado Figura 5.9 Árvore de Falhas para Ocupação Intermitente de CDV Codificado Figura 5.10 Árvore de Falhas para Ocupação Indevida de CDV DC Figura 5.11 Árvore de Falhas para Ocupação Intermitente de CDV DC Capítulo 6: Conclusões e Perspectivas Durante este trabalho fez-se a introdução aos assuntos abordados como ferrovias, sinalização ferroviária e métodos de análise de falhas. Devido às característica peculiares e tecnológicas de cada empresa ferroviária elaborou-se um sistema teórico de sinalização ferroviária elegendo-se o seu subsistema crítico. Por fim, um estudo deste elemento crítico foi realizado de forma mais detalhada utilizando-se a técnica Árvores de Falhas. Após a conclusão dos trabalhos, pôde-se perceber que, embora quando se pense em sinalização ferroviária, normalmente se pense em sinais e máquinas de chave, o principal subsistema, ou seja, aquele que tem maior impacto como consequência de suas falhas, é o circuito de via. A falha do circuito de via traz muita dúvida a todos da operação, principalmente ao controlador de tráfego ferroviário, que utiliza essas informações para tomar decisões de movimentação e licenciamento de trens. Isso se deve ao fato de que uma ocupação indevida pode até ser uma falha no sistema de sinalização, mas também pode ser alguma obstrução na via ou veículo sem autorização. A utilização de uma metodologia para encontrar o subsistema crítico fundamental, pois fornece indicação clara de onde a empresa deve atuar para melhorar o seu negócio, no caso deste trabalho, para diminuir as perdas de circulação. O estudo aprofundado do subsistema crítico permitiu a elaboração de árvores de falhas para o mesmo. Dessa forma, é possível melhorar o conhecimento desse subsistema por parte das equipes de engenharia e, principalmente, de manutenção. Estes com a função de realizar o atendimento de ocorrências e realizar a manutenção corretiva. A disseminação do conhecimento é extremamente relevante, essencialmente em casos de introdução de novas tecnologias e sistemas numa empresa. Assim, a gestão da mudança é facilitada. Após o término deste trabalho, sugere-se dar continuidade às demais possibilidades da utilização de árvores de falhas. Realização dos cortes mínimos e análises quantitativas com base no histórico de falhas também podem trazer muitos resultados positivos. Sugere-se, também, expandir a elaboração das árvores de falhas aos demais subsistemas, tendo como prioridade os subsistemas de maior criticidade, como levantado no presente trabalho. É possível, ainda, a elaboração de guias de solução de problemas, também conhecidos como “troubleshooting”, a partir das árvores de falhas e das análises quantitativas. Bibliografia ABNT Sinal Ferroviário ABNT NBR 7601:1982, Associação Brasileira de Normas Técnicas. 1982 ANTF Balanço do Transporte Ferroviário de Cargas 2010, Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários - ANTF, 2011. ANTF Material Ferroviários Rodante, – Associação ANTF, Nacional 2010. dos Transportadores Disponível http://www.antf.org.br/index.php/informacoes-do-setor/material-rodante. em Acessado em 23/03/2012. AREMA Manual for Railway Engineering 4 volumes. American Railway Engineering and Maintenance-of-Way Association - AREMA. 2009. BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos/Logística Empresarial Quinta edição. 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