ISSN 2182-6730 MENTAL(IDADES)+ Revista da Associação para o Estudo, Reflexão e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental Reflexões da Atualidade n.º1| Jun./Jul. 2012 Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012|1 FICHA TÉCNICA MENTAL(IDADES) + Revista da AERPPSM DIRETORA CONSELHO CIENTÍFICO Ana Vieira Araújo | [email protected] Ana Vieira Araújo Fernanda Reis Pereira Fernando Manuel Gomes Ilda Vieira Murta Maria Conceição Pascoal Maria Fernanda Duarte Maria Luísa Rosa DIRETORA-ADJUNTA Ilda Murta | [email protected] CONSELHO REDATORIAL Alexandre Mendes Célia Franco Jorge Carvalheiro Lurdes Goretti Neves Maria João Peres Maria José Piçarra Maria Lurdes Sousa Vladimiro Andrade CONSELHO DE HONORÁRIOS Alcino Marques Carlos José Rodrigues Paiva Eurico Allen Revez Joaquim Matos Cabeças José Morgado Pereira José Paulino Rocha Maria Elisa Cortesão Maria Paula Medeiros PROPRIEDADE Associação para o Estudo, Reflexão e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental Hospital Sobral Cid. Apartado 1 CP 3031-801 CEIRA - COIMBRA Telefone: 239 796 400 Fax: 239 796 499 NIF: 503351288 CONCEÇÃO GRÁFICA E PAGINAÇÃO Ana Antunes | [email protected] INTERNET http://www.aerppsm.org/revista.html PERIODICIDADE Semestral E-MAIL [email protected] TIRAGEM 200 exemplares RECEÇÃO DE ARTIGOS Ilda Murta | [email protected] IMPRESSÃO Unigráfica | [email protected] EDIÇÃO E REVISÃO Ana Antunes | [email protected] IMAGEM CAPA Guilherme Murta IMAGEM CONTRACAPA Servier Portugal DEPÓSITO LEGAL345151/12 ISSN 2182-6730 Todos os artigos são da exclusiva responsabilidade dos autores. Os textos da revista foram escritos ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012|2 SUMÁRIO P04 EDITORIAL REFLEXÕES DA ATUALIDADE ANA VIEIRA ARAÚJO P05 ENTREVISTA À CONVERSA COM ÁLVARO DE CARVALHO FERNANDO GOMES P08 P08 ESTUDOS PERTURBAÇÃO DO STRESS PÓS-TRAUMÁTICO POST-TRAUMATIC STRESS DISORDER FILIPA SOLA; MARIA FERNANDA DUARTE; THERESA BÜSCHER P18 BURNOUT NOS TÉCNICOS DA CONSULTA DE INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ BURNOUT SYNDROME IN ABORTION CLINIC PROFESSIONALS HUGO BASTOS; ILDA MURTA P24 DOENTE ONCOLÓGICO ONCOLOGIC PATIENT CATARINA COSTA; CATARINA GUERREIRO; DANIELA MARQUES; SILVANA FREITAS P34 INTERVENÇÃO PRECOCE EM JOVENS COM PSICOSE P44 INTERVENÇÃO PSIQUIÁTRICA NA UNIDADE DE INTERVENÇÃO PRECOCE DA MATERNIDADE BISSAYA BARRETO EARLY INTERVENTION IN PSYCHOTIC YOUNGSTERS HUGO BASTOS; ILDA MURTA PSYCHIATRIC INTERVENTION IN THE EARLY INTERVENTION UNIT OF THE BISSAYA BARRETO MATERNITY ILDA MURTA;JOSÉ TEMÓTIO; PAULA GARRIDO; VERA MARTINS P51 RELAXAMENTO: INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA NA PROMOÇÃO DE BEM-ESTAR RELAXATION: COMPLEMENTARY THERAPEUTIC INTERVENTION TO PROMOTE WELL-BEING ALDA MARIA SIMÕES; MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA; MARIA DULCE CARVALHO; MARIA LURDES RIBEIRO P55 REVISÃO PERTURBAÇÕES MENTAIS ASSOCIADAS À EPILEPSIA MENTAL DISORDERS ASSOCIATED WITH EPILEPSY JOÃO VIEGAS; MIGUEL BAJOUCO; SÓNIA PIMENTA; VERA MARTINS P67 DIVULGAÇÃO FERNANDO GOMES P68 NORMAS DE PUBLICAÇÃO REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA http://www.aerppsm.org/revista.html> Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |3 EDITORIAL REFLEXÕES DA ATUALIDADE ANA VIEIRA ARAÚJO, Médica Psiquiatra, CHUC, [email protected] A Associação para o Estudo Reflexão e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental, criada em 1994, por um conjunto de funcionários do Hospital Sobral Cid, que se constituíram como núcleo próassociação, e constituída legalmente em 16 de Junho de 1994, desenvolveu durante alguns anos atividade técnica e científica, que se traduziu pela organização de eventos científicos e publicação de trabalhos de investigação numa revista da associação com periodicidade semestral. Toda esta atividade sofreu um interregno que durou alguns anos, tendo sido reavivada em Março de 2011, através de uma Assembleia Geral, que ao eleger novos corpos gerentes impulsionou uma nova dinâmica, com realização de atividades científicas e a revista atual. A nova revista Mental(idades)+ não pretende ser mais uma, mas sim um encontro científico de trabalhos de investigação que autores queiram publicar, autores estes associados ou não. A Mental(idades)+ quer também ser uma revista onde o debate de ideias seja plural, refletindo múltiplos saberes e tendências, na área da Psiquiatria e Saúde Mental. A proposta desta direção é de que esta publicação possa servir de transmissão de conhecimentos, saberes e experiências, que enriqueça e estimule quem trabalha na área da Saúde Mental, e também divulgação e debate sobre a atividade das instituições de Psiquiatria e Saúde Mental. Ana Vieira Araújo Diretora da Mental(idades)+ Fotografia: AERPPSM Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |4 ENTREVISTA À CONVERSA COM ÁLVARO DE CARVALHO FERNANDO GOMES, Enfermeiro Supervisor, CHUC, [email protected] PERFIL Neste momento que balanço pode ser feito relativamente ao desenvolvimento do Plano Nacional de Saúde Mental? Como é sabido, a PNSM vigora de 2007 a 2016. Graças ao bom planeamento e efetiva priorização por parte do Ministério da Saúde, mais de metade do programado já está concretizado. Um exemplo foi o encerramento do H. Miguel Bombarda, ano e meio antes do previsto, antecipação que seguramente também se vai verificar em relação ao H. Lorvão e Centro de Arnes, todos previstos no Plano para se concretizarem até 31/12/2012. Muito sumariamente importa também realçar que: estão criados 31 Serviços Locais (os Departamentos de S. Mental em HG eram 20) e 11 Equipas Comunitárias de HP (com crescimento dependente da evolução na área do CHUC e redução de uma em 2013 com a abertura do novo H. de Vila Franca de Xira); existem 32 estruturas de SM da Infância e Adolescência (eram 6 à data da publicação da Lei de S. Mental); entre 2005 e final de 2011 as camas hospitalares reduziram 40% enquanto as consultas externas aumentaram 30%, quer na SMIA quer nos adultos (aqui com 35% nos DPSM dos HG); as formações em gestores de casos e em psicoeducação abrangendo 683 profissionais de todas as Regiões de Saúde, 180 dos quais com competência de formadores; a dinamização do movimento associativo de utentes, familiares e cuidadores iniciou-se através da CCPUC – Comissão Coordenadora da Participação de Utentes e Cuidadores; a formação de profissionais de SM e dos CSP para mais adequada identificação e intervenção em situações de violência familiar está em curso, tal como a vertente da SM na Plataforma para os Sem-Abrigo; o projeto de avaliação da qualidade da prestação e do respeito pelos direitos humanos está em condições estruturais de arrancar; em Fevereiro último foi apresentada ao Sr. Secretário de Estado Adjunto uma recalendarização do PNSM, tendo em conta a compatibilização ente o que falta concretizar e a situação de constrangimento económicafinanceira. A rede de Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental, sendo uma vertente estruturante das respostas em Psiquiatria e Saúde Mental, encontrase em que fase de implementação? Que progressos podem ser esperados no curto prazo? Existirá um mapa orientador da distribuição geográfica das Unidades e Equipes em Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental? Sobre a implementação aguardam-se orientações da tutela, com o Sr. Secretário de Estado Adjunto a reafirmar, em várias circunstâncias, o seu início logo que o financiamento esteja assegurado. A ênfase inicial provavelmente será, como também a Equipa de Projeto perspetivava, predominantemente para as equipas de apoio domiciliário (técnico). Sublinha-se Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |5 ENTREVISTA que nos têm chegado notícias de várias entidades, públicas e privadas, de todo o país, a sinalizarem a existência de instalações disponíveis, quer para tipologias residenciais quer sócio ocupacionais, tanto para adultos como para crianças e adolescentes. A Equipa de Projeto elaborou mapas anuais orçamentados de desenvolvimento, até final da vigência do Plano Nacional, em função das necessidades teóricas globais e por Região de Saúde, enfatizando que a sua concretização estaria dependente do financiamento definido para cada ano, com correspondentes mapas de vagas por tipologias a colocar a concurso. O desenvolvimento das Unidades Locais de Saúde Mental parece ter várias incompatibilidades com o modelo de financiamento vigente nos serviços do SNS. Que medidas a implementar para suprir essas dificuldades? Permito-me precisar que as incompatibilidades com o modelo de financiamento não são com o SNS mas com o dos hospitais gerais, em que a lógica prevalente é a da atividade institucional tradicional – internamentos/ambulatório, incluindo hospital de dia/urgências, diferente do das Unidades Locais de Saúde e, sobretudo, do financiamento dos ACeS. Na SM, ao privilegiar-se a vertente comunitária e a reabilitação psicossocial, em que os internamentos são tendencialmente uma exceção, o modelo deverá ser necessariamente outro, comprovadamente menos oneroso e mais eficiente. Tem sido de fato difícil alterar a formatação dos responsáveis das administrações e do financiamento do sistema assistencial tradicional, perspetivados para modelos de gestão diferentes. Para colmatar esta realidade o meu antecessor na Coordenação Nacional, Prof. Caldas de Almeida, estabeleceu um protocolo com o Prof. Pita Barros, da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, para apresentação de um modelo de financiamento que tenha em conta os referenciais vigentes na atividade em SM, cujo relatório final será entregue a breve trecho. Que barreiras impedem a disponibilização de antipsicóticos nos hospitais? Como é sabido, a anterior Ministra, perante a identificação policial de graves fraudes a envolverem os fármacos com comparticipação a 100%, tomou a decisão de suspender este benefício, mas solicitando à então Coordenação Nacional medidas alternativas. Em tempo útil foi apresentada uma proposta, aceite pela tutela, que perspetivava, em articulação com o INFARMED e os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde: Aquisição centralizada dos antipsicóticos, permitindo uma poupança, mínima, de 40% do seu custo para o SNS; Disponibilização dos antipsicóticos nos serviços hospitalares públicos (a exemplo do que acontecia há anos atrás) e do Sector Social; Ações de formação para os médicos dos CSP e dos serviços de SM sobre boas práticas de prescrição de psicofármacos, em articulação com a Ordem dos Médicos. A mudança de Governo verificou-se com este processo em curso, que foi inevitavelmente suspenso para reapreciação. Foi-nos entretanto pedido um estudo económico que fundamenta-se a proposta, que face aos parcos meios técnicos nessa matéria (da Coordenação e do Programa Nacional) não foi ainda possível concluir. Contudo, face à sensibilização de vários responsáveis hospitalares para o tema, com o intuito de reduzir o inevitável recrudescimento de internamentos e reinternamentos por impossibilidade de aquisição de antipsicóticos por parte de muitos utentes, sabemos que várias administrações hospitalares, após avaliação social casuística, vêm disponibilizando esses fármacos enquanto não há uma decisão da tutela. Estas decisões institucionais são a prova de que há medidas que só na aparência são financeiramente mais onerosas para o SNS, para além de serem indiscutivelmente mais económicas em termos de saldo de saúde para os doentes e familiares. Na área da reabilitação psicossocial quais as prioridades e oportunidades a prosseguir? Esta vertente não se esgota nos CCISM pelo que, para além de termos consignado no nosso orçamento, oportunamente aprovado mas ainda não disponível em virtude da integração na DGS, o aprofundamento das ações de formação para profissionais de SM, continuar-se-á a pugnar, como se prevê no PNSM 2007-2016, pelo desenvolvimento de estruturas institucionais e ambulatórias desta índole. Importa ter presente que, como é concludente em vária evidência científica internacional, o prognóstico dos doentes mentais graves é significativamente melhor (logo também menos oneroso em termos de saúde e financeiros) quando a par de antipsicóticos, não Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |6 ENTREVISTA necessariamente de última geração, são integrados em programas de reabilitação psicossocial. Que avaliação pode ser feita ao programa de financiamento de Projetos Inovadores em Saúde Mental? Muito positiva em termos da implementação das 46 experiências verdadeiramente inovadoras em SM, identificadas por um muito disputado concurso público. Estamos a rever a sua concretização, perspetivando-se a análise de propostas de realocação de recursos financeiros não utilizados. Que estratégias estão previstas para o incremento da participação da sociedade civil, nomeadamente das ONG(D) na área da prevenção em Saúde Mental? Não só na área da prevenção, em que estamos cronicamente muito deficitários, mas também na área da reabilitação psicossocial, onde já há um núcleo ativo de ONG, em particular de IPSS, que sobretudo no contexto do Decreto-lei n.º 407/98 vêm desenvolvendo um trabalho insubstituível para os utentes, complementando e amplificando a ação de vários SLSM. Para dinamizar a capacitação destas entidades, a ex-CNSM constituiu a CCPUC (Comissão Coordenadora da Participação de Utentes e Cuidadores) que vem desenvolvendo um trabalho relevante de aprofundamento da consciência crítica dos envolvidos quanto aos direitos, garantias e liberdades das pessoas com doença mental, em particular grave. A crescente visibilidade dos problemas de Saúde Mental e a própria desocultação de situações como a dos doentes mentais graves, que impacto deverá ter na afectação de recursos no âmbito de SNS? Estou certo que um impacto muito positivo – quanto mais conhecimento da realidade menor índice de estigmatização e maior consciência da real carga ou peso global de cada entidade patológica, que desde o estudo “The global burden of diseases” evidenciou a importância relativa das nosologias mentais em termos de incapacidade para a atividade produtiva. Entre nós, a integração dos SLSM nos HG e a articulação com os CSP vieram “democratizar” e desestigmatizar a doença mental, tornando-a mais próxima das restantes no universo da saúde. Na área dos Sistemas de Informação, como por exemplo o SICO, que outros projetos estão em desenvolvimento? De momento nenhum outro. Importa consolidar o que está em curso e viabilizar o que se inicia. O SICO é um passo importante em termos de maior objetivação das causas de morte em Portugal, que na nossa área virá permitir obter um retrato mais próximo do real dos casos de suicídio, indispensável para a intervenção mais adequada neste contexto. Entretanto continuaremos entre os países da Europa com uma das maiores taxas de mortes por causa não identificada! Que apoios estão previstos para o desenvolvimento da investigação nos termos previstos no Plano Nacional de Saúde Mental? No orçamento do Programa Nacional para a Saúde Mental para 2012, aprovado oportunamente pelo Sr. SEAMS, considerou-se uma verba para financiamento de projetos direcionados para jovens investigadores. Depois da muito recente aprovação da Lei Orgânica da DGS, onde fomos integrados, aguardamos a migração do referido orçamento, devidamente autorizada pelo Ministério das Finanças, de modo a podermos dar curso a esta e outras iniciativas programadas. Teremos monitorização e medição da qualidade dos serviços de Psiquiatria e saúde mental para quando e que modelo(s) a utilizar? Como já referi, a ex-CNSM estruturou, em articulação com a OMS-Genebra, um programa desenvolvido em vários países, de avaliação, com posterior monitorização, da qualidade da prestação clínica e do respeito pelos Direitos Humanos, uma vertente muitas vezes internacionalmente descuidada na nossa área. Irá ser aplicado a todos os serviços públicos e privados, estando constituídas e formadas as equipas multidisciplinares de avaliadores, aguardando o desembaraço orçamental do PNSM para avançar para o terreno. Fotografia: Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |7 ESTUDOS PERTURBAÇÃO DO STRESS PÓS-TRAUMÁTICO: EXEMPLO DE UM PROTOCOLO DE INTERVENÇÃO EM GRUPO POST-TRAUMATIC STRESS DISORDER: EXAMPLE OF A GROUP INTERVENTION FILIPA SOLA, Licenciada em Psicologia Clínica, Psicóloga Clínica Voluntária, CHUC, [email protected] MARIA FERNANDA DUARTE, Mestre em Psicologia Clínica, Psicóloga Clínica, CHUC, [email protected] THERESA BÜSCHER, Mestranda de Psicologia Clínica, FPCEUC, [email protected] Resumo Abstract O seguinte artigo tem como objetivo apresentar um protocolo de intervenção cognitivo-comportamental na Perturbação de Stress Pós-Traumático na população de veteranos de Guerra. São apresentadas algumas considerações teóricas desta perturbação e discutidas as diferentes abordagens existentes para o tratamento da mesma, dando-se especial ênfase às intervenções em grupo. Como exemplo das mesmas, é exposto o procedimento adotado pela equipa terapêutica do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra – Hospital Sobral Cid, no acompanhamento de veteranos da Guerra Colonial Portuguesa e apresentado o protocolo de intervenção no qual se baseia a terapia. The following article discusses the cognitive behavioral approach to Posttraumatic Stress Disorder in the population of war veterans. Different types of intervention for this disorder are presented, with a special focus on group interventions. As an example for those, we present the procedure taken by the therapeutic team of the Unidade do Sobral Cid of the Centro Hospitala rUniversitário de Coimbra, Portugal, for the treatment of Portuguese colonial war veterans. Lastly, the authors introduce the treatment protocol which represents the basis for the intervention applied in the institution. Palavras-chave: Stress Pós-Traumático, PTSD, Distúrbios de Guerra, Terapia Comportamental Cognitiva, Psicoterapia de Grupo. Keywords: Stress Disorders, Post-Traumatic, Combat Disorders, Cognitive Therapy, Group Psychotherapy Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. ENQUADRAMENTO A Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) foi primeiramente reconhecida como entidade nosológica pelo Diagnostic and Stastistical Manual – III (DSM-III) publicado pela American Psychological Association (APA) em 1980, dando início a um grande impulso na investigação e no tratamento desta perturbação (FOLLETTE e RUSEK, 2006). Inicialmente vista como relativamente rara, reconhecese, hoje e a nível mundial, que a PTSD é uma perturbação comum (FOLLETTE e RUSEK, 2006). Os dados estatísticos provenientes dos Estados Unidos da América apontam que 70% dos adultos já foram expostos a um ou mais acontecimentos traumáticos ao longo da sua vida, dos quais, de acordo com as Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |8 ESTUDOS estimativas, 20% sofrerão de PTSD (PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003). Desde a década de sessenta, vários estudos nos Estados Unidos da América tinham revelado que muitos ex-combatentes da Guerra do Vietname, expostos a situações de combate, apresentavam um conjunto específico de sintomas em resposta aos fatores traumáticos de stress. A partir daí, muitos estudos por todo o mundo, vieram também revelar que após a exposição a várias outras situações traumáticas quer provocadas por outros seres humanos, ou por acontecimentos catastróficos acidentais ou naturais, a mesma síndroma poderia ocorrer. Vários estudos epidemiológicos, em especial nos últimos dez anos, tanto em populações clínicas como em populações não clínicas, vieram anunciar percentagens de PTSD mais elevadas do que se previa, o que veio aumentar o interesse profissional e do público em geral por este tipo de perturbação (ALBUQUERQUE et al., 2003). A natureza dos eventos traumáticos pode ser variada, a DSM-IV-TR (APA, 2006, p. 463,) enumera como exemplos “combates em guerra, assaltos pessoais violentos (ataque sexual, ataque físico, roubo, estrangulamento), ser raptado, ser feito refém, ataque terrorista, tortura, ser prisioneiro de guerra num campo de concentração, desastres naturais ou provocados pelo homem, acidentes graves de automóvel ou diagnóstico de doença ameaçadora de vida”, e a consequência destes eventos pode ser o diagnóstico de uma Perturbação Aguda de Stress ou de PTSD. Ambas distinguem-se apenas pela duração e intensidade dos sintomas, caracterizando-se pelo evitamento, ativação e intrusão de memórias do evento traumático. Quando os sintomas surgem no contexto de uma Perturbação Aguda de Stress, a duração dos mesmos não ultrapassa as quatro semanas e são experienciados como mais intensos, enquanto na PTSD o desenvolvimento é crónico (APA, 2006; PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003). O primeiro estudo epidemiológico realizado em Portugal nesta área foi elaborado em 2003, o qual teve como objetivo analisar a taxa de ocorrência de PTSD ao longo da vida na população adulta portuguesa, de acordo com os critérios de diagnóstico operacionalizados a partir do DSM-IV. A partir de uma amostra de 2606 sujeitos, com idades compreendidas entre os 18 e os 99, os autores procuraram avaliar quais as situações identificadas como causa de PTSD, a taxa de ocorrência de casos de PTSD presentes no momento do estudo, a taxa de ocorrência de PTSD em ex-combatentes e quais as variáveis sociodemográficas dos indivíduos com PTSD. Os autores verificaram que 75% da amostra total tinha estado exposta a pelo menos um acontecimento traumático ao longo da vida e que 43.5% a mais do que um. A violação (23.1%), o abuso sexual antes 18 anos (21.7%), a morte violenta de familiar ou amigo (12.3%) e o combate/guerra (10.9%) foram as situações traumáticas que causaram PTSD na amostra estudada (ALBUQUERQUE et al., 2003). No contexto da Guerra Colonial Portuguesa, dados apontam que cerca de um milhão de jovens militares portugueses participaram na guerra em Angola, Moçambique e Guiné. Existem estimativas (ALBUQUERQUE, 1992, cit. por PEREIRA et al., 2010) que sugerem que 140 000 destes ex-combatentes portugueses sofrem, hoje, de alguma perturbação do espectro psicológico, sendo que os dados acerca da prevalência específica para a PTSD, variam entre 56% e 82.4% (PEREIRA et al., 2010). Porém, é apenas com a publicação da Lei nº 46/99 de 16 de Junho de 1999 que o Estado português reconhece a existência de problemas psicológicos crónicos na população de ex-combatentes da Guerra Colonial, bem como a relação de causalidade entre a doença e a experiência de combate. É também com esta legislação que se responsabiliza a criar uma rede nacional de apoio a militares e ex-militares com perturbação psicológica crónica, permitindo a identificação, informação e encaminhamento destes casos para os devidos serviços de apoio (médico, psicológico e social). Assim, no contexto da rede nacional de apoio a militares e ex-militares, surge no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra - Unidade de Sobral Cid (atual Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra – Hospital Sobral Cid – CHUC-HSC), o denominado “Grupo de Stress”, destinado à intervenção terapêutica cognitivocomportamental, em contexto grupal, com excombatentes da guerra colonial que sofrem de PTSD. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |9 ESTUDOS TIPOLOGIAS DE INTERVENÇÃO NA PTSD Terapia Farmacológica Dada a centralidade da ansiedade nesta perturbação, a grande maioria dos tratamentos para a PTSD tem-se focado precisamente neste aspeto (FOLLETTE e RUSEK, 2006), porém, dada a elevada comorbilidade da PTSD com outras perturbações, importa intervir a todos os níveis, de forma a melhorar significativamente a qualidade de vida da pessoa que sofre de PTSD. De acordo com KESSLER et al. (1995), as perturbações que surgem mais frequentemente em comorbilidade com a PTSD são as perturbações do Humor – especialmente a Perturbação Depressiva Major e a Distimia; as Perturbações de Ansiedade – principalmente a Fobia simples, Fobia Social e Perturbação de Ansiedade Generalizada e o Abuso de substâncias – sobretudo de álcool. De notar ainda que, na amostra deste estudo 59% dos sujeitos preenchia os critérios para três diagnósticos de perturbações mentais ou mais. Deste modo, qualquer protocolo de intervenção deve abranger todas as possíveis áreas problemáticas presentes na PTSD. Uma grande variedade de estudos tem demonstrado um elevado grau de incapacidade global na PTSD, nomeadamente, incapacidade para o trabalho (MCFARLANE et al., 1994, cit. por STEIN, 2004), diminuição da qualidade de vida (CORDOVA et al., 1995, cit. por STEIN, 2004), suicidalidade (DAVIDSON et al., 1991, cit. por STEIN, 2004), doença médica (MCFARLANE et al., 1994, cit. por STEIN, 2004), imagem corporal negativa (WENNINGER e HEIMAN, 1998, cit. por STEIN, 2004), aumento da carga do cônjuge (AL BECKHAM et al., 1996, cit. por STEIN, 2004) e disfunção social (BLANCHARD et al., 1998, cit. por STEIN, 2004). Assim, diversos tipos de terapêuticas – com modelos teóricos subjacentes - têm sido propostos relativamente à PTSD, porém neste artigo serão enfatizadas aquelas com fundamentação teórica cognitivo-comportamental ou que pode ser utilizada conjuntamente com a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Neste conjunto incorporam-se a terapia farmacológica, a Eye Movement Desensitisation and Reprocessing, e a própria TCC. Ainda que não haja unanimidade entre as comunidades científicas relativamente à importância do tratamento farmacológico na perturbação em discussão, existem autores (como TURNER, 1999, cit. por PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003) que defendem a necessidade de um apoio por parte da psicofarmacologia para facilitar a intervenção terapêutica cognitivo-comportamental. A terapia farmacológica tem como objetivos principais o esbatimento dos sintomas centrais (intrusão, generalização do trauma, evitamento, humor depressivo e irritável, impulsividade e o estado de alerta); aumentar a capacidade para lidar com o stress; diminuir o risco de ocorrência de perturbações comórbidas à PTSD; melhoria no funcionamento geral da pessoa e melhorar a qualidade de vida do indivíduo. De acordo com BALLENGER et al. (1999, cit. por PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003), os antidepressivos tricíclicos, nomeadamente a Amitriptilina e a Imipramina, tal como os Inibidores da Monoamina Oxidase (IMAO) (para sintomas como ansiedade geral – hipervigilância, hiperativação e sobressalto) e os Inibidores da Recaptação da Serotonina (ISRS) (para sintomas como pensamentos intrusivos, revivências, evitamentos, pânico e medos relacionados com o trauma) têm mostrado eficácia no tratamento da PTSD. Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR) Esta abordagem, designada em português por “dessensibilização e reprocessamento através do movimento ocular”, foi desenvolvida por Shapiro em 1989 como resultado de uma observação pessoal do autor de que pensamentos perturbadores desapareciam quando este seguia com os seus olhos folhas de árvores a cair. Aplicado ao contexto da PTSD, solicita-se ao indivíduo que mexa os olhos rápida e repetidamente de baixo para cima e vice-versa, numa linha diagonal, quando lhe surgem pensamentos perturbadores acerca do evento traumático. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |10 ESTUDOS Este procedimento é repetido até que a ansiedade provocada diminua. Nesta altura é pedido ao doente que gere um pensamento positivo, previamente selecionado, relacionado com o acontecimento, enquanto volta a mais uma sessão de movimentos oculares (BARLOW, 2008). Deste modo, a EMDR é conceptualizada como uma intervenção cognitivo-comportamental que facilita “o processamento da informação de eventos traumáticos e a reestruturação cognitiva de cognições negativas relacionadas com o trauma” (BARLOW, 2008, p.79). exposição ao vivo aos estímulos e situações que evoquem memórias do trauma; identificação dos estímulos que desencadeiam as memórias intrusivas e emoções não desejadas e das técnicas imagéticas que forneçam a possibilidade de criar novas consequências que não foram desenvolvidas no momento do acontecimento traumático (PEREIRA e MONTEIROFERREIRA, 2003). Terapia Cognitivo-Comportamental A psicoterapia de grupo funciona como suporte para o próprio doente e respetivos familiares, ajudando a perceber as necessidades destes em lidarem com o stress e a encontrarem capacidades de resolução de problemas. Esclarecem-nos dos sintomas adjacentes à PTSD e favorecem a reeducação sobre a comorbilidade psiquiátrica. Também para os veteranos, estes grupos funcionam como um espaço de partilha de experiências, que os ajuda a ultrapassar o isolamento (FOLLETTE e RUSEK, 2006; BARLOW, 2008). Relativamente à eficácia desta abordagem, existem estudos que têm vindo a demonstrar que as intervenções em grupo são tão eficazes como as terapias individuais (MORRISON, 2001; SHAFFER et al., 1981, cit. por O´DONOHUE e FISHER, 2008). Para além de facilitar a intervenção em largo espectro, atingindo um maior número de pessoas afetadas pela PTSD ao mesmo tempo, as abordagens de terapia de grupo apresentam, segundo KOSS e HARVEY (1991, cit. por BARLOW, 2008) várias vantagens, nomeadamente: Permitem reduzir o sentimento de isolamento por parte dos doentes; Fornecem suporte social através dos outros membros do grupo que não julgam nem culpabilizam o doente com PTSD; Fomentam a validação e normalização das emoções e reações ao trauma pelos membros do grupo; Permitem a partilha e confirmação da realidade e natureza traumática do acontecimento; Neutralizam e contrariam a autoculpabilização e promovem a autoestima; Esta terapia torna-se fundamental para lidar com questões como a capacidade de resolução de problemas, depressão e ansiedade, minimização do isolamento, culpa, hostilidade e baixa autoestima e outros sintomas psicopatológicos resultantes do quadro. Estes aspetos podem também ser trabalhados em contexto de grupo (ao qual aqui é dada especial ênfase), sendo, porém, fundamental trabalhar em contexto individual a ideação suicida, o abuso de álcool, as perturbações da personalidade e as competências de comunicação (BARLOW, 2008). De acordo com EHLERS e CLARK (2000, cit. por PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003), a intervenção cognitivo-comportamental incide fundamentalmente em três aspetos: integração da memória traumática no sentido de uma redução das intrusões, modificação das interpretações pouco adaptativas do trauma e das suas consequências, visto que são estas que mantêm a sensação de ameaça e “abolir as estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo próprio sujeito que impedem a elaboração da memória, exacerbam os sintomas ou dificultam a reavaliação de cognições problemáticas” (PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA, 2003, p.172). Estes objetivos são atingidos essencialmente através da experiência de supressão do pensamento, como estratégia de demonstração da ineficácia da mesma; psicoeducação; reivindicação da própria vida, ou seja, do encorajamento dos utentes a retomar as atividades que proporcionavam bem-estar e que foram abandonadas em função dos sintomas da perturbação; revivência do evento com reestruturação cognitiva; Psicoterapia Cognitivo-Comportamental de Grupo Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |11 ESTUDOS Promovem o empowerment e diminuem a dependência através da intervenção mais igualitária; Permitem o desenvolvimento de relações de vinculação e intimidade através da partilha do luto e perda num ambiente seguro e protetor; Ajudam os doentes na atribuição de significado ao evento promovendo, assim, o processamento cognitivo. Dois Tipos de Intervenção, Objetivos Semelhantes… Existem, dentro das intervenções em grupo para a PTSD, duas categorias: os grupos focados no trauma e os grupos heterogéneos de longo prazo. Os primeiros englobam um conjunto de abordagens a curto e longo prazo, tal como grupos de intervenção de crise aguda para pessoas afetadas pela mesma experiência traumática, grupos homogéneos para pessoas com o mesmo historial de trauma e vários grupos de autoajuda que se definem de acordo com os traumas passados e/ou sintomas dos seus membros. É exemplo das terapias focadas no trauma o protocolo proposto por FOLLETTE e RUSEK (2006), que tem como base as experiências dos autores no seu trabalho com veteranos de guerra. Os grupos heterogéneos de longo prazo colocam menor ênfase no trauma e valorizam mais a exploração dos reexperienciamentos, bem como as mudanças de personalidade que ocorreram secundariamente ao trauma. Todos os grupos têm em comum o facto de proporcionarem um lugar seguro no qual a manutenção dos segredos é possível. São um espaço onde as pessoas podem falar abertamente das suas memórias traumáticas e criar narrativas do seu trauma e dos efeitos que este teve em si. Paralelamente sentem que são compreendidas, sendo assim mais fácil expressar os seus sentimentos e pensamentos (FOLLETTE e RUSEK, 2006; BARLOW, 2008). PROTOCOLO DE INTERVENÇÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DE GRUPO PARA PSTD O protocolo de intervenção de grupo para a PTSD baseia-se nas propostas de JONGSMA e PETERSON (1999), WHITE e FREEMAN (2000), PEREIRA e MONTEIRO-FERREIRA (2003), e divide-se essencialmente em duas partes centrais: um primeiro momento de avaliação da problemática do doente, o qual é realizado individualmente e, posteriormente, a integração e participação no grupo de intervenção cognitivo-comportamental. Avaliação da Problemática do Doente Estabelecimento de uma relação terapêutica baseada na compreensão e validação das dificuldades do doente, permitindo uma abertura e partilha das preocupações do mesmo; Avaliação da frequência, intensidade, duração e história dos sintomas de PTSD e o seu impacto no funcionamento do doente; Administração de uma bateria de testes de avaliação psicológica geral e específica para a problemática de PTSD (de acordo com o Despacho Conjunto nº 502/2004): a. Clinician Administered PTSD Scale - CAPS (BLAKE, 1995, versão portuguesa de PINHO e COIMBRA, 2003) b. Minnesota Multiphasic Personality Inventory 2 – MMPI-II (HATHAWAY e MCKINLEY, 1943, Versão Espanhola de ESPADA e GÓMEZ, 1999) c. Symptom Checklist 90 Revised - SCL-90-R (DEROGATIS, 1977, versão portuguesa de BAPTISTA, 1993) d. Beck Depression Inventory - BDI (BECK et al., 1961, versão portuguesa de VAZ SERRA e PIO ABREU, 1973) e. Wechsler Adult Intelligence Scale - Third Edition - WAIS-III (WECHSLER, 1997, versão portuguesa de CEGOC-TEA, 2008) Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |12 ESTUDOS f. Impact of Events Scale - IES (HOROWITZ et al., 1979, versão portuguesa de VIEIRA e PAIXÃO, 2007) g. Escala de Avaliação de Atividades Laboral e Social - EAASL (DSM-IV, 2006). Exploração cuidadosa dos fatos acerca dos acontecimentos/situações traumáticas e das reações emocionais ao evento; Avaliação do potencial suicida do doente e a presença de sintomas depressivos, adotando as medidas necessárias; Avaliação da presença de abuso de substâncias e encaminhamento para uma terapia específica deste âmbito, se necessário; Avaliar a necessidade de reencaminhamento para um médico psiquiatra para o estabelecimento de uma farmacoterapia (nos casos que ainda não têm acompanhamento psiquiátrico). Comportamentos suicidários; Abuso grave ou dependência de substâncias; Doentes que se auto-mutilem; Diagnóstico de psicose aguda e Perturbação Borderline; Condições de vida muito instáveis e desorganizadas; Ausência de qualquer partilha da experiência traumática; Memórias acerca do trauma incompletas; Défices ao nível da linguagem e comunicação. Uma vez preenchidos os critérios necessários, é proposto ao doente a possibilidade de integrar o grupo, e é-lhe explicado o funcionamento e procedimento adotado nas sessões. Caso aceite, é imediatamente reencaminhado para a próxima sessão de grupo. Estrutura das Sessões Esta avaliação permite fazer um despiste das dificuldades do doente e perceber se apresenta os pré-requisitos necessários para integrá-lo no “grupo de stress”e retirar ganhos da intervenção no mesmo. A decisão de adequação para o grupo é realizada de acordo com os seguintes critérios (BARLOW, 2008; FOLLETTE e RUSEK, 2006): Critérios de Inclusão O doente apresenta capacidades de comunicação e interação adequadas ao contexto grupal e o alcance dos objetivos terapêuticos; Revela disponibilidade e motivação para participar e se integrar no grupo; Tem alguma tolerância para lidar com elevados níveis de ansiedade e stress; Mostra uma atitude de aceitação para com a terapia baseada na exposição; Está disponível para partilhar as suas experiências traumáticas; Apresenta condições de vida e um contexto de apoio social e familiar, estáveis. Critérios de Exclusão Quadros de sintomatologia muito grave que não apresentem capacidade para lidar com as emoções e memórias ativadas; Cada sessão de grupo tem uma duração de uma hora e meia, tendo lugar numa sala própria, na qual os utentes se agrupam em círculo, de forma a facilitar a comunicação entre todos. Por norma, as sessões são estruturadas em três fases: 1) num momento inicial das sessões há espaço para cada membro expressar livremente dúvidas, problemas que surgiram ou qualquer outro comentário acerca do período de tempo entre as sessões. É ainda neste momento que os novos membros são apresentados ao grupo, procurando-se que estes partilhem alguma informação acerca de si, facilitando deste modo a integração. 2) Posteriormente procede-se à intervenção propriamente dita, trabalhando a temática prevista para aquela sessão. A abordagem pode ser realizada num registo mais expositivo ou de diálogo e debate em grupo, dependendo do tema da sessão. 3) Numa última fase, os doentes podem, novamente, expressar as suas opiniões e colocar dúvidas relativamente ao problema abordado na sessão. Para além desta estrutura, há sempre espaço para qualquer um dos membros partilhar experiências pessoais que contribuam para o tema em debate. De notar ainda que os familiares dos utentes, esposas e/ou filhos podem, se este for o seu desejo, participar nestas sessões, podendo, assim, obter uma melhor compreensão da problemático do marido/pai. Atualmente, o grupo conta com a presença de duas esposas. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |13 ESTUDOS Plano de Intervenção 1. Familiarização com os objetivos e pressupostos da terapia cognitivo-comportamental; 2. Fornecimento do racional do desenvolvimento da PTSD: 2.1. A perturbação como resultado da exposição ao(s) trauma(s); 2.2. Pensamentos intrusivos; 2.3. Ansiedade, medo; 2.4. Vulnerabilidade para outras emoções negativas, tais como vergonha, raiva e culpa. 3. Fornecimento do racional do tratamento para a perturbação: 3.1. Debate de como estratégias/capacidades de coping, a estruturação cognitiva e a exposição ajudarão a desenvolver confiança, a dessensibilizar e superar medos e a alterar a visão de si, do mundo e dos outros (de forma menos negativa e com menos medo); 3.2. Psicoeducação acerca dos métodos de reestruturação cognitiva e de terapia baseada na exposição; 3.3. Debate destas técnicas com o grupo. 4. Identificação e modificação de pensamentos automáticos negativos; 5. Identificação e correção de erros de processamento de informação; 6. Ajudar o doente a formular pensamentos racionais alternativos: 6.1. Identificação de fatores de manutenção (evitamentos, comportamentos compensatórios); 6.2. Aprendizagem e implementação (noutros contextos fora do grupo) de estratégias para lidar com situação desafiadoras relacionadas com o trauma; 6.3. Técnicas de relaxamento (como por exemplo o relaxamento progressivo de Jacobson) e fornecimento de fichas de auto-registo do grau e tipo de emoções experienciados antes e depois da aplicação da técnica de relaxamento; 6.4. Controlo da respiração; 6.5. Modelamento encoberto (imaginação do uso de estratégias funcionais); 6.6. Role Play (com o terapeuta ou dentro do grupo) para aprender a gerir medos de forma a atingir uma perceção de mestria. 7. Identificação, desafio e substituição do diálogo interno disfuncional (marcado por emoções como a raiva e o medo) por um diálogo funcional e positivo: 7.1. Exploração dos esquemas e diálogo interno que precedem e medeiam medos relacionados com o trauma; 7.2. Desafiar diálogos pouco adaptativos e apoio na criação de novos métodos e diálogos mais funcionais e de autoconfiança; 7.3. Definir exercícios a realizar em casa nos quais os doentes identificam diálogos disfuncionais (de medo, raiva, negativistas) e criam alternativas; 7.4. Rever e reforçar sucessos; 7.5. Fornecer feedback corretivo para o insucesso no cumprimento da tarefa. 8. Exposição às memórias relacionadas com o trauma permitindo, assim, uma diminuição do stress associado ao diálogo e pensamentos nas mesmas: 8.1. Construção de uma lista de medos e evitamentos de estímulos relacionados com o trauma; 8.2. Dar exercícios de exposição para realizar em casa conjuntamente com registos de autoresposta; 8.3. Exposição em imaginação através da descrição detalhada da(s) experiência(s) traumática(s). Repetição deste procedimento de forma a permitir um decréscimo da ansiedade associada às memórias da experiência traumática; 8.4. Exposição através da visualização de filmes/documentários que evoquem memórias acerca do acontecimento traumático; 8.5. Leitura/proposta de leitura de artigos de jornais e revistas que evoquem memórias acerca do acontecimento traumático; 8.6. Aprendizagem de técnicas de distração (distração guiada). Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |14 ESTUDOS 9. Controlo/técnicas para lidar com a raiva: 9.1. Identificação das situações, pensamentos e sentimentos que tipicamente evocam raiva nos participantes do grupo; 9.2. Proposta para fazer um diário de raiva no qual são registadas as situações, pessoas e outros desencadeadores, para perceber qual o contributo do próprio doente para a geração da sua raiva; 9.3. Aumentar a consciência sobre os próprios padrões de expressão de raiva, a sua origem e as suas consequências: 9.3.1. Revisão dos desencadeadores anteriormente registados; 9.3.2. Incentivar os doentes a analisarem como a forma como pessoas significativas na sua vida lidavam com raiva e como essas experiências podem ter influenciado a sua forma de lidar com a raiva; 9.3.3. Fazer uma lista dos impactos negativos da raiva na vida quotidiana do doente e debatê-la; 9.3.4. Aumentar a noção dos efeitos negativos que a raiva tem na saúde física do doente (aumento de risco de doenças e dores de cabeça) 9.4. Reconceptualizar a raiva envolvendo diferentes componentes (cognitivos, fisiológicos, afetivos e comportamentais) que se manifestam em diferentes fases (por exemplo, expectativas que não foram cumpridas levando a uma elevada ativação e raiva que é exteriorizada) que podem ser geridas e controladas pelo doente; 9.5. Identificação das consequências positivas de gerir a sua raiva (como o respeito pelos outros e pelo próprio, obtenção de cooperação por parte dos outros, melhor saúde física); 9.6. Treino de relaxamento (anteriormente mencionado) como uma estratégia para obter uma resposta mais apropriada quando com raiva; 9.7. Verbalização de raiva através de uma forma controlada e assertiva: 9.7.1. Role-play e modelamento de comunicação assertiva. 10. Trabalho da sintomatologia depressiva dos doentes; 10.1. Racional sobre a tríade negativa; 10.2. Debater e corrigir distorções cognitivas (atitude como por exemplo: “não vou pedir ajuda à minha família porque não quero ser um peso para eles”); 10.3. Monitorização do humor: 10.3.1. Transmissão da noção de que os eventos afetam o nosso humor de forma negativa ou positiva. Podemos aumentar a frequência de eventos que nos proporcionem prazer. Deste modo temos a capacidade de controlar o nosso humor. 10.4. Incrementar atividades de mestria e prazer: 10.4.1. Incentivar os doentes a aumentar a frequência das atividades que lhes proporcionam prazer. 11. Promoção da prática de atividade física regular como uma forma de libertar o stress: 11.1. Através de pequenos trabalhos, como por exemplo manutenção do jardim e/ou prática de agricultura, caminhadas regulares; 11.2. Psicoeducação acerca de um bom padrão de sono de forma a evitar as insónias e pesadelos associados ao acontecimento traumático; 11.3. Técnicas de controlo de estímulo: 11.3.1. Deitar-se apenas quando com sono; 11.3.2. Não permanecer na cama quando não se consegue dormir apenas voltar a deitarse quando com sono; 11.3.3. Não usar a cama para outras atividades como ver TV ou ler; 11.3.4. Manter um ritmo regular (colocar o despertador sempre para a mesma hora, independentemente da qualidade ou tempo de sono); 11.3.5. Não dormir durante o dia; 11.3.6. Fazer as tarefas associadas a uma elevada ativação de manhã ou de tarde, não à noite (ler jornal/livros com conteúdo ativador, planear o dia seguinte, ver programas na TV que ativem, atividade física); 11.3.7. Minimização do consumo de álcool e/ou tabaco. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |15 ESTUDOS 12. Ênfase nos aspetos positivos nas vidas dos doentes, tal como a família (filhos e netos); 13. Reforço positivo de diálogos positivos e promotores da autoconfiança e que aumentem a probabilidade de comportamentos desejados e adaptativos; 14. Manutenção dos ganhos obtidos ao longo das sessões; CONCLUSÃO Os programas específicos de tratamento para esta perturbação, nomeadamente no âmbito da TCC parecem ser eficazes e preconizam fundamentalmente a modificação de crenças disfuncionais e as estratégias cognitivas e elas associadas, a normalização das memórias traumáticas no sentido de esbater a interpretação das mesmas como intrusivas e ameaçadoras e a integração e elaboração das memórias traumáticas, levando, assim, a uma redução do comportamento de evitamento e fuga como estratégia para lidar com ansiedade provocada (CLARK e BECK, 2010). Aliar as vantagens inerentes à TCC com as que decorrem de um contexto de intervenção em grupo afigura-se profícuo, na medida em que o contexto grupal fornece um meio de validação e acolhimento por pessoas afetadas pelo mesmo tipo de vivência e as mesmas dificuldades consequentes. Deste modo considera-se que o protocolo de intervenção em grupo utilizado no CHUC-HSC é útil e eficaz, no sentido de contribuir para o esbatimento da psicopatologia e, também para uma melhoria a nível da qualidade de vida e funcionalidade dos doentes. São abrangidas as várias áreas de dificuldade que estes doentes, para além da sintomatologia de PTSD, tipicamente apresentam, tal como a raiva, o humor deprimido e o sono perturbado. Para além de fornecer apoio aos próprios doentes, dá a possibilidade aos familiares dos mesmos para obterem uma melhor compreensão da problemática, podendo assim, dar o seu contributo para a constituição de uma rede de apoio social e familiar que é tão importante nestes doentes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, Afonso [et al.] - Perturbação pós-traumática do stress: avaliação da taxa de ocorrência na população adulta portuguesa. 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Dissertação de Mestrado Integrado em Psicologia, especialização em Psicologia Clínica Dinâmica e Sistémica, apresentada à Faculdade de psicologia e de Ciências da Educação, 2007. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |17 ESTUDOS BURNOUT NOS TÉCNICOS DA CONSULTA DE INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ BURNOUT SYNDROME IN ABORTION CLINIC PROFESSIONALS HUGO BASTOS, Médico Interno de Psiquiatria, CHUC, [email protected] ILDA MURTA, Médica Psiquiatra, CHUC, [email protected] Resumo A síndrome de Burnout é característica daqueles que lidam com pessoas que necessitam de ajuda e consiste em exaustão emocional, despersonalização e insatisfação profissional. É comum entre os profissionais de saúde, principalmente nos de Ginecologia/Obstetrícia (58 a 89%). Este estudo teve como objectivo determinar a prevalência de queixas relacionadas com Burnout nos técnicos da consulta de Interrupção Voluntária de Gravidez (IVG) das maternidades Bissaya Barreto (MBB) e Daniel de Matos (MDM). Foi realizado em duas etapas. Na primeira foi aplicado um questionário elaborado para o efeito e a Escala de Ansiedade de Zung. Posteriormente, foi aplicada a Escala de Burnout de Maslach (EBM) e recolhidos depoimentos pessoais. Foram encontrados níveis baixos nas dimensões de exaustão emocional e despersonalização e elevados na realização profissional, o que indica uma baixa prevalência de Síndrome de Burnout nesta população. Existe um elevado grau de exaustão emocional em 7% e 17% dos profissionais da MDM e MBB, respetivamente. Concluiu-se que, para prevenir o desgaste profissional, em primeiro lugar é necessário estar consciente deste risco, a nível individual e das organizações, sendo necessárias múltiplas medidas quer a nível dos próprios profissionais quer a nível do sistema de saúde. Abstract The Burnout syndrome is typically seen in those who work with people in need. It’s characterized by three components: emotional exhaustion, depersonalization and professional dissatisfaction. It’s common in health professionals, especially in those who work in Genecology our Obstetrics (58 to 89%). We aimed to determine the prevalence of complaints related to the Burnout Syndrome in health professionals who work on the Bissaya Barreto’s (MBB) or Daniel de Matos’ (MDM) maternity hospitals, specifically on the voluntary pregnancy interruption (IVG) consultation. We conducted a survey in two different times. On the first one we used a questionnaire specifically elaborated for this study and the Zung’s Anxiety Scale. Afterwards we used the Maslach Bournout Scale (EBM) and recollected personal statements. Comparing with the control group of health professionals, those who work on IVG consultation reported higher prevalence of anxiety, irritability, headaches, sleep disturbances, dissatisfaction and low performance perception. We found low levels on the emotional exhaustion and depersonalization items and high levels of professional achievement, which indicate a low prevalence of the Burnout Syndrome on this population. There’s a high degree of emotional exhaustion in 7% and 17% of the professionals in MDM e MBB, respectively. We conclude that, in order to prevent professional exhaustion, there’s a need to be aware of the risk itself, both at individual and organizational levels. Several measures are needed, both in the professionals themselves and the health system. Palavras-chave: Burnout Profissional, Aborto induzido Keywords: Burnout Professional, Abortion induced Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |18 ESTUDOS INTRODUÇÃO A síndrome de Burnout ou de desgaste profissional é um problema característico daqueles que lidam direta e intensamente com pessoas que necessitam de ajuda. É um processo contínuo, inconsciente e insidioso, que se caracteriza por três componentes essenciais: exaustão emocional, despersonalização e insatisfação profissional. Condiciona uma constelação sintomática marcada por alterações do humor, do sono, do comportamento (irritabilidade, isolamento, cinismo), bem como alterações da memória e concentração. Pode manifestar-se também através de sintomas físicos, geralmente sentidos mais intensamente no local de trabalho, como cansaço, cefaleias, lombalgia, alterações gastrointestinais (diarreia/obstipação), cardiovasculares (palpitações) ou neurológicas (tremor, tonturas)(1,2).Os factores de risco para desenvolvimento de Burnout incluem factores: 1) individuais inexperiência, envolvimento afectivo excessivo, perfeccionismo, expectativas irrealistas em relação à profissão, dificuldade em pedir ajuda ou expressar queixas; 2) organizacionais - autoritarismo das chefias, hostilidade entre colegas, sobrecarga horária/intensidade do ritmo de trabalho/falta de pessoal, más condições do espaço físico; 3) natureza do trabalho - necessidade de lidar com grande tensão emocional quotidianamente(3).Esta síndrome é comum em médicos e enfermeiros e ainda mais prevalente entre os profissionais dos serviços de Ginecologia/Obstetrícia. A sua prevalência nestes últimos varia entre 58% e 89%, segundo vários estudos(4,5,6,7). Não existe evidência de um risco de doença mental significativamente aumentado nas mulheres que realizam interrupção voluntária da gravidez (IVG). Só uma pequena minoria experiencia tristeza ou arrependimento duradouros, que ainda assim são menores do que os causados por continuar uma gravidez não desejada(8,9,10). No entanto, os técnicos das consultas de IVG lidam com o stress e ambivalência relacionados com a tomada de decisão das mulheres, num contexto indissociável dos factores socioeconómicos, religiosos e familiares que as envolvem. Parece, assim, necessário estar alerta para o risco de burnout, devido à carga emocional inerente ao trabalho destes técnicos. Existe uma correlação inversa entre o tempo médio por consulta e os sintomas de Burnout em ginecologistas/obstetras. Para além de outros factores que podem influenciar a duração da consulta, bem como o número de consultas a cargo de cada profissional, estes podem sentir-se sobrecarregados pelo desempenho de uma tarefa que sentem não ser executada por alguns dos seus pares, não por uma objecção moral, mas sim pela ausência de uma visão mais ampla da necessidade de uma rede pública, geral e universal de cuidados. Por outro lado, a ausência de um acompanhamento posterior, de uma boa rede de prevenção, com consultas de planeamento familiar e fácil acesso dos utentes a métodos contraceptivos seguros e eficazes, pode aumentar o número de IVG realizadas, contribuindo para os sentimentos de desconforto nos técnicos. Caso se confrontem com utentes “recidivantes”, é provável que isso contribua para o aumento do burnout nestes profissionais. No âmbito da Psiquiatria Conciliar/Ligação, iniciou-se em 1994, a consulta de psiquiatria na Maternidade Bissaya Barreto (MBB), realizada por técnicos do então Hospital Sobral Cid, com periodicidade quinzenal. Posteriormente, foi criada uma consulta de psiquiatria de ligação com a Maternidade Daniel de Matos (MDM). A existência destas consultas permite uma intervenção multidisciplinar, articulando não só médicos psiquiatras e ginecologistas/obstetras, mas também, pediatras e médicos de família, bem como enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Após anos de debate controverso, a aprovação da Lei nº 16/2007 de 17 de Abril, regulamentou a prática de interrupção voluntária de gravidez (IVG), até às 10 semanas de gestação, nos serviços de ginecologia/obstetrícia do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Assumiu-se o direito de decisão da mulher, responsabilizando-a sem a criminalizar, o que pode diminuir as dramáticas consequências do aborto clandestino, bem como minorar o estigma e os sintomas de culpabilização, sem no entanto comprometer a necessidade de reflexão sobre o ato. Pretende-se do SNS a garantia do acesso universal e gratuito a informação não diretiva sobre todos os aspectos envolvidos, aos métodos de aborto médico e cirúrgico, a métodos contraceptivos e ao apoio psicológico e social necessário. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |19 ESTUDOS Em Coimbra, ambas as maternidades iniciaram as referidas consultas, que têm lugar às terças e quintas na MBB e às segundas e quartas na MDM. Tal como previsto na lei, o processo decorre em três consultas distintas: 1) na primeira, é verificada a idade gestacional (que terá de ser inferior a 9 semanas e 6 dias) por ecografia; são explicados os procedimentos e concedidos os 3 dias de reflexão obrigatórios; 2) após 3 dias, é administrado mifepristone, presencialmente na consulta e são fornecidos os comprimidos de misoprostol, bem como as indicações para a sua utilização, que deverá ter lugar após 2 dias; 3) ao fim de 15 dias, é realizada nova ecografia de controlo e feita intervenção no sentido de promover a utilização de contraceptivos adequados e eficazes, que são por vezes colocados nessa mesma consulta. OBJETIVOS E MÉTODOS Este estudo teve como objectivo determinar a prevalência de queixas relacionadas com Burnout nos técnicos da consulta de IVG das duas maternidades de Coimbra – Maternidade Bissaya Barreto (MBB) e Maternidade Daniel de Matos (MDM). O estudo foi dividido em duas fases, separadas no tempo. 1.ª Fase Foi iniciada em Maio de 2010, na MBB, após alguns dos técnicos envolvidos na consulta de IVG dessa instituição terem relatado preocupação face a uma sentida mecanização das condutas, pouca reflexão/discussão conjunta sobre os procedimentos e insuficiência das respostas oferecidas. Foram aplicados aos 7 técnicos dessa consulta (3 obstetras, 2 internos da especialidade e 2 enfermeiros) um questionário elaborado para o efeito (tabela 1) e a Escala de Ansiedade de Zung(11). Foram selecionados 7 profissionais com as mesmas características a trabalhar na consulta externa de ginecologia para controlo. Tabela 1 –Questionário da 1.ª fase 2.ª Fase Em Outubro, foi aplicada a Escala de Burnout de Maslach (EBM)(12,13) aos 6 técnicos atuais da consulta de IVG da MBB (5 médicos e 1 enfermeira) e aos 18 técnicos da mesma consulta da MDM (10 médicos, 5 enfermeiros, 2 assistentes sociais e 1 psicóloga). Para além disso foram recolhidos depoimentos qualitativos sobre o funcionamento das consultas e sentimentos dos profissionais em relação às mesmas, nas 2 maternidades. RESULTADOS No que toca aos resultados da primeira fase do estudo (gráfico 1) é de referir que, quando comparados com os técnicos da consulta externa de ginecologia geral, os da consulta de IVG relataram mais frequentemente ansiedade, irritabilidade, cefaleias e alterações do sono assim como baixa satisfação e performance no trabalho. Através da resposta às questões abertas integradas no questionário constatou-se que os profissionais consideram a consulta de IVG extremamente mecanizada, sem espaço para discussão e avaliação de casos clínicos. Salientam que a relação médico-doente não existe, verbalizando o sentimento que a utente é um número e não uma pessoa. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |20 ESTUDOS Gráfico 1: Comparação de Sintomas de Burnout entre técnicos de IVG e da consulta externa de ginecologia da MBB. Já em relação à segunda fase do estudo (gráfico 2), a aplicação da EBM revelou que, na subescala de exaustão emocional, na MBB, havia níveis baixos em 50%, moderados em 33,3% e altos em 16,7%, enquanto na MDM, existiam níveis baixos em 61,1%, moderados em 33,3% e altos em 5,6%; na subescala de despersonalização/cinismo, na MBB, havia níveis baixos em 83,3%, moderados em 16,7% e altos em 0% e na MDM, havia níveis baixos em 88,9%, moderados em 11,1% e altos em 0%; por último, na subescala de realização profissional, na MBB, havia níveis baixos em 0%, moderados em 50% e altos em 50%, sendo que na MDM os resultados obtidos revelaram níveis baixos em 0%, moderados em 5,6% e altos em 94,4%. Gráfico 2: Prevalência das dimensões de Burnout nos técnicos de IVG da MBB e MDM DISCUSSÃO Quando comparados com os técnicos da consulta externa de ginecologia, os técnicos da consulta de IVG da MBB apresentaram valores mais elevados de ansiedade, irritabilidade, cefaleias, alterações do sono, insatisfação e percepção de baixa performance. Já a aplicação da EBM revelou níveis maioritariamente baixos, nas dimensões de exaustão emocional e despersonalização, e elevados níveis de realização profissional, em ambas as maternidades. Isto indica uma pequena prevalência global de Síndrome de Burnout, na população em causa. Ainda assim, existe um elevado grau de exaustão emocional em 17% e 7% dos profissionais da MBB e MDM, respectivamente. Segundo o modelo proposto por Cristina Maslach, as expressões de exaustão emocional correspondem ao início do processo de Burnout. Esta exaustão pode originar uma resposta de afastamento emocional e mecanização dos procedimentos, que foi apelidada de despersonalização ou cinismo. Caso isto aconteça, as manifestações físicas, cognitivas e comportamentais do desgaste tornam-se cada vez mais evidentes e levam à diminuição da satisfação profissional. Neste caso, o processo pode ainda estar numa fase inicial dado que a consulta de IVG é recente. Uma das razões que pode explicar os níveis mais baixos na MDM é o maior número de profissionais envolvidos na consulta. Tal como referido, a literatura não evidencia um risco acrescido de doença psiquiátrica nas mulheres que realizam IVG, salientando que apenas uma minoria experiencia tristeza ou arrependimento duradouros e que continuar uma gravidez não desejada é bastante mais deletério para a saúde da mulher. No entanto, os técnicos desta consulta, em ambas as maternidades, referem explicitamente que sentem dificuldades indissociáveis dos factores socioeconómicos, religiosos e familiares que envolvem algumas destas mulheres, principalmente quando a ambivalência da mulher face à decisão é marcada e a sua rede social de suporte é problemática ou inexistente. Apesar da existência dos recursos em causa, mesmo quando é proposto o apoio psicológico, é raro a mulher recorrer ao mesmo. Isto pode dever-se à vontade de contactar com o mínimo de técnicos possível, acelerando o fim do processo, já que a opinião dos técnicos é que a esmagadora maioria das mulheres que recorrem à consulta vem decidida e prefere uma abordagem rápida. A necessidade de assumir uma postura não diretiva e, sobretudo, que não seja percebida como julgadora da opção da mulher pode Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |21 ESTUDOS explicar a sensação de afastamento, que alguns profissionais referem em concomitância com a insatisfação por não ser criada uma relação médico“doente”, em que os primeiros também sejam envolvidos nas decisões, como estão habituados nos restantes procedimentos de diagnóstico e terapêutica. Um dos factores relacionados com a organização dos serviços, que os profissionais reportam é o de serem recebidas, por ambas as maternidades, pessoas de qualquer região geográfica do país. A percepção é a de que muitas mulheres, principalmente das regiões rurais dos concelhos e distritos limítrofes de Coimbra, evitam ir ao centro de saúde ou aos serviços mais próximos do local de residência, para garantirem que permanecem no anonimato. Para além de este facto poder estar a contribuir para uma maior sobrecarga de alguns serviços, origina outros problemas que influenciam a consulta, porque muitas mulheres referem ter dificuldades em deslocarem-se três vezes à consulta, em dias diferentes, seja por dificuldades em pagar os transportes, ou em faltar ao trabalho. Assim, surgem por vezes atritos, pois é manifestada a vontade de não respeitar o período de reflexão obrigatório. Os profissionais entrevistados, não referiram questões culturais, morais ou religiosas como factores implicados nos seus sentimentos em relação às consultas de IVG. Não podemos deixar de realçar que alguns dos profissionais lembraram que as equipas das maternidades, quisessem ou não estar envolvidos na IVG, sempre estiveram em contacto com esta realidade, muito antes da aprovação da lei, com a enorme agravante que, antes da legalização, era frequente recorrerem ao serviço de urgência mulheres com complicações de abortos praticados em condições péssimas. Assim, estes profissionais afirmam que os sentimentos de impotência, insatisfação, mecanização das condutas e desumanização eram muito maiores então. Por último, existe uma percepção de insuficiência da resposta a nível do planeamento familiar que se expressa também nos casos em que a mesma mulher recorre repetidamente à IVG. Na opinião dos profissionais, há a necessidade de maior informação, desde muito mais cedo (aulas de educação sexual, por exemplo); maior abrangência dos cuidados de saúde primários (muitas jovens não têm médico de família, outras não recorrem às consultas de saúde da mulher/planeamento familiar até muito depois de iniciarem a vida sexual); maior disponibilidade dos métodos contraceptivos em si: os anticoncepcionais orais e preservativos deviam ser disponibilizados gratuitamente nas escolas e centros de saúde (é claro que isto só por si não resolve tudo, principalmente nas adolescentes, porque se mantém o problema de terem de manter ocultado dos familiares/professores/técnicos de saúde que têm relações sexuais); as alternativas hormonais de administração menos frequente (anel vaginal, transdérmico, implante) tornam-se muito dispendiosas para a maioria da população e não são comparticipadas. Ou seja, no entender dos elementos destas equipas, há muitos factores potenciadores do aumento de IVG, que podem levar à insatisfação e frustração dos técnicos, que estão muito para além do âmbito de intervenção dos mesmos, exigindo respostas a outros níveis. De referir como limitações do estudo, a pequena amostra analisada e a não recolha de dados sociodemográficos dos profissionais que permitisse correlacioná-los com o risco de Burnout. Não foram encontrados outros estudos a nível nacional ou internacional, específicos sobre este tema. Consideramos contudo que, apesar de a amostragem ser muito pequena, as respostas são relevantes dadas as características do trabalho. Pretende-se alargar o estudo a outros serviços da região centro de modo a poder aferir critérios e efetuar um estudo mais conclusivo. PROPOSTAS Para prevenir o desgaste profissional em primeiro lugar é necessário estar consciente deste risco, a nível individual e das organizações. Devem então ser implementadas medidas de âmbito geral como a estabilidade da relação laboral, mecanismos justos de progressão na carreira, incentivos à atualização regular de conhecimentos, a manutenção da qualidade dos espaços físicos e a dotação de profissionais em número que permita uma carga horária e ritmos de trabalho aceitáveis. Por outro lado, é fundamental existirem espaços de partilha e discussão não só dos aspectos técnicos, como também Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |22 ESTUDOS das dificuldades emocionais/relacionais sentidas, com especial atenção para os profissionais mais novos/mais inexperientes. É também necessária uma integração dos diversos níveis de cuidados de saúde, das diversas especialidades médicas envolvidas, bem como das equipas de psicologia e de serviço social, que permita uma identificação precoce das situações problemáticas específicas. No caso das consultas de IVG é, ainda, fundamental existir uma aposta no planeamento familiar e na facilitação do acesso aos métodos contraceptivos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (1) Maslach C, Jackson S, Leiter M. Maslach burnout inventory, 3rd edn. In: Zalaquett C, Wood R, eds. Evaluating Stress: A Book of Resources. Rowman&Littlefield Publisher Inc., Lanham,Maryland, MD, USA. 1997. (2) Maslach C, Schaufeli WB, Leiter MP. Job burnout. Annu Rev Psychol 2001;52:397–422. (3) Linzer M, Visser MR, Oort FJ, Smets EM, Mcmurray JE, De Haes HC. Predicting and preventing physician burnout: results from the United States and the Netherlands. Am J Med 2001;111:170–5. (4) Martini S, Arfken CL, Churchill A, Balon R. Burnout comparison among residents in different medical specialties. Acad Psychiatry 2004;28:240–2. (5) Defoe DM, Power ML, Holzman GB, Carpentieri A, Schulkin J. Long hours and little sleep: work schedules of residents in obstetrics and gynecology. Obstet Gynecol 2001;97:1015–18. 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(12) Maslach C., Jackson S.E., The measurement of experienced burnout. Journal of Occupational Behaviour 1981, Vol.2: 99-113. (13) Maslach C, Jackson S. MBI. Maslach Burnout Inventory. Manual research edition. University of California. Palo Alto: Consulting Psychologist Press, 1996. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |23 ESTUDOS DOENTE ONCOLÓGICO: UMA ABORDAGEM NEURO -PSICO-ONCOLÓGICA ONCOLOGIC PATIENT: A NEURO-PSYCHO-ONCOLOGIC APPROACH CATARINA COSTA, Mestranda em Neurociências Cognitivas e Neuropsicologia, Universidade do Algarve, [email protected] CATARINA GUERREIRO, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, Universidade do Algarve, [email protected] DANIELA MARQUES, Mestranda em Neurociências Cognitivas e Neuropsicologia, Universidade do Algarve, [email protected] SILVANA FREITAS, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde, Universidade do Algarve, [email protected] Resumo Abstract A doença oncológica é um grave problema de saúde pública, com custos bastante elevados, não só económicos, mas também sociais, psicológicos e neuropsicológicos. Devido às suas características, esta doença necessita de um acompanhamento contínuo por parte dos profissionais de saúde (PIMENTEL, 2003; SJÖGREN et al., 2000). Consequentemente, é indispensável que a intervenção incida na adaptação do doente ao seu estado de saúde (PEREIRA et al., 2005), de modo a contribuir para um ajustamento mais positivo à doença (TRINDADE et al., 2002). Através de uma revisão da literatura sobre o tema, pretende-se elaborar um modelo preliminar de intervenção multidisciplinar, com recurso a uma abordagem holística no âmbito das doenças neuro-oncológicas, nomeadamente para neoplasias cerebrais intracranianas. Este modelo visa principalmente: (1) promover a saúde mental através do apoio emocional e social ao doente e à família; (2) intervir no funcionamento cognitivo e comportamental com recurso à reabilitação cognitiva; (3) reintegrar o doente num contexto socioprofissional; e (4) melhorar a qualidade de vida do doente. Em suma, ao incluir uma abordagem mais ampla da problemática em termos psicológicos e neuropsicológicos, este modelo permitirá aumentar a eficácia da intervenção nos doentes com neoplasia cerebral intracraniana. The oncological disease is a serious public health problem, with very high costs, not only economics but also social, psychological and neuropsychological. Due to its characteristics, this disease requires close monitoring by health professionals (PIMENTEL, 2003; SJÖGREN et al., 2000). It is therefore essential that the intervention focuses on adapting the patient to his health condition (PEREIRA et al., 2005), in order to contribute to a more positive adjustment to illness (TRINDADE et al., 2002). Through a review of the literature on the subject, we intend to develop a preliminary model of intervention, using a holistic approach in the context of neuro-oncology, particularly for intracranial brain neoplasms. This model aims primarily to: (1) promote mental health through the emotional and social support to the patient and family, (2) intervene in the cognitive and behavioral functioning using the cognitive rehabilitation, (3) reintegrate the patient in a socio-professional context and (4) improve the quality of life of patients. In short, by including a broader approach to the problem in psychological and neuropsychological terms, this model will increase the effectiveness of intervention in patients with intracranial brain neoplasms. Palavras-chave: oncologia, neoplasias, reabilitação, Keywords: medical oncology, neoplasms, psicoterapia. rehabilitation, psychotherapy. Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |24 ESTUDOS INTRODUÇÃO Doença Oncológica A doença oncológica é uma doença silenciosa que apresenta inúmeras implicações psicológicas, socioprofissionais e familiares (PIMENTEL, 2003). De acordo com alguns autores (e.g. MOADEL et al., 2002; ODGEN, 2004), o cancro é definido como um crescimento incontrolável de células anormais que produzem tumores, que são também designados neoplasias. Existem dois tipos de neoplasias: as benignas (que não se espalham pelo corpo) e as malignas (que apresentam metástases, ou seja, ocorre a separação das células neoplásicas do tumor primário e existe migração das mesmas para outro local). Esta doença é considerada crónica, muitas vezes debilitante e até mesmo fatal, afetando cada vez mais pessoas. A mortalidade inerente à doença oncológica abrange cerca de 7.400.000 pessoas. Esta é a segunda causa de morte em todo o mundo e em Portugal apresenta uma prevalência de 23,2% (SILVA et al., 2002). A doença oncológica insere-se no grupo das doenças que ameaçam a integridade física e psicológica do indivíduo, o que pressupõe um impacto profundo no modo como os indivíduos se percepcionam a si próprios, e na forma como analisam o ambiente social que os rodeia (MATOS et al., 2005b). Desta forma, e devido às suas características, é necessário um acompanhamento contínuo por parte dos profissionais de saúde, devido ao facto de ser considerada um grave problema de saúde pública, com custos bastante elevados, não só económicos, mas também sociais e psicológicos (PIMENTEL, 2003). O diagnóstico de cancro representa um acontecimento de vida importante e catastrófico para a maioria dos indivíduos (MCINTOSH, 1974), tendo um forte impacto na qualidade de vida do doente e da sua família. A nível psicológico, os doentes com cancro podem apresentar sintomatologia ansiógeno-depressiva grave, falta de controlo, alterações de personalidade e também revolta (ODGEN, 2004), podendo estas relacionarem-se com múltiplos fatores inerentes à doença e, eventualmente, à morte (RIBEIRO, 2002). Neste contexto, a Psico-Oncologia surge com o principal objetivo de estudar as possíveis relações entre as variáveis psicológicas e a doença oncológica (BENNETT, 2002; TRINDADE et al., 2002) e desempenha também um papel importante no alívio dos sintomas e na promoção da qualidade de vida dos doentes e dos seus familiares (ODGEN, 2004). Por outro lado, a Neuro-Oncologia tem como objeto de estudo as neoplasias cerebrais e do sistema nervoso central, bem como as comorbilidades neurológicas que advêm a partir daí. O seu principal intuito é a caracterização objetiva dos défices cognitivos, a identificação das áreas preservadas e a melhoria funcional dos défices cognitivos, de modo a diminuir o seu impacto no dia-a-dia dos doentes (MEHTA et al., 2011). Neoplasias Cerebrais De todos os cancros, as neoplasias cerebrais representam 1,4%. Estas interferem com o funcionamento cerebral normal, comportando um grande impacto sobre o doente e sobre a sua estrutura sociofamiliar (COITEIRO, 2006). As neoplasias cerebrais apresentam uma variedade de processos patológicos, com uma patofisiologia, manifestação clínica, prognóstico e tratamento vastos (ARDILA et al., 2007; ANDERSON et al., 2008; LINHARES, 2009). Adicionalmente, estas podem dividir-se em duas categorias: as primárias e as secundárias. As neoplasias cerebrais primárias podem ocorrer em qualquer localização cerebral, sendo as neoplasias supratentoriais as mais frequentes. Destacam-se as de origem neuroepitelial, como os gliomas (cerca de 45%), seguidos pelos meningiomas, (cerca de 15%) e pelas neoplasias das glândulas pituitárias (que conjuntamente com as neoplasias dos nervos cranianos e com as metástases cerebrais, constituem os restantes 40%). Estima-se que existam mais de 100.000 casos de neoplasias cerebrais primárias diagnosticadas todos os anos, sendo estas mais prevalentes no sexo masculino (HABIB, 2003; GARCIA et al., 2009). Por sua vez, as neoplasias cerebrais secundárias, ou seja, as metástases, são extremamente comuns e podem ocorrer como consequência de outras etiologias neoplásicas, onde as mais frequentes são: a neoplasia do pulmão, a neoplasia da mama, o melanoma maligno, Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |25 ESTUDOS a neoplasia renal e a neoplasia do colo-retal. Estas ocorrem em cerca de 10 a 15% dos doentes oncológicos, contudo são mais frequentes nas neoplasias cerebrais primárias (LEVIN, 1999; COITEIRO, 2006). No plano das manifestações clínicas das neoplasias cerebrais, são observáveis, na maioria dos casos, hipertensão intracraniana, défice neurológico progressivo, crises epiléticas (parciais e generalizadas), alterações cognitivas e comportamentais. Contudo, a sua apresentação clínica varia de acordo com a localização da neoplasia, as suas características e o seu crescimento (ANDERSON et al., 2008). É de salientar que todos estes fatores irão interagir com as características individuais do doente. Por sua vez, o crescimento lento associado a algumas neoplasias pode resultar num processo insidioso de progressão subtil, cujos sintomas podem associar-se a um processo neurodegenerativo. Geralmente a família e os amigos atribuem estas alterações graduais de memória, personalidade e ou humor, a fatores relacionados com a idade, stresse ou depressão (ANDERSON et al., 2008). Quando os primeiros sinais e manifestações clínicas do tumor são os défices cognitivos, estes sugerem que a progressão da lesão atingiu um nível de gravidade que poderá interferir com as atividades de vida diária do doente (BAUMGARTNER, 2004; ANDERSON et al., 2008). Avaliação Neuropsicológica e Défices Cognitivos Está documentado na literatura que cerca de 20% dos doentes apresentam alterações cognitivas e comportamentais (NEWTON et al., 2007; GEHRING et al., 2008). GEHRING e outros (2008) referem que o aumento da esperança média de vida nos doentes com neoplasia cerebral tem um efeito negativo no que respeita ao risco de prevalência de défices cognitivos, particularmente durante os períodos em que o tumor se encontra em remissão. Segundo GIOVAGNOLI (2012), o estudo das neoplasias cerebrais tem revelado a importância da avaliação cognitiva e comportamental, tanto no âmbito do tratamento como do prognóstico. A avaliação neuropsicológica contribui para o diagnóstico, caracterização clínica, e para a monitorização dos doentes com neoplasias cerebrais intracranianas. É um método não invasivo que permite monitorizar o desenvolvimento da neoplasia e os efeitos do tratamento, viabilizando o estabelecimento de correlações neuroanatómicas (ANDERSON et al., 2008; GIOVAGNOLI, 2012). Os objetivos da avaliação neuropsicológica variam de acordo com a fase da doença e do tratamento. Numa fase inicial, o objetivo consiste em caracterizar o funcionamento cognitivo do doente. Após o diagnóstico, a avaliação neuropsicológica fornece critérios para o tratamento, nomeadamente para as decisões que irão ser consideradas acerca dos possíveis efeitos do mesmo. Por último, a avaliação neuropsicológica permite equacionar e planear tratamentos não farmacológicos, como por exemplo a reabilitação cognitiva e o suporte psicológico (ANDERSON et al., 2008; GIOVAGNOLI, 2012). No que diz respeito ao tipo de défices cognitivos, de acordo com a literatura, são frequentes ao nível da linguagem, da memória, da perceção visuo-espacial, da orientação espacial, da atenção e das funções executivas (BELL et al., 1998; DUVAL et al., 2008; GEHRING et al., 2009; PROKASHEVA et al., 2011). Existem diversas causas, apontadas pelos diferentes estudos, para o surgimento dos défices cognitivos. Alguns estudos mostram que a lesão, a sua progressão, as complicações neurológicas relacionadas com a neoplasia, a epilepsia secundária e o tratamento poderão estar na origem dos défices (RABBITT et al., 1998; BAUMGARTNER, 2004). Contudo, a natureza e a gravidade dos défices cognitivos dependem da localização, lateralização e extensão da neoplasia (TAPHOORN et al., 2004; SCHAGEN et al., 2007). Existe também o efeito perverso do tratamento farmacológico, que embora por um lado alivie os défices cognitivos, por outro contribui para o surgimento ou aumento dos mesmos, como efeito colateral (GEHRING et al., 2008). Por outro lado, segundo JOLY e outros (2011), os fatores associados à situação atual do doente podem Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |26 ESTUDOS também estar relacionados com os défices cognitivos, sendo o desempenho ocupacional e as relações sociais os mais afetados e os que exercem maior influência. Para além dos fatores físicos (e.g. anemia), alguns fatores psicológicos relacionados com o anúncio da doença (e.g. stresse, ansiedade, depressão), a experiência atual ou as perspetivas futuras, poderão explicar a presença dos défices cognitivos. Intervenção Psicológica A intervenção do Psicólogo é efetuada em todas as etapas da doença oncológica, começando desde logo na participação em ações de educação para a saúde e projetos de prevenção da doença oncológica. No âmbito das equipas de cuidados de saúde primários, as contribuições específicas da Psicologia centram-se na promoção de estilos de vida saudáveis e na mudança de comportamentos relacionados com a saúde (MCINTYRE et al, 2002; TRINDADE et al., 2002). No que confere à neoplasia cerebral, esta exige uma intervenção coordenada e multidisciplinar com profissionais especializados na área da oncologia, onde o apoio psicológico deve apresentar um relevo importante, de modo a fomentar a adaptação do doente e da sua família à doença, ao tratamento e aos efeitos colaterais decorrentes do mesmo (DINGMAN et al., 2008). No entanto, contrariamente a outras patologias oncológicas, a neoplasia cerebral tem sido pouco fundamentada na literatura em termos de intervenção psicológica. Assim, as intervenções centram-se, essencialmente, na psicoeducação e na terapia cognitivo-comportamental, que fomenta o desenvolvimento de estratégias adaptativas que permitem ultrapassar situações mais adversas relacionadas com a doença, facilitando a recuperação e restauração da qualidade de vida do doente (DEVINS et al., 2010). A literatura indica-nos que existem reações emocionais e comportamentais comuns associadas aos défices cerebrais decorrentes de neoplasias cerebrais. Desta forma, é importante identificar o estilo de vida prémórbido do doente, avaliar o seu estado de consciência e a capacidade para dar respostas ajustadas às prováveis dificuldades encontradas, permitindo assim uma reabilitação bem-sucedida (SILVA, 2012). Deste modo, a depressão é uma patologia que ocorre, frequentemente, após uma lesão cerebral, sendo que a sua manifestação pode resultar de uma lesão no sistema dorso-lateral frontal, originando uma pseudo-depressão (BLUMER et al., 1975, citados por SILVA, 2012). Por outro lado, os sintomas depressivos também podem ser reativos ao impacto da lesão cerebral no doente, isto é, podem surgir como consequência das perdas subjacentes à lesão, a perda de autonomia e de aptidão laboral (SOHLBERG et al., 2009). Para além da depressão, surge também sintomatologia ansiosa e diminuição da autoestima. A ansiedade é normalmente manifestada através do nervosismo, insegurança ou medo, refletindo assim uma dificuldade em enfrentar situações stressantes (SILVA, 2012), a diminuição da autoestima pode levar à autodepreciação e à desesperança (SOHLBERG et al., 2009). Neste sentido, de acordo com alguns autores (SELIGMAN, 1996 citado por MATOS et al., 2005a; GIL, 2002; SILVA, 2012), as intervenções psicoterapêuticas, são essenciais para uma adaptação positiva, dos doentes e familiares, às dificuldades inerentes à doença e à conscientização dos défices apresentados. Estas intervenções irão contribuir para a tomada de consciência dos seus medos e sentimentos sobre a doença, o tratamento e acerca do futuro, expressandoos de uma forma positiva e permitindo o desenvolvimento de competências para lidar com os sentimentos de stresse, fomentando um estilo de vida saudável. Em relação às intervenções psicoterapêuticas com os familiares de doentes oncológicos estas essencialmente focam-se em terapias de grupo, que podem facilitar um aumento da sua qualidade de vida. A partilha de experiências emocionais e sentimentos com pessoas que estão a vivenciar situações semelhantes, pode ajudar também a lidar com emoções intensas e desagradáveis associadas à doença oncológica e ao cuidado do doente (MATOS et al., 2002b; MCINTYRE et al., 2002; ODGEN, 2004; PEREIRA et al., 2005). As terapias cognitivo-comportamentais são também um método estruturado que tem como principais objetivos: (1) identificar pensamentos automáticos; (2) reconhecer Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |27 ESTUDOS as relações entre a cognição, os afetos e o comportamento; (3) estudar a legitimidade de pensamentos automáticos e crenças nucleares; (4) corrigir cognições facciosas por cognições mais realistas; e (5) identificar e modificar crenças disfuncionais do pensamento (BECK et al., 1979). A sua aplicabilidade no programa de reabilitação neuropsicológica surge como um método de gestão das perturbações emocionais após uma lesão cerebral, sendo um método direcionado para o problema e que se fundamenta em dois princípios centrais: (1) as nossas cognições têm uma influência sobre as nossas emoções e comportamentos; e (2) o modo como agimos ou nos comportamos pode afetar profundamente os nossos padrões de pensamentos e as nossas emoções (WRIGHT et al., 2008). Reabilitação Neuropsicológica A maioria dos doentes com neoplasias cerebrais intracranianas enfrenta algum grau de incapacidade cognitiva e de descontinuidade emocional, quando comparado com o seu estado pré-mórbido (ANDERSON et al., 2008). Os principais objetivos dos programas de reabilitação neuropsicológica consistem em restaurar ou compensar os défices cognitivos resultantes da lesão cerebral (GEHRING et al., 2010), bem como intervir na adaptação do doente e na melhoria dos aspetos sociais, físicos e psicológicos (ABRISQUETA-GOMEZ et al., 2006). Desta forma, deve ser delineado um plano de reabilitação individualizado, adaptado às necessidades do doente, reequacionando os pontos fortes e fracos do funcionamento cognitivo e do estado emocional do doente (ANDERSON et al., 2008). A reabilitação neuropsicológica contempla uma grande variabilidade de métodos e técnicas de intervenção. Segundo a literatura, as estratégias de reabilitação neuropsicológica mais utilizadas no âmbito das neoplasias cerebrais são as Técnicas de Restauração e de Compensação (TAPHOORN et al., 2004; ANDERSON et al., 2008; JOLY et al., 2011; GIOVAGNOLI, 2012). A Restauração baseia-se no conceito de plasticidade cerebral e no princípio da prática regular de tarefas (repetição), de modo a restaurar as capacidades cognitivas e comportamentais que estão comprometidas (e.g. treino cognitivo). Por outro lado, as Técnicas de Compensação visam a substituição da função perdida com recurso a novas estratégias que permitem organizar e relembrar a informação através de elementos do meio ambiente (e.g. ajudas externas) (GONZAGA et al., 2008). Abordagem Holística A abordagem holística prioriza uma visão integrada dos aspetos cognitivos e emocionais da reabilitação do doente, evitando isolar os aspetos cognitivos, uma vez que estes interagem em simultâneo com os aspetos motivacionais e afetivos (GOUVEIA, 2006). Segundo a mesma autora, o ponto-chave desta abordagem consiste em ampliar a autoperceção do doente sobre as suas dificuldades, surgindo desta forma a importância da psicoterapia como técnica de intervenção. O recurso a uma abordagem multidisciplinar, com intervenção neuropsicológica, psicoterapia cognitivocomportamental e terapia farmacológica adjuvante, permitirá atingir uma recuperação mais eficaz do doente (GOUVEIA, 2006; ANDERSON et al., 2008; HASSLER et al., 2010; JOLY et al., 2011). Tal como se encontra descrito, o tratamento dos doentes com neoplasias cerebrais intracranianas apresenta uma maior eficácia quando é realizado de acordo com uma abordagem multidisciplinar. No presente trabalho de revisão teórica procurou-se ilustrar um modelo preliminar de intervenção holística no âmbito das doenças neurooncológicas, nomeadamente para neoplasias cerebrais intracranianas. METODOLOGIA Este trabalho constitui-se através de uma breve revisão da literatura referente às abordagens psicoterapêuticas e neuropsicológicas para o tratamento da doença neurooncológica. Para tal, realizou-se uma consulta bibliográfica de artigos (selecionados através da pubmed) e de livros (existentes na base de dados da biblioteca da Universidade do Algarve).Os critérios de inclusão para os estudos encontrados foram: estudos de revisão acerca da terapêutica utilizada no tratamento da doença neuro-oncológica, estudos de eficácia Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |28 ESTUDOS terapêutica e estudos comparativos entre as abordagens terapêuticas. Posteriormente, através da compreensão das abordagens existentes, procurou-se delinear um modelo preliminar de intervenção. Modelo Preliminar de Intervenção Com este modelo pretende-se: (1) promover a saúde mental através do apoio emocional e social ao doente e à família; (2) intervir no funcionamento cognitivo e comportamental com recurso à reabilitação cognitiva; (3) reintegrar o doente num contexto socioprofissional; e, por último, (4) melhorar a qualidade de vida do doente. O modelo está elaborado em cinco etapas. Com exceção da primeira (Entrevista Clínica), todas as etapas ocorrem em simultâneo e visam intervir sob o doente e a família. Fases do Modelo de Intervenção: 1) Entrevista Clínica Através da entrevista clínica, pretende-se recolher informação relevante sobre o doente de forma a aprender e compreender o seu funcionamento psicológico e estabelecer uma relação positiva (aliança terapêutica). O psicólogo, através de métodos e técnicas características da Entrevista Clínica deverá compreender e clarificar os problemas apresentados pelo doente e recolher informação que permita desenhar um programa de intervenção psicoterapêutico. 2) Psico-Educação Esta etapa tem como principal objetivo ajudar o doente e a família a desenvolverem competências para lidarem com a doença, sintomas e o tratamento, bem como as implicações desta na sua qualidade de vida. Pretende-se proporcionar ao doente e à família informação sobre a doença e de todas as suas implicações, promover a adesão do doente à terapêutica e da família ao grupo terapêutico e, por último, dotar o doente de competências que lhe permitam compreender as diferenças entre as suas características pessoais e as características da sua doença. Esta intervenção ocorre em duas fases: antes da intervenção psicológica e durante a Intervenção Neuropsicológica (cfr. 4). A sua realização é feita com recurso a sessões teórico-práticas de informação e esclarecimento (método expositivo e participativo) através da entrega de folhetos informativos sobre a doença, sintomas e tratamento. Após a implementação desta etapa, espera-se que os seus intervenientes sejam capazes de, para além de compreender a doença, sintomas e o tratamento, gerir a sintomatologia de tipo ansioso resultante pelo impacto da doença e os pensamentos negativos associados à mesma. Por último, pretende-se que o doente e a família adiram à terapêutica proposta: intervenção psicológica e neuropsicológica. 3) Intervenção Psicológica Após o levantamento da informação pessoal e prémórbida do doente durante a Entrevista Clínica e da adesão do mesmo à terapêutica psicológica, o psicólogo clínico desenha um plano de intervenção individualizado e adaptado às características do sujeito. O objetivo principal desta intervenção consiste em promover a adaptação do doente e da família à doença oncológica e permitir a aquisição de competências fundamentais para superar as diferentes fases inerentes à doença. Relativamente à intervenção com a família, pretende-se que esta seja inserida num grupo terapêutico, com o objetivo de partilhar sentimentos, medos e receios perante o futuro. Para além disso, permite proporcionar informação acerca dos sintomas, dos aspetos do cuidado ao doente e as necessidades emocionais e psicossociais dos doentes e dos cuidadores. Através da psicoeducação e de treino de técnicas de coping, de comunicação e de resolução de problemas, o principal objetivo será modificar comportamentos, fomentando assim uma adaptação positiva e um conhecimento específico da doença e das formas de superar as situações mais adversas. Com recurso à psicoterapia cognitivo-comportamental, a intervenção com o doente passa por dinamizar estratégias adaptativas para lidar com a doença e com as suas fases, nomeadamente com os sintomas e o tratamento, bem como gerir sintomatologia Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |29 ESTUDOS ansiógenodepressiva. A intervenção é realizada com recurso a técnicas de dessensibilização sistemáticas e treino de relaxamento muscular, por exemplo. No final da intervenção, pretende-se que o doente e a família sejam capazes de lidar com a doença e gerir a sintomatologia associada à mesma. 4) Intervenção Neuropsicológica Em simultâneo com a intervenção psicológica surge a Intervenção Neuropsicológica. O seu principal objetivo consiste em identificar sequelas cognitivas e comportamentais e desenhar um programa de reabilitação neuropsicológico adequado ao doente. Os métodos e técnicas de intervenção neuropsicológica requerem: (a) entrevista neuropsicológica, na qual é feito o levantamento das queixas atuais cognitivas, comportamentais e funcionais; (b) avaliação neuropsicológica, de modo a obter informação sobre o seu estado cognitivo atual; (c) sessão de psicoeducação ao doente e à família, de forma a informar sobre o quadro cognitivo do doente e como se traduz no seu quotidiano; (d) negociação do plano de reabilitação juntamente com o doente e a família, onde são definidos os objetivos específicos; (e) implementação do plano de reabilitação, com recurso a técnicas de reabilitação neuropsicológicas adequadas ao doente e aos objetivos estabelecidos previamente; e, por último, (f) avaliação da intervenção, onde é realizada periodicamente uma monitorização do programa de reabilitação e avaliação funcional, bem como a adaptação do programa de reabilitação às necessidades do doente, sempre que necessário. Compete ao neuropsicólogo desenhar o programa de reabilitação do doente, utilizando técnicas adequadas a cada função cognitiva que se pretende reabilitar (e.g. treino cognitivo, estratégias compensatórias, ajudas internas, modificação ambiental). No final deste programa espera-se que o doente melhore o seu funcionamento cognitivo e que haja benefício na utilização das estratégias implementadas. 5) Reintegração Socioprofissional A última etapa deste modelo de intervenção consiste na reintegração do doente numa atividade socioprofissional adaptada à sua condição atual, de acordo com a evolução da doença e o grau de capacidade funcional do doente. Esta etapa pode decorrer de duas formas distintas, que variam de acordo o grau de capacidade funcional do doente. Este pode ser reintegrado na sua atividade profissional prévia ou então pode ser desenvolvido um novo plano de integração, caso o doente não apresente competências funcionais que o permita regressar à atividade prévia, por exemplo. Com a reintegração socioprofissional do doente pretende-se promover a participação ativa na vida comunitária social e profissional e que este amplie as suas perspetivas futuras. DISCUSSÃO Tendo como objetivo ilustrar um modelo de intervenção multidisciplinar, com recurso a uma abordagem holística no âmbito da doenças neuro-oncológicas, nomeadamente para neoplasias cerebrais intracranianas, procurou-se fazer uma breve revisão da literatura sobre o tema e elaborar um modelo preliminar de intervenção. O modelo contempla uma abordagem multidisciplinar holística, em que existe a participação ativa do doente e da família. Neste sentido, o objetivo final da nossa intervenção passa pela reintegração socioprofissional do doente através da otimização do seu bem-estar psicológico e de um programa de reabilitação neuropsicológica individualizado. Como refere WIDEHEIM e outros (2002), os défices que o doente apresenta (eg. memória, linguagem) devido à sua condição de saúde, leva-o a vivenciar limitações graves, adquirindo assim um elevado grau de dependência dos seus familiares e cuidadores. Por conseguinte, a família e o cuidador apresentam também um impacto psicossocial que deve ser tido em consideração, sobretudo devido às alterações nos papéis familiares e à sobrecarga emocional vivenciada pelos mesmos. As principais vantagens deste modelo serão, por um lado, o recurso a programas holísticos de intervenção com uma abordagem cognitivo-comportamental e neuropsicológica, o que representa uma otimização das ferramentas disponíveis para o tratamento destes Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |30 ESTUDOS doentes. Por outro lado, a inclusão da psicoeducação fornece um poderoso instrumento, não só para melhorar a evolução dos doentes, mas também para auxilia-los a gerir sentimentos de desespero, medos, estigma e baixa autoestima. Permite também que o doente compreenda a sua situação atual, participando ativamente no tratamento da doença, de modo a adaptar-se eficazmente. A inclusão da família em todo o processo terapêutico também constituirá uma importante maisvalia. Em suma, este modelo permitirá uma abordagem mais ampla da problemática em termos psicológicos e neuropsicológicos, de modo a aumentar a eficácia da intervenção. Como limitações apresentamos a grande variabilidade de manifestações cognitivas e comportamentais dos tumores cerebrais intracranianos, o que constitui uma dificuldade para os profissionais de saúde. No caso dos tumores malignos, a dificuldade na adesão à terapêutica pode condicionar todo o programa. Por último, os elevados custos económicos associados que um programa deste género pode comportar poderá condicionar a sua aplicabilidade. Apresentamos como sugestão para investigações futuras, o desenho de um estudo experimental exploratório com a finalidade de testar a eficácia da aplicabilidade do modelo de intervenção multidisciplinar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRISQUETA-GOMEZ, Jacqueline.; SANTOS, Flávia Reabilitação neuropsicológica, da teoria à prática. São Paulo: Editora Artes Médicas, 2006. ISBN 853-670-041-6. ANDERSON, Steven.; RYKEN, Timothy. - Intracranial tumors. In MORGAN, Joel; RICKER, Joseph, ed. Lit. - Textbook of clinical neuropsychology. New York: Taylor & Francis, 2008. ISBN: 184-169-477-0. p. 578-587. ARDILA, Alfredo; ROSSELLI, Mónica - Neuropsicología clínica. Bogotá: Manual Moderno, 2007. ISBN 97-072-9279-2 BAUMGARTNER, Karen - Neurocognitive changes in cancer patients. Seminars in Oncology Nursing. ISSN 0479-2081. 20:4 (2004) 284-290. 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Os autores procuraram identificar estratégias de organização dos serviços, de atuação psicoterapêutica, sócio ocupacional e psicofarmacológica, que visem diminuir o tempo de evolução da doença até ao diagnóstico, com o intuito de melhorar o prognóstico destes doentes. A evidência científica existente atualmente permite identificar benefícios decorrentes destes programas de intervenção precoce, ainda que também tenham sido identificadas várias limitações da investigação desenvolvida até ao momento. Assim, expõe-se no final do artigo o esboço de projeto para a criação de uma unidade de tratamento de jovens com psicose. Psychoses are serious diseases, sometimes even fatal, which typically emerge between adolescence and adulthood. They’re often chronic diseases and a major cause of disability and social stigma. We reviewed concepts and models of early intervention on the first psychotic episode and subsequent period. The authors tried to identify organizational, psychotherapeutic, socio-occupational and psychopharmacological strategies aimed at diminishing time between onset and diagnosis, in order to improve prognosis. Scientific evidence at present allows us to identify beneficial effects related to these early intervention programs, albeit there are several limitations on the investigation conducted so far. In the end we expose a sketch of the project that aims at creating a specialized unit for the treatment of young people with first psychotic episode. Palavras-chave: Esquizofrenia, Transtornos Psicóticos, Keywords: Schizophrenia, Psychotic Disorders, Early Intervenção Médica Precoce. Medical Intervention. Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. INTRODUÇÃO As psicoses são doenças graves e por vezes fatais que tipicamente emergem no período sensível entre a adolescência e a idade adulta. Uma vez que, muitas vezes, os episódios psicóticos tendem a repetir-se, dando origem a défices permanentes, configuram patologias com uma evolução prolongada, tendo sido já apelidadas de “doenças crónicas dos jovens”. São uma importante causa de incapacidade(1), que dificulta a aquisição de competências sociais, académicas e profissionais. Do grupo de quadros clínicos designados de forma lata como psicoses, destaca-se a esquizofrenia, que ao longo do século XX, e após a descoberta do agente etiopatogénico e consequente tratamento da neurossífils (paralisia geral), se tornou o paradigma da “loucura”, ficando indelevelmente associada a um forte estigma social. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |34 ESTUDO As Fases da Esquizofrenia A evolução da esquizofrenia pode ser conceptualizada como sendo dividia em quatro fases: pré-mórbida, prodrómica, primeiro episódio (e período crítico subsequente) e crónica. Na fase pré-mórbida, já há evidência de alterações em quase todas as funções cognitivas, à exceção da capacidade de leitura, nomeação de objetos e memória de reconhecimento. Gravemente alteradas encontramse a atenção sustentada, memória de trabalho, principalmente verbal, memória episódica (aprendizagem verbal) e a velocidade de processamento. Existem ainda défices subtis a nível motor e social(2,3,4). A fase prodrómica caracteriza-se por um estado prépsicótico que representa já um desvio importante do comportamento habitual(5). Nesta fase ocorre a instalação gradual de alterações psicopatológicas, como interpretações erróneas, crenças sobrevalorizadas ou ideias de referência, embora estas não atinjam ainda a intensidade que caracteriza os sintomas psicóticos propriamente ditos. No entanto, é já notório o declínio mais acentuado nos níveis cognitivo, motor e social. Aquando do primeiro episódio psicótico, está presente sintomatologia psicótica clara, de instalação aguda ou insidiosa(6). Em 75% dos casos, ocorre entre os 15 e os 30 anos(7), com um início mais tardio nas mulheres(8). Os sintomas positivos (delírios e alucinações) são mais frequentes na fase inicial da doença(9). É também nesta fase que existe maior declínio cognitivo, principalmente nos 3 primeiros anos após primeiro episódio(10). As alterações provocadas pelos sintomas positivos mas, principalmente, pela desorganização do pensamento e comportamento e pelos sintomas negativos, muitas vezes já arrastados, afecta gravemente o funcionamento social(11). Após a deterioração inicial, atinge-se uma fase de estabilização dos défices e sintomas, que se designa por fase crónica(12,13). A evolução da doença é muito heterogénea: 1/3 dos casos apresenta relativo bom prognóstico (sintomas e défices ligeiros), enquanto 2/3 têm sintomas moderados a graves, que condicionam grave desajustamento social. 10% dos doentes não voltam a ter remissão completa dos sintomas(14). O Modelo de Estadiamento Clínico das Psicoses É atualmente aceite que o estigma e o pessimismo face ao prognóstico condicionam o tratamento. Assim, a Esquizofrenia é, ainda hoje, não só um diagnóstico como um “prognóstico”, uma vez que a doença é validada clinicamente pela má evolução(15). A constatação desta realidade, levou a que nos últimos vinte anos, se procurasse uma mudança de paradigma, no que toca aos serviços dedicados ao tratamento desta patologia (e das psicoses de uma forma mais geral), como forma de impedir esse desfecho sombrio, que se pretende que não seja inexorável. Para atingir este fim, assumiu-se como necessária uma organização dos serviços voltada para estratégias preventivas. Na impossibilidade de promover a prevenção primária desta patologia, procurar-se-ia a detecção precoce e instauração atempada dos tratamentos adequados. A concretização deste objectivo é complicada desde logo pela dificuldade em atribuir um diagnóstico formal nas fases iniciais de apresentação, já que as fases clínicas iniciais são inespecíficas e sobrepõem-se fenotipicamente às fases iniciais de outras patologias. Assim, salientando que a referenciação dos casos deve acontecer quando existe suspeita e não certeza do diagnóstico, foram feitas recomendações com vista a enriquecer a abordagem categorial através da análise dimensional aos níveis temporal, de gravidade, persistência e recorrência dos sintomas. Com este intuito, um dos mais destacados centros vocacionados para a detecção e intervenção precoce em jovens com psicose, que se localiza em Melbourne, na Austrália e é liderado por McGorry e Yung, desenvolveu o modelo de estadiamento clínico das psicoses(16,17). Este modelo baseia-se no modelo médico de caracterização de doenças crónicas, que defende que a evolução da patologia determina diferentes terapêuticas propostas, sendo que as terapias instituídas precocemente são mais inócuas e eficazes do que os tratamentos posteriores, progressivamente mais paliativos. Os autores referidos auxiliam-se do exemplo do modelo de estadiamento das doenças oncológicas, como analogia para o que pretendem desenvolver no Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |35 ESTUDO caso das psicoses. No caso presentemente em análise, o estadiamento deve ter em conta definições clínicas e biopsicossociais, tais como: a gravidade, persistência e recorrência dos sintomas, alterações biológicas observáveis e o impacto social. Deve ser composto por etapas discretas, que orientem para a prevenção, já que o objectivo é identificar factores de risco gerais e específicos de cada fase, que possam ser alvo de intervenções terapêuticas, para impedir ou atrasar a progressão. Desta forma, é proposto o estadiamento das psicoses em 3 fases: ultra-alto risco, primeiro episódio e período crítico. Ultra-Alto Risco Segundo McGorry, a utilização do termo ultra-alto risco ao invés de pródromo justifica-se, segundo os pressupostos do modelo, para indicar que a progressão não é inevitável(18). Qualquer que seja o termo utilizado, o reconhecimento deste estádio encerra o desafio de estabelecer a fronteira entre experiências normais e aquelas que é necessário tratar. A partir de 1990, iniciaram-se tentativas de operacionalizar alguns critérios que definissem esta população(19). Esta linha de investigação produziu alguns avanços, mas os critérios atualmente utilizados apresentam ainda taxas de falsos positivos de cerca de 60%. É de salientar que estes falsos positivos revelam-se muitas vezes “verdadeiros positivos” para outras patologias e que podemos estar perante a existência de um paradoxo das estratégias de prevenção: o aumento do valor preditivo positivo diminui o número de beneficiários do programa(20). Acrescentase ainda que os programas de intervenção precoce mais longamente estabelecidos relatam uma tendência de aumento dos falsos positivos(21). As hipóteses aventadas para explicar estes dados são: um efeito de simples variação das amostras; a maior subjetividade que surge da detecção e inclusão de indivíduos com cada vez menor duração das alterações do comportamento e pensamento observadas; as intervenções instituídas precocemente são eficazes e previnem de facto a progressão para o estádio de primeiro episódio, que se teria dado na sua ausência. Yung e colaboradores definem 3 estados mentais de risco(22): 1) Estado de sintomas psicóticos atenuados (APSS): estão presentes alterações, sem intensidade psicótica, na percepção de objetos, tais como experiências de “vozes” e “visões”; pensamentos “estranhos” sobre o próprio e o mundo; interpretações erradas, preocupação com controlo da mente/comportamento; suspeição. 2) Estado de sintomas psicóticos intermitentes e breves (BIPS): existem sintomas com claro nível psicótico, mas com resolução espontânea dentro de 7 dias. 3) Risco genético com deterioração (GRD): há história familiar de perturbações psicóticas ou personalidade esquizotípica e deterioração do funcionamento social há pelo menos 4 semanas. Partindo destes estados de risco, definem-se os critérios de conversão para psicose(22): pelo menos 1 dos 5 sintomas atenuados atingiu nível psicótico >1h/dia, >4dias/semana durante último mês ou os sintomas provocam um impacto grave no comportamento. Os programas que promovem investigação acerca do diagnóstico e tratamento dos indivíduos considerados de ultra-alto risco, debatem-se com as questões éticas relacionadas com a legitimidade da exposição destas pessoas a tratamentos potencialmente lesivos e desnecessários. Devido a estas dificuldades, os ensaios “naturalistas” têm prevalecido sobre os aleatorizados e os ensaios clínicos existentes apresentam pequenas amostras(23). Ainda assim, existe alguma evidência que aponta para a eficácia de intervenções psicossociais e farmacológicas, como: terapia cognitivo-comportamental, terapia familiar, intervenção vocacional, psicoeducação, antipsicóticos de 2ª geração, lítio e omega-3. São, contudo, necessários estudos aleatorizados e multicêntricos, que permitam sistematizar terapias e estratégias a estudar, determinar os seus riscos e benefícios e definir os parâmetros, momento de início e combinação das intervenções. Uma vez que não é ainda possível retirar conclusões sólidas da evidência existente, no presente é recomendado manter a orientação conservadora do consenso internacional(24), publicado em 2005, que privilegia as intervenções psicossociais, evitando a utilização de fármacos. Primeiro Episódio Psicótico O estádio de primeiro episódio psicótico(25) compreende 2 períodos: pré e pós detecção. Os objectivos das Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |36 ESTUDO intervenções propostas devem ser os de diminuir o tempo até à detecção e também até à instituição de tratamento, o que nem sempre acontece com a devida brevidade. Para diminuir o tempo até à detecção do quadro podem realizar-se campanhas de sensibilização a nível dos cuidados primários, das escolas e junto de organizações das famílias. Deve igualmente pugnar-se por uma agilização da referenciação e promover o acesso a respostas especializadas. Após a detecção, deve ser instituída uma intervenção intensiva (psicossocial e farmacológica), sempre tendo presente a importância de promover desde o início a adesão terapêutica e o suporte sociofamiliar. Os objectivos do tratamento neste estádio são a remissão sintomática e recuperação funcional, primeiro; a prevenção das recaídas, de seguida. Período Crítico Os 3 a 5 anos que se seguem ao primeiro episódio configuram o chamado período crítico(25) e são cruciais para a definição do prognóstico a longo prazo. É neste período que existe o maior risco de recaídas, de abandono de projetos de vida e de suicídio. Dada a idade típica em que ocorre o primeiro episódio, o período crítico coincide com uma etapa fulcral para a estabilização da identidade, a formação e manutenção da rede de pares, de envolvimento em relações íntimas e de definição vocacional. Neste estádio, os objectivos terapêuticos são promover a gestão efetiva da medicação e minimizar o desenvolvimento de incapacidades. Ainda que na literatura seja amplamente realçada a importância deste estádio, a maioria dos países não têm disponíveis os recursos necessários para optimizar as intervenções realizadas. Existe evidência de benefícios (pelo menos a curto prazo) da inclusão destes doentes em serviços especializados no tratamento de jovens. A curta duração de alguns programas (1-2 anos) leva a perda de parte dos benefícios conseguidos, pelo que é feita a recomendação de estender o seguimento a 5 anos. Maximizar o envolvimento/adesão terapêutica, fomentar mudanças no estilo de vida, impulsionar o envolvimento familiar, proporcionar sessões de treino vocacional/ocupacional, com uma perspectiva integrada, multidisciplinar e de continuidade de cuidados, são os objectivos terapêuticos neste estádio. Barreiras ao Início do Tratamento e Estratégias de Prevenção Atualmente, os dados internacionais relativos à demora no diagnóstico e no início do tratamento das psicoses, nos serviços usuais apontam para uma variação entre 1 a 2 anos(26). Foi postulada a hipótese de este atraso na instituição do tratamento condicionar um pior prognóstico, nomeadamente devido a um efeito “neurotóxico” da desregulação traduzida pela psicopatologia psicótica. O conceito de “duração da psicose não-tratada” (Duration of Untreated Psychosis, DUP), reflete precisamente o tempo que decorre entre o início do primeiro episódio psicótico e a instituição de tratamento adequado. Esta hipótese gerou polémica e promoveu uma intensa investigação, inicialmente quase sempre através de estudos retrospectivos com algumas limitações. A controvérsia acerca da importância da DUP encontra-se mais resolvida, desde a publicação de uma revisão sistemática(27) e uma meta-análise(28) em 2005, que indicaram que a DUP é marcador e factor de risco independente de mau prognóstico, ainda que continue por esclarecer o mecanismo pelo qual tal ocorre. Sabe-se que, entre outros factores, o atraso no início do tratamento aumenta a probabilidade do primeiro contacto com os cuidados de saúde ser feito através dos serviços de urgência, muitas vezes de forma coerciva e foram, inclusivamente, descritos sintomas de Perturbação de Stress Pós-Traumático (PTSD) após internamento por 1º episódio psicótico. A investigação relacionada com a DUP possibilitou a sistematização do conhecimento acerca das principais barreiras ao tratamento(29), que podem ser divididas entre factores pessoais, familiares e técnicos (tabela 1), bem como a identificação de alguns obstáculos à diminuição da DUP e a definição de estratégias para os remover(30,31 e 32) (tabela 2). Tabela 1 -Barreiras ao Tratamento Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |37 (29) ESTUDO Tabela 2 -Estratégias para diminuir DUP (30,31 e 32) Programas de Intervenção Precoce em Jovens com Psicose A investigação sobre o primeiro episódio psicótico ganhou relevo a partir dos anos 80 do século passado e levou à formação das primeiras equipas de intervenção precoce, na Austrália, Reino Unido, Noruega, Dinamarca, Canadá e EUA, que serviram de modelo aos múltiplos programas atualmente existentes por todo o mundo. A partir de então, tem crescido o interesse no tema, o que se materializou na criação da International Early Psychosis Association em 1998, na publicação do consenso internacional em 2005(24), na inclusão em várias normas de orientação clínica de esquizofrenia de uma secção específica sobre intervenção precoce e nas discussões, que ainda decorrem, em torno dos novos sistemas classificativos das doenças mentais, nomeadamente o DSM-V. Procura-se atingir uma mudança de paradigma: concretizar uma estratégia preventiva capaz de gerar um maior optimismo nos doentes, familiares, técnicos e em todos aqueles que com eles contactam. Esta estratégia parte da ideia de que vários dos factores de risco que influenciam o prognóstico são modificáveis, como é o caso da DUP. Por outro lado, salienta que uma doença explicada pelas ações interdependentes de múltiplos factores, tem de ser tratada de forma multidisciplinar e abrangente, por exemplo através de intervenções específicas para evitar a disrupção do meio sociofamiliar e do percurso académico/laboral ou do reconhecimento e tratamento precoce das comorbilidades (depressão, abuso substâncias, perturbação de stress pós-traumático, etc). Reconhece, ainda, a impossibilidade atual da prevenção primária, devido ao desconhecimento da base etiopatogénica, à inexistência de biomarcadores e à inespecificidade dos factores de risco. Assim, almeja para já uma intervenção secundária precoce, em 3 fases: 1) ultra-alto risco, 2) primeiro episódio, 3) período crítico. Desde o seu início, estes programas envolveram ainda um outro debate, que se prende com o seu foco poder ser direcionado exclusivamente para a esquizofrenia ou, ao invés, alargado às perturbações psicóticas em geral. Se por um lado o diagnóstico de esquizofrenia é muito estável, por outro ele só é aplicado após um período já longo de doença(33). Para além disso, constatou-se que, dos indivíduos considerados em “ultra-alto risco”, apenas 75% dos que têm um primeiro episódio psicótico acabam por receber diagnóstico de esquizofrenia(34). Por último, há que ter em conta que os clínicos são muitas vezes relutantes em referir explicitamente o diagnóstico de esquizofrenia, devido ao estigma e às implicações prognósticas ainda aceites. Assim, a maioria destes programas inclui um conceito lato de psicose, embora alguns promovam uma divisão entre psicoses afectivas e não-afectivas. As características gerais dos programas de intervenção precoce estão resumidas na tabela 3. Tabela 3 -Características Gerais dos Programas Características Gerais dos Programas Modelo assertivo de tratamento com um coordenador de cuidados Facilidade de acesso aos cuidados Campanhas de sensibilização na comunidade Privilegiam inicialmente estratégias psicossociais Psico-educação do doente e família Terapia cognitivo-comportamental, intervenção familiar, treino de capacidades sociais e orientação educacional/vocacional Após primeiro episódio, tratamento com antipsicóticos atípicos em baixas doses Acompanhamento pelo menos 18-24 meses após 1º episódio Resumem-se na tabela 4 as já referidas normas de orientação clínica(24) para o manejo do primeiro episódio psicótico, decorrentes do consenso internacional de 2005. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |38 ESTUDO Tabela 4 -Normas de Orientação Clínica (24) Normas de orientação clínica para o 1º episódio psicótico Antes de iniciar o tratamento, considerar existência de patologias “orgânicas”. Antipsicóticos atípicos são os fármacos de 1ª linha (Start low, go slow). Evitar sintomas extrapiramidais EPS aumenta adesão terapêutica no futuro. Necessária equipa de enfermagem especializada, meio envolvente seguro e uso regular e liberal de benzodiazepinas para a gestão na agitação, insónia e alterações de comportamento, no início do tratamento. Se os sintomas psicóticos persistirem após duas tentativas com atípicos (cerca de 12 semanas), rever razões para esta falência. Possíveis factores incluem má adesão à terapêutica, stress familiar e uso de substâncias. Considerar clozapina e terapia cognitivocomportamental para os sintomas persistentes. Um plano de crise deve ser elaborado individualmente. Estratégias psicossociais mais assertivas devem ser empregues quando existe má adesão, stress familiar, aumento do risco de suicídio e uso de substâncias. As famílias estão habitualmente em crise no início do tratamento e requerem suporte emocional e conselhos práticos. Rede social do doente deve ser progressivamente informada e educada sobre a natureza do problema, tratamentos e prognóstico. Evidência das Estratégias Terapêuticas A revisão sistemática realizada pela The Cochrane Collaboration em 2011, intitulada “Early intervention for psychosis”(23), identificou 10268 artigos, acabando por incluir apenas 18 estudos (n=1808), por serem os únicos aleatorizados e controlados e que reuniam os critérios de qualidade científica definidos à priori. A heterogeneidade dos estudos em questão impediu a realização de uma meta-análise. O objectivo da revisão foi avaliar o efeito de: 1) detecção precoce; 2) tratamentos específicos em cada fase; 3) equipas de tratamento especializadas. Contudo, nenhum estudo apresentou evidência relativa ao conjunto de todos os outcomes relevantes. À exceção do OPUS Trial (n=547), todos os restantes estudos tinham amostras na ordem das dezenas de indivíduos. São notórias ainda outras dificuldades metodológicas, nomeadamente nos processos de aleatorização e ocultação, mas também devido ao facto da heterogeneidade das técnicas psicossociais e dos controlos usados tornar mais difíceis comparações válidas. Para além disso, alguns estudos apresentaram elevadas taxas de abandono do ensaio durante o seguimento. Por último, é de referir que 6 dos 18 estudos incluídos foram realizados pelo grupo EPPIC (Early Psychosis Prevention and Intervention Centre), em Melbourne, um centro muito especializado e com grandes recursos, mas que, por apresentar essas características, torna difícil a extrapolação da aplicabilidade dos resultados, noutros locais. No que toca às intervenções na fase de risco para psicose: 1) Um estudo com dois braços olanzapina vs. placebo, não demonstrou diferenças na progressão para psicose, com um significativo aumento de peso no grupo da olanzapina. 2) Um estudo que comparava a eficácia de amissulpride vs. intervenções focadas nas necessidades, revelou uma ligeira melhoria no funcionamento no grupo do amissulpride, mas não apresentava dados relativos à progressão para psicose. 3) Num ensaio, a utilização de risperidona e terapia cognitivo-comportamental demonstrou atrasar a progressão, quando comparada com o suporte inespecífico por uma equipa especializada, mas o efeito perdeu-se ao fim de 12 meses. 4) Isoladamente, a terapia cognitivo comportamental não demonstrou benefícios vs. terapia de suporte não específica. 5) Num estudo que incluiu 79 indivíduos, uma dieta suplementada com omega-3 demonstrou diminuir a progressão para psicose (vs. placebo), com um número necessário para tratar (Number Needed to Treat: NNT) de 6, bastante significativo, tendo em conta a dimensão da amostra. Os autores da revisão salientam, contudo, a necessidade de replicação do estudo. Relativamente às intervenções após 1º episódio: 1) A Terapia Cognitivo-Comportamental TCC em conjunto com antipsicóticos não demostrou melhorar a funcionalidade e diminuir os internamentos (vs. suporte + antipsicóticos). 2) A TCC focada na ideação suicida não demonstrou vantagem em relação ao suporte por equipa especializada, na redução do suicídio, embora se Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |39 ESTUDO tratasse de uma amostra muito pequena. 3) A terapia familiar pode reduzir recaídas (vs. cuidados standard), embora os estudos revistos apresentassem muitas limitações de aplicabilidade. 4) A intervenção vocacional demonstrou aumentar a colocação em emprego (vs. cuidados standard). 5) Uma intervenção específica para redução do consumo de cannabis não demonstrou benefícios, comparada com psicoeducação. 6) Avaliação especializada nas crises não alterou internamentos, nem idas à urgência embora, mais uma vez, numa amostra muito pequena. O OPUS Trial, realizado na Noruega e Dinamarca(35), foi o maior estudo incluído na revisão Cochrane (n=547). Comparou dois centros onde a intervenção era realizada por uma equipa especializada em 1º episódio psicótico com dois outros, que prestavam cuidados standard. Demonstrou evidência favorável à intervenção especializada, no que toca a: 1) menor número de abandonos no seguimento (até 2 anos); 2) níveis superiores de satisfação dos doentes (até 2 anos); 3) maior adesão ao tratamento (até 1 ano); 4) melhor integração socioprofissional - vida independente e integração em trabalho/ensino (a partir dos 2 anos). Contudo, não existiram diferenças significativas no número de internamentos e de dias passados no hospital. Outro estudo escandinavo, o Early Treatment and Identification of Psychosis (TIPS), publicou resultados do seguimento em 2005, relativos aos primeiros 3 anos, e em 2011, relativos ao seguimento de 10 anos. Em 2005(36), era relatada a associação entre uma redução da DUP e a redução do risco suicida, da gravidade da doença aquando do 1º tratamento, dos sintomas negativos e dos défices no funcionamento social (associação robusta e mantida nesses anos de seguimento). Salientava-se então que era fundamental promover o acesso e a qualidade do tratamento nos primeiros anos da doença. Em 2011(37), ao fim de 10 anos de seguimento, o grupo de intervenção precoce apresentou maior taxa de recuperação (remissão sintomática e funcionalidade social) e maior adesão ao tratamento. Houve benefícios nos sintomas negativos, depressivos e cognitivos aos 1, 2 e 5 mas não aos 10 anos. Colocou-se a hipótese da melhoria da taxa de recuperação ser devida largamente à integração laboral. Em relação à eficácia dos tratamentos farmacológicos, no primeiro episódio psicótico, há que referir ainda o estudo European First Episode Schizophrenia Trial (EUFEST), multicêntrico(38), que favorece o tratamento com antipsicóticos de 2ª geração (vs 1ª). Apesar de referir uma resposta boa com típicos e atípicos, sem diferença significativa de eficácia, houve uma maior tolerabilidade e maior adesão com os antipsicóticos atípicos, sendo que estes foram considerados aspectos muito importantes a ter em conta. Estes dados contrastam com o estudo Clinical Antipsychotic Trials of Intervention Effectiveness (CATIE)(39) que, em doentes com esquizofrenia crónica, não encontrou vantagens significativas dos atípicos. As International Clinical Practice Guidelines in Early Psychosis(24) estão em consonância com o estudo EUFEST, afirmando que a tolerabilidade é crucial nesta população. O Projeto da Unidade de Tratamento de Jovens com Psicose Assim, propomo-nos a criar uma unidade específica com o objectivo de detectar precocemente e oferecer tratamento a jovens com psicose, no 1º episódio e período crítico subsequente. Nos elementos constituintes do mesmo, tivemos em atenção os modelos propostos por vários centros de referência, as normas de orientação do consenso já citado e as orientações do National Institute for Mental Health in England(40). Esta unidade estará vocacionada para jovens com idades compreendidas entre os 14 e os 28 anos. A sua atuação far-se-á em estreita articulação com outros serviços, tais como os Centros de Saúde, o Hospital Pediátrico, o Hospital de Dia, as Clínicas Psiquiátricas de internamento de agudos e o Serviço de Reabilitação. Tal como proposto pelo consenso internacional, a equipa deve conter psiquiatrias, bem como internos de psiquiatria, enfermeiros, preferencialmente especialistas em saúde mental, psicólogos clínicos e técnicos do serviço social. Internacionalmente, recomenda-se que, pelo menos um psiquiatra, um enfermeiro de saúde mental e um psicólogo trabalhem na equipa em exclusividade, ou no mínimo que esta seja a sua atividade principal. É ainda considerada imprescindível a existência de algum técnico com competências em terapia cognitivo-comportamental, terapia familiar e Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |40 ESTUDO recomenda-se a experiência com adolescentes. Tendo em conta o que se conhece acerca da importância das intervenções vocacionais e de reintegração no mercado de trabalho, consideramos que deve ser igualmente incluído na equipa um terapeuta ocupacional, estabelecendo o contacto com os serviços de reabilitação existentes. Ainda que possam não incluir a equipa, haverá uma estreita relação com as equipas de pedopsiquiatria e pediatria, bem como com os clínicos de medicina geral e familiar, dos centros de saúde abrangidos. Dadas as dificuldades existentes em aproximar os indivíduos em risco ou que já manifestam estas patologias dos serviços de saúde, esta equipa multidisciplinar deve ser centrada na visão dos doentes e atuar o mais próximo possível da comunidade, em contacto com as instituições locais. A referenciação pelos cuidados primários deve ser rápida, direta e baseada na suspeita do diagnóstico, ainda que incerto. Assim, encetaremos esforços para a melhoria da formação dos técnicos dos cuidados primários, com vista a uma detecção e referenciação adequada e atempada, que reduza a duração da psicose não tratada. Serão realizadas sessões de formação, bem como elaborados e distribuídos materiais informativos, bem como auditorias regulares que averigúem a eficácia das vias de referenciação. A intervenção psicoeducativa será adaptada, quer na forma, quer no conteúdo dos meios de comunicação envolvidos, aos vários sectores envolvidos: doentes, familiares e técnicos. Posteriormente procuraremos um alargamento do âmbito de atuação, nomeadamente pela realização de campanhas de sensibilização/psicoeducação de alcance mais geral, nas escolas, por exemplo. Procurar-se-á estabelecer um protocolo de intervenção inicial multidisciplinar, que inclua a colheita da história clínica e o exame do estado mental, bem como os exames físico e neurológico; avaliação do funcionamento social e recursos; avaliação familiar; entendimento sobre a doença/expectativas; risco de suicídio e risco de recaída. Desde o início, devem ser trabalhados os aspectos relacionados com a promoção da adesão terapêutica. Nesse sentido, a abordagem tenderá a ser assertiva, porventura com a necessidade de manter alguma flexibilidade nos locais onde são prestados os cuidados. A família, amigos e restante rede social de suporte deve ser progressivamente incluída no plano de tratamento. Deve garantir-se uma informação detalhada e rigorosa, aos doentes e, principalmente nos casos em que a idade ou o próprio estado decorrente da doença o exijam, os familiares. Será realizada terapia familiar, ou prestado suporte específico a familiares, nos casos em que a avaliação clínica o determine. Em relação à terapêutica psicofarmacológica, esta deve ser iniciada aquando do primeiro episódio psicótico, com doses baixas de antipsicóticos atípicos, tendo especial atenção aos efeitos secundários, que potencialmente conduzam ao abandono do tratamento. Há a referir ainda que, no caso de necessidade de internamento, a equipa de intervenção precoce deve ser envolvida em todo o processo, desde a resposta intensiva ainda na comunidade, à decisão da alta. Será garantida a formação no que concerne à Lei de Saúde Mental à qual, logicamente, se deverá recorrer apenas em último recurso. Preferencialmente as enfermarias, ou no mínimo, os quartos destinados a estes doentes, devem estar preparados às suas características particulares, nomeadamente no que toca à idade. CONCLUSÃO Em conclusão, constata-se uma necessidade de melhorar as respostas atuais ao problema que as psicoses, como doenças mentais graves, colocam. O aumento do interesse neste tema, levou já a uma extensa discussão multidisciplinar, que originou um crescente número de artigos científicos publicados, num esforço de adequação dos programas de tratamento oferecidos, à evidência científica produzida. No entanto, a cobertura dos serviços especialmente orientados para a intervenção precoce é ainda muito insuficiente e está claramente concentrada nalguns países mais ricos. Há quem advogue que o financiamento de programas deste tipo, com vista à sua generalização, deve estar dependente de conclusões mais sólidas a respeito da eficácia das propostas. No entanto, também é preciso notar que as intervenções terapêuticas usuais muitas vezes não apresentam um maior nível de evidência e é notório que muito há a fazer na melhoria dos cuidados prestados a estes doentes. Considerando as bases teóricas do modelo, bem como a evidência atualmente existente, julgamos que se deve apostar na criação de Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |41 ESTUDO programas deste tipo, para que dialecticamente se possa avançar na prestação clínica e na produção científica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (1) WHO. (2008). World Health Organization Global Burden of Disease 2004 Update, Geneva, World Health Organization. (2) Fuller R, Nopoulos P, Arndt S, O’Leary D, Ho BC, Andreasen NC. (2002). 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Long-Term Follow-Up of the TIPS Early Detection in Psychosis Study: Effects on 10-Year Outcome, Am J Psychiatry 2012;169:374 –380 (38) Kahn RS, Fleischhacker WW, Boter H, et al: Effectiveness of antipsychotic drugs in first-episode schizophrenia and schizophreniform disorder: an open randomized clinical trial. Lancet 2008;371:1085-97 (39) Lieberman J, Stroup TS, McEvoy JP et al. Effectiveness of antipsychotic drugs in patients with chronic schizophrenia. N Engl J Med 2005;353:1209-23. (40) Marshall M, Lokwood A, Early intervention for people with psychosis, National Institute for Mental Health in England, 2003 Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |43 ESTUDOS INTERVENÇÃO PSIQUIÁTRICA NA UNIDADE DE INTERVENÇÃO PRECOCE DA MATERNIDADE BISSAYA BARRETO PSYCHIATRIC INTERVENTION IN THE EARLY INTERVENTION UNIT OF THE BISSAYA BARRETO MATERNITY ILDA MURTA, Médica Psiquiatra, CHUC, [email protected] JOSÉ TEMÓTIO, Médico Interno de Psiquiatria, CHUC, [email protected] PAULA GARRIDO, Médica Interna de Psiquiatria, CHUC, [email protected] VERA MARTINS, Médica Interna de Psiquiatria, CHUC, [email protected] Resumo Abstract A gravidez e o pós-parto constituem períodos de maior vulnerabilidade para as perturbações psiquiátricas, nomeadamente perturbações do humor, da ansiedade e do espetro psicótico, que quando não tratadas, implicam consequências graves para a grávida e para o feto. Uma avaliação clínica precoce e um tratamento adequado, tornam-se essenciais durante este período. Desde 1995 que a Consulta de Psiquiatria de Ligação com a Maternidade Bissaya Barreto (MBB) está integrada na Unidade de Intervenção Precoce (UIP), sendo composta por uma equipa multidisciplinar, que assegura uma intervenção otimizada em grávidas e puérperas com patologia psiquiátrica. Os autores realizaram um estudo descritivo, de prevalência, procedendo a uma análise dos processos clínicos das utentes observadas na Consulta de Psiquiatria – Obstetrícia, durante um período de 6 meses relativo ao ano de 2000 (n=49) e um período semelhante compreendido entre Outubro de 2011 e Março de 2012 (n=69), refletindo sobre o perfil das doentes acompanhadas, sobretudo em termos de psicopatologia e psicofármacos utilizados, analisando ainda a evolução sentida ao longo dos últimos 12 anos. Pregnancy and postpartum are periods of increased vulnerability for psychiatric disorders, including mood disorders, anxiety and psychotic disorders that, when left untreated, imply serious consequences for the pregnant and the fetus. Early clinical evaluation and appropriate treatment becomes essential during this period. Since 1995, the Psychiatric Liaison Consultation in Bissaya Barreto Maternity (MBB) is part of the Early Intervention Unit (UIP), consisting of a multidisciplinary team that ensures a specific intervention in pregnant and postpartum women with psychiatric illness. The authors conducted a descriptive study of prevalence, by considering clinical processes of the women observed at the Psychiatry – Obstetric Consultation, during a period of six months on the year 2000 (n = 49) and a similar period between October 2011 and March 2012 (n = 69), reflecting about the patients profile, especially in terms of psychopathology and psychiatric drugs used, and analyzing the evolution experienced over the past 12 years. Palavras-chave: gravidez, transtornos mentais, Keywords: pregnancy, mental disorders, psychiatry psiquiatrias, antidepressivos antidepressive agents. Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |44 ESTUDOS INTRODUÇÃO Considera-se a gravidez e o pós-parto, como sendo um dos períodos do ciclo de vida da mulher com maior vulnerabilidade emocional (VESGA-LOPEZ et al., 2008, p. 806; MARCUS, 2009, p.15), embora os estudos efetuados até finais dos anos 90 apontassem a gravidez como sendo protetora em relação ao aparecimento de perturbações do foro psiquiátrico. No entanto, nos últimos anos, a investigação tem demonstrado uma prevalência aumentada de perturbações de humor durante a gravidez em relação à população geral, assim como de perturbações da ansiedade (ROSS et al., 2006, p. 1285), devido às flutuações das hormonas gonadais características deste período (MARCUS, 2009, p. 15). A literatura científica revela que a prevalência de distúrbios psiquiátricos na grávida ronda os 14 % (GENTILE, 2008, p. 961), surgindo com maior intensidade e frequência no primeiro e terceiro trimestres da gravidez, assim como no puerpério. Quando surgem na fase inicial da gravidez, estas perturbações psiquiátricas parecem estar associadas a gravidezes não programadas ou não desejadas e história de aborto espontâneo prévio. No terceiro trimestre são relatados os “medos” em relação ao parto ou ao risco de malformações no recém-nascido (ABEL, 2007). Estudos comprovam que o estado psicológico da mulher afeta o desenvolvimento fetal, podendo verificar-se um maior risco de problemas comportamentais, emocionais, défices de concentração e atenção, linguagem ou ansiedade em relação ao feto (TALGE et al., 2007, p. 245). Durante a gravidez tem sido descrito um maior número de acontecimentos de vida negativos, conflitos conjugais e episódios de violência doméstica. A ansiedade materna pré-natal pode provocar alterações no eixo hipotálamo-hipofisário da criança, com elevação dos níveis de cortisol, constituindo um mecanismo de vulnerabilidade acrescida para psicopatologia na criança (O’CONNOR et al., 2005, p. 211). Vários estudos demonstram que apenas uma pequena percentagem de grávidas com depressão major (18%) procuram tratamento no período peri-natal (MARCUS, 2009, p. 15). O não tratamento das patologias psiquiátricas na gravidez está associado a maior mortalidade materna (LUND et al., 2009, p. 949), maior incidência de aborto espontâneo, prematuridade e baixo peso ao nascimento, podendo implicar cuidados maternos e de nutrição deficientes, dificuldades no processo de vinculação e atraso do desenvolvimento psicomotor na criança. A doença mental nesta população pode implicar ainda maior incidência de comportamentos de risco, como consumo de drogas ilícitas e comportamentos suicidários (UDECHUKU et al., 2010, p. 979). Até ao ano 2000 os Obstetras, Médicos de Família e Psiquiatras, por norma, retiravam a terapêutica instituída no início da gravidez, por certo, ainda influenciados pela tragédia da “talidomida”, mostrando grandes reservas em utilizar psicofármacos na grávida, podendo possibilitar a descompensação de alguns quadros clínicos, que acabariam por aumentar a morbilidade nesse período da vida da mulher. Os quadros depressivos e psicóticos surgem, por norma, entre os dez dias e os três primeiros meses após o parto, apresentando no passado grande exuberância. Atualmente, de acordo com meta-análises recentes, estes episódios parecem ser menos frequentes, o que pode ser atribuído ao diagnóstico precoce e intervenção terapêutica eficaz na gravidez. Os sintomas tornam-se menos aparatosos, culminando mais raramente em internamento e afastamento ou recusa em relação ao recém-nascido. Epidemiologicamente cerca de 50% das mulheres vivenciam babyblues, um estado de labilidade emocional transitório que surge por volta do terceiro dia do período pós parto (KEMKER et al, 2006). Desde 1995 que a Consulta de Psiquiatria de Ligação com a Maternidade Bissaya Barreto (MBB) está integrada na Unidade de Intervenção Precoce (UIP), sendo composta por uma equipa multidisciplinar, que inclui Médico Psiquiatra, Obstetra, Psicóloga, Enfermeira e Técnicos de Serviço Social. A articulação direta assegura uma intervenção otimizada em grávidas e puérperas com patologia psiquiátrica, assim como apoio às doentes referenciadas pelo Serviço de Ginecologia ou Consulta de Psico-Oncologia. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |45 ESTUDOS OBJETIVOS Com o presente trabalho, os autores pretendem apresentar a experiência clínica na UIP, refletindo sobre os principais resultados, em termos de psicopatologia encontrada e psicofármacos utilizados na gravidez e puerpério. De igual forma, pretendem efetuar um estudo comparativo entre os resultados atuais e os relativos ao ano de 2000, percebendo a evolução experienciada longo dos últimos 12 anos. 3% 21% 76% Solteira Casada Divorciada Gráfico 3: Prevalência segundo o estado civil. MATERIAL E MÉTODOS Estudo descritivo, de prevalência, realizado na UIP da MBB. Procedeu-se à análise dos processos clínicos das utentes observadas na Consulta de Psiquiatria – Obstetrícia, durante um período de 6 meses relativo ao ano de 2000 (n=49) e um período semelhante compreendido entre Outubro de 2011 e Março de 2012 (n=69). Tratamento estatístico dos dados em Excel 2003. 30 20 10 0 1º Trimestre 2º Trimestre 3º Trimestre Pós-parto Semanas de Gestação 11 27 11 14 Gráfico 4: Prevalência segundo as semanas de gestação em que as utentes são referenciadas para a Consulta. RESULTADOS Caracterização da Consulta de Psiquiatria Obstetrícia de Outubro de 2011 a Março de 2012 - 90% % 5% 50% 56% 44% Sim Não 40% Obstetra 4% 72% 70% 60% 7% 83% 80% 28% 30% 2% 17% 20% Psicologia 10% 9% Urgência 0% Gravidez Planeada 73% Gravidez de Risco Médico de Família Psiquiatra assistente Serviço Social Problemática Social Gráfico 5: Prevalência segundo o planeamento da gravidez, risco associado e existência de problemática social das utentes da Consulta. Percentagem Gráfico 1: Fontes de referenciação das utentes da Consulta de Psiquiatria - Obstetrícia. 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% 34% 32% 23% Idade 6% 20 - 25 5% 26 - 30 31 - 35 Idade 36 - 40 Gráfico 2: Prevalência segundo a idade. >= 41 Gráfico 6: Prevalência segundo os principais diagnósticos psiquiátricos presentes nas utentes observadas na Consulta de Ligação. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |46 ESTUDOS 62% Antes da Gravidez 27 30 23 19% Durante a gravidez 20 14% Após a gravidez 11 5% Sem medicação 0% 11 14 10 20% 40% 60% 80% 9 8 1º Trimes tre 9 0 Gráfico 7: Prevalência segundo o período de início da terapêutica instituída. Ano 2012 Ano 2000 Gráfico 11: Comparação da prevalência de acordo com as semanas de gestação em que as utentes são referenciadas para a Consulta de Ligação em 2000 e em 2012. Psicofármacos no 1º Trimestre 84% 90% 74% 80% 63% 70% 70% 60% 42% 50% 56% 60% 50% 40% 20% 6% 20% 0% 10% AP EH BZD 29% 2000 28% 30% 5% 10% AD 2012 40% 17% 30% Sem medicação 17% 0% Gravidez Planeada Gráfico 8: Prevalência das diferentes classes de psicofármacos utilizadas durante o primeiro trimestre de gravidez (AD: antidepressivos; AP: antipsicóticos; EH: estabilizadores de humor; BZD: benzodiazepinas). Gravidez de Risco Problemática Social Gráfico 12: Comparação da Consulta de Ligação em 2000 e em 2012 segundo a prevalência de planeamento da gravidez, risco associado e existência de problemática social. 60% 50% 2 37% 40% Mirtazapina Triciclicos Trazodona Bupropion Citalopram Venlafaxina Escitalopram Paroxetina Fluoxetina Sertralina 1 1 30% 5 2 19% 20% 3 10% 4 4 1 2 3 4 14% 9% 7% 6% 2% 4% 4% 14% 10% 4% 4% 6% 4% 4% 0% 5 6 2012 11 6 0 7 8 Episódio depressivo Distimia Pert. Alimentar POC 9 10 11 Gráfico 9: Prevalência dos vários antidepressivos usados no primeiro trimestre de gravidez. Estudo comparativo entre os dados da Consulta de Ligação em 2000 e em 2011/2012 2000 Pert. Depressiva recorrente Pert. Pânico Oligofrenia Pert. Personalidade Pert. Afectiva Bipolar Pert. Ansiedade SOE Psicose Gráfico 13: Comparação da Consulta de Ligação em 2000 e em 2012, segundo a prevalência dos principais diagnósticos apresentados. 70% 63% 60% 50% 43% 45% 41% 40% 60% 49% 2012 2000 30% 50% 17% 18% 20% 40% % 48% 34% 30% 21% 32% 23% 2012 10% 2000 0% 16% 20% 13% 6% 6% AD AP EH 10% 4% 10% 6% 5% 0% 5% BZD Sem medicação 0% 0% 16-19 20-25 26-30 31-35 36-40 >= 41 Gráfico 10: Comparação da prevalência segundo a idade na Consulta em 2000 e em 2012. Gráfico 14:Comparação da Consulta de Ligação em 2000 e em 2012 de acordo com os psicofármacos utilizados no primeiro trimestre de gravidez (AD: antidepressivos; AP: antipsicóticos; EH: estabilizadores de humor; BZD: benzodiazepinas). Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |47 ESTUDOS 13 14 11 12 10 8 6 6 4 4 2 2012 7 1 4 2000 5 3 1 2 2 1 S Tr ic ic lic os er tra lin Fl a uo xe t in P a ar ox e E t in sc a ita lo pr am V en la fa xi n B up a ro pi on Tr az od on M irt a az ap i na C it a lo pr am 0 Gráfico 15: Comparação da Consulta de Ligação em 2000 e em 2012 de acordo com os vários antidepressivos utilizados no primeiro trimestre de gravidez. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Ao longo dos 6 meses de estudo decorridos entre Outubro de 2011 a Março de 2012, foram observadas 69 utentes, grávidas (n=55) e puérperas (n=14). A referenciação para a consulta foi efetuada maioritariamente pelo Obstetra assistente, em articulação direta com o Psiquiatra. A idade mínima foi de 20 anos, sendo a média de idades de 34 anos, com maior prevalência da terceira década; as utentes eram na sua maioria casadas (76%). A observação em Consulta de Psiquiatria ocorreu tendencialmente durante o segundo trimestre de gestação, sendo a gravidez considerada como planeada em 56% dos casos e de risco em 28%. Foi referenciada problemática de natureza social em 17% das grávidas. O diagnóstico psiquiátrico mais prevalente, de acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID 10), foi Episódio Depressivo (48%), seguindo-se a Perturbação de Ansiedade, SOE (13%), sendo que em 7,4% das grávidas verificou tratar-se de um episódio depressivo de carácter recorrente. Em 32% dos casos (n=22) a existência de psicopatologia era prévia à gestação. Na maioria dos casos, o tratamento psicofarmacológico havia sido iniciado antes da gravidez (62%), no entanto, 10% das utentes tinham abandonado o mesmo previamente à primeira observação em consulta, por recearem efeitos nefastos sobre o feto. Em 19% das situações, a terapêutica foi iniciada após observação em Consulta de Psiquiatria de Ligação e em 14% no período pós-parto. A análise diferencial dos psicofármacos prescritos durante o primeiro trimestre, permite-nos concluir que os antidepressivos e as benzodiazepinas foram os fármacos mais utilizados (63% e 42%, respetivamente), seguindo-se os antipsicóticos (17%) e os estabilizadores de membrana (6%); 5% das doentes não necessitaram de cumprir terapêutica farmacológica. A fluoxetina, sertralina e trazodona foram as três moléculas antidepressivas mais utilizadas. Os casos de utilização da paroxetina corresponderam a doentes com terapêutica já iniciada antes da gravidez, tendo sido mantido o tratamento em curso. Nenhum dos casos em seguimento necessitou de internamento para compensação do quadro clínico psiquiátrico. Foi comparada uma amostra da Consulta de Ligação do ano de 2000 relativa a um período aleatório de seguimento de 6 meses (n= 49), constituída por 26 grávidas e 23 puérperas, com a amostra da consulta atual. Em relação à idade das utentes, verificou-se que na Consulta do ano de 2000 as faixas etárias mais jovens eram mais prevalentes, sendo que 70% da amostra pertencia à segunda década. A idade mínima foi de 16 anos e a média foi de 28 anos, não havendo grávidas nem puérperas com mais de 40 anos, confirmando a tendência atual das mulheres engravidarem em idades cada vez mais tardias. Da comparação dos dados, verificou-se que há 12 anos atrás, as grávidas eram referenciadas para esta consulta sobretudo no período pós-parto, enquanto atualmente têm um acompanhamento em fases mais precoces, sobretudo no segundo trimestre de gravidez, podendo assim desenvolver-se estratégias de intervenção mais precoces. De igual forma, foi possível apurar que na amostra do ano 2000 havia maior prevalência de gravidezes não planeadas (71% vs 44%), assim como gravidezes de risco (74% vs 28%) e problemática social (84% vs 17%). Pode entender-se esta diminuição das prevalências atuais como decorrendo de um aumento progressivo da informação disponibilizada às grávidas pelos técnicos de saúde e de um acompanhamento mais eficaz em termos de Consulta de Planeamento nos Cuidados de Saúde Primários. A criação da consulta específica de Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) nas Maternidades pode ter absorvido uma grande percenta- Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |48 ESTUDOS -gem das gravidezes não planeadas e das utentes com problemática do foro social. Relativamente à comparação dos principais diagnósticos efetuados na Consulta, constatou-se que no ano de 2000 as utentes referenciadas apresentavam quadros psiquiátricos de maior gravidade, como perturbações psicóticas e perturbações afectivas bipolares. Como nessa época havia menos experiência com a utilização de psicofármacos na gravidez, este facto pode decorrer da descompensação clínica de doenças não tratadas durante a gestação, aumentando a sua prevalência no período pósparto. Assim, apesar dos episódios depressivos constituírem o diagnóstico mais prevalente quer em 2000, quer 12 anos mais tarde, verificou-se que na Consulta do ano 2000, a prevalência de psicoses e doença afectiva bipolar foi superior à atual (14% vs 4% e 14% vs 6%, respetivamente). Na comparação dos dados relativos à utilização de psicofármacos no primeiro trimestre, os antidepressivos e as benzodiazepinas constituíram as classes mais utilizadas. No entanto, a prevalência da utilização de antidepressivos foi superior em 2012 (63% vs 41%), sendo que em 2000 mais utentes permaneceram sem medicação para o seu quadro psiquiátrico (13% vs 5%). Da análise diferencial das várias moléculas utilizadas concluiu-se que o perfil de prescrição tem vindo a sofrer algumas alterações. Assim, há 12 anos atrás, os tricíclicos correspondiam à classe de antidepressivos mais prescrita, sobretudo a clomipramina e a amitriptilina, não só porque os seus efeitos eram mais bem conhecidos à data, mas também porque começaram a surgir, os resultados dos primeiros estudos relativos à utilização dos inibidores da serotonina nas grávidas, nomeadamente com a fluoxetina. A fluoxetina (n=7) e a venlafaxina (n=1) foram as únicas moléculas antidepressivas utilizadas em 2000, para além dos tricíclicos, enquanto no panorama atual o uso de antidepressivos tem sido mais diversificado, utilizando-se por norma os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS), nomeadamente a fluoxetina e a sertralina, evitando-se o recurso aos tricíclicos. Da análise efectuada, concluiu-se que na amostra do ano 2000 foi necessário recorrer ao internamento de sete doentes para compensação do seu quadro clínico, todas elas com perturbações psicóticas pós-parto, demonstrando a maior gravidade dos quadros clínicos no passado. CONCLUSÕES Os dados obtidos vão de encontro à literatura internacional, no que concerne à psicopatologia encontrada durante a gravidez e puerpério e utilização preferencial de fármacos do grupo ISRS, ressalvando a preocupação necessária com a utilização da paroxetina relativamente à possibilidade de causar malformações cardíacas. Há uma crescente preocupação com o facto das doenças psiquiátricas não tratadas afetarem a integridade feto-placentária e o desenvolvimento do sistema nervoso central do feto, pelo que a sua deteção e tratamento atempados se impõem. A história clínica da doente, associada à articulação de cuidados entre a grávida e companheiro, o Médico Psiquiatra e o Obstetra, é essencial. Verifica-se uma mudança relativamente ao perfil da Consulta de Ligação nos últimos 12 anos, sendo as grávidas referenciadas mais precocemente, o que permite intervir em fases iniciais e prevenir descompensação dos quadros psiquiátricos, que se tornaram assim de menor gravidade. A descontinuação de psicofármacos na grávida deverá ser avaliada de forma cautelosa, ponderando o risco e o benefício de tratar versus deixar que a doença evolua para quadros mais graves, inclusive no pós-parto. A decisão também deve ser partilhada pela equipa multidisciplinar, envolvendo Obstetra, Psiquiatra e se necessário Pediatra ou um clínico com formação na área da Genética. Atualmente existe maior segurança no manuseamento dos psicofármacos durante a gravidez, no entanto estes devem ser mantidos numa dose mínima necessária ao controle dos sintomas até ao final, possibilitando à utente qualidade de vida e menor risco de recorrência. Torna-se imprescindível o recurso à informação e orientação da paciente e sempre que possível do companheiro, pelos técnicos que a acompanham, tendo o cuidado de fundamentarem as decisões tomadas. Transmitir confiança e desmistificar as consequências do uso dos psicofármacos adequados a cada situação é a melhor forma de se conseguir resultados, nomeadamente a nível da adesão terapêutica. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |49 ESTUDOS A Consulta de Ligação para utentes psiquiátricos em articulação com os Serviços de Obstetrícia, parece ser o tipo de cuidados que melhor assegura a prevenção de recaídas neste período de maior vulnerabilidade para a mulher, contribuindo também para a diminuição do estigma associado às doenças psiquiátricas (WAINSCOTT et al., 2010, p. 192). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABEL, KM - Perinatal andGynecologicaldisorders. In: LLOYD GG; GUTHRIE - Handbook of Liaison Psychiatry. Cambridge: University Press Cambridge. 2007. p. 632-672 GENTILE, Salvatore – Pregnancy exposure to serotonin reuptake inhibitors and the risk of spontaneous abortions.CNS Spectr. 13:11. 2008. p. 960-966 KEMKER, S; GAMBOA, M – Pregnancy. In: BLUMENFIELD M; STRAIN JJ, editors. Psychosomatic Medicine.Philadelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins. 2006. p. 603-630 VESGA-LOPEZ, Oriana [et al.] - Psychiatric disorders in pregnant and postpartum women in the United States. Arch Gen Psychiatry. 65:7. 2008. p. 805-815 WAINSCOTT, G; BERRISFORD, G – Obstetric liaison services. In: DORA K – Oxford textbook of women and mental health. New York: Oxford UniversityPress. 2010. p.187-192 LUND, Najaaraq [et al.] – Selective serotonin reuptake inhibitor exposure in utero and pregnancy outcomes. Arch PediatrAdolesc Med. 163:10. 2009. p. 949-954 MARCUS, Sheila M – Depression during pregnancy: rates, risks and consequences. Can J ClinPharmacol. 16:1. 2009. p. 15-e22 O’CONNOR, Thomas G *et al.] - Prenatal Anxiety predicts individual differences in cortisol in pre-adolescent children. Biol Psychiatry. 58:3. 2005. p. 211-217 ROSS, Lori E; MCLEAN, Linda M; - Anxiety disorders during pregnancy and postpartum period - A systematic review.J Clin Psychiatry. 67:8. 2006. p. 1285-1298 TALGE, Nicole M; NEAL, Charles; GLOVER, Vivette- Antenatal maternal stress and long-term effects on child neurodevelopment: how and why? J Child Psychol Psychiatry. 48:3-4. 2007. p. 245-261 UDECHUKU, Adaobi [et al.] – Antidepressants in pregnancy: a systematic review. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry. 44.2010. p. 978-996 Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |50 ESTUDOS RELAXAMENTO: INTERVENÇÃO TERAP ÊUTICA NA PROMOÇÃO DE BEM -ESTAR RELAXATION: COMPLEMENTARY THERAPEUTIC INTERVENTION TO PROMOTE WELL-BEING ALDA MARIA SIMÕES, Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, CHUC, [email protected] MARIA DA CONCEIÇÃO PEREIRA, Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, CHUC, [email protected] MARIA DULCE CARVALHO, Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, CHUC, [email protected] MARIA LURDES RIBEIRO, Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria, CHUC, [email protected] Resumo Abstract O Relaxamento Terapêutico é uma das técnicas utilizadas para promover o autoconhecimento e o autocontrolo do nosso corpo. Aprende-se a tomar consciência do corpo, procede-se à integração harmoniosa das emoções e sentimentos, do orgânico, do mental e do psicológico - só a partir da obtenção de um equilíbrio interior, se pode conseguir bem-estar. Therapeutic Relaxation is one of the techniques used to promote self-knowledge and self-control over the body. One learns to become conscious of one's body, and in turn, to harmoniously integrate one's feelings and emotions - the organic, mental and psychological elements of one's being. Only through the obtention of inner balance can one attain a state of well-being. Palavras-chave: Relaxamento, Relaxamento Keywords: Relaxation, Muscle Relaxation, Mental Muscular, Saúde Mental Health Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. RELAXAMENTO O relaxamento é definido como um estado de relativa ausência de ansiedade e tensão muscular que se manifesta por calma, paz e serenidade. Para VAZ SERRA (2002) o relaxamento refere-se a um estado de reduzida ativação fisiológica que proporciona um elevado descanso corporal e uma grande tranquilidade mental. Assim, o relaxamento é conceptualizado como um processo psicofisiológico de carácter interativo, onde as manifestações fisiológicas e psicológicas interagem como partes integrantes do processo, visando a obtenção de uma descontração física e psíquica por meio de exercícios apropriados. RYMAN (1995 Cit. por PAYNE, 2003, p. 3) refere também que o relaxamento é “um estado de consciência caracterizado por sentimentos de paz e alívio de tensão, ansiedade e medo” incluindo assim os aspetos psicológicos da experiência de relaxamento, como são as sensações agradáveis e ausência de pensamentos geradores de stress ou perturbadores. Pode assim afirmar-se que o termo relaxamento apresenta uma dimensão mental (pensamentos de tranquilidade) e outra física (muscular), havendo um laço entre eles, que apela essencialmente ao ato de sentir o corpo, constituindo um processo com vários níveis na dimensão sensorial. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |51 ESTUDOS Ainda, segundo Baptista e Alves (2009), o relaxamento deve ser abordado do ponto de vista holístico, atendendo todos os aspetos psicofisiológicos do indivíduo na sua relação com a cultura e com o meio onde se encontram inseridos. Contudo, o contexto psicológico da pessoa é aquele em que se deve ter uma atenção especial, devido à sua relação direta com os afetos e as emoções, pelas diferentes interpretações de cada indivíduo, pelas vivências de cada um e pelas manifestações psicossomáticas da sua vida atual. O Relaxamento como intervenção terapêutica insere-se numa linha de matriz teórico-prática desenvolvida a partir dos trabalhos de Johannes Heinrich Schultz, médico psiquiatra alemão (Alemanha, 1884-1970) que ficaram conhecidos como “treino autogéneo”, trabalhos que foram continuados por Jakobson (em 1908 iniciou os trabalhos que desenvolveria até 1932 nos EUA) e Ajuriguerra e Sapir (França e Suíça), também na primeira metade do século XX (SANTOS, 2006). Johannes Heinrich Schultz, no início do século XX, um dos idealizadores do relaxamento como terapêutica, foi aluno de Freud, explicando assim a origem do seu método. O autor e os seus colaboradores acreditavam que a tranquilidade mental e física levaria à sensação permanente de alívio de problemas fisiológicos e emocionais e, estava interessado em produzir um nível homeostático ideal de alerta. Assim, desenvolveu o método chamado de Treino Autogénico, no qual empregava técnicas sugestivas e interpretações psicanalíticas. Esta forma de relaxamento por auto-sugestão trabalha as sensações de peso e de calor no corpo, a frequência dos batimentos cardíacos e a respiração. Edmund Jacobson no início da década de 1930 conduziu o primeiro estudo psicofisiológico de relaxamento. Constatou que, quando as pessoas relaxavam profundamente, os músculos esqueléticos não mostravam a reação esperada frente a um estímulo sonoro, isto é, uma contração rápida e forte (RISSARDI, 2007). Assim, Jacobson em 1938, desenvolveu uma nova técnica o “Relaxamento Muscular Progressivo”, que tinha como objetivo levar a pessoa a um estado profundo de relaxamento muscular. O autor acreditava que este estado poderia reduzir a grande ativação do SNC (sistema nervoso central) e SNA (sistema nervoso autónomo) com isso restaurando ou promovendo o bemestar psicológico e físico, numa relação do estado emocional com o corporal. O relaxamento dos músculos deveria reduzir as estimulações emocionais, reduzindo assim a tensão arterial, a frequência cardíaca e respiratória. De facto, comprovou-se que a resposta de relaxamento provoca alterações quer ao nível do SNS (sistema nervoso simpático) quer do SNC (sistema nervoso central). No que respeita ao SNS, aquando do relaxamento, é passível de se observar que há uma diminuição no consumo de oxigénio, na eliminação de anidrido carbónico, na frequência respiratória, na quantidade de ar inalada e exalada por minuto e nos níveis de lactato do sangue arterial. Relativamente ao SNC, nota-se que o relaxamento sugere uma diminuição da atividade cortical nas regiões anteriores do cérebro, assim como, uma redução na latência do começo do sono. (FRIEDMAN et al., 1998, Cit. por VAZ SERRA, 2002). Assim, o relaxamento aumenta a vitalidade, o equilíbrio, a clareza da consciência, maior controlo da dor, maior capacidade de auto-monitorização, maior tranquilidade na realização das tarefas quotidianas, melhora a capacidade de aprendizagem, diminui a agressividade, favorece o bem-estar emocional, melhora a capacidade de concentração e memorização, havendo um aumento da clareza e organização do pensamento (DIAS, 2007). O bem-estar (“ imagem mental de se sentir bem, de equilíbrio, contentamento, amabilidade, ou alegria e conforto, usualmente demonstrada por tranquilidade consigo próprio e abertura para as outras pessoas ou satisfação com a independência”), (CIPE, 2011, p.43) produzido pelo relaxamento ocorre devido há libertação de monoaminas que leva á produção de endorfinas que trazem a sensação de prazer e relaxamento corporal. São inúmeros os trabalhos científicos que comprovam a influência da mente e do sistema psíquico sobre o sistema neurovegetativo. Esta é uma das razões do sucesso crescente da aplicação do relaxamento como complemento terapêutico nas mais diversas patologias, em sessões individuais ou em grupo, com o objetivo de reduzir os níveis de stress e ansiedade, através de programas específicos de relaxamento muscular com Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |52 ESTUDOS vista ao equilíbrio emocional. Assim, tendo em conta que este procedimento psicofisiológico tem múltiplas vantagens, pode ser realizado desde a infância até a terceira idade (Tubino e Moreira, 2003). De referir que, qualquer que seja o método escolhido, há que ter sempre presente e providenciar aspetos gerais comuns a todos os métodos: o ambiente, a confidencialidade, a posição, as notas introdutórias, a ação em si mesma, a sua finalização, o número de sessões, o trabalho em casa, o terapeuta, o apoio de supervisão e os riscos decorrentes das sessões (PAYNE, 2003) A NOSSA PRÁTICA O projeto de Relaxamento, desenvolvido desde o ano de 1997, nasceu para dar resposta á necessidade de existir, na unidade de internamento, um espaço que fosse agradável, motivacional, pedagógico mas fundamentalmente terapêutico. Atendendo a que uma elevada percentagem das doenças modernas têm origem no stress, e que estas contribuem para uma considerável afluência a consultas médicas e, o relaxamento ser caracterizado por: sentimentos de paz, alívio da tensão, da ansiedade e do medo e, promover uma ponte entre o sentido e vivido, pareceu-nos importante a sua implementação e desenvolvimento como intervenção autónoma de enfermagem na otimização da gestão do stress ou ansiedade e na melhoria do padrão do sono das clientes internadas. Os critérios para a seleção das técnicas, assentaram na facilidade de aprendizagem e sua aplicação e, na simplicidade de recursos necessários. Os objetivos pretendem intervir em três grandes áreas de atuação (Payne, 2003): Como medida preventiva – proteger os órgãos do corpo de desgaste desnecessário e, em particular, os órgãos envolvidos em doenças relacionadas com o stress; Como tratamento – ajudar a aliviar o stress em condições como hipertensão essencial, cefaleias de tensão, insónia, asma, deficiência imunológica, pânico e muitas outras. As estratégias de relaxamento podem ajudar a tornar mais disponíveis os mecanismos inatos de cura do "corpo"; Como competências para lidar com o stress – acalmar a mente e permitir que o pensamento se torne mais claro e eficaz. O plano de cada sessão assenta em duas técnicas de relaxamento, com suporte musical: Método analítico apoiado em trabalho de fisiologia muscular, que se caracteriza principalmente pela tomada de consciência da contração e descontração muscular progressiva (método de Jacobson) “Consiste no trabalho sistemático ao longo dos principais grupos musculares-esqueléticos, criando e libertando a tensão, aprendendo o participante a reconhecer a tensão muscular” (PAYNE, 2003) Método de origem psicoterapêutica que "toca" na origem da hipnose, que visa sobretudo o plano idealista e representativo (treino autógeno de Schultz) A música apresenta-se como um meio auxiliar facilitador da construção de experiências Nestas técnicas estão incluídos os aspetos físicos da experiência de relaxamento, relativos ao alongamento das fibras/alívio da tensão muscular que se contrapõe á tensão da contração, mas também a aspetos psicológicos, como são as sensações agradáveis e ausência de pensamentos geradores de stress ou perturbação. Atendendo a que esta intervenção se desenvolve numa unidade de internamento em que as clientes se encontram na fase aguda da sua psicopatologia, impõese estabelecer critérios de participação//inclusão (ausência de sintomatologia psicótica ativa, capacidade de insight, duração do internamento e aceitar participar). O PROCEDIMENTO DA INTERVENÇÃO Desenvolve-se em 4 fases: Introdução à sessão; espaço de criatividade e interação grupal (jogo); técnicas de relaxamento com suporte musical; avaliação do sentir vivenciado na sessão. Realiza-se semanalmente, pelas 21 horas, com duração aproximada de 60 minutos, sendo o número de clientes participante em sessão de 6 a 7. O ambiente, a confidencialidade, a posição, as notas introdutórias, a ação em si mesma, a sua finalização, o Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |53 ESTUDOS número de sessões, e o terapeuta (PAYNE, 2003) são importantes no sucesso desta intervenção. A avaliação efetuada no final de cada sessão evidencia que as sensações sentidas foram predominantemente: bem-estar, tranquilidade, leveza, relaxamento, calma. O relaxamento “apela a um olhar específico sobre o nosso corpo que é em si uma visão: eu próprio visto de fora, tal como os outros me veriam, no meio do outro visual” Teixeira (1995, p. 99). Conduz-nos á descoberta de nós mesmos, das nossas memórias, vai emergindo a partir do autoconhecimento. É uma conquista faseada por etapas, que se processa dia a dia, sessão a sessão, ajudada pelas atitudes e técnicas de intervenção do terapeuta, que induzem esse estado particular de bemestar que antecede as tomadas de consciência. Lenta e gradualmente, para que este conhecimento possa ser compreendido, interiorizado e assimilado, a atenção vai sendo focada sucessivamente, quer nos diferentes componentes do corpo físico, quer nas emoções e nos sentimentos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS RISSARDI, G. G. L. – Efeito do Relaxamento de Jacobson Modificado, nas Medidas de Pressão Arterial, Frequência Cardíaca e Frequência Respiratória em Pacientes Hansenianos. São José do Rio Preto: Faculdade de Medicina da Universidade de São José do Rio Preto. Programa de Pósgraduação. 2007. Dissertação de Mestrado em Ciências da Saúde. [Consult. 27 Abril 2012]. Disponível em: <URL: ww.cienciasdasaude.famerp.br/racs_ol/ vol.../IIIDDD226.pdf>. SANTOS, M. G. – Competências Psicológicas e Traço de Ansiedade Competitiva em Atletas de Elite. Coimbra: Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, 2006. Monografia com vista à obtenção da Licenciatura em Ciências do Desporto e Educação Física. [Consult. 26 Abril 2012] Disponível em:<URL: https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13205/1/Mon ografia_Gabriela.pdf> TEIXEIRA, J.M - Relaxamento ou ato de sentir o corpo: sua concepção à luz da abordagem centrada na pessoa. Coimbra: Psiquiatria Clínica. 16: 2 (1995), 99-110 TUBINO, M. G.; MOREIRA, S.B.– Metodologia Científica do Treinamento Desportivo. 13ª ed. Rio de Janeiro: Shape. 2003 VAZ SERRA, A. – O Stress na Vida de Todos os Dias. 2ª ed. Coimbra: [ed. Autor], 2002. ISBN:972-95003-2-0 BAPTISTA, M. R.; ALVES A. S.– Relaxamento Psicofísico na Terceira Idade. (2009) Consult. 27 Abril 2012]. Disponível em: <URL:http://www.artigonal.com/yoga-artigos/relaxamento-psicofisico-naterceira-idade-892481.html> ORDEM DOS ENFERMEIROS. CIPE versão 2 – Classificação Internacional Para os Procedimentos de Enfermagem. 2011. ISBN: 978-92-95094-35-2 DIAS, M., I. - O treino de relaxamento como potenciador de sucesso educativo em jovens do 3.º ciclo. Coimbra: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, 2007. Dissertação de Mestrado[Consult. 27 Abril 2012]. Disponível em: <URL: https://woc.uc.pt/fpce/getFile.do?tipo=2&id=4615>. ORDEM DOS ENFERMEIROS. CIPE versão 2 – Classificação Internacional Para os Procedimentos de Enfermagem. 2011. ISBN: 978-92-95094-35-2 PAYNE, R. A. – Técnicas de Relaxamento: Um Guia Prático para Profissionais de Saúde. Loures: Lusociência. 2ª ed. 2003. ISBN:972-8383-41 Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |54 REVISÃO PERTURBAÇÕES MENTAIS ASSOCIADAS À EPILEPSIA Mental Disorders Associated With Epilepsy JOÃO VIEGAS, Médico Interno de Psiquiatria, CHUC, [email protected] MIGUEL BAJOUCO, Médico Interno de Psiquiatria, CHUC, [email protected] SÓNIA PIMENTA, Médica Interna de Psiquiatria, CHUC, [email protected] VERA MARTINS, Médica Interna de Psiquiatria, CHUC, [email protected] Resumo Abstract Embora permaneça alvo de alguma controvérsia, inúmeras linhas de pesquisa ressaltam a importância da existência de alterações cognitivas e/ou psíquicas e a sua inter-relação com a Epilepsia. Perturbações mentais como depressão, ansiedade e psicoses têm sido relacionadas com as fases préictal, ictal, inter-ictal e pós-ictal da Epilepsia e a importância desta relação tem vindo a ser enfatizada. Nesta perspetiva, o presente trabalho procura realizar uma revisão abrangente da literatura que abarca as perturbações mentais associadas à Epilepsia, o seu tratamento e o seu diagnóstico diferencial. Although it remains subject of some controversy, several lines of research highlight the importance of cognitive and/or mental disturbances and its interrelation with epilepsy. Mental disorders such as depression, anxiety and psychosis have been associated with the pre-ictal, ictal, inter-ictal and post-ictal epilepsy and the importance of this relationship has been emphasized. In this perspective, this paper conducts a comprehensive review of the literature covering mental disorders associated with epilepsy, its treatment and its differential diagnosis. Palavras-chave: Epilepsia; depressão; ansiedade; Keywords: Epilepsy, depression, anxiety, psychotic transtorno psicótico; transtornos mentais disorders , mental disorders Rececionado em Maio 2012. Aceite em Junho 2012. INTRODUÇÃO A associação entre Epilepsia e perturbações mentais tem uma longa e conturbada história. Conhecida desde a Antiguidade Clássica, a Epilepsia foi durante vários séculos confundida com a histeria. Apenas no século IV a.C., através de Hipócrates, foi pela primeira vez considerada uma doença do cérebro distinta da histeria. No entanto, a crença e a visão de se tratar de uma forma de possessão demoníaca atravessou toda a Idade Média. Mesmo na sociedade moderna, está ainda enraizada a conceção de se tratar de uma doença com manifestações exuberantes, incurável, com graves sequelas e limitações (CAMPOS, 2009, p. 62). Atualmente, a Epilepsia é considerada uma das mais importantes doenças neurológicas, que tem vindo a ser alvo de manifestos avanços nas áreas de etiologia, diagnóstico, classificação e tratamento. Em termos epidemiológicos, a incidência da Epilepsia é de cerca de 40-50/100.000 habitantes/ano (HAUSER et al., 1991, p. 433), enquanto nos países em desenvolvimento é de 122-190/100.000 habitantes/ano (PLACENCIA et al., 1992, p. 778). Aspetos fisiopatológicos inerentes à doença, fatores de risco associados e diferentes abordagens metodológicas influenciam e fazem variar a prevalência Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |55 REVISÃO da Epilepsia dentro de uma ampla faixa que oscila entre 1,5/1000 habitantes e 57/1000 habitantes (SANDER et al., 1992, p.436). Em Portugal, a prevalência da Epilepsia situa-se entre os 5/1000 habitantes, correspondendo a um número total de 50.000 doentes, 1/3 dos quais são crianças e adolescentes. A incidência é de cerca de 50 novos casos / 1000 habitantes/ano (CAMPOS, 2009, p. 62). A Epilepsia foi incluída no capítulo das perturbações mentais pela Organização Mundial da Saúde (OMS) dada a ressalva de se tratar de um grave problema de saúde pública. Um dos principais argumentos utilizados centrou-se no fato da Epilepsia ter sido historicamente considerada uma doença mental e ainda o ser em muitas sociedades. No entanto, não obstante os argumentos apresentados pela OMS, é de salvaguardar tratar-se de uma doença do sistema nervoso central, cujas manifestações e expressão clínica englobam sintomas cognitivos e psiquiátricos (MARCHETTI et al., 2005, p. 172). Perturbações Mentais Associadas à Epilepsia A Epilepsia confere um risco aumentado para a ocorrência de perturbações mentais. Assim, estima-se que, em estudos epidemiológicos populacionais, cerca de 19 a 52% dos doentes adultos com Epilepsia sofram de doenças psiquiátricas (MARCHETTI et al., 2005, p. 172). No entanto, estas perturbações continuam a ser subdiagnosticadas, acarretando internamentos recorrentes, custos elevados e maior dificuldade na capacidade de adaptação dos doentes (MARCHETTI et al., 2005, p. 172). As perturbações mentais associadas à Epilepsia são tradicionalmente divididas em peri-ictais e inter-ictais. As primeiras não apresentam relação temporal com as crises epiléticas e ocorrem imediatamente antes, durante, ou após as crises. São perturbações com início agudo ou abrupto e de curta duração (horas a dias), resultando em remissão completa, apesar da possibilidade de recorrência, sendo evidentes alterações no eletroencefalograma (EEG) de base. As perturbações inter-ictais não apresentam relação temporal com as crises (ALVES et al., 2007, p. 326). De acordo com o período da crise em que ocorrem, as perturbações mentais inter-ictais podem ser divididas em pré-ictais, com início no período prodrómico e remitindo horas ou dias após a crise, ictais, constituindo uma manifestação psicopatológica da própria crise, ou pós-ictais, tendo início após a ocorrência da crise epilética, com remissão horas a dias depois. Existem ainda dois outros tipos de perturbações mentais relacionados com as crises epiléticas, as perturbações para-ictais e alternantes. Quando as perturbações têm início em períodos em que a frequência das crises está significativamente aumentada, resolvendo quando as crises retomam o padrão de frequência habitual, estamos perante perturbações denominadas para-ictais. No caso de terem início alguns dias após a redução ou interrupção completa das crises, de forma espontânea ou pelo uso de antiepiléticos, remitindo após o retorno das crises ao padrão habitual, estamos perante as perturbações alternantes. Nestes casos pode haver normalização forçada, ou seja, pode não coincidir com atenuação das alterações do EEG de base (MARCHETTI et al., 2005, p.173). Figura 1 - Perturbações mentais peri-ictais (MARCHETTI et al., 2005, p. 174). Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |56 REVISÃO Esta classificação etiológica tem vantagens e limitações. Em termos clínicos é muito útil ao direcionar aspetos significativos do tratamento, uma vez que as perturbações mentais peri-ictais decorrem de fenómenos agudos de ativação e/ou inibição neuronal e as perturbações mentais inter-ictais apresentam uma causalidade complexa e multifatorial, com possibilidade de associação ao acaso entre Epilepsia e perturbações mentais “funcionais”. No entanto, a distinção diagnóstica entre os vários tipos de perturbações é difícil, sendo que as entidades diagnósticas ainda não estão plenamente validadas e a nomenclatura apresenta variações. Outra limitação reside no fato da associação temporal com a mudança de frequência das crises não garantir uma ligação causal, uma vez que podem existir fenómenos de transformação inter-ictal, em que uma perturbação peri-ictal se transforma em inter-ictal, ou podem surgir perturbações mentais bimodais, em que coexistem perturbações peri-ictais e inter-ictais no mesmo doente (MARCHETTI et al., 2005, p. 174). Figura 2 – Perturbações mentais inter-ictais e suas variantes (MARCHETTI et al., 2005, p. 175). Perturbações do Humor As perturbações do humor são as perturbações mentais mais frequentemente associadas à Epilepsia. A depressão ocorre em cerca de 50% dos doentes epiléticos observados em centros diferenciados (MARCHETTI et al., 2005, p. 175), estando associada sobretudo a lesões das estruturas límbicas, do lobo frontal e temporal. A falta de controlo sobre a doença neurológica pode constituir um fator de risco adicional para estas perturbações, sendo o risco de suicídio cerca de 5 vezes superior à população geral (BRODIE et al., 2005, p. 110). As perturbações afetivas podem dividir-se de acordo com a classificação etiológica de relação com as crises. Nos casos de depressão pré-ictal surgem quadros clínicos de maior irritabilidade, anedonia, dificuldades de concentração e desesperança que aumentam progressivamente de intensidade, remitindo após as crises, podendo num número limitado de doentes permanecer no período pós-ictal. A depressão ictal cursa com uma mudança súbita de humor para tristeza, associada a sentimentos de desesperança e ideação suicida. Habitualmente não se identifica nenhum fator precipitante, sendo a sua duração reduzida. Os casos em que a depressão surge após a crise epilética são os mais frequentes, durando em média 24 horas. Os doentes podem apresentar sintomas depressivos e ansiosos, perturbação do sono e do apetite. Todos os casos de depressão peri-ictal, com relação temporal com a crise, remitem espontaneamente, passando o tratamento pela otimização da terapêutica antiepilética instituída. A depressão inter-ictal apresenta uma etiologia multifatorial, contribuindo para tal as alterações eletrofisiológicas cerebrais, a predisposição genética para a depressão, fatores psicológicos decorrentes da doença neurológica e o efeito adverso de alguns fármacos antiepiléticos como o fenobarbital (ALVES et al., 2007, p. 328). Verificou-se uma associação entre a ocorrência de depressão inter-ictal e a presença de lesões localizadas no hemisfério esquerdo, pelo que alguns autores defendem que possa existir um desequilíbrio emocional inter-hemisférico, em que o hemisfério esquerdo será responsável pelos afetos Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |57 REVISÃO positivos e o hemisfério direito pelos afetos negativos (MARCHETTI et al., 2005, p. 176). Em 50% dos doentes, estes episódios depressivos têm um caráter atípico, sendo denominados de perturbações disfóricas inter-ictais(ALVES et al., 2007, p. 328). Estas depressões atípicas cursam com uma apresentação intermitente dos sintomas, podendo haver uma remissão durante vários dias, no entanto, voltam a recorrer sem razão aparente. Podem suceder sintomas como irritabilidade paroxística, fraca tolerância à frustração, labilidade emocional, insónia inicial e despertares noturnos. Os episódios duram algumas horas a vários dias. Nestes casos, o tratamento implica a utilização de fármacos antidepressivos, com baixa interferência no limiar convulsivo e mínimas interações com os antiepiléticos. Os antidepressivos mais usados são os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), como a sertralina e a fluoxetina, devendo ser evitados fármacos como a clomipramina, a maprotilina e a mianserina, assim como combinações de ISRS e tricíclicos. A farmacoterapia deve ser combinada com psicoterapia cognitivo-comportamental, orientada para o “insigth”, sendo de considerar a eletroconvulsivoterapia (ECT), em casos refratários à terapêutica (ALVES et al., 2007, p. 333). Perturbações de Ansiedade As perturbações de ansiedade são frequentes no período peri-ictal, ocorrendo em 50% dos doentes epiléticos (BRODIE et al., 2005, p. 111).O pânico ictal constitui uma expressão da atividade epilética, com duração de alguns segundos em que habitualmente não está presente a típica sensação de morte eminente. Os doentes têm uma amnésia retrógrada para a situação e não respondem a estímulos durante a crise. Os quadros de ansiedade pós-ictal aparecem após as crises e duram em média 24 horas. Cursam com preocupação crescente quanto à repetição das crises, medo frequente de sair de casa e de estar sozinho, ocorrendo em co-morbilidade com sintomas depressivos. O tratamento destas duas situações não implica a utilização de psicotrópicos, devendo ser ajustada a terapêutica antiepilética de base. As perturbações de ansiedade inter-ictal estão associadas a crises focais, do lobo frontal e temporal, podendo englobar quadros de perturbação de pânico, perturbação de ansiedade generalizada, agorafobia e fobia social, habitualmente em casos refratários. Resultam de alterações neuroquímicas e eletrofisiológicas próprias da Epilepsia, de processos reativos à doença e dos efeitos adversos dos antiepiléticos (ALVES et al., 2007, p. 331). O tratamento implica a utilização de fármacos ansiolíticos e antidepressivos (paroxetina, inibidores da mono-aminooxidase (IMAO) combinados com psicoterapia cognitivocomportamental (ALVES et al., 2007, p. 333). Perturbações Psicóticas na Epilepsia Perspetiva Histórica Foi em 1860, que Falret, psiquiatra francês, propôs pela primeira vez uma classificação para as chamadas “Psicoses Epiléticas” sugerindo que estas fossem agrupadas em três categorias (cit. por KANEMOTO, 2002, p. 117): “Peri-Ictal Transitória”, “Peri-Ictal Crónica” e “Psicose Epilética Verdadeira”. Uma vez que, na altura, não existia uma distinção precisa entre eventos pré, intra e pós-ictais, não é fácil encontramos uma correspondência entre as classificações atuais e aquela proposta por Falret (1960/1962). Assim, se o significado de “Psicose Crónica” é evidente e, em relação à “Psicose Peri-Ictal Transitória”, é possível encontrar equivalência com o que hoje se define como Confusão Pós-Ictal, já a “Psicose Epilética Verdadeira” de Falret não tem qualquer correspondente nas classificações mais modernas. Na sua classificação, Falret destacou a agitação psicomotora extrema bem como o comportamento extremamente agressivo e autodestrutivo, como traços psicopatológicos marcantes das psicoses associadas à Epilepsia. De facto, John Hughlings Jackson (1875), um pioneiro da epileptologia moderna, salientou que a “Psicose Epilética Verdadeira” descrita por Falret surgia na sequência uma crise epilética. No entanto, durante os 100 anos seguintes, na literatura psiquiátrica não existiu consenso acerca da verdadeira natureza da Psicose Epilética de Falret (cit. por KANEMOTO, 2002, p. 117) e no domínio da Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |58 REVISÃO epileptologia ela foi sendo gradualmente esquecida. Como resultado e com o advento das drogas antiepiléticas, o conceito “Psicose Alternante” de Landolt (1963) tornou-se muito popular, obscurecendo completamente a Psicose Pós-Ictal (MENDEZ et al., 1993, p. 1073). Entretanto, em 1963, Slater publicou um estudo bastante abrangente sobre as psicoses crónicas em pacientes com Epilepsia (SLATER et al., 1963, p. 95) mas só mais tarde em 1988, é que o conceito de Psicose Pós-Ictal foi recuperado por Logsdail e Toone. Atualmente, excetuando os efeitos imediatos no funcionamento psíquico, tal como sucede no “statusepilepticus” e na confusão pós-ictal, os três tipos principais de psicoses epiléticas são a pós-ictal e a interictal aguda e crónica. Psicose Pós-Ictal A Psicose Pós-Ictal é provavelmente a forma mais comum de perturbação psicótica observada na Epilepsia, sendo mais frequente em doentes que sofrem de Epilepsia do Lobo Temporal (ELT), em particular naqueles em que a patologia do lobo temporal é bilateral (LOGSDAIL et al., 1988, p. 248). No entanto, a Psicose Pós-Ictal pode ocorrer também em síndromes epiléticos relacionados com outras localizações cerebrais, bem como nos casos de Epilepsia Generalizada. Os estudos realizados demonstraram ainda que a presença de uma história familiar de doença afetiva é o único fator de risco psiquiátrico para o aparecimento deste tipo perturbação mental. O primeiro episódio ocorre geralmente cerca de 10 anos após a Epilepsia estar presente. O fator precipitante é uma exacerbação das crises, nomeadamente uma salva de Crises Parciais Complexas e/ou uma Crise Generalizada Secundária. Habitualmente, segue-se um período de 24 a 48 horas durante o qual existe consciência clara e no qual o doente aparenta recuperar totalmente da crise. De seguida, a sintomatologia psicótica surge de modo súbito e dramático, acompanhada de marcada agitação psicomotora e alteração do comportamento. A psicopatologia é pleomórfica, com quadros de delírio paranoide, de grandiosidade e místico, acompanhados de atividade alucinatória auditivo-verbal e por vezes visual e somática. As alterações do humor e afetos também costumam estar presentes em grau variável, sendo mais frequentes as situações de hipomania com delírios místicos. Embora tenham sido descritas situações de “Delirium” intermitente, é importante que sublinhar que estes se tratam de verdadeiros episódios psicóticos que ocorrem em estado da consciência clara. As alterações observadas no eletroencefalograma durante o episódio são a presença de uma lentificação difusa ou um aumento das alterações epileptiformesinterictais (LOGSDAIL et al., 1988, p.249), as quais são características dos traçados pós-críticos em geral. Na clínica, é importante diferenciar a Psicose Pós-Ictal dos quadros de “Status Epilepticus”. Embora, na maioria dos casos, esta distinção seja imediata, existem aspetos comuns que podem suscitar dúvidas no diagnóstico. Assim, sintomas psicóticos, agitação e alterações do comportamento podem estar presentes em qualquer destas perturbações. Um estado de alteração do estado da consciência apontará para o diagnóstico de “Status Epilepticus”, ainda que nos doentes psicóticos com grande agitação seja impossível de excluir alterações subtis da consciência. Outra dificuldade adicional é o fato de haver referência à presença intermitente de “Delirium” nos indivíduos com Psicose Pós-Ictal, situação em que a identificação de um período de consciência clara é fundamental para o diagnóstico. A duração média do episódio psicótico é de 3.5 dias, podendo variar de 16 horas até 18 dias (DEVINSKY et al., 1995, p. 247). A remissão espontânea dos sintomas psicóticos ocorre na maioria dos casos, pelo que, a terapêutica farmacológica não está indicada. No entanto, nos casos mais graves, com agitação severa e alterações do comportamento, o tratamento com benzodiazepinas e o internamento hospitalar poderão ser necessários. A tendência para a recorrência é frequente, com episódios clinicamente semelhantes (TARULLI et al., 2001, p. 1470), aumento progressivo da gravidade e duração da sintomatologia psicótica. Eventualmente, deixa de haver distinção entre os diferentes episódios, com transformação numa Psicose Inter-Ictal Crónica. Esta progressão atinge entre 14 a 40% dos doentes com Psicose Pós-Ictal (MARCHETTI et al., 2003, p. 136). Deste modo, o enfoque do tratamento é colocado no controlo das crises. No entanto, em termos práticos, isto é bastante difícil, uma vez que a maioria destes doentes já demonstrou resistência a diversos antiepiléticos. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |59 REVISÃO A patofisiologia da Psicose Pós-Ictal não é totalmente compreendida, mas distingue-se, na clínica e no eletroencefalograma do “Status Epilepticus”. Provavelmente, reflete uma perturbação fisiológica que se instala num substrato epileptogénico. Psicose Inter-Ictal A Psicose Inter-Ictal é uma entidade nosológica, cuja prevalência e natureza têm gerado grande controvérsia. A questão fundamental é de saber, até que ponto, a psicose e a Epilepsia estão relacionados ou coexistem como perturbações independentes. De fato, a Psicose Inter-Ictal apresenta-se sob a forma dum quadro clínico que teria critérios para o diagnóstico de Esquizofrenia, não fosse a presença de Epilepsia (DAVID et al., 2009, p.343). A este propósito é de salientar o estudo primordial de Slater et al. (1963) com 69 doentes epiléticos com diagnóstico de Esquizofrenia, nos quais notaram que certas combinações de sintomas diferiam ligeiramente dos padrões habituais presentes na Esquizofrenia. Deste modo, verificaram que era menos frequente a presença traços de personalidade prémórbidos ao início da psicose, os fenómenos motores catatónicos eram raros e a perda de reatividade emocional não era tão marcada ou não ocorria tão precocemente como na Esquizofrenia. Apesar destas diferenças fenomenológicas subtis não terem sido replicadas em estudos posteriores, e serem hoje alvo de críticas, o estudo de Slater permitiu identificar um tipo de psicose, que apesar de ter semelhanças com a Esquizofrenia, é distinto dela e se relaciona com o quadro de Epilepsia subjacente. nomeadamente a Epilepsia do Lobo Temporal é controversa. Slater et al. (1963), verificaram a predominância deste tipo de Epilepsia nos doentes psicóticos e a maioria dos grandes estudos casocontrolo, reportaram esta associação (MENDEZ et al., 1993, p. 1073; ADACHI et al., 2000, p. 1313). No entanto, dado que neste tipo de Epilepsia as crises têm tendência a ser mais resistentes ao tratamento médico do que na Epilepsia Idiopática Generalizada, a evidência atual não permite distinguir se risco de psicose é superior devido ao síndrome epilético ou se resulta da severidade doença. Por outro lado, a presença de neoplasias de tecido embrionário (hamartomas, displasia focal, etc.) ao nível das estruturas mediais do lobo temporal (amígdala, hipocampo e giro hipocampal) foi positivamente associada ao risco de psicose (TAYLOR, 1972, p. 727;FALCONER, 1973, p. 451; SHAW, 2004, p. 1003). Outros estudos revelaram um risco aumentado nos doentes com história familiar de doença mental. Tabela 1 - Fatores de risco associados ao desenvolvimento de Psicose Inter-Ictal FATORES DE RISCO Um considerável número de investigações, focou-se no estudo dos fatores de risco para desenvolvimento de Psicose Tipo-Esquizofrenia na Epilepsia. Os achados mais consistentes têm sido a associação entre a psicose e os vários índices de gravidade da Epilepsia (Tabela 1). Nenhum estudo comprovou uma associação significativa entre o risco de psicose e a idade de início da Epilepsia. A associação entre a presença de Epilepsia Focal, ETIOLOGIA Os mecanismos etiológicos que explicam a relação das Psicoses Tipo-Esquizofrenia com a Epilepsia têm sido objeto de estudo detalhado. A associação casual, a predisposição genética, o fardo psicossocial imposto pela doença ou ainda os efeitos dos fármacosantiepiléticos, poderão ser importantes. Por outro lado, poderá haver uma ligação de natureza fisiológica mais direta. O mero efeito do acaso parece ser Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |60 REVISÃO uma explicação pouco provável, tendo em conta a evidência sólida de que a Epilepsia refratária está associada a um risco 2 a 3 vezes maior de desenvolver psicose. Parece também improvável que se trate de indivíduos com predisposição genética semelhante àqueles que desenvolvem Esquizofrenia. Provavelmente têm uma diátese genética para psicose que os coloca entre a que se encontra na população geral (e nos paciente epiléticos sem psicose) e que existe na Esquizofrenia. A psicose foi descrita como eventual complicação de todos os fármacos antiepiléticos mas nesses casos, o quadro remite logo que o fármaco é descontinuado. Assim sendo, o efeito isolado dos fármacos não parece ser uma causa para as psicoses crónicas que frequentemente estão associadas à Epilepsia. Em alguns doentes, especialmente crianças tratadas com etosuxamida, a psicose pode surgir após o fim da crise (“Psicose Alternante”) e das alterações paroxísticas no eletroencefalograma (“Normalização Forçada”). Em suma, a evidência científica existente, favorece a relação etiológica direta entre a Epilepsia (ou a disfunção cerebral subjacente) e a Psicose. Assim, esta última poderá ser entendida como uma “esquizofrenia sintomática”, tal como quando acontece quando esta surge secundariamente a lesões cerebrais ou ao uso de drogas psicoestimulantes. O elo de ligação poderá ser via atividade crítica ou, em alternativa, através da disfunção cerebral subjacente à Epilepsia. Por último, uma formulação fisiológica desta ligação foi proposta por Symonds (1962). Segundo esta perspetiva, quer a Epilepsia, quer a psicose são manifestações da mesma perturbação da função cerebral nos lobos temporais sendo a Epilepsia uma manifestação precoce e intermitente, enquanto a psicose é produto tardio. Symonds postulou que esta anomalia não consistia de numa lesão estática mas num padrão desordenado de atividade eletrofisiológica que se alastra através do sistema temporo-límbico. Nas exacerbações dessa perturbação as crises epiléticas ocorreriam, mas a disfunção de base manter-se-ia entre os ataques, com efeitos extensos no funcionamento psíquico. Stevens (1992) elaborou uma hipótese não muito diferente. Segundo ele, o dano cerebral provoca “sprouting” regenerativo e proliferação sináptica. Em doente com ELT foi demonstrado que ocorre “sprouting” nas células do giro dentado e expansão dos recetores pós-sinápticos no giro hipocampal. As consequências funcionais de tais mudanças são largamente desconhecidas, mas uma reorganização desta natureza, consequência dos insultos das crises, pode estar associada ao despoletar da psicose. TRATAMENTO E PROGNÓSTICO O tratamento com fármacos anti-psicóticos típicos e atípicos está aprovado, embora aqueles que diminuem o limiar epilético, como é o caso da clozapina e da cloropromazina, sejam desaconselhados. A persistência dos sintomas psicóticos condiciona um prognóstico extremamente reservado, levando a tentativas de suicídio frequentes, a múltiplos internamentos e à perda de funcionalidade. Perturbação da Personalidade Ao longo da história, o doente epiléptico foi, também, alvo de vários estudos nas várias vertentes psico-socioculturais. Embora em muitos doentes com Epilepsia não se desenvolvam perturbações inter-ictais da personalidade, surgem na década de 70 do séc. XX as primeiras referências na literatura à existência de um síndrome comportamental inter-ictal, denominado de “Síndrome de Geschwind”, caracterizado por traços de hiposexualidade, hiperreligiosidade e hipergrafia. Em alguns estudos em doentes epiléticos, observaramse alterações do comportamento sexual, nomeadamente hiposexualidade. Um fator que também pode contribuir para este quadro é os efeitos dos antiepiléticos no funcionamento sexual. Contudo, foram descritas melhorias significativas após o controlo das crises com antiepiléticos ou após intervenção cirúrgica. Nestes doentes, verificou-se um comportamento frequente de “viscosidade”, descrito como um estilo interpessoal marcado por logorreia, discurso circunstancial, dificuldade em mudar os tópicos da conversa e tendência a desenvolver relações interpessoais. Outras alterações destacadas na literatura incluem a intensificação das crenças religiosas e a preocupação aumentada com a moralidade. Os temas morais e religiosos tendem a predominar quando os Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |61 REVISÃO doentes manifestam hipergrafia, isto é, um aumento no volume de material escrito. Contudo, a existência do “Síndrome de Geschwind” desde cedo levantou controvérsia. Apesar de longos estudos e reflexões nos últimos anos, permanece atual a discussão sobre a natureza dessas alterações comportamentais propostas e a ocorrência das mesmas de forma organizada, como um padrão da personalidade. Além do mais, estas alterações comportamentais verificadas não são específicas da Epilepsia do Lobo Temporal, encontrando-se também noutras doenças neurológicas. As críticas apresentadas à existência do “Síndrome de Geschwind”, referem-se ao baixo grau de reprodutibilidade da sua forma de apresentação, à inexistência de instrumentos de avaliação e à quantificação dos traços característicos. Existem, inclusivamente, estudos recentes que apontam para o fato de estes traços de personalidade serem mais prevalentes na Epilepsia do Lobo Frontal do que na do Lobo Temporal. Demência Epilética Há uma pequena porção de doentes epiléticos que evoluem para um estado de deterioração cognitiva, com um comprometimento progressivo da memória, concentração e juízo crítico, culminando na demência. Esta situação, por norma, verifica-se após vários anos de evolução da doença. Autores como Lishman (1998), referenciaram a “Demência Epilética” como associada a uma severa deterioração da personalidade, por vezes até com a importante perturbação da conduta e do comportamento sob a forma de impulsividade, irritabilidade e crises de ira. Estas reflexões foram apoiadas por estudos de neuro imagem que evidenciaram atrofia cerebral nesses doentes, principalmente quando a Epilepsia era secundária a uma lesão cerebral, refratária, de difícil controlo medicamentoso e de longa duração. Contudo, outros autores consideram o “Síndrome Cerebral Orgânico Epilético”, qualificado segundo o grau leve (corresponderia à alteração de personalidade epilética) ou grave (corresponderia ao quadro demencial). Esta corrente ideológica é solidificada com a argumentação de que na vida psíquica do epilético vão-se enfraquecendo as vontades, os valores, os sentimentos altruístas e a capacidade de criação, enquanto se hipertrofiam os instintos, os impulsos primitivos, os sentimentos individuais e as tendências egocêntricas. Apesar disso, há consenso que o paciente perde a sua capacidade global; o pensamento torna-se descritivo e concreto; a memória enfraquece-se e há uma diminuição da extensão do vocabulário; o círculo de interesses fica restrito; irritabilidade fácil e agressividade heterodirigida não são raras (ALONSO-FERNANDEZ et al., 1977, p. 416). Vários autores apontaram inúmeras causas para a deterioração cognitiva objectivada nestes doentes, tais como: a) Frequentes quedas com múltiplos traumatismos cranianos; b) “Fadiga neuronal” com diminuição das reservas de glicogénio, fosfocreatina, ácido adenosinatrifosfórico (ATP) e outras fontes de energia, com consequentes danos neurológicos devidos à hipóxia. c) Edema cerebral repetitivo. Diagnóstico Diferencial (ALVES et al., 2007, p. 123-125) • Crises Focais Simples – Acidente Isquémico Transitório (AIT), Enxaqueca, Hiperventilação, Tics, Mioclonias, Cataplexia, Deslocamento de pacemaker cardíaco, Coreoatetose paroxística, Alucinosepeduncular. • Crises Focais Complexas – Perturbações do sono, Perturbação de Conversão, Surto psicótico, Perturbação explosiva intermitente, Amnésia global transitória, Hipoglicémia, Porfiria aguda intermitente, drogas. • Ausências – Dormitar fisiológico, narcolepsia. • Crises Generalizadas tónico-clónicas – Síncope (cardíaca, ortostática, neurogénica, doença vascular cerebral, hiperventilação), doenças metabólicas (tetania, hipocalcémia, hipoglicémia), perturbação de conversão, narcolepsia – cataplexia, isquémia do território basilar, lesões estruturais intracranianas, posturas de descerebração ou descortificação. • Crises Atónicas – “Dropattack”, cataplexia. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |62 REVISÃO Pseudo-Crises As pseudo-crises são frequentes em doentes observados em serviços especializados em Epilepsia, atingindo cerca de 20% dos doentes e constituindo um verdadeiro desafio em termos de diagnóstico diferencial. Tratam-se de eventos paroxísticos episódicos que se assemelham a crises epiléticas e cuja distinção é difícil (ALVES et al., 2007, p. 338). Podem ser decorrentes de causas fisiológicas, como as arritmias cardíacas, as crises de hipotensão ou os acidentes cerebrovasculares ou podem resultar de perturbações psiquiátricas, sem uma base orgânica, sendo designadas de crises psicogénicas ou pseudoepiléticas. Estas podem ser classificadas nos manuais diagnósticos como perturbações conversivas ou perturbações factícias e a co-morbilidade com situações de depressão e ansiedade é frequente. A distinção entre as pseudo-crises e as verdadeiras crises epiléticas é difícil, sendo necessário ter em conta vários fatores. As pseudo-crises ocorrem habitualmente na presença de pessoas ou então nunca foram observadas por ninguém, existe frequentemente um fator emocional precipitante, sendo a reação emocional exagerada para o estímulo. Os doentes relatam frequentemente história de abuso prévio e têm familiar próximo com Epilepsia. A pseudo-crise tem uma duração superior às verdadeiras crises epiléticas, com movimentos caóticos e início gradual da sintomatologia. Nestes casos, a resposta aos antiepiléticos é ineficaz e verifica-se uma ausência de alterações no eletroencefalograma (ALVES et al., 2007, p. 339). O exame de eleição que permite a distinção entre estas duas entidades é o vídeo-EEG. Considerações Terapêuticas A abordagem terapêutica das perturbações psiquiátricas nos indivíduos com Epilepsia deve ter em consideração algumas orientações que são específicas para este grupo (Tabela 2). A etiologia e a relação temporal com as crises são os factores determinantes no tratamento destes doentes. De modo geral, a melhor forma de tratar a sintomatologia psiquiátrica peri-ictal consiste na otimização da terapêutica dirigida ao controlo das crises epiléticas. Pelo contrário, para a resolução das complicações psiquiátricas dos fármacos antiepiléticos, é recomendada a redução da poli-medicação e/ou a substituição do fármaco antiepilético. No que diz respeito aos quadros psicopatológicos interictais, isto é, sem relação com as crises, deve optar-se pelo uso de psicofármacos com baixa interferência no limiar convulsivante e cujas interações com os antiepiléticos sejam mínimas. As abordagens psicoterapêuticas, como o aconselhamento e terapias cognitivo-comportamentais, são tratamentos de 1ª linha nos sintomas relacionados com os fatores psicossociais, sendo também utilizados como terapêuticas adjuvantes noutras situações já referidas. A ECT é o tratamento de escolha nos casos de Depressão Major refratária à medicação. PSICOFÁRMACOS O tratamento com psicofármacos deve obedecer a alguns princípios básicos: • Iniciar com doses baixas; • Aumento lento das doses de forma a evitar doses tóxicas; • Antecipar interações farmacológicas com os antiepiléticos e ajustar doses de modo a minimizar o efeito dessas interações; • Evitar os antipsicóticos e antidepressivos que, reconhecidamente, agravam crises (Tabela 3). Os antipsicóticos atualmente disponíveis no mercado têm uma eficácia semelhante, mas distinguem-se pelo perfil de efeitos secundários. Alguns deles, em doses mais elevadas, são responsáveis pelo despoletar de crises epiléticas, quer em doentes com Epilepsia, quer em doentes não-epiléticos. A Cloropromazina é um exemplo desses fármacos, que em doses superiores a 1000 mg/dia é conhecida por aumentar o risco de crises em indivíduos não-epiléticos. A Clozapina, quando usada em doses superiores a 600 mg/dia, tem um enorme risco de desencadear um fenómeno ictal em doentes sem Epilepsia. Nos doentes epiléticos, esse risco existe com doses mais baixas, pelo que o sua utilização deve ser evitada. A Risperidona, oHaloperidol a Flufenazina são os Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |63 REVISÃO antipsicóticos mais seguros na Epilepsia por terem menos efeitos no limiar epilético.Os efeitos secundários dos antipsicóticos, incluem sedação, efeitos anti-colinérgicos e sinais extrapiramidais, e são característicos dos Antipsicóticos de 1ª Geração ou Típicos, estando reduzidos nos de 2ª Geração ou Atípicos. Tabela 2 - Tratamento das Perturbações Psiquiátricas Associadas à Epilepsia (adaptado de ALVES, et al., 2007, p. 133) consideração que alguns dos fármacos desta classe, como são o caso da Paroxetina e da Fluvoxamina, interferem na taxa de metabolização nos antiepiléticos, reduzindo-a. A classe dos Antidepressivos Tricíclicos é relativamente segura, desde que se evitem doses elevadas, como acontece no caso da Imipramina e da Desipramina. A Clomipramina, a Amoxipina e a Maprotilina, por apresentarem um risco elevado de diminuição do limiar convulsivante, estão contraindicadas na Epilepsia. Tabela 3- Psicofármacos e limiar convulsivante. (adaptado de ALVES et al., 2007, p. 134) AEPs – Antiepilépticos; ADT – Antidepressivos Tricíclicos; ISRS – Inibidores Selectivos da Recaptação da Serotonina; IMAO – Inibidor da Monoamina Oxidase; CBZ – Carbamazepina; AVP – Ácido Valpróico; LTG - Lamotrigina; GBP – Gabapentina; ECT –Electroconvulsivoterapia. Os antidepressivos estão indicados no tratamento das Perturbações do Humor e da Ansiedade (incluindo as Perturbações de Pânico e Obssessivo-Compulsiva). No entanto, a sua utilização é restrita ao tratamento de sintomas psiquiátricos inter-ictais ou situações como a Depressão Pós-Ictal prolongada. Os ISRS apresentam um bom perfil de segurança para uso nos doentes com Epilepsia. Apesar disso, é necessário ter em ESTIGMA A Epilepsia tem um vasto impacto económico e cultural na sociedade, com repercussões no indivíduo, surgindo conceções populares negativas sobre este, marcando-o como “menos desejável” – Estigma. Isto acarreta, ao Epilético, medos e receios de sofrer descriminação objetiva. Mesmo na ausência dessas evidências poderá existir uma perceção subjetiva de estigma, que em geral, é mais incapacitante do que o estigma objetivamente vivenciado. Desde cedo o receio dos pais em levar as crianças à escola, ou mesmo dos professores que limitam a participação destas crianças com o receio do Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |64 REVISÃO surgir de uma qualquer crise, condiciona desde cedo a relação interpessoal do doente epilético. Com isto, instala-se um ambiente de exclusão, desprezo pelos colegas, condicionando do aproveitamento e da continuação dos estudos. Num estudo de Salgado e Souza (2002), realizado a doentes epiléticos, concluiu-se que 58,2% desses doentes tinham formação escolar incompleta, contribuindo para a dificuldade na obtenção de trabalho, e 69,4% estariam desempregados. A cronicidade desta situação gera o aparecimento do “Autoestigma”, onde o indivíduo assume o “rótulo social do epilético”, a ideia de que se é “diferente dos outros”. Surgem atitudes de auto-depreciação ou autopiedade; medo de si próprio ou dos seus atos; atribuição de todos os problemas (físicos ou psicológicos) à doença, com comportamentos com ganhos secundários. Globalmente existem afirmações do tipo “sou epilético” em vez de “tenho Epilepsia”. Em 1997, a OMS, em associação com a “International League Against Epilepsy” e o “International Bureau for Epilepsy”, lançou uma campanha global para “retirar a Epilepsia das sombras” (“Out of the shadows”, 2001). Os objectivos da campanha foram definidos no sentido de: 1. Aumentar a consciência pública e profissional da Epilepsia como condição tratável. 2. Melhorar a aceitação pública da Epilepsia. 3. Promover educação pública e profissional sobre a Epilepsia. 4. Identificar as necessidades regionais e nacionais dos epiléticos. Encorajar governos e governantes de saúde a considerar as necessidades dos epiléticos, incluindo consciencialização, educação, diagnóstico, tratamento, cuidados, serviços e prevenção. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADACHI, N. et al. - Predictive variables of interictal psychosis in epilepsy. Neurology. 55 (2000) 1310–1314 ALONSO-FERNANDEZ, Fernando - Fundamentos de la Psiquiatria Actual. 3ª ed. Madrid: Paz Montalvo, 1977. Vol. 2 ALVES, Dílio; LUZEIRO, Isabel; PIMENTEL, José - Livro Básico da Epilepsia. Lisboa: Bial, 2007. ISBN: 978-972-99224-9-7 BRODIE, Martin J.; SCHACHTER, Steven C; KWAN, Patrick – Fast Facts: Epilepsy. 3ª ed. Oxford: Health Press, 2005. ISBN: 1903734-30-4 CAMPOS, Maria Manuel – Epilepsia. In SÁ, Maria José, coord. Neurologia Clínica: Compreender as Doenças Neurológicas. 1ª ed. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, 2009. ISBN: 978-989-643-034-4. 61-98 DAVID, Anthony S., et al. - Lehman’s Organic Psychiatry – A Text book of Neuropsychiatry. 4ª ed. 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ISBN 978-0-521-81374-7. 117-129 LISHMAN, William Alwin. - Epilepsy. Organic psychiatry.3ª ed. Oxford, Blackwell Science, 1998.ISBN: 978-1-4051-1860-6 LOGSDAIL, S.J.; TOONE, B.K. - Postictal Psychoses: a Clinical and Phenomenological Description. Br J Psychiatry. 152 (1988) 246-52 MARCHETTI, Renato Luiz, et al.– Transtornos Mentais Associados à Epilepsia. Rev. Psiq. Clín. ISSN 0101-6083. 32: 3 (2005) 170-182. MARCHETTI, Renato Luiz, et al. - Clinical Aspects of Epileptic Psychosis in Brazil. Epilepsy Behav. 4:2 (2003), 133-41 Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |65 REVISÃO MENDEZ, M.F., et al- Schizophrenia in Epilepsy: Seizure and Psychosis Variables. Neurology.43(1993) 1073-7 QIN, P.et al. - Risk for schizophrenia and schizophrenia-like psychosis among patients with epilepsy: population based cohort study. British Medical Journal. 331 (2005) 23-29 SALGADO, Priscila Camile Barioni and SOUZA, Elizabete Abib Pedroso - Impacto da epilepsia no trabalho: avaliação da qualidade de vida. ArqNeuro-Psiquiatr. Jun.60:2B (2002), 442445 SANDER, J.W.; SHORVON, S.D. - Epidemiology of the epilepsies.Journal Neurology, Neurosurgery and Psychiatry. 61:5 (1996) 433-443 SHAW, P., et al. - Schizophrenia-like psychosis arising de novo following a temporal lobectomy: timing and risk factors. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry.75 (2004) 1003–1008 SLATER, E.; BEARD, A.W.; GLITHERO, E. - The Schizophrenia-like Psychoses of Epilepsy. British Journal of Psychiatry.109 (1963), 95–150 STEVENS, J.R. - Abnormal reinnervation as a basis for schizophrenia: a hypothesis. Archives of General Psychiatry.49(1992) 238–243 SYMONDS, C.P. - Discussion following The schizophrenia-like psychoses of epilepsy. 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Uma crescente medicina baseada na evidência, ou seja, numa filosofia da ação. Aborda a prática influenciada por uma cultura médica onde o erro passa a ser uma questão central, mais ainda numa cultura empresarial que domina os hospitais. A prática médica fortemente eivada de cultura política, onde o papel dos doentes começa a ser crescente, numa sociedade mais informada e exigente face às suas necessidades.Sublinha a questão da ética não só no princípio e no fim da vida, mas também a ética do quotidiano, foca a gestão de recursos, o consentimento informado, a gestão do risco, os transplantes de órgãos, a confidencialidade ou o segredo. O autor expressa as suas preocupações com os desafios do envelhecimento acentuado da população e a FICHA TÉCNICA sustentabilidade do sistema de saúde. Deixa-nos reflexões sobre o ensino médico no novo contexto contingencial em que se desenvolve. A ligação investigação versus prática será cada vez mais o eixo para o sucesso da medicina nos dias de hoje. O maior desafio fica lançado sobre uma utopia possível: a medicina “personalizada”. É uma obra única, a não perder. FERNANDO GOMES, Enfermeiro Supervisor, CHUC, AGENDA [email protected] A comemoração de “Dias Mundiais” visa chamar a atenção de cidadãos e profissionais para temas e problemas que afetam a humanidade e integram campanhas preventivas da maior importância. Destacamos algumas datas de relevância para a Saúde Mental e Psiquiatria. DATA DIA MUNDIAL TEMA 2012 26 JUN LUTA CONTRA A DROGA Este dia visa a reflexão sobre o tema da droga e a mobilização para a ação. SAIBA MAIS EM:http://www.un.org/en/events/drugabuseday/index.shtml 10 SET PREVENÇÃO DO SUICÍDIO 10 OUT SAÚDE MENTAL Prevenção do suicídio em todo o mundo: reforçando os fatores de proteção e fomentando a esperança SAIBA MAIS EM:http://www.iasp.info/wspd/ Depressão: uma crise global SAIBA MAIS EM:http://www.wfmh.org/00WorldMentalHealthDay.htm A AERPPSM associa-se a estas iniciativas com o objetivo de promover a reflexão e pesquisa nestes temas, na dimensão de prevenção em Saúde Mental e Psiquiatria. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |67 NORMAS DE PUBLICAÇÃO MENTAL(IDADES) + Revista da AERPPSM I. Artigos 1. Os artigos devem ser originais, ainda não submetidos a outras publicações e avaliados previamente. 2. A revista Mental(idades)+ da Associação para o Estudo, Reflexão e Pesquisa em Psiquiatria e Saúde Mental (AERPPSM) não garante a publicação de todos os artigos que lhe sejam remetidos. 3. Os artigos devem versar temas de psiquiatria e de saúde mental. 4. A Revista Mental(idades)+ aceita artigos científicos, artigos de revisão, artigos de prática clínica, relatos de casos clínicos, artigos de opinião, e outros que possam contribuir para o desenvolvimento, estudo, reflexão e pesquisa em psiquiatria e saúde mental. 5. O conteúdo dos artigos publicados é da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 6. Os artigos poderão ser redigidos em português, inglês, francês ou castelhano, consoante a sua origem. 7. A revista Mental(idades)+ apresenta as seguintes secções: Editorial; Entrevista; Estudos; Revisões; Opinião; Divulgação e Agenda. 8. O título do artigo deve ser informativo e sucinto, em português e inglês, com um máximo de 16 palavras, sem abreviaturas. 9. Os autores devem estar devidamente identificados, com o nome, habilitações, categoria profissional, instituição onde exercem funções e respetivo endereço de correio eletrónico. 10. O artigo deve ser acompanhado de um resumo, em português e inglês, o qual não deve exceder as 200 palavras, sem abreviaturas. 11. O artigo deve indicar entre 3 a 5 palavras-chave, em português e inglês, que facilitem a indexação do artigo, transcritas de acordo com a lista de descritores médicos MeSH ou de descritores da PORBASE. 12. O texto deve ser apresentado em formato Word, versão 97-2003, letra Times New Roman, tamanho 11, espaço 1,5, justificado, em páginas A4 (210x297mm), em coluna única. 13. As páginas do artigo devem ser numeradas. 14. O artigo não deverá ultrapassar as 20 páginas incluindo referências bibliográficas, tabelas, quadros, figuras, gráficos e outros objetos gráficos. 15. O artigo não deve incluir cabeçalhos nem notas de rodapé. 16. É igualmente de evitar o uso de itálico, mas as palavras em que esse formato seja indispensável, por exemplo, vocábulos estrangeiros, devem ser sublinhadas no original. 17. As tabelas, quadros, figuras, gráficos, e outros objetos gráficos devem ser numerados por ordem de inclusão no texto, em função de cada tipo. As tabelas e quadros devem apresentar o título em cabeçalho e os gráficos, figuras e outros objetos gráficos devem apresentar o título por baixo. 18. As citações devem estar elaboradas de acordo com as normas aceites pela comunidade científica, sobretudo cumprir o ponto 9.4 da NP 405-1. Todos os autores citados devem constar da lista de referências bibliográficas. 19. As referências bibliográficas devem estar elaboradas de acordo com as normas aceites pela comunidade científica nomeadamente a NP 405. Todas as referências bibliográficas devem estar citadas no artigo. As referências bibliográficas devem surgir no final do artigo, por ordem alfabética. Mental(idades)+: Revista da AERPPSM | n.º 1 | Jun./Jul. 2012 |68 NORMAS DE PUBLICAÇÃO II. Submissão de Artigos Os artigos devem ser submetidos por correio eletrónico para: [email protected], com os seguintes elementos: 1. Carta de apresentação (com título do artigo, identificação dos autores e contactos de e-mail e telemóvel); 2. Anexo do Artigo (ficheiro em formato Word, versão 97-2003); 3. Anexo da Declaração de autorização e originalidade (digitalizada). III. Revisão e Decisão Final 1. Os artigos submetidos são avaliados, numa 1.ª fase, pelo Conselho Científico, e, numa 2.ª fase, pelo Conselho Redatorial. 2. A Direção da revista Mental(idades)+ enviará ao/s autor/es informação sobre a aceitação, aceitação com alterações ou recusa do artigo. 3. No caso de aceitação com alterações, serão enviadas ao/s autore/s um conjunto de recomendações e sugestões de alterações a efetuar. 4. O/s autor/es devem efetuar as modificações e reenviar o artigo, por correio-electrónico, no prazo indicado a definir pelo Conselho Científico e/ou pelo Conselho Redatiorial, sob pena de exclusão do artigo de revisão final. 5. Alterações ao conteúdo original do artigo poderão ser efetuadas com o acordo do/s autor/es, mediante uma Declaração dos mesmos. 6. As normas documentais relacionadas com a bibliografia e a linguagem dos descritores são verificadas por um especialista em Ciências Documentais. 7. A decisão final acerca da oportunidade de publicação dos artigos é da responsabilidade do Diretor da revista Mental(idades)+. 8. Os artigos recusados e o material acompanhante não serão devolvidos, exceto quando expressamente solicitado no momento da submissão. 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