VI Simpósio de Gestão e Estratégia em Negócios
Seropédica, RJ, Brasil, Setembro de 2008
172 EPA - A Internacionalização do Ensino Superior: o caso da
Universidade Regional de Blumenau
Henrique Raboch – (Bacharel, FURB) – [email protected]
Maria José Carvalho de Souza Domingues – (Doutora, FURB) –
[email protected]
Resumo
Em um mundo caracterizado pelo crescente processo de integração cultural, a
internacionalização do ensino é um fenômeno que se tem feito presente no cotidiano
contemporâneo. Estudos no exterior se tornaram um importante fator de aperfeiçoamento na
formação acadêmica, e esforços têm sido exigidos pelas instituições de ensino para se
adequarem a esta dinâmica. O objetivo deste artigo é avaliar a internacionalização de uma
instituição de ensino superior, através de um estudo de caso com a Universidade Regional de
Blumenau, realizando um estudo comparativo com teorias já documentadas pela Escola de
Negócios Internacionais. Resultados apontam para uma convergência entre o processo de
internacionalização de uma universidade e a Escola Nórdica, com forte influência da Teoria
das Redes de Relacionamentos.
Palavras-chave: Internacionalização; Ensino Superior; Gestão Universitária.
1. Introdução
Globalização, diminuir distâncias, multiculturalidade. Várias são as palavras utilizadas
hoje em dia que caracterizam o processo de integração mundial que a civilização tem
enfrentado. A mobilidade internacional deixou de ser um feito exclusivo para pessoas. No
séc. XX foi estabelecida a alocação internacional dos fatores produtivos, algo que embora
acontecesse desde os períodos coloniais, ganhou notoriedade justamente com o
desenvolvimento da produção em si. Em um período da humanidade ditado por um forte
ritmo de mudanças tecnológicas e de alta exigência na formação profissional, é natural que a
educação também passe a responder às demandas de internacionalização para oferecer um
ensino de melhor qualidade.
A internacionalização de uma instituição de ensino superior (IES) pode ter um
conceito limitado, como a simples presença de alguns alunos estrangeiros no campus. Por
outro lado, a internacionalização pode ser algo contínuo, como um processo sinérgico e
transformador, envolvendo os currículos e a pesquisa, influenciando as atividades de alunos,
professores, administradores, e toda comunidade em sentido amplo (BARTELL, 2003). Os
impactos positivos da internacionalização do ensino, conforme Murphy (2007) ocorrem por
meio de três mecanismos: a distribuição de conhecimento e tecnologia mundiais, a
padronização de padrões de qualidade, e a transferência de idéias complementares para países
embarcando em novos projetos políticos, econômicos e sociais.
O objetivo geral deste trabalho consiste em avaliar o processo de internacionalização
da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Os objetivos específicos podem ser
descritos como revisar a literatura sobre internacionalização, com enfoque no caso das IES,
aplicar entrevistas com as pessoas envolvidas no processo, apurando seus devidos resultados,
e verificar, posteriormente, se a instituição segue um padrão de internacionalização
semelhante aos padrões convencionais de internacionalização das empresas.
No capítulo 2 será feita uma análise da literatura sobre a internacionalização de IES.
Os materiais e métodos são expostos no capítulo 3, seguidos de uma apresentação da
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instituição no capítulo 4, e os resultados da pesquisa no capítulo 5. O estudo se encerra com
as considerações finais no capítulo 6.
2. Revisão Teórica
A teoria clássica da internacionalização de empresas muitas vezes possui um enfoque
puramente econômico e produtivo, voltado para o resultado como justificativa principal para o
processo de internacionalização. Para estudar o caso de uma IES, um escopo diferente é
necessário, visto que uma IES, em sua definição por excelência, não possui a mesma
orientação para o lucro que uma empresa. Entretanto, algumas teorias que tratam do
comportamento de empresas internacionalizadas podem trazer contribuições interessantes ao
adaptá-las ao caso da internacionalização de uma IES, que no caso se refere à
internacionalização de serviços. Neste capítulo, serão abordadas as teorias clássicas da
internacionalização de empresas que podem ser adaptadas ao caso de IES e alguns estudos
empíricos que tratam de parâmetros para medir a internacionalização de uma IES.
2.1 Teoria Clássica da Internacionalização de Empresas
O pressuposto principal da teoria de Uppsala (Johanson & Wierdersheim-Paul, 1975;
Johanson & Vahlne, 1977) é que o grau de internacionalização de uma empresa está
proporcionalmente ligado com a sua experiência e sua atuação em mercados externos. O
início da internacionalização de uma empresa se daria em mercados próximos de seu país de
origem, tanto geograficamente quanto psiquicamente, dadas as incertezas que caracterizam os
mercados externos. A partir daí, o aprendizado gerado com essa inclusão fará com que a
empresa aumente seu comprometimento com atividades internacionais. Desta forma, a
internacionalização de empresa seria um processo gradual, que começa com um baixo grau de
envolvimento em mercados internos, como exportações passivas, e ao adquirir experiência
através da atuação, a empresa progride em etapas mais avançadas do processo de
internacionalização, podendo chegar a instalar uma subsidiária no exterior.
A Teoria da Internalização (Buckley & Casson, 1979) define as diferentes formas de
como um mercado é atendido e diferencia dois tipos de vantagens na internacionalização de
uma empresa: as vantagens de propriedade e localização. O Paradigma Eclético (Dunning,
1980,1988) adiciona mais um tipo de vantagem, de internalização, resultando em três grupos
de vantagens para o engajamento internacional de uma empresa, as vantagens de propriedade,
de localização, e de internalização. As vantagens de propriedade são inerentes da própria
empresa e são os fatores que vão determinar a competitividade no mercado externo. As
vantagens de localização representam a atratividade proporcionada pelo mercado que será
explorado pela empresa. Enquanto as vantagens de internalização representam os benefícios
advindos do próprio processo de internacionalização.
Já a Teoria das Redes de Relacionamentos (Johanson & Mattson, 1988) estabelecem o
networking como uma ferramenta facilitadora na internacionalização de uma empresa. Assim
sendo, a autonomia da empresa em sua atuação internacional tem sua importância diminuída,
de modo que a empresa passa a contar com o apoio de toda uma cadeia agentes com quem ela
se relaciona para contribuir coma troca de experiências e cooperação mútua, como
fornecedores, colaboradores, concorrentes, governo, etc.
Essas teorias, por abordarem alguns aspectos do comportamento da empresa em seu
conteúdo, podem auxiliar a entender a internacionalização de uma instituição prestadora de
serviços, no caso uma IES, possibilitando comparar possíveis pontos em comum entre os
processos de internacionalização de uma instituição de ensino com uma empresa.
2.2 Estudos Empíricos
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Se por um lado os estudos que tratam da internacionalização de empresas utilizam
normalmente como padrão do grau de internacionalização a participação do faturamento
advindo de operações internacionais sobre o faturamento global da empresa, este não pode ser
considerado o melhor meio de tratar da internacionalização de uma IES, visto que, como fora
afirmado anteriormente, elas não possuem uma orientação voltada para o lucro em suas metas
principais. Portanto, o grau de internacionalização de uma IES é algo mais difícil de ser
mensurado do que em uma empresa comum por não ser algo concreto e pontual, mas alguns
autores procurarem estabelecer alguns parâmetros que determinem o nível de
internacionalização de uma IES.
Para analisar e compreender a internacionalização de universidades, Bartell (2003)
adaptou uma tipologia de cultura organizacional como modelo. Ele cita que no Canadá, o
Prêmio por Excelência em Internacionalização observa os seguintes indicadores: participação
internacional de alunos, mudanças no currículo, parcerias internacionais, mobilização de
recursos financeiros, humanos e tecnológicos em prol da internacionalização, parcerias com o
setor privado, contribuição da faculdade com a internacionalização, contribuição da pesquisa
para com a internacionalização, e a contribuição do desenvolvimento de projetos para a
internacionalização da universidade. O método utilizado pelo autor foi o estudo de caso,
utilizando-se de dois exemplos, de uma universidade (Exemplo 1) localizada em um lugar de
baixa cultura voltada para a internacionalização e que se internacionalizou por orientação
interna, escolha administrativa, e outra (Exemplo 2) que está sediada em um ambiente
propício para a cultura de internacionalização e assim decidiu fazer para responder as pressões
externas, atendendo as necessidades da comunidade onde está inserida. Os dados foram
coletados observando os padrões de comportamento, ouvindo estórias organizacionais e
examinando documentos. Os resultados do processo de internacionalização da instituição do
Exemplo 2 se mostraram melhores, de modo que no Exemplo 1 o comprometimento com a
internacionalização foi baixo. Isto revela que uma cultura forte e orientada ao exterior pode
oferecer muito apoio e facilitar a implantação de estratégias e objetivos para a
internacionalização de uma universidade.
Hser (2005) examinou o quadro da internacionalização de 59 universidades
estadunidenses que são membros da Associação de Universidades Americanas. O autor expõe
alguns obstáculos para a internacionalização, como a falta de fundos e corte no apoio do
Estado, o desencorajamento por parte das instituições em ensinar e pesquisar no exterior, falta
de apoio financeiro e perspectivas negativas em estudar no exterior, perspectiva negativa
quanto à presença de estudantes estrangeiros no campus, a competição das faculdades
estadunidenses com faculdades de outros países, além de obstáculos enfrentados por
pesquisadores estrangeiros nos Estados Unidos. Através de dados obtidos junto a diversas
entidades, os resultados revelam diferentes níveis de internacionalização entre as instituições
pesquisadas. O ensino de idiomas estrangeiros e disciplinas internacionais são alguns dos
maiores indicadores da internacionalização de uma instituição. O número de matrículas em
cursos de línguas estrangeiras permanece baixo, mas Conselho Americano de Educação relata
um aumento no apoio estudantil e público aos requerimentos de línguas estrangeiras e
disciplinas internacionais nos cursos superiores. O número de acadêmicos estrangeiros
também se revela um bom indicador de internacionalização de um IES, contribuindo não só
no ensino e pesquisa, mas na interação multicultural dos estudantes estadunidenses.
Miura (2006) pesquisou a internacionalização da Universidade de São Paulo (USP) em
três diferentes áreas do conhecimento: engenharia, medicina e ciências sociais aplicadas. A
autora entende que as IES focam suas ações de internacionalização em duas grandes
dimensões: parcerias internacionais e ensino. As parcerias internacionais compreendem
acordos institucionais e intercâmbio de estudantes e professores, enquanto o ensino engloba o
conteúdo internacional de disciplinas e o ensino de língua estrangeira. Foi realizado um
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estudo de caso através de uma pesquisa de campo do tipo exploratório, utilizando-se de
análise documental, entrevistas, observação direta e artefatos físicos. Conclui-se que a
instituição possui um processo de internacionalização já consolidado, mas constata que falta
planejamento estratégico de algumas unidades, sendo que o processo de internacionalização
ocorre de forma reativa, ou seja, apenas através de algumas ações isoladas.
No México, Murphy (2007) realizou um estudo de caso com estudantes do Instituto
Tecnológico e de Ensino Superior de Monterrey (ITESM, em espanhol) que realizaram um
programa de verão de intercâmbio na Polônia, em 2004, a fim de explorar quais estratégias
podem ser implantadas para internacionalizar a educação e como o componente de exportação
da internacionalização pode ser tornar acessível para todos os alunos, e não apenas a aqueles
que podem pagar. Os métodos utilizados consistiram em pesquisa documental do programa de
internacionalização e em entrevistas com diversas pessoas envolvidas com o programa. Dos
46 alunos que viajaram à Polônia, quinze contaram com ajuda financeira da ITESM. Desta
forma a instituição estabeleceu uma forma da maioria de seus alunos, embora não todos,
terem a oportunidade de estudar no exterior.
Ayoubi e Massoud (2007) examinaram se os feitos das universidades britânicas
relacionados à internacionalização conferem com suas intenções estratégicas. As variáveis
para definir o grau de internacionalização das universidades foram: a porcentagem do número
de estudantes no exterior em comparação ao total de alunos da instituição, o percentual da
renda externa em relação ao total da renda de uma universidade, e o percentual de
participação de mercado de estudantes de primeiro ano em relação ao total de participação de
mercado. Os dados foram coletados através da base de dados da Higher Education Statistics
Agency, que contém informações de 117 universidades britânicas. Conforme os resultados, os
autores dividiram as universidades em quatro grupos, de acordo com sua internacionalização.
O grupo international losers representam 15% das universidades, compreendem as
instituições que não estão preocupadas com estratégias e atividades de internacionalização. As
international speakers possuem uma grande carga de objetivos para sua internacionalização,
mas não se preocupam demasiadamente com as atividades estrangeiras de seus acadêmicos,
respondem por 37% das instituições pesquisadas. As universidades tidas como intenational
actors, que possuem atividades internacionais para seus estudantes, mas não possuem uma
estratégia de internacionalização definida, são 11% da amostragem. Já as universidades com
atividades e estratégias de internacionalização compõem o grupo das international winners,
representando 37% das universidades britânicas. Os autores afirmam que 52% das instituição
pesquisadas corroboram as suas estratégias declaradas e seus esforços efetivos em relação a
internacionalização.
Pimenta e Duarte (2007) relataram o processo de internacionalização de uma escola de
negócios, a Fundação Dom Cabral (FDC), procurando identificar os motivos do processo e o
nível de realização de atividades em termos de mudanças organizacionais, inovação
curricular, desenvolvimento da equipe e mobilidade de estudantes. A coleta de dados foi feita
através da análise de relatórios de atividades da FDC, de documentos sobre a
internacionalização da instituição, da análise de acordos internacionais, através de entrevistas
com profissionais envolvidos com o processo de internacionalização da instituição. O modelo
proposto por Rudzki (1998) é abordado no estudo para discutir a internacionalização da FDC.
Este modelo diferencia quatro tipos de internacionalização de IES: proativa, reativa, oculta e a
ausência deliberada de internacionalização; e também são identificados quatro tipos de ações
que constituem o processo de internacionalização: a mudança organizacional, a inovação
curricular, o desenvolvimento da equipe, e a mobilidade estudantil. Os resultados indicam que
o ambiente externo não favorece o processo, devido a problemas relacionados com a imagem
internacional do Brasil e a baixa utilização do português como idioma internacional. O
tamanho do mercado doméstico e sua exploração lucrativa explicam a falta de motivos para a
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instituição se internacionalizar. Na esfera interna, os autores encontraram um clima favorável
para a internacionalização da escola, sem resistências, com obstáculos identificados, e com
forte liderança por parte do presidente da instituição. A tipologia do processo de
internacionalização caracteriza o que Rudzki (1998) classificou como internacionalização
proativa, ou seja, a internacionalização ocorre através de atividades planejadas, e não
acontecimentos ocasionais. Já conforme as ações previstas por Rudzki (1998), os autores
consideram a mudança organizacional como a de resultados mais visíveis no processo, tal que
as alianças com escolas no exterior possibilitaram a vinculação da imagem da FDC com
entidades de renome no exterior. Internamente, a instituição montou uma estrutura voltada a
sua internacionalização. No quesito de inovação curricular, de desenvolvimento da equipe, e
da mobilidade estudantil, os autores percebem avanços, mas citam ainda alguns problemas a
seres superados, problemas esses ligados mais à ordem financeira, nos dois primeiros, e à
recepção de estrangeiros, no caso do último.
Através da leitura desses estudos, é possível absorver alguns aspectos para definir o
grau de internacionalização de uma IES, como a necessidade de parcerias e convênios com
instituição de outros países, o intercâmbio de alunos e professores, a oferta de disciplinas em
língua estrangeira, o ensino de idiomas, a orientação da própria instituição e o ambiente onde
ela está inserida.
3 Material e Métodos
A pesquisa de caráter qualitativo foi conduzida por entrevistas através de um
questionário semi-estruturado, aonde foram ouvidas pessoas envolvidas diretamente com o
processo de internacionalização da FURB, no caso o coordenador de relações internacionais,
seus dois antecessores, e sua assessora. A estrutura do questionário foi contemplada a abordar
os principais parâmetros avaliados na hora de classificar a internacionalização de uma IES,
que seriam:
- parcerias internacionais;
- mobilidade docente e discente;
- internacionalização da grade curricular;
- ensino de idiomas;
- motivações internas.
O método escolhido de estudo de caso é considerado por Yin (2001) como o método
adequado para se estudar fenômenos contemporâneos dentro do contexto de vida real.
4 A Universidade Regional de Blumenau
As atividades foram iniciadas em 1964, fundada como Faculdade de Ciências
Econômicas de Blumenau (FACEB), foi a primeira IES do interior de Santa Catarina. Foi
instituída em 1967 a Fundação Universitária de Blumenau (FUB), criando-se, na mesma
ocasião, as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, e de Ciências Jurídicas. Posterior a este
ato, foi estabelecida uma sede própria para a fundação, inaugurada em 1969. A Faculdade de
Engenharia é criada em 1972, e a Faculdade de Educação Física e Desportos em 1974.
O título de Universidade é obtido em 1986, passando a denominar-se Fundação
Universidade Regional de Blumenau, ou seja, FURB. Os cursos de Ciências da Saúde
iniciaram-se em 1990 com o curso de medicina. Em 1991 foi iniciado o primeiro programa de
mestrado de instituição. A partir de 1995, a Universidade Regional de Blumenau é
reconhecida como uma IES criada e mantida pela Fundação Universidade Regional de
Blumenau.
A FURB é um órgão autônomo na estrutura administrativa do Poder Executivo
Municipal de direito público. Conforme seus Estatutos e Regimento Geral, possui autonomia
didático-científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial.
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Atualmente, a FURB possui 39 cursos de graduação em todas as áreas do
conhecimento, oito programas de pós-graduação strictu sensu, um programa de doutorado, e
101 cursos de pós-graduação latu sensu, sendo oito desses ministrados a distância. Além
disso, a instituição mantém uma escola de ensino médio, e realiza também cursos seqüencias
e treinamentos. Suas aulas são ministradas em oito campi nas cidades de Blumenau e Gaspar,
e possui cerca de 13 mil alunos matriculados em seus cursos. Em 2008, a instituição aprovou
seu primeiro programa de doutorado.
5 Resultados
A Assessoria de Relações Internacionais da FURB foi criada em 1998. Anterior a isto,
a instituição já exercia esforços no sentido de se internacionalizar. Alguns convênios já
haviam sido estabelecidos por departamentos isolados dentro da universidade. A partir de
1995, por iniciativa da própria instituição, intensificou-se a busca por parcerias. Neste
momento, as primeiras parcerias foram firmadas com IES da Argentina e de Portugal.
Atualmente, a FURB possui convênio de cooperação com 43 IES de outros países. Deste
montante, 23 instituições são européias, representando a maioria da origem geográfica destas
parcerias. A Alemanha é o país com que a FURB mantém o maior número de parcerias, sendo
seis no total. O número de parcerias em Portugal totaliza cinco, na Espanha quatro e na
França três. A América Latina é outra região que concentra um grande número de convênios
de instituição, são 14 ao todo, sendo que oito são originários do Mercosul, cinco deles da
Argentina. No restante, a FURB possui dois convênios com IES dos EUA, e um convênio no
Canadá, um em Angola, um em Moçambique, e um em Macau, na China. O principal motivo
que influencia a formalização de parcerias internacionais é o relacionamento previamente
estabelecido principalmente por professores com IES do exterior. Fatores menos
preponderantes na busca por parcerias são a herança cultural da cidade de Blumenau e algum
tipo de conhecimento específico da IES ou de seu país de origem.
Entre 2006 e 2008, o número de alunos da FURB participantes de intercâmbio por
meio de acordos de cooperação é de 46, e os incentivos que instituição oferece para seus
alunos estudarem no exterior consistem na garantia da equivalência dos créditos cursados no
exterior, desde que haja um acordo entre os cursos envolvidos, e os incentivos financeiros são
a isenção de mensalidades e uma oferta limitada de bolsas de estudos com recursos de
parcerias. Já quanto ao número de alunos estrangeiros recebidos neste período é maior, são 71
no total, sendo que apenas 21 são originários de instituições conveniadas, quatro são free
movers (estudantes estrangeiros regularmente matriculados na instituição, sem nenhum tipo
de acordo), e o restante deles são provenientes de outros convênios e programas,
especialmente 25 alunos angolanos vieram por meio de um acordo entra a FURB e a uma
empresa de seu país de origem. As facilidades ofertadas pela instituição a esses alunos
incluem assessoria para obtenção de visto e para encontrar acomodação, bolsas de estudo com
financiamento de parceiros (apesar de a quantia ser limitada), gratuidade do curso de
português para estrangeiros, que é ofertado pelo laboratório de línguas da instituição, além de
serviços referentes à recepção, integração, e acompanhamento direto. Sobre a vida no campus
desses alunos provenientes de outros países, a adaptação e a recepção têm sido boa. O único
problema registrado neste sentido foi mais relacionado com a má vontade de um aluno
intercambista.
A melhoria na formação acadêmica e profissional dos alunos da FURB é entendida
como o maior benefício advindo deste processo de internacionalização. Em menor proporção,
a melhoria na formação do quadro docente e o aumento de prestígio, principalmente nacional,
também são vantagens resultantes da formulação de convênios internacionais. Melhoras na
produção científica e na qualidade de ensino também são consideradas, mas nenhum tipo de
aumento de demanda ou de renda gerado pelo processo de internacionalização.
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Quanto à mobilidade docente, apenas um professor da FURB está lecionando em uma
instituição do exterior, mas são 26 professores não-brasileiros lecionando em seu quadro.
Porém, nenhuma disciplina ofertada regularmente pela grade curricular tem seu conteúdo
ministrado predominantemente em língua estrangeira, com exceção daquelas voltadas ao
ensino de um idioma, como ocorre na grade de alguns cursos.
O laboratório de línguas oferece cursos de idiomas tradicionais, como inglês,
espanhol, alemão, italiano e francês, além do mandarim, como conseqüência da rápida
propagação deste idioma no mundo dos negócios, e também português para estrangeiros.
Além destes, são oferecidos 14 cursos especiais de língua estrangeira, como preparatório para
exames e idiomas para ocasiões específicas.
Quanto aos aspectos que atraem a atenção de parceiras no exterior, se destacam
principalmente os projetos de pesquisa entre professores da FURB com professores de IES
estrangeiras, que iniciam o relacionamento que predominantemente culmina em acordos de
cooperação entre suas instituições de origem. Outros fatores considerados a qualidade de vida
da cidade/região em que a FURB está inserida, pois Santa Catarina é o estado brasileiro com o
segundo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), e Blumenau possui o quinto maior IDH
do estado, vigésimo a nível nacional, além dos esforços da própria instituição em se
internacionalizar. Já no tocante aos obstáculos, os principais problemas se referem ao idioma,
no caso o português, e a baixa fluência em inglês da população brasileira, e também alguns
problemas estruturais referentes ao regimento da instituição, como a dificuldade em adequar o
processo de matrícula com a legislação brasileira e o regime de trabalho dos professores,
predominantemente horista, que dificulta a implementação de alguns cursos interdisciplinares,
como o ensino de alguma língua estrangeira. Outros fatores se referem à atratividade da
cidade/região da instituição, como dificuldades com acomodação e escassas opções de cultura
e lazer, e a baixa oferta de cursos de língua estrangeira e de programas de mestrado de
doutorado.
No que se refere a atual administração, a internacionalização da FURB é considerada
uma prioridade, estando exposta entre as diretrizes desta gestão. Entretanto, existem
dificuldades internas não por resistência de demais setores, mas sim por uma aparente falta de
familiaridade ou conscientização deste processo. Os próximos passos almejados consistem
principalmente em aumentar os fluxos de alunos estudando no exterior e de alunos
estrangeiros no campus. Outros objetivos consistem em firmar novas parcerias, aumentar a
mobilidade docente, instituir disciplinas ministradas em algum idioma estrangeiro na grade
dos cursos, desenvolver a estrutura da Assessoria de Relações Internacionais, e incentivar a
cooperação na área de pesquisa internacional.
5.2 Discussão
O primeiro fato emergente da análise dos resultados aponta para a preponderância das
redes de relacionamento no processo de internacionalização de um IES. O relacionamento
entre os professores da FURB e os professores de instituições estrangeiras são os principais
aspectos observados na concretização de uma parceria e também o ponto que mais atrai a
atenção de IES do exterior para fechar convênios com a FURB. O surgimento de algum
acordo de cooperação sem a influência da network de algum professor do quadro é muito
difícil, e conforme a Teoria das Redes de Relacionamento, a gigante cadeia de
relacionamentos em que acordo de cooperação internacional.
Ainda sob o prisma da Escola Nórdica, a internacionalização de uma IES também
apresenta certo padrão de gradualismo, pelo menos na preferência por acordos com países
menor distância psíquica para o Brasil. Dos 43 acordos de cooperação da FURB, oito são com
países que falam o português, e 17 com países que possuem o espanhol como idioma oficial,
uma língua extremamente próxima do português. Isto se torna mais evidente se levarmos em
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conta que todos os convênios provenientes da África e Ásia (lugares culturalmente e
geograficamente, este último no caso da Ásia, mais distantes que Europa e América) são
todos em localidades colonizadas por portugueses. Todavia, os acordos de países que
possuem o espanhol como idioma oficial representam uma quantia maior que os que falam
português. Isto se deve pelo fato do idioma espanhol, além de ser mais propagado que o
português, ser o idioma predominante na América Latina, ou seja, nos países vizinhos ao
Brasil, onde a FURB possui um número considerável de convênios. Não obstante, a
Alemanha é o país aonde se localizam o maior número de parcerias, seis no total. Embora
Brasil e Alemanha não sejam tão próximos na questão cultural, é bom salientar que a região
de Blumenau é nacionalmente reconhecida como um lugar de forte cultura germânica, devido
à colonização de imigrantes alemães nos séculos XIX e XX, e essa identidade germânica tem
sido mantida pelo município até nos dias atuais. Portanto, pode-se ratificar o papel da cultura
local na formulação de convênios entre uma universidade e IES estrangeiras, desempenhando
o fator da vantagem de localização, dentro do que prevê o Paradigma Eclético e a Teoria da
Internalização. O grupo das vantagens de propriedade beneficia a FURB tendo em vista que
os entrevistados entendem, de modo geral, que há uma melhoria na produção científica e na
formação dos alunos envolvidos em intercâmbio acadêmico, e que o conhecimento específico
de uma IES ou de seu país de origem influenciam a busca por parcerias, embora em menor
proporção que os relacionamentos previamente estabelecidos entre professores.
O comportamento da FURB perante seu processo de internacionalização pode ser
classificado de proativo dentro das abordagens previstas por Rudzki (1998), pois a instituição
possui políticas e estratégias explicitamente voltadas para a internacionalização, e esforços
têm sido feito neste sentido. Porém, não seria correto classificá-la dentro do que Ayoubi e
Massoud classificam como international winners pelo fato de, por enquanto, apenas um entre
os quatro grupos de ações previstos por Rudzki (1998) ter sido contemplado pela
internacionalização da instituição, a mobilidade estudantil. Embora este quesito tenha se
intensificado, os demais grupos, que consistem em mudança organizacional, inovação
curricular e desenvolvimento da equipe, não obtiveram ações que viessem a impactar de
forma significante, considerando que algumas dificuldades estruturais são perceptíveis, e,
decorrente em partes disso, há dificuldade em adequar grades curriculares. Porém é bom
salientar que entre os próximos objetivos para a internacionalização da FURB constam itens
que contemplam ações para estes grupos, como a instituição de disciplinas curriculares em
língua estrangeira e o desenvolvimento da Assessoria de Relações Internacionais.
6 Conclusão
Esta pesquisa revelou alguns aspectos da Teoria Clássica de Negócios Internacionais
que podem ser identificados no caso da internacionalização de uma IES. A proporção da
importância das redes de relacionamento na internacionalização da FURB fica evidente,
sendo este o fator de maior determinância na formalização de acordos internacionais de
cooperação, e fatores de localização, como língua e cultura, aproximam instituições
estrangeiras.
Embora esforços tenham sido feitos para internacionalizar a FURB, seu sucesso no
processo se refere basicamente ao intercâmbio entre alunos. Para a instituição alcançar níveis
mais significativos de internacionalização, há necessidade adaptar sua estrutura para facilitar
sua inserção internacional e instituir cursos e disciplinas voltadas para a educação
internacional. A concretização dos objetivos almejados pela instituição deverá modificar esta
posição, evidenciando a FURB como uma universidade internacionalizada de fato.
Este trabalho contribui para formação do conhecimento acerca da internacionalização
de uma IES brasileira, e para comparar o seu processo com o de uma empresa regular.
Sugestão futura de pesquisa consiste em realizar uma pesquisa a nível nacional para verificar
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o quadro atual de internacionalização das IES brasileiras e o quanto o caso da FURB se
assemelha ao cenário brasileiro.
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172 EPA - A Internacionalização do Ensino Superior: o caso