Núcleo de Conjuntura e Estudos Econômicos Boletim nº 73 – Janeiro/Março 2010 www.fclar.unesp.br/eco/ncee - [email protected] Internacionalização de Empresas Brasileiras Thiago Santana Carvalho1 Após a abertura econômica, na década de 1990, as empresas brasileiras intensificaram o processo de expansão de suas atividades para outros países, tema que será abordado neste artigo. Existe uma certa dúvida em torno do conceito de internacionalização já que muitos autores consideram o simples intercâmbio comercial (exportação e importação) como uma forma de internacionalização. Segundo Chesnais (1994) existem três modalidades de internacionalização: intercâmbio comercial, investimento produtivo no exterior e os fluxos de capital financeiro. Neste artigo daremos ênfase à segunda modalidade, ou seja, empresas brasileiras que possuem unidades produtivas no exterior.2 O processo histórico de internacionalização de empresas brasileiras pode ser dividido em três fases. A primeira fase de investimentos no exterior, entre 1960 e 1982, foi concentrado na Petrobras, em instituições financeiras – as quais poucas obtiveram sucesso – e em empresas de engenharia e construção, as quais devido à paralisação dos investimentos públicos em grandes obras (Itaipu, Tucuruí e Carajás), buscavam a sobrevivência no exterior. A segunda fase, entre 1983 e 1992, teve apenas US$ 2,5 bilhões investidos no exterior concentrados nos últimos três anos do período. A terceira fase, de 1993 até os dias atuais, se caracteriza por forte crescimento do investimento direto no exterior, principalmente nos países do Mercosul. Em 1995/6 a média anual de investimento brasileiro no exterior que era de US$ 1,3 bilhão atingiu US$ 3 bilhões em 1998. Em 2004, esse valor foi de US$ 9,5 bilhões, aumento que pode ser atribuído à compra da Interbrew pela Ambev e ao aumento de empréstimos de companhias brasileiras concedidos às suas afiliadas no exterior. (IGLESIAS e VEIGA, 2002; RICUPERO e BARRETO, 2007). 1 Aluno de Graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Campus de Araraquara. [email protected]. Pesquisador do Núcleo de Conjuntura e Estudos Econômicos (NCEE). 2 Serão consideradas empresas que possuem escritórios comercias no exterior, instalações produtivas obtidas através de fusão, aquisição de empresas em funcionamento, associações do tipo joint ventures ou greenfield. Núcleo de Conjuntura e Estudos Econômicos Boletim nº 73 – Janeiro/Março 2010 www.fclar.unesp.br/eco/ncee - [email protected] O forte crescimento do investimento direto no exterior pode ser comprovado pelas últimas aquisições feitas por empresas brasileiras. Em 2006, a Vale comprou a mineradora canadense Inco por US$ 18 bilhões, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) realizou a fusão de suas operações no Estados Unidos com a siderúrgica WheelingPittsburgh. Em 2007, a Gerdau gastou US$ 6,3 bilhões (o maior valor desde o início de sua internacionalização na década de 80) na aquisição de doze empresas, entre elas a americana Quanex (Macsteel), segunda maior fornecedora de aços longos para a indústria automobilística dos Estados Unidos, por US$ 1,6 bilhão, e a Chaparral Steel, segunda maior produtora de aço da América do Norte, por US$ 4,22 bilhões. Cyrino e Penido (2007) acreditam que as multinacionais brasileiras são entrantes tardias no mercado internacional e isso explica o seu número reduzido. Mas, apesar de reduzido a tendência é de crescimento. Segundo a Fundação Dom Cabral havia trinta e duas multinacionais brasileiras em 2008, enquanto que em 2006 eram vinte e quatro. Entre 2006 e 2008 as multinacionais brasileiras investiram US$ 36,5 bilhões nos Estados Unidos, na América Latina, na Europa e na Ásia, valor que supera o acumulado dos doze anos anteriores. No ranking das 100 empresas de países em desenvolvimento que podem enfrentar os grandes líderes globais, elaborado pelo Boston Consulting Group, o Brasil aparece com quatorze empresas, enquanto que a China possui trinta e seis e a Índia com vinte. Abaixo estão listadas as empresas presentes no ranking de 2009 e logo após é feita uma breve exposição do histórico do processo de internacionalização de três empresas brasileiras: a Vale, a WEG e o Grupo Camargo Corrêa. Empresas Brasileiras Presentes no Ranking Coteminas Embraer Gerdau Grupo Camargo Corrêa Grupo Odebrecht Grupo Votorantim JBS-Friboi Marcopolo Núcleo de Conjuntura e Estudos Econômicos Boletim nº 73 – Janeiro/Março 2010 www.fclar.unesp.br/eco/ncee - [email protected] Natura Perdigão Petrobras Sadia Vale WEG Fonte: Boston Consulting Group A Vale, fundada em 1942 sob controle estatal, teve seu processo de internacionalização intensificado após a sua privatização em 1997. A partir da internacionalização, a Vale promoveu a diversificação de mercados e ampliou o seu portfolio de produtos, antes restrito ao minério de ferro e manganês, com a inclusão do níquel e do carvão. Atualmente, está presente nos cinco continentes através de operações produtivas, pesquisa mineral e escritórios comerciais, tornando-se a segunda maior mineradora do mundo. A WEG, fundada em 1961, atua em mais de cem países, é a maior produtora de motores elétricos da América Latina e uma das maiores do mundo. Possui oito unidades produtivas no Brasil, três na Argentina, duas no México, uma na China e uma em Portugal, além de manter firmas controladas responsáveis pela comercialização e distribuição de seus produtos em outros quatorze países. (ALMEIDA, 2007). O Grupo Camargo Corrêa foi fundado em 1939 tendo suas operações restritas ao ramo da construção. Após participar da construção de grandes obras nacionais, como a Ponte Rio-Niterói, a Rodovia Transamazônica e o trecho norte-sul do metrô de São Paulo, a Camargo Corrêa inicia suas operações internacionais com a construção da Usina de Guri na Venezuela, em 1978. Atualmente, atua em vinte países e está estruturada nos setores de engenharia e construção; cimentos; calçados, têxteis e siderurgia; concessões; e incorporação, meio ambiente e corporativa. Quanto aos resultados do Investimento Direto no Exterior efetuado pelo Brasil, o clima é de incerteza em relação a 2009. Segundo a Fundação Dom Cabral as empresas devem consolidar as suas operações em 2009 para retomar os investimentos em 2010 e em 2011. No primeiro semestre de 2009 apenas doze operações de compra de ativos internacionais foram feitas, enquanto que durante todo o ano de 2008 sessenta operações foram realizadas. Núcleo de Conjuntura e Estudos Econômicos Boletim nº 73 – Janeiro/Março 2010 www.fclar.unesp.br/eco/ncee - [email protected] Referências Bibliográficas ALMEIDA, A. A importância do investimento direto estrangeiro do Brasil no exterior para o desenvolvimento socioeconômico do país. In: ALMEIDA, A. (Org.). Internacionalização de Empresas Brasileiras. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. CAMARGO CORRÊA S.A. Disponível em: www.camargocorrea.com.br Acesso em: 09/11/2009. CHESNAIS, F. A Mundialização do Capital. Tradução Silvana Finzi Foá. São Paulo: Xamã, 1996. CYRINO, A.B.; PENIDO, E. Benefícios, riscos e resultados do processo de internacionalização das empresas brasileiras. In: ALMEIDA, A. (Org.). Internacionalização de Empresas Brasileiras. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. IGLESIAS, R.M.; VEIGA, P.M. Promoção de exportação via internacionalização das firmas de capital brasileiro. In: O desafio das exportações, Rio de Janeiro: BNDES, 2002. RICUPERO, R.; BARRETO, F.M. 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