internacionalização de empresas brasileiras
Internacionalização
de empresas brasileiras:
em busca da competitividade
Luis Afonso Lima
Pedro Augusto Godeguez da Silva
Não é novidade que há anos
existe uma clara tendência
de direcionamento dos fluxos
de Investimento Estrangeiro
Direto (IED) para economias em
desenvolvimento. De fato, em
1980 os países desenvolvidos
eram destino de 86% dos fluxos
globais de IED; já em 2010,
esse percentual reduziu-se para
48%. Ou seja, economias em
desenvolvimento são, desde
2010, o destino de mais da
metade dos fluxos globais de
IED.
O que pouco se discute,
entretanto, é que a mesma
tendência favorável aos países
em desenvolvimento também
existe no que se refere à
origem dos fluxos globais de
IED. Nos últimos 30 anos os
fluxos originados em países
desenvolvidos passaram de
94% para 71% dos fluxos
globais de IED. Mantida a atual
velocidade de desconcentração
dos fluxos de IED por origem,
em 2017, empresas de
economias em desenvolvimento
deverão ultrapassar economias
desenvolvidas como fonte de
IED.
O Brasil não constitui exceção em
meio a esses dois movimentos
de redirecionamento dos fluxos
globais de IED em favor de
economias em desenvolvimento.
Em termos de destino dos
fluxos, os ingressos de IED no
Brasil alcançaram 5,4% do total,
a maior taxa já observada, de
acordo com os últimos dados
disponíveis da OCDE. Em
termos de origem, por sua vez,
também é possível dizer que um
Luis Afonso Lima é presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas
Transnacionais e da Globalização (Sobeet) ([email protected]).
Pedro Augusto Godeguez da Silva é economista e pesquisador da Sobeet (pedro@
sobeet.org.br).
22 RBCE - 109
crescente número de empresas
brasileiras busca expandir suas
atividades no exterior.
O objetivo deste artigo
é apresentar algumas
características desse movimento
de internacionalização das
empresas brasileiras nos últimos
anos. Busca-se compreender
as motivações para a
internacionalização,
as intenções de investimento,
as formas de atuação no
exterior e, por fim, as barreiras
e entraves à internacionalização
no país e no exterior.
Nessa tentativa de lançar
luzes sobre a compreensão do
movimento de internacionalização
das empresas brasileiras,
serão apresentados alguns
dos resultados obtidos pela
pesquisa de Multinacionais
Brasileiras realizada pela
Sociedade Brasileira de Estudos
de Empresas Transnacionais
e da Globalização Econômica
(Sobeet) em parceria com o
jornal “Valor Econômico” nos
anos de 2009, 2010 e 2011.
Fez-se a opção metodológica
de enviar questionário eletrônico
a um universo de 150 a 200
empresas brasileiras com
presença no exterior. Como
critério de seleção, foi obedecido
o critério estabelecido pelo Banco
Central do Brasil de selecionar
empresas com mais de 10% do
capital de filiais e investimento
no exterior superior a US$ 10
milhões.
O questionário enviado foi dividido
em duas partes. Na primeira parte,
de cunho quantitativo, o intuito
foi a elaboração de um ranking
de índices de internacionalização
estimados de acordo com a
metodologia da United Nations
Conference on Trade and
Development (UNCTAD).
Esse índice de internacionalização
considera a média entre as
proporções de ativos, funcionários
e receitas no exterior em relação
aos seus respectivos totais.
A segunda parte do questionário,
que será a utilizada neste artigo,
possui informações qualitativas
referentes a motivações,
intenções, formas e barreiras
à internacionalização. Espera-se,
assim, obter indícios que auxiliem
na compreensão do movimento
de internacionalização das
empresas brasileiras. A seguir
apresentamos os principais
resultados obtidos com essa
pesquisa qualitativa.
internacionalizar, as empresas
pesquisadas apontam para
a busca da competitividade
internacional. Na comparação
entre as respostas de 2011 e de
anos anteriores, é interessante
observar a queda da importância
da demanda mundial nos
motivos de internacionalização.
O cenário internacional instável e
a desaceleração do crescimento
das economias centrais, entre
outros fatores, justificam a
redução do percentual dessa
resposta.
Em relação aos fatores de maior
importância para a escolha da
localização da empresa em
mercados internacionais, as
três respostas mais frequentes
atribuem importância à
dimensão e ao crescimento do
mercado local, bem como ao
acesso a terceiros mercados.
Esses fatores, associados
ao fato de que alternativas
relacionadas à produção, como
a disponibilidade de mão de
obra, a busca por cadeias de
MOTIVAÇÕES PARA A
INTERNACIONALIZAÇÃO
Quando questionadas a respeito
dos motivos que as levaram a se
GRÁFICO 1
QUAIS OS PRINCIPAIS MOTIVOS QUE LEVARAM
SUA EMPRESA A SE INTERNACIONALIZAR?
2011
27.1
2010
2009
25.9 26.3
19.5
17.6
17.5
13.7 14.0
15.2 15.1
13.3
14.0
13.1
11,4
8.8
8.8
9.8 9.8
5.3
3.6
3.5
2.0
Compevidade Redução da
internacional dependência do
da empresa mercado interno
Busca de Demanda mundial Estabelecer
Acompanhar
economias de
plataformas de concorrentes/
escala
exportação em
clientes em
outros países
mercados
internacionais
1.0
1.8
0.0
Saturação do Incenvos fiscais
mercado interno
brasileiro
1.0 1.0
Outro
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
RBCE - 109
23
Mantida a atual
velocidade de
desconcentração
dos fluxos de IED
por origem, em 2017,
empresas de economias
em desenvolvimento
deverão ultrapassar
economias
desenvolvidas como
fonte desse tipo de
investimento
produção e o ambiente estável
para o investimento, terem
sido menos frequentes, podem
indicar uma característica
de market-seeking projects,
como sugerem as respostas
apresentadas no gráfico abaixo.
INTENÇÃO DE
INTERNACIONALIZAÇÃO
A desaceleração da economia
mundial ao longo de 2011
vem afetando os fluxos de
investimentos diretos no mundo.
Os últimos dados divulgados
pela Unctad confirmaram
os efeitos da crise. Diante
do cenário de retração da
demanda, as empresas
tiveram de adotar estratégias
diferenciadas.
Nesse contexto, ao
serem questionadas a
respeito das intenções de
investimentos voltados para
internacionalização, as
respostas mais frequentes
foram “a manutenção do mesmo
nível de investimento”, com
mais de 46% das respostas
nos dois últimos anos
pesquisados, e “o aumento
de até 30% dos investimentos
em internacionalização”.
Interessante observar que
a somatória de respostas
referentes à redução de
investimentos reduziu-se em
relação a anos anteriores.
É verdade que, no momento
em que os questionários
foram respondidos, o primeiro
semestre de 2011, ainda não se
contava com a deterioração do
cenário econômico observado
no segundo semestre do ano.
De qualquer modo, vale registrar
que os fluxos de investimentos
diretos de empresas brasileiras
para o exterior cada vez
mais denotam um movimento
estratégico de longo prazo.
Nesse sentido, momentos
adversos podem fazer adiar
a expansão de determinadas
atividades no exterior, mas não
as interromper definitivamente.
GRÁFICO 2
QUAIS AS PRINCIPAIS FORMAS DE ATUAÇÃO
DA SUA EMPRESA NOS MERCADOS INTERNACIONAIS?
2011
33.6
32.7
2010
2009
32.1
30.2
21.4
28.9
22.0
19.5
17.9
16.2
12.8
14.3
8.9
5.4
1.4
Instalação de unidades de Exportação por meio da Aquisição de empresas
produção / serviços próprios instalação de escritórios
estrangeiras para
no exterior
próprios voltados à
produzir /ofertar
comercialização no exterior serviços no exterior
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
24 RBCE - 109
Exportação por meio de
licenciamento de
destribuidores /
representantes
estrangeiros
1.3
Outra
0.0
1.3
Exportação por meio de
terceiros
GRÁFICO 3
QUAIS OS FATORES MAIS IMPORTANTES QUE INFLUENCIAM A
LOCALIZAÇÃO DE SUA EMPRESA NO EXTERIOR?
2011
2010
2009
41.1
35.7
31.3 31.9
28.5
25.1
16.3
17.8
11.7
9.2
9.1
7.1
8.9
6.1
4.8 4.6
3.6
3.6
1.7 1.8
Tamanho do mercado
Acesso a mercados
internacionais e/ou
regionais
Crescimento do
mercado local
Ambiente estável Busca por cadeias de
para o invesmento produão globais
Disponibilidade de mão
de obra
Outro
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
ou de apoio às exportações. Por
outro lado, a forma de atuação
no mercado internacional por
meio da aquisição de empresas
estrangeiras aponta para a
internalização de imperfeições
do mercado ou mesmo para
o aproveitamento das novas
oportunidades nos negócios
internacionais. Comparando
os dados obtidos entre 2009 e
2011, podemos observar que
FORMAS DE
INTERNACIONALIZAÇÃO
Questionadas sobre as formas de
atuação no exterior, as empresas
brasileiras internacionalizadas
indicaram que a principal
forma de comprometimento
no mercado internacional é
por meio da instalação de
unidades próprias, sejam elas de
produção/prestação de serviços
GRÁFICO 4
QUAIS AS PRINCIPAIS FORMAS DE FINANCIAMENTO DAS ATIVIDADES
DE SUA EMPRESA NO EXTERIOR?
2011
2010
2009
70.9
57.6
50.1
23.8
17.0
13.8
9.1
11.9
9.5
5.5
13.0
7.3
7.3
O.5
Capital próprio
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
Dívidas no exterior
BNDES
Banco no exterior
2.9
Outra
a única alternativa significativa
que apresentou queda foi a de
atuação por meio de exportações
com licenciamentos ou
representantes. Se associarmos
a esse fator a tendência de
crescimento da atuação por
meio de instalações próprias,
que saltou de 21,4% em
2009 para 33,6% em 2011,
podemos reforçar a ideia
de aprofundamento gradual
da internacionalização das
empresas brasileiras. Isso reforça
a nossa percepção de que os
fluxos de investimentos diretos
de empresas brasileiras para o
exterior cada vez mais denotam
um movimento estratégico de
longo prazo.
Em relação às formas de
financiamento das operações
internacionais, a alternativa mais
comum foi a de financiamento
por meio de capital próprio,
registrando mais de 50% das
respostas nos últimos três anos.
Entre as formas alternativas de
financiamento estão as dívidas
no exterior, empréstimos de
bancos no exterior e as linhas
de financiamento do BNDES.
As respostas colhidas nos
levantamentos realizados
indicam que a maior parte
das empresas continua ainda
dependente de seus próprios
recursos para o financiamento
de suas atividades no exterior.
Entre outros fatores, esse
resultado pode refletir que,
a despeito do volume de
recursos disponibilizados pelo
BNDES para atividades de
internacionalização, estes estão
disponíveis ainda para um
reduzido número de empresas
de grande porte.
RBCE - 109
25
GRÁFICO 5
QUAIS AS PRINCIPAIS BARREIRAS INTERNAS PARA SUA EMPRESA SE INTERNACIONALIZAR?
2011
2010
2009
23.6
19.2 18.8
17.4
13.8
14.4
12.7
11.4 11.6 10.9
10.9
10.8
9.1
9.6
9.1
8.4
7.2
8.4
7.8
9.1
7.3
7.2
6.1
6.0
6.7
5.5
5.1
4.8
2.8
1.5
Elevada carga Concorrência
tributária no com projetos
Brasil
no Brasil
Custo do
crédito no
Brasil
Custos
elevados de
logísca
Flutuação da Falta de apoio
moeda
governamental
brasileira
Falta de
pessoal com
competências
necessárias
1.8
1.2
Baixas
Falta de
Dificuldade de
acesso a canais economias de conhecimento
de distribuição
escala,
sobre os mercados
potenciais
nos mercados tornando os
internacionais
custos de
produção
elevados em
relação aos
concorrentes
internacionais
Outra
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
GRÁFICO 6
QUAIS AS PRINCIPAIS BARREIRAS EXTERNAS PARA SUA EMPRESA SE INTERNACIONALIZAR?
2011
2010
2009
31.2 31.5
25.0
16.9
16.7
16.7
14.2
10.1
9.1 9.7
9.2
7.4
6.2
5.6 6.1
5.1 5.6
5.4
Fonte: MDIC, FIESP
Elaboração: Derex / FIESP
26 RBCE - 109
e
sd
de
ld
a
cu
Di
fi
as
1.9
3.1 3.6 3.7
0.2 0.2
ca
p
no taç
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Pr
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o
gis
laç
ão
de
pa
te
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r
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l
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n
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Di
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Am
pe Dific
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s
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pa
so
e
nt
e
bi
io
ór
lat
u
eg
s
do
da
em Alta
m co
er m
ca pe
do s m vi
ad dad
ur e
os
1.9
0.0
1.4
tra
9.2
Ou
14.3 14.8 14.3
BARREIRAS À
INTERNACIONALIZAÇÃO
As respostas sobre as barreiras
internas à internacionalização
foram heterogêneas. Entre
os fatores mais citados estão
a elevada carga tributária
brasileira, a flutuação do real e
a concorrência com projetos no
Brasil, que pode ser justificada
pelo grande mercado interno que
tem se mostrado aquecido. Além
disso, foi citado o custo do crédito
no Brasil, fator que contribui
com a opção de financiar a
internacionalização por meio de
capital próprio. A despeito dessa
heterogeneidade, vale notar que
a principal barreira apontada em
2011 para a internacionalização
de empresas foi a elevada
carga tributária, com 19,2%
das respostas. Vale notar que
essa barreira vem ganhando
relevância nos últimos anos.
A principal barreira externa
indicada pelas empresas
brasileiras no exterior foi a de
enfrentar a alta competitividade
em mercados maduros. Nesse
sentido, a dificuldade em explorar
as vantagens de propriedade
de maneira a neutralizar as
vantagens das empresas locais
conhecedoras do mercado pode
ser uma hipótese, reforçada
pela segunda resposta mais
frequente, em que as empresas
atribuem ao ambiente regulatório
dos países a sua maior
dificuldade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O investimento brasileiro direto
constitui um fenômeno recente,
que ganhou impulso na segundo
metade da década passada.
Embora esse movimento seja
relativamente recente, as
empresas brasileiras já estão
presentes em 78 países, de
acordo com os últimos dados
disponibilizados pelo Banco
Central. Um dos principais motivos
para a internacionalização, mas
não o único, é a busca por novos
mercados. Outras motivações
contemplam a busca por matériasprimas e o interesse de estar em
mercados com melhor ambiente
de negócio. A internacionalização
de empresas brasileiras pode
ser observada em diferentes
empresas de setores da Indústria,
de Serviços, da Agropecuária e do
Extrativismo Mineral.
A internacionalização de
empresas brasileiras não é
uma panaceia. Entre outros
benefícios, permite estimular
as exportações e aumentar a
competitividade das exportações
brasileiras. Diante disso,
é importante termos uma
estratégia definida quanto
à atuação das empresas
brasileiras na arena global.
Um dos grupos de estratégias,
ou políticas públicas, deveria
contemplar acordos de dupla
tributação. Nesse sentido, a
pesquisa realizada aponta que
as empresas que voltam suas
atividades ao exterior de fato
carecem de acordos de
bitributação. A perspectiva
da dupla tributação é apontada
como uma das principais
barreiras à internacionalização.
Nos últimos 10 anos, o país
assinou apenas um reduzido
número de acordos de
bitributação.
Outro grupo de políticas poderia
contemplar acordos e tratados
de investimento, de modo a
proteger os ativos e interesses
de empresas no exterior. De fato,
já há precedentes de interesses
de empresas brasileiras afetados
no exterior, inclusive na América
Latina. O argumento utilizado
para evitarmos tais acordos,
entre outros, é o de que o Brasil
ainda é mais importador do que
exportador de investimentos
diretos. A lógica desse argumento
é a de que, ao assinarmos
acordos de investimento,
estaríamos mais protegendo
investimentos estrangeiros do
que sendo protegidos. Vale
colocar, entretanto, que isso
já não é mais uma verdade
absoluta para todos os países.
Entre o Brasil e diferentes países
da América Latina, da África e até
mesmo países desenvolvidos,
como o Canadá, há mais
investimentos brasileiros a serem
protegidos do que o contrário.
Talvez a ação ou estratégia mais
necessária, entretanto, esteja
relacionada ao financiamento. O
elevado percentual de empresas
que utiliza recursos próprios
para financiar suas atividades no
exterior fala por si só. É verdade
que o BNDES já vem atuando
nesse sentido por meio de linhas
de financiamento voltadas à
internacionalização de grandes
grupos brasileiros. No entanto,
valeria também que as empresas
de menor porte tivessem
acesso a esses recursos. Em
tempos de crise, as dificuldades
de financiamento tendem a
aumentar, mas oportunidades de
negócios surgem em intensidade
ainda maior. 
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