Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS
ISSN – 2175-4128
Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso
São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014
POESIA E PO-ÉTICA EM JORGE COOPER
Márcio Ferreira da Silva (UFAL-Campus do Sertão)
Jorge Cooper é um poeta de palavra poética fundida na dimensão da própria
palavra. Algumas escolhas semânticas do artista tomam aparentemente o significado
simplório, mas isso é uma armadilha para um leitor desacostumado com esse tipo de
poesia. Na verdade, Cooper provoca todo o tempo a própria poesia, procurando como
um perdido no labirinto uma saída.
Dessa forma, a poesia cooperiana encontra-se no fazer poético e é desse
lugar que o poeta apropria-se da poesia e aos goles compulsivos, como um bêbado,
bebe, sem piedade, a sua vida poética. “Quando bebo / reapareço-me” (COOPER,
2011, p. 165). Desse caminho escolhido, o artista assume beber a poesia; logo o
exercício artístico será em goles compassados, aos poucos, saboreando o líquido da
palavra para sentir-se necessariamente poesia.
Convivendo com a produção cultural do final da primeira e metade da
segunda décadas, do século XX, o autor de Os últimos se digna à busca de uma
poesia lírica que, de forma crescente, “produz voz como silencia” (IVO, 2011, p. 350),
porque o autor se presta a não escutar os ecos do cânone e da crítica literária. Dessa
forma, o vínculo poético que Cooper procura sustentar se desprende dos temas
aparentemente banais para a produção de poemas que quer dialogar com “tudo [que]
ilumina, resume, reduz (GUSMÃO, 2011, p. 352 – Inserção minha).
Essa preocupação não é vã ou aleatória. As décadas que filiam o autor ao
seu tempo impregnam ao homem uma nova cartografia espacial. Desde as Primeira e
Segunda Guerras Mundiais à ditadura de Getúlio Vargas; aos anos de ditatura militar a
partir de 1964 ao fortalecimento da democracia nos anos 80, a poesia ensaiou um
rompimento com os modernistas e buscou, mais tarde, o encontro com a poesia, a
beleza e o valor estéticos, imprimindo, por exemplo, uma poesia de João Cabral de
Melo Neto, em um tempo; de Paulo Leminsk, em outro; e de Manoel de Barros, em
mais outro.
Esse era o tempo de Cooper. Em Alagoas, a cultura da província ainda se
mantinha na tradição e a poesia se mantinha nas rodas intelectuais e acadêmicas.
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Cooper sabia muito bem disso. Não é por acaso que o poeta representa a Maceió sem
saída, encoberta de um sentimento que não se define, sente-se.
Maceió
Ausente
fácil se me afigura
inteiro caber dentro de
Maceió
Mas se nas descidas da vida
o torna-caminho
é Maceió
claro então me volta à memória
o beco sem saída
o jogo de gata-parida
que é
Maceió
para o pobre de Jó
(COOPER, 2011, p. 182)
O poema acima é uma representação da cidade. Maceió é “o beco sem saída
/ o jogo de gata-parida”, cujo eu-lírico impregna a imagem da ausência: “o tornacaminho” de maneira a manter a proposta do tema unicamente nas dobras da vida e
da cidade. Dessa maneira, o poema toma a imagem que se apresenta para o eu-lírico
e a divide entre a “Maceió / para o pobre de Jó”. Esse caminho poético reflete o que
diz Fiúza (2011, p. 17) sobre a obra de Cooper:
A presença de Cooper [...] um signo da continuidade de uma poesia
áspera, enxuta e contundente, livre de penduricalhos mitológicos e
malemolência brejeira, e de uma postura po-ética que dá as costas
(melhor seria uma banana) à oficialidade e à reverência acadêmicas.
Cooper inverte o caminho seguido a finco por muitos poetas de sua geração.
Isso pode ser visto com a poesia produzida em Alagoas entre as décadas de 40 a 70,
cuja intenção recaia sobre a valoração da poesia nos aspectos do Belo artístico. Essa
atitude é uma voz corrente e contrária aos modernistas da primeira fase. O fulcro da
questão não estaria na importância do movimento, mas na busca a um equilíbrio de
beleza à poesia, que andava observando o objeto imediato, sem dar-lhe uma feição
tão exigente ao fazer poético.
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Em Alagoas, por exemplo, o culto ao verso medido e à métrica clássica ainda
regia a produção poética na terra dos Caetés. Desde Sabino Romariz, com seus
sonetos decassílabos de intenção religiosa; a Jorge de Lima, com as primeiras
filiações à escola parnasiana; a Lêdo Ivo, como precursor da Geração de 45 e crítico
ácido aos modernistas de Semana de 22, Cooper lança-se na aventura poética pelo
avesso. Esses contrários, esses avessos podem ser encontrados em seu primeiro livro
Achados, com poemas escritos entre 1945-1950.
Poesia
Ainda hoje
Embora saiba a causa
Amo as tardes que tornam o céu
Rosa em botão
- Que se banhe o sol
Nas nuvens cheias de água
Vejo a verdade enchida de ilusão
(COOPER, 2011, p. 37)
Essa impressão legítima à poesia, que foge aos penduricalhos – no dizer de
Fiúza (2011) – do academicismo pregado à época, coloca o autor de Linha sem traço
diante de uma produção poética inventiva e inovadora para a província alagoana,
sempre dependente das deliberações artística do Sul do País. Dessa maneira, Cooper
garimpa outro cenário: a licença poética que provoca uma dilatação do poema na
ordem do metalirismo; a imagem poética do pai e da cidade de Maceió. Encobertos de
jorros estéticos e filosóficos, os poemas de Cooper se mantem no “ceticismo ou
desconfiança de si e do mundo que lhe afeiçoa as concreções desemboca quase
sempre num niilismo em que não há amargura, salvo como ressaibo de uma
implacável lucidez” (PAES, 2011, p. 361).
O Nada
O nada
é o que resulta da luz
quando se apaga
(COOPER, 2011, p. 257)
Ou,
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O Homem
O homem é chama
que não aquece
nem alumia
Fogo-corredor
a mudar de lugar
noite e dia
(COOPER, 2011, p. 260)
O percurso da forma na poesia cooperiana impõe a medida do poema e não da
estética vigente ou da impregnação acadêmica. O poema curto, a ausência de
pontuação, o imediatismo do discurso poético conduz a maneira pela qual o poeta
provoca o fazer artístico. A poesia para Cooper ultrapassa os liames da ética poética,
porque ele constrói uma ética artística própria, pois, como afirma Paes (2011, p. 364 –
Grifo do Autor), ele é “o mesmo poeta que ao longo da sua vida não se empenhou em
impor sua presença no palco do merchandising literário porque desdenhava ser ator
de si mesmo [...]”.
Autodidaxia
Ninguém me ensinou nada
Aprendi comigo mesmo
- Às cabeçadas
(COOPER, 2011, p. 283)
O poema acima revela um poeta que não está filiado aos moldes das escolas
literárias, portanto ele se revela como autodidata. Essa condição pode traduzir o
percurso de Cooper não apenas no universo literário canônico, mas também na
concepção histórico-filosófica em que ele acreditava. “Eu, como poeta, sou a negação
da minha filosofia de vida. [...] É choradeira de pequeno-burguês” (OITICICA, 2011, p.
379). O que se mostra quando nos debruçamos na obra de Cooper é a percepção
consciente do lugar de sua poesia. Dessa forma, os poemas do autor de Sonho pelo
avesso, publicado nos anos 80 do século XX, apresentam-se com refinamento
poético, pois além de serem curtos, contém o uso constante de travessões e
parênteses, formando uma terceira voz poética, como podemos ver no poema citado
acima Autodidaxia. Marcos de Farias Costa (2011) afirma que esse uso excessivo da
pontuação provoca o estilo cooperniano, que se compraz com elegância à repetição.
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A compreensão desse mundo que se chocou com a realidade e o exercício
primeira do fazer poético, impõe, com firmeza, uma poesia coesa, impregnada de
silêncio. Lêdo Ivo (2011, p. 350) acredita que no que se refere aos poemas de Cooper
“é uma estranha poesia: a poesia de um estranho tornado próximo pelo
desvendamento de sua silenciosa aventura”.
Legado
Lutei e muito
pela vida
E aos quarenta anos
que tenho eu
de meu
- Livros
e a mulher
que a mim se prendeu
Os livros
sabe Deus como chegaram
a meus
Quanto à mulher
foi por amor que a mim se prendeu
Há quem veja nada de algo
nesse tudo que é meu
- Que livros são papel
(dizem)
e mulher
que homem a si quantas não prendeu
- (Mais foi por amor que a minha
a mim se prendeu)
(COOPER, 2011, p. 99)
Legado é um poema que impõe essa independência poética na qual Cooper
sempre se apropriou. De um lado, temos o eu-lírico marcando no tempo sua história.
“E aos quarenta anos”. Essa história não se mostra acumulativa, portanto é preciso
fugir dos processos capitalistas de consumo. Na verdade, é maior o objeto (livro), que
podemos traduzir como conhecimento, algo distante da propriedade. Paralelo ao livro
figura a imagem da mulher: “Livros / e a mulher / que a mim se prendeu”, temos o Ser
e o Amor, lugares demarcados no poema como legado, demarcado no título do
poema. Dessa forma, na segunda estrofe os versos indicam o lugar incerto de
assimilação do conhecimento, pois para o eu-lírico os labirintos da vida são marcados
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na trajetória dos livros; mas “Quanto à mulher / foi por amor que mim se prendeu”,
reforçando o preenchimento do vazio que o mulher/amor possui.
Na quarta estrofe, há versos que indicam o fazer po-ético de Cooper. Com
efeito, os versos “Há quem veja nada de algo / nesse tudo que é meu” ratificam
metaforicamente que há aqueles que não acreditam/não veem nada no seu fazer
poético, mas o poema nos trai diante do lirismo imposto nos versos e no
comprometimento amoroso. Esse falseamento artístico dá ao poema um vestígio de
subjetividade (HEGEL, 1999). Seguramente o poema tem um efeito metalírico, num
sentido dado por Costa (2011) já acima mencionado. “- Que livros são papel / (dizem) /
e mulher / que homem a si quantas não prendeu”.
No exercício da beleza poética, Cooper compreende em sua poesia que o
balanço entre os efeitos do poema e a impressão interpretativa seguramente têm lugar
demarcado na sua produção. Não obstante, ainda no poema Legado, podemos
observar que o verbo prender é o mote para impregnar o poema de musicalidade.
Assim, a construção do fonema [êu] produz os elos entre os versos e são acarretados
de vários Eus (EU, mEU, prendEU – primeira estrofe; dEUS, mEUS, prendEU – na
segunda estrofe; mEU, prendEU – terceira estrofe; e prendEU – na quarta e última
estrofe) no poema, como se o poeta produzisse várias vozes no interior do poema.
A compreensão formal nos leva a pensar que a presença dos Eus provoca um
diálogo lírico, cuja subjetividade ultrapassa as instâncias formais do poema. Na
verdade, essa imagem poética provoca o poema que se volta para avesso, pois é lá
que a poesia é possível.
Portanto, o universo poético cooperiano agarra-se ao seu mundo próprio,
autorreflexivo, coberto de conotações perigosas e audaciosas. Só assim o poeta se
imagina poeta. Não há desespero; há uma busca constante para entender a vida. E
nesse labirinto, Cooper sai do abismo como quem acha graça da vida e, bebendo,
enfrenta seus monstros e seus demônios.
Poema
Era uma vez
Jorge Cooper
Dezenas de anos existiu
Existiu
Existiu
Lá um dia
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por fim
parou de existir
deixou de existir
Existir
Existir
(COOPER, 2011, p. 299)
REFERÊNCIAS
COOPER, Charles. Jorge Cooper vida & verso. In: COOPER, Jorge. Poesia completa. 2. Ed.
Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2011.
COOPER, Jorge. Poesia completa. 2. Ed. Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos; Cepal,
2011.
COSTA, Marcos de Farias. Jorge Cooper: o minnesänger alagoano. COOPER, Jorge. Poesia
completa. 2. Ed. Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2011.
FIÚZA, Fernando. Introdução. In: COOPER, Jorge. Poesia completa. 2. ed. Maceió: Imprensa
Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2011.
GUSMÃO, Wanderley de. Um poeta diferente. In: Caderno de Crônicas [Os Daqui e Os de
Lá]. Departamento Estadual de Cultura. Maceió, Alagoas, 1962, p. 25-30.
HEGEL, G. W. F. Caráter geral da poesia lírica. In:________. Estética. Os pensadores. São
Paulo: Nova Cultural, 1999.
IVO, Lêdo. O poeta Jorge Cooper. Letras & Artes Suplemento de A manhã, Rio de Janeiro,
domingo, 19 de abril de 1953, p. 5-10.
________. O silêncio pelo avesso. In: COOPER, Jorge. Poesia completa. 2. Ed. Maceió:
Imprensa Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2011.
LINDOSO, Dirceu. Um poeta no labirinto. In: Tribuna de Alagoas, Maceió, 16/02/1984.
OITICICA, Ricardo. Entrevista Jorge Cooper. COOPER, Jorge. Poesia completa. 2. Ed.
Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos; Cepal, 2011.
PAES, José Paulo. A lírica de Jorge Cooper. In: O Estado de São Paulo, edição de 5/01/1991.
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