UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS Keite Azevedo Lima ANÁLISE DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO DIETOTERÁPICO DE PACIENTES DIABÉTICOS ATENDIDOS NO PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA DO MUNICÍPIO DE ARARAS-SP Araraquara, SP 2004 KEITE AZEVEDO LIMA ANÁLISE DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO DIETOTERÁPICO DE PACIENTES DIABÉTICOS ATENDIDOS NO PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA DO MUNICÍPIO DE ARARAS-SP Dissertação apresentada ao programa de pós-graduação em Alimentos e Nutrição da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, área de Ciências Nutricionais, para obtenção do título de Mestre em Alimentos e Nutrição. Orientadora: Profª. Drª. Fátima Neves do Amaral Costa Araraquara, SP 2004 Aos meus pais, Sebastião e Alice, que sempre estiveram presentes, me apoiando, incentivando e acreditando em meus sonhos. Agradecimentos À Deus, que é vida. À minha família, que se alegrou com mais uma conquista. À minha orientadora, profª. drª. Fátima Neves do Amaral Costa, pela dedicação, pela amizade e por ter ampliado meus horizontes dentro do conhecimento da educação e nutrição. Às pacientes, que dedicaram seu tempo, atenção e carinho para que meu projeto pudesse ser realizado. À profª. drª. Maria Jacira Silva Simões, profª. drª. Sônia Maria Villela Bueno, profª. drª. Lisete Diniz Ribas Casagrande e ao prof. dr. Edson do Carmo Inforsato, pelas valiosas sugestões. À Claudia, Sônia, Laura, funcionárias da pós-graduação da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, e à Kely, funcionária da pós-graduação da Faculdade de Ciências e Letras, pelas informações e serviços prestados. Aos funcionários da biblioteca da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, de modo especial à Irani e Sônia, pela correção atenciosa das referencias bibliográficas e elaboração da ficha catalográfica. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa concedida. À Prefeitura Municipal do município de Araras, pela autorização para realização do projeto em uma unidade do Programa Saúde da Família. Aos médicos, enfermeiras, dentista e agentes de saúde da unidade do Programa Saúde da Família “Lucia Boquetti Meneguethi”, pelo carinho com que me receberam e pelo auxílio no decorrer do trabalho. Ao 4º pelotão de Polícia Militar Ambiental, na pessoa do tenente Ênio Antonio de Almeida, por gentilmente haver cedido suas instalações em Araras, para a realização das reuniões do grupo. Às amigas Angélica e Luciana, pelos risos, pelas discussões enriquecedoras, pela presença e pela amizade. Agradecimentos Especiais Ao meu pai, pelo amor e compreensão. À minha mãe, pelo amor e compreensão, e também por preparar com tanto carinho os pratos servidos nos encontros do grupo. À Humberto, por ter participado de todo o percurso, dedicando seu tempo, sua paciência e seu amor, contribuindo muito para a realização deste sonho. RESUMO No presente trabalho buscamos compreender o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético atendido em uma unidade do Programa Saúde da Família, no município de Araras-SP. O trabalho foi pautado na metodologia da pesquisa qualitativa em saúde, com os seus respectivos instrumentos: análise documental, entrevistas, observação participante, reuniões de grupo e visitas domiciliares. A amostragem foi composta por 10 mulheres, diabéticas, com idade entre 45 a 69 anos e escolaridade heterogênea. No decorrer de um período contínuo realizamos um trabalho de educação nutricional, segundo concepção de educação problematizadora de Paulo Freire. Ao final dos encontros, quatro categorias foram identificadas como fundamentais à nossa compreensão do processo educativo de construção de conhecimentos. Elas se referem a doença, ao tratamento, a alimentação e ao significado da vida. Percebemos que o diabetes traz consigo uma marca muito forte na vida das pacientes, comprometendo muitas vezes o seu sentido. A aceitação da doença não se mostrou um processo fácil, e algumas participantes, ao final dos encontros ainda não conseguiam aceitar esse fato. O tratamento proposto muitas vezes gera dificuldades intensas às pacientes. A principal dificuldade encontrada foi em relação à adequação alimentar, principalmente pelo fato das orientações recebidas prestigiarem uma dieta muito restritiva e fundamentada na orientação, e não na educação nutricional. Os resultados do trabalho se encaminham no sentido de evidenciar que um processo de construção de conhecimentos, mediado pela educação nutricional problematizadora, envolvendo as categorias encontradas, ocorreu de forma individual e coletiva. Concluímos que o grupo favoreceu mais do que um espaço educativo, cumprindo ainda uma função de apoio social e de lazer. Palavras-chave: diabetes mellitus, educação problematizadora, pesquisa qualitativa em saúde. nutricional, educação ABSTRACT The present work aims to understand the process of building the knowledge from the diabetic patient assisted in a unity of the Family Health Program, in Araras, São Paulo, Brazil. The work was based on the methodology of the qualitative research on health with its respective instruments: documental analysis, interviews, participant observation, group meetings and domiciliary visits. The sample was constituted by 10 diabetic women aged between 46 years old and 70 years old with heterogeneous schooling. During a continuous period, a work of nutritional education was carried out according to the conception of problematical education by Paulo Freire. At the end of the meetings, four categories were identified as fundamental to our understanding of the educational process of building the knowledge. They refer to the disease, treatment, eating and meaning of life. It is noticed that diabetes brings with it a very strong sign in the patient lives committing its meaning. The acceptance of the disease did not show an easy process, and some participants still could not accept the fact at the end of the meetings. The proposed treatment often causes intense difficulties to the patients. The main difficulty was related to the eating adequacy because the received directions gave prestige to a very restrictive diet based on a direction not on the nutritional education. The results of the work led to the sense of making evident that the process of building the knowledge mediated by the nutritional problematical education, involving the categories which were found, ocurred in an individual and also collective way. We concluded that the group favored more than an educational space, still accomplishing a function of social support and leisure. Key words: diabetes mellitus, nutritional education, problematical education, qualitative research in health. Sumário Introdução.............................................................................................................13 Seção 1. Considerações gerais sobre o Diabetes Mellitus..............................23 1.1 Definição e Epidemiologia................................................................................24 1.2 Classificação e Patogenia................................................................................26 1.3 Quadro Clínico, Complicação e Condições Associadas..................................27 1.4 Diagnóstico do Diabetes Mellitus.....................................................................29 1.5 Tratamento do Diabetes Mellitus.....................................................................32 Seção 2. Referencial teórico – Educação em Saúde e/ou Educação Nutricional: Educação Nutricional como campo específico da Educação em saúde.....................................................................................................................35 2.1 Educação em Saúde........................................................................................36 2.1.1 Recuperação Histórica..................................................................................36 2.2 Práticas Educativas Problematizadoras em Educação em Saúde.....................................................................................................................50 2.3 Educação Nutricional.......................................................................................57 2.3.1 Recuperação Histórica..................................................................................57 2.3.2 Relembrando.................................................................................................78 2.3.3 Definição.......................................................................................................80 2.3.4 Importância da Educação Nutricional e os objetivos desse Estudo....................................................................................................................82 Seção 3. Considerações teóricas: a metodologia da pesquisa eleita......................................................................................................................86 3.1 Diferentes tipos de pesquisa qualitativa...........................................................89 3.2 Etapas de trabalho da metodologia qualitativa................................................92 3.2.1 Fase Exploratória..........................................................................................92 I Como definir os objetivos da pesquisa................................................................93 II Análise documental.............................................................................................94 III O processo de escolha da amostragem............................................................94 IV Triangulação......................................................................................................96 3.2.2 Trabalho de campo.......................................................................................96 I Instrumentos da pesquisa....................................................................................97 - Entrevista.............................................................................................................97 - Observação participante....................................................................................100 - Anotações de campo.........................................................................................101 3.2.3 Tratamento dos dados................................................................................102 3.2.4 Desafios da pesquisa qualitativa.................................................................105 Seção 4. O percurso metodológico construído..............................................108 4.1 O estudo exploratório.....................................................................................109 4.1.1 A inserção do pesquisador..........................................................................110 4.1.2 Local do estudo: aproximação à temática...................................................111 4.1.3 Entrevista inicial com a equipe....................................................................112 4.1.4 Definição dos critérios a amostragem.........................................................119 4.1.5 Os instrumentos da pesquisa......................................................................120 I Análise documental............................................................................................120 II Entrevista..........................................................................................................120 III Observação participante..................................................................................121 IV As reuniões do grupo.......................................................................................123 V As visitas domiciliares.......................................................................................124 4.3.6 A demarcação do tempo da pesquisa de campo........................................125 Seção 5. Organização do material obtido e discussão dos dados empíricos............................................................................................................126 5.1 Caracterização dos sujeitos...........................................................................127 5.2 As entrevistas iniciais com os sujeitos...........................................................132 5.2.1 A primeira questão......................................................................................133 5.2.2 A segunda questão.....................................................................................136 5.3 Os encontros..................................................................................................148 5.4 As avaliações após cada encontro................................................................178 Seção 6. As marcas do caminho......................................................................192 Seção 7. A construção de conhecimentos do paciente diabético................208 7.1 A doença: a grande vilã.................................................................................209 7.2 O tratamento: minimizando traumas..............................................................213 7.3 A alimentação: tudo ou nada?.......................................................................214 7.4 A vida: resgatando seu sentido......................................................................216 Referencias Bibliográficas................................................................................221 Anexos................................................................................................................230 INTRODUÇÃO ________________________________________________________ Introdução Nossa primeira experiência com o diabetes mellitus se deu no âmbito familiar. Acompanhamos o tratamento proposto aos membros portadores da doença, assim como a dificuldade que apresentaram em segui-lo. No decorrer do curso de graduação o entendimento sobre a patologia foi ampliado, tornando-se mais técnico. Fomos nos deparando novamente com o tratamento do diabetes, agora não mais como sujeitos passivos, mas como estagiários que interferiam e propunham as restrições alimentares pautados na Dietoterapia. Nosso terceiro contato com pacientes diabéticos ocorreu no ano de 1999. Já decorreram dois anos da formatura e iniciávamos o aprimoramento em Nutrição Hospitalar oferecido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – USP, na cidade de Ribeirão Preto. Durante o estágio na clínica médica realizamos o atendimento ambulatorial de pacientes diabéticos. Nosso papel consistia basicamente na orientação da dieta que, embora já padronizada pelas nutricionistas do hospital, diferenciava-se de acordo com as calorias fornecidas. Muito provavelmente, o papel da educação nutricional era negligenciado pelo fato do atendimento dar-se em nível ambulatorial, com intervenções pontuais, não havendo tempo hábil para a realização de um trabalho mais cuidadoso, sendo então, realizada a orientação nutricional. Cabe dizer que a educação e a orientação nutricional se extremam em razão de seus objetivos. A primeira vista, em médio ou longo prazo, modificar e melhorar os hábitos alimentares dos indivíduos, enquanto a segunda prega uma mudança imediata destes hábitos, não aceitando transgressões (Boog,1997). O trabalho realizado era de orientação nutricional. Todavia, percebíamos seus limites na medida em que, a cada retorno, os pacientes apresentavam glicemias alteradas e muitas vezes demonstravam não haverem conseguido atender às orientações técnicas propostas. Em um segundo momento de nosso aprimoramento, já no ano de 2000, participamos do Programa de Reeducação Alimentar desenvolvido para pacientes obesos mórbidos atendidos na Unidade Metabólica do hospital. Nesse programa os pacientes permaneciam internados por oito semanas, nas quais eram submetidos a uma dieta inicial de 1800 Kcal, que gradativamente ia sofrendo modificações em seu valor calórico até atingir 300 Kcal. Durante o período de internação e, posteriormente, nos retornos ambulatoriais, os pacientes recebiam suporte de toda a equipe multiprofissional. O papel do nutricionista na equipe, principalmente no período de internação, era o de ministrar aos pacientes conceitos que visavam à sua educação nutricional, sendo utilizada a Pirâmide de Alimentos como recurso para se fazer conhecer os grupos de alimentos, como escolhê-los e também adequar a alimentação às condições sócio-econômicas dos pacientes. Nesse segundo momento já havia então, como foi visto, atividade voltada para a educação nutricional, porém os resultados não eram satisfatórios. Refletindo sobre nossas experiências e entrando em contato com referências bibliográficas, fomos percebendo que os esforços empreendidos até aquele momento não redundavam em sucesso pela não inserção de questões, propostas aos pacientes, que os levassem a problematizar suas condições de vida e à descoberta de maneiras para torná-la mais saudável. Assim, foi tomando forma a idéia de associar a Educação Nutricional e os pressupostos teóricos que preconizam a problematização da doença. Chegamos à educação problematizadora de Paulo Freire, que muito teria a dizer para o nutricionista que tenha de se defrontar com o tratamento do diabético. O interesse pelo processo educativo especificamente voltado ao paciente diabético não se deu unicamente pelo fato de existirem pessoas diabéticas na família, ou por termos realizado trabalhos com diabéticos no decorrer de nossa vida acadêmica e profissional, mas também pelo diabetes mellitus ser uma patologia de importância mundial, com repercussões graves que passam do nível individual a toda uma sociedade. O diabetes mellitus é considerado uma patologia preocupante na perspectiva da saúde pública. É definido como uma desordem metabólica de múltiplas etiologias, que se caracteriza por hiperglicemia resultante de alterações na secreção de insulina ou em sua ação. É considerada a quinta principal causa de morte, além de ser a potencial origem de inúmeras complicações tais como, cegueira, infarto do miocárdio, derrame cerebral e risco de amputação de membros (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). O tratamento do diabetes é constituído por educação e modificações no estilo de vida, incluindo aumento de atividade física, reorganização de hábitos alimentares e, se necessário, uso de medicamentos. A educação nutricional é um dos pilares fundamentais no tratamento do diabetes, uma vez que um bom controle metabólico exige alimentação adequada. Assim sendo, para adesão ao tratamento e conseqüente efetividade, vale ressaltar a importância da educação nutricional, através da qual se possibilita ao paciente a construção de um padrão alimentar individualizado, passível de ser seguido no seu contexto de vida. A educação nutricional encontra-se profundamente articulada com a educação em saúde, tendo peso relevante no campo da atenção primária à saúde (MOTTA e BOOG, 1991; BOOG, 1997, 1999). A constituição da Conferência Alma-Ata (1978), que trazia como eixo de discussão o tema “Saúde para todos no ano 2000”, já evidenciava a educação em saúde como uma das estratégias necessárias para atingir tão amplo objetivo. É possível concluir a partir de então ser fundamental pensar a promoção da saúde com o desenvolvimento efetivo de ações educativas em saúde. O histórico da educação em saúde no Brasil evidencia a sua importância na abordagem de problemas relativos à saúde. Surgindo sistematicamente no início do século XX, para combater as epidemias que causavam transtornos à exportação do café do País, as práticas de educação em saúde apresentavam características impositoras e normativas, desconsiderando a população como um sujeito coletivo e ativo no processo de saúde (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Ao longo de um século de desenvolvimento, foram observados vários momentos no campo da educação em saúde. É marcante, porém, o fato de que sempre esteve atrelada aos interesses econômicos de determinados grupos e que as necessidades da população pouco ou nada influenciavam (SMEKE e OLIVEIRA, 2001; VASCONCELOS, 2001). Melo (1987) apresenta, em linhas gerais, três discussões sobre o tema educação e saúde que emergiam no Brasil, partindo da data oficial de criação da área, 1919, quando o tema Educação Sanitária foi proposto em conferência internacional sobre a criança nos Estados Unidos. Com marcante influência da estrutura sanitária norte-americana sobre a brasileira, a partir de 1920, e com o processo de escolarização se ampliando, as medidas de prevenção e educação sanitária alcançam grandes parcelas da população brasileira. Imperam na época o entusiasmo e o otimismo pedagógico que influenciarão na criação de nova concepção relativa aos serviços de saúde. Surge a Saúde Pública, objetivando a melhoria das condições de vida do trabalhador para garantir uma mão-de-obra produtiva. Paula Souza reorganiza os serviços sanitários do estado de São Paulo, tendo a educação sanitária como base de ação (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Nos anos de 1930 a 37 adentramos ao período do totalitarismo, com nenhuma publicação sobre educação sanitária. Nesse período, o conteúdo ameaçava o poder dominante. São extintos os centros de saúde, onde se discutia melhorias das condições de trabalho, despontando a política sanitária. Intelectuais brasileiros se especializam nos EUA, na área da Educação em Saúde, e em meados da década de 80 são introduzidas novas idéias sobre a organização comunitária e participação, como formas de se integrar os setores atrasados no desenvolvimento nacional (MELO, 1987). A partir de 1967 tem início reformulação geral na educação sanitária, que passa a ser chamada educação em saúde pública ou educação em saúde / para a saúde. Com o final do milagre econômico veio a recessão na indústria, comércio e diminuição dos investimentos em todos os setores. Percebese a clara necessidade da mudança do conceito saúde, assim como das estratégias que alcançassem esse conceito em sua complexidade. Emergem então as principais idéias do Sistema Único de Saúde, assim como o novo conceito de saúde apresentado na Conferência de Saúde de 1988. Desde então uma grande parte das práticas de educação em saúde nos serviços tem como meta superar o fosso cultural existente entre a instituição e a população, pois um lado não compreende a lógica e atividade do outro. Atuase a partir do problema de saúde específico, buscando entender, sistematizar e definir conceitos, princípios e lógicas presentes para superar as incompreensões e mal-entendidos e tornar conscientes e explícitos os conflitos de interesses (LEFRÈVE, 1999; VALLA, 1999, 2001; VASCONCELOS, 2001). Busca-se valorizar o papel do sujeito como protagonista no processo saúde/doença, ampliando-o para além da visão tecnicista e biologicista. A doença não compreende, unicamente, um agente causador, mas um universo amplo, onde estão inseridos o saber popular, os medos, a cultura e a condição sócioeconômica dos indivíduos. Valorizar o sujeito é preocupar-se com todos os fatores envolvidos no processo de adoecer, tratar e curar (REMEN, 1993; GOMES e MENDONÇA, 2002; VALLA, 1999, 2001, 2003). Todos esses autores e suas pesquisas fazem parte de um conjunto de idéias que está se incorporando no campo das práticas educativas em saúde e vem ganhando espaço. Coloca-se em evidência o paciente enquanto sujeito inserido em um campo social, econômico e cultural, e investe-se na aproximação do saber científico ao saber popular como caminho de ampliação de consciências e fortalecimento de autonomias. São os pressupostos vistos que orientam este trabalho, colhidos nos estudos citados sobre o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético, sendo referentes: 1. à necessidade do paciente portador do diabetes mellitus encontrar, na educação nutricional efetiva, um dos pilares de enfrentamento rumo ao seu equilíbrio metabólico e conquistar melhoria na sua qualidade de vida; 2. à necessidade da educação em saúde, no processo de construção de conhecimento, ser considerada como um instrumento de participação dos sujeitos, ao mesmo tempo em que aprofunda a ciência no cotidiano destes. Direcionando tais idéias para este estudo temos como objetivo, buscar compreender o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético ao longo de um trabalho de educação nutricional. O trabalho foi organizado em sete capítulos, a fim de propiciar o desenvolvimento do processo de construção de conhecimentos, mediado pela educação nutricional, dos pacientes diabéticos atendidos no Programa Saúde da Família (PSF) do município de Araras-SP. Nos três capítulos iniciais apresentamos as bases de dados teóricos pesquisadas que serviram de fundamento. O primeiro capítulo, “Considerações Gerais sobre o Diabetes Mellitus”, trata de expor um quadro teórico relativo aos conhecimentos da definição e epidemiologia, classificação e patogenia, quadro clínico, complicações associadas, diagnóstico e tratamento da patologia. É destacado o papel da educação nutricional como elemento imprescindível no tratamento, na medida em que favorece a construção de um padrão alimentar possível de ser adotado pelo paciente. Os referenciais teóricos utilizados foram hauridos em diversas fontes (MAHAN e ARLIN, 1995; GUYTON e HALL, 1997; ANDERSON, 1999; COTRAN e CRAWFORD, 2000; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1999; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; FUNASA, 2002; AMERICAN DIABETES ASSOCIATION 2003a, 2003b, 2004). No segundo capítulo, “Referencial Teórico: Educação em Saúde e/ou Educação Nutricional: Educação Nutricional como Campo Específico da Educação em Saúde”, é apresentada a recuperação histórica da Educação em Saúde, trazendo-se as discussões atuais que permeiam este ramo científico, incorporando idéias da educação de um modo geral (BRANDÃO, 2001; PINTO, 2001) e da Educação Problematizadora nas práticas educativas em saúde (FREIRE, 1988, 2002). Igualmente realiza-se análise histórica da Educação Nutricional, até os dias atuais, enfocando o “Programa Fome Zero” (INSTITUTO CIDADANIA, 2001; BELIK e GROSSI, 2003). Esclarecemos as estreitas relações entre Educação Nutricional e Educação em Saúde e elaboramos o conceito de Educação Nutricional incorporado ao trabalho. Destacamos a importância da Educação Nutricional para a consecução de nosso objetivo, diferenciando-a do processo de orientação nutricional. Freire (1988, 2002); Melo (1987); L’Abbate (1988, 1989); Motta e Boog (1991); Boog (1996, 1997); Smeke e Oliveira (2001); Vasconcelos (2001), foram os autores que forneceram subsídios à elaboração do capítulo. Não podemos omitir que utilizamos também pesquisas que apenas tangenciam nosso tema, sendo destacada sua importância para as conclusões a que chegamos, não obstante a diversidade de objetivos (BOOG, 1996; MOTTA, 1998). No terceiro capítulo, “Considerações Teóricas: A Metodologia da Pesquisa Eleita”, o foco é voltado à discussão teórica que envolve as relações entre a saúde e a metodologia escolhida para o presente estudo (a qualitativa). Em função do objetivo a ser alcançado no capítulo, o referencial utilizado foram os trabalhos de Triviños (1987); Thiollent (1988); Bogdan e Biklen (1994); Minayo, (1996, 2001); Lüdke e André, (2001), dentre outros. No quarto, “O Percurso Metodológico Construído”, abordamos o caminho adotado para compreender o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético, mediado pela prática da Educação Nutricional. No quinto capítulo, “Organização do Material Obtido e Discussão dos dados Empíricos”, apresentamos os dados obtidos, bem como a respectiva análise. A partir do sexto capítulo, “As marcas do Caminho” , sinalizamos rumo aos marcos da construção de conhecimento a serem conquistados através do processo de Educação Nutricional desenvolvido. Apresentamos então os resultados e as possíveis contribuições e limitações deste estudo. No sétimo, “A Construção de Conhecimentos do Paciente Diabético”, destacamos as categorias recorrentes nos encontros: a doença, o tratamento, a alimentação e a vida, expondo nossas considerações finais. SEÇÃO 1. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O DIABETES MELLITUS ________________________________________________________ 1 Considerações gerais sobre o Diabetes Mellitus 1.1 Definição e Epidemiologia Atualmente em todo o mundo, independentemente do nível sócioeconômico, o diabetes mellitus é considerado um problema de saúde pública muito preocupante (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; FUNDAÇÃO NACIONAL DA SAÚDE- FUNASA, 2002). A patologia é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 1999) como: Uma desordem metabólica de múltiplas etiologias, caracterizada por hiperglicemia crônica com distúrbios no metabolismo de carboidrato, gordura e proteína resultante de defeitos na secreção de insulina, ação da insulina ou ambos. (p.02). (tradução nossa) Os dados epidemiológicos evidenciam que mais de 150 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com esta doença (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). Nos Estados Unidos, tal doença atinge cerca de 18 milhões de pessoas e destas apenas cerca de 5% tem diabetes tipo 1 – insulino-dependente – já as demais apresentam diabetes tipo 2 – não-insulino-dependente – (ANDERSON, 2000). Outro fator interessante é que metade dos indivíduos diabéticos tipo 2 desconhecem seu diagnóstico (ANDERSON, 2000). No Brasil, segundo uma pesquisa realizada na década de 80, em 9 capitais do país, o dado quantitativo é de aproximadamente, 5 milhões de pacientes (FUNASA, 2002). Globalmente, essa pesquisa evidenciou que a prevalência do diabetes no Brasil é de 7,6% da população entre 30 e 69 anos de idade, apontando ainda, variações entre as capitais estudadas, sendo que o valor mínimo foi de 5,22% e o máximo de 9,66%, respectivamente de Brasília e de São Paulo (FUNASA, 2002). Considerando-se o sexo, observou-se uma prevalência muito parecida entre homens e mulheres de até 39 anos (FUNASA, 2002). Esses dados poderiam sugerir um alerta, uma vez que o diabetes é a quinta principal causa de morte e pode causar inúmeras complicações graves, como cegueira - o motivo mais freqüente entre pessoas de 20 a 74 anos -, infarto do miocárdio, derrame cerebral e impotência, além do risco da amputação de membros (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). Outro fator significativo foi notado em relação aos tipos de diabetes. Encontramos dados que evidenciam que 90% dos diabéticos apresentam o tipo 2 e apenas 5 a 10% o tipo 1, considerando-se ainda que 2% de indivíduos apresentam o diabetes secundário ou associado a outras síndromes (FUNASA, 2002). Os dados apresentados nos parágrafos anteriores nos fazem refletir sobre a importância da realização de estudos com indivíduos diabéticos, sobretudo na perspectiva de prevenção de danos a médio e longo prazo, principalmente quando nos deparamos com o dado que indica que 5 milhões de brasileiros são portadores da doença. Desta maneira, o conhecimento da epidemiologia do diabetes mellitus tornou-se um importante referencial teórico de nosso estudo, pois devemos considerar, como a própria Sociedade Brasileira de Diabetes enfatiza, que se trata de um problema de saúde pública merecedor de nossa total atenção. 1.2 Classificação e Patogenia A classificação do diabetes mellitus foi publicada primeiramente em 1980 pela OMS, tendo sofrido algumas modificações em 1985. No ano de 1992, a 10ª revisão da Nomenclatura Internacional de Doenças (IND) avaliou a classificação preconizada até então. Aceitou-se amplamente a classificação de 1985 que, a partir daquele ano, passou a ser utilizada internacionalmente. A Sociedade Brasileira de Diabetes coloca em seu consenso uma tabela resumindo a classificação adotada pela OMS. A Sociedade também lembra que os termos “diabetes mellitus insulino-dependente“ e “não-insulino- dependentes” foram eliminados. Quadro 1: Classificação do diabetes mellitus Tipo 1: destruição da célula beta, geralmente ocasionando deficiência absoluta de insulina, de natureza auto-imune ou idiopática. Tipo 2: varia de uma predominância de resistência insulínica com relativa deficiência de insulina, a um defeito predominantemente secretório, com ou sem resistência insulínica. Outros tipos específicos: defeitos genéticos funcionais da célula beta defeitos genéticos na ação da insulina doenças do pâncreas exócrino endocrinopatias induzidos por fármacos e agentes químicos infecções formas incomuns de diabetes imuno-mediado outras síndromes genéticas geralmente associadas ao diabetes Diabetes gestacional1 Fonte: Consenso Brasileiro sobre Diabetes, Sociedade Brasileira de Diabetes, 2000, p.06. 1 O diabetes mellitus gestacional é a diminuição da tolerância à glicose, de magnitude variável, diagnosticada pela primeira vez na gestação, podendo ou não persistir após o parto. Abrange os casos de diabetes mellitus e de tolerância à glicose diminuída detectados na gravidez. (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000, p.05). Neste momento trataremos do diabetes tipo 1, no qual devido a suscetibilidade genética, auto-imunidade ou agressão ambiental, encontramos células β em número reduzido e desta maneira pacientes com grave deficiência de insulina. Devido a essa deficiência torna-se necessário para sua sobrevivência a administração da insulina, pois sem a mesma desenvolverão cetoacidose aguda e poderão chegar ao coma (COTRAN e CRAWFORD,2000). Em relação ao tipo 2 não temos uma patogenia completamente esclarecida, mas alguns aspectos são claros: existe um distúrbio nas células β que levam a uma secreção de insulina deficiente, assim como tecidos periféricos respondendo de forma reduzida a esta insulina (COTRAN e CRAWFORD, 2000). É também reconhecido que o estilo de vida do paciente representa papel fundamental para sua prevenção ou desenvolvimento. No caso do diabetes tipo 2, metade de seus portadores poderiam ter prevenido seu aparecimento se houvessem evitado o excesso de peso e da mesma maneira, 30% poderiam tê-lo evitado se não apresentassem um ritmo de vida sedentário (COTRAN e CRAWFORD, 2000, FUNASA,2002). Um outro dado reconhecidamente importante refere-se à genética, gêmeos idênticos, por exemplo, apresentam fator de concordância entre 60 e 80% (COTRAN e CRAWFORD, 2000). 1.3 Quadro clínico, complicações e condições associadas O diabetes mellitus tipo 1, assim como o tipo 2, associa-se a um quadro clínico caracterizado por poliúria, polidipsia, polifagia, cetoacidose, perda de peso e astenia. Nestes tipos de diabetes devido ao comprometimento da insulina encontramos um metabolismo de glicose, lipídeos e proteínas comprometido (GUYTON e HALL, 1997; COTRAN e CRAWFORD, 2000). Vale ressaltar ainda uma outra complicação que surge nos casos em que indivíduos diabéticos fazem uso da insulina. Essa utilização pode desencadear um processo de hipoglicemia. Esse quadro de baixo nível glicêmico pode ocorrer devido a um excesso da quantidade do hormônio utilizado, à uma alimentação em quantidade insuficiente ou, até mesmo à falta de alguma refeição, quando for suprimida pelo indivíduo diabético (ANDERSON, 2000). Em ambos os tipos de diabetes, encontramos complicações que podem ter seu início retardado se houver controle rigoroso da doença. As complicações mais significativas relacionam-se às pancreáticas, vasculares, oculares e neurológicas, advindas de distúrbios metabólicos causados pela hiperglicemia (ANDERSON,2000; COTRAN e CRAWFORD, 2000). As alterações pancreáticas contam com redução no número e tamanho das ilhotas de Langerhans, infiltração leucocitária das ilhotas, desgranulação das células β, sutil redução na massa de células das ilhotas de Langerhans e com substituição amilóias das ilhotas, sendo as últimas específicas do tipo 2 (COTRAN e CRAWFORD, 2000). Em relação as alterações vasculares, encontramos ateroesclerose acelerada ocasionando gangrena dos membros inferiores e microangiopatia diabética (COTRAN e CRAWFORD, 2000). As retinopatias, formações de cataratas ou glaucoma, são as complicações oculares que mais freqüentemente se manifestam nos diabéticos (COTRAN e CRAWFORD, 2000). Já as complicações neurológicas e renais decorrem da neuropatia diabética e da nefropatia diabética, respectivamente (COTRAN e CRAWFORD, 2000). Reconhecendo que a ingestão de carboidratos, principalmente os chamados “açúcares simples” como a sacarose, aumenta o nível glicêmico sanguíneo e que este nível é controlado devido a ação da insulina, temos que indivíduos diabéticos apresentarão glicemia elevada caso não se tratem com esse hormônio, os hipoglicemiantes orais, ou ainda caso não controlem sua dieta. A partir do quadro exposto, constatamos que a dieta representa um importante fator no controle dos níveis glicêmicos sanguíneos. Torna-se fundamental, portanto, a necessidade da educação nutricional para o controle do diabetes. Através dessa prática é possível se obter o controle dos níveis glicêmicos dos pacientes e conseqüentemente, evitar ou ao menos retardar possíveis complicações decorrentes. 1.4 Diagnóstico do Diabetes Mellitus Os exames para diagnóstico do diabetes mellitus devem ser realizados nos indivíduos assintomáticos, a partir dos 45 anos de idade, sendo repetido a cada 3 anos. No entanto, se o indivíduo tiver Índice de Massa Corporal (IMC) maior ou igual a 25Kg/m2 e apresentar algum fator de risco adicional, como por exemplo ser hipertenso, ter apresentado diabetes gestacional, não praticar qualquer atividade física, dentre outros, recomenda-se que a idade para realização de exames para diagnóstico do diabetes mellitus seja menor que 45 anos ou o intervalo entre cada exame seja menor que 3 anos (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2003a). No entanto temos a recomendação de um grupo de especialistas da Associação Americana de Endocrinologia Clínica, que sugere a redução da idade para 30 anos, pois observou-se que no período de 1990 e 1998, houve um aumento de 33% para 76% dos casos de diabetes, em indivíduos entre 30 e 39 anos (AMERICAN ASSOCIATION OF CLINICAL ENDOCRINOLOGISTS, 2001). Dentre os exames para o diagnóstico do diabetes podem ser citados os testes químicos da urina e do sangue (GUYTON e HALL,1997). A medida de açúcar na urina é um dos testes que pode ser realizado (GUYTON e HALL, 1997). Sabemos, entretanto, que se torna inadequado se utilizado como único método para monitorar o diabetes, uma vez que poderá representar avaliações imperfeitas (MAHAN e ARLIN, 1995). Nos exames sanguíneos, os critérios para diagnóstico do diabetes são três, sendo que recomenda-se que seus resultados sejam confirmados no dia seguinte, através de uma técnica diferente da utilizada, inicialmente (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2003a). O primeiro critério para diagnóstico se baseia no indivíduo que apresenta sintomas do diabetes, assim como sua glicose plasmática, colhida aleatoriamente, em qualquer momento do dia, sem jejum prévio, seja maior que 200mg/dl (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2004). O segundo critério, classifica o indivíduo como diabético, quando sua glicemia de jejum for superior a 126mg/dl (GUYTON e HALL, 1997; OMS, 1999; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2004). Quando os valores de glicose plasmática, no jejum, são maiores ou iguais a 110mg/dl e menores que 126mg/dl, a glicemia é considerada alterada (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). Na maioria dos indivíduos, o nível de glicose sanguínea de jejum se encontra entre 80 e 90mg/dl (GUYTON e HALL, 1997). O terceiro critério para diagnóstico de diabetes é realizado através de um outro teste sanguíneo, o de tolerância a glicose, no qual é oferecido ao indivíduo 75g de glicose anidra dissolvida em água e colhida uma amostra no soro ou plasma, nos tempos de 0,5; 1; 1,5 e 2 horas após a ingestão da glicose (GUYTON e HALL,1997; ANDERSON,2000; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; AMERICAN DIABETES ASSOCITION, 2004). O indivíduo é considerado diabético quando sua glicose plasmática 2 horas após a ingestão da glicose for igual ou maior que 200mg/dl (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2004). Em um indivíduo que não seja diabético, a glicemia que normalmente, é de 90mg/dl, sobe para 140mg/dl e depois de 2 horas cai para um valor abaixo do valor encontrado, normalmente. Já em um indivíduo diabético, a glicemia de jejum é de cerca de 140mg/dl, e sobe para um valor muito maior, além de voltar para o valor inicial apenas 4 a 6 horas após a ingestão, e nunca atingindo um valor abaixo do inicial (GUYTON e HALL, 1997). Atualmente não é recomendado o uso do teste da hemoglobina glicosilada para diagnóstico do diabetes mellitus (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2004). Os valores apresentados são os recomendados, atualmente, para o diagnóstico do diabetes mellitus. Um grupo de especialistas da Sociedade Americana de Diabetes sugere algumas mudanças nesses valores, abaixando o valor de glicose plasmática considerado normal de 110ml/dl, para 100mg/dl. A glicemia de jejum passaria a ser considerada alterada quando seus valores se mantivessem entre 100 e 125mg/dl, e não mais, maiores que 110mg/dl e menores que 126mg/dl. Essas alterações, segundo o grupo, foram propostas com a finalidade de prevenir as complicações associadas ao diabetes, pois sabe-se que uma glicemia igual ou superior a 126mg/dl está associada ao risco de desenvolvimento de retinopatia (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2003b). 1.5 Tratamento do Diabetes Mellitus O tratamento do diabetes objetiva manter o indivíduo com sua glicemia em níveis considerados normais, como por exemplo sua glicose plasmática de jejum deve se manter em 110mg/dl e duas horas pós-prandial deve estar em 140mg/dl. Além da preocupação com a glicose plasmática, o tratamento visa também manter dentro dos níveis normais as taxas de colesterol, total, HDL e LDL, assim como de triglicérides. Outro objetivo do tratamento é que o indivíduo diabético apresente valores pressóricos dentro dos valores adequados e não apresente sobrepeso e muito menos obesidade, mantendo seu IMC entre 20 e 25Kg/m2 (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). O tratamento do diabetes tipo 1, para todos os indivíduos, consiste basicamente, na administração de insulina (FUNASA,2002). Quanto ao tipo 2, 8% dos pacientes no Brasil utilizam insulina, porcentagem que sobe para 25% em outros países. Em relação ao uso dos hipoglicemiantes orais no tratamento do diabetes tipo 2, observamos que 40% dos pacientes utilizam o medicamento. É importante considerar, ainda, que 40% dos indivíduos diabéticos tipo 2 poderiam ter seu controle metabólico equilibrado apenas através da dieta (FUNASA,2002). Ou seja, uma vez mais é afirmado o papel da educação nutricional neste grupo de pacientes, expressivamente superior ao do tipo 1. A seguir, apresentaremos uma proposta esquemática de tratamento do diabetes mellitus tipo 1, tipo 2 e gestacional (FUNASA, 2002). Fonte: FUNDAÇÃO NACIONAL PARA A SAÚDE, 2002, p.03 Assim sendo, o tratamento do diabetes mellitus realiza-se basicamente em dois planos: alimentação adequada e atividade física. Estes 2 itens podem estar associados ao uso de insulina, obrigatoriedade no caso do tipo 1. No caso do tipo 2, pode-se fazer uso, quando necessário, de hipoglicemiantes orais ou insulina, e no diabetes gestacional, havendo necessidade, utiliza-se insulina (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; FUNASA,2002). Considerando o objetivo do presente trabalho, “buscar compreender o processo de construção de conhecimento do paciente diabético ao longo de um processo de educação nutricional”, identificamos a possibilidade de concretizá-lo, na medida em que lançarmos mão da Educação Nutricional como um instrumento fundamental de auxílio na construção de hábitos alimentares mais adequados, uma vez que o tratamento que prevê essas alterações nos padrões alimentares tem como objetivo ‘fornecer aos indivíduos diabéticos um caminho para ter uma dieta que os permita manter um estado metabólico próximo do normal” (ANDERSON, 2000, p.1373). A intervenção visando a modificação desses padrões, através da promoção de um controle dos índices glicêmicos, torna-se uma estratégia para reduzir os custos com as complicações que acompanham o diabético descompensado, o que, ao mesmo tempo, possibilita uma redução nos índices de morbidade e mortalidade (ANDERSON, 2000). Para a adesão e conseqüente cumprimento efetivo das mudanças desejadas, vale ressaltar a importância da educação nutricional, uma vez que é através dessa prática que se torna possível ao paciente construir um padrão alimentar passível de ser realizado. Na perspectiva da educação nutricional, essa busca considera não apenas o estado fisiológico do indivíduo, mas também articulação com seu nível sócio econômico e cultural. Nesse contexto, a condição alimentar poderá ser mais facilmente compreendida e assim adotada no cotidiano, podendo não só auxiliar na manutenção do controle metabólico, mas também proporcionar a conquista de melhor qualidade de vida ao paciente. SEÇÃO 2. REFERENCIAL TEÓRICO – EDUCAÇÃO EM SAÚDE E/OU EDUCAÇÃO NUTRICIONAL: EDUCAÇÃO NUTRICIONAL COMO CAMPO ESPECÍFICO DA EDUCAÇÃO EM SAÚDE ________________________________________________________ 2 Referencial teórico: Educação em Saúde e/ou Educação Nutricional: Educação Nutricional como campo específico da Educação em Saúde Para a tarefa de nos aproximarmos da educação nutricional, como um instrumento importante para a consecução do objetivo desse trabalho, encontramos que a mesma está profundamente intrincada ao campo da educação em saúde (MOTTA e BOOG, 1991). Assim sendo, iniciaremos uma retomada conceitual a partir do campo da Educação em Saúde, passando pela Educação Problematizadora para, a seguir, adentrarmos ao campo específico da Educação Nutricional. 2.1 Educação em Saúde 2.1.1 Recuperação Histórica Inicialmente, teceremos comentários sobre o enfoque e objetivos da educação em saúde. Segundo Nutbeam, Smith e Calford (1996), em seu livro publicado pela Organização Pan Americana da Saúde (OPAS), a educação tem seu foco voltado para a população e para a ação. De uma maneira geral, procuram incentivar as pessoas adotarem e manterem padrões de vida sadios, usarem os serviços de saúde de forma criteriosa e, por fim, tomarem suas próprias decisões, procurando uma melhora de suas condições de saúde e também do meio ambiente. Para os autores, o objetivo da educação em saúde é desenvolver nos sujeitos a idéia de responsabilidade pela própria saúde e a da comunidade, e também desenvolver sua participação na vida comunitária de forma construtiva. No presente trabalho, adotaremos, porém, a idéia de educação em saúde proposta por Vasconcelos (2001), o qual, acreditamos, expõe articulações mais amplas do conceito, distribuindo a responsabilidade pela saúde entre o indivíduo, os profissionais de saúde e a sociedade. Assim sendo: A educação em saúde deixa de ser uma atividade a mais realizada nos serviços para ser algo que atinge e reorienta a diversidade de práticas aí realizadas. Passa a ser um instrumento de construção da participação popular nos serviços de saúde e, ao mesmo tempo, de aprofundamento da intervenção da ciência na vida cotidiana das famílias e da sociedade. (VASCONCELOS, 2001:30). Passemos ao nosso recorte histórico da educação em saúde no Brasil, com o intuito de mostrar como vem sendo exercitada ao longo dos anos em nosso país e a sua estreita relação com conotações impositoras e prescritivas, fomentadas no início do século XX. Smeke e Oliveira (2001) nos mostram que a educação em saúde teve uma origem marcada por discursos e práticas normatizadores, que sugeriam uma conduta racional frente a doença, e dessa maneira se contrapunham à conduta religiosa da época. A educação em saúde no Brasil teve influências das experiências européias dos séculos XVIII e XIX. Estas experiências admitiam a necessidade de compreender a influência das condições de vida das pessoas na saúde e a necessidade de intervir nessas condições. - Década de 20 No início da década de 20, Oswaldo Cruz lidera a imposição de uma política sanitária que adota medidas autoritárias de controle de enfermidades, como a febre amarela, peste, varíola, tuberculose e sífilis (SMEKE e OLIVEIRA, 2001; VASCONCELOS, 2001). Essa política de domínio sobre a situação sanitária foi adotada por imposição da economia agroexportadora, que acabava tendo problemas com epidemias daquelas doenças. Esse fato determina iniciativas de controle sanitário, principalmente sobre as classes subalternas vistas como incapazes de construírem qualquer modalidade de conceito e que, de certa forma, se colocavam como obstáculo frente às oligarquias rurais vigentes (BUSS, 1995; SMEKE e OLIVEIRA, 2001; VASCONCELOS, 2001). Descontente com esse autoritarismo, a população, contando agora com a participação dos imigrantes europeus, com uma cultura sabidamente avessa às práticas dominadoras e exploradoras, se organiza em ações de resistência. Tal resistência culmina na Revolta da Vacina e em greve geral, o que acaba por trazer para o plano governamental novas exigências quanto às relações com as classes que começam a mostrar sua força (COSTA,1987). Embora a população continue sua luta, o movimento higienista, como fica conhecido, tem sua influência ampliada com o novo Regulamento Sanitário, criado em 1923, assim como regulamentação da assistência médica das Caixas de Pensão e Aposentadoria (COSTA, 1987; LEVY et al., 1998). Além disso, em 1924, Carlos Sá e César Leal Ferreira dão os passos iniciais para a educação em saúde, criando o primeiro Pelotão de Saúde em uma escola estadual fluminense. Já em 1925, é criada a Inspetoria de Educação Sanitária e Centros de Saúde do Estado de São Paulo, que procuram promover uma conscientização sanitária da população, assim como dos serviços de profilaxia em geral (LEVY et al., 1998). Neste período, tenta-se convencer as pessoas a substituir Deus e sua hierarquia na terra pela racionalidade técnico-científica (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). O movimento higienista, cada vez mais, amplia seu poder de atuação, influenciando na educação sanitária da população e em ações governamentais. Tem-se a partir de então a inspeção médica dos imigrantes, o confinamento de leprosos e tuberculosos, assim como a prioridade nos cuidados com a saúde de crianças e de gestantes (COSTA, 1987). Acontecem paralelamente dois movimentos liberais burgueses, um que tenta diminuir, ou até mesmo terminar com o crédito do mito religioso que é Deus e sua caridade, outro inicia-se na mitificação da ciência e da técnica, baseando-se na produção e consumo de bens individuais (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Tornam-se claros os fundamentos da formação da base biologicista, que se apóia no pressuposto de que a ignorância da população sobre normas de higiene é o principal fator responsável pelos problemas de saúde e que apenas através de mudanças do seu comportamento esses problemas seriam solucionados como um todo (PEREIRA, 1993) Essa lógica de compreensão desvia o foco da questão saúde das reflexões sobre políticas sociais de vida e trabalho da população e leva para o indivíduo e ainda reforçou a doutrina higienista. Nela o indivíduo é que deveria adequar-se às prescrições da Educação em Saúde, e para isso deveria seguir o eugenismo, que traz a tona nada mais do que o lado facista desta doutrina, que mascarada pelo discurso científico, de interesse para a ditadura Vargas, defende uma vida puritana e o casamento eugênico, a fim de impedir o nascimento do que chamavam de inaptos (COSTA, 1987; PEREIRA, 1993). - Décadas de 30, 40 e 50 Na década de 30, é fundado o Ministério da Educação e Saúde, que concentra as atividades sanitárias nas capitais brasileiras. Nessa década também temos a inclusão, na Constituição Brasileira, de diretrizes de aprimoramento eugênico da população, o que só vem corroborar o facismo da doutrina higienista, que é vinculado aos interesses da ditadura da época, procurando manter a ordem social e moral (COSTA, 1987; LEVY et al.,1998). Até meados dos anos 40, o higienismo mantém sua influência. Nesse momento, contudo, movimentos de organização da comunidade começam a ganhar força. A rearticulação das forças sociais progressistas vai caracterizar novas relações entre o Estado e a sociedade (COSTA, 1987). Mesmo durante a era do higienismo e do eugenismo, período em que a população brasileira carregava individualmente a culpa pelo seu estado saúde/doença e a única saída apresentada era a biologização desse estado, já se tinha uma nova concepção dos serviços de saúde, que vinha se formando desde os anos 20. Era o movimento sanitarista, o qual propunha universalização dos centros de saúde como serviços preventivos e assumidos pelo Estado, além de manter a educação sanitária nas escolas, nos próprios centros de saúde e nas campanhas sanitárias. Esse movimento não desperta o interesse das lideranças no poder, que apoiavam a ditadura e suas arbitrariedades (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Ocorre no campo da saúde a hegemonização do conceito saúde, que passa a ser visto como uma forma de se consumir a tecnologia através da assistência médica. Isso ocorre em outros campos, os quais procuram aproximar a vida e a ciência. Esse fato induz a valorização da tecnologia, da fábrica, da cidade e do consumo, em fim, da valorização dos bens materiais, ícones do capitalismo que, nessa época, procura se impor contra uma visão socialista. É um momento em que as práticas privadas de medicina se instauram nos centros urbanos e a assistência médica, para as classes menos favorecidas, se dá através de uma Previdência Social ainda imatura em seus conceitos (MELO, 1987; BUSS, 1995; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Em 1942, os Estados Unidos criam o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), para a prestação de serviço sanitário, com vistas ao controle das endemias da região amazônica, local onde se exploravam borracha e minérios (MELO, 1987; BUSS, 1995; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Esse serviço utiliza técnicas didáticas mais modernas e atribui aos profissionais de saúde, técnicos e auxiliares a responsabilidade para com as tarefas educativas desenvolvidas para grupos de gestantes, mães, adolescentes e comunidade de um modo geral. Esse processo ocorre devido ao interesse de se educar o homem do campo que ainda é considerado como incapaz de pensar e tomar suas próprias decisões. Isso faz com que os indivíduos considerados detentores do saber se preocupem em inculcar nesses sujeitos os conhecimentos necessários para se incorporar a tecnologia da época (LEVY et al, 1998; VASCONCELOS, 2001; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Smeke e Oliveira (2001) mencionam que se começa então uma nova ordem econômica e política, em que espaços vão sendo abertos onde até então dominava a imposição, e assim, o país adentra em seu período desenvolvimentista. Nesta fase inicia-se a percepção do sujeito em si, constatando que pode intuir suas chances de superação dos limites existentes. A alfabetização de adultos ganha força, nos moldes da proposta de Paulo Freire. No entanto, todo esse processo é guiado por interesses econômicos, pois é necessário que o homem do campo aprenda a trabalhar com a nova tecnologia que começa a ser utilizada, podendo assim aumentar a produtividade (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). - Década de 60 Nos anos sessenta merece destaque a Medicina Comunitária, que propicia aos integrantes das comunidades formarem pequenos grupos que mantivessem interesses comuns e procurassem resolver seus problemas com autonomia e, para isso, poderiam contar com a cooperação, solidariedade e união entre si (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Ainda nesse período, como nos anteriores, as práticas de educação em saúde pressupõem que a principal responsável pela solução dos problemas é a própria população, assim, procuram incentivá-la a tomar consciência da necessidade de mudança de seu estado de doença para um estado de saúde (PEREIRA, 1993). Temos naquele momento o que Melo (1987) chamou de período áureo da educação em saúde. Com o regime militar, a educação em saúde fica limitada a determinados espaços, uma vez que instituições são fechadas, gastos com políticas sociais são diminuídos e serviços médicos privados expandidos. Foi um período em que o Estado utilizou a educação em saúde apenas para impor a questão do planejamento familiar (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). - Décadas de 70 e 80 No início da década de setenta, a conjuntura política, social e econômica começa a sofrer algumas mudanças. A população questiona as políticas governamentais e, conseqüentemente, vai se organizando em movimentos por melhores condições de vida e pela posse da terra. Essa organização se dá nas Comunidades Eclesiais de Base e em outros agrupamentos, de modo que os processos educativos são realizados unidos à fé. Da mesma forma, são abordados os problemas da mulher, dos transportes, da saúde, da habitação e da educação (BUSS, 1995; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Cresce a insatisfação popular e se organizam vários movimentos sociais, como os sindicais e rurais. Tais movimentos empunham suas bandeiras de luta, pressionam e obtêm conquistas. Esse período é marcado por uma precária condição de saúde, o que se pode constatar revendo os altos índices de mortalidade infantil, acidentes de trabalho e epidemias (MELO, 1987; SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Vale ressaltar que no período entre 1964 e 1980, são criadas superintendências, programas, e a educação sanitária passa a ser denominada educação em saúde. Entretanto apenas a terminologia muda, pois os programas criados pelo Ministério e pelas secretarias estaduais de saúde continuam realizando apenas atividades assistenciais, não havendo mudança na contextualização com a inserção da educação nos programas de saúde (LEVY el al., 1998). Já no período pós-regime militar, observamos uma reavaliação e reorientação no campo da saúde, conquistas garantidas pelos avanços da participação social e política. Surge a preocupação com a “autonomia dos sujeitos”. As teorias e práticas da educação popular e da pesquisa participante, de Paulo Freire, passam a ser obrigatórias. É o movimento sanitário que se constitui. Cabe dizer que a partir daí a Constituição Brasileira recebe a inscrição do direito à saúde (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). A Previdência Social sofre uma forte crise nos anos 80, o que obriga representantes de ministérios, médicos, trabalhadores e prestadores privados a buscar uma reorganização para o sistema de saúde do país, procurando reduzir custos e controlar seus gastos. Nesse período, postos políticos do Ministério da Saúde são assumidos por profissionais que atuaram no movimento sanitarista, o que abriu um caminho para o projeto de reforma sanitária (BUSS, 1995). Em 1988, a nova constituição amplia o conceito de saúde. Para além de uma esfera estritamente biológica, a saúde é inserida em um campo político e histórico. Contudo, ampliar esse conceito não significou colocá-lo em prática (BOSI, 1994; GIOVANELLA, 1996). Mesmo com a constituição garantindo a “saúde como direito de todos e dever do Estado”, e inserindo em seu conceito as questões sociais e políticas, ainda na década de 80, o que se vê é um sistema de saúde que na sua quase totalidade nega o interesse da comunidade e acaba por se tornar excludente, não cumprindo com o princípio da universalização, base do Sistema Único de Saúde criado nesta década (GIOVANALLA, 1996). - Década de 90 A partir do início da década de noventa, passamos a ter uma proposta de ação contra o modelo preventivista dominante. Esse modelo hegemônico preventivo procura colocar toda a responsabilidade de saúde e doença no comportamento do indivíduo e, para sanar os problemas, incentiva os sujeitos a adotarem comportamentos mais saudáveis, como alimentação adequada, abstinência do fumo, adoção de boas práticas de higiene, entre outras (STOTZ, 1993; SCHALL e STRUCHINER, 1995; COSTA, 1996). Podemos considerar que a prevenção das doenças se dá em três níveis. No nível primário, a informação deve ser utilizada com a finalidade de promover a saúde da população; já no secundário temos o diagnóstico da doença e seu tratamento, sendo as informações referentes ao modo como a saúde pode ser restabelecida e, no nível terciário, há a tentativa de potencializar a vida dos indivíduos diagnosticados com doenças crônicas ou terminais (SCHALL e STRUCHINER, 1995). A partir desse foco, que tem o indivíduo como responsável pelos seus próprios males, sem levar em consideração as suas necessidades, assim como suas crenças e seus valores, a educação em saúde deixa de lado as ações socialmente sustentadas pelas práticas político-econômicas (STOTZ, 1993; SCHALL e STRUCHINER, 1995). Os indivíduos acreditam nisso e passam a ser novamente subordinados. Algumas correntes pedem mais remédios, mais prontos-socorros, esquecendo-se das relações sociais do indivíduo inserido em um contexto histórico, cultural, político (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Stotz (1993) dá ênfase para o aspecto pedagógico da educação em saúde, daí Smeke e Oliveira (2001) denominarem tal tipo de abordagem de “pedagógica”. Esse modo de lidar com o problema leva o indivíduo a compreender a situação em que vive, embora ainda considere que o comportamento individual é o principal fator de risco. Encontramos comportamento “desenvolvimento pessoal atualmente como pessoal”. fonte Tal outra de concepção, saúde concepção e que doença, começa por tem o denominada buscar a desmedicalização do sujeito. Para tanto procuram fortalecer sua autonomia, através de um educador que potencialize a capacidade comunicacional, a gestão de tempo e a auto-estima deste indivíduo (STOTZ, 1993). Stotz (1993, p.19) ainda sugere que os indivíduos saiam desse emaranhado que apenas os coloca como responsáveis, mas não lhes mostra uma saída. Trata-se da abordagem radical, em que se estabelece que “as condições e a estrutura social são as causas básicas dos problemas de saúde” e a Educação em Saúde torna-se instrumento para uma luta política que vislumbre a melhoria das condições de vida e saúde da população, através da intercessão do Estado atuando como interlocutor dos movimentos de usuários dos serviços de saúde e as medidas legislativas e normativas como responsáveis para a modificação das condições patogênicas (STOTZ, 1993). No entanto a abordagem radical também acaba por ser opressora, pois propõe convencer os indivíduos das necessidades de transformar sua condição, sem explicitar os meios de alterar a relação de dominação existente. Percebendo que ambas as abordagens contém suas falhas, acabase por dizer que o papel do educador em saúde deve estar mediado pelo desenvolvimento pessoal e pela abordagem radical (STOTZ, 1993), o que equivale a atribuir ao educador em saúde mais o papel de: “ajudar o grupo a pensar do que pensar pelo grupo, mais de questionar do que discursar, mais de assessorar do que decidir, [tendendo a fortalecer nesse grupo a] solidariedade, autonomia e consciência.” (CARVALHO, 1978, p.30). Vive-se um período no qual os meios de comunicação ganham força na área sanitária, revelando-se capazes de estimular a criação de hábitos, costumes, e até mesmo remodelar velhos conceitos, sendo certo que prestam um serviço à educação em saúde. É oportuna, porém, uma análise crítica a esse respeito, pois aqueles meios criam suas verdades como únicas, além de muitas vezes utilizarem estratégias de comunicação ineficazes. Isso nos leva a pensar em lançar mão de meios alternativos para realizar a educação em saúde, ou encarar de modo mais crítico as campanhas veiculadas pelos meios de comunicação em massa (CARVALHO, 1978; PITTA, 1995; VASCONCELOS, 2001). Analisando toda a trajetória histórica da educação em saúde, podemos concluir que esta se deu sob várias formas no âmbito da saúde de nosso país. Vemos que a educação em saúde foi utilizada pela oligarquia rural para inculcar valores nos trabalhadores, que através dela a ditadura Vargas camuflou seu facismo; que profissionais da área apenas utilizaram-na com o intuito de instigar sujeitos contra a política de saúde vigente, sem propor saídas; e também indivíduos culpabilizados pelo estado de doença e considerados os únicos responsáveis pela sua saúde. A educação em saúde já foi palco para manobras de interesse das classes dominantes, perdendo sua essência libertadora. No entanto, sempre restou um resquício de sua prática problematizadora, além de profissionais interessados em ajudar a população a tornar-se consciente e capaz de lutar por seus direitos. Esse fato não permitiu que a educação em saúde fosse totalmente negligenciada e esquecida. Atualmente, a educação em saúde retorna a sua posição de destaque, sendo debatida em congressos, discutidas em políticas públicas e implantada por muitos profissionais em seu cotidiano profissional. Essa retomada dos valores das práticas de saúde, unidas à problematização de Paulo Freire, pretende completar as lacunas do sistema de saúde nacional, tão carente de soluções. Ouvir os principais interessados e planejar suas propostas, parece constituir uma saída real para construirmos um país onde todos possam ter seus direitos garantidos e para vermos a Constituição plenamente implementada. Ao realizarmos uma análise da situação real encontrada em relação ao planejamento de ações educativas em saúde, incluindo, obviamente, ações de educação nutricional, evidenciando uma realidade um tanto quanto distante das abordagens do desenvolvimento pessoal e radical, expostas anteriormente. Em 1998, a União Internacional de Promoção a Saúde e Educação para a Saúde (UIPES), uma organização não-governamental que procura melhorar a saúde através da educação e demais ações próprias da promoção da saúde, procurou definir a realidade das ações de educação da área no país, através de uma pesquisa que objetivou identificar tanto as instituições que ensinam e pesquisam a área de Educação em Saúde, como também conhecer suas necessidades e dificuldades. Para isso, identificou prioridades na área, construiu um Banco de Dados sobre as ações desenvolvidas no país, o qual disponibilizou para os profissionais e demais interessados na Educação em Saúde (LIMA et al.,1998). Segundo os dados da pesquisa, podemos observar que embora 69,8% das respostas encontradas revelem a opinião de que o planejamento das ações educativas é realizado com ajustamento às necessidades da populaçãoalvo, ao analisarmos as respostas dos participantes do planejamento, apenas 11% evidenciam a população-alvo como participante deste. Outro fator que consideramos relevante diz respeito às dificuldades de implementação da educação em saúde. Dentre as dificuldades apontadas pelas instituições participantes, temos que a principal diz respeito aos recursos materiais. Os profissionais (62,8%) apontaram a questão material como um entrave à implantação de ações de educação em saúde. Já os recursos humanos perfazem 55,8% das respostas, enquanto os itens relacionados às questões políticoadministrativas totalizam 17,9%. Em relação aos recursos materiais, a principal dificuldade apontada é a falta de recursos orçamentários, presente em 37,9% das respostas. Acusam 9,9% a falta de recursos materiais em geral, seguindo-se por carência de material educativo ou recursos didáticos e falta de espaço físico para as atividades educativas. Quanto aos recursos humanos, 15,7% das dificuldades estão relacionada à insuficiência de pessoal qualificado ou especializado, 7% à falta de treinamento contínuo na área e 4,1% à ausência de conscientização da comunidade acadêmica com referência à importância da educação, dentre outras respostas. Já no campo das dificuldades político-administrativas, 4,4% consideram a crise econômica e social, falta de emprego e baixa escolaridade como responsáveis pelas dificuldades encontradas na implantação de ações de educação em saúde, aparecendo a falta de apoio institucional respostas. em 4% das Além desses, outros fatores são apontados, tais como a descontinuidade na administração, na prestação de serviços e no desenvolvimento de programas (LIMA et al., 1998). Pode-se perceber, a partir do exposto, a complexidade que envolve as práticas educativas em saúde e como elas geralmente se distanciam das necessidades da população a que se destina. 2.2 Práticas Educativas Problematizadoras em Educação em Saúde Quando ouvimos ou dizemos que a população necessita de educação, provavelmente, a primeira idéia que surge é da escola. Vemos as pessoas sentadas em suas carteiras, ouvindo e anotando a matéria que o professor coloca na lousa. Essa é uma idéia de educação, mas existem diversos tipos de educação em que todos ocupariam lugar de destaque na formação dos indivíduos. A educação existe sob várias formas, sendo que muitas vezes o que é educação para uns, não é para outros. Antes de encontrarmos a educação formal, que existe na escola, e sofre influências da pedagogia, temos a educação informal, que não ocorre necessariamente dentro de uma sala de aula. A educação ocorre em todos os lugares, em todas as partes, em todos os gestos (BRANDÃO, 2001). A educação é completamente social, tanto no sentido de nada se isentar de um processo educativo, como no sentido de a educação estar presente em todas as fases da vida dos sujeitos (PINTO, 2001). Primeiramente a criança recebe a educação dos pais, onde aprende as regras básicas para sua sobrevivência. Quando atinge uma certa idade, vai para a escola e lá é alfabetizada, aprendendo coisas que interessam para sua inserção na sociedade. Brandão (2001, p.67) coloca em seu livro que: “o ‘fim da educação’ são os interesses da sociedade, ou de grupos sociais determinados, através do saber que forma a consciência que pensa o mundo e qualifica o trabalho do homem educado.” . De acordo com o que acabamos de ver, podemos observar que a educação não se dá de maneira igual para todos. Desde a Grécia antiga e em Roma, a educação é utilizada para manter as diferenças sociais existentes. Os homens livres, mas pertencentes a plebe, eram educados para os trabalhos técnicos, manuais. A elite era educada para as atividades teóricas, eram os estudiosos, que não precisavam se preocupar com os trabalhos manuais (BRANDÃO, 2001). Atualmente, no Brasil, vemos que as leis garantem uma educação igual para todos, porém a realidade encontrada mostra um sistema de ensino público deficitário. A escola pública é mantida em segundo plano e forma cidadãos nem sempre conscientes de sua cidadania (BRANDÃO, 2001). Corroborando o que dissemos até o momento em relação ao tema educação, em Pinto (2001, p.29 e 30) encontramos o conceito a seguir: A educação é o processo pelo qual a sociedade forma seus membros à sua imagem e em função de seus interesses. Por conseqüência, a educação é formação do homem pela sociedade, ou seja, o processo pelo qual a sociedade atua constantemente sobre o desenvolvimento do ser humano no intento de integrá-lo no modo de ser social vigente e de conduzi-lo a aceitar e buscar os fins coletivos. A situação atual da educação em saúde tem se fundamentado em uma concepção da educação popular pautada em Paulo Freire. Aprofundando as possibilidades que diferentes formas de abordagem educativas oferecem ao sujeito temos que na concepção bancária – denominação adotada por Paulo Freire – ou concepção ingênua – termo utilizado por Pinto – o educador é visto como um depositante e o educando como depositário, ou seja, o educador julga deter os conhecimentos e acredita que o educando nada sabe, nada traz consigo. O educador crê conhecer até mesmo as necessidades do educando, sem antes questioná-lo, ouví-lo. Assim, o que quer e vai ensinar será o que ele imagina que o educando quer aprender e também o que entende ser importante o educando saber (FREIRE, 1988). Tal concepção interessa ao educador, pois não permite que o educando adquira uma visão crítica, apenas devendo aceitar passivamente o que lhe é informado, narrado. O educador é quem pensa, é quem sabe, é quem disciplina, é quem escolhe e transfere o conteúdo e, em resumo, é o sujeito do processo. Já o educando é o pensado, é quem nada sabe, é o disciplinado, é quem se acomoda à escolha do educador, sendo um mero objeto. O primeiro detém o conhecimento, sabe analisar a situação e concluir o que é necessário para a formação do educando. Já os educandos são os que obedecem, sem questionar o educador, pois não conhecem nada, são ignorantes e precisam aprender (FREIRE, 1988, 2002). De forma oposta, pensando e propondo a educação em saúde sob a perspectiva da educação problematizadora, fundamentada em Paulo Freire, descortina-se um novo cenário. A educação problematizadora prevê uma relação dialógica, onde o educador aprende com o educando e vice-versa, o conhecimento não é apenas “depositado”, mas existe a preocupação de tornar o educando um indivíduo consciente, capaz de analisar fatos, expor suas opiniões e não aceitar passivamente o que lhe é imposto. Segundo Paulo Freire (1988), os educandos deixam seu papel de receptores e passam a ser críticos de seu processo educacional. Na educação problematizadora, também chamada libertadora, o educador considera a história do educando, respeita e utiliza os conhecimentos prévios dele, nunca se julgando detentor do saber, mas percebendo que também pode aprender com o educando, que, ao ter suas idéias respeitadas, consegue respeitar-se (FREIRE,1988). A estratégia problematizadora também é descrita por Maguerez apud Bordenave e Pereira (2001) que a representa por um “arco” que propõe idas e vindas à realidade para a resolução dos problemas. São os passos necessários para a aplicação dos princípios da pedagogia problematizadora. A primeira fase, identificada como observação da realidade, representa a visão da realidade segundo os sujeitos. A segunda fase, pontos-chave, é caracterizada pelo levantamento dos pontos-chave dos problemas observados, que funcionam como fatores associados a uma situação problema. A terceira fase, a teorização, representa a busca das causas dos problemas associados ao conhecimento existente sobre o mundo. A quarta-fase, hipótese de solução, representa a fase de planejamento de alternativas para a intervenção na realidade com a finalidade de modificá-la para a resolução dos problemas identificados. A quinta e última fase é, a aplicação à realidade, caracterizada pela intervenção na realidade, nas causas determinantes dos problemas identificados. A seguir apresentamos o diagrama que representa o método do “arco”. Método do Arco Teorização Pontos chave Hipótese de solução Aplicação a realidade Observação da realidade Realidade Quando levamos essas concepções que inicialmente, foram trabalhadas na área da educação, no interior de um sistema de ensino formal, para a área da saúde, nos deparamos com a pertinência dessa discussão para as práticas educativas em saúde. Retomando a informação da pesquisa da UIPES, apenas 11% das ações em saúde são planejadas com consideração ao que a população, usuária do serviço público de saúde, vê como relevante e realmente necessário (LIMA el al., 1998). Podemos então concluir que o planejamento é feito pelos “educadores” que não estabelecem uma relação de diálogo com a comunidade, a fim de considerar suas necessidades reais, ou seja, não partem efetivamente da realidade, mas de seus conceitos sobre essa. É necessário que os profissionais de saúde levem em conta o saber expresso no senso comum, o saber da população – passando a considerar que todos os sujeitos são portadores de saberes diferentes, expressando o modo de vida dos grupos dominados e núcleos de bom senso, sendo portadores de elementos de resistência – e deixem de lado a visão de que senso comum é opinião, conhecimento vulgar, forma de conhecimento não verdadeiro com o qual precisam romper para tornar possível o verdadeiro (LEFÉVRE, 1999). Precisamos ver o senso comum como um sistema cultural, com suas crenças e juízos, com noções vagas, porém mais fortes que uma simples relação de pensamentos iguais e apenas reproduzidos por todos os membros de um grupo que vive em comunidade (FREIRE, 1988). O senso comum retrata pensamentos organizados, pois suas opiniões foram resgatadas diretamente de sua experiência (FREIRE, 1988). É preciso existir diálogo entre profissionais de saúde e usuários do serviço. Apenas dessa maneira, conseguiremos entender as reais necessidades da população e concretizar projetos que satisfaçam essas necessidades, e não que apenas encubram diagnósticos realizados por pessoas que vivem longe da realidade e atendam ao interesse de uma minoria da sociedade (FREIRE, 1988). Enfim, temos que a prática problematizadora é aquela onde o educador e o educando criam uma relação dialógica, onde todas as idéias são importantes, ninguém sabe mais ou menos, apenas detêm conhecimentos diferentes que se complementam (FREIRE,1988). 2.3 Educação Nutricional 2.3.1 Recuperação Histórica Em sua tese de doutorado (1996) e em um texto publicado em 1997, Boog apresenta um resgate dos principais autores que trabalharam com a educação nutricional e publicaram suas obras com o aval da OMS. A seguir, trataremos das principais idéias dos textos de Boog (1996, 1997 e 1999), respeitando sua cronologia. Acrescentaremos, porém, dados referidos por outros autores, de modo especial L’Abbate (1988, 1989), assim como de Vasconcelos (2002), sobretudo quando retomamos a história da formação do profissional nutricionista no país. Nosso recorte histórico inicia-se na década de 30, onde temos o início da publicação de trabalhos mais sistematizados sobre a Educação Nutricional. - Década de 30 Nesta década, encontramos centros de estudos em países de todos os continentes se interessando pela temática nutrição e alimentação. Em 1934, conseguiu-se realizar uma síntese dos principais temas tratados até então, respeitando a trajetória política dos Programas de Alimentação e Nutrição (L’ABBATE, 1988). No Brasil desse período, observamos, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, a formação de grupos especializados em estudos relacionados a nutrologia. No período formaram-se duas vertentes de estudo. A vertente hegemônica da época tratava os problemas alimentares sob uma perspectiva social. Paralelamente, encontrávamos uma linha de discussão técnica, que tinha como principal preocupação realizar pesquisas sofisticadas e publicar os resultados obtidos (L’ABBATE, 1988). Um estudioso de destaque na vertente social da nutrição no Brasil foi Josué de Castro, que realizou os primeiros inquéritos alimentares do país, os quais visavam “medir, avaliar e quantificar as carências alimentares a partir de uma comparação com as despesas familiares com alimentação, incluindo, às vezes, as despesas familiares com outros gastos” (L’ABBATE, 1988, p.90). Através dos inquéritos, foi possível fornecer uma explicação científica para uma realidade já conhecida – condições de vida e alimentação precárias – “elevando” essas condições a dados científicos (L’ABBATE, 1988). Nesse momento, os nutrólogos iniciaram uma campanha visando ajustar a produção e comercialização de alimentos, assim como educar a população utilizando exemplos e explicações de como se alimentar adequadamente. Através do empenho nessa campanha, procuravam meios para criar medidas políticas a fim de expandir para toda a população suas idéias (L’ABBATE, 1988). Não encontramos referências explícitas sobre a proposta de educação sugerida pelos médicos nutrólogos da época. Provavelmente isso se deva ao fato de tratar-se de um momento em que as idéias amadureciam e em que ainda se buscava o apoio estatal para difundi-las. Dessa maneira, não oficializaram uma metodologia para atingir seus objetivos de educar a população. No entanto, realizando uma análise dos textos pudemos perceber que, já na década de 30, a abordagem utilizada nesse processo de educação se pautou mais na questão de “distribuir” informações, do que na educação propriamente dita. Vale dizer que nas décadas seguintes essa primeira análise vai se comprovando. - Década de 40 Nesta década, evidenciávamos o interesse pela educação nutricional, sendo que nos Estados Unidos foi formado um comitê de profissionais de diversas áreas - médicos, antropólogos, educadores, psicólogos - com a finalidade de investigar métodos eficazes para proporcionar as mudanças de hábitos alimentares (BOOG, 1999). No Brasil, foram criados em 1940 o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS) e o Serviço Central de Alimentação, com a finalidade de servir alimentação para os trabalhadores das empresas e promover a educação destes, para que adotassem hábitos alimentares mais adequados. A ação educativa da época ocorria através da distribuição de folhetos, cartazes e panfletos, que visavam transmitir aos trabalhadores conhecimentos sobre os valores nutritivos dos alimentos e as regras para uma alimentação adequada, de acordo com a visão dos nutrólogos. Nessa época o Instituto de Aposentadoria e Previdência dos Industriários (IAPI) era dirigido por Josué de Castro (L’ABBATE, 1988; BOOG, 1997). Ainda nos anos 40, são criados o Serviço Técnico da Alimentação Nacional (STAN) e o Instituto de Tecnologia Alimentar (ITA), que dão início a parceria entre os nutrólogos e a indústria (L’ABBATE, 1988). Os nutrólogos, nesse período, recebiam total apoio do Estado e tinham suas idéias colocadas em prática com o aval do governo, além de contarem também com seu apoio financeiro. A indústria se beneficiava da relação nutrólogos e governo, na medida em que usufruía de investimentos da União para pesquisar novas técnicas de produção de alimentos industrializados. Um bom exemplo dos benefícios dessa parceria pode ser observado em relação ao desenvolvimento de técnicas de desidratação que, por ser o alimento desidratado utilizado sobretudo na merenda escolar, torna o Estado um dos maiores compradores da indústria alimentícia (L’ABBATE, 1988). Vimos que nessa década, Josué de Castro continua se empenhando para a educação alimentar dos trabalhadores e também uma educação de nível mais técnico para as elites. Em seu texto, L’Abbate (1988, p.110) deixa clara a base dessa educação “educar é transmitir conhecimentos”. Essa “transmissão” de conhecimentos era realizada através de palestras radiofônicas, quando se destinava a população de um modo geral, e através de uma publicação específica - Arquivos Brasileiros de Nutrição - quando seu objetivo era informar a elite (L’ABBATE, 1988). Nesse mesmo período, com o intuito de formar profissionais para auxiliá-los nesse “processo educacional”, os nutrólogos idealizaram e formaram os quatro primeiros cursos de nutrição no país (VASCONCELOS, 2002). Inicialmente, os profissionais se formavam no nível técnico e, devido a influências dos Estados Unidos, Canadá e Europa, eram chamados de dietistas. Depois, através de influências argentinas, o curso passou a ser universitário (VASCONCELOS, 2002). Através de relações de interesses, foi se dando a educação nutricional na década de 40. Esses interesses se davam entre os nutrólogos e o Estado, a indústria de alimentos e os nutrólogos. No entanto nessas relações os interesses da população acabaram sendo ignorados, pois, em momento algum, ouviu-se as classes populares, que eram tomadas como ignorantes. Vimos uma educação de transmissão de conhecimentos, do técnico detentor do saber para a população ignorante, que precisava aprender a se alimentar. Outra questão levantada diz respeito ao conteúdo ensinado. Era um momento em que se vendia como alimentação nutricionalmente adequada os novos produtos desidratados da indústria. Estes produtos eram mais caros do que os gêneros in natura e de sabor desagradável ao paladar brasileiro. Como exemplo podemos citar o leite em pó e a soja. - Década de 50 Embora na década de 30 já observássemos o interesse pela educação nutricional, foi apenas em 1951 que Ritchie publicou o primeiro livro tratando do assunto (BOOG, 1996, 1997). Ritchie nos coloca frente a uma concepção mais abrangente da educação nutricional, não se pautando apenas nos aspectos “biológicos” da alimentação, mas enfatizando que se alimentar configura-se num ato social e não pode ser despido da cultura, etnia, religiosidade, dentre outros fatores inerentes aos seres humanos (BOOG, 1996, 1997). Outro item abordado em sua obra discute o planejamento de programas verticais e o treinamento dos sujeitos que o executarão. A autora orienta ainda métodos de ensino e avaliação dos programas. Para Boog, esse trabalho de Ritchie destina-se a agrônomos e economistas domésticos, profissionais que deveriam se responsabilizar pela educação nutricional da época (BOOG, 1996, 1997). Boog (1996, 1997) deixa claro que para Ritchie a educação nutricional é capaz de promover a melhoria nas condições de alimentação da população (grifo nosso) a que se destina. Embora essa publicação tenha partido de uma concepção mais ampla da educação nutricional, não podemos deixar de relatar que todos os conceitos teóricos abordados no texto foram colocados em prática em países em desenvolvimento, como o Irã, Jamaica, Índia, dentre outros. Esse fato mostra que os objetivos não foram unicamente realizar uma educação nutricional, mas sim, acalmar o clima de tensão social nesses países e coibir possíveis movimentos socialistas, comuns na época (BOOG, 1996, 1997). No Brasil, o nutrólogo Josué de Castro inicia sua carreira na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), tendo como marco uma conferência realizada em 1950, no Rio de Janeiro (L’ABBATE, 1988). Nesse período, a organização das Nações Unidas (ONU) inicia um programa de ajuda alimentar a vários países, dentre eles o Brasil. Fica evidente que esse programa objetivou promover o escoamento do excedente agrícola dos Estados Unidos e do Canadá. É somente devido a ajuda recebida pelos países com produção agrícola excedente que, em 1955, é institucionalizada a Campanha Nacional de Merenda Escolar (L’ABBATE, 1988). Vários programas para intervenção nutricional são criados na época, no entanto, mesmo observando que muitos deles se tratem de programas de assistência e educação, L’Abbate (1988) não menciona a metodologia específica utilizada para alcançar o objetivo de educar a população. Através de depoimentos citados no texto e de uma única observação da autora sobre a forma como os profissionais viam esse processo educativo, pudemos perceber que tratava-se mais de uma transmissão de conhecimentos do que um processo educativo pautado em uma concepção que respeitasse os sujeitos, suas histórias de vida, seus desejos e necessidades. Percebemos que a educação nutricional não passou por qualquer evolução nessa década, mantendo-se apenas como uma atividade paliativa na resolução dos problemas da fome, além do objetivo de minimizar tensões entre a classe trabalhadora e o governo. Em relação a formação dos nutricionistas, temos que na década de 50 foram criados mais dois cursos, um na Bahia e outro em Pernambuco (VASCONCELOS, 2002). - Década de 60 Nessa década, Boog (1996) analisa as autoras Burgess e Dean e o segundo livro lançado por Ritchie, em 1968. Ambos os livros foram lançados com a aprovação da OMS e seguem praticamente a mesma linha da publicação da década anterior. Continuam enfatizando que a educação nutricional engloba muitos outros aspectos, e não apenas uma transmissão de informações. Relatam ainda que não deve ser destinada exclusivamente as populações pobres, mas sim a todos os indivíduos (BOOG, 1996, 1997). Como outrora, as obras ainda não estabelecem um profissional ou setor responsável pela educação nutricional (BOOG, 1996, 1997). Burgess e Dean, em 1963, trazem uma importante colaboração referente a incorporação de técnicas de ensino behaviorista2 à educação nutricional, o que torna necessário um diagnóstico do processo educativo e a formulação de objetivos educativos (BOOG, 1996, 1997). Alguns anos depois, ainda na década de 60, Ritchie, em seu segundo livro, observa que técnicos em nutrição não eram vistos como responsáveis diretos pela execução dos programas de educação nutricional, mas apenas assessores de outros profissionais. A autora mantém a ênfase aos aspectos sociais da alimentação e a visão da educação nutricional, como motivadores para alteração de padrões alimentares (BOOG, 1996, 1997). 2 Ensino behaviorista ou comportamentalista se caracteriza pelo primado do objeto (empirismo). O conhecimento é uma ‘descoberta’ e é nova para o indivíduo que a faz. O que foi descoberto, porém, já se encontrava presente na realidade exterior. Considera-se o organismo sujeito às contingências do meio, sendo o conhecimento uma cópia de algo que simplesmente é dado no mundo externo. (MIZUKAMI, 1986. p. 19). No Brasil, as atividades desenvolvidas na área de educação nutricional não sofrem muitas transformações, mantendo seu caráter na transmissão das informações. Vimos que existe uma preocupação em diminuir os níveis de subnutrição e aumentar a produção de alimentos. No entanto, os interesses que envolvem essa preocupação são unicamente econômicos, pois o homem é visto como uma máquina que precisa trabalhar e gerar lucros e, para que desempenhe de forma satisfatória seu trabalho, precisa estar minimamente nutrido, daí a preocupação em diminuir os níveis de subnutrição (L’ABBATE, 1988). Embora a educação nutricional não tenha sofrido mudanças, os cursos de nutrição passam por uma reestruturação e o que vimos nessa década é o surgimento da Nutrição e Saúde Pública. Outro fato interessante, ocorrido no período, é que o termo nutricionista foi oficializado em 1966, embora já fosse usado em 1939 e 1957 (VASCONCELOS, 2002). - Década de 70 Jelliffe, em 1970, aborda dois temas inéditos em relação a educação nutricional. O primeiro diz respeito ao sofrimento do ser humano devido as más condições de alimentação e de saúde. O segundo se refere ao estabelecimento de metas educativas partindo dos problemas de saúde das crianças da região. Outro ponto em que o autor se diferencia das autoras citadas anteriormente é que, segundo elas, a educação nutricional era necessária a todos os sujeitos, sendo uma educação global. Jelliffe prioriza a problemática da saúde infantil. Como destaque, seria necessário determinar seu componente nutricional e os hábitos alimentares nocivos deveriam sofrer modificações (BOOG, 1996, 1997). Neste momento, torna-se clara a alteração do enfoque de caráter social para o médico. A educação nutricional deixa seu ideal pedagógico-social e passa a resolver problemas específicos, identificados através da epidemiologia da doença (BOOG, 1996, 1997). No ano de 1976, a autora Bosley afirma que a educação nutricional não se trata apenas de transmissão de conhecimentos relativos aos alimentos e ao modo de se alimentar. Através dela o profissional deveria criar nos sujeitos a vontade de mudar sua alimentação, procurando melhorá-la, porém sempre respeitando sua cultura, seus costumes, preferências e formas de preparo dos alimentos (BOOG, 1996, 1997). É com o trabalho de Bosley que o nutricionista é visto, pela primeira vez, como o responsável técnico da educação nutricional e não apenas como seu executor (BOOG, 1996, 1997). Caberia ao profissional, portanto, as fases de concepção e execução de Programas de Educação Nutricional. No Brasil, é criado o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN), no qual se centralizam os planos e programas em alimentação e nutrição. Este instituto está vinculado ao Ministério da Saúde (L’ABBATE, 1989). Nesse período os profissionais ligados ao INAN apresentam características mais técnicas do que sociais, quando realizam seus estudos sobre alimentação e nutrição (L’ABBATE, 1989). Vimos, ainda na década de 70, a criação do Plano Nacional do Desenvolvimento I e II (PND), e também do Programa Nacional de Alimentação e Nutrição I e II (PRONAN) (L’ABBATE, 1989). Esses programas são paliativos, não procurando sanar o problema da má nutrição, através de resoluções que englobem as várias frentes de combate, principalmente a distribuição de renda desigual. Os programas preocupam-se com a suplementação de alimentos para a população carente, mas não melhoram suas condições de vida. A nutrição não é encarada como um amplo universo, mas sim de uma maneira restrita. Vasconcelos (2002) relata que devido a uma exigência do PRONAN - ampliação da formação e capacitação de profissionais para atuarem na área de nutrição – o número de cursos existentes no país saltou de 7 para 30. Observouse também que universidades privadas passaram investir na criação desses cursos (VASCONCELOS, 2002). Outro programa criado nos anos 70 foi o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Embora o programa tenha nascido com objetivos nobres, como melhorar as condições de saúde dos trabalhadores, pudemos notar que seu interesse principal relacionava-se com o aumento dos lucros. Os objetivos de diminuir os índices de faltas no trabalho, bem como os de acidentes, visavam acima de tudo o aumento da produtividade (L’ABBATE, 1989). Enquanto, internacionalmente, a educação nutricional demonstrava preocupação com a saúde das crianças, procurando tornar o padrão alimentar mais adequado, mas sem perder de vista o respeito a cultura e hábitos dos indivíduos, no Brasil, continuavam-se as preocupações com o lucro das empresas, e a educação nutricional era concebida apenas como um instrumento para tornar esse aumento possível. Internacionalmente, o nutricionista aparece como o responsável técnico por ações educativas em nutrição. No Brasil, os programas não citam a participação do profissional em seu planejamento e nem em sua execução, embora Vasconcelos afirme que o número de cursos para formação do nutricionista tenha se expandido, devido a solicitação de profissionais na área. - Década de 80 A OPAS, em conjunto com a OMS, publica em 1982 um trabalho de Mushkin, segundo o qual, de acordo com a autora, o desenvolvimento econômico e a educação sofrem influências dos investimentos na área da nutrição. No primeiro caso, um trabalhador bem nutrido teria uma maior capacidade para o trabalho e conseqüentemente aumentaria os lucros para o seu empregador, que, por sua vez, poderia investir mais em sua produção e favorecer o desenvolvimento local. Já no segundo caso, as crianças quando bem alimentadas apresentariam uma menor incidência de doenças e de faltas escolares, o que contribuiria para um ensino mais eficaz (BOOG, 1996, 1997). Devido a essa visão, na qual os investimentos em nutrição são transformados em benefícios econômicos, deu-se início às pesquisas para avaliar o impacto dos programas nutricionais (BOOG, 1996, 1997). Nesse momento, a nutrição deixou de ser um direito de todos os seres humanos e passou a ser apenas uma maneira para obtenção de maiores lucros. No ano seguinte, Jelliffe, publicou um texto afirmando ser a educação nutricional um processo educativo que deveria atingir a todos, propiciando a introdução de hábitos alimentares saudáveis. Ela faz uma revisão do trabalho de vários autores, procurando enfatizar a construção de conceitos a partir das experiências relatadas por eles, ou seja, valoriza a participação ativa dos pacientes no processo de educação nutricional. Assim como outros autores, Jelliffe não faz referências sobre profissionais responsáveis pela educação nutricional (BOOG, 1996, 1997). Ainda em 1983, a OPAS publica um manual de treinamento voltado para os responsáveis pela capacitação, supervisão e orientação dos trabalhos comunitários de saúde. Através deste manual, almejava-se melhorar alguns aspectos relacionados à nutrição, utilizando os serviços de atenção primária de saúde (BOOG, 1996, 1997). Esse manual consta basicamente de um caráter instrucional. Sua prioridade é desenvolver habilidades específicas, sem levantar discussões e problematizações a respeito dos assuntos abordados (BOOG, 1996, 1997). Em 1988 a OMS publica outro manual, a partir de uma revisão daquele, publicado anteriormente, em 1983. Ainda em 1988, Oshaug, Benbouzid e Guilbert publicam, através da OMS, um manual em que se constata que a grande preocupação dos autores relaciona-se com as técnicas de planejamento e avaliação de um programa 3. Nesse contexto, muito pouco sobre nutrição foi identificado. Por outro lado observa-se a ênfase no planejamento pedagógico. O manual não considera em 3 Preocupação decorrente do ideário behaviorista implementado na Educação, tendo o planejamento sistêmico como importante característica. nenhum momento os aspectos sociais que permeariam os hábitos alimentares (BOOG, 1996, 1997). Nos anos 80, a educação nutricional apresenta momentos que julgamos serem um retrocesso. Deixam-se de lado aspectos sociais da alimentação e passam a se preocupar apenas com questões pedagógicas. Iniciase um processo que objetivava mais a obtenção de lucros pelas empresas que se associavam ao governo e aos nutrólogos, do que o puro interesse de melhorar as condições nutricionais da população. Esses são fatores que julgamos retrocessos, pois a educação nutricional perde seu caráter social e sua preocupação em garantir bem estar a população, respeitando sua etnia, cultura, religião (BOOG, 1996, 1997). - Década de 90 a 2002 Uma vez mais, a OPAS publica um manual para ser utilizado nos serviços primários de saúde, objetivando melhorar algumas questões relacionadas à nutrição. Esse manual basicamente trata dos mesmos assuntos dos manuais anteriores, de 1983 e 1988, sendo apenas uma revisão ampliada (BOOG, 1996, 1997). Já em 1991, para a OMS, um dos papéis da educação é fomentar hábitos saudáveis e a escola seria o local onde isso poderia ocorrer. Desta maneira, edita-se um guia para os professores do ensino fundamental (BOOG, 1996, 1997). Williams, Moon e Williams, autores desse guia, abordam os assuntos sem fazer referência as questões sociais, além de ignorarem as condições de trabalho dos professores e a finalidade básica da escola (BOOG, 1996, 1997). Mantém-se a falta da visão social da educação nutricional. O que vemos de novo, nos anos 90, é o enfoque dado para a escola como um caminho para se realizar a educação. No Brasil, com o início da década, houve o fim de muitos programas federais existentes, porém alguns programas se mantiveram, como o caso do PAT, e outros foram criados. Em 1993, foi criado o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA – e, pela primeira vez, houve a preocupação em se incluírem questões como a geração de empregos e renda, em um programa de combate à fome e à miséria. O programa foi bem sucedido em seu relativamente curto período de existência (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Após dois anos da criação do CONSEA, o governo Fernando Henrique Cardoso iniciava seu primeiro mandato e extinguia o programa. Em seu lugar o governo criou o Conselho da Comunidade Solidária que, embora apresentasse estrutura semelhante ao programa extinto, possuía objetivos diferentes. Esse conselho era caracterizado como um organismo de consulta, e a questão da segurança alimentar foi deixando de ser prioridade para as políticas governamentais da época (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Dentre os programas específicos da década, destacamos a continuidade do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), que mantinha os objetivos de sua criação, ou seja, através da melhora das condições nutricionais dos trabalhadores visava reduzir os acidentes de trabalho e aumentar a produtividade. Além dessas vantagens aos empregadores, o governo continuava fornecendo-lhes incentivos fiscais para que adotassem o PAT em suas empresas (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Isso nos mostra que, mesmo após anos de sua criação, o PAT ainda servia a interesses dos donos das empresas, que visavam apenas aumentar seus lucros e somente por esse fator se preocupavam em oferecer uma alimentação saudável e nutricionalmente adequada a seus funcionários. Com a extinção do INAN, criou-se o ICCN – Incentivo ao Combate às Carências Nutricionais –, que contava com a distribuição de leite e óleo de soja como forma de combate às carências nutricionais, além de uma parceria com a Pastoral da Criança para o fornecimento da multimistura para crianças desnutridas (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Esse programa foi progressivamente substituído, a partir de setembro de 2001, pelo Bolsa Alimentação. O Bolsa Alimentação fornecia R$15,00 para gestantes e mães de crianças até seis anos de idade, em situação de risco nutricional. Vale lembrar que o valor máximo recebido por família era de R$45,00 (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). O Programa Cestas Básicas, PRODEA, criado pelo governo de Fernando Collor de Melo, com o nome de “Gente da gente”, se estendeu ao governo FHC. Sua base estava na distribuição dos alimentos armazenados nos estoques públicos e prestes a se deteriorarem. As cestas eram distribuídas em casos emergenciais, como enchentes e secas (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Muitos programas foram criados, como os cupons de alimentação, o Bolsa Escola, as políticas de renda mínima, dentre outros. Esses programas procuravam estancar a situação de miséria em que muitos brasileiros viviam, porém quase sempre foram medidas paliativas. Oferecer alimentos para indivíduos que passam fome não deixa de ser uma atitude necessária, porém não oferecer oportunidades de melhora para estes citados, significa mantê-los em suas condições de miséria e submissão às políticas criadas para “combater” a fome e a miséria. Percebemos que os programas vigentes na década de 1990 não possuíam qualquer preocupação com a educação nutricional, que permaneceu esquecida durante esse período. Em relação a formação do profissional nutricionista no Brasil, observou-se um aumento ainda maior no número de cursos oferecidos no país, sendo que de 7 cursos oferecidos em 1975, em 2000 somavam um total de 106 e 8000 vagas (VASCONCELOS, 2002). - Atualmente Desde 1993, o direito à alimentação foi colocado ao lado dos demais direitos do homem, estabelecidos em 1948, na Carta dos Direitos Humanos. No Brasil, existe, desde 2001, uma proposta de Emenda Constitucional para alteração do artigo 6º da Constituição Brasileira. Atualmente encontramos em nossa constituição o “direito à vida”, que não deixa de forma clara o direito à alimentação, mas apenas implicitamente. A emenda em questão propõe a inclusão da alimentação como direito fundamental do homem (BELIK e GROSSI, 2003). Através da inclusão da alimentação como um direito do homem, ela deixa de ser apenas um atendimento que pode ser oferecido à população e passa a ser uma função constitucional do Estado, que passa a ter obrigação de garantir a segurança alimentar de sua população (BELIK e GROSSI, 2003). Embora exista uma proposta de emenda constitucional, o Brasil não tem condições de fornecer um “serviço público de alimentação” (BELIK e GROSSI, 2003, p.05). Devido às enormes carências apresentadas por grande parte da população, o Brasil, assim como outros países de terceiro mundo, não consegue garantir todos os direitos básicos para toda sua população. No entanto, sabemos que o direito à alimentação poderia ser garantido a toda a população carente, mas seria necessário selecionar as famílias que apresentem maior carência alimentar, para que recebessem o auxílio do Estado (BELIK e GROSSI, 2003). A garantia de um dever constitucional não atingiria toda a população carente, mas não podemos deixar de enfatizar, nesse momento, o programa lançado em 2003, pelo governo que acabava de assumir seu mandato. Esse novo programa é denominado “Programa Fome Zero” (INSTITUTO CIDADANIA, 2001) e nele, vemos serem retomados aspectos que, haviam sido abordados anteriormente, na década de 90 - geração de empregos e renda -, mas que foram deixados de lado por todo o período restante. No Programa Fome Zero, também existe a preocupação pontual de saciar a fome de milhares de brasileiros que vivem em situação de extrema necessidade. No entanto, o que o diferencia dos programas anteriores é a preocupação em criar condições para que esses indivíduos possam deixar essa situação de miséria e entrar em um processo de desenvolvimento autosustentável (BELIK e GROSSI, 2003). Dentro desse contexto, o programa visa mudar o modelo de desenvolvimento econômico vigente no país. Modelo esse que gera a exclusão social, sendo esse fator o principal responsável pela fome, pelo desemprego, pela concentração de renda e de terra e pela miséria (INSTITUTO CIDADANIA, 2001). Desta maneira o objetivo do Programa Fome Zero é: “Propor um conjunto integrado de políticas com o objetivo de garantir a segurança alimentar.” (INSTITUTO CIDADANIA, 2001, p. 83). E ainda: [para assegurar] maiores níveis de crescimento e de emprego e melhores salários, é fundamental de um lado que se implementem ações para expandir a demanda por meio do barateamento da alimentação para a população de mais baixa renda; e de outro, ações visando a assistir diretamente aquela parcela da população que já sofre de fome e que pode vir a ser comprometida se não se implantar algo de caráter emergencial para acudi-las. (INSTITUTO CIDADANIA 2001, p.81 - 82). Para cumprir seu objetivo e assegurar níveis de crescimento, emprego e a melhora dos salários o programa se pauta em três políticas distintas: as políticas estruturais, as políticas específicas e, por fim, as políticas locais. O Programa Fome Zero, assim como outros programas citados nesse capítulo, são ações próprias da política social que, visa amenizar as conseqüências das políticas realizadas, as quais levaram a acumulação de bens por parte de alguns e a falta de subsídios básicos para muitos (ABRANCHES, 1998). A política social: Reflete, assim, a direção política das relações econômicas. A combinação específica, imposta pela correlação efetiva de forças, de incentivos à acumulação e ao crescimento, recursos para a provisão de meios de subsistência aos mais carentes e ações redistributivas visando a alcançar um certo patamar de eqüidade. (ABRANCHES, S.H., 1998, p.10). As ações pertinentes à política social se dão em 3 linhas principais. A primeira linha requer ações a médio e longo prazo, que visem corrigir os processos que levaram a pobreza já enraizada na sociedade. É uma política social que busca resultados permanentes, e para isso procura modificar o padrão de consumo, assim como alterar a estrutura de oportunidades da sociedade. Essa primeira linha traz mudanças nas políticas agrícolas, de abastecimento e industriais (ABRANCHES, 1998). Medidas de curto e médio prazo fazem parte da segunda linha de ações da política social. Essas requerem uma efetiva participação do Estado que, deve criar condições e oportunidades para que, os indivíduos que vivem em condições precárias, adquiram condições de acesso aos bens essenciais, assim como, se insiram no mercado de trabalho (ABRANCHES, 1998). Programas visando amenizar os efeitos mais drásticos da pobreza, fazem parte da terceira linha de ações, que deve ocorrer a curto prazo. Para isso, medidas na estrutura fiscal do Estado seriam pertinentes (ABRANCHES, 1998). O Programa Fome Zero, traz um planejamento que procura atuar nas 3 linhas de ação das políticas sociais. A seguir transcrevemos do site oficial4 do programa suas três políticas de atuação: Políticas Estruturais São voltadas para as causas profundas da fome e da pobreza, que devem ser desenvolvidas pelo poder público: Geração de Emprego e Renda; Previdência Social Universal; Incentivo à Agricultura Familiar; Intensificação da Reforma Agrária; Bolsa Escola e Renda Mínima; Segurança e Qualidade dos Alimentos Políticas Específicas São voltadas para atender diretamente às famílias carentes, no que se refere ao acesso ao alimento. Podem ser desenvolvidas pelos governos dos estados, dos municípios, e pela sociedade civil organizada: Doação de Cestas Básicas Emergenciais; Combate à Desnutrição Materno-Infantil; Cozinhas Comunitárias; Ampliação da Merenda Escolar; Restaurantes Populares; Programa Cartão-Alimentação; Ampliação do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador); Bancos de Alimentos; Manutenção de Estoques de Segurança; Educação para o Consumo e Educação Alimentar; Segurança e Qualidade dos Alimentos. Políticas Locais Serão implantadas por prefeituras e pela sociedade civil organizada em cada município: Nas áreas rurais: apoio à agricultura familiar e à produção para consumo próprio; Nas pequenas e médias cidades: Bancos de Alimentos, parceria com varejistas para doação de alimentos, feira do produtor, modernização dos equipamentos de abastecimento, agricultura urbana; Nas cidades grandes: restaurantes populares, bancos de alimentos, parcerias com varejistas, modernização dos equipamentos de abastecimento. (PROGRAMA FOME ZERO, 2003). Vemos que entre as políticas específicas existe uma preocupação com 4 a educação nutricional http://www.fomezero.gov.br dos indivíduos, porém não encontramos especificações a respeito da metodologia proposta pelo governo para realizar esse trabalho. Finalizando nossa apresentação do Programa Fome Zero, temos que o programa é inovador no sentido de buscar soluções definitivas para o problema da fome e miséria no país. Essas soluções se baseiam em modificações da economia vigente, visando com isso a inclusão social da maioria miserável do país. Para que essa inclusão ocorra, há proposta de políticas que melhorem a renda desses indivíduos. Teoricamente, o programa busca solucionar um dos maiores problemas da população brasileira, porém, na prática, ao final de um ano da implementação do Programa Fome Zero, ainda descortina-se um cenário desalentador. As políticas emergenciais, assim como outrora, são as únicas colocadas em prática até momento. Já as políticas que vislumbram uma solução definitiva para o problema da fome e da miséria continuam no papel. Esperamos que no decorrer dos anos, as políticas estruturais, específicas e locais, compreendidas no Programa Fome Zero, possam ser implementadas. 2.3.2 Relembrando Terminada nossa recuperação histórica da educação nutricional através de publicações da OPAS e OMS, cabe dizer que a educação nutricional foi se delineando como um retrato cultural de cada época estudada. Como todo processo educativo, a educação nutricional não pode deixar de existir isenta dos interesses das classes dominantes. Devido a essa característica vemos o interesse em transformar a classe proletariada em uma classe suficientemente forte e apta ao trabalho (PINTO, 2001). Desta maneira, a questão central da educação nutricional se deu em torno de questões econômicas, em que métodos para levantamento de dados antropométricos foram criados, a fim de se avaliar o estado nutricional e, desta maneira, avaliar se os programas estavam sendo eficientes e capazes de transformar trabalhadores desnutridos em bem alimentados, em máquinas de produtividade. Outra grande preocupação foi com a prevenção da desnutrição e da desidratação (BOOG, 1996). Quando a educação nutricional poderia ser utilizada para prevenção de doenças crônico-degenerativas, em que os hábitos alimentares passam a constituir um risco para a saúde, esta área foi retirada de cena (BOOG, 1996). Valente (1986) e Boog (1996) ainda ressaltam que os métodos educativos tradicionais utilizados se aproximavam mais de uma forma de instruir os indivíduos, de treiná-los, do que de transformá-los em cidadãos críticos e capazes de buscar as transformações necessárias para seu melhor bem estar. O processo de educação nutricional partiu da premissa de que a população é ignorante e de que, individualmente, os sujeitos são os responsáveis pela sua desnutrição ou sua obesidade (VALENTE, 1986). Para o autor, a educação nutricional, além de educar para que o indivíduo saia de seu estado de nutrição inadequado, também apresenta uma função social de eliminar as diferenças existentes, fazendo, através da socialização de conhecimentos, que o desnutrido aprenda não passar fome e o obeso a comer de forma equilibrada (VALENTE, 1986). Nesse texto, fica explícito que o principal objetivo da educação nutricional é o fortalecimento das classes populares, a fim de que, possam mudar a organização social de exploração em que se encontram. Além das ações educativas ações políticas são colocadas como pilares para se alcançar as mudanças desejadas, deixando clara a ênfase de que a educação constitui-se a mediação para que as ações políticas possam se constituir (VALENTE, 1986). Notamos, desta maneira, que a educação nutricional não foi utilizada, ao longo dos anos, para uma efetiva ação educativa da população, mas sim como mais uma manobra das classes dominantes para “domesticarem” os sujeitos menos favorecidos de sua nação. 2.3.3 Definição Para a tarefa de definir educação nutricional, faz-se necessário identificarmos as estreitas relações entre a Educação Nutricional e a Educação em Saúde. Desta forma, relembramos o conceito de Educação em Saúde adotado em nosso trabalho: A educação em saúde deixa de ser uma atividade a mais realizada nos serviços para ser algo que atinge e reorienta a diversidade de práticas aí realizadas. Passa a ser um instrumento de construção da participação popular nos serviços de saúde e, ao mesmo tempo, de aprofundamento da intervenção da ciência na vida cotidiana das famílias e da sociedade. (VASCONCELOS, 2001, p.30). Vasconcelos (2001) ainda acrescenta que a Educação em Saúde: Não é o único projeto pedagógico a valorizar a diversidade e a heterogeneidade dos grupos sociais, a intercomunicação entre os diferentes atores sociais, o compromisso com as classes subalternas, as iniciativas dos educandos e o diálogo entre o saber popular e o saber científico. (VASCONCELOS, 2001, p.30). Dessa forma, podemos afirmar que a educação nutricional não pode deixar de respeitar as necessidades colocadas pela população a que se destina, e sim, firmar com ela um compromisso de diálogo e respeito. Durante nossas leituras não encontramos um conceito de Educação Nutricional que se adequasse ao objetivo de nosso trabalho. Os conceitos encontrados se respaldavam em uma concepção que deixava de lado o caráter transformador e libertador do processo educacional, para colocar a Educação Nutricional mais como uma imposição do profissional de saúde, detentor do saber, sobre a população, ignorante. Diante da dificuldade em encontrarmos um conceito que se adequasse ao propósito deste trabalho, resolvemos criar um conceito próprio. Nosso conceito tem como base Boog (1996), que, em sua tese de doutorado, nos coloca frente às diferenças entre orientação nutricional e educação nutricional. Assim sendo para nosso trabalho elaboramos como conceito de Educação Nutricional: “Educação Nutricional é, pois um processo educativo no qual, através da união de conhecimentos e experiências do educador e do educando, vislumbra-se tornar os sujeitos autônomos e seguros para realizarem suas escolhas alimentares de forma que garantam uma alimentação saudável e prazerosa, propiciando, então, o atendimento de suas necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais.” (LIMA, 2004, p.81). Chamamos também a atenção para o fato de que a educação nutricional, como especialidade, não poder atender aos objetivos a que se propõe, quando os indivíduos não possuem condições mínimas para sua sobrevivência. Da mesma forma, ela não os atinge se os indivíduos não estiverem preparados para entender ou colocar em prática as metas estabelecidas pela educação nutricional. Afinal de contas, muitos cidadãos com poder de aquisição razoável não se alimentam adequadamente. Desse fato podemos notar que o poder aquisitivo e a disposição de alimentos não proporcionam linearmente padrões alimentares adequados (MOTTA e BOOG, 1991). Nesse ponto poderíamos questionar: Qual ou quais são as relações possíveis entre Educação Nutricional e o paciente diabético, temática privilegiada nesse estudo? 2.3.4 Importância da Educação Nutricional e os objetivos desse Estudo Como estamos demonstrando ao longo de nosso texto, o enfoque nutricional tem grande importância para o controle do diabetes e das complicações relacionadas a patologia. Os indivíduos diabéticos deveriam receber orientações nutricionais e de saúde em geral, visando o controle metabólico, a melhora das habilidades de auto tratamento do paciente, a prevenção e o retardo de complicações, a diminuição das complicações agudas, a promoção de modificações no estilo de vida e a melhora da sua qualidade de vida (BOOG et al., 1999). Estas orientações poderiam ser trabalhadas por uma equipe interdisciplinar, na qual, diferentemente da equipe multidisciplinar, existe uma atuação conjunta dos especialistas e também uma discussão a respeito das abordagens utilizadas (BOOG et al., 1999). Relatado que as informações podem ser trabalhadas por equipe interdisciplinar, encontramos como representantes profissionais dessa equipe os médicos, nutricionistas, necessário enfermeiros, farmacêuticos e psicólogos. alertarmos que as informações relacionadas Faz-se às orientações nutricionais poderiam ser construídas com êxito, através da educação nutricional realizada pelo nutricionista. A educação nutricional constitui atividade privativa do profissional segundo a Lei Federal 8 341/91, que regulamenta a profissão de nutricionista, e faz parte das atribuições deste profissional em todos os campos de suas atividades (BOOG, 1996). Podemos, neste momento, dizer que a temática da educação nutricional, para que cumpra seus objetivos, necessita ter clareza conceitual para permitir uma intervenção adequada. Chegamos, assim, a diferenças de terminologia, pois estudando essa temática, encontramos uma relativa inespecificidade entre os termos orientação nutricional e educação nutricional. Seriam termos sinônimos? (MOTTA e BOOG, 1991). Encontramos novamente em Boog (1996) uma construção teórica que diferencia essa terminologia. Neste trabalho, assumiremos, como Boog, a Educação Nutricional para alcançarmos nosso objetivo pretendido. Num primeiro momento, podemos pensar que orientação e educação nutricional sejam apenas denominações diferentes para uma mesma atividade desempenhada pelo nutricionista, contudo cabe dedicarmos um espaço para colocarmos as diferenças entre orientação e educação nutricional. Temos que a orientação nutricional pode ser considerada uma imposição pontual de conceitos e “saberes” do profissional, pois enfatiza a mudança imediata dos hábitos alimentares, não se preocupando com os costumes, cultura, fatores sócio econômicos, ou outros que possam interferir nos hábitos alimentares dos indivíduos (BOOG,1996). Para a orientação nutricional, o profissional dita as regras da alimentação que o paciente deve ter, sendo que não são admitidos questionamentos e, muito menos, transgressões da dieta estabelecida (BOOG,1996). Entretanto, quando direcionamos nosso olhar à educação nutricional, temos uma completa mudança desse quadro, que passa a ser centralizado na relação de diálogo entre o paciente e o profissional. Juntos eles construirão o novo hábito alimentar necessário para a manutenção da saúde do indivíduo que convive com uma patologia (BOOG,1996). A educação nutricional leva em consideração a vida, os costumes que o paciente já traz consigo. Ela procura estabelecer uma relação de confiança entre paciente e profissional, o que permite esclarecimentos de dúvidas ou mesmo modificações no plano estabelecido, envolvimento de ambas as partes (BOOG,1996). Enfim, podemos concluir que educação nutricional e orientação nutricional se diferenciam no sentido da primeira ser um processo que visa, a médio e longo prazo, modificar e melhorar os hábitos alimentares dos indivíduos, enquanto a segunda prega uma mudança imediata destes hábitos, não aceitando transgressões (BOOG,1996). Para o propósito central deste trabalho, deveríamos considerar que o “tempo” para as alterações de hábitos alimentares precisaria ser flexível. As representações dos sujeitos sobre o comer e a comida necessitariam ser valorizadas. O diabetes poderia ser ressignificado como um marco para o crescimento e desenvolvimento do seu portador. Nesse processo, ainda esse paciente encontraria caminhos que consolidassem sua autonomia. No processo, desvios ou retrocessos seriam considerados previsíveis, porém em todo o percurso, definido a partir das necessidades dos pacientes, a perspectiva da esperança necessitaria ser enfatizada. A partir do exposto, o presente trabalho tem como objetivo geral: Buscar compreender o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético ao longo de um trabalho de educação nutricional. E como objetivos específicos: - Desenvolver uma prática de educação nutricional com os pacientes diabéticos atendidos no Programa Saúde da Família (PSF) do município de Araras. - Analisar o processo de construção do conhecimento dietoterápico, dos pacientes que participaram do percurso da Educação Nutricional. SEÇÃO 3. CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS: A METODOLOGIA DA PESQUISA ELEITA ________________________________________________________ 3. Considerações teóricas: A metodologia de pesquisa eleita Para o objetivo do presente trabalho, elegemos a Pesquisa Qualitativa como caminho que nos possibilitaria a sua melhor aproximação. No entanto, anteriormente ao momento de discorrermos sobre nosso procedimento metodológico, é necessário situar a Pesquisa Qualitativa no seu contexto teórico, conceitual. Quando se fala em pesquisa qualitativa, deparamo-nos com uma dificuldade para sua conceituação que decorre, segundo Bogdan e Biklen (1994) e Minayo (1996), da possibilidade de tal pesquisa acabar assumindo diversas formas e passar por múltiplos contextos. Esses contextos são provenientes das correntes de pensamento intimamente ligadas às pesquisas sociais, nos quais a pesquisa qualitativa tem aplicação. Assim sendo, a modalidade qualitativa causa dúvidas entre seus pesquisadores, pois abrange os conceitos teóricos diversos e a própria especificidade de ação e limites que existem dentro de seu campo de atuação (TRIVIÑOS,1987). Além das dúvidas decorrentes de sua contextualização, para Lüdke e André (2001, p.11) as várias terminologias encontradas dentro da pesquisa qualitativa caracterizam outra dificuldade. Ocorre o uso de diversos termos, tais como “pesquisa qualitativa, etnográfica, naturalística, participante, estudo de caso e estudo de campo”. As autoras ressaltam ainda que esses termos são inadequadamente empregados como equivalentes, quando existem diferenças não apenas na denominação, mas também no seu conceito e metodologia em cada caso (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). É oportuno, neste momento, lembrar que os termos citados anteriormente servem para designar tipos de pesquisa qualitativa, já inseridas no gênero “pesquisas sociais”. Isso quer dizer que tanto a pesquisa etnográfica, quanto o estudo de caso e a pesquisa participante, dentre outras, são tipos de pesquisa qualitativa que apresentam particularidades e aspectos em comum. Para conceituar a pesquisa qualitativa, partiremos do conceito mais amplo de pesquisa social, encontrado em Minayo (1996): “Pesquisa social não pode ser definida de forma estática ou estanque. Ela só pode ser conceituada historicamente e entendendo-se todas as contradições e conflitos que permeiam seu caminho” (MINAYO, 1996, p.27). Podemos então perceber que a pesquisa qualitativa, por se encontrar no âmbito da pesquisa social, nos levará a abordar um determinado fato que não poderá ser visualizado como isolado, mas como parte de um contexto mais amplo, estando inserido em um momento determinado e recebendo influências de situações anteriores. Segundo Lüdke e André (2001): “o estudo qualitativo é o que se desenvolve numa situação natural, é rico em dados descritivos, tem um plano aberto e flexível e focaliza a realidade de forma complexa e contextualizada” (LÜDKE e ANDRÉ, 2001, p.18). Minayo acaba por completar essa definição: A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (MINAYO, 2001, p.21-22). Para Bogdan e Biklen (1994) a pesquisa qualitativa se fundamenta nas palavras das pessoas, procurando compreender um problema social. Bauer et al. (2002, p.23) resumem essas conceituações afirmando que a pesquisa qualitativa “evita números, lida com interpretações das realidades sociais”. Em conclusão, a pesquisa qualitativa busca a raiz do problema estudado, não pontuando aspectos numéricos que representam os dados, mas suas causas e efeitos nos sujeitos que vivem a situação pesquisada. Ela considera toda uma história, não se precipitando em rotular, mas em buscar, no contexto, o que levou àquela discussão e os caminhos que se apresentam para solucionar a questão. Os objetivos da pesquisa qualitativa englobam uma maior compreensão da situação estudada, sempre se inserindo no contexto pesquisado. Outro objetivo é contribuir para uma maior aproximação teórica do foco estudado em sua múltipla relação, se preocupando em mostrar que o estudo se pauta em referenciais teóricos bem estabelecidos e não, caindo apenas no subjetivismo. 3.1 Diferentes tipos de pesquisa qualitativa Tendo sido mencionado acima que a pesquisa qualitativa pode apresentar diferentes tipos, passaremos agora a sua compreensão. A princípio, nos aproximamos da pesquisa ação e, para isso, utilizaremos o conceito de Thiollent (1988), autor que trabalhou muito bem esse dado: Pesquisa ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. (THIOLLENT,1988, p.14). Thiollent (1988) e Bogdan e Biklen (1994) ressaltam que, na pesquisa ação, existe uma real ação dos indivíduos que estão envolvidos ativamente na pesquisa, não sendo considerado algo simples o problema que se busca solucionar, mas, antes, merecedor desse tipo de investigação. Vale ressaltar, ainda, que o que diferencia a pesquisa ação de outros tipos de pesquisa é que nela, os indivíduos que vivem o problema é que demandam aos pesquisadores uma investigação, não é o investigador que entra em campo sem solicitação prévia (THIOLLENT,1988). Bogdan e Biklen (1994) relatam, ainda, que a pesquisa ação tem o objetivo de modificar o ambiente social em que é aplicada. A pesquisa participante, também chamada por Triviños (1987) e Lüdke e André (2001) de participativa, é conceituada por Thiollent (1988) da seguinte forma: Pesquisa participante é, em alguns casos, um tipo de pesquisa baseado numa metodologia de observação participante na qual os pesquisadores estabelecem relações comunicativas com as pessoas ou grupos da situação investigada com o intuito de serem melhor aceitos. Nesse caso, a participação é sobretudo participação dos pesquisadores e consiste em aparente identificação com os valores e os comportamentos que são necessários para a sua aceitação pelo grupo considerado. (THIOLLENT,1988, p.15). Para Thiollent (1988), a pesquisa ação e a pesquisa participante se diferenciam no sentido da primeira contar, como o próprio nome diz, com uma ação por parte do investigador conjunta com a dos participantes. Já a pesquisa participante conta apenas com a observação deste investigador. Para Triviños (1987), a pesquisa participante visa, principalmente, transformar a realidade que se estuda, o que nos permite entender que a pesquisa participante também visa uma modificação social do seu objeto de estudo. Outra forma de pesquisa qualitativa, também citada por Bogdan e Biklen (1994), é a pesquisa naturalista, com a qual o pesquisador terá o objetivo de: [...] aumentar o nível de à vontade dos sujeitos, encorajando-os a falar sobre aquilo de que costumam falar, acabando por lhe fazer confidências. Este terá de lhes dar provas, de forma, a merecer a confiança que os sujeitos depositam nele, tornando claro que nunca irá utilizar o que descobrir para rebaixar ou magoar alguém. (BOGDAN e BIKLEN,1994, p.113). A formalidade dá lugar à informalidade, na medida em que o investigador permanece no campo de ação e estabelece relações com os sujeitos. Já Lüdke e André (2001) enfatizam outros dois tipos de pesquisa, o estudo de caso e a pesquisa etnográfica. Para as autoras o estudo de caso pode ser: [...] simples e específico ou complexo e abstrato. O caso é sempre bem delimitado, devendo ter seus contornos claramente definidos no desenrolar do estudo. O caso pode ser similar a outros, mas é ao mesmo tempo distinto, pois tem um interesse próprio, singular”(LÜDKE e ANDRÉ, 2001, p.13). Já a etnografia “tem um sentido próprio: é a descrição de um sistema de significados culturais de um determinado grupo” (LÜDKE e ANDRÉ, 2001, p.13 e 14). A etnografia tenta compreender a forma como a ordem do mundo é percebida, descrita e mesmo explicada pelas pessoas que a vivem (BOGDAN e BIKLEN, 1994). Sucintamente, podemos dizer que os tipos de pesquisa qualitativa se assemelham, na medida em que buscam estudar uma situação inserida em determinado contexto social e esse contexto torna-se parte do estudo. No entanto, cada tipo apresenta suas particularidades, o que as torna apropriadas para serem aplicadas em estudos diferentes e com objetivos diversos. Outra similaridade entre elas é que não são estanques, estáticas (TRIVIÑOS, 1987; MINAYO,1996). 3.2 Etapas de trabalho da Metodologia Qualitativa Partiremos então para a metodologia da pesquisa qualitativa. Dentro dos vários tipos de pesquisa qualitativa, a metodologia apresenta alguma diferenciação, o que não impede que seja analisada em seus aspectos gerais e comuns, aplicáveis em todos os casos. 3.2.1 Fase Exploratória Temos que a pesquisa qualitativa exige como etapa inicial uma fase denominada exploratória. Esta fase é tão importante que, por si só, consiste em uma pesquisa. É um momento em que o pesquisador deve planejar todo o seu trabalho, desde a escolha de seu objeto de estudo, passando pela delimitação do problema, até a definição de objetos e objetivos, para utilização de um enfoque teórico. Por fim, o investigador optará pelos métodos de coleta de dados e também pela forma através da qual irá explorar seu campo de pesquisa, averiguando possíveis interessados e suas expectativas (THIOLLENT,1988; MINAYO, 1996). Bogdan e Biklen (1994) nos oferecem, em todo o seu trabalho, conselhos práticos valiosíssimos, sendo que em relação à etapa inicial de exploração do campo, nos alertam para a questão da praticidade. Devemos escolher nosso estudo considerando nossas próprias capacidades e também nos lembrar que mudanças podem ser efetuadas no decorrer do caminho. Thiollent (1988) ainda ressalva que, neste momento exploratório, problemas de ordem prática provavelmente surgirão. Como exemplo, cita a formação da equipe de pesquisadores e, até mesmo, uma possível cobertura financeira. I Como definir os objetivos da pesquisa Seguindo a proposta de Minayo (1996), a definição do objetivo pode ser feita em forma de uma questão e, para que surja a primeira pergunta, o investigador precisa realizar uma pesquisa bibliográfica. Através dessa pesquisa plenamente teórica, serão obtidas as idéias, hipóteses e até mesmo sinais de como o pesquisador deverá interpretar seus dados (THIOLLENT, 1988). Segundo Thiollent (1988), a formulação de hipóteses auxilia o investigador a não se dispersar e permanecer voltado para o foco escolhido, ao qual direcionará todo o seu trabalho. II Análise documental Após a definição dos objetivos da pesquisa, o investigador ainda continuará em seu trabalho teórico, porém já pode entrar em seu campo de pesquisa colhendo dados encontrados nos documentos que pretende estudar. Definiremos documentos como “quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de informações sobre o comportamento humano” (PHILLIPS, 1974, p.187). Entre o que chamamos de documentos, encontram-se textos escritos pelos sujeitos, como diários, cartas, e até mesmo autobiografias; os documentos oficiais, como os memorandos, arquivos escolares, leis; além de jornais, revistas, programas de rádio, televisão, dentre outros (PHILLIPS, 1974; BOGDAN e BIKLEN, 1994). III O processo de escolha da amostragem Neste momento, entra em cena a amostragem, que pode estar muito bem definida para a pesquisa quantitativa, mas para a pesquisa qualitativa ainda gera dificuldades. O tópico da amostragem consiste, segundo Thiollent (1988) em assunto controvertido para o pesquisador qualitativo, colocando-lhes três posições. Uma primeira posição exclui a amostra e, desta maneira, estuda todos os envolvidos na questão. Por exemplo, se deseja estudar pacientes diabéticos atendidos em um determinado centro de saúde, ao invés de selecionar alguns indivíduos para o estudo, convocam-se todos os indivíduos diabéticos do local. Contudo este tipo de escolha pode trazer sérios problemas ao investigador caso o número de sujeitos seja demasiado grande (THIOLLENT, 1988). Como segunda posição, temos o uso de uma amostra, que é calculada através de dados estatísticos para que, desta maneira, se consiga estudar um número representativo de pessoas (THIOLLENT, 1988). A última posição traz uma amostra definida, utilizando de critérios como a amostragem estatisticamente controlada e a amostragem interpretativa ou argumentativamente controlada, sendo que essas duas amostras representam critérios da pesquisa quantitativa e qualitativa, respectivamente (THIOLLENT, 1988). Já para Minayo (1996, p.102), a amostragem de uma pesquisa qualitativa não apresenta um critério numérico; é de aprofundamento da compreensão do grupo social pesquisado. Para a autora “seu critério portanto não é numérico [...] uma amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões”. IV Triangulação Nesse momento, cabe dizer que um dos critérios de validade que a amostragem deve seguir, para garantir o aprofundamento do estudo, é o de permitir que haja uma triangulação, que consiste em não haver restrição a uma única fonte de dados, mas em procurar abranger um número maior de abordagens (MINAYO, 1996). Por exemplo, temos nossa pesquisa, que tem como fonte de dados não só o paciente, mas também as referências teóricas, organizacionais da instituição no campo do trabalho, assim como os profissionais de saúde do serviço atuando segundo políticas públicas de saúde. Isso nos coloca frente a uma diversidade de fontes de dados, o que propicia a corroboração dos dados. Triviños (1987) ainda nos coloca que, além do objetivo de ampliar a compreensão do estudo, o princípio da triangulação é o de que não encontramos um fenômeno social isolado, estando todo fenômeno inserido em uma história, em uma cultura, possuindo vínculos com uma realidade social mais complexa. Nesse processo o pesquisador dirige seu interesse: Em primeiro lugar, aos processos e produtos centrados no sujeito; em seguida, aos elementos produzidos pelo meio do sujeito que têm incumbência em seu desempenho na comunidade e por último aos processos e produtos originados pela estrutura sócio-econômica e cultural do macroorganismo social no qual está inserido o sujeito. (TRIVIÑOS, 1987, p.138 e 139). 3.2.2 Trabalho de Campo Passaremos a seguir para a segunda fase de uma investigação qualitativa, a fase de trabalho de campo. Segundo Minayo (1996, p.105), o campo é “o recorte espacial que corresponde à abrangência, em termos empíricos, do recorte teórico correspondente ao objeto da investigação”. Também é uma fase muito importante e sem a qual a pesquisa qualitativa não seria possível (MINAYO, 1996). I Instrumentos da Pesquisa Nesta fase continuamos a coleta de dados e, para isso, temos dois componentes de extrema importância: a entrevista e a observação participante (Minayo, 1996). Sabemos que a qualidade do trabalho, independentemente do método de investigação escolhido, passa necessariamente pelo estabelecimento de relações entre o pesquisador e os sujeitos (BOGDAN e BIKLEN, 1994). Abordaremos a seguir os instrumentos referidos acima. - Entrevista A entrevista é considerada a principal técnica de coleta de dados no trabalho de campo (MINAYO, 1996; LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Lüdke e André (2001) afirmam que: “Na entrevista a relação que se cria é de interação, havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde.” (LÜDKE e ANDRÉ, 2001:33). Através deste instrumento, o investigador conseguirá obter dados que não encontrou disponíveis em outras fontes, e também, informações relacionadas ao indivíduo entrevistado propriamente dito, como suas opiniões e crenças (MINAYO,1996). As entrevistas podem ser classificadas de acordo com a forma em que se estruturam. Podem, por exemplo, ser classificadas em entrevistas passivas, ativas, que podem utilizar técnicas como o questionário, história de vida, entrevista semi-estruturada, entrevista aberta ou livre, entrevista estruturada ou fechada (HONINGMANN, 1954; TRIVIÑOS, 1987). No entanto, podemos resumir essas formas em entrevistas estruturadas e não-estruturadas (MINAYO, 1996). A entrevista estruturada, ou padronizada, é aquela durante a qual o entrevistador tem que seguir um roteiro de perguntas, que deve ser seguido igualmente para todos os entrevistados, seguindo a mesma ordem. É praticamente um questionário, que pode ser aplicado direta ou indiretamente pelo pesquisador, sendo mais vantajoso o primeiro modo, uma vez que se podem esclarecer eventuais dúvidas no momento de sua realização (MINAYO, 1996; LÜDKE e ANDRÉ,2001). Em relação às entrevistas não-estruturadas, especificamente falando das semi-estruturadas, é permitida ao entrevistador uma certa liberdade. As questões não são aplicadas rigidamente na mesma ordem, e adaptações no decorrer da entrevista podem ser realizadas, podendo o pesquisador introduzir questões ou mudanças de direcionamento com o intuito de aprofundar as informações colhidas (MINAYO, 1996; LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Triviños (1987) define a entrevista semi-estrurada com maestria: [...] aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem as respostas do informante. Desta maneira, o informante, seguindo espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa. (TRIVIÑOS, 1987, p.146). Lüdke e André (2001) observam um ponto importante ao fazerem referência ao fato de que, na entrevista, o investigador precisa levar em conta os dados da comunicação não-verbal, como expressões e gestos do sujeito. Nesse sentido, a forma de registro da entrevista passa por duas etapas: a gravação e a anotação durante a entrevista. O emprego conjunto dos dois métodos é o que confere maior eficácia ao trabalho, dada a possibilidade de driblar mais facilmente as desvantagens de ambos. Temos que, na gravação, todas as expressões orais, entonações, silêncios, são registrados; o que deixa a desejar é não haver registro algum de expressões faciais, de gestos, enfim, de todos os signos da comunicação nãoverbal. Todavia, a falha é suprida com o uso em conjunto das anotações (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Essas anotações, realizadas durante as entrevistas, trazem os dados, como já dissemos anteriormente, de toda a comunicação não-verbal. No entanto, Jovchelovitch e Bauer (2002), quando falam sobre a entrevista narrativa, colocam um dado, que na nossa opinião pode ser extrapolado para qualquer tipo de entrevista, que se chama “fala conclusiva”. Essa fala nada mais é do que a conversa que ocorre entre pesquisador e entrevistado depois que o gravador é desligado, é a conversa informal e que muitas vezes ilumina os dados colhidos durante a entrevista mais formal (JOVCHELOVITCH e BAUER, 2002, p.100). Outra dificuldade da entrevista verifica-se em relação à sua transcrição. Uma conversa, quando gravada, exige grande dispêndio de tempo para sua transcrição, obtendo-se como resultado um material cru, que necessita sempre ser comparado com a gravação e anotações do material (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Para finalizar este tópico, ressaltamos que para uma pesquisa na qual é necessário avaliar o contexto em que as situações são vivenciadas, observando valores, regras e as relações estabelecidas no grupo, a forma de entrevista estruturada, principalmente o questionário, se mostra ineficiente, sendo mais adequado o uso da entrevista não-estruturada, especificamente a entrevista semi-estruturada (MINAYO, 1996). - Observação Participante Introduziremos a técnica da observação participante no conjunto dos instrumentos da pesquisa qualitativa. Minayo (1996, p.121) afirma que a entrevista é “complementada por uma prática de observação participante”. Sendo que Schwartz & Schwartz (1955) definem: [...] observação participante como um processo pelo qual mantém-se a presença do observador numa situação social, com a finalidade de realizar uma investigação científica. O observador está em relação face a face com os observadores e, ao participar da vida deles, no seu cenário cultural, colhe dados. Assim o observador é parte do contexto sob observação, ao mesmo tempo modificando e sendo modificado por este contexto. (SCHWARTZ & SCHWARTZ, 1955, P.355). O ato de observar não se resume em apenas olhar, mas em investigar um fato, procurando captar toda a sua essência (TRIVIÑOS, 1987). Porém, para que tenha valor científico, é necessário um planejamento deste ato, a fim de definir o que vai ser observado e quais aspectos do problema escolhido serão captados, assim como com qual “olhar” será visto (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). A observação tem a vantagem de colocar o investigador em contato direto com o fenômeno estudado, o mundo real em que o indivíduo vive. Além disso, através da observação, outros aspectos antes não conhecidos podem vir à tona (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Mesmo com a enunciação de tantas vantagens, as autoras também lembram que a observação participante é passível de críticas, principalmente quando afirmam que o meio estudado sofre alterações decorrentes da presença do investigador, assim como o próprio investigador, em suas interpretações do meio, pode ser conduzido a uma visão distorcida pelo seu relacionamento com os investigados, que muitas vezes se torna íntimo (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). - Anotações de Campo Definido o objeto a ser observado e iniciada a observação no campo, é necessário que seja feita uma anotação de campo, ou seja o pesquisador deverá anotar dados sobre o que vê e sente. Dessa maneira, temos que as anotações de campo se dividem em dois tipos: descritivas e reflexivas (TRIVIÑOS,1987; BOGDAN e BIKLEN,1994). As notas de campo do tipo descritivas, como o próprio nome sugere, trazem dados descritivos do ambiente, das pessoas, de conversas, enfim, procura colocar a imagem e as falas em forma de texto. É uma descrição fria dos acontecimentos. As pessoas são descritas de maneira que os leitores possam imaginá-las fisicamente, conhecerem sua maneira de se vestir e falar. Em suma, é elaborada uma descrição dos fatos como realmente são (TRIVIÑOS,1987; BOGDAN e BIKLEN,1994). Já as notas de campo do tipo reflexivo mostram os sentimentos, do ponto de vista do observador, assim como preocupações e idéias, além de hipóteses novas que podem ser criadas (TRIVIÑOS, 1987; BOGDAN e BIKLEN, 1994). Para que uma anotação reflexiva seja bem feita, é necessário que o investigador se dispa de todos os seus preconceitos, tarefa nada fácil. Diariamente uma luta deve ser travada contra as idéias já incorporadas no pesquisador, para que ele possa refletir de maneira a observar os dados com exatidão (TRIVIÑOS, 1987). Em relação ao momento para se realizarem as anotações, Lüdke e André (2001) e Bogdan e Biklen (1994) sugerem que sejam feitas o momento mais próximo da ocorrência, a fim de que nenhum dado possa ser perdido devido a uma falha de memória. 3.2.3 Tratamento dos Dados Adentraremos nossa discussão para a última fase de uma pesquisa qualitativa, a fase de análise ou tratamento do material. O pesquisador vai buscar, nesse momento, ter certeza do que seus dados querem dizer, procurará outras leituras para complementar e corroborar seus achados (MINAYO, 1997) e também irá inserir suas descobertas no contexto social de onde suas mensagens foram tiradas (BARDIN, 2002). Nesse momento, é fundamental a superação do conceito de que os dados falam por si, cabendo ao pesquisador estabelecer relações de articulação entre os dados e o referencial teórico. A análise dos dados implica a ordenação de todo o material recolhido, como as transcrições, notas de campo, documentos, com a finalidade de compreender melhor esse material e depois transmitir o que foi encontrado (BOGDAN e BIKLEN, 1994; LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Para a análise dos dados, encontramos uma técnica denominada análise de conteúdo, sobre qual podemos dizer sucintamente que visa enxergar os dados criticamente, saindo da visão do senso comum e do puro subjetivismo (MINAYO, 1996). Existe toda uma metodologia em torno desta análise, que Triviños (1987) apresenta em três fases descritas a seguir. A primeira fase, denominada pré-análise, consiste na organização do material, a partir do qual o investigador procurará estudar as respostas obtidas e os dados da observação. Enfim, nesse momento, o pesquisador irá escolher seus documentos, formular os objetivos gerais, suas hipóteses e especificar o campo em que irá focar sua atenção, utilizando indicadores nos quais, provavelmente, se pautará sua interpretação final (TRIVIÑOS, 1987; MINAYO, 1996; BARDIN, 2002). A segunda etapa é a descrição analítica ou exploração do material, em que se inicia o processo de codificação, classificação e categorização dos dados (MINAYO,1996; TRIVIÑOS,1987). Nesse momento, tem início o refino dos dados até então brutos, procurando-se chegar a uma melhor compreensão do texto (BARDIN, 2002) A última fase é denominada interpretação referencial ou tratamento dos resultados obtidos e interpretação, em que o investigador não só analisa os conteúdos manifestos, ou seja, aqueles que são mais evidentes, mas também analisa o conteúdo latente, que evidencia o fenômeno social como um todo, com suas ideologias, representações, história (TRIVIÑOS, 1987; MINAYO, 1996). Para completar essa análise dos dados, sugere-se o uso da análise do discurso, que tem como objetivo compreender o sentido completo de uma produção social – em que as palavras expressam ideologias dos sujeitos inseridos em um contexto – e recuperar todo o processo no qual o texto adquire significação (ORLANDI, 1987; MINAYO, 1996). Definiremos a análise do discurso usando Orlandi (1987, p.11) que a define “como proposta crítica que procura justamente problematizar as formas de reflexão estabelecidas”. Após todas essas fases, não podemos nos esquecer de respeitar alguns padrões de ética, principalmente porque, no interior da pesquisa social, temos o envolvimento de pessoas. Alguns pesquisadores, no afã de pesquisar determinados pontos, deixam de respeitar alguns destes códigos. Os investigadores alegam que, para obter os dados de maneira fidedigna, necessitam, por exemplo, esconder dos participantes o motivo da pesquisa, ou submetê-los a situações de estresse ou ainda coagi-los para que tomem decisões consideradas humilhantes ou erradas (KIDDER, 1987). Para que não ocorra esse fato, o pesquisador deve procurar fazer com que o indivíduo aceite voluntariamente participar, estando sempre ciente dos objetivos do estudo, de possíveis perigos e de suas próprias obrigações. Quanto aos riscos, eles não podem ser superiores aos benefícios que o sujeito possa obter (BOGDAN e BIKLEN, 1994). 3.2.4 Desafios da Pesquisa Qualitativa A pesquisa qualitativa se preocupa em trazer a tona uma investigação cuidadosa e criteriosa a respeito de questões que se inter-relacionam com o fator social, o cultural e, até mesmo, com questões políticas dos indivíduos (MINAYO, 1996). No entanto, o campo da pesquisa qualitativa sofre diversas críticas, principalmente de pesquisadores que defendem apenas a pesquisa quantitativa como científica, relegando a qualitativa ao empirismo e subjetividade. Por conseguinte, teceremos uma análise sobre os desafios que a pesquisa qualitativa enfrenta, para não suscitar dúvidas sobre seus resultados, garantindo que são obtidos através de uma metodologia criteriosa e fundamentada em bases científicas consistentes. Primeiramente, discutiremos as questões relacionadas ao pesquisador e a metodologia utilizada em um estudo qualitativo. Colocamo-nos frente ao principal desafio em questão: a subjetividade do pesquisador. Um pesquisador sensato deve assumir uma postura de aceitação da impossibilidade de se destacar os valores pessoais do processo da pesquisa, porém se respaldará em cuidados para controlar essa subjetividade. Uma das maneiras sugeridas como medida preventiva é a sinceridade do pesquisador, sinceridade esta que traz à tona os preconceitos do investigador, assim como seus valores, o que torna possível um julgamento sobre o peso que estes possuem sobre o estudo (LÜDKE e ANDRÉ, 2001; VASCONCELOS, 2001). Outro desafio encontrado é em relação à validade dos dados. O cuidado para a garantia dessa questão se dá quando o investigador coleta seus dados nas mais variadas situações e momentos, utilizando fontes diversas de informação. Isso faz com que o pesquisador cheque suas informações em diferentes circunstâncias e, desta maneira, se certifique de sua validade (LÜDKE e ANDRÉ, 2001). Mesmo contando com essas críticas em um contexto nada promissor, vemos a luta incansável de muitos profissionais que buscam, na educação em saúde, na sua vertente e na pesquisa qualitativa, uma forma de redirecionar o Sistema Único de Saúde, a fim de que este se volte para suas raízes ideológicas e passe a cumprir seu papel, garantindo saúde para toda a população (VASCONCELOS, 2001). Lembramos que a saúde referida diz respeito não só ao processo biológico da doença, mas as suas implicações sociais e psíquicas. Esmerados em cumprir seu papel nesse complexo sistema de saúde, os heróicos profissionais, que se pautam na pesquisa qualitativa em educação popular, precisam se respaldar em bases sólidas para atingir seus objetivos. Desta maneira, Vasconcelos (2001) nos coloca frente a cuidados metodológicos que permitem enfrentar os desafios que se colocam para a pesquisa. Alguns desses cuidados já foram citados anteriormente, como a questão de diversificar os instrumentos de coleta e análise de dados e a sinceridade do pesquisador frente a pesquisa, o que exige que seja explicada a sua motivação, assim como seu projeto utópico. Outros cuidados dizem respeito à questão de se aceitar que muitos fatos não são passíveis de explicação, pois a razão humana é limitada em compreender muitas dimensões do contexto social. Contudo, aceitar esse fato não implica não se esforçar por solucionar os mistérios humanos e assim, um outro cuidado fica evidenciado, que é o da busca por um maior entendimento das relações dos sujeitos envolvidos, como suas relações sociais, culturais, religiosas. Este fato implica uma releitura da realidade com um olhar muito mais aberto (VASCONCELOS, 2001). Por fim, o autor sugere que o pesquisador se preocupe em analisar a ação dos demais atores sociais e restrinja “sua própria ação a subgrupos e aspectos bem delimitados” (VASCONCELOS, 2001, p.278). Vemos que a pesquisa qualitativa sofre críticas, mas como uma metodologia científica, possui um alicerce bastante forte, o que possibilita a realização de uma pesquisa bem fundamentada e criteriosa. SEÇÃO 4. O PERCURSO METODOLÓGICO CONSTRUÍDO 4 O percurso metodológico construído Após explicitadas as características da metodologia qualitativa, passaremos nesse capítulo a introduzi-la, destacando cada fase desenvolvida no percurso metodológico de nosso trabalho. 4.1 O Estudo Exploratório Definido o objetivo de nosso estudo, entramos na primeira fase prática do trabalho – o estudo exploratório. Neste momento houve a aproximação do pesquisador no campo. Iniciamos nossos contatos com a Secretaria Municipal de Saúde no final de janeiro de 2002. Obtida autorização para realização do projeto, inserimo-nos no Programa Saúde da Família (PSF). O PSF foi escolhido devido às suas finalidades favorecerem um trabalho como o proposto nessa pesquisa. Já inseridos no PSF, realizamos uma entrevista com cada membro da equipe, iniciamos o processo de definição de nossa amostragem, realizamos visitas domiciliares e definimos instrumentos de coleta de dados que seriam trabalhados com os nossos sujeitos – entrevistas e observação participante. A seguir, apresentamos o trajeto percorrido em nosso estudo exploratório. 4.1.1 A Inserção do Pesquisador O primeiro passo foi procurarmos a responsável pelo Programa na prefeitura do município de Araras e esboçarmos nosso projeto. Após conversarmos com a responsável, fomos encaminhados para uma conversa com o Secretário de Saúde do Município. Como encontramos dificuldades para agendarmos o encontro, fomos atendidos pela Coordenadora de Divisão de Saúde, que recebeu uma cópia de nosso projeto e relatou que poderíamos realizar o trabalho na unidade por nós escolhida. Com a autorização para iniciarmos nosso projeto, optamos por efetuá-lo em uma unidade do PSF que estava sendo re-inaugurada. Obtivemos informações sobre a enfermeira chefe da unidade, que poderia nos introduzir no programa. Entramos em contato e marcamos uma reunião na unidade onde ela estava trabalhando enquanto o novo prédio passava pelos últimos ajustes. Como nos contatos anteriores, explicamos nosso trabalho e entregamos uma cópia do projeto. Combinamos entrar em campo vinte dias após a inauguração do prédio, a fim de que os funcionários dispusessem de um tempo para melhor se organizarem. Na data marcada, comparecemos ao local, apresentamos-nos aos profissionais e procuramos falar um pouco sobre o projeto. Notamos uma boa receptividade e abertura à participação de todos, principalmente de uma das médicas, que se mostrou curiosa e interessada pelo nosso trabalho. 4.1.2 Local do Estudo: aproximação à temática O local escolhido para realização de nosso estudo foi uma unidade do Programa Saúde da Família. Optamos trabalhar com o programa pelo fato desse prever um envolvimento dos pacientes diabéticos com o serviço, o que facilitaria nosso contato com os nossos sujeitos e a organização de um grupo. Além desse envolvimento dos pacientes com o serviço, procuramos relacionar a importância da inserção do profissional nutricionista nesse programa, pois até o momento os profissionais que compõem o PSF se restringem a médicos e enfermeiros. Assis et al. (2002) reforçam a importância da inclusão dos nutricionistas na equipe do PSF, lembrando que o programa traz uma proposta que possibilita alterar o modelo vigente para um modelo que propicie o fortalecimento das ações de promoção da saúde. No entanto, o que encontramos ainda é um modelo que não prestigia a inclusão de outros profissionais de saúde que não médicos, enfermeiros e dentistas. A inclusão de outros profissionais de saúde poderia pois, contribuir para a construção de um modelo de atendimento que prestigiasse mais as propostas do PSF, possibilitando a efetivação das ações de promoção de saúde (ASSIS et al., 2002). Nesse momento, para uma maior compreensão do programa, detalharemos a estrutura organizacional do nosso local do estudo. A equipe formada para atender na unidade Maria Lúcia Boquetti Meneghetti contava, no início de nossas atividades, com dois médicos, duas enfermeiras, seis agentes de saúde e dois atendentes. O serviço atende a população de três bairros vizinhos. Uma das equipes, formada por: um médico, uma enfermeira, três agentes e um atendente, é responsável pelo atendimento dos bairros Vila Dona Rosa e Jardim Marabá; a outra equipe, formada pelo mesmo número e qualificação de profissionais, atende o bairro denominado Parque Industrial. Atualmente, as equipes sofreram algumas mudanças em relação a sua composição e à contratação de agentes de saúde. A seguir, será descrita a nossa inserção no programa em que o trabalho se desenvolveu. 4.1.3 Entrevista inicial com a equipe As entrevistas iniciais, tinham como objetivo propiciar uma aproximação ao local com seus profissionais, suas rotinas e posturas profissionais frente às mesmas, particularizando o cuidado dispensado ao paciente diabético. Os dados obtidos nas entrevistas serão apresentados, respeitandose a privacidade dos sujeitos, a partir de nomes fictícios, e discutidos a seguir. Foi realizada uma entrevista com a equipe de profissionais do PSF, com a finalidade de obter dados referentes ao serviço e à postura dos profissionais frente ao programa particularizando, como já mencionado, o tratamento dispensado ao paciente diabético. Foram entrevistadas uma médica e duas enfermeiras do serviço (Anexo C). Nessa entrevista pudemos levantar dados sobre o tratamento dispensado aos pacientes no serviço. Os dados revelaram a ausência de um programa específico do PSF para os diabéticos, e a rotina de serviço estabelecida pelos próprios profissionais do local. Outra questão encontrada nos revelou que a equipe tem clareza sobre a importância da educação nutricional no tratamento do diabético. Entretanto, na concepção da equipe, o processo educacional pode ser realizado através de palestras. A seguir apresentamos mais detalhadamente os dados encontrados nessa entrevista com a equipe do PSF. “Não tem um protocolo por escrito, mas a gente tem um programa do diabético. O diabético aqui é consultado pelo menos a cada dois meses, mas assim que é diagnosticado o diabetes, no momento ele é consultado uma vez por semana, porque é feito o teste de ponta de dedo.” (Drª. Rebeca) “Alguns casos, inicia-se o medicamento, tratamento medicamentoso e outros você aguarda, faz a dieta, faz orientação dietética e vai aguardar uma semana pra ver se, e os demais exames, pra ver se é necessário o tratamento medicamentoso ou não.” (Drª. Rebeca) “Aí você consulta várias vezes e depois que entra na rotina, no equilíbrio, numa taxa de cento e vinte e cinco, e trinta e cinco de glicemia você mantém uma consulta de rotina a cada dois meses.” (Drª. Rebeca) “Protocolo escrito também não. Em diabético ele passa, assim, em um mês com o médico, até normalizar. Aí, depois ele também passa com o enfermeiro.” (Maria) A ausência de um programa, não propicia uma padronização no atendimento que o paciente diabético será submetido. Devido à falta de um protocolo que estabeleça quais as atividades serão atribuídas a cada profissional no serviço, não fica claro para os profissionais qual deve ser seu papel diante do paciente diabético. Como exemplo, citamos a fala das enfermeiras, na qual elas relatam que seu trabalho consiste em reforçar a fala do médico. “É, também, de dieta, medicação, mais reforçar mesmo.” (Maria) “E as outras orientações em relação ao pé diabético, aos cuidados que ele tem que ter, a alimentação que deve ser mantida. É feita uma triagem e um reforço de tudo que o médico já orientou anteriormente,” (Verônica) Percebemos que o enfermeiro realiza um importante trabalho ao orientar o paciente quanto a prevenção de complicações. No entanto, ficam duas questões: se o reforço significa repetir a orientação do médico e se essas informações repetidas são padronizadas. Caso não exista uma comunicação entre os profissionais e caso não sejam semelhantes as informações reforçadas, pode-se gerar um confronto de informações recebidas pelo paciente, o que tornará sua compreensão ainda mais difícil. Através dessa entrevista com a equipe, ficou claro que para ela a alimentação representa um eixo importante no tratamento do diabetes e a educação nutricional, por sua vez, é um meio para se conseguir que o paciente modifique seus hábitos alimentares. Para a equipe, porém, essa educação se dá por meio de palestras. “E a gente faz um trabalho com eles também através de palestras.” (Maria) Vemos também que os profissionais têm consciência de que não dispõem de tempo para realizar um processo de educação nutricional com os pacientes, e que esse trabalho requer tempo e não pode ser feito apenas durante uma consulta. “Não, não tem, por enquanto não.” (Verônica) “É o mais importante de tudo no diabetes. Eu tenho uma que em uma consulta só, eu fiz uma orientação normal, que eu faço pra todas, pra todos os paciente, e ela já seguiu a risca. Mas é difícil isso acontecer, numa consulta só, num primeiro papo, é o paciente aceitar a mudança do hábito de vida, uma mudança alimentar, e ela por acaso aceitou.” (Drª. Rebeca) “Às vezes, só com uma orientação dietética o paciente fica até sem medicação, entendeu. Difícil é conseguir mudar esse hábito. (Drª. Rebeca) Percebemos que a médica apresenta uma consciência real do papel da educação nutricional e do tipo de alimentação que o paciente deve ter. A dieta não deve ser excessivamente restritiva, mas sim saudável e, por esse motivo, pode ser seguida por todas as pessoas que busquem manter sua saúde e prevenir diversas patologias. “Pode, pode comer tudo. Essa orientação que eu dou dietética é pra todo mundo, uma dieta saudável, é pra todo mundo. Custam em aceitar.” ((Drª. Rebeca) Os profissionais abordam também a relevância do nutricionista na equipe, não apenas realizando um trabalho com os diabéticos, mas com outros pacientes. “Mas a presença da nutricionista na equipe seria extremamente importante, porque eles seriam acompanhados bem de perto [...]. Mas do profissional que está habilitado a fazer isso, é o nutricionista.” (Verônica) “Você vê, mesmo minhas crianças desnutridas, as mães são todas obesas. Não falta comida na casa, falta orientação mesmo. É outra parte que depois você precisa dar uma força pra gente.” (Drª. Rebeca) Analisando a entrevista, podemos observar que existe a ausência de um programa norteador para o tratamento das doenças crônico-degenerativas, como o diabetes mellitus. Questionando essa ausência, temos que ela pode representar um espaço de criação da equipe, a qual pode ousar e se posicionar frente às necessidades da comunidade local, criando um programa que atenda a demanda e as particularidades do serviço. Seria uma ótima oportunidade para se realizar a educação em saúde efetiva. Por outro lado, essa lacuna poderia representar um obstáculo para que haja uma padronização mínima e, desta maneira, não exista um controle efetivo da doença e, muito menos, de suas complicações. Também poderia ocorrer ausência na clareza das condutas tomadas pelos profissionais. Por exemplo, o médico poderia não realizar uma orientação dietética durante a consulta por considerá-la tarefa já realizada pelo enfermeiro. O enfermeiro, por sua vez, achando que o médico já orientou o suficiente, procura apenas reforçar alguns tópicos. Mas qual seria o conteúdo reforçado? Percebemos que, caso exista uma comunicação pouco eficiente entre a equipe, o paciente poderia receber orientações equivocadas e pouco claras, em relação a seu tratamento. Fica claro também que a comunicação entre a equipe é fundamental para que se estabeleça um padrão eficaz de atendimento aos pacientes portadores de doenças crônico-degenerativas. Outra questão emergente no discurso dos profissionais é a importância da educação nutricional como um dos pilares do tratamento do diabetes. Entretanto, relatam a falta de tempo para que a educação nutricional seja realizada. A médica do PSF mostra claramente que considera fundamental a educação nutricional, evidenciando conhecimentos de que essa não acontece pontualmente em uma consulta, mas faz-se necessário um tempo prolongado para ocorrer. Mesmo apresentando uma conscientização sobre o tempo necessário para se realizar educação nutricional com os pacientes, os profissionais implementaram algumas palestras na rotina de tratamento do diabetes e sinalizam que consideram essas palestras como uma forma de educação nutricional. A realização das palestras é contraditória, mas talvez seja a única prática educativa em saúde possível no contexto desse serviço. Outra questão contraditória se refere à importância da presença e atuação do profissional nutricionista na equipe. Os profissionais do PSF endossam essa importância, porém na prática o nutricionista não faz parte da equipe do Programa Saúde da Família. Como transportar essa questão do discurso para as práticas educativas em saúde? Em sua tese de doutorado, Boog (1996) encontra essa mesma questão, ou seja, os profissionais aceitam o trabalho do nutricionista no serviço de saúde, no entanto, não existe uma efetiva mobilização para institucionalização de seu trabalho. Percebemos uma longa distância entre a atuação do nutricionista, praticamente como um voluntário nos serviços, e sua atuação oficializada (BOOG, 1996). Faz-se necessária uma reestruturação das políticas públicas para que os nutricionistas ocupem espaços nos serviços públicos de saúde. No entanto, na prática, Boog (1996) ainda nos coloca frente a duas questões para solucionarmos esse impasse. Uma das questões mostra uma visão técnica do problema, em que haveria necessidade da conscientização dos demais profissionais, principalmente do médico, sobre os problemas relacionados à nutrição e ao conhecimento do papel do nutricionista como profissional qualificado para desenvolver esse trabalho especificamente. A segunda questão diz respeito a uma visão política, em que se propõe que, através de medidas legais, os dirigentes intervenham politicamente na questão ou que os nutricionistas mobilizem sua categoria para conseguir conquistar seu espaço (BOOG, 1996). Tal mobilização vem ocorrendo de maneira bastante fundamentada (ASSIS et al., 2002). Em nosso trabalho, observamos que os profissionais possuem relativa conscientização sobre a importância do papel do nutricionista na equipe. Desta maneira, a institucionalização do profissional poderia ser obtida através de uma visão política dos dirigentes. 4.1.4 Definição dos critérios de amostragem Utilizando a definição de amostragem proposta por Minayo (1996), na qual torna-se relevante o fato da amostra representar a realidade a ser investigada como um todo, buscamos, portanto, sujeitos que estivessem realmente abertos a participar de um processo educativo e que pudessem representar os pacientes diabéticos do serviço. Outro critério para nossa amostragem, estabelecido no decorrer dos encontros, foi a freqüência dos indivíduos nas reuniões, pois muitos entrevistados, que estiveram presentes nas primeiras, deixaram de comparecer e, desta maneira, foram excluídos de nossa análise e discussão. Ao final do trabalho, pudemos relatar que nossa amostra contou com dez indivíduos, todos do sexo feminino. 4.1.5 Os instrumentos da pesquisa Os instrumentos que nos auxiliaram no decorrer desta pesquisa relacionam-se à análise documental, entrevistas, observação participante, reuniões de grupo e visitas domiciliares. I Análise Documental Nessa etapa da pesquisa, nos concentramos na leitura de trabalhos desenvolvidos sob a perspectiva da pesquisa qualitativa em saúde e dos temas pertinentes a educação nutricional e do diabetes mellitus que poderiam nos auxiliar à consecução dos nossos objetivos. II Entrevista Após a avaliação do material existente no próprio local e com os profissionais do PSF, realizamos uma entrevista inicial com os pacientes sugeridos pelos agentes de saúde como potenciais participantes (Anexo D). A escolha final foi confirmada através das visitas domiciliares. As visitas ocorreram acompanhadas pelos agentes de saúde que nos apresentavam aos pacientes. Depois ocorreram visitas exclusivamente realizadas pelo pesquisador, para agendamento das entrevistas. Nas entrevistas, utilizamos questões norteadoras, semi- estruturadas, ou seja, semi-abertas, sobre as quais, o sujeito poderia discorrer, sem que nós, como entrevistadores, previamente colocássemos algumas condições (MINAYO, 1996). Dessa forma um questionário nos serviu de base e pudemos realizar adaptações necessárias ao rumo que cada entrevista percorria (LÜDKE e ANDRÉ, 1986). Estas entrevistas visaram coletar dados a respeito dos conhecimentos do paciente sobre a origem de sua doença, a interferência que esta exerce na sua qualidade de vida, seus conhecimentos gerais sobre o diabetes, também para reconhecermos as principais necessidades das pacientes a fim de elaborarmos um mapa diagnóstico para construirmos nossas reuniões. As entrevistas também foram gravadas e depois transcritas para posterior análise. Ao final das dezesseis entrevistas iniciais, obtivemos um número de 8 fitas gravadas em ambos os lados e as transcrições somaram 119 páginas digitadas. III Observação participante Além das entrevistas, utilizamos como coleta de dados a observação participante. Todas as observações realizadas foram anotadas em um “diário de campo” onde procuramos relatar exaustivamente as informações identificadas tanto no período de exploração do campo, como no decorrer do desenvolvimento do trabalho. As informações registradas no diário trazem um panorama dos aspectos físicos tanto dos indivíduos, como do PSF e moradias visitadas, e também um panorama das atitudes dos sujeitos durante as visitas, entrevistas e das reuniões do grupo. Também registramos nossas impressões e sentimentos tanto em relação as pessoas como às situações vivenciadas. A seguir exemplificamos na íntegra uma parte de nosso diário. “Batemos palma e uma linda cachorrinha poodle, branca com lacinhos rosas nas orelhas, veio latindo em nossa direção. O portão estava fechado e notei que a casa é bem segura, pois é toda fechada com um muro e um portão que chegam até o teto. Dona Débora logo veio nos atender. É uma senhora baixa, um pouco acima do peso e de pele morena. Seu cabelo é curto, começando a apresentar fios brancos. É uma senhora que fala pouco, pois não deu início a uma “boa” conversa, como aconteceu com algumas pessoas que encontramos anteriormente. Dona Débora segurou a cachorra no colo dizendo que ela não pararia de latir se não fosse para o colo. Ela abriu o portão e pediu para entrarmos, depois pediu para que nos sentássemos em cadeiras que estavam dispostas em uma área em frente a porta de entrada da casa. Nos sentamos e a agente de saúde começou fazer sua visita de rotina. Após anotar os dados que precisava disse a dona Débora porque eu estava fazendo a visita junto dela. A agente de saúde terminou de falar e eu pude explicar a dona Débora com maiores detalhes o porque de minha visita. Quando terminei de falar a senhora disse que estava interessada em participar das reuniões. Combinei de entrar em contato com ela para agendarmos uma entrevista inicial. Depois nos despedimos e eu e a agente voltamos para o PSF. A impressão que tive foi que dona Débora realmente se interessou em participar, embora fosse uma senhora um pouco calada.” IV As reuniões do grupo Outra fonte de dados do presente estudo foram obtidas dos próprios encontros com os pacientes. Foram realizados vinte e três encontros5 no período de 01 de outubro de 2002 até 02 de abril de 2003, sendo que, nos meses de dezembro e janeiro, por ocasião das festividades de final de ano, houve um período de recesso. Esses encontros foram construídos seguindo os conceitos da educação problematizadora de Paulo Freire (1988, 2002). Vale ressaltarmos que essa educação parte do pressuposto de que “uma pessoa só conhece bem algo quando o transforma, transformando-se ela também no processo” (BORDENAVE e PEREIRA, 2001, p.10). Como conseqüência tanto os sujeitos quanto o pesquisador deveriam estar abertos a transformações. Dessa forma, apesar de termos sidos formados segundo uma concepção bancária, em nossos encontros pretendíamos romper com essa postura. Nesse sentido, incentivávamos os próprios pacientes a levantarem quais os assuntos mais pertinentes em relação aos cuidados dietoterápicos exigidos pela patologia, ou mesmo problematizavam outros assuntos cotidianos que pudessem interferir na manutenção de seus padrões de normalidade. Os problemas que trabalhamos foram reais e pertencentes ao cotidiano do grupo. Exemplificamos com uma parte de nosso diário de campo, em que descrevemos as reuniões. 5 As reuniões ocorreram em uma sala do prédio da Polícia Militar Ambiental, devido a falta de uma sala disponível no prédio da unidade do PSF. “Explicamos que a questão dizia respeito ao que elas gostariam de aprender nos próximos encontros, acrescentamos que poderia ser sobre qualquer assunto que julgassem necessário. Isabel perguntou se era apenas sobre nutrição e eu disse que não era necessário, se desejassem saber outras coisas poderiam colocar no papel e depois veríamos quais assuntos apareceram mais e começaríamos a levar para discussão no grupo. Começaram a discutir sobre a segunda pergunta.” “Nossa impressão sobre o encontro de hoje é que a reunião foi produtiva e elas saíram satisfeitas com a conversa. Confessamos que havíamos planejado outra atividade para hoje. Planejamos que elas completassem, em duplas, qual o tratamento que achavam que a patologia tinha. Contudo, começamos a conversar sobre os problemas que afligiam o dia-a-dia das participantes e julgamos que precisavam disso. Ao término da reunião concluímos que discutirem sobre seus problemas particulares foi mais útil do que se tivéssemos conversado sobre o tratamento do diabetes. Na realidade o que falamos também faz parte do tratamento, pois quando elas conseguem um estilo de vida melhor, conseqüentemente a taxa de glicemia terá um valor melhor, pois conseguirão controlar melhor.” V As visitas domiciliares As visitas domiciliares representaram o instrumento utilizado na fase exploratória do estudo e também no decorrer do estudo. Consistiram em um importante veículo de contato com as realidades das pacientes. As visitas tiveram início no dia 15 de abril de 2002, e se estenderam até 19 de novembro do mesmo ano. 4.1.6 A demarcação do tempo da pesquisa de campo Para definição do tempo de pesquisa em campo não partimos de uma data pré-estabelecida, mas sim de um critério que julgamos adequado para garantir a consecução de nosso trabalho. Desta maneira o critério utilizado para demarcação do tempo em que estaríamos em campo e, assim, do número de reuniões com as pacientes, foi a possibilidade de trabalharmos de forma exaustiva os principais temas levantados por elas durante as entrevistas iniciais e também durante as reuniões propriamente ditas. Considerando nossa presença junto à Secretaria de Saúde do município e também no Programas Saúde da Família, incluindo o último encontro pessoal realizado com cada sujeito participante dos encontros, o período de coleta de dados compreendeu de 30 de janeiro de 2002 à 07 de maio de 2003. SEÇÃO 5. ORGANIZAÇÃO DO MATERIAL OBTIDO E DISCUSSÃO DOS DADOS EMPÍRICOS ________________________________________________________ 5 Organização do material obtido e discussão dos dados empíricos Serão considerados como processo de construção de conhecimentos todos os dados decorrentes das interações realizadas pessoal e coletivamente com os sujeitos no decorrer deste trabalho, que fundamentou-se na educação nutricional inserida a um processo de educação em saúde onde: - são questionados os efeitos das práticas pedagógicas persuasivas, da relação autoritária entre educador e educando; - é reconhecido o poder domesticador de ações educativas baseadas no saber biomédico e unicausal do processo saúde/doença; - é questionado o padrão de desenvolvimento socioeconômico capitalista e as conquistas científicas, que agravaram a desigualdade social; - é reconhecida a dimensão educativa das práticas dos profissionais de saúde e sua articulação com as demandas e necessidades das classes populares na formulação das políticas sociais. (SMEKE e OLIVEIRA, 2001, p.124-25). 5.1 Caracterização dos sujeitos O grupo, formado pelas dez senhoras, era bastante heterogêneo com relação a escolarização, condições sócio-econômicas e acesso a serviços de saúde. A seguir, faremos uma caracterização das participantes, com nomes fictícios, a fim de que se possa preservar a identidade das pacientes, e para que possamos ter uma visão geral do grupo. Nosso grupo foi composto de mulheres, onde a maioria, 60%, apresentava idade na faixa dos cinqüenta anos6. Quatro participantes não se 6 Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é considerada idosa, a pessoa que tenha atingido a idade de 60 anos. incluíam nessa faixa etária, apresentando 45 anos, 62 anos, 63 anos e 69 anos de idade. Com relação à escolaridade, uma delas nunca freqüentou a escola, sete cursaram de um a quatro anos e duas delas cursaram 12 a 13 anos. A renda mensal de nossas participantes, assim como os demais itens mostram a heterogeneidade do grupo, variando de 200 reais a 2000 reais. Excetuando uma das participantes, que mora em uma casa alugada, as demais moram em casa própria. Todas as casas são de alvenaria, com água encanada, sistema de esgoto e coleta de lixo. Todas possuem fogão a gás e geladeira. Quanto ao tempo de diagnóstico do diabetes, também observamos uma grande variação, sendo que uma delas fez seu diagnóstico há 6 meses e outra já é diabética há 16 anos. Judith: casada, com 62 anos de idade. Além das atividades domésticas, faz bolos para vender e ajudar no orçamento doméstico, que, segundo a paciente, é de cerca de duzentos reais mensais. Cursou a primeira série do ensino fundamental. Mora com o marido e uma filha em uma casa de sete cômodos. No início das reuniões era pouco comunicativa, mas com o passar do tempo “soltou-se” mais. É diabética há 15 anos e não apresenta complicações decorrentes da doença. Faz seu tratamento no serviço público de saúde, pois não possui convênio médico. Madalena: casada, 63 anos. Quando jovem tinha emprego, após se casar passou a cuidar dos afazeres domésticos e deixou o trabalho fora de casa. Cursou até a segunda série do ensino fundamental. Sua casa tem sete cômodos e moram apenas ela e o marido, a renda familiar é de aproximadamente mil e trezentos reais mensais. Seus filhos são casados, porém dona Madalena relata que “ainda dão muita preocupação”. É uma senhora que se expressa bem. No início dos encontros, ficava observando mais, já nos últimos relatava que tinha feito amizades e ficou mais a vontade. Dona Madalena chegou a dizer que no início não achou muito boa a idéia de várias mulheres se reunirem para conversar, mas depois gostou muito. Pudemos perceber pelas reuniões e entrevistas que é uma senhora muito deprimida. O diagnóstico do diabetes foi feito há 6 meses do início das reuniões, no entanto, a paciente acha que é diabética há muito mais tempo. A paciente se queixa de um “cansaço nas pernas”, o que nos leva a crer que realmente é diabética há mais tempo do que o do diagnóstico, pois suas queixas evidenciam complicações vasculares relacionadas ao diabetes. Além de utilizar o atendimento médico do PSF, também faz seu tratamento para o diabetes com um médico de seu convênio. Sara: casada, 51 anos de idade, cuida dos afazeres domésticos. Nunca freqüentou a escola. Em uma casa de sete cômodos, moram oito pessoas entre filhos, netos e sobrinhos. Dona Sara relata que os sustenta com a aposentadoria que recebe, o marido a ajuda , desta maneira vivem com uma renda de duzentos e oitenta reais mensais. É uma senhora falante e parece ser muito solidária com as pessoas, mesmo passando por dificuldades financeiras. Sua casa é bem humilde e com condições de higiene não muito adequadas. É diabética há 5 anos e apresenta complicações vasculares, pois sua queixa principal é em relação a difícil cicatrização de uma ferida em seu pé. Utiliza apenas o serviço público de saúde. Débora: casada, com 56 anos de idade e dona-de-casa. Não completou o ensino fundamental, não referindo até qual série cursou. Mora com o marido e dois filhos, em uma casa de seis cômodos. A renda mensal da família gira em torno de mil e setecentos reais. Nas entrevistas inicial e final foi falante, entretanto nas reuniões não era muito comunicativa. É vizinha de dona Sara, mas não parecem ser muito íntimas. É diabética há 16 anos, não apresenta complicações decorrentes do diabetes propriamente dito, porém após o diagnóstico apresentou um quadro de depressão. Débora também possui convênio médico, por meio do qual realiza seu tratamento. Isabel: casada, 45 anos, cuida da casa. Chegou a entrar na faculdade, mas não terminou o primeiro ano. Mora com o marido, três filhos e o pai, com uma renda de aproximadamente setecentos reais, vivem em uma casa de seis cômodos. Dona Isabel procurou o grupo por achar que era diabética e aguardava o resultado dos exames. Ao receber o resultado constatou que não era diabética, mas pediu para continuar nos encontros por achar que eram bons para aprender a ter uma alimentação balanceada e adequada para ela e a família. Utiliza o serviço público de saúde. Dalila: casada, 54 anos de idade, cuida da casa. Diz ter cursado o ensino fundamental, no entanto, apresentou muita dificuldade para compreender algumas questões levantadas nas entrevistas e no grupo. Mora com o marido e um neto em uma casa alugada, com quatro cômodos. Não sabe precisar há quanto tempo é diabética e não apresenta complicações, faz uso do serviço público de saúde. Ana: viúva, 69 anos de idade, dona-de-casa, sobrevive com uma renda de duzentos e setenta reais mensais. Completou o ensino fundamental. Se expressa bem. Morava só em uma casa de sete cômodos, porém ao final dos encontros nos contou que a neta, de 19 anos de idade, passou a morar com ela. É diabética há 3 anos e apresenta complicações vasculares, pois queixa-se da dificuldade para cicatrização em um ferimento no dedo do pé. Faz seu tratamento no serviço público de saúde, pois não possui convênio médico. Ruth: casada, 50 anos de idade, trabalha cuidando de sua casa, completou o ensino fundamental. Mora com quatro pessoas em uma casa de sete cômodos. A renda mensal é de quinhentos reais. Durante as reuniões não costumava falar muito. Faz 6 anos que é diabética e não apresenta nenhuma complicação relacionada a patologia. Dona Ruth tem convênio e faz o tratamento com um médico conveniado. Marta: casada, 53 anos de idade, cuida dos afazeres domésticos, terminou o ensino médio e completou um curso técnico em enfermagem. Mora com o marido e dois filhos em uma casa de sete cômodos. A família vive com uma renda de dois mil reais por mês. É uma senhora que se comunica bem, esclarecida e sempre participou muito durante as reuniões, trazendo dúvidas e comentários a respeito dos assuntos discutidos. Há 2 anos, descobriu ser diabética e dizia apresentar alteração na visão quando sua glicemia está elevada. É uma paciente que também faz tratamento com médico conveniado, utilizando algumas vezes o serviço público quando não tem possibilidade de comprar todos os medicamentos. Esther: casada, 54 anos, dona-de-casa com o ensino fundamental completo. Mora com o marido e duas filhas em uma casa de cinco cômodos e vivem com oitocentos reais mensais. Nos primeiros encontros era calada, mas nos encontros finais, durante as entrevistas mostrou-se mais comunicativa. Diabética há 15 anos, não apresenta complicações relacionadas ao diabetes. Faz seu tratamento com um médico de seu convênio. 5.2 As entrevistas iniciais com os sujeitos Adentramos ao item sobre a análise e discussão dos dados . A entrevista inicial ocorreu antes de nossas reuniões, e tinha como principal objetivo identificar os conhecimentos que as pacientes traziam a respeito da doença. Logo em seguida, nos preocupamos em identificar qual foi o impacto da doença na vida dessas pacientes. Com a entrevista também procuramos reconhecer quais as principais necessidades das pacientes e, dessa forma, elegermos com elas os possíveis temas que seriam trabalhados nos encontros. Para atingirmos nosso objetivo, nesse momento inicial, optamos em nos pautar por uma entrevista que trouxesse perguntas desencadeadoras – entrevista semi-estruturada – a fim de provocarmos as pacientes para uma discussão aberta sobre a doença e das possíveis representações dela em suas vidas. Ao final das entrevistas, identificamos que as pacientes percebem fatores de ordem econômica, social e emocional interferindo na doença. Os conhecimentos das pacientes mostraram-se fracionados e aderidos ao contexto em que elas vivem. Além das respostas às nossas questões principais, outros assuntos vieram à tona no decorrer das entrevistas. Através desses temas levantados, pudemos perceber que em muitos casos a procura pelo médico não ocorreu devido a sintomas iniciais do Diabetes, mas de outras patologias, tais como; hipertensão e complicações já instaladas do Diabetes em diferentes órgãos. Apenas uma paciente apresentou sintomas relacionados a hiperglicemia, especialmente poliúria e polidipsia, o que a levou a procurar um médico. Diferentemente de nosso trabalho, onde 70% obtiveram diagnóstico ocasional e apenas 10% apresentaram os sintomas clássicos do diabetes mellitus, Motta (1996) encontrou uma prevalência de diagnóstico ocasional e realizado pela presença de sintomas de hiperglicemia, de 35,4% e 29,2% respectivamente. A seguir, apresentamos uma visão geral das entrevistas. 5.2.1 A primeira questão A primeira pergunta realizada nos remete aos conhecimentos sobre as causas do diabetes. Pudemos constatar com as respostas que, para esta população, dentre as causas do diabetes, encontram-se: alimentação excessiva (4), hereditariedade (3), sobrepeso (3), desconhecimento (2), nervosismo (1), conhecimento específico (problema do pâncreas) (1), menopausa (1). Observamos que o conhecimento sobre as causas do diabetes giram em torno dos tópicos levantados por nossas pacientes, no entanto, existem diferenças em sua prevalência. Em nosso estudo o motivo mais relevante foi a alimentação excessiva, principalmente o consumo de doces, já em outra população estudada observamos o fator “estresse emocional”, referido como a principal causa do diabetes mellitus (MOTTA, 1996). Com essas repostas, é possível detectarmos um panorama heterogêneo do ponto de vista dos conhecimentos anteriores, apresentados pelos sujeitos com relação à doença. Comprovaremos essa informação no decorrer da apresentação dos dados. Encontramos dados revelando total desconhecimento das causas do diabetes: “É, eu num sei explica porque isso aí”. (Ana) Porém, de outro lado encontramos dados apontando conhecimentos anteriores bastante específicos: “Ah, eu acho que foi assim, pode ser hereditário, e pode ser aquele de excesso, problema do pâncreas que às vezes não funciona direito.” (Isabel) As respostas também mostram que os conhecimentos passam pelo reconhecimento dos fatores hereditários: “Eu acho que causo porque veio da minha mãe. Hereditário”. (Judith) “Minha mãe tinha, meu pai tinha, a minha irmã tem.” (Sara) “Num é de família, ninguém tem, só eu.” (Madalena) “Então, eu creio que tem na minha família.” (Marta) “Eu num sei, eu acho que foi também o fator familiar.” (Marta) As questões alimentares são encontradas como causa do diabetes e a obesidade, é reconhecida como uma fator desencadeador do diabetes: “Eu sempre gostei de comer muito doce. Adoro doce, eu penso, se fez mal pra mim, tem que ser o doce, que o que eu exagero é no doce.” (Madalena) “Ah, Keite eu num sei, porque eu quase num comia doce, eu gostava mais de coisa salgada. Num gostava de coisa doce. Num sei o que aconteceu.” (Sara) “Ah, eu fazia muito doce, sabe, doce ‘casêro’.” (Dalila) “Ah, eu acho que é bastante alimentação, e a gente num ‘controlá’ o peso, então eu acho que tendo aumento de peso.” (Ruth) “Ah, dizem que é da gente, muita obesidade.” (Esther) As questões emocionais também são relacionadas como causa do diabetes mellitus: “O meu, eu acho que foi de nervoso. Daí aconteceu que meu marido ‘aposentô’ e não ‘falô’ pra mim. Depois ‘aposentô’. O salário num dava.” (Débora) Algumas respostas evidenciam que os conhecimentos da paciente sobre as causas do diabetes são amplos, passando por fatores hormonais, da obesidade e hereditariedade, como podemos notar pela fala a seguir: “Bem, eu acho que foi obesidade e a menopausa, porque eu não tenho antecedente, por exemplo, eu num sei, meu pai, minha mãe num tinham diabete, mas ‘meus irmão’ mais velhos, todos acima de cinqüenta anos apareceram. Então, eu creio que tem na minha família.” (Marta) Analisando as falas apresentadas percebemos que elas quase que esgotam os fatores patogênicos associados a ocorrência da doença – hereditariedade, obesidade – sendo que a amostra se reflete nas diferentes fontes fatores das causas, dos apontados como determinantes e desencadeadores da doença (ANDERSON, 2000; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000; FUNASA, 2002). Esses dados, quando associados à educação nutricional, podem nos revelar que se algumas pacientes possuem determinados esboços de conhecimentos, outras não os revelam, reforçando a pertinência de um trabalho educativo a ser desenvolvido com essa população. Esse trabalho deve procurar explicitar e construir os conhecimentos reclamados por aqueles indivíduos que ainda não o tenham, ou que não o percebam de maneira clara, como também fundamentar os conhecimentos dos indivíduos que esboçam traços desses. 5.2.2 A segunda questão A segunda questão dizia respeito à principal dificuldade encontrada pelas pacientes ao tomarem conhecimento do diagnóstico de sua doença. Questionamos também possíveis mudanças que eventualmente realizaram em seu dia-a-dia após a descoberta de “ser diabético”. As respostas encontradas permitem visualizarmos uma realidade bastante difícil para indivíduos que “de repente” se vêem diabéticos. Inicialmente esses sujeitos não aceitam sua doença, chegando a vê-la como um castigo. “Ah, ‘aceitá’. ‘Aceitá’. Eu ‘puis’ na cabeça que a minha mãe, como morreu, nossa, eu ía morre ‘tamém’ do diabete.” (Judith) “’Mudô’, porque eu fiquei, como que eu posso ‘dizê’, traumatizada, num sei, sabe. Achava que eu num merecia ter essa doença, que eu achei que foi um castigo.” (Madalena) “Eu tinha vontade de ‘comê’ tudo que vinha na minha frente, pra vê se eu morria mais depressa.” (Sara) Outra dificuldade apresentada, e que ao longo do trabalho se mostrou a principal delas, dizia respeito à dieta prescrita. “Seria o regime. Porque geralmente a gente já gosta de come.” (Isabel) “...eu ‘tô’ acostumada a ‘comê’, tem que ‘tirá’ tudo. Tirei pão, tirei doce, tirei macarrão, tudo essas coisa, massa, tudo que era de massa ela proibiu de ‘comê’. Aí a alimentação da gente fica mais fraca.” (Ana) “Foi a parte da dieta. Porque até agora eu, é difícil, eu num consigo ‘colocá’ o adoçante. Então, as vezes até eu prefiro ‘tomá’ o leite sem açúcar pra num “usá” o adoçante, porque ‘tá’ difícil.” (Ruth) “Realmente foi a alimentação. Porque eu gostava muito de comer bem, comer bastante, eu era gulosa mesmo. Gostava de doces. Eu nunca pensei que fosse ter diabete, eu via diabetes nas outras pessoas, mas achava que eu nunca ‘ía tê’. Gostava de ‘comê’, fazia doce, fazia bolo. Depois não podendo, então a dificuldade foi a alimentação.” (Marta) Para algumas pacientes a doença também afetou a qualidade de vida no sentido de prejudicar até mesmo o convívio social, uma vez que deixaram de realizar atividades que consideravam prazerosas. “Então eu ‘tô’ me sentindo, ‘tô’ sentindo muita dificuldade pra mim me ‘alimentá’, pra mim ‘convivê’ assim com ‘as pessoa’.” (Madalena) “Eu adorava passear. Ía ‘excurssãozinha’ aí que tinha que me convidava eu ía. Depois disso num ‘tô’ indo mais. Mas eu ía, gostava de ir.” (Débora) Todas essas mudanças chegam a levar a paciente a um quadro depressivo reconhecido por ela: “Muita depressão, mesmo.” (Madalena) As pacientes que utilizam insulina apresentam outra dificuldade, aquela relacionada a aplicação da insulina. “Ah, na hora que tinha que ‘tomá’ insulina. Eu ficava pensando, ‘aí, tomá agulhada na barriga’.” (Dalila) “O que foi mais difícil pra mim foi quando ela ‘começô passá’ insulina. Eu não aceitava ‘tomá’ insulina. Do remédio, então tudo bem, tomava, tudo. Mas quando ela ‘falô’ que eu tinha que ‘tomá’ insulina, pra mim foi muito difícil. Nossa, eu achava o fim do mundo. ‘Cê’ todo dia tinha que fura a gente, todo dia, todo dia, todo dia.” (Esther) Percebemos que aceitar mudanças, muitas vezes radicais, em suas vidas constituia-se em um problema muito sério para essas pessoas. Modificar sua dieta e seu estilo de vida tornam essas pessoas seres dominados pela patologia. Mantê-las com conhecimentos superficiais nos parece que apenas contribuirá para que permaneçam nessa situação de dominação pela doença. Nesse momento, poderíamos nos perguntar: quem poderia representar uma possibilidade de superação da dominação pela doença? A resposta a essa pergunta nos remeteria ao profissional devidamente qualificado, com competência para esclarecer ao paciente conhecimentos fundamentais que possibilitassem sua libertação. O conteúdo das falas dos pacientes revela o profissional médico sendo considerado como aquele que poderia “reverter”, “resolver” e “ajudar” no convívio com a doença. Esses aspectos podem ser associados à imagem de “libertação” dos pacientes do jugo e dominação pela doença. Contudo, o que observamos em nossas entrevistas foi uma relação de dominação do profissional de saúde, que mantém o paciente em um nível de conhecimento muito superficial. Através das falas, percebemos um elo frágil de ligação entre o profissional de saúde e o sujeito diabético. “Daí ele falô ‘não vou cuidá mais do seu diabete, num vou dá mais exame para você fazê de sangue, vou tratá só da sua pressão, a pressão você pode vir aqui, mas o papel do diabete num vou ti dá mais’.” (Débora) “Não, não ‘falô’ nada. Num ‘falô’ nada. ‘Falô’ que eu tava com a doença, mas num ‘falô’.” (Madalena) “Eu acho que ele é muito seco, assim, parece que ele num gosta de ‘entrá’ em detalhe, ‘passô’aquilo e ‘cabô’. É só aquilo.” (Madalena) “Ela falou alguma coisa do tipo do diabetes?” (pesquisador) “Não, pra mim não.” (Marta) Percebemos que os profissionais atribuem toda a responsabilidade do tratamento da doença aos pacientes, sem ao menos dar-lhes, através de um processo educacional, subsídios para que possam ter uma maior capacidade de compreensão e discernimento sobre qual deve ser sua conduta diante do tratamento. Em uma das entrevistas, pudemos perceber uma relação comprometedora entre as partes, na qual o médico reforça apenas os aspectos negativos da doença, sem ressaltar que o tratamento, quando seguido corretamente poderia evitar as complicações associadas à patologia: “Aí ele começou a falar que eu ia ‘ficá’ cega, que meu rim ‘ía paralisá’, que eu ‘ía precisá amputá’ as pernas.” (Débora) Diariamente, a educação em saúde deve fazer parte da atuação profissional, de forma que se possam auxiliar os sujeitos a se tornarem autônomos, como agentes do processo de melhoria de sua condição de saúde, e a superarem suas deficiências (CARVALHO, 1996). Aumentam as possibilidades de atingirmos esse nível ideal de educação em saúde, à medida que for inserida nos currículos de graduação, o mais rápido possível, a concepção da educação em saúde baseada na problematização de Paulo Freire (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Os novos profissionais precisam deixar de ver a relação paciente/ profissional como uma relação de subordinação, para vê-la na direção do que aprende com o outro. Em síntese, temos um possível caminho que leve a mudanças no sistema de saúde, nas concepções de educação em saúde, ao aderirmos a realidade em que “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1988, p.68). O profissional de saúde deve representar o canal para a conquista da autonomia desse sujeito, a fim de que, tendo em mãos os conhecimentos em relação à doença, o paciente possa sentir-se seguro e perceber a importância e necessidade de algumas mudanças em sua rotina. No entanto, é importante ressaltar que a abertura a essas mudanças só pode ocorrer a partir do indivíduo portador da doença e não do profissional. O profissional de saúde deve ser o instrumento para a educação dos sujeitos, para sua autonomia e melhor qualidade de vida e não condená-los a tratamentos restritivos, que negam toda uma história de vida. Essa postura profissional caracteriza a medicina moderna, altamente tecnológica, que reduz a autonomia dos sujeitos, tornando-os cada vez mais dependentes dos profissionais de saúde, principalmente médicos (HELMAN, 1994). Continuando nossa análise da primeira entrevista e nos fundamentando em Paulo Freire, temos que a possibilidade de libertação dos pacientes está longe de ser alcançada uma vez que “problematizar é exercer uma análise crítica sobre a realidade problema. [...] Enquanto na teoria da ação antidialógica a elite dominadora mitifica o mundo para melhor dominar, a teoria dialógica exige o desenvolvimento do mundo”. (FREIRE, 1988, p.167). Percebemos primeiramente que as orientações a respeito da doença e seu tratamento são monopólio de um grupo restrito de profissionais de saúde. Em momento algum, as pacientes citaram ter recebido orientações de outros profissionais que não médico. Cremos que esse fato por si só já demonstra uma forma de dominação dos indivíduos, os quais não conseguem, dentro do sistema de saúde vigente, ter a possibilidade de serem orientados pelos diversos profissionais de saúde existentes. A partir dessa constatação, partimos para outras questões que acabam por estarem intrínsecas nessa teia. Por exemplo, a questão do tratamento dietético proposto a esses indivíduos. As dietas prescritas são altamente restritivas. A dieta é um aspecto que poderia representar a libertação das amarras da doença e incidir diretamente na qualidade de vida do sujeito, entretanto as falas dos nossos sujeitos revelam uma dieta restritiva e difícil de ser seguida: “Oh, daí ela abaixo, eu consegui fazer a dieta certinha. Porque, beterraba eu num ‘cômo’, cenoura eu num ‘cômo’, batatinha eu num ‘cômo’. Tudo que é de massa eu num ‘cômo’, feijão eu num ‘cômo’, salgadinho eu num ‘cômo’, pode ser o salgadinho mais gostoso que for, bem longe de mim. Que é triste, ‘sabê’ que você tem isso daí e num vai ‘podê comê’, então porque você vai ‘teimá de comê’.” (Sara) “Ah, foi tudo porque se você fizer certinho, você num pode ‘comê’ nada, nada. Mas eu já notei, eu tratei um tempo com a doutora [...], então ela ‘tirô’ tudo. Olha, mais se eu continuasse eu ‘ía acabá’ na cama mesmo, se eu continuasse com o regime dela, porque você num agüenta. Você, sei lá, num sei se é porque quando a gente está proibido, daí que quer.” (Débora) “...eu estou acostumada a ‘comê’, tem que ‘tirá’ tudo. Tirei pão, tirei doce, tirei macarrão, ‘tudo essas coisa’, massa, tudo que era de massa ela proibiu de ‘comê’. Aí, a alimentação da gente ‘ficô’ mais fraca. Leite, só leite desnatado, queijo, só queijo light.” (Ana) “Tirou toda massa, todo açúcar. Por exemplo, era três bolacha, tinha três bolacha água e sal, ou um pãozinho pra substituir, mas ela me deu uma dieta que não tinha pão, era três bolacha água e sal. ‘Pudia’ substituir por torradas.” (Marta) “Acostumada a ‘comê’ tudo, como a gente comia antes e ter que comer só aquelas coisa aí.” (Esther) Provavelmente o profissional ao orientar uma dieta altamente restritiva baseia-se em um único fator, o biológico. Esse profissional não se atém ao fato de que restringir alimentos pode significar a restrição de um prazer ou de muitos prazeres, dependendo da representação do alimento na vida desse indivíduo (GARCIA, 1992). O paciente pode estar ingerindo, não um nutriente, mas um simbolismo; o alimento deixa de ser apenas comida, para se transformar em preocupações diárias (GARCIA, 1992). Devemos lembrar que o alimento tem uma representação social na vida dos pacientes, sendo fixado desde a infância, tanto pela família, como por tradições, crenças e tabus da comunidade onde vive, o que significa que o ato de se alimentar não se relaciona exclusivamente com a fisiologia (HELMAN, 1994; MOTTA e BOOG, 1991; CASTRO e PELIANO, 1985). Essa restrição mantém as amarras nos pacientes, que não conseguem seguir a dieta, principalmente porque “as mudanças de hábitos transitam mais pelo significado simbólico dos alimentos” (CASTRO e PELIANO, 1985, p.202) e os profissionais de saúde, em sua maioria, ignoram esse fato em suas orientações. Notamos que as dietas eram prescritas independentemente do contexto econômico e das possibilidades do paciente, principalmente quando se prescrevem alimentos light, que sabemos terem preços mais elevados que os demais alimentos. Quanto à questão de não se levar em consideração as condições sócio-econômicas dos medicamentos prescritos. indivíduos, o mesmo ocorreu em relação aos “E no doutor [...] eu fui pra ver se ele ‘dáva’ um remédio mais barato. Que custava cinqüenta e dois esse, trinta comprimido. Daí eu falei pra ele ‘ah, tudo as mulher que toma remédio de pressão, aqui na rua, o remédio é baratinho, deixa eu pedí porque’. Daí ele falô ‘sua pressão num quer saber se o remédio é caro ou é barato’.” (Débora) Outra questão detectada em nossa análise é a ausência de falas relativas a outros aspectos que poderiam melhorar a qualidade de vida dos pacientes, como, por exemplo, a atividade física e o suporte emocional. Em relação à atividade física, muitas pacientes disseram ser uma questão importante para controle da doença, mas apenas duas associaram essa questão com as orientações médicas. Em seu trabalho, Motta (1996) também se depara com a ausência de orientações a respeito de atividade física como um fator importante do tratamento de indivíduos diabéticos, a autora encontra apenas um paciente que teve uma abordagem a respeito de exercícios físicos. Isso pode evidenciar que, ainda hoje, muitos profissionais não enfatizam a atividade física como parte integrante e fundamental do tratamento do diabetes, embora se saiba que o tratamento do diabetes deve ser realizado através da educação dos sujeitos para manterem uma alimentação saudável, de uma atividade física regular e, quando necessário, com uma medicação oral ou a insulina. Guimarães e Takayanagui (2002) encontram dados semelhantes em seu estudo, colocando que 82,8% dos pacientes analisados não receberam orientação sobre atividade física como parte do tratamento do diabetes. Continuando nossas análises identificamos que as pacientes apresentam vários conhecimentos à respeito da doença, como já citamos no início. Quando observamos os conhecimentos advindos do saber do profissional de saúde, vemos que se restringem basicamente ao tratamento medicamentoso e a prescrição de uma dieta restritiva. Vale ressaltar que são conhecimentos relatados pelas pacientes, ou seja, foram informações que os profissionais transmitiram a elas. Embora, em nosso trabalho a orientação dos pacientes associou a adoção de dieta e medicamentos como plano de tratamento para o diabetes mellitus, encontramos na literatura uma grande porcentagem, 89,2%, de profissionais que dão início ao tratamento exclusivamente com hipoglicemiantes orais, e outros ainda, 7,7%, com a insulina (MOTTA, 1996). Outras autoras referem a mesma problemática, sendo que 70% das orientações iniciais basearam-se na introdução de medicamentos e apenas em 27% dos atendimentos os pacientes receberam orientações sobre mudanças alimentares como primeiro passo no tratamento (GUIMARÃES e TAKAYANAGUI, 2002). Podemos constatar a partir das falas das pacientes, que os profissionais de saúde se preocupam basicamente em medicar e proibir a ingestão de vários alimentos, contrariando o que vimos no decorrer de nosso trabalho. O tratamento do Diabetes engloba um conjunto de fatores, dos quais fazem parte, com ênfase inicial, um processo de educação do sujeito diabético, a fim de que consigam manter uma alimentação saudável. São sugeridos também exercícios físicos e, por fim, caso seja necessário, o tratamento prevê a utilização de hipoglicemiantes orais ou insulina (FUNASA, 2002; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2000). Entretanto, de acordo com o tratamento que observamos ser oferecido aos pacientes diabéticos, vemos que o indivíduo torna-se um órgão doente, órgão que não produz insulina e precisa recebê-la através de medicamentos. Não vemos a percepção desse “órgão” em um organismo, em uma família, em uma sociedade. O indivíduo é lesado em seu direito constitucional, não recebendo um tratamento que engloba todos os aspectos da doença: biológico, psíquico e social. Traçamos durante o nosso trabalho um paralelo entre a saúde e a educação e, desta forma, pudemos ver que os profissionais de saúde se assemelham a educadores opressores, que aceitam a realidade como uma fatalidade, em que nada pode ser feito a não ser medicar e prescrever a dieta, não considerando o saber popular e as condições de vida do sujeito (BRANDÃO, 2001; FREIRE, 1988) Já os pacientes podem ser comparados aos educandos que são oprimidos e muitas vezes não conseguem enxergar essa situação e se libertarem. O modelo da Educação em Saúde identificado fundamentou-se nos moldes que iniciaram a Educação em Saúde. Dentre as possibilidades que encontramos na educação em saúde, Stotz (1993) e Smeke e Oliveira (2001) nos colocam frente ao desafio de se deixarem os dois extremos de pensamentos propostos anteriormente, em nossos referenciais teóricos, – radical e pessoal – de forma a se adotar uma posição mais flexível, segundo a qual se admite que a educação em saúde é dinâmica e complexa e que, para conseguirmos abordá-la da forma mais completa possível, é necessário utilizarmos aspectos de ambas as concepções. Os profissionais precisam estar cientes de que também são capazes de modificar a situação e podem auxiliar na educação dos sujeitos, que por sua vez também devem se conscientizar. Esse profissional de saúde precisa assumirse também enquanto educador (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). Desde a década de vinte, ainda que através de uma concepção impositora, a educação em saúde vem obtendo conquistas. Todavia, o que antes era autoritário, impositivo, passa a ser orientado por uma metodologia de diálogo no processo de ensino-aprendizagem. Começa-se a deixar de lado a assertiva de que a culpa é unicamente do sujeito e compreendem-se determinantes sóciohistóricos na percepção do processo saúde/doença/intervenção (SMEKE e OLIVEIRA, 2001). 5.3 Os encontros Finalizadas as entrevistas iniciais com as pacientes, pudemos obter nossos temas geradores. Sobre a procura dos temas geradores Paulo Freire (1988, p.96) nos lembra ser um “esforço que cabe realizar, não apenas na metodologia da investigação temática, [...], mas, na educação problematizdora que defendemos”. Ainda nos sugere que “investigar o tema gerador é investigar o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis.” (FREIRE, 1988, p.98). O principal tema sugerido pelos pacientes foi a alimentação. Todas as pacientes relataram algum tipo ou grau de dificuldade em relação a esse assunto. Com o tema em mãos, surgiu outra preocupação – a construção metodológica dos encontros. A fim de planejarmos corretamente nossas reuniões e realizarmos um trabalho em grupo fundamentado, partimos para uma pesquisa bibliográfica. Para nosso trabalho educativo utilizamos Bordenave e Pereira (2001), além de técnicas sugeridas no livro Recriando Experiências: técnicas e dinâmicas para grupos7 e no material Educação em Saúde: coletânea de técnicas8. Além desse referencial teórico, não podemos deixar de ressaltar um fator importantíssimo no planejamento de nossos encontros: a problematização. Durante nosso trabalho, ressaltamos a importância da educação problematizadora de Paulo Freire e, desta maneira, uma preocupação constante em nossos encontros foi a utilização dessa concepção educacional. Durante os encontros, procuramos levantar com as nossas pacientes questões que as levassem a uma reflexão crítica sobre seu processo saúde-doença. A cada encontro, buscávamos uma maneira de problematizar as temáticas com as participantes. Procurávamos deslocá-las de uma situação passiva para uma crítica, buscando construir conhecimentos referentes ao diabetes. Outra preocupação que tivemos nos encontros foi a de torná-los um momento para se exporem problematizações e discussões em relação ao 7 INSTITUTO DA PASTORAL DA JUVENTUDE – LESTE II. Recriando experiências: técnicas e dinâmicas para grupos. Ed. Paulus, 199?, p. 07, 13-14, 30. 8 SÃO PAULO. Secretaria de Estado da Saúde. CADAIS. Núcleo de Educação. Fesina. Educação em saúde: coletânea de técnicas. S.n. 1993. p.15, 139-147. diabetes e, ainda uma oportunidade para as pacientes perceberem que o diabetes não impede que tenham uma alimentação prazerosa, mas que, mesmo sendo necessárias algumas modificações nos hábitos alimentares, vários grupos alimentares importantes podem ser mantidos de maneira equilibrada, como por exemplo o consumo de sobremesas. Em nossas entrevistas pudemos perceber que, em relação a alimentação, o fato de não poderem mais consumir doces era considerado como que um fardo para as pacientes. Por acreditarmos que a educação nutricional deva abranger aspectos nutricionais, fisiológicos, sociais, psicológicos e culturais, nos propusemos a levar a cada encontro uma receita, de pratos salgados ou doces dietéticos para que as pacientes degustassem. Além do fator nutricional, procuramos levar preparações saborosas e que substituíssem o doce feito tradicionalmente com açúcar, assim como preparações que fazem parte do cotidiano das pacientes. Ocorreram vinte e três encontros com freqüência de uma vez na semana. Eram iniciados às 13:30h e tinham a duração de cerca de uma hora e quinze minutos. Cada reunião transcorreu de forma única. Embora sempre trouxéssemos um planejamento prévio de atividades, a partir do Esquema do Arco, elaborado de acordo com as solicitações das pacientes na reunião anterior, muitas vezes eram necessárias mudanças nessa programação. Essas mudanças se davam a fim de atender necessidades pontuais das pacientes. Esse processo era compatível com o caráter da pesquisa qualitativa, onde se faz necessário haver uma flexibilização e, o pesquisador ter sensibilidade para que perceba e aceite as necessidades apresentadas pelos indivíduos naquele momento adeqüando seus planos à mesma (MINAYO, 1996; TRIVIÑOS, 1987). Ao final de cada reunião realizávamos uma avaliação do encontro. Essa avaliação se dava através de uma entrevista, gravada e posteriormente transcrita. Procuramos padronizar as entrevistas, porém, em alguns encontros elas sofreram algumas mudanças de acordo com o diálogo que mantínhamos com a paciente. No início da entrevista, tínhamos o propósito de avaliar nossa atividade educativa a partir das percepções dos sujeitos e, para isso, questionávamos as participantes sobre como se sentiram, ao saírem do encontro. Para responderem a essa pergunta apresentávamos algumas figuras de rostinhos, copiadas do material Educação em Saúde: coletânea de técnicas (p.139-147), com o seu significado escrito logo abaixo, por exemplo, feliz, satisfeita, triste, cansada, entre outros. As participantes escolhiam uma ou mais figuras e diziam com quais se identicavam, a fim de ficar registrado em nossa gravação. Após essa parte, seguíamos com a entrevista procurando levantar questões que nos revelassem como se dava a construção de conhecimentos das pacientes. A seguir, apresentaremos os nossos encontros com seu respectivo conteúdo teórico e metodológico. 1º Encontro – 01/10/2002 Nosso objetivo na primeira reunião foi o de facilitar a socialização dos sujeitos participantes, enfatizarmos os objetivos de nosso trabalho e definirmos o dia da semana que seria mais propício para realização das reuniões. Nesse primeiro encontro, estávamos apreensivos, com a possibilidade dos pacientes não comparecerem ou de que não saísse como o esperado. Embora contássemos com uma base teórica forte em relação a pesquisa qualitativa, a concepção problematizadora, e também com o domínio de um conteúdo específico de nutrição, ainda assim conservávamos certa apreensão para iniciarmos as reuniões. Nessa primeira reunião, além dos pacientes entrevistados previamente, compareceram alguns que não participaram das entrevistas, mas foram convidados por participantes do grupo ou pelas agentes de saúde. Explicitamos ao grupo a finalidade do trabalho e obtivemos o consentimento de todos para a realização das reuniões uma vez por semana, porém ainda não tínhamos um dia ou horários fixos. Após essas primeiras explicações, demos início as apresentações. Modificamos um pouco a técnica de socialização do livro Recriando Experiências: técnicas e dinâmicas para grupos (p. 7), porém sua idéia principal foi mantida. O nome da atividade é “Apresentação”. Durante as apresentações os pacientes colocaram dados como o tempo em que moram na cidade, as atividades de lazer e informações sobre aspectos relacionados ou associados à doença – associações patológicas, comprometimentos, tratamento, resistência à doença. Após as apresentações e observando que algumas falas manifestaram dúvidas em relação a dieta do diabético, reforçando os dados encontrados nas entrevistas, perguntamos se concordavam em discutir no próximo encontro a alimentação do paciente diabético. Todos concordaram com o tema e confirmaram ser uma dúvida freqüente em seu cotidiano. Servimos a sobremesa escolhida para o dia – pudim diet – e realizamos a avaliação do encontro. Para avaliação do grupo, escolhemos como método uma ficha na qual o paciente assinalava uma figura que correspondia a sua opinião sobre o encontro e na qual havia uma questão sobre a duração da reunião. Depois colocamos duas questões, uma relacionada a importância do encontro para o paciente e outra sobre como ele poderia aplicar o que aprendeu em seu dia-a-dia. Essas duas questões seriam gravadas, pois encontrávamos no grupo pessoas analfabetas ou com um nível de escolaridade muito baixo, o que poderia dificultar a resposta das questões, pois poderiam apresentar dificuldade de expor suas idéias na linguagem escrita. No primeiro encontro optamos por não fazer as duas últimas questões (Qual a importância desse encontro para você?; Como você poderá colocar em prática, em seu dia-a-dia, o que discutimos aqui?), porque a reunião girou em torno de assuntos práticos, como o horário, o dia do encontro, o motivo por estarmos nos encontrando. Desta maneira, julgamos que não haveria uma avaliação a respeito de como aplicar os conteúdos discutidos em seu cotidiano e sua importância em relação a doença. Marcamos o segundo encontro para a semana seguinte. Não confirmamos o dia da semana, mas nos propusemos a avisá-los em suas residências. Vale dizer que optamos por realizar os encontros semanalmente a fim de estreitar os laços entre os participantes e o pesquisador, uma vez que o grupo estava se constituindo enquanto tal, além de evitar que as informações se dissipassem em um intervalo mais prolongado. Ao sairmos da reunião, conversamos com alguns pacientes que relataram ser a reunião uma forma de saírem de casa, de conversarem com outras pessoas. Dessa maneira pudemos observar que o grupo cumpriria três funções: - construção de conhecimentos; - socialização de experiências; - grupo de lazer. 2º Encontro – 08/10/2002 Como não havíamos decidido na reunião anterior em qual dia seria realizado o próximo encontro, levamos até a casa dos pacientes convites com o dia e o horário da segunda reunião. Logo no início do encontro, propusemos a escolha de um dia e horários fixos para as reuniões. Conjuntamente decidimos que o melhor dia para a sua realização seria às quartas-feiras, às 13:30h. Após essa decisão passamos a atividade de socialização preparada. Escolhemos a atividade “História do nome” (p.15), do material Educação em Saúde: coletânea de técnicas. Escolhemos essa técnica com a finalidade de aprofundarmos as apresentações, fazendo com que os participantes fornecessem maiores detalhes sobre suas vidas e se sentissem mais próximos. Durante a atividade o grupo mostrou-se bastante ativo, com uma boa interação entre os participantes. Posteriormente, analisando a atividade, pudemos perceber que ela levou os indivíduos a um contato com sua história. Através de seus nomes conseguiram enxergar sua identidade, reconhecendo sua história. Finalizada a tarefa, procuramos mostrar aos participantes que suas histórias eram únicas em muitos pontos, porém comuns em determinados aspectos. As histórias eram comuns em um “pequeno aspecto”, o fato de serem diabéticos. Nosso objetivo, naquele momento, foi mostrar que, dentro de uma história de vida, ser diabético representava pouco e que deveriam valorizar o sentido completo de suas vidas e não se fixarem em um único ponto. A seguir, passamos à discussão do tema da reunião – a alimentação do diabético. Para explicarmos o que é diabetes construímos exemplos acessíveis à compreensão dos pacientes. Como exemplo podemos citar a relação que estabelecemos comparando a glicose a um passageiro e a insulina ao carrinho do nosso organismo. Dissemos que no diabético às vezes não existe a produção da insulina (carrinho) e por isso é necessário aplicá-la. Em algumas pessoas o número de carrinhos é insuficiente, mas controlando a chegada de passageiros a situação pode ser equilibrada. Explicamos que quando comemos o açúcar é como se muitos passageiros chegassem ao mesmo tempo no ponto de ônibus e como os carrinhos eram insuficientes não conseguiam levar todos os passageiros, que ficavam sobrando e elevando a quantidade deles no sangue. Já quando comemos um alimento que libera passageiro, ou seja glicose, lentamente, nossos carrinhos conseguem levar todos aos seus destinos, dissemos que os destinos eram os órgãos de nosso corpo. Terminada nossa discussão, servimos a sobremesa do dia – doce de pêssego em calda. Nesse encontro, além da avaliação escrita, realizamos as gravações das respostas às questões citadas anteriormente. 3º Encontro – 16/10/2002 A atividade de socialização escolhida para o terceiro encontro objetivou melhorar a auto-estima dos participantes, mostrando-lhes que são pessoas especiais e precisam gostar de si, lembrar de si e desta maneira cuidar de sua saúde. A técnica escolhida para a atividade foi “O espelho”, do livro Recriando Experiências: técnicas e dinâmicas para grupos (p.13-14). Finalizada a atividade, questionamos quais as possíveis dúvidas sobre a alimentação do diabetes. Iniciamos uma discussão sobre o assunto. Durante a conversa, outros assuntos foram surgindo e uma das pacientes disse que quando era jovem conseguia fazer várias coisas, mas agora havia mudado muito. Aproveitamos a colocação para enfatizar que era necessário que aprendessem a lidar com o diabetes. Colocamos que, durante a vida, passamos diversas fases e necessitamos nos adequar a cada uma delas. Dessa maneira, ser diabético era uma nova fase e era necessário se adequar a ela para conseguir viver com qualidade de vida. Antes de iniciarmos a avaliação da reunião, servimos para cada participante uma fatia de panetone diet e um copo de suco artificial diet. Não levamos o suco de fruta natural por já estarmos oferecendo uma fonte de carboidratos, no caso o panetone, e também por julgarmos que o suco artificial já faz parte do cotidiano de nossas pacientes. 4º Encontro – 23/10/2002 No quarto encontro, contamos com a presença de mais uma nova integrante, convidada por uma das participantes. A nova integrante resolveu participar porque o médico solicitou que fizesse um exame para averiguar se é diabética. Isso nos mostrou sua preocupação e seu interesse pelo grupo, pois antes mesmo de ter certeza do diagnóstico, que ainda poderia ser negativo, optou por se informar e para isso procurou nosso grupo. Nesse encontro, não realizamos atividade de socialização por julgarmos que o grupo já possuía um bom relacionamento e já conheciam um pouco mais sobre cada um. Dessa maneira, a primeira atividade proposta foi a divisão em dois grupos para discutirem sobre as maiores dificuldades encontradas depois de diagnosticado o diabetes. Elas escreveram em uma folha suas dificuldades (Anexo E). Nosso objetivo com essa atividade foi conhecermos um pouco mais as dificuldades enfrentadas pelos sujeitos e dessa forma podermos construir nossos encontros de maneira a discutirmos essas dificuldades, que muitas vezes, pudemos constatar ainda eram presentes em suas vidas. Entre as dificuldades encontradas, estavam: seguir a alimentação proposta como tratamento, principalmente deixar de consumir açúcar e doces, manter a dieta quando viajavam e lidar com os hiperglicemia, como a poliúria e polidipsia. sintomas próprios da Após nos entregarem as folhas, começamos a discutir as causas do diabetes e aproveitamos a oportunidade para explicar a fisiopatologia do diabetes. Terminada a discussão, e com o avançar da hora, resolvemos questioná-las sobre o que gostariam de discutir no próximo encontro. Decidiram que conversaríamos sobre colesterol e os nutrientes que compõem os alimentos. Decidido o assunto da reunião seguinte, servimos um copo de suco artificial diet, sabor pêra, uma porção de torradas com patê de ricota com cenoura. 5º Encontro – 30/10/2002 Nesse encontro objetivamos discutir o assunto proposto no encontro anterior, porém antes de iniciarmos a discussão havíamos preparado uma dinâmica de grupo, com a finalidade de iniciarmos nossa discussão com as questões levantadas na dinâmica. A dinâmica era “Duplinhas rotativas”, do livro Recriando Experiências: técnicas e dinâmicas para grupos (p.30). No entanto, um número menor de pacientes compareceu e isso comprometeria a evolução da dinâmica. Dessa maneira, fomos direto para a discussão do tema do dia. Cabe ressaltar que essa mudança mostra que em um trabalho com um grupo de pessoas, há necessidade de adaptações segundo a realidade encontrada em cada reunião. Como já visto anteriormente essa é uma realidade inerente a pesquisa qualitativa. Como combinado no encontro anterior, discutiríamos os nutrientes dos alimentos e o colesterol. Iniciamos com uma pergunta sobre o hábito da leitura dos rótulos dos alimentos, daí partimos para os nutrientes relacionados nesses rótulos. Dessa pergunta inicial, partimos para uma ampla discussão sobre carboidratos, lipídeos, proteínas e fibras. A discussão foi se estendendo e a hora já estava adiantada. Como não havíamos esgotado o assunto sobre os nutrientes resolvemos prosseguir na semana seguinte. Antes de darmos início às entrevistas de avaliação do encontro, servimos maria-mole diet. 6º Encontro – 06/11/2002 Partimos agora para o sexto encontro onde iríamos discutir um pouco mais sobre os nutrientes, como dito anteriormente, devido ao fato do assunto não ter se esgotado na reunião anterior. Antes mesmo de iniciarmos as discussões, uma paciente relatou que precisava saber quais alimentos continham carboidrato, pois tinha dificuldade para guardá-los. Aproveitando a dúvida da paciente, demos início a reunião, perguntando às demais pacientes se poderiam dar exemplos de alimentos fontes de carboidratos. Depois de falarem, outra paciente fez uma questão relacionada a um assunto que tinha visto em um programa de TV, no final de semana. Outros assuntos foram surgindo de acordo com o interesse manifestado pelas pacientes. Ao final desse encontro, percebemos que algumas pacientes, embora apresentassem uma evolução em seus conhecimentos, algumas vezes retrocediam, porém isso é visto como um dado importante em seu processo de aprendizado. Como educadores, precisamos ficar atentos a isso e amenizarmos nossas ansiedades em relação a construção do conhecimento, reconhecendo que existem avanços, mas também retrocessos. Como nos encontros anteriores, servimos uma preparação, que foi bolo de maracujá diet. 7º Encontro – 13/11/2002 A questão dos nutrientes ainda era necessária e procurando fechar sua discussão preparamos para esse encontro uma atividade. Recortamos gravuras de alimentos e dispusemos sobre a mesa. As pacientes deveriam pegar algumas gravuras e separar os alimentos de acordo com grupo a que pertenciam, fontes de carboidrato, fonte de proteína e fonte de lipídeos. Após terminarem a tarefa, questionamos quais haviam sido as principais dificuldades e juntas fomos analisando os alimentos colocados em cada grupo. Uma das pacientes comentou que a atividade era muito interessante, pois nas consultas médicas eram informadas apenas sobre alguns alimentos que não podiam consumir, mas não aprendiam a montar seus pratos e substituir alimentos. Perguntamos qual assunto gostariam de discutir no encontro seguinte e optaram por ser o triglicérides. Embora em encontros anteriores tenham relatado que gostariam de falar sobre o colesterol, optaram por outro assunto. Mais uma vez vemos que as necessidades dos pacientes podem se modificar de acordo com o momento que estão vivendo. A sobremesa do dia foi biscoitinhos de coco. Analisando essa reunião, mais uma vez sentimos nossa dificuldade em problematizar, muitas vezes respondendo prontamente as dúvidas das pacientes, sem criarmos um pergunta que as leve a pensar criticamente. Outra questão observada é que, muitas vezes, mesmo quando perguntamos, alguns pacientes não respondem e parecem esperar pela resposta. Devemos nos lembrar que o desenvolvimento de uma visão crítica, que as leve a uma autonomia é um trabalho árduo, que não se realiza em um curto espaço de tempo. 8º Encontro – 20/11/2002 Nessa reunião, levantamos a questão do triglicérides, o assunto proposto no encontro anterior. Para darmos início a conversa, perguntamos sobre os exames de sangue que realizavam e se alguém havia percebido uma alteração nos níveis de triglicérides. As pacientes foram falando sobre seus exames e algumas tinham níveis elevados do triglicérides. Questionaram o que era o triglicérides e como tratá-lo. Conversamos sobre o tema e outros assuntos também surgiram. Um assunto que julgamos importante citarmos foi a necessidade dos pacientes em receberem uma lista de alimentos proibidos e permitidos. Isso nos mostra que essa forma tradicional de orientar um paciente é muito forte e mais fácil, tanto para o paciente como para o profissional de saúde. Observamos as dificuldades em levar os pacientes a uma situação de libertação, e autonomia. Os pacientes precisam conquistar a liberdade das amarras colocadas pelos profissionais de saúde. Mas a libertação implica uma busca permanente, uma substituição das idéias inculcadas, por idéias próprias. O sujeito é levado a construir um saber crítico, no entanto, muitas vezes ele teme essa construção. Ele não se sente capaz de arriscar mudar, mantendo-se na opressão (FREIRE, 1988). Como profissionais de saúde procuramos oferecer subsídios para as pacientes perderem o medo da libertação, porém, muitas vezes elas ainda se mostraram amedrontadas frente a esse processo, mantendo-se ligadas aos métodos opressores de tratamento. Ao término da reunião servimos às pacientes um rocambole recheado com creme e pêssego. 9º Encontro – 26/11/2002 O assunto discutido na reunião foi o colesterol. Propusemos esse tema pelo fato dos sujeitos terem levantado interesse em discuti-lo em algumas reuniões anteriores. Iniciamos nossa discussão perguntando se sabiam o que era colesterol, apenas uma paciente se manifestou, entretanto quando questionamos sobre o tratamento dietético de um indivíduo com níveis elevados de colesterol outra paciente respondeu. Além do tema proposto, a pedido de uma paciente que estava ausente no encontro anterior, retomamos o assunto discutido naquela semana. Nesse momento, pedimos para que as pacientes explicassem para as colegas o que haviam aprendido e uma delas leu suas anotações. Percebemos que há alguns encontros certas pacientes traziam cadernos para anotar as informações que discutíamos nas reuniões. Cremos que isso se deu pelo interesse em guardarem o que estávamos tratando e também porque, para as participantes, os encontros tem uma conotação de aula, de escola. Não se libertaram dessa idéia de uma escola tradicional, onde o professor fala e os alunos anotam. No decorrer do encontro, levantaram outro assunto, doação de sangue, pois apresentavam dúvidas. Nós não soubemos esclarecer todas as dúvidas e nos comprometemos a pesquisar sobre o assunto e levar uma resposta na semana seguinte. Terminada essa discussão questionamos as pacientes sobre os níveis de colesterol considerados adequados. Todas relataram desconhecer esses valores. Dessa maneira, escrevemos na lousa os níveis considerados normais de colesterol total, HDL e LDL. Explicamos sobre o “bom colesterol” e o “mau colesterol”. Muitas se manifestaram, dizendo que os profissionais de saúde que as atendem não explicam esses valores, não relatam nada sobre os tipos de colesterol, apenas informam se o nível de colesterol está alto ou normal. Mais uma vez, pudemos perceber os profissionais de saúde dominando a situação, sem nem ao menos transmitirem essas informações. As pacientes degustaram nessa reunião uma fatia de bolo de laranja diet. 10º Encontro – 04/12/2002 A atividade proposta para o dia foi a elaboração de uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Nos propusemos a realizar essa atividade porque ter uma lista de alimentos permitidos foi uma solicitação de uma participante. Com isso notamos que o método prescritivo está enraizado nos sujeitos, o que acaba tornando uma necessidade receberem uma lista de alimentos para orientarem sua alimentação. Como nossa proposta não é manter os pacientes oprimidos e dependentes de métodos bancários de educação, pensamos em uma maneira de transformar o pedido em uma atividade libertadora na qual os pacientes pudessem desenvolver uma visão mais crítica a respeito dos alimentos que podem ingerir. Dessa maneira, entregamos folhas em branco para as pacientes e propusemos que juntas fôssemos construindo a lista de alimentos. Iniciamos a atividade solicitando que relatassem os alimentos que consumiram no dia anterior, de acordo com cada refeição. Conforme as pacientes iam relatando questionávamos se os alimentos eram adequados e se poderiam entrar na nossa lista. Além dos alimentos citados pelas pacientes demos outros exemplos, a fim de variarmos a lista das pacientes. Pedimos para que continuassem montando suas listas em casa, de acordo com o que consumissem. Experimentaram nesse encontro uma sobremesa denominada gelado de ameixa. 11º Encontro – 11/12/2002 Na 11ª reunião, os assuntos propostos foram os macronutrientes do arroz e feijão e os preparativos para a ceia de Natal. Conversamos sobre a composição de carboidrato, lipídeos e proteínas do feijão porque no decorrer dos encontros pacientes relataram que não consumiam feijão por ordem médica. Como achamos inadequada essa orientação, levamos os dados para que pudéssemos ver as quantidades de nutrientes existentes no alimento. O assunto sobre a ceia de Natal foi levantado porque a data se aproximava e gostaríamos de saber o que as participantes planejavam preparar para que pudessem desfrutar da comemoração da melhor forma possível. Finalizada nossa conversa, iniciamos a leitura do depoimento “Eu e meu diabetes...”9, que relatava a experiência de um médico, diabético há vinte e um anos e que não apresentava complicações. Resolvemos fazer essa leitura para que as pacientes pudessem perceber que existem outras pessoas diabéticas, e que através de um controle adequado podem viver com saúde, sem complicações. Após a leitura servimos suco de maçã diet pronto para beber e uma pequena quantia de leite condensado diet caseiro. Optamos por levar o leite condensado por ser um ingrediente utilizado em várias receitas e dessa forma as pacientes poderiam prepará-lo em casa, o que diminuiria o custo com as receitas. 9 CÔRTES, M. Q. Eu e meu diabetes. In: OLIVEIRA, R. F. Diabetes dia-a-dia. 2. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2002. p.260-264. 12º Encontro – 18/12/2002 Essa foi a última reunião de 2002 e resolvemos preparar algo diferente, fizemos uma festa para as pacientes. Levamos patê de ricota com salsinha, torradas, panetone diet e bolo de abacaxi com maçã diet, além do refrigerante diet. Resolvemos terminar os encontros do ano dessa maneira primeiramente para comemorarmos as festas de final de ano e também para que as pacientes pudessem recordar e visualizar o que foi discutido, observando que é possível participar das comemorações sem consumir alimentos que sejam prejudiciais para sua saúde. Fazendo uma sucinta análise sobre os encontros realizados até esse momento, temos que as pacientes iniciaram um processo de conscientização e começaram a ter uma visão mais crítica sobre sua doença e sobre os alimentos que são mais apropriados para manter os níveis glicêmicos controlados. Todavia, nós prosseguimos o processo de aprendizado, em que encontramos algumas dificuldades em adotar uma metodologia problematizadora. Muitas vezes, sentimos a deficiência causada por uma formação tradicional, que nos coloca em uma posição de “mestres”, detentores do saber. Nas reuniões seguintes, nos empenhamos mais em criar no grupo uma consciência crítica e libertadora. 13º Encontro – 15/01/2003 Após o período de recesso de final de ano, voltamos a nos encontrar. Primeiramente, conversamos sobre como passaram as festividades. Elas falaram sobre as festas, algumas se controlaram em relação a alimentação, porém outras já consumiram uma quantidade maior de alimentos. Essa diferença existente entre os comportamentos das pacientes – algumas conseguiram ter uma alimentação adequada, outras consumindo alimentos inadequados para sua patologia –, já é prevista quando se realiza a educação nutricional. A educação nutricional, diferentemente da orientação nutricional, prevê que o paciente possa ter alguns desvios no decorrer de seu processo de conscientização (BOOG, 1996). Enquanto conversávamos, outro assunto foi colocado em discussão: a dificuldade em deixar de consumir doce. Uma das pacientes levantou a questão e quis saber a opinião das colegas e o que faziam para não consumir o doce. Depois dessa discussão, apresentamos a atividade que havíamos preparado para o dia. Pedimos para se dividirem em dois grupos e responderem as questões: “O que você aprendeu nos encontros anteriores?” e “O que gostaria de discutir nos próximos encontros?” (Anexo F). A atividade foi realizada, em grupo, pelo fato de algumas pacientes apresentarem dificuldades em se expressarem na forma escrita, dessa maneira o contato com colegas do grupo facilitaria o desenvolvimento da atividade. Sugerimos essa tarefa com a finalidade de averiguar quais conceitos já haviam sido trabalhados pelos próprios sujeitos e quais temas eram interessantes para os mesmos. Com relação a primeira questão vimos que as pacientes incorporaram conhecimentos sobre uma alimentação saudável, sugerindo o aumento do consumo de legumes, verduras e frutas, assim como o fracionamento da dieta em um maior número de refeições ao dia. Outro conteúdo fixado foi em relação a leitura dos rótulos dos alimentos, com a finalidade de observarem se o produto contém ou não ingredientes que não possam ser ingeridos, como por exemplo o açúcar. Em um dos grupos, as pacientes não citaram unicamente conhecimentos referentes ao modo adequado de se alimentar, mas citaram também itens que mostram que o grupo estava cumprindo um papel de apoio na vida das pacientes. Esse grupo diz ter aprendido a superar dificuldades, percebendo que estão inseridas em uma sociedade e podem levar uma vida normal como qualquer indivíduo. As respostas da segunda questão mostraram que as pacientes desejavam aprender mais conteúdos sobre o diabetes, e também revisar assuntos como o colesterol e triglicérides. Além de conhecimentos sobre o diabetes e assuntos já discutidos, expressaram o desejo de aprender sobre assuntos que não haviam sido abordados até aquele momento, como o ácido úrico e perda de vitaminas no preparo dos alimentos. Terminada a tarefa, servimos uma porção de sorvete nos sabores leite e chocolate. Essa preparação foi escolhida especialmente porque uma das pacientes sempre nos pedia uma receita de sorvete, pois dizia gostar muito e por não encontrar nas sorveterias preparações dietéticas, não consumia uma sobremesa que apreciava. 14º Encontro – 22/01/2003 Hoje tivemos que realizar uma adaptação na atividade programada. Pretendíamos solicitar às pacientes que escrevessem sobre o tratamento do diabetes e apresentassem sugestões sobre como gostariam que esse tratamento fosse oferecido no PSF. Logo que chegamos e começamos a conversar com as pacientes, uma delas iniciou relatando que sua pressão arterial estava “descontrolada” e que achava que estava muito nervosa. Continuando a conversa, outras relataram que também estavam muito nervosas e por esse motivo não conseguiam controlar seus níveis glicêmicos. Percebemos que havia a necessidade de discutirmos esse assunto. Dessa maneira, deixamos a atividade programada para atender uma necessidade imediata das pacientes. A discussão girou em torno do que poderiam fazer para se acalmarem, pois duas pacientes relataram que sua glicemia estava elevada devido a situações de estresse que estavam passando. Servimos uma sobremesa chamada gelado de abacaxi e demos início as entrevistas. Nesse dia percebemos claramente a função terapêutica do grupo, uma vez que as pacientes puderam expressar suas angústias e dificuldades afetivas. Muitas pacientes relataram suas experiências e deram dicas de como tentam se acalmar em situações estressantes. Vemos que o pesquisador deve sempre estar aberto e ter flexibilidade para poder adaptar sua programação a exigências dos participantes. 15º Encontro – 29/01/2003 Havíamos planejado realizar a atividade adiada na semana anterior, no entanto, novamente adiamos. O número de participantes era pequeno e, julgamos que a atividade era importante para todos os sujeitos do grupo. Optamos por aguardar a reunião seguinte, contando com um número maior de participantes. Dessa maneira, resolvemos dar continuidade a conversa iniciada anteriormente sobre as atividades que podem ser desenvolvidas para que elas se sintam melhor e mais calmas. Uma vez mais, tivemos a necessidade de modificar uma programação a fim de nos adaptarmos a situação encontrada. Embora ficássemos frustrados com a necessidade de realizar mais um encontro com conversas, sentimos que foi útil para as pacientes, pois muitas precisam desses momentos de conversa e abertura para se expressarem. Em relação a sobremesa do dia, levamos um pudim diet, preparado com pó para pudim, vendido em supermercados. A escolha dessa preparação se deveu ao fato de procurarmos colocar as pacientes em contato com uma opção de fácil preparo, além de propiciar que tivessem contato com um produto vendido em supermercados, que muitas não consomem por receio de não gostarem. Como a preparação não necessitava receita, optamos por levar a receita de um prato, no caso, escolhemos macarrão com brócolis. 16º Encontro- 05/02/2003 Depois de conversarem um pouco, demos início a atividade do dia que havia sido adiada por dois encontros consecutivos. A atividade proposta era que escrevessem sobre o tratamento do diabetes e apresentassem sugestões sobre aquele que gostariam que fosse oferecido no PSF. Se dividiram em três duplas e escreveram, em uma folha, o que se lembravam sobre o tratamento do diabetes e também sugestões (Anexo G). As respostas mostram que as participantes têm consciência que o diabetes é uma doença incurável, porém que pode ser controlada através de uma dieta balanceada, exercícios físicos e quando necessário medicamentos. Um grupo cita, ainda, cuidados específicos com os pés e outro chega a escrever o exemplo de um cardápio para ser seguido durante todo o dia. Ao fim da atividade, servimos iogurte diet para as participantes. Uma vez mais optamos por levar uma sobremesa que encontramos em supermercados e que, talvez, podia não ter sido ainda experimentada. Levamos a receita de outra preparação, berinjela recheada. 17º Encontro – 12/02/2003 Demos início a discussão sobre os temas sugeridos na primeira reunião do ano. O primeiro assunto abordado foi em relação as dúvidas que tinham sobre o diabetes. Durante a discussão, as pacientes iam falando e dando exemplos de situações em que já conseguiam utilizar o que aprenderam durante os encontros. As falas mostravam que já se conscientizaram de que o consumo de doces é algo que deve ser evitado, conseguem também associar alimentos do mesmo grupo para substituí-los. Percebemos que muitas questões já estavam claras e que as pacientes começavam a associar o que aprendiam com seu dia-a-dia. Para esse encontro levamos suco artificial diet, torradas e patê de ricota com azeitonas. 18º Encontro – 19/02/2003 A discussão do dia novamente foi sobre colesterol, pois haviam solicitado na primeira reunião do ano. Discutimos quais eram as taxas que elas apresentavam e o que faziam para tentar deixá-las o mais próximo da normalidade. Outros assuntos foram, surgindo no decorrer da reunião. Uma das pacientes comentou que havia participado de uma palestra com um médico da cidade e que aprendeu muitas coisas. Dentre o que aprendeu citou a importância das fibras. Depois comentou que naquele momento estava fazendo a dieta corretamente, pois sua médica havia passado algumas orientações. Com esses comentários, ficamos muito frustrados, pois foram assuntos que conversamos em nossas reuniões. Procuramos educá-las para realizarem escolhas saudáveis. No entanto, uma palestra ou a orientação de um médico atinge mais o paciente do que um processo educativo. Vemos que não são apenas os profissionais de saúde que estão acostumados em apenas orientar sem questionar o paciente, sem abrir espaço para uma conversa. Mas o paciente também está habituado e mostra um maior interesse com essas abordagens do que quando é levado a pensar, a refletir, a construir novos conhecimentos. Além de estarem habituados a receberem as informações de forma passiva, não podemos nos esquecer que têm o profissional médico como o detentor do saber e, possivelmente, não depositam total confiança em outros profissionais da área de saúde. No 18º encontro experimentaram suco artificial de pêra diet, bolacha wafer diet e de sabor chocolate. Como servimos bolachas industrializadas levamos a receita de outra preparação, um molho de iogurte que substitui maionese. 19º Encontro – 26/02/2003 Conversamos sobre triglicérides e também sobre ácido úrico, pois haviam sugerido esses temas na primeira reunião do ano. Elas se interessaram bastante quando falamos sobre o ácido úrico, que, embora não esteja relacionado ao diabetes, algumas pacientes apresentam níveis elevados, ou mesmo conhecem pessoas que o têm. Uma outra discussão teve início quando uma paciente comentou o atendimento que recebe de seu médico, alegando que ele não é muito atencioso, não explica o que está acontecendo. Muitas outras pacientes se manifestaram a respeito, concordando com a colega. Como nos outros encontros, antes das entrevistas servimos uma sobremesa, “ducking donuts” caseiros. 20º Encontro – 12/03/2003 Na semana anterior, não houve reunião pois foi a semana do carnaval. Nesse encontro, discutimos sobre a hipertensão, que foi um dos assuntos que solicitaram quando retomamos nossos encontros em 2003. A hipertensão é um problema de saúde que apenas uma das participantes não apresentava. Discutimos sobre os sintomas e seu tratamento. As pacientes compartilharam suas experiências e trocaram idéias. O grupo abre esse espaço para troca de experiências, para as pacientes relatarem seus problemas e, dessa forma se encontrarem. Nessa reunião o prato servido foi uma torta de banana e maracujá. 21º Encontro – 19/03/2003 Devido a importância da atividade física como um dos componentes de tratamento do diabetes e também de outras patologias, como a hipertensão arterial e a hipercolesterolemia trouxemos esse assunto para nossa reunião. Assim sendo, o tema do dia foi a atividade física e seus benefícios para a saúde. Apenas duas pacientes presentes não faziam atividade física alguma, as demais caminhavam ou faziam ginástica com uma professora contratada pela prefeitura. As praticantes relataram que se sentem bem com os exercícios físicos e duas relataram que só conseguiram controlar seus níveis glicêmicos quando passaram a fazer atividades físicas. Percebemos que a maioria das pacientes já se beneficia com a atividade física. Durante a reunião, procuramos conscientizar as pacientes que ainda não se exercitam, de que a atividade física faz parte do tratamento para o diabetes e auxilia em seu controle. Ao final do encontro servimos flan de chocolate caseiro. 22º Encontro – 26/03/2003 No início da reunião, as participantes conversaram sobre frutas que podiam comer. Uma delas relatou que poderiam comer as frutas desde que não em excesso, ficamos contentes por perceber que ela conseguiu relacionar o consumo de frutas e sua quantidade adequada. Terminada a conversa sobre frutas, passamos para a atividade programada para o dia. A atividade tinha o objetivo de averiguar como os sujeitos levariam para seu cotidiano o que aprenderam em nossos encontros. Para cada paciente levamos um envelope contendo nomes de vários alimentos. Cada paciente realizaria um trabalho de colagem, montando um cardápio que considerassem adequado. Depois, em outra folha, colariam os nomes dos alimentos que deveriam evitar (Anexo H). No início do trabalho, algumas pacientes acharam a atividade curiosa e compararam com atividades desenvolvidas em escolas. Depois se adaptaram com a nova tarefa e a realizaram com bastante empenho. Vale ressaltar que, como no grupo existe uma paciente analfabeta, levamos um envelope com gravuras de alimentos e acompanhamos a paciente a fim de orientá-la caso não fosse capaz de reconhecer alguma das figuras. Analisando os cardápios propostos, vemos que as pacientes reconhecem a importância de se fracionarem as refeições em cerca de 5 ou 6 vezes ao dia. De um modo geral, colocaram nas refeições principais um alimento fonte de carboidratos, outro fonte de proteínas, além de legumes, verduras e frutas. Dentre os alimentos que devem ser evitados, encontramos os alimentos que contém açúcar, assim como os que são ricos em gorduras. Embora tenham demonstrado ter conhecimentos sobre os alimentos que devem evitar, alguns alimentos citados mostram que conhecimentos anteriores ainda não foram perdidos e provavelmente se manterão. Muitas citaram a beterraba, a mandioquinha como proibidas, evidenciando que alguns conceitos, mesmo que errados, ainda persistem, por estarem enraizados. Finalizada a tarefa servimos um frozem iogurte. 23º Encontro – 02/04/2003 Esse foi o último encontro realizado com as pacientes. Começamos fazendo uma revisão sobre o que vimos a respeito do diabetes, até que uma paciente comentou sobre sua irmã que controla os níveis glicêmicos, tomando refrigerante diet e româ. Após ela dar esse exemplo, outra paciente comentou sobre uma erva que pode controlar a glicemia. Percebemos que esse assunto despertou interesse nas pacientes. Dessa forma, deixamos que as discussões corressem de acordo com suas necessidades. Terminada a discussão sobre os medicamentos naturais, sugerimos que se dividissem em 2 grupos e escrevessem sobre duas frases que levamos: “Diabetes: eu quero apenas...” e “Ser diabético é...” (Anexo I). As colocações encontradas na primeira frase mostram o desejo das pacientes em conseguirem controlar sua glicemia e desta forma terem uma vida que considerem “normal”. “Controlar a diabetes e ter uma vida normal e saudável como qualquer outra pessoa que tem saúde perfeita. Viver bem.” (Grupo 1) “Controlar e viver bem.” (Grupo 2) No grupo 1 uma das participantes coloca uma frase que mostra que ainda não consegue aceitar a doença, pois refere o desejo de esquecer que é diabética. “Esquecer que tem diabete.” (Grupo 1) No grupo 2 encontramos o desejo de conseguirem manter a restrição ao açúcar. “Conseguir viver sem o açúcar.” (Grupo 2) Ainda nesse grupo vemos o desejo de serem vistas sem preconceitos devido ao diabetes. “Viver sem distinção.” (Grupo 2) Encontramos como resposta à segunda frase uma visão bastante otimista por parte da maioria do grupo. Nela, disseram que embora a doença não tenha cura, serem diabéticas não significa serem diferentes, doentes, mas sim serem pessoas normais e, que podem realizar todas as tarefas que desejam. “Ser uma pessoa normal, desde que mude o hábito alimentar e observar os cuidados com a doença pode ser feliz e viver bem como qualquer pessoa, já que a doença não tem cura.” (Grupo 1) “Continuar com a vida normalmente, fazendo tudo o que desejar, como ginástica e outros exercícios físicos.” (Grupo 2) No entanto, encontramos três frases que revelam que algumas participantes ainda não aceitam a patologia e se mantêm em um estado de depressão devido a mesma. “Castigo, é ser castigado.” (Grupo 1) “Ser triste, angustiado, limitado.” (grupo 1) “É mudar tudo na vida.” (Grupo 2) Elas terminaram a tarefa e antes de darmos início as entrevistas desse último encontro do grupo, as participantes experimentaram um creme de papaia. 5.3 As avaliações após cada encontro Como já dissemos, após cada encontro as pacientes eram submetidas a uma entrevista. Essa prática objetivava obter dados sobre as percepções que elas apresentavam ao saírem da reunião, além dos conceitos que ficaram das discussões. Dessa maneira, forneciam-se dados sobre como se dava o processo de construção de conhecimentos das participantes. Registramos 122 diálogos transcritos, totalizando 103 páginas escritas. Analisando as entrevistas transcritas, constatamos que as pacientes se preocupavam com a questão da alimentação mais adequada ao indivíduo diabético, procuravam transportar para seu dia-a-dia o que aprendiam nos encontros, além de passar informações a parentes e amigos que não participavam do grupo. Nossas pacientes sempre estiveram muito abertas e receptivas a novos conhecimentos, aproveitando a ocasião para discutir os assuntos e aprender através da experiência das colegas, sempre trocando idéias. O grupo, além da função de aprendizagem, de troca de idéias, apresentou uma função social, tornando-se um momento em que as participantes podiam encontrar apoio e abertura para falar de seus problemas. Nossa análise das entrevistas realizadas após os encontros mostra que um fator determinante para o sucesso do trabalho foi a receptividade das pacientes, que se encontravam abertas ao novo. Mostraram-se interessadas em adquirir novos conhecimentos, em aprender. “E eu quero ‘aprendê’ mais.” (Madalena) “Eu, depois desse encontro eu sempre procuro ‘seguí’ o que eu ‘aprendí’ aqui.” (Marta) “’Tá’ muito bom. Gostei muito do encontro hoje. Aprendemos o que nós ‘num sabía’ ainda.” (Judith) “Vou ‘comê’ um só, ‘aprendê’ agora.” (Débora) “Porque ‘tô’ aprendendo muita coisa.” (Dalila) “A gente vai aprendendo, então a gente já vai tendo mais conhecimento.” (Ruth) “Agora eu tenho, tenho que ‘aprendê’ a me ‘alimentá’.” (Esther) Abertas à novos conhecimentos, mostraram que uma das maiores preocupações era em relação à alimentação. Isso só veio corroborar o que encontramos nas entrevistas iniciais. Muitas relataram o aprendizado sobre como deveriam se alimentar corretamente, quais os tipos de alimentos mais adequados ao indivíduo diabético, qual quantidade consumir e também sobre substituições que podem realizar, tornando sua dieta mais variada e, ao mesmo tempo, controlando sua glicemia. “Que meu problema maior é na alimentação.” (Madalena) “Tudo que eu posso ‘comê’, o que eu posso ‘comê’. É, o meu problema é esse.” (Madalena) “Ah, eu ‘cozinhá’ com pouco óleo. Num ‘comê’ doce.” (Madalena) “A alimentação, que a gente ‘póde controlá’ a alimentação, ‘as receita’ que você dá pra nós.” (Sara) “Do que nós vimos hoje, por exemplo, vendo os alimentos que tem carboidrato, então eu posso, por exemplo, se eu comer a batata hoje, eu num como arroz.” (Marta) “O que nós ‘aprendêmo’ hoje, que a senhora ‘falô’ foi o que deve ‘comê’ e a quantidade. Foi ótimo.” (Judith) “Ah, hoje eu aprendi o que ‘nóis póde comê’ no café da manhã, no almoço.” (Judith) “Que nem esse negócio de ‘comê’ demais. Isso a gente pode maneirar.” (Débora) “Muda bastante coisa, porque você sabe, você tendo noção do que o ingrediente faz na sua alimentação, você começa agir diferente, mudando a sua alimentação, mudando a maneira de comer, por o prato.” (Isabel) “E o macarrão, menos macarrão. E o doce sem açúcar, com adoçante.” (Dalila) “Ah, aprendi o negócio da gordura, que num pode ‘comê’ gordura. A gordura faz mal.” (Dalila) “Do que a gente pode da alimentação nossa. O que faz bem, o que num faz.” (Ana) “Aqui a gente já está aprendendo que tem mais coisa que a gente pode por no lugar, coisas boa, que substituir.” (Ruth) “Como você ‘explicô’, cinco, seis refeições, um pouquinho. Num ‘comê’ só no almoço e na janta como eu comia. Só tomava café da manhã, almoçava e jantava. Agora não, pode ‘tomá’ o café de manhã, depois come uma fruta, depois ‘almoçá, comê’ alguma coisa.” (Esther) “Então, a gente ‘tá’ aprendendo como se ‘alimentá’.” (Esther) Percebemos que as pacientes conseguiam transportar o que aprendiam nos encontros para seu cotidiano, modificando a forma como se alimentavam. Além de adquirirem conhecimentos para si e procurarem modificar a própria alimentação, muitas procuravam levar o que aprendiam para os familiares, os parentes e amigos. Algumas chegaram a modificar a alimentação da família, mostrando interesse em tornar essa alimentação mais saudável. “Aprendi e já vou ‘passá’ pro meu marido, que ele que tem problema de ácido úrico.” (Madalena) “Nossa, eu posso levar pro meu dia-a-dia. Eu vou mudar realmente os meus hábitos alimentares e também passar pra minha família, outras pessoas também, que precisem.” (Marta) “Eu tô muito feliz, porque eu estou conseguindo separar a alimentação e o meu prato fica cheio, não passo fome e não deixei de comer nem o meu macarrão.” (Marta) “Ah, dá pra leva pro dia-a-dia e pros parente, pros conhecido que num participa, dá pra mim leva.” (Judith) “As ‘receita’, encaixando o que a gente aprendeu hoje, no prato do dia-adia.” (Isabel) “Leva pro dia-a-dia, dá até pra ‘fazê’ pra família, pelo menos vai prevenindo eles também.” (Ruth) Como já mencionado anteriormente, as principais dúvidas levantadas pelas pacientes diziam respeito ao modo como deveriam se alimentar para manterem um padrão de vida bom e saudável e conviverem em harmonia com o diabetes. Contudo, as dúvidas não giraram apenas em torno desse assunto. Foram discutidas questões sobre a fisiopatologia do diabetes, além da fisiopatologia de outras doenças e, ainda, o tratamento dietético para o controle de outros problemas de saúde, como por exemplo a hipercolesterolemia, a hipertrigliceridemia, a hipertensão arterial, e os níveis elevados de ácido úrico. Outro assunto abordado foi a importância da atividade física para o controle da glicemia. “É, mais coisa sobre o colesterol, o triglicéride. Vou levando anotado.” (Madalena) “Eu gostei que ‘falô’ hoje do ácido úrico, que eu não sabia quase nada.” (Madalena) “Essa é a importância do encontro de hoje. Que a gente pode viver bem, mesmo tendo diabete.” (Marta) “Sim, deu pra gente recordar sobre o diabetes, sobre a doença. Então, alguns pontos também que nós tínhamos dúvida, foi esclarecido, foi muito bom.” (Marta) “Eu ‘tô’ saindo contente como sempre. Porque cada dia a gente aprende mais e se conscientiza mais do que a gente deve fazer para ter mais saúde. Então como todos os dias, hoje a gente lembrou mais das coisas. Hoje falamos sobre pressão alta.” (Marta) “Vou até ‘tentá’ ‘começá’ ‘fazê’ exercício que eu num,estava fazendo.” (Judith) “É, da hipertensão. Fica mais orientada.” (Débora) “Saí satisfeita. Satisfeita, contente, bem instruída, porque sobre o triglicérides. Eu num sabia que o triglicérides era, como fala? Vem em intermédio do diabete. O triglicéride, o colesterol, eu num sabia disso. Achava que era totalmente independente. São independentes, mas.” (Isabel) “Hoje ‘tô’ contente. Sobre o colesterol, coisa que pra mim também era novo, que eu num sabia, mas pouca coisa.” (Isabel) “Também ‘falô’ sobre mais coisas, até sobre a pressão, sobre a anemia. Isso é importante, porque as vezes a gente fica sem sabe como ‘agí’. Então, já era pra mim ter perguntado sobre a anemia, mas semana passada ‘passô’.” (Isabel) “Ah, você ‘explicô’ o jeito que é a pressão. ‘Sabê’ de onde que veio tudo.” (Dalila) “Ah, ‘tá’ muito bom. A gente vai aprendendo cada dia melhor sobre colesterol, sobre triglicérides, porque eu num tinha idéia do que era essas coisa. ‘Aprendêmo’ melhor sobre a diabete, pra gente convive mais com a diabete que a gente tem.” (Ruth) “Você explica pra gente ‘fazê’ exercício, ginástica, é uma coisa melhor pra saúde, pro diabete,.” (Ruth) “Eu num tenho colesterol, mas é bom a gente sabe, porque se um dia ‘aparecê’, então a gente já ‘tá’ por dentro do que é o colesterol, como é a alimentação, como você se ‘alimentá’, o que você tem que ‘fazê’.” (Esther) “Ah, você ‘falô’ de triglicéride, ‘falô’ de colesterol, ‘falô’ de diabete.” (Sara) Cada vez mais, fica evidente a crise da saúde em nosso país. Praticamente nos deparamos com dois problemas em nosso sistema de saúde, o acesso ao atendimento, tido como o principal, e a resolutividade dos problemas, secundarizada (VALLA, 2003; VALLA, 2001). Em nosso trabalho, pudemos perceber que as pacientes consideram satisfatório o acesso ao serviço de saúde pública, embora muitas optem por um atendimento privado através de seus convênios médicos. Contudo, em ambos os tipos de atendimento, público e privado, notamos que os problemas de saúde não são solucionados de forma a atenderem todas as necessidades das pacientes. Vemos que o sistema oferece consultas, medicamentos, porém as pacientes muitas vezes não conseguem manter seus níveis glicêmicos adequados, o que mostra que o tratamento falha em algum ponto. Muito provavelmente essa falha se dê pela falta de um atendimento alternativo às pacientes. Não estamos nos referindo unicamente a um processo de educação nutricional efetivo, mas a criação de um local onde os sujeitos encontrem o que Valla chama “apoio social”, definido pelo autor como sendo: Qualquer informação, falada ou não, e/ou auxílio material, oferecidos por grupos e/ou pessoas que se conhecem, que resultam em efeitos emocionais e/ou comportamentais positivos. (VALLA, 2001, p.44; VALLA, 1999, p.10). Nesse sentido, nosso grupo não apresentou apenas uma função de esclarecimento e de problematização em relação à alimentação e à patologia do diabetes e a outros problemas de saúde. Cumpriu um papel social, na medida em que as pacientes encontraram nele um local de apoio, onde podiam se abrir, expondo seus anseios, seus problemas. As reuniões tornaram-se um espaço para que as pacientes fizessem amizades, conversassem, trocassem idéias. Os momentos no grupo foram de aprendizado, conscientização, desabafo e distração. Percebemos que algumas pacientes se sentiram melhor, compartilhando suas experiências e ouvindo as experiências de outras pessoas, não se sentiram mais como sendo as únicas que apresentavam diabetes, mas perceberam que outras pessoas compartilhavam das mesmas angústias e dúvidas. “É, então, é um consolo. Um consolo, ‘sabê’ que não é só a gente que ‘tá’ passando por isso.” (Madalena) “’Tô’ saindo feliz, porque estava gostoso. Aprendi bastante coisa.” (Madalena) “É, porque eu num converso com ninguém. Então ‘qué’ ‘dizê’ pra mim é bom. Vim aqui eu converso um pouco. A gente ‘sái’, aprendendo alguma coisa, sempre a gente aprende alguma coisa.” (Madalena) “Foi bom, Keite, porque a gente conheceu mais amigo. A gente vai ‘sabê’ o que ‘comê’, o que ‘bebê’.” (Sara) “’Tô’ saindo mais aliviada. Dei um pouco de risada ‘cas’ menina aí, conversei com ‘ocê’. Já vou saí mais aliviada.” (Sara) “Essa é a importância do encontro de hoje, que a gente pode viver bem, mesmo tendo diabete, pode comer bem. Que bom.” (Marta) “Bem, hoje eu estou saindo aliviada. Um pouco aliviada, sabe, porque nós falamos aquilo que nós estávamos sentindo.” (Marta) “Cada uma desabafou o que sentia, cada uma deu a sugestão do que poderia fazer. Então, essa troca de idéias ajuda a gente.” (Marta) “Então, ‘tá’ gostoso. Tudo certinho, ‘conversô’ direitinho. Cada um ‘falô’ qual os seus problema.” (Dalila) “Tuda conversa dá para ‘ajudá’.” (Dalila) “Eu ‘tô’ gostando. Eu achei interessante essas ‘coisa’. E acho que vou ‘gostá’ mais daqui pra frente.” (Ana) “A gente aprende com outro, as vezes um fala uma coisa, outro fala outra.” (Ana) “Bom, bom. É isso que ‘tô’ falando, hoje foi uma palestra, todo mundo ‘falô’ um pouco. Quer ‘dizê’ que foi uma experiência a mais.” (Ana) “Ah, eu achei muito importante, porque as vezes a gente num tem muito contato com pessoas, assim, com o mesmo problema da gente. Então a gente tendo esse encontro, então a gente vai vê que num é só a gente que tem esse problema. Então a gente conversando com as ‘pessoa’, já anima mais pra gente vive o dia-a-dia.” (Ruth) “Ah, ‘tô’ saindo contente. Hoje nós ‘batêmo’ papo, ‘conversâmo’ bastante sobre a vida. Sobre o que a gente pode leva, assim, no dia-adia. Então a gente aprende muita coisa assim, assim, a gente encontra mais as outras ‘pessoa’, cada um conta o seu problema. E daí a gente vê que o problema da gente as vezes nem é só a gente que tem problema, tanto quanto na diabete. Então, no dia-a-dia a gente, um passa pro outro e a gente sai contente.” (Ruth) “Além de se uma reunião muito, e foi divertida por causa de ‘colá’”. (Judith) O cumprimento dessa função social, através de trocas entre as participantes, foi importante na medida em que permitiu às pacientes o encontro de um local onde se sentissem acolhidas e desta forma passassem para um estágio de abertura, podendo esclarecer todas as suas dúvidas, não se sentindo constrangidas em questionar, em opinar. Procuramos realizar nos encontros uma educação em saúde que realmente ouvisse e compreendesse os pacientes participantes. As pacientes puderam encontrar no grupo o espaço que muitas não têm nos serviços de saúde. Perceberam durante os encontros que o auxílio recebido no decorrer das reuniões, não vinha exclusivamente de um profissional de saúde, mas que o saber de cada participante contribuía para o crescimento de todas. Isso só corrobora o apoio social do grupo, pois Valla (2003; 2001; 1999) coloca que o apoio social é recíproco, atingindo de maneira positiva tanto quem oferece o apoio como quem o recebe, propiciando manutenção de suas condições de saúde devido a sua função mediadora. As participantes ofereceram e receberam apoio durante os encontros. Provavelmente esse apoio amenizou possíveis sofrimentos decorrentes do ser diabético. Voltando a questão da abertura encontrada pelas pacientes nas reuniões, cabe ressaltar que essa falta de abertura por parte dos profissionais, não se dá exclusivamente nos serviços públicos de saúde, mas também nos serviços conveniados, pois muitas de nossas pacientes possuem convênio médico e fazem o acompanhamento com os profissionais que atuam nesses serviços. Em nossas entrevistas, percebemos que muitas vezes os profissionais de saúde que atendem as pacientes, nesse caso, particularmente o médico, não atendem as expectativas das usuárias, não esclarecendo as pacientes sobre vários aspectos da patologia e mesmo sobre seu tratamento. “Não, dá pra levar muita coisa, porque a gente conhecendo, toda vez que o médico dá exames pra gente, como a gente não sabe muito.” (Marta) “Nunca tive, assim, pra ‘orientá’. Então a gente num sabia.” (Judith) “E nós ‘tâmo’ aprendendo muito coisas boa, o que nós ‘podêmo’ ‘comê’, o que não ‘podêmo’, porque eu num sabia antes.” (Judith) “E o médico lá ‘falô’ assim pra ela que tem três tipo de diabete. Uma deixa cego e o outro que cai, a terceira é essa que dá sintoma ruim que num tem perigo, muito perigo, porque a gente ‘tá’ controlando ela na boca.” (Dalila) “Oh, ‘tá’ mais explicadinho. Porque os médico num explica não. Eles ‘fála’ ‘num pode isso, num pode aquilo’, mas você num sabe porque. Assim dá pra gente ‘entendê’ mais direito.” (Débora) Após observarmos como se dão as consultas, entendemos a dificuldade apresentada pelas pacientes em visualizarem que as reuniões eram espaços onde elas aprendiam e ensinavam. Em muitas falas, notamos que chamavam os encontros de palestras, aulas. Nós pesquisadores somos vistos como professores. Embora nosso propósito tenha sido o de trabalhar com elas uma concepção libertadora, na qual educandos e educadores se encontram em um mesmo plano, ao final dos encontros algumas pacientes mantinham a visão de professor e aluno, como já dito anteriormente, denominando nossos encontros de aulas ou palestras. “Mas da aula eu ‘tô’ saindo bem.” (Madalena) “A gente vai, além da gente ‘tá’ assistindo a aula a gente ‘tá’ aprendendo mais alguma coisa.” (Madalena) “Você é uma boa professora pra nós.” (Sara) “’Tá’ jóia. ‘Tão’ fazendo a lição, colando. ‘Tá’ bom demais.” (Sara) “’Tá’ gostoso. Dá aula, ‘tá’ dando aula pra nós.” (Dalila) “É isso que eu ‘tô’ falando, hoje foi uma palestra, todo mundo ‘falô’ um pouco.” (Ana) “Estou muito feliz, contente de ‘tá’ aqui participando dessa palestra.” (Ruth) Finalizando nossa análise das entrevistas realizadas ao final de cada encontro, podemos afirmar que as reuniões atenderam nossa expectativa em relação à educação nutricional realizada com as pacientes, sobre os tópicos por elas levantados. As pacientes disseram apreciar esse tipo de atividade e também ser essa prática muito importante para a aquisição de conhecimentos capazes de torná-las aptas a controlar seus níveis glicêmicos e a levar uma vida saudável. “Eu comecei vim aqui, comecei conversa com as mocinha lá do centro médico, já fui nessa doutora. Então, tudo que ‘tá’ me ajudando a ‘levantá’, porque eu ‘táva’ caída. Você lembra quando eu vim? Agora que eu ‘tô’ começando a me ergue de novo.” (Madalena) “Ah, ‘tô’ muito feliz de ter esse encontro com você, me ‘ajudô’ muito. Mas num ponto eu ‘tô’ triste, porque ‘tá’ terminando, porque a gente vai ‘pará’ de ter esses encontro aí. Porque ‘ajudô’ muito a gente.” (Ruth) “Ah, foi bom, porque aí a gente pode ‘pensá’ um pouco no que é o diabete, no que a gente acha que a gente pode ‘vivê’ com ele. Pode ‘vivê’ uma vida normal, sem muito, muito assim, tristeza, pensa muito, em ‘tá’ revoltada. Eu acho que a gente tem que ‘sabê’ controla na alimentação e num ‘pensá’ que a gente ‘tá’ excluído. Tem que ‘pensá’ em ‘vivê’, da maneira melhor possível.” (Ruth) “Essa é a importância do encontro de hoje: que a gente pode viver bem, mesmo tendo diabete, pode comer bem.” (Marta) “Aprendi. O que eu num fazia, agora eu faço.” (Sara) “ ’Tô’ saindo contente. Foi ótimo esses encontro que nós ‘tivémo’ todas as quarta-feira.” (Judith) “Achei bom. Deu pra gente ‘expressá’ o que tinha sobre o diabete. O que nós ‘aprendemô’,’ aprendemô’ aqui.” (Judith) “Nem tanto só para o diabete, até pra gente, pra quem não tem nada é excelente, porque já muda a maneira de se alimentar.” (Isabel) “Vou ‘procurá comê’ maçã. Porque eu como com a casca mesmo. Mas é que eu não sabia que tinha esse efeito. Comia pra ‘alimentá’, mas eu não sabia.” (Ana) “E a carne, que a carne tem gordura. Que num pode ‘comê’ muito.” (Dalila) “Que pena que vai ‘pará’. Mais vai ‘voltá’, né? Você vai ‘voltá’, uma hora você volta, né?” (Dalila) “É, porque a gente já praticava. Então, mas praticava, assim por ir. Mas assim você falando que é necessário, que é preciso. Então a gente tem mais força de vontade de continua ainda, mais ainda.” (Esther) “Mas tendo uma pessoa que fala assim pra gente, então a gente já fica mais instruída, sobre o que a gente sente também, os mesmos sintomas que você ‘falô’ a gente também sente. E dos remédio, que tem que ‘tomá’ medicamento, então a gente. Foi bom, foi ótimo.” (Esther) “Achei muito bom. Bem aproveitado. É bom mesmo.” (Débora) SEÇÃO 6. AS MARCAS DO CAMINHO ________________________________________________________ 6 As marcas do caminho A partir de um processo educativo em saúde, que teve a educação nutricional entendida como: um processo educativo no qual os conhecimentos relativos à nutrição vão sendo construídos a partir das experiências trazidas, tanto pelo educador, como pelo educando, visando, através do diálogo e do respeito mútuos, a uma transformação dos hábitos alimentares. Essa transformação procura tornar esses hábitos o mais adequados possíveis, a fim de garantir uma alimentação saudável que vislumbre atender às necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais dos indivíduos. Faz-se necessário no momento, um balanço entre o objetivo proposto no trabalho e o que efetivamente foi alcançado. Finalizadas as reuniões, agendamos um encontro final, realizado individualmente com as dez pacientes participantes, onde pudemos identificar as “marcas do caminho” que percorremos (Anexo J). Naquele momento, procuramos desvendar quais as marcas de construção conquistadas através dos encontros. Assim como na entrevista inicial, questionamos às pacientes a respeito das possíveis causas do diabetes. Uma vez mais, obtivemos respostas que abrangeram a patogenia da doença, indo desde o fator hereditário, passando pela alimentação excessiva até chegar às causas emocionais. “De repente, parece que é porque é de família.” (Sara) “Eu num acho, eu tenho certeza que causou minha diabetes foi eu comia demais, principalmente carboidratos.” (Marta) “Olha, eu acho, eu tenho a impressão que é de problema emocional” (Madalena) “Ah, em mim eu acho que foi nervoso.” (Débora) Prosseguindo nossa entrevista, questionamos sobre a importância do grupo para a paciente, sobre os conhecimentos aprendidos durante as reuniões e se consideravam adequado o atendimento oferecido pelo PSF. As respostas obtidas não diferiram significativamente das encontradas na primeira entrevista. Percebemos, porém, que em um primeiro momento as pacientes traziam conceitos esboçados, contudo, no decorrer dos encontros, procuramos contemplar as raízes das justificativas para os conceitos trabalhados. Dessa maneira, mesmo se as respostas, aparentemente, não se diferenciassem entre o momento inicial e o final, pressupomos que elas trouxeram uma maior compreensão dos fatores que levaram ao desencadeamento do diabetes em cada indivíduo. Algumas pacientes continuaram negando conhecer as causas da patologia, evidenciando limites no processo de ensino-aprendizado desenvolvido. “Ah, eu num sei explicá pra você o que causou mesmo o diabete em mim, porque eu nem imaginava que eu tinha.” (Ruth) Pudemos naquele momento comprovar a complexidade do processo de ensino-aprendizagem. O processo educacional não é passível de controle de variáveis palpáveis e isso acaba nos colocando em contato com um dos limites do processo educativo. Limite este que nos coloca frente às dificuldades do educador e de cada sujeito participante. Trabalhamos com sujeitos heterogêneos, que trazem experiências particulares e únicas. Isso nos mostra que o entendimento que cada um dos indivíduos tem dos temas abordados no decorrer do trabalho também é único. Permanecemos em campo realizando os encontros por seis meses, provavelmente para essas pacientes fosse necessário um tempo maior para que conseguissem completar o processo de aprendizagem, fixando os conceitos trabalhados no grupo. Quando perguntamos a respeito do tratamento inicial, percebemos que as pacientes foram avaliadas e receberam orientações de um único profissional de saúde: o médico. Houve apenas uma exceção, em que a paciente foi atendida por um nutricionista. O tratamento proposto pelo médico era composto por uma dieta, na maioria das vezes, muito restritiva, acompanhada de medicamentos orais ou, quando necessário, a insulina. No caso em que a paciente foi orientada por um nutricionista, o profissional orientou uma dieta mais ampla, porém percebemos que este se preocupou apenas com a orientação, não se aprofundando em um processo educativo. Além disso, embora o nutricionista tenha orientado uma dieta mais ampla, o médico da equipe fez restrições em relação a alimentação, o que pode ter causado confusão e dificuldade em adotar uma dieta adequada. Fica evidente, nesse trabalho, que as equipes de profissionais disponíveis para o atendimento da população contam basicamente com o médico e o enfermeiro. A equipe multidisciplinar, sabidamente importante para um atendimento complexo dos problemas vivenciados pela população, ainda hoje não pode ser encontrada na maior parte dos serviços de saúde, incluindo os Programas Saúde da Família. “ Aí ela deu a dieta, que era pra ‘cortá’ isso, ‘cortá’ aquilo. ‘Falô’ o que eu tinha que ‘fazê e passô’ os medicamento, que é esse medicamento que eu ‘tómo’ até hoje.” (Ana) “É o remédio. Nessa época ele ‘falô’ que o açúcar tinha que ‘tirá’ de tudo. Que o açúcar era o principal. E ‘diminuí’ também coisas de massa, fritura, ‘falô’ que tudo isso prejudica.” (Ruth) “Primeiro era só a insulina. Agora com a doutora Rebeca, só ‘ficô’ o comprimido. A dieta é laranja, é uma só, maçã, é uma maçã, uma banana. E o arroz, uma colher e meia de arroz. Assim, ‘comê’ mais verdura, assim, cozida sem óleo, sem gordura, com uma pitadinha de sal. E a salada um pouquinho só de vinagre e o sal, nada de óleo.” (Dalila) “Ah, ele deu o Daonil pra mim ‘tomá’. Um por dia, na hora do café. E deu que num era pra ‘comê’ massa, ‘diminuí’ a massa, o arroz.” (Débora) “Ele deu a insulina [...] Ele ‘falô’ que era pra mim num ‘comê’ coisas gordurosa, num era pra mim ‘comê’ fritura. Num era pra mim ‘comê’ coisa de massa, se eu comesse no almoço, num era pra ‘comê’ na janta.” (Sara) “Ela deu uma dieta. Ela era baseada em alguns alimentos eu tinha que ‘deixá’, algumas frutas tinha que ‘deixá’. Era arroz pouquinho, feijão num podia. Açúcar também não. Mas eu ingeria ainda os carboidratos, porque o meu corpo sentia aquela necessidade. Ela deu a dieta e o remédio.” (Marta) “O tratamento ela falo pra mim na alimentação [...] Deu remédio, comprimido. Aí eu passei muito tempo com comprimido. A diabete não resolvia, aí depois eu passei pra insulina.” (Esther) Sabemos que o nutricionista é o profissional competente para realização de um diagnóstico nutricional dos sujeitos atendidos em um serviço de saúde, assim como é o profissional habilitado para realizar um trabalho de educação nutricional, adequando seus conhecimentos técnicos-científicos à realidade de cada paciente (ASSIS et al., 2002). Outra observação, feita pelas pacientes em relação ao atendimento médico, mostra que esse profissional não se preocupa em explicar detalhadamente o tratamento. Os médicos preocupam-se em orientar em relação ao medicamento e se prendem a uma lista de alimentos que os pacientes não devem consumir. De acordo com os relatos, não existe interesse em nem ao menos orientá-las para os alimentos que podem ingerir. Os profissionais deixam de lado um trabalho educativo, priorizando apenas orientações rápidas e superficiais. Sabemos que, muitas vezes, não há disponibilidade de tempo para uma consulta mais detalhada e os profissionais fazem o que julgam correto. No entanto, vemos que há um despreparo desses profissionais, que acabam orientando dietas, sendo um trabalho para o qual muitas vezes não estão preparados. “Mas ele fala assim pra você ‘você num come, você num pode ‘comê’ feijão, você num pode ‘comê’ arroz, arroz é duas colher de arroz e legume é uma colher, e verdura’. Isso daí eles ‘fála’ pra você. Mas ele num explica direitinho como você, o pouco tempo que eu freqüentei com você eu achei ótimo, só que aí você sabe o que você pode come.” (Esther) “Ía no médico. O médico num tinha esse, se ‘olha, num pode’, num ficava falando. ‘Num pode isso’. Passa o remédio ‘cabô’.” (Judith) “Ah, eles deram o papel com tudo que eu podia ‘comê’, que num podia.” (Sara) “Ele mesmo não ‘falô’ nada. Ele só ‘falô’ ‘não come gordura, não come doce’. Foi só o que ele ‘falô’ pra mim. Num ‘receitô’ nada, num ‘falô’ nada.” (Madalena) “Que você vai no médico ele num fica explicando coisa.” (Débora) “Que os médico num tem tempo de ensina.” (Dalila) “Não, ele só ‘falô’ que não podia, mas num explicô. Disse que podia dá algum problema.” (Ruth) “Porque através dos médico a gente num fica sabendo tudo certinho. Eles só fala ‘você ‘tá’ com esse problema e você tem que diminui a alimentação, tem que ‘tirá’ o açúcar’ e só. Só fala isso.” (Ruth) Esses dados confirmam que o trabalho educativo dos médicos é pautado no modelo da orientação nutricional, onde temos: Ênfase na mudança imediata das práticas alimentares e nos resultados obtidos; a preocupação precípua é a mudança de práticas e o seguimento da dieta; a doença ou o sintoma é sempre um fato negativo que deve ser eliminado ou controlado; pressupõe a heteronomia do cliente ou paciente; o profissional responsável é uma autoridade cuja orientação deve ser seguida; as mudanças relativas à alimentação devem ser obtidas mediante o seguimento da dieta; não se aceita transgressões e freqüentemente elas se tornam motivo de censura; ênfase na prescrição dietética; predominância ou uso exclusivo de métodos objetivos de avaliação; o objetivo do processo é estabelecido em função de metas definidas pelo profissional, para controle dos processos patológicos. ( BOOG, 1996, p.162). Na prática, entretanto, encontramos profissionais que não enfatizam o tratamento global orientado pela Sociedade Brasileira de Diabetes, mas priorizam a questão medicamentosa (GUIMARÃES e TAKAYANAGUI, 2002). Quando as pacientes foram questionadas sobre a maior dificuldade que encontraram no momento em que o diabetes foi diagnosticado, confirmamos as respostas dadas na entrevista inicial, na qual a maioria das pacientes disse que a alimentação foi sua maior dificuldade. “Ah, encontrei dificuldade, principalmente no açúcar, até hoje.” (Ruth) “Foi muito difícil. Eu não conseguia’ pará’ com o doce. De vez em quando eu comia doce, porque dava muita vontade. Também num conseguia ‘fazê’ também direito toda a alimentação .” (Madalena) “Não, eu tive um pouco de dificuldade, porque eu era acostumada a ‘comê’ de tudo. Eu era acostumada a ‘comê’ de tudo, então teve dificuldade pra mim ‘seguí’ alimentação.” (Sara) “Não consegui seguir. Eu tinha vontade de comer as coisas que eu comia antes. Eu tentava, mas não conseguia.” (Marta) No decorrer de nossas entrevistas, após questionarmos sobre o tratamento inicial das pacientes, sobre o profissional de saúde que as acompanhou desde o início do tratamento e também sobre qual teria sido a maior dificuldade encontrada por elas, passamos para as questões que nos levariam ao conhecimento das possíveis interferências das reuniões na vida dessas pacientes. Pudemos perceber que as pacientes gostaram da experiência dos encontros em grupo. De acordo com o que nos relataram, identificamos que o maior legado do grupo foi em relação ao processo de construção de conhecimentos sobre a alimentação. Muitas relataram que aprenderam a se alimentar, a preparar os alimentos, além de conseguirem um auto controle que não possuíam antes do início das reuniões. “Ah, agora consegui ‘mudá’ muito, muito. Porque nós indo nesse encontro da reunião, com a nutricionista, então ‘melhorô’ bastante porque ela ‘ensinô’ ‘comê’. Se ‘comê’ o arroz, num ‘cóme’ o macarrão. Se ‘comê’ o macarrão, num ‘cóme’ o arroz. Só aquele pouquinho, não ‘exagerá’.” (Judith) “Eu comia normal. O que eu como agora. Só que agora eu diminui, eu num misturo a batata com o arroz. Se eu ‘cômo’ a batata eu ‘cômo’ outra coisa, se eu ‘cômo’ o arroz, eu ‘cômo’ arroz. Antes eu comia. Misturava. Pegava batata, eu punha. Às vezes comia batata de mistura ‘co’ arroz. Agora num faço mais. Comia o frango com a pele, agora num ‘tô’ comendo mais. ‘Tô’ evitando fritura, mas do resto. Parei com o doce.” (Madalena) “Eu aprendi a ‘fazê’ o doce com o adoçante.” (Madalena) “Foi bom demais. Aprendi muita coisa que eu num sabia. Ah, o modo da gente ‘comê’, o jeito de ‘fazê’ as coisa.” (Sara) “Então eu fui pondo na cabeça. Como mais verdura, eu num gostava de ‘comê’ verdura. Agora eu ‘cômo’ verdura, era bem pouca verdura, agora eu como mais verdura.” (Sara) “Frango sem pele, peixe sem aquela pele preta de cima. E é cozido também, num é frito.” (Sara) “Ah, depois que comecei ir lá, eu falei ‘não, deixa eu ‘vê’ se eu ‘manéro’ esse negócio’, porque daí eu fui ficando mais calma, sabe.” (Débora) “Ah, eu aprendi assim, coisa de ‘pensá’. Porque primeiro eu ía a olho. Agora já, pra ‘comê’ já penso um pouco.” (Débora) “Porque aí eu comecei a presta mais atenção no ‘juntá’ os alimentos. Não ‘misturá’ o arroz com feijão, com batata, mandioca. Punha tudo o que tinha.” (Isabel) “Tudo, até os nuggets eu asso invés de frita.” (Isabel) “Ah, aprendi que é pra ‘comê’ e o que num é pra ‘comê’. A ‘montá’ o prato, eu aprendi.” (Dalila) “Bem, eu tinha uma ansiedade, que eu, eu sou uma pessoa ansiosa, eu ainda tenho, mas, foi mais assim, uma consciência. Uma conscientização realmente. Então alguns alimentos que eu já, que num podia, eu já podia ‘comê’ um pouquinho. Então isso ajudou muito. Então eu já num fiquei com vontade. Então ajudou muito.” (Marta) “Mudou muito. Radicalmente, as reuniões, porque antes eu num conseguia ‘controlá’, eu era compulsiva. Agora não. Eu consegui realmente melhorar a minha vida, a minha saúde.” (Marta) “Então, depois que eu freqüentei com você que a gente aprendeu alimentação sadia, o que, quanto, quantidade que a gente deve ‘comê’. Quanto que deve ‘comê’ de legume, de verdura, quanto de arroz. O açúcar, pra ‘fazê’ com adoçante.” (Esther) “Depois que eu fui com você lá, que você ‘explicô’, que você vai numa, ‘jantá’ fora, tem que optar por uma comida. Se tem frango, então você come só o frango. Num vai ‘comê’ o frango, vai ‘comê’ carne, vai ‘comê’ arroz, vai ‘comê’ feijão, macarrão, tudo junto, maionese, tudo. Então come, e opta por uma comida, um pouquinho de arroz, um pedaço de frango e um pouquinho, se ‘tivé’ maionese, um pouquinho de maionese, o suficiente. Num precisa ‘comê’ tudo que tem na mesa.” (Esther) O grupo cumpriu seu papel, ao possibilitar a construção, com as pacientes, de um processo de conhecimentos em relação a suas dúvidas mais freqüentes, que eram sobre alimentação. Todavia, as reuniões sinalizaram também abrangerem outra questão bastante relevante no universo dessas senhoras, o grupo foi uma oportunidade para que as pacientes pudessem encontrar apoio, expressar opiniões e trocar idéias. Dessa maneira, além do papel de esclarecimento de dúvidas a respeito de como o paciente diabético deve se alimentar, o grupo trouxe uma socialização para as participantes. “Porque lá você viu, uma conversa com a outra, uma explica pra outra. Tudo elas falaram ‘pára de ‘comê’ tanta fritura’.” (Madalena) “Porque uma troca idéia. Uma troca idéia com a outra.” (Dalila) “Eu gostei. Eu fiz amizade. A gente fez amizade lá, conheceu bastante gente. Bateu bastante papo. Uma fala uma coisa, outro fala outra”. (Ana). “Principalmente eu, que não sou daqui de Araras, quanta gente fiquei conhecendo lá.” (Ana) “[...]e também vendo a opinião de outras pessoas. Vendo que nós não estávamos sozinhos, outras pessoas também com o mesmo problema.” (Marta) “Eu precisava de um apoio, e eu encontrei nesse grupo.” (Marta) “A gente acha ‘nossa eu tenho isso daí’. As vezes a gente fala ‘tem as pessoa que tem, que num tem’, mas a gente nunca ‘entrô’ em contato mesmo assim, conversando com as pessoa. Então a gente conversando a gente até anima mais. Fala ‘num é só a gente’. Divide o problema junto com as outra pessoa.” (Ruth) “Foi uma coisa boa. Uma forma que nós ‘encontrâmo’ também pra ‘conversá’, pra ‘discutí’ o problema, pra ‘sabê’ mais sobre as vitamina, a alimentação.” (Ruth) Uma vez mais evidenciamos o apoio social existente no grupo. Houve troca de experiências. As pacientes ofereceram e receberam apoio, o que pode ter contribuído para uma melhor aceitação da patologia e conseqüentemente melhor adesão ao tratamento. O apoio social se dá de forma recíproca, onde tanto quem recebe, como quem oferece ajuda, se beneficia (VALLA, 1999, 2001, 2003). “Eu acho que foi bom. Aprendi. Peguei mais amizade com as pessoa, que ‘passáro’ coisa pra mim sobre a diabete também.” (Madalena) “Foi assim uma ajuda mútua. A experiência de outras pessoas serviu pra gente. Ajudou muito.” (Marta) “Uma conta da sua vida, conta da sua doença. Eu achei que foi bom.” (Ana) Para finalizarmos nossa entrevista, perguntamos às pacientes como se sentiam com o atendimento oferecido no PSF. Sabemos que muitas de nossas pacientes realizam seu acompanhamento médico através de seus convênios, porém, mesmo utilizando esse serviço, utilizam o serviço público, principalmente para conseguirem os remédios prescritos. Apenas duas pacientes não utilizam o serviço público. Uma porque os remédios que necessita não são oferecidos pela rede pública e a outra porque não é diabética10, e desta forma não faz uso constante de medicamentos. “Porque os remédio que eu tomo num tem nenhum. Já fui, diz que num vem esse remédio. Então eu num vou. Eu continuo com o meu, eu tenho convênio, então eu continuo com o que eu tomo mesmo.” (Débora) De acordo com a entrevista final as pacientes estão satisfeitas com o PSF, principalmente com o atendimento, que segundo elas, é muito humanizado. No entanto, algumas demonstraram insatisfação com o serviço no sentido de algumas vezes não encontrarem os medicamentos que necessitam. “Ah, ali ‘tá’ ótimo o posto. O médico dali, os médico são ótimo, excelente. A enfermeira. Tudo ali é ótimo, mas tem um problema ali, que num tem, num é sempre que tem o remédio pro diabete. Pra ‘pegá’ o remédio, porque é dificilmente pode ter aqui, viu bem. Mas do, sobre os médico, nossa, ‘tá’ ótimo esse posto aí. Médicos, enfermeira, aqueles que, aqueles agente, vem na casa tudo. Nossa, ‘ficô’ ótimo. Só problema é o remédio. Porque num é sempre que tem não. As vezes manda pouco, termina logo, porque tem muito diabete ali.” (Judith) 10 A participante não era diabética, mas foi mantida no programa por sua insistência em permanecer nas reuniões, demonstrando abertura a novos conhecimentos. “Ah, o meu do jeito que ‘tá’, eu acho que ‘tá’ tudo bom. Que o meu num ‘tá’ alto assim de eu precisa insulina, que fala, né? Ainda não, só com esses remédio que eu ‘tô’ tomando ‘tá’ sendo bom. E as vezes tem no posto, as vezes não. E isso aí é um grande problema também, porque num tem posto, as vezes a gente num tem dinheiro também pra ‘comprá’, mas é um probleminha que tudo mundo tem que ‘enfrentá’. Mas do resto eu acho que ‘tá’ bom.” (Madalena) “Tem certos remédio que no centro médico num tem. Se você tem condições de ‘comprá’ tem, se você num tem, fica sem, filha. Eles ‘precisa mandá’ mais remédio que a gente use. Que a insulina num falta, que eu tomo duas vezes por dia, mas eu tomo aqui em casa, minha filha faz. A insulina eles dão. Mas esse outro remédio que eu mais preciso num tem, ‘tá’ em falta.” (Sara) Já outras pacientes encontram os medicamentos que utilizam e, dessa maneira, consideram o atendimento do PSF excelente. “Eu fui lá porque os remédio é tão caro, é eu e o meu marido. Caro demais e as vezes ficava devendo muito na farmácia,.” (Marta) “Ah, eu acho que ‘tá’ bom, porque, porque sempre, pelo o remédio do diabete sempre a gente encontra lá.” (Ruth) Percebemos que os medicamentos são prioridade para as pacientes, pois sua oferta torna-se um referencial de qualidade do serviço. Esse fator faz com que a maioria das pacientes considere o serviço ótimo. Apenas uma paciente relatou que o serviço poderia contar com outros profissionais da área de saúde, como nutricionistas e psicólogos. “Olha, falando em diabetes, nós, eu creio que teria que ter psicólogo, nutricionista e médico. Aí eu acho que ficaria completo, porque ajudaria muito. Porque mesmo eu, aí no médico, mas eu não consegui somente com o médico controla a diabete. Eu só realmente consegui depois que eu comecei a freqüentar o grupo que você formou aí.” (Marta) Temos que o PSF foi criado objetivando a prevenção e não o processo curativo em si, o que torna o programa um novo alicerce para a atenção primária à saúde. Essa prevenção deveria ser realizada por uma equipe multiprofissional, ou seja, englobando diversos profissionais da área de saúde e não exclusivamente o médico, como vinha ocorrendo até então (ASSIS, et al., 2002). Entretanto, desde seu surgimento, em 1994, 96% das equipes que atendem nos PSFs, são compostas, basicamente, por médicos, enfermeiros e agentes de saúde, apenas números reduzidos de equipes contam com outros profissionais de saúde. Por exemplo, 28,8% delas contam com o dentista, o assistente social está presente em 9,3%, o psicólogo aparece em 5,3% das equipes e o nutricionista está presente am apenas 4,5% das equipes atendendo nos PSF (BRASIL, 1999). Sabemos que os cuidados com a alimentação são primordiais para manutenção da saúde, assim como para o tratamento de muitas patologias. Mantendo-se a hegemonia médica entre as equipes de saúde, tolhe-se o processo de democratização dos espaços profissionais, assim como priva-se os usuários da atenção global que poderia ser oferecida. Urge a necessidade da inserção do nutricionista nas equipes do PSF, afim de, garantir aos sujeitos um atendimento de fato diferenciado, de acordo com o modelo proposto para o Programa Saúde da Família. SEÇÃO 7: A CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTOS DO PACIENTE DIABÉTICO 7 A construção de conhecimentos do paciente diabético Analisando todos os dados coletados em nossas entrevistas iniciais, nas realizadas após os encontros, as narrativas registradas durante todos os encontros e as entrevistas finais, pudemos observar que alguns temas emergiram com maior freqüência e foram discutidos com maior ênfase. Observamos que a doença atinge diversos aspectos da vida dos indivíduos, afetando não apenas suas condições de saúde físicas, mas também as psicológicas, assim como o seu convívio social. Dessa forma, destacaremos quatro eixos principais em nossa análise, as quais poderiam ser considerados categorias, uma vez que apresentam características comuns e se relacionam entre si. A eleição de categorias significou agrupar elementos, idéias, expressões, em torno de um conceito abrangente, procurando reconhecer o que estava por trás das falas (BARDIN, 2002). 7.1 A doença: a grande vilã Para nós, desde o início procuramos construir com o paciente a idéia de que: “A experiência da doença se refere, basicamente, à forma como as pessoas e os grupos sociais assumem a situação da doença ou nela se situam. Diante disso, configuram-se significados e desenvolvem-se modos rotineiros de se lidar com essa tal situação”. (GOMES e MENDONÇA, 2002, p. 117). Cada paciente mostrou ter uma representação única sobre a doença, indo desde a aceitação do diabetes até uma grande revolta em relação a ser diabético. Em sua maioria, os pacientes, em algum momento, apresentaram um certo grau de revolta por estarem doentes. Muitos não se conformaram com essa condição quando receberam o diagnóstico, mas com o passar do tempo foram aceitando a patologia. Quando descobrem que é possível viver normalmente com a doença, passam a tolerá-la muito melhor. A doença foi considerada como uma pausa, uma interrupção dos padrões, dos hábitos nos quais vivemos, talvez irrefletida ao longo dos anos. Ela pode nos fazer “questionar determinados valores, prioridades e maneiras [...]. Ela pode despertar em algumas pessoas a necessidade de compreender mais profundamente quem elas são e o que é importante.” (REMEN, 1993, p.99). “Eu nunca pensei que fosse ter diabete, eu via diabetes nas outras pessoas, mas achava que eu nunca ia ter.” (Marta) “Agora eu tenho consciência, depois que eu fiquei ruim mesmo, sentindo mal, os olhos, as dores, aquela depressão, aquela coisa ruim que eu sentia. Depois que eu melhorei fazendo o tratamento, então eu percebi o valor da gente fazer a dieta pra ‘controlá’, porque eu voltei a me sentir bem.” (Marta) “Eu tinha vontade de ‘comê’ tudo que vinha na minha frente, pra ‘vê’ se eu morria mais depressa. Daí o médico ‘pois’ na minha cabeça que num era assim. Ele ‘falô’ pra mim ‘a senhora precisa ‘vivê’, precisa ‘tratá’. Eu já num pensava assim. Eu procurei de ‘tratá’ depois que o meu pai veio ‘morá’ comigo.” (Sara) “Ah, pra mim já é uma rotina. Só que a gente, a diabete é uma coisa simples, mas tem que ‘tomá’ muito cuidado, porque ela prejudica.” (Esther) “Da doença num tenho que ‘sabê’, você tem que ‘sabê’ como você tem que se ‘alimentá’, pra você ‘tratá’ dela, porque essas coisa de massa, essa coisa que num ‘podê comê’ coisa de açúcar, num ‘podê comê’ pão. A doença num tem aquela dúvida de você ‘sabê’ como que vai ‘tratá’ dela. Você tem que ‘tomá’ um, se quer remédio, é remédio, se você ‘tomá’ insulina, é insulina. E a comida você tem que ‘sabê’ o que você vai ‘comê’, pra controla ela. “ (Esther) “Eu acho que isso daí é uma coisa que, uma coisa da vida. Que se tem que ser pra gente, a gente tem que ‘aceitá’ e tem mais que conseguir ‘fazê’ a dieta e ‘levá’ pra frente.” (Ruth) Uma das pacientes manifestou um sentimento de revolta muito forte, de castigo perante a patologia. Sentia-se incapaz de lidar com as mudanças que o diabetes provocou em sua vida. Dessa maneira, mesmo com o passar do tempo não se considera capaz de deixar o estado de indignação para passar a um estado de aceitação e convivência “pacífica” com a doença. “’Mudô’, porque eu fiquei, como que eu posso ‘dizê’, ah, que nem um, traumatizada, num sei, sabe. Achava que eu num merecia ter essa doença, que eu achei que foi um castigo.” (Madalena) “Num aceito, num consigo ‘aceitá’ o diabete.” (Madalena) “Então, onde que traz muita dificuldade. Muita depressão, mesmo.” (Madalena) Saúde e doença co-existem em nossa sociedade e não podemos priorizar uma ou outra. Há a necessidade da criação de meios que promovam a saúde e ao mesmo tempo trate as doenças, priorizando dessa maneira o bem estar dos indivíduos. Cabe ao Estado garantir que toda a população tenha acesso aos recursos que possibilitem esse bem estar. Faz-se necessário o diálogo entre as ciências sociais e as ciências biológicas, a fim de haver a implementação de intervenções que visem a melhoria da saúde, atingindo todas as esferas possíveis de causa e tratamento das doenças (CONTANDRIOPOULOS, 1998). Dessa forma, em nosso estudo a doença foi considerada como uma ponte para o processo de construção de conhecimentos, permitindo, através das colocações das pacientes e do encaminhamento do grupo, que os aspectos relacionados à doença fossem inseridos em um contexto de desenvolvimento pessoal e de maior consciência sobre si mesmas. Isso contribui para a busca do bem estar geral de cada indivíduo. Trabalhamos todo o tempo tendo muito presente que: O que temos que fazer, na verdade, é propor, através de certas contradições básicas, a situação existencial, concreta e presente [dos indivíduos], [...] como problema que, por sua vez, o desafia e, assim lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível de ação. Nunca apenas dissertar sobre [os problemas] e jamais doar conteúdos que pouco ou nada tenham a ver com os anseios, com as dúvidas, com as esperanças, com os temores [dos indivíduos]. (FREIRE, 1988, p.88). 7.2 O tratamento: minimizando traumas Em relação ao tratamento, temos que para a grande maioria das pacientes ele não se deu de uma forma natural, principalmente quanto à dieta. Houve uma resistência muito grande em relação às mudanças dietéticas necessárias a um tratamento eficaz do diabetes. Dentro de nossa amostra, duas pacientes utilizavam insulina, o que em termos percentuais representam 20% de nossas pacientes. Essas pacientes relataram que não se importavam em tomar medicamentos, porém quando foi necessário iniciarem a insulina não aceitaram muito bem o tratamento. Com o passar do tempo, foram se habituando e aceitando que para sobreviverem precisariam fazer uso desse hormônio. Devido ao fato de o processo do adoecimento, necessariamente, implicar alterações no modo de vida pessoal e social, podendo conter a adoção de estratégias e novas percepções sobre essa nova situação, as pessoas, ao experimentarem as condições de serem enfermas, fazem escolhas e tomam iniciativas ou, em outras situações, podem ser levadas a assumir essas atitudes. Para isso, em geral, elas se apóiam em referências socioculturais. (GOMES e MENDONÇA, 2002, p.117). O que mais as assustou foi o fato da insulina ser aplicada através de injeções. “O que foi mais difícil pra mim foi quando ela ‘começô’ passar insulina. Eu não aceitava ‘tomá’ insulina.” (Esther) “Do remédio, então, tudo bem., tomava, tudo. Mas quando ela ‘falô’ que eu tinha que tomar insulina, pra mim foi muito difícil. Nossa, eu achava o fim do mundo. Você todo dia tinha que ‘furá’ a gente, todo dia, todo dia, todo dia. Mas é normal, agora a gente já ‘acostumô’, faz tanto tempo. Mas quando ela ‘falô’ assim, que eu tava no consultório dela, que ela me ‘falô’, pra mim foi um baque.” (Esther) “Ah, na hora que tinha que toma insulina. Eu ficava pensando ‘ái, tomá agulhada na barriga’. Foi o mais difícil.” (Dalila) O processo de educação nutricional desenvolvido ao longo dos encontros buscou minimizar tratamentos mais invasivos e priorizou tratamento focado na alimentação adequada, que foi tema recorrente nas dúvidas das pacientes. Priorizar o atendimento médico tem como uma de suas conseqüências a utilização de medicamentos como um dos pilares do tratamento, não atendendo as recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes (2000), que prioriza a educação associada a uma alimentação saudável, atividade física e, por fim, somente quando esses itens não conseguem manter os níveis glicêmicos dentro dos padrões normais, orienta entrar com os medicamentos. 7.3 A alimentação: tudo ou nada? Como já dissemos anteriormente, o tema alimentação foi bastante discutido em nossas reuniões. O enfoque trabalhado no processo educativo valorizou a educação nutricional que se pauta na: Ênfase no processo de modificar e melhorar o hábito alimentar a médio e longo prazo; preocupação com as representações sobre o comer e a comida, com o conhecimento, as atitudes e a valoração da alimentação para a saúde, além da mudança de práticas alimentares; a doença e a conseqüente necessidade de mudança de hábitos pode ser considerada uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento pessoal; busca-se a autonomia do cliente ou paciente; o profissional é um parceiro na resolução dos problemas alimentares, com o qual o cliente discute, sem constrangimento, seus problemas e dificuldades; as mudanças necessárias ao controle das doenças, entre elas as relativas à alimentação, devem ser buscadas numa perspectiva de integração e de harmonização nos diversos níveis: físico, emocional e intelectual; a descontinuidade no processo de mudança nos hábitos alimentares e as transgressões são consideradas etapas previsíveis e pertinentes a um processo difícil e lento; ênfase nos aspectos de relacionamento profissional/cliente ou paciente e na dialogicidade; avaliação objetiva e subjetiva da evolução do paciente; o objetivo do processo é estabelecido em função das necessidades detectadas que são discutidas com o paciente e das perspectivas e esperanças do cliente ou paciente. (BOOG, 1996, p.162). Sabemos que o paciente diabético necessita ter atenção direcionada em relação a alguns pontos de sua alimentação, a fim de manter seu nível glicêmico dentro da faixa considerada normal. A alimentação, como já foi apresentado nesse estudo, representa a base para um tratamento eficaz, principalmente para pacientes diabéticos que não utilizam insulina. Mesmo sendo um item bastante importante, percebemos que não é muito esclarecido para as pacientes. Elas disseram que compreenderam a importância da dieta para um controle efetivo da doença, mesmo assim a alimentação foi o assunto que mais gerou dúvidas. Isso se deu talvez por nosso sistema de saúde ter profissionais que não se atenham em explicações esclarecedoras, objetivas e fundamentadas em relação ao assunto. Outro fator relevante evidenciou que os profissionais acabam orientando dietas muito restritivas, o que dificulta ainda mais a aceitação do tratamento dietético por parte dos pacientes. Temos então, a falta de esclarecimento e a dieta restritiva contribuindo para que as pacientes não consigam realizar uma parte fundamental do tratamento, para controlarem seus níveis glicêmicos. “Vou ‘fazê’ uma coisa, tenho medo, vou’ fazê’ outra, tenho medo, porque eu acho que vai fazer mal. Então eu ‘tô’ me sentindo, ‘tô’ sentindo muita dificuldade pra mim me ‘alimentá’.” (Madalena) “Gostava de ‘comê’. Fazia doce, fazia bolo. Depois não podendo, então a dificuldade foi alimentação.” (Marta) Em nosso estudo enfatizamos a importância da educação nutricional como eixo principal do tratamento do indivíduo diabético. O processo de construção de conhecimentos das pacientes participantes do grupo foi favorecido, devido a ênfase dada a educação nutricional, como parte importante do tratamento do indivíduo diabético. Lembramos que essa prevê que a assimilação de novos conceitos é um processo lento, que muitas vezes passa por retrocessos. Porém, através do diálogo entre profissional de saúde e paciente, vão se construindo novos conceitos. 7.4 A vida: resgatando seu sentido A doença e seu tratamento afetam a rotina de vida das pacientes, pois trazem mudanças na alimentação e, muitas vezes, a necessidade de fazerem uso contínuo de um medicamento, enfim, eles mudam a vida dos indivíduos. Em nossas entrevistas e reuniões, pudemos perceber que muitas pacientes tiveram uma restrição em sua qualidade de vida, pois com a doença deixaram de realizar tarefas que eram prazerosas e que faziam parte de suas rotinas. “Eu adorava passear. Ia ‘excurssãozinha’ aí que tinha que me convidava, eu ia. É, isso, eu,saí assim, eu num pensava. Agora a gente sabe que a gente é, você tem medo de ‘í’ passear,.” (Débora) “Porque eu gostava muito de comer bem, comer bastante. Eu era gulosa mesmo. Gostava de doces.” (Marta) “Comia de tudo. Comia feijão, comia batata, comia o que vinha na frente. Fritura, carne gorda. Eu tenho diabete e colesterol, eu tenho. Então comia de tudo. Eu achava que comendo de tudo eu ia morre logo. Depois que eu peguei meu pai pra ‘cuidá’, que eu comecei a ‘ponhá’ na cabeça que eu tinha que ‘vivê’ pra ele. E hoje eu tenho que ‘vivê pros’ meu neto e ‘prás’ minha filha.” (Sara) Ter afetadas as atividades que desempenham cotidianamente, e mais ainda, as atividade que lhe são prazerosas, caracteriza mais uma complicação devido ao diabetes. Não se trata de uma complicação biológica, mas como foi enfatizado na Declaração de Alma-Ata, e posteriormente retomado na Declaração de Adelaide, a saúde não consiste simplesmente na ausência de uma doença. Considerar a saúde apenas como a ausência da doença nos faz analisar a saúde em termos de número: número de médicos que consultamos, número de dias que faltamos, número de limitações que sofremos. Essa abordagem quantitativa já não satisfaz muitas pessoas, para as quais a saúde humana parece exigir algo mais, para as quais, a vida possui valor, amizade, significado, propósito, humor, esperança e direção. (REMEN, 1993, p. 45). Durante nossas reuniões procuramos, através da educação nutricional, tornar a alimentação das pacientes um momento de prazer, mostrando-lhes que o controle glicêmico pode ocorrer através de uma alimentação saudável e prazerosa. Buscamos também, promover discussões que levassem as pacientes à compreensão da importância do tratamento adequado do diabetes. Permitindo que observassem que o controle glicêmico, preveniria complicações e poderia levá-las a ter uma vida mais confortável. Um amplo universo de descrições e análises foi desvendado nesse trabalho e após esse percurso, é natural a tendência em comparar as muitas propostas e o que efetivamente até aqui se construiu. Compreender o processo de construção de conhecimentos do paciente diabético ao longo de um trabalho de educação nutricional é um projeto, sem dúvida ambicioso, dada a grandeza e importância da questão. Permanentemente, alimentados pelos dados, em confronto com análise teórica, pudemos obter pistas significativas para o entendimento do processo a partir das seguintes categorias: a Doença; o Tratamento; a Alimentação; a Vida. A educação nutricional, atrelada à educação em saúde, chega aos nossos dias fundamentada em algumas diretrizes que enfatizam a flexibilidade de tempo para a construção de novos conhecimentos pelos indivíduos, prevendo que esse processo se dê a médio e longo prazo. O profissional de saúde trabalha em conjunto com o paciente, dialogando com esse e estabelecendo juntos os objetivos pretendidos com o processo de educação nutricional. Por fim, sua principal diretriz é alcançar a autonomia do indivíduo em relação à sua alimentação. Para que essas diretrizes possam ser seguidas, o caminho percorrido pela educação nutricional deve necessariamente nortear-se por princípios educativos. E o pressuposto da educação problematizadora, nos coloca frente à necessidade de educador e educando unirem seus conhecimentos e educarem-se mutuamente. O diálogo é o principal veículo da comunicação eficiente entre as partes. Lembrando que o diálogo respeita as falas do sujeito e faz com que esse se veja como integrante do processo educativo. O profissional de saúde, como educador, instiga o paciente ao questionamento e a construção de conhecimentos críticos, capazes de levá-lo de fato a mudanças em sua vida, em sua residência, em sua comunidade (CASTRO e PELIANO, 1985; VALENTE, 1986; BOOG, 1996, 1997, 1999; VASCONCELOS, 2001). Buscamos tornar os indivíduos mais conscientes em relação ao seu tratamento. Criamos situações onde os participantes poderiam sair da condição de “pacientes”, passando para uma condição mais independente. As informações técnico-científicas discutidas nas reuniões enfatizaram as recomendações da Sociedade Brasileira de Diabetes. Priorizamos a educação nutricional, fundamentada na Educação Problematizadora em saúde, como pilar do tratamento do indivíduo diabético. Não deixamos de abordar temas, como a fisiopatologia do diabetes, tratamento medicamentoso, atividade física, além de outros assuntos sugeridos pelas pacientes, como hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia, hipertensão arterial, entre outros. Finalizados os encontros, constatamos que muitas pacientes gradativamente se aproximaram da compreensão da patologia e associaram uma alimentação saudável como parte do tratamento. Libertaram-se das orientações simplistas e passaram a um estágio mais crítico da compreensão. No entanto, como previsto em um trabalho educativo, algumas pacientes não conseguiram transpor as barreiras de uma consciência oprimida para a libertação. Sugerimos que essas limitações sejam enfrentadas com o aprofundamento de pesquisas futuras. A realização de um processo de educação nutricional, realizado pela equipe multiprofissional, destacando-se a emergência, do nutricionista e do psicólogo, no acompanhamento permanente do serviço, poderia ser um caminho a ser trilhado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Referências Bibliográficas ABRANCHES, S. H. Política social e combate à pobreza: a teoria da prática. In: ABRANCHES, S. H.; SANTOS, W. G.; COIMBRA, M. A. Política social e combate à pobreza. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p.09-31. AMERICAN ASSOCIATION OF CLINICAL ENDOCRINOLOGISTS. Worl leaders in endocrinology call for new diabetes guideline. Washington, DC, aug. 21, 2001. Disponível em: <http://www.aace.com>. Acesso em: 5 abr. 2004. AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. 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ANEXOS Anexo A: Autorização para realização do trabalho em uma unidade do Programa Saúde da Família no município de Araras-SP Anexo B: Termo de Consentimento e Compromisso Eu, _______________________________________________, de ______ anos, cliente do Projeto Médico de Família Maria Boquetti Menegheti, Parque Industrial, Vila Dona Rosa e Jardim Marabá, moradora à Rua _______________________________________________, bairro _____________________, município de Araras, aceito participar do “Chá das Duas”, comprometendo-me a comparecer às reuniões semanais, nos dias e horários previamente combinados pelo grupo. Estou ciente de que esse trabalho de educação em nutrição é oferecido gratuitamente e faz parte do projeto de pesquisa da nutricionista Keite Azevedo Lima, que se compromete a manter sigilo sobre as informações coletadas, que só serão divulgadas sem o nome da pessoa que as ofereceu. Araras, _____/_____/______ ________________________ ____________________ participante pesquisadora Anexo C: Formulário para Entrevista com a Equipe 1-) Dados sobre a equipe 1.1-) Número total de integrantes: 1.2-) Funções dos integrantes: ( ) médicos Número: ___________ ( ) enfermeiros Número: ___________ ( ) auxiliares de enfermagem Número: ___________ ( ) agentes de saúde Número ____________ ( ) outros Número: ___________ 1.3-) Jornada de trabalho. 1.4-) Contentamento geral com o serviço 2-) Entrevista 2.1-) Qual o procedimento realizado com o paciente a partir do momento em que se diagnostifica o diabetes? Comente a rotina do serviço em relação ao paciente diabético. 2.2-) Existe algum serviço de Educação Nutricional? É realizado, pelo médico, enfermeiro, auxiliares ou mesmo agentes, algum trabalho voltado para esta Educação Nutricional? Em caso positivo, quais os conhecimentos trabalhados neste momento? 2.3-) Qual a percepção da equipe sobre o trabalho de intervenção em Educação Nutricional? Anexo D: Formulário para Entrevista Individual: Inicial 1-) Dados Pessoais 1.1-) Identificação Data da Entrevista:_____________ Início: ________ Término: _____________ Número da Entrevista: _________ Número de matrícula: _________________ Nome: ___________________________________________________________ Data de nascimento:___/___/___ Sexo: _______________ Endereço: ______________________________________ Número: __________ Bairro: ____________________ Município: __________ Telefone: _________ 1.2-) Escolaridade ( ) Nenhuma ( ) Primeiro grau ( ) Segundo grau ( ) Terceiro grau Última série que cursou: ______________________ Profissão: _________________________________ 1.3-) Estado Conjugal ( ) solteiro (a) ( ) divorciado (a) ( ) casado (a) ( ) viúvo (a) ( ) separado (a) ( ) amasiado (a) ( ) desquitado (a) 2-) Composição Familiar Número de pessoas que moram na casa: _______________ Parentesco dos moradores: ( ) cônjuge Idade: ___________ ( ) filhos Número: __________ Idades: ___________ ( ) genros/noras Número: _________ Idades: ___________ ( ) netos Número: _________ Idades: ___________ ( ) outros Discriminar: __________________________________ 3-) Renda Familiar Aproximada Em reais ou salários: ____________ 4-) Condições de Moradia 4.1-) Sua casa é: ( ) própria ( ) alugada ( ) cedida ( ) outro _________ ( ) mista ( ) outro _________ 4.1-) A construção é de: ( ) alvenaria ( ) madeira 4.3-)Quantos cômodos tem sua casa? ___________________________ 4.4-) O banheiro utilizado é: ( ) interno ( ) externo ( ) não tem banheiro 4.5-) De onde vem a água usada para cozinhar? ( ) rede pública ( ) poço ( ) outro ____________ 4.6-) Que tipo de fogão é utilizado para cozinhar? ( ) fogão a gás ( ) fogão a lenha 4.7-) Sua casa tem geladeira? ( ) sim ( ) outro _______________ ( ) não 4.8-) Sua casa tem quintal? ( ) sim Em caso afirmativo: Há horta no quintal? ( ) não ( ) sim ( ) não Em caso afirmativo: O que é plantado na horta? __________________________ 5-) Atividades 5.1-) Ocupação atual: _______________________________________________ 5.2-) Atividades diárias: Horário que se levanta: ______________________________________________ Atividades da manhã: _______________________________________________ Horário do almoço: _________________________________________________ Atividades da tarde: ________________________________________________ Horário do jantar: __________________________________________________ Atividades da noite: _________________________________________________ Horário de dormir: __________________________________________________ Duração média e qualidade do sono: ___________________________________ 5.3-) Atividades físicas: Tipo: ( ) laborativa ( ) recreativa e/ou lazer ( ) terapêutica Duração: Freqüência: 6-) Outros Hábitos 6.1-) O senhor (a) fuma? ( ) sim ( ) não, mas já fumou ( ) nunca fumou Em caso de sim: quantidade e freqüência: _______________________________ 6.2-) O senhor(a) toma bebidas alcoólicas? ( ) sim ( ) não, mas já bebeu ( ) nunca bebeu Em caso de sim. quantidade e freqüência: _______________________________ 7-) História da Doença 7.1-) Há quanto tempo começou a se manifestar seu diabetes? _____________ 7.2-) Como começou? _______________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 7.3-) Qual era seu peso habitual antes do diabetes se manifestar? ____________ 7.4-) Qual era seu peso na época em que o diabetes foi diagnosticado? _______ 7.5-) Qual foi o tratamento realizado quando diabetes se manifestou? __________ _________________________________________________________________ 7.6-) O que você acha sobre o controle do seu diabetes? ( ) bom ( ) regular ( ) mau 7.7-) Você apresenta ou apresentou alguma complicação ou doença associada ao diabetes? _________________________________________________________ Qual? ____________________________________________________________ Questões 1-)O que você acha que causou seu diabetes? 2-) Qual a maior dificuldade encontrada quando foi diagnosticado o diabetes? 3-) Qual foi o tratamento inicial para o seu diabetes? 4-) Qual o profissional que orientou todo o tratamento? 5-) Qual assunto você gostaria de discutir nos encontros? Anexo E: Atividade desenvolvida no 4º encontro – 23/10/2002 Anexo F: Atividade desenvolvida no 13º encontro – 15/01/2003 Anexo G: Atividade desenvolvida no 16º encontro – 05/02/2003 Anexo H: Atividade desenvolvida no 22º encontro – 26/03/2003 Anexo I: Atividade desenvolvida no 23º encontro – 02/04/2003 Anexo J: Formulário para Entrevista Individual : Final 1-) Dados Pessoais 1.1-) Identificação Data da Entrevista:_____________ Início: ________ Término: _____________ Número da Entrevista: _________ Número de matrícula: _________________ Nome: ___________________________________________________________ Data de nascimento:___/___/___ Sexo: _______________ Endereço: ______________________________________ Número: __________ Bairro: ____________________ Município: __________ Telefone: _________ 2-) Atividades 2.1-) Ocupação atual: _______________________________________________ 2.2-) Atividades diárias: Horário que se levanta: ______________________________________________ Atividades da manhã: _______________________________________________ Horário do almoço: _________________________________________________ Atividades da tarde: ________________________________________________ Horário do jantar: __________________________________________________ Atividades da noite: _________________________________________________ Horário de dormir: __________________________________________________ Duração média e qualidade do sono: ___________________________________ 2.3-) Atividades físicas: Tipo: ( ) laborativa ( ) recreativa e/ou lazer ( ) terapêutica Duração: Freqüência: Quem indicou: ________________________ Questões 1-)O que você acha que causou o seu diabetes? 2-) Comente sobre como o era sua alimentação antes de descobrir ser diabética? 3-) Depois que foi feito o diagnóstico qual foi o tratamento proposto pelo médico que lhe atendeu? 4-) Você passou com algum outro profissional de saúde para receber orientações? Quais foram os profissionais? Quais orientações passaram? 5-) As orientações que ele passou foram possíveis de serem cumpridas? 6-) Qual a maior dificuldade encontrada quando foi realizado o diagnóstico do diabetes? 7-) Você pode relatar alguma provável relação com o que você está fazendo hoje com as nossas reuniões? Quais relações? Que contribuições o grupo pode ter trazido? 8-) Comente um pouco sobre a forma como o médico lhe orientou, lhe ensinou na consulta. 9-) Agora comente sobre a forma de aprendizado que você encontrou no grupo. 10-) Qual das formas você considera que surtiu melhores efeitos para a adesão ao tratamento, ou nenhuma delas melhorou sua adesão? 11-) Em relação a participar do grupo, existiu alguma dificuldade? 12-) Por que você acha que suas colegas também faltaram? E as que desistiram, em sua opinião, o que as levou a isso? 13-) Quando recebeu o convite para participar do grupo, o que imaginava encontrar? 14-) Você conseguiu ver alguma relação do grupo com uma melhora para sua vida? 15-) Comente sobre sua experiência em participar dos encontros. 16-) Fale um pouco sobre o que você tem feito atualmente para melhorar sua qualidade de vida. 17-) Na sua opinião qual deveria ser o tratamento do diabetes oferecido em um serviço de saúde? Por que? 18-) Em fim, faça um resumo sobre o que você achou do grupo, qualidades e possíveis melhoras,quais as conseqüências para sua vida, etc.