Editorial Da sala de aula para a beira do leito — a integração da ciência básica curricular no ensino da medicina Alessandro Wasum MarianiI, Paulo Manuel Pêgo-FernandesII Instituto do Coração (InCor), Hospital das Clínicas (HC), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo, Brazil Ao redor do mundo, as universidades têm repensado não somente o currículo médico, mas toda a forma de se ensinar a medicina. A enorme enxurrada de novos conhecimentos, a especialização médica, a entrada cada vez mais rápida de tecnologia e mesmo os conceitos de medicina baseada em evidências têm tornado indispensável a rediscussão e reorganização do currículo médico. Em muitas escolas médicas, podemos dividir o currículo do estudante de medicina classicamente em: ciências básicas, ciências clínicas e internato. O aumento do tempo de internato que ocorreu em muitas escolas médicas já é um sinal da modificação do ensino e exemplifica claramente uma alteração curricular significativa. O método do “aprendizado baseado em problemas” conhecido como PBL (problem-based learning) pode ser considerado um esforço neste sentido de tornar o aprendizado mais dinâmico. Este, obviamente, possui seus prós e contras, seus defensores e críticos. Não gostaríamos aqui de discutir a completa reformulação do currículo, nem adentrar na questão de qual seria a proposta curricular mais adequada, até porque acreditamos que realidades diferentes devam ter propostas diferentes de ensino. Gostaríamos, sim, de discutir como melhor integrar as ciências básicas e salientar aqui a sua importância. Neste sentido, diversos autores têm chamado a atenção para uma necessária melhor integração do ensino. Harden publicou, em 2000, um interessante artigo que propunha 11 passos consecutivos e relacionados de forma progressiva, por isso os denominou de “escada da integração”, que pode ser usada para avaliação e planejamento do currículo médico.1 Muito interessante foi a solução dada pela Universidade da Califórnia que, ao repensar seu ensino médico, considerou importante a total integração das ciências básicas, clínicas e sociais. A ideia é de que a aplicação final do conhecimento, dependendo tanto da prática quanto do aprofundamento teórico, pode ser melhor explorada pelas escolas com a adoção de ferramentas de ensino multimodais. O resultado foi a implementação do programa chamado “Human Biology and Disease”, que basicamente visou uma unificação entre ciências básicas e a clínica. Esta metodologia foi estudada e descrita em publicação no ano 2009.2 Outra experiência interessante foi a descrita pela Harvard Medical School em 2007, de uma nova proposta que buscou a melhor integração do currículo pela não divisão das matérias em blocos ao longo do ano, fazendo com que o contato do aluno com as disciplinas fosse contínuo e perene durante a temporada.3 Existe uma tendência mundial para esta integração do currículo, seja horizontal, entre disciplinas, seja vertical, entre ciências básicas e ciências clínicas. Ela ocorre sob a alegação de um ensino mais completo e efetivo em termos de conhecimento e aplicabilidade. Afinal, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina, promulgada pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação dispõem, no seu terceiro artigo, que:4 “O Curso de Graduação em Medicina tem como perfil do formando egresso/profissional o médico, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado a atuar, pautado em princípios éticos, no processo de saúde-doença em seus diferentes níveis de atenção, com ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação à saúde, na perspectiva da integralidade da assistência, com senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania, como promotor da saúde integral do ser humano.” Para cumprir esta meta, as escolas e os educadores médicos não podem medir esforços para a melhoria constante do ensino, que deve, sem dúvida nenhuma, passar por uma readequação da grade de ciências básicas, tornando-a dinâmica, eficiente e, por que não, mais atraente ao aluno. Tudo isso para que as Cirurgião torácico, Instituto do Coração (InCor), Hospital das Clínicas (HC), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). MD, PhD. Professor associado, Disciplina de Cirurgia Torácica, Instituto do Coração (InCor), Hospital das Clínicas (HC), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). I II Diagn Tratamento. 2013;18(4):139-40. 140 Da sala de aula para a beira do leito — a integração da ciência básica curricular no ensino da medicina ciências básicas sirvam como firme fundação para o conhecimento clínico e para o desenvolvimento de pesquisa. REFERÊNCIAS 1. Harden RM. The integration ladder: a tool for curriculum planning and evaluation. Med Educ. 2000;34(7):551-7. 2. Wilkerson L, Stevens CM, Krasne S. No content without context: integrating basic, clinical, and social sciences in a pre-clerkship curriculum. Med Teach. 2009;31(9):812-21. 3. Ogur B, Hirsh D, Krupat E, Bor D. The Harvard Medical School-Cambridge integrated clerkship: an innovative model of clinical education. Acad Med. 2007;82(4):397-404. 4. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES No. 4, de 7 de novembro de 2001. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Diário Oficial da União, Brasília, 9 de novembro de 2001. Seção 1, p. 38. Available from: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES04.pdf. Acessado em 2013 (13 jun). INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Alessandro Wasum Mariani Rua Treze de Maio, 1.217 — apto 31 Bela Vista — São Paulo (SP) CEP 01327-001 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Fonte de fomento: nenhuma declarada Conflito de interesse: nenhum declarado Data de entrada: 6 de junho de 2013 Data da última modificação: 6 de junho de 2013 Data de aceitação: 19 de junho de 2013 Diagn Tratamento. 2013;18(4):139-40. Dermatologia Hemangioma infantil Vanessa Mello TonolliI, Juliana Polizel OcanhaI, Hamilton Ometto StolfII Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) INTRODUÇÃO Hemangiomas infantis são os tumores vasculares benignos mais comuns na infância. Afetam cerca de 4% a 10% da população, com predileção pelo sexo feminino, em uma razão de 3:1. A maioria dos casos é esporádica, porém existe uma forma familiar de transmissão. A patogênese é desconhecida e atualmente considera-se que ocorre um desequilíbrio na angiogênese, permitindo a proliferação descontrolada de tecido endotelial.1 O diagnóstico é clínico e alguns diferenciais devem ser considerados, como hemangiomas congênitos, malformações de baixo (venosas, capilares e linfáticas) e alto fluxo (arteriovenosas), além de tumores malignos, como rabdomiosarcoma e dermatofibrossarcoma protuberante. RELATO DE CASO Paciente do sexo masculino, com quatro meses de idade, com história de mancha vermelha discreta na face ao nascimento, que começou a aumentar rapidamente aos dois meses de vida, tornando-se uma massa volumosa e desfigurante. Ao exame de admissão, apresentava massa assintomática de 15 cm aproximadamente na região infra-auricular e cervical direita, normocrômica, com vasos de drenagem na periferia e placas de cor vermelho-vivo, bem delimitadas, sobrejacentes (Figuras 1, 2 e 3). Foi realizado diagnóstico de hemangioma e solicitada angiorresonância magnética para investigar síndrome PHACES (malformações da fossa posterior do cérebro, hemangioma grande na face, anomalias arteriais, anomalias cardíacas e coarctação da aorta, anormalidades oculares e falhas no desenvolvimento ventral, incluindo alterações do esterno e rafe supraumbilical), que descartou alterações. Foi realizada revisão bibliográfica sobre o tema, conforme visualizado na Tabela 1. Optou-se por internação hospitalar e início de propranolol sistêmico (via oral). Ecocardiograma e eletrocardiograma foram solicitados para afastar alterações cardíacas que contraindicassem o uso da medicação. Foi iniciada dose de 2 mg/kg/dia, dividida em três tomadas, com aferição da pressão arterial e pulso a cada uma hora nas primeiras seis horas da administração da Figura 1. Aspecto clínico da lesão antes do tratamento. Figura 2. Aspecto clínico da lesão antes do tratamento. Médica residente de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Doutor e professor assistente do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). I II Diagn Tratamento. 2013;18(4):141-4. 142 Hemangioma infantil medicação para detecção precoce de hipotensão ou bradicardia, respectivamente. O paciente evoluiu sem efeitos colaterais significativos e pôde-se notar amolecimento da lesão e diminuição do eritema já nas primeiras doses. Recebeu alta após três dias do início do tratamento e, no retorno, com oito dias de uso da medicação, já apresentava redução de cerca de 50% da massa. Figura 3. Aspecto clínico da lesão antes do tratamento. Com dois meses de tratamento, apresentava apenas tumoração discreta palpável na região pré-auricular direita e, com quatro meses, notava-se uma mácula eritematosa discreta pré-auricular direita (Figura 4). DISCUSSÃO Os hemangiomas infantis, em geral, são lesões únicas (80% dos casos), medindo desde milímetros até centímetros e não são evidentes ao nascimento, tornando-se aparentes nos primeiros dias ou meses de vida. Os locais mais acometidos são cabeça e pescoço, mas podem afetar qualquer região da pele, assim como mucosas e órgãos internos, como fígado e coluna vertebral. Os hemangiomas podem ser classificados em: superficiais (restritos à derme), profundos (derme profunda e tecido subcutâneo) ou mistos. Os superficiais (anteriormente denominados capilares) são os mais comuns e se manifestam como pápula, nódulo ou placa bem delimitada, de cor vermelho-vivo. Os profundos (anteriormente denominados cavernosos) são nódulos normocrômicos ou com um matiz azulado, com ou sem telangiectasias na superfície e ocasionalmente é possível observar vasos de drenagem na periferia. Os mistos apresentam componentes de ambos. Há também uma classificação relacionada à extensão das lesões: se localizadas ou segmentares.1 Os hemangiomas evoluem em fases e é importante conhecê-las, pois essas determinam o momento ideal do tratamento e também fundamentam condutas expectantes nos casos em que Tabela 1. Resultados da busca sistematizada em bases de dados com os descritores em saúde (DeCS) e Medical Subheadings (MeSH) realizada em 3 de setembro de 2013 Base de dados PubMed Lilacs Embase Estratégia de busca (Hemangioma, capillary infantile [Supplementary Concept]) (Hemangioma, capillary infantile [Supplementary Concept]) OR (Hemangioma Capilar) OR (Hemangioma Capilar Infantil) Hemangioma, capillary Artigos obtidos Artigos relacionados 39 4 130 1 32 0 Figura 4. Aspecto clínico da lesão quatro meses após o início do tratamento. Diagn Tratamento. 2013;18(4):141-4. Vanessa Mello Tonolli | Juliana Polizel Ocanha | Hamilton Ometto Stolf for decidido apenas pelo acompanhamento da criança. A primeira fase, que dura até 6 a 12 meses é determinada por rápida proliferação endotelial, com crescimento importante da lesão. Posteriormente, o hemangioma entra na fase de platô, em que não há crescimento nem diminuição da lesão. Essa persiste por alguns meses e então começa a haver a involução lenta dos tumores. Aproximadamente metade das crianças apresentará regressão total das lesões aos 5 anos de idade e 90%, até os 10 anos.1 A patogênese é desconhecida, porém considera-se um desequilíbrio na angiogênese, levando a proliferação descontrolada de componentes vasculares. O principal marcador imunoistoquímico é o GLUT-1 (erythrocyte-type glucosetransporter protein), que está presente em todas as fases evolutivas do tumor e ajuda na diferenciação de outras anomalias vasculares, como o hemangioendotelioma kaposiforme, por exemplo.1 As principais complicações dos hemangiomas dependerão, em grande parte do tamanho e da sua localização. São elas: ulceração (em lesões com crescimento rápido e em locais de trauma), sangramento (raro e para com compressão), envolvimento de via aérea (em locais como cabeça ou pescoço), comprometimento visual, visceral (entre eles, sangramento do trato gastrointestinal), obstrução do canal auditivo, prejuízo na alimentação ou fonação, além de insuficiência cardíaca de alto débito. O diagnóstico é clínico e se dá pelo encontro de lesão vascular típica com crescimento nos primeiros meses de vida. O diagnóstico diferencial se dá com mancha “vinho do Porto”, malformações arteriovenosas, venosas e linfáticas, além de ser necessário excluir outros tumores de partes moles, como fibrossarcoma, rabdomiossarcoma, no caso de angiomas profundos. Exames subsidiários, em geral, não são necessários e devem ser solicitados em alguns poucos casos, para confirmar a natureza vascular da lesão, identificar os componentes (venoso, arterial ou linfático) e o comprometimento de órgãos internos e estruturas mais profundas. A biópsia pode levar à ulceração e sangramento importante e está indicada apenas na suspeita de outros tumores de partes moles, como o hemangioendotelioma kaposiforme, rabdomiossarcoma, entre outros.1 O tratamento está indicado para pacientes menores de dois anos, com diagnóstico de hemangioma infantil e com pelo menos uma das características a seguir: acometimento de via aérea ou trato gastrointestinal, risco de dano funcional ou cosmético permanente, insuficiência cardíaca de alto débito, lesão extensa ou de crescimento rápido em período não superior a um ano. As modalidades de tratamento são: corticoides intralesionais ou tópicos (se lesões pequenas e não complicadas),2 exérese cirúrgica e tratamento sistêmico. As drogas são utilizadas em monoterapia, e devem ser introduzidas na seguinte ordem: em primeiro lugar, corticoide sistêmico; se houver efeitos adversos limitantes ou não for alcançada resposta, descontinuar esta medicação e iniciar propranolol; por último, alfainterferon. O corticoide sistêmico é o tratamento de escolha na grande maioria dos casos, e deve ser observado o tempo de tratamento (que não deve ultrapassar seis Diagn Tratamento. 2013;18(4):141-4. meses) e a dose (3 mg/kg/dia). Os principais efeitos colaterais são irritabilidade, alteração de comportamento, aspecto cushingoide e atraso transitório do desenvolvimento. O propranolol é utilizado no caso de falha da corticoterapia, na dose de 2 mg/kg/dia a 3 mg/kg/dia, via oral, de 8/8 horas. Os principais efeitos colaterais são hipotensão, bradicardia, hipoglicemia e broncoespasmo. Apesar de bastante seguro, os últimos consensos orientam para internação breve nas primeiras seis horas de administração da droga, para monitoramento dos sinais vitais. Caso haja hipotensão ou bradicardia, diminuir a dose pela metade.3 A refratariedade do tratamento é considerada quando não houver regressão de mais de 25% da lesão após 90 dias de tratamento.4 O alfa interferon é usado na dose de 100.000 UI/kg/dia subcutâneo e o tratamento não deve ultrapassar 12 meses. Os principais efeitos colaterais são reação febril e neutropenia transitória. CONCLUSÃO Os hemagiomas infantis são tumores vasculares comuns na infância. Apesar da relativa facilidade no diagnóstico, é o tratamento dessas lesões que representa o grande desafio. A conduta correta, realizada precocemente, pode evitar danos funcionais e estéticos importantes na criança. REFERÊNCIAS 1. Kwon EM, Seefeldt M, Drolet BA. Infantile hemangiomas: an update. Am J Clin Dermatol. 2013;14(2):111-23. 2. Qiu Y, Ma G, Yang J, et al. Imiquimod 5% cream versus timolol 0.5% ophthalmic solution for treating superficial proliferating infantile haemangiomas: a retrospective study. Clin Exp Dermatol. 2013. [Epub ahead of print]. 3. Léauté-Labrèze C, Dumas de la Roque E, Hubiche T, et al. Propranolol for severe hemangiomas of infancy. N Engl J Med. 2008;358(24):2649-51. 4. Caussé S, Aubert H, Saint-Jean M, et al. Propranolol-resistant infantile haemangiomas. Br J Dermatol. 2013;169(1):125-9. EDITORES RESPOSÁVEIS POR ESTA SEÇÃO: Hamilton Ometto Stof. Professor doutor, Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista. Ricardo Romiti. Professor assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Hamilton Ometto Stolf Departamento de Dermatologia e Radioterapia Campus Universitário de Rubião Jr., s/no Botucatu (SP) CEP 18618-000 Tel. (14) 3882-4922 E-mail: [email protected] Fontes de fomento: nenhuma declarada Conflito de interesse: nenhum declarado Data de entrada: 10 de agosto de 2013 Data da última modificação: 4 de setembro de 2013 Data de aceitação: 12 de outubro de 2013 143 144 Hemangioma infantil PALAVRAS-CHAVE: Hemangioma. Criança. Neoplasias. Hemangioma capilar. Hemangioma cavernoso. RESUMO Contexto: Os hemangiomas infantis são os tumores vasculares benignos mais comuns da infância e representam um desafio em relação ao tratamento. Descrição do caso: Descrevemos o caso de uma criança do sexo masculino, de quatro meses de idade, que apresentava um hemangioma de grande extensão na região cervical direita. Discussão: Apresentamos as diversas formas de tratamento dos hemangiomas da infância, com ênfase no tratamento com betabloqueadores sistêmicos. Conclusões: Apesar de o diagnóstico dos hemangiomas infantis não apresentar complexidade, há várias formas de tratamento, com base na localização, no tamanho e nas complicações possíveis de cada lesão em particular. Diagn Tratamento. 2013;18(4):141-4. Nutrologia Aveia Hernani Pinto de Lemos JúniorI, André Luis Alves de LemosII Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo — Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), Centro Cochrane do Brasil INTRODUÇÃO A aveia é um cereal que possui proteínas, ferro, vitaminas e fibra solúvel (betaglucana) relacionada ao aumento do bolo fecal e melhora do trânsito intestinal. Essa aparente ação física no intestino tem outras implicações, como o carreamento de sais biliares para o bolo fecal, fazendo com que o fígado forme novos sais biliares através da captação do colesterol no sangue. Essa ação pode influenciar nos níveis de colesterol do sangue. Se este raciocínio fisiológico estiver correto, o uso regular da aveia poderá, em médio e longo prazos, influenciar nas placas de gordura que aderem as artérias, alterando o curso das doenças vasculares, principalmente as cardio e cerebrovasculares. Embora existam outros alimentos que contêm a fibra solúvel betaglucana, neste artigo procuramos estudos que tenham utilizado a aveia como intervenção para verificar sua influência no colesterol plasmático e, consequentemente, na placa de ateroma. OBJETIVOS Apresentar as evidências do uso da aveia na prevenção de doenças vasculares. MÉTODOS Em uma revisão narrativa da literatura, foi realizada uma busca sistematizada da literatura nas bases de dados Cochrane Library, Medline, Lilacs e PubMed. RESULTADOS Na Cochrane Library, encontramos uma revisão sistemática1 cujo objetivo principal foi analisar as evidências atuais de ensaios clínicos randomizados (ECR) que avaliaram a relação entre o consumo de alimentos integrais e os efeitos sobre a mortalidade, morbidade e fatores de risco para doença arterial coronariana nos participantes previamente diagnosticados com doença coronariana ou fatores de risco para tal (prevenção secundária). Dez estudos preencheram os critérios de inclusão da revisão sistemática. Em oito dos estudos incluídos, o alimento utilizado foi a aveia e nenhum dos estudos encontrados relatou o desfecho na mortalidade, eventos coronarianos ou morbidade. Todos relataram os efeitos sobre fatores de risco para doença coronariana e tiveram a duração de quatro a oito semanas. A metanálise mostrou redução significativa do colesterol total, com intervalo de confiança (IC) de 95%, de -0,31 a -0,10, P = 0,0001, e do LDL colesterol, com IC de 95%, de - 0,28 a -0,09, P < 0,0001, favoráveis à aveia em relação ao controle. Um estudo clínico randomizado2 foi elaborado com aveia para verificar sua ação na hipercolesterolemia. Os 156 participantes escolhidos tinham níveis de LDL-colesterol elevados, com múltiplos fatores de risco para doença arterial coronariana, e foram randomizados em sete grupos, sendo um deles o controle. Seis grupos receberam farelo de aveia ou farinha de aveia, em doses diferentes. Na sexta semana do tratamento, foram encontradas diferenças significativas para os níveis de colesterol total e LDL-colesterol (LDL-C) favoráveis para os grupos de tratamento que receberam 84 gramas de farinha de aveia, 56 gramas de farelo de aveia e 84 gramas de farelo de aveia, com diminuições nos níveis de LDL-C de 10,1%, 15,9% e 11,5%, respectivamente. O uso de 56 gramas de farelo de aveia apresentou reduções significativamente maiores nos níveis de LDL-C do que 56 g de farinha de aveia. A análise dos nutrientes não mostra nenhuma diferença no conteúdo de gordura dietética entre esses grupos de tratamento e, portanto, o maior teor de betaglucano do farelo de aveia provavelmente explica as reduções significativamente maiores de LDL-C. Em um estudo clínico randomizado3 com 236 participantes hipercolesterolêmicos foram orientados para o uso de uma dieta especial com gordura modificada preconizada pela American Heart Association (AHA) por um mês. Depois foram randomizados para o uso ou não de 56 gramas de farinha de aveia para verificar se o acréscimo desse cereal melhora a redução do colesterol em relação ao uso isolado da dieta. Após três meses, a redução do colesterol aconteceu em ambos os grupos, maior no grupo suplementado com aveia. Análise de subgrupos mostrou redução maior do colesterol em pacientes com maiores níveis de colesterol. Sem diferenças significativas favoráveis para o grupo intervenção (aveia). I Médico, mestre e doutor em Medicina Interna e Terapêutica e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Médico pesquisador do Centro de Pesquisas em Revisões Sistemáticas do Centro Cochrane do Brasil e médico assistente da Universidade Federal de São Paulo. E-mail: [email protected] II Médico, mestre e doutorando em Medicina Interna e Terapêutica e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Pesquisador colaborador do Centro Cochrane do Brasil. E-mail: [email protected] Diagn Tratamento. 2013;18(4):145-6. 146 Aveia Um estudo randomizado4 controlado conduzido na China, incluiu indivíduos com hipercolesterolemia leve a moderada. O grupo intervenção (aveia) (n = 85) consumiu 100 gramas de aveia e o grupo controle (n = 81) consumiu 100 gramas de macarrão à base de farinha de trigo por dia, durante seis semanas. Medições laboratoriais e antropométricas foram realizadas no início e no final da intervenção. Colesterol total, HDL-colesterol e LDL-colesterol diminuíram significativamente no grupo de aveia em comparação com o controle (P = 0,01, 0,01 e 0,02 respectivamente). No triglicérides e na glicemia não houve alterações significativas entre os grupos. DISCUSSÃO Pode parecer incongruente que, neste artigo, tenham sido reportados somente três estudos randomizados, enquanto a revisão sistemática1 tenha referido oito estudos com aveia. A razão é que existem muitos estudos com cointervenções e, como concluíram os autores da revisão sistemática,1 os resultados positivos devem ser interpretados com cautela porque muitos dos estudos identificados eram de curto prazo, de má qualidade e tinham poder estatístico insuficiente. Dois estudos deste artigo2,3 estão incluídos na revisão sistemática,1 todavia, a metanálise resultante incluiu todos eles, inclusive os que não usaram a aveia como intervenção. Essa é a razão pela qual eles foram descritos individualmente neste artigo. CONCLUSÃO O uso regular de aveia nas suas diversas formas é um coadjuvante importante no tratamento das dislipidemias em pacientes com fatores de risco para doenças vasculares e hiperlipêmicos. REFERÊNCIAS 1. Kelly SA, Summerbell CD, Brynes A, Whittaker V, Frost G. Wholegrain cereals for coronary heart disease. Cochrane Database Syst Rev. 2007;(2):CD005051. 2. Davidson MH, Dugan LD, Burns JH, et al. The hypocholesterolemic effects of beta-glucan in oatmeal and oat bran. A dose-controlled study. JAMA. 1991;265(14):1833-9. 3 Van Horn L, Emidy LA, Liu KA,et al. Serum lipid response to a fat-modified, oatmeal-enhanced diet. Prev Med. 1988;17(3):377-86. 4. Zhang J, Li L, Song P, et al. Randomized controlled trial of oatmeal consumption versus noodle consumption on blood lipids of urban Chinese adults with hypercholesterolemia. Nutr J. 2012;11:54. EDITOR RESPONSÁVEL POR ESTA SEÇÃO Hernani Pinto de Lemos Júnior. Médico, mestre e doutor em Medicina Interna e Terapêutica e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Médico pesquisador do Centro de Pesquisas em Revisões Sistemáticas do Centro Cochrane do Brasil e médico assistente da Universidade Federal de São Paulo. INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Hernani Pinto de Lemos Júnior CEPATIS/Centro Cochrane do Brasil Rua Pedro de Toledo, 740 — 3o andar Vila Clementino — São Paulo (SP) CEP 04023-900 Tel./Fax. (11) 5575-2970/5579-0469 E-mail: [email protected] Fonte de fomento: nenhuma Conflito de interesse: nenhum Data de entrada: 23 de agosto de 2013 Data da última modificação: 10 de setembro de 2013 Data de aceitação: 8 de outubro de 2013 PALAVRAS-CHAVE: Avena sativa. Doença das coronárias. Colesterol. LDL-colesterol. Fibras na dieta. RESUMO Introdução: A aveia pode reduzir o risco de doenças vasculares através da redução do colesterol total e do LDL-colesterol. Objetivo: Verificar evidências do uso da aveia na prevenção de doenças vasculares. Métodos: Busca sistematizada da literatura, por meio de busca eletrônica, de artigos que avaliem o uso da aveia na terapêutica médica. Resultados: Encontramos uma revisão sistemática com oito estudos com aveia. Esse estudo evidenciou diminuição significativa do colesterol total e do LDL-colesterol. Encontramos três ensaios clínicos randomizados nos quais houve demonstração da diminuição do colesterol total e do LDL-colesterol. Conclusão: O uso regular de aveia em suas diversas formas é um coadjuvante importante no tratamento das dislipidemias em pacientes com fatores de risco para doenças vasculares e hiperlipêmicos. Diagn Tratamento. 2013;18(4):145-6. POEMs: Patients-oriented evidence that matters Pedra nos rins: opções para prevenção Autores da tradução: Pablo Gonzáles BlascoI, Marcelo Rozenfeld LevitesII, Cauê MonacoIII, Gabriel Domingos de PaulaIV Sociedade Brasileira de Medicina de Família QUESTÃO CLÍNICA Qual a melhor abordagem para prevenir recidivas de pedra nos rins? RESUMO Aumento da ingestão de fluidos ou diminuição da ingestão de bebidas carbonatadas pode prevenir formação de litíase renal em pacientes que tiveram episódio único de cálculo por cálcio. Outras mudanças dietéticas mostraram-se ineficazes. Tiazídicos e citratos concomitantes ao aumento da ingestão de líquidos diminuem novos episódios em pacientes que tiveram múltiplos episódios de litíase no passado, assim como uso de alopurinol para pacientes com altos níveis de ácido úrico. Alopurinol ou citratos em associação de tiazídicos não mostraram benefícios diferentes do uso isolado de tiazídicos isolados.1 DESENHO DO ESTUDO Revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados. Nível de evidência: 1a.2 CASUÍSTICA Adultos atendidos em ambulatório. DISCUSSÃO Revisão sistemática de diversas bases de dados, como a Cochrane, identificou 28 estudos clínicos randomizados de língua inglesa que comparavam medidas para diminuir recidivas de nefrolitíase. Esses estudos avaliaram pacientes com cálculos de carbonato de cálcio, e foram incluídos nos protocolos de pesquisas pacientes com episódio único ou múltiplas recidivas. Os dados foram compilados por um dos autores, e o segundo autor analisou a acurácia. Dois pesquisadores identificaram independentemente a qualidade dos dados. Para pacientes com episódio único de recidiva, foi evidenciado que aumento da ingestão de líquidos (acima de 2-2,5 litros/dia) e redução de bebidas gaseificadas diminuiu pela metade eventos de recidiva quando comparado com nenhum tratamento. Dietas pobres em proteínas ou ricas em fibras, mudanças dietéticas de múltiplos componentes (rico em fibra, pobre em purinas e pobre em proteínas) foram todas ineficazes. Em pacientes com recidivas de cálculos por cálcio, foram resgatados seis estudos de média qualidade que demonstravam que o tratamento com tiazídicos, combinado com aumento da ingestão de líquidos e diminuição de ingestão de oxalatos reduziu pela metade a incidência de novos cálculos (risco relativo [RR] = 0,52; intervalo de confiança [IC] de 95% de 0,39-0,69) com redução nas taxas de litotripsia. Tratamento com citratos e aumento da ingestão líquida também mostrou diminuição de novos eventos (RR = 0,25; 0,14-0,44). Alopurinol demonstrou efeito de diminuição de novos cálculos nos pacientes que apresentavam hiperuricemia ou hiperuricosúria. A associação com tiazídicos não mostrou maior eficácia do que monoterapia apenas com tiazídicos. REFERÊNCIAS 1. Fink HA, Wilt TJ, Eidman KE, et al. Medical management to prevent recurrent nephrolithiasis in adults: a systematic review for an American College of Physicians clinical guideline. Ann Intern Med. 2013;158(7):535-43. 2. Centre for Evidence Based Medicine. Oxford Centre for Evidence-based Medicine - Levels of Evidence (March 2009). Disponível em: http://www. cebm.net/index.aspx?o=1025. Acessado em 2013 (15 ago). EDITORES RESPONSÁVEIS POR ESTA SEÇÃO Pablo Gonzáles Blasco. Médico de família, doutor em Medicina, diretor científico e membro-fundador da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Marcelo Rozenfeld Levites. Médico de família e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Cauê Mônaco. Médico de família, membro ativo da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Médico de família, doutor em Medicina, diretor científico e membro-fundador da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Médico de família e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Médico de família, professor do curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo, membro ativo da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). IV Médico generalista, Médico de família em formação. Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). I II III Diagn Tratamento. 2013;18(4):147-8. 148 Pedra nos rins: opções para prevenção INFORMAÇÕES Tradução e adaptação: Sobramfa (Sociedade Brasileira de Medicina de Família) Rua Silvia, 56 Bela Vista — São Paulo (SP) CEP 01331-000 Tel. (11) 3253-7251/3285-3126 E-mail: [email protected] http://www.sobramfa.com.br Data de entrada: 1o de agosto de 2013 Data da última modificação: 23 de agosto de 2013 Data de aceitação: 2 de setembro de 2013 Responsável pela edição desta seção: Sobramfa Diagn Tratamento. 2013;18(4):147-8. POEMs: Patients-oriented evidence that matters Prevenção de celulite com baixas doses de penicilina Autores da tradução: Pablo Gonzáles Blasco , Marcelo Rozenfeld Levites , Cauê Monaco , Gabriel Domingos de PaulaIV I II III Autor dos comentários: Jacob LevitesV Sociedade Brasileira de Medicina de Família QUESTÃO CLÍNICA Baixas doses de penicilina pode prevenir recidivas de celulite em membros inferiores? RESUMO Penicilina em baixas doses pode prevenir recidiva de celulite em membros inferiores para paciente com dois ou mais episódios nos últimos três anos. DESENHO DO ESTUDO Estudo randomizado controlado duplo-cego. Nível de evidência: 1b.1 CASUÍSTICA Pacientes internados com seguimento ambulatorial. DISCUSSÃO Pacientes com dois ou mais casos de celulite em membros inferiores nos últimos três anos foram estudados para determinar possibilidade de prevenção com baixas doses de penicilina.2 A idade média dos pacientes foi de 58 anos, 60% eram mulheres, o índice de massa corpórea média dos pacientes foi de 35 kg/m² e 25% apresentavam insuficiência venosa periférica. Na média, os pacientes apresentavam cerca de 3,75 episódios de celulite nos últimos três anos. Os pacientes foram randomizados para receber doses de 250 mg de penicilina duas vezes ao dia ou placebo. Duzentos e setenta e quatro pacientes foram alocados randomicamente, houve perda de 26 pacientes (saída espontânea do protocolo, perda de seguimento ou morte). Pacientes foram seguidos por tempo entre 18 e 36 meses. Ao fim do seguimento obteve-se a mediana de dias entre início da medicação ou placebo até o primeiro novo evento de celulite do paciente. Pacientes no grupo penicilina obtiveram mediana de 626 dias para novo evento contra mediana de 532 dias para novo evento nos pacientes do grupo placebo. A probabilidade de qualquer novo evento foi menor no grupo recebendo penicilina (22 versus 37%; P = 0,01; número necessário para tratar [NNT] = 6). Incidência de efeitos adversos foi ligeiramente menor no grupo intervenção e nenhuma reação grave foi relatada. Paciente com maior índice de massa corpórea, com presença de edema e aqueles com maior número de episódios passados foram menos beneficiados pela intervenção. COMENTÁRIO O antibiótico ideal seria a penicilina, porém no nosso meio é difícil de achar, além de ser dolorosa por via intramuscular. Assim, opto por cefalexina 500 mg a cada oito horas durante 10 dias. Melhorando, começo a desmamar por mais 10 dias, com 500 mg de 12/12 horas e, por fim, cefalexina 500 mg, 1 cápsula ao dia por um longo período de tempo (quatro meses). Lembrar que o repouso é fundamental com perna elevada. REFERÊNCIAS 1. Centre for Evidence Based Medicine. Oxford Centre for Evidence-based Medicine - Levels of Evidence (March 2009). Disponível em: http://www. cebm.net/index.aspx?o=1025. Acessado em 2013 (15 ago). 2. Thomas KS, Crook AM, Nunn AJ, et al. Penicillin to prevent recurrent leg cellulitis. N Engl J Med. 2013;368(18):1695-703. Médico de família, doutor em Medicina, diretor científico e membro-fundador da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Médico de família e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). III Médico de família, professor do curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo, membro ativo da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). IV Médico generalista, Médico de família em formação. Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). V Mestre em Dermatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). I II Diagn Tratamento. 2013;18(4):149-50. 150 Prevenção de celulite com baixas doses de penicilina EDITORES RESPONSÁVEIS POR ESTA SEÇÃO Pablo Gonzáles Blasco. Médico de família, doutor em Medicina, diretor científico e membro-fundador da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Marcelo Rozenfeld Levites. Médico de família e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). Cauê Mônaco. Médico de família, membro ativo da Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa). INFORMAÇÕES Tradução e adaptação: Sobramfa (Sociedade Brasileira de Medicina de Família) Rua Sílvia, 56 Bela Vista — São Paulo (SP) CEP 01331-000 Tel. (11) 3253-7251/3285-3126 E-mail: [email protected] http://www.sobramfa.com.br Data de entrada: 1o de agosto de 2013 Data da última modificação: 23 de agosto de 2013 Data de aceitação: 2 de setembro de 2013 Responsável pela edição desta seção: Sobramfa Diagn Tratamento. 2013;18(4):149-50. Linguagens Filosofia Alfredo José MansurI Unidade Clínica de Ambulatório do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo O professor de Medicina já falecido (certamente está agora a conferenciar com Aristóteles!) foi convidado a proferir conferência sobre tema alheio à sua linha de pesquisa biomédica. O tema era de prospecção dos limites do conhecimento da astronomia; ele havia se dedicado a esse estudo como curiosidade intelectual. Na apresentação do convidado, foi mencionado que o tema daquele dia não seria científico, mas filosófico. O professor de Medicina agradeceu o convite, a apresentação, e lembrou que o termo filosofia, nas suas origens, englobava também conteúdos que hoje evoluíram para o termo ciência, de tal forma não haver incongruência entre a Ciência, trilha à qual o professor convidado havia dedicado a vida, e seu prototípico amor à sabedoria (filosofia). Para quem o conhecia, havia uma percepção a mais: isso era verdadeiro. É fato que há quantidade respeitável de importantes obras filosóficas publicadas e estudadas no decorrer de séculos; há entendidos em filosofia, há professores de filosofia (inclusive os muito severos e exigentes, como o professor Benigni) e variada gama de conhecimento aprofundado a respeito; não foi esse o campo das reflexões que se seguem sobre as diferentes acepções e usos corriqueiros do termo, mais afeitas à “filosófica” citação: “É, ainda assim, saibamos todos, os capiaus gostam muito de relações de efeito e causa leviana e dogmaticamente inferidas”.1 Ressalvas feitas, uma das consequências do comentário do professor foi que passamos a atentar mais para o uso do termo “filosofia” e correlatos (por exemplo, “filósofo”, “filosófico”) em algumas circunstâncias relacionadas ao cotidiano. Por vezes, esses termos são empregados em acepções (bem) diversas do seu sentido original. Outras vezes, são ditos “filosóficos” aspectos das interpretações, do diagnóstico ou da terapêutica. E tantas outras vezes suscitam e alimentam reflexões; seguem algumas delas. Hiperpragmatismo – Há conceitos da nossa cultura que defendem como virtude o estrito pragmatismo, entendido na acepção de tratamento prático e sumário das coisas.2 Uma das máximas do pragmatismo descritas é que os conteúdos das hipóteses ou conceitos podem ser deduzidos a partir de suas consequências práticas.2,3 Talvez seja um viés hiperpragmático o questionamento e a modelagem científica como alternativa à elaboração do pensamento mediante hipóteses.4 Certamente há níveis de nossa dinâmica social que requerem ações rápidas e práticas. Entretanto, ações mais complexas, que requerem o exame mais detido, a interpretação e a compreensão dos executores (sejam pacientes ou profissionais da saúde) podem ter dificuldades com o modelo hiperpragmático, no qual o modelo exclusivamente focado nos resultados turva o entendimento do processo subjacente, impedindo o alcance de resultados esperados com a eficiência pretendida. Às vezes, perseguir certos resultados (por exemplo, índices de produtividade) sobrepondo-os aos processos que o fundamentam não garante resultados sustentáveis. O caráter hiperpragmático pode causar melhor aparência, tender ao populismo; ele é imediato, fala ao sensitivo, às vezes é traduzido precipitadamente como “objetivo”. O aspecto conceitual tem aparência menos pretensiosa, é mais cauteloso e demorado, não engana nem subestima o interlocutor – portanto, não tende ao populista, fala à capacidade de raciocínio, não é imediato e, à primeira vista, não soa objetivo e nem poderoso. Os aspectos do entendimento, das ideias subjacentes a processos, ou dos conceitos, às vezes são enfeixados no adjetivo “filosófico”, significando “não pragmáticos, sem caráter prático, não objetivos — “mais para a arte do que para a ciência”. Possivelmente, hoje mais se valoriza a Medicina como ciência e tecnologia (ligada ao poder, inclusive econômico) e menos como arte (aqui entraria o aspecto do ser humano); em outros termos, Medicina menos “filosófica”. Claro está que não são dimensões antagônicas, mas se reforçam e se adensam mutuamente. Abstração – Dizer que algo é “filosófico” pode ter o objetivo de significar que algo é abstrato, que não “resolve”, portanto, não concreto. A abstração é necessária para permitir o conceito ou a forma de “conectar os pontos”. Os modos diferentes de ligar os pontos têm significados diferentes, ainda que abstratos — um conjunto de sintomas reunidos em determinada interpretação pode ser a origem de diferentes diagnósticos, levar a diferentes tratamentos e diversos prognósticos. I Livre-docente em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Diretor da Unidade Clínica de Ambulatório do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Diagn Tratamento. 2013;18(4):151-2. 152 Filosofia Nesse contexto, seria então de se indagar o que é o concreto – seria o concreto o que causa o exame por meio dos sentidos, ou por meio de imagens, ou por meio de medidas, de escores ou cheklists? A necessidade de conectar os pontos — para usar expressão alçada à mídia de massa graças a Steve Jobs — faz parte da interpretação e elaboração do cotidiano e é o pensamento por trás dos pontos que os une. No caso médico, conectar os pontos pode ser o diagnóstico e o julgamento clínico global. Submetido a teste no diagnóstico de embolia pulmonar, esta forma de conectar os pontos (que, neste estudo, os autores denominaram gestalt) alcançou área sob a curva de 0,81, superior a escores de Wells (0,73) e de Genebra revisado (0,67).5 Posse – Há quem tenha escrito que filosofia não é um saber que se possui, mas que se busca; a essência do conceito é o fato de ser buscado.6 Portanto, nada mais científico no sentido da essência do significado do termo filosofia. Talvez essa característica torne a filosofia livre, e talvez esse caráter livre seja estranho a alguns tipos de organização, organogramas, protocolos ou algoritmos, que podem ser redutores da realidade a aspectos parciais, inclusive operacionais. Não é impossível falsear a realidade ao restringi-la. Uma dimensão da vida moderna é que podemos adquirir bens ou produtos culturais. Recentemente, um professor universitário lembrou que os produtos culturais resultam de experiências históricas de sociedades diferentes. Conceitos, instituições, valores, interpretações do passado, embora usando os mesmos nomes, podem sofrer acentuada refração de significado quando se deslocam do local de origem para outros locais.7 Aponta ainda, em outro contexto, o risco de aquisição de bens culturais sem o processo que o gerou, que leva a uma refração semântica, inclusive na aplicação dos princípios. Foi interessante cogitar se, também nos temas que dizem respeito à prática médica e cuidados com a saúde, tais importações de resultados sem o processo podem também se associar a refrações semânticas de tal forma a modificar-lhes significados e aplicação. Prolixidade – É verdade que podemos ler textos ditos “filosóficos” que são prolixos; podemos conversar com filósofos que sejam prolixos, mas isso é uma decorrência da condição humana e não da filosofia em si. É bonito quando o professor ensina que, por exemplo, Aristóteles foi o gênio da precisão conceitual.6 Superficialidade – Uma das questões atualmente discutida em diferentes setores é que a cultura da internet se associa ao risco de superficialidade. Em palestra recente, uma autoridade no ensino à distância com o emprego de meios eletrônicos chamou a atenção para o fato de poder ser um marcador da cultura a falta de abrangência e de profundidade na prática cotidiana em muitos ramos da atividade humana. O método filosófico poderia ser antídoto para a falta de razões associada à excessiva rapidez ou superficialidade dela advinda. Categorias – As interpretações de mecanismos fisiopatológicos, as relações de associação com base em métodos estatísticos, as relações de causalidade fazem parte do cotidiano da interpretação de sintomas de pacientes, diagnósticos, tratamento e prognóstico de pacientes ou de interpretação de dados ou resultados de pesquisa. São elaborações que têm, muitas vezes, caráter filosófico. Cientistas atuais empregam análise filosófica para avaliar o questionamento e a modelagem científica como alternativa à elaboração do pensamento mediante hipóteses.4 A causalidade segundo escrita por Max Planck – “a lei da causalidade não é verdadeira nem falsa. É, antes de tudo, um princípio heurístico, um guia – a meu ver o melhor guia que temos – para nos orientar na confusão multifacetada dos eventos e nos mostrar a direção que a pesquisa científica deve seguir para dar bons resultados”.8 Finalizando, podemos dizer que o amor à ciência médica e a pacientes não é conflitante com o amor à sabedoria (filosofia), ainda que seja um ideal difícil de exercer e, muito mais ainda, de dizer que se alcança. E nunca é demais lembrar que a experiência de outros colegas pode aprofundar e iluminar com muita propriedade as reflexões sobre o tema ora tratado. REFERÊNCIAS 1. Rosa JG. Sagarana. 19a ed. Rio de Janeiro: José Olympio; 1976. 2. Houaiss A, Villar MS. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva; 2001. 3. Hookway C. Pragmatism. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em http://plato.stanford.edu/entries/pragmatism/#Con. Acessado em 2013 (19 ago). 4. Glass DJ, Hall N. A brief history of the hypothesis. Cell. 2008;134(3):378-81. 5. Penaloza A, Verschuren F, Meyer G, et al. Comparison of the unstructured clinician gestalt, the wells score, and the revised geneva score to estimate pretest probability for suspected pulmonary embolism. Ann Emerg Med. 2013;62(2):117-124.e2. 6. Zubiri X. Cinco leciones de filosofia. Madri: Alianza Editorial; 2007. 7. Ferraz F. Yoani, a mais recente batalha da guerra fria. Estadão.com.br/Opinião, de 28 de fevereiro de 2013. Disponível em: http://www.estadao.com.br/ noticias/impresso,yoani-a-mais-recente-batalha-da-guerra-fria,1002568,0. htm. Acessado em 2013 (19 ago). 8. Planck M. Autobiografia científica e outros ensaios. Rio de Janeiro: Contraponto; 2012. INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Unidade Clínica de Ambulatório do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44 São Paulo (SP) CEP 05403-000 Tel. InCor (11) 2661-5237 Consultório: (11) 3289-7020/3289-6889 E-mail: [email protected] Fontes de fomento: nenhuma Conflito de interesse: nenhum Data de entrada: 13 de agosto de 2013 Data da última modificação: 13 de agosto de 2013 Data de aceitação: 26 de agosto de 2013 Diagn Tratamento. 2013;18(4):151-2. Residência e ensino médico Caso... “solitário(a)” sob discussão clínica na enfermaria Arary da Cruz TiribaI Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) A avaliação dos formandos pelo Conselho Regional de Medicina vem apontando despreparo do futuro profissional. Mas até na universidade pública – preferida por preencher requisitos mais completos para a educação médica –, assinalam-se preocupantes vácuos do conhecimento. Tome-se, por exemplo, recente discussão sobre paciente admitida na Unidade de Doenças Infecciosas e Parasitárias. Mulher de meia-idade adentrou a enfermaria por apresentar, nos últimos meses, dor de cabeça persistente, alteração do sono, perda do apetite, desconforto e vômitos. Análises – líquido cefalorraquidiano, ressonância magnética... –, mal chegada ao leito, diagnóstico evidenciado: neurocisticercose cerebral! Êxito? Sim, pela rapidez do esclarecimento, pela iniciação do tratamento! A cisticercose diz respeito à larva da Taenia solium ou da Taenia saginata, uma e outra conhecida por “solitária” porque, em geral, a infestação é pelo verme único; a forma larvária é assestada em hospedeiros intermediários, mais comuns, bovinos e suínos; humanos, acidentalmente, abrigam a fase. Paradoxalmente, à indagação ao preceptor [grau de doutorado na área de concentração] sobre o “leito” para discussão com internos, residentes e estagiários, o caso em apreço foi mencionado en passant, por já estar definido! Por não haver o que acrescentar!... Entretanto – professor à moda antiga... –, a escolha recaiu sobre a menoscabada [doença]. Comentários e implicações evidenciaram, em progressão, a série de inadvertências. À margem do diagnóstico obtido, chamada a atenção para a característica – cerebral –, do sofrimento; não seria incorreto apontá-lo como encefalopatia; acompanhado fosse de febre, alterações da consciência e/ou convulsões, mais propriamente, encefalite; se hipertensa – a paciente –, supor-se-ia hemorragia subaracnoidea; de acordo com vivência e comportamento sexual, considerar-se-iam, ademais, etiologias tuberculosa, fúngica ou luética, sem esquecer que o parasito,1 assim sediado, mimetiza neoplasia. Subaguda, a evolução! Distinta de aspectos, surpreendentes, dramáticos, das neuroinfecções agudas e explosivas, que sacodem a comunidade, causadas por bactérias, vírus e fungos, a exemplo do que se assiste durante as epidemias de meningite meningocócica. Queixa e duração, tão só, permitiriam como enquadramento, preliminar, provisório, o diagnóstico anatomoclínico: meningoencefalopatia. Parasitária, rara, a etiologia! Ligada aos hábitos de vida e alimentares, de onde a recomendação de revisão do “inquérito epidemiológico” e conveniente registro no prontuário, para estimativa do momento e área territorial da aquisição do mal. Follow up!... Em casos do gênero, o que se exige à continuidade da observação temporal. Isolada [solitária, fim de linha...] a ocorrência? Contraste: sinalização para grave questão de saúde coletiva, inseridos: atividade pecuária, abate, indústria da carne, comércio nacional e internacional de alimentos, venda irregular, hábito alimentar, educação sanitária... A bagagem de informação do habitante, rural ou urbano, sobre a antropozoonose, deixa a desejar até nas classes de renda alta. Surpreende que, por vezes, a carne infestada pela larva – conhecida por “canjiquinha” –, é a eleita para o repasto! O tema, na área da medicina humana, requer a informação elementar das disciplinas básicas às clínicas e aos departamentos: Anatomia, Parasitologia Médica, Patologia, Imunologia, Laboratório Clínico, Epidemiologia, Clínica Geral, Infectologia, Oftalmologia, Neurologia, Neurocirurgia, Diagnóstico por Imagem, Nutrologia, Educação em Saúde... Ressaltado, o exemplo, por remeter às ameaças comparáveis. Das mais antigas, a neuroinfecção por outro parasito, Entamoeba hystolitica; além da disenteria (amebiana) estabelece abscessos hepáticos, pulmonares e meningite. Da mesma natureza o alerta de risco previsível! Proliferação – já irremediável –, no território nacional, do caracol (Achatina fulica) com características do escargot, gastrópode distinguido Médico sanitarista, infectologista e tropicalista, titular da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) [aposentado, em atuação voluntária]. I Diagn Tratamento. 2013;18(4):153-4. 154 Caso... “solitário(a)” sob discussão clínica na enfermaria como iguaria de “gente de bem”. No ambiente natural, por ingestão, contato e contaminação de alimentos, suas larvas determinam meningite, de ordem parasitária, a angiostrongilíase! Faz falta à Universidade bem plantada, a exemplo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – de objetivo inicial “saúde” –, o Instituto de Medicina Veterinária, por sua importância na preservação da saúde animal e humana; também, a integração com os Institutos de Pesquisa (Butantan, Adolfo Lutz, Fiocruz, Evandro Chagas) onde são concentrados pesquisadores extraordinários: virologistas, parasitologistas, malacologistas...; os últimos, os estudiosos de – indesejável da hora – o caramujo recém-naturalizado verde-amarelo. Enriquecedor para o estudante das ciências da saúde a citação de personagens históricas que esclareceram sobre as doenças parasitárias. Alexandre Joseph Emile Brumpt (1877-1951) – parasitologista francês –, foi pesquisador no território africano e sul-americano; proferiu aulas na Universidade de São Paulo (USP). Samuel Barnsley Pessoa, catedrático da USP, fundou notável escola de parasitologistas brasileiros, internacionalmente renomados, atuantes em áreas carentes do Norte do Brasil. Indispensável à Universidade: a fixação da ponte de ligação entre a Medicina Humana e a Medicina Veterinária, com vistas à preservação da saúde animal e à fiscalização dos produtos derivados para consumo pela população (carne, hambúrgueres, embutidos... frescos ou congelados). Aqui, a demonstração como o treinamento para o exercício da profissão, de outra forma, teria sido deficiente, mesmo na universidade pública! A desconsideração de caso, aparentemente isolado, ainda que sem subsequentes, pode ser enganosa. O docente de longo curso amplia o conhecimento do aluno, despertando-o para diretrizes espontâneas e próprias. REFERÊNCIA 1. Rezende JM. Parasito, parasito. In: Rezende JM. Linguagem médica. 3a ed. Goiânia: AB Editora e Distribuidora de Livros; 2004. Disponível em: http:// usuarios.cultura.com.br/jmrezende/parasito.htm. Acessado em 2013 (3 abr). EDITOR RESPONSÁVEL POR ESTA SEÇÃO: Olavo Pires de Camargo. Professor titular e chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Rua Cayowaá, 969 Vila Pompeia — São Paulo (SP) CEP 05018-001 Tel. (11) 3862-4411 – Fax (11) 3872-2307 E-mail: [email protected] Data de entrada: 21 de março de 2013 Data da última modificação: 21 de março de 2013 Data de aceitação: 3 de abril de 2013 Diagn Tratamento. 2013;18(4):153-4. Eletrocardiograma Eletrocardiograma no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar Antonio Américo FriedmannI, José GrindlerII, Carlos Alberto Rodrigues de OliveiraIII, Alfredo José da FonsecaIII Serviço de Eletrocardiologia da Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Um paciente de 29 anos internado no Hospital das Clínicas para investigação de emagrecimento acentuado apresentou dispneia intensa de início súbito. O exame físico revelou taquipneia (frequência respiratória de 40/minuto) e taquicardia (frequência cardíaca de 125 bpm), porém as propedêuticas dos pulmões e do coração não evidenciaram outras anormalidades esclarecedoras. A radiografia do tórax mostrou pulmões normais. O eletrocardiograma (ECG), porém, estava alterado. No traçado (Figura 1), observam-se taquicardia sinusal, QRS desviado para direita, distúrbio de condução do ramo direito e alterações da repolarização ventricular. Nas derivações do plano frontal, além da onda S anormal em D1, há diminutas ondas Q em D3 e a onda T está negativa nessa mesma derivação (alterações morfológicas conhecidas como “S1Q3T3”). Nas derivações precordiais, há ondas R alargadas em V1 (distúrbio do ramo direito) e as ondas T estão negativas de V1 a V4. As alterações do ECG foram consideradas altamente sugestivas de tromboembolismo pulmonar (TEP). Foi realizada tomografia computadorizada do tórax, que revelou obstruções de ramos importantes das artérias pulmonares, confirmando o diagnóstico. Apesar do tratamento trombolítico e anticoagulante realizados precocemente, o paciente teve parada cardiorrespiratória e evoluiu a óbito. DISCUSSÃO As alterações do eletrocardiograma encontradas na embolia pulmonar são decorrentes de sobrecarga aguda do ventrículo direito (VD). A taquicardia sinusal, o bloqueio do ramo direito, o desvio do eixo elétrico para a direita, o padrão S1Q3T3 e a inversão das ondas T nas derivações precordiais de V1 a V4 são as principais anormalidades eletrocardiográficas correlacionadas com a embolia pulmonar.1 Nenhuma delas é específica, mas o conjunto delas é altamente sugestivo de TEP.2 O padrão morfológico S1Q3T3, descrito por McGinn e White,3 é conhecido desde a década de 1930. Entretanto, estas características decorrentes da rotação horária do QRS também podem ser encontradas em sobrecargas ventriculares direitas de outras etiologias. Ferrari e colaboradores,4 estudando 80 casos consecutivos de embolia pulmonar, concluíram que a inversão da onda T de V1 a V4 foi a mais frequente das anormalidades, ocorrendo em 68% dos casos analisados. Essas alterações são secundárias à sobrecarga ventricular direita. O distúrbio de condução do ramo direito ou bloqueio do ramo direito de grau leve ou moderado, às vezes avançado, é uma decorrência da dilatação aguda do VD. Um estudo europeu5 prospectivo e multicêntrico em grande escala (508 pacientes), pesquisando o impacto de anormalidades específicas do ECG na mortalidade precoce por embolia pulmonar, constatou que BRD, taquiarritmias atriais, desnivelamentos de ST, ondas Q em mais derivações (padrão pseudoinfarto) e baixa voltagem foram significativamente mais frequentes nos doentes que evoluíram a óbito. Concluíram que o eletrocardiograma é também útil na estratificação de risco da doença. Apesar das alterações específicas do ECG, a embolia pulmonar ainda é um desafio diagnóstico porque nem sempre elas estão presentes. Este caso foi escolhido para apresentação porque o ECG apresentava a maioria das anormalidades características descritas. A hipótese diagnóstica do doente na ocasião do episódio foi TEP consequente a trombose venosa profunda como manifestação paraneoplásica de neoplasia maligna em investigação. O maior número de alterações eletrocardiográficas parece estar relacionado ao pior prognóstico. Livre-docente, diretor do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Médico supervisor do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). III Médico assistente do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). I II Diagn Tratamento. 2013;18(4):155-6. 156 Eletrocardiograma no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar Figura 1. Taquicardia sinusal (frequência cardíaca de 125 bpm). QRS desviado para direita (+110°). Padrão S1Q3T3 (ondas S em D1, ondas Q em D3 e ondas T negativas em D3). Distúrbio do ramo direito. Ondas T negativas de V1 a V4. CONCLUSÃO Este exemplo mostra que o eletrocardiograma é uma ferramenta essencial para o clínico no diagnóstico precoce da embolia pulmonar, e também um marcador de prognóstico. REFERÊNCIAS 1. Diretriz de embolia pulmonar. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2004;83(Suplemento I). Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/ consenso/2004/EmboliaPulmonar.pdf. Acessado em 2013 (9 ago). 2. Friedmann AA. ECG no Hospital Geral. In: Friedmann AA, editor. Eletrocardiograma em 7 aulas: temas avançados e outros métodos. São Paulo: Editora Manole; 2010. p. 95-120. 3. McGinn S, White PD. Acute cor pulmonale resulting from pulmonary embolism. Its clinical recognition. JAMA. 1935;104(17):1473-80. Disponível em: http://jama. jamanetwork.com/article.aspx?articleid=258937. Acessado em 2013 (9 ago). 4. Ferrari E, Imbert A, Chevalier T, et al. The ECG in pulmonary embolism. Prospective value of negative T waves in precordial leads--80 case reports. Chest. 1997;111(3):537-43. 5. Geibel A, Zehender M, Kasper W, et al. Prognostic value of the ECG on admission in patients with acute major pulmonary embolism. Eur Respir J. 2005;25(5):843-8. EDITOR RESPONSÁVEL POR ESTA SEÇÃO: Antonio Américo Friedmann. Livre-docente, diretor do Serviço de Eletrocardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Prédio dos Ambulatórios Serviço de Eletrocardiologia Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 155 São Paulo (SP) CEP 05403-000 Tel. (11) 2661-7146 Fax. (11) 2661-8239 E-mail: [email protected] Fontes de fomento: nenhuma declarada Conflito de interesse: nenhum declarado Data de entrada: 5 de agosto de 2013 Data da última modificação: 5 de agosto de 2013 Data de aceitação: 13 de agosto de 2013 Diagn Tratamento. 2013;18(4):155-6. Medicina baseada em evidências Ensaio clínico randomizado tipo stepped wedge: características, vantagens, desvantagens e aplicabilidade Carolina Gomes FreitasI, Maíra Tristão ParraII, Gustavo José Martiniano PorfírioII; Grupo de Avaliação Crítica da Literatura do Centro Cochrane do Brasil, da Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina e do Programa de Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo (Brazilian Evidence-based Critical Appraisal Group – BECA Group) Centro Cochrane do Brasil, Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina e Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo INTRODUÇÃO O ensaio clínico controlado randomizado (ECR) é o desenho de estudo experimental ideal para avaliação da efetividade de intervenções terapêuticas ou preventivas. Os ECRs são essenciais para a elaboração de recomendações e diretrizes clínicas terapêuticas ou preventivas baseadas em evidências. O desenho clássico do ECR é o paralelo, no qual os pacientes são alocados para o grupo experimental ou para o grupo controle, sendo que os participantes permanecem no seu respectivo grupo até o final do estudo. O ECR por cluster é uma variante do ECR clássico na qual um grupo de pacientes, em vez de cada participante individual, é alocado de forma aleatória para o grupo experimental ou controle;1 ou seja, neste tipo de ECR, a unidade de randomização é o centro, serviço ou hospital, e não o indivíduo. Já no ECR do tipo cruzado (crossover), o paciente funciona como seu próprio controle: em determinado momento do seguimento há um “cruzamento” entre os grupos experimental e controle, de forma que todos os indivíduos são submetidos à intervenção.2 O uso dessas variantes do ECR clássico pode ser mais adequado para se testar a efetividade/eficácia de uma intervenção terapêutica ou preventiva específica em determinadas condições clínicas ou tipos de participantes. Em 1986, os pesquisadores do The Gambia Hepatitis Intervention Study3 utilizaram pela primeira vez a denominação “stepped wedge” para descrever um delineamento de ECR cruzado (unidirecional) por cluster.4 Este trabalho ainda hoje continua em andamento devido ao lento desenvolvimento da doença, e tem como objetivo avaliar a eficácia da vacina concomitantemente com a efetividade do programa de vacinação em crianças para prevenção de câncer hepatocelular e outras doenças hepáticas crônicas causadas pelo vírus da hepatite B. Em 2011, Mdege e cols. fizeram uma revisão sistemática sobre o uso do ECR stepped wedge e identificaram um total de 25 artigos publicados com esse desenho de estudo desde 1986 até 2010, sendo que 50% deles haviam sido publicados após 2007, sugerindo assim, uma tendência de emprego crescente deste tipo de ECR.5 Considerando esse crescente uso, torna-se importante que pesquisadores, profissionais da saúde e tomadores de decisão conheçam as principais características, usos, vantagens e desvantagens deste novo desenho de estudo comparativo, prospectivo e experimental. OBJETIVO Apresentar as principais características, vantagens, desvantagens e usos do ECR tipo stepped wedge. MÉTODOS Foi realizada uma busca simples na base de dados Medline via PubMed utilizando a expressão “stepped wedge”. As referências identificadas foram avaliadas pelos autores e selecionadas para leitura na íntegra se descrevessem: característica(s); aplicabilidade/uso(s); vantagens; e/ou desvantagens dos ECR tipo stepped wedge. Os dados dos estudos incluídos foram extraídos em quatro categorias (características, aplicabilidade, vantagens e desvantagens) e discutidos junto com os membros do Grupo de Avaliação Crítica da Literatura do Centro Cochrane do Brasil e da Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina e do Programa de Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo (BECA Group). As avaliações finais foram reunidas dentro das quatro categorias mencionadas e são apresentadas a seguir de forma descritiva. Assistente de Pesquisa do Centro Cochrane do Brasil (CCB). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Assistentes de Pesquisa do Centro Cochrane do Brasil (CCB). Doutorandos do Programa de Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). I II Diagn Tratamento. 2013;18(4):157-60. Carolina Gomes Freitas | Maíra Tristão Parra | Gustavo José Martiniano Porfírio no entanto, que estas características são apenas adaptações de características já existentes nos ECR tipo cluster e crossover. O surgimento do ECR stepped wedge se mostra intimamente relacionado com o contexto logístico e de saúde pública onde estava inserido: a avaliação de um programa público de vacinação na redução da infecção de HBV em uma área endêmica e a concomitante avaliação da eficácia da vacina na prevenção de desfechos a longo prazo relacionados à hepatite B.3 Neste cenário, onde a restrição financeira exigia que este programa fosse implementado gradualmente, houve o interesse em se estudar a eficácia da vacina a longo prazo. Essas necessidades levaram os investigadores a modificarem o ECR tipo cluster programado e a adicionar novas unidades, que passaram a receber a intervenção ao longo do tempo, deixando de ser grupos controle e se tornando grupos intervenção. Esse desenho então passou a ter uma característica de crossover unidirecional e recebeu a nomeação de stepped wedge.3 Em relação às vantagens do desenho, a possibilidade de implementação da intervenção aos poucos se mostra como uma vantagem considerável, especialmente diante de um cenário de recursos financeiros limitados e da necessidade de treinamento de equipes em centros diferentes e/ou distantes. No Gambia Hepatitis Intervention Study, por exemplo, o alto custo da vacina foi um fator complicador para a implementação simultânea em todos os clusters.3 Entretanto, ainda que os gastos necessários para o início do estudo sejam menores, o tempo mais longo do estudo pode se refletir em um custo final maior do que aquele envolvido em um ECR clássico. Ganha relevância ainda a observação de que mesmo os grupos nos momentos de controle precisarão ser avaliados quanto aos desfechos do estudo a cada step, de forma que o custo relacionado com as medições e avaliações não é reduzido. Apesar de não haver consenso, sugere-se ainda que o tamanho da amostra no desenho stepped wedge pode ser reduzido em relação aos ECR cluster.7 O tempo de duração dos ECR stepped wedge pode ser mais longo.5 Este tempo está diretamente relacionado ao número de steps planejados e à quantidade de medições durante o seguimento, sendo esta uma desvantagem desse tipo de estudo, especialmente diante da possibilidade de perda de participantes durante o estudo. No entanto essas perdas também podem ocorrer em ECR clássicos longos. Um ponto controverso que pode ser tanto positivo6,16 quanto negativo5 é o aspecto ético do cruzamento unidirecional de todos os participantes para o grupo de intervenção. A garantia de recebimento da intervenção a todos os sujeitos é destacada como vantajosa, no entanto, ela só se torna válida em um cenário onde a intervenção do estudo for eficaz ou apresentar probabilidade real de o ser. O stepped wedge mostrou-se útil especialmente para avaliar o sucesso da implementação de programas de saúde pública. Essa observação é importante diante da constatação de que, nessa área de pesquisa, predomina a utilização de estudos transversais ou pré e pós-intervenção, desenhos considerados menos Diagn Tratamento. 2013;18(4):157-60. robustos e que tendem a superestimar o efeito das intervenções.4 Porém, uma vez que todos os participantes de um ECR stepped wedge receberão a intervenção em algum momento do estudo, esse desenho não seria recomendado para intervenções cuja eficácia ainda não é conhecida. Nesse cenário, o recomendado seria realizar primeiramente um ECR paralelo e, caso a intervenção demonstrasse ser benéfica, oferecê-la também ao grupo controle ao final da pesquisa. CONCLUSÃO O stepped wedge é um desenho de ECR crossover unidirecional no qual todos os participantes recebem a intervenção em algum momento do estudo. A randomização é empregada para se determinar em que momento cada unidade (indivíduo ou cluster) irá receber a intervenção. Esse tipo de desenho de estudo é útil especialmente para avaliar a efetividade de implementação de intervenções ou de programas de saúde pública comprovadamente benéficos. Nesse contexto, o ECR stepped wedge é superior aos estudos observacionais e não randomizados habitualmente utilizados e permite contornar obstáculos logísticos ou financeiros. Contudo, em relação à avaliação da eficácia de intervenções, o stepped wedge parece não trazer vantagens frente aos desenhos convencionais. Sendo esse tipo de desenho de estudo ainda relativamente novo, existem controvérsias quanto aos seus pontos fortes e limitações. São necessários mais estudos, experiências e avaliações críticas metodológicas para melhor esclarecer esses aspectos. REFERÊNCIAS 1. Hahn S, Puffer S, Torgerson DJ, Watson J. Methodological bias in cluster randomised trials. BMC Med Res Methodol. 2005;5:10. 2. Mills EJ, Chan AW, Wu P, et al. Design, analysis, and presentation of crossover trials. Trials. 2009;10:27. 3. The Gambia Hepatitis Intervention Study. The Gambia Hepatitis Study Group. Cancer Res. 1987;47(21):5782-7. 4. Mdege ND, Man MS, Taylor Nee Brown CA, Torgerson DJ. Systematic review of stepped wedge cluster randomized trials shows that design is particularly used to evaluate interventions during routine implementation. J Clin Epidemiol. 2011;64(9):936-48. 5. Kotz D, Spigt M, Arts IC, Crutzen R, Viechtbauer W. Use of the stepped wedge design cannot be recommended: a critical appraisal and comparison with the classic cluster randomized controlled trial design. J Clin Epidemiol. 2012;65(12):1249-52. 6. Hussey MA, Hughes JP. Design and analysis of stepped wedge cluster randomized trials. Contemp Clin Trials. 2007;28(2):182-91. 7. Woertman W, de Hoop E, Moerbeek M, et al. Stepped wedge designs could reduce the required sample size in cluster randomized trials. J Clin Epidemiol. 2013;66(7):752-8. 8. Levy RW, Rayner CR, Fairley CK, et al. Multidisciplinary HIV adherence intervention: a randomized study. AIDS Patient Care STDS. 2004;18(12):728-35. 9. Grant AD, Charalambous S, Fielding KL, et al. Effect of routine isoniazid preventive therapy on tuberculosis incidence among HIV-infected men in South Africa: a novel randomized incremental recruitment study. JAMA. 2005;293(22):2719-25. 10. Wilmink TB, Quick CR, Hubbard CS, Day NE. The influence of screening on the incidence of ruptured abdominal aortic aneurysms. J Vasc Surg. 1999;30(2):203-8. 159 160 Ensaio clínico randomizado tipo stepped wedge: características, vantagens, desvantagens e aplicabilidade 11. Somerville M, Basham M, Foy C, et al. From local concern to randomized trial: the Watcombe Housing Project. Health Expect. 2002;5(2):127-35. 12. Fairley CK, Levy R, Rayner CR, et al. Randomized trial of an adherence programme for clients with HIV. Int J STD AIDS. 2003;14(12):805-9. 13. Hughes J, Goldenberg RL, Wilfert CM, et al. Design of the HIV prevention trials network (HPTN) protocol 054: A cluster randomized crossover trial to evaluate combined access to Nevirapine in developing countries. UW Biostatistics Working Paper Series. 2003;195. Disponível em: http:// biostats.bepress.com/uwbiostat/paper195/. Acessado em 2013 (19 ago). 14. Priestley G, Watson W, Rashidian A, et al. Introducing Critical Care Outreach: a ward-randomised trial of phased introduction in a general hospital. Intensive Care Med. 2004;30(7):1398-404. 15. Ciliberto MA, Sandige H, Ndekha MJ, et al. Comparison of home-based therapy with ready-to-use therapeutic food with standard therapy in the treatment of malnourished Malawian children: a controlled, clinical effectiveness trial. Am J Clin Nutr. 2005;81(4):864-70. 16. Brown CA, Lilford RJ. The stepped wedge trial design: a systematic review. BMC Med Res Methodol. 2006;6:54. Agradecimentos: aos membros do Grupo de Avaliação Crítica da Literatura do Centro Cochrane do Brasil, da Disciplina de Medicina de Urgência e Saúde Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina e do Programa de Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica da Universidade Federal de São Paulo (Brazilian Evidence-based Critical Appraisal Group – BECA Group): Rachel Riera, Maria Regina Torloni, André Telis, Caroline Sousa Costa, Cybele Moreira, Arnaldo Alves da Silva, Sandra Zimpel, Márcia Andreya Zanon, Maria do Desterro, Alexsandra de Sousa Pedrosa, Edna Morais, Beatriz Fioretti. EDITOR RESPONSÁVEL POR ESTA SEÇÃO Álvaro Nagib Atallah. Professor titular e chefe da Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo — Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Diretor do Centro Cochrane do Brasil e Diretor Adjunto da Associação Paulista de Medicina (APM). INFORMAÇÕES Endereço para correspondência: Maíra Tristão Parra Rua Borges Lagoa, 564 — cj 63 — Ed. Espaço São Paulo Vila Clementino — São Paulo (SP) CEP 04038-000 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] Fonte de fomento: Bolsistas Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) – Brasil (matrículas 7288435, 7288331 e 79124, respectivamente CGF, MTP GJMP) Conflito de interesse: nenhum Data de entrada: 5 de agosto de 2013 Data da última modificação: 5 de agosto de 2013 Data de aceitação: 23 de agosto de 2013 PALAVRAS-CHAVE: Ensaio clínico controlado aleatório. Revisão. Metodologia. Epidemiologia. Características de estudos epidemiológicos como assunto. RESUMO Introdução: O stepped wedge design é um tipo de ensaio clínico randomizado por cluster que vem sendo usado recentemente como opção para estudos de avaliação de efetividade/eficácia. Por ser relativamente novo e pouco conhecido em nosso meio, apresentamos as principais características desse tipo de estudo e discutimos sua aplicabilidade, vantagens e desvantagens. Tipo de estudo e local: Estudo descritivo na Universidade Federal de São Paulo. Métodos: Foi realizada revisão da literatura no Medline via Pubmed com busca do termo “stepped wedge”. Os estudos identificados foram selecionados quando descreviam informações relacionadas ao desenho classificadas nas categorias: características, vantagens, desvantagens e aplicabilidade. Resultados: Com base nas informações obtidas nos estudos identificados, apresentamos e discutimos as principais características, aplicabilidade, vantagens e desvantagens do desenho stepped wedge. Conclusão: O desenho stepped wedge é um ensaio clínico melhor direcionado para a avaliação da implementação de intervenções de saúde pública. Também pode ser útil para determinar qual o melhor momento para iniciar uma intervenção ao longo da evolução da doença e qual a duração mais adequada da intervenção. Sua principal vantagem está relacionada a aspectos logísticos e menor tamanho de amostra, e sua principal desvantagem parece estar relacionada ao maior tempo de seguimento. Diagn Tratamento. 2013;18(4):157-60. Medicina sexual Importância do apoio psicoterapêutico para disfunção sexual no envelhecimento Heloisa Junqueira FleuryI, Carmita Helena Najjar AbdoII Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo INTRODUÇÃO A disfunção sexual é altamente prevalente nas populações madura e idosa. Por outro lado, índices de saúde física e psicológica estão associados especialmente com a atividade sexual penetrativa, apontando os benefícios em se manter sexualmente ativo na etapa avançada da vida.1 Estudo brasileiro com 1.286 homens acima de 18 anos identificou que a disfunção erétil é a queixa sexual mais frequente no envelhecimento.2 Atinge 46,2% dos homens (mínima 31,5%, moderada 12,1%, completa 2,6%). A prevalência de disfunção erétil completa aumenta de 1% para 11% dos 40 aos 70 anos.2 As disfunções sexuais mais comuns no homem mais velho são a falta de desejo sexual e dificuldade de ereção. Decorrem de doenças sistêmicas, de doenças neurológicas e vasculares (no caso da disfunção erétil) e de hipogonadismo ou depressão (no caso do baixo desejo).3 Estudo com 1.219 mulheres com mais de 18 anos identificou pelo menos uma disfunção sexual em 49% delas. Falta de desejo sexual foi relatada por 26,7%; dor durante a relação sexual por 23,1% e disfunção orgásmica por 21%.4 Os principais fatores desencadeantes são as doenças que ocorrem com o aumento da idade, a menopausa, a variação hormonal, os fatores relacionais e as alterações do humor.5 Com o envelhecimento, questões relacionais, bem-estar e a saúde tornam-se gradualmente mais relevantes.6,7 A atividade sexual é um aspecto importante da qualidade de vida. Apesar do aumento progressivo da disfunção erétil e da diminuição da atividade sexual, 1.202 homens entre 58 e 94 anos mantiveram comportamento sexual ativo, acompanhado de atitude positiva em relação à própria sexualidade. As condições de saúde e a responsividade sexual da parceira parecem compensar os prejuízos decorrentes da idade.8 A função sexual humana é multidimensional. Numa dimensão psicológica, envolve boa autoestima, confiança e respeito pela parceria.9 Na social, tabus, conhecimento e atitudes relativos à sexualidade, religiosidade e valores, enquanto, na dimensão relacional, a disponibilidade da parceria e a qualidade do relacionamento são mais importantes.10 Por essa complexidade de fatores de risco, homens e mulheres idosos necessitam de apoio multidisciplinar, inclusive atenção psicológica para preservar a satisfação sexual. PARCERIA SEXUAL NO ENVELHECIMENTO A saúde sexual no envelhecimento depende da integridade dos vasos sanguíneos e dos nervos localizados na genitália e em outras áreas erógenas, anatomia preservada, equilíbrio hormonal e presença de pensamentos e sentimentos sexuais.11 Pode ser afetada pela interação de morbidades físicas e psicológicas, bem como por medicamentos para doenças crônicas, disfunções sexuais do parceiro, diferenças no desenvolvimento emocional e nos modelos de relacionamento sexual, principalmente quando seguem padrões interacionais e sexuais rígidos.12 Dependendo da idade e do sexo, há variações. Numa população de homens e mulheres entre 57 e 85 anos de idade, os homens, mais frequentemente do que as mulheres, mantêm parceria e vida sexual ativa, além de terem atitudes relativas à sexualidade mais positivas e permissivas.13 A diferença na proporção de viuvez (mais viúvas que viúvos) torna a ausência de parceiro um fator significativo no declínio da frequência sexual das mulheres, da mesma maneira que a menor associação entre bem-estar e frequência sexual. Para os homens, o comprometimento da saúde física com o avanço da idade, assim como a diminuição da frequência são fatores significativos no declínio da atividade sexual.14 O relacionamento sexual garante apoio emocional e social. Entre pessoas mais velhas, o parceiro sexual torna-se muitas vezes a maior, ou até mesmo a única, fonte de experiências prazerosas.15 Psicóloga, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Psiquiatra, livre-docente e professora associada do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. 1 2 Diagn Tratamento. 2013;18(4):161-3. 162 Importância do apoio psicoterapêutico para disfunção sexual no envelhecimento APOIO PSICOTERÁPICO No envelhecimento, recuperar integralmente a vida sexual nem sempre é possível, tornando imprescindível uma revisão de expectativas, que prioriza a adaptação às circunstâncias atuais. Nessa perspectiva, os objetivos para a recuperação envolvem: maximizar as capacidades fisiológicas preservadas, adaptar-se às limitações próprias do envelhecimento e eventuais comorbidades, assim como manter-se otimista, numa atitude positiva.11 Problemas sexuais podem afetar tanto o paciente quanto a parceria, sendo muito variável o grau de desconforto. Para alguns, pode ser um simples constrangimento ou uma frustração, enquanto para outros a autoimagem, o relacionamento e até mesmo o desempenho profissional e social se comprometem.11 Como os aspectos psicológicos e relacionais são preponderantes no desencadeamento das disfunções sexuais, a terapêutica deve atuar nas dimensões psicossociais da mulher, do homem e do casal.16 O conceito de “reabilitação sexual” torna-se mais apropriado do que “tratamento sexual”, quando morbidades físicas e psicológicas crônicas interferem na função sexual, condição bastante comum no envelhecimento.17 O estudo National Social Life, Health, and Aging Project (NSHAP) identificou, em homens e mulheres norte-americanos entre 57 e 85 anos, que o envelhecimento não necessariamente compromete a função sexual, o que decorre geralmente de diferentes estressores que afetam essa população, desde o comprometimento da saúde física (que afeta mais as mulheres do que os homens) até a qualidade do relacionamento do casal.18 Desta feita, o diagnóstico e o tratamento do câncer, por exemplo, causam enorme impacto na função sexual feminina, na qualidade do relacionamento com o parceiro e até mesmo na autoimagem. A função sexual pode ser afetada pela própria doença, mas também por dor, ansiedade, raiva, circunstâncias estressantes e medicamentos.19 Na população masculina, o diagnóstico de câncer de próstata pode ser um fator desencadeante de disfunção sexual. Os tratamentos (prostatectomia, radioterapia, braquiterapia, terapia de privação androgênica) também repercutem na função sexual.20 Habilidades psicológicas, relacionais e psicossexuais, assim como expectativas realistas, tornam-se mais importantes para os homens após os 40 anos. O desejo sexual vai depender muito de uma antecipação positiva, na medida em que gradualmente a função sexual passa de mais automatizada para mais íntima e interativa. O desejo sexual (antes imprevisível, mas passível de ser controlado), passa a ser vivido como uma experiência de conforto, receptividade e/ou responsividade.3 A psicoterapia e as intervenções psicoeducativas desempenham papel importante nesses casos e têm apresentado bons resultados, atuando sobre excitação, orgasmo, satisfação, bem-estar geral e melhora da depressão.19 Intervenções focadas em habilidades comunicacionais, exercícios de sensibilização corporal são também alternativas de tratamento para casais que não conseguem ter atividade sexual penetrativa, mas querem manter a intimidade sexual.20 CONSIDERAÇÕES FINAIS A atenção crescente à qualidade de vida do adulto mais velho tem proporcionado conhecimento cada vez mais aprofundado dos fatores de risco para a interrupção da atividade sexual. A identificação do impacto do estresse e dos fatores relacionais no desencadeamento das dificuldades sexuais nessa população aponta para a necessidade de atendimento multidisciplinar, inclusive de apoio psicoterápico. O maior desafio para o futuro será a capacitação do profissional de saúde para abordar confortavelmente o tema da sexualidade, o diagnóstico e o tratamento dos problemas sexuais da população idosa, garantindo, dessa forma, melhores condições para o enfrentamento das alterações sexuais no envelhecimento e de suas causas. REFERÊNCIAS 1. Brody S. The relative health benefits of different sexual activities. J Sex Med. 2010;7(4 Pt 1):1336-61. 2. Moreira ED Jr, Abdo CH, Torres EB, Lôbo CF, Fittipaldi JA. Prevalence and correlates of erectile dysfunction: results of the Brazilian study of sexual behavior. Urology. 2001;58(4):583-8. 3. Wylie K, Kenney G. Sexual dysfunction and the ageing male. Maturitas. 2010;65(1):23-7. 4. Abdo CH, Oliveira WM Jr, Moreira ED Jr, Fittipaldi JA. Prevalence of sexual dysfunctions and correlated conditions in a sample of Brazilian women-results of the Brazilian study on sexual behavior (BSSB). Int J Impot Res. 2004;16(2):160-6. 5. Dennerstein L, Koochaki P, Barton I, Graziottin A. Hypoactive sexual desire disorder in menopausal women: a survey of Western European women. J Sex Med. 2006;3(2):212-22. 6. Dennerstein L, Alexander JL, Kotz K. The menopause and sexual functioning: a review of the population-based studies. Annu Rev Sex Res. 2003;14:64-82. 7. Hartmann U, Philippsohn S, Heiser K, Rüffer-Hesse C. Low sexual desire in midlife and older women: personality factors, psychosocial development, present sexuality. Menopause. 2004;11(6 Pt 2):726-40. 8. Bortz WM 2nd, Wallace DH, Wiley D. Sexual function in 1,202 aging males: differentiating aspects. J Gerontol A Biol Sci Med Sci. 1999;54(5):M237-41. 9. Kingsberg SA. The impact of aging on sexual function in women and their partners. Arch Sex Behav. 2002;31(5):431-7. 10. DeLamater JD, Sill M. Sexual desire in later life. J Sex Res. 2005;42(2):138-49. 11. Stevenson RWD, Elliott SL. Sexuality and illness. In: Leiblum SR, editors. 4th ed. Principles and practice of sex therapy. Nova York: Guilford Press; 2007. p. 313-49. 12. Bitzer J, Platano G, Tschudin S, Alder J. Sexual counseling in elderly couples. J Sex Med. 2008;5(9):2027-43. 13. Waite LJ, Laumann EO, Das A, Schumm LP. Sexuality: measures of partnerships, practices, attitudes, and problems in the National Social Life, Health, and Aging Study. J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2009;64 Suppl 1:i56-66. 14. Karraker A, Delamater J, Schwartz CR. Sexual frequency decline from midlife to later life. J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2011;66(4):502-12. Diagn Tratamento. 2013;18(4):161-3. Heloisa Junqueira Fleury | Carmita Helena Najjar Abdo 15. DeLamater J. Sexual expression in later life: a review and synthesis. J Sex Res. 2012;49(2-3):125-41. 16. McCabe M, Althof SE, Assalian P, et al. 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(11) 3256-9928 E-mail: [email protected] Fonte de fomento: nenhuma Conflito de interesse: nenhum Data de entrada: 4 de agosto de 2013 Data da última modificação: 4 de agosto de 2013 Data de aceitação: 5 de setembro de 2013 EDITOR RESPONSÁVEL POR ESTA SEÇÃO: Carmita Helena Najjar Abdo. Psiquiatra, livre-docente e professora associada do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. PALAVRAS-CHAVE: Sexualidade. Disfunções sexuais. Psicoterapia. Envelhecimento. Qualidade de vida. RESUMO A função sexual humana é multidimensional. Numa dimensão psicológica, envolve autoestima, confiança e respeito pela parceria. Na social, tabus, conhecimento e atitudes relativos à sexualidade, religiosidade e valores. Na dimensão relacional, a disponibilidade da parceria e a qualidade do relacionamento são mais importantes. Por essa complexidade de fatores de risco, homens e mulheres idosos necessitam de apoio multidisciplinar, inclusive atenção psicológica para preservar a satisfação sexual. Como os aspectos psicológicos e relacionais são preponderantes no desencadeamento das disfunções sexuais, a terapêutica deve atuar nas dimensões psicossociais da mulher, do homem e do casal. O conceito de “reabilitação sexual” torna-se mais apropriado do que “tratamento sexual”, quando morbidades físicas e psicológicas crônicas interferem na função sexual, condição bastante comum no envelhecimento. A psicoterapia e as intervenções psicoeducativas desempenham papel importante nesses casos e têm apresentado bons resultados. Intervenções focadas em habilidades comunicacionais e exercícios de sensibilização corporal são também alternativas de tratamento. O maior desafio para o futuro será a capacitação do profissional de saúde para abordar confortavelmente os temas sexualidade e envelhecimento. Diagn Tratamento. 2013;18(4):161-3. 163 Destaques Cochrane Uso de medicamento profilático para convulsões febris em crianças Tradução: Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) Autor dos comentários independentes: Livia Cunha ElkisI RESUMO Introdução: Convulsões febris em crianças com mais de um mês, durante um episódio de febre, ocorrem em 2% a 4% dos indivíduos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, e são recorrentes em 30% dos casos. Antiepilépticos de ação rápida e antipiréticos dados durante episódios febris subsequentes têm sido usados para evitar os efeitos adversos do uso contínuo de antiepilépticos. Objetivo: Avaliar a eficácia e a segurança dos antiepilépticos e antitérmicos usados profilaticamente para tratar crianças com convulsões febris. Métodos: Métodos de busca: Foi realizada busca nas bases Central (The Cochrane Library 2011, Edição 3), Medline (1966 a maio de 2011), Embase (1966 a maio de 2011), Banco de Dados de Resumos de Revisões de Efetividade (DARE) em maio de 2011. Não houve restrições quanto ao idioma de publicação. Também foram contatados pesquisadores da área para identificar os estudos em andamento ou não publicados. Critérios de seleção: Ensaios clínicos randomizados ou quasi-randomizados, comparando o uso de agentes antiepilépticos ou antipirético uns com os outros, com placebo ou com nenhum tratamento. Coleta e análise de dados: Dois revisores aplicaram, de forma independente, critérios pré-definidos para selecionar estudos para inclusão e extraíram os dados relevantes pré-definidos, registrando os métodos de randomização, mascaramento e exclusões. Os desfechos avaliados foram: (a) recorrência de crises em 6, 12, 18, 24, 36 meses e aos cinco a seis anos, e (b) eventos adversos dos medicamentos. A presença de viés de publicação foi avaliada usando o gráfico de funil. Principais resultados: Trinta e seis artigos que descrevem 26 estudos randomizados com 2.740 participantes foram incluídos. Treze intervenções de profilaxia contínua ou intermitente e seus tratamentos de controle foram analisados. A qualidade metodológica variou de moderada a baixa na maioria dos estudos. Não foi possível fazer metanálise de 8 das 13 comparações, devido ao número insuficiente de estudos. Não foi encontrado nenhum benefício significativo para o valproato, piridoxina, fenobarbital intermitente ou ibuprofeno quando comparados com placebo ou nenhum tratamento; assim como para o diclofenaco versus placebo seguido de ibuprofeno, acetaminofeno ou placebo, para o diazepam intermitente retal versus valproato intermitente, ou para o fenobarbital versus diazepam retal intermitente. Conclusões dos autores: Não foram encontrados benefícios clinicamente importantes para crianças com convulsões febris com o uso de diazepam oral intermitente, fenitoína, fenobarbital, diazepam retal intermitente, valproato, piridoxina, fenobarbital intermitente ou ibuprofeno intermitente, nem para o diclofenaco versus placebo seguido de ibuprofeno, acetaminofeno ou placebo. Os efeitos adversos foram relatados em até 30% das crianças. Um benefício aparente para o tratamento com clobazam em um ensaio clínico recente precisa ser replicado para ser julgado confiável. Considerando a natureza benigna das convulsões febris recorrentes e a elevada prevalência de efeitos adversos relacionados a essas medicações, os pais e familiares devem ter informações adequadas de contato de serviços médicos e informações sobre a recorrência, primeiros socorros e, mais importante, sobre a natureza benigna do fenômeno. REFERÊNCIA 1. Offringa M, Newton R. Prophylactic drug management for febrile seizures in children. Cochrane Database Syst Rev. 2012;4:CD003031. INFORMAÇÕES Este é um resumo de uma Revisão Cochrane publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR) 2013, edição 4, art. No. CD003031. DOI: 10.1002/14651858.CD003031.pub4. (http://onlinelibrary.wiley.com/ doi/10.1002/14651858.CD003031.pub2/abstract). Para citação completa e detalhes dos autores veja referência 1. Neurologista, doutora em Neurologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professora de Neuropediatria na Disciplina de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa). I Diagn Tratamento. 2013;18(4):164-5. Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) | Livia Cunha Elkis Tradução e adaptação: Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) Rua Pedro de Toledo, 598 Vila Clementino — São Paulo (SP) CEP 04039-001 Tel. (11) 5579-0469/5575-2970 E-mail: [email protected] http://www.centrocochranedobrasil.org.br/ O texto completo está disponível gratuitamente para toda a América Latina e Caribe em: http://cochrane.bireme.br/ cochrane/main.php?lang=pt&lib=COC. (Este link pode ser temporário). COMENTÁRIOS Dos 79 artigos analisados, apenas 36 preencheram os critérios de inclusão para a presente revisão sistemática. A partir desses 36 artigos, 26 estudos originais foram selecionados e 2.740 crianças foram incluídas. Os medicamentos utilizados nessas pesquisas foram antiepilépticos (fenitoína, fenobarbital, valproato, diazepam e clobazam), antitérmicos (diclofenaco, paracetamol e ibuprofeno) e piridoxina. O tratamento comparou uma droga versus outro medicamento, ou versus um grupo sem tratamento ou com grupo placebo. De forma geral, os estudos que envolveram grupo controle sem tratamento foram mais frequentes do que aqueles com placebo. Os resultados foram avaliados por meio de: a) Eficácia sobre crises febris ou não febris, em determinados momentos (recorrência em 6, 12, 24, 48, 60 e 73 meses, respectivamente); e b) Segurança (efetividade) frente aos efeitos secundários das drogas. Os seguintes tratamentos foram mais eficazes para reduzir a convulsão: diazepam via oral intermitente; fenobarbital contínuo e diazepam via retal intermitente. No entanto, a magnitude do efeito foi pequena, e os benefícios não parecem ser estáveis ao longo do tempo. Tais conclusões devem ser tomadas com cautela, pois, com exceção da metanálise do fenobarbital contínuo, a maioria das demais foi baseada em poucos estudos (por exemplo, diazepam via oral intermitente versus placebo teve apenas um estudo aos seis meses). Dada a natureza benigna do fenômeno de crises febris no longo prazo e a taxa relativamente elevada de efeitos adversos (até 30%), é difícil justificar mais pesquisas como essas aqui avaliadas, a não ser aumentando a qualidade da randomização e o uso de placebo como controle. A principal conclusão é que o tratamento da recidiva das convulsões febris ainda é realizado de forma empírica em todo o mundo, e estudos mais elaborados são necessários para se estabelecerem diretrizes baseadas em evidências para crianças com convulsões febris. Diagn Tratamento. 2013;18(4):164-5. 165 Destaques Cochrane Flebotônicos para hemorroida Tradução: Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) Autor dos comentários independentes: Sarhan Sydney SaadI RESUMO Introdução: As hemorroidas são dilatações de varizes do plexo venoso anal e perianal e frequentemente são secundárias à pressão venosa persistentemente elevada dentro do plexo hemorroidário. Os flebotônicos são uma classe heterogênea de medicamentos contendo extratos de plantas (por exemplo, flavonoides) e compostos sintéticos (por exemplo, dobesilato de cálcio). Embora seu mecanismo de ação exato ainda não tenha sido completamente estabelecido, eles parecem melhorar o tônus venoso, estabilizar a permeabilidade capilar e aumentar a drenagem linfática. Os flebotônicos têm sido utilizados para tratar uma variedade de condições, incluindo a insuficiência venosa crônica, linfedema e hemorroidas. Objetivo: Avaliar a eficácia dos flebotônicos em aliviar os sinais, sintomas e melhorar a gravidade da doença hemorroidária e verificar seu efeito pós-hemorroidectomia. Métodos: Métodos de busca: Foi realizada busca nas bases Central (The Cochrane Library 2011, Edição 9), Medline (1950 a setembro de 2011) e Embase (1974 a setembro de 2011). Critérios de seleção: Foram incluídos apenas ensaios clínicos randomizados avaliando o uso de flebotônicos no tratamento da doença hemorroidária. Estudos quasi-randomizados, crossover ou cluster foram excluídos. Coleta e análise de dados: Dois autores extraíram independentemente os dados e analisaram a elegibilidade dos dados para inclusão. Discordâncias foram resolvidas por discussão. Principais resultados: Foram considerados 24 estudos para a inclusão na análise final. Vinte destes estudos (incluindo um total de 2.344 participantes) avaliaram o uso de flebotônicos versus uma intervenção de controle. Um desses vinte estudos avaliou o uso de flebotônicos com uma intervenção clínica e um outro estudo com ligadura elástica. Conclusões dos autores: As evidências sugerem que há uma vantagem potencial na utilização da flebotônicos no tratamento da doença hemorroidária, bem como benefício no alívio dos sintomas pós-hemorroidectomia. Desfechos como hemorragia e melhora global dos sintomas mostraram um efeito benéfico estatisticamente significativo e houve poucas preocupações em relação à sua segurança global. REFERENCE 1. Perera N, Liolitsa D, Iype S, et al. Phlebotonics for haemorrhoids. Cochrane Database Syst Rev. 2012;8:CD004322. INFORMAÇÕES Este é o resumo de uma Revisão Cochrane publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR) 2013, edição 5, art. No. CD004322. DOI: 10.1002/14651858.CD004322.pub8 (http://onlinelibrary.wiley.com/ doi/10.1002/14651858.CD004322.pub3/abstract). Para citação completa e detalhes dos autores, veja referência 1. Tradução e adaptação: Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) Rua Pedro de Toledo, 598 Vila Clementino — São Paulo (SP) CEP 04039-001 Tel. (11) 5579-0469/5575-2970 E-mail: [email protected] http://www.centrocochranedobrasil.org.br/ O texto completo está disponível gratuitamente para toda a América Latina e Caribe em: http://cochrane.bvsalud.org/ cochrane/main.php?lib=COC&searchExp=Phlebotonics%20 and%20for%20and%20haemorrhoids&lang=pt. (este link pode ser temporário). COMENTÁRIOS A doença hemorroidária é responsável pela procura de atendimento médico gastroenterológico com elevada frequência, em decorrência de uma gama variável de sintomas e sinais. I Professor associado livre-docente da Disciplina de Gastroenterologia Cirúrgica da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Chefe do Grupo de Coloproctologia da Disciplina de Gastroenterologia da Escola Paulista de Medicina. Diagn Tratamento. 2013;18(4):166-7. Centro Cochrane do Brasil e Liga de Medicina Baseada em Evidências da Escola Paulista de Medicina — Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) | Sarhan Sydney Saad Muitas vezes opta-se pelo tratamento clínico medicamentoso desta doença, representado principalmente pelo uso de complemento de fibras na dieta e medicação local. O uso de flebotônicos sempre foi motivo de discussão, pois as evidências presentes na literatura não indicavam seu uso como rotina. Sua ação parece se basear no aumento da força e do tônus da parede do vaso, melhorando a drenagem linfática e normalizando a permeabilidade capilar. Nesta revisão sistemática, os autores tiveram como objetivo observar o efeito dessas substâncias no alívio dos sintomas hemorroidários, assim como seu efeito no período pós-operatório de hemorroidectomia. Foram selecionados 24 trabalhos prospectivos e randomizados, em que se avaliou o uso de flebotônicos na doença hemorroidária, com rigoroso critério de seleção, comparando o uso deles com intervenções controle e até mesmo com ligadura elástica. Os resultados demonstraram que o uso desta substância é seguro, com baixo índice de efeitos colaterais, proporcionando melhora da sintomatologia no que tange a sangramento, dor pós-operatória e outros sintomas, como prurido, sendo estes resultados embasados em números estatisticamente significantes. Desta forma, esta revisão sistemática obteve a evidência necessária para o uso dos flebotônicos no tratamento clínico medicamentoso da doença hemorroidária. Diagn Tratamento. 2013;18(4):166-7. 167 Resumos do IX Congresso Paulista de Neurologia Realizado de 27 a 29 de junho de 2013 II Encontro das Ligas de Neurologia de São Paulo: Desafios, Perspectivas e Novos Rumos. Desafios em Neurologia: Casos Clínicos. 169 Projetos da Liga Neurociências UNICAMP: Anamnese em Neurologia, Plantões na Neurocirurgia para ligantes e Extensão Guilherme Wertheimer, Thais Hayata, Rafael Yabiku, André Miyoshi, Li Li Min Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Os projetos atuais da Liga de Neurociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) são a Anamnese em Neurologia e os Plantões na Neurocirurgia. Os novos projetos aumentaram a adesão de novos membros, especialmente do primeiro e segundo anos da Medicina, como também a satisfação geral dos ligantes em relação à Liga. Os projetos vão ao encontro da vontade dos alunos de serem introduzidos em atividades a que teriam acesso mais tardiamente no currículo da Medicina, e a novidade de atividades práticas motivou a participação na aulas teóricas semanais da Liga. Na atividade da Anamnese, os ligantes são levados em duplas, mensalmente, pelos coordenadores da Liga, à Enfermaria de Neurologia do Hospital de Clínicas da Unicamp. Durante a atividade, os ligantes iniciam observando os coordenadores executando uma anamnese com foco em neurologia nos pacientes, e depois, quando se julgam aptos e com o auxílio do coordenador, praticam a entrevista com os pacientes. Posteriormente à entrevista são verificados os prontuários dos pacientes entrevistados, a fim de melhor entender o caso e reforçar o aprendizado dos ligantes referente à anamnese. No futuro, planejamos incorporar exames básicos físicos, como verificação de reflexos, e instruir os ligantes a executarem relatórios sobre o caso clínico observado. Nos plantões na Neurocirurgia, os ligantes comparecem uma vez ao mês ao Centro Cirúrgico do Hospital de Clínicas da Unicamp em duplas e acompanham um plantão de 12 h (18 h-6 h) com residentes do segundo ano da Neurocirurgia. Durante as atividades, além de vivenciarem um plantão médico na especialidade, apresentam a possibilidade de aprender a rotina médica. Os ligantes apresentam grande interesse nesta atividade, sendo que, para entrar na escala de plantões, devem ter presença nas atividades teóricas semanais. Referente à Extensão, a Liga apresenta projetos como a mobilização de conscientização no Dia da Epilepsia e Acidente Vascular Cerebral (AVC), com entrega de material didático de esclarecimento nas imediações do Hospital de Clínicas da Unicamp; envolvimento no Rock AVC, evento beneficente, com presença de bandas alternativas para trazer atenção sobre os problemas em torno das mortes por AVC; e envolvimento com o Workshop do Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL), em que vestibulandos entram em contato com tópicos do curso médico da Unicamp, a fim de melhor conhecer a profissão e a Instituição da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e ter ajuda na escolha do curso no vestibular. Os novos projetos elevaram as adesões durante a gestão atual e, com o desenvolvimento destes e o surgimento de novas atividades, esperamos o fortalecimento da Liga de Neurociências no futuro. No ano de 2012, o Departamento de Moléstias Infecciosas passou a colaborar ativamente com a Liga por meio de discussões de casos clínicos relevantes sobre a temática de neuroinfectologia. Objetivos: A Liga de Neurologia Clínica da FMUSP (LNCl) tem como objetivo propiciar a acadêmicos pertencentes do segundo ao quarto ano da graduação da Faculdade de Medicina uma oportunidade de aproximação com o conteúdo teórico, experiência científica, vivência prática e profissional da Neurologia. Nesse sentido, ela surge como uma proposta para ampliar o contato do aluno de Medicina da Faculdade com a Neurologia Clínica, dado que essa área tem espaço restrito dentro do currículo formal da graduação. Portanto, a Liga não só busca versar sobre os temas prioritariamente pertinentes ao especialista do campo, mas também fornecer e reforçar ao aluno os conhecimentos neurológicos essenciais para a formação do médico generalista. Secundariamente, estudantes de outras áreas da saúde e de medicina de outras faculdades estão convidados a participar das aulas teóricas, após a devida seleção. No último ano, a Liga passou a investir na integração não somente entre o ciclo clínico e o ciclo básico, por meio da interface com a Anatomia Topográfica, mas também entre especialidades médicas, infectologia e neurocirurgia. Propostas: As propostas da Liga para aproximar o aluno da prática neurológica consistem de atividades práticas e teóricas. Nossas atividades práticas baseiam-se em quatro pilares. Primeiro, realizamos aulas práticas na Enfermaria de Neurologia do Instituto Central do HC (ICHC), sendo que, a cada duas semanas, um tema da propedêutica neurológica é abordado, como, por exemplo, o exame da motricidade, da sensibilidade, da coordenação, da motricidade ocular extrínseca, dos nervos bulbares, do cognitivo, do neurológico do coma, de neuroimagem. Segundo, realizamos discussões de casos clínicos na Enfermaria das Moléstias Infecciosas mensalmente, abordando tópicos de neuroinfectologia. Terceiro, anualmente, participamos do mutirão do AVC promovido pela Liga de Neurologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa. Quarto, iniciaremos, no segundo semestre de 2013, o acompanhamento da prática de um neurofisiologista no âmbito do centro cirúrgico. A parte teórica da Liga baseia-se em aulas mensais referentes a temas centrais da clínica neurológica, tais como comas, cefaleia, demências e síndromes vestibulares, e áreas básicas, como anatomia de pares cranianos, macroestrutura e irrigação encefálica. Almejamos, nos próximos anos, incentivar a pesquisa científica na área através de busca ativa de projetos com vagas disponíveis de iniciação científica e de alunos interessados participantes da Liga. Além disso, estamos organizando, junto à doutora Adriana Conforto, um mutirão de triagem para AVC no Ambulatório do HC-FMUSP, no qual os próprios alunos da Liga atenderiam os pacientes, discutindo o caso com assistente. Experiência adquirida: A liga acadêmica proporciona aos alunos contato íntimo com a semiotécnica, as doenças e o paciente neurológicos. Além disso, gera desenvolvimento de habilidades e competências afetivas e práticas do atendimento neurológico, tanto em nível de especialista como de generalista, as quais seriam pouco desenvolvidas dentro do currículo normal da graduação, que carece de carga horária ligada para essa área. Conclusões: A experiência dessa atividade extracurricular aprimora habilidades teórico-práticas e afetivas dos alunos de medicina da FMUSP. Desse modo, a Liga mostra-se efetiva para aprofundar os conhecimentos básicos e clínicos dos alunos na área de neurologia. Um aspecto a ser melhorado é a integração com a fronteira de pesquisa, o que visamos corrigir em breve. Histórico da Liga de Neurologia Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Tamires Rocha Figueredo, Michelle Abdo Paiva, Marco Antonio Benini Junior, Guilherme Diogo Silva Enfermaria de Neurologia Clínica do Hospital das Clinicas da FMUSP Introdução: A Liga de Neurologia Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) foi fundada em 2010 por acadêmicos do terceiro ano e, inicialmente, coordenada pelo professor Paulo Eurípedes Marchiori. As atividades eram realizadas com supervisão dos residentes de Neurologia Clínica do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP e, atualmente, são planejadas junto à preceptoria do mesmo serviço de residência e coordenadas pelo professor Ricardo Nitrini. No ano de 2011, passamos a participar, anualmente, do projeto social “Mutirão de combate ao acidente vascular cerebral (AVC)”, realizado em estações de metrô da cidade de São Paulo, iniciativa da Liga de Neurologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa. Diagn Tratamento. 2013;18(4):168-72. Síndrome de encefalopatia posterior reversível em paciente com quadro de porfiria intermitente aguda: relato de caso Luiz Domingos Mendes Melges, Fabio Araújo Pereira, Werner Garcia Souza, Luiz Henrique Soares Santos Stefano, Marcelo Scomparin Said Monteiro Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) A porfiria aguda intermitente é uma doença genética rara, autossômica dominante, decorrente de um distúrbio na via hepática da biossíntese do heme. Caracteriza-se por sinais e sintomas que incluem dor abdominal, náuseas, vômitos, constipação ou diarreia, distensão, retenção ou incontinência urinárias, tremores, febre, neuropatia periférica, distúrbios hidroeletrolíticos e psiquiátricos. 170 A síndrome da encefalopatia posterior reversível é uma entidade de patogênese pouco conhecida que descreve um conjunto de sintomas e achado radiológico característicos. Os achados clínicos característicos encontrados nessa síndrome são cefaleia, vômito, cegueira, alterações no nível de consciência, alucinações e convulsões. As crises convulsivas podem ser a primeira ou única manifestação da doença, sendo focais, e até mesmo podendo evoluir para estado de mal convulsivo. O presente relato descreve o caso de um paciente de 29 anos, com quadro inicial de dor lombar e urina avermelhada, tratado como infecção do trato urinário sem melhora, evoluindo com crises convulsivas de difícil controle e rebaixamento do nível de consciência. Após se obter controle das crises, observou-se que o paciente apresentava tetraplegia flácida. As imagens de ressonância foram compatíveis com encefalopatia posterior reversível e o diagnóstico de porfiria intermitente aguda foi suspeitado e confirmado através das alterações no porfobilinogênio e ácido delta amino levulínico urinários. A intenção é descrever um caso em que se associa esta síndrome ainda pouco conhecida que é a encefalopatia posterior reversível, à porfiria intermitente aguda, já que a literatura apresenta poucas descrições de casos como esse. Encefalopatia responsiva a corticoide associada a tireoidite autoimune (encefalopatia de Hashimoto): relato de caso Jorge Murilo Barbosa de Sousa, Ricardo Goes Freitas, Rinaldo Claudino, Luiz Paulo de Queiróz, Katia Lin Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC) Introdução: As encefalopatias subagudas em neurologia abrangem ampla lista de diagnósticos diferenciais; dentre elas, inclui-se uma rara entidade conhecida como encefalopatia responsiva a corticoide associada a tireoidite autoimune (ERCATA), ou encefalopatia de Hashimoto (EH). Encontra-se dentro do grupo das doenças autoimunes, sendo um diagnóstico de exclusão. O objetivo deste trabalho é relatar um caso de encefalopatia de Hashimoto. Relato: Identificação: Paciente do sexo feminino, 45 anos, data de nascimento 13/01/1968, residente em Tijucas (SC), Grande Florianópolis, natural do interior do Paraná, vendedora, casada, católica, com o segundo grau completo. Queixa principal: “Convulsão”. História clínica: Vem acompanhada pelo marido e pela filha para primeira consulta no Ambulatório de Epilepsia do HU-UFSC, em 05/04/13. Marido e filha referem que a paciente, que era previamente hígida, iniciou, em agosto de 2012, com alucinações visuais episódicas, que “via chuviscos”, de difícil caracterização no momento, que segundo eles duravam mais que quatro horas, e vinha, por isso, sendo acompanhada por oftalmologista, mas sem diagnóstico oftalmológico. Além disso, tinha sintomas depressivos, iniciados no primeiro semestre de 2012, após morte da mãe, que pioraram nesta época (agosto de 2012): apatia e anedonia, sem sintomas positivos de transtorno de humor depressivo. Referem também que, em 13/11/12, apresentou a primeira crise “convulsiva” da vida. Estava dirigindo, sentiu-se mal, parou o carro, ligou para o marido. O marido levou a paciente ao posto de saúde. A paciente tinha desvio da rima labial e versão cefálica para um dos lados, abalos musculares clônicos generalizados com mordedura lingual e liberação de esfíncteres. Nessa ocasião, foi encaminhada diretamente para um hospital próximo, onde foi submetida a tomografia computadorizada (TC) de crânio (laudo: sem alterações significativas) e foi liberada, usando fenitoína, 250 mg/dia. Contam também que a paciente “nunca mais” foi a mesma pessoa depois desta primeira crise. Vinha mantendo episódios quase diários de “contorcer-se” (por aproximadamente três minutos), seguido por “sair fora do ar” e “falar em língua estrangeira” (disfasia), durando 40 minutos a 1 hora. Relatam que, com frequência cada vez maior, entre esses episódios apresentava alucinações visuais, sem crítica sobre elas: “ela vê todos com barba, vê todos com a mesma roupa”, “quer sair de dentro de casa”, “fica procurando a chave em locais que sabidamente não está”. Também referem que a paciente acredita que a mãe está viva, mesmo sabendo que ela faleceu no último ano. Contam que a paciente, desde o início do quadro queixa-se de cefaleia, mas, devido ao quadro confusional daquele momento, de difícil caracterização. Revisão de sistemas: Poliartralgia e queda de cabelos há cinco meses. História ginecológico-obstétrica: Duas filhas, amenorreia há oito meses. História psicossocial: Tabagista desde os nove anos de idade, três maços/dia. Trabalhava revendendo computadores e outros eletrônicos comprados por ela no Paraguai, além disso, fabricava doces em casa. Após a primeira crise epiléptica, não conseguiu mais realizar essas atividades. Após a consulta, foi internada para investigação do quadro. Ao exame físico: peso de 84 kg, altura de 1,62 m, exoftalmia bilateral (familiares contam que sempre foi assim), ausculta cardiopulmonar, exame do abdome e exame da região cervical e membros sem particularidades. Exame neurológico: alerta e contactuante, desorientada em tempo e espaço, inquieta durante a consulta, levantou-se e caminhou em direção ao armário do consultório procurando por cigarros. Miniexame do estado mental (MEEM), em 15 de abril de 2013, resultou em 11 pontos, sem disfasias; gnosias e praxias preservadas, força e tônus muscular e reflexos preservados, exceto pelos reflexos aquileus, ausentes. Sensibilidade: sem alterações. Sem alteração de pares cranianos. Sem sinais meníngeos. Nos primeiros dias da internação, em algumas ocasiões, foram observadas contrações involuntárias síncronas dos dedos da mão direita, além de repetidos episódios de agitação psicomotora: “Encontra-se tranquila no leito e de forma repentina levanta-se, entra nos quartos de outros pacientes, ou retira a roupa ou tenta pular a janela, em outras ocasiões solicita a presença da mãe”. Ampla investigação laboratorial foi realizada (incluindo hemograma, provas reumatológicas, marcadores de lesão hepática, função renal, eletrólitos, sorologias (vírus B, C, HIV, Epstein-Barr, citomegalovírus) e reação de polimerase em cadeia para herpes vírus X. Destacam-se as seguintes alterações: T4 livre reduzido (0,76 ng/dl; valor de referência, VR: > 0,85 ng/dl), anticorpo antitireoperoxidase (anti-TPO) reagente, 293 UI/ml (VR < 35 ng/dl), além de o exame do líquor demonstrar meningite asséptica (Tabela 1), sem outras alterações. Eletroencefalograma (EEG) da chegada mostrava frequentes achados epileptiformes multifocais bilaterais, quase contínuos, com ritmo de base desorganizado, configurando estado de mal epiléptico e, na alta hospitalar, duas semanas após o primeiro exame, observou-se melhora acentuada do exame, sendo constituído por paroxismos epileptiformes isolados do tipo onda aguda em região temporal esquerda. Angiorressonância magnética e ressonância magnética (RM) de crânio de janeiro de 2013 eram normais. TC de tórax mostrou apenas pequeno derrame pleural bilateral e RM de crânio de abril de 2013 (Figuras 1 e 2) revelou esclerose mesial temporal à esquerda, e hipersinal, sem efeito de massa ou edema perilesional, inespecífico, junto ao corno posterior do ventrículo lateral direito. Recebeu metilprednisolona, 1 g/dia, endovenoso (EV) por cinco dias, seguida por prednisona, 60 mg/dia, além da dose de ataque de fenitoína EV e acrescentado fenobarbital, 200 mg/dia. Foi dramática a melhora clínica após essas medidas, especialmente após pulsoterapia com corticoide. Em consulta ambulatorial, um mês após a alta pontou 22 no MEEM, bem como exame do líquor, na alta, mostrava melhora do padrão inicial. Tabela 1. Análise do líquor Exame Citologia Proteínorraquia Glicorraquia LDH Bacterioscopia (GRAM) Látex Criptococo e germes comuns Pesquisa de BAAR Tinta da China ADA VDRL Resultado em 11/04/13 29 células (100% mononuclear) e 2 hemácias 114,8 64,0 (sérica 143) 25 Ausência de bactérias Resultado em 24/04/13 18 células (100% mononuclear) e 73 hemácias 105,5 65 (sérica 124) Ausência de bactéria Auência Negativo Negativo Negativo Ausentes Ausentes Ausentes Negativa 3,0 U/L NR Negativa Negativa Até 40 U/L NR VR Até 5 mononucleares 15-45 mg/dL 2/3 da glicemia 10% da sérica NR LDH = desidrogenase láctica; BAAR = bacilos álcool-ácido resistentes; ADA = adenosina desaminase; VDRL = do inglês venereal disease research laboratory; NR = não reagentes; VR = Valor de referência. Diagn Tratamento. 2013;18(4):168-72. 171 tireoidianos não são específicos para EH e são comuns em pessoas idosas saudáveis. Da mesma forma, não se correlacionam níveis de anticorpos e gravidade da síndrome. Também não se reduzem com o tratamento e não há alvo antigênico bem definido no sistema nervoso central, eles refletem na realidade, um estado inflamatório autoimune adjacente. E por isso os autores defendem a utilização do termo “encefalopatia responsiva a corticoide associada à tireoidite autoimune”. Conclusão: Não temos dúvidas do contexto autoimune como base fisiopatológica para os achados clínicos. Até a exata fisiopatologia ser descoberta, o termo ERCATA parece ser o mais adequado para definir uma síndrome que cursa com encefalopatia, altos títulos de anticorpos antitireoidianos e boa resposta a corticoterapia. Figura 1. Ressonância magnética de crânio: corte axial, sequência fluid acquisition inversion recovery (FLAIR), mostrando hipersinal junto ao corno posterior do ventrículo lateral direito. Mielite transversa pelo citomegalovírus em paciente imunocompetente: relato de caso Juliana Amm Diniz, Augusto Cesar Penalva de Oliveira, Michel Elyas Jung Haziot Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Figura 2. Ressonância Magnética de Crânio, corte coronal, sequência fluid acquisition inversion recovery (FLAIR), mostrando hipocampo esquerdo com alteração de sinal e redução volumétrica. Discussão: Diante do quadro clínico exposto, estamos frente a uma paciente com síndrome demencial e epiléptica de instalação progressiva e gradual dentro de oito meses, configurando uma encefalopatia subaguda. A confusão diagnóstica etiológica é frequente pela vasta lista de diagnósticos diferenciais. Neste caso, o motivo do encaminhamento interrogava doença de Creutzfeld-Jakob, uma doença rara que foi excluída pela benignidade da evolução dentro deste período e pelos EEGs seriados. Da mesma forma, lúpus eritematoso sistêmico (LES) com acometimento do sistema nervoso central (SNC) frequentemente se apresenta desta forma, ocorrendo em até 90% dos casos de LES, explicando achados como epilepsia (14-25%) e psicose. Meningite asséptica ocorre em 20% dos estudos histopatológicos em LES, tende ocorrer mais cedo no curso da doença e prediz maior envolvimento do SNC. Porém, faltam dados para o diagnóstico de LES, preenchendo apenas 2 (epilepsia/psicose e serosite) dos 11 critérios propostos pela American College of Rheumatology. Doenças infecciosas tornam-se muito remotas sabendo-se do tempo de evolução relativamente longo e melhora com corticoide. Encefalite límbica paraneoplásica também poderia explicar os achados clínicos do caso, no entanto, uma característica fundamental é a rápida natureza progressiva da síndrome. Desta forma, a hipótese de ERCATA se impõe. Trata-se de uma síndrome rara, sendo diagnóstico de exclusão, que cursa com altos títulos de anti-TPO e boa resposta à corticoterapia. Desde sua primeira descrição em 1966, em torno de 170 casos foram relatados na literatura. É mais comum em mulheres na meia idade, e manifesta-se com crises epilépticas (66%), psicose (38%), episódios como acidente vascular encefálico (AVE-like) (27%), além de hiperproteinorraquia (78%), pleocitose linfocítica leve e EEG anormal (alentecimento generalizado, ondas trifásicas, ou achados epileptiformes) (98%). Neste caso, apenas episódios AVE-like não foram vistos, todos os demais estavam presentes no caso, corroborando nossa hipótese diagnóstica. Da mesma forma, RM de crânio pode ser normal ou mostrar achados inespecíficos na substância branca, como pode ser visto neste relato. A função tireoidiana pode ser normal, hipotireoidismo ou hipertireoidismo, sendo hipotireoidismo subclínico o mais comum (35%). A fisiopatologia e etiologia exata ainda são desconhecidas. Alguns autores defendem que o termo EH pode ser enganoso, pois se sabe que os autoanticorpos Diagn Tratamento. 2013;18(4):168-72. Introdução: A infecção pelo citomegalovírus (CMV) ocorre mais comumente em indivíduos com severa imunodepressão. A mielite transversa é rara em pacientes imunocompetentes. Métodos: Revisão de literatura e de prontuário de paciente atendida no Ambulatório de Neuroinfectologia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Relato de caso: A.P, 41 anos, do sexo feminino, casada, branca, natural de São Paulo (SP) e moradora em Osasco (SP), refere ter iniciado em 25/01/2013 quadro de dor em região dorsal irradiando para a região de mamas associado à alteração de sensibilidade e redução de força em membros inferiores (MMII). Deu entrada em 05/03/2013 no Pronto-Socorro Central e apresentava, ao exame neurológico, paraplegia, nível sensitivo em T4, abolição da propriocepção, além de constipação intestinal e retenção urinária. Durante investigação, apresentava na ressonância nuclear magnética com hipersinal em segmento cervical e torácico de medula (de C2 a T7). Liquor: 32 células/mm³, predomínio de linfócitos, proteína: 78 mg/dL; glicose: 53 mg/dL, reação de polimerase em cadeia (PCR) para citomegalovírus (CMV) positivo no liquor, sorologia para CMV positiva no sangue (imunoglobulina G, IgG). A paciente foi submetida a pulsoterapia com metilprednisolona por cinco dias e tratada por 21 dias com ganciclovir endovenoso, com melhora progressiva principalmente da força muscular, evoluindo com força muscular grau IV em MMII, melhora completa das funções vesicais e parcial da sensibilidade. Conclusão: A infecção pelo CMV que acomete a medula espinhal é rara em pacientes imunocompetentes. Os sinais clínicos são limitados no diagnóstico, pois não se diferenciam de outros agentes causadores de mielite. O diagnóstico deve se basear nos resultados de imagem e especialmente no PCR positivo para CMV no liquor, que é o teste diagnóstico mais específico. Encontro Interinstitucional de Ligas Acadêmicas de Neurologia e Neurocirurgia Marcela Curci Vieira de Almeida Universidade de Taubaté (Unitau) Introdução: A Liga de Neurologia e Neurocirurgia (LNNc) da Faculdade de Medicina de Taubaté tem como bandeira a prevenção às doenças neurológicas e ao neurotrauma, visando a promoção da saúde e uma melhor qualidade de vida. Assim, tem com a população de Taubaté um papel de responsabilidade social, a fim de garantir o cumprimento desses objetivos. Haja vista que uma Liga é baseada em um tripé composto por ensino, pesquisa e assistência, para exercer esses três pilares, concomitantemente e com excelência, a LNNc enriquece seus membros com aulas da especialidade, presta assistência à população através de campanhas e supre a faculdade com pesquisas científicas. Sendo assim, com a intenção de promover a saúde, de buscar uma atuação em âmbito nacional, de acrescentar conhecimento sobre as especialidades de neurologia e neurocirurgia e de impulsionar o trabalho em parceria, a LNNc criou o Encontro Interinstitucional entre Ligas Acadêmicas (ELA) de Neurologia e Neurocirurgia. Para atuar 172 na prevenção atendendo às duas especialidades, a LNNc — que já participa do Mutirão do AVC, projeto de prevenção ao acidente vascular cerebral, desenvolvido pela Liga de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), sob a coordenação do Doutor Marcel Simis — pretende divulgar o Programa de Prevenção ao Neurotrauma — “Pense Bem” — desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, através de uma campanha de conscientização e prevenção ao neurotrauma, visto que causas externas — caracterizadas por acidentes (relacionados ao trânsito, afogamento, envenenamento, quedas ou queimaduras) e violência — são a terceira causa de mortalidade no Brasil, segundo pesquisas do Saúde Brasil de 2010. Para garantir essa promoção e o cumprimento dela em âmbito nacional, a LNNc aproveitou o ELA para definir com as diferentes Ligas parceiras o modo como cada uma irá promover o “Pense Bem” em sua cidade, proporcionando, dessa forma, uma integração de Ligas não somente para desenvolvimento profissional, mas também para promoção da prestação de serviços à população. Objetivo: Promover a integração entre Ligas Acadêmicas, a fim de que este vínculo garanta aprimoramento e atualização nos temas de neurologia e de neurocirurgia, bem como permita promoção da saúde em âmbito nacional, através de campanhas. Método: O presente evento foi criado pela LNNc da Faculdade de Medicina de Taubaté, coordenado pelo Doutor Ronaldo Abraham, um dos professores responsáveis pela Liga. Para sua organização e realização, o ELA contou com a parceria das Ligas de Neurologia e Neurocirurgia da FCMSCSP e da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). O ELA ocorreu no dia 18 de maio de 2013 no Campus do Bom Conselho da Faculdade de Medicina de Taubaté (FMT), atual Universidade de Taubaté (Unitau), localizada na Avenida Tiradentes, 500, Taubaté (SP). Tal evento seguiu os moldes do Encontro de Ligas de Clínica Médica, realizado pela Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), o qual já ocorre há 12 anos. Este modelo consiste em encontro de um dia, com duração das 8 às 17 horas. Há uma palestra a cada hora, e o horário de almoço é das 12 às 14 horas. O ELA foi composto por três módulos, dos quais um foi comum a todos os participantes e os outros dois foram assistidos conforme a preferência de cada um. O primeiro módulo, intitulado “Introdutório” foi comum a todos os participantes e abordou assuntos dentro do tema “Semiologia Neurológica e Neurocirúrgica”. Este teve as seguintes palestras: das 8 às 8:30 horas ocorreu a abertura do ELA e apresentação do Projeto “Pense Bem” (desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia); às 9 horas, a palestrante Doutora Karolina Gouveia César, neurologista do Hospital Universitário de Taubaté (HUT), professora da Unitau e doutoranda em Neurologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), apresentou o assunto “Semiologia Neurológica (exame físico sem contemplar demência)”; às 10 horas, ela também apresentou o assunto “Como avaliar demências e introdução sobre as doenças relacionadas”; às 11 horas, o palestrante Doutor Máspoli de Souza Filho, Médico-Residente de Neurocirurgia do Hospital Regional do Vale do Paraíba, apresentou o assunto “Exame físico voltado para neurocirurgia”, encerrando o primeiro módulo. Das 12 às 14 horas, os participantes tiveram horário de almoço. Às 14 horas, as atividades foram retomadas e os participantes puderam optar entre dois módulos: um sobre Neurologia Clínica e outro sobre Neurocirurgia. O módulo sobre Neurologia Clínica iniciou com a palestra do Doutor Mauro Eduardo Jurno, Secretário da Sociedade Mineira de Neurologia, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, sobre “Cefaleia”. Em seguida, às 15 horas, o Doutor Ronaldo Abraham, Professor Doutor de Neurologia da Unitau e Doutorado em Neurologia pelo HC-FMUSP, apresentou o assunto “Manifestações Neurológicas das Doenças Sistêmicas”. Enquanto isso, simultaneamente em outra sala, o módulo sobre Neurocirurgia se iniciou às 14 horas com a palestra “Urgências e Emergências Neurológicas”, ministrada pelo Doutor Caio Simioni, Médico Colaborador do Ambulatório de Neurologia do HC-FMUSP e membro efetivo da Academia Brasileira de Neurologia. Em seguida, às 15 horas, o palestrante Doutor Vinícius Monteiro de Paula Guirado, coordenador da Unidade de Lesão da Medula Espinal do Serviço de Neurocirurgia de Emergência do Pronto-Socorro do HC-FMUSP, neurocirurgião assistente da Disciplina de Clínica Neurocirúrgica do HC-FMUSP e membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, apresentou o assunto “Traumatismo Raquimedular – Conduta na fase aguda”. Por fim, às 16 horas, o Doutor José Carlos Esteves Veiga, com Doutorado em Neurocirurgia pelo HC-FMUSP, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, médico chefe da Disciplina de Neurocirurgia da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, professor adjunto-doutor da FCMSCSP e professor titular da Unitau, encerrou o módulo dois com uma palestra sobre o assunto “Traumatismo Crânio-Encefálico”. As inscrições para o ELA foram feitas pelas Ligas de Neurologia e Neurocirurgia de cada faculdade participante, no caso, FMT, FCMSCSP e UMC. O valor do investimento de cada participante foi de R$ 25,00 e o dinheiro arrecadado foi dividido igualmente entre as três Ligas organizadoras. O ELA recebeu patrocínio das seguintes instituições: Academia Brasileira de Neurologia, Sociedade Brasileira de Cefaleia, Associação Paulista de Medicina, Banco Itaú-Unibanco, Medcel – Residência Médica, Restaurante Armazém 87, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração e Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. O ELA contou com a participação de 65 alunos das seguintes faculdades: FCMSCSP, FMT, UMC, Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), Faculdade de Medicina de Pouso Alegre e Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Discussão: O ELA obteve resultado positivo, pois conseguiu estabelecer vínculos entre as diretorias das Ligas organizadoras, trouxe noções de organização de evento, estimulou o trabalho em equipe, bem como conseguiu integrar mais uma Liga para a realização do próximo evento em 2014, a Liga de Neurologia e Neurocirurgia da FMJ. Com o objetivo de perpetuação anual desse evento para que as atualizações nas áreas de Neurologia e Neurocirurgia continuem e com a intenção de promover cada vez mais a integração das Ligas Acadêmicas, a ideia é que, a cada ano, uma Faculdade fique responsável pela organização do evento. Em 2013, a responsável foi a FMT. Para 2014, ainda será decidido qual das Faculdades será a responsável, a FCMSCSP ou a UMC. A fim de manter tal vínculo, além do ELA, cada uma das três Faculdades promoverá em sua cidade uma Campanha de Prevenção ao Neurotrauma baseada no Programa de Prevenção ao Neurotrauma (PENSE BEM), desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. A intenção é que esta campanha também se perpetue e que consiga integrar cada vez mais Ligas Acadêmicas, a fim de atingir uma prevenção em âmbito nacional. Conclusão: A partir do ELA, os participantes puderam aprimorar conhecimento, aprender situações ainda não vistas, desenvolver o trabalho em equipe, fomentar raciocínio clínico e prático, bem como puderam se atentar à necessidade de campanhas para a prevenção ao neurotrauma. Assim, além de contribuir de maneira positiva para a formação acadêmica do estudante de medicina, o ELA estimula o cumprimento do papel de cidadão que cada aluno deve ter como indivíduo e como profissional da área da saúde para com a população, reforçando também a relação médico-paciente. Além disso, o fortalecimento da integração entre as Ligas Acadêmicas de Neurologia e Neurocirurgia contribuiu para o princípio de que o conhecimento deve ser compartilhado, distribuído e discutido sob diferentes visões. Isso torna possível uma maior divulgação e discussão sobre atualizações dos assuntos dessas áreas, bem como permite atuação em prevenção em âmbito nacional. Manifestações neurológicas típicas e atípicas em pacientes com doença de Wilson: um relato de caso Luiz Domingos Mendes Melges, Luiz Henrique Soares Santos Stefano, Fabio de Araújo Pereira, Vanessa Vieira, Mariah Guerreiro dos Reis, Isabela Santiago Disciplina de Neurologia, Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA) Introdução: A doença de Wilson, também conhecida como degeneração hepatolenticular, é um erro inato do metabolismo do cobre associado a cirrose hepática e alterações degenerativas nos gânglios da base. Durante a segunda metade do século XIX, Westphal observou a presença de tremores e rigidez em dois pacientes, denominando o quadro de pseudoesclerose. É uma doença de caráter autossômico recessivo, caracterizada pelo acúmulo de cobre no organismo. Os órgãos mais afetados são fígado, cérebro, rins e córnea, e a lesão tissular justifica parte dos sintomas hepáticos, neuropsiquiátricos, hematológicos, renais e osteoarticulares. Caso haja diagnóstico precoce, o tratamento caminha de forma eficaz, ao passo que o não tratamento pode ter evolução fatal. O presente relato objetiva discutir um caso com sintomas neurológicos menos comuns como tremor cefálico de repouso e mais comuns como crises convulsivas e alterações psiquiátricas, bem como a necessidade do estudo familiar como importante guia, tendo em vista as possíveis dificuldades envolvidas no diagnóstico. Descrição do caso: Reporta-se o caso de um paciente do sexo masculino, 35 anos, com sintomas neurológicos de início agudo (tremores grosseiros) que evoluíram para crises convulsivas e alterações comportamentais. Negava doenças de base, mas relatava pais consanguíneos e familiares com alterações hepáticas desconhecidas (alguns desses falecidos por tal causa). Imagens típicas da doença na ressonância magnética e achados laboratoriais compatíveis, como alterações nos níveis de ceruloplasmina e presença de anéis de Kayser-Fleischer, estabeleceram o diagnóstico de doença de Wilson. Foi instituído o tratamento com acetato de zinco, com melhora importante dos sintomas, e mantidos acompanhamento ambulatorial e investigação familiar. Diagn Tratamento. 2013;18(4):168-72. Instruções aos autores INDEXAÇÃO E ESCOPO A Revista Diagnóstico & Tratamento (ISSN 1413-9979) tem por objetivo oferecer atualização médica, baseada nas melhores evidências disponíveis, em artigos escritos por especialistas. Seus artigos são indexados na base de dados Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). São aceitos artigos originais (ensaios clínicos, estudos coorte, estudos caso-controle, revisões sistemáticas, estudos transversais, avaliações econômicas), relatos de caso, revisões narrativas da literatura (artigos de atualização) e cartas ao editor, que devem enquadrar-se nas normas editoriais dos manuscritos submetidos a revistas biomédicas (do International Committee of Medical Journal Editors1). POLÍTICAS E PROCEDIMENTOS DA REVISTA Após o recebimento do manuscrito pelo setor de Publicações Científicas, os autores receberão um número de protocolo que servirá para manter o bom entendimento entre os autores e o setor. Em seguida, o artigo será lido pelo editor, que verificará se está de acordo com a política e o interesse da revista. Em caso afirmativo, o setor de Publicações Científicas vai verificar se o texto cumpre as normas de publicação expressas nestas Instruções para Autores. Se o texto estiver incompleto ou se não estiver organizado como exigido, os autores deverão resolver os problemas e submetê-lo novamente. Quando o formato estiver aceitável, o setor enviará o trabalho para a revisão por pares, na qual os revisores não assinarão seus veredictos e não conhecerão os nomes dos autores do trabalho. Cada manuscrito será avaliado por dois revisores: um especialista no assunto e um consultor ad hoc (que vai avaliar aspectos metodológicos do trabalho); as discordâncias serão resolvidas pelos editores. Os autores então receberão a avaliação e será solicitado que resolvam os problemas apontados. Uma vez que o setor de Publicações Científicas receba o texto novamente, o artigo será enviado ao editor científico e revisor de provas, que identificará problemas na construção de frases, ortografia, gramática, referências bibliográficas e outros. Os autores deverão providenciar todas as informações e correções solicitadas e deverão marcar , no texto, todos os pontos em que realizaram modificações, utilizando cores diferentes ou sistemas eletrônicos de marcação de alterações, de maneira que elas fiquem evidentes. Quando o texto for considerado aceitável para publicação, e só então, entrará na pauta. O setor de Publicações Científicas fornecerá uma prova, incluindo Tabelas e Figuras, para que os autores aprovem. Nenhum artigo é publicado sem este último procedimento. INSTRUÇÕES PARA AUTORES Diretriz geral: para todos os tipos de artigos Os artigos devem ser submetidos exclusivamente pela internet para o e-mail [email protected] e/ou [email protected]. O manuscrito deve ser submetido em português e deve conter um resumo e cinco palavras-chave em português, que devem ser selecionadas das listas DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), conforme explicado em detalhes abaixo (nenhuma outra palavra-chave será aceita). Artigos submetidos devem ser originais e todos os autores precisam declarar que o texto não foi e não será submetido para publicação em outra revista. Artigos envolvendo seres humanos (individual ou coletivamente, direta ou indireta ou indiretamente, total ou parcialmente, incluindo o gerenciamento de informações e materiais) devem ser acompanhados de uma cópia da autorização do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição onde o experimento foi realizado. Todo artigo submetido deve cumprir os padrões editoriais estabelecidos na Convenção de Vancouver (Requerimentos Uniformes para Manuscritos Submetidos a Revistas Biomédicas),1 e as diretrizes de qualidade para relatórios de estudos clínicos,2 revisões sistemáticas (com ou sem metanálises)3 e estudos observacionais.4 O estilo conhecido como “estilo Vancouver” deve ser usado não somente quanto ao formato de referências, mas para todo o texto. Os editores recomendam que os autores se familiarizem com esse estilo acessando www.icmje.org. Para a classificação dos níveis de evidência e graus de recomendação de evidências, a Revista Diagnóstico e Tratamento adota a nova classificação elaborada pelo Centro de Medicina Baseada em Evidências de Oxford (Centre for Evidence-Based Medicine - CEBM) e disponível em http://www.cebm.net/mod_product/design/ files/CEBM-Levels-of-Evidence-2.pdf Abreviações não devem ser empregadas, mesmo as que são de uso comum. Drogas ou medicações devem ser citadas usando-se os nomes genéricos, evitando-se a menção desnecessária a marcas ou nomes comerciais. Qualquer produto citado no capítulo de Métodos, tal como equipamento diagnóstico, testes, reagentes, instrumentos, utensílios, próteses, órteses e dispositivos intraoperatórios devem ser descritos juntamente como o nome do fabricante e o local (cidade e país) de produção entre parênteses. Medicamentos administrados devem ser descritos pelo nome genérico (não a marca), seguidos da dosagem e posologia. Diagn Tratamento. 2013;18(4):I-II. Para qualquer tipo de estudo, todas as afirmações no texto que não sejam resultado da pesquisa apresentada para publicação à revista Diagnóstico & Tratamento, mas sim dados de outras pesquisas já publicadas em outros locais, devem ser acompanhadas de citações da literatura pertinente. Os relatos de caso e as revisões narrativas deverão conter uma busca sistematizada (atenção: o que é diferente de uma revisão sistemática) do assunto apresentado, realizada nas principais bases de dados (Cochrane Library, Embase, Lilacs, PubMed, outras bases específicas do tema). Bolsas, apoios e qualquer suporte financeiro a estudos devem ser mencionados separadamente na última página. Agradecimentos, se necessário, devem ser colocados após as referências bibliográficas. A Diagnóstico & Tratamento apóia as políticas para registro de ensaios clínicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE), reconhecendo a importância dessas iniciativas para o registro e divulgação internacional de informação sobre estudos clínicos, em acesso aberto. Sendo assim, somente serão aceitos para publicação, a partir de 2007, os artigos de pesquisa clínicas que tenham recebido um número de identificação em um dos Registros de Ensaios Clínicos validados pelos critérios estabelecidos pela OMS e ICMJE, cujos endereços estão disponíveis no site do ICMJE (http://www.icmje.org/). O número de identificação deverá ser registrado ao final do resumo. FORMATO Primeira página (capa) A primeira página deve conter: 1) classificação do artigo (original, revisão narrativa da literatura, relato de caso e carta ao editor); 2) o título do artigo, que deverá ser conciso, mas informativo; 3) o nome de cada autor (a política editorial da revista Diagnóstico & Tratamento é não utilizar abreviações dos nomes dos autores. Assim, solicitamos que os nomes sejam enviados completos), sua titulação acadêmica mais alta e a instituição onde trabalha; 4) o local onde o trabalho foi desenvolvido; Segunda página Artigos originais: a segunda página, neste caso, deve conter um resumo5 (máximo de 250 palavras) estruturado da seguinte forma: 1) contexto e objetivo; 2) desenho e local (onde o estudo se desenvolveu); 3) métodos (descritos em detalhes); 4) resultados; 5) Discussão; 6) conclusões. Relatos de caso: devem conter um resumo5 (máximo de 250 palavras) estruturado da seguinte forma: 1) contexto; 2) descrição do caso; 3) discussão; 4) conclusões. Revisão da narrativa da literatura: deve conter um resumo (máximo de 250 palavras) com formato livre. O resumo deve conter cinco palavras-chave, que devem ser escolhidas a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), desenvolvidos pela Bireme, que estão disponíveis na internet (http://decs.bvs.br/).6 Referências As referências bibliográficas (no estilo “Vancouver”, como indicado pelo Comitê Internacional de Editores de Revistas Biomédicas, ICMJE) devem ser dispostas na parte final do artigo e numeradas de acordo com a ordem de citação. Os números das citações devem ser inseridos após pontos finais ou vírgulas nas frases, e sobrescritos (sem parênteses ou colchetes). Referências citadas nas legendas de Tabelas e Figuras devem manter a sequência com as referências citadas no texto. Todos os autores devem ser citados se houver menos de seis; se houver mais de seis autores, os primeiros três devem ser citados seguidos de “et al.” Para livros, a cidade de publicação e o nome da editora são indispensáveis. Para textos publicados na internet, a fonte localizadora completa (URL) ou endereço completo é necessário (não apenas a página principal ou link), de maneira que, copiando o endereço completo em seus programas para navegação na internet, os leitores possam ser levados diretamente ao documento citado, e não a um site geral. A seguir estão dispostos alguns exemplos dos tipos mais comuns de referências: Artigo em periódico • LahitaR,KlugerJ,DrayerDE,KofflerD,ReidenbergMM.Antibodiestonuclear antigens in patients treated with procainamide or acetylprocainamide. N Engl J Med. 1979;301(25):1382-5. Instruções aos autores Livro • StyneDM,BrookCGD.Currentconceptsinpediatricendocrinology.NewYork: Elsevier; 1987. Capítulo de livro • ReppertSM.Circadianrhythms:basicaspectsandpediatricimplications.In:Styne DM,BrookCGD,editors.Currentconceptsinpediatricendocrinology.NewYork: Elsevier; 1987. p. 91-125. Texto na internet • WorldHealthOrganization.WHOcallsforprotectionofwomenandgirlsfrom tobacco. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2010/ women_tobacco_20100528/en/index.html. Acessado em 2010 (8 jun). Dissertações e teses • NevesSRB.DistribuiçãodaproteínaIMPACTemencéfalosdecamundongos, ratos e saguis. [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo; 2009. Última página A última página deve conter: 1) a data e o local do evento no qual o artigo foi apresentado, se aplicável, como congressos ou defesas de dissertações ou teses; 2) fontes de apoio na forma de suporte financeiro, equipamentos ou drogas e número do protocolo; 3) descrição de qualquer conflito de interesse por parte dos autores; 4) endereço completo, e-mail e telefone do autor a ser contatado quanto à publicação na revista. Figuras e tabelas As imagens devem ter boa resolução (mínimo de 300 DPI) e ser gravadas em formato “.jpg” ou “.tif ”. Imagens não devem ser incluídas em documentos do Microsoft PowerPoint. Se as fotografias forem inseridas num documento Microsoft Word,asimagenstambémdevemserenviadasseparadamente.Gráficosdevem ser preparados com o Microsoft Excel (não devem ser enviados como imagem) e devem ser acompanhados das tabelas de dados a partir dos quais foram gerados. O número de ilustrações não deve exceder o número total de páginas menos um. Todas as figuras e tabelas devem conter legendas ou títulos que descrevam precisamente seu conteúdo e o contexto ou amostra a partir da qual a informação foi obtida (por exemplo, quais foram os resultados apresentados e qual foi o tipo de amostra e local). A legenda ou título devem ser curtos, mas compreensíveis independentemente da leitura do artigo. O MANUSCRITO # Relatos de caso devem conter Introdução, Descrição do Caso, Discussão (contendo a busca sistematizada sobre o tema) e Conclusão. # Artigos originais e revisões narrativas devem ser estruturados de maneira que contenham as seguintes partes: Introdução, Objetivo, Método, Resultados, Discussão e Conclusão. A Revista publica revisões narrativas desde que contenham busca sistematizada da literatura. O texto não deve exceder 2.200 palavras (excluindo tabelas, figuras e referências), da introdução até o final da conclusão. A estrutura do documento deve seguir o formato abaixo: 1. Introdução: as razões para que o estudo fosse realizado devem ser explicitadas, descrevendo-se o atual estado da arte do assunto. Deve ser descrito o contexto, o que se sabe a respeito. Aqui não devem ser inseridos resultados ou conclusões do estudo. No último parágrafo, deve ser especificada a principal questão do estudo e a principal hipótese, se houver. Não se deve fazer discussões sobre a literatura na introdução; a seção de introdução deve ser curta. 2. Objetivo:deveserdescritooprincipalobjetivodoestudo,brevemente.Hipóteses pré-estabelecidas devem ser descritas claramente. De preferência deve-se estruturar a pergunta do estudo no formato “PICO”, onde P é a população ou problema, I é intervenção ou fator de risco, C é o grupo controle e O vem de “outcome”, ou desfecho. 3. Métodos 3.1. Tipo de estudo: deve-se descrever o desenho do estudo, adequado para responder a pergunta, e especificando, se apropriado, o tipo de randomização, cegamento, padrões de testes diagnósticos e a direção temporal (se retrospectivo ou prospectivo). Por exemplo: “estudo clínico randomizado”, “estudo clínico duplo-cego controlado por placebo”, “estudo de acurácia”, “relato de caso” 3.2. Local: deve ser indicado o local onde o estudo foi desenvolvido, o tipo de instituição: se primária ou terciária, se hospital público ou privado. Deve-se evitar o nome da instituição onde o estudo foi desenvolvido (para cegamento do texto para revisão): apenas o tipo de instituição deve ficar claro. Por exemplo: hospital universitário público. 3.3. Amostra, participantes ou pacientes: devem ser descritos os critérios de elegibilidade para os participantes (de inclusão e exclusão), as fontes e os procedimentos de seleção ou recrutamento. Em estudos de caso-controle, a lógica de distribuição de casos como casos e controles como controles deve ser descrita, assim como a forma de pareamento. O número de participantes no início e no final do estudo (após exclusões) deve ficar claro. 3.4. Tamanho de amostra e análise estatística: descrever o cálculo do tamanho da amostra, a análise estatística planejada, os testes utilizados e o nível de significância, e também qualquer análise post hoc. Descrever os métodos usados para o controle de variáveis e fatores de confusão, como se lidou com dados faltantes (“missing data”) e como se lidou com casos cujo acompanhamento foi perdido (“loss from follow-up”). 3.5. Randomização: descrever qual foi o método usado para implementação da alocação de sequência aleatória (por exemplo, “envelopes selados contendo sequências aleatórias de números gerados por computador”). Adicionalmente, descrever quem gerou a sequência aleatória, quem alocou participantes nos grupos (no caso de estudos controlados) e quem os recrutou. 3.6. Procedimentos de intervenção, teste diagnóstico ou exposição: descrever quais as principais características da intervenção, incluindo o método, o período e a duração de sua administração ou de coleta de dados. Descrever as diferenças nas intervenções administradas a cada grupo (se a pesquisa é controlada). 3.7. Principais medidas, variáveis e desfecho: descrever o método de medida do principal resultado, da maneira pela qual foi planejado antes da coleta de dados. Afirmar quais são os desfechos primário e secundário esperados. Para cada variável de interesse, detalhar os métodos de avaliação. Se a hipótese do estudo foi formulada durante ou após a coleta de dados (não antes), isso deve ser declarado. Descrever os métodos utilizados para melhorar a qualidade das medidas (por exemplo, múltiplos observadores, treinamento etc.). Explicar como se lidou com as variáveis quantitativas na análise. 4. Resultados: descrever os principais achados. Se possível, estes devem conter os intervalos de confiança de 95% e o exato nível de significância estatística. Para estudos comparativos, o intervalo de confiança para as diferenças deve ser afirmado. 4.1. Fluxo de participantes: descreva o fluxo dos participantes em cada fase do estudo (inclusões e exclusões), o período de acompanhamento e o número de participantes que concluiu o estudo (ou com acompanhamento perdido). Considerar usar um fluxograma. Se houver análise do tipo “intenção de tratar”, esta deve ser descrita. 4.2. Desvios: se houve qualquer desvio do protocolo, fora do que foi inicialmente planejado, ele deve ser descrito, assim como as razões para o acontecimento. 4.3. Efeitos adversos: devem ser descritos quaisquer efeitos ou eventos adversos ou complicações. 5. Discussão: deve seguir a sequência: começar com um resumo dos objetivos e das conclusões mais relevantes; comparar métodos e resultados com a literatura; enfatizar os pontos fortes da metodologia aplicada; explicar possíveis pontos fracos e vieses; incluir implicações para a prática clínica e implicações para pesquisas futuras. 6. Conclusões: especificar apenas as conclusões que podem ser sustentadas, junto com a significância clínica (evitando excessiva generalização). Tirar conclusões baseadas nos objetivos e hipóteses do estudo. A mesma ênfase deve ser dada a estudos com resultados negativos ou positivos. CARTAS AO EDITOR É uma parte da revista destinada à recepção de comentários e críticas e/ou sugestões sobre assuntos abordados na revista ou outros que mereçam destaque. Tem formato livre e não segue as recomendações anteriores destinadas aos artigos originais, relatos de casos e revisão da literatura. Documentos citados 1. International Committee of Medical Journal Editors. Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals. Disponível em: http://www. icmje.org/urm_main.html. Acessado em 2010 (7 jun). 2.CONSORTTransparentReportingofTrials.WelcometotheCONSORT statement website. Disponível em: http://www.consort-statement.org. Acessado em 2010 (7 jun). 3.MoherD,CookDJ,EastwoodS,OlkinI,RennieD,StroupDF.Improving the quality of reports of meta-analyses of randomised controlled trials: the QUOROM statement. Quality of Reporting of Meta-analyses. Lancet. 1999;354(9193):1896-900. 4. STROBE Statement Strengthening the reporting of observational studies in epidemiology. Checklist on items that should be included in reports of observational studies. Disponível em:: http://www.strobe-statement.org/index. php?eID=tx_nawsecuredl&u=0&file=fileadmin/Strobe/uploads/checklists/ STROBE_checklist_v4_combined.pdf&t=1257007091&hash=7713ea8f7f26 62b288689b3dab40c1cb. Acessado em 2010 (7 jun). 5. Haynes RB, Mulrow CD, Huth EJ, Altman DG, Gardner MJ. More informative abstracts revisited. Ann Intern Med. 1990;113(1):69-76. 6. BVS Biblioteca Virtual em Saúde. Descritores em Ciências da Saúde. Disponível em:: http://decs.bvs.br/. Acessado em 2010 (7 jun). Diagn Tratamento. 2013;18(4):I-II.