Isabel Maria Sabino de Farias * Jacques Therrien Silvia Maria Nóbrega-Therrien * Silvina Pimentel Silva A DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA SOB O PRISMA DA INTEGRAÇÃO ENSINO E PESQUISA EDUFPI 2014 Copyright© Isabel Maria Sabino de Farias, Teresina, 2014. A docência universitária sob o prisma da integração ensino e pesquisa. De acordo com a lei nº 9.610, de 19/02/1998, nenhuma parte deste livro pode ser fotocopiada, gravada, reproduzida ou armazenada num sistema de recuperação de informações ou transmitida sob qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico ou mecânico sem prévio consentimento do detentor dos direitos autorais. Universidade Federal do Piauí Reitor Prof. Dr. Luiz de Sousa Santos Júnior Vice-reitor Prof. Dr. Edwar de Alencar Castelo Branco Conselho Editorial Prof. Ricardo Alaggio Ribeiro (Presidente) Des. Tomás Gomes Campelo Profª. Teresinha de Jesus Mesquita Queiroz Profª. Iracildes Maria de Moura Fé Lima Profª. Francisca Maria Soares Mendes Prof. João Renor Ferreira de Carvalho Prof. José Renato de Sousa Produção Editorial Profª. Isabel Maria Sabino de Farias Prof. Nilson de Souza Cardoso Arte da Capa Profª. Isabel Maria Sabino de Farias Prof. Nilson de Souza Cardoso Ronaldo de Castro Cruz Diagramação ????? Revisão de Texto Prof. Vianney Mesquita (Registro Profissional – CE 00489 JP) FICHA CATALOGRÁFICA Serviço de Processamento Técnico da Universidade Federal do Piauí Biblioteca Comunitária Jornalista Carlos Castello Branco SOBRE OS AUTORES1 Isabel Maria Sabino de Farias Pedagoga. Doutora em Educação Brasileira (UFC), com Estágio Pós-Doutoral pela Universidade de Brasília (UNB). Professora do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Coordenou, na UECE, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência PIBID/CAPES (2009/2013) e o Programa de Consolidação das Licenciaturas PRODOCÊNCIA/CAPES (2010/2014). Líder do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura Escolar e Sociedade (EDUCAS) e Coordenadora do Observatório Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica – OBEDUC/CAPES (2013 a 2017). E-mail: [email protected] Jacques Therrien Pedagogo. PhD em Educação pela Cornell University, NY, EEUU, com Pós-Doutorado em Educação pela Université Laval, Canadá e pela Universidade de Valência, Espanha. Pesquisador sênior CNPq. Professor titular aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará -FACED/UFC e do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira. Pesquisador Visitante do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará-UECE. Líder do Grupo de Pesquisa Saber e Prática Social do Educador. E-mail: [email protected] ; www.jacquestherrien.ufc.br Silvia Maria Nóbrega-Therrien Enfermeira. Doutora em Sociologia da Educação pela Universidade de Salamanca (Espanha), com Estágio Pós-Doutoral em Educação pela Universidade de Valência, Espanha. Professora do Centro de Ciências da Saúde e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Líder do Grupo de Pesquisa Educação, História e Saúde Coletiva. Pesquisadora PQ 2 do CNPq. Membro da Academia Cearense de Enfermagem-ACEn. Coordenadora do NUDIHMEn-Núcleo de Informação, Documentação, História e Memória da Enfermagem no Ceará. E-mail: [email protected] Silvina Pimentel Silva Pedagoga. Doutora em Educação Brasileira (UFC), com Estágio Pós-Doutoral pela Universidade de Brasília (UNB). Professora do Curso de Pedagogia e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Integrante do Grupo de Pesquisa Educação, Cultura Escolar e Sociedade (EDUCAS), 1 Os autores agradecem à CAPES, ao CNPq e à FUNCAP pelo apoio recebido. membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação de Educadores (GEFEPECE). E-mail: [email protected]. SUMÁRIO INTRODUÇÃO Capítulo 1 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA E FORMAÇÃO PARA ALÉM DO ENSINO: COMO PENSAMOS E EM QUE RACIONALIDADES NOS ANCORAMOS 1.1 O docente como profissional de educação: algumas questões 1.2 O sentido da educação e a racionalidade pedagógica 1.3 Formação para além do ensino Capítulo 2 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA E A COMPLEXIDADE DA FORMAÇÃO PARA ALÉM DO ENSINO: A REFLEXIVIDADE COMO MEDIAÇÃO E A PESQUISA COMO AÇÃO 2.1 Reflexão sobre a prática: todo pensamento sobre a prática é reflexão? 2.2 A ação pedagógica implica reflexividade: de que reflexividade falamos? 2.3 Reflexividade como mediação da integração ensino e pesquisa na prática pedagógica universitária: contribuições metodológicas e práticas Capítulo 3 ENSINO E PESQUISA NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NA SALA DE AULA UNIVERSITÁRIA: O QUE ACONTECE COM O ALUNO? 3.1 Contrapontos importantes 3.2 Elementos teóricos da relação ensino e pesquisa 3.3 Fechando reflexões e abrindo para ação no campo Capítulo 4 A INTEGRAÇÃO ENSINO E PESQUISA ENTRE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS COM VÍNCULO COM PESQUISA: O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO – ESTUDO UM 4.1 A origem e a proposta do Estudo Um 4.2 O cenário e o caminho trilhado 4.3 O que se queria dos documentos e dos procedimentos: o caminho 4.4 Quem são os professores universitários que têm vínculo com pesquisa 4.5 Como compreender o discurso sobre a pesquisa no currículo de formação na educação superior 4.6 A aula na universidade - espaço de construção do conhecimento? Como ensinam os professores com vínculo com pesquisa 4.6.1 Ensinar no Curso de Medicina 4.6.2 Ensinar no Curso de Ciências Biológicas 4.6.3 Ensinar no Curso de Física 4.7 A integração ensino e pesquisa: o que ocorre na sala de aula universitária. Síntese que move para outras buscas Capítulo 5 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA: PROFESSORES NÃO ATIVIDADES DE PESQUISA NO PROCESSO DE CONHECIMENTO – ESTUDO DOIS ENVOLVIDOS CONSTRUÇÃO EM DO 5.1 Origem e proposta do Estudo Dois 5.2 O cenário e o caminho trilhado 5.3 Quem são os professores pesquisados sem envolvimento com pesquisa 5.4 A aula - espaço de construção do conhecimento? Como ensinam professores sem envolvimento em atividades de pesquisa 5.4.1 Como desenvolvem suas práticas pedagógicas em sala de aula 5.4.2 Reflexividade – concepções e práticas 5.5 Motivações para o não envolvimento dos professores em atividades de pesquisa – algumas aproximações O QUE MOSTRA A INVESTIGAÇÃO SOBRE A INTEGRAÇÃO ENSINO E PESQUISA NA DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA: PONDERAÇÕES FINAIS Referências INTRODUÇÃO O mundo acadêmico, especialmente o pensar e o fazer dos docentes universitários, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos anos, constituindose alvo de inúmeros questionamentos que, entre outros aspectos, incidem sobre a prática pedagógica desses profissionais que atuam em contexto cujos fundamentos primam pela integração ensino e pesquisa. Se na universidade a pesquisa é constituinte da produção de saberes e conhecimentos, o ensino é indissociável da produção de aprendizagem a estes saberes e conhecimentos na formação de profissionais que hão de articular estes na sua práxis cotidiana no mundo contemporâneo. Postulamos a ideia de que o profissional de docência universitária fundamenta sua prática no domínio de saberes e conhecimentos produzidos cientificamente num determinado campo disciplinar, integrando-os ao domínio do saber ensinar como mediador de aprendizagem junto a sujeitos aprendizes. Esta compreensão estabelece o axioma da integração teoria e prática que tem a epistemologia como elemento fundante de análise de sua cientificidade. Se, de um lado, a análise dos saberes da prática de um docente pode revelar a epistemologia que os configura, por outro, os saberes e conhecimentos teóricos que hão de informar essa prática têm igualmente seus fundamentos em uma epistemologia que, além de os configurar, os legitima. A congruência entre estas duas dimensões fornece importante critério para conferir a cientificidade da epistemologia da prática como referência de um saber ensinar que integra o binômio teoria e prática, revelando também seu potencial de criticidade e transformação no perfil do futuro profissional em formação, principalmente quando se defende uma formação integral e para além do ensino. Conferir ao postulado da epistemologia da prática o fundamento de articulador e integrador da pesquisa e do ensino no estudo da docência na Educação Superior implica atribuir à pedagogia universitária a responsabilidade de prover a formação de sujeitos aprendizes para além da dissociação entre o ensino e a pesquisa. Estabelecer a epistemologia da prática como categoria de referência da ação docente significa propor uma racionalidade geradora [voltada para] de uma práxis crítica e transformadora no contexto das racionalidades diversas que movem hoje a vida contemporânea. Constitui-se, assim, um universo que desafia o espaço universitário e sua missão. Ao reconhecer que a função educativa da universidade passa pela integração ensino e pesquisa, atribui-se ao fenômeno da aprendizagem, movido em contexto de mediação, o papel fundante de formação de sujeitos autônomos. Essa compreensão leva a entender que os processos de ensino e de aprendizagem afetam a identidade dos sujeitos dessa relação, entendida como intersubjetiva e moldada pelas dimensões de individuação e socialização presentes nos encontros entre mestres e aprendizes. A constituição de um ambiente movido por uma postura dialógica, articulando olhares e compreensões convergentes na busca de entendimento, favorece a produção de sentidos, significados e apreensões de saberes situados. A reflexividade que permeia os diálogos entre sujeitos distintos, mediadores e aprendizes, portadores de referenciais próprios resultantes de percursos e experiências de vida que os caracterizam, tem contornos diversos. Concomitantemente, a constituição de um contexto de relações dialógicas intersubjetivas requer a disposição [propensão] para uma reflexividade própria à comunicação. O contexto intersubjetivo de encontro de saberes e de conhecimentos situados requer a escuta e a percepção atenta do outro. Nesta encruzilhada o trabalho docente enfrenta o desafio da racionalidade comunicativa necessária para a transformação pedagógica dos conteúdos de ensino ou, em outros termos, a transposição didática. A sensibilidade de escuta e diálogo do docente, como sujeito mediador da aprendizagem, é requisito que lhe permite identificar o mundo de referência e de racionalidade do aprendiz. É neste contexto que identificamos e concebemos o parâmetro da racionalidade pedagógica, abordada com maior densidade nos capítulos um e dois desta obra. A centralidade da integração ensino e pesquisa na práxis universitária, nos estudos que desenvolvemos e publicamos neste livro, remete ao pressuposto de que o envolvimento sistemático em atividades de pesquisa favorece o desenvolvimento de racionalidades que dão suporte a práticas reflexivas críticas e transformadoras, produtoras de questionamentos e argumentações que conduzem a melhor compreensão dos significados dos saberes objetos do ensino e, portanto, a aprendizagens mais significativas e autônomas (ZEICHNER, 2008). O fenômeno em apreço articula a relação simbiótica entre o sujeito pesquisador e mediador e o sujeito aprendiz, ambos abordados em processo contínuo de formação profissional e cidadã. No livro, os referenciais teóricos propostos e as reflexões e análises desenvolvidas foram conduzidos por questões que vislumbram compreender a postura de docentes frente à transformação pedagógica das matérias de ensino, assim como a formação de sujeitos cuja aprendizagem repousa na construção dos conhecimentos e saberes objetos do ensino e da pesquisa, uma vez que se pontua e defende uma formação integral e para além do ensino na atualidade. Esta obra, intitulada A docência universitária sob o prisma da integração ensino e pesquisa, inscreve-se no esforço contemporâneo de compreensão do ‘como’ ensina o professor universitário que mantém ou não vínculo com atividades de pesquisa com vistas à produção do conhecimento e à formação de um sujeito crítico reflexivo. Com este foco, pode ser situada no campo da Didática, mais precisamente da Pedagogia Universitária. O livro resulta de um trabalho coordenado e elaborado por quatro autores, professores de cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de Educação e de Saúde da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), ao mesmo tempo pesquisadores pertencentes a três grupos de pesquisa2 distintos e cujos projetos tiveram financiamento da CAPES, do CNPq e da FUNCAP, incluindo pesquisadores com bolsas de produtividade (PQ/CNPq). A riqueza da obra se expressa pelo trabalho colaborativo entre os autores, pesquisadores, doutorandos, mestrandos e bolsistas de iniciação científica3, notadamente pelo intercâmbio de pesquisadores no fomento à formação em pesquisa de sujeitos em distintos estágios de desenvolvimento. 2 São três grupos de pesquisa cadastrados no Diretório do CNPq: ‘Educação, Cultura Escolar e Sociedade’ (UECE/Centro de Educação), ‘Educação, História e Saúde Coletiva’ (UECE/Centro de Ciências da Saúde) e ‘Saber e Prática Social do Educador’ (UFC/UECE). 3 Os autores agradecem aos colegas professores, bem como aos seus orientandos de doutorado, mestrado e graduandos, pela participação e contribuições no desenvolvimento da pesquisa em seus diversos momentos, notadamente na coleta e análise dos dados discutidos nos capítulos 4 e 5 desta obra. Os escritos que fazem parte do livro compõem um conjunto de ideias que fundamenta a reflexão dos seus autores, dando suporte às análises dos trabalhos realizados em campo. Os três primeiros capítulos articulam referenciais sobre o ensino, a pesquisa e sua integração na docência universitária, objeto de aprendizagem na formação contínua de profissionais, particularmente formadores de formadores. Os dois capítulos finais, constituídos de resultados de dois estudos de campo, manifestam uma compreensão da integração ensino e pesquisa na prática pedagógica de docentes de dez cursos de graduação – bacharelados e licenciaturas – desenvolvidos em Fortaleza, na Universidade Estadual do Ceará/UECE, instituição multicampi. São inúmeros os aprendizados desse espaço-tempo de convivência em rede dos três grupos de pesquisa envolvidos na investigação, sendo objeto de menção a importância do trabalho coletivo no âmbito da pesquisa, estratégia central para a ruptura de práticas que favorecem o isolamento dos pesquisadores e mistificam a Ciência e a produção do conhecimento como atividade de iluminados. A colaboração entre pesquisadores iniciantes e investigadores experientes contribui para o fomento de uma cultura de pesquisa que se situe na contramão dessa perspectiva, desafio da universidade brasileira. Os autores Fortaleza, 30 de novembro de 2014 Capítulo 1 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA E FORMAÇÃO PARA ALÉM DO ENSINO: COMO PENSAMOS E EM QUE RACIONALIDADES NOS ANCORAMOS Começamos este escrito, que compõe o primeiro capítulo deste livro, com o registro de uma preocupação, relacionada à constatação de que os estudos sobre a formação docente em, particular em relação ao ensino em contexto universitário, focalizam predominantemente dimensões reduzidas da função do ensino, deixando em segundo plano outras dimensões inerentes ao trabalho do profissional de educação. Estimulado por esta preocupação, é que desenvolvemos a seguir breve reflexão, propondo o repensar de alguns elementos conceituais que propiciam um olhar que busca 'uma formação para além do ensino', o que traduz, em outras palavras, o título deste capítulo. A experiência com ensino e pesquisa na graduação e na pós-graduação, em orientações de trabalhos científicos, monografias, dissertações e teses, e em coordenação de grupos de pesquisa, propiciou vivências que também contribuem e nos fornecem dados empíricos para pensarmos o trabalho do professor na perspectiva de 'uma formação para além do ensino'. Não podemos deixar de considerar o fato de que adentramos um paradigma multifacetado no qual a dinâmica da ação educativa, vista sob o ângulo da educação integral, requer uma compreensão ampla do fenômeno da aprendizagem à vida profissional no mundo contemporâneo. A reflexão desenvolvida a seguir procede, portanto, com amparo em dois enfoques centrais em que os agentes da relação ensino/aprendizagem têm identidades e desempenhos próprios, embora em processo de relação intersubjetiva: o sujeito numa função de 'professor' trabalhando com outro sujeito numa função de aprendiz, 'o aluno'. Inicialmente iremos indagar quem é esse profissional, para, no segundo momento, considerarmos 'o que ele faz', ou seja, como sua práxis se molda a outro sujeito como interação de sujeitos.Assim, nos ancoramos nos estudos de Sa- cristán (1999), Tardif (2002), Therrien (2006) e Therrien e Carvalho (2009) para falarmos sobre o docente na qualidade de profissional; em Habermas (1997, 2002), Paulo Freire (2005), Sacristán (1999) e Casagrande (2008), para adentramos o sentido do ato de educar e nas racionalidades nele inseridas, inclusive a que denominamos de pedagógica; e, finalmente, a modo de síntese das reflexões da primeira parte, evidenciamos um caminho que concebe a 'formação para além do ensino' de que o capitulo dois vai tratar. É importante salientar que concebemos o trabalho docente, que tendo por objeto a relação ensino e aprendizagem, como ocorrendo em contextos situados que envolve uma tríplice relação: entre o educador como profissional de mediação, o aluno sujeito de uma intervenção humana e os conteúdos oriundos da vida no mundo em todas as suas dimensões, notadamente referendados em currículo e proposta políticopedagógica. 1.1 O docente como profissional de educação: algumas questões Mostrar o docente como profissional de educação supõe vê-lo sob o prisma de três requisitos fundamentais. Nesta óptica, nos referimos a um sujeito que domina saberes, produz significados, transformando pedagogicamente esses saberes, numa práxis regulada pela ética profissional. O trabalho desse profissional repousa num determinado campo disciplinar de formação, no qual adquire o domínio teórico de conteúdos específicos, o conhecimento/saber dos conteúdos a ensinar. Saber ensinar, por sua vez, supõe o domínio de outro campo, o campo pedagógico, que proporciona uma formação com fundamento também em conhecimentos/saberes teóricos. Genericamente expresssando, nos referimos a uma dupla competência - disciplinar e pedagógica. Por se tratar de uma ação em contextos situados, a atuação desse profissional reflete a dialética do saber e o ato do fazer, ou seja, da teoria e da prática. Considerando que a ecologia da sala de aula é permeada por saberes múltiplos e heterogêneos, quando respeita a diversidade e multiculturalismo do cotidiano escolar, o profissional de educação há de encontrar suporte para suas decisões de ação em outros campos que formam seu repertório de saberes. São os saberes curriculares dos conteúdos e níveis específicos de ensino, além daqueles constituidos no decorrer de sua trajetória particular de experiência profissional e de vida cotidiana. O repertório de saberes oriundos de campos diversos de conhecimentos e disponíveis para a prática do professor competente é constituinte, portanto, de um entendimento da formação para a docência cuja aprendizagem passa pela epistemologia da prática. Esse entendimento vai ao encontro do pensamento de Sacristán (1999, p.25), quando este acentua que "o domínio da teoria não pode ser desligado das práticas sociais". Por sua vez, Tardif (2002, p.254) conceitua esta prática no contexto dos debates de profissionalização dos professores, como "o estudo do conjunto dos saberes utilizados realmente pelos profissionais em seu espaço de trabalho cotidiano para desempenhar todas as suas tarefas". A competência pedagógica do profissional de docência não se esgota no domínio de saberes múltiplos e heterogêneos, que lhe permitem transitar na complexidade da condução do ensino. Essa competência é medida também pela sua capacidade de produzir significados e sentidos, transformando pedagogicamente seus saberes em contextos situados de interações intersubjetivas com os alunos aprendizes. Saber ensinar requer do docente a transformação pedagógica do conteúdo do ensino se admitirmos o pressuposto de que o professor transforma o conhecimento para torná-lo acessível aos seus alunos. Em outras palavras, o professor utiliza-se de seus esquemas práticos que simplificam a complexidade do ato de ensinar. Neste sentido, que Shulman (1987, p. 8) entende que o conhecimento pedagógico da matéria é "um amálgama do conteúdo com a pedagogia em um entendimento de como tópicos, problemas ou questões particulares são organizados, representados e adaptados aos diversos interesses e habilidades dos aprendizes e apresentados na instrução". Assim, a prática docente enquanto relação intersubjetiva de docentes com alunos por meio da ação comunicativa e dialógica busca aprendizagens significativas, o que significa produzir sentidos e significados, ou seja, novos contornos de saberes para o aprendente. Essas observações nos levam a conceituar o docente como sujeito hermenêutico e epistêmico. A característica eminentemente intersubjetiva da prática de mediação desse profissional afeta indiscutivelmente a identidade dos sujeitos aprendizes. Esse fator impõe o terceiro requisito de uma práxis profissional: a ética. Dado o reconhecimento de que a educação constitui ação social fundamental, o que em outros termos pode ser conceituado como o princípio político da educação, a gestão pedagógica dos processos educacionais, de responsabilidade do docente, há de ser regulada pela ética profissional, o que limita a autonomia do sujeito mediador, mas não inviabiliza uma formação cidadã. Assim pensando, nosso olhar sobre o docente como educador nos conduz a percebê-lo para além de uma função de mero 'instrutor' responsável pelo repasse objetivo e normativo dos conhecimentos socialmente reconhecidos. A atitude desse mediador enquanto 'profissional do saber' o projeta para a função de 'formador' de sujeitos situados no mundo da vida onde estes hão de descobrir os múltiplos saberes e significados que regem a vida desse mundo. 1.2 O sentido da educação e a racionalidade pedagógica Nova indagação, portanto, deve ser posta: que sentido faz 'educar' para o docente, particularmente no contexto universitário? Existem ainda espaços no contexto universitário para o discurso sobre a educação integral? Ou esta estaria para além do ensino? Estas indagações, no nosso entendimento, têm por pressuposto uma reflexão sobre o que significa ser profissional mediador de aprendizagem. Embora educar constitua a opção profissional dos professores e que todos eles sabem elaborar uma justificativa para esta opção, a diversidade de respostas se torna indicativa de algo em processo inconcluso de elaboração. Há mais de uma resposta ao sentido de educar; todavia, todas elas expressam a racionalidade dos sujeitos que as formulam. Entendemos como racionalidade o modo como cada sujeito articula sua compreensão e seus saberes sobre um fenômeno, acerca do mundo, a respeito da vida... Para alguns, educar se tornou um emprego conveniente no mundo do trabalho; outros, recorrem ao motivo de contribuir para a melhoria dos índices de educação e para o desenvolvimento da sociedade; certas pessoas, acreditam que a aprendizagem significativa é transformadora do mundo. De qualquer forma, a racionalidade subjacente a estas respostas exprime o modo como estes sujeitos articulam a sua práxis ou a sua ação educativa com a sua profissão docente. A resposta à indagação do motivo que move o educador no seu trabalho cotidiano, ou, ainda, na expressão de Sacristán (1999, p.17), do 'que move a ação educativa', quando este analisa 'a racionalidade possível na Pós-Modernidade e a relação teoria-prática', traz à cena não apenas o educador, como também o educando. A presença desses dois sujeitos participantes de uma relação intersubjetiva faz emergir para nós outra pergunta: que sentido tem o 'outro', o educando, nessa relação? Casagrande (2008), num estudo sobre a ação comunicativa e a aprendizagem na organização e estruturação da práxis pedagógica escolar, procura respaldo em Habermas (2002, 2003), para assinalar que a resposta a essas indagações (que sentido faz educar? Que sentido tem o outro?) passa pelos processos de formação e "pressupõe um entendimento de fundo acerca de como se constituem os sujeitos e a própria sociedade" (CASAGRANDE, 2008, p.15). Em outros termos, podemos assinalar que educar é mediar a formação da identidade dos sujeitos. A questão de fundo deste debate, na perspectiva habermasiana, está no fato de que a crise da educação possui relação estreita com a crise da racionalidade (CASAGRANDE 2008). Contribuindo decisivamente nesta reflexão, Prestes (1996, p.11) demarca: "A denominada crise na educação não é mais nem menos que a crise da modernidade e da racionalidade, das quais a educação se apresenta como filha promissora". Parece necessário dirigir um olhar inquisitivo para a emergência de um paradigma ainda pouco abordado no campo da educação e que podemos rotular nesse sentido, sob o título de racionalidade pedagógica. No trabalho docente, predomina indiscutivelmente uma racionalidade prática, de ação comunicativa, pelos recursos da linguagem que viabiliza as relações intersubjetivas dos participantes de processos de aprendizagem. Referimo-nos a uma racionalidade que permite dialogar com os diversos modos de apreender e compreender a vida profissional e cidadã no mundo e sua organização; uma racionalidade situada, cultural, histórica e científica, atenta às múltiplas vozes e faces da humanidade contemporânea: uma racionalidade dialógica fundante da práxis pedagógica. Esse olhar aparentemente diferenciado sobre o trabalho docente e a racionalidade no qual ele encontra explicação tem antecedentes conhecidos: disse Paulo Freire (2005) - uma racionalidade que 'permite' a leitura e a escrita do mundo; a isso acrescenta Habermas (1997, 2002) - uma racionalidade ampla, que supõe e viabiliza a comunicação intersubjetiva, dialógica, como modo de entendimento pela 'linguagem' na coordenação das ações; ou, ainda, nos espaços diversos da vida cotidiana, uma racionalidade que reconhece e busca compreender as múltiplas racionalidades que imperam nas famílias, nas escolas, na sociedade, no mundo contemporâneo. A indagação deste texto - 'para que educar?' - nos conduz a uma determinada compreensão 'do que é educação' e dos elementos constituintes da formação e da práxis do educador. Neste olhar, entendemos educação como aprendizagem à vida no mundo profissional e cidadão, à constituição de sujeitos, portanto, ao desenvolvimento de identidades de sujeitos e de sociedade mediante processos de socialização e de individuação. A racionalidade subjacente a essa compreensão tem suporte em pressupostos reconhecidos nos campos teóricos das Ciências Humanas. Reconhecendo o princípio humanista que a identidade do ser humano, do sujeito, reside na tensão dialética entre a individuação e a socialização, que o ser humano é ao mesmo tempo individual e coletivo - sujeito social único - a ação mediadora do profissional de aprendizagem há de se moldar em contornos adequados. A racionalidade pedagógica há de estruturar e organizar os saberes da ação docente, reconhecendo que o 'eu' do aprendiz necessita do 'outro' para se conhecer, se determinar, se emancipar, e vice-versa. O docente como mediador de aprendizagem tem de possuir clareza sobre os processos e a racionalidade que configuram a própria formação, de modo a perceber os significados da individuação e da socialização presentes na formação dos sujeitos na sociedade atual. Isto significa que a racionalidade dialógica/pedagógica de sua práxis intersubjetiva o torna também aprendiz à vida no mundo nos contextos de sua ação cotidiana, formando outros sujeitos singularese reconhecendo-se como sujeito único. Vivencia, pois, o docente, no nosso entendimento, os processos de socialização e de emancipação profissional e humana, a autodeterminação proclamada por Adorno (2003). Esses processos estão a exigir a formação do profissional reflexivo, crítico e transformador, vista como fundante da ação docente e que encontra suporte na compreensão da identidade como construção intersubjetiva (MARTINAZZO 2005). As racionalidades que perpassam a reflexividade são diversas. Nesse sentido, como entender e caracterizar a reflexividade necessária à gestão da prática educativa de um sujeito mediador de aprendizagem aos saberes e conhecimentos? A que reflexividade nos reportamos? A reflexão, na concepção de Sacristán (1999, p.45), é uma exigência que impomos a nós mesmo e aos demais em relação aos motivos que orientam a nossa ação, para que seja contrastada com as normas de comportamento aceitável. Entendemos que a racionalidade comunicativa é expressão de uma reflexividade que acolhe a individuação e a socialização, opostas à reflexividade monológica que permanece na consciência subjetiva da individuação, fator que nega e destrui o sujeito social. Esta ignora a expressão e o confronto de sentidos e de significados do mundo da vida de cada sujeito que a linguagem/diálogo propicia. 1.3 Formação para além do ensino Fundamentado o postulado de que socialização e individuação constituem faces de uma mesma moeda, podemos aventar interessantes considerações quanto à identidade do profissional de docência, os pressupostos e alcances do seu trabalho como mediador de processos de aprendizagem, entre elas: • conceber a educação como formação para além do ensino remete a desvelar o alcance da racionalidade intersubjetiva que propicia ensino-aprendizagem, assim como o fenômeno de constituição de identidade de sujeitos, tanto nos espaços escolares quanto em outros ambientes educacionais. Algumas definições gerais podem ser formuladas, expressando dimensões da postura do profissional de educação iluminado por uma racionalidade pedagógica, tais como se delineiam na sequência. • A compreensão do trabalho docente como práxis transformadora de um sujeito (professor) em interação situada com outro sujeito (aluno) em que a aprendizagem, como produção de identidade pela aquisição de novos saberes e significados, procede pela ação comunicativa da dialogicidade em direção ao entendimento entre ambos no horizonte de uma emancipação profissional e humana fundada no ser social. • A racionalidade que fundamenta o campo pedagógico requer a intersubjetividade de um movimento de coletividade em que a comunicação visa à construção do entendimento intersubjetivo pela dialogicidade, via argumentação, na busca de consensos na convergência de sentidos e significados, enfim; da sociabilidade. • A racionalidade pedagógica integra uma gama de fatores diversos, incluindo desde hábitos e elementos afetivos até elementos da razão instrumental/normativa e da razão comunicativa/interativa. • A integração desses fatores passa pela linguagem propiciadora da dialogicidade intersubjetiva, aberta, esclarecida, propiciadora de consenso/entendimento entre sujeitos situados num coletivo. • A atitude dialógica do docente educador propicia 'possibilidades' de reflexão conjunta acerca dos diversos pontos de vista e sentidos relativos aos conteúdos de aprendizagem. • Da complexidade do mundo contemporâneo decorre uma racionalidade complexa, condicionante de uma práxis dialógica de entendimento. Assim, os processos de ensino e de aprendizagem passam pela elaboração interdisciplinaridade, da de consensos, expressão multirreferencialidade, da da interculturalidade como formulação científica de verdades e sentidos em constante re-elaboração. • O confronto de múltiplos saberes e olhares sobre o real é condição de construção de novas compreensões do currículo e da vida do mundo, desafio para a práxis do professor, sujeito epistêmico. • No campo da educação e da práxis pedagógica, o pensamento de Habermas não revela um posicionamento teórico impositivo ou normativo. Em vez de rígidos princípios de ensino e de aprendizagem, ele propõe a ação/razão comunicativa, o diálogo aberto, significativo e pedagógico entre sujeitos no cotidiano dos ambientes educacionais (CASAGRANDE, 2008). Em síntese, a docência para nós é percebida como gestão e transformação pedagógica e ética do conteúdo do ensino voltado para a emancipação humana e profissional de sujeitos em formação, fundada numa racionalidade complexa, interativa, dialógica, de entendimento, que não exclui a racionalidade normativa. Compreendemos que a competência comunicativa ou dialógica do profissional de ensino é constitutiva do 'sujeito reflexivo crítico', não monologuista. Essa é uma competência que potencializa a criatividade e a inovação metodológica no trabalho docente, promovendo a qualidade do ensino e da aprendizagem e viabilizando a autodeterminação e emancipação dos sujeitos aprendizes. Na medida em que a docência expõe os envolvidos a uma atitude de reflexividade crítica e transformativa pelos confrontos das argumentações em vista ao entendimento, há de se reconhecer o fato de que, sendo a docência universitária regulada por uma racionalidade intersubjetiva ou dialógica, o trabalho do professor se torna constituinte de formação integral de sujeitos profissionais e cidadãos. Assim, nossa ideia é a de que o profissional de docência universitária é muito mais do que um mero instrutor de ensino, restrito aos conhecimentos de determinadas áreas da Ciência. É o que significa formação para além do ensino. Pensando assim, nossa preocupação agora com esse entendimento de docência universitária se volta para a complexidade da formação para além do ensino, tendo por esteio a reflexividade crítica como mediação do professor para aprendizagem do aluno e a pesquisa como um dos caminhos que desenvolve esse tipo de reflexão, questão que abordamos mais densamente no próximo capítulo deste livro. Capítulo 2 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA E A COMPLEXIDADE DA FORMAÇÃO PARA ALÉM DO ENSINO: A REFLEXIVIDADE COMO MEDIAÇÃO E A PESQUISA COMO AÇÃO O escrito a seguir, que estabelece um continuum com as reflexões do capítulo anterior, ao cuidar da docência universitária e da formação para além do ensino, focaliza alguns elementos que buscam contemplar a complexidade da formação inserida nessa concepção. São provenientes do texto anterior algumas assertivas que assinalam que, para uma educação integral ou uma formação para além do ensino, se faz necessário um profissional reflexivo, crítico e transformador. Esta condição é entendida como fundante da ação docente. Percebendo as racionalidades que perpassam a reflexividade como diversas, a indagação que levantamos se encaminha para o seguinte questionamento: como entender e caracterizar a reflexividade necessária à gestão da prática educativa de um sujeito mediador de aprendizagem aos saberes e conhecimentos? De que reflexividade estamos falando? Estudos que abordam o sentido da reflexividade exercida pelo profissional de ensino como mediação fundante de sua prática em contexto de ação situada foram objeto de análise de muitos autores nacionais e internacionais que, desde os trabalhos desenvolvidos por Donald Schön nos anos 1980 e, anteriormente, por John Dewey na década de 1940, focalizam as mais diversas dimensões dessa racionalidade. Outros ângulos em face de sua complexidade, contudo, continuam mostrando zonas cinzentas de compreensão, quando se questiona a formação para a prática reflexiva em contexto que integra a relação dialética entre ensino e pesquisa na docência universitária. O axioma de que a pesquisa produz conhecimento e de que o ensino produz aprendizagem a este conhecimento expõe o pressuposto de uma prática reflexiva crítica e transformadora, o que conduz a formular indagações sobre os elementos e os mecanismos que viabilizam essa dimensão. A compreensão da pesquisa como princípio educativo (DEMO, 1999) inclui na sua essência a ideia da produção de conhecimento como produto de aprendizagem, tendo a reflexividade situada como mecanismo de mediação. Que reflexividade é essa e que elementos a constituem? Como esta se manifesta na gestão da prática educativa? São indagações ainda pouco esclarecidas dessa racionalidade, as quais remetem às condições necessárias para a formação do profissional de docência nas instituições de ensino superior. O enfoque de uma prática educativa que integre ensino e pesquisa e do significado dessa abordagem no trabalho docente no chão da sala de aula decorre de preocupações de longa data em levantar questões de análise sobre nossa experiência de prática de ensino em disciplinas de Metodologia de Pesquisa na graduação e na pós-graduação, em orientações de trabalhos científicos, monografias, dissertações e teses, e ainda em grupos de pesquisa, além da produção científica sobre a temática (NÓBREGA-THERRIEN e THERRIEN, 2004, 2006; THERRIEN e NÓBREGA-THERRIEN, 2009; NÓBREGA-THERRIEN et al., 2009; FARIAS, 2005; SILVA, 2007). Essa trajetória proporcionou o desafio de identificar esquemas reflexivos que possam contribuir para integração ensino e pesquisa na prática docente cotidiana. A formação para a adoção de uma postura investigativa do educando, no nosso entender, tem suporte em referenciais que contribuem para nossa pretensão de busca da razão e legitimação de uma prática educativa de ensino integrado à pesquisa, e vice-versa, fundamentada em esquemas cognitivos e empíricos como marcos de um pensamento reflexivo-crítico. As principais contribuições teóricas encontradas na literatura de referência sobre a prática docente e a produção da pesquisa são provenientes de textos produzidos por Sacristán (1999), seguidos de autores como Arendt (1984), Demo (1999), Libâneo (2002), Habermas (1997), Perrenoud (2001), entre outros. A reflexividade relacionada à prática da pesquisa encontra igualmente fundamentos nos trabalhos de autores como Zeichner (1993), André (2001), Ludke (2001) e Pimenta (2002), dedicados a evidenciar esta relação e a importância de sua contribuição para formação. Propomo-nos, por um lado, identificar um esquema teórico ‘macro’ onde está submerso o entendimento da relação teoria-prática na ação educativa, que implica a análise dos tipos de conhecimentos, e, portanto, das racionalidades que movem essa dinâmica; de outra parte, identificar também esquemas teórico-práticos ‘micros’ ou pontuais mais relacionados à nossa ação/prática no contexto institucional. Os esquemas ‘macro e micro’ de reflexividade que apresentamos como quadro de fundo, e que entendemos responder ao nosso objetivo neste trabalho, possuem como elo uma teia de mediação, um movimento e uma dinâmica. Abordamos a reflexividade como um caminho que, segundo Sacristán (1999), se utiliza ou que se pode utilizar para alcançar níveis mais altos de racionalidade na prática. Os esquemas enunciados procuram captar o pensamento e a elaboração de um argumento constituinte de um fenômeno complexo que se encontra em movimento. Dito de outra forma, o desafio que nos propomos se ancora e se enriquece nos referenciais teóricos de apoio (contexto macro) e igualmente nas possibilidades do trabalho docente (contexto micro - metodologias e práticas), na tentativa de desenvolvermos uma ‘postura investigativa’ nos sujeitos da aprendizagem por meio da integração ensino e pesquisa. 2.1 Reflexão sobre a prática: todo pensamento sobre a prática é reflexão? A busca de um sentido para o que fazemos como educadores docentes no ensino superior nos leva a reclamar um espaço tanto para o aprofundamento de questões, sobretudo teóricas, inerentes a nossa prática pedagógica, como para nos distanciarmos um pouco dela e pensarmos sobre ela. Acreditamos saber o ‘que’ e ‘como’ fazemos, mas devemos procurar sempre os porquês desse fazer com a intenção de melhoria e de legitimação da prática que desenvolvemos. Daí nos ancorarmos inicialmente no que nos diz Arendt (1984, p. 107): “Todo pensamento nasce da experiência, mas nenhuma experiência obtém algum sentido ou coerência sem ter sido submetida antes as operações da imaginação ou do pensar”. Em seguida, complementa: “pensar sobre o que se faz é uma manifestação da condição reflexiva das pessoas em todas as suas atividades conscientes”. Todo ser humano é reflexivo, todos pensamos sobre o que fazemos. Refletir é voltar, pensar sobre si mesmo. Há sempre, no entanto, uma substantiva diferença e graus diversos de profundidade entre as reflexões (LIBÂNEO, 2002, p. 138). Pressupomos que todo ser humano é dotado de reflexividade; no entanto, nem toda reflexão é do mesmo nível, pois, como assinala Giroux (1997, p.15), “o enfoque reflexivo finda naquilo que ignora”. Assim, entendemos que o professor não deve limitar seu mundo de reflexão e ação somente ao momento presente da sala de aula. A necessidade de transcender esse nível de reflexão, limitada a uma visão técnica da realidade imediata, aponta para um trabalho de cunho intelectual e formativo que requer um saber-fazer (TARDIF, 2002). Situar o cerne do problema em foco no contexto da gestão da prática educativa conduz a indagar: que racionalidade articula os saberes e conhecimentos que fundamentam essa práxis e, portanto, que reflexividade dinamiza e dá forma à articulação desses saberes? Entendemos que, em situação de ensino caracterizada pelas relações intersubjetivas de ação comunicativa entre um sujeito mediador e sujeitos aprendizes, a reflexão transcende o sujeito individual, transpondo-o para uma dimensão social e coletiva que também não exclui sua individuação. A reflexão que entendemos crítica e transformadora da ação comunicativa e dialógica da docência, pressupõe dos sujeitos participantes dessa interação uma atitude de busca de entendimentos e consensos voltados para a produção de sentidos, significados e saberes que atingem suas identidades no horizonte de uma emancipação social (THERRIEN, NÓBREGA-THERRIEN, 2009). As racionalidades que perpassam a reflexividade são diversas. Nesse sentido, como entender e caracterizar a reflexividade necessária à gestão da prática educativa de um sujeito mediador de aprendizagem aos saberes e conhecimentos? De que reflexividade estamos falando? 2.2 A ação pedagógica implica reflexividade: de que reflexividade falamos? Acreditamos que os conceitos e dimensões da reflexão e os três níveis de reflexividade que atingem os agentes da educação expressos por Sacristán (1999) oferecem elementos importantes para adentramos questões que contribuem para a compreensão da nossa prática educativa e de ensino de pesquisa. Vejamos. A reflexão na concepção de Sacristán (1999, p.45) é uma exigência que nos impomos a nós próprios e aos demais em relação aos motivos que orientam a nossa ação para que seja contrastada com as normas de comportamento aceitável. Para o autor, há duas dimensões de reflexão e três níveis de reflexividade. Quanto às duas dimensões [...], “a primeira, que supõe o exercício da capacidade cognitiva para analisar, esboçar e avaliar as ações em contextos determinados, e a segunda, a que supõe sua utilidade moral para discernir o valor e o significado que possuem” (SACRISTÁN, 1999. p.45). Ficam evidenciadas nessas dimensões, de um lado, a autonomia do profissional de docência para caminhar em um sentido ou em outro e, do outro lado, suas responsabilidades pessoais, sociais e éticas na decisão que venha a tomar e que implica o ‘outro’ sujeito social. Como desenvolvemos nossa prática pedagógica em ‘contextos institucionalizados de ação educativa’, no caso da universidade, em disciplinas, em reuniões, em comunicações cientificas, na interação com outros sujeitos pares e alunos, o fazemos não somente com apoio nos nossos conhecimentos, crenças e racionalidades, mas com o entendimento de que estes elementos pessoais também são sociais, porque de certa forma, resultado de vivências compartilhadas socialmente. Admitir, refletir e dialogar com esse pensamento pessoal e compartilhado socialmente na concepção de Sacristán (1999, p.105), “é a primeira manifestação da reflexividade, mecanismo essencial para dotar as práticas de racionalidade, tornando os agentes conscientes das suposições que as influenciam”. Nesse sentido, a reflexividade, para ele, precisa unir as duas dimensões de reflexão há pouco referidas. Nessa lógica de compreensão, explicita-se o poder da reflexão como mecanismo de aperfeiçoamento, tanto do pensamento como da ação, do saber-fazer, no caso, o do docente. Para Sacristán (1999), o primeiro nível da refexividade refere-se aos componentes cognoscitivos da ação: ou seja, o distanciamento que o agente (sujeito) pode fazer de sua prática (objeto), para pensar sobre ela. Para o autor, é como se fora o primeiro passo de “teorizar” sobre a ação que entendemos como a prática consolidada. Desse modo, a primeira concepção da reflexividade de Sacristán (1999) é que esta é uma dimensão inerente à ação. É uma reflexibilidade de tipo imediato que tem origem na experiência, lugar onde as primeiras impressões podem caminhar para a compreensão, além das evidências aparentes que se encontram relacionadas diretamente ao senso comum. Nessa etapa, o compartilhamento com os outros, como professores e alunos, enriquece esse caminho, na medida em que os contextos de interpretações alimentam nova compreensão, mas que tem suas limitações. Sacristán (1999, p.129) lembra, no entanto, que a reflexibilidade de primeiro nível é importante e necessária, porque dela dependem as determinações do senso comum para poder operar. Para ele, no entanto, “essa reflexibilidade será esgotada, ou caminhará mais lentamente, ao ficar relegada a seus próprios recursos e as suas próprias invenções, se a do segundo nível não lhe oferecer outros materiais”. É nesse espaço que entra o conhecimento disciplinar ou cientifico, os saberes docentes (TARDIF, 2002) como fornecedores legitimados dos dados imbuídos de outras visões e compreensões da educação, os quais podem permitir aos sujeitos da educação a passagem ou ascensão do primeiro para o segundo nível de reflexividade. Mais concretamente, o surgimento do segundo nível de reflexividade na perspectiva de Sacristán (1999, p.177) ocorre “como uma racionalidade mais depurada e elaborada, que se situa na interação recíproca entre o conhecimento cientifico e o conhecimento pessoal ou o compartilhado, sendo estes ligados à ação e às práticas sociais que ficarão mediadas por aquele”. Ainda no entendimento do autor, “a reflexividade com a ciência dá o tom que diferencia um modelo de relação positivista entre a teoria e a prática, e outro, no qual a ciência é incorporada devido à sua penetração nos processos de reflexão-ação” (SACRISTÁN, 1999, p.117). Com apoio nessa lógica de pensamento, Sacristán (1999) deixa claro que existem certa mistura e alguma continuidade entre o senso comum e a ciência, e viceversa. Fica claro no seu discurso que, na sociedade do conhecimento, os fenômenos relacionados com a reflexividade de segundo nível são essenciais para compreender e orientar a educação e, por conseguinte, a prática docente. Quando o autor adentra a reflexividade de terceiro nível, registrada sob o titulo “pensar como e sobre quem pensamos a educação”, ele resume essa sua compreensão ao referir que, [...] a educação para os agentes que a realizam pressupõe o desenvolvimento de processos reflexivos de primeiro nível inseridos no contexto de seu senso comum e das instituições dentro das quais operam. Na modernidade, instaura-se, com toda a vigência, o principio de que esses processos, assim como o projeto de educação que estimula o sistema escolar, devem ser dirigidos racionalmente e de forma científica, desenvolvendo, assim, um âmbito de reflexividade de segundo nível que enriquece o primeiro. Pensar quais as características que ambos os tipos de reflexividade possuem é desenvolver outra de terceiro nível (SACRISTÁN, 1999. p.131) (Grifamos). Noutras palavras, precisamos ter clareza do que fazemos. Somos parte de uma realidade educacional que queremos entender e neste sentido devemos ser conscientes de nossas aportações como sujeitos que fazem teoria em contextos de educação que são sociais: “o domínio da teoria não pode ser desligado das práticas sociais” (SACRISTÁN 1999, p.25). É neste nível, que se torna mais evidente a complexidade da reflexividade constituinte do sujeito qualificada pela concepção gramsciana como ‘intelectual orgânico’ e que na sociedade contemporânea deveria ser referencial do perfil do profissional no âmbito da formação universitária. A linguagem feita elemento de comunicação e de dialogicidade, tanto nos contextos educacionais como da vida cotidiana, revela um espaço importante e fértil como instrumento e fator de entendimento e de troca nos encontros intersubjetivos essenciais à constituição da identidade de cada ser humano. A contribuição de Habermas (1997), com a compreensão de que a ação humana há de ser analisada na sua composição objetiva/instrumental e/ou ainda subjetiva/comunicativa, além de seus componentes estratégicos movidos por determinadas intencionalidades, fornece elementos para a compreensão de uma racionalidade movida por essa reflexividade de convergência que admite o encontro de racionalidades diversas e, portanto, de níveis de reflexividade que vão do senso comum ao olhar da ciência. A racionalidade objetiva do mundo sistêmico encontra plenitude junto à racionalidade subjetiva do mundo da vida: a integração de saberes e conhecimentos diversos constituem o cenário de formação de sujeitos profissionais e cidadãos. Da mesma forma, as dimensões da reflexão e os diversos níveis de reflexividade hão de constituir a competência do profissional de nível superior e, portanto, ser parte instituída dos seus processos de formação. Libaneo (2002), em estudo posterior ao de Sacristán, faz uma análise da noção de reflexividade nos campos da Filosofia e da Pedagogia, identificando também três níveis de reflexividade que conceitua como ‘três níveis de significados’; faz, contudo, uma diferenciação entre o primeiro nível e o segundo reconhecidos por Sacristán. Esse autor identifica o primeiro como consciência dos próprios atos, o pensar sobre si mesmo. A ação, para ele, só vai aparecer na reflexividade de ‘segundo significado’, onde a reflexão é entendida “como relação direta entre minha reflexividade e as situações práticas” (LIBANEO, 2002). Sacristán (1999), no entanto, refere que a ação que tem origem na experiência é uma dimensão inerente à reflexividade. Na leitura de Libaneo (2002, p.56-57), é no ‘terceiro significado’ (nível) que encontramos o que conceitua de reflexão dialética. “Há uma realidade dada, independente da minha reflexão, mas que pode ser captada pela minha reflexão”. Essa realidade ganha sentido com o agir humano, é uma realidade em movimento que necessita da elaboração de uma explicação do real. Esse autor apresenta também dois tipos básicos e opostos de reflexividade: uma que ele chama de reflexibilidade neoliberal e outra de reflexividade crítica. A primeira tem base na racionalidade instrumental, enquanto no campo oposto se encontra a reflexividade comunicativa crítico-reflexiva e hermenêutica pela busca do sentido e do significado. A análise de Libâneo, embora siga trilhas diferenciadas, se comparada às dimensões da reflexividade relacionadas por Sacristan, proporciona elementos complementares. No caso da ação educativa, que deve refletir sobre a realidade da educação e sobre os efeitos que ela produz nesta, está presente a ação dialética do ‘terceiro nível de reflexividade’; o que reforça a importância dos ‘atores’ ou agentes da educação serem possuidores de um conhecimento mais depurado, no caso, pela reflexividade de segundo e terceiro níveis. A contribuição da reflexibilidade no campo da educação está em desenvolver uma prática mais apurada para desvelar compreensões dessa área. Como educadores, este é o lugar, para Sacristán (1999, p.139), dos especialistas e intelectuais pesquisadores. Lembra o autor com relação aos ‘atores’ da educação de que, como a objetividade do conhecimento não é independente dos valores no momento de entender ou de esclarecer a prática, a formação destes intelectuais pesquisadores deve pressupor o reconhecimento das implicações de sua prática na construção da realidade. 2.3 Reflexividade como mediação da integração ensino e pesquisa na prática pedagógica universitária: contribuições metodológicas e práticas Entendemos que o desenvolvimento da reflexividade pela integração do ensino e da pesquisa constitui importante fator de mediação nos processos de formação profissional e cidadã. Reconhecemos que não é só por meio da pesquisa que o professor pode se tornar num profissional reflexivo, uma vez que a prática reflexiva não é uma metodologia de pesquisa. O entendimento de que a pesquisa é importante na formação, principalmente de formadores, aponta, todavia, para o desafio de desenvolver uma postura investigativa no educando como princípio de formação para a reflexividade crítica e transformadora, desafio que perpassa as atividades de ensino. Possibilidades de articulação do ensino e da pesquisa na formação docente foram desenvolvidas por André (2005, p.61) no início do ano 2000, quando indicava como a pesquisa pode se tornar um eixo ou núcleo de um curso, ou seja, que ela integrasse o projeto de formação inicial e continuado da instituição; e também fosse utilizada como mediação para a aprendizagem. São estas sugestões, contudo, que nos parecem ainda longe da realidade das universidades e mais ainda das escolas. Na área da saúde em contexto universitário, por exemplo, importantes mudanças ocorreram com os novos projetos pedagógicos propondo a integração das disciplinas em temas mais gerais de pesquisa, onde grupos de professores das disciplinas afins se articulam para evitar repetições de conteúdos e desenvolver enfoques metodológicos inspirados na ‘aprendizagem baseada em problemas’. Da mesma forma, experiências nossas no ensino em disciplinas de Metodologia da Pesquisa permitiram identificar contribuições metodológicas e práticas onde a reflexão é potencializada como mediação nas condições para a sua integração com a pesquisa. A reflexividade nos permite fazer um distanciamento da nossa prática pedagógica para podermos perceber com maior clareza como organizamos as tarefas e as atividades nas quais estão inseridos os conteúdos e as habilidades que queremos trabalhar com os nossos alunos. Como organizamos nossos esquemas para ensinar o que só pode ser aprendido na prática? Como integrar ensino com a pesquisa nesse processo? A estrutura na qual organizamos nossa prática de ensino depende, em grande parte, de parâmetros institucionais que estabelecem carga horária, número de créditos, distribuição das horas e créditos numa estrutura curricular de semestres, dias da semana e turnos, seguidos ou não. Entendemos que, ante essa estrutura, o planejamento e a organização de esquemas de aprendizagem ficam circunscritos a espaços, tempos, conteúdos e quantidade de alunos, o que exige do docente não apenas conhecimentos, mas igualmente saber ensinar. São requeridas habilidades para descobrir modalidades de abordagem dos conteúdos dentro ou fora do contexto escolar, despertando no aluno a motivação para aprender a pesquisar. Ademais, sendo o ensino mais do que uma mera interação do professor com o aluno, a ecologia da classe constitui elemento que se deve sempre ter em mente para o planejamento da prática educativa exitosa. Ao domínio dos conteúdos pelo docente se acrescenta o domínio do ofício de artesão, ou seja, da criatividade situada. Sacristán (1998, p. 203) acentua que “entender essa situação e planejá-la para que contribua para determinados propósitos implica um campo de conhecimento mais amplo no qual se atendam a todos os elementos e suas interações”. A reflexão que nos permite identificar e compreender os condicionantes das intervenções educacionais nos processos de ensino e de aprendizagem viabiliza, ao mesmo tempo, a busca e a análise de opções de ação que dão sentido e significado à nossa prática pedagógica no chão da sala de aula. O contexto específico do ensino superior é modelador dos processos de aprendizagem do aluno e dos esquemas nos quais nós professores atuamos com suporte na realidade de que somos integrantes. É reconhecido o ambiente da sala de aula como espaço caracterizado por circunstâncias e acontecimentos diversos e, muitas vezes, imprevisíveis que exigem ação imediata. Quando no início de um semestre letivo é apresentada a um grupo de alunos uma nova disciplina com seu programa, a ementa, os objetivos a serem alcançados, as tarefas a serem realizadas, o tempo para desenvolvê-las, os critérios de avaliação a utilizar, a bibliografia a consultar etc, nos encontramos em situações nas quais podem surgir comportamentos imprevisíveis dos alunos e proposta ou fatos que vão exigir uma decisão imediata do professor, o qual pode ou não optar pela negociação. Nesse exemplo, tão recorrente em um ambiente de classe, o professor mantém um intenso envolvimento pessoal, em que a reflexão e a comunicação constituem sua ferramenta mais usual. Essa necessidade imediata de posição não permite a maturação prévia de uma decisão, de maior objetividade para agir. Na óptica de Sacristán (1999), a complexidade desse ambiente (estrutura da prática) pode ser abordada mediante esquemas práticos subjacentes à ação do professor, como força determinante que regula sua prática e a simplifica. Em suas palavras, Alguns esquemas são relativamente estáveis, reclamados por um principio de autonomia de ordem psicológica no profissional e pelos condicionamentos institucionais e sociais que demandam pautas adaptativas de resposta. Esses esquemas de comportamento profissional estruturam toda a prática docente (SACRISTÁN, 1999, p.206). Daí o entendimento do autor de que, para renovar sua prática, o docente passa por uma acomodação de esquemas prévios em virtude da assimilação de outras propostas. Quando introduzimos novas tarefas ou tarefas mais adaptadas, as atividades que estamos propondo são reelaboradas com animo em dados prévios (reflexão-crítica) que podem ter surgido da observação da inadequação de determinada tarefa ou simplesmente por visualizarmos outra maneira de executá-la que acreditamos vai proporcionar os resultados desejados. Professores refazem seus esquemas com amparo em pequenas adequações com relação direta não somente com o conteúdo em si, mas também com o tempo da tarefa, as unidades de ensino, o número de alunos, entre outros fatores. Quando estabelecemos que o desenvolvimento de uma tarefa, como uma pesquisa bibliográfica, por exemplo, se dê na biblioteca, ou quando a tarefa envolve visita orientada à biblioteca, informando que os alunos devem observar e visitar mais de uma biblioteca, temos que planejar toda a atividade, que vai exigir a elaboração de um esquema de busca de bibliotecas, contatos com bibliotecários, endereços, horários, preparação do roteiro de visita e do que se pretende com a referida tarefa e a atividade utilizada para sua avaliação. Esse planejamento leva em consideração a ideia de que na atividade de visita vamos proporcionar aos alunos processos de formação à postura investigativa pela reflexividade necessária para o desenvolvimento das atividades de consulta de fontes, de descoberta dos elementos que necessitam para encontrar uma obra ou um autor, de adequação do manejo, da busca e da utilização da obra selecionada, de compreensão do funcionamento de uma biblioteca, da importância desta para sua formação, para sua profissão e a comunidade em geral, além da preparação de um relatório sobre a visita. A diversidade de atividades realizadas proporciona muitas informações e conteúdos de aprendizagens que podem posteriormente ser reutilizados quando da apresentação da tarefa em sala de aula. Aprender uma técnica, pensar sobre ela, expor o pensamento em forma de texto, analisar, e chegar a conclusões são exigências gradativas de complexidade variadas que ocorrem com o desenvolvimento da tarefa ‘visita orientada à biblioteca’. Quando da apresentação, em classe, do relatório de atividades, uma infinidade de questões e situações pode ser identificada, despertando também no aluno a motivação para nova busca de dados, sua organização, análise, discussão e conclusões. A teia que se forma, no nosso entendimento, há muito já iniciou o processo concreto de integração do ensino à pesquisa, desenvolvendo no aluno uma postura críticoinvestigativa. A reflexividade foi potencializada como mediação em todo esse processo. À primeira vista, o desenvolvimento dessa tarefa de ensino e de aprendizagem se expressa de forma técnica: visita orientada à biblioteca. O trabalho do professor, contudo, que inclui sua reflexividade é posto à prova e a experiência adquirida com o esquema por ele elaborado constitui novo saber que poderá favorecer outras práticas integradas de ensino e pesquisa. Adentramos a utilização de esquemas práticos que simplificam a complexidade do processo de ensinar pesquisa, promovendo uma atitude investigativa necessária à formação para realidades em constantes transformações. Em síntese, podemos assinalar que a reflexividade do ser humano que potencializa e dinamiza processos educacionais de emancipação é uma reflexividade de mediação na dialética que articula as dimensões individualizante e socializante da reflexão do sujeito, integrando os três níveis ou significados identificados, respectivamente, por Sacristán e Libâneo. Embora apontada como necessária à postura investigativa e, portanto, à identidade do profissional de educação mediador nos processos de aprendizagem aos saberes e conhecimento, essa reflexividade é essencialmente aquela que vem a constituir o ser humano na plenitude de sua emancipação. Essa compreensão nos remete à natureza da reflexividade que estrutura a racionalidade que move as relações intersubjetivas de ensino e de aprendizagem. Encontramos, assim, uma base para a compreensão da reflexividade fundante do movimento dialético que integra o ensino à pesquisa e vice-versa na produção de conhecimentos e de aprendizagem e que justifica a necessária atitude do profissional de ensino como intelectual pesquisador, mediador de aprendizagem; uma postura reflexiva que move sua prática e a formação dos seus aprendizes em contextos cotidianos de vivências que produzem sentidos, significados e saberes novos, pois expressam contornos de transformações proporcionados pela reflexividade crítica na relação ensino e pesquisa. Pensando assim, temos o mote do próximo capítulo, que questiona sobre a integração ensino e pesquisa no processo de construção do conhecimento na sala de aula universitária. Capítulo 3 ENSINO E PESQUISA NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NA SALA DE AULA UNIVERSITÁRIA: O QUE ACONTECE COM O ALUNO? Nossa experiência profissional como professores de uma instituição de educação superior, todos contando mais de 20 anos em docência universitária e em disciplinas ligadas à pesquisa, enseja inúmeras indagações relativas às dificuldades tanto de ensinar quanto de interessar o aluno a embarcar no processo de aprender pesquisando. Esse impasse suscitou nossa preocupação em conhecer e compreender as dificuldades, limitações e potencialidades dos professores e alunos no processo de produção do conhecimento, notadamente na integração do ensino à pesquisa em sala de aula. A concepção de prática da pesquisa na sua integração com o ensino e com a formação do pesquisador em disciplinas do currículo dos novos projetos políticopedagógicos dos cursos de graduação, no caso, nas áreas de saúde e educação4, nos levou a abordar esses elementos como questões importantes de investigação, tendo em vista conduzir melhor o ata de ensinar pesquisando. Nossa experiência docente e nossas inquietações abriram um campo de estudos e discussão que culminou com o início de algumas compreensões, entre elas, a formação de nível superior por meio da prática da pesquisa, não só nos cursos de pósgraduação, aos quais é atribuída essa função, como também nos de graduação. A instância caracteristicamente profissionalizante da graduação parece tê-la afastada dessa exigência, embora programas de incentivo a iniciação científica para alunos de cursos de graduação, concebidos e financiados por órgãos de fomento e pelas próprias 4Áreas em que atuam os quatros professores autores do livro. universidades5, há tempo estimulam essa dimensão. Na análise de Almeida et al. (1997), quando a graduação não tem papel ativo na preparação do pesquisador, a pósgraduação se torna um alvo mais vulnerável. Essa falta de preparação é igualmente identificada em dados coletados, nos últimos três anos, provenientes de 283 alunos das nossas disciplinas de Metodologia de Pesquisa, em cursos de graduação e pós-graduação6. Estes alunos apontam para a problemática em foco, particularmente quando manifestam dificuldades, principalmente na elaboração dos procedimentos metodológicos (149 alunos) e definição dos objetivos (83 alunos), seguida de preparação do texto da revisão de literatura - o estado da questão (71 alunos). A necessidade de romper com a dicotomia entre pensar e fazer, a teoria e a prática, o ensino e a pesquisa, conduz à percepção da importância da pesquisa na formação, desde a graduação, considerando a relação intrinsecamente articulada entre as categorias destacadas. Em face também das exigências do trabalho profissional na sociedade contemporânea, a compreensão do conceito de sujeito reflexivo e produtor de conhecimento no perfil de profissional que se pretende formar constitui componente por demais significativo. Dados esses pressupostos, surgem algumas indagações: como integrar pesquisa e ensino na sala de aula? Como fazer da pesquisa um componente imprescindível na formação profissional, com vistas a uma prática baseada na reflexividade? Como iniciar o aluno no processo de produção do conhecimento desde os primeiros semestres do seu curso de graduação? Como desenvolver no aluno a compreensão da importância da pesquisa na sua formação profissional? Como integrar o ensino e o aprendizado na pesquisa como referencial dos projetos políticopedagógicos dos cursos de graduação? Como trabalhar com os professores orientadores essa compreensão e no desenvolvimento de uma formação nessa perspectiva? Como fazer da universidade um espaço privilegiado para a formação para além do ensino? Acreditamos que nas respostas a estes questionamentos se 5 A observação do desempenho acadêmico de alunos que participam de grupos de pesquisa, particularmente com apoio do CNPq, CAPES, fundações estaduais e das universidades, permite fundamentar nossa leitura positiva dessa concepção. Sobre o assunto, ver: Nóbrega-Therrien, Almeida e Andrade (2009); Silva (2007). 6 Dados coletados junto aos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará-UECE e da Universidade Federal do Ceará-UFC. encontrem elementos esclarecedores ou indicadores para uma relação mais concreta entre ensino e pesquisa na sala de aula, buscando uma prática baseada na reflexividade, que implica formar cientificamente e para cidadania. 3.1 Contrapontos importantes Os cursos de formação inicial nas universidades privilegiam o ensino com tradição de aulas expositivas onde o aluno escuta, fala pouco e quase nunca escreve. Para Alves-Mazzotti (2002, p.49), “na graduação a oralidade continua sendo a tônica do ensino e a escrita, característica típica da ciência, tem lugar na sala de aula, geralmente, no dia da prova”. A autora entende que esse é o grande divisor de águas entre a graduação e a pós-graduação, reforçando seu argumento, fazendo o contraponto entre as duas instâncias de formação. Para ela, a graduação ”continua funcionando sob a regência da oralidade, da eficiência da retórica, das práticas oratórias, enquanto que a pós-graduação desenrola-se, predominantemente, no universo da escrita”. A deficiência na formação para a reflexão, necessária ao processo da escrita, é sentida pelo aluno quando ingressa na pós-graduação7. Mesmo com a exigência, em muitos cursos de graduação, da elaboração de um trabalho monográfico como requisito para a obtenção do titulo de graduado, a formação para pesquisa ainda não está sendo adequada, uma vez que continuam as dificuldades na pós-graduação em cursos de especialização e mestrados. Há um consenso, entre diversos autores, indicando que as dificuldades dos discentes para a realização de pesquisa nos cursos de pós-graduação decorrem de falhas na formação anterior, como registram Castro (1978; 2002) Gatti (1987), Fazenda (1993), Haguette (1994) e Alves-Mazzotti (2002). Esse despreparo dificulta a produção do texto dissertativo, o que se manifesta geralmente na pobreza teórico-metodológica na abordagem dos temas, na 7 São exceções, geralmente, os alunos que na graduação foram bolsistas de programas de iniciação cientifica. fragmentação e na irrelevância dos assuntos e, consequentemente, no atraso para a defesa, além de dificuldades na publicação e a pouca aplicabilidade de seus trabalhos na prática. Os próprios discentes se queixam do despreparo para a pesquisa que se articula com as dificuldades na escrita e na reflexão sistemática. Existe consenso entre autores, professores e orientadores sobre as dificuldades oriundas da elaboração da dissertação e, consequentemente, do processo de orientação em decorrência da falta de preparação para e na pesquisa. Com relação ao domínio e exercício da escrita, Castro (1978, p.323) já registrava em 1978 que “o grande ganho para o mestrando, era aprender a escrever”, mantendo sua análise em publicação no ano de 2002, ao afirmar que, “se o grande ganhador nesse processo é o aluno, não há dúvida que o grande perdedor é o orientador (..). Não raro, cerca de 50% do tempo de orientação são consumidos em questões de estilo, clareza ou forma”. Acrescente-se a isso a falta das habilidades fundamentais exigidas ao aluno pesquisador. A preocupação com o despreparo para a pesquisa na área de Enfermagem, por exemplo, foi manifestada ainda no ano de 1983, em estudo de Mendes e Trevisan (1983, p.13). As autoras apontam: “o despreparo do enfermeiro com relação à elaboração e a aplicação do produto das pesquisas à prática; a pequena ênfase que tem sido dada nos currículos dos cursos de graduação em enfermagem à metodologia da pesquisa; a falta de cursos de especialização sobre metodologia de pesquisa para enfermeiras de serviços...”. Estudo de Gradim, Resck e Heyden (2003, p.409), mais recente, relata as facilidades e as dificuldades com os trabalhos de pesquisa exigidos para conclusão de curso de graduação em Enfermagem. Para essas últimas,entretanto, “apesar das dificuldades, a pesquisa é possível de acontecer, sendo um processo dinâmico em que o aprender” se faz presente “tanto para discentes, como para os docentes”. Destaca-se, portanto, a existência de um impasse entre pós-graduação e pesquisa em confronto com graduação e pesquisa. A relação entre esses dois momentos de formação profissional nos leva a identificar um nó que estas reflexões pretendem contribuir para desatar mediante a articulação necessária que a integração ensino e pesquisa pode estabelecer. Considera-se que a tônica predominante da oralidade no ensino de graduação e as dificuldades dos docentes para orientação dos alunos podem ser apontadas igualmente como fatores responsáveis pela existência do referido nó. No caso dos professores, muitos são chamados a orientar sem nenhum preparo para essa função. O fator orientação é objeto de análise nos estudos de Haguette (1994), Pagliuchi (1997) e Machado (2001). Para Haguette (1994, p.163), “o domínio da pesquisa expresso em produção cientifica deveria ser a condição sine qua non para a habilitação de um docente a categoria de orientador”. Machado (2001, p.47) utiliza-se com habilidade dessas reflexões e estabelece claramente uma distinção entre um doutor, um pesquisador e um orientador. Para a autora, “para ser um bom orientador tendemos a pensar que é preciso ter passado por um doutorado e praticar a pesquisa. Entretanto, pode-se ter o título sem praticar a pesquisa e pode-se ter o título e exercer a pesquisa, sem necessariamente exercer a orientação”. Assim é estabelecido o consenso entre os autores citados quanto à afirmação de que o objetivo da formação do pesquisador não é cumprido a contento. O problema expresso de uma maneira mais ampla é o desafio da formação profissional, de um lado, oriunda de currículos engessados em disciplinas e desarticulados da pesquisa e, do outro, conduzida por docentes sem o devido preparo para orientação ou sensibilizados para introduzir a cultura da pesquisa em suas disciplinas. Ao mesmo tempo, se desenham cenários de trabalho movidos por processos de mudanças contínuas, fruto das exigências dos avanços tecnológicos, culturais e da complexidade característica da sociedade da informação. Como responder a estas exigências ou desafios? Acreditamos que os novos projetos políticoPedagógicos dos cursos de graduação são expressos como um caminho para dar direção e entendimento a uma formação profissional pautada nessa integração na produção do conhecimento. Entendemos que o ensino articulado à pesquisa deve objetivar a formação para a reflexão-na-ação, para a reflexividade crítica, de modo que o novo profissional seja preparado para os desafios que a prática social ampla exige e preparado na pesquisa para buscar respostas às indagações advindas de uma prática profissional situada. Os resultados do processo formativo podem alcançar maior fecundidade de acordo com a intensidade e fundamentação teórica propiciadas pela pesquisa que alicerça a reflexão sobre a prática, uma formação para além do ensino. 3.2 Elementos teóricos da relação ensino e pesquisa Mesmo integrado ao ensino, o processo investigativo mantém suas principais características. No primeiro momento de elaboração do projeto, são esboçadas as temáticas centrais relacionadas à disciplina de ensino e indicadoras da amplitude das questões ou problemas de investigação, as quais deverão ser aprofundadas e complementadas durante as fases subsequentes de estudo. O processo investigativo requer o desenvolvimento sistemático do ‘estado da questão’ (NÓBREGA-THERRIEN e THERRIEN, 2004) que conduz à delimitação específica do objeto e de suas categorias de análise. Neste são esboçadas categorias temáticas centrais que a literatura científica fundamenta como paradigmas significativos para a compreensão do fenômeno em foco. A literatura identificada não somente há de permitir o aprofundamento do estudo proposto na disciplina, como deve conduzir à definição e escolha dos procedimentos de investigação para a coleta de dados, conforme as opções disponíveis para o curso. De outra parte, as categorias identificadas na literatura servirão de referencial para a organização e análise dos dados e a elaboração das conclusões do estudo. A articulação intrínseca entre ensino e pesquisa nos processos de formação em cursos de graduação, encontra suporte referencial na epistemologia da prática. Esta perspectiva fundamenta explicitamente as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica – licenciaturas (CNE. Resolução CNE/CP n. 1/2002) e, por extensão, explicita uma compreensão que atinge os projetos pedagógicos de todos os cursos de graduação na modalidade bacharelado. A concepção dos processos de formação sob o olhar da epistemologia da prática (TARDIF, 2002; GIMENO, 1999; PACHECO, 1995), além de se apoiar na noção de práxis (VASQUEZ, 1977; GRAMSCI, 1978) na sua relação ao trabalho profissional, destaca a cognição e a ação situada na aquisição e construção dos saberes (LAVE, 1991; GERVAIS e LOIOLA, 2000). Os estudos em torno da dimensão da experiência no trabalho docente (THERRIEN, 2001; TARDIF, 2002) apontam a importância dos saberes envolvidos na prática, o que sugere a busca de abordagens centradas na análise da ação situada, apoiando-se nas teorias da ação (BOURDIEU, 1997; DUBET, 1994;) e nas metodologias de pesquisa sobre saberes profissionais e cognição em contexto (DURANT, 1996; TARDIF, 2002). Essas compreensões nos levam a conceber a pesquisa como principio articulador dos processos de ensinar e de aprender, e como principio de formação que pressupõe uma concepção de aprendizagem que capacite para o pensar e aprender continuamente (BOUFLEUER, 2001). A abordagem da epistemologia da prática na perspectiva da ação situada permite uma aproximação com o entendimento da docência como espaço de produção de saber. Em contexto de práxis intersubjetiva a intervenção docente procede mediante a transformação pedagógica da matéria de ensino, dando significado aos conteúdos no processo de aprendizagem (THERRIEN et al., 2005). Nesta perspectiva, a intervenção educativa requer do docente uma atitude reflexiva para sua tomada de decisão no encaminhamento da ação. Esse processo expressa a essência da relação ensino e pesquisa, tanto em relação ao professor como ao aluno. Tais referenciais teórico-metodológicos permitem abordar nossas questões de estudo baseadas nos pressupostos do professor pesquisador e na dimensão da formação do profissional reflexivo, integrando as práticas de pesquisa às práticas de ensino nos cursos de graduação. A formação para reflexão na entendimento do sujeito reflexivo e sua racionalidade prática encontra nos trabalhos pioneiros de Schön (1994) e Fenstermacher (1994) eixos de concretude e ancoragem. Os mesmos pressupostos, aplicados ao campo da docência, são abordados por Nóvoa (1992), Alarcão (1996) e Pimenta (2002). Na Enfermagem, entendemos que a integração ensino e pesquisa na formação do enfermeiro deve ser articulada, objetivando que o novo profissional seja preparado para os desafios que exige sua práxis. A literatura brasileira na área de Enfermagem exprime uma lacuna quanto a estudos e publicações que busquem investigar a produção desse conhecimento (SILVA, BALDIN e NASCIMENTO, 2003). Essa lacuna existe, embora o estudo de Assad e Viana (2003, p.44) traga importante contribuição, com o entendimento de que a formação do enfermeiro na área hospitalar está diretamente relacionada à sua experiência assistencial. Para as autoras, entretanto, os resultados do processo formativo podem alcançar maior fecundidade de acordo com a intensidade e fundamentação teórica, que alicerça a reflexão sobre as ações, o que só acontece por via da articulação ensino e pesquisa durante a formação. O conceito de sujeito reflexivo foi desenvolvido, principalmente, por Schön (1994), em seus estudos sobre os saberes ocultos nos processos de decisão da ação profissional8. Fenstermacher (1994), por sua vez, considerou que Schön identifica e caracteriza o sujeito reflexivo, porém não esclarece os processos de reflexão dessa prática. Ele desenvolve a noção de racionalidade prática, também designada pela expressão de “raciocínio prático”, observando que este “é o meio para compreender e explicar as ações”. Na área da saúde, e como exemplo citamos a de Enfermagem, esse modo de raciocínio se aproxima do conhecimento intuitivo que se destaca na literatura dos Estados Unidos das duas últimas décadas. Na Enfermagem brasileira, contudo, há uma lacuna de estudos nessa dimensão (SILVA, BALDIN, NASCIMENTO, 2003), já referida. Essa concepção, identificada por Schön e ampliada por Fenstermacher e outros autores, proporciona pistas importantes para a análise da natureza dos saberes práticos reflexivos presentes no cotidiano dos profissionais de saúde e educação, o que reforça a necessidade de desenvolvimento da reflexão nos processos de formação de sujeitos reflexivos. Consideramos esta como fator indispensável à prática e a postura tanto do professor como do futuro profissional, devendo fazer parte do currículo dos cursos de graduação na compreensão de que os projetos pedagógicos devem associar e integrar as práticas de ensino e de pesquisa como elemento essencial de formação. Essa perspectiva de formação estabelece um desafio para o docente, na medida em que este precisa incorporar, uma nova gestão de conteúdos e de classe, 8 Schön, em seu estudo inicial, publicado em 1983, analisa o processo reflexivo da ação profissional, na área da ciência aplicada, de engenheiros, arquitetos, administradores, psicoterapeutas e urbanistas. O autor destaca a estrutura da reflexão no decorrer da ação e sobre a ação, identificando como se forma o pensamento profissional no contexto da ação e como os profissionais procedem à solução dos problemas que enfrentam. Destacando a prática reflexiva e as profissões de origem científica, Schön (1994, p.209) afirma: “a medicina, a agronomia e a engenharia são os próprios exemplos de profissões que recorrem ao saber científico. Existem muitas outras como a odontologia, a meteorologia, a enfermagem, a administração, a engenharia florestal” que têm suas raízes nas ciências ou são influenciadas por conhecimentos fundados nas ciências em que existem aprendizagem prática da profissão. Assim, afirma que “os adeptos do modelo da ciência aplicada consideram que os práticos que aderem a este tipo de profissão têm condições de resolver problemas técnicos”. SCHÖN, D. A. Le praticien réflexif: a la recherche du savoir caché dans l’agir professionnel: Montreal: Les Éditions Longiques, 1994. em que professor e aluno precisam assumir atitude investigativa, reconhecendo-se como aprendentes. Para Boufleuer (2001), é preciso aprender, buscando entender a lógica que estrutura os conhecimentos, que os faz reconhecidos como pretensamente válidos ou superados no momento seguinte. Esse aprendizado só pode ser obtido por meio de uma atitude investigativa por parte do aluno e de uma estrutura do processo formativo na lógica da pesquisa. Os estudos desenvolvidos sobre a formação na e para a pesquisa apoiam-se em referenciais teóricos e em análises de dados empíricos provenientes, predominantemente, da área da pós-graduação stricto sensu. A expansão desses cursos no Brasil gerou o aumento da produção científica e a necessidade da orientação dos trabalhos exigidos para sua conclusão, com sua consequente avaliação. Do material produzido, optamos por estudos que focalizam a formação de pesquisadores, e, nessa formação, aquela que reflete sobre o processo de produção do trabalho científico e de orientação. Mesmo que esses estudos tenham como objeto de investigação a pós-graduação, eles oferecem o contraponto para análises na graduação. Assim, centramos essa argumentação teórica nos estudos de Almeida et al. (1997) e Alves-Mazzotti (2002), entre outros autores citadosnestas passagens deste livro, que evidenciam o papel da graduação na formação em pesquisa, apontando sua inexistência ou inadequação como um limite entre este subnível e a pós-graduação. Dos principais fatores identificados, destacamos a dificuldade na escrita por parte do aluno e os problemas enfrentados pelos docentes ao assumir a função de orientação. Entendemos que a formação na graduação deve ter como concepção pedagógica o desenvolvimento de habilidades que objetivem a elaboraçao do conhecimento na prática interativa de profissionais reflexivos, aqueles que, ao realizarem sua prática, vão além da ação instrumental. Para essa formação as atividades de pesquisa devem ser integradas ao currículo escolar. Nesse contexto de reflexões teórico-metodológicas, destaca-se outra categoria recorrente na literatura sobre a formação em cursos de graduação e central nas diretrizes curriculares emanadas do Conselho Nacional de Educação Aacompetência e a prática habilidosa. Estes se encontram presentes na reflexão e na ação dos profissionais em situações de incerteza, singularidade e conflito vivenciadas no seu mundo de trabalho, tem respaldo teórico e argumentativo nos estudos desenvolvidos por Gauthier (1998), Therrien (1997, 1998), Tardif (2002) e Markert (2002, 2004). Na área da saúde, Santos (2004) contribui com a análise das competências e habilidades gerais prescritas pelas diretrizes curriculares para os profissionais de saúde em geral. Nessa linha, seguem os estudos de Meyer e Kruse (2003) e Ramos (2003), que discutem a compreensão de competência nas diretrizes curriculares e projetos pedagógicos no caso de curso de Enfermagem. Por sua vez, Witt e Almeida (2003) refletem sobre a construção da competência dos profissionais na área de saúde pública como busca de resolução dos problemas, considerando as transformações ocorridas nesta área e no mundo do trabalho. Os estudos de Markert (2002, 2004) tratam das mudanças no mundo do trabalho e da exigência de maior qualificação, definindo as capacidades para entender esse processo de produção nas competências integrais e universais, com origem em um referencial dialético. Ele oferece contribuições para a formação do profissional transformativo, que no nosso entender só ocorrente na relação ensino e pesquisa. Os estudos de Meyer e Kruse (2002) e de Ramos (2003) exprimem essa preocupação, quando fazem a análise, entre outras questões, do discurso sobre competência nas diretrizes curriculares e projetos político-pedagógicos e de seus (múltiplos) sentidos. Nascimento, Santos, Caldeira e Teixeira (2003) contribuem com reflexões sobre a formação por competência do enfermeiro e a sua profissionalização. Santos (2004) também contribui na medida em que faz uma reflexão sobre esta formação na perspectiva das competências, indicando que a discussão sobre as diretrizes curriculares provoca as escolas a terem, de fato, talvez pela primeira vez na história, um projeto político-pedagógico explícito. Esse, no nosso entender, deve estar pautado na dinâmica da pesquisa. 3.3 Fechando reflexões e abrindo para ação no campo As considerações registradas em forma de reflexões sobre o problema identificado na nossa prática profissional, na qualidade de professores das disciplinas relacionadas à pesquisa em cursos de graduação e pós-graduação, nos indicam, por um lado, a clareza da opção de análise dessa questão com base em uma epistemologia da prática que fundamenta a compreensão do profissional reflexivo e a reflexão na e para a ação como fatores de formação para a produção do conhecimento, temática abordada nos capítulos anteriores. Por outro lado, nos encaminham para a busca de maiores evidências no campo da experiência onde se possa descrever e analisar a relação entre ensino e pesquisa no contexto e na prática dos cursos de graduação, alvo de atenção do Estudo Um e do Estudo Dois abordados nos próximos capítulos. Reafirmamos aqui a centralidade da epistemologia da prática na formação para a pesquisa e na pesquisa, esteio para desenvolvimento da reflexividade, fazendose necessário identificar, analisar e compreender essa relação no cotidiano de docentes e discentes envolvidos no processo. Esse entendimento ancora as análises dos dois capítulos iniciais desta obra, acrescidos com os apontamentos sobre as possibilidades de integração entre ensino e pesquisa, uma experiência do grupo de professores-autores com foco em seus alunos em sala de aula. Ao discutir e elaborar reflexões sobre a proposta de uma formação integral ou de uma formação para além do ensino na presente obra, proposta ancorada nos argumentos teóricos já trabalhados, que apontam a integração ensino e pesquisa como caminho para o desenvolvimento de habilidades reflexivas críticas e de contribuição para uma atitude investigativa por parte do aluno, nos voltamos para a necessidade premente de conhecer essa relação de integração (ensino e pesquisa) no processo de produção do conhecimento por parte ou com foco nos professores da universidade, uma vez que a concepção de formação aqui defendida exige para sua implementação exitosa um profissional crítico, reflexivo. Assim pensando a formação, bem como as exigências expressas, a indagação que fazemos é: como se encontram os professores universitários na gestão pedagógica de sua sala de aula, que exige a integração da teoria com a prática e, consequentemente, do ensino com a pesquisa? Como se encontram envolvidos com a pesquisa? O Estudo Um e o Estudo Dois, abordados nos capítulos quatro e cinco desta obra, evidenciam essa realidade. Capítulo 4 A INTEGRAÇÃO ENSINO E PESQUISA ENTRE PROFESSORES UNIVERSITÁRIOS COM VÍNCULO COM PESQUISA: O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO - ESTUDO UM Conhecer a prática de ensino de professores universitários que pesquisam nos pareceu uma via necessária ante o nosso entendimento e preocupação com a docência universitária em tempos contemporâneos, explicitada de modo mais denso nos textos que compõem os primeiros capítulos deste livro. Precisávamos de elementos empíricos que contribuíssem para ampliar o conjunto da discussão sobre a integração ensino e pesquisa no processo de elaboração do conhecimento. As respostas que evidenciam o desenho dessa realidade são resultado de dois grandes estudos coordenados por nós, autores dessa obra e professores da Universidade, com apoio dos grupos de pesquisa por nós liderados (bolsistas de graduação e pós-graduação). Os projetos desenvolvidos deram suporte às análises que aqui identificamos como ‘Estudo Um’ e, posteriormente, ‘Estudo Dois’ (Capítulo 5), que vêm ao encontro do desafio anunciado no começo deste livro e que chamamos de formação integral ou formação para além do ensino. 4.1 A origem e a proposta do Estudo Um O interesse em compreender a ação docente universitária em situação real de trabalho, especialmente os contornos da gestão pedagógica em cursos de graduação, considerando a relação pesquisa e ensino, apoiou-se no parâmetro da reflexividade fundante da produção de saberes em contexto de ação e no paradigma da epistemologia da prática, tendo também na racionalidade comunicativa e dialógica a base de nosso entendimento – questões teóricas tratadas nos capítulos um e dois deste volume. Esses elementos conceituais compõem o quadro heurístico que iluminou a investigação desenvolvida no Estudo Um e que tem como locus a Universidade Estadual do Ceará-UECE9. Seu desenvolvimento foi norteado por inquietações acerca de como ensinam professores universitários com vínculo com pesquisa, assim formuladas: que práticas pedagógicas desenvolvem os docentes que possuem vínculo com pesquisa? Que estratégias de ensino utilizam para iniciar o aluno no processo de elaboração do conhecimento? Como enfrentam as dificuldades encontradas no percurso da ação docente? Como entender a prática pedagógica desses professores sob o referencial do sujeito reflexivo, crítico e transformador? As questões norteadoras da investigação delinearam como objeto de análise a prática pedagógica de docentes universitários atuantes em pesquisa – seja ministrando disciplinas no campo da investigação científica, seja participando de grupos de pesquisa e/ou desenvolvendo projeto de pesquisa. Este recorte levou em conta o propósito de conhecer e compreender se a pesquisa se faz presente como princípio educativo (DEMO, 1999) na prática pedagógica de docentes universitários. Esta intencionalidade, nos permitiu olhar para as distintas formas em que o ensino de graduação está organizado no contexto ueceano, tanto nos cursos de bacharelado quanto na licenciatura, pois nesta IES elas dispõem do mesmo corpo docente. Apoiado nessa premissa, investigamos dez cursos de graduação da UECE, abrangendo três áreas de conhecimento: Ciências Humanas (História e Pedagogia), Ciências da Natureza e Matemática (Física, Química e Matemática) e Ciências da Saúde (Ciências Biológicas, Educação Física, Enfermagem, Medicina e Nutrição). Desse 9 Instituição multicampi, atualmente presente, além da Capital cearense, em seis unidades localizadas nos Municípios de Limoeiro do Norte, Iguatu, Quixadá, Itapipoca, Crateús e Tauá. Em Fortaleza, a UECE conta com dois campi: o Campus Itaperi (que compreende o Centro de Estudos Sociais Aplicados - CESA; o Centro de Educação – CED; o Centro de Ciências e Tecnologia – CCT; Centro de Ciências da Saúde – CCS; Faculdade de Veterinária – FAVET; Administração Superior) e o Campus Fátima (que agrega o Centro de Humanidades). No interior do Estado encontram-se: a Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM – Limoeiro do Norte); a Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (FECLESC - Quixadá); a Faculdade de Educação de Crateús (FAEC Crateús); a Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu (FECLI - Iguatu); a Faculdade Educação de Itapipoca (FACEDI - Itapipoca); o Centro de Educação, Ciências e Tecnologia da Região dos Inhamuns (CECITEC - Tauá). conjunto, dois cursos são ofertados na forma de bacharelado e licenciatura (Física e Ciências Biológicas), três são somente bacharelado (Nutrição, Enfermagem e Medicina) e os demais estão configurados como licenciatura (História, Pedagogia, Matemática, Química e Educação Física). A investigação teve os objetivos delineados a seguir. Contribuir para o debate sobre a relação ensino e pesquisa na docência universitária, em particular sobre a prática pedagógica de professores que desenvolvem atividades de pesquisa no exercício de suas funções docentes neste contexto. Compreender a gestão pedagógica na docência universitária e sua relação com as orientações da proposta de formação profissional da legislação vigente, tendo em vista o binômio ensino e pesquisa. Caracterizar a gestão pedagógica de professores que desenvolvem atividades de pesquisa no exercício de suas funções docentes na Universidade, as dificuldades e formas de enfrentamento desenvolvidas para favorecer a construção do conhecimento pelo aluno nas situações cotidianas de trabalho. 4.2 A origem e o caminho trilhado A problemática da investigação incidiu sobre a natureza do ‘saber ensinar’, considerando a integração da pesquisa ao trabalho pedagógico do professor universitário em situação de ensino. O estudo partiu do reconhecimento do trabalho docente como práxis intersubjetiva e prática situada sustentada por valores, teorias, experiências e elementos contextuais (THERRIEN e THERRIEN, 2000). Apoiou-se na premissa de que o ensino é um trabalho interativo, que acontece em um dado contexto e situa em relação sujeitos distintos e com propósitos diferentes (a instituição formadora, cabe ensejar o ensino mediante determinados objetivos de aprendizagem; ao aluno, aprender; ao docente, garantir a aprendizagem com procedência na ação pedagógica), os quais precisam interagir para concretizar suas intenções. O professor, portanto, não faz o que bem quer e entende. A ação do profissional docente é constituída de relações; ele age ‘sobre’ e ‘com’ seres humanos (TARDIF e LESSARD, 2005). No cotidiano do seu trabalho (dentro e fora da instituição), trava relações com pessoas capazes de iniciativa e que podem aderir de modo subjetivo ou não a ela. Nesse sentido, evoca atividades complexas que envolvem “a existência de meandros recorrentes de conhecimentos, emoções, juízos de valores susceptíveis de ser constantemente reformulados nas relações” entre os sujeitos em causa (MAHEU e BIEN-AIMÉ 1996, p. 190). Este traço do trabalho docente revela seu caráter de ação situada, de atividade complexa cujo objetivo é a adaptação a uma situação. Por este motivo, faz-se necessário descrever e analisar a situação para compreendê-la. Como postulam Therrien e Loiola (2001, p. 148), “é conveniente considerar simultaneamente os limites da situação de ensino e as características dessa atividade profissional, tendo em vista a análise do saber-ensinar”. O delineamento metodológico da investigação, respaldado nessa compreensão e nos estudos sobre a epistemologia da prática, encontrou suporte na investigação de base empírica e qualitativa, buscando compreender o docente como sujeito que edifica sua ação mediante as relações que estabelece no seu contexto de trabalho, as quais podem ser explicitadas por via de seus discursos práticos (falas e ações) (FARIAS, 1997, 2002). A investigação foi desenvolvida com base em quatro etapas: seminários temáticos de aprofundamento e atualização; coleta preliminar de dados diagnósticos e da documentação; coleta de dados em situação de aula mediante observação e entrevista de explicitação; análise dos dados e consolidação dos resultados. Os Seminários Temáticos de Aprofundamento e Atualização (ETAPA I) materializaram-se em encontros regulares envolvendo os três grupos de pesquisa visando à discussão de questões conceituais sobre o objeto de estudo da investigação e de aspectos vinculados a sua operacionalização, atividade-alvo de registro descritivo sistemático no formato de memórias10, documento sempre socializado no encontro subsequente. 10 As reuniões foram gravadas em áudio e transcritas por bolsistas de iniciação científica, material que serviu de base para a elaboração das memórias. Até o final da investigação, foram elaboradas 29 memórias, disponíveis na lista de discussão do grupo da pesquisa ([email protected]). A coleta preliminar de dados diagnósticos e da documentação (ETAPA II) abrangeu um conjunto de ações, visando à subsidiar decisões relativas a este tópico, quais sejam: a) identificação dos cursos de graduação da UECE/Capital e de todos os professores vinculados ao seu colegiado; b) identificação e organização dos dados em quadros, por cursos, dos professores que ministram disciplinas relacionadas à pesquisa e ou atuam em grupos de pesquisa cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq; c) identificação e organização dos dados em quadros, por curso, dos grupos de pesquisas dos quais os professores participam; d) identificação, coleta e organização das diretrizes curriculares vigentes acerca da formação de professores em nível superior (pareceres e resoluções) e dos projetos político-pedagógicos dos cursos de graduação da UECE e; e) elaboração dos instrumentais para aproximação inicial aos docentes participantes do estudo. No inventário dessas informações, realizado com o suporte de bolsistas de iniciação científica, foram visitadas as coordenações de cursos, utilizadas informações disponíveis no Plano de Atividade Docente-PAD11 do semestre 2009.1 e no site da PROGRAD/UECE (http://www.uece.br/prograd/), além de consultados ainda os currículos lattes dos docentes. Nos dez cursos de graduação da UECE selecionados como campo da investigação, foram identificados 306 docentes vinculados às respectivas coordenações de curso no semestre 2009.1, conforme mostra o Quadro 1. Quadro 1: Caracterização do universo de sujeitos da pesquisa na UECE/Fortaleza – CE (Semestre 2009.1) Total de Professores do Curso Curso Efetivo Subs titut o Outro Total Pedagogia Matemática História Ciências Biológicas 40 20 22 22 09 02 01 05 04 01 - 53 22 24 27 11 Docentes com vínculo com pesquisa Atua Participa Atua em Total de somente somente disciplinas Sujeitos em de e Grupos da disciplinas Grupo de de pesquisa de Pesquisa Pesquisa pesquisa 06 07 11 24 01 01 01 06 04 11 00 11 02 13 O material foi disponibilizado pela Pró-Reitoria de Graduação-PROGRAD da UECE. Sem atuação em pesquisa 29 21 13 14 Educação Física Nutrição Enfermagem Medicina Química Física Total Geral 13 05 - 18 03 01 - 04 14 27 34 41 21 17 06 06 04 02 03 01 - 33 40 46 23 20 03 - 14 25 17 06 09 01 04 06 06 17 26 21 12 15 16 14 25 11 05 257 43 06 306 13 97 34 144 162 Dos 306 professores identificados, somente 144 (47%) apresentaram vínculo com pesquisa, ou seja, participavam de grupos de pesquisa e/ou ministravam disciplinas relacionadas à investigação científica e/ou participavam ou desenvolviam projetos de pesquisa. Foi para esse universo que o estudo voltou sua atenção. Em relação aos documentos, procedemos à identificação e à coleta de materiais (arquivo digital e impresso) relacionados às diretrizes curriculares vigentes em torno da formação de professores em nível superior (pareceres e resoluções), bem como os projetos político-pedagógicos (PPP) dos cursos de graduação em foco no estudo. O Quadro 2 traz os documentos governamentais utilizados na pesquisa. Quadro 2: Descrição dos documentos consultados relacionados aos cursos pesquisados. Documento Parecer CNE/CP nº. 009/2001 Resolução CNE/CP nº. 1/2002 Parecer CNE/CP n.º 5/2005 Resolução CNE/CP nº. 1/2006. Parecer CNE/CES nº. 492/2001 Resolução CNE/CES nº. 13/2002 Parecer CNE/CES nº. 0058/2004 Resolução CNE/CES Descrição Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica (DCNs). Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Filosofia, História, Geografia, Serviço Social, Comunicação Social, Ciências Sociais, Letras, Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de História. Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Educação Física Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Educação Curso Orientação geral Pedagogia História Educação Física nº. 7/2004 Parecer CNE/CES nº. 1.303/2001 Resolução CNE/CES nº. 8/2002 Parecer CNE/CES nº. 1.304/2001 Resolução CNE/CES nº. 9/2002 Parecer CNE/CES nº. 1.302/2001 Resolução CNE/CES nº. 3/2003 Parecer N°: CNE/CES nº. 1.301/2001 Resolução CNE/ CES nº. 7/2002 Parecer CNE/CES nº. 1.133/2001 Resolução CNE/ CES nº. 5/2001 Parecer CNE/CES nº. 1.133/2001 Resolução CNE/ CES nº. 4/2001 Parecer CNE/CES nº. 1.133/2001 Resolução CNE/ CES nº. 3/2001 Física Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Química Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Química Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Física Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Física Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Matemática Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Matemática Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Ciências Biológicas Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Ciências Biológicas Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Enfermagem, Medicina e Nutrição Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Enfermagem, Medicina e Nutrição Explicita as referências conceituais que balizaram as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição Institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de Enfermagem, Medicina e Nutrição Química Física Matemática Ciências Biológicas Nutrição Medicina Enfermagem O exame desses materiais foi realizado buscando identificar o tratamento dispensado à pesquisa nessas orientações, considerando a formação profissional. As análises evidenciaram o reconhecimento da pesquisa como princípio formativo no conjunto desses dispositivos legais. Diferente da coleta das fontes anteriores, localizadas nos endereços eletrônicos de órgãos públicos e entidades classistas, os projetos político-pedagógicos (PPP) dos dez cursos de graduação em foco nesse estudo não foram de fácil acesso. Além de não se encontrarem disponíveis no site institucional, alguns ainda estavam nas coordenações de curso e/ou em fase de finalização, como no caso do curso de História. Esta situação tornou demorados a identificação e o acesso a esses documentos. Concomitante a esta atividade, encaminhamos também a sistematização dos instrumentais a serem usados na coleta de dados diretos: um resumo do estudo, um questionário estruturado, um guia de entrevista e de observação - todos resultados de uma ação coletiva. A elaboração do resumo e do questionário, atividades marcantes da segunda etapa da investigação, envolveu, inicialmente, apenas os quatro pesquisadores que, com base nas discussões anteriores, sistematizaram uma versão preliminar desses materiais, posteriormente discutidos e finalizados coletivamente. O resumo elaborado visava esclarecer aos sujeitos da pesquisa sobre o foco da iniciativa, seus referenciais e importância para a área, razão pela qual ele foi entregue durante o contato inicial com os professores para solicitar sua participação na investigação. O contato ocorreu tanto de forma presencial quanto por via eletrônica - esta somente quando não foi possível o encontro direto com o docente. O questionário foi composto por questões que permitiram apresentar um perfil da atuação em pesquisa dos professores vinculados aos dez cursos de graduação em foco no estudo, haja vista que procurava detalhar a relação desses profissionais com esta atividade no exercício de suas funções docentes na Universidade. Sua aplicação, feita por pesquisadores, colaboradores e bolsistas de iniciação científica, ocorreu tanto de forma presencial quanto por via eletrônica, esta última somente quando não foi possível o encontro direto com o docente. Dos 144 docentes com vínculo com pesquisa, um grupo de 108 (75%) respondeu ao questionário. O afastamento temporário para tratamento de saúde, viagens para missões de estudo de curto prazo e/ou para participar de eventos, somados ao registro de alguns professores da não disponibilidade para participar da pesquisa, são alguns dos motivos que explicam por que a aplicação do questionário não contemplou todo o universo inicialmente previsto. Os contratempos dessa etapa da pesquisa forneceram, ainda, pistas sobre as dificuldades a serem enfrentadas na inserção da sala de aula desses professores. A coleta de dados em situação de aula mediante observação (ETAPA III) confirmou a suspeita de que adentrar a sala de aula não seria tarefa das mais simples, especialmente quando o propósito é aproximar a lente sobre a sala de aula universitária, contexto que só recentemente vem se constituindo objeto de estudo na investigação educacional. Atentos a este fato, o questionário que aplicamos aos docentes dos dez cursos de graduação indagava sobre a disponibilidade do professor com vínculo com pesquisa para continuar participando da investigação, apresentando inclusive as modalidades em que esta participação poderia acontecer: apenas sendo entrevistado; ou, ser entrevistado e observado em sua prática. Dos 108 respondentes, 47 optaram por serem entrevistados e observados, havendo pelo menos dois professores em cada curso nessa situação, exceto nos cursos de Matemática (por possuir somente um professor com atuação em pesquisa à época da coleta de dados), e de Educação Física. Do universo de 47 professores, 18 foram entrevistados, dos quais 16 também foram observados em situação de aula. As entrevistas, com exceção da Educação Física e da Matemática, foram aplicados a dois professores por curso. As observações abrangeram 9 cursos, exceto o de Matemática. Nos cursos de Educação Física e Medicina, somente foi possível acompanhar um professor, respectivamente: no primeiro curso em razão de apenas um haver aceitado ser observado em situação de aula; no segundo, embora o professor selecionado tenha a princípio consentido a observação, nas diversas tentativas para realizá-la correram impedimentos para sua concretização (falta, troca de local da aula, antecipação...). Na análise dos dados, os 18 docentes são identificados por código composto pela letra D (docente), seguida de uma letra, conforme mostra o Quadro 3: Quadro 3: Código de identificação dos professores participantes do estudo. Curso Pedagogia Total de professores entrevistados 2 Total de professores observados 2 Matemática Física 1 2 --2 História 2 2 Ciências Biológicas 2 2 Educação Física Química 1 2 1 2 Código de identificação DX DY DM DA DB DO DQ DR DS DC DE Nutrição 2 2 Enfermagem 2 2 Medicina 2 1 DD DF DG DH DJ DN DP A preparação da terceira etapa abrangeu desde a elaboração da guia de observação e de entrevista, incluindo um pré-teste deste último. A guia de entrevista, da mesma forma que o resumo e o questionário (ETAPA II), foi sistematizada coletivamente. As observações das situações de aula, gravadas em vídeo e áudio, foram realizadas priorizando-se “uma sequência ou unidade didática completa’. A entrevista de explicitação, em sua maioria, foi realizada em uma sessão e após a observação do professor em ação na sala de aula. O desenvolvimento desta tarefa foi assumido pelos pesquisadores, apoiados por bolsistas ou colaboradores. Nesse momento, não foram raras as situações em que foi percebida certa desconfiança, e notados incômodo e desconforto dos docentes pesquisados com a presença de pessoas estranhas no contexto das situações de ensino acompanhadas, mesmo se tratando de colegas de trabalho e sendo esclarecidos os propósitos dessa aproximação. Embora contando com a anuência prévia do profissional, foram frequentes as manifestações de resistência ao nosso ingresso na sala de aula, da qual o adiamento de aulas agendadas para acompanhamento constitui expressão desse movimento. A análise dos dados a consolidação dos resultados (ETAPA IV) foi orientada pela compreensão de que a análise e a interpretação “estão contidos no mesmo movimento: o de olhar atentamente para os dados da pesquisa” (GOMES, 1994, p. 68) em busca de possíveis respostas para as questões norteadoras do estudo, entendendo-as como uma produção oriunda também da capacidade humana de articular o empírico e o teórico, atribuindo-lhe significado. Considerando os variados tipos de dados utilizados no estudo, oriundos tanto da documentação direta (como a entrevista e a observação) quanto indireta (de fontes governamentais e institucionais), optamos pela análise qualitativa das informações, mediante a categorização temática e a triangulação dos dados. As quatro etapas descritas oferecem um mapa da caminhada e do acontecimento da pesquisa. Evidenciam também o planejamento e o rigor buscado pelos quatro professores coordenadores do ‘estudo um’ na investigação e na formação em pesquisa de seus bolsistas, pesquisadores iniciantes. 4.3 O que se queria dos documentos e dos procedimentos: o caminho A análise da documentação consultada (resoluções, pareceres e projetos político-pedagógicos dos cursos pesquisados) demandou a realização de sucessivas leituras, guiadas por critérios e procedimentos que favorecessem a explicitação de elementos (ideias, expressões) relacionados a temas centrais do estudo: pesquisa e formação docente. Na sequência, procuramos situar essas referências no texto do documento, explicitando os elementos que lhe conferiam sentido, conforme sintetizado no Quadro 4. Quadro 4: O que diz a Resolução nº. 1/2002 sobre a pesquisa na formação docente? Documento Dispositivo Art. 2, inciso IV Resolução nº. 1/2002 – Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica CNE/CP Art. 3º, inciso III Art. 6º, inciso V Texto A organização curricular de cada instituição observará, além dos dispositivos 12 e 13 da Lei 9.394/96, outras formas de orientação inerente à formação para a atividade docente, entre as quais o preparo para: IV – o aprimoramento em práticas investigativas; A formação de professores que atuarão nas diferentes etapas e modalidades da educação básica observará princípios norteadores desse preparo para o exercício profissional específico, que considerem: III – A pesquisa com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que ensinar requer tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento. Na construção do projeto pedagógico dos cursos de formação dos docentes, serão consideradas: VI – as competências referentes ao conhecimento de processo de investigação que possibilitem o aperfeiçoamento da prática pedagógica. No Quadro 4 é possível perceber tanto os termos e expressões identificados durante a leitura do documento, correlacionados ao tema em estudo, quanto o exercício de desvelar o sentido de tais referências no texto co origem na explicitação do contexto em que nele aparecem. O mapeamento realizado serviu de esteio à elaboração das interpretações sobre o assunto investigado, possibilitando o cruzamento das informações, com o intuito de problematizá-las. Este procedimento, orientado pela análise qualitativa dos documentos, foi realizado nos dez cursos pesquisados, considerando suas resoluções, pareces e projetos político-pedagógicos específicos. A análise da documentação consultada possibilitou constituir o marco legal vigente sobre a regulamentação da pesquisa no processo de formação universitária, campo em que se encontra e se desenvolve a prática docente na educação superior. Os dados provenientes do questionário sobre o perfil de atuação em pesquisa dos docentes dos dez cursos pesquisados receberam tratamento analítico quantitativo, sistematizados na forma de quadros sobre a formação, faixa etária, vínculo de trabalho, participação em grupos e projetos de pesquisa, bem como o envolvimento com atividade de orientação e o efetivo exercício da docência. A análise propiciou um retrato da relação dos professores que responderam ao questionário com a atividade de pesquisa no âmbito de suas funções docentes na Universidade. Por sua vez, a análise dos dados provenientes das observações e entrevistas forneceu elementos indiciais sobre a integração pesquisa e ensino em situação real de trabalho. Os registros das observações das aulas foram objeto de leitura, discussão e confrontação com os discursos dos professores, sendo empregados para ilustrar situações e posicionamentos. As entrevistas possibilitaram o acesso ao discurso prático dos docentes, viabilizado mediante processo de categorização temática que consorciou a definição prévia de categorias – estruturadas na formulação da guia de entrevista – e a definição pós-coleta dos dados, considerando o conteúdo das informações encontradas no trabalho de campo. Em termos práticos, procedeu-se a leitura intensiva das entrevistas, seguindo-se a identificação das ideias ou expressões recorrentes, agrupando-as em torno de conceitos mais gerais. Com base nesse procedimento, foram formados três grandes blocos de categorias empíricas, a saber: A) Como pensam os professores pesquisados sobre como ele ensina: com esta categoria buscou-se conhecer a percepção do sujeito pesquisado (o professor universitário) sobre como ele ensina, isto é, sua perspectiva sobre a própria prática de ensino12. Tem como foco a explicitação e a compreensão de elementos fundantes da ação, ou seja, de ideias, concepções e práticas orientadoras do seu agir docente. Nesse sentido, abrangeu desde a atividade de planejamento, o conteúdo, aspectos sobre a condição do aluno para aprender, a relação professor e aluno, a avaliação, concepções sobre ensino e aprendizagem, saberes e experiências intervenientes na sua ação pedagógica. O Quadro 5 permite visualizar essa categorização: B) Quadro 5: Percepção do sujeito pesquisado sobre como ele ensina: categoria constituída como base para o processo de análise das entrevistas dos professores nos dez cursos pesquisados na UECE. Categoria Subcategorias Aspectos contemplados nas subcategorias O caminho para o planejamento Percepção do Planejamento Organização do tempo curricular sujeito Modificações necessárias para aproximação da prática pesquisado Atenção à Diferenças entre turmas (turmas diurnas X turmas noturnas) sobre como ele condição Necessidades do aluno ensina do aluno Forma de estudo dos alunos Foco no programa Conteúdo Prática de seleção dos conteúdos Adequação a turma (elementos Articulação com outras disciplinas fundantes da Relação Foge da relação unidirecional que vivenciou na escola ação didática professor-aluno Resistência de alguns alunos no primeiro semestre. do professor) Avaliação Fundamentos Concepção de ensino Concepção de aprendizagem Saberes profissionais docentes Experiências C) Estratégias de iniciação à construção do conhecimento na aula universitária: esta categoria temática focalizou as estratégias de ensino utilizadas pelo 12 A base empírica da formulação desta categoria reside nas seguintes perguntas da Guia de Entrevista: 1) Gostaria que você nos contasse como desenvolve suas aulas (explorar aspectos como: planejamento, definição do conteúdo, recursos utilizados, atividades, espaços físicos, tempo, avaliação e participação do aluno na aula); 2) Você sempre ensinou assim? O que leva você a ensinar dessa forma? (base/fundamento). professor para promover a aprendizagem discente no contexto da aula na Universidade, as dificuldades encontradas no processo de iniciação do aluno na construção do conhecimento, bem como a adesão do aprendiz à prática pedagógica por ele desenvolvida13. Privilegia ainda, aspectos relacionados a percepção dos docentes pesquisados sobre a contribuição de suas práticas para o desenvolvimento da atitude investigativa entre seus alunos. O Quadro 6 permite visualizar essa categorização. Quadro 6: Estratégia de iniciação à construção do conhecimento na aula universitária: categoria constituída como base para o processo de análise das entrevistas dos professores nos 10 cursos pesquisados na UECE. Categoria Estratégias de ensino utilizadas na iniciação à construção do conhecimento Subcategorias Detalhamento da subcategoria Estudo de caso Estudos teóricos/leituras Discussão de situações práticas Estratégias de ensino Provocação de diálogo Trabalho Escrito Trabalho em grupo = seminário Estímulo ao uso de recursos tecnológicos Recursos didáticos Dificuldades Carga horária insuficiente encontradas Natureza do vínculo de trabalho Condição para o desenvolvimento de pesquisa Adesão do aluno Percepções sobre a adesão dos alunos Resistência dos alunos Percepção dos docentes sobre o desenvolvimento da postura investigativa D) Integração pesquisa e ensino na aula universitária: esta categoria temática reúne ideias sobre o entendimento dos sujeitos da investigação acerca do conceito de pesquisa e de integração pesquisa e ensino, bem como sua percepção quanto à realização ou não desse processo em sua prática docente de sala de aula. Agrega também registros sobre dificuldades presentes no 13 A base empírica da formulação desta categoria reside nas seguintes perguntas da Guia de Entrevista: 3) Como percebe a adesão dos alunos ao seu modo de ensinar?; 4) Quais as dificuldades encontradas para desenvolver a prática que você descreveu e como você vem enfrentando-as? (pedir para descrever detalhadamente); 5) Você poderia citar as estratégias de ensino mais presentes em sua prática pedagógica visando iniciar o aluno no processo de construção do conhecimento?; 6) Você considera que sua prática pedagógica desenvolve uma postura investigativa nos alunos em formação? Como? exercício da integração pesquisa e ensino na aula universitária14. O Quadro 7 permite visualizar essa categorização, trazendo inclusive detalhamento das subcategorias. Quadro 7: Integração pesquisa e ensino na aula universitária: categoria constituída como base para o processo de análise das entrevistas dos professores nos dez cursos pesquisados na UECE. Categoria Integração pesquisa e ensino na aula universitária Subcategorias Detalhamento da Subcategoria Dificuldades para realizar integração pesquisa e ensino Concepção de interação da pesquisa ao ensino Concepção de pesquisa Percepções dos docentes pesquisados sobre o tema Teoria em confronto com a prática Pesquisa não se desenvolve no mesmo espaço do ensino A proposta curricular do curso relacionada à pesquisa Exemplos de integração pesquisa e ensino As três categorias indicadas nos quadros 5, 6 e 7 serviram de base ao processo analítico das entrevistas dos professores com vínculo com pesquisa nos dez cursos pesquisados, verificando-se em alguns cursos uma ou outra variação na identificação das subcategorias e no detalhamento de aspectos, sem, contudo, distar do conjunto. 4.4 Quem são os professores universitários que têm vínculo com pesquisa Os 18 docentes universitários participantes do estudo (ver Quadro 3) compõem um grupo misto de 11 homens e sete mulheres, com 15 possuindo vínculo profissional estável com a instituição (efetivos). Identificamos trajetórias formativas e experiências com pesquisa distintas entre os professores, percursos que, mesmo não determinantes, incidem sobre o modo como esses profissionais articulam ou não a pesquisa ao ensinar. 14 A base empírica da formulação desta categoria reside nas seguintes perguntas da Guia de Entrevista: 7) Você considera que integra ensino e pesquisa no seu trabalho de sala de aula? (explicitar o que entende por pesquisa e por ensino) Como você faz essa integração? Dê um exemplo. A faixa etária média desses profissionais situa-se de 40 a 49 anos. Somente duas docentes (cursos de Nutrição) estão na faixa de 20 a 29 anos, um grupo de sete tem de 50 a 59 anos (Medicina, Química, Física, Pedagogia e Ciências Biológicas) e um professor está na idade de 60 anos ou mais. Ainda com relação ao gênero, a presença de docentes do sexo masculino concentra-se nos cursos de Matemática, Física, Química, Medicina e História. Prevalece como formação inicial dos professores com vínculo com pesquisa nos dez cursos analisados o bacharelado (11 docentes), seguidos pelos licenciados (sete docentes). A incidência de bacharéis é mais acentuada nos cursos das Ciências da Saúde e Ciências da Natureza e Matemática. Outro dado que permite dimensionar a experiência dos docentes com pesquisa reside na participação em grupos de pesquisa cadastrados no diretório do CNPq. Educação Física e a Matemática15 aparecem como aqueles como menor expressão, pois apenas um docente participa de grupos de pesquisa na condição de pesquisador em cada um desses cursos. Tal circunstância causa preocupação, especialmente considerando a inexistência, até o momento da coleta dessas informações, de grupos de pesquisa originariamente criados para investigar questões específicas da área da Matemática. Os demais cursos tendem a buscar a associação entre pares, exceto na Medicina onde se observa certa dispersão dos professores, uma vez que os grupos são, preferencialmente, compostos por apenas um professor do curso. A triangulação das informações documentais e aquelas oriundas do questionário respondido pelos professores com vínculo com pesquisa evidenciou, ainda, em todos os cursos analisados, considerando o atual currículo (pós-diretrizes), a presença de componentes diretamente vinculados à pesquisa, tais como: “Pesquisa Educacional”, “Metodologia da Pesquisa I e II”, “Métodos e Técnicas de Pesquisa”, “Métodos da Pesquisa em Enfermagem”, “Investigação em Nutrição”, “Métodos de 15 O corpo docente deste curso na ocasião da coleta dos dados estava constituído por 22 professores, sendo 20 efetivos e dois substitutos. São cinco doutores, sete mestres, cinco especialistas e dois graduados. Desse conjunto, apenas um é vinculado a grupo de pesquisa do CNPq, na categoria pesquisador. Este docente é o único que desenvolve atividade de orientação de pesquisa, pois somente ele tem alunos com bolsas de iniciação científica. As bolsas do curso são as de monitoria acadêmica. Esta configuração do perfil de atuação em pesquisa dos docentes do Curso torna-se problemática, em face do atual currículo (2008.1) ter incluído o componente Trabalho de Conclusão de Curso (04 créditos – 8º semestre). estudo e de pesquisa”, entre outros. Esta presença mostra a importância concedida nos currículos à formação em pesquisa dos graduandos. Por outro lado, a análise da carga docente semanal (CDS) dos últimos semestres revelou certa tendência de concentração dessas disciplinas entre um reduzido grupo de professores, notadamente mestres e doutores. Em alguns cursos (a exemplo da Pedagogia e da Educação Física), as disciplinas de pesquisa são assumidas por professores sem vínculo efetivo com a Universidade. O cruzamento dos dados relativos aos docentes que ministram disciplinas de pesquisa e o vínculo com grupos de pesquisa ou atividade de orientação de trabalhos investigativos ou ainda participação em programa institucional de iniciação científica, revela que tais experiências não parecem ser consideradas para a lotação dos professores nos componentes curriculares da área de pesquisa. A titulação se sobressai como elemento norteador dessa decisão no âmbito da gestão pedagógica das coordenações de curso. Notamos, entre os dez cursos alvo deste estudo, discrepâncias no desenvolvimento de atividades de pesquisa por parte do seu quadro docente. Por sua vez, a caracterização dos 18 professores participantes deste experimento evidencia uma tímida aproximação à pesquisa no contexto da docência na Universidade, sendo esta fortemente marcada pelo bacharelado, traço que traz desdobramentos para a prática educativa, à medida que incide sobre a apropriação e elaboração do conhecimento no âmbito do ensino. Esta constatação remete à advertência de Severino (2009, p. 130), ao assinalar que, na “universidade, a aprendizagem, a docência e o ensino só serão significativas se forem sustentadas por uma permanente atividade de construção do conhecimento”. Em outras palavras, é fundamental o desenvolvimento de processo pedagógico orientado por uma “contínua atividade de busca”, que possibilite ao graduando indagar, e elaborar pensamento autônomo e crítico em situações da prática social em que se encontra. É preciso, pois, recorrendo aos termos desse filósofo brasileiro, “praticar a docência mediante uma postura investigativa”. 4.5 Como compreender o discurso sobre a pesquisa no currículo de formação na educação superior? Desde o final do século XX, a preocupação com a qualidade da educação básica impulsiona, em muitos países, o debate acerca do currículo e da necessidade de novas configurações que considerem as expectativas sociais em torno da formação aos saberes, especialmente da formação profissional em nível superior. O Brasil não escapou dessa tendência global, manifesta no Plano Decenal de Educação para Todos 1993/2003 (BRASIL, 1993) e na LDB nº. 9.394/96, que destaca a necessidade de o Estado elaborar parâmetros no campo curricular, visando a orientar a prática educativa e a melhoria da qualidade da escola pública brasileira. Com apoio nesse marco legal, o Governo federal empreendeu amplo movimento de reforma curricular no âmbito da educação básica e da educação superior, com ênfase nos cursos de graduação, em especial as licenciaturas. É neste âmbito de redefinições, no qual a dissociação da teoria em relação à prática permeia os debates acerca dos problemas recorrentes nos processos formativos, que a pesquisa é postulada como componente curricular necessário à formação profissional de nível superior, discurso que se materializa nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs). Não é demais lembrar que, ao voltar a atenção para uma iniciativa curricular, é preciso considerar que o conhecimento é uma elaboração social permeada de relações de poder. É o que assinala Silva (1999), ao dizer que o currículo “reproduz culturalmente as estruturas sociais”, podendo mesmo ser identificado como um aparelho ideológico da cultura dominante. Trata-se de um locus de criação e produção de significados, nos termos de Giroux (1997). Esta compreensão de Giroux (1997) reconhece a possibilidade e a necessidade de um currículo orientado para uma ação educativa emancipatória. Conceber e ou desenvolver um currículo nessa perspectiva implica práticas de ensino desestabilizadoras das certezas, provocadoras de dúvidas, incentivadoras do pensamento conflitante e da capacidade argumentativa e interpretativa de docentes e discentes. Requer, pois, uma prática pedagógica fundada numa racionalidade comunicativa e dialógica. Tal orientação funda-se na ideia da formação profissional como um continuum (MIZUKAMI, 2002) ou como desenvolvimento. Na formação como desenvolvimento, a colaboração e a implicação coletiva são fundamentais. Nelas o objetivo principal é a maturidade profissional, cultural e ética do professor (ARROYO, 1996), produzida com a reflexão acerca da ação pedagógica, da capacidade de explicitar os valores norteadores dos saberes e fazeres da docência e das múltiplas dimensões sociais, culturais e históricas que permeiam seu trabalho. Nessa óptica, a pesquisa é uma via de fomento dessas qualidades, compreensão ancorada no pressuposto de que é a ação dos sujeitos que propicia a posse do conhecimento e que a atuação prática possui uma dimensão investigativa, a qual constitui uma forma, não de simples reprodução, mas de elaboração ou, pelo menos, de reelaboração crítica do conhecimento; entendimento que justifica e dá a devida dimensão à pesquisa como componente no currículo de formação na educação superior numa perspectiva de emancipação humana. Mesmo no meio acadêmico, este argumento não é consensual. Reconhecendo a polissemia do termo e a sacralização da pesquisa acadêmica, reforçamos o posicionamento de André (2001, p. 22), advertindo para a noção de que, além do acesso ao conhecimento (o que se faz por meio da pesquisa), o “que está sendo enfatizado é a necessidade de formar” um profissional “inquiridor, questionador, investigador”, com as condições de “problematizar criticamente a realidade com a qual se defronta”. Na perspectiva da autora, que corroboramos, a pesquisa é elemento que possibilita ao profissional em geral, e ao professor em particular, mediar a elaboração do conhecimento em situação de ensino e, por conseguinte, desenvolver a atitude investigativa em seus alunos e a capacidade de constituir saber sobre seu trabalho e as questões peculiares de sua prática com amparo em seus múltiplos determinantes. Este parece ser o desafio contemporâneo no que se refere à formação em nível superior, e que pode encontrar na concretização da pesquisa como princípio educativo (DEMO, 1999) seu significado, o qual “inclui na sua essência a concepção da produção de conhecimento como produção de aprendizagem tendo a reflexividade situada como mecanismo de mediação” (NÓBREGA-THERRIEN e THERRIEN, 2010, p. 2). O conjunto de medidas legais no campo curricular traz desdobramentos para a prática docente universitária, os quais incidem centralmente sobre o processo de apropriação e de construção do conhecimento no âmbito do ensino. Para compreendê-los, examinamos a seguir pareceres que deram corpo às DCNs destinadas à formação docente nos dez cursos de graduação em foco neste estudo. Um documento-chave encontra-se no Parecer nº. 009/2001, do Conselho Nacional de Educação (BRASIL/CNE/2001), haja vista que ele balizou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, instituída pela Resolução nº. 01/2002 – CNE/CP. Em seu primeiro item, denominado de Relatório, aborda a necessidade do País por profissionais qualificados em face da internacionalização da economia, argumento sucedido pela constatação do “preparo inadequado dos professores” (BRASIL/CNE, 2001, p.4), fato atribuído à predominância de um “formato tradicional” de formação. Acentua, em seguida, que esta configuração não dá conta das características necessárias ao exercício docente na contemporaneidade. Mais adiante, esta ideia é reforçada, ao chamar atenção para dois problemas no campo curricular a serem enfrentados na formação desses profissionais - o tratamento inadequado do conteúdo e a inadequação do tratamento da pesquisa. Nos termos do Parecer nº. 009/2001, os problemas a serem enfrentados são assim explicitados: Inadequação do tratamento da pesquisa [...] a visão excessivamente acadêmica da pesquisa tende a ignorá-la como componente constitutivo tanto da teoria como da prática. [...] Com isso a familiaridade com os procedimentos de investigação e com o processo histórico de produção e disseminação de conhecimentos é, quando muito, apenas um item a mais em alguma disciplina teórica, sem admitir sua relevância para os professores (BRASIL, CNE, 2001, p. 23). O tratamento inadequado do conteúdo Nos cursos atuais de formação de professor, salvo raras exceções, ou se dá grande ênfase à transposição didática dos conteúdos, sem sua necessária ampliação e solidificação – pedagogismo, ou se dá atenção quase que exclusiva a conhecimentos que o estudante deve aprender – conteudismo, sem considerar sua relevância e sua relação com os conteúdos que ele deverá ensinar nas diferentes etapas da educação básica (BRASIL, CNE, 2001, p. 20). A argumentação do Parecer nº. 009/2001 do CNE põe em xeque o processo de apropriação e de elaboração do conhecimento presente no contexto formativo universitário e, por via indireta, a prática pedagógica desenvolvida pelos docentes que nela atuam. Ademais, a tematização acerca do tratamento inadequado do conteúdo, especialmente quando referido à articulação ensino e pesquisa no contexto universitário, reforça as críticas. É o que mostram, por exemplo, Therrien e NóbregaTherrien (2006, p.2), ao alertarem para a noção de que os “cursos de formação profissional nas universidades privilegiam o ensino com tradição de aulas expositivas onde o aluno escuta, fala pouco e quase nunca escreve [...]”. Tais análises indicam que no espaço-tempo da formação universitária muito se fala em pesquisa, embora ela não pareça constituir elemento mediador da aprendizagem nesse âmbito. Considerando o diagnóstico efetuado acerca do “tratamento inadequado do conteúdo” e da “inadequação do tratamento da pesquisa” na prática curricular no ensino superior, o Parecer nº. 009/2001 - CNE esclarece que a pesquisa deve constituir-se em “um instrumento de ensino e um conteúdo de aprendizagem na formação” (BRASIL/CNE, 2001, p. 35). Tais orientações foram incorporadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica - DCNs (Resolução nº. 1/2002 – CNE/CP). Ao explicitarem a necessidade do “aprimoramento em práticas investigativas” (Art. 2, inciso IV), indicam, entre os princípios norteadores dessa preparação, a “pesquisa, com foco no processo de ensino e de aprendizagem [...]” (Art. 3º, inciso III). Esta recomendação é justificada, considerando que “ensinar requer tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento” (Resolução nº. 1/2002 – CNE/CP). As DCNs situam a pesquisa no centro da formação profissional nos cursos de licenciatura, explicitando-a curricularmente como princípio articulador dos atos de ensinar e aprender. Este fundamento, se fortalecido pelo “princípio metodológico geral” da “ação-reflexão-ação” (Art. 5º, Parágrafo único), tem sua vitalidade posta em xeque em face da indicação de que o currículo destinado à formação dos professores seja estruturado em competências. Dentre as críticas a este enfoque curricular, prepondera aquela que sublinha ser a noção de competência devedora de uma lógica econômica privada e guiada pela ênfase nas qualidades cognitivas e socioafetivas às quais o sujeito recorre no enfrentamento das diversas situações de trabalho, concentrando atenção nas “capacidades que cada pessoa deve adquirir no mercado educacional para atingir melhor posição no mercado de trabalho” (GENTILI, 1998, p. 81). Que a conotação funcionalista de competência predomina na tematização existente sobre o assunto, em particular no discurso curricular reformista, não há dúvida, mas ela não é única, conforme revelam estudos a esse respeito (MANFREDI, 1998; RAMOS, 2006). Além da dimensão prática da inteligência que caracteriza a ação comportamentalista, condutivista de competência, está sua dimensão formalizadora, operação de pensamento que promove ação autônoma sobre os saberes em uso, estruturando novos saberes (RAMOS, 2006, p. 235). Esta perspectiva abre espaço para indagações em torno da possibilidade de formulação e uso de “um conceito dialético de competências”, tal como proposto por Werner Markert (2002), que, aliás, reconhece ser esta uma tarefa ainda a ser realizada. Este desafio, pois, se alarga com o crescente reconhecimento social de que ser competente é preciso. Afinal, quem não quer ser identificado como competente, seja no plano pessoal ou profissional? Embora não caiba dúvida para a resposta, impõe-se alertar para o fato de que esta noção não opera no vazio; ela incide sobre a formação humana e projeta determinados modos de ação com base em uma visão de mundo e de relações que contribuam para sua produção. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), de abrangência nacional, matizam o discurso curricular dos cursos de graduação licenciatura em Pedagogia, História, Matemática, Física, Química, Ciências Biológicas, Educação Física, bem como as propostas pedagógicas constituídas pós-reformas nas várias IES, a exemplo da UECE. Os reflexos da reforma curricular se fazem presentes ainda nos cursos de graduação bacharelado, como os de Nutrição, Enfermagem e Medicina, também alvo de nossa análise. Como tais orientações se manifestam na sala de aula, na prática de ensino na Universidade, é questão sobre a qual pouco ainda se sabe. 4.6 A aula na universidade - espaço de construção do conhecimento? Como ensinam os professores com vínculo com pesquisa Ensinar é uma prática situada e ética, cujas decisões traduzem uma intencionalidade. É esta intencionalidade que move a ação docente. O professor quando delibera, o faz apoiado nas teorias e experiências que tecem seu compromisso com sua função social, posição forjada mediante a concepção que ele tem das relações entre educação, sociedade e conhecimento (FARIAS et al., 2011). Corroboramos, assim, a formulação de Veiga et al. (2000, p. 175) de que aula representa a “concretude do trabalho docente propriamente dito”, pois é nela que o processo didático intencional que caracteriza o ata de ensinar se materializa, ganha sentido. É neste espaço-tempo coletivo de formação e produção de conhecimento que a interação professor-aluno, dimensão mais visível do ensino, se concretiza. Com efeito, o que acontece na sala de aula advém da previsão da ação e da análise do alcance dos fins determinados. Planejar e avaliar são dimensões fundamentais do ensino. Assim, considerando-se o intuito de saber como ensinam professores com vínculo com pesquisa, busquemos identificar elementos estruturantes da ação profissional desses docentes universitários desde suas perspectivas acerca do planejamento de sua ação didática, considerando a base empírica explicitada no item 4.3 desse texto (Quadros 5, 6 e 7). Do conjunto dos dados coletados, optamos pelo detalhamento da prática de ensino de docentes dos cursos de Medicina, Ciências Biológicas e Física, casos-síntese de como os 18 docentes participantes do estudo iniciam os alunos no processo de construção do conhecimento. 4.6.1 Ensinar no Curso de Medicina O perfil profissional projetado para o egresso do Curso de Medicina, onde o professor participante do estudo atua, é de um médico com ‘formação generalista, crítica e reflexiva’ (UECE. CCS, 2002, p.69-70), capaz de atitude proativa, inovadora e cientificamente fundamentada no enfrentamento de problemas na área da saúde. Como esta intencionalidade é manifesta na prática docente no contexto do ensino? A ação de planejamento, certamente, oferece pistas sobre esta questão. Ao discorrer sobre sua ação didática na disciplina Ciências Sociais e Saúde, o professor explicita alguns elementos que norteiam seu agir profissional. Em suas palavras, Desde o começo, eu podia falar de antropologia da saúde, de caráter geral, mas decidi montar uma disciplina que tivesse realmente uma maior eficácia para estudantes de medicina. Então foi pensada, modificada e desenvolvida em função do fato de ter 40 estudantes de medicina escutando, participando e que não são antropólogos, não são psicólogos, não são cientistas sociais. Então, três temas que a gente trabalha: a relação médicopaciente; a humanização nos serviços de saúde; e como lidar com a morte e com as últimas fases da vida humana. São três momentos pensados para estudantes de medicina e não, repito, para psicólogos, etc, etc. (DP – Curso Medicina). (Grifamos). Evidenciamos no depoimento transcrito a preocupação com a aprendizagem discente. A noção de “maior eficácia” expressa o cuidado em assegurar ao graduando um conhecimento importante e útil para sua futura atuação profissional; a adequação do conteúdo a ser ensinado ao alunado denota o reconhecimento da interface dos objetivos de ensino, conteúdo e forma. O docente ainda esclarece que as decisões pedagógicas relativas ao “o que ensinar”, “como ensinar” e “para que ensinar” são resultantes de uma ação reflexiva sobre o que é melhor para o aluno, considerando-se a finalidade da formação universitária, a maturidade intelectual do discente e as condições concretas de trabalho (nº de alunos por sala, disponibilidade de material, de tempo para estudo, a infraestrutura da Universidade, entre outros). Uma das aulas observadas abordando o tema da “Humanização no atendimento e relação médico-paciente” é ilustrativa do modo de ensinar do professor, evidenciando como ele concretiza as intenções que norteiam e organizam sua ação didática. Os alunos, nesse dia, estavam bastante inquietos, manifestavam o interesse em suspender a aula para estudarem para prova de Fisiologia Renal. O professor ponderou, iniciando uma negociação com os estudantes, acordando-se que a aula terminaria mais cedo para que eles também pudessem estudar para esta avaliação. O diálogo entre adultos com variados interesses, o reconhecimento do mérito da preocupação dos alunos, a segurança e a maneira como o professor encaminhou esta situação inusitada, logo no início da aula, revelaram respeito aos graduandos e o esforço de valorização da disciplina em face a tendência do alunado de dar maior importância às disciplinas clínicas. Os alunos presentes formavam um grupo de 14 pessoas, com maioria masculina; praticamente todos em um lado da sala. O clima era de preocupação com a próxima prova, respondendo pelo silêncio da turma. Buscando atrair a atenção dos alunos o professor esclareceu que faria breve exposição, depois seriam organizados grupos para o estudo de um caso. Em seguida, apresentou o livro que seria utilizado durante as aulas, uma obra de sua autoria com outros dois colegas publicada por uma editora de São Paulo. Posteriormente, durante a entrevista, referiu-se a esta produção como um “marco importante”, pois elaborado com base na lógica que preside ao desenvolvimento da disciplina. Na sequência da aula observada, o professor projetou um conjunto de slides sobre o tema da aula, procurando motivar o grupo a interagir com os slides, explorando conhecimentos prévios dos alunos, articulando conceitos e suscitando questões. A estratégia de valorizar a experiência do aluno, estabelecendo conexões com o conteúdo em foco na aula, pouco a pouco vai surtindo efeito e conseguindo romper o silêncio até então instalado em decorrência da preocupação com a prova de Fisiologia Renal. O exercício de questionar, provocar e estabelecer associações entre a vida cotidiana e o conhecimento científico, também evidencia o fato de que o professor reconhece os saberes do aluno, o que se manifesta em atitudes como o validar a fala do aluno, concordando e complementando-as. Na sequência da aula, o professor solicitou à turma que se organizasse em dois grupos, distribuindo um texto com a descrição de um caso clínico. Os alunos tiveram que se imaginar médicos da paciente para resolver os inúmeros problemas descritos no texto. Esta atividade estimulou a reflexão em equipe, integrou a turma e possibilitou o levantamento de hipóteses, a troca de ideias, opiniões e saberes entre os alunos. Após o tempo previsto para a análise, cada grupo apresentou suas conclusões, momento que também propiciou a discussão e socialização dos pontos de vistas divergentes entre os participantes de cada equipe e entre as equipes que apresentaram variadas soluções para o caso clínico em análise. Ao final, registrou a sua satisfação, elogiou e finalizou indicando o assunto a ser tratado na próxima aula. O professor, que é bacharel, revela sensibilidade pedagógica e maturidade profissional como docente, demonstrando que suas decisões não são improvisadas, estão centradas no aluno e norteadas pelos objetivos formativos que definem o perfil do médico egresso do curso. Trata-se de um profissional com larga experiência com a docência em programas de pós-graduação e que demonstra compreender ser necessário selecionar e aprofundar determinados conteúdos em detrimento de outros, considerando o propósito da formação em nível de graduação. Assim, embora a pesquisa tenda a transformar seus pesquisadores em especialistas em um dado campo do conhecimento, este professor evidencia preocupação em não expor seus alunos de graduação a um excesso de conteúdos especializados, como alguns poderiam temer (SOUZA, SILVEIRA, NÓBREGA-THERRIEN, 2010). Em suas aulas, conforme registrado em seu relato e constatado durante as observações, costuma adotar metodologias que propiciem um aprendizado experiencial. Este caminho se delineia desde a concepção da disciplina, quando se verifica a decisão de favorecer o estudante mediante a seleção de conteúdos significativos, definido como “conteúdos que podem ser úteis para a prática médica no cotidiano”. Ao explicar o seu fazer em sala de aula, sintetiza: “eu tento partir de problemas concretos que o médico vive e como a cultura pode influenciar, por exemplo, a prática médica”. Importa frisar, em relação ao modo de ensinar e de iniciar o aluno no processo de construção do conhecimento, que o professor observado demonstra cuidado com a participação ativa dos alunos, embora reconheça a dificuldade de atingir esses objetivos em decorrência das restrições do contexto de trabalho. Reclama de que a maioria das aulas fica limitada ao espaço da sala de aula, ao uso de um computador e de um projetor, recursos didáticos básicos, recorrentes em suas aulas. As aulas expositivas evidenciaram forte presença durante as observações. Embora o cenário de trabalho na universidade favoreça a realização desse tipo de aulas, a prática pedagógica deste professor registra a adoção de exposições dialogadas, marcadas pelo exercício da pergunta, de reflexões com base em situações do cotidiano, exemplificações, entre outros procedimentos. Outra estratégia de ensino explorada é o debate entre os próprios alunos por meio de trabalhos em grupo, estudos de casos, mesmo não se constituindo novidade. O registro do uso de estratégias de ensino do tipo estudo de caso reforça uma tradição na formação profissional de nível superior desde meados do século XIX, conforme informa Amaral (2013). Mesmo assim, as suas contribuições residem na oportunidade de explorar uma situação – real ou fictícia – para discuti-la coletivamente. Além dos estudos de casos, o professor registra que utiliza em suas aulas o 'jogo de papéis' (ou 'role play'). Entende essa metodologia como diferente, pois inicia com uma introdução do assunto seguida da prática. Faz uso da técnica 'jogo de papéis', por considerar que situa o aluno de modo mais ativo na aprendizagem. Na disciplina observada este recurso foi constantemente explorado para treinar as habilidades comunicacionais que os futuros médicos precisarão ter com seus clientes. As estratégias adotadas pelo professor do Curso de Medicina reforçam o argumento de que seu modo de ensinar dá ênfase à aprendizagem experiencial, estimulando processos de associação e construção do conhecimento (POZO, 2002). Declara valer-se não de uma prova tradicional, mas da aplicação dos conteúdos trabalhados durante a disciplina: “Então é uma avaliação que procura não somente avaliar conhecimentos adquiridos, mas aplicação desses conhecimentos na prática a partir de casos concretos” (DP - Curso de Medicina). Este professor, nas aulas observadas, demonstrou atitudes provocadoras, problematizadoras, que buscam retirar o aluno da zona de conforto, fazê-los estabelecer relações entre diferentes situações, levantar explicações e formas de intervenção variadas para determinados problemas. Demonstrou também domínio conceitual, ao mesmo tempo em que estimula e cobra consistência teórica nas elaborações e argumentações dos estudantes. Estas características de seu modo de ensinar, entretanto, não foram associadas ao propósito de propiciar ao aluno construir conhecimento, como se aprender não implicasse também, e de alguma maneira, construir/elaborar conhecimento. Com efeito, ao ser indagado sobre as estratégias de ensino presentes em sua prática pedagógica para iniciar o aluno nesse processo o professor destacou enfaticamente pesquisas que desenvolve fora do contexto da sala de aula, esclarecendo em seguida, que os alunos, “quando terminam a disciplina, pedem para entrar no grupo de pesquisa” (DP - Curso de Medicina). A iniciação do aluno na construção do conhecimento aparece associada diretamente à pesquisa em ambiente específico, no caso, o grupo de pesquisa. Embora em sala de aula dedique atenção ao fomento da atitude de crítica, da análise, da comparação, da associação, habilidades investigativas básicas presentes na elaboração de conhecimento, o professor manifesta não compreender o ensino como tempoespaço de sua produção, denotando uma acepção mais próxima da transmissão e da reprodução. Na sala de aula, este professor preocupa-se em desenvolver o espírito crítico e investigativo dos alunos, percebido como benéfico à prática profissional do médico. Esta ação, entretanto, mesmo bastante recorrente em suas atitudes no contexto do ensino, não é associada explicitamente por ele a uma compreensão da aprendizagem também como processo de construção do conhecimento. Porém, seu agir profissional é fortemente marcado por saberes e práticas advindos da experiência de pesquisador, servindo de suporte nas decisões sobre “para que” e “como” ensinar. As observações das aulas, assim como o depoimento do professor sobre sua prática, mostram que seu modo de ensinar não é improvisado (logo no primeiro encontro, sem que fosse solicitado, entregou o programa da disciplina; inicia suas aulas sempre elucidando para os alunos seu objetivo e as atividades previstas), é pautado no amplo domínio teórico e prático em seu campo disciplinar de conhecimento e sua expertise de pesquisador se faz presente nas decisões e ações pedagógicas destinadas à promoção da aprendizagem discente. 4.6.2 Ensinar no Curso de Ciências Biológicas O perfil profissional projetado para o egresso do Curso de Ciências Biológicas, onde o docente envolvido neste estudo ensina, é de um professor capaz de desenvolver uma ação pedagógica voltada para o desenvolvimento de alunos com conhecimento consistente e crítico diante de todas as formas e manifestações de vida. Pergunta-se: como esta intencionalidade se concretiza na prática docente? O relato do professor, que foi observado em situação de aula e entrevistado, sobre como planeja suas aulas de Ecologia, revela alguns dos elementos orientadores de sua ação docente: A ecologia é básica. É um alicerce geral para preparar, para deixar os alunos com um leque bem aberto do que está sendo feito na ecologia... [...]. Eu procuro direcionar os conteúdos com base nas necessidades do mercado e ou para os mestrados. [...]. (DR – Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). O foco no aluno, na sua preparação para ingressar no mercado de trabalho e/ ou investir na continuidade de sua formação acadêmica é destacado de modo incisivo. Este horizonte aparece no depoimento do professor formador como força motriz de suas decisões para organizar o processo didático, evidenciando que mesmo atuando em um curso cujo objetivo é formar professores seu pensamento e ação estão voltados para a formação do bacharel. No detalhamento sobre a seleção do conteúdo a ser ensinado, esta orientação é novamente explicitada: Então, como eu seleciono esses conteúdos? É claro, como vê, tem livros que eu posso sugerir, tem livros principalmente em inglês que estão sendo recentemente traduzidos para o português. Eu ofereço sempre uma lista grande de material. Eu mostro os livros e falo sobre as melhores áreas que se queira trabalhar. Também tem uma apostila que eu elaborei [...]. E os conteúdos são reavaliados a cada dois anos. Eu faço isso. Vejo o que pode mudar, se tem que ficar alguma coisa, ou com base também nas tendências, muitos alunos vêm me perguntar, “eu queria fazer mestrado em tal lugar, eu queria fazer assim, assim”... (DR– Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). O trecho traz à tona vários aspectos esclarecedores sobre como o professor planeja e desenvolve sua ação didática. A preocupação em assegurar conhecimento que favoreça a inserção dos egressos do curso em programa de pós-graduação é reforçada, servindo inclusive para deliberar sobre o que deve ou não ser ensinado. Esta preocupação também move a prática da reavaliação dos conteúdos trabalhados. O uso de livros especializados, em outra língua, bem como a apresentação de outras referências, evidenciam a ênfase em estimular a busca por conhecimento atualizado, além de coerência com o objetivo declarado de alargar a perspectiva de compreensão da temática abordada na disciplina. Revela, ainda, familiaridade do docente com a produção da área que ensina. Outro aspecto que se sobressai, também elemento de convergência com a prática do docente do curso de Medicina, é a organização de material didático próprio, consubstanciado na apostila. Nota-se uma ênfase em ensinar para o trabalho, mesmo quando incentiva à formação em nível de pósgraduação; mas um trabalho que não é a docência: “como um biólogo pode se inserir no mercado de trabalho através da ecologia, através da área de conhecimento que ela oferece” (DR – Curso de Ciências Biológicas). Expressões como “aula teórica”, “aula de campo” e “aula prática” são destacadas pelo professor, ao descrever sua prática pedagógica, evidenciando que ele associa o tipo de tratamento dispensado ao conteúdo para referenciar como organiza e desenvolve sua ação didática. Esta marca de seu fazer docente torna-se visível, sobretudo, ao detalhar o modo como avalia a aprendizagem dos discentes, conduzida privilegiando a articulação entre as aulas teóricas e práticas vivenciadas no transcorrer da disciplina. Nesse sentido, considera a participação em excursões (aulas de campo) e em atividades de laboratório (aulas práticas), a produção de relatório científico, a realização de seminários, a formulação e análise de problemas ambientais, além da prova escrita individual. Nas aulas observadas, averiguou-se que suas ações não são improvisadas, sendo direcionadas para o aprimoramento do conhecimento do aluno, havendo especial atenção no delineamento do que o aluno precisa fazer nas situações propostas pelo professor. Aliás, é nítida a ênfase na dimensão prática da formação dos graduandos. Embora encontre limitações impostas pelas condições de trabalho, este docente explora adequadamente o ambiente natural, manifestando domínio do campo disciplinar que ensina e capacidade criativa, o que lhe permite propiciar aos estudantes experiências significativas e provocadoras de curiosidade, espírito crítico e atitude investigativa. O diálogo que se segue, coletado durante uma aula de campo16, ilustra um momento de efetivação dessa interação. Em meio a um manguezal o professor chama atenção dos alunos para organismos e situações ecológicas, problematizando e gerando discussão que propiciam aos alunos oportunidade de estabelecer conexões com conceitos estudados, como mostra o trecho selecionado: PROFESSOR: O limbo é dividido em duas partes... ALUNA 1: Adaxial e abaxial, não é? PROFESSOR: Essa daqui é a? ALUNA 1: Abaxial... Não, adaxial. Abaxial é embaixo. PROFESSOR: Embaixo. Os estômatos se concentram principalmente nesta parte do limbo, na parte adaxial. [...] Por que esta característica? Em orquídeas, ecológicas, se fizer um corte histológico dessa parte, irá encontrar muitos. ALUNA 2: Porque é uma planta de sombra? PROFESSOR: Sim. ALUNA 3: Aí ela teria que ter maior superfície para absorver mais luz aqui por cima. PROFESSOR: Isso! E umidade relativa também, para capturar vapor para o processo [...]. [dirigindo a outro exemplo] Por que temos essa diferenciação, esse tipo de solo aqui com aquele lá? ALUNO 1: Porque aqui tem muita matéria orgânica e ali já não tem mais... PROFESSOR: E o problema é que se destruímos esse aqui, aquele vem para cá e fica assim... Um semideserto [...] ALUNO 2: E aquele lá é em consequência da maré, como o senhor falou, [...]. (DR - Observação de aula de campo: 1º dia). As características da prática pedagógica deste professor formador, que é bacharel em Engenharia Florestal com licenciatura em Engenharia Agrícola, encontram eco na proposta formativa do Curso de Ciências Biológicas em que ele atua, alinhando- 16 Aula de campo programada para cinco dias. Iniciou em um manguezal, em Caucaia-CE, passando por dois parques botânicos, seguindo em direção a ambientes de sertão, terminando o primeiro dia em Tianguá-CE. O acompanhamento e o registro das observações foram realizados por um mestrando sob orientação de um dos autores desta obra, biólogo e membro da equipe de pesquisa. Este desenvolveu dissertação intitulada “Como ensinam os professores de Ciências Biológicas? Um estudo sobre a relação pesquisa e ensino na prática docente” (CARDOSO, 2011). se ao perfil projetado para seu egresso. Por outro lado, chama atenção o fato de que, durante a entrevista e as observações realizadas, não se registraram referências entre o exercício da docência (futuro campo de atuação profissional dos egressos) e os conteúdos e as experiências desenvolvidas, evidenciando uma ação didática centrada na formação acadêmica, na promoção do espírito crítico e da atitude investigativa que se espera de um bacharel. Sobre esta questão parece prevalecer um entendimento tácito de que a aprendizagem da docência decorre de um processo imitativo, pelo exemplo dado pelo professor formador. Este componente, se de inegável importância na aprendizagem da profissão, não é suficiente e pode ter efeitos nem sempre benéficos, conforme asseveram Formosinho (2009) e Nóvoa (2009). Este silêncio, certamente problemático, reflete ambiguidades17 presentes nas diretrizes curriculares nacionais do curso (Parecer nº. 1.301/2001-CNE/CES; Resolução nº7/2002-CNE/CES), cujas orientações tendem a dicotomizar licenciatura e bacharelado, pesquisa e ensino, teoria e prática. Romper com esta perspectiva ainda se mostra um desafio que, em relação à docência universitária reclama redefinições na política de formação para a atuação nesse contexto e investimento em formação pedagógica. O entusiasmo e o engajamento do professor com sua função docente na Universidade salta aos olhos, bem como o foco na aprendizagem experiencial mediante a concretização de um ensino problematizador. Provocado sobre o que o levou a ensinar desse modo, esclarece: Olha, uma coisa que eu aprendi, que me ensinou muito, nesse colégio agrícola: a maioria dos professores era professor de fora, estrangeiros, pessoas de uma certa idade, e tinham uma vivência muito grande do que eles faziam. E isso tocou muito a questão da prática, pois para você aprender uma coisa, tem que ter a base teórica, claro, mas tem que praticar. Quando você pratica uma coisa, faz uma coisa, e faz bem, e ver, 17 A omissão do perfil dos licenciandos de Ciências Biológicas no Parecer nº. 1.301/2001 - CNE/CES é ilustrativa da ênfase dada por este documento à formação do bacharel, embora as diretrizes contemplem as duas modalidades. São reduzidas as referências no texto ao licenciando, aparecendo explicitamente entre as habilidades e competências, o que ocorre nos seguintes termos: “portar-se como educador, consciente de seu papel na formação de cidadãos, inclusive na perspectiva sócio ambiental” (CNE. CES, 2001, p.5). Também se explicita no tópico relativo aos conteúdos curriculares, mais precisamente ao tratar dos conteúdos específicos (FARIAS, 2011). confere, você dificilmente esquece (DR - Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). O relato realça dois aspectos: a compreensão de aprendizagem que rege as decisões pedagógicas do professor e o seu processo de aprendizagem da docência. No primeiro, a perspectiva da aprendizagem experiencial, a qual, conforme o posicionamento deste docente, torna significativo o conteúdo para o aluno. Este entendimento, vale frisar, não o leva a desconsiderar a importância da teoria, mas a prática é percebida como catalisadora, pois dinamiza, incentiva e estimula o aprender. No segundo, o saber da experiência como referente a partir do qual o professor foi constituindo um modo particular de exercer a docência, de conceber e desenvolver sua ação profissional. Ele reconhece que sua aprendizagem docente “foi na prática”, assertiva que sublinha o saber da experiência como eixo fundante do modo constituído de ensinar. Tardif, Lessard e Lahaye (1991, p.228) nomeiam de saber de experiência o “conjunto de saberes, de representações a partir das quais os docentes interpretam, compreendem e orientam sua profissão e sua prática quotidiana em todas as suas dimensões”. São saberes produzidos desde a história escolar, da relação com os professores enquanto discentes, da trajetória profissional nas diversas instituições em que lecionou, bem como advindos do cotidiano docente. O saber da experiência é oriundo “da” e “pela” prática. Therrien (1996, p.14), por sua vez, o caracteriza como um “saber adquirido em situação”, num “contexto de interação” e cunhado por uma dimensão “subjetiva e coletiva” no seu processo de elaboração. Esse saber é amadurecido no quadro contingente e complexo que envolve a docência, embora insuficiente para a promoção do desenvolvimento profissional docente, por conseguinte, para a produção de um ensino consequente. O professor registra o fato de que os tempos de formação, desde a escolarização básica à pós-graduação, foram decisivos na decisão de assumir a docência como trabalho. Ele declara que gosta de ensinar, mas nem sempre foi assim. Lembra que no início da graduação “não pensava em ensinar”. Dizia: “eu? Pra que eu vou ensinar? Eu não vou ensinar”. Depois, acrescenta: “com o tempo eu mudei”. Atribui que sua decisão foi fortemente influenciada pela família, que “é de professores: meus irmãos são professores universitários”. Relembra: Bem, eu ingressei em um colégio agrícola. Naquele tempo eram as escolas agrotécnicas federais [...], lá eu tive a oportunidade de aprender tanto a parte de mexer com animais, tanto com plantas. [...] Ai eu ingressei na universidade e fiz o curso de engenharia florestal, sempre com plantas [...]. Aí eu terminei o curo da graduação, engenheiro florestal, mas um engenheiro florestal não tem aquela formação pedagógica. Aí eu fui fazer [...] licenciatura agrícola. Ali se passa quatro semestres e meio para fazer a parte pedagógica - a psicologia da aprendizagem, didática, aquelas coisas todas que são da área pedagógica que vão dar subsídios para dar aula melhor. Então fiz esse curso terminei. Eu trabalhei como engenheiro, mas ensinar também é bom. Eu fui fazer o mestrado em ecologia, e no mestrado também tem a parte complementar que é Metodologia do Ensino Superior, [...] o mestrado e o doutorado foram praticamente emendados. [...] eu fui pra Alemanha fazer o doutorado, terminei em torno de quatro a cinco anos. E fui fazer concurso: já que terminei então agora eu quero ensinar (DR – Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). Este docente se ressente da falta de formação pedagógica mais sólida e continuada, destacando a disciplina Metodologia do Ensino Superior, realizada na pósgraduação stricto sensu, como qualificadora de sua ação didática. Mesmo declarandose como “não muito ligado à Pedagogia”, sua preocupação e percurso de formação evidenciam o reconhecimento de que a formação pedagógica é um “processo complexo” e não uma “atividade meramente técnica”, como bem asseveram Veiga et al. (2012, p. 85). Repudia a falta de apoio institucional, seja na oferta de formação continuada para seus docentes, seja na garantia de condições de trabalho mais favoráveis, registro que converge com o posicionamento do professor de Medicina. O registro, que também explicita a solidão vivida pelos professores, destaca principalmente o caráter individualizado que assume a decisão do docente de melhorar, de desenvolver-se profissionalmente. Mesmo enfrentando esses desafios, o professor de Ciências Biológicas em foco revela o uso diversificado de estratégias de ensino no processo de iniciação do aluno na construção do conhecimento e no desenvolvimento da atitude investigativa. O ensino com pesquisa é concretizado de modo associado às aulas práticas, seja de laboratório ou de campo, culminando com a produção de um relatório científico, momento em que os alunos também fazem uma revisão teórica complementar articulada à vivência realizada. Recorre, ainda, a seminários, à resolução de problemas, a estudos dirigidos e à elaboração de resumos. No fragmento a seguir ele descreve o uso de seminários em sua prática pedagógica: Outros querem seminário, mas compreendem que no seminário você tem que saber passar aula. Meu seminário é diferente um pouco. [...] se escolhe uma temática [...]. Esses temas são sorteados [...] por equipes de até três alunos. [...]. esses temas também possuem um roteiro, com uma parte escrita, com um levantamento, uma pesquisa em cima daquele assunto. [...]. Essa é a parte escrita. Eles também vão apresentar, um grupo. [...] vinte minutos. Aí as outras equipes são divididas: uma vai avaliar a equipe que está apresentando; outra vai perguntar; outra vai complementar os assuntos que eles deram. [...].Tem uma equipe que avalia todo mundo, e tem outra que organiza [..] controla o tempo. Depois dos vinte minutos começam as perguntas, [...]. A equipe que pergunta é para perguntar, para fazer perguntas inteligentes. Não quero aquele papo que gostei, achei lindo, foi massa. (DR – Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). A expressão “saber passar aula” utilizada pelo professor faz referência a uma característica particular da docência: saber tornar ensinável o conhecimento disciplinar. Mesmo sem esse objetivo explícito em sua ação didática a adoção da estratégia do seminário possibilita aos graduandos experienciarem e desenvolverem habilidades específicas do ensinar, a exemplo do equilíbrio entre conteúdo, forma e tempo na ministração da aula e da postura diante da turma. Não foi possível observar um momento de realização do seminário durante o período em que as aula do professor foram observadas. Na aplicação da técnica do seminário também a promoção de habilidades investigativas se faz presente, desde a ideia de organizá-lo a partir de uma temática, o estímulo ao levantamento de informações visando o aprofundamento, o fomento a sistematização das análises no formato escrito, até a socialização das conclusões. Visualiza-se, no modo como o professor declara que conduz o processo junto aos alunos, elementos de integração entre pesquisa e ensino na sala de aula. Este professor denota forte implicação com seu trabalho, decisão, conforme já esclarecido, madura e forjada por sentimento de identificação com a docência. O cuidado com a formação do alunado o fez e o faz buscar maneiras diferenciadas e diversificadas de iniciação do aluno no processo de construção do conhecimento, nas quais a pesquisa aparece como componente sempre presente e estruturante. O uso da resolução de problema em sua prática pedagógica, no qual evidencia articulação com as etapas que caracterizam o ensino com pesquisa, conforme formulado por Lampert (2008), é emblemático desse eixo estruturante. As distintas estratégias empregadas para promover a formação dos graduandos sob a responsabilidade do professor na disciplina de Ecologia, e o elemento condutor que baliza as decisões relativas ao “o que ensinar” e “para que ensinar”, evidenciam uma ação didática orientada para a integração pesquisa e ensino na formação profissional desenvolvida pela universidade. Esta orientação, todavia, não parece muito clara para o professor, pois ao ser indagado se considerava que sua prática promovia o desenvolvimento da atitude investigativa nos alunos demonstrou, no primeiro momento, não entender a pergunta, mas logo em seguida argumentou: Não plenamente, mas eu tento. Depende muito da sua Pedagogia. Eu acho que eu nem obrigo não; é praticamente, sutilmente. Eu faço com que eles corram atrás das coisas. É como eu digo: eu não dou nada mastigadinho para eles. Assim: o que é ecologia? Nada de respostas pouco subjetivas, mas com questões que eles têm que expressar, tem que expor suas ideias, tem que pesquisar, formar suas ideias, tomar suas ideias e expô-las. Eu suponho que eles têm que pesquisar. Tem que investigar. Então, eu acho que, por exemplo, os relatórios, os estudos dirigidos, os questionamentos que são colocados para eles responder, as próprias provas [...]. (DR – Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). A provocação oriunda do questionamento feito durante a entrevista leva o professor a uma pausa e reflexão sobre o que faz, como ensina, resultando em uma resposta analítica da sua ação docente. Nesse exercício reconhece que estimula a atitude investigativa entre os alunos, mas o faz de modo sutil e prático. Ele não diz, não reconhece, entretanto, que seu agir docente em contexto de aula favorece a integração pesquisa e ensino, embora o faça. Tributa-se este não reconhecimento à prevalência de uma acepção científica de pesquisa, associada a processo laboratorial e ligado a atividades próprias de um grupo de pesquisa. É o que revelam os trechos selecionados: Eu procuro [desenvolver atitude investigativa] em tudo o que eu proponho. [...] Eu, como professor de ecologia, eu sempre tenho uma tendência para falar mais da parte vegetal. [...]. É o que eu digo para eles, é da minha formação. Mas eu não posso entrar na parte da histologia, na parte de genética. Eu trato de coisas muito superficiais, mas aprofundar, fazer uma pesquisa assim.., eu posso trazer e passar informações. [...] Por exemplo, eu mesmo faço minha pesquisa ecológica, em um grupo de pesquisa e minha parte consiste em fazer toda parte ecológica ambiental daquelas plantas, certo? [...] Eu procuro não errar nenhuma coisa no laboratório, pois sempre tem bastantes alunos, sempre tem alunos voluntários, muitos vêm trabalhar em várias pesquisas que eu faço lá. Então, eles todos publicam [...]. Agora, essa parte de ensino... [...]. (DR – Curso de Ciências Biológicas). (Grifamos). Pesquisar aparece no depoimento do professor como atividade especializada e reservada a um espaço específico, o grupo de pesquisa, o laboratório. Ele não a vislumbra como princípio educativo, menos ainda sua integração ao ensino como dimensões indissociáveis da aprendizagem (SEVERINO, 2009). Paradoxalmente, traz para sua ação didática, para seu modo de ensinar, saberes e práticas de sua experiência como pesquisador, a exemplo da valorização do contato direto com o fenômeno e da manipulação. Estes, por sua vez, são reelaborados, transformados pedagogicamente, com o fito de tornar significativo o ensino e mediar o processo de aprendizagem discente. Ao ponderar sobre a adesão dos alunos ao seu modo de ensinar, este docente a considera positiva, sentindo-se recompensado. Nesse sentido, faz referência a momentos em que alunos que não se identificavam com a área de ecologia e passam a compreender sua importância na vida pessoal e para a sociedade em geral. Os dados analisados evidenciam uma ação didática do professor planejada, centrada e favorável à aprendizagem do aluno numa perspectiva que valoriza o conhecimento do campo disciplinar e a atitude crítica e investigativa; um ensino problematizador, fortemente permeado pela experiência de pesquisa do docente. 4.6.3 Ensinar no Curso de Física As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Física (Resolução nº 9/2002 - CNE/CES; Parecer n.º 1.304/2001) assim definem o perfil geral para seus egressos: [...] seja qual for sua área de atuação, deve ser um profissional que, apoiado em conhecimentos sólidos e atualizados em Física, deve ser capaz de abordar e tratar problemas novos e tradicionais e deve estar sempre preocupado em buscar novas formas do saber e do fazer científico ou tecnológico. Em todas as suas atividades a atitude de investigação deve estar sempre presente, embora associada a diferentes formas e objetivos de trabalho (BRASIL/MEC/CNE/CES, 2001, p. 3). Com base nessa caracterização geral, definem o licenciado na área como físico-educador, cujo perfil é descrito como o profissional que se dedica “preferencialmente à formação e à disseminação do saber científico em diferentes instâncias sociais, seja através da atuação no ensino escolar formal, seja através de novas formas de educação científica, como vídeos, “software”, ou outros meios de comunicação (BRASIL/MEC/CNE/CES, 2001, p. 3). Esta orientação, em particular a ideia de “conhecimentos sólidos e atualizados em Física”, se sobressai no relato do professor participante deste estudo, que é bacharel, possui larga experiência com pesquisa na área e atua na licenciatura. O professor manifesta sua identidade e amorosidade com a Física, apresentando-se como um estudioso dessa área. A docência em Física, pelo tom de seu relato, aparece como desdobramento e tarefa a que um apaixonado pela área não poderia se furtar. Na sequência, sua explicação assume o tom de justificativa ao anunciar: “Não tive bons professores que me preparassem para dar aulas”. Ao fazer este comentário, trata do planejamento de suas aulas destacando a ementa como elemento balizador do que precisa ser ensinado e, pelo seu posicionamento, não cabe questionamento. Ele afirma não planejar suas aulas; a organização de sua prática em sala de aula ocorre de maneira espontânea e improvisada, orientada pelo conhecimento disciplinar que acredita deter, revelando uma concepção de planejamento burocrática e tecnicista. Não reconhece a necessidade de planejar, além de considerar que para dar aula “basta um quadro, um piloto e a coisa acontece” (DA Curso de Física). A descrição a seguir oferece uma aproximação mais nítida deste professor em ação no contexto do ensino. A turma estava quase completa, formada por alunos com faixa etária de 19 a 25 anos. Os alunos estavam organizados em fileiras, voltados para o professor, que ocupava o centro das atenções. A aula, de Metodologia do Trabalho Científico, inicia com o professor fazendo uma breve apresentação sobre o que seja um trabalho científico, diferenciando-o de outras produções técnicas. Os alunos ouvem com atenção. O professor prossegue em sua explanação. Em certo momento destaca a importância da organização do trabalho científico para a Ciência, instante em que indaga aos alunos se já haviam escrito algum trabalho desse tipo. O silêncio toma conta da sala, os olhares dos alunos se cruzam. A reação dos alunos evidencia o distanciamento do assunto abordado pelo professor da realidade dos alunos. O professor espera por alguns minutos, sem resposta. Ao romper o silêncio, anuncia: “Vocês só passarão nessa disciplina se escreverem e apresentarem um trabalho científico em algum evento. Quero a certificação. Essa atividade vai representar todos os meus NPC’s”. Desde esse momento, o professor retoma a exposição, desta feita detalhando como redigir um trabalho científico. Finaliza indicando para os alunos algumas leituras de trabalho dessa natureza (DA - Observação de aula de campo: 2º dia). O conteúdo aparece como elemento didático que move a ação deste docente, configurando um processo de ensino centrado na transmissão e na responsabilização do aluno pela possibilidade ou não de aprender. Ele não reconhece seu papel mediador nesse processo, evidenciando um agir profissional ancorado numa racionalidade instrumental, conforme fica explicitado em um dos trechos de seu relato em que detalha como desenvolve suas aulas: Apresento o conteúdo para meus alunos e, no início do curso, digo como vai ser o semestre [...]. Por estar ministrando disciplinas que requerem muito de exposição, [...] mas a maneira como dou aula funciona, meus alunos aprendem, afinal conseguem atingir a média exigida para aprovação. [...] Avalio no final de cada unidade. Uso provas escritas para medir o conhecimento, é dada a matéria, então quero saber se aprenderam ou não; se não aprenderam a culpa não é minha, concorda? Eu ensinei; aprender é com eles (DA - Curso de Física). (Grifamos). Da forma como se apresenta no relato do professor, a assução de que “aprender é com ele [o aluno]” baseia-se no entendimento de que se alguns conseguem aprender, tendo acesso à mesma aula que os demais, o aluno que não logra êxito é porque não se esforça o suficiente em estudar o conteúdo. O seu entendimento é emblemático dessa racionalidade, expresso na afirmação: “Tenho alguns alunos que não querem nada, atrapalham as aulas [...]. Apresentam muita dificuldade em raciocínio e trabalhar isso é atrasar cronograma, deixar de dar conteúdo. O cumprimento do programa é o que caracteriza um bom trabalho docente” (DA - Curso de Física). As intervenções deste professor em sala de aula e as interações com os alunos distam de qualquer preocupação explícita em formar futuros professores de Física, que parece ensinar na licenciatura com os olhos voltados para o bacharelado em Física. Ele é incisivo em destacar que não teve “bons professores” que o “preparassem para dar aulas”. Nesse sentido, acrescenta: “Tenho reproduzido nos últimos dez anos o que meus mestres me ensinaram”. A assertiva, ao tempo que confirma constatações como a de Cortesã (2000, p. 40) de que os “docentes universitários geralmente ensinam como foram ensinados”, também chama atenção para advertências como a de Formosinho (2009) acerca dos efeitos da prática docente dos formadores, destacada como “importantes modelos de aprendizagem da profissão”. Entende que seu modo de ensinar tem “dado certo”, pois consegue “transmitir” o que quer e “só cobro o que apresento nas aulas”. Declara, ainda, que “a didática não me faz muita falta, na verdade nem sei o que é mesmo didática”. A afirmativa manifesta o entendimento de que o trabalho do professor “resume-se em ensinar um corpo de conhecimentos estabelecidos e legitimados pela ciência e cultura, especialmente pelo valor intrínseco que os mesmos representam”, como bem explicita Cunha (2009, p. 217). O posicionamento é emblemático dos dilemas presentes no campo da formação do docente universitário e do ensino nesse contexto, situação ainda mais preocupante quando o professor não reconhece a necessidade de deter conhecimento sobre o ensinar e o aprender. Este docente considera a sua atuação como docente satisfatória. Para ele, saber o conteúdo é suficiente para saber ensinar. Nesse sentido, nega a importância e a necessidade de formação pedagógica para qualificar sua ação docente, assumindo atitudes e procedimentos típicos de uma racionalidade técnica, de uma didática instrumental. Do ponto de vista epistemológico, da produção do conhecimento, esta compreensão do processo de ensino tem implicações sobre o desenvolvimento da atitude investigativa nos alunos que favoreça uma formação docente reflexiva e orientada por interesses emancipatórios. Ensinar é compreendido como transmissão, repasse de conteúdos percebidos como legítimos socialmente. Aprender, por sua vez, está associado à reprodução. O professor, em seu relato e nas aulas observadas, não demonstra entender a pesquisa e o ensino como dimensões indissociáveis da aprendizagem, como formulam Farias Abu-El-Haj, Leitinho e Cardoso (2012). Para ele, “pesquisar é produzir ciência, inovação, principalmente na área de Física; já no ensino, preparamos para esse momento, o de pesquisar”. Formar pesquisadores aparece como intencionalidade que mobiliza seus esforços. Categoricamente afirma: “Eu ensino para que meus alunos façam pesquisa. Afinal, ensinar é uma coisa, pesquisar é mais complexo, requer método de investigação”. Mais uma vez o professor esquece sua atuação como formador em curso de licenciatura destinado a formação de professores de Física para a Educação Básica. O lugar da pesquisa para este docente é o laboratório, espaço de aplicação de conceitos, os quais são repassados em aula. Sua prática evidencia a adesão a um ensino prescritivo, compreensão intensivamente perpassada pela desvalorização do conhecimento pedagógico como componente de sua profissionalidade docente. Sua compreensão do ensino nega-o como dimensão relevante de produção do conhecimento. Revela domínio do campo disciplinar e acredita que este conhecimento é suficiente para ensinar. Importa frisar que os três casos apresentados são ilustrativos do conjunto dos dados colhidos junto aos 18 professores participantes desta investigação. A Educação Superior se sobressai como principal contexto de socialização profissional. Não são “casos” exemplares, nem os melhores, nem os piores professores. Eles ensinam e o fazem movidos pelo compromisso ético-profissional com esse trabalho. O modo como ensinam, como atribuem sentido ao que fazem, evidenciam elementos que permitem vislumbrar tendências presentes na Pedagogia universitária contemporânea, síntese alvo da sessão que fecha este escrito. 4.7 A integração ensino e pesquisa: o que ocorre na sala de aula universitária Síntese que move para outras buscas Ensinar é uma prática situada e ética, cujas decisões traduzem uma intencionalidade. É esta intencionalidade que move a ação docente. O professor quando delibera o faz apoiado nas teorias e experiências que tecem seu compromisso com sua função social, posição forjada mediante a concepção que ele tem das relações entre educação, sociedade e conhecimento. A aula, nesse sentido, é expressão concreta de sua ação profissional; é, pois, neste espaço-tempo coletivo de formação e produção de conhecimento que a interação professor-aluno, dimensão mais visível do ensino, se concretiza. Assim, considerando o intuito de saber como ensinam professores com vínculo com pesquisa, buscamos identificar elementos estruturantes do agir profissional desses docentes universitários desde suas perspectivas acerca de sua ação didática, considerando a base empírica explicitada no item 4.3 desse texto (Quadros 5, 6 e 7). O conjunto dos dados coletados possibilitou identificar tendências no modo de ensinar dos professores participantes do estudo que têm vínculo com pesquisa no exercício de suas funções docentes na Universidade. Recorremos ao termo tendência na acepção formulada por Saviani (1994), que o define como “determinadas orientações gerais à luz das quais e no seio das quais se desenvolvem determinadas orientações específicas” (SAVIANI, 1994, p.19). Sua adoção neste texto, portanto, faz referência ao propósito de caracterizar o modo como ensinam professores com vínculo com pesquisa, explicitando um traço definidor baseado em elementos conceituais que sustentam e delineiam sua ação didática em situação de aula na Universidade. Estes elementos referem-se às suas concepções sobre ensino, pesquisa e aprendizagem. Na análise da ação didática dos professores com vínculo com pesquisa, foi possível identificar uma prática pedagógica compósita, tensionada por concepções de pesquisa, ensino e aprendizagem, permeada tanto por orientações técnicas quanto de caráter mais dialógico e emancipatório. A prevalência de uma ou de outra racionalidade desenha tendências distintivas entre essas práticas pedagógicas. Registramos práticas pedagógicas com intensiva presença de estratégias de problematização e de fomento a aprendizagem experiencial, voltada para o desenvolvimento profissional do aluno; práticas pedagógicas marcadas pela experiência de pesquisa de seus docentes e pelo domínio do conhecimento no campo disciplinar de formação; professores que ensinam contextualizando, questionando e lançando mão de atividades que favoreçam o aluno a refletir, argumentar, observar, comparar, estabelecer relações, produzir textos, enfim, a elaborar uma compreensão crítica sobre sua futura profissão e seu papel. No modo como ensinam, a preocupação em promover a compreensão dos conteúdos da formação associado à problemática social no campo da prática profissional, fomentando conhecimento capaz de promover intervenções resolutivas, denota influxos na relação pedagógica entre docentediscente-conhecimento vinculados a princípios ético-práticos emancipatórios. São fazeres que, mesmo de maneira embrionária e cambiante, tecem um ensino problematizador. Esta tendência no modo de ensinar, presente, embora com diferenciações e oscilações, na prática pedagógica de alguns professores dos cursos Medicina, Enfermagem, Ciências Biológicas, Nutrição, História e Pedagogia (n=9), aponta a pesquisa como componente com potencialidade para gerar inovações18 na pedagogia universitária, ensejando rupturas com a cultura pedagógica acadêmica de base técnico-instrumental ainda prevalecente. Os professores com vínculo com pesquisa, portanto com experiência de pesquisa, trazem para a ação de ensinar princípios e práticas da pesquisa relativas ao modo de operar o processo epistêmico. Não se trata de uma transferência automática, mas um processo evolutivo complexo de reorganização do conhecimento profissional docente, com base no qual apoiam e enriquecem as estratégias didáticas que configuram seu modo de ensinar; um conhecimento experiencial relevante, mas não 18 A inovação é impulsionada, justificada e legitimada pela intenção de mudar, caracterizando-se como processo complexo e exigente que pressupõe o desenvolvimento de capacidades cognitivas e inventivas para fazer frente às situações novas que emergem. Expressa movimento de ruptura (FARIAS, 2006). suficiente para fomentar a compreensão dos fundamentos do exercício docente, sobretudo conhecimentos específicos sobre o ato de ensinar, relacionados à dimensão pedagógico-didática. Lacunas na formação pedagógica desses docentes respondem pela prevalência em suas práticas de concepções difusas sobre a aprendizagem, que podem ser traduzidas como “praticar o conhecimento”. Esta situação promove oscilações e tensionam suas concepções de ensino e pesquisa, obstaculizando sua compreensão como dimensões indissociáveis da aprendizagem. Não obstante esta tensão, suas práticas pedagógicas evidenciam que o “fundamental no conhecimento não é a sua condição de produto, mas o seu processo” (SEVERINO, 2002, p.134). Apontam a presença de uma racionalidade prática no modo de ensinar, desdobrando, por diferentes caminhos, a preocupação com o aluno. O saber de experiência aparece como central na aprendizagem da docência, sendo intensamente mobilizado e valorizado pelos professores pesquisadores nas decisões que movem sua prática pedagógica. Eles é que dão suporte e conferem sentido a ação didática, pois fornece um referente à luz do qual decidem sobre “para que ensinar”, “o que ensinar” e “como ensinar”. Decisões complexas e que demandam reflexão crítica, conjugando interesses institucionais, pessoais e dos alunos. Este percurso, na universidade, é marcado pela solidão docente, acentuada pela ausência de apoio institucional, sobretudo de formação pedagógica continuada que enseje práticas efetivas de colaboração entre pares (e não de divisão de carga horária de disciplina). Os professores revelam que vêm construindo seu conhecimento profissional como docentes universitários de maneira autodidata, por ensaio e erro. Lacunas no campo do conhecimento pedagógico dificulta o desenvolvimento de práticas mais robustas e inovadoras destinadas à iniciação do aluno na construção do conhecimento, concorrendo para a presença ainda de aulas expositivas dialogadas. Problematizar apresenta-se como mecanismo de incorporação do processo epistêmico ao ensino, assumido com diferenciações. Na contramão dessa orientação, alinha-se o ensino prescritivo, também conhecido como ensino tradicional, sustentado por uma racionalidade cognitivoinstrumental. A ação didática na área de Física é emblemática dessa tendência conservadora: ensinar é transmitir o conhecimento (embora também identificada na Matemática, Química, Educação Física, Nutrição e Pedagogia). O detalhamento da prática pedagógica no Curso de Física é uma evidência de que a experiência de pesquisa não se converte diretamente nos conhecimento necessários para ensinar. Deter experiência de pesquisa consolidada não assegura ser um bom professor, saber ensinar; contribui, certamente, mas isso é possibilidade que envolve fatores diversos, desde a identificação com o trabalho a investimentos sistemáticos na formação. O grande desafio na produção de uma pedagogia universitária inovadora, capaz de romper com princípios e práticas de base técnico-instrumental, se encontra nos professores, pois “a prática não muda antes das crenças” que movem o agir docente (FARIAS, 2002). Mudanças no âmbito das práticas de ensino requerem ressignificação teórico-prática do modo como os professores pensam e agem. Essa transformação não ocorre no vazio, nem se opera apenas no plano individual e muito menos através de ações fragmentadas de formação. Nesse sentido, fazemos eco com as ponderações de Pimenta e Anastasiou (2002, p. 250), que sugerem o desenvolvimento de [...] uma preparação pedagógica que conduza a uma reconstrução de sua experiência pode ser altamente mobilizadora para a revisão e a construção de novas formas de ensinar. O diálogo entre a experiência e a história, entre uma experiência e outra ou outras, o confronto das práticas com as contribuições da teoria, com suas leis, princípios e categorias de análise, num movimento de desvelar, pela análise da prática, a teoria em ação, o processo de investigação da prática, de forma intencional, problematizando-a em seus resultados e no próprio processo efetivado, são desafios e possibilidades metodológicas na preparação pedagógica dos docentes universitários. Aprender a ser professor, como diz Veiga (2008, p. 17), não se descola do “sentido que o profissional confere ao seu trabalho, definindo o que quer, o que não quer e o que pode como professor”, enfim, mantém íntima relação com seu percurso de identificação com a profissão. O fomento a iniciativas de formação de docentes que visem mudanças em suas práticas não pode desconsiderar suas histórias e experiências, pois elas são constitutivas do modo como ensinam. Ensinar, como parece ainda prevalecer no imaginário social, não é algo trivial, que qualquer pessoa pode fazer, pois requer muito mais que saber o conteúdo a ser ensinado. É um trabalho especializado, tensionado por culturas pedagógicas representativas de projetos epistêmicos em disputa, os quais o professor precisa conhecer para definir sua posição. Capítulo 5 DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA: PROFESSORES NÃO ENVOLVIDOS EM ATIVIDADES DE PESQUISA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO – ESTUDO DOIS A síntese proveniente do ‘Estudo Um’, capítulo anterior, deixou outras inquietações para nós autores, dessa obra, professores pesquisadores e demais integrantes dos grupos de pesquisa. Os resultados encontrados apontaram para a necessidade de outras buscas que complementassem com maior clareza o desenho da realidade investigada. O quadro desenhado nos evidenciava um universo significativo de professores universitários que no momento da investigação NÃO se encontravam envolvidos com atividades de pesquisa na Universidade. É em torno dessa preocupação que foi realizado o Estudo Dois, de que tratamos a seguir. 5.1 Origem e proposta do Estudo Dois Tudo começou com o Estudo Um, quando constatamos que de um total de 306 docentes de dez cursos de graduação mais da metade (n= 162) não estava envolvida com atividades de pesquisa. Uma interrogação nos veio em seguida: que concepções de pesquisa têm professores universitários que não apresentam vinculo com atividades de pesquisa? Como iniciam seus alunos na construção do conhecimento? Este fio condutor nos motivou a fazer o caminho inverso, ou seja, investigar sobre as práticas pedagógicas desenvolvidas por docentes que não pesquisam, ancorados nos questionamentos: se os professores no ensino de graduação efetivamente apenas ensinam, que motivos apresentam para um exercício docente centrado somente no ensino? Se a universidade prima pela indissociação ensino, pesquisa e extensão, por que existem ainda em seus quadros professores que constituem ‘feudos’ exclusivos de atividades de ministrar aulas? Qual o motivo para a exclusão da pesquisa de suas atividades como professores da educação superior perante o argumento de que o exercício da pesquisa é fator constituinte de uma prática de ensino diferenciada? O Estudo Dois cobriu dez cursos de graduação da UECE, apresentando universo similar ao da investigação anterior, diferenciando-se apenas pela presença do curso de Música no lugar do curso de História. Buscou entender como professores sem vínculo com atividade de pesquisa constroem conhecimentos em sua sala de aula, uma vez que entendemos a relação teoria e prática, o ensino e pesquisa como caminhos para desenvolvimento de habilidades reflexivas que levem a uma formação para além do ensino. Concretamente, o Estudo Dois teve como objetivos mais amplos o que vem a seguir. Contribuir para o debate sobre a relação pesquisa e ensino na docência universitária, em particular, sobre as implicações da prática pedagógica desvinculada da pesquisa para a formação dos discentes. Conhecer o que pensam os professores sem vínculo com pesquisa sobre a formação para a pesquisa nos cursos de graduação, bem como os motivos que os levam a se afastar dessa atividade na universidade. Inventariar a prática pedagógica de professores sem vínculo com pesquisa, as estratégias de ensino utilizadas, as dificuldades e formas de enfrentamento por eles desenvolvidas para favorecer a construção do conhecimento dos alunos. 5.2 O cenário e o caminho trilhado Este estudo utiliza em sua metodologia uma abordagem qualitativa. As pesquisas em Educação, dada sua complexidade, mantêm essa tendência (LÜDKE. ANDRÉ, 1986). Segundo Bogdan e Biklen (1994), há cinco características fundamentais na investigação qualitativa: i) a fonte direta dos dados é o ambiente natural e o investigador é o agente da coleta dos dados; ii) os dados possuem caráter descritivo; iii) o investigador se interessa mais pelo processo em si, do que propriamente pelos resultados; iv) a análise dos dados é feita de forma indutiva; e v) a compreensão dos significados que os participantes atribuem as suas experiências tem importância fundamental. Ao assumir tais características, o investigador está, de certa maneira, explicitando seu modo de pensar, fazer e estar na pesquisa. O delineamento teóricometodológico de sua investigação, nesse sentido, revela os compromissos assumidos por ele, na qualidade de pesquisador, com o universo pesquisado e sua visão de mundo para a compreensão do fenômeno. É o que aqui acontece. Desse modo, com apoio no referencial da reflexividade e do trabalho situado, abordados nos capítulos iniciais deste livro, o Estudo Dois ancorou-se nos pressupostos da pesquisa empírica exploratória, com abordagem qualitativa. Os resultados do Estudo Um, submetidos a revisão e atualização dos dados, constituíram os subsídios de partida para a análise dos questionamentos em torno do professor sem envolvimento com atividade de pesquisa no exercício de suas funções docentes na Universidade. Para a escolha desses profissionais consideramos os seguintes critérios: ter vínculo institucional (ser efetivo), não atuar em atividades de pesquisa, maior titulação (mestre ou doutor), tempo de serviço na UECE e disponibilidade para participar da investigação. Em termos práticos, o Estudo Dois foi organizado em quatro etapas, conforme detalhamos a seguir. A primeira constou da realização de seminários de estudo e aprofundamento teórico e metodológico, abrangendo desde a atualização do referencial bibliográfico do Estudo Um, do universo da pesquisa e redefinição das categorias. A segunda a girou em torno da coleta preliminar de dados, envolvendo desde o levantamento de documentação, a elaboração dos instrumentais, a definição de estratégias de inserção nos cursos e os procedimentos para a realização da fase de entrevistas. Durante a terceira etapa, priorizamos a execução e a aplicação de questionários e entrevistas, mediante os dados atualizados e a redefinição do quantitativo dos docentes participantes do Estudo Um. Essa tarefa resultou da busca de novas informações junto às coordenações de cursos, exame do currículo Lattes dos professores e a aplicação do novo questionário para atualização e redefinição do universo da pesquisa. Organizamos e analisamos, preliminarmente, os subsídios que agregaram as categorias definidas. Na quarta fase da pesquisa, realizamos entrevistas, incluindo as de explicitação, com os docentes. Demos continuidade à organização dos dados com a categorização das entrevistas pelo software NVIVO9, importante auxiliar na categorização dos dados, produzimos gráficos para consolidação do estudo. Esse período foi destinado mais especificamente ao tratamento e análise das informações segundo as temáticas e categorias previamente escolhidas, culminando com sua análise, sintetizada nos tópicos que se seguem. 5.3 Quem são os professores pesquisados sem envolvimento com pesquisa? De um total de 306 professores que compunham o quadro funcional dos dez cursos investigados no Estudo Um (apresentado no capitulo anterior), somente 144 informaram ter experiências com atividades de pesquisas, enquanto 162 declaravam não ter vínculo algum com essa atividade, significando não participar de grupos de pesquisas, não desenvolver projetos de pesquisas e/ou não ministrar disciplinas da área da pesquisa, os critérios básicos, há pouco assinalados, para a seleção dos participantes. Na atualização dos dados, para realização do Estudo Dois, o quantitativo de professores (n=162) que não atuavam com pesquisas (Semestre 2009.1) foi reduzido para 95 (n=95) (Semestre 2013.1.). Com efeito, neste período foi identificado nos dez cursos constituintes do universo pesquisado um total de 332 docentes, conforme pode ser acompanhado no Quadro 8: Quadro 8: Caracterização do universo da pesquisa do Estudo Dois - Campus Itapery. UECE, Fortaleza, 2013. Total de Professores do Curso Substituto Outros Total Curso Efetivo Pedagogia Matemática 42 17 14 05 03 01 59 23 12 13 Música Ciências Biológicas Educação Física Nutrição Enfermagem Medicina 12 23 12 23 29 44 05 08 06 09 06 10 00 00 00 01 00 00 17 31 18 33 35 54 14 09 06 04 03 13 SEM atuação em pesquisa Química Física 18 17 02 08 00 00 20 25 04 08 Total 248 79 05 332 95 O Estudo Dois, portanto, identificou 95 professores SEM vínculo com pesquisa, sinalizando o caráter de mobilidade desse vínculo, traço que mantém ligação com as condições de trabalho do contexto investigado, uma vez que é considerável, por exemplo, o crescimento da contratação de professores substitutos entre a realização do primeiro e do segundo estudo (de 43 em 2009.1 para 79 em 2013.1). Dos 95 professores identificados sem envolvimento com pesquisa, 28 aceitaram participar da investigação. No Quadro 9 é possível visualizar a distribuição desses professores por curso: Quadro 9: Caracterização da amostra da pesquisa do Estudo Dois. Campus Itaperi. UECE, Fortaleza, 2013. Curso Pedagogia Matemática Música Ciências Biológicas Educação Física Nutrição Enfermagem Medicina Química Física Total Professores participantes 5 4 2 3 2 2 2 4 2 2 28 Os 28 docentes formam um grupo misto em relação ao gênero, são efetivos, possuem titulação de mestre e doutor, alguns inclusive com estágio pós-doutoral. Todos responderam ao questionário e foram entrevistados. Estes 28 docentes recebem na identificação de seus depoimentos a sigla P – de professor e a numeração que vai do 1 ao 28, conforme relatos que são utilizados nas análises que se seguem. 5.4 A aula - espaço de construção do conhecimento? Como ensinam professores sem envolvimento em atividades de pesquisa As entrevistas realizadas com os 28 professores apontam uma diversidade de modos de ensinar, de práticas pedagógicas e visões de mundo, enfim, estilos diferentes de perceber, compreender e entender o universo da docência e da prática de pesquisar. Essa constatação provocou a necessidade de procedemos uma categorização em torno de duas questões que apareceram de forma recorrente nos relatos dos docentes participantes desta investigação, a saber: a) o desenvolvimento de suas práticas pedagógicas em sala de aula; o que entendem por reflexividade (professor crítico, reflexivo e transformador). A discussão que segue trata desses resultados. Partimos do pressuposto de que “ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão da prática” (FREIRE, 1991, p 58). É papel do professor ter atenção com a aprendizagem do aluno, tentando, quantas vezes sejam necessárias, exercer a sua condição de mediador de suas aprendizagens. Reconhecidamente, o ato de ensinar não é uma tarefa simples e, por sua complexidade, requer uma série de atributos por parte dos formadores para cumprir com competência e responsabilidade suas tarefas. Ser professor ultrapassa ter o domínio do “saber” específico de sua área de formação para buscar nas demais ciências os saberes necessários ao exercício da docência e ao seu processo de profissionalização. Entre outros, empenho, compromisso, condições adequadas de trabalho, salário, políticas públicas são necessários ao adequado exercício profissional. As atividades de ensino, pesquisa e extensão constituem atribuições a serem por eles exercidas. 5.4.1 Como desenvolvem suas práticas pedagógicas em sala de aula Com base nos elementos ora anunciados, perguntamos aos professores sem envolvimento com pesquisas como ensinam e que estratégias utilizam, visando a iniciar o aluno na produção do conhecimento. Para o alcance desses propósitos, pedimos, então, que relatassem brevemente como desenvolvem suas práticas pedagógicas. O ponto alto de seus relatos está na afirmação sobre as dificuldades sentidas em sala de aula para ensinar, o que tributam à falta de formação para o exercício da docência. Ao mesmo tempo em que questionam sobre as práticas de ensino que exercem, se estão trilhando o caminho correto, faltam-lhes fundamentos teóricos e pedagógicos que reorientem os seus fazeres. Além disso, ressaltaram que o ato de ensinar é muito difícil, pois “requer compromisso e clareza para quem escolhe o cumprimento do papel de professor” (p 20). Não esclarecem, no entanto, o que entendem por compromisso ou a que se referem. Os docentes dos dois cursos da área de Humanas (um grupo de sete professores) registram que costumam utilizar em suas práticas pedagógicas um conjunto diverso de condutas ou procedimentos metodológicos, como seminários, provas, trabalhos individuais e em grupos. Os professores (um grupo de 13) que atuam na área da Saúde (Ciências Biológicas, Medicina, Nutrição, Enfermagem e Educação Física), ao relatarem sobre como ensinam, destacaram suas práticas avaliativas, realizadas mediante provas e seminários, indicando ainda o uso de slides, trabalhos individuais e/ou grupos. Aqueles atuantes nos cursos da área das Exatas e das Ciências da Natureza (um grupo de oito docentes) disseram que utilizam provas e, como menor recorrência, seminários e trabalhos individuais e em grupo. Destacam ainda o uso de data-show, reportagens da internet, vídeos e filmes, como recursos utilizados para “tornar as aulas menos cansativas”. Depreendemos dos relatos dos 28 professores sem envolvimento com pesquisa a predominância do método tradicional de ensino, no qual o professor se apresenta como o “detentor” do conhecimento e a relação professor-aluno na condução do processo é verticalizada. Expressivo desse modo de ensinar é o registro de um dos professores de Educação Física: “no decorrer de minha prática eu fiquei, um professor muito discursivo. Eram muitos alunos calados e eu falando” (P 04). Nessa mesma direção pode ser entendido o relato de um docente do curso de Matemática: “Normalmente é tradicional mesmo. Eu pego o conteúdo e jogo lá. Tem que ser. Aí é tradicional mesmo” (P 01). Um docente da área de Humanada, porém, assevera: “Eu trabalho muito com equipe (...). A minha disciplina toda eu faço com equipe” (P 20). As práticas desenvolvidas em salas de aula, considerando os registros dos entrevistados, assumem características que, se não impedem, pouco favorecem para que os alunos desenvolvam atitude reflexiva, crítica e investigativa sobre temas e questões específicas a área e ao mundo da vida. Há evidências em seus relatos de que a prática de ensino adotada prioriza o repasse de informações e conteúdos por meio de estratégias que dão ênfase a reprodução do conhecimento em detrimento de sua elaboração/reelaboração. O foco na avaliação é um indicativo dessa orientação estruturante da ação profissional de um grupo expressivo dos docentes entrevistados (n=25). Eles se reportam com frequência às práticas avaliativas adotadas, sobressaindo-se o uso de provas individuais. São práticas desenhadas por um modelo de avaliação seletiva, meritocrática e que tende a desconsiderar o caráter problematizador e dialógico que este momento deveria assumir, se orientada fosse para fins emancipatórios pela via do conhecimento. Cumpre ponderar a ideia de que aspectos da avaliação meritocrática aparecem de forma mais acentuada. Suas visões sobre esse campo não sinalizam com uma perspectiva de avaliação dialógica, diagnóstica e formativa. Seus relatos sinalizam o entendimento de que suas ações estão marcadas por uma tendência tradicional de ensino, com ênfase na transmissão de conteúdos, na repetição mecânica, na decoreba. Do que apreendemos, suas condutas têm inspiração em saberes da tradição pedagógica, adquiridos ou incorporados desde antes de adentrarem o ensino superior, abalizados em modelos de ensino que priorizam a reprodução, não atentos à necessidade de promoverem práticas que gerem a dúvida, a incerteza no âmbito dos processos de aquisição do conhecimento. Reforça esta análise a afirmativa dos professores de que nas aulas dão destaque ao que chamam de ‘conteúdos importantes’, ou seja, aqueles que vão cair na prova. O trecho que se segue é expressivo dessa compreensão: “[...] chamo sempre a atenção de que existem coisas que os químicos não podem deixar de saber e essas coisas eu chamo a atenção, são as que eu vou cobrar em prova” (P 28). Identificamos apenas um pequeno grupo de professores (n=3) que admite ações diferenciadas do modelo referido há pouco, embora pontuais. Nos cursos voltados para a área das Humanas, identificamos relatos de realização de aulas mais diversificadas, buscando o envolvimento contínuo dos alunos. A professora 23 do curso de Pedagogia registrou que acompanha os alunos nas suas experiências de estágios “[...] prá sentir o ambiente lá dentro da escola, como funciona e a gente discute depois [...]” (P 23). A docente entende esse exercício como uma experiência rica de aprendizado, embora bem mais exigente de sua mediação. Ainda entre os que afiançam provocar os alunos em sala de aula buscando quebrar com o ensino transmissivo, destaca-se o esforço de valorizar o que os conhecimentos prévios do aluno, o que é manifesto em atitudes como a relatada a seguir: “Gente, falem como vocês entendem. Eu quero saber isso. Eu não quero coisa decorada não. Eu quero que vocês me digam o que é que vocês estão entendendo disso aí” (P 20). No geral, na linha do que vimos arguindo presume-se que haja uma fragilidade teórica sobre referenciais que embasam as suas concepções de ensinar. Essa constatação justifica a dificuldade demonstrada pelos professores para expressarem os fundamentos que dão sustentação a sua ação docente. Ao se pronunciarem sobre a natureza de suas práticas apresentam respostas vagas, o que permite deduzir dificuldades no trato de questões pedagógicas, decorrente de frágil embasamento teórico nesse campo. As análises confirmam os arrazoados de que para ensinar não basta somente ter domínio dos conteúdos de sua área específica de formação, embora sejam parte integrante desse fazer. Toda atividade docente está permeada por múltiplos saberes constituídos por “conhecer a sua matéria, sua disciplina e seu programa”, devendo possuir certos conhecimentos relativos às ciências da educação e à Didática, incluindo os saberes de suas experiências cotidianas com os alunos (TARDIF, 2010). Tampouco identificamos indícios, nos relatos dos docentes sem envolvimento com pesquisa, de que reconheçam que o conteúdo curricular adquirido pelo aluno precise transformar-se em algo que o prepare para ser um agente de sua aprendizagem, da construção de conhecimentos que não só atendam às demandas e desafios da sociedade, mas lhes possibilitem relacionarem-se com as exigências do mundo do trabalho visando atender as suas necessidades pessoais e coletivas. É oportuno avultar que a presença da reflexão – ação – reflexão nas práticas de ensino abre espaço para promover a indagação teórica, a criatividade, para questionar sobre o que ensinamos e aprendemos. Nesse sentido, cabe aos professores desenvolverem a mediação reflexiva e crítica com as “transformações sociais concretas e a formação humana dos alunos, questionando os modos de pensar, sentir, agir e de produzir e distribuir conhecimento” (MANFREDI, 2002, p.116), criando assim condições que auxiliem a responder com autonomia as situações conflituosas do cotidiano. Esse proceder pode se transformar em canal de mediação favorável à apreensão das implicações decorrentes das ações pedagógicas praticadas no exercício da docência como possibilidade de se atingir os objetivos da formação humana em espaços formais, sabendo os professores de que o aprender pode anular-se se o caminho escolhido para o alcance de intenções limitar-se simplesmente à memorização mecânica de conteúdos na forma como foram produzidos e transmitidos. Optar por perspectivas que assumem o caráter investigativo sobre o ensinado comporta entender de que possa ser uma pilastra da produção de novos conhecimentos, de novas aprendizagens. Entendemos, sobremodo, que as práticas pedagógicas tradicionais, de um modo geral enraizadas nas concepções dos docentes universitários desde sua entrada para a educação superior, traduzem-se em condutas pedagógicas espelhadas numa racionalidade técnica que envolve a memorização mecânica, evidentemente obstacularizadora do desenvolvimento de uma releitura dos fundamentos da formação, se restritas à reprodução de conteúdos prontos e acabados, desprestigiando a inovação, a reflexividade como alternativas de contribuição para a melhoria da qualidade do ensino. Para romper com a racionalidade técnica no exercício da docência, o apoio do ensino com pesquisas se insinua como abertura para se criar essa possibilidade, pois o ensino nessa perspectiva pode ser copartícipe da articulação teoria e prática, transformada em instrumento de questionamento, de busca, para a descoberta e da elaboração de outros olhares no âmbito do ensino. Enfim, influem para a criação de uma outra racionalidade. 5.4.2 Reflexividade – concepções e práticas A discussão sobre a dimensão do agir reflexivo em contextos das práticas de professores é parte integrante do Estudo Dois, suporte para pensar uma reconfiguração dos processo de formação. Ser reflexivo não é apenas compreender algo que se apresente imediatamente, mas buscar realizar observações que permeiam tal seara para alcançar respostas sobre o que não foi exposto, não esclarecido. Supõe um exercício constante de análise sobre as coisas. Com este entendimento, buscamos conhecer a percepção dos professores participantes do estudo acerca dos estudos sobre professores reflexivos, críticos, e de como promover a capacidade reflexiva dos alunos. No Estudo Um, que trata de professores envolvidos com atividades de pesquisas, identificamos referências que entendem a reflexividade como caminho para a construção do senso crítico, da elaboração de pensamento próprio. Delineiam entre as concepções de alguns participantes deste estudo testemunhos de que o exercício da reflexão possa acontecer por meio da leitura de textos, seguida de discussão pontuando aspectos de concordância e divergência com o texto lido, entendida como exercício promotor da capacidade reflexiva e de crítica do aluno. É o entendimento de vários professores quando afiançam integrar ensino a pesquisa ao estimular os estudantes a interagir nas aulas, um modo de atuação necessário ao processo da formação e da elaboração do conhecimento, em suas perspectivas. Também relatam procurar levar seus alunos para ambientes externos, fora da sala de aula, cuja finalidade é relacionar a teoria aprendida em sala com experiências vivenciadas nesses ambientes. Estes depoimentos não destoam tanto do que pensam os professores sem envolvimento com atividades de pesquisa, pois estes também aludem à aplicação na prática de atividades rotineiras de mera execução de tarefas previamente definidas, como se fossem promotoras da reflexão; modo de compreensão distinto do conceito apresentado por Gómez (1997, p.103), quando se posiciona dizendo que a reflexão sobre a prática implica: Imersão consciente do homem no mundo da sua experiência, um mundo carregado de conotações, valores, intercâmbios simbólicos, correspondências afetivas, interesses sociais e cenários políticos. O conhecimento acadêmico, teórico, científico técnico, só pode ser considerado instrumento dos processos de reflexão se for integrado significativamente, [...] em esquemas de pensamento mais genérico activados pelo indivíduo quando interpreta a realidade concreta em que vive e quando organiza a sua própria experiência. Desse modo, nos remete a pensar em práticas de natureza reflexiva, baseadas num agir consciente no contexto das relações em que acontecem, como capazes de propiciar construir ou reconstruir a própria prática. Concordamos com Pimenta (2005) quando argumenta que os saberes são construídos no cotidiano do exercício docente e se resumem na experiência e no conhecimento do saber pedagógico consolidado na ação, no qual a prática, não só é objeto de reflexão, como também é objeto de uma ressignificação. Entre os professores da área das Humanas (Música e Pedagogia) não foram identificados relatos explicitando práticas em sala de aulas nesse sentido. Os cursos da área da Saúde, Ciências da Natureza e Exatas tendem a um enfoque baseado na racionalidade técnica. Os docentes sem envolvimento com pesquisa, em geral, denotam pouca ou nenhum clareza do que seja um professor reflexivo. As atividades de campo, conforme seus relatos, são denominadas de “aula reflexiva e histórica social”. Para eles, tais práticas se constituem em estratégias que proporcionam a construção do senso crítico, promovem um importante aprendizado para os alunos. Não se averiguou indicações de reconhecimento da contribuição da pesquisa na formação, elemento articulador da teoria e prática, da criação e recriação da prática, portadoras de novas aprendizagens e da construção do conhecimento dos alunos. As informações coletadas com referência à promoção da reflexividade dos seus alunos trouxeram o seguinte retorno: todos os professores da área de Humanas afirmaram acreditar que promovem com os alunos, em suas aulas, a reflexividade. Na área da Saúde apenas três docentes acreditam exercitar a reflexividade, seguindo-se de seis das Ciências da Natureza e Exatas. Apenas um docente das Exatas reconheceu explicitamente que não promove a capacidade reflexiva dos seus alunos, sendo coerente com a indicação anterior de que seu modo de ensinar enfatizava a transmissão. Outro dado interessante é que 11 dos entrevistados (10 da Saúde e 1 das Exatas) não responderam, alegando que não teriam como saber ou de que tentam. A ausência de um referencial teórico respaldado nos princípios da reflexividade como orientador dos modos de ensinar de professores entrevistados é por eles destacada, corroborando a assertiva anterior relativa à adoção de um ensino tradicional. Entendemos assim o embaraço de seus discursos, permeados por certa confusão e indefinição sobre o juízo do que signifique uma formação com esteio na reflexividade. Esta apreciação se confirma em suas explanações, apontando para uma fragilidade de fundamentação teórico-pedagógica, em particular, quando os entrevistados proclamam: [...] no meu percurso dentro da Universidade, eu percebi que reflexivo pode ser uma palavra do cotidiano sem o devido aprofundamento e é o que acontece no modo geral, porque pra você ser reflexivo, você precisa - como o Gadotti diz com muita propriedade - que você precisa de uma reeducação e então o que a gente ver ainda muito dentro da Universidade são professores tradicionais procurando contornar situações de flexibilidade e algumas situações pra refletir, mas não existe reflexão sem a junção teoria e prática e é aí que começa a grande dificuldade. Professor crítico e reflexivo é aquele professor que reflete sobre a realidade na qual ele está inserido e assume uma postura crítica diante dela, agora transformador é que eu já acho mais difícil de caracterizar. Porque o professor transformador é aquele que não é só professor reflexivo, mas essa reflexão dele se transforma em uma ação concreta que modifica o ambiente em que ele tá (sic) (P 10). Entre distintas interpretações, esses posicionamentos são indicativos da dificuldade de compreensão de que ser professor reflexivo e transformador é também uma possibilidade de transgressão com uma prática educacional tradicional. Giroux (1997) acoberta que se contrapor a essa prática só é possível com a inspiração em uma pedagogia radical, decorrente da atitude do professor comprometido com a transformação. Os seus relatos, no entanto, excluem esse entendimento, pois suas declarações evidenciam-se inconsistentes com uma competência da área pedagógica para a realização dessa tarefa. De nenhum modo vislumbramos essa condição, mas de um pensar que a possibilidade de transformação possa acontecer como num passe de mágica. De que verdade fala o docente em seu pronunciamento de ser “impossível não se ser transformador”? (P 12). Isto é verdade? Respondemos afirmando que, no mínimo, são visões simplistas e ingênuas do que se deva entender como professor transformador, como prática transformadora. Seria o que outros professores entendem por professor transformador? Que base teórica sustenta sua compreensão diante também do argumento de que “quando você faz sua crítica, até essa atitude crítica já é transformadora”. Seguindo a mesma linha de raciocínio outro docente destaca ser atitude do professor transformador cuidar de [...] fortalecer aquilo que acha que tá bom, que tá gerando resultados, tá fazendo sentido para a proposta que orienta sua prática, e por outro lado além de fornecer aquilo que acha que está dando certo, faz as devidas alterações com aquilo que acha que não tá fazendo sentido, não tá gerando resultados daí a questão da importância do professor ter essa atitude transformadora (P 10). É oportuna a interpretação de que esses juízos são incoerentes com a explicação de que a “transformação se opera durante processos contraditórios, dinâmicos e históricos”. Compreendemos, outrossim, que a transformação não aconteça no campo da realidade imediata, pois sua possibilidade de concretização efetiva-se no movimento dialético, ensejado por práticas de caráter emancipador em contextos reais. Indagamos: é este o fundamento que ampara a compreensão do que seja professor transformador anunciadas nestes depoimentos? As percepções dos entrevistados, analisadas neste estudo, com raras exceções, apresentam-se entremeadas por equívocos conceituais, são evasivas e pouco consistentes para expressar o significado de transformação no sentido do que vimos nos referindo. Em particular destacamos a ideia de transformação pensada independente da atuação consciente dos indivíduos sobre a realidade, como se sua concretude fosse possível no campo das ideias, fugindo ao que Marx (1992) rebate quando diz que a transformação é impossível sem a intervenção efetiva dos sujeitos na prática. Professores e alunos modificam suas práticas, constroem conhecimentos, incorporam novas visões de mundo no plano da realização de suas ações, resultado de um agir consciente e intencional. Na continuidade do exame dos relatos, deparamos com o que afirma a professora P 07 do curso de Enfermagem ao citar o professor crítico e transformador como aquele “que ensina o aluno a pensar, a andar com suas próprias pernas (sic) e saber o que é certo e errado, não na visão do professor, mas através de mecanismos de análise de conhecimento do professor”. Acrescenta, a ideia que o conhecimento [...] do professor por si só é uma coisa muito frágil, então ensinar o aluno a pensar, a refletir sobre aquilo que o professor está passando isso é ser, é ensinar ser o aluno crítico, de certa forma quem faz isso é o professor critico, o professor que não é crítico não tem essa visão (P 07). O senso crítico que os alunos desenvolvem e incorporam é compreendido pela professora como algo a ser ensinado, portanto, não fomentadas pelo próprio indivíduo no curso de suas vidas e a partir de como vão desenvolvendo suas maneiras de apreender a realidade, de como vão ressignificando-as em cada contexto histórico em que se inserem e participam. A docente P 15 faz referência ao curso de Medicina, avaliando as aulas deste curso como muito tradicionais, divididas em teóricas e práticas. A sua noção de aulas teóricas é explicitada como uma “forma de transmitir para o aluno a visão do professor sobre um determinado assunto”, concebendo ser nas aulas práticas que “se consegue ser um pouco mais crítico e reflexivo até mais do que na parte teórica”. Neste sentido, diz: “na aula prática a gente tenta colocar um pouco de reflexão, provocar a dúvida do aluno, trazer os questionamentos sobre aquele determinado assunto prá prática”. Do que se depreende teoria e prática aparecem como instâncias dicotomizados, momentos dissociados do ensino, posicionamento emblemático, se entendermos esse fato como revelador da desarticulação teoria e prática. Outro registro traz a ideia de que todo ser humano é reflexivo. A declaração do professor 15 esboça essa compreensão ao asseverar que, Na verdade, nós refletimos sobre alguma coisa. Nós refletimos sobre a vida. Nós refletimos sobre os nossos sonhos. A reflexão é sua ferramenta de trabalho, tem que se está refletindo sobre o que ele faz sobre o que ele produz (...) Se essa produção é benéfica, ela é transformadora. Ele é um formador de “opinião” (P 15). O docente P 08, referindo-se ao curso de Medicina, afiança: “neste curso [...] não existe essa reflexão crítica. Em seguida destaca: “é o que nós queremos implantar lá no nosso currículo, nas nossas diretrizes curriculares lá, porque nos cursos de Nutrição pede essa formação, mas nós não fazemos, nós não sabemos fazer isso, entendeu?”. Reconhece ter dificuldades para orientar-se por um referencial com aporte na reflexividade, argumentando que não sabe como fazer. Confessa isso afirmando, A gente acha muito difícil, por exemplo, a minha disciplina, que é uma disciplina já bem do profissionalizante, essa é que é difícil mesmo, porque a maioria desses alunos, às vezes tem um... eu acho que eu tenho dois alunos na minha sala que tem alguma experiência com estágio extracurricular. Então, fica muito difícil eles entenderem e fazer alguma reflexão, entendeu? Uma opinião crítica, alguma coisa, assunto que eles nem conhecem ainda (P 08). Os trechos transcritos mostram implicações da fragilidade teórica do pensamento sobre o professor reflexivo, evidenciando que não sabem como promover práticas reflexivas, denunciando também a escassez de leituras sobre o assunto. Ainda no contexto das análises, argumenta outro docente: professor reflexivo é “aquele que parte da realidade que ele vê hoje, naquele contexto, e que ele sempre procura (...)” (P 06). Reforça este pensar dizendo: o professor reflexivo “é o que reflete sobre o que faz”. Neste entendimento: tudo é reflexão? Um contraponto para estes questionamentos é a compreensão de que a prática reflexiva supõe questionamentos e argumentações, como a que conduz à melhor compreensão dos saberes objeto do ensino e portadora da aquisição de aprendizagens mais significativas e autônomas (ZEICHNER, 2008). Da forma como aparece nos posicionamentos dos professores dista desta compreensão, deduzindo que falte alicerce em base teórica construída no contexto da formação, pautada nos princípios da reflexividade e dos estudos de autores nacionais ou internacionais, defensores do assunto. Certamente, um modo de pensar incoerente com inúmeros pensadores que entendem o agir reflexivo como tão rigoroso quanto o de realizar pesquisas, uma vez que o agir reflexivo se exerce na identificação de problemas, na busca de respostas, na sistematização e organização de dados, no alcance de soluções, no alargamento da compreensão da prática social e de seu papel de sujeito histórico na produção do conhecimento. 5.5 Motivações para o não envolvimento dos professores em atividades de pesquisa – algumas aproximações Os professores participantes deste estudo se reconhecem afastados do exercício da pesquisa, situação que nos provocou para tentar compreender os motivos de tais docentes, mesmo tendo percorrido uma trajetória de pesquisa na academia (são mestres e doutores), se encontrem dela distanciados, além de saberem que a missão da Universidade se sustenta no ensino, na pesquisa e na extensão. A ideia de que partimos se ampara no entendimento da pesquisa como dimensão mediadora do processo de aprendizagem, pois, por meio dessa prática, é possível fomentar a dúvida, o questionamento e a crítica sobre os diversos objetos de conhecimento, descobrindo e produzindo outras interpretações, desenvolvendo uma postura investigativa; características imperceptíveis no teor dos relatos docentes entrevistados sobre seu modo de ensinar, evidenciando o não reconhecimento do ensino e da pesquisa como atividades indissociáveis nos processos formativos, por conseguinte, “da aprendizagem como processo de construção do conhecimento” (SEVERINO, 2009, 131). A análise das concepções e práticas dos 28 professores que declararam não envolvimento com atividades de pesquisa, pelo menos no momento da realização do estudo, explicitou motivações de ordem diversa: aproximação com a aposentadoria, falta de tempo, desinteresse, certa acomodação associada à ideia de cansaço da profissão, problemas de saúde, participação indireta por meio da orientação de TCC e condicionamentos impostos pelas condições de trabalho enfrentadas. Esta última, aliás, se sobressai das razões apresentadas pelos professores (nove referências), seguida da participação indireta (seis referências) e da falta de tempo (cinco referências). A aposentaria foi mencionada somente uma vez. Como compreender os indicativos dos professores entrevistados acerca de seu distanciamento da pesquisa? Detalhamos a seguir alguns trechos dos relatos coletados que aportam pistas sobre a questão. Preliminarmente, as justificativas de não pesquisarem apontam o tempo como obstáculo. O posicionamento inicial de uma das docentes é de enaltecimento da pesquisa, reclamando em seguida da falta de tempo para desenvolver esta atividade na Universidade. Logo depois, porém, reconhece o seu argumento como “uma velha desculpa esfarrapada”, assumindo-se “como relapsa”, atribuindo as razões de sua conduta a não ter gratificação de dedicação exclusiva, o que diz fazer falta economicamente (P 02). Notadamente, a formação dos professores no campo científico e cultural alargou-se, mas a segurança econômica dos profissionais não acompanhou o mesmo ritmo, explicação justificada ao referir-se à questão econômica, pois a mesma professora afirma ser essa condição indutora de precisar buscar outros trabalhos fora de sua universidade, concorrendo para um volume maior de trabalho e do desvio para outro foco que não é o da pesquisa, situação que abarca tantos outros docentes. Outro docente, ao ser instigado, enfatiza que o termo pesquisa “[...] se usa de modo geral ... tem pessoas que trabalham prá valer, mas tem gente que usa a palavra pesquisa e extensão, como eu falei, prá não fazer nada e fugir de sala de aula” (P 02) (Grifamos). O trecho em destaque exibe a falta de clareza demonstrada pelo docente permeada por argumentos com trânsito na incerteza, na incorporação de concepções dúbias do trabalho com pesquisa e com a extensão. Do mesmo modo, no contexto de seu relato há posicionamentos que denotam desconforto, dúvidas em relação aos desejos ou intenções pessoais de assumir vínculos com a pesquisa no desempenho de suas funções docentes. Mais adiante torna mais explícito seu pensamento: [...] não posso criticar o pessoal que pesquisa quando eu não faço pesquisa. Eu fiz pesquisa, já trabalhei com pesquisa, eu sei que aqui acolá, por que é necessário. Sei que não atrapalha você dar aula [...], mas, tem gente que só quer viver de pesquisa e de extensão, como um meio de não ir para sala de aula, [...]. Assim, se eu for gastar esse tempo com a palavra PESQUISA ... (P 02). O posicionamento denota carência acerca de conceituações inerentes ao campo investigativo, bem como sobre a pesquisa como elemento importante no processo formativo, deixando transbordar um discurso equivocado quanto à atuação de outros professores e, de como os avalia. Reafirmamos a ideia de que, no âmbito do ensino, a pesquisa não visa a formar um pesquisador especializado como o fazem, por exemplo, os institutos de pesquisa; a ênfase recai centralmente sobre seu potencial como elemento que possibilita a mediação do processo de elaboração/reelaboração do conhecimento por parte do sujeito aprendiz. Este pensamento, entretanto, parece não encontrar ressonância entre os professores participantes deste estudo, expresso em posicionamentos como o que se segue: [...] a pesquisa é estressante, você tem que lutar por verbas, lutar com os leões. Fiz a licitação de um microscópio eletrônico e até hoje não chegou aqui. Ai me frustei [...] e fui para a carreira universitária. A vida de pesquisador é triste (P 16). A noção da carreira docente universitária como restrita a sala de aula é um pensamento com significativa expressão entre os docentes entrevistados, entendimento que parece estar na base da decisão de não se aproximar da pesquisa neste contexto, denotando uma concepção técnica do trabalho de ensinar, por certo, também tributária de uma frágil formação pedagógica. Parece-nos pertinente retomar a advertência de Nóvoa (1992, p. 83) de que “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”. Desenvolver alternativas voltadas para o desenvolvimento profissional dos professores que atuam na universidade se desdobra como imperativo urgente. Para ensinar, não é suficiente o domínio de um campo disciplinar; entre outros elementos, é necessário compreender como aprendemos e, sobretudo, compreender a aprendizagem como processo de construção de conhecimento. Esta articulação é imanente à perspectiva da integração ensino e pesquisa. O QUE MOSTRA A INVESTIGAÇÃO SOBRE A INTEGRAÇÃO ENSINO E PESQUISA NA DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA. PONDERAÇÕES FINAIS. São inúmeros os registros na literatura acerca das dificuldades que envolvem o ato de ensinar e de aprender implicados na elaboração do conhecimento na formação de nível superior. Neste sentido, a busca por um caminho que favoreça a articulação teoria e prática, a capacidade de reflexão e a elaboração própria, emonstra como inquietação crescente. Como fomentar uma formação nessa perspectiva? Este imperativo nos remete a pensar na condição que temos de usufruir dos contextos de socialização presentes em nossa existência, particularmente nos processos sistemáticos de formação docente, quando postos a serviço de um novo significado dos conteúdos da formação, entendidos como aporte para o rompimento com lógicas que favorecem práticas consorciadas aos pressupostos neoconservadores. Entendemos que os espaços vinculados à educação formal devem ser considerados como expressão ampla dessa possibilidade, pois neles não são só reproduzimos, mas também produzimos conhecimento. A gestão dos saberes que realiza o professor universitário, pode e deve contribuir nessa perspectiva. Obviamente que práticas de ensino orientadas por este propósito implicam no repúdio da racionalidade instrumental, exigência que submete em xeque a profissionalidade dos docentes universitários, reclamando sua (re)construção pautada em uma racionalidade pedagógica fomentadora de uma práxis educativa dialógica que abra caminhos de aprendizagens à vida contemporânea. A integração da pesquisa ao ensino emerge como possibilidade de concretização dessa intencionalidade na ação docente, pois, como argumenta Severino (1999, p.13), “só se aprende, só se ensina, pesquisando. O professor precisa da prática da pesquisa para ensinar eficazmente; o aluno precisa dela para aprender eficaz e significativamente; e a Universidade precisa da pesquisa para ser mediadora da educação”. A assertiva indica que a proposição da pesquisa nos processos de formação na universidade, para além da articulação teoria e prática, se apoia, sobretudo, em sua finalidade pedagógica de “prática mobilizadora de reflexão sobre o trabalho [...]’’ (ANDRÉ, 1994, p. 294). A ideia da integração ensino e pesquisa expressa a indissociabilidade teoria e prática da atividade humana de conhecer e de produzir conhecimento sobre si e acerca do mundo. Como diz Freire (1981, p.32), esses quefazeres se encontram um no corpo do outro, pois “enquanto ensino contínuo procurando, reprocurando”. Os saberes que a articulação ensino e pesquisa propiciam decorrem, definitivamente, de uma aprendizagem, da aquisição de habilidades investigativas que propiciem ao sujeito aprendiz uma relação com o conhecimento de emancipação, pela via da autonomia; da produção e reprodução em favor de sua contínua humanização. Esta perspectiva realça a centralidade do professor que atua na educação superior na promoção de saberes e experiências de pesquisa, no desenvolvimento de situações e condições favoráveis à aprendizagem significativa nos diversos campos do saber. Nesse sentido, a pesquisa como componente necessário à formação na Universidade não pode estar à mercê do improviso e de vontades e interesses individuais. É difícil, para não dizer pouco provável, promover aprendizagens não explicitadas como objetivos formativos a serem desenvolvidas, que não traduzem uma ação planejada do docente universitário, uma intencionalidade institucional. As análises consolidadas nesta obra, resultado de investigação empírica interinstitucional envolvendo três grupos de pesquisa vinculados a programas de pósgraduação em Educação, circundaram a prática pedagógica universitária, indagando sobre a adoção ou não da pesquisa como princípio educativo nos processos de formação desenvolvidos neste contexto, concretizada mediante a integração pesquisa e ensino em situação de aula. O exame teórico do tema evidenciou que a discussão não é nova e encontra-se permeada por tensões e poucos consensos. O reconhecimento da relevância da pesquisa na constituição de profissionalidades robustas e necessárias a todo e qualquer profissional é uma dessas convergências. É importante ainda lembrar a inexistência de consenso entre os teóricos sobre como integrar ensino e pesquisa no processo de formação. A análise documental permite afirmar que a pesquisa aparece como componente curricular na legislação vigente sobre a formação em nível superior, haja vista sua presença nos princípios da instituição universitária brasileira, nas diretrizes educacionais vigentes no País e nos projetos pedagógicos dos dez cursos de graduação investigados, ofertados por uma IES pública estadual situada na 5ª maior capital do País. Há que se destacar, entretanto, o fato de que este indicativo assume orientação que enfatiza o desenvolvimento de competências com intensa conotação funcionalista, pragmatista, configurando como desafio elaborar caminhos alternativos e que estabeleçam rupturas com esta perspectiva; tarefa que certamente exigirá dos professores que atuam na educação superior a mobilização de saberes para além do domínio específico da sua área de conhecimento. A inserção no microcontexto da sala de aula na Universidade aportou elementos sobre como ensina o professor nesse espaço-tempo de formação, evidenciando que o rompimento com a concepção de pesquisa científica/acadêmica ainda perfila como um desafio. Ter uma vívida experiência em pesquisa, considerando as práticas e as posições dos professores dos docentes participantes do estudo, distingue-se como necessário para o desenvolvimento de ações que integrem ensino e pesquisa em situação de aula, embora nem sempre docentes com tradição nessa atividade demonstrem êxito nessa tarefa ou reconheçam sua importância para a formação. Tributamos a raiz desse problema à dificuldade de compreender, no contexto do ensino, a ideia de pesquisa como princípio educativo, certamente devedora da acepção de pesquisa científica/acadêmica na formação e na cultura universitária. Os dados analisados revelam diversidades de compreensão quanto a esse fenômeno. O reconhecimento da contribuição da pesquisa para a aprendizagem, quando integrada ao ensino, constitui fator muito mais de afirmação teórica do que prática efetivamente presente/consolidada no trabalho docente. De modo geral, as iniciativas identificadas de integração ensino e pesquisa são esparsas e frágeis, tanto do ponto de vista da própria ação empreendida pelo professor (a prática) quanto conceitual (da compreensão que detém sobre esse processo e sua importância na formação). As práticas pedagógicas acompanhadas em situação de aula nos dez cursos de graduação investigados abrem pouco espaço para a integração ensino e pesquisa. A transmissão do conteúdo ainda prevalece como central na ação desses professores, secundarizando-se o debate, a exploração de situações-problema da prática profissional e a argumentação como via fértil para a promoção de aprendizagens que ultrapassem a memorização e a reprodução. Embora a pesquisa como mediadora da aprendizagem no contexto do ensino não constitua, ainda, uma prática robusta no fazer pedagógico desses docentes universitários, é possível dizer que sua presença na gestão do saber curricular realizada por esses professores ocorre de modo transversal, sendo mais visível entre aqueles com inserção em programas de iniciação científica, grupos de pesquisa ou que desenvolvem projetos. Os indicadores apontam, também, o fato de que professores com maior experiência consolidada de pesquisa demonstram um modo diferenciado de lecionar e de desenvolver a atitude investigativa em seus alunos. Grosso modo, identificamos nestes docentes uma valorização da participação ativa dos alunos e uma prática que promove nos aprendizes certas habilidades que os acompanharão durante a elaboração do conhecimento. Investir para que modos de práxis docente com este referencial possam constituir a tônica da cultura pedagógica na Universidade nos parece urgente e necessário. Professores que inovam – provocações para prosseguir A aproximação ao que acontece na sala de aula universitária, certamente, nos autoriza a dizer que muito há por fazer para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras efetivamente consolidadas no modo de ensinar na Universidade. Este desafio pouco difere daquele presente em outras instituições de educação superior no Brasil, pois, nos últimos anos, a intensificação e a precarização do trabalho docente solapa este nível de ensino e seus profissionais, cada vez mais pressionados pelo Estado avaliador, que cobra resultados, mas se desresponsabiliza em relação à educação pública em geral. São inúmeros os indicativos desse movimento na política educacional no Brasil. Neste cenário, também se agigantam os problemas que permeiam a Universidade, entre os quais se encontra a cristalização de uma cultura pedagógica que, mesmo postulando sua função com base na pesquisa, ensino e extensão, ainda é fortemente permeada pela dicotomia dessas atividades, particularmente do ensino e da pesquisa. Esta compreensão nos parece necessária para ponderarmos sobre as possibilidades efetivas de inovação pedagógica na prática docente universitária. Aguerrondo e Xifra (2006, p. 8), ao discutirem “cómo piensan lãs escuelas que innovan”, tecem uma hipótese instigadora sobre os entraves que impedem esse processo. Segundo as autoras, “el problema es que, em um mundo donde todo cambió y sigue cambiando sustantivamente, lãs transformaciones que hacemos em educación son solo superficiales, es decir, remitem siempre al viejo modelo de cómo se hacen lãs cosa”. Inovar não implica necessariamente algo inédito, original. Inova o que transforma, o que enseja rupturas substantivas nos valores, crenças e práticas que desenham a prática social, neste caso, a prática educativa. Integrar ensino e pesquisa, se não constitui uma ideia nova no âmbito da educação superior, por certo pode significar uma virada no modelo formativo pelo qual esta instituição secular é historicamente responsável, uma vez que pode favorecer a formação de sujeitos epistêmicos de um novo tipo. Parece-nos ser este o desafio, pois a decisão de inovar é solidária, não ocorre despretensiosamente, sem um interesse, seja ele explícito ou não. Uma ação inovadora responde a determinadas intenções e se faz guiada por fins específicos. Toda inovação tem a pretensão de suscitar mudanças, esse é seu fim último (FARIAS, 2006). Ela reclama apoio institucional, exige alterações substantivas no modo de pensar dos professores, na compreensão que têm de seu papel social e de seu trabalho. Por outro lado, não nos podemos esquecer de que os professores universitários do começo do século XXI também são produções de seus contextos de trabalho, conforme alerta Hargreaves (2002). Não raro, ou advêm de experiências formativas ancoradas em referenciais marcados por uma racionalidade instrumental ou são constrangidos por condições de trabalho, cada vez mais precárias. Uma prática inovadora é uma prática cultivada, exige saber, aprende-se. Promover mecanismos de apoio ao desenvolvimento profissional do professor universitário nessa direção parece-nos urgente e necessário. Referências ADORNO, T W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. ALARCÃO, Isabel. Formação Continuada como instrumento de profissionalização docente. In: Veiga, Lima P. A. Caminhos da profissionalização do Magistério. Campinas, SP: Papirus, 1998. ALARCÃO, Isabel. Por que da admiração dos professores por Donald Schön?. Revista da Faculdade de Educação da USP. v. 22, n 2, 1996. ALARCÃO Isabel. rofessores reflexivos em uma escola reflexiva. 6º ed. São Paulo, Ed. Cortez, 2008. ALMEIDA, Risoleta A. A avaliação das teses de mestrado na aérea de educação no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1977. UFRJ. (mimeo). ALMEIDA, Maria Isabel de; PIMENTA, Selma Garrido. Pedagogia universitária: valorizando o ensino e a docência na universidade de São Paulo. In: PIMENTA, Selma Garrido; ALMEIDA, Maria Isabel de. (Orgs.). Pedagogia Universitária. São Paulo: Editora da USP, 2009 p. 13-38. ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith. A “revisão de bibliografia” em teses e dissertações: meus tipos inesquecíveis – o retorno. In: BIANCHETTI, Lucídio e MACHADO, Ana Maria Netto. A bússola do escrever: desafios e estratégias de orientação de teses e dissertação. 2002. p. 14-25. AMARAL, Na Lúcia. Casos de ensino e estudos de caso: técnicas para formar professores de qualidade. In: In: VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Novas tramas para as técnicas de ensino e estudo. Campinas, São Paulo: Papirus, 2013, p.115-132. ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos; ALVES, Leonir Pessate. Estratégias de Ensinagem. In: _____. (Org.). Processos de Ensinagem na universidade: pressupostos para estratégias de trabalho em aula. Joinville, Santa Catarina: UNIVILLE, 2003, p. 67-100. ANDRÉ, M. E. D. A. O papel da pesquisa na articulação entre saber e prática docente. In: CLAVES, S. M.; TIBALLI, E.F. (Org.). 4º ENDIPE. Anais..., vol. II, Goiânia, 1994. ANDRÉ, M. O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001. ANDRÉ, M. Pesquisa em Educação: buscando rigor e qualidade. Cadernos de Pesquisa, Fundação Carlos Chagas. São Paulo, jul. 2001. ANDRÉ, Marli Elisa D. A. de (Org.) Um projeto coletivo de investigação da prática pesquisa pedagógica de professores da escola normal. In: FAZENDA. Ivani (Org.). Novos enfoques de pesquisa educacional. São Paulo: Cortez, 1992. ANDRÉ, Marli. Ensinar e Pesquisar... Como e Para Que? Encontro Nacional de Didática XIII ENDIPE, Recife–PE: Edições Bagaço, 2006. v. 3. p. 221-233.2006. ANDRÉ, Marli Elisa D.. O papel mediador da pesquisa no ensino da didática. In: __. ; OLIVEIRA, Maria Rita (Org.). Alternativas no ensino de Didática. Campinas: Papirus, 1997. ANDRÉ, Marli. A produção acadêmica sobre formação docente: um estudo comparativo das dissertações e teses dos anos 1990 e 2000. Revista Brasileira de Pesquisa sobre Formação de Professores. Autêntica, v. 1, n.1, p. 41-56,ago./dez. 2009. ANDRÉ, Marli. Formação de professores: a constituição de um campo de estudos. Educação. Porto Alegre, PUC/RS, v. 33, p. 6-18, 2010. ANDRÉ, Marli; BRZEZINSKI, Iria; LÜDKE, Menga; ROLDÃO, Maria do Céu. Pesquisa sobre formação de professores: síntese do II Simpósio de grupos de pesquisa do GT 8 da ANPED. Revista Formação Docente, Belo Horizonte, v. 022, nº 03, p.152-159,ago./dez. 2010. ANFOPE. Documento final do VIII Encontro Nacional. Belo Horizonte, 1996. ARENDT, Hanna. La vida del espírito. Barcelona: Paidós, 1984. ARROYO, Miguel. Reinventar e formar o profissional da educação básica. In: BICUDO, M. A. V.; SILVA JÚNIOR, C. A. (Orgs.). Formação do educador. São Paulo: UNESP. v. 1. p. 47-68, 1996. ASSAD, Luciana Guimarães; VIANA, Lígia de Oliveira. Saberes práticos na formação do enfermeiro. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília (DF). v. 56, n. 1. p. 44-47. Jan/fev. 2003. BEILLEROT, Jacky. A “pesquisa”: esboço de uma análise. In: ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. Campinas: Papirus, 2001. p. 71-90 BENEDITO, Vicenç et al. La formación universitária a debate. Barcelona: Universidade de Barcelona, 1995. BEZERRA, Ana de Sena Tavares. Pesquisa e formação reflexiva no curso de História: estudo sobre o ensinar na universidade. Dissertação. Fortaleza: UECE, 2010. BOUFLEUER, José Pedro. Pedagogia da ação comunicativa. 3 ed. Ed. Rio Grande do Sul: Unijuí, 2001. BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Sobre a teoria da acção. Oeiras: Celta, 1997. BRASIL. Lei nº 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Ano CXXXIV, n. 248, 23 de dezembro de 1996, p.27833-27841. Brasília, 1996. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 1.303/2001, 06 de novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Química. Diário Oficial da União, 07 de dezembro de 2001. Brasília-DF, 2001b. Seção 1, p.25. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º05/2005, 13 de dezembro de 2005. Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, Licenciatura. Diário Oficial da União, 15 de maio de 2006 e reexaminado pelo Parecer nº 3/2006, 11 de abril de 2006. Brasília-DF, 2006. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º1.302/2001, 06 de novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Matemática. Diário Oficial da União, 05 de março de 2002a, Brasília-DF, 2002. Seção 1, p.15. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 7/2002, 11 de março de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Ciências Biológicas. Diário Oficial da União, 26 de março de 2002. BrasíliaDF, 2002b. Seção 1, p.12. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 7/2004. 31 de março de 2004. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física, em nível superior de graduação plena. Diário Oficial da União, 05 de abril de 2004. Brasília, 2004. Seção 1, p. 18. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 8/2002, 11 de março de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Química. Diário Oficial da União, 26 de março de 2002c. Brasília-DF. Seção 1, p.12. BRASIL/MEC/CNE. Parecer 0058/2004, 18 de fevereiro de 2004. Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física: publicado no Diário Oficial da União, 19 de março de 2004 e retificado em 05 de abril de 2004. Brasília-DF, 2004. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 009/2001, 08 de maio de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior. Curso de licenciatura, de graduação plena. Brasília-DF, 2002. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 1.133/2001, 07 de agosto de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Enfermagem, Medicina e Nutrição. Diário Oficial da União, 3 de outubro de 2001. Brasília-DF, 2001d. Seção 1E, p 131. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 1.301/2001, 06 de novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Ciências Biológicas. Diário Oficial da União, 07 de dezembro de 2001, seção 1, p.25. Brasília-DF, 2001. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 1.304/2001, 06 de novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Física. Diário Oficial da União, 07 de dezembro de 2001 Brasília-DF, 2001c. Seção 1, p.25. BRASIL/MEC/CNE. Parecer n.º 492/2001, 03 de abril de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Filosofia, História, Geografia, Serviço Social, Comunicação Social, Ciências Sociais, Letras, Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia. Diário Oficial da União, 09 de julho de 2001. Brasília-DF, 2001a. Seção 1E, p.50. BRASIL/MEC/CNE. Resolução n.º 13. 13 de março de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de História. Diário Oficial da União, nº 67, 09 de abril de 2002. Brasília-DF, 2002. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 1/2002. 18 de fevereiro de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior. Curso de licenciatura, de graduação plena. Diário Oficial da União, 09 de abril de 2002. Brasília-DF, 2002a. Seção 1, p.31. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 3/2001, de 7 de novembro de 2001. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem. Diário Oficial da União, Brasília, 09 de novembro de 2001b. Seção 1, p. 37. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 3/2003, 18 de fevereiro de 2003. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Matemática. Diário Oficial da União, 25 de fevereiro de 2003. Brasília-DF, 2003. Seção 1, p.13. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 4/2001, 07 de novembro de 2001. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Medicina. Diário Oficial da União, 09 de novembro de 2001. Brasília-DF, 2001a. Seção 1, p. 38. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 5/2001, 07 de novembro de 2001. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Nutrição. Diário Oficial da União, 09 de novembro de 2001. Brasília-DF, 2001. Seção 1, p.39. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 7/2007. 04 de outubro de 2007. Altera o § 3º do art. 10 da Resolução CNE/CES nº 7/2004, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física, em nível superior de graduação plena. Diário Oficial da União, 05 de outubro de 2007. Brasília-DF, 2007. Seção 1, p.49. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº 9/2002, 11 de março de 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Física. Diário Oficial da União, 26 de março de 2002. Brasília-DF, 2002d. Seção 1, p.12. BRASIL/MEC/CNE. Resolução nº. 01/2006, 15 de maio de 2006. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia, licenciatura plena. Diário Oficial da União, 16 de maio de 2006. Brasília, 2006. Seção 1, p.11. BRASIL/MEC/CNE/CES. Parecer n.º 1.304/2001. Diretrizes Nacionais Curriculares para os Cursos de Física. Brasília-DF, 2001. CARDOSO, Nilson de Souza. Como ensinam os professores de Ciências Biológicas? Um estudo sobre a relação pesquisa e ensino na prática docente. Dissertação. (Mestrado em Educação). UECE, Fortaleza, 2011. CASAGRANDE, A.C. Ação comunicativa, intersubjetividade e aprendizagem: a escola enquanto comunidade comunicativa. Dissertação de Mestrado. UNIJUI, 2008. CASTANHO, Eugênia Maria. Pesquisa em pedagogia universitária. In: CUNHA, Maria Isabel da (Org.). Reflexões e práticas em pedagogia universitária. Campinas, São Paulo: Papirus, 2007. CASTRO, Cláudio Moura. Memórias de um orientador de tese. In: NUNES, E. de O. (Org). A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. CASTRO, Cláudio Moura. Memórias de um orientador de tese: um autor relê sua obra depois de um quarto de século. In: BIANCHETTI, Lucídio e MACHADO, Ana Maria Netto. A bússola do escrever: desafios e estratégias de orientação de teses e dissertação. 2002.p. 89-109. CHARLOT, Bernard. Aprender, mas com sentido. In: A tecnologia que ajuda a ensinar. Revista Nova Escola, junho/julho 2009, p. 32-34. CHARLOT, Bernard. Formação de professores: a pesquisa e a política educacional. In: PIMENTA, S. G.; GHEDIN, E. (Orgs.). Professor Reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, 2002, p.89-108. CONTRERAS, José. A autonomia de professores. São Paulo, Ed. Cortez, 2002. CORTESÃ, Luisa. Ser professor: um ofício em risco de extinção? Porto, Portugal: Afrontamento, 2000. CUNHA, Maria Isabel da. (Orgs). Desmistificando a profissionalização do magistério. Campinas, São Paulo: Papirus, 1999. p. 127 - 147 (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico). CUNHA, Maria Isabel da. Inovações pedagógicas: o desafio da reconfiguração de saberes na docência universitária. In: PIMENTA, Selma Garrido; ALMEIDA, Maria Isabel de. (Orgs.). Pedagogia Universitária. São Paulo: Editora da USP, 2009, p. 211-236. CUNHA, Maria Isabel da. (Org.). Qualidade da graduação: a relação entre ensino, pesquisa e extensão e o desenvolvimento docente. Araraquara, São Paulo: Junqueira & Marin, 2012. CUNHA, Maria Isabel da. A universidade: desafios políticos e epistemológicos. In:________. Pedagogia universitária: energias emancipatórias em tempos neoliberais. Araraquara, São Paulo: Junqueira & Marin, 2006, p. 13-30. CURY, Carlos Roberto Jamil. Políticas de Educação Superior e a Prática Pedagógica: um quadro do ordenamento jurídico e suas repercussões. In: SILVA, Ainda Maria Monteiro et al. Políticas educacionais, tecnologias e formação do educador: repercussões sobre a didática e as práticas do ensino. Anais..., Recife: ENDIPE, 2006, p. 273-280. D’ÁVILA, Cristina Maria; VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Orgs.). Didática e docência na Educação Superior: implicações para a formação de professores. Campinas, São Paulo: Papirus, 2012. DALBEN, Ângela Imaculada Loureiro de Freitas. O ensino por meio da resolução de problemas. In: VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Novas tramas para as técnicas de ensino e estudo. Campinas, São Paulo: Papirus, 2013, p. 69-98. DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa. 5 ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2002. ______. Pesquisa e construção do conhecimento. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994. ______. Pesquisa: princípio científico e educativo. São Paulo: Cortez, 2000. DUBET, François. Sociologie de l’expérience. Paris: Éditions du Seuil, 1994. DURANT, M. L’enseignement en milieu scolaire. Paris, Puf. 1996. ELIOTT, J. Developing.(1976) In: FERREIRA, Adir Luiz. Possibilidades e realismo crítico da Pesquisa e da Formação: colaboração entre pesquisadores e professores, In: IBIAPINA, Ivana Maria L. de Melo (org) et all. Pesquisa em educação: múltiplos olhares. Brasília: Liber Livro, Brasília, 1989. ESTEBAN E ZACCUR, ESTEBAN, M. Teresa, ZACCUR, Edwirgs (Org.) Professora Pesquisadora uma práxis em construção. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002. FARIAS ABU-EL-HAJ, Mônica; LEITINHO, Meirecele Calíope; CARDOSO, Nilson de Souza. O ensino com pesquisa: contextualização e reflexões metodológicas. In: FARIAS, Isabel Maria Sabino de; NÓBREGATHERRIEN, Silvia Maria; CARVALHO, Antonia Dalva França. (Orgs.). Diálogos sobre formação de professores: olhares plurais. Teresina: EDUFPI, 2012. FARIAS, Isabel Maria Sabino. A Atividade Docente no Telensino: um estudo acerca dos saberes mobilizados na prática pedagógica do orientador de aprendizagem. Fortaleza: UFC, 1997. Dissertação. (Mestrado em Educação), Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, 1997. FARIAS, Isabel Maria Sabino. Inovação e Mudança: implicações sobre a cultura dos professores. 2002. Tese (Doutorado em Educação), FACED, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, 2002. FARIAS, I. M. S; SALES, J. O. C. B.; BRAGA, M. M. S. C.; FRANÇA, M. S. L. M. Didática e docência: aprendendo a profissão. Fortaleza-CE: Realce, 2008. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. A cultura docente face à formação para a pesquisa: a gestão dos saberes na docência universitária. Relatório Técnico Final. Fortaleza: UECE/EDUCAS, 2011, 280p. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Banco de Dados: entrevista com professores universitários. Fortaleza: UECE/EDUCAS, 2011a, 210p. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Banco de Dados: registro da observação da prática pedagógica na sala de aula na universidade. Fortaleza: UECE/EDUCAS, 2011b, 256p. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Como ensinam professores que pesquisam? Plano de Estudos para Estágio Pós-Doutoral. Programa de Pós-Graduação em Educação da UNB. Brasília: UNB, 2012, 43p. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Concepções e práticas de pesquisa − o que dizem os professores?. In: 28ª Reunião Anual da ANPEd, 2005, Caxambu. Anais eletrônicos... Caxambu (MG): ANPEd, 2005. Disponível em: http://www.anped.org.br/reunioes/28/textos/gt08/gt081583int.doc Acessado em: 21 abr. 2011. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Docência no Telensino: saberes e práticas. São Paulo: Annablume; Fortaleza: SECULT/CE, 2000. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. et al. O Professor e a Pesquisa. Relatório Final. Fortaleza: UECE/FUNCAP, 2005a. FARIAS, Isabel Maria Sabino de. Inovação, mudança e cultura docente. Brasília: Liber Livro, 2006. FARIAS, Isabel Maria Sabino de; SALES, J. Á. M. Docência no ensino superior - o que sabe, pensa e faz o professor universitário. Projeto de Pesquisa. Fortaleza: UECE/Mestrado Acadêmico em Educação, 2005b. FARIAS, Isabel Maria Sabino de; SALES, Josete de Oliveira Castelo Branco; BRAGA, Maria Margarete Sampaio de Cravalho; FRANÇA, Maria do Socorro Lima Marques. Didática e Docência: aprendendo a profissão. 1ª Ed. Brasília: Liber Livro, 2008. FARIAS, Isabel Maria Sabino de; THERRIEN, Jacques; NÓBREGA-THERRIEN, Sílvia Maria; BARRETO, Marcília Chagas; SILVA, Silvina Pimentel; FRANÇA, Maria Socorro Lima Marques. A cultura docente face à formação para a pesquisa: a gestão dos saberes na docência universitária. Relatório de Pesquisa. Fortaleza, UECE, 2011, 281p. FAZENDA, Ivani C. Interdisciplinaridade um projeto em parceria. São Paulo: Loyola, 1993. FORMOSINHO, João (Org.). Formação de professores: aprendizagem profissional e acção docente. Porto: Porto Editora, 2009. FREIRE, L. de Almeida; THERRIEN, J. Elementos para a análise do trabalho docente do profissional de ensino com formação de bacharelado no âmbito de Cursos de Pedagogia. Anais... CD-ROOM. Encontro Internacional sobre Docência Universitária. UEFS/BA, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 33ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006. GARDIM, Clícia Valim Côrtes; HEYDEN, Maria Silvana Totti; RESCK, Zélia Marilda Rodrigues. A pesquisa na graduação em enfermagem: requisitos para conclusão do curso. Rev. Brasileira de Enfermagem, v. 56, n.4. p. 409-411. 2003. GATTI, Bernardete Angelina. Formar professores ou pesquisadores no mestrado em educação? In: Boletim Anped, vol. 9, nº. 1. p. 31-34, jan/mar. 1987. ______. A construção da pesquisa em educação no Brasil. Brasília: Pano, 2002. GAUTHIER, Clermont. et al. Por uma teoria da pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o saber docente. Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1998. GERVAIS, Fernando. & LOIOLA, Francisco. A. Cognição situada e formação prática para o ensino. Revista Educação em Debate. Ano 21, v1. nº 39, 2000. GIROUX, Henry. Os Professores como Intelectuais Rumo a uma Pedagogia Crítica da Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 1997. GOMES, Romeu. A análise de dados em pesquisa qualitativa. In: MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 23º ed. 1994. GÓMEZ, Angel Pérez. O pensamento prático do professor: A formação do professor como profissional reflexivo. In. NÓVOA, Antonio (Coord). Os professores e sua formação. Lisboa: Publicações Dom QuixoteInstituto de inovação educacional, 1992, p.93-114. GRAMSCI, Antônio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. HABERMAS, J. Racionalidade e comunicação. Lisboa: Edições 70, 2002. HABERMAS, J. Teoría de la acción comunicativa: complementos y estudios previos. Madrid: Cátedra, 1997. HAGUETTE, Tereza Maria Frota. Universidade: nos bastidores da produção do conhecimento. In: Revista . Brás. Est. Pedagogia. Brasília, v. 75, n. 179/180/18. p. 157-169. jan/dez. 1994. HARGREAVES, Andy. Professorado, cultura y postmodernidad: cambian lós tiempos, cambia El professorado. 2ª Ed. Madrid: Morata, 1998. HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-escola à Universidade. 8. ed., Porto Alegre : Mediação, 1996. IBIAPINA, Ivana Maria L. de M. Pesquisa em educação: múltiplos olhares. Brasília: Liber Livro, Brasília, 2007. LAMBERT, Ernâni. O ensino com pesquisa: desafios e perspectivas. Linhas Críticas, Brasília: universidade de Brasília, v. 14, n.26, 2008. LAVE, J. Acquisition des savoirs et pratique de groupe. In: Sociologie et Sociétés, vol. XXIII, nº 1. Les Presses de l'Université de Montréal, , p.145-162, 1991. LAVE, Jane. & E. WENGER. Situated learning: legitimate peripheral participation. New York, Cambridge University Press, 1991. LIBÂNEO, J. C. Reflexividade e formação de professores: outra oscilação do pensamento pedagógico brasileiro? In: PIMENTA, S. G.; GHEDIN, E. (Org). Professor reflexivo no Brasil. São Paulo: Cortez, 2002. p.53-80. LIMA, C. N. M. F.; NACARATO, A. M. A investigação da própria prática: mobilização e apropriação de saberes profissionais em Matemática. Educação em Revista. Belo Horizonte, v.25, n.02, p.241-266, ago. 2009. LIMA, Fabiana Mendonça; MENDES, Mayara Hemellyn Lopes; COSTA, Maria Zenilda. A relação pesquisa e ensino na licenciatura em Física e a prática docente como campo de investigação. In: Encontro de Pesquisa Educacional do Norte Nordeste, 20, Anais do XX EPENN, Manaus, Amazonas, 2011. LIMA, Maria Socorro Lucena. Professores que formam professores: docência na universidade, entre o escrito e o vivido. In: DIAS, Ana Maria Iorio (Org.) et al. Desenvolvimento profissional docente na educação superior: entre redes e sentidos. Fortaleza: Edições UFC, p. 73-88, 2009. LOPES, Antônia Ozina. Planejamento do Ensino numa Perspectiva Crítica da Educação. In: VEIGA, Ilma Passos A. (Coord.). Repensando a Didática. Campinas, SP: Papirus, 1991. LUCARELLI, Elisa. Pedagogia universitária e inovação. In: In: CUNHA, Maria Isabel da (Org.). Reflexões e práticas em pedagogia universitária. Campinas, São Paulo: Papirus, 2007. LÜDKE, Menga et al. O professor e a pesquisa. Campinas, SP:Papirus, 2001. LÜDKE, Menga (Coord.). O que conta como pesquisa? São Paulo: Cortez. 2009. 118p. LÜDKE, Menga; CRUZ, Giseli Barreto da; BOING, Luiz Alberto. A pesquisa do professor da educação básica em questão. Revista Brasileira de Educação [online]. 2009, v.14, n.42, p. 456-468. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v14n42/v14n42a05.pdf Acessado em: 10/05/2012 LUDKE, Menga. A pesquisa na formação do professor. In: FAZENDA, Ivani (Orgs.). A pesquisa em Educação e as transformações do conhecimento. Campinas, São Paulo: Papirus, p.111-120, 1995. LUDKE, Menga et al. Investigando sobre o professor e a pesquisa. In: ENDIPE, XII. Conhecimento local e conhecimento universal. Anais... Curitiba: Champagnat, 2004, p.181-192. LÜDKE, Menga. ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1986. LÜDKE, Menga. O professor, seu saber e sua pesquisa. Educação e Sociedade [online]. 2001, v.22, n.74, p. 77-96. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v22n74/a06v2274.pdf Acesso em: 11/04/2012 MACHADO, Ana Maria Netto. A relação entre autoria e a orientação no processo de elaboração de teses e dissertações. In: BIANCHETTI, Lucídio e MACHADO, Ana Maria Netto. A bússola do escrever: desafios e estratégias de orientação de teses e dissertação. 2002.p. 26-45. MANFREDI, S. M. Competência, qualificação e trabalho. In: Educação e Sociedade, ano XIX, nº. 64, set. 1998 MARCELO, Carlos. Pesquisa sobre a formação de professores. O conhecimento sobre aprender a ensinar. Revista brasileira de Educação. São Paulo, 1998, nº 9, pág. 51-75. MARKERT, Werner. Trabalho e comunicação: reflexões sobre um conceito dialético de competência. In: Revista Educação e Sociedade. Fortaleza: Ed. UFC, nº 79, 2002, p. 189-212. MARKERT, Werner . Educação profissional e competência: mudanças no mundo do trabalho e conceitos pedagógicos para o ensino técnico, In: ZIBAS, D. AGUIAR, M. A., SIMÕES, S. (Org.). O ensino médio e a reforma da educação básica. São Paulo: PLANO, 2002. MARKERT, Werner. Trabalho e competência: contribuições para a construção crítica de um conceito e para a formação do profissional transformativo. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2004. MARTINAZZO, C. J. Pedagogia do entendimento intersubjetivo: razões e perspectivas para uma racionalidade comunicativa na pedagogia. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005. MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Textos sobre a Educação e o Ensino. São Paulo: Moraes, 1992. MASETTO, Marcos T. Atividades pedagógicas no cotidiano da sala de aula universitária: reflexões e sugestões práticas. In: CASTANHO, Sérgio; CASTANHO, Maria Eugênia (Org.). Temas e textos em metodologia do ensino superior. Campinas: Papirus, 2001. 83-102. MAUÉS, Olga. Implicações das Políticas de Educação Superior no Trabalho Docente. In: SILVA, Ainda Maria Monteiro et al. Políticas educacionais, tecnologias e formação do educador: repercussões sobre a didática e as práticas do ensino. Recife: XIII ENDIPE, Anais..., 2006, p. 295-310. MENDES, Isabel Amélia Costa; TREVISAN, Maria Auxiliadora. Acerca da utilização do método científico nas pesquisas em enfermagem. Rev. Brasileira de Enfermagem, v.36, p. 13-19. 1983. MEYER, Dagmar Estermann; KRUSE, Maria Henriqueta Luce. Acerca de diretrizes curriculares e projetos pedagógicos: um início de reflexão. Rev. Brasileira de Enfermagem. v. 56, n. 4, p. 335-339, jul/ago. 2003. MILLS, C. W. Apêndice: do artesanato intelectual. In: A imaginação Sociológica. 2ª edição. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1969. MINAYO, Maria Cecília de (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 22ª edição. Petrópolis, Rio de Janeiro: 1994. MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti, et al. Escola e Aprendizagem da Docência: processos de Investigação e Formação. São Carlos: Edufscar, 2002. MONTEIRO, S. Análise Crítica do Conceito de Epistemologia da Prática na produção Teórica da Educação. In: ENDIPE, XIII. Novas subjetividades, currículo, docência e questões pedagógicas na perspectiva da inclusão social. Recife: XIII ENDIPE, Anais..., 2006, p.15-32. NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria.; THERRIEN, Jacques. Ensino e pesquisa nos cursos de graduação em educação e saúde: apontamentos sobre a prática e análise dessa relação. Revista da Faced, n. 10, p.279297, 2006. NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria e THERRIEN, Jacques. Os trabalhos científicos e o estado da questão: reflexões teórico-metodológicas. Estudos em Avaliação Educacional. Fundação Carlos Chagas . v. 15. n, 30. p.5-16, jul/dez. 2004. NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria; CRUZ, Helania Prado; ANDRADE, Laurinete Sales de. O ensino da pesquisa: percepções de alunos de graduação dos cursos da área da saúde. In: NÓBREGA-THERRIEN, Sílvia Maria; ALMEIDA, Maria Irismar de; ANDRADE, João Tadeu de. A formação diferenciada: a produção de um grupo de pesquisa. Fortaleza: Ed. UECE, 2009. p. 95-117. NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria.; FEITOSA, Laura Martins. Ensino e pesquisa na LDB/96 e nas Diretrizes Curriculares: reflexões e contrapontos sobre a formação médica. In: ______; ALMEIDA, Maria Irismar de; ANDRADE, João Tadeu de. A formação diferenciada: a produção de um grupo de pesquisa. Fortaleza: Ed. UECE, 2009. p. 79-94. NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria; THERRIEN, Jacques. A reflexividade como mediação entre o ensino e a pesquisa na gestão da prática educativa. Trabalho apresentado no XV ENDIPE- Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino. Anais..., 20 a 23 de abril de 2010, Belo Horizonte-MG. 2010. NÓVOA, Antonio (Org.). Vidas de professores. Portugal: Porto editora, LDA, 1997 NÓVOA, Antônio. (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. ______. Professores: imagens do futuro presente. Portugal, Lisboa: EDUCA, 2009. NUNES, A. I. B. L. Aprendizagem: um conceito histórico e complexo (Introdução). In: Psicologia da Aprendizagem: processos, teorias e contextos. Fortaleza: Liber Livro, coleção Formar, 2008, p.13-20. NUNES, A. I. B. L.; ALBUQUERQUE, M. G. M. T.; FARIAS, I. M. S.; VIEIRA, S. L.; SOUZA, G. M. O.; BARRETO, K. M. F. Compreendendo as inovações na escola através de estratégias de formação em pesquisa. In: XVI EPENN. Anais ... Universidade Federal de Sergipe, de 10 a 13/06/2003a. PACHECO, J. O pensamento e ação do professor. Porto: Porto Editora, 1995. PAGLIUCHI, Regina Célia. Acompanhando o processo de escrever de pós graduandos: um depoimento. Trama Texto. Passo Fundo, v, II, p. 92-98, 1997. PAQUAY, L.; WAGNER, M. C. Competências profissionais privilegiadas nos estágios e na video formação. In: PERRENOUD, P.; PAQUAY, L.; ALTET, M.; CHARLIER, E. (Orgs.). Formando professores profissionais. Quais estratégias? Quais competências? Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001. p. 129-151. PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargo. Docência no ensino superior. 1ed. São Paulo: Cortez, 2002. PIMENTA, Selma Garrido. Saberes Pedagógicos e Atividades Docente. Cortez. São Paulo, 1999. POZO, Juan Ignacio. Aprendizes e mestres: a nova cultura da aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002. PRESTES, N.H. Educação e racionalidade: conexões e possibilidades de uma razão comunicativa na escola. Porto Alegre: Edipucrs, 1996. RAMOS, Flávia Regina Souza. Acerca de diretrizes curriculares e projetos pedagógicos: um início de reflexão – comentários ao texto. Rev. Brasileira de Enfermagem. v. 56, n. 4, p. 340-342, jul/ago. 2003. RAMOS, M. N. A pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? 3ed, São Paulo: Cortez, 2006. RAMSDEN, P.; MOSES, I. Associations between research and teaching in Australian higher education. Higher Education, nº 23, 1992, p. 273-295. RIOS, Teresina Azeredo. Competência ou competências: o novo e o original na formação de professores. In: ROSA, Dalva E. Gonçalves; SOUZA, Vanilton Camilo (Orgs.). Didática e práticas de ensino: interfaces com diferentes saberes e lugares formativos. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p.154-172. SACRISTÀN, José Gimeno. Poderes instáveis em educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. 1998 SACRISTÁN, José Gimeno. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre. Artes Médicas. 1998. SACRISTÁN, José Gimeno; PÉREZ GÓMEZ, A. A função e formação do professor/a no ensino para a compreensão: diferentes perspectivas. In: Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 1998, p.353-379. SANTOS, Geralda Fortina dos. Formação do enfermeiro na perspectiva das competências: uma breve reflexão. Rev. Brasileira de Enfermagem. v. 57, n. 1, p. 66-71, jan/fev. 2004. SANTOS, Lucíola Licínio de C. P. Dilemas e perspectivas na relação entre ensino e pesquisa. In: ANDRÉ, Marli (Org). O papel da pesquisa na formação e na prática dos professores. 2ed. Campinas, SP: Papirus, 2002. SAVIANI, Dermeval. Tendências e correntes da educação brasileira. In: BOSI, Alfredo; SAVIANI, Dermeval; MENDES, Durmeval Trigueiro; HORTA, José Silvério Baía. Filosofia da educação brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. SCHON, Donald. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino o ensino e a aprendizagem. Artes Médicas: Porto Alegre, 2000. SERRAZINA, Lurdes. OLIVEIRA, Isolina. A reflexão e o professor como investigador. Disponível em: <http://www. ia.fc.ul.pt/redeic/textos%20teoricos/02-oliveira-serraz.doc.> SEVERINO, Antônio Joaquim. Ensino e pesquisa na docência universitária: caminhos para a integração. In: PIMENTA, Selma Garrido; ALMEIDA, Maria Isabel de (Orgs.). Pedagogia Universitária. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009, p. 129-146. SHULMAN, L. S. Knowledge and teaching: Foundations of new reform. HarvardEducational Review, n.51, p.1-22, 1987 SILVA, Alcione Leite da; BALDIN, Sonciarai Martins; NASCIMENTO, Keyla Cristiane do. O conhecimento intuitivo no cuidado de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília (DF). v. 56, n. 1. p. 7-11. Jan/fev. 2003. SILVA, Silvina Pimentel. A participação em grupos de pesquisa como experiência formadora: trajetórias da UECE e da UFC (1985 a 2005). Tese (Doutorado em Educação). Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, 2007. SILVA, Silvina Pimentel; BRAGA, M. M. Por uma cultura de pesquisa no ensino superior: a associação pesquisa e estágio no curso de Pedagogia. In: OLINDA, E. M. B.; FERNANDES, D. G. Práticas e aprendizagens docentes. Fortaleza: Ed. UFC, 2007. p.173-192. SILVA, Silvina Pimentel. Relatório Final do Pós-Doutorado. UnB, Brasília, 2013. SILVA, Silvina Pimentel; NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria; FARIAS, Isabel Maria Sabino. Produções sobre a formação de professores no EPENN: análise do período 2003 a 2011. Trabalho encomendado apresentado no XXI EPENN. Recife: Novembro de 2013. SILVA, Silvina Pimentel. A participação em grupos de pesquisa como experiência formadora: trajetórias da UECE e da UFC (1985 a 2005). Projeto de Doutorado. Fortaleza: FACED/UFC, 2007. SORDI, M. R. A prática de avaliação do ensino superior: uma experiência na enfermagem. São Paulo: Cortez/PUCCAMP, 1995. SOUZA, Pedro Mansueto Melo de; SILVEIRA, Clarice Santiago; NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria. A pesquisa na formação médica: o que revelam os documentos normativos e o corpo docente. Fórum Internacional de Pedagogia. Anais..., Quixadá – CE, 2010. STENHOUSE, Lawrence. Investigación y desarollo del currículo. Madri: Marota, 1984. STENHOUSE, Lawrence. La como base de la ensenãnza. 6 ed. Madri: Morata, 1987. Col. Pedagogia. TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude; LAHAYE, Louise. Os Professores face ao Saber: esboço de uma problemática do saber docente. In: Teoria e Educação. 1991, v. 04, p. 215-233. TARDIF, Maurice; LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. 3ª edição. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2007. TARDIF. Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002. TARDIF. Maurice. Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários – Elementos para uma epistemologia da prática profissional dos professores e suas consequências para a formação docente. In: Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002, p.245-276. THERRIEN, Jacques. Docência universitária: instrução ou formação? Colóquio, Anais..., Cd-Rom do 19º EPENN, João Pessoa, UFPB. 2009. THERRIEN, Jacques; CARVALHO, A. D. França. O professor no trabalho: epistemologia da prática e ação/cognição situada - elementos para a análise da práxis pedagógica. Revista brasileira de formação de professores. Vol. 1, n. 1, p.129-147, 2009 THERRIEN, Jacques; NÓBREGA-THERRIEN, Silvia Maria. Formação para além do ensino. In: FERRONATO, C. J.; NUNES, M. L. S. (Org.). 19º EPENN. Anais..., João Pessoa-PB. UFP. 2009. THERRIEN, Jacques. Os saberes da racionalidade pedagógica na sociedade contemporânea. Revista Educativa. v.9.n.1, p. 22-31, 2006. THERRIEN, Jacques; LOIOLA, Francisco. A. Experiência e competência no ensino: pistas de reflexões sobre a natureza do saber-ensinar na perspectiva da ergonomia do trabalho docente. In: Educação e Sociedade, n.74 p.143-162, Abril, 2001. THERRIEN, Jacques; THERRIEN, Angela. A racionalidade prática dos saberes da gestão pedagógica da sala de aula. In: CANDAU, V. M. (Org.). Cultura, linguagem e subjetividade no ensinar e aprender. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. THERRIEN, Jacques. Docência profissional: a prática de uma racionalidade pedagógica em tempos de emancipação de sujeitos. In: D’ÁVILA, Cristina Maria; VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Orgs.). Didática e docência na Educação Superior: implicações para a formação de professores. Campinas, São Paulo: Papirus, 2012, p. 109-132. THERRIEN, Jacques. Trabalho e saber: a interação no contexto da pós-modernidade. In: MARKERT, W. (Org.). Trabalho, qualificação e politecnia. Campinas: Papirus, 1996, p.53-70. THERRIEN, Jacques. A natureza reflexiva da prática docente: elementos da identidade profissional e do saber da experiência docente. Revista Educação em Debate, Ed. UFC, n 33, p. 5-10, 1997. VAZQUEZ, Adolfo. Sánchez. Filosofia da Práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Formação de Professores: Políticas e Debates. São Paulo: Papirus, 2002. VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Novas tramas para as técnicas de ensino e estudo. Campinas, São Paulo: Papirus, 2013. VEIGA, Ilma Passos Alencastro; D’ÁVILA, Cristina Maria (Orgs.). Profissão docente: novos sentidos, novas perspectivas. Campinas, São Paulo: Papirus, 2008. VEIGA, Ilma Passos Alencastro; RESENDE, L.M.G. de; FONSECA, M. Aula universitária e inovação. In: Ilma Passos Alencastro; CASTANHO, M.L.M. (Org.). Pedagogia universitária: a aula em foco. Campinas: Papirus, 2000, p. 161-192. VEIGA, Ilma Passos Alencastro; SILVA, Edileuza Fernandes da; XAVIER, Odiva Silva; FERNADES, Rosana C. de A. Pós-graduação: espaço de formação pedagógica de docentes para a educação superior. In: D’ÁVILA, Cristina Maria; VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Orgs.). Didática e docência na Educação Superior: implicações para a formação de professores. Campinas, São Paulo: Papirus, 2012, p. 85-108. WITT, Regina Rigatto; ALMEIDA, Maria Cecília Puntel de. Competência dos profissionais de saúde no referencial das funções essenciais de saúde pública: contribuições para a construção de projetos políticos pedagógicos na enfermagem. Rev. Brasileira de Enfermagem, v. 56, n.4. p. 433-438. 2003. ZABALA, Aantonio. A função social do ensino e a concepção sobre os processos de aprendizagem: instrumentos de análise. In: __. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998, p.27-51. ______.A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. ______. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas. Porto Alegre: ArtMed, 2004, 239 p. ZEICHNER, Kenneth. M. A formação reflexiva de professores. Lisboa: Educar, 1993. ______. A Pesquisa-ação e a formação docente voltada para a justiça social: um estudo de caso dos Estados Unidos. In: PEREIRA, J. D.; ZEICHNER, K.M. (Org.). Pesquisa na formação e no trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. ______. Formando professores reflexivos para a educação centrada no aluno: possibilidades e contradições. In: Barbosa, Raquel Lazarri leite (Org). Formação de educadores: Desafios e perspectivas. Editora UNESP. ______. Uma análise crítica sobre a “reflexão” como conceito estruturante na formação docente. Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n.103, p.535-554, mai/ago.2008. Disponível em http://www.cedes.unicamp.br. ZEICHNER, Kenneth M.; DINIZ-PEREIRA, Júlio Emílio. Pesquisa dos educadores e formação docente voltada para a transformação social. Cadernos de pesquisa, v.35, n.125, p. 63-80,mai/ago de 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/v35n125/a0535125.pdf Acessado em: 16/05/2013.