Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (1095-1101) REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA – ESPANHOL. Moacir Lopes de CAMARGOS ( UNICAMP) RESUMEN: Este trabajo pretende aportar algunos elementos que contribuyan con la conceptualización de la evaluación en lengua extranjera. Primero se presenta el contexto de la pesquisa. En segundo lugar, algunos conceptos teóricos sobre evaluación basados en Perrenoud, Scaramucci y otros. En tercer lugar, se agregan a la discusión estos conceptos. PALABRAS-CLAVE: evaluación; lengua extranjera; español. 0 - Introdução Por meio de minha experiência como professor de línguas estrangeiras (francês e espanhol) e materna, percebo o quanto há inquietações no que se diz respeito à avaliação1. Mesmo com os avanços em pesquisas nas diversas áreas educacionais, alunos e professores ainda apresentam grande dificuldade de compreensão/aceitação quando se trata de avaliação. Entre essas inquietações interessa-me discutir/entender como avaliar um curso (nível básico) de língua estrangeira (doravante LE) – espanhol com um semestre de duração. A partir dos anos 80, o ensino de espanhol ganhou, no Brasil, uma grande importância devido, sobretudo, à criação do Mercosul conforme coloca Gadotti (1993). Hoje, observa-se que em quase todas as escolas de línguas, além do inglês, oferece-se também o espanhol. Isso pode ser constatado tanto nas capitais quanto no interior, principalmente na região sudeste. Contudo, surge, com a corrida ao aprendizado da língua espanhola, dois problemas que gostaria de trazer a baila e que estão diretamente relacionados à questão da avaliação: a) a formação de profissionais capacitados para atuar nesta área de ensino; b) a escolha do material didático (livro). Quanto ao primeiro problema, sabe-se que ainda são poucas as universidades que possuem cursos de Letras com habilitação em espanhol. Desse modo, a grande maioria dos professores de espanhol são nativos desse idioma ou pessoas (não importa a formação) que possuem o diploma de proficiência em língua espanhola (DELE) ou viveram em algum país cuja língua oficial seja o espanhol, preferencialmente a Espanha. Isso tem reflexo direto na discussão sobre avaliação, uma vez que pelo fato de o professor não possuir uma formação adequada, compromete todo o processo de ensino/aprendizagem. Ou seja, esse profissional, na maioria das vezes, toma um livro, sem critérios, (ou a escola lhe impõe, como aconteceu neste estudo) como o material de base para as suas aulas. Dessa forma, a avaliação é, como pude observar em minha experiência docente, apenas uma modificação dos exercícios contidos no livro. Também pode ocorrer de o professor tentar ser comunicativo e, mesmo o livro sendo predominantemente estrutural, ele acredita avaliar de uma forma “comunicativa”. Conforme ressalta Scaramucci (1997b:4) como não há uma falta de planejamento e objetivos em relação ao ensino e a avaliação, “quem assume esse controle é o material didático escolhido pelo professor ou determinado pela escola (no meu caso), que tem seus próprios objetivos e, subjacente, também uma abordagem, a de seu autor”. Ao iniciar um curso de LE, o professor tem uma enorme preocupação em escolher o melhor livro a ser usado. Como a abordagem comunicativa está em voga (cf. Almeida Filho, 1993), é comum ouvir os professores de LE afirmarem orgulhosos que são adeptos de tal abordagem. Então, acredita-se que o melhor livro é o comunicativo e, conseqüentemente, a avaliação também será comunicativa. 1 - CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROBLEMA Uma série didática de espanhol (Español sin Fronteras) chamou minha atenção logo que iniciei o curso de pós-graduação. Recebi de presente a coleção completa do professor. Quando a folheei, imaginei que seria difícil alguém usar um livro tão superficial, apesar de ser recente (1997). Porém, achei o material perfeito para um fazer um trabalho de crítica de uma disciplina que cursava no Mestrado em Lingüística Aplicada. Comecei a escrever empolgado com as críticas e, à medida que prosseguia, sempre tinha em mente a seguinte questão: onde este livro é adotado? Imaginava que poderia ser utilizado com alunos de escolas públicas ou que seria destinado a um público infantil. 1 O termo avaliação aqui utilizado estará sendo empregado em um sentido amplo, ou seja, não significa somente provas para obterem notas, mas todo tipo de atividade desenvolvida na sala de aula ou em casa. 1096 REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA – ESPANHOL. Eis que a resposta veio até mim na semana seguinte. Chamado para lecionar espanhol em uma instituição (abaixo especificada), fiquei surpreso, perplexo quando o coordenador me impôs o livro que a escola adotava que, para minha surpresa, era o Español sin fronteras. Respondi que já o conhecia e pensei: e agora? Aceitei a proposta da escola e continuei a pensar no trabalho de crítica que já havia iniciado sobre a série didática. 1.1 – A ESCOLA, OS ALUNOS A escola é, originalmente, um centro de informática com sede em Brasília2. Porém, nos últimos anos oferece cursos de inglês e espanhol. Em Campinas e também em várias outras cidades, a escola faz parceria com a prefeitura e outros órgãos sem fins lucrativos para oferecem os cursos propostos a um preço acessível. De acordo com o folder da escola o aluno pagaria somente uma taxa de 75,00 reais pelo material didático (no caso o livro) e escolheria o curso básico (inglês, espanhol ou informática) que desejasse freqüentar durante seis meses, tendo uma hora e meia de aula por semana. Como o preço do curso era baixo, houve uma grande procura. Foram inscritos 2300 alunos. Desse total, cerca de 210 eram de espanhol. A sala de aula, apesar de muito pequena e improvisada, comportava 30 alunos. E, mesmo após no segundo mês de aula, ainda havia alunos se matriculando. A cada semana apareciam alunos novos. O professor devia dar aulas de reposição para os novatos. Vale ressaltar que a escola não possuía nenhum tipo de recurso (sequer mimiógrafo) para que o professor pudesse oferecer outro material ao aluno. Todo o curso teria que ser dado a partir do livro adotado. No meu caso, tinha oito turmas, o que dificultou prover material extra, com recursos próprios para todos os 165 alunos. Os professores nem foram consultados para saber qual livro adotar. Não soubemos como foi feita a escolha do livro. Em todas as turmas pude constatar uma enorme heterogeneidade entre os alunos. Havia desde adolescentes do ensino fundamental e médio com pessoas de terceira idade (60, 70 anos), graduandos, mestrandos e doutorandos. Dentre os professores de línguas, era o único com formação em Letras. Todos os outros eram universitários, mas não estudavam Letras; dois cursavam Jornalismo, um Sociologia e um era falante nativo da língua espanhola (latino), estudante de Engenharia. As aulas iniciaram em maio de 2001 e terminaram em dezembro do mesmo ano. Porém, tivemos férias em julho, paralisações por falta de pagamento e, durante o mês de novembro, não tivemos aula devido a problemas de locação do prédio. Neste período de seis meses, tempo em que ministrei as aulas, foi feita a geração de dados3 que será utilizada neste trabalho e também na pesquisa final de minha dissertação de mestrado4. 2 – JUSTIFICATIVA Dado o contexto em que se insere a situação de ensino/aprendizagem anteriormente exposta, a avaliação me pareceu, desde o início, um enorme problema, devido à falta de discussão entre os professores sobre o assunto ou orientação de alguém da escola de como avaliar. Pelo fato de não ser uma escola onde os alunos necessitavam de notas numéricas ou conceituais para serem promovidos para o semestre ou ano seguinte, confesso que não tive, inicialmente, a preocupação com uma avaliação (prova). Entretanto, os próprios alunos, hipotetizo pela concepção que possuem do que seja ensino de LE, perguntaram em vários momentos sobre a prova, como seria, quando esta se daria. Procurei tranqüilizálos informando que no final do curso faríamos uma prova. Esse desafio – a problemática da avaliação – que esteve presente em todos os momentos do curso é de suma importância para que o professor de LE, enquanto pesquisador em formação, reflita sobre sua prática pedagógica de uma maneira ampla. Desse modo, concordando com Scaramucci (1999:120), creio que a co-participação dos alunos na discussão e elaboração das avaliações aplicadas durante o curso ministrado, foi essencial para que estes percebessem/refletissem sobre o seu papel de sujeito ativo no processo de ensino/aprendizagem em que estavam envolvidos. Assim, enquanto professor, não centralizei o poder de controlar tudo e ter a nota como forma de punição. Vale ressaltar ainda que, apesar das numerosas pesquisas em lingüística aplicada, poucos são os trabalhos que focalizam a avaliação em LE. Dentre esses trabalhos podemos destacar alguns 2 Sobre a escola há a seguinte página: www.pegaladrao2002.hpg.ig.com.br Terminologia utilizada por Mason (1997) 4 Esta pesquisa está sendo desenvolvida com o auxilio do CNPq e orientação da Profa. Dra. Tereza Maher. 3 Moacir Lopes de CAMARGOS 1097 pesquisadores que trazem grande contribuição para a área, tais como: Perrenoud (1999), Scaramucci (1997a, 1997b, 1999, 2000), Vega (2000), Amarante (1998), dentre outros. 3 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA No que se refere às pesquisas sobre avaliação é importante os trabalhos, no campo da educação, de Luckesi (1996) que esclarece sobre a diferença entre avaliação e verificação da aprendizagem escolar. Para este autor a avaliação, entendida como um processo dinâmico, permite direcionar o objeto de ação, além de possibilitar a construção de resultados positivos, uma vez que esta prática implica em coleta, análise e síntese dos dados e tomada de posição contra ou a favor. Por outro lado, a verificação, por ser estática, não permite direcionar o objeto de ação. Ou seja, configura-o no momento em que se obtêm os resultados. Essa prática é comum na escola, quer dizer, aplica-se uma prova, dá a nota e o aluno é aprovado ou reprovado. Desse modo, não se questiona o processo ensino/aprendizagem, apenas percebese um instante que, na maioria das vezes, é errôneo. A posição de Vasconcellos (2000) também está em consonância com as idéias de Luckesi. Para aquele pesquisador a avaliação é um processo abrangente que deve ser visto criticamente a partir de uma prática. Então, poderá perceber pontos positivos e/ou negativos e buscar soluções. Vasconcellos (2000:45) argumenta que a nota é fruto de uma pedagogia comportamentalista e, na relação pedagógica atual, aparece como fator de alienação. Dessa maneira, o que interessa não é o ensino/aprendizagem, mas a preocupação do professor em saber quanto o aluno merece e este está sempre atento em saber quantos pontos precisa para ser aprovado. A conclusão do pesquisador é de que “a prova é apenas uma das formas de se gerar nota, que, por sua vez, é apenas uma das formas de se avaliar. Assim, podemos atribuir nota sem ser prova, bem como podemos avaliar sem ser por nota (este dia parece não ter chegado plenamente ainda...)”. Ainda no campo educacional Werneck (1996:31) faz observações relevantes em relação à avaliação. Para este autor a escola não deveria “avaliar somente no final, mas a cada passo na construção do saber”. Percebe-se, nessa afirmação, que a avaliação é parte integrante de todo o processo de ensino e não apenas um momento em que é atribuída uma nota ao aluno para marcar o seu sucesso ou fracasso. Para o autor a nota deve ser abolida da prática escolar, uma vez que não traz benefícios em termos de aprendizagem. Na área de Lingüística Aplicada (doravante LA) os estudos sobre avaliação em LE ainda são poucos. Clapham (2000:148) argumenta que as pesquisas em avaliação em línguas são importantes para a LA, uma vez que gera dados para análise. No campo aplicado, os trabalhos de Scaramucci (1997a, 1997b, 1999, 2000) têm grande importância tanto para o português quanto para o inglês – ambos como LE. Para esta pesquisadora a avaliação como é feita nas escolas, atribuição de notas, não prioriza o saber, o aprender. Porém, ao invés de eliminá-la, o professor, juntamente com a escola, deveriam estabelecer metas para o aperfeiçoamento de todo o processo de ensino/aprendizagem. De fato, não poderíamos abolir imediatamente a avaliação, uma vez que o aluno dever ser preparado para enfrentar exames diversos, tais como: vestibular, TOEFL (inglês), CELPE-Bras (português), DELE (espanhol). Para Perrenoud (1999:104) a observação formativa seria um termo mais adequado quando tratamos de avaliação. Ou seja, há várias maneiras de o professor auxiliar o aluno no seu processo de aprendizagem da LE, a saber: engajá-lo nas novas tarefas, aliviar sua angústia, dar-lhe confiança, autonomia, dentre outros. Isso se deve porque, segundo Perrenoud (1999:109) “não se adquire o domínio de uma língua estrangeira como se constrói um saber matemático”. Conclui-se, então, que não se justifica provas de LE com análise de tópicos gramaticais isolados que, na maioria das vezes, são apenas decorados. Conforme nos mostra Scaramucci (1999) isso acontece devido, sobretudo, a uma ausência de objetivos e critérios bem definidos, a avaliação é vista, na maioria das vezes, como um simples ato de dar nota, desconsiderando o aluno como parte do processo. Dessa maneira, a avaliação se reduz ao seu aspecto classificatório, centralizada no erro e acerto como forma de mostrar o desempenho da aprendizagem. Para que este quadro mude, seria necessário, além da definição de objetivos, colocar o aluno como co-participante do processo de avaliar. Assim procedendo, o professor poderia redimensionar sua prática pedagógica. Após essa breve exposição teórica, analisarei, na seção 5, algumas das avaliações que aconteceram durante o curso ministrado – sem provas ou notas - conforme explicado anteriormente. 1098 REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA – ESPANHOL. 4 – METODOLOGIA Para a execução do trabalho proposto, optei pela realização de uma pesquisa de base etnográfica, ou seja, uma pesquisa que coloca o foco da percepção que os participantes têm da interação lingüística e do contexto social em que estão envolvidos (Moita Lopes, 1996). Dessa forma, utilizei a sala de aula, o espaço social onde se dá o ensino/aprendizagem, para fazer a geração de dados por meio dos seguintes instrumentos sugeridos Cavalcanti & Moita Lopes (1991:140-1): a) o professor fez diários das suas aulas; b) questionários iniciais para os alunos (informações pessoais, experiência anterior com a aprendizagem de outra LE, motivação, escolha pela LE); questionários finais para saber sobre a experiência com a língua, o aprendizado, etc; c) troca de correspondência via e-mail entre professor e alunos. Este material foi analisado com o intuito de perceber como o professor incentivou o aluno a interagir na língua-alvo e, ao mesmo tempo, serviu para refletir sobre a natureza da relação professor/aluno e processo de avaliação destes últimos com a LE; d) gravação de aulas em áudio e vídeo – 2 gravações em cada unidade do livro; e) todas as atividades foram arquivadas em portfólios. Para a análise deste trabalho, minha atenção está voltada aos portfólios do item e. 5 – DISCUSSÃO DOS DADOS A minha preocupação desde o início do curso foi promover a interação entre os aprendizes, pois meu objetivo era estabelecer um bom engajamento com a língua alvo. Conforme explicitado no questionário inicial, todos tinham claro o porquê da escolha de estudar a língua espanhola. A primeira atividade foi a seguinte: todos se sentaram em pares para fazer perguntas ao colega e, em seguida, apresentava-o aos outros. Após a primeira unidade do livro, repeti a mesma atividade, mas nesse momento, todos perguntaram em espanhol, depois fizeram individualmente por escrito. Como já havia estabelecido um clima de confiança anteriormente, todos se mostraram interessados em participar, falar, perguntar. Como não estava preocupado em dar nota, a avaliação foi feita de forma contínua, nos dizeres de Perrenoud (1999), uma observação formativa. Em todos os momentos estávamos avaliando; o professor avaliando os alunos e estes opinando sobre as atividades, sobre o aprendizado, além de trazer sempre sugestões de como avaliar. Os próprios alunos sugeriam atividades para fazerem, como, por exemplo, pediram um livro para ler. Passei-lhes um livro em espanhol para iniciantes e pedi uma avaliação – um resumo ou comentário (anexo 1). Porém, não disse, em nenhum momento, sobre a nota que receberiam. Todos entregaram o comentário por escrito ou via e-mail, perguntaram dúvidas, discutiram o livro em sala e pediram outros para ler. Vale observar que todos escreveram, apesar do nível de interlíngua, na língua alvo. Como muitos tinham acesso ao computador, decidi trocar mensagens eletrônicas com eles. Isso favoreceu o processo de aprendizagem, pois muitos perguntavam dúvidas sobre a língua, a escola, as atividades e sempre procuravam escrever em espanhol. Mesmo quem não possuía correio eletrônico, escrevia em folhas de papel e entregavam todas as aulas. Havia um aluno que em todas as aulas sugeria um tema para redação e dava idéias para os alunos de como estudar, inclusive trazia xerox para os todos os colegas. Antes de começar a aula, ele lia o texto para todos, pedia para corrigir e todos comentavam. À medida que os aprendizes tinham mais contato com a LE, as avaliações passavam a ser mais elaboradas o que evidenciou uma prática pedagógica mais democrática, direcionada para a formação do coletivo social, pois todos tinham as mesmas oportunidades de se comunicar (Faria, 2000:85). Por exemplo, a partir de uma simples frase do livro “cuándo son las vacaciones en España”, uma aluna sugeriu para fazer uma redação. Aceitei a idéia e todos escreveram sobre as férias. Quando eles entregavam as atividades, eu fazia os comentários, mas não as corrigia riscando os erros, pois acredito que estes fazem parte do processo de aprendizagem e o conhecimento é construído diariamente. Porém, sempre fazia observações e os próprios alunos pediam para corrigir todos os erros, devido talvez, ser essa prática comum na escola. Também houve momentos de grande produtividade tanto da parte oral quanto da escrita. Após estudarmos os verbos pronominais do livro, um aluno trouxe um xerox com desenhos para todos os colegas o que resultou em atividades muito proveitosas. Primeiro os alunos reuniram em grupo e descreveram os quadrinhos. Em seguida, cada um falou sobre a sua rotina diária. Para completar, pedi a cada um para escrever a história em casa. Esta avaliação encorajou os alunos a usar a linguagem de uma forma bastante criativa. Dessa forma, avaliava sem preocupação com nota e os alunos se interagiam tendo oportunidade de construir um novo saber. Moacir Lopes de CAMARGOS 1099 A cada unidade do livro surgiam novas avaliações, ora sugeridas por mim, outra pelos alunos. Um diálogo sobre compras de roupas ilustrou bem uma avaliação que sugeri e todos fizeram em grupo e depois individualmente. Durante a construção dos diálogos, achava interessante o quanto todos participavam com um grande espírito imaginativo demonstrando criatividade e cooperação e interesse em perguntar e pesquisar. Na penúltima unidade do livro, pedi para continuarem o diálogo da lição. Os resultados foram fantásticos e surpreendentes (anexo 2). Eles souberam usar a linguagem de uma forma muito criativa, humorística e coerente o que resultou em textos que revelaram, para mim, que realmente estavam engajados com a LE. Esses textos sempre eram lidos pelos seus autores no início da aula, o que gerava, muitas vezes, excelentes discussões e dúvidas que resultavam em mais pesquisas em dicionários, gramáticas, etc. Todas as avaliações propostas eram bem explicitadas, o que facilitava ao aluno o cumprimento da tarefa. Como a escola não tinha objetivos claros, tampouco planejamento, coube a cada professor dar o curso, ou melhor, cumprir as lições do livro. Então, defini, que não faria prova, pois meu objetivo era, deixei isso bem claro aos alunos desde a primeira aula, que o curso lhes proporcionaria um primeiro contato com o espanhol. Ou seja, conhecer um pouco sobre a língua, a cultura. Desse modo, as avaliações não eram segredo, todos as faziam porque estavam interessados em aprender. 6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS Em nenhum momento do curso exigi que os alunos fizessem avaliações de cunho decorativo, pois não era minha intenção restringir a aprendizagem da língua a itens gramaticais. Conforme coloca Vega (2000:55), não se deve “fragmentar uma série de conceitos e utilizá-los em diferentes circunstâncias, ao invés de ter uma concepção holística, compreensiva, dos elementos que interferem no processo e, sobretudo, ter clara a utilidade dos mesmos, de acordo ao contexto e aos objetivos que se perseguem”. Dessa forma, fica claro que a avaliação deve mostrar como a interação entre professor/aluno, aluno/aluno, aluno/professor contribui para um melhor desempenho no ensino/aprendizagem e não apenas serve de um instrumento de medida como ainda é vista no sistema educacional. A participação de todos os aprendizes no processo de ensino/aprendizagem demonstrou que, mesmo em um ambiente adverso e sem condições – greve, falta de materiais, água potável, sala adequada -, houve um grande aproveitamento. No questionário final, todos afirmaram explicitamente que desejariam continuar a estudar espanhol. Mesmo sem comentarmos sobre prova no final do curso, parece que eles perceberam que não foi necessário uma nota numérica ou conceitual para mostrar que aprenderam. Quando perguntei, no questionário final, o seguinte: “Não fizemos prova. Isso foi relevante para o seu aprendizado? Isso significa que não houve aprendizado?” As respostas a esta pergunta deixou evidente que todos entenderam que a avaliação contínua foi de grande proveito. Uma aluna disse: “claro que não, a prova não foi feita, mas em todas as aulas estávamos sendo avaliados”. Outra aluna escreveu: “não, pois a avaliação deve ser constante”. Dessa forma, cabe questionar o porquê de provas em LE com itens gramaticais e perguntas confusas e capciosas o que não demonstra aprendizagem, mas, muitas vezes, a frustração dos alunos, embora muitos professores acreditam ser comunicativos. Concluindo, a interação estabelecida com os alunos durante todo o processo avaliativo, possibilitou-me refletir criticamente sobre a minha prática de uma forma integradora e significativa, o que é de grande contribuição para cursos futuros e também para a formação crítica do professor, pesquisador em formação. RESUMO: Este artigo pretende trazer alguns elementos que possam contribuir com a discussão sobre o conceito de avaliação em língua estrangeira. Primeiro apresenta-se o contexto da pesquisa. Em seguida, alguns conceitos teóricos sobre avaliação baseados em Perrenoud, Scaramucci, dentre outros. Por último, discutem-se esses conceitos. PALAVRAS-CHAVE: avaliação; língua estrangeira; espanhol. 1100 REFLEXÕES SOBRE A AVALIAÇÃO EM LÍNGUA ESTRANGEIRA – ESPANHOL. ANEXOS Anexo 1 De:ac.viana Para:[email protected] Data:31/08/2001 Assunto : evaluación !Buenas noches! La historia es mucho interéssante, llena del ación y la suspenses. Mi recuerda del escritor sideny Sheldon. Yo soy enamorada por eses estilos del libros. El detetive Frank y su amigo Jorge son parceros en todas las aventuras. Con tanta emociones envolvidas en la carrera de mucha emoción. Hay muchas palabras extrañas que tieno poco conocimiento. Creo que aprendi muchas cosas del grande importancia para mi vocabulario. Ademas, la historia llevome a leer más y más. Fie cón que él buscasse más informaciones en la internet. Quédo más curiosa, por esa cultura que alucina quién lle conece. Estoy cada vés más enamorada por eses estudiios. Creo que tomei la decisión cierta. Adíos , hasta la vista. Gracias, Anexo 2 Diálogo En el oficina de la Inmobiliária “Dulce Hogar” se pasa esto: El vendedor estava atendiendo una señora que procurava una casa o piso pra comprarla o alquilar. Ella le pregunta muchas cosas acerca de los inmobiles y está muy interessada en un apartamento con una habitación. Pero el vendedor le dijo que no tiene. Esto se pasa porque el vendedor enquanto hablava con la señora, miro en la puerta uma guapa señorita, jóven y ben dotada de formas. Vestia una blusa escoltada y una falda corta. Los ojos del vendedor se abrieron y miraran solamente esta joven de pelos largos. Con las manos en la corbata para se sentir mas guapo le dijo con una voz caliente: V - Buenas tardes señorita! S – Buenas tardes V – En que puedo servirte? Estoy pronto! Alguna informacion acerca de una casa o piso? S – No, no me intereso por estas cosas. V – Quieres que lo mostres un apartamento, un chalé en las montañas, o en la playa? S – No, no me gusta las montañas, y en la playa me quemo, porque soy muy blanca y el sol es muy caliente! V – Pero tenemos otras cosas .... La joven interrompe el dialogo y dice: S – Pienso que adelanté en puerta errada. Procuro una peluquera de nombre Ana y aça no és una peluqueria. Perdoname, Adiós! Obs: na digitação do texto acima, foram mantidos os erros, pois não era a intenção intervir na escrita do aluno. Os comentários, bem como as correções, foram feitos após a leitura em sala de aula. Moacir Lopes de CAMARGOS 1101 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA FILHO, J. C P. Dimensões comunicativas no ensino de línguas. Campinas, SP: 1993. AMARANTE, M. F. S. Ideologia neoliberal no discurso da avaliação: a excelência e o avesso da excelência. (tese de doutorado). Campinas, SP: UNICAMP/IEL, 1998. CAVALCANTI, M. C. & MOITA LOPES, L. P. Implementação de Pesquisa na Sala de Aula de Línguas no Contexto Brasileiro. In: Trabalhos de Lingüística Aplicada, Campinas, v. 17, Jan./Jun. 1991 CLAPHAM, C. Assessment and testing. In: Annual Review of Applied Linguistics. USA, Cambridge University Press, 20, p. 147-161, 2000. ENRICONE, D. & GRILLO, M. (org.). Avaliação: uma discussão em aberto. Porto alegre: EDIPUCRS, 2000. FARIA, E. T. Avaliação e interação pedagógica: uma reflexão. 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