Ganep – Especialização em Nutrição Clínica Nutrição Parenteral Neonatal – Uma Visão Farmacêutica. BIANCA CRISTINA MAGONARO São Paulo 2007 BIANCA CRISTINA MAGONARO Nutrição Parenteral Neonatal – Uma Visão Farmacêutica Monografia referente ao Título de Especialista em Farmacologia Clínica apresentada ao Ganep. Orientada por: Prof. Dr. Andrea Bottoni Prof. Dr. Dan Waitzberg São Paulo 2007 Aos meus pais, irmão e amigos, por constante incentivo, profunda afeição e muita paciência. Ao BB, um grande homem sempre presente. Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca que prefere viver no mundo como está em vez de usar o poder que tem para muda-lo. Impossível não é um fato, é uma opinião. Impossível não é uma declaração, é um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário.” Autor desconhecido SUMÁRIO RESUMO ..........................................................................................................................6 ABSTRAT .........................................................................................................................6 OBJETIVO .......................................................................................................................7 INTRODUÇÃO.................................................................................................................8 REVISÃO DE LITERATURA.......................................................................................11 1. Terapia Nutricional Parenteral .................................................................................11 1.a. Existe risco de infecção no cateter de NPT? ......................................................................................... 12 1.b. O que é mistura 3 em 1 de NPT?............................................................................................................. 13 1.c. Pode ocorrer instabilidade na mistura 3 em 1?...................................................................................... 13 1.d. Podemos administrar cálcio e fósforo na solução de NPT?................................................................ 13 1.e. Que tipos de cateteres existem para a ministração de NPT?............................................................... 14 1.f. Existem contra indicações à punção venosa central para ministração de NPT?.............................. 14 1.g. Após manipulada, como devem ser armazenadas a NPT e NE? ........................................................ 14 1.h. Como são apresentadas as soluções de aminoácidos para NPT?....................................................... 15 1.i. Quando se usa a nutrição parenteral periférica? .................................................................................... 15 1.j. Como se faz a introdução da nutrição enteral? ...................................................................................... 15 1.k. Quando se indica a nutrição parenteral total (NPT)? ........................................................................... 16 1.l. Como se inicia a infusão endovenosa da NPT?..................................................................................... 16 1.m. A nutrição parenteral total pode ser ministrada em casa?.................................................................. 16 1.n. A via oral pode ser utilizada em terapia nutricional?........................................................................... 17 2. Complicações da NPT Sob a Óptica do Farmacêutico ...............................................17 2.a. Osmolaridade da mistura .......................................................................................................................... 17 2.b. Oferta nitrogenada ..................................................................................................................................... 18 2.c. Oferta de carboidratos ............................................................................................................................... 18 2.d. Oferta de lipídios........................................................................................................................................ 18 2.e. Eletrólitos..................................................................................................................................................... 19 2.f. Vitaminas ..................................................................................................................................................... 20 2.g. Oligoelementos........................................................................................................................................... 21 2.h. Outras drogas.............................................................................................................................................. 21 2.i. Qualidade da preparação............................................................................................................................ 21 2.j. Uniformidade métrica na prescrição e rotulagem.................................................................................. 21 3. Estabilidade e Compatibilidade Entre Medicamentos e Nutrientes em Nutrição Parenteral .....................................................................................................................22 3.a. Indicação para adição de medicamentos à mistura de NP................................................................... 22 3.b. Administração de medicamentos dentro da solução de nutrição parenteral total........................... 23 3.c. Estabilidade das emulsões lipídicas quando agregadas a medicamentos......................................... 23 3.d. Administração de medicamentos através da conexão em "Y" ao cateter de Nutrição Parenteral24 4. Indicações e Vias de Acesso da Nutrição Parenteral no Recém - Nascido ..................27 4.a. Indicações e vias de administração ......................................................................................................... 28 5. Preparo, Compatibilidade e Contaminantes das Soluções Parenterais de Uso Pediátrico......................................................................................................................29 6. Necessidades Nutricionais na Nutrição Parenteral em Neonatologia .........................35 6.a. Necessidades energéticas.......................................................................................................................... 35 6.b. Necessidades de Aminoácidos................................................................................................................. 35 6.c. Hidratos de carbono................................................................................................................................... 36 6.d. Lipídios........................................................................................................................................................ 37 6.e. Água , eletrólitos e minerais ..................................................................................................................... 38 6.f. Micronutrientes ........................................................................................................................................... 41 6.g. Vitaminas..................................................................................................................................................... 42 7. Aspectos Clínicos e Farmacêuticos Relacionados à Suplementação de Cálcio e Fósforo em Nutrição Parenteral Neonatal..................................................................................43 8. Relação Cálcio – Fósforo ...........................................................................................47 9. Compatibilidade entre Medicamentos e Nutrição Parenteral Neonatal .....................48 CONCLUSÃO.................................................................................................................53 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................56 RESUMO A terapia nutricional enteral e parenteral é parte integrante e muito importante do tratamento do paciente. A atuação dos diversos profissionais nas equipes multidiciplinares, médico, nutricionista, farmacêutico e enfermeiro, obrigaram a supervisão e o preparo rígido e adequado da NPT, desde seu estado inicial de formulação e armazenamento, bem como melhores cuidados na ministração de dietas enterais e parenterais. O suporte nutricional parenteral no recém-nascido pode ser de grande auxílio na profilaxia e no tratamento da desnutrição aguda que pode acometer este grupo de pacientes, principalmente nas situações do recém- nascido pré-termo gravemente doente. Neste suplemento serão discutidas indicações de terapia nutricional e os cuidados para sua preparação, armazenagem e administração. ABSTRAT The enteral and parenteral nutritional therapy is an integral and very important in the treatment of the patient. The performace teams in multidiciplinares, doctor, dietitian, pharmacist ande nurse, and forced to supervise the preparation of the NPT rigid and appropriate, since its initial state of formulation and storage, and better care in the administration of diets enteral and parenteral. The parenteral nutritional support in the newborn can be of great assistance in the prophylaxis and treatment of cutt malnutrition that can happen this group in situations of the newly born pre-term seriously ill. In this supplement will be discussed indications of nutritional therapy and care for their preparations, storage and administration. OBJETIVO Este trabalho tem como objetivo trazer esclarecimentos sobre a nutrição parenteral neonatal. Desde os princípios básicos da nutrição parenteral até a complementação com medicamentos, juntamente com a visão do farmacêutico em todo o processo. Onde se pode ter uma base de dados para profissionais que não trabalham na área clínica. INTRODUÇÃO A nutrição parenteral (NP) total ou parcial constitui parte dos cuidados de assistência ao paciente que está impossibilitado de receber os nutrientes em quantidade e qualidade que atendam às suas necessidades metabólicas pelo trato gastrointestinal (TGI). A NP é indicada na profilaxia e tratamento da desnutrição aguda, mediante o fornecimento de energia e proteínas para prevenir o catabolismo protéico do paciente, em regime hospitalar ou domiciliar. Doenças respiratórias, capacidade gástrica diminuída, retardo do esvaziamento gástrico, incompetência do esfíncter esofágico inferior e diminuição na motilidade intestinal, enterocolite necrosante, erros inatos do metabolismo e prematuridade, pré e pós-operatório, síndromes do intestino curto, fístulas, são algumas das situações clínicas em que está indicada a nutrição parenteral. A Terapia de Nutricional Parenteral exige o comprometimento e a capacitação de uma equipe multiprofissional, visando à garantia da sua eficácia e segurança. Esta equipe deve ser constituída por profissionais médicos, farmacêuticos, nutricionistas e enfermeiros, psicólogos, microbiologistas, fisiatras, entre outros, resultando em ações mais especializadas ao paciente. No âmbito de atuação do farmacêutico, o Decreto-Lei 85.878/81 estabeleceu como privativa desta classe a manipulação de medicamentos e afins. Posteriormente, as Resoluções do Conselho Federal de Enfermagem - COFEN 161/93 e do Conselho Federal de Farmácia - CFF 247/93, alterada pela Resolução CFF 292/96, destacaram as responsabilidades e atribuições do farmacêutico no preparo das nutrições parenterais. A Portaria 272/98-SVS/MS normatizou os requisitos estruturais e ambientais na manipulação, armazenamento e transporte da alimentação parenteral manipulada e dos insumos utilizados para este fim. O profissional farmacêutico tornouse oficialmente o responsável pela manipulação das formulações nutritivas devido principalmente à sua formação acadêmica, que lhe dá habilidade de avaliar as características físico-químicas dos componentes, as possíveis interações químicas entre os nutrientes e os fármacos, assegurando uma perfeita estabilidade química e esterilidade do produto elaborado. O preparo da nutrição parenteral é um processo que utiliza procedimentos padronizados e validados, a fim de assegurar a qualidade dos componentes da nutrição parenteral até a sua administração no paciente. Além das atividades de supervisão na manipulação das formulações e controle de qualidade, o farmacêutico participa do acompanhamento clínico do paciente, juntamente à equipe multidisciplinar, em ambientes hospitalares ou em domicilio. A atuação do farmacêutico em terapia nutricional tem propiciado às instituições uma sensível redução dos custos hospitalares, bem como benefícios terapêuticos ao paciente, muitos destes associados à ausência de contaminação das soluções nutritivas (Rev. Prática Hospitalar. ano.7 nº.40, 2005). REVISÃO DE LITERATURA 1. Terapia Nutricional Parenteral A terapia nutricional enteral e parenteral é parte integrante do tratamento do paciente. O diagnóstico prévio do estado nutricional pode modificar a conduta clínica ou cirúrgica adotada. A desnutrição, que pode comp rometer de forma direta e indireta a evolução do quadro clínico, pode ser revertida na maior parte das condições mórbidas, desde que seja diagnosticada e tratada precocemente. O avanço tecnológico permitiu maior conhecimento e manipulação dos nutrientes (proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e minerais), seja para ministração oral, enteral ou parenteral. No início da década de 70, o domínio das técnicas exigidas à formulação e administração da NPT permitiu sua utilização em diferentes situações clínicas e, em pouco tempo, as complicações metabólicas foram mais bem solucionadas. Recentemente, avanços nas técnicas de ministração da dieta enteral, como o desenvolvimento de sistemas fechados que são violados apenas no momento da administração da dieta, possibilitaram menor manipulação e consequentemente diminuíram o risco de contaminação do trato digestivo. A criação de grupos de terapia nutricional e atuação de equipe multiprofissional permitiram avaliação pré-terapêutica e diagnóstico precoce do estado nutricional, individualização do tipo de nutriente ministrado e via de acesso mais adequada. A evolução do paciente frente ao seu estado mórbido certamente foi modificada. A atuação dos diversos profissionais, médico, nutricionista, farmacêutico e enfermeiro, obrigaram a supervisão e o preparo rígido e adequado da NPT, desde seu estado inicial de formulação e armazenamento, bem como melhores cuidados na ministração de dietas enterais e parenterais. Os cuidados com as soluções de NPT ou NE iniciam-se ainda no seu preparo. A esterilidade dos nutrientes e do local de manipulação tornou-se itens obrigatórios. A partir do momento que o profissional responsável pela administração recebe o conteúdo já manipulado deve-se preocupar com diversos fatores para evitar a contaminação do produto. Os cuidados iniciam-se com o armazenamento que deve ser efetuado em local limpo e previamente especificado, com temperatura adequada à conservação, de acordo com a especificação do fornecedor. Antes de sua ministração o produto deve estar em temperatura ambiente e devem ser respeitados os cuidados com a manipulação, que é a maior fonte de contaminação. Algumas medidas para evitar outras formas de contaminação podem ser obtidas, se respeitados protocolos pré-definidos pela equipe multidisciplinar de terapia nutricional objetivando cuidados com cateteres, sondas, curativos e tipo de infusão das soluções prescritas de nutrição enteral ou parenteral. A NPT pode conter a dextrose, gordura ou algum tipo de álcool para fornecimento de energia. A dextrose, por apresentar custo inferior é a fonte energética mais utilizada e fornece 3,6 kcal por grama oxidada. Em situações de intolerância à glicose, comuns durante a resposta metabólica ao trauma e sépse, pode-se utilizar a gordura, que fornece 9 kcal por grama oxidada. Recomenda-se, na prática clínica, de 30 a 50% do valor calórico total na forma de lipídios, que quando misturados no mesmo frasco de NPT constitui a conhecida mistura três em um. Algumas soluções de aminoácidos fornecem parte da quantidade calórica (cerca de 400 kcal/litro de solução) na forma de sorbitol. Com o desenvolvimento das dietas enterais esta a indicação de nutrição parenteral para fístulas digestivas modificou-se drasticamente. A introdução de dietas oligoméricas que são mais facilmente absorvidas no trato intestinal pode ser feita desde que a fístula não seja de alto débito ou não esteja em sítio distal próximo à sonda. A presença de nutrientes no trato digestivo facilita ainda à produção de hormônios tróficos que serão benéficos ao mecanismo de cicatrização e tratamento A introdução de nutrientes específicos, como a glutamina, pode manter a integridade estrutural e funcional do enterócito evitando situação de translocação bacteriana. Situações como fístulas gástricas, por exemplo, podem ser contornadas com o uso de sondas especiais que ao mesmo tempo em que drenam o suco gástrico nutrem o paciente pela extremidade situada no intestino delgado proximal. Cada paciente deve ser avaliado individualmente. O uso da NPT é consid erado apenas se a nutrição enteral tiver contra indicação (Magnini et all.; 2005). 1.a. Existe risco de infecção no cateter de NPT? O cateter venoso central pode contaminar-se ou infectar-se em até 30% dos casos. A contaminação pode ocorrer em diferentes focos como: na introdução, no emprego de soluções contaminadas, no uso inadequado do equipo (quanto maior a manipulação maior o risco de contaminação), pela pele (manipulação dos curativos), por meio de outros focos infecciosos do paciente (queimaduras, peritonite e broncopneumonia) e, por fim, dependendo da susceptibilidade do paciente (desnutrição, imunodeficiência, câncer) poderá haver maior possibilidade de contaminação e infecção do cateter (Magnini et all.; 2005). 1.b. O que é mistura 3 em 1 de NPT? Mistura 3 em 1 é a associação de aminoácidos, glicose, lipides, vitaminas e minerais em um mesmo frasco ou bolsa. Foi utilizada pela primeira vez na França, em 1972, por Solassole e Jovieux, e aprovada para uso clínico nos EUA em 1982. Neste sistema, a presença de lipídios, além de fornecer ácidos graxos essenciais, pode representar até 40% do valor calórico total. Esta mistura favorece situações onde o uso da glicose hipertônica pode ser desvantajoso, como intolerância à glicose, anormalidades nas provas de função hepática, insuficiência respiratória, deficiência de ácidos graxos essenciais e coma hiperosmolar não-cetótico (Magnini et all.; 2005). 1.c. Pode ocorrer instabilidade na mistura 3 em 1? Sempre que glicose e eletrólitos forem misturados de mane ira inadvertida, o mecanismo de equilíbrio das forças eletrostáticas que existem entre as gotículas de gordura em água estará alterado, desencadeando instabilidade. Existem fases bem definidas que ilustram este processo. São elas: Emulsão, Agregação, Creme, Coalescência e Separação. Até a formação do creme, a camada de agregação superficial pode ser dispersada pela agitação leve do frasco. Nas próximas fases a solução deve ser desprezada pelos riscos de toxicidade e embolia gordurosa (Magnini et all.; 2005). 1.d. Podemos administrar cálcio e fósforo na solução de NPT? Quantidades adicionais de cálcio e fósforo, respeitando-se as necessidades e tolerabilidade do paciente, podem ser adicionadas quando a NPT for manipulada em regime glicídico. Na presença de emulsões lipídicas estes eletrólitos devem ser submetidos à curva de solubilidade, que avalia a possibilidade de precipitação da solução. Desta forma, as quantidades prescritas de cálcio e fósforo devem ser respeitadas no preparo e ministração de NPT em regime lipídico (Magnini et all.; 2005). 1.e. Que tipos de cateteres existem para a ministração de NPT? A NPT poderá ser ministrada por via central ou periférica dependendo da osmolaridade da solução infundida. Quando a osmolaridade for de até 10% e a terapia nutricional planejada para período mais curto o sistema venoso periférico abordado por meio de punção venosa com cateteres curtos revestidos de silicone. Em caso de uso de soluções hiperosmolares necessita-se de acesso de veia central calibrosa. Os procedimentos de cateterização venosa central podem ser efetuados de três maneiras: Por punção percutânea das veias jugular interna e subclávia ("intracath"), pela dissecção e cateterização das veias dos membros superiores ("intracath" periférico) e pela cateterização das veias jugulares internas e subclávias com cateteres de silicone semiimplantáveis ("Hickman") e totalmente implantáveis ("Port-A-Cath") (Magnini et all.; 2005). 1.f. Existem contra indicações à punção venosa central para ministração de NPT? Determinadas situações clínicas oferecem maior risco de complicações à passagem do cateter venoso central por punção. São elas: estado de hipocoagulabilidade (hemofilia, uso de drogas anticoagulantes), enfisema pulmonar acentuado, deformidades torácicas, cirurgia ou irradiação prévia da região cervical, assistência ventilatória pulmonar com pressão positiva, prematuros e crianças menores que um ano e choque hipovolêmico grave. Após detectada a situação de risco, esta deve ser corrigida ou procurada uma via e forma de acesso alternativa(Magnini et all.; 2005). 1.g. Após manipulada, como devem ser armazenadas a NPT e NE? A solução de NPT recebida pela farmácia deve ser mantida em refrigeração entre 2°C e 8°C em geladeira limpa e preferencialmente exclusiva. Cuidado deve ser tomado para não armazenar as bolsas uma sobre a outra. Antes de sua administração deve ser retirada da geladeira e mantida em local limpo até que atinja temperatura ambiente para sua infusão. Deve-se observar rigorosamente a data e horário de manipulação para que não exceda o tempo disponível ao armazenamento e à ministração, que deve ser préestipulado pela farmácia manipuladora. A NE industrializada conta em seu rótulo as medidas para armazenamento. Deve-se observar a quantidade máxima de caixas sobrepostas, data de validade, e o local deve ser limpo e com temperatura preferencialmente baixa. Após violada a embalagem deverá ser ministrada em no máximo 24 horas. Apesar de cuidados rigorosos serem observados pode ocorrer o crescimento bacteriano em dietas artesanal modular e dieta em pó industrializada em até seis horas de sua administração à temperatura ambiente. Portanto, a NE manipulada no local (modular ou artesanal) deve ser ministrada imediatamente (Magnini et all.; 2005). 1.h. Como são apresentadas as soluções de aminoácidos para NPT? As soluções de aminoácidos para uso intravenoso podem ser soluções padrão, específica para determinada situação clínica (nefropatia, hepatopatia) ou pediátrica. Suas modificações são representadas pela diferente composição nos aminoácidos. As soluções padrão são apresentadas com concentrações de aminoácidos distintas (5, 8, 10 e 15%). Podem conter, adicionados à solução, carboidratos e eletrólitos representados pelas letras "s" maiúscula e "a" minúscula, respectivamente. Os carboidratos são representados pelo sorbitol e xilitol e aminoácidos estão presentes nas formas de acetato ou cloreto de sódio, potássio e magnésio (Magnini et all.; 2005). 1.i. Quando se usa a nutrição parenteral periférica? A nutrição parenteral periférica consiste em solução hipocalórica de glicose (5 a 10%) associada a aminoácidos e eventualmente lipídios, que pode ser administrada por veia periférica. Em pacientes moderadamente desnutridos, submetidos a jejum de curta duração (3 a 5 dias), pode reduzir parcialmente a gliconeogênese e o balanço nitrogenado negativo (Magnini et all.; 2005). 1.j. Como se faz a introdução da nutrição enteral? Uma vez decidida a introdução da terapia nutricional enteral e o procedimento de acesso ao tubo digestivo estiver adequado pode-se iniciar a infusão da dieta previamente escolhida. A nutrição enteral (NE) poderá ser ministrada de forma contínua, por meio de bomba de infusão ou gravidade, ou de forma intermitente. Devido à capacidade de adaptação do estômago, quando a sonda estiver a nível gástrico, qualquer dos métodos é aceitável. No método contínuo inicia-se a infusão com volume menor (25 a 40 mL/h) e progride-se lentamente (20 mL/dia). Na forma intermitente inicia-se com 100 mL a cada três horas (divide-se em oito tomadas ao dia) e adiciona-se 50 mL a cada tomada. As progressões devem respeitar a tolerância e necessidades individuais calórico-protéicas de cada paciente. Com a sonda colocada após o piloro prefere-se o método contínuo com maior controle do volume infundido. A ministração da dieta em velocidade de infusão acima da capacidade de adaptação orgânica pode causar dor e diarréia, diminuindo o aproveitamento de nutrientes. Portanto a ministração intermitente com a sonda pós-pilórica deve Ter controle rigoroso (Magnini et all.; 2005). 1.k. Quando se indica a nutrição parenteral total (NPT)? Decidida a necessidade de terapia nutricional observa-se a funcionalidade do trato gastrointestinal. Quando sua utilização não for possível, indica-se a NPT. Alguns exemplos de indicações absolutas e relativas são ilustrados seguir: 1) Absolutas: Fístula enterocutânea de alto débito, jejum prolongado, grandes ressecções intestinais, má- formação congênita do trato gastrointestinal 2) Relativas: Fístula enterocutânea de baixo débito, desnutrição moderada e grave, pancreatite, vômitos (emese gravídica), doença de Crohn, insuficiência hepática / renal, queimaduras graves (Magnini et all.; 2005). 1.l. Como se inicia a infusão endovenosa da NPT? O início lento e progressivo da NPT pode prevenir alterações metabólicas, já que permite adaptação orgânica. De maneira prática pode-se iniciar a infusão da solução na velocidade de 40 mL/h nas primeiras 24 horas sendo sua administração progressiva (20 mL/h) até que a recomendação calórico-protéica seja alcançada. Na necessidade de restrição hídrica pode-se concentrar a glicose em até 70% e utilizar emulsões lipídicas a 10 ou 20%, cujas densidades calóricas são mais elevadas. No indivíduo em jejum prolongado a oferta de nutrientes por via parenteral deve Ter progressão mais lenta a fim de evitar situação de hipofosfatemia e insuficiência cardíaca. No paciente hipermetabólico a progressão pode ser mais rápida visando compensar as rápidas perdas energéticas e protéicas (Magnini et all.; 2005). 1.m. A nutrição parenteral total pode ser ministrada em casa? Existem situações clínicas em que a perda funcional ou anatômica do intestino delgado exige a introdução de NPT por período prolongado. Com o desenvolvimento e controle das técnicas de manipulação das soluções de NPT e do cateter venoso central de longa permanência, atualmente é possível ministrar a NPT a pacientes em ambiente domiciliar. A solução intravenosa pode ser ministrada de forma contínua ou cíclica. Na forma cíclica, após o paciente utilizar a NPT por determinado período, poderá manter o cateter fechado por algumas horas permitindo que ele exerça atividades diárias fora de seu domicílio. Todos os pacientes em NPT domiciliar devem ser acompanhados rigorosamente por equipe multidisciplinar experiente e com recursos suficientes para amparar o paciente diante de eventuais complicações (Magnini et all.; 2005). 1.n. A via oral pode ser utilizada em terapia nutricional? Atualmente dispomos de soluções industrializadas hipercalóricas e hiperprotéicas que podem auxiliar na recuperação clínica de pacientes levemente desnutridos. Podem ser utilizados como suplementos orais, complementando a dieta prescrita pelo especialista (Magnini et all.; 2005) 2. Complicações da NPT Sob a Óptica do Farmacêutico Podemos elencar que de uma forma geral, as complicações relativas à Terapia de Nutrição Parenteral (TNP) estão relacionadas a três grandes grupos – infecciosas, mecânicas e metabólicas. A atribuição básica do farmacêutico na equipe multiprofissional de terapia nutricional, entre outras, é de garantir o fornecimento de misturas intravenosas (NPT) - estáveis e compatíveis, nas dosagens adequadas, estéreis e apirogênicas. Correlacionando as complicações da TNP com as atribuições básicas do profissional, podemos saber quais são as possíveis medidas que este profissional pode interferir no sentido de administrá- las o seu dia-a-dia (Filho, 2005). 2.a. Osmolaridade da mistura A primeira preocupação do profissional farmacêutico está, antes de uma análise mais detalhada da prescrição é verificar se a osmolaridade calculada está dentro daquilo que é aceito como indicativo de acesso periférico e central. A osmolaridade desejada para a administração parenteral periférica de NPT é de 600 mOsm/L, nunca excedendo 900 mOsm/L. A administração de misturas de osmolaridades superiores a esta, relaciona-se diretamente com o aumento da incidência de flebites, mesmo com o uso concomitante de doses subterapêuticas de heparina de hidrocortisona. Cabe ressaltar que é de fundamental importância citar no rótulo da NPT a osmolaridade calculada e a via de acesso, evitando possíveis falhas (Filho, 2005). 2.b. Oferta nitrogenada Avaliando a prescrição médica, devemos nos preocupar com as grandes ofertas, a principio a fonte e oferta nitrogenada. A oferta nitrogenada está diretamente relacionada com o quadro clínico do paciente. Pacientes com insuficiência renal severa não devem receber mais do que 0,6-0,8g/Kg/dia de aminoácidos. Já pacientes com insuficiência renal aguda em hemodiálise podem receber entre 1,0-1,5g/Kg/dia. Nos casos de hiperdratação ou edema, podemos lançar mão de soluções de aminoácidos a 15%, podendo assim fazer oferta nitrogenada necessária, com restrição de volume final da mistura. Da mesma forma o uso de soluções de glicose a 70% e lipídios a 3% fazem sentido nestes casos (Filho, 2005). 2.c. Oferta de carboidratos A segunda grande oferta a ser avaliada é a de carboidratos, quase sempre glicose, embora é possível utilizar-se frutose, xilitol e sorbitol. Contudo a glicose é a mais utilizada pelo seu preço, disponibilidade e maior conhecimento clínico. É importante avaliar em uma prescrição médica que a quantidade de glicose prescrita para um período de administração (8,12, 24h por exemplo), não ultrapassa a velocidade de infusão de glicose (VIG) de 5mg/Kg/minuto, que é o limite da capacidade de um indivíduo em oxidá-la. Velocidades superiores a esta podem resultar na lipogênese a partir da glicose com deposição no fígado (esteatose). A administração obrigatória de insulina na NPT nem sempre é observada em nosso meio. Contudo é de fundamental importância a adição de 1 a 2 terços da dose diária de insulina na NPT, que tem papel importante para a metabolização da glicose no interior das células (Filho, 2005). 2.d. Oferta de lipídios A oferta de lipídios se dá pela necessidade da oferta de ácidos graxos essenciais, ou ainda como fonte altamente calórica. (9Kcal/g). A oferta de lipídios pode-se se dar juntamente com os aminoácidos e glicose em um único recipiente - chamada NPT 3 em 1, ou ainda em recipiente separado. A oferta em pediatria nunca deve exceder a velocidade de 0,21-1,70 ml/kg/h no caso de emulsão lipídica a 10% ou 0,10-0,85 ml/kg/h para emulsões a 20%. Em adultos 500ml de emulsão lipídica a 10% não deve ser administrada em um período inferior a 3 horas e 500ml de emulsão a 20% em período não inferior a 5 horas. O farmacêutico deve estar atento quando da avaliação farmacêutica para a quantidade prescrita e o tempo de infusão. Existem casos relatados de reações adversas ao uso de emulsões lipídicas em pacientes que apresentam alergia ao ovo. Isto se deve ao fato de o emulsificante utilizado na preparação do produto tratarse da lecitina da gema do ovo. A utilização de misturas 3 em 1 pode trazer mais complicações que benefícios se não sofrer uma criteriosa avaliação farmacêutica. Estas complicações se agravam ainda mais na neonatologia aonde utilizamos volumes restritos com altas concentrações de eletrólitos e baixa concentração de aminoácidos. A instabilização da emulsão, levando a coalescência e floculação está relacionada diretamente a componentes típicos de uma NPT (eletrólitos, notadamente os cátions, glicose, pH, temperatura de administração entre outros) É preciso avaliar com muita clareza e determinação a conveniência do uso deste tipo de mistura. O papel do farmacêutico neste caso é de extrema importância. Existem correntes de profissionais farmacêuticos , em outros países, que radicalmente não recomendam em nenhum caso o uso de NPT 3 em 1 (Filho, 2005). 2.e. Eletrólitos A avaliação metabólica do paciente é de fundamental importância antes do inicio da TNP. As alterações eletrolíticas e metabólicas severas devem ser corrigidas, sempre que possível, antes do inicio da TPN. Os problemas eletrolíticos severos podem ser corrigidos via de regra por via periférica. Utilizar-se da NPT para este fim é um procedimento de risco pelo custo que ela representa. A avaliação freqüente de alterações eletrolíticas e metabólicas na fase inicial da TNP está diretamente relacionada com a sua eficácia e diminuição das complicações. Os resultados laboratoriais devem ser avaliados diariamente antes da prescrição e avaliação farmacêutica da nova NPT. O conhecimento dos medicamentos que o paciente está utilizando e sua influência sobre o seu perfil eletrolítico é de extrema importância, alguns exemplos destes medicamentos: 1) Os antiácidos pelo seu conteúdo de cálcio, magnésio e alumínio. Pacientes em uso de antiácidos devem controlar os níveis de fosfato pois este se liga ao magnésio e ao alumínio. 2) Os antibióticos pelos seus conteúdos de sódio e potássio para se evitar hipernatremia e hiperfosfatemia, especialmente nos pacientes com problemas cardíacos e renais. Cabe ainda ressaltar o caso da tetraciclina que se quela a cátions com cálcio, magnésio e zinco e o caso da Anfotericina B que provoca hipocalemia, hipomagnesemia e hipocalcemia. 3) Os corticóides causam distúrbios eletrolíticos com retenção de sódio além de promover o catabolismo de proteínas e gliconeogênese (hiperglicemia). 4) Os diuréticos podem causar hipocalemia e hiponatremia. 5) A octeotrida, por inibir a secreção de insulina pode-se observar quadros de hiperglicemia. O uso de Bicarbonato de Sódio é contra- indicado pela formação de gás carbônico e precipitados de carbonato de cálcio e carbonato de magnésio. Em presença de vitamina C pode também precipitados de oxalato de cálcio. Na presença de acidose metabólica ao invés do uso de bicarbonato, deve utilizar-se de seu precursor, o íon acetato (acetato de sódio, acetato de potássio, acetato de zinco, etc.). Já nos casos de alcalose podemos suprir os eletrólitos na forma de cloretos (cloreto de sódio, cloreto de potássio, etc.). Por fim a presença de íons fosfato e cálcio na mistura podem provocar precipitados de fosfato de cálcio, levando a riscos de deposição capilar (embolia) ou entupimento do catéter. Os precipitados se dão preferencialmente quando a concentração final de aminoácidos é inferior a 2,5%, pH superior a 6,0 ou ainda quando a oferta conjunta de fosfato mais cálcio ultrapassa 40mEq/l. É fundamental , sob a ótica do farmacêutico que deve assegurar misturas compatíveis e estáveis, a correta avaliação da prescrição (Filho, 2005). 2.f. Vitaminas A oferta de vitaminas é de fundamental importância na NPT. Existem casos relatados na literatura de mortes causadas por acidose metabólica por deficiência de vitamina B1 (tiamina) na NPT. Todas as vitaminas podem ser suplementadas na NPT. Os preparados comercias contém as 9 vitaminas hidrossolúveis e 3 lipossolúveis, com exceção da Vitamina K. A adição da vitamina K na NPT é controversa, visto que o fabricante somente recomenda a sua preparação comercial para uso intramuscular. As emulsões lipídicas são fontes de vitamina K e fósforo, muitas vezes suficientes para as necessidades do paciente (Filho, 2005). 2.g. Oligoelementos Vários oligoelementos são reconhecidos como importantes para o homem. Contudo na prática da TNP fazemos uso de 5 deles que possuem doses estabelecidas pelo AMA/NAG - FDA , Zinco , Cromo, Manganês, Cobre e Selênio. O uso destes oligoelementos, notadamente o selênio, somente se justificam em terapias prolongadas. E importante que o farmacêutico avalie a prescrição de oligoelementos na presença de insuficiência renal, onde as doses devem ser obrigatoriamente reduzidas (Filho, 2005). 2.h. Outras drogas Adição de fármacos na NPT, com o objetivo de utilizá- la como veiculo, ou ainda coinfundi- las pela mesma, são questões que devem ser rigorosamente avaliadas pelo farmacêutico. Conhecemos algumas drogas clássicas que podem ser adicionadas à NPT (ranitidina, cimetidina, heparina, insulina, aminofilina, etc.) e outras que são claramente incompatíveis (anfotericina B, fenitoina, cefalotina, gentamicina, etc.). Contudo é importante saber que a temperatura, pH, tempo de contato com a NPT, a forma de preparo e a opção do fármaco, são fatores que influem na sua compatibilidade (Filho, 2005). 2.i. Qualidade da preparação Relação à esterilidade e apirogenicidade da preparação é importante ater-se às diversas etapas envolvidas desde a prescrição da NPT até a sua administração. A portaria 272/98 do Ministério da Saúde Republicada no dia 15/04/99 no DOU, determina claramente a diretrizes mestres para garantir a qualidade intrínseca da mistura. Esta é uma competênc ia exclusiva do profissional farmacêutico que deve exercê- la com competência e responsabilidade (Filho, 2005). 2.j. Uniformidade métrica na prescrição e rotulagem Devido a inúmeras complicações relacionadas à interpretação de prescrições e rótulos de NPT, é fundamental padronizar-se a métrica. A ASPEN em 1998 resolveu propor uma métrica a ser adotada a nível nacional, onde se expressa na NPT infantil e neonatal as quantidades contidas na mistura em quantidade/Kg/dia e quantidade/dia e as NPT adulta em quantidade/dia e quantidade/litro. Para aminoácidos, glicose e lipídios utilizam-se seu peso expresso em grama. Para os eletrólitos - mEq (opcionalmente mMol para o P). Mutivitaminícos e Oligoelementos - ml. Em nosso meio devemos nos empenhar para encontrar um caminho para também uniformizar uma métrica que evite complicações, na maioria das vezes desastrosas (Filho, 2005). 3. Estabilidade e Compatibilidade Entre Medicamentos e Nutrientes em Nutrição Parenteral A indicação de nutrição parenteral geralmente vem acompanhada da prescrição de medicamentos para o tratamento da doença de base do paciente (Catalán Arlandis et al . , 1995; Menéndez ,2001). A adição de fármacos a uma mistura de nutrição parenteral é possível, do ponto de vista físico-químico, semp re que o fármaco mantenha sua concentração inicial (é aceitável uma perda abaixo de 10%) e que a nutrição parenteral continue estável. (ASPH, 2000) Tais práticas devem ser evitadas na clínica, pelos possíveis problemas de perda de estabilidade físico-química da mistura de nutrientes e química do fármaco, em virtude da interação com os componentes nutricionais da mistura. (AMA 1979; Marí e Jiménez Torres 1999; ASPH 1995, 2000) 3.a. Indicação para adição de medicamentos à mistura de NP 1) A adição de medicamentos às misturas de NP ou mediante conexão ao cateter em "Y", tem especial significado quando os pacientes apresentam as seguintes características: (Mari e Jiménez Torres 1999; ASHP 1995, 2000) 2) Acesso difícil ou limitado às veias periféricas; 3) Necessidade de restrição de líquidos e/ou eletrólitos; 4) Nutrição parenteral domiciliar. 5) A administração intravenosa de medicamentos concomitante à NP exige conhecimento da estabilidade, compatibilidade e interações do fármaco com a mistura nutricional; 6) Em muitos casos, a via intravenosa utilizada para a NP é a única disponível para a administração de fármacos. Esses medicamentos podem ser administrados ao paciente de duas maneiras, incorporados à solução de NP ou em paralelo, mediante uma conexão em "Y" com o cateter (Baptista e Lawrence,1985; Mari e ]iménez Torres,1999; ASPH, 1995) 3.b. Administração de medicamentos dentro da solução de nutrição parenteral total 1) Vantagens (Billion-Reye et al.,1993; Mari e ]iménez Torres, 1999) a) Redução do custo da terapia intravenosa b) Menos material necessário: seringas, agulhas, soluções; c) Não exige equipamento adicional: bomba de infusão, cateter; d) Redução do tempo de enfermagem necessário. e) Aumento da eficácia e qualidade da terapia: f) Melhor controle do aporte de líquidos e eletrólitos; g) Diminuição do número de acessos venosos e respectivas complicações mecânicas; h) Redução do risco de contaminação microbiológica; i) Melhoria da farmacocinética de alguns fármacos, como a ranitidina e a aminofilina. 2) Desvantagens: a) Maior tempo de contato entre o fármaco e a nutrição favorece a instabilidade da mistura e do medicamento; b) Se a NP for suspensa, haverá possível queda dos níveis plasmáticos do medicamento com conseqüentes variações farmacocinéticas. 3.c. Estabilidade das emulsões lipídicas quando agregadas a medicamentos Quando se acrescentam medicamentos às misturas de nutrição parenteral que contêm lipídios é preciso lembrar que as emulsões lipídicas são sistemas heterogêneos estabilizados. Essas emulsões possuem uma fase interna oleosa, em forma de glóbulos ou micelas, com diâmetro médio menor que 1 mícron, dispersa na fase aquosa externa. As emulsões lipídicas disponíveis comercialmente incluem em sua composição substâncias emulsificantes (lecitina de soja) com a finalidade de garantir sua estabilidade. Essas substâncias têm a propriedade de criar forças eletrostáticas de repulsão entre as micelas. Alcança-se a máxima estabilidade de uma emulsão lipídica com pH entre 5 e 8, faixa na qual os glóbulos lipídicos têm carga negativa, que impede sua aproximação e sua junção em partículas maiores, que poderiam causar complicações para os pacientes. Do ponto de vista da viabilidade clínica, nenhuma micela da emulsão lipídica deve ser maior que 6 micra de diro, e o percentual de glóbulos maiores que 5 micra não devem ultrapassar 0,4%, a fim de evitar microembolias nos pacientes. Embora existam muitos fatores passíveis de causar instabilidade da emulsão, tais como: temperatura, efeito da glicose, ânions, cátions, aminoácidos, ordem de adição à mistura, etc., a adição de medicamentos é um dos mais importantes fatores a serem levados em conta. Por isso, quando se adicionam fármacos às misturas de nutrição parenteral, além dos estudos habituais de estabilidade físico-química da mistura da avaliação do fármaco, devem ser estudados o tamanho e percentual dos glóbulos de gordura, para poder determinar com segurança a estabilidade da mesma e a viabilidade clínica da formulação. 3.d. Administração de medicamentos através da conexão em "Y" ao cateter de Nutrição Pare nteral No caso dos medicamentos administrados em "bolus" intravenoso ou por infusão IV intermitente, a conexão em "Y" com o cateter de NP é uma alternativa. No entanto, está documentado que a administração de medicamentos em "Y" no cateter venoso central aumenta a incidência de complicações mecânicas e o risco de contaminação microbiológica (Baptista e Lawrence, 1985; Billion-Rey et al., 1993; Marie e ]iménez Torres, 1999; ASHP, 2000) Vantagens (perspectivas farmacêuticas): • Redução do volume de líquid os a serem administrados; • Diminuição dos pontos de injeção. Desva ntagens: • Possibilidade de infecção devido à maior manipulação do cateter venoso; • Complicações mecânicas do cateter. Quando a administração é feita mediante a conexão em "Y" ao cateter, a solução de medicamento entra em contato com a mistura de NP por um curto período, e por isso os processos químicos que levam à perda de estabilidade do medicamento podem não ser significativos. A limitação ocorre em virtude de fenômenos físicos que afetam alguns componentes da mistura, por exemplo a instabilidade da emulsão lipídica, causada por tetraciclinas com vitamina C, e a precipitação de sais de fosfato-cálcio por ampicilina, cefradina, cefamandole, cefalotina e aminofilina. Em alguns casos, devido à instabilidade dos fármacos, é conveniente utilizar outros sistemas de administração de medicamentos, como por exemplo a implantação de cateteres multilúmen ou então utilizar outra via para administrar os fármacos. As misturas de nutrição parenteral são sistemas complexos, instáveis do ponto de vista termodinâmico e formados por cerca de 50 compostos químicos. Os medicamentos de administração endovenosa exigem condições especiais para conservar sua estabilidade, compatibilidade e atividade terapêutica. As limitações para se adicionarem medicamentos às misturas de nutrição parenteral baseiam-se nos seguintes critérios: Farmacocinéticos: é necessário que o medicamento possa ser administrado por infusão IV contínua e que os níveis plasmáticos constantes tenham utilidade terapêutica e não produzam efeitos adversos. Físico-químicos: o medicamento e os nutrientes devem permanecer estáveis na mistura resultante e não deve haver interações entre eles. As soluções de NP para recém- nascidos e crianças devem ser preparadas cuidadosamente, já que complicações como a contaminação por alumínio e a utilização de complexos vitamínicos adequados para adultos podem ter efeitos adversos e resultados catastróficos (Feferbaum e Merola, 2001). A adição de medicamentos à NP está contraindicada quando as reações adversas aos medicamentos estão relacionadas a níveis plasméticos constantes; são fármacos cujas doses requerem constante avaliação em função da resposta clinica; são drogas indicadas em caráter de urgência. 4. Indicações e Vias de Acesso da Nutrição Parenteral no Recém Nascido O suporte nutricional parenteral no recém- nascido (RN) pode ser de grande auxílio na profilaxia e no tratamento da desnutrição aguda que pode acometer este grupo de pacientes, principalmente nas situações do recém- nascido pré-termo gravemente doente. A desnutrição nesta fase da vida, leva ao retardo de crescimento, que pode ser prejudicial ao desenvolvimento do sistema nervoso central. A alta incidência de doenças respiratórias, capacidade gástrica reduzida e a hipomotilidade intestinal dificultam a administração de maiores volumes através do trato gastrintestinal. O tipo de terapia nutricional parenteral pode sofrer restrições quanto à qualidade e quantidade dos nutrientes ofertados. Por exemplo, na doença pulmonar causada pela doença da membrana hialina ou bronco displasia pulmonar, freqüentemente, há necessidade de restrição de líquidos. Assim sendo, em várias situações no recém- nascido, a maioria das necessidades nutricionais podem ser satisfeitas por períodos prolongados apenas pela via parenteral. As formulações para a terapia nutricional parenteral devem atender as necessidades nutricionais e metabólicas individuais estimadas para cada recém-nascido. As quantidades de nutrientes podem variar dependendo da função orgânica, do metabolismo e da velocidade de crescimento (Delgado, 2005). 4.a. Indicações e vias de administração A terapia nutricional parenteral exclusiva ou mista está indicada para o recém-nascido que não obtém a adequação de suas necessidades metabólicas através do trato gastrintestinal. A própria imaturidade do sistema digestivo e o conseqüente retardo do esvaziamento gástrico, incompetência do esfíncter gastroesofágico e incoordenação da motilidade intestinal contribuem de maneira importante, impossibilitando o fornecimento adequado de nutrientes por via enteral. Assim, condições diversas como prematuridade, ventilação mecânica, enterocolite necrosante e exclusões do trato gastrintestinal devido às anomalias congênitas fazem com que a terapia nutricional parenteral seja um dos procedimentos mais utilizados em terapia intensiva neonatal. A NP também pode ser utilizada na sepse, em alguns casos de erros inatos de metabolismo (como por exemplo na doença de xarope de Bordo). A NP pode ser administrada para recém-nascidos através de veias periféricas ou catéter central em veia calibrosa. A via periférica está indicada para os recém- nascidos que vão utilizá-la por período relativamente curto (10-14dias). A concentração de glicose nas soluções parenterais utilizadas por via periférica deve limitar-se a 12.5% pelo risco de esclerose venosa e lesões cutâneas. A NP periférica, em combinação com as soluções de lípides, pode ofertar 60-80 kcal/kg/dia, atenuando significativamente as perdas nitrogenadas. A NP, administrada através de cateter venosos em veia de grosso calibre, está mais indicada para os recém- nascidos com falta de acesso venoso, aumento das necessidades calóricas ou que necessitem de restrição hídrica, e especialmente, quando utilizada por período superior a duas semanas. Há preferência pelos cateteres de silicone ou poliuretano. Os cateteres centrais de inserção periférica (PICC) são inseridos no ou acima do espaço anticubital do braço e com a extremidade localizada, preferencialmente, no terço inferior da veia cava superior, 3 a 4cm acima da junção desta com o átrio direito. A taxa de complicações do PICC é significativamente menor, inclusive na utilização a longo prazo. As contraindicações de uso incluem dermatite, celulite, queimaduras no local de inserção ou nas proximidades ou trombose venosa prévia ipsilateral. Estes cateteres devem ser instalados com técnica totalmente asséptica. A incidência de complicações com o PICC é baixa para infecções, trombose venosa central e mau posicionamento. O custo destes cateteres ainda é elevado. Quando há impossibilidade de uso de cateter por punção percutânea poderá ser realizada a dissecção venosa com técnica de tunelização. Os cateteres umbilicais têm maiores risco de infecção, devendo ser evitados. A via central também é preferencial nos recém- nascidos que necessitam de NP domiciliar (Delgado, 2005). 5. Preparo, Compatibilidade e Contaminantes das Soluções Parenterais de Uso Pediátrico As soluções parenterais devem ser formuladas em farmácias especializadas segundo as técnicas de assepsia determinadas pela legislação em vigor (portaria n0 272, de 8 de abril de 1998, da Secretária de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde) objetivando-se melhor padronização e facilidade de manuseio. As soluções devem ser preparadas seguindo protocolos previamente estabelecidos, com base em padrões técnicos de compatibilidade, estabilidade, esterilidade e identificação (Szczupzk, 2005). Para o preparo das soluções de terapia nutricional recomenda-se: 1) A adição de componentes compatíveis; 2) O estabelecimento de políticas e procedimentos para a adição de medicamentos e/ou outros nutrientes; 3) A elaboração de protocolos que definam quantidades máximas e mínimas de cada nutriente; 4) A aprovação de um profissional de saúde que tenha conhecimentos sobre compatibilidades físico-químicas e interações fármaco- fármaco e procedimentos estabelecidas; 5) O acondicionamento em recipientes compatíveis que garantam a manutenção da esterilidade e estabilidade, permitindo a inspeção visual durante o preparo, o armazenamento e a administração; 6) A descrição no rótulo de todas as adições realizadas; 7) Rotulação com identificação do paciente, composição, velocidade de infusão, data e horário de validade e informações sobre a administração; 8) O armazenamento sob refrigeração (temperatura entre 20C e 80C); i) evitar a adição de medicamentos e/ou outros nutrientes à solução parenteral posteriormente à preparação inicial, pois agrega riscos à sua esterilidade e estabilidade (Szczupzk, 2005) A esterilidade da nutrição parenteral durante a manipulação, armazenamento e administração são necessária para reduzir o risco de infecção e complicações. O crescimento microbiano é um fator preocupante no uso de terapia nutricional parenteral. Os microorganismos mais comumente isolados são os dos gêneros Staphylococcus, Streptococcus e Candida. O risco de crescimento microbiano na solução parenteral vai depender de variáveis como: a fonte de nitrogênio utilizada, a concentração de glicose, a presença ou não de lipídeos, vitaminas, albumina, pH e osmolaridade final do produto. Para a manutenção de estabilidade físico-química fatores como concentração, temperatura, pH e tempo de exposição da nutrição parenteral podem afetar a compatibilidade entre os seus componentes (Szczupzk, 2005). As emulsões lipídicas parecem ser os componentes mais frágeis das soluções parenterais. Estas emulsões são compostas de gotas de óleo dispersas na fase aquosa. Para prevenir que as duas fases ( água e óleo ) se separem, um agente fosfolipídio emulsificante, a lecitina, é utilizado para estabilizar a mistura. O emulsificante atua como uma barreira mecânica e eletrostática que impede que as barreiras lipídicas se agreguem. O emulsificante mantém uma superfície com cargas negativas ( aniônica ) que é susceptível a neutralização por cátions. São estas cargas negativas que produzem as forças repulsivas necessárias para manter as gotas de óleo dispersas. A alteração na estabilidade ocorre pela adição de altas concentrações de cátions divalentes, como o cálcio e o magnésio, e pela diminuição do pH, causando decréscimo do potencial de superfície nas partículas de gordura com redução das forças repulsivas necessárias para a prevenção da agregação. A solução de glicose normalmente é ácida e não deve ser adicionada diretamente à emulsão de lipídeos pois altera a integridade da emulsão (Szczupzk, 2005). A maioria dos aminoácidos funciona como tampão e portanto como protetor da integridade da emulsão. A adição de sais de bicarbona to à nutrição parenteral pode resultar na formação de gás dióxido de carbono e de carbonatos de cálcio e magnésio insolúveis. Em decorrência, é mais recomendável a utilização de sais precursores de bicarbonatos, como o acetato. Os íons de cálcio e fosfato podem ser incompatíveis em solução, formando precipitados insolúveis de fosfato de cálcio. Conciliar as necessidades nutricionais de cálcio e fosfato a compatilibilidade dos dois íons em uma solução de volume restrito é uma dificuldade, particularmente importante nas preparações neonatais (Szczupzk, 2005). Alguns fatores influenciam na precipitação entre o cálcio e o fosfato: 1) pH: a solubilidade do fosfato de cálcio é dependente do pH. O fosfato de cálcio dibásico é muito insolúvel, enquanto o fosfato de cálcio monobásico é relativamente solúvel. Em pH baixo predomina a forma monobásica solúvel; mas a medida em que aumenta o pH, aumenta a disponibilidade de fosfato dibásico para se ligar ao cálcio e precipitar. Portanto quanto menor o pH da nutrição parenteral, mais cálcio e fosfato podem ser solubilizados; 2) Presença de aminoácidos: os aminoácidos favorecem a estabilidade por não permitirem variações de pH e por formar complexos solúveis tanto com o cálcio como com o fosfato, diminuindo assim a concentração livre destes íons. Então, quanto maior for a concentração de aminoácidos, menor o risco de ocorrer precipitação; 3) Temperatura: o aumento da temperatura diminui a formação de complexos solúveis dos aminoácidos com os íons de cálcio e fosfato, favorecendo a precipitação. Quanto maior for a temperatura, mais íons cálcio se tornam disponíveis e mais fosfato de cálcio dibásico se forma. Desta maneira, uma nutrição parenteral que permanece límpida, sem precipitados por duas semanas na geladeira, pode precipitar em 4-6 horas à temperatura ambiente. E a 37°C a precipitação ocorre em apenas uma hora; 4) Fontes de cálcio: o uso de gluconato de cálcio diminui sensivelmente a precipitação do fosfato de cálcio quando comparado ao uso de cloreto de cálcio, devido à menor liberação do cátion para a solução; 5) Tempo de estocagem: quanto maior o tempo de estocagem, maior o risco de ocorrer precipitação devido às alterações provocadas pela ação da luz, altas temperaturas, etc.; 6) Ordem de mistura: deve-se evitar o contato entre os íons cálcio e fosfato em soluções concentradas. Se a solução de fosfato é adicionada primeiro e a solução de cálcio bem depois, consegue-se aumentar substancialmente as quantidades de cálcio e fosfato misturados sem precipitação. Os fatores que exercem uma influência crucial sobre a estabilidade das soluções parenterais pediátricas (3 em 1) são: pH (ótimo entre 5,5 e 6,0), produto Ca x Pi < 72 mmol2/L2 e a seqüência de mistura dos componentes (Szczupzk, 2005). Número da Solução Componentes #1 Aminosynâ #2 #3 #4 #5 #6 2% 1% FreAmine IIIâ 4% 2% 1% 1% Glicose 20% 10% 25% 20% 10% 10% PH 5,1 5,4 6,3 6,4 6,6 7,0a a - Ajustado com hidróxido de sódio A compatibilidade de cálcio e fosfato foi avaliada em várias soluções parenterais para recém-nascidos. Foram utilizados gluconato de cálcio 10% e fosfato de potássio para se alcançar concentrações de 2,5-100 mEq/L de cálcio e 2,5-100 mM/L de fósforo. As amostras foram estocadas a 25 °C por 18 horas e depois de examinadas, foram aquecidas a 37°C por 30 minutos (Szczupzk, 2005). Fósforo (mg/100mL) Cálcio Aminoácidos 1,25% + Glicose Aminoácidos 2,5% + Glicose (mg/100mL) 5%a 10%a 200 50 75 150 50 100 100 75 100 50 100 125 25 150b 150b a Com polivitamínicos e microelementos b Concentração máxima testada Também foram mostradas as concentrações máximas de cálcio (na forma de gluconato) e fósforo ( na forma de fosfato de potássio) fisicamente compatíveis por 48 horas a 4°C em duas formulações específicas. Porém estas quantidades não são válidas para formulações com concentrações de aminoácidos e glicose diferentes, com outros componentes, ou valores de pH muito diferentes. Mesmo que a precipitação não ocorra no frasco, foi descrito que a cristalização de fosfato de cálcio pode ocorrer no equipo da bomba de infusão se a velocidade de infusão for muito pequena, como ocorre para muitos recém- nascidos. Infelizmente não existe uma fórmula que garanta a compatibilidade entre estes dois íons na nutrição parenteral. Cada prescrição deve ser avaliada individua lmente e a utilização destas normas pode nortear a análise das diversas variáveis acima descritas, com o intuito de auxiliar na previsão do risco potencial de precipitação (Szczupzk, 2005). Algumas alternativas são sabidamente úteis para diminuir o risco de precipitação: 1) Aumento da concentração de aminoácidos; 2) Aumento da concentração de glicose; 3) Diminuição do pH; 4) Alteração da ordem de adição dos componentes na preparação. No caso destes artifícios não serem suficientes, a concentração de cálcio e fósforo deve ser diminuída. Uma alternativa para se atender às prescrições neonatais, que necessitem de grandes concentrações de cálcio e fósforo, é a utilização do fósforo orgânico (glicerofosfato de cálcio ou D- frutose-1,6-difosfato de sódio ou glicose-1-fosfato de sódio). São substratos orgânicos que servem como fonte dos dois elementos e não ocasiona precipitação quando utilizados nas concentrações que atendem às necessidades dos neonatos. Estudos in vitro mostram uma maior solubilidade dos fosfatos de cálcio orgânicos. Estudos in vivo indicam que a administração de doses equimolares de cálcio e de fósforo na forma de substratos orgânicos é tão efetiva quanto às doses convencionais de sais inorgânicos nos neonatos em terapia de nutrição parenteral, quer na retenção dos minerais ou na manutenção de seus níveis bioquímicos (Szczupzk, 2005). Temperatura e tempo são fatores importantes na estabilidade físico-química das nutrições parenterais. Elas não devem permanecer mais de vinte e quatro horas em temperatura ambie nte, e quando armazenadas devem ficar sob refrigeração e protegidas da luz. A determinação do prazo de validade pode ser baseada em informações de avaliações da estabilidade físico-química dos componentes e considerações sobre a esterilidade, ou através da realização de testes de estabilidade. Vitaminas são susceptíveis à degradação pela luz e às reações químicas e devido a este fato é melhor que elas sejam adicionadas à nutrição parenteral imediatamente antes da infusão (Szczupzk, 2005). Quanto aos contaminantes químicos existem evidências de que as soluções parenterais, em alguns casos, contêm quantidades significantes . Eles se originam dos vários substratos, aditivos e materiais plásticos utilizados no preparo das soluções. Altas concentrações de alumínio têm sido encontradas em ossos, urina e plasma de crianças recebendo terapia intravenosa. O alumínio é o principal metal contaminante identificado e que pode causar efeitos tóxicos quando presente nas nutrições parenterais. Os sais de cálcio, fosfatos e microelementos são as principais fontes deste metal. No entanto, as soluções de aminoácidos também podem conter alumínio. Os neonatos prematuros são particularmente de alto risco para a toxicidade do alumínio porque necessitam de grandes quantidades de cálcio e fosfato e ainda apresentam função renal imatura. Diversos estudos demonstram que as soluções parenterais contêm quantidades de alumínio acima da dose considerada segura ( ~2mg.Kg-1.d-1 ). As implicações clínicas da exposição excessiva ao alumínio, incluem o risco de alterações neuromotoras, encefalopatia, osteomalácia e anemia. A questão sugere a necessidade de novos produtos injetáveis de cálcio e fosfato, livres de alumínio, para utilização em terapia de nutrição parenteral e destaca a importância da informação do conteúdo de alumínio nos rótulos dos produtos utilizados como substratos nas soluções parenterais. Outros metais como zinco, cromo, manganês, cobalto e boro também têm sido isolados em soluções parenterais. As principais fontes destes contaminantes são os aditivos de pequeno volume, em particular os eletrólitos. Porém as soluções de aminoácidos também podem contribuir para esta contaminação. Especificações devem ser estabelecidas para o controle dos níveis máximos permitidos para estes contaminantes. A oferta de aditivos com um nível reduzido e conhecido destes metais potencialmente perigosos é então, prioridade e necessidade a serem reconhecidas pelas autoridades regulamentadoras (Szczupzk, 2005). 6. Necessidades Nutricionais na Nutrição Parenteral em Neonatologia 6.a. Necessidades energéticas Os recém-nascidos utilizando NP têm necessidades energéticas menores que aqueles com nutrição enteral, devido as menores perdas intestinais, exclusão de processos de digestão, absorção e da ação dinâmico-específica dos alimentos. A oferta de 60 kcal/kg não protéicas, associada à infusão adequada de aminoácidos, pode suprir as necessidades metabólicas em repouso. Há crescimento e ganho ponderal, em geral, quando a oferta calórica é superior a 80 kcal/kg e de aminoácidos entre 2.5-3.0g/kg/dia. A oferta predominante de substrato energético é feita através da administração de carboidrato. Contudo, principalmente nas primeiras semanas de vida a incidência de hiperglicemia é significativamente maior. Esta hiperglicemia durante os primeiros dias de vida é secundária, predominantemente, a uma resistência periférica à insulina do que potencial diminuição da secreção da mesma (Feferbaum; Figueiredo, 2005). 6.b. Necessidades de Aminoácidos As soluções de aminoácidos cristalinos desenvolvidas para recém- nascidos têm como objetivo assemelhar-se ao aminograma plasmático de crianças alimentadas com leite humano ou o perfil de aminoácidos encontrados no cordão umbilical. As soluções de aminoácidos devem conter todos os aminoácidos essenciais e não essenciais. Entretanto para o recém-nascido pré-termo (RNPT), alguns aminoácidos são condicionalmente essenciais como a cisteína (dose mínima: 100 mg/kg/dia), taurina e tirosina. Recomenda-se para o RNPT aumento da concentração dos aminoácidos de cadeia ramificada e diminuição da glicina, metionina e fenilalanina. As soluções assim fornecidas, permitem melhor retenção nitrogenada e poucas complicações metabólicas (tabela 1). Uma retenção de nitrogênio de aproximadamente 300mg/kg/dia (semelhante a que ocorre intra-útero) pode ser obtida com oferta de aminoácidos de 2 a 3g/kg/dia. No entanto, para ocorrer eventual anabolismo, é necessária uma oferta calórica não protéica estimada entre 60-80 kcal/kg/dia, perfazendo relação nitrogênio/calorias não protéicas ao redor de 1/2002 (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Inicia-se a infusão de aminoácidos a partir do 2o dia de vida (RNPT toleram 1g/kg/dia), aumentando-se 0.5 g/kg/dia e, atingindo-se o máximo de 3 g/kg/dia (vide tabela 1a). A recomendação citada reduz complicações metabólicas como acidose hiperclorêmica (minimizada pela adição de acetato de sódio no lugar de cloreto de sódio), hiperamonemia e aumento da concentração de alguns aminoácidos, potencialmente neurotóxicos9,20. No entanto Thureen, 2001( comunicação pessoal) indica para o RNPT 3g/Kg/dia já no 2O dia de vida, o que determinaria balanço protéico positivo precoce e melhor controle da glicemia; no entanto, mais estudos se fazem necessários para adotar esta conduta (Feferbaum; Figueiredo, 2005). A glutamina parece ser um importante aminoácido para a manutenção trófica de grande número de células da mucosa intestinal. Nas soluções comuns de aminoácidos, a glutamina é instável em solução aquosa e sua oferta pode ser dificultosa. Os benefícios da glutamina no recém-nascido de muito baixo peso tem sido citados desde o início da década de 90 como: diminuição de aquisição de sepse nosocomial, diminuição da ativação das subpopulações de células T (menor translocação bacteriana), melhora na tolerância de terapia nutricional enteral, alteração do perfil plasmático de aminoácidos, redução de custos hospitalares e redução do tempo de ventilação mecânica. Entretanto, a oferta parenteral adicional de glutamina, através de soluções especiais, ainda não tem benefícios comprovados através de estudos bem controlados e de grande casuística (Feferbaum; Figueiredo, 2005). a - Recomendação diária de aminoácidos (AA) Dias de Vida Oferta de AA (g/kg/dia) 1 1-3 3-7 >7 RNPT 0 1.0 1.5-2.0 até 3.0 RNT 1.0 2.0 até 3.0 0 RNPT: recém- nascido pré-termo; RNT: recém- nascido de termo 6.c. Hidratos de carbono A glicose (3.4 kcal/g) é a principal fonte de energia da NP. A produção inadequada de insulina e a imaturidade hepática (glicogenólise prejudicada), especialmente no RNPT, freqüentemente ocasionam intolerância à glicose (glicemia > 125mg/dL). Evita-se a hiperglicemia mantendo-se a velocidade de infusão de glicose (VIG) entre 5-7 mg/kg/minuto. Se necessário, aumenta-se a VIG até os valores glicêmicos desejados com incrementos de até 1-2mg/kg/minuto. O uso de insulina exógena como terapêutica da hiperglicemia em recém- nascidos é de difícil controle, ocasionando com freqüência episódios de hipoglicemia (Feferbaum; Figueiredo, 2005). 6.d. Lipídios As emulsões intravenosas de lípides fornecem ao recém- nascido os ácidos graxos essenciais, sendo importante fonte de energia concentrada (1g = 9 kcal). As emulsões lipídicas são praticamente isosmolares ao plasma, podendo ser administradas através de veias periféricas. Atualmente, dá-se preferência às soluções a 20%, que têm as vantagens de fornecer mais calorias em menor volume de solução, além de diminuir os níveis de triglicerídeos, fosfolipídeos e colesterol, que se apresentam muito próximos daqueles de recém- nascidos alimentados com leite humano. Esta diferença está relacionada a melhor relação fosfolipídeos/triglicerídeos das emulsões lipídicas a 20%. A oferta inicial das emulsões lipídicas é de 0.5g/kg/dia e o incremento diário são da mesma ordem, atingindo-se o máximo de 2.5-3.0g/kg/dia. Adicionamos o lipídeo na solução de aminoácidos, glicose e cristalóides (soluções 3 em 1), tendo o cuidado de não ultrapassar concentrações de glicose superiores a 12.5%, utilizando a solução até 24 horas após o seu preparo. Os recém- nascidos pré-termo, especialmente os pequenos para a idade gestacional, têm maior dificuldade na hidrólise de lipídios pela deficiência das enzimas lipolíticas: lipase lipoprotéica (LPL) e colesterol ACR transferase. Recomenda-se velocidade de infusão de lipídios não superior a 0.15g/kg/hora para evitar hipertrigliceridemia (> 250mg/dL). Os recém- nascidos pré-termo que têm níveis de bilirrubina superiores a 50% daqueles que indicariam exsangüíneotransfusão devem manter infusão de lipídios limitada a 0.5-1.0g/kg/dia, objetivando-se somente a prevenção da deficiência de ácidos graxos essenciais. A utilização de heparina para aumentar a atividade da lipase lipoprotéica é controversa. Os riscos potenciais do excesso de lípides incluem depósito de gordura no sistema reticuloendotelial, com conseqüente comprometimento da sua função, além de plaquetopenia e diminuição da capacidade de difusão do oxigênio em território pulmonar (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Novas soluções lipídicas tem sido utilizadas, havendo pouca experiência no período neonatal. As emulsões que misturam triglicérides de cadeia longa e média parecem ser um combustível mais eficiente, com menor dependência da função hepática e menor ação depressora no sistema imune (seria mais vantajosa em pacientes com sepse grave, por exemplo). Os lipídios estruturados são potencialmente uma alternativa futura às misturas de triglicérides de cadeia média e longa. Os lipídios estruturados são emulsões com triglicérides de cadeia média e longa que sofreram interesterificação para criar uma molécula mista. Outras perspectivas futuras incluem as emulsões contendo óleo de oliva e óleo de peixe (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Composição das soluções de lipídios (Intralipidal) 10% (100 mL) 20% (100 mL) Óleo de Soja 10g 20g Fosfolipídeos (ovo) 1.2g 1.2g Glicerol 22.5mg 22.5mg Calorias 55 kcal 110 kcal 6.e. Água , eletrólitos e minerais As necessidades hídricas dos recém- nascidos são variáveis, dependendo da idade gestacional e pós-conceptual e das condições clínicas associadas. Como exemplo, os recém-nascidos submetidos à fototerapia ou mantidos em berços de calor radiante têm necessidades hídricas aumentadas em 20 mL/kg/dia; aqueles que estão em ventilação mecânica ou com ducto arterioso patente necessitam de restrição hídrica. O volume de líquidos ofertado poderá ser utilizado conforme exposto na tabela 3, sempre ajustado às necessidades do recém- nascido. Deve-se avaliar o seu estado de hidratação através dos dados clínicos, da variação do peso, do volume e densidade urinária, da dosagem do sódio sérico ou urinário e osmolaridade plasmática (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Necessidades hídricas do recém-nascido no primeiro mês de vida RN (Peso em gramas) 1-2 dias (mL/kg/dia) 3 dias (mL/kg/dia) 15-30 dias (mL/kg/dia) 750-1000 105 140 150 1001-1250 100 130 140 1251-1500 90 120 130 1501-1700 80 110 130 1701-2000 80 110 130 RNT 70 80 100 As necessidades de eletrólitos estão demonstradas . O sódio deverá ser acrescentado a partir do 2o dia de vida; evolutivamente os RNPT de muito baixo peso poderão exigir maiores aporte de sódio, em função da perda urinária aumentada devido à imaturidade renal. O excesso de cloreto pode ocasionar acidose metabólica hiperclorêmica. As soluções de aminoácidos não tamponadas contendo aminoácidos catiônicos podem conter excesso de cloretos. Neste caso, deve-se substituir o sódio na forma de cloreto de sódio para acetato de sódio a 10% (1mL = 1.6 mEq de Sódio) (Feferbaum; Figueiredo, 2005). O potássio (K+) é importante no metabolismo da glicose e na síntese do glicogênio. A melhor razão intracelular para a síntese protéica é a relação 3,5/1 - K+/N2. . O catabolismo protéico também contribui com perda de 3mEq de K+ por grama de balanço nitrogenado negativo. Adiciona-se K+ a partir do 20º dia de vida, na dose de 23 mEq/kg/d. O balanço negativo de potássio nos RNPT é conseqüente ao aumento da aldosterona, síntese aumentada de prostaglandinas e aumento do débito urinário com ou sem glicosúria (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Recomendação diária de sódio, potássio e cloro para os recém- nascidos 1o Dia de 1o - 3o Dia de 3o- 5o Dia de > 7o Dia de Vida Vida Vida Vida Sódio (mEq/kg/dia) RNPT 0 2 3 3-5 RNT 0 2 4 3 Potássio RNPT 0 0 2.5 2.5 (mEq/kg/dia) RNT 0 0 2.5 3-5 Cloro (mEq/kg/dia) RNPT 0 2 3 3-5 RNT 0 2 3 3 O magnésio é utilizado na dose de 0,5 mEq/kg/dia sob a forma de sulfato de magnésio. O nível sérico deve ser monitorizado, pois o excesso é tóxico, devendo ser utilizado com cuidado na insuficiência renal e em pacientes que utilizam digitálicos (pode levar a bloqueio) (Feferbaum; Figueiredo, 2005). O cálcio, o fósforo e o magnésio devem estar presentes na NP do RN (Tabela 5), dandose preferência atualmente, quando disponíveis, às formulações de fósforo orgânico (glicero-fosfato de cálcio) devido ao fato de que formulações contendo sais de cálcio e fósforo podem precipitar. A solubilidade do cálcio e do fósforo na solução parenteral depende das proporções da concentração de ambos, pH, temperatura e concentração de aminoácidos. Devido às limitadas doses de cálcio e fósforo, os RNPT exclusivamente em terapia nutricional parenteral podem desenvolver osteopenia e raquitismo. Quanto à relação cálcio/fósforo nos RNPT a solubilidade do fosfato e do cálcio é fator crítico e limitante, podendo ocorrer precipitação e ocasionar embolia pulmonar e óbito. Se o produto da concentração do cálcio e do fosfato for menor que o produto de solubilidade de ambos, o risco de precipitação é menor, embora outros fatores como o pH tenham papel importante na solubilidade. Cálcio mEq/l x fosfato mEq/l < 300 ou Cálcio mEq/l x fosfato mM/l < 150 Estima-se que se utilizando a relação de peso Ca/P de 1,7/1,0 com a dose máxima de 76 mg/kg/dia de cálcio consiga-se alcançar apenas 57% da taxa de incorporação óssea intra uterina. mg Ca/kg/dia = 9,4 x ml/kg/dia de gluconato de cálcio mg P/kg/dia = 21 x ml/kg/dia de fósforo Quanto ao pH da solução, quanto mais ácida, maior a solubilidade e maiores quantidades de cálcio e fósforo podem ser adicionadas; o conteúdo de ânions, em especial aminoácidos, tende a baixar o pH da solução, situação mais favorável à adição do cálcio e fósforo. A adição de cisteína nas fórmulas (30mg/por grama de aminoácidos) aumenta significativamente a solubilidade do cálcio e do fósforo. O sal de cálcio mais utilizado é o gluconato, por ter menor reatividade; deve ser adicionado por último na mistura de nutrientes encontrando o fosfato já totalmente diluído. (1 ml de gluconato de cálcio 10% = 0,47 mEq Ca++ = 9,4 mg de cálcio elementar). Como relatado anteriormente, o fosfato orgânico ou glicerofosfato ou G-1P, quando disponível, tem maior solubilidade e permite maiores adições de cálcio com misturas estáveis por até 7 dias sem precipitações (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Recomendações diárias de cálcio, fósforo e magnésio Nutriente (mmol/kg/dia) RN Pré-Termo RN de Termo Cálcio 1.5 1.5 Fósforo 1.8 1.8 Magnésio 0.5 0.25 6.f. Micronutrientes Os micronutrientes são metais que fazem parte do núcleo das chamadas metaloenzimas. A deficiência desses elementos pode estar presente especialmente no RNPT durante a NP. A deficiência de zinco ocasiona um quadro semelhante à acrodermatite enteropática, devendo suplementar-se este elemento na dose de 400mcg/kg/dia para todos os RNPT. Se o jejum prolongar-se por mais de duas semanas, outros micronutrientes devem ser adicionados, tais como cobre (20mcg/kg/dia), manganês (1mcg/kg/dia), selênio (2mcg/kg/dia), cromo (0.2mcg/kg/dia), molibdênio (0.25mcg/kg/dia) e iodo (1mcg/kg/dia). O cobre e o manganês devem ser reduzidos em crianças com icterícia colestática ou disfunção hepática. O selênio, cromo e o molibdênio devem ser reduzidos em crianças com insuficiência renal. Não há doses estabelecidas para suplementação de flúor (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Os pacientes que recebem nutrição parenteral por tempo prolongado podem acumular alumínio, principalmente se houver insuficiência renal, com possível aparecimento de osteomalácia e encefalopatia (Feferbaum; Figueiredo, 2005). 6.g. Vitaminas Não há fórmula ideal de polivitamínicos para recém- nascidos em nosso meio. Utilizamos preparado comercial polivitamínico (Polivit Aâ e Bâ). As necessidades diárias e a composição dos complexos vitamínicos estão demonstradas na tabela 6. Níveis adequados de vitamina E, vitamina A e vitamina C são considerados importantes na estabilização de ácidos graxos polinssaturados das membranas celulares, diminuindo a gravidade de eventuais lesões pulmonares. As vitaminas são fornecidas em soluções multivitamínicas, que são adicionadas à solução parenteral. As doses enterais recomendadas servem apenas como base, já que as soluções intravenosas podem sofrer influências em relação ao recipiente utilizado e à fotodegradação (Feferbaum; Figueiredo, 2005). As vitaminas hidrossolúveis compreendem a vitamina C e as do complexo B. As quantidades dessas vitaminas, por via intravenosa, devem ser maiores do que as ofertadas por via enteral, pois uma grande parte é excretada pelos rins. Elas são habitualmente adicionadas à NP em quantidades três vezes maiores do que as doses orais (Feferbaum; Figueiredo, 2005). As vitaminas lipossolúveis compreendem as vitaminas A, D, E e K. Essas vitaminas, quando ofertadas em excesso, podem acumular-se no organismo, com risco de provocarem intoxicações (Feferbaum; Figueiredo, 2005). As soluções de vitaminas não contêm a vitamina K. Esta deve ser ofertada, semanalmente, na dose de 1mg, por via intramuscular (Feferbaum; Figueiredo, 2005). Recomendação diária das vitaminas Necessidade/dia Polivit A-Pedâ Polivit B - Pedâ Vitamina A 280-500mg 460mg Vitamina D 40-160 UI 80 UI Vitamina E 2-4 UI 1.4 UI Vitamina B1 0.3-0.8mg 0.24 mg Vitamina B2 0.4-0.9mg 0.28mg Vitamina B3 Não determinada 3.4mg Vitamina B5 2mg 1mg Vitamina B6 0.3-0.7mg 0.2mg Vitamina C 16mg 35-50mg Vitamina B7 6-13mcg 4mcg Ácido Fólico 40-60mcg 28mcg Vitamina B12 `0.3-0.7mcg 0.2mcg 7. Aspectos Clínicos e Farmacêuticos Relacionados à Suplementação de Cálcio e Fósforo em Nutrição Parenteral Neonatal Os grandes avanços nas técnicas médicas e cirúrgicas e o desenvolvimento de novos medicamentos na área de neonatologia permitiram que nascimentos prematuros e enfermidades congênitas ou adquiridas de pacientes pediátricos obtivessem melhores prognósticos. O uso de nutrições parenterais culminou em uma redução da mortalidade entre os infantes gravemente doentes. Diferentemente da população adulta, as reservas de nutrientes endógenos são limitadas na população pediátrica e podem ser rapidamente extintas com os estresses metabólicos oriundos de procedimentos cirúrgicos e doenças. As necessidades eletrolíticas do paciente neonatal também apresentam particularidades, tendo influência multifatorial. No recém- nascido, a função imatura dos rins pode resultar em excesso de perdas de água e sódio durante os primeiros dias de vida. Outras condições como diarréia, vômitos ou terapias medicamentosas podem resultar em maiores perdas de potássio e magnésio. As exigências em cálcio e fósforo também são maiores no neonato, devido a um rápido desenvolvimento do esqueleto. Dessa maneira, a oferta de cada eletrólito deve ser feita em bases individuais (Marques; Akamine; Filho, 2005). Clinicamente ideal, o objetivo da suplementação de cálcio e fósforo na nutrição parenteral é ofertar quantidades destes micronutrientes que estimulem o metabolismo celular positivamente, resultando em mineralização óssea (Marques; Akamine; Filho, 2005). O protocolo de Nutrição Parenteral do Centro Médico Cedars-Sinai de Los Angeles, Califórnia, preconiza que a relação entre Cálcio e Fósforo deve ser de 1,7 em peso (mg de Ca/mg de P), pois estudos demonstraram que esta é a relação mais próxima às quantidades observadas em meio intra-uterino, permitindo maior retenção dos íons e diminuição da excreção urinária de fósforo, promovendo a mineralização óssea. De acordo com o estudo desenvolvido por Pelegano et al, do Centro Universitário de Connecticut, foram observados 3 grupos de neonatos de baixo peso, cada grupo utilizando uma relação diferente entre cálcio e fósforo: 2:1; 1,7:1 e 1,3:1. Depois de 48 horas de administração, foram medidos os níveis séricos de cálcio, fósforo e fosfatase alcalina e os níveis de retenção destes eletrólitos. A retenção de cálcio foi maior nos grupos onde a relação Ca/P era de 2:1 e 1,7:1, enquanto a maior retenção de fósforo foi observada nos grupos onde a relação era de 1,7:1 e 1,3:1. Desta maneira, o estudo conclui que a relação fisiológica de 1,7:1 entre cálcio e fósforo continua sendo a ideal. No entanto, ao ofertar estes eletrólitos obedecendo a relação fisiológica entre cálcio e fósforo na nutrição parenteral, esbarra-se em um problema farmacotécnico: em altas concentrações, cátions divalentes como o cálcio podem causar precipitação e também desestabilizar a emulsão lipídica. Reconhecidamente, a maior preocupação das nutrições parenterais do tipo 3-em-1 é a instabilidade da emulsão lipídica frente ao uso de altas concentrações de eletrólitos e oligoelementos para neonatos. As emulsões lipídicas são formadas por duas substâncias imiscíveis; uma oleosa na forma de gotículas e outra aquosa, onde estão dispersas as gotículas de óleo. Para que este sistema torne-se estável, acrescenta-se um agente emulsionante (as apresentações comercialmente disponíveis apresentam a lecitina do ovo nesta função), que funciona através de dois mecanismos: 1) Barreira mecânica, ocorre a formação de um filme ao redor de cada glóbulo oleoso, que funciona como uma interface entre as duas fases; 2) Barreira eletrostática, onde os grupos fosfato presentes na lecitina de ovo são ionizados e apresentam cargas negativas. Estas cargas ficam ao redor de cada gotícula, garantindo a repulsão entre elas. O pH determina o estado e o grau de ionização do emulsificante, sendo que a máxima estabilidade da emulsão é atingida numa faixa de pH entre 5 e 10. À medida que se diminui o pH, as cargas elétricas do emulsificante se neutralizam, desaparecendo as forças repulsivas e favorecendo a quebra da emulsão lipídica. A desestabilização ocorre principalmente pela neutralização das cargas elétricas do emulsificante, que perde seu poder de repulsão eletrostática e favorece o agrupamento das gotículas oleosas, levando à coalescência e consequentemente quebra da emulsão. Assim, todo o conteúdo eletrolítico presente em uma nutrição parenteral do tipo 3-em-1 é potencialmente perigoso para a estabilidade da emulsão lipídica do sistema. Cabe assinalar que quanto maior a valência de um cátion livre em solução, maior seu potencial de neutralizar a ação do emulsificante, o que faz dos cátions divalentes (como o cálcio e o magnésio) e dos oligoelementos as substâncias que apresentam perigo real, pois em neonatologia, grandes ofertas de cálcio e oligoelementos são requeridas (Marques; Akamine; Filho, 2005). Sendo a instabilidade multifatorial, há poucas referências bibliográficas quanto à concentração máxima de cálcio que assegure a estabilidade da emulsão lipídica. O fabricante do Intralip 10% e 20% (Kabi-Fresenius) preconiza o uso de até 8 mEq/L de cálcio enquanto outros estudos apontam formação de creaming numa concentração de 7,2 mEq/L de cálcio (Marques; Akamine; Filho, 2005). Outro problema farmacotécnico da adição de grandes doses de cálcio em nutrições parenterais para neonatos é sua reação com fosfato, formando sais insolúveis. O íon fosfato é poliprótido, apresentando várias constantes de dissociação em solução aquosa, sendo que os diferentes sais que se formam com cálcio têm diferentes solubilidades . Assim, o pKa rege a espécie de fosfato na dissolução, de acordo com o pH (Marques; Akamine; Filho, 2005). Do ponto de vista físico-químico, observam-se duas situações de precipitação: 1) Precipitação imediata, claramente visível durante a manipulação da NPT, forma um precipitado amorfo branco, em flocos, cuja estrutura corresponde ao fosfato cálcico - Ca3 (PO4 )2 ; 2) Precipitação mediada pelo tempo, que pode ou não ser visível, e ocorre pela cristalização do fosfato cálcico dibásico - CaHPO4 , que se apresenta como cristais semitransparentes e bem definidos, normalmente aderidos às paredes da bolsa de NPT, mas que também podem se formar na linha de infusão do catéter, obstruindo-o. A precipitação de cálcio e fósforo nas misturas de nutrição parenteral apresenta conseqüências clínicas importantes para o paciente (como embolia pulmonar em neonatos) e não é previsível apenas por simples cálculos, dependendo de múltiplos fatores. Tais fatores podem estar ligados direta ou indiretamente à incorporação destes íons à nutrição parenteral (Marques; Akamine; Filho, 2005). Fatores diretos Fatores indiretos pH Fonte de Cálcio Concentração de Cálcio Fonte de Fósforo Concentração de Fósforo Concentração de Magnésio Concentração final de Aminoácidos Ordem de adição Temperatura e tempo de conservação Temperatura de administração Destes, o pH é o fator mais importante, regulando de forma determinante a compatibilidade de qualquer sistema Ca-P. Assim, todos os fatores que alteram o pH final da mistura vão influir na precipitação. O pH ácido favorece a forma monobásica do fosfato (diidrogeno fosfato), mais solúvel, diminuindo o risco da precipitação, enquanto que em pH=7,4 predomina a forma dibásica, aumentando o risco (Marques; Akamine; Filho, 2005). O segundo fator de maior importância para a precipitação destes íons é a concentração final de cálcio iônico livre, que depende do grau de dissociação do sal de cálcio empregado. Os sais inorgânicos (como o cloreto de cálcio - CaCl2 ) estão mais dissociados que os sais orgânicos (como o gluconato de cálcio). Desta maneira, observa-se que o risco de precipitação está intrinsecamente relacionado ao grau de dissociação dos sais de cálcio e fosfato, sendo que aqueles que se apresentam mais dissociados também apresentam os maiores riscos de formarem precipitados, pois todo íon livre pode complexar-se com outro que estiver presente na mistura final (Marques; Akamine; Filho, 2005). Atualmente, com o intuito de minimizar tais riscos ofertando as quantidades ótimas de cálcio e fósforo e obedecendo à relação fisiológica entre estes íons, os hospitais brasileiros já contam com sais orgânicos de fósforo, como o glicerofosfato dissódico e a glicose 1- fosfato tetrassódica, que entre suas características está o fato de serem totalmente biodisponíveis e não serem dissociáveis, o que praticamente anula o risco de precipitação (Marques; Akamine; Filho, 2005). A composição do Fósforo Orgânico (como glicerofosfato dissódico) disponível no Brasil apresenta: Fósforo 0,33 mMol/mL 10,23 mg/mL Sódio 0,66 mMol/mL 15,33 mg/mL Glicose 0,33 mMol/mL 60,09 mg/mL É importante observar que sua composição não contém potássio, mas apresenta uma quantidade significativa de sódio, que deve ser levado em conta ao se ofertar sódio ao paciente por outra fonte, como cloreto de sódio ou acetato de sódio na NPT. Desta maneira, o Fósforo Orgânico é totalmente compatível com gluconato de cálcio e não apresenta restrição quanto à relação fisiológica entre cálcio e fósforo de 1,7:1, podendo-se atingir uma concentração máxima de cálc io de 8 mEq/L na mistura final (acima desta concentração, misturas parenterais do tipo 3-em-1 sofrem desestabilização da emulsão lipídica pelos cátions divalentes). A oferta de fosfato através da prescrição de Fósforo Orgânico é uma tendência mundial, atingindo o principal objetivo da Terapia Nutricional Parenteral: promover o equilíbrio metabólico através da oferta ideal de macro e micronutrientes, oligoementos e água (Marques; Akamine; Filho, 2005). 8. Relação Cálcio – Fósforo Os recém nascidos têm ma ior necessidade de cálcio e fósforo para adequada mineralização óssea. A solubilidade do fósforo e do cálcio é um fator crítico e limitante, porque pode ocorrer preciptação e levar ao óbito por embolização, principalmente ao nível capilar pulmonar. Se o produto da concentração do cálcio e do fósforo for menor que o produto da solubilidade de ambos, então o risco de preciptação é mínimo, embora outros fatores, como pH, tenham papel importante na solubilidade. Cálcio mEq/L x fosfato mEq/ < 300 ou Cálcio mEq /L x fosfato mEq/ < 150 Estima-se que , utilizando-se a relação de peso Ca/P de 1,7/1,0 com dose de 76 mg/Kg/dia de cálcio, consiga-se alcançar apenas 57% de taxa de incorporarão óssea intra uterina. mg/Ca/Kg/dia = 9,4 x mL/Kg/dia de glutamato de Ca+ 1,7 mg P/Kg/dia = 21 x mL/Kg/dia de fósforo 1 Também considerando-se o pH da solução, quanto mais ácida, maior a solubilidade e maiores quantidades de cálcio e fósforo podem ser adicionados, como o grande responsável pela queda do pH é o conteúdo de ânions, em especial aminoácidos, podemos sugerir que quanto maior a concentração destes na solução, mais favorável é a adição de cálcio e fósforo. O sal de cálcio a ser utilizado deve ser glutamato por ter menor reatividades e deve ser adicionado por último na mistura de nutrientes para encontrar o fosfato já totalmente diluído. O fosfato orgânico ou glicerofosfato ou G-1-P tem maior solubilidade e permite maiores adições de cálcio sendo as misturas estáveis por até sete dias sem precipitações (Feferbaum; Faria, 2001). 9. Compatibilidade entre Medicamentos e Nutrição Parenteral Neonatal A técnica de utilizar apenas um veículo para a administração IV de múltiplos medicamentos reduz consideravelmente o tempo de preparação e administração (42%), o volume total administrado (50%), possíveis infecções e o custo global do tratamento/dia (10-13%), além de facilitar o cumprimento da prescrição médica e diminuir a sobrecarga de trabalho da enfermagem, principalmente em se tratando de UTI. Como o acesso vascular em neonatos é limitado, medicamentos IV muitas vezes são adicionados a fluídos de manutenção, incluindo as nutrições parenterais. O item 5.6.5 da Portaria nº 272 de 08/04/1998, recomenda que a via de acesso à NPT seja exclusiva; salvo em casos extraordinários, quando deve ter o consenso da EMTN (Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional). No entanto, a prática da coadministração em Y de outros medicamentos é corrente em UTI neonatais, uma vez que o paciente grave geralmente apresenta baixo peso (menos de 1500 g), o que complica o acesso venoso. Não há duvidas de que ao se promover tais misturas, estão se alterando todas as características de cada componente, e por isso, é importante conhecer perdas na atividade ou aparecimento de compostos tóxicos. Ainda há poucos estudos que avaliem o grau de compatibilidade entre nutrição parenteral para neonatologia e medicamentos administrados em Y ou aditivados na própria NPT. A maioria dos estudos de compatibilidade entre NPT e medicamentos estão baseados em composições para uso adulto, que diferem das pediátricas principalmente pelo pH da solução final (Marques; Akamine; Filho, 2005). Enquanto as soluções de aminoácidos para uso adulto apresentam uma faixa de pH entre 6,0 e 7,0 em média , as formulações especializadas para uso infantil são mais ácidas, apresentando um pH de 5.5. Isto se deve ao fato das preparações pediátricas mais especializadas existentes no mercado (como o Pediamino TauÒ e PrimeneÒ) apresentarem taurina na composição, aumentando a acidez da solução. A adição de cisteína à NPT neonatal também resulta num abaixamento do pH da solução final. Desta maneira, pode-se delinear os principais fatores condicionantes de estabilidade: Inerentes a seus componentes Inerentes a sua conservação 1. Natureza e concentração do medicamento 5. Temperatura 2. Composição e pH do veículo/NPT 6. Luz solar 3. Perfil de pH / velocidade de degradação 7. Outras radiações 4. Natureza do envase e condicionantes do envase Destes, o fator de maior risco é o perfil de pH, pois este rege o grau de ionização dos componentes na solução parenteral, permitindo que se preveja uma associação potencialmente perigosa do ponto de vista farmacotécnico (Marques; Akamine; Filho, 2005). Vale ressaltar que em toda avaliação da compatibilidade de uma NPT e um medicamento deve-se levar em conta: o perfil de pH do medicamento, o comportamento do medicamento nos inúmeros diluentes (por exemplo, um medicamento pouco estável em soro glicosado, pode apresentar menor estabilidade em NPT), a concentração de íons divalentes (como cálcio e magnésio) na solução, a presença de emulsão lipídica, a concentração final do medicamento na solução; entre outros. Via de regra, soluções do tipo 3-em-1 são sistemas menos estáveis, o que restringe a aditivação de outros componentes à preparação, além de mascarar incompatibilidades. A co-administração em Y também deve ser criteriosamente avaliada, pois no sítio de contato entre a nutrição parenteral e o medicamento, pode ocorrer a formação de precipitados ou quebra da emulsão lipídica, que são potencialmente fatais para pacientes de baixo peso. Com base em três estudos sobre compatibilidade entre nutrição parenteral e medicamentos aditivados ou co-administrados em Y, destacamos alguns com interesse em neonatologia (Marques; Akamine; Filho, 2005). As formulações das NPT avaliadas nos estudos apresentam-se a seguir: Composição Fórmula Fórmula Fórmula Fórmula Fórmula Fórmula Fórmula 15 27 37 45 55 66 76 3% 3,5% 4,25% 4,9% 6% 2%* 3%* Glicose 5% 5% 25% 20% 11% 10% 20% Emulsão 2% -- -- 3,5% 4% -- -- -- -- -- -- -- 20 30 1:6 1:0,7:4 1:0,7:1,8 1:5 1:7 Aminoácidos 10% Lipídica 20% L-Cisteína (mg/100mL) Relação Aa : Gli 1:0,7:1,7 1:1,4 : Lip *Formulações preparadas com solução de aminoácidos totais com taurina 1) Aciclovir : estudou-se a compatibilidade do aciclovir com as fórmulas de números 1 a 7, numa concentração de 7 mg/mL. 2) Foi observada incompatibilidade com formação imediata de precipitado cristalino em todas as formulações. 3) Aminofilina: extensamente utilizada em pediatria, a aminofilina mostrou-se compatível numa concentração de 2,5 mg/mL com as formulações de 1 a 5, que contém aminoácidos totais não especializados em pediatria, isto é, que não contêm taur ina e/ou cisteína. Com as formulações mais especializadas para uso neonatal (Fórmulas 6 e 7), isto é, contendo taurina e cisteína, a aminofilina foi incompatível, ocorrendo turvação imediata do meio quando numa concentração de 5 mg/mL e 25 mg/mL. 4) Ampicilina sódica: não ocorreram alterações físicas na co-administração de nutrição parenteral, com ou sem lipídios (Fórmulas de 1 a 5), numa concentração de 20 mg/mL. No estudo com formulações mais especializadas para neonatologia (Fórmulas 6 e 7), foi observada a incompatibilidade da ampicilina sódica em concentrações de 100 mg/mL e 250 mg/mL, com turvação imediata da solução. 5) Citrato de fentanila: não foram observadas alterações físicas na co-administração de nutrição parenteral, com ou sem lipídios (Fórmulas de 1 a 5) e citrato de fentanila nas concentrações de 0,050 mg/mL e 0,0125 mg/mL. Na concentração de 0,050 mg/mL o citrato de fentanila também mostrou-se compatível com nutrição parenteral neonatal/pediátrica sem lipídios (Fórmulas 6 e 7). 6) Cloridrato de dobutamina: mostrou-se compatível em administração em Y com nutrição parenteral com e sem lipídios (Fórmulas de 1 a 5), a uma concentração de 4 mg/mL, em solução de glicose a 5%. A dobutamina também foi compatível com as formulações números 6 e 7, de caráter mais especializado, numa concentração de 5 mg/mL. 7) Cloridrato de dopamina: mostrou-se compatível com preparações que não apresentavam lipídios (Fórmulas 2 e 3), quando administrado numa concentração de 3,2 mg/mL em soro glicosado a 5%. A administração em Y com nutrição parenteral 3-em-1 (Fórmulas 1, 4 e 5) foi incompatível com precipitação imediata da dopamina e suposta inativação do medicamento. No estudo dirigido ao uso na população neonatal/pediátrica (conteúdo de aminoácidos diferenciado, com menor pH da solução final), a dopamina mostrou-se compatível. Cabe ressaltar que esta preparação não continha lipídios (Fórmulas 6 e 7). 8) Cloridrato de midazolam: não é compatível com administração em Y concomitante a nutrição parenteral, com ou sem lipídios (Fórmulas de 1 a 5), ocorrendo turvação imediata (com suposta inativação do medicamento) e quebra imediata da emulsão lipídica com formação de sobrenadante oleoso. As preparações de midazolam utilizadas para estudo apresentavam uma concentração de 2 mg/mL, em solução de glicose 5%. 9) Cloridrato de vancomicina: mostrou-se compatível com a co-administração em Y concomitante a nutrição parenteral com e sem lipídios (Fórmulas 1 a 5), numa concentração de 10 mg/mL e com formulações altamente especializadas para uso neonatal (Fórmulas 6 e 7) numa concentração de 5 mg/mL. 10) Fenobarbital sódico: foi estudado a uma concentração de 5 mg/mL, em soro glicosado 5%. Quando administrado em Y com nutrições parenterais sem lipídios (Fórmulas 2 e 3), não ocorreu sinais de incompatibilidade física. No entanto, quando administrado concomitante a nutrições parenterais totais isto é, contendo lipídios (Fórmulas 1, 4 e 5), ocorreu quebra imediata da emulsão com separação da camada oleosa na superfície. 11) Fosfato de dexametasona sódica: mostrou-se compatível com as formulações de número 1 a 5 numa concentração de 1 mg/mL em soro glicosado, e também foi compatível com as formulações mais especializadas para uso infantil (Fórmulas 6 e 7) numa concentração de 4 mg/mL. 12) Furosemida: a preparação estudada continha 3 mg/mL de furosemida em solução de glicose 5%. Ocorreu incompatibilidade física da furosemida administrada conjuntamente a nutrições parenterais sem lipídios (Fórmulas 2 e 3), com pequena formação de precipitado após 4 horas de contato, não sendo visível a olho nu. Nenhuma incompatibilidade foi evidenciada no estudo de furosemida e nutrição parenteral com lipídios (Fórmulas 1, 4 e 5). A furosemida mostrou-se compatível com formulações neonatais (conteúdo de aminoácidos e pH final da solução diferenciados) sem lipídios (Fórmulas 6 e 7), numa concentração de 10 mg/mL. 13) Heparina sódica: prática corrente em nutrição parenteral neonatal, a adição heparina sódica à solução é controversa, sendo que alguns estudos demonstram que doses de até 1 UI/mL na concentração final não desestabilizam a emulsão lipídica. Em administração em Y (Fórmulas 1, 4 e 5), a heparina sódica foi estudada numa concentração de 100UI/mL. Não foi observada incompatibilidade física entre a heparina sódica e nutrição parenteral sem lipídios. No entanto, a co-administração com nutrição parenteral do tipo 3-em-1 (Fórmulas 2 e 3) resultou em quebra imediata da emulsão lipídica e formação de filme superficial oleoso. 14) Noradrenalina: estudou-se a compatibilidade do bitartarato de norepinefrina numa concentração de 0,016 mg/mL em solução de glicose 5%. Na coadministração com nutrição parenteral sem lipídios (Fórmulas 2 e 3) não foi observada nenhuma alteração física. A administração em Y com nutrição parenteral total não foram reportadas. 15) Sulfato de tobramicina: numa concentração de 10 mg/mL, o sulfato de tobramicina mostrou-se compatível com nutrição parenteral altamente especializada para neonatologia sem lipídios (Fórmulas 6 e 7). Também foi observada a compatibilidade do sulfato de tobramicina em co-administração com nutrição parenteral do tipo 3-em-1 e sem lipídios (Fórmulas 1 a 5) numa concentração de 5 mg/mL. 16) Zidovudina: foi estudada a uma concentração de 4 mg/mL em soro glicosado 5%, mostrando-se compatível com todas as formulações (Fórmulas de 1 a 7) (Marques; Akamine; Filho, 2005). CONCLUSÃO O farmacêutico é peça fundamental na equipe multiprofissional para a avaliação da compatibilidade entre a formulação de NP e os medicamentos prescritos pelo médico. Diversas vezes pode-se deparar com uma situação na qual a literatura não consta relatos. Neste momento, cabe ao farmacêutico avaliar, através da estrutura química do medicamento em questão, concentração final do mesmo, composição da NP, pH final da NP, entre outras características químicas inerentes à composição, uma possível compatibilidade teórica. Não obstante, quando houver dúvida ou insegurança, o farmacêutico deve estudar outras vias ou técnicas para a administração dos medicamentos via parenteral. Os importantes avanços verificados na Pediatria Neonatal nos últimos 20 anos, permitiram a sobrevivência de crianças antes consideradas inviáveis, por condições clínicas adversas, como a prematuridade extrema, os erros inatos do metabolismo ou mesmo graves más-formações passíveis de correção cirúrgica. O atual aparato tecnológico nas unidades de terapia intensiva neonatais compreendem aparelhos de ventilação microprocessados, incubadoras sofisticadas, monitores sensíveis a diversas variáveis fisiológicas e o uso de drogas potentes no controle hemodinâmico e no restabelecimento da função pulmonar do neonato. No entanto, talvez um dos maiores desafios na terapêutica destas crianças seja o de nutrí- las. A desnutrição aguda, grave, comprometendo de forma notável a função de órgãos e sistemas, aliada à dificuldade de se adequar a melhor estratégia terapêutica nutricional é um dilema diário que a equipe responsável pelo atendimento à criança defronta-se. As conseqüências da desnutrição durante o período neonatal estão relacionadas a curto prazo ao aumento da morbimortalidade e a longo prazo, ao comprometimento do crescimento e desenvolvimento da criança. É correto afirmar-se que métodos artificiais de nutrição, como a parenteral, tiveram avanços notáveis com formulações de aminoácidos, lípides, vitaminas e micronutrientes cada vez mais seguras. As fórmulas de uso enteral, completas para as necessidades de recém- nascidos de diversas idades gestacionais estão disponíveis nas unidades neonatais. Nos últimos anos destaca-se o resgate do leite humano como nutriente fundamental para o recém-nascido gravemente enfermo o que também traz a presença da mãe nas unidades neonatais, promovendo a humanização do atendimento. A importância do leite humano desenvolveu em nosso país o surgimento dos bancos de leite humano, apoiados e regulamentados pelos organismos oficiais. Os meios para nutrir adequadamente o neonato doente parecem estar disponíveis na atualidade. No entanto, ao longo dos anos, presenciamos em nossas visitas diárias na unidade neonatal com médicos em treinamento, nutricionistas, enfermeiras e outros elementos da equipe multiprofissional dificuldades na avaliação, estratégias e prescrição nutricional. A educação e a cultura do cuidado nutricional como base da terapêutica destas crianças nos parece de fundamental importância (Feferbaum; Falcão, 2005). BIBLIOGRAFIA NOVAES, MARIA RITA C.G. Revista Prática Hospitalar. Ano7 nº40. São Paulo: Jul./Ago. 2005 http://www.praticahospitalar.com.br/pratica%2040/pgs/ed%20ant%2 040.html FILHO, M.KFOURI. Imen – Istituto de Metabolismo e Nutrição. 02/11/2005 http://www.nutricaoclinica.com.br/index.php?option=com_content&ta sk=view&id=25&Itemid=1 MAGNONI, DANIEL; CUKIER, CELSO. Imen – Instituto de Metabolismo e nutrição. 02/11/2005 http://www.nutricaoclinica.com.br/index.php?option=com_content&ta sk=view&id=38&Itemid=16 ASHP. 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