PEDRO MALAZARTES E A TRAMOIA DO TESTAMENTO Autor: Júnio Santos PERSONAGENS PEDRO MALAZARTES DONA SANTINHA ( A VIUVA) ANJO* DIABO* JUÍZ TABELIÃO FRADE JOÃO ZÉ PAVÃO ANUNCIANTE 1 ABERTURA Uma procissão fúnebre abre o cortejo. A frente uma rede onde o doente, quase defunto, é conduzido. Atrás a viúva – Dona Santinha - chora em volta a lenços e abanadores. O diabo e um anjo disputam a alma do moribundo. Os atores que fazem o diabo e o anjo podem ser os mesmos que irão fazer o Juiz, o Político, o Frade e o Tabelião no decorrer do espetáculo. CÃNTICO ANGELICAL Nas horas de Deus amém Padre, filho e espírito santo São as primeiras cantigas Que nessa hora eu canto Nossa senhora das dores Nosso senhor do Bom fim Sejam bons condutores Dessa alma tão ruim CÂNTICO DIABÓLICO Meu santo são pituino Minha santinha do oião Persigo desde menino A alma desse cão MALAZARTES Nada de reza miúda Nada de vela na mão Nada de choro safado Desmaio e quedas no chão Nada de falsidade Mentira e estupor Nada de risos safados Nada de falta de amor Pois ta morrendo um artista / Filho de Nosso Senhor 2 TODOS VOLTAM A CANTAR A MESMA LADAINHA ANUNCIANTE Eis que chega a marcha quase fúnebre. O cortejo da via final Conduzindo Pedro Malazartes Um anti-herói nacional Um mito / Um esquisito Um quengo fenomenal PEDRO Home seja sério e deixe de lero – lero e conversa fiada Minha hora, por mim mesmo já está anunciada E só o que quero agora é pensar, A quem eu vou ajudar E doar minha herança e toda pujança, Que com muita astúcia – em vida – foi conquistada ANUNCIANTE Mesmo na hora da morte Sua cuca não se entrega Continua firme e forte Como conta de bodega, Como cipó de cardeiro, Fogo de candieiro E namoro que vive de esfrega. PEDRO Eita que elogio da porra Para um pobre moribundo. Por essas e muitas outras Quero ir pro outro mundo. Já chega de ouvir pilheria, De ver gente na miséria, De viver como vagabundo! 3 ANUNCIANTE Com essa eu me despeço Deixando os senhores ora ver, As astúcias de Pedro Malazartes Que até na hora de morrer, Bota burro na cangalha, Engana tolo e canalha, Sem medo de se arrepender. TODOS (CANTANDO) Morre em paz - caboclo danado Que deu tempo já chegou Morre em pé Que eu te enterro deitado Pois assim morreu nosso senhor Bota o quengo na fervura Que é hora de brincar Com quem em vida fez a festa E tentou te enganar Inventando leis e mistérios Só pra ao povo burlar (bis) És Malazartes - alegria És brinquedo popular És vara de dar em doido És bala de espocar DONA SANTINHA Este que jaz prostrado, Mais sem perder o sorriso, É meu marido querido Meu bem, meu ser mais amado. Com ele aprendi de tudo 4 Pra se atrever a viver Nesse mundo tão malvado. Hoje choro sua morte Que já está anunciada, Mais digo sem medo da sorte Que ela foi derrotada, Pois sua astúcia de gente, Como um verso - um repente Por ele foi decretada. PEDRO Da forma que vai o mundo Só poderá triunfar Aqueles que têm astúcia E muito saber popular. No mar da vida, minha filha, Só se afoga Quem não aprender a nadar. Lembre-se que a fortuna tem o peso Que tem a tirana sorte. Não se esqueça que a desgraça Quando vem, seja do sul ou do norte, Não respeita ser vivente nenhum E mata até quem é forte. DONA SANTINHA Sei que não queres que eu chore Mais como posso fazer? Passei a vida inteira dedicada a você. E agora o que será? Quando você se mandar Melhor pra mim é morrer! PEDRO Se achegue, minha santinha, Venha pra junto, Sem lágrimas nem lamentação. Não há coisa mais perdida 5 Que chora nessa ocasião. Eu sinto o peito uivando Por cima do coração, Quando quiser vou embora, Pra mim não tem mais solução. DONA SANTINHA Home, não diga besteira Deixe-me pelo menos chamar o doutor? PEDRO Santinha, minha santinha Não tem um médico vivo Que impeça de ir onde vou. É besteira -nessa hora - dá remédio a quem morre Da doença que eu estou. Inda que fique bom dessa vez Em outra eu vou perder, Porque o poder que me leva Não é fácil de inverter. Fique certa dessa máxima: Quem nasce tem que morrer SANTINHA Pedrinho, meu Pedrinho Mais o que será que eu – sua santinha Posso fazer por você? PEDRO Pode depois que eu morrer O doutor mandar chamar. Pergunte a ele quanto ele quer Pra poder me ressuscitar, Mais avise logo a ele: - Só pago, se meu marido se levantar. SANTINHA Tu tas brincando comigo Sabes que quem morre se liquida PEDRO Pelo visto, pelo certo Vejo que és sabida. 6 Pois sabes que o que expulsa a morte Não pode voltar à vida. Ainda te digo mais Só pra você entender: Aquele que toma remédio Pensando que num vai morrer É como quem salga carne Depois de apodrecer. É mesmo que rezar para São Bento Depois que a cobra morder ENTRADA DO FREI (CANTANDO) Ou de casa venho paz Só pr’alma aliviar Se me de duas moedas Posso ela encomendar. Quem por mim foi enviado Recebeu o merecido Hoje mora lá no céu No reino mais prometido. Por somente duas moedas Encomendo o bendito Peço a Deus, Nosso Senhor Pra afastar o maldito FRADE JOÃO Irmãos... sou o Frade João Ia passando em romaria na região E soube que vosmicê está em precisão. Aí... levantei a batina e corri até na contra-mão Somente para ajudá-lo a morrer Nesse momento de agoniação. 7 PEDRO Viu, Santinha, inda tem alma boa Cheia de caridade Repleta de rima e ação. Somente por duas miseras moedas Faz a minha encomendação. FRADE JOÃO Se o senhor já entendeu. Posso começar a missão? PEDRO Agora mesmo fradinho. O santo num veio me ajudar a morrer? FRADE JOÃO Podes crer, meu Irmão - Podes crer! PEDRO Então se deite ali naquele canto E comece a gemer e a se contorcer... FRADE JOÃO Gemer? Contorcer? Pra quê? PEDRO Num veio também pra morrer Para ir junto comigo? FRADE JOÃO Vás de reto satanás! Um burro é quem anda contigo. PEDRO Escute então mentiroso. Se eu não tivesse prostrado Você hoje ia sair daqui Quem sabe, com o fole furado, Pra saber que não se toca Onde não se foi convidado. Agora chispe daqui Volte pra sua enganação Você já encheu meu juízo Com tanta rima de ão Num ta vendo que não quero A sua judiação? Para eu me liquidar Não preciso de vigia. 8 Talvez depois de morto Leve-o em minha companhia, Porque defunto é cego E precisa mesmo de um guia. FRADE JOÃO Meu irmão não se afobe Só vim aqui conforta-lo O inferno está aberto E o diabo a esperá-lo Com uma caldeira de fogo E muito jogo de baralho. PEDRO Calma, não vá embora Que agora eu quero saber, Explicações sobre o inferno, Pois deves bem conhecer: Me diga se por lá tem Um cão pior que você? Eu não o mandei chamar Nós nunca tivemos amizade, Sei que és um santo falsário Que engana por toda parte, Inventando o pecado e o temor Pregando o ódio e a dor Crendices e inverdades. FRADE JOÃO O senhor é mesmo que o cão, Valei-me meu Deus amado! Aqui num fico mais um segundo Meu tempo ta esgotado PEDRO Não se esqueça – velho amigo - que antes tem Que pagar por ter entrado. Santinha, pegue a mochila Tire os inteiros e deixe os trocados 9 FRADE JOÃO Me acuda, rosário bento Meu santo manto sagrado Vim aqui fazer o bem No fim sai foi roubado !!! (corre) DONA SANTINHA Pedrinho, com tu ninguém pode, És vivo e astucioso, Mesmo no leito de morte Não tens medo de trancoso. PEDRO Por isso é que te digo Deixa de choro e alarde, Penteia os teus cabelos E antes de ficar tarde Reza pra encontrar outro marido Tão vivo e esperto como Malazartes ENTRADA DO POLÍTICO – Zé Pavão – COM TODOS CANTANDO Chegou o lindo O bonito o legal O doutor do capital O amigo natural Distribuindo Seus santinhos para o povo Prometendo de novo Escola e hospital È Zé Pavão! O meu irmão! Ele é igual A qualquer um na eleição ZÉ PAVÃO Amigo e correligionário. Pedro Malazartes Meu eleitor estimado 10 Somente hoje, na boca da urna, tomei ciência Que o nobre amigo está adoentado E como doutor-político-formado Não podia deixar de está sempre ao teu lado. Como é posso sentar . pra gente ter um proseado? PEDRO Porque pergunta se já está sentado, Antes mesmo de ser convidado! Por sua postura e estampa já vi Que é mesmo um político enjoado! ZÉ PAVÃO PEDRO Sou danado, espevitado e bom de prosa. Sua conversa é antiga E não tem nada de nova. ZÉ PAVÃO E aí que você se engana Eu estou sempre em inovação. Por acaso já assistiu Meu programa na televisão? PEDRO Graças a Deus que não! Mas vejo pelo terno de casimira E sapato feito no Japão. Que o companheiro é mais um Diplomado em enrolação. Não se esqueça que eu já lhe vi E também lhe conheci De pés descalço e com o cu na mão. ZÉ PAVÃO Que é isso, camarada Ta desconhecendo o amigo? PEDRO De jeito nem qualidade Tou vendo é um inimigo Que só anda atrás de voto Que carrega o mundo no umbigo. 11 ZÉ PAVÃO Olhe que eu sou autoridade E posso mandar lhe prender Quem sabe não faço uma CPI Só pra lhe aborrecer? PEDRO Tu sabes muito bem Que CPI e cadeia, Foram feitas especialmente, pra ladrão como você, Que inventa juros e mazelas E deixa faltar na panela Comida pros pobres comer. Morro e vou contente Pois não irei mais aturar Teus discursos de mentira Tuas promessas, Teu enganar. E espero que um dia povo aprenda E em político igual a você, nunca mais volte a votar ZÉ PAVÃO Vim em missão de paz E não para guerrear. Mais se a conversa tomar outro rumo A São Bush posso apelar! PEDRO E tu pensas bem que eu tenho medo Das tuas pobres bravatas? São Bush ta é lascado Com suas próprias mamatas Ta com pescoço apertado E com o povo injuriado Arrochando o nó da gravata. E lembre-se, seu Zé Pavão Eu, Pedro Malazartes, sou cobra criada 12 E sou um dos viventes Que não se rende A tua política safada. Portanto... Umbora! O que está esperando Vá logo se retirando Da minha nobre morada. ZÉ PAVÃO PEDRO Meu povo... Se discursar de novo Eu prometo a você Que mandarei a morte embora E somente irei morrer, Quando terminar a apuração E farei tudo pra você perder. ZÉ PAVÃO Calma, seu Pedro, não precisa tanto Taqui o dinheiro do caixão Se puder morra hoje mesmo Não perca a ocasião. Não vá perder o seu tempo Precioso, nesse momento, Com uma simples e corriqueira eleição. PEDRO Deposite ali no cofre No sutiã da mulher Não se esqueça o da bolacha O da cachaça e o do café. Pois como sou muito querido Meu velório vai ser concorrido Pior do que festa de cabaré. ZÉ PAVÃO Adeus, meu querido eleitor De te num guardarei nem lembrança Pois sei que vagarás pelo mundo Na tua eterna andança. 13 E eu, Zé Pavão, serei eleito novamente Viverei rico e contente Fazendo muita festança PEDRO Um dia, seu Zé, a gente se encontrar E a coisa vai ficar feia Pois lugar de gente de tua laia É mesmo é na cadeia Agora suma daqui Antes que lhe meta a peia. Tas vendo, Santinha, tas vendo Que hominho mais infiel Até na hora de minha morte Ele quer fazer escarcéu E em vez de me desejar sorte De me ensejar o céu Me entrega ao mistério Aos quinto do inferno Que político mais cruel. SANTINHA Calma, Pedrinho, calma Fique quieto não se apoquente Esse filho de uma égua Depende do voto da gente. E eu vou botar pra quebrar Pra ele não ganhar E não enganar mais nenhum vivente PEDRO Agora, Santinha, minha filha, pra cumprir nossa missão Só falta enganar ao e o Juiz e o Tabelião. Vá lá, diga pra eles que em vida adquiri uns bens Dos quais vou fazer doação. Que vou deixar em testamento Pra não dar o cabimento 14 De num haver confusão. Vai, me deixa com o povo Que é nosso parceiro de novo Nessa farsa, nessa encenação. Que agora quero dançar Arrocha zabumbeiro, arrocha Que minha hora – de mentira = ta perto de chegar E ainda tem dois otários Dois sujeitinhos salafrários Que antes da morte ilusória com prazer quero enganar. MÚSICA Olha o passo da dança – baiana Olha volta que o corpo dá Olha o giro Olha o girau Bicho da noite que assombra Babau Olha o passo da dança – baiana Olha o brilho do teu olhar Bicho da noite que assombra É Babau e Jaraguá Vem babau Vem Jaraguá Não deixa a morte te pegar! SANTINHA Pedrinho, olha a decência Que duas visitas estão a chegar Entre seu Juiz, seja bem vindo seu tabelião Não deixem o moribundo esperar JUIZ Senhor Pedro Malazartes, Solicitou minha presença? 15 PEDRO Pode sentar seu juiz e tenha um pouco de paciência TABELIÃO Eu também estou aqui acompanhando sua excelência. PEDRO Sente-se bem ali, Eu lhe peço com decência. JUIZ Soube, por sua mulher, que o senhor tem uns bens E me chamou para registrar PEDRO Isso mesmo, senhor juiz Só deixo porque não posso levar. Mas se o senhor quiser ir comigo Tem um bom frete pra ganhar JUIZ Ta brincando com a morte, Seu Pedro Não sabe que ela é fria e crua PEDRO Pode ser até cunzinhada Pode vir vestida ou nua Eu brinco aqui com a minha Mais sei que irás sofrer com a tua TABELIÃO Não viemos aqui pra brincar Nós dois somos muito ocupados Temos uma reunião com o prefeito Outra com o delegado Se quiser falar faça rápido Que nosso tempo é ouro e já todo tomado JUIZ Isso Mesmo tamos cheios Tou que num agüento mais o tribunal É processo pra todo lado Tem papel até no quintal Se quer, faça logo o testamento Aproveite esse momento Ou morra logo afinal PEDRO Nossa como a justiça é ligeira Parece até uma ironia 16 JUIZ Você – por acaso - num tem dois sobrados, Lá na rua da agonia? TABELIÃO E Um sítio com mil cabeças de gado Lá pras bandas da Bahia? PEDRO Já vi que os dois gatunos Andam um pouquinho apressado Já pesquisaram sobre meu sitio Sobre os meus dois sobrados Já tão querendo botar a mão Tão na butuca que nem ladrão Querendo roubar até o meu gado JUIZ Me respeite, seu Pedro Malazartes Sou uma pessoa respeitada Sei que ta na hora da morte Mais não venha com maçada Diga logo o que quer Que minha paciência já ta quase acabada. PEDRO Calma, senhor juiz Assim o senhor morre também Segure seu coração Que ta disparado que nem um trem, E saiba que, juiz e escrivão, Assim como assassino e ladrão Não fazem falta a ninguém. Sendo assim não tenha pressa, Comece já a sessão. Depois de tudo feito E de nossa transação Sei que, ficarão contentes, E falarão pra muita gente Como tenho um bom coração. 17 Santinha, minha Santinha, pegue logo o papel, Que escondi no travesseiro. Agora dê ao juiz Para ele ler primeiro. SANTINHA PEDRO Daqui, seu Juiz, Vige! Como ele é ligeiro E por sua cara de contentamento Já viu que nesse momento Eu escolhi como o meu testamenteiro. Assim... deixo pro senhor juiz: 60 mil reais no banco Rural depositado; O estádio do Maracanã; Um sítio e dois sobrados; Somente pra mostrar minha gratidão Entrego tudo isso nas suas mãos Sem precisar nem ser inventariado. TABELIÃO PEDRO E eu, seu Pedro? Também pelo senhor serei lembrado? Claro, meu amigo velho Vai chegar o seu momento Uma mão lava a outra E já ta no testamento Que lhe deixo em Parnaíba Uma tropa de jumento. Deixo também um engenho Pertinho de Icapuí, A ponte Rio Niterói Que acabei de construir, E o palácio do governo No Estado do Piauí. Só de quebra inda deixo A torre Eifel, lá em Paris! Deixo o açude do ESE 18 Que fica em Janduís Esse ai o senhor divida Com o distinto senhor juiz. JUIZ Seu Pedro que gentileza, Que valor que dignidade. O senhor dá tanta coisa Por sua livre vontade. Isso prova que é cristão, Que é mesmo que um irmão, Um coração de bondade. PEDRO Mas doutor, preste atenção: Eu vou mais meus filhos ficam aí Quem sabe num pode um dia Numa desgraça cair? E sei que nessa ocasião Os senhores darão a mão Irão contribuir. TABELIÃO Pode morrer sossegado, Que sempre estarei presente. JUIZ Eu também, seu Pedro, Disso o senhor fique crente. PEDRO Sei que disso serão capaz! Agora me deixem em paz Que ta na hora de ficar ausente Santinha, faça as honras da casa E leve os dois cavaleiros Que eu irei preparar O meu caminho ligeiro Pois num agüenta mais Tanto galo no meu galinheiro SANTINHA ´ Até logo seu Juiz Vá com Deus senhor Tabelião 19 OS DOIS Quando precisar, linda Santinha Em qualquer ocasião Nós dois ficaremos contentes Em ofertar nossos pés, nossos corpos, nossas mãos. SANTINHA Aí, seu juiz, deixe de pegação PEDRO Santinha, fuja do diabo, da tentação e anuncie a morte Minha hora já chegou Já estou vendo os anjos E a cara de nosso senhor Adeus, até logo, good bye O meu tempo terminou. SANTINHA Não! Ele expirou. E agora o que será de mim? Fiquei uma viúva triste, carente e sozinha Nesse mundo tão ruim. JUIZ Morreu? assim tão de repente? Tão rápido, tão ligeiro? SANTINHA Sim, coitado! Até na morte foi o primeiro. Agora vou a prefeitura Pra encomendar o enterro. TABELIÃO Não faça essa desfeita Nós dois daremos o dinheiro. JUIZ Fique logo com essa importância Porque talvez necessite... TABELIÃO ...Com essa aqui compre a catacumba E mande fazer os convites... JUIZ ...Pegue também esses trocados Para vestir o coitado E deixar ele bem chique. 20 SANTI HÁ Muito obrigado, queridos Por nessa hora ajudar Não sei o que seria de mim Ficar viúva é tão ruim Voltem pra me visitar Agora vão com Deus Que do defunto eu vou cuidar JUIZ TABELIÃO Claro voltaremos só pra lhe consolar Amigo somos demais E com a gente nem o diabo pode! Fomos os únicos da história A desatar o magote E enganar Pedro Malazartes Com astúcia e muita arte E um pouquinho de sorte. JUIZ Esse dia para mim Para sempre será lembrado Enganei o mais sabido O caboclo mais danado Vamos logo comemorar E depois vamos viajar Em busca dos bens herdados ANUNCIANTE Eis que estou de volta Para a história concluir Todos sabem que Pedro Antes mesmo de sumir Inventou uma herança Fez uma grande pajelança Com os dois que vem aí. 21 JUIZ ANUNCIANTE Senhor, por favor, me entende, Eu só falo português... Por causa do meu figurino Ele pensa que eu sou francês. Merci, bôcú bestareiros Já vi que são brasileiros, O que desejam vocês TABELIÃO É que eu ganhei de herança, Ta aqui nesse papel, O maior bem da França A que nem a vista alcança A tal torre de Eifel. JUIZ ANUNCIANTE E, eu num sabe, Ganhei , o estádio do Maracanã! Vejo que vossas senhorias Estão mesmo sem razão Quem sabe não tão tan tans Com a mente em confusão? JUIZ Que é isso? Olhe o respeito. Não se esqueça que eu sou Juiz! TABELIÃO E eu, se num sabe, Antes de rico era tabelião ANUNCIANTE E o que tenho com isso Se eu somente sou gente. O que tou querendo dizer Nesse verso e repente É que num posso aceitar Que os senhores venham a acreditar Nessa herança indecente. JUIZ TABELIÃO ANUNCIANTE Com essa eu digo oxente! E eu, vige Maria! Sou quero fazer duas pergunta Pra por fim na agonia 22 TABELIÃO Pergunte logo , seu moço Pois acho que água do poço, Ta barrenta, molhada e fria! ANUNCIANTE Quem de vocês dois Com pose e alma de herói Foi desta vez o herdeiro Da famosa ponte Niterói? JUIZ O besta foi o Tabelião! Que caiu de pato na estória! TABELIÃO Deixe de contar vitória De dá salto como rã Pois você já se sentia dono Do Estádio Maracanã OS DOIS BRIGAM COM OFENSAS, TAPAS... ANUNCIANTE Calma, calma, camaradas Vamos deixar de violência. Sentem-se! Sossegue o corpo e usem a inteligência. Vocês dois nesse instante Tão vivendo momentos de glória E vão viver eternamente Dentro da nossa memória Como figuras gananciosas Que de forma graciosa Por Pedro Malazartes Um rei dos truques e da arte Passam a fazer parte da história TABELIÃO Do mal, num sei qual é pior: Ser chamado de idiota Ou então de brocoió Eu, um ex-tabelião Vou embora pro Japão, num piso nunca mais em Mossoró. 23 JUIZ E eu prefiro o anonimato Das cidades ribeirinhas Vou me mandar pra Bahia A terra do rei das rinhas E quem sabe num estalo Viro Juiz de briga de galo E num vendo umas apostinhas? ANUNCIANTE Vão com Deus abençoados Mais aprendam a lição Juiz que condena pobre E que liberta patrão Vai ser sempre enganado Por nosso querido povão E você Tabelião Cuidado com o que faz Não assanhe os maribondos Não assuste satanás Pois já é público e notório Que dentro do seu cartório A falcatrua ta demais TODOS CANTAM MARTELO DA ENGANAÇÃO Quem nunca foi enganado Que atire a primeira ofensa Que tire o corpo da prensa E nunca ande de lado Que saiba que o mal passado Não faz futuro ou presente Quem hoje engana a gente Pra sempre ta condenado Não adianta chorar 24 Nem tão pouco reclamar Com o leite derramado Assim vive Malazartes Nas veredas nordestinas Cumprindo a grande sina De viver de bem com as artes Andando por toda parte Sem nunca ser enterrado Vendendo papel passado Vivendo do enganar Não adianta chorar Nem tão pouco reclamar Com o leite derramado ANUNCIANTE E assim termina a peleja A contenda teatral A trama. A morte, a mentira De um quebra quengo infernal Conhecido em toda parte Como Pedro Malazartes Um anti-heroi-nacional! TODOS (MÚSICA FINAL) Não tenha medo De viver nesse país Nem pense nunca Em mudar de lugar A onde for Você vai sempre encontrar Um sabido 25 Um besta Uma trama Uma tramóia Um famoso bê-a-bá! È bê –a - bá É bê – a - bá Não se esqueça de viver Sem enganar Pois você pode Com Pedro se encontrar... 26