PEDRO MALAZARTES
E
A TRAMOIA DO TESTAMENTO
Autor: Júnio Santos
PERSONAGENS
PEDRO MALAZARTES
DONA SANTINHA ( A VIUVA)
ANJO*
DIABO*
JUÍZ
TABELIÃO
FRADE JOÃO
ZÉ PAVÃO
ANUNCIANTE
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ABERTURA
Uma procissão fúnebre abre o cortejo. A frente uma rede onde o doente, quase
defunto, é conduzido. Atrás a viúva – Dona Santinha - chora em volta a lenços e
abanadores. O diabo e um anjo disputam a alma do moribundo. Os atores que
fazem o diabo e o anjo podem ser os mesmos que irão fazer o Juiz, o Político, o
Frade e o Tabelião no decorrer do espetáculo.
CÃNTICO ANGELICAL
Nas horas de Deus amém
Padre, filho e espírito santo
São as primeiras cantigas
Que nessa hora eu canto
Nossa senhora das dores
Nosso senhor do Bom fim
Sejam bons condutores
Dessa alma tão ruim
CÂNTICO DIABÓLICO
Meu santo são pituino
Minha santinha do oião
Persigo desde menino
A alma desse cão
MALAZARTES
Nada de reza miúda
Nada de vela na mão
Nada de choro safado
Desmaio e quedas no chão
Nada de falsidade
Mentira e estupor
Nada de risos safados
Nada de falta de amor
Pois ta morrendo um artista / Filho de Nosso Senhor
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TODOS VOLTAM A CANTAR A MESMA LADAINHA
ANUNCIANTE
Eis que chega a marcha quase fúnebre.
O cortejo da via final
Conduzindo Pedro Malazartes
Um anti-herói nacional
Um mito / Um esquisito
Um quengo fenomenal
PEDRO
Home seja sério e deixe de lero – lero e conversa fiada
Minha hora, por mim mesmo já está anunciada
E só o que quero agora é pensar,
A quem eu vou ajudar
E doar minha herança e toda pujança,
Que com muita astúcia – em vida – foi conquistada
ANUNCIANTE
Mesmo na hora da morte
Sua cuca não se entrega
Continua firme e forte
Como conta de bodega,
Como cipó de cardeiro,
Fogo de candieiro
E namoro que vive de esfrega.
PEDRO
Eita que elogio da porra
Para um pobre moribundo.
Por essas e muitas outras
Quero ir pro outro mundo.
Já chega de ouvir pilheria,
De ver gente na miséria,
De viver como vagabundo!
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ANUNCIANTE
Com essa eu me despeço
Deixando os senhores ora ver,
As astúcias de Pedro Malazartes
Que até na hora de morrer,
Bota burro na cangalha,
Engana tolo e canalha,
Sem medo de se arrepender.
TODOS
(CANTANDO)
Morre em paz - caboclo danado
Que deu tempo já chegou
Morre em pé
Que eu te enterro deitado
Pois assim morreu nosso senhor
Bota o quengo na fervura
Que é hora de brincar
Com quem em vida fez a festa
E tentou te enganar
Inventando leis e mistérios
Só pra ao povo burlar (bis)
És Malazartes - alegria
És brinquedo popular
És vara de dar em doido
És bala de espocar
DONA SANTINHA
Este que jaz prostrado,
Mais sem perder o sorriso,
É meu marido querido
Meu bem, meu ser mais amado.
Com ele aprendi de tudo
4
Pra se atrever a viver
Nesse mundo tão malvado.
Hoje choro sua morte
Que já está anunciada,
Mais digo sem medo da sorte
Que ela foi derrotada,
Pois sua astúcia de gente,
Como um verso - um repente
Por ele foi decretada.
PEDRO
Da forma que vai o mundo
Só poderá triunfar
Aqueles que têm astúcia
E muito saber popular.
No mar da vida, minha filha, Só se afoga
Quem não aprender a nadar.
Lembre-se que a fortuna tem o peso
Que tem a tirana sorte.
Não se esqueça que a desgraça
Quando vem, seja do sul ou do norte,
Não respeita ser vivente nenhum
E mata até quem é forte.
DONA SANTINHA
Sei que não queres que eu chore
Mais como posso fazer?
Passei a vida inteira dedicada a você.
E agora o que será?
Quando você se mandar
Melhor pra mim é morrer!
PEDRO
Se achegue, minha santinha,
Venha pra junto,
Sem lágrimas nem lamentação.
Não há coisa mais perdida
5
Que chora nessa ocasião.
Eu sinto o peito uivando
Por cima do coração,
Quando quiser vou embora,
Pra mim não tem mais solução.
DONA SANTINHA
Home, não diga besteira
Deixe-me pelo menos chamar o doutor?
PEDRO
Santinha, minha santinha
Não tem um médico vivo
Que impeça de ir onde vou.
É besteira -nessa hora - dá remédio a quem morre
Da doença que eu estou.
Inda que fique bom dessa vez
Em outra eu vou perder,
Porque o poder que me leva
Não é fácil de inverter.
Fique certa dessa máxima:
Quem nasce tem que morrer
SANTINHA
Pedrinho, meu Pedrinho
Mais o que será que eu – sua santinha Posso fazer por você?
PEDRO
Pode depois que eu morrer
O doutor mandar chamar.
Pergunte a ele quanto ele quer
Pra poder me ressuscitar,
Mais avise logo a ele:
- Só pago, se meu marido se levantar.
SANTINHA
Tu tas brincando comigo
Sabes que quem morre se liquida
PEDRO
Pelo visto, pelo certo
Vejo que és sabida.
6
Pois sabes que o que expulsa a morte
Não pode voltar à vida.
Ainda te digo mais
Só pra você entender:
Aquele que toma remédio
Pensando que num vai morrer
É como quem salga carne
Depois de apodrecer.
É mesmo que rezar para São Bento
Depois que a cobra morder
ENTRADA DO FREI
(CANTANDO)
Ou de casa venho paz
Só pr’alma aliviar
Se me de duas moedas
Posso ela encomendar.
Quem por mim foi enviado
Recebeu o merecido
Hoje mora lá no céu
No reino mais prometido.
Por somente duas moedas
Encomendo o bendito
Peço a Deus, Nosso Senhor
Pra afastar o maldito
FRADE JOÃO
Irmãos... sou o Frade João
Ia passando em romaria na região
E soube que vosmicê está em precisão.
Aí... levantei a batina e corri até na contra-mão
Somente para ajudá-lo a morrer
Nesse momento de agoniação.
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PEDRO
Viu, Santinha, inda tem alma boa
Cheia de caridade
Repleta de rima e ação.
Somente por duas miseras moedas
Faz a minha encomendação.
FRADE JOÃO
Se o senhor já entendeu.
Posso começar a missão?
PEDRO
Agora mesmo fradinho.
O santo num veio me ajudar a morrer?
FRADE JOÃO
Podes crer, meu Irmão - Podes crer!
PEDRO
Então se deite ali naquele canto
E comece a gemer e a se contorcer...
FRADE JOÃO
Gemer? Contorcer? Pra quê?
PEDRO
Num veio também pra morrer
Para ir junto comigo?
FRADE JOÃO
Vás de reto satanás!
Um burro é quem anda contigo.
PEDRO
Escute então mentiroso.
Se eu não tivesse prostrado
Você hoje ia sair daqui
Quem sabe, com o fole furado,
Pra saber que não se toca
Onde não se foi convidado.
Agora chispe daqui
Volte pra sua enganação
Você já encheu meu juízo
Com tanta rima de ão
Num ta vendo que não quero
A sua judiação?
Para eu me liquidar
Não preciso de vigia.
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Talvez depois de morto
Leve-o em minha companhia,
Porque defunto é cego
E precisa mesmo de um guia.
FRADE JOÃO
Meu irmão não se afobe
Só vim aqui conforta-lo
O inferno está aberto
E o diabo a esperá-lo
Com uma caldeira de fogo
E muito jogo de baralho.
PEDRO
Calma, não vá embora
Que agora eu quero saber,
Explicações sobre o inferno,
Pois deves bem conhecer:
Me diga se por lá tem
Um cão pior que você?
Eu não o mandei chamar
Nós nunca tivemos amizade,
Sei que és um santo falsário
Que engana por toda parte,
Inventando o pecado e o temor
Pregando o ódio e a dor
Crendices e inverdades.
FRADE JOÃO
O senhor é mesmo que o cão,
Valei-me meu Deus amado!
Aqui num fico mais um segundo
Meu tempo ta esgotado
PEDRO
Não se esqueça – velho amigo - que antes tem
Que pagar por ter entrado.
Santinha, pegue a mochila
Tire os inteiros e deixe os trocados
9
FRADE JOÃO
Me acuda, rosário bento
Meu santo manto sagrado
Vim aqui fazer o bem
No fim sai foi roubado !!!
(corre)
DONA SANTINHA
Pedrinho, com tu ninguém pode,
És vivo e astucioso,
Mesmo no leito de morte
Não tens medo de trancoso.
PEDRO
Por isso é que te digo
Deixa de choro e alarde,
Penteia os teus cabelos
E antes de ficar tarde
Reza pra encontrar outro marido
Tão vivo e esperto como Malazartes
ENTRADA DO POLÍTICO – Zé Pavão – COM TODOS CANTANDO
Chegou o lindo
O bonito o legal
O doutor do capital
O amigo natural
Distribuindo
Seus santinhos para o povo
Prometendo de novo
Escola e hospital
È Zé Pavão!
O meu irmão!
Ele é igual
A qualquer um na eleição
ZÉ PAVÃO
Amigo e correligionário. Pedro Malazartes
Meu eleitor estimado
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Somente hoje, na boca da urna, tomei ciência
Que o nobre amigo está adoentado
E como doutor-político-formado
Não podia deixar de está sempre ao teu lado.
Como é posso sentar . pra gente ter um proseado?
PEDRO
Porque pergunta se já está sentado,
Antes mesmo de ser convidado!
Por sua postura e estampa já vi
Que é mesmo um político enjoado!
ZÉ PAVÃO
PEDRO
Sou danado, espevitado e bom de prosa.
Sua conversa é antiga
E não tem nada de nova.
ZÉ PAVÃO
E aí que você se engana
Eu estou sempre em inovação.
Por acaso já assistiu
Meu programa na televisão?
PEDRO
Graças a Deus que não!
Mas vejo pelo terno de casimira
E sapato feito no Japão.
Que o companheiro é mais um
Diplomado em enrolação.
Não se esqueça que eu já lhe vi
E também lhe conheci
De pés descalço e com o cu na mão.
ZÉ PAVÃO
Que é isso, camarada
Ta desconhecendo o amigo?
PEDRO
De jeito nem qualidade
Tou vendo é um inimigo
Que só anda atrás de voto
Que carrega o mundo no umbigo.
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ZÉ PAVÃO
Olhe que eu sou autoridade
E posso mandar lhe prender
Quem sabe não faço uma CPI
Só pra lhe aborrecer?
PEDRO
Tu sabes muito bem
Que CPI e cadeia,
Foram feitas especialmente,
pra ladrão como você,
Que inventa juros e mazelas
E deixa faltar na panela
Comida pros pobres comer.
Morro e vou contente
Pois não irei mais aturar
Teus discursos de mentira
Tuas promessas, Teu enganar.
E espero que um dia povo aprenda
E em político igual a você,
nunca mais volte a votar
ZÉ PAVÃO
Vim em missão de paz
E não para guerrear.
Mais se a conversa tomar outro rumo
A São Bush posso apelar!
PEDRO
E tu pensas bem que eu tenho medo
Das tuas pobres bravatas?
São Bush ta é lascado
Com suas próprias mamatas
Ta com pescoço apertado
E com o povo injuriado
Arrochando o nó da gravata.
E lembre-se, seu Zé Pavão
Eu, Pedro Malazartes, sou cobra criada
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E sou um dos viventes
Que não se rende
A tua política safada. Portanto...
Umbora! O que está esperando
Vá logo se retirando
Da minha nobre morada.
ZÉ PAVÃO
PEDRO
Meu povo...
Se discursar de novo
Eu prometo a você
Que mandarei a morte embora
E somente irei morrer,
Quando terminar a apuração
E farei tudo pra você perder.
ZÉ PAVÃO
Calma, seu Pedro, não precisa tanto
Taqui o dinheiro do caixão
Se puder morra hoje mesmo
Não perca a ocasião.
Não vá perder o seu tempo
Precioso, nesse momento,
Com uma simples e corriqueira eleição.
PEDRO
Deposite ali no cofre
No sutiã da mulher
Não se esqueça o da bolacha
O da cachaça e o do café.
Pois como sou muito querido
Meu velório vai ser concorrido
Pior do que festa de cabaré.
ZÉ PAVÃO
Adeus, meu querido eleitor
De te num guardarei nem lembrança
Pois sei que vagarás pelo mundo
Na tua eterna andança.
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E eu, Zé Pavão, serei eleito novamente
Viverei rico e contente
Fazendo muita festança
PEDRO
Um dia, seu Zé, a gente se encontrar
E a coisa vai ficar feia
Pois lugar de gente de tua laia
É mesmo é na cadeia
Agora suma daqui
Antes que lhe meta a peia.
Tas vendo, Santinha, tas vendo
Que hominho mais infiel
Até na hora de minha morte
Ele quer fazer escarcéu
E em vez de me desejar sorte
De me ensejar o céu
Me entrega ao mistério
Aos quinto do inferno
Que político mais cruel.
SANTINHA
Calma, Pedrinho, calma
Fique quieto não se apoquente
Esse filho de uma égua
Depende do voto da gente.
E eu vou botar pra quebrar
Pra ele não ganhar
E não enganar mais nenhum vivente
PEDRO
Agora, Santinha, minha filha, pra cumprir nossa missão
Só falta enganar ao e o Juiz e o Tabelião.
Vá lá, diga pra eles que em vida adquiri uns bens
Dos quais vou fazer doação.
Que vou deixar em testamento
Pra não dar o cabimento
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De num haver confusão.
Vai, me deixa com o povo
Que é nosso parceiro de novo
Nessa farsa, nessa encenação.
Que agora quero dançar
Arrocha zabumbeiro, arrocha
Que minha hora – de mentira = ta perto de chegar
E ainda tem dois otários
Dois sujeitinhos salafrários
Que antes da morte ilusória com prazer quero enganar.
MÚSICA
Olha o passo da dança – baiana
Olha volta que o corpo dá
Olha o giro
Olha o girau
Bicho da noite que assombra Babau
Olha o passo da dança – baiana
Olha o brilho do teu olhar
Bicho da noite que assombra
É Babau e Jaraguá
Vem babau
Vem Jaraguá
Não deixa a morte te pegar!
SANTINHA
Pedrinho, olha a decência
Que duas visitas estão a chegar
Entre seu Juiz, seja bem vindo seu tabelião
Não deixem o moribundo esperar
JUIZ
Senhor Pedro Malazartes, Solicitou minha presença?
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PEDRO
Pode sentar seu juiz e tenha um pouco de paciência
TABELIÃO
Eu também estou aqui acompanhando sua excelência.
PEDRO
Sente-se bem ali, Eu lhe peço com decência.
JUIZ
Soube, por sua mulher, que o senhor tem uns bens
E me chamou para registrar
PEDRO
Isso mesmo, senhor juiz
Só deixo porque não posso levar.
Mas se o senhor quiser ir comigo
Tem um bom frete pra ganhar
JUIZ
Ta brincando com a morte, Seu Pedro
Não sabe que ela é fria e crua
PEDRO
Pode ser até cunzinhada
Pode vir vestida ou nua
Eu brinco aqui com a minha
Mais sei que irás sofrer com a tua
TABELIÃO
Não viemos aqui pra brincar
Nós dois somos muito ocupados
Temos uma reunião com o prefeito
Outra com o delegado
Se quiser falar faça rápido
Que nosso tempo é ouro e já todo tomado
JUIZ
Isso Mesmo tamos cheios
Tou que num agüento mais o tribunal
É processo pra todo lado
Tem papel até no quintal
Se quer, faça logo o testamento
Aproveite esse momento
Ou morra logo afinal
PEDRO
Nossa como a justiça é ligeira
Parece até uma ironia
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JUIZ
Você – por acaso - num tem dois sobrados,
Lá na rua da agonia?
TABELIÃO
E Um sítio com mil cabeças de gado
Lá pras bandas da Bahia?
PEDRO
Já vi que os dois gatunos
Andam um pouquinho apressado
Já pesquisaram sobre meu sitio
Sobre os meus dois sobrados
Já tão querendo botar a mão
Tão na butuca que nem ladrão
Querendo roubar até o meu gado
JUIZ
Me respeite, seu Pedro Malazartes
Sou uma pessoa respeitada
Sei que ta na hora da morte
Mais não venha com maçada
Diga logo o que quer
Que minha paciência já ta quase acabada.
PEDRO
Calma, senhor juiz
Assim o senhor morre também
Segure seu coração
Que ta disparado que nem um trem,
E saiba que, juiz e escrivão,
Assim como assassino e ladrão
Não fazem falta a ninguém.
Sendo assim não tenha pressa,
Comece já a sessão.
Depois de tudo feito
E de nossa transação
Sei que, ficarão contentes,
E falarão pra muita gente
Como tenho um bom coração.
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Santinha, minha Santinha, pegue logo o papel,
Que escondi no travesseiro.
Agora dê ao juiz
Para ele ler primeiro.
SANTINHA
PEDRO
Daqui, seu Juiz, Vige! Como ele é ligeiro
E por sua cara de contentamento
Já viu que nesse momento
Eu escolhi como o meu testamenteiro.
Assim... deixo pro senhor juiz:
60 mil reais no banco Rural depositado;
O estádio do Maracanã;
Um sítio e dois sobrados;
Somente pra mostrar minha gratidão
Entrego tudo isso nas suas mãos
Sem precisar nem ser inventariado.
TABELIÃO
PEDRO
E eu, seu Pedro? Também pelo senhor serei lembrado?
Claro, meu amigo velho
Vai chegar o seu momento
Uma mão lava a outra
E já ta no testamento
Que lhe deixo em Parnaíba
Uma tropa de jumento.
Deixo também um engenho
Pertinho de Icapuí,
A ponte Rio Niterói
Que acabei de construir,
E o palácio do governo
No Estado do Piauí.
Só de quebra inda deixo
A torre Eifel, lá em Paris!
Deixo o açude do ESE
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Que fica em Janduís
Esse ai o senhor divida
Com o distinto senhor juiz.
JUIZ
Seu Pedro que gentileza,
Que valor que dignidade.
O senhor dá tanta coisa
Por sua livre vontade.
Isso prova que é cristão,
Que é mesmo que um irmão,
Um coração de bondade.
PEDRO
Mas doutor, preste atenção:
Eu vou mais meus filhos ficam aí
Quem sabe num pode um dia
Numa desgraça cair?
E sei que nessa ocasião
Os senhores darão a mão
Irão contribuir.
TABELIÃO
Pode morrer sossegado,
Que sempre estarei presente.
JUIZ
Eu também, seu Pedro, Disso o senhor fique crente.
PEDRO
Sei que disso serão capaz!
Agora me deixem em paz
Que ta na hora de ficar ausente
Santinha, faça as honras da casa
E leve os dois cavaleiros
Que eu irei preparar
O meu caminho ligeiro
Pois num agüenta mais
Tanto galo no meu galinheiro
SANTINHA
´
Até logo seu Juiz
Vá com Deus senhor Tabelião
19
OS DOIS
Quando precisar, linda Santinha
Em qualquer ocasião
Nós dois ficaremos contentes
Em ofertar nossos pés, nossos corpos, nossas mãos.
SANTINHA
Aí, seu juiz, deixe de pegação
PEDRO
Santinha, fuja do diabo, da tentação e anuncie a morte
Minha hora já chegou
Já estou vendo os anjos
E a cara de nosso senhor
Adeus, até logo, good bye
O meu tempo terminou.
SANTINHA
Não! Ele expirou.
E agora o que será de mim?
Fiquei uma viúva triste, carente e sozinha
Nesse mundo tão ruim.
JUIZ
Morreu? assim tão de repente?
Tão rápido, tão ligeiro?
SANTINHA
Sim, coitado!
Até na morte foi o primeiro.
Agora vou a prefeitura
Pra encomendar o enterro.
TABELIÃO
Não faça essa desfeita
Nós dois daremos o dinheiro.
JUIZ
Fique logo com essa importância
Porque talvez necessite...
TABELIÃO
...Com essa aqui compre a catacumba
E mande fazer os convites...
JUIZ
...Pegue também esses trocados
Para vestir o coitado
E deixar ele bem chique.
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SANTI HÁ
Muito obrigado, queridos
Por nessa hora ajudar
Não sei o que seria de mim
Ficar viúva é tão ruim
Voltem pra me visitar
Agora vão com Deus
Que do defunto eu vou cuidar
JUIZ
TABELIÃO
Claro voltaremos só pra lhe consolar
Amigo somos demais
E com a gente nem o diabo pode!
Fomos os únicos da história
A desatar o magote
E enganar Pedro Malazartes
Com astúcia e muita arte
E um pouquinho de sorte.
JUIZ
Esse dia para mim
Para sempre será lembrado
Enganei o mais sabido
O caboclo mais danado
Vamos logo comemorar
E depois vamos viajar
Em busca dos bens herdados
ANUNCIANTE
Eis que estou de volta
Para a história concluir
Todos sabem que Pedro
Antes mesmo de sumir
Inventou uma herança
Fez uma grande pajelança
Com os dois que vem aí.
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JUIZ
ANUNCIANTE
Senhor, por favor, me entende, Eu só falo português...
Por causa do meu figurino
Ele pensa que eu sou francês.
Merci, bôcú bestareiros
Já vi que são brasileiros,
O que desejam vocês
TABELIÃO
É que eu ganhei de herança,
Ta aqui nesse papel,
O maior bem da França
A que nem a vista alcança
A tal torre de Eifel.
JUIZ
ANUNCIANTE
E, eu num sabe, Ganhei , o estádio do Maracanã!
Vejo que vossas senhorias
Estão mesmo sem razão
Quem sabe não tão tan tans
Com a mente em confusão?
JUIZ
Que é isso? Olhe o respeito.
Não se esqueça que eu sou Juiz!
TABELIÃO
E eu, se num sabe,
Antes de rico era tabelião
ANUNCIANTE
E o que tenho com isso
Se eu somente sou gente.
O que tou querendo dizer
Nesse verso e repente
É que num posso aceitar
Que os senhores venham a acreditar
Nessa herança indecente.
JUIZ
TABELIÃO
ANUNCIANTE
Com essa eu digo oxente!
E eu, vige Maria!
Sou quero fazer duas pergunta
Pra por fim na agonia
22
TABELIÃO
Pergunte logo , seu moço
Pois acho que água do poço,
Ta barrenta, molhada e fria!
ANUNCIANTE
Quem de vocês dois
Com pose e alma de herói
Foi desta vez o herdeiro
Da famosa ponte Niterói?
JUIZ
O besta foi o Tabelião!
Que caiu de pato na estória!
TABELIÃO
Deixe de contar vitória
De dá salto como rã
Pois você já se sentia dono
Do Estádio Maracanã
OS DOIS BRIGAM COM OFENSAS, TAPAS...
ANUNCIANTE
Calma, calma, camaradas
Vamos deixar de violência. Sentem-se!
Sossegue o corpo e usem a inteligência.
Vocês dois nesse instante
Tão vivendo momentos de glória
E vão viver eternamente
Dentro da nossa memória
Como figuras gananciosas
Que de forma graciosa
Por Pedro Malazartes
Um rei dos truques e da arte
Passam a fazer parte da história
TABELIÃO
Do mal, num sei qual é pior:
Ser chamado de idiota
Ou então de brocoió
Eu, um ex-tabelião
Vou embora pro Japão, num piso nunca mais em Mossoró.
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JUIZ
E eu prefiro o anonimato
Das cidades ribeirinhas
Vou me mandar pra Bahia
A terra do rei das rinhas
E quem sabe num estalo
Viro Juiz de briga de galo
E num vendo umas apostinhas?
ANUNCIANTE
Vão com Deus abençoados
Mais aprendam a lição
Juiz que condena pobre
E que liberta patrão
Vai ser sempre enganado
Por nosso querido povão
E você Tabelião
Cuidado com o que faz
Não assanhe os maribondos
Não assuste satanás
Pois já é público e notório
Que dentro do seu cartório
A falcatrua ta demais
TODOS CANTAM
MARTELO DA ENGANAÇÃO
Quem nunca foi enganado
Que atire a primeira ofensa
Que tire o corpo da prensa
E nunca ande de lado
Que saiba que o mal passado
Não faz futuro ou presente
Quem hoje engana a gente
Pra sempre ta condenado
Não adianta chorar
24
Nem tão pouco reclamar
Com o leite derramado
Assim vive Malazartes
Nas veredas nordestinas
Cumprindo a grande sina
De viver de bem com as artes
Andando por toda parte
Sem nunca ser enterrado
Vendendo papel passado
Vivendo do enganar
Não adianta chorar
Nem tão pouco reclamar
Com o leite derramado
ANUNCIANTE
E assim termina a peleja
A contenda teatral
A trama. A morte, a mentira
De um quebra quengo infernal
Conhecido em toda parte
Como Pedro Malazartes
Um anti-heroi-nacional!
TODOS
(MÚSICA FINAL)
Não tenha medo
De viver nesse país
Nem pense nunca
Em mudar de lugar
A onde for
Você vai sempre encontrar
Um sabido
25
Um besta
Uma trama
Uma tramóia
Um famoso bê-a-bá!
È bê –a - bá
É bê – a - bá
Não se esqueça de viver
Sem enganar
Pois você pode
Com Pedro se encontrar...
26
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