Concurso
[Conto]
Fatum
Os homens nem sempre acordam pelas razões certas quando estão no seu sono profundo,
ainda que por vezes durmam de olhos bem arregalados. Este que se nos apresenta dorme, no
sentido literal da palavra, envolto num sono tranquilo. Contudo, até o mais forte sono não
resiste ao mais delicado sonho, essa é, por mais duvidosa que pareça, a lógica dos homens, o
que os faz despertar é o sonho. Prova disso é que o homem que aqui está, deitado na cama ao
lado da mulher, sonhava há momentos atrás que ia ser pai e está agora desperto, o sonho
acordou-o, era escusado repetirmos mas fica vincado para efeitos de nota.
Envolvido pelo cansaço que às vezes o sonho nos impõe, o homem tenta fechar os olhos
novamente e voltar ao sono, e de preferência voltar a ser pai, mas não consegue, o que só prova
a teoria que nas linhas acima desenvolvemos, a de que sonhar e dormir ao mesmo tempo não é
fácil. Levanta-se então o homem e olha para o despertador, são duas e cinco da manhã, “Dormi
tão pouco e já sonhei isto tudo?”. Está, naturalmente, contente por ter sonhado que foi pai,
esboça até um sorriso e pensa para si mesmo, “Amanhã vou contar isto à Marília”. Os homens
têm destas coisas, o mais pequeno e insignificante sonho faz com que desatem a partilhá-lo com
toda a gente como se de um prémio se tratasse em vez de se preocuparem em saber se tem a
mínima ponta de utilidade ou realidade até.
O homem acabou por voltar ao sono. Foi pai outra vez, da mesma estranha forma.
Contudo, a escuridão do dia faz-nos esquecer a felicidade que a luz da noite nos traz. Segue a
nossa teoria à prática e o homem levanta-se de manhã. “Bom dia, amor!”. “Bom dia.”.
Respondeu a mulher, pelos vistos está tudo normal e já ninguém se lembra que foi pai naquela
noite. Cada um a seu posto de trabalho, ele reputado psicólogo, ela professora. Chega a noite,
beijam-se as bocas exaustas do dia de trabalho, “Boa noite, amor”. “Boa noite, que tal o dia?”.
Contam-se então todas as histórias do dia, essas tão banais que só por si nos tirariam lugar e
espaço a esta história. Nesse dia ninguém se lembrou do que sonhou na noite anterior, ela
poderia ter sonhado ser mãe que nós não saberíamos, morreria com ela esse íntimo segredo sem
ela própria saber, caso para dizer, o que se passa no sonho fica no sonho. A menos que, já todos
sabemos que a vida é feita de exceções, o sonho vire rotina, dessas que assustam o homem,
dessas que ficam gravadas, dia após dia, na sua cabeça.
Duas semanas seguiram em que o homem acordou, todos os dias da semana, às mesmas
duas horas e cinco minutos da manhã depois de sonhar que ia ser pai. Contudo, é estranho este
sonho, dado que o homem nunca viu, em nenhuma das noites, o filho. Só a mãe ali de barriga
empinada, evidência natural do estado natal em que presumivelmente se encontrava. Assustado,
efeito natural dos sonhos rotineiros no homem, numa dessas manhãs ao pequeno-almoço o
homem não aguentou mais o seu sonho secreto. Foi então que, como se do anjo que anunciou o
filho de Deus se tratasse, atirou à mulher, “Vamos ter um filho, Marília!”. A mulher, morena
bonita, riu muito, claro, e respondeu, “Estou surpresa por saber disso depois de ti!“. O homem
não esboçou sorriso e disse, “Estou a falar a sério, tenho sonhado com isso, vão fazer duas
semanas precisamente hoje, tem de significar alguma coisa!”, a mulher, pouco convencida de
que tal facto fosse consequência provável do outro, argumentou, “Eu acho que se for mãe não é
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pelo teu sonho mas sim pelo que se tem passado bem antes do sonho. Lucas, já tens idade para
ter juízo”. Batam-se as palmas a esta mulher, aliás a todas, que bem mais práticas são que os
homens, eles procuram as evidências nos sonhos, elas na realidade, que diga-se, bem mais fiável
é esta que o anterior. Todavia, não deve descartar-se o facto de este homem ser um psicólogo,
um entendido em matérias de sonhos, portanto, e que deve mais do que ninguém saber o que
significa sonhar ser pai. Uma vez sim, duas semanas seguidas talvez seja significado a mais para
a cabeça de um homem, mesmo se este for um psicólogo.
Como o leitor naturalmente deduziu, pela evidência mostrada acima pela mulher, esta
acabou mesmo por engravidar. Uma semana se seguiu e o homem sempre com o mesmo sonho,
sempre também sem ver o filho, ou a filha, não sejamos machistas. Até que uma tarde, mais
uma dessas rotineiras, lhe entra a mulher pela casa adentro aos pulos e gritos de alegria, “Estou
grávida! Estou grávida!”. Contente ficou ainda mais o homem que até já se interroga se terá
algum poder de prever as coisas através dos sonhos, enfim, os homens são lastimáveis, o
universo dá-lhes um dedo e eles querem logo a mão. “Vês? Eu disse-te, eu disse-te que ia
acontecer!”.
Os dias passaram e o homem não mais sonhou, ou se sonhou não se lembra, nem ele nem
nós. Uma semana em branco. O homem começou então a andar envolto pela tristeza. A condição
humana tem destas fraquezas, três semanas seguidas com o mesmo sonho e, quando ele passa à
realidade, já não somos nada sem ele. Há homens que nunca sonham mas dormem sempre bem,
é o caso deste. A gravidez vai já com quatro semanas e dormem de felicidade e tranquilidade os
futuros pais. Dizem que o filho nascerá a dois de maio e, quando soube, o pai não tardou a
associar a data à hora em que acordava, “Duas e cinco, duas e cinco!”, repetia o homem para si
mesmo. Agora acha mesmo que tem um poder, que felizes são os homens, principalmente o que
pensam como os demais.
Porém, numa dessas noites, o homem sonhou outra vez e outra e outra e outra, sempre o
mesmo. Está a passear pela rua da cidade e nesse preciso momento o Land Rover azul bate
sempre na mesma mulher morena. O homem acorda amedrontado, às vezes para assustar os
homens, basta pôr-lhes uma mulher morena e um carro a meio do sonho. Não partilha com a
esposa o sonho, bem menos bonito este que o anterior. Por dedução rápida, o homem percebe
que tal como a mulher engravidou como ele sonhou, o acidente sonhado inevitavelmente será
realizado. Mas vamos voltar a dormir, piripiri na boca dos outros para nós é sempre mel e não
acabará o mundo se alguém for atropelado.
Dois dias volvidos e o homem sai à rua para passear. Lá está o som da pancada, tal como
no sonho, e a mulher morena inevitavelmente no chão. Desta vez não é sonho, o homem está
mesmo acordado e a mulher está mesmo ali. Pior ainda, como se não soubesse já do que ia
acontecer, o homem não faz ideia porque está tão nervoso. Está espantado o nosso homem por
sonhar com o mal de alguém que veio a concretizar-se, para esta não estava ele preparado. A
vida é mesmo assim, por mais que um homem sonhe, quando chega a hora da verdade nunca
está preparado. O homem esfrega a cara “Estou mesmo acordado.”. Pensa agitadamente para si
que afinal tem mesmo um poder que, ingratamente, não pode controlar. Fugiu o homem para
casa apavorado. “Que se passa?”. Pergunta a mulher preocupada, “Nada de especial, deve ter
sido o almoço que me caiu mal.” A desculpa não pega e a mulher volta à carga à hora do jantar
com as suas rudimentares técnicas de detetive, “Que se passa, Lucas?”. “Já disse que deve ter
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sido o almoço!”. Um péssimo fingidor o sujeito da nossa narrativa. Pairam o silêncio e a falta de
assunto na sala e por isso exprimiu-se a mulher sem pensar, “Ouvi dizer que a mãe de um aluno
meu foi atropelada hoje, sabias?”. As palavras soaram ao homem como trovoada e sem saber o
que dizer, consequência natural de sonhar regularmente coisas que se tornam verdade, atirou
apenas para o ar “A sério?”. O homem vai ver televisão, não quer adormecer, “Como me vou ver
livre disto?”. Pensa o homem enquanto vê o telejornal. Se ao menos pudesse escolher com
aquilo que vai sonhar esta noite. A natureza dá-nos poderes muito estéreis.
Os dias, semanas, meses, têm passado, mais calmos agora para o homem que vai
sonhando apenas de vez em quando com coisas banais que, ainda assim, vão acontecendo. O
homem que pensou em tempos ter o poder de prever as coisas através dos seus sonhos, não deu
mais importância à situação, acha piada até, e pura coincidência, o facto de sonhar com coisas
que acabam por se tornar sempre reais. Para o homem as coisas só funcionam assim, à sua
medida, pequeninas.
Estamos em fins de abril, chove muito. A mulher e o homem irradiam alegria, a qualquer
momento sai cá para fora a criança. No entanto, o futuro papá ainda sonha com coisas que,
coincidências das coincidências acabam por tornar-se verdade, bem curioso mas nada de
preocupante. Verdade talvez não seja a palavra mais adequada para definirmos real porque este
indivíduo tem-nos vindo a provar que por vezes o sonho já é bem verdade, o homem é que não
tem coração para o entender, e precisa de o ver real para ter a certeza que é verdadeiro.
O homem acordou e olha agora para o relógio. São duas e cinco. Sonha com uma estrada
reta, molhada, molhada porque chove. Também há um camião mesmo diante dos olhos, quase a
saltar-lhe das pálpebras até. Começa então, como é natural ao homem, com as suas
interpretações filosóficas da estrada e da chuva e do camião. Será que vou fazer uma viagem?
Será a reta o meu bom comportamento? Será que o camião traz algo para mim? Será que a chuva
é para eu me lavar de alguma coisa? Ou serão as águas da minha mulher que rebentaram? Os
homens têm este defeito de não saberem interpretar a vida. Um bocadinho mais de literalidade
nas suas deduções não lhes ficava mal. Mas avancemos. Quatro dias se seguirão e sempre o
mesmo sonho, o mesmo cenário, as mesmas circunstâncias, o mesmo fim, que fim? Pois,
nenhum. O sonho acaba sempre ali, no meio da estrada à beira do camião, demasiado perto
diga-se. O homem mal pode esperar por saber o que vai realmente acontecer porque sabe que o
sonho se vai tornar real, porque é assim que tem de ser e o que tem de ser tem muita força, o
fatum nunca se deixa ficar para trás.
Acordam o homem e a mulher, a mesma rotineira de sempre que tão subtilmente mata o
homem sem que ele se aperceba que já está há muito tempo morto. Há quem lhe chame
comodismo. Contudo, a mulher fica em casa, o parto está para breve, se não até para já. Batem
certos os cálculos, hoje são dois de maio, rezam as profecias que o rapaz tem de nascer.
Começam as contrações, aí vêm as águas, a natural confusão de boas vindas ao principiante que
em breves horas estará cá fora. Nem ele imagina a triste praxe que o espera. Liga a mulher o
número da emergência e em dois tempos está no hospital. Há, logicamente, que avisar o marido
que a esta hora deve estar no consultório a tratar da depressão de alguém sem saber como lidar
com os seus próprios sonhos, se a hipocrisia quisesse conseguia parar o mundo neste instante. O
homem recebe a chamada, interrompe-se a consulta, “Peço desculpa, mas a minha mulher está
no hospital prestes a dar à luz, tenho de ir já para lá.” Ao que responde gentilmente o paciente
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“Ora essa, senhor doutor, alegrias dessas há poucas na vida, vá com Deus!”. O homem nem
agradece ao gentil paciente que lhe emprestou Deus para viagem, senta-se no carro e já todos
sabemos que não é obrigatório pôr o cinto quando Deus vai no banco do passageiro, pé no
acelerador, pressa é pressa, o filhote vai nascer. A natureza dá-nos a mão e nós arrancamos logo
o braço.
Galgam-se os primeiros quilómetros da estrada e chove, como é natural, foi assim que foi
sonhado, é assim que tem de ser. É então aí que se apercebe o homem que está na mesma reta,
da mesma estrada, com a mesma chuva do sonho, “É agora! Vai acontecer!”. Ainda que sem
saber o quê, o homem vai acelerando ansioso, o sonho acaba sempre ali, ou talvez não, afinal de
contas falta o camião que todas as noites lhe tem saltado das pálpebras. Aí está. Vem na sua
direção, totalmente descontrolado, ou será do piso, ou do álcool ou de Deus que vem com ele no
carro em vez de ir no camião, “Oh que disparate, Deus é omnipresente!”. O homem grita de
desespero, afinal não é coincidência, é o destino, é o fatum que tem muita força e está apenas
a ocupar o seu lugar correto na máquina do universo tal como tinha de ser e o que tem de ser
tem muita força, demais para a dos homens. As chapas abraçam-se, agora o homem percebe
porque é que no sonho nunca viu o filho.
Autor: César da Silva Natário | E. Secundário
Colégio de S. Gonçalo de Amarante
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