ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA JANAINA HUBNER PRÉ-ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA: NOVOS DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO CRISTÃ CONTÍNUA São Leopoldo 2012 JANAINA HUBNER PRÉ-ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA: NOVOS DESAFIOS E PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO CRISTÃ CONTÍNUA Dissertação de Mestrado Para obtenção do grau de Mestre em Teologia Escola Superior de Teologia Programa de Pós-Graduação Área de concentração: Religião e Educação Orientadora: Profª. Drª. Gisela I. W. Streck São Leopoldo 2012 AGRADECIMENTOS Agradeço com todo o meu carinho às pessoas que me incentivaram e contribuíram para a realização desta pesquisa: Ao meu marido, Jasom de Oliveira, pelo companheirismo, apoio, incentivo e pelos momentos de reflexão conjunta. Aos meus pais, pelos valores e pela educação que me encaminharam até aqui. A Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão, por disponibilizar o espaço e a confiança para o desenvolvimento desta pesquisa. À cada integrante do grupo de ensino confirmatório da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão, que foram meus grandes parceiros nesta caminhada e contribuíram com seu jeito de ser e suas opiniões para abrilhantar o desenvolvimento desta pesquisa. À professora Dra Gisela I. W. Streck pela inspiração, incentivo, cuidado, paciência, apoio e orientação em todos os momentos. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES pela disponibilização dos recursos financeiros que possibilitaram a realização desta pesquisa. RESUMO A dissertação busca investigar e propor alternativas para a ação pedagógico-didática da educação cristã comunitária junto ao público pré-adolescente, inserido em um contexto urbano contemporâneo que frequenta uma comunidade da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB. A investigação se utiliza de pesquisa bibliográfica teórica em diálogo com a pesquisa de campo, através de um estudo de caso único, tendo como instrumento a elaboração e aplicação de um questionário ao grupo de pré-adolescentes que frequentou o ensino confirmatório em uma comunidade da IECLB em Novo Hamburgo/RS. A pesquisa inicia com uma investigação bibliográfica sobre o desenvolvimento histórico-eclesiástico da compreensão e das expectativas sobre o ensino confirmatório. Efetua também neste primeiro momento uma pesquisa sobre o desenvolvimento histórico-social do conceito pré-adolescência e de suas influências sobre o sujeito relacionando com as expectativas histórico-eclesiásticas. No segundo momento parte-se para a pesquisa teórica em torno de três filósofos que discutem as características da sociedade ocidental contemporânea, buscando definir o termo mais apropriado para denominarmos a mesma: Jean François Lyotard (pós-modernidade), Gilles Lipovtsky e Sabastién Charles (hipermodernidade). No terceiro momento a pesquisa busca fazer uma análise do conceito fé antropológica, a partir dos teólogos Paul Tillich, Juan Luis Segundo e James Fowler, dando ênfase para a dinâmica da fé na fase da pré-adolescência. No quarto e último momento da pesquisa apresenta-se a proposta de Fernando Hernández e Monserrat Ventura sobre os projetos de trabalho para a educação em diálogo com Plano de Educação Cristã Contínua da IECLB, levando em consideração a análise e as alternativas pedagógico-didáticas resultantes da investigação nos três momentos anteriores da pesquisa. A pesquisa conclui que uma educação cristã comunitária orientada metodologicamente por projetos de trabalho pode proporcionar ao público pré-adolescente – através das narrativas religiosas e pessoais, da pesquisa e do diálogo – experiência participativa e protagonismo, fornecendo apoio e incentivo à construção da identidade no ambiente comunitário religioso, apesar das incertezas crescentes da sociedade ocidental contemporânea. Palavras-chave: educação cristã comunitária, pré-adolescência, contemporânea, fé antropológica, projetos de trabalho. sociedade ABSTRACT The thesis aims to investigate and propose alternatives to the pedagogical and didactic action of the communitarian Christian education with pre-adolescents living in a contemporary urban context and attending a congregation of the Evangelical Church of Lutheran Confession in Brazil - IECLB. The investigation makes use of theoretical literature in dialogue with the field research through a single case study; and its tool of elaboration and application consisted of a questionnaire applied to a group of pre-adolescents who attended confirmation classes at a congregation of the IECLB in Novo Hamburgo-RS. The research begins with a bibliographical study on the historical and ecclesiastic development about the comprehension and expectations concerning confirmation classes. In the first part it also presents a survey about the historical and social development of the concept pre-adolescence and its influences on the person in relation to the historical and ecclesiastical expectations. In the second part, a theoretical research is carried out based on three philosophers who discuss the characteristics of contemporary Western society, seeking to define the most appropriate term to describe it: Jean François Lyotard (postmodernism), and Gilles Lipovtsky, Sabastién Charles (hyper modernism). In the third part the research aims to analyze the concept anthropological faith, based on the theologians Paul Tillich, Juan Luis Segundo and James Fowler, emphasizing the dynamics of faith in the pre-adolescence. In the fourth and last part of the study we present Fernando Hernández and Montserrat Ventura proposal about the projects for education in dialogue with the Continuous Christian Education Plan of the IECLB, taking into account the analysis and the pedagogical and didactic alternatives which arose from the three previous parts of the research. The study concludes that a communitarian Christian education which is methodologically oriented by projects can provide the pre-adolescents - through religious and personal narratives, research and dialogue – with participative experience and leadership, providing support and encouragement to build identity in the religious and communitarian environment, despite the increasing uncertainty of contemporary Western society. Keywords: Communitarian Christian education, pre-adolescence, contemporary society, anthropological faith, projects. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 7 1 O DESENVOLVIMENTO DO ENSINO CONFIRMATÓRIO NA IECLB E O DA PRÉ-ADOLESCÊNCIA NA SOCIEDADE ............................................................. 11 1.1 O objeto da pesquisa................................................................................. 11 1.2 O contexto de participação comunitária .................................................... 12 1.3 O discurso do sujeito pré-adolescente no seu contexto comunitário religioso ........................................................................................................... 25 1.4 O desenvolvimento da pré-adolescência na história ................................. 28 2 A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E A PRÉ-ADOLESCÊNCIA .................... 45 2.1 A educação cristã junto a pré-adolescentes na sociedade contemporânea45 2.2 A modernidade .......................................................................................... 48 2.3 Pós-modernidade ou hipermodernidade ................................................... 50 2.3.1 Lyotard e o fim das metanarrativas .................................................... 60 2.3.2 Gilles Lipovestky e a hipermodernidade............................................. 66 2.3.3 Sébastien Charles e a hipermodernidade .......................................... 71 2.4 Os desafios de uma educação cristã luterana comprometida com este tempo .............................................................................................................. 74 3 A FÉ ANTROPOLÓGICA E SUA IMPORTÂNCIA PARA A EDUCAÇÃO CRISTÃ83 3.1 A fé antropológica...................................................................................... 83 3.1.1 Paul Tillich .......................................................................................... 85 3.1.2 Juan Luis Segundo............................................................................. 93 3.1.3 James Fowler ..................................................................................... 98 4 A EDUCAÇÃO CRISTÃ COMUNITÁRIA E OS PROJETOS DE TRABALHO . 117 4.1 As descobertas provenientes da experiência .......................................... 117 4.2 Considerações da pesquisa .................................................................... 120 4.3 A proposta educativa do PECC ............................................................... 127 4.4 Os projetos de trabalho ........................................................................... 131 CONCLUSÃO ..................................................................................................... 139 REFERÊNCIAS................................................................................................... 141 ANEXO A – QUESTIONÁRIO ............................................................................. 147 ANEXO B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO............. 151 ANEXO C – SISTEMATIZAÇÃO DOS DADOS DO QUESTIONÁRIO ................ 154 ANEXO D – DIÁRIO DE CAMPO 31/03/2010...................................................... 173 6 ANEXO E – DIÁRIO DE CAMPO 14/04/2010 ...................................................... 174 ANEXO F – DIÁRIO DE CAMPO 17/04/2010 ...................................................... 175 ANEXO G – DIÁRIO DE CAMPO 05/05/2010 ..................................................... 176 ANEXO H – TABELA 23. DESENHE DEUS E EXPLIQUE O SEU DESENHO ... 177 INTRODUÇÃO O grupo de ensino confirmatório da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB é um grupo tradicional, que, na sua atual configuração remonta ao período da Reforma Protestante, reunindo o público pré-adolescente. Este grupo atinge o maior percentual de membros por faixa etária na IECLB, no entanto, esta é uma realidade em constante mudança, pois a participação tem se mostrado preocupante em vários aspectos nas últimas décadas. A cada ano, em muitas comunidades da IECLB, o número de pré-adolescentes que participam do grupo diminui e aqueles que participam não demonstram vontade de continuar participando. Muitos/as orientadores/as desses grupos, tanto lideranças leigas quanto ministros/as ordenados/as, lamentam não saber como agir frente a essa realidade. Este lamento pode vir de uma falta de subsídios para compreender o contexto do grupo de ensino confirmatório na história da IECLB e as características que compõem a fase da pré-adolescência. O acesso e a conscientização destas questões podem auxiliar estes/as orientadores/as na elaboração de alternativas de trabalho no âmbito da educação cristã contínua com pré-adolescentes. Esta dissertação visa ir ao encontro destas preocupações. Ela tem como objeto de pesquisa uma ação pedagógico-didática contextualizada na dinâmica da fé na fase da pré-adolescência situada no contexto contemporâneo urbano de uma comunidade da IECLB. O objetivo da pesquisa quer propor alternativas para a ação pedagógico-didática confessional junto ao público pré-adolescente urbano. Esta pesquisa se dará metodologicamente por meio de revisão bibliográfica, combinada à pesquisa empírica, através de um estudo de caso único com observação de campo, tendo como principal instrumento de pesquisa a aplicação de um questionário. O questionário é composto de 23 perguntas, sendo que apenas a primeira pergunta é fechada, para saber o sexo dos investigados, e as outras são abertas. A sistematização e análise do questionário serão efetuadas qualitativamente partindo de categorias de análise retiradas dos principais referenciais teóricos da pesquisa. O público alvo deste estudo de caso é um grupo de ensino confirmatório, composto por 27 pré-adolescentes entre 11 e 14 anos de idade. O grupo de ensino confirmatório pertence a uma comunidade da IECLB em Novo Hamburgo, situado na 8 região metropolitana de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Os indivíduos pesquisados situam-se economicamente entre a classe média e a média alta. O grupo se reuniu e foi acompanhado pelo período de um ano e três meses, em encontros semanais com duração de uma hora e meia. A metodologia de pesquisa se constitui através de investigação, por meio de pesquisa bibliográfica interdisciplinar e observação de campo, em torno dos aspectos peculiares da pré-adolescência (biológicos, psicológicos e sociais) na sociedade contemporânea que incidem sobre o desenvolvimento da fé; coordenação do grupo de ensino confirmatório em uma comunidade da IECLB, de maneira a conviver com eles e suas famílias, observando suas realidades, dificuldades e possibilidades para a prática pedagógica da educação cristã contínua; elaboração, a partir da pesquisa com o referencial teórico, de um questionário a ser aplicado com os/as pré-adolescentes que frequentaram o grupo de ensino confirmatório; aplicação do questionário junto aos pré-adolescentes, com a presença dos pais ou responsáveis, no último encontro do grupo; sistematização das respostas do questionário, fazendo uso dos referenciais teóricos norteadores da pesquisa; a partir da análise do questionário aplicado, efetuar o diálogo dos resultados do questionário com os referenciais teóricos pesquisados. Inicialmente, investiga-se o desenvolvimento da reflexão histórico- eclesiástica sobre o ensino confirmatório e a confirmação, dando ênfase às reflexões realizadas no âmbito da IECLB até chegar à elaboração do Plano de Educação Cristã Contínua da IECLB – PECC. Posteriormente, efetua-se uma pesquisa do desenvolvimento histórico em torno da concepção de infância, pré-adolescência, adolescência e juventude. Num segundo momento, investigam-se as características da sociedade contemporânea que influenciam na construção da identidade e a dinâmica da fé do/a pré-adolescente, buscando conceituar a pós-modernidade e a hipermodernidade, a partir das metanarrativas. Feito isso, parte-se para o delineamento do conceito de fé, enquanto dimensão antropológica, buscando verificar aspectos peculiares da pré-adolescência (biológicos, psicológicos e sociais) que podem incidir no desenvolvimento da fé nesta fase da vida. Por fim, a partir das descobertas realizadas com os passos elencados acima, pretende-se elaborar alternativas didático-pedagógicas contextualizadas para a dinâmica da fé na préadolescência urbana contemporânea. 9 Estes passos metodológicos constroem cada um dos quatro capítulos desta dissertação, que buscam responder sequencialmente as seguintes perguntas, com suas hipóteses correspondentes que movimentam a pesquisa. O primeiro capítulo se pergunta o que a IECLB objetiva e espera dos/as pré-adolescentes que frequentam o grupo de ensino confirmatório, e como a noção de pré-adolescência foi construída ao longo da história da sociedade ocidental. Estas duas perguntas buscam relacionar as expectativas da comunidade religiosa sobre o pré-adolescente com as expectativas da sociedade sobre ele e sua autocompreensão enquanto sujeito. Parte-se da hipótese de que as expectativas sobre o grupo de ensino confirmatório e a confirmação, ao longo da história da IECLB, se firmam muito mais em uma tradição proveniente do início da modernidade que não considera o pré-adolescente na sua constituição construída atualmente. O segundo capítulo quer responder uma pergunta: Quais as principais influências das características da sociedade contemporânea sobre a dinâmica da fé na pré-adolescência? Esta pergunta busca sua resposta em três filósofos importantes da atualidade que discutem os termos que definem a contemporaneidade: Jean François Lyotard, que defende o termo pós-modernidade, Gilles Lipovetsky e seu discípulo Sebàstien Charles, que defendem o uso do termo hipermodernidade. A discussão dos autores está fundamentada na questão das metanarrativas, ou seja, os grandes discursos que movimentaram as multidões na modernidade. A educação cristã lida diretamente com a metanarrativa do evangelho. A hipótese deste capítulo afirma que com o descrédito das metanarrativas, na sociedade contemporânea, a construção da identidade dos/as pré-adolescentes foi dificultada pela ausência de referenciais sólidos e uma alternativa que pode ser promovida metodologicamente pela educação cristã contínua, na fase da préadolescência, é conectar as pequenas narrativas pessoas e locais à metanarrativa do evangelho. O terceiro capítulo quer investigar a dinâmica da fé na pré-adolescência, perguntando de que maneira o conceito de fé antropológica auxilia na elaboração de uma ação didático-pedagógica adequada para a educação cristã. Para responder a essa pergunta, utiliza-se as ideias de Paul Tillich, Juan Luis Segundo e James Fowler, que entendem a fé como conceito antropológico e trazem elementos importantes para compreender a dinâmica da fé na fase da pré-adolescência. A hipótese que movimenta este capítulo é a de que o conceito de fé antropológica 10 auxilia na valorização do sujeito pré-adolescente em processo de construção da fé, apontando formas pedagógico-didáticas de promoção da relação saudável do sujeito com o objeto de fé e com as “testemunhas referenciais”. As perguntas anteriores remetem ao problema central desta pesquisa, que busca sua resposta na pergunta do quarto e último capítulo desta dissertação: no âmbito da educação cristã, que tipo de ação didático-pedagógica seria mais adequada para o público pré-adolescente, em um meio urbano contemporâneo? Neste último capítulo pretende-se utilizar as descobertas dos capítulos anteriores em diálogo com o PECC e com a teoria dos Projetos de Trabalho de Fernando Hernández e Monserrat Ventura. A hipótese deste capítulo indica que uma proposta alternativa de educação cristã contínua com pré-adolescentes, através dos Projetos de Trabalho, promove experiências de participação e protagonismo capazes de comprometer o/a pré-adolescente de forma concreta, em uma sociedade carente de referenciais sólidos para a construção da identidade. 1 O DESENVOLVIMENTO DO ENSINO CONFIRMATÓRIO NA IECLB E O DA PRÉ-ADOLESCÊNCIA NA SOCIEDADE 1.1 O objeto da pesquisa O objeto de estudo e pesquisa neste capítulo inicial tem como foco o sujeito pré-adolescente inserido no contexto comunitário religioso e familiar. O contexto religioso está representado pelo grupo de ensino confirmatório da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB. Buscar-se-á identificar as características deste contexto, para compreender os seus objetivos e as expectativas que ele deposita no/a pré-adolescente. Posteriormente, no segundo capítulo desta pesquisa, poder-se-á efetuar uma análise sobre o sujeito pré-adolescente e seu contexto localizando-o histórica, biológica, psicológica e socialmente. Efetuar-se-á esta pesquisa aliada a um estudo de caso único, com observação de campo, sendo a pesquisadora coordenadora de um grupo de ensino confirmatório na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão – IECLB, em Novo Hamburgo/RS, pelo período de um ano e dois meses. O públicoalvo desta pesquisa se reunia semanalmente durante uma hora e meia e era composto de 27 pré-adolescentes em idade entre 12 e 13 anos, provenientes, em sua maioria, de famílias de classe média a classe média alta. É parte integrante desta pesquisa um questionário1 com 23 perguntas, sendo que apenas a primeira pergunta é fechada (Tabela 1. Sexo), para determinar a classificação das respostas segundo o sexo. O restante das perguntas são abertas. Apenas uma participante do grupo não respondeu ao questionário, pois não estava presente no dia de sua aplicação, sendo que o total de questionários aplicados somou 26. O questionário foi aplicado no último encontro do grupo, na sala onde se encontravam regularmente dentro da comunidade por um ano e dois meses, com a presença dos pais ou responsáveis. O questionário e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido2 foram apreciados e aprovados pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Escola Superior de Teologia. Estes documentos também foram apresentados e 1 2 Conforme Anexo A – Questionário. Conforme Anexo B – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. 12 devidamente assinados pelos pais dos/as pré-adolescentes, assim como o teor e o objetivo da pesquisa. A Tabela 1. Sexo3 apresenta a classificação dos questionários a partir do sexo, somando 12 questionários respondidos pelo sexo feminino (46,0%), identificados com a Letra F, seguidos de ordem numérica. Os questionários respondidos pelo sexo masculino somam 14 (54,0%), identificados com a letra M e também seguidos de ordem numérica. Os resultados da análise dos questionários serão inseridos ao longo da pesquisa conforme o assunto e objetivos de cada capítulo. Optou-se por classificar as respostas das tabelas do questionário por sexo para considerar as diferenças de gênero construídas nas relações sociais. A análise das diferenças de gênero entre o público pré-adolescente não é objeto desta pesquisa, mas entende-se necessário destacar possíveis diferenças nos discursos dos meninos e das meninas que podem contribuir para a construção de alternativas pedagógico-didáticas que contemplem as possíveis diferenças. Gênero quer dizer, entre outras coisas, falar a partir de um modo particular de ser no mundo, fundado, de um lado, no caráter biológico do nosso ser, e de outro lado, num caráter que vai além do biológico porque é justamente um fato de cultura, de história, de sociedade, de ideologia e de religião.4 O grupo de ensino confirmatório, na IECLB, é um grupo direcionado exclusivamente ao público pré-adolescente (entre 12 e 13 anos de idade). Seu caráter é tradicional e reúne os jovens pelo período de um, dois ou três anos, variando conforme a realidade de cada comunidade, culminando com o culto de confirmação. Este culto comunitário é especial, constituído de liturgia própria, com bênção individual ao/à confirmando/a. 1.2 O contexto de participação comunitária Para se compreender o caráter historicamente tradicional do ensino confirmatório e da confirmação, será trazida uma breve retrospectiva históricoeclesiástica sobre a prática do ensino catequético, elaborada por Manfredo Wachs, 3 As tabelas com a sistematização completa dos dados constam no Anexo C – Sistematização dos dados do questionário. 4 GEBARA, Ivone. Rompendo o Silencio: Uma fenomenologia feminista do mal. São Paulo: Vozes, 2000. p. 107. 13 em sua obra O Ministério da Confirmação. James F. White também auxilia na compreensão desse processo histórico na sua Introdução ao Culto Cristão. Os documentos do Fórum Nacional do Ensino Confirmatório, o Livro de batismo, em sua edição de estudo, e o Plano de Educação Cristã Contínua – PECC, elaborados pela IECLB, são obras atuais que destacam alguns marcos histórico-teológicos sobre o ensino confirmatório e a confirmação no âmbito da IECLB. O ato correspondente à confirmação é a imposição de mãos e a selagem ou unção com óleo. Este ato, segundo James White, já está presente entre a religião judaica, conforme algumas passagens do Antigo Testamento bíblico e significa a transmissão de poder e bênção (Gn 27, 48; 1 Sm 16.13). No Novo Testamento o mesmo ato significa a recepção do Espírito Santo (1 Pe 2.9; At 2.38; At 19.6; Ap 5.10). Analisando os textos do Novo Testamento, White indica que a prática da selagem com óleo foi sendo vinculada ao Batismo, pois atestava a recepção do Espírito Santo nos/as batizados/as.5 O ensino catequético estava aliado a estes ritos. A prática do ensino catequético tem suas origens já no início do cristianismo, conforme relata a Didaqué (90 – 100 d.C.). Segundo Wachs, esse ensino surge de uma preocupação com o preparo dos/as candidatos/as ao Batismo cristão, sendo que até o século V, na primeira tradição da Igreja, o Batismo e a imposição de mãos (que equivale hoje à confirmação) formavam uma unidade de iniciação cristã. Essa iniciação poderia durar até três anos de instrução, exorcismos e renúncias, jejuns, penitências, orações, sendo que os não batizados não deveriam participar da Santa Ceia. Isso acontecia pela primeira vez após o Batismo. Até esse momento está se falando do Batismo de adultos. Com o tempo foi introduzido, cada vez mais, o Batismo de infantes, e essa sequência foi sendo modificada. Já não se imergiam mais as pessoas, mas jogava-se três vezes água na cabeça da criança. Exorcismo e renúncia passaram a fazer, de alguma forma, parte do próprio rito batismal como, por exemplo, a unção com óleo, vestir a criança com roupas brancas e entregar uma vela acesa.6 A partir do século V, o ritual do Batismo foi sendo separado de todo o grande bloco de ensino da iniciação cristã, principalmente da vida comunitária. Entre os 5 6 WHITE, James F. Introdução ao Culto Cristão. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 155-156. BRAND, Eugene L. Batismo: uma perspectiva pastoral. São Leopoldo: Sinodal, 1982. p. 20. 14 luteranos a sua importância foi sendo transferida para a confirmação, e entre os católico-romanos para a primeira comunhão e crisma: A ruptura da unidade da iniciação cristã e a separação dos ritos pósbatismais ocorrem basicamente devido: a) à conversão em massa; b) à generalização do Batismo de crianças; e c) ao fato de os presbíteros assumirem funções sacramentais, como o Batismo de crianças, reservado anteriormente ao bispo. Só após essa ruptura, os ritos pós-batismais e a ação do bispo são qualificados, respectivamente, de confirmatio e confirmare. As reflexões posteriores reconhecem nestes ritos a característica de um sacramento. 7 Pedro Kalmbach, ao analisar esta pesquisa histórica efetuada por Wachs, destaca a importância de se considerar o desenvolvimento da estrutura ministerial e os jogos de poder que se produziram na Igreja Ocidental. Ele observa que com o aumento de pessoas a serem batizadas, a administração do Batismo, que normalmente era assumida pelos bispos, passou a ser efetuada pelos presbíteros. No entanto, “para manterem um certo controle e não perderem parte de seus direitos, os bispos exigiram a consignação (imposição de mãos, unção, sinal da cruz) para si.”8 Como havia data fixa para realizar o Batismo (Páscoa e Pentecostes) e os bispos não poderiam estar em todos os lugares ao mesmo tempo, houve a separação entre a consignação e a lavagem batismal. Com o Batismo de infantes, por motivo de a criança não ter consciência do compromisso com a fé cristã, o ensino passa a se concentrar na fase da vida em que ela já pode responder por si mesma. A prática generalizada da confirmação no período da pré-adolescência, desde o século XII, desencadeou a reflexão que fez com que o Concílio de Florença (1439) decretasse a confirmação como um segundo sacramento. Inclusive a Santa Ceia é vetada até que a pessoa passe pelo período de aprendizagem e confirmação, demonstrando perante a comunidade o conhecimento de sua fé. Até o séc. 12 as crianças ainda participavam da comunhão tocando-lhes o sacerdote a boca com o dedo mindinho molhado de vinho. O medo de derramar o vinho consagrado acabou levando à suspensão da recepção do vinho por todos os leigos de qualquer idade. Às crianças era negada a comunhão até chegarem à idade da razão [...]. A confirmação foi gradativamente protelada até os anos de discernimento, o que veio a significar ao menos 7 anos de idade.9 7 WACHS. Manfredo. O Ministério da Confirmação: contribuição para um método. São Leopoldo: IEPG-EST; Sinodal, 1998. p. 19. 8 KALMBACH, Pedro. Batismo e confirmação nos primeiros cinco séculos da Igreja Cristã. Estudos Teológicos, São Leopoldo, ano 42, n. 3, p. 17-28, 2002. p. 24. 9 WHITE, 2005, p. 160. 15 No período da Reforma, a partir das influências do humanismo, Erasmo de Rotterdam coloca o/a confirmando/a no centro das reflexões sobre a confirmação. A pedagogia se torna uma preocupação que antecede o sacramento, pois para ele a confirmação significa “uma renovação pública da promessa batismal”, e deve ser feita de maneira pessoal, com consciência e responsabilidade.10 Lutero, ao definir o sacramento como instituído por Deus através de sua Palavra, conforme Mt 28.18s e Mc 14.22s, aliada a um elemento visível, no caso do Batismo a água e da Santa Ceia o pão e o vinho, nega à confirmação o caráter de sacramento. No entanto, Lutero também delega ao ensino confirmatório, assim como os demais reformadores, grande importância no preparo do/a pré-adolescente para a participação na Santa Ceia. O exame de conhecimento deveria ser feito diante do pastor, individualmente. Ele não isenta os pais da responsabilidade no processo de educar na fé, tanto que elabora o Catecismo Menor, na forma de perguntas e respostas, para servir de material a ser usado em casa para a instrução das crianças e dos/as pré-adolescentes.11 A partir dessa compreensão luterana, o ensino confirmatório possui adesão total entre os pré-adolescentes, pois caso não cumprissem este requisito, não poderiam participar da Santa Ceia e consequentemente assumir o papel de padrinhos, madrinhas, receber a bênção matrimonial e assumir qualquer cargo no presbitério da sua comunidade. Com o Iluminismo se consolida o conceito de infância, que não existia, tal como o compreendemos hoje. A idade adulta inicia então aos 14 anos de idade e com isso a confirmação se constitui também como um rito de passagem da infância à idade adulta, e passa a assumir fortes características moralistas, principalmente entre a burguesia.12 Um exemplo disso é a prática de permitir a participação do/a adolescente nos bailes somente após a confirmação, quando o/a jovem poderia aparecer perante a sociedade e buscar seu/sua pretendente a namoro e casamento. Com as mudanças históricas, tanto socioculturais quanto religiosas, ocorridas a partir de meados do século XIX, acontecem reflexões nas igrejas filiadas à Federação Luterana Mundial – FLM13, em torno da prática do ensino confirmatório considerada já insatisfatória. A FLM passa a promover pesquisas e conferências em 10 WACHS, 1998, p. 22. WACHS, 1998, p. 25. 12 WACHS, 1998, p. 29. 13 A IECLB é filiada à FLM desde 1950. 11 16 torno do tema. O primeiro relatório de pesquisa é apresentado na 4ª Assembléia Geral da FLM, no ano de 1963, na Finlândia.14 Entre 1990 e 1994, a FLM promove diversas conferências e reuniões nos diversos continentes. Elas visam conhecer a prática e a reflexão sobre a confirmação nas igrejas membro, auscultar as tendências e os desafios que delas advêm e compartilhá-los com as demais. Essas conferências culminam com a realizada na Noruega em maio de 1994 sob o tema “Confirmação na jornada de fé ao longo da vida”.15 A partir de uma pesquisa efetuada por Wachs sobre o material didático elaborado na IECLB para o ensino confirmatório, entre os anos de 1896 e 1960, percebe-se que a prática do ensino consistia na instrução sobre a fé evangélica privilegiando a memorização, tendo como material principal o Catecismo Menor.16 Observa-se com essa prática que o Catecismo Menor já não era mais usado pela família, conforme orientou Martin Lutero, mas tornou-se um material exclusivo do ensino confirmatório a ser decorado e declarado diante do/a ministro/a ordenado/a e da comunidade no dia da confirmação. A ênfase na memorização colocou em segundo plano o processo de reflexão sobre o conteúdo que estava sendo decorado. A culminância do ensino com o rito da confirmação, quando o/a confirmando participava pela primeira vez da Santa Ceia, unido a uma avaliação pública do conteúdo confessional, fazia com que a confirmação fosse antes um evento traumático para o/a adolescente do que significativo. Pedro Kalmbach traz uma reflexão em torno da vivência do Batismo e o caráter constrangedor da confirmação: Levando em consideração que o batismo chama a uma resposta, mas que a mesma não pode ser forçada nem induzida a partir de uma tradição ou de outro tipo de pressão, a confirmação não pode ser entendida como uma profissão de fé ou como a expressão pública de um compromisso. Estas, em todo caso, deveriam realizar-se por vontade e por iniciativa da própria pessoa, o que implica que não existe limite de idade e que poderia realizarse várias vezes na vida. (tradução nossa)17 14 WACHS, 1998, p. 30. WACHS, 1998, p. 39. 16 WACHS, 1998, p. 53-57. 17 Teniendo en cuenta que el bautismo llama a una respuesta, pero que la misma no puede ser forzada ni inducida a partir de una tradición o de outro tipo de presión, la confirmación no puede ser entendida como una profesión de fe o como la expresión pública de un compromiso. Estas, en todo caso, deberían realizarse por volundad y por iniciativa de la propria persona, lo cual implica que no existe limite de edad y que podría realizarse varias veces en la vida. KALMBACH, Pedro. Bautismo y educación: contribuciones para el actuar pedagógico comunitario. Buenos Aires: El autor, 2005. p. 259. 15 17 A partir de um longo período de decoração de alguns conteúdos, era esperado do/a pré-adolescente, aos 12 ou 13 anos de idade, o reconhecimento de um profundo significado da confessionalidade cristã luterana a ponto de professar publicamente que estava preparado para assumir a sua responsabilidade enquanto membro do corpo de Cristo, como uma resposta ao Batismo recebido quando criança. Muitas vezes, este sujeito não possuía uma caminhada de participação comunitária desde o seu Batismo, participando do grupo de crianças, por exemplo, nem mesmo um diálogo sobre a sua confessionalidade no ambiente familiar. No entanto, a discussão iniciada pela FLM acaba trazendo consequências para a reflexão teológica e pedagógica sobre o ensino confirmatório na IECLB, cuja prática começa a ser transformada a partir da década de 1960, com a produção de materiais que procuram superar a memorização e promover a educação cristã e o comprometimento da pessoa com a fé cristã luterana para as demais fases da vida. Na década de 1970 é iniciada uma busca crescente por renovação, tanto no âmbito da liturgia como da educação cristã, para que fossem mais participativas e envolventes. Com esse movimento surge a discussão sobre a inclusão das crianças na Santa Ceia. Lothar C. Hoch, em seu artigo de 1987, apresenta vinte teses a favor da participação das crianças na Santa Ceia, indicando o início das reflexões em torno da temática na IECLB: A participação de crianças não confirmadas na celebração da Santa Ceia é um tema que só agora começa a ser debatido no âmbito da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Por ser um tema novo que contraria a prática vigente em nossa igreja desde os seus primórdios, ele é necessariamente controvertido.18 Em sua nona tese, Hoch relembra que a intenção dos reformadores em preparar o/a pré-adolescente para participar da Santa Ceia conscientemente, através do ensino confirmatório e da confirmação, não se mostrou eficaz. Nesta tese ele acrescenta: Para muitos adolescentes as circunstâncias que envolvem a sua primeira participação na Ceia são antes de natureza traumática do que um estímulo para uma participação espontânea e significativa no futuro. O automatismo e a quase obrigatoriedade de participarem na Santa Ceia resultante de uma pressão externa dos familiares, dos demais confirmandos e, por vezes, até mesmo do(a) pastor(a) criam uma atmosfera incompatível com o espírito da Eucaristia.19 18 HOCH. Lothar C. Celebração da Santa Ceia com crianças. 20 teses sobre um tema controvertido. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 27, p. 163-169, 1987. p. 163. 19 HOCH, 1987, p. 165-166. 18 O Livro de Batismo da IECLB em sua edição de estudo, do ano de 2007, 20 anos mais tarde, ainda destaca a temática como atual e traz sugestões para a compreensão e a prática da confirmação. Quanto à atual confirmação, levantam-se na reflexão batismal recente as seguintes sugestões: entender e praticar esse período de instrução dentro do contexto abrangente de uma educação cristã continuada que se estende por toda a vida; abandonar a designação confirmação, devido ao seu duplo significado; devolver a unção pós-batismal com a imposição de mãos à liturgia batismal; celebrar a profissão de fé dos e das jovens dentro de um culto comunitário de recordação do batismo; dá-se por entendido que a conclusão de tal período catequético não pode permanecer como condição para participar na mesa do Senhor.20 A proibição da participação das crianças na Santa Ceia, antes da confirmação, retira do sacramento o seu caráter sacramental. Tanto na instituição da Santa Ceia quanto no Batismo, Deus não impõe condições para a participação. No sacramento Deus age em amor, se revela graciosamente, independente do mérito humano. Nesse sentido, a consciência plena acerca do significado da Santa Ceia não deve ser um pré-requisito para a comunhão. Falta de fé não invalida o batismo. A oferta e a fidelidade de Deus permanecem, mesmo onde a resposta for insistente ou inadequada. Nem mesmo a dúvida ou uma fé vacilante diminuem o fato de que no nosso batismo Deus nos acolheu. Podemos constantemente recorrer a esse acontecimento e contar com a fidelidade de Deus.21 No entanto, o sacramento não deve ser recebido de forma irresponsável, correndo o risco de ser banalizado e perder seu significado para a vida comunitária. Nesse sentido, pais, padrinhos, madrinhas e a comunidade devem assumir a sua responsabilidade na educação cristã contínua das crianças batizadas, com a qual se comprometem no culto de Batismo. Uma educação cristã planejada e responsável edifica a comunidade, construindo momentos significativos nos vários espaços de aprendizagem na fé. Pedro Kalmbach, a partir de um estudo sobre o Batismo, constata que o ensino confirmatório é o principal espaço educativo, quando não o único, nas igrejas provenientes do protestantismo. O Catecismo Menor é o material utilizado de grande referência. O objetivo do ensino confirmatório é preparar o/a pré-adolescente para 20 IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA. Livro de batismo: edição de estudo. São Leopoldo: Oikos, 2007. p. 38-39. 21 IECLB, 2007, p. 28. 19 uma confissão de fé e um compromisso público como membro da igreja, podendo assim receber a permissão para participar da Santa Ceia. O problema dessa prática é que ela retira do Batismo sua principal função, que é a de inserir a pessoa como membro pleno do corpo de Cristo.22 O batismo somente pode ser entendido como inclusão ao Corpo de Cristo na medida em que as pessoas batizadas são admitidas na eucaristia. Entender a confirmação como condição para a admissão à comunidade eucarística significa reduzir o significado do batismo e dar maior importância e transcendência à confirmação do que ao próprio batismo. Neste caso, as pessoas batizadas, mas não confirmadas não seriam membros plenos da igreja (Corpo de Cristo), o que significa uma verdadeira contradição. Vale dizer, a confirmação não pode ser entendida como condição para a admissão à eucaristia. (tradução nossa)23 A participação das crianças na Santa Ceia promove uma reflexão crescente sobre a educação cristã contínua na IECLB, na medida em que torna mais concreto o aspecto iniciatório e comprometedor do Batismo e retira o “peso” do ensino confirmatório em relação ao acúmulo de conteúdos e ao caráter formador exclusivo. A educação cristã deve acontecer desde o Batismo e é compromisso dos pais, padrinhos, madrinhas e comunidade. Os conteúdos confessionais não devem estar concentrados no ensino confirmatório, mas distribuídos em todas as fases da vida, sendo construídos em relação com o cotidiano, vivenciados com sentido e significado desde a infância. A importância da educação continuada na fé se evidencia no IX Concílio Geral, em outubro de 1974, em Cachoeira do Sul/RS, com a elaboração e aprovação da proposta do Catecumenato Permanente. Em novembro de 1973 aconteceu a Miniconsulta sobre o Ensino Confirmatório e Confirmação e logo depois, em julho de 1974, realizou-se a Consulta de Âmbito Nacional sobre o Ensino Confirmatório e Confirmação. Reflexões posteriores aconteceram em simpósios e fóruns sobre o ensino confirmatório, mas continuamente transpareceu a dificuldade de colocar em prática 22 KALMBACH, 2005, p. 257-258. El bautismo solamente puede ser entendido como inclusión al Cuerpo de Cristo en la medida que las personas bautizadas son admitidas a la eucaristia. Entender la confirmación como condición para la admición a la comunidad eucarística significa reducir el significado del bautismo y dar mayor importancia y transcendencia a la confirmación que al proprio bautismo. En este caso, las personas bautizadas pero no confirmadas no serían membros plenos de la Iglesia (Cuerpo de Cristo), lo cual significa un verdadero contrasentido. Vale decir, la confirmación no puede ser entendida como condición para la admisión a la eucaristía. KALMBACH, 2005, p. 258. 23 20 nas comunidades toda a reflexão realizada, desde a elaboração de materiais coerentes para os grupos até a sua aplicação. Em agosto de 2003, a presidência da IECLB convoca o Fórum Nacional de Ensino Confirmatório, realizado em Rodeio 12/SC. Conforme apresentado pelo então presidente da IECLB, Walter Altmann: O Fórum Nacional de Ensino Confirmatório propõe a criação de um plano de Educação Cristã para a IECLB, que tenha por finalidade a Formação Cristã Continuada à luz do Batismo, sendo o ensino confirmatório apenas um dos momentos – embora privilegiado – no processo de aprendizagem e de testemunho da fé.24 O Fórum Nacional de Ensino Confirmatório parte da compreensão de que a confirmação não pode ser encarada como uma espécie de formatura na fé. A educação cristã deve acontecer continuamente durante todas as fases da vida. A concentração da educação cristã na pré-adolescência era uma realidade na Igreja Luterana e sobrecarregava-os através da exigência de memorização dos conteúdos confessionais. No fórum foi apresentado um relatório de pesquisa sobre o ensino confirmatório e a confirmação na IECLB. O questionário da pesquisa foi elaborado e aplicado entre os anos de 2001 e 2002 e todos os 18 sínodos da IECLB retornaram os questionários, embora a percentagem total de questionários que foram devolvidos esteja abaixo dos 50,0%. Os objetivos da pesquisa foram: a) levantar dados organizacionais sobre o ensino confirmatório e a confirmação na IECLB visando a subsidiar a prática educativa, o planejamento de seminários de capacitação de orientadores e orientadoras e a formação de obreiros e obreiras; b) avaliar e revisar o material didático Passos na Fé, visando à sua reedição revista e atualizada.25 O relatório de pesquisa apresentou dados extremamente relevantes sobre o ensino confirmatório, dos quais se destacam os seguintes: • O envolvimento das famílias se dá através de reuniões para tratar das tarefas de casa dos/as confirmandos/as (35,8%) e de assuntos técnicos (33,3%). O que “indica a falta de planejamento de um trabalho que vá além do encontro tipo ‘aula’”.26 24 IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL. Ensino Confirmatório e Confirmação: memória do Fórum Nacional de Ensino Confirmatório. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 6. 25 IECLB, 2005, p. 62. 26 IECLB, 2005, p. 79. 21 • As principais dificuldades na prática educativa do ensino confirmatório são a falta de envolvimento dos pais (12,05%), a pouca integração na comunidade por parte dos/as confirmandos/as (11,17%) e o desinteresse dos/as confirmandos/as (10,05%). • As modalidades de avaliação que prevalecem são a participação nas atividades (28,92%) e teste por escrito (25,10%). • A percentagem média dos/as adolescentes que continuam participando de atividades regulares na comunidade após a confirmação é de 31,14%, percentual igual à média de participação no grupo de crianças. Indicando que o trabalho da educação cristã contínua, desde a infância tem papel fundamental para a continuidade na participação comunitária. Os resultados da pesquisa apontam para a falta de significado do ensino confirmatório para o público com o qual atua, pois não se mostra capaz de envolver os/as pré-adolescentes nas atividades comunitárias enquanto participam do grupo e também não promove continuidade na participação. Um dos grandes objetivos do ensino confirmatório, que é formar membros conscientes de sua confessionalidade e responsáveis diante da comunidade, não está se evidenciando na prática. Uma das principais dificuldades constadas é o envolvimento dos pais. No entanto, eles são chamados nas reuniões apenas para tratar de assuntos técnicos e tarefas dos/as confirmandos/as. O envolvimento dos pais não é planejado de modo a se envolverem comunitariamente. O compromisso é esperado dos/as confirmandos/as, mas não de seus responsáveis. A presença de métodos de avaliação para os/as confirmandos/as pressupõe a atitude da comunidade na aprovação ou reprovação do/a confirmando/a, que não possui justificativa teológica ou pedagógica e que o diferencia dos demais grupos comunitários existentes na IECLB. Não há prática de utilização de métodos de avaliação para os grupos de crianças, jovens e adultos e também não existem as tarefas de casa. O processo de aprendizagem na fé é contínuo e não pode ser verificável. Além disso, métodos de avaliação que estão direcionados somente ao desempenho do/a confirmando/a e não aos métodos de ensino-aprendizagem que estão sendo utilizados com este público, não têm razão de ser. Constata-se com essa pesquisa a falta de apropriação, por parte dos/as orientadores/as, das reflexões teológicas e pedagógicas em torno do ensino confirmatório e da confirmação e também sobre a educação cristã contínua. Este 22 quadro é preocupante, considerando que 95,6% declaram investir no preparo pessoal para realizar a orientação do grupo. A partir das reflexões ocorridas neste fórum, aconteceram alguns encaminhamentos com o objetivo de planejar e concretizar a educação cristã continuada na IECLB: [...] constituição de um Grupo Coordenador de Educação Cristã Contínua (2005); planejamento e realização de três seminários nacionais de ECC (outubro de 2005, maio de 2006 e outubro de 2007); constituição do departamento de Educação Cristã da IECLB – DEC (2006), maior integração entre o DEC e a Coordenação de Diaconia; decisão de elaborar um programa de educação cristã.27 Com isso, a partir de uma construção e reflexão conjunta entre a Secretaria de Formação da IECLB, o Departamento de Educação Cristã - DEC, a Coordenação de Diaconia, os representantes sinodais e os três centros de formação de ministros na IECLB, no ano de 2011, a IECLB publicou o Plano de Educação Cristã Contínua da IECLB – PECC.28 O PECC tem como objetivo “orientar, teológica e pedagogicamente, todas as instâncias da IECLB no planejamento e na execução de ações de educação cristã para todas as fases da vida, com vistas ao melhor cumprimento da missão de Deus.”29 Este documento será analisado e utilizado no quarto e último capítulo desta dissertação para a elaboração de alternativas pedagógico-didáticas na prática da educação cristã junto ao grupo de ensino confirmatório. Percebe-se, com a elaboração deste documento, que a tarefa de distribuir os conteúdos confessionais para cada fase da vida se tornou mais clara e concreta. E neste momento a IECLB se ocupa com a elaboração de um novo material para o ensino confirmatório que substitua o atual, denominado Passos na Fé. Constata-se, a partir do resgate histórico eclesiástico anterior, que as reflexões teológicas acontecem de forma lenta, tal como o seu desdobramento na prática comunitária. Existe um grande apreço pela tradição, representada pelo ensino confirmatório e pela confirmação, tanto por parte dos membros quanto pelos ministros e ministras ordenadas na IECLB. Esse sentimento é compreensível pelo fato de que a grande maioria dos membros e ministros/as frequentou o grupo, assim 27 IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL. Plano de Educação Cristã Contínua da IECLB - PECC. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: IECLB, 2011. p. 11. 28 IECLB, 2011, p. 12. 29 IECLB, 2011, p. 13. 23 como seus pais e avós, e vivenciaram esta experiência como marcante, pelo seu caráter de rito de passagem, mesmo que, muitas vezes, traumático. Estas pessoas, sem uma nova reflexão profunda sobre a história e a teologia do ensino confirmatório, da confirmação e do Batismo, assim como de seu significado, irão reproduzir naturalmente aquilo que vivenciaram. O guia da vida comunitária na IECLB Nossa Fé – Nossa Vida, aprovado no XXIII Concílio da IECLB em outubro de 2002, quer orientar os membros na sua vida e missão através de perguntas e respostas. Neste documento, a confirmação é apresentada como uma resposta à ação de Deus no Batismo. A aliança feita por Deus no Batismo requer uma resposta pessoal: “Sim, Senhor, quero viver contigo em tua comunidade e servir-te com meu tempo, meus dons, talentos e bens.”30 A simples caracterização da confirmação neste documento revela o caráter formal e privilegiado do ensino confirmatório enquanto espaço de educação cristã na IECLB. O conteúdo dessa caracterização somente confirma este privilégio construído ao longo dos anos. Selecionaram-se as seguintes perguntas e respostas para consideração: Como nos preparamos para a Confirmação? Participamos do ensino confirmatório a partir dos onze anos, em encontros e cursos, seminários e retiros, com duração mínima de 50 horas. Qual a finalidade do preparo? O preparo nos quer ensinar as bases da fé, através da mensagem bíblica, da confissão de nossa Igreja, do testemunho do Catecismo Menor e da vivência da comunhão cristã. O preparo também quer facilitar a experiência e prática de uma vida de fé e amor. Como parte do preparo pode haver, após devida conscientização, a celebração da Ceia do Senhor, no grupo do ensino confirmatório. Qual a finalidade do culto de apresentação de confirmandos e confirmandas? O preparo é concluído num culto, antes da Confirmação, em que os confirmandos e as confirmandas, juntamente com seus pais, mães, padrinhos e madrinhas e a comunidade, participam de um diálogo. Nele é evidenciado que os jovens foram instruídos conscienciosamente nas principais partes da fé evangélica de confissão luterana, que implica participar ativamente da vida comunitária. O que resulta da Confirmação? A Confirmação compromete com a participação responsável na vida comunitária: participar nas celebrações, nos grupos de estudo e serviço e nas assembleias; servir de madrinha ou padrinho no Batismo e de testemunha na bênção matrimonial; contribuir com seu tempo, seus dons e seu dinheiro. Assim a nossa Confirmação, como dom e compromisso, nos fortalece e incentiva a viver diariamente o Batismo.31 30 IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL. Nossa fé, nossa vida: guia da vida comunitária na IECLB. Nova edição, revisada e ampliada. São Leopoldo: Sinodal, 2002. p. 30. 31 IECLB, 2002, p. 31-34. 24 A resposta à primeira pergunta estabelece o critério da idade e do tempo de instrução para que o culto de confirmação possa acontecer. A segunda resposta, que explica a finalidade do ensino confirmatório, apresenta como objetivos o ensino das bases da fé e a experiência de fé e amor. Esta justificativa não é exclusiva do ensino confirmatório, é algo que acontece e deve acontecer em todos os grupos da IECLB, em todas as fases da vida, desde o Batismo. No final da resposta se apresenta a conscientização como critério para celebrar a Santa Ceia. Resquícios de uma compreensão do sacramento que privilegia a razão, como já tratado anteriormente. A importância de um momento de avaliação é colocada na resposta à terceira pergunta. O critério de avaliação é novamente a consciência da fé na confissão luterana para que dela resulte compromisso. Como resultado da confirmação há a permissão para ser madrinha ou padrinho e testemunha na bênção matrimonial e ter uma participação responsável na vida comunitária. Constata-se com isso que as expectativas direcionadas aos/às préadolescentes são grandes ao completarem apenas 13 ou 14 anos de idade. As características delegadas ao ensino confirmatório e à confirmação provêm de uma época em que o indivíduo com 14 anos de idade poderia responsabilizar-se por si mesmo, trabalhar, casar e sair de casa. Hoje, toda essa responsabilidade sobre si e perante a sociedade é postergada, pelo menos, para quando o jovem completar 18 anos de idade. A prática da confirmação e as expectativas em torno dos/as préadolescentes, além de não conseguirem mais atingir os objetivos a que se propõem, fazem com que os mesmos se afastem deste tipo de experiência pelo nível de compromisso exigido. Ou o ensino confirmatório reavalia seus objetivos e práticas ou corre o risco de tornar-se ainda mais obsoleto. Percebe-se que a autocrítica da educação cristã, em contexto brasileiro contemporâneo, é escassa, principalmente quanto à importância de seu papel para a qualidade da vivência da fé comunitária diante dos novos desafios que se apresentam. A educação cristã, conforme analisa o teólogo Julio Zabatiero, encontra-se estagnada, fazendo uso de uma pedagogia inadequada e irrefletida para o tempo que vivemos. A análise das atividades educacionais na igreja, em geral, demonstra que utilizamos uma pedagogia antiquada, incapaz de atingir os objetivos da educação cristã, basicamente uma cópia do tradicional modelo pedagógico brasileiro que privilegia o intelecto e o teórico em detrimento do existencial e do concreto. É, ainda, uma pedagogia individualista e alienante, pois não 25 capacita o aluno a viver comunitariamente nem a entender plenamente sua realidade para poder transformá-la.32 O desafio de elaborar alternativas pedagógico-didáticas para o ensino confirmatório se renova à medida que as características histórico-culturais e religiosas se modificam. A cada ano, constata-se um decréscimo na participação dos/as pré-adolescentes no ensino confirmatório, embora ainda seja um grupo privilegiado em relação aos demais, por suas características tradicionais, como o grande percentual de participação entre os/as membros pré-adolescentes e por reunir o mesmo público durante longo tempo e culminar com um rito próprio. Os demais grupos destinados ao público jovem, como mostrou a pesquisa citada anteriormente, também não reúnem um número satisfatório de participantes, ou seja, o percentual de continuidade é baixo. A tradição, portanto, parece ser o principal motivo da participação de um grande número de pré-adolescentes no ensino confirmatório. Nesse sentido, torna-se imperativo, após um longo período de reflexão teológica sobre o ensino confirmatório e a confirmação, culminando com a elaboração do PECC, direcionar um olhar específico ao público pré-adolescente que frequenta o ensino confirmatório. Antes de elaborar alternativas de trabalho no âmbito da educação cristã, junto ao/à pré-adolescente, é necessário perguntar quais são as linguagens desse público, seus interesses, angústias e preocupações, de maneira que os conteúdos teológico-confessionais a serem selecionados para essa fase da vida, assim como a abordagem didática, façam sentido para a vida cotidiana. 1.3 O discurso do sujeito pré-adolescente no seu contexto comunitário religioso Buscar-se-á neste momento, portanto, delinear e compreender o sujeito préadolescente, que passa a conviver intensamente no contexto comunitário religioso descrito acima. Essa convivência, na maioria dos casos, é incentivada pelos pais, que também participaram do grupo em sua pré-adolescência e ainda o compreendem a partir de suas características tradicionais. Dificilmente a participação no grupo é uma vontade que parte do/a pré-adolescente. A Tabela 2. 32 ZABATIERO, Julio. Novos caminhos para a educação cristã. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 25 26 Por que você começou a participar dos encontros do grupo de ensino confirmatório? Revela que 50,0% das meninas alegam ter iniciado a sua participação no grupo por influência dos pais. Entre os meninos essa percentagem atinge 78,6%. Ao iniciar a participação no grupo de ensino confirmatório, poucos dos/as pré-adolescentes têm uma participação significativa anterior e alguns passam a conhecer a sua comunidade somente através da participação no grupo. Como demonstra a Tabela 3. Você conhecia a sua comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório?, quando as meninas são perguntadas se conheciam sua comunidade antes de participar do grupo, 75,0% responderam que conheceram sua comunidade através dos pais e avós, quando as levavam aos cultos, e as outras que representam 25,0% não conheciam sua comunidade até então. Entre os meninos a percentagem dos que não conheciam a sua comunidade é um pouco maior, compreendendo 28,5%. Os meninos que responderam sim, compreendendo 71,5% das respostas, disseram que conheceram sua comunidade, principalmente, também através de familiares (pais e avós) que os levavam aos cultos. No entanto, mesmo que praticamente um quarto dos/das pré-adolescentes não conhecia sua comunidade religiosa, a percentagem daqueles que não conheciam narrativas bíblicas é menor. As narrativas bíblicas estão presentes em outros ambientes, como no lar, através dos pais, avós, padrinhos, madrinhas e na escola. Somente entre os meninos, segundo a Tabela 4. Você conhecia alguma história bíblica antes de participar do ensino confirmatório?, a percentagem daqueles que não conheciam histórias bíblicas se aproxima daqueles que não conheciam sua comunidade religiosa, ficando em 21,4%. Apesar da presença daqueles que não conheciam narrativas bíblicas, todos possuíam uma ideia sobre Jesus Cristo e Deus. O resultado dessa pesquisa coincide com as conclusões de Ana Maria Rizzuto, em sua obra O nascimento do Deus vivo: um estudo psicanalítico. Nesta obra, a autora pesquisa sobre a formação da imagem de Deus. Segundo ela, nenhuma criança atinge a idade escolar sem ter formada uma imagem representativa de Deus, pois a sociedade é permeada pelo religioso. [...] cada indivíduo produz, ao longo do desenvolvimento, uma representação idiossincrática e altamente personalizada de Deus derivada de suas relações objetais, suas representações em evolução do self e seu sistema ambiental de crenças. Uma vez formada é impossível fazer com 27 que essa representação desapareça; ela tão-somente pode ser recalcada, transformada ou usada.33 As Tabelas 21 e 22 perguntam quem é Jesus Cristo e quem é Deus e a Tabela 23 pede um desenho de Deus e sua explicação, correspondendo às três últimas perguntas do questionário. As respostas serão aprofundadas no terceiro capítulo desta dissertação, juntamente com os desenhos de Deus e sua explicação elaborada pelos/as pré-adolescentes. Ainda sobre a Tabela 4, as meninas que responderam positivamente, somando um total de 91,7%, alegam ter conhecido histórias bíblicas através dos pais, avós, padrinhos, madrinhas, escola e lendo a Bíblia por iniciativa própria. Já os meninos que responderam positivamente, somando um total de 78,6%, alegam ter conhecido histórias bíblicas através dos pais, avós e da escola. Buscando investigar a trajetória da vida dos/as pré-adolescentes em sua comunidade religiosa e o papel do grupo de ensino confirmatório, três tabelas são analisadas. Conforme a Tabela 5. Você se sente bem na sua comunidade religiosa?, 100% das meninas e 92,8% dos meninos alegam sentir-se bem em sua comunidade. Mesmo que os resultados da Tabela 5 sejam demasiadamente positivos, apenas 75,0% das meninas e 71,0% dos meninos desejam continuar participando da comunidade depois que as reuniões do grupo terminarem, de acordo com a Tabela 9. Depois que o período do ensino confirmatório acabar você gostaria de continuar participando da sua comunidade? Por quê?. A percentagem de meninas e meninos que gostariam de continuar participando em sua comunidade, conforme os valores da Tabela 9, coincide com a percentagem das meninas e meninos que já conheciam a sua comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório, de acordo com os valores da Tabela 3 (75,0% das meninas e 71,5% dos meninos conheciam sua comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório). Estes dados confirmam os resultados da pesquisa apresentada no Fórum Nacional do Ensino Confirmatório, já colocados acima. Os resultados destas tabelas indicam que a participação comunitária desde o Batismo, com o apoio familiar, envolve as crianças de tal modo que incentiva a 33 RIZZUTO, Ana-Maria. O nascimento do Deus vivo: um estudo psicanalítico. São Leopoldo: Sinodal, 2006. p. 127. 28 decisão pessoal de participar de sua comunidade voluntariamente enquanto jovens, após o ensino confirmatório e a confirmação. Constata-se a partir desta pesquisa inicial que a caminhada de fé inicia desde o Batismo e deve acontecer através do envolvimento comunitário. Caso contrário, terá poucas chances de ser significativa na juventude e na vida adulta. Somente a participação no grupo de ensino confirmatório, durante a préadolescência, não garante conscientização, responsabilidade e compromisso com a confessionalidade luterana. Na verdade, estas expectativas constituem-se como processos que acompanham o desenvolvimento da pessoa sob as influências do meio em que vive e não podem ser esperadas nesta fase da vida. Além disso, uma participação comunitária ativa na infância pode ter sua trajetória interrompida por uma experiência traumática e esvaziada de sentido durante a pré-adolescência, no caso o ensino confirmatório. Para compreender esse processo de construção dos significados religiosos, torna-se necessário conhecer o/a pré-adolescente enquanto sujeito e construção histórica, considerando as influências dos vários contextos em que ele se insere e também de sua trajetória de vida desde o nascimento. 1.4 O desenvolvimento da pré-adolescência na história Para compreender o sujeito pré-adolescente que se insere no contexto comunitário religioso, a partir do grupo de ensino confirmatório, necessita-se considerar suas características histórico-sociais atuais. A tarefa de direcionar um olhar mais apurado para este público é complexa e a teologia não pode efetuá-la sem o auxílio de uma abordagem interdisciplinar. Como salienta o PECC, o ser humano é um ser integral, que vive a partir de suas dimensões biopsicossociais construídas historicamente. Por desenvolvimento integral entende-se, pois, a educação que considera as diferentes dimensões da personalidade (cognição – afetividade – atitude) e as diferentes fases do desenvolvimento da vida humana, porque acontece ao longo de toda a vida.34 Pesquisas históricas demonstram que a infância e a adolescência já foram conceituadas de forma diferente nas sociedades situadas em determinados tempos e lugares, o que influenciou, naturalmente, na construção da autocompreensão e 34 IECLB, 2011, p. 23. 29 atitude da criança e do/a adolescente diante da sociedade. Inclusive, como demonstrou o resgate histórico-eclesiástico anterior, a permissão para participar da Santa Ceia e do ensino confirmatório dependeu da concepção que se tinha quanto à infância e sua capacidade cognitiva. A pesquisa elaborada por Philippe Áries, dentro dos limites geográficos europeus, exposta em sua obra História social da criança e da família, analisa obras textuais, telas, esculturas, vestimentas e brincadeiras para investigar a vida familiar da Idade Média até a Idade Moderna. Sua pesquisa nos informa que nem sempre a criança possuiu a atenção e a importância apresentada hoje no ambiente familiar e na sociedade de modo geral. As condições de sobrevivência, expectativa de vida, aprendizagem, elementos da religiosidade e da cultura influenciaram a maneira do ser humano encarar a si, aos outros e suas fases de vida. Áries inicia sua obra utilizando o exemplo da representação do nome e da idade na Idade Média e na Idade Contemporânea. Na sociedade moderna a criança deve pronunciá-los assim que souber falar, pois são informações fundamentais que compõem a identidade do sujeito. Na Idade Média estas questões não tinham importância para a identidade. O conceito de infância, tal como é conhecido hoje, foi se desenvolvendo entre os séculos XVII e XVIII. Até então, a criança era considerada um adulto, porém, de pequena estatura. O tratamento dado às crianças era o mesmo dado a um adulto, desde o momento em que conquistassem sua independência motora e alimentar, inclusive as vestimentas não diferenciavam uma criança de um adulto. Com os altos índices de natalidade e mortalidade infantil, não existia o apego afetivo às crianças da forma como acontece desde a modernidade. A morte de uma criança era encarada como um “desperdício necessário”, “a infância era um período de transição, logo ultrapassado, e cuja lembrança também era logo perdida.”35 Com o tratamento da criança sendo igual ao de um adulto, elas participavam dos mesmos jogos, utilizavam a mesma linguagem, dormiam nos mesmos aposentos, ninguém procura preservar a sua inocência, pois a compreensão de inocência sequer existia. A preocupação com as crianças inicia a partir do século XVI com uma pressão moral exercida pela Igreja, que modifica gradativamente a vida cotidiana delas. As crianças são comparadas aos anjos, retratadas como anjos, 35 ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 51. 30 adquirem um ar de inocência e, portanto, precisam ser preservadas. A infância de Jesus e os textos em que ele está ao lado das crianças são valorizados. A Igreja constrói a imagem de uma criança que também possui alma imortal, assim como os adultos. O surgimento do malthusianismo e de novos métodos contraceptivos, já no século XVIII, também contribuem para o surgimento de um novo sentimento em relação à infância. Para preservar a inocência das crianças são criadas as escolas próprias para elas, onde podem se retirar da vida adulta e receber uma educação voltada para a disciplina, o intelecto e a moral. A infância era um longo período que adentrava ao que hoje é a adolescência, e isto se demonstrava nos diferentes termos usados para designar uma criança: puer, adolescens e enfant. [...] a longa duração da infância, tal como aparecia na língua comum, provinha da indiferença que se sentia então pelos fenômenos propriamente biológicos: ninguém teria a idéia de limitar a infância pela puberdade. A idéia de infância estava ligada à idéia de dependência. Só se saia da infância ao sair da dependência.36 Até o século XVIII o conceito de adolescência não existia, pois estava diluído na infância. Depois desta, vinha a juventude e então a velhice. Não existia uma fase intermediária da infância para a idade adulta. A escola, no final do século XIX, contribuiu para a formação da adolescência enquanto conceito, a partir da separação dos alunos por idade e da criação do ensino superior. É importante deixar claro que a adolescência a partir de então foi vivenciada primeiramente pelas famílias burguesas e não pelas populares, que frequentavam apenas a escola primária. Algumas sociedades ainda não cultivam a adolescência como período intermediário entre a infância e a idade adulta, pois as crianças passam diretamente de uma rotina infantil, estabelecida pela cultura, para uma rotina adulta, passando, muitas vezes, por rituais de transição. A partir do século XX surge um interesse crescente entre alguns estudiosos para compreender o desenvolvimento humano sob a ótica da biologia, da cognição e da psicologia. A vida passa a ser dividida em fases definidas, desde o nascimento até a velhice. Com o surgimento das teorias psicológicas, desenvolve-se também o início da definição de um sujeito adolescente. Conceitos como ego, id, superego, 36 ARIES, 1978, p. 46. 31 personalidade, sujeito e indivíduo surgem compondo uma nova maneira de o ser humano encarar a si e aos outros.37 Em 1904, Stanley Hall publica sua primeira obra, intitulada Adolescência: sua psicologia e relação com fisiologia, antropologia, sociologia, sexo, crime, religião e educação. Nesta obra, Hall apresentou a adolescência de forma bastante negativa, como um período transitório de turbulência e periculosidade para a vida e por esse motivo deveria ser observada e controlada. A partir de então, a adolescência foi encarada como uma “fase problema” imbuída de características marcantes e negativas, como revolta, criminalidade, depressão, excessos, instabilidade. As poucas características positivas delegadas à adolescência foram os aspectos físicos e cognitivos, que seriam experimentados em seu apogeu. O ideal de indivíduo passou a ser o adulto, casado, heterossexual, responsável diante das expectativas econômicas, morais e religiosas da sociedade ocidental. Enquanto o indivíduo não alcançasse este ideal estava vivendo a fase da adolescência, que, em uma sociedade permeada pelo cristianismo, iniciava após os ritos da primeira comunhão ou confirmação. O conceito de adolescência nas ciências, de forma geral, passou por um desenvolvimento considerável em relação ao poder de influência do meio (relações, cultura, economia, ambiente) sobre o indivíduo. De forma geral, nas teorias iniciais, o meio tinha pouca influência sobre o desenvolvimento da pessoa, as questões determinantes eram biológicas – pela hereditariedade – e instintivas. De acordo com essa conceituação, não havia possibilidade de mudança nos aspectos negativos de cada fase, eles eram inevitáveis, naturais. Exemplos deste pensamento são Stuart Hall, Sigmund Freud e Ana Freud. Alguns conceitos e consequências desses estudos adentram o cotidiano da sociedade ocidental moderna de forma gradativa e passam a moldar sua maneira de conceber as fases da vida. As expectativas em relação aos sujeitos se constroem e reconstroem. Os próprios sujeitos assumem essas características como necessárias à sua própria constituição. A adolescência, de uma situação de inexistência, passa a ser alvo de inúmeras pesquisas, em várias áreas do saber. Mais tarde, com o 37 MARTINS, Priscilla de Oliveira; TRINDADE, Zeidi Araújo; ALMEIDA, Ângela Mari de Oliveira. O Ter e o Ser: Representações Sociais da Adolescência entre Adolescentes de Inserção Urbana e Rural. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 16, n. 3, p. 555-568, 2003. p. 555. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722003000300014>. Acesso em: 10 set. 2011. 32 capitalismo neoliberal, a adolescência será alvo dos principais produtos do mercado, passando a constituir-se como um sujeito extremamente consumidor. Importante registrar que, na medida em que esse fato social da adolescência vai se configurando, tomando contornos mais claros, a sociedade como um todo vai registrando e significando esse momento. A ciência estuda-a, conceitua-a, expressa-a em livros e descreve suas características (tomadas como se fossem naturais da idade). A sociedade vai reconhecendo então uma fase do desenvolvimento de seus filhos e jovens; vai atribuindo significados; vai esperando de seus filhos e jovens algumas condutas. A adolescência instala-se de forma inequívoca na sociedade. Os jovens que não possuíam referências claras para seus comportamentos vão, agora, utilizando essas características como fonte adequada de suas identidades: são agora adolescentes.38 Erik Erikson inicia uma nova fase da psicologia em diálogo com a antropologia cultural. Em suas pesquisas, Erikson compreende o ambiente sociocultural como extremamente relevante para o desenvolvimento da personalidade. Ele divide o desenvolvimento psicossocial em oito estágios, denominado “ciclo vital”. O id e a sexualidade, preponderantes nos estudos da ótica psicanalítica de Freud, são descentralizados nas pesquisas de Erikson, sendo sua importância transferida para o ego e a identidade. A partir desta nova linha de pensamento na psicologia, na história, na sociologia e na antropologia, a adolescência passa a ser compreendida como uma construção sócio-histórica, proveniente do século XX, cujas características não são universais, mas variam de cultura para cultura e dependem das expectativas que cada sociedade coloca a cada fase da vida. Portanto, suas características não são imutáveis, mas passíveis de intervenção. Suas crises não são naturais, mas sintomáticas.39 Martins, Trindade e Almeida, a partir de uma pesquisa social utilizando questionário, efetuada com 360 adolescentes entre 14 e 23 anos de idade, provenientes de dois contextos socioculturais distintos (zona rural e zona urbana), investigam como os/as próprios/as adolescentes definem a fase que estão vivendo. Através da análise dos resultados, as autoras constatam que, nos diferentes contextos, existem formas diversas de vivenciar a adolescência. Além disso, a característica da “alegria” é apresentada pelos dois públicos como “comum” a esta 38 BOCK, Ana Mercês Maria. A perspectiva sócio-histórica de Leontiev e a crítica à naturalização da formação do ser humano: a adolescência em questão. Cadernos Cedes, Campinas, v. 24, n. 62, p. 26-43, abr. 2004. p. 42. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v24n62/20090.pdf>. Acesso em: 09 set. 2011. 39 MARTINS; TRINDADE; ALMEIDA, 2003, p. 556. 33 fase da vida, demonstrando uma interiorização de um estereótipo. Nem todo adolescente vive em estado de alegria, no entanto, muitos acreditam que este é o Ideal que devem atingir. A palavra alegria representa o "estado de espírito" do ser adolescente e está relacionada a uma visão estereotipada do adolescente cheio de vida e energia e que está mais interessado em divertir-se do que em se manter informado dos acontecimentos à sua volta e no mundo, reproduzindo a visão tradicional da adolescência. Sobre essa forma de ser do adolescente, também verificamos, como nos lembra Cárdenas (2000), que a imagem e a expectativa sociais de uma conduta influem no desenvolvimento da mesma. Dessa forma, o próprio sujeito interioriza o estereótipo e muitas vezes se comporta de acordo com ele.40 Os/as pesquisadores/as que têm como foco compreender o desenvolvimento humano necessitam investigar os processos de construção do sujeito a partir das expectativas que o meio sociocultural contemporâneo estabelece sobre cada fase da vida. Não existe uma definição universalmente válida em torno dos termos préadolescência, adolescência e juventude. Na maioria das pesquisas científicas e nos discursos do cotidiano, a pré-adolescência é citada quando se quer dar ênfase às intensas mudanças físicas e biológicas da puberdade. Os termos adolescente e jovem apresentam aplicação muito mais confusa, podendo estar se referindo ao mesmo período de vida ou não. Normalmente, quando psicólogos vão descrever ou fazer referências aos processos que marcam esta fase da vida (a puberdade, as oscilações emocionais, as características comportamentais que são desencadeadas pelas mudanças de status etc.) usam o termo adolescência. Quando sociólogos, demógrafos e historiadores se referem à categoria social, como segmento da população, como geração no contexto histórico, ou como atores no espaço público, o termo mais usado é juventude.41 Marilia Sposito, ao elaborar uma pesquisa sobre o uso do conceito de juventude em pesquisas acadêmicas, discute a necessidade das análises em torno do contexto social para que se defina o uso do termo. Em alguns países europeus, por exemplo, a delimitação do termo juventude foi postergada dos 24 para os 29 anos de idade. Para ela este prolongamento revela sintomas de uma nova fase, produzida pelas condições socioculturais próprias da Europa, que pode ser denominada pós-adolescência, “[...] configurando um período de latência ou de 40 MARTINS; TRINDADE; ALMEIDA, 2003, p. 566. FREITAS, Maria Virgínia de; ABRAMO, Helena Wendel; LEÓN, Oscar Dávila. Juventude e adolescência no Brasil: referências conceituais. São Paulo: Ação Educativa, 2005. p. 7. 41 34 moratória social, pois o jovem, ao concluir sua escolaridade, não consegue se inserir nas atividades profissionais do mercado de trabalho formal”.42 No entanto, no caso do Brasil, antes seria necessário abreviar o início da adolescência pelas condições sociais. Mas, para o conjunto da sociedade brasileira, a tendência maior é a de antecipação do início da vida juvenil para antes dos 15 anos, na medida em que certas características de autonomia e inserção em atividades no mundo do trabalho — típicas do momento definido como de transição da situação de dependência da criança para a autonomia completa do adulto — tornam-se o horizonte imediato para grande parcela dos setores empobrecidos.43 Os sujeitos adentram o ensino confirmatório a partir dos 11 ou 12 anos de idade, ou seja, estão no início do processo das mudanças físicas e biológicas. Podem ser denominados de pré-adolescentes e até mesmo adolescentes, mas definitivamente não podem ser considerados jovens. Para fins de situação, análise e uniformização do conceito, optar-se-á nesta pesquisa por delimitar o público alvo à fase da pré-adolescência. O termo pré-adolescência nesta dissertação estará se referindo a características mais acentuadas nos indivíduos entre 11 e 14 anos de idade. O termo adolescência será utilizado quando se estiver tratando de características que podem estar presentes tanto entre o público de 11 a 14 anos de idade, quanto no público entre 15 a 21 anos. A pré-adolescência se configura como um período no início da adolescência. De maneira geral, a adolescência tem sido caracterizada como uma fase do ciclo vital, quando acontece uma “ênfase nas transformações físicas, biológicas, intelectuais e cognitivas, de identidade e personalidade, sociais e culturais, morais e de valor.”44 A pré-adolescência situa-se, portanto, em torno dos 11 a 14 anos de idade e é marcada pelas transformações físicas, biológicas e sociais próprias do processo de abandono da infância.45 As características próprias desta fase não são rígidas, assim como a delimitação da idade, como pudemos observar acima. Os sintomas que demonstrarão se determinada pessoa entre 11 e 14 anos de idade vive as expectativas socioculturais da pré-adolescência contemporânea dependerá 42 SPOSITO, Marilia Pontes. Estudos sobre juventude em educação. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 5, n.6, p. 37-52, maio/jun/jul/ago set/out/nov/dez 1997. p. 39. Disponível em: <http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE05_6/RBDE05_6_06_MARILIA_PONTES_SPOSITO.pd f>. Acesso em: 09 set. 2011. 43 SPOSITO, 1997, p. 39. 44 FREITAS, 2005, p.12. 45 FERREIRA, Berta Weil; RIES, Bruno Edgar. Psicologia e educação: desenvolvimento humano: adolescência e vida adulta. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. v. 2, p.16. 35 de sua experiência anterior a esta fase junto ao seu grupo familiar e comunitário, considerando a interação do sujeito entre sua classe social, estrutura familiar e cultura. De maneira desenvolvimento geral, humano atualmente para se compreender consideram o sujeito três âmbitos contemporâneo: do o desenvolvimento físico, que abarca o “crescimento do corpo e do cérebro, as capacidades sensoriais, as habilidades motoras e a saúde”;46 o cognitivo, que se refere às “capacidades mentais como aprendizagem, atenção, memória, linguagem, pensamento, raciocínio e criatividade”;47 e o psicossocial, que se refere à “mudança e estabilidade nas emoções, na personalidade e nos relacionamentos sociais”.48 Todos os três âmbitos são interdependentes, ou seja, influenciam de alguma forma, em maior ou menor grau uns aos outros. Isto inclui dizer que, algumas vezes, uma dimensão pode desenvolver-se mais rapidamente do que a outra. Erik Erikson considera esses três âmbitos ao descrever os oito estágios do ciclo vital. A partir das crises do ego, evidencia a importância da interação entre o sujeito e o meio social, para a passagem de um estágio ao outro. A pré-adolescência pode ser considerada como uma fase de transição entre o quarto estágio denominado “Diligência versus Inferioridade” e o quinto estágio “Identidade versus Confusão de identidade”, pois, normalmente, observando os indivíduos conforme a delimitação da idade conferida à pré-adolescência, eles apresentam características descritas nos dois estágios. No estágio denominado “Diligência versus Inferioridade”, que inicia em torno dos 6 anos de idade e finda em torno dos 12 anos, o principal espaço de interação social se dá na escola. Nesta fase a criança começa a assumir uma rotina com mais responsabilidades, como frequentar a escola regularmente, estudar, fazer cursos e, dependendo da condição econômica familiar, até mesmo trabalhar. Enquanto no estágio anterior a criança se relacionava com o mundo se utilizando predominantemente de brincadeiras e fantasias, agora ela faz isso, cada vez mais, através da lógica e da utilidade. Normalmente alguns pré-adolescentes chegam ao ensino confirmatório apresentando características deste estágio, vivenciando a crise de transição para o estágio seguinte. 46 PAPALIA, Diane E; OLDS, Sally Wendkos; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. 10. ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2009. p. 10. 47 PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 10. 48 PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 10. 36 A crise do ego no quarto estágio consiste em sentir-se competente ou inferior na sociedade. Este estágio influencia diretamente a autoestima do/a préadolescente. A criança ao ser introduzida na rotina escolar determina-se a aprender. Se ela resolveu as crises dos estágios anteriores e conseguiu construir as virtudes de confiança, independência e iniciativa, nesta fase ela tende a resolver sua crise construindo uma nova virtude para si, o sentimento de competência. Esse sentimento surge a partir do sucesso nas atividades e nos papéis nos quais a criança se dedica ou lhe são confiados. No ensino confirmatório os pré-adolescentes estão resolvendo esta crise e necessitam sentirem-se também competentes e valorizados no espaço comunitário. Eles/as podem ser incentivados pelas lideranças comunitárias a usarem seus dons e carismas nas diversas atividades comunitárias. Como no quinto estágio do desenvolvimento psicossocial, o/a pré-adolescente estará mais voltado para o seu grupo de coetâneos, é interessante que as atividades a que for convidado a fazer, sejam com um grupo de pré-adolescentes conhecidos, pois atividades solitárias e de destaque podem inibi-lo ou fazê-lo sentir-se pressionado. [...] esta fase é, socialmente, uma das mais decisivas. Como a indústria envolve fazer coisas ao lado de outros e com outros, desenvolve-se neste período um primeiro sentido de divisão de trabalho e de oportunidade diferencial – isto é, um sentido de ética tecnológica de uma cultura. Portanto, as configurações culturais e as manipulações básicas da tecnologia predominante devem penetrar significativamente na vida escolar, apoiando em todas as crianças um sentimento de competência – isto é, o livre exercício da destreza e inteligência na execução de tarefas sérias, não prejudicado por um sentimento infantil de inferioridade. É esta a base duradoura para a participação cooperativa na vida adulta produtiva.49 Caso um dos espaços de convivência significativos seja a comunidade religiosa, qual seria a “tecnologia predominante” neste espaço? Qual é o sentimento de competência que se quer promover na criança no meio comunitário? Estas são questões que apontam para a importância de um planejamento para a educação cristã contínua. Uma criança que não é incentivada a participar ativamente de papéis comunitários na infância, se desenvolverá compreendendo que a comunidade não é um lugar de participação ativa, mas passiva e esporádica. E isto não depende somente dos/as educadores/as que estão nas comunidades, mas dos pais que levam seus filhos a participarem em sua comunidade e demonstram para eles, na educação familiar, que é importante participar. Como se constatou acima, através 49 ERIKSON, Erik H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. p. 126. 37 dos resultados dos questionários aplicados ao grupo de ensino confirmatório, a participação comunitária na infância influencia diretamente na perspectiva de participação futura do/a pré-adolescente. Segundo a fundamentação teológica do PECC, o sacerdócio geral de todas as pessoas que creem é um dos fundamentos confessionais da educação cristã contínua. O sacerdócio geral é o “ministério de Jesus confiado a cada pessoa no Batismo e a cada comunidade que professa Jesus como Senhor e Salvador.”50 Através do sacerdócio geral, as pessoas, a partir dos dons recebidos do Espírito Santo e do chamado ao discipulado, exercem atividades distintas na promoção do evangelho. Sendo assim, delegar funções é parte do caráter da comunidade luterana, assumir funções é compromisso do indivíduo que é membro do corpo de Cristo, que se entende como parte do sacerdócio geral de todos os crentes. Promover esta consciência é incumbência da educação cristã contínua. A construção da identidade comunitária religiosa inicia no seio familiar e se aperfeiçoa na participação efetiva no espaço social comunitário, desde a infância passando pela adolescência, até a idade adulta. [...] é de grande importância para a formação de identidade do indivíduo jovem que lhe respondam e lhe confiram status e função como uma pessoa cujo crescimento e transformação graduais fazem sentido para aqueles que começaram fazendo sentido para ele.51 O período próprio da adolescência é denominado “Identidade versus Confusão de identidade”. Os pré-adolescentes que adentram esta fase normalmente apresentam-se mais críticos do que os demais, que ainda estão vivenciando o estágio anterior. Esta mudança se dá principalmente ao fato de nesta fase a principal crise do ego consistir em responder à pergunta “quem sou eu?”, da qual decorre outra pergunta: “quem os outros acham que sou?”. Se todas as crises dos estágios anteriores foram resolvidas positivamente, esta também será solucionada sem maiores contratempos. Os fatores biológicos que desencadeiam estes comportamentos mais apaixonados provêm de drásticas mudanças no desenvolvimento corporal e cerebral. O aumento na produção dos hormônios sexuais promove a multiplicação de neurônios, axônios e dentritos, principalmente nos lobos frontais, que é a região responsável pelo planejamento, raciocínio e controle emocional. Esta região somente estará plenamente desenvolvida no início 50 51 IECLB, 2011, p. 19. ERIKSON, 1976, p. 156-157. 38 da idade adulta. Ao mesmo tempo, as conexões do cérebro não utilizadas são inibidas.52 Este desenvolvimento neuronal permite o pensamento hipotéticodedutivo, ou seja, a capacidade de desenvolver uma hipótese e de testá-la, embora o desempenho desta capacidade também dependa dos estímulos do ambiente. No entanto, mesmo que o/a pré-adolescente esteja no ápice de seu desenvolvimento cognitivo, conforme já identificou Jean Piaget, e a forma de pensar é mais sistemática, as emoções estão instáveis e influenciam a sua maneira de raciocinar. Se a fase mais antiga legou à crise de identidade uma importante necessidade de confiança em si e nos outros, então claramente, o adolescente procura mais fervorosamente homens e idéias em que possa ter fé, o que também significa homens e idéias em cujo serviço pareça valer a pena provar que seria digno de confiança.53 Para Erikson, a principal tarefa da adolescência é desenvolver plenamente a identidade pessoal para a vida adulta. Caso esta tarefa não seja realizada, esta fase não será ultrapassada. Segundo o autor, a identidade, em termos psicológicos, acontece de forma inconsciente durante todas as fases da vida, no campo pessoal e social. No entanto, esta tarefa se intensifica com o surgimento da capacidade do pensamento abstrato na adolescência e se configura como: [...] um processo de reflexão e observação simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em comparação com os demais e com os tipos que se tornaram importantes para ele.54 Desde a adolescência até a idade adulta, existe um período denominado por Erikson de moratória psicossocial. É um tempo de espera dado ao indivíduo pela sociedade em que vive para que se prepare para assumir as responsabilidades da vida adulta. Este período não foi criado para que a pessoa fique o maior tempo possível preservada de qualquer tipo de participação social, e sim para que possa ensaiar seus passos, construindo-se em um espaço de maior tolerância a compromissos. É um período que se caracteriza por uma tolerância seletiva por parte da sociedade e uma atividade lúdica por parte do jovem; entretanto, conduz também, freqüentemente, a um empenho profundo, ainda que amiúde 52 PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2009, p. 403. ERIKSON, 1976, p. 129. 54 ERIKSON, 1976, p. 21. 53 39 transitório, do jovem – terminando com uma confirmação mais ou menos cerimonial desse compromisso pela sociedade.55 No ambiente comunitário, como vimos anteriormente, este período de moratória psicossocial era, no século XIX, ultrapassado a partir do culto de confirmação. Depois deste rito, o/a pré-adolescente poderia assumir maiores responsabilidades e compromissos em sua comunidade. No entanto, as configurações sociais atuais não colocam estas expectativas sobre o indivíduo aos 13 ou 14 anos de idade, ocasionando um descompasso entre as expectativas comunitárias e as da sociedade de modo geral. A vida de compromissos mais duradouros e consistentes inicia a partir dos 18 anos de idade ou mais tarde, com a conclusão do ensino superior, tendo a formatura como rito de passagem. Cabe, portanto, aos/às educadores/as comunitários planejar este período de moratória para a vida religiosa, promovendo a participação lúdica sem pressionar o/a pré-adolescente. Exemplos de práticas que pressionam o/a pré-adolescente no período do ensino confirmatório são as provas, a obrigação de participar nos cultos e a cobrança aos pais e familiares para que seus filhos cumpram estes compromissos. Obrigações não promovem participação efetiva. A participação envolvente, significativa, reflexiva e a valorização do indivíduo no meio comunitário é que promovem o compromisso e, mesmo assim, de forma gradual. É importante lembrar que no quarto estágio, o grau de exigência elevado dos adultos sobre a criança ou sobre o/a pré-adolescente pode fazer com que ele/a se sinta inferior ao invés de competente e no quinto estágio a apresentação de uma ideologia coerente é muito mais atrativa para a construção da identidade. Muitos autores posteriores a Erikson baseiam-se nele para elaborar os estudos sobre a adolescência e a identidade. No processo de construção da identidade para Maria Claudia Santos Lopes de Oliveira, as narrativas se tornam necessárias; as narrativas dos outros, aquelas que compõem as crenças do grupo familiar e comunitário e as próprias narrativas. Através delas, o/a pré-adolescente vai compondo sua própria história, ou seu mito pessoal, como diria Erikson; vai escolhendo elementos que lhe interessam e lhe são coerentes. Ao contar suas próprias narrativas, o/a pré-adolescente se expressa, ouve a si mesmo/a e organiza o eu pessoal, equilibrando a imagem que vê de si mesmo com a imagem que quer 55 ERIKSON, 1976, p. 157. 40 expressar aos outros. Utiliza-se das “narrativas como instrumento de organização auto-epistêmica da experiência subjetiva e social, conseqüentemente, da vida mental [...]”56. No quarto estágio do desenvolvimento psicossocial, a criança e o/a préadolescente dão muita importância às narrativas do grupo familiar. Elementos destas narrativas serão utilizados para compor seu mito pessoal no quinto estágio. Caso as narrativas familiares sejam pobres, o indivíduo terá dificuldades neste processo de composição da sua história. A participação da criança no ambiente religioso comunitário pode auxiliar a família na sua tarefa de contar suas narrativas, integrando-as às narrativas bíblicas e auxiliando a criança a enriquecer seu rol de elementos constituintes de si. “O senso de identidade se expressa na forma de histórias – vividas, contadas, recontadas e intersubjetivamente transformadas.”57 No quinto estágio, no grupo de ensino confirmatório, os/as pré-adolescentes necessitam ser incentivados/as a narrar suas histórias, a ouvir as narrativas do seu grupo religioso, refletir sobre elas e ligá-las com as do seu grupo familiar. No sexto estágio, enquanto jovens, definindo sua identidade, poderão partir para o movimento de relacionar as narrativas dos familiares e as do grupo religioso com as grandes narrativas da sociedade em um movimento contínuo, coerente e integrador. Esta é uma tarefa da educação cristã contínua. Este estabelecimento consciente e coerente da identidade pessoal se expressa em um comportamento, que passa de reconhecido para assumido, conforme Griffa e Moreno. O jovem deve alcançar sua identidade, que se expressa como um comportamento próprio e consistente, a fim de permitir que os demais possam prever em parte as suas ações e obter autonomia suficiente para agir sem necessidade de recorrer à autoridade e ao apoio afetivo de seus pais. É pessoa, é um indivíduo e precisa ser reconhecido como tal. Não quer e nem deve ser considerado filho ou filha de alguém.58 No entanto, é importante ter clareza que o processo de conscientização da identidade é longo na sociedade contemporânea. A gama de identidades possíveis, ou de elementos para compor sua identidade, que o/a pré-adolescente tem em sua 56 OLIVEIRA, Maria Claudia Santos Lopes de. Identidade, narrativa e desenvolvimento na adolescência: uma revisão crítica. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 427-436, maio/ago. 2006. p. 430. 57 OLIVEIRA, 2006, p. 431. 58 GRIFFA, María Cristina; MORENO, José Eduardo. Chaves para a psicologia do desenvolvimento: adolescência, vida adulta e velhice. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 2005. Tomo 2. p. 30. 41 frente nas sociedades globalizadas, ao iniciar essa tarefa, é imensurável. Quanto maior for o tempo de estudos, mais longo será o processo de conscientização da identidade rumo a um comportamento social adulto. Enquanto existe dependência econômica e afetiva familiar, o jovem sempre irá recorrer à autoridade e ao apoio dos pais, quanto mais na pré-adolescência. Por mais que o/a pré-adolescente busque estar a cada dia mais longe dos pais e mais perto do grupo de amigos, nesta fase ainda dependem, necessitam e esperam enormemente o apoio dos pais. Os/as pré-adolescentes costumam expressar aos “quatro ventos” que não gostam de participar de atividades em que seus pais estejam presentes, pois esta é uma necessidade que compõe sua tarefa identitária de compor-se de forma independente. No entanto, ao mesmo tempo, o apoio e a participação dos pais nos bastidores das atividades nas quais os/as pré-adolescentes estão inseridos fornecem credibilidade e segurança. As instituições, de modo geral, estão perdendo sua credibilidade, mas a família preserva seu valor diante dos indivíduos. Onde a família está envolvida de forma consciente e engajada, os indivíduos que fazem parte dela também estão. Promover atividades em que pais e filhos préadolescentes se envolvam pode causar constrangimento aos/às pré-adolescentes, pois fere o processo de tornar-se um indivíduo independente. Atividades de apoio ideológico e prático entre os pais produzem outro efeito no/a pré-adolescente, que não o de constrangimento, mas de incentivo. Para Aberastury e Knobel59, a fase da adolescência é marcada por dez características marcantes, que, muitas vezes, podem ser interpretadas pela ordem social contemporânea como patologias. Erikson conviveu com as interpretações negativas sobre a adolescência e as superou. Por isso definiu esta fase declarando que “não é uma doença, mas uma crise normativa, isto é, uma fase normal de crescente conflito, caracterizada por uma aparente flutuação da robustez do ego, assim como por um alto potencial de crescimento.”60 Partindo de uma nova forma de analisar o/a adolescente, os autores declaram que estes sintomas compõem um quadro normal para as exigências que se fazem sobre esta faixa etária, como o comportamento de uma criança pequena ao iniciar a sua socialização na escola. A crise e o conflito, tanto consigo mesmo 59 ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 10. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981. 60 ERIKSON, 1976, p. 163. 42 como com o mundo externo, promove o amadurecimento necessário no preparo para a vida adulta. Essa teoria é denominada “Síndrome da Adolescência Normal” e é composta pelas seguintes características predominantes: 1. Busca de si mesmo e da identidade. 2. Tendência grupal. 3. Necessidade de intelectualizar e fantasiar. 4. Crises religiosas. 5. Deslocalização temporal. 6. Evolução sexual manifesta. 7. Atitude social reivindicatória. 8. Contradições na conduta. 9. Separação progressiva dos pais. 10. Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.61 No mundo contemporâneo, a própria sociedade vive muitos sintomas da Síndrome da Adolescência Normal, como se todas as pessoas estagnassem na fase da adolescência. Enquanto que as exigências colocadas sobre o/a adolescente, desde que esta fase foi definida, continuam se impondo, ele/a não possui mais as referências sólidas da modernidade tradicional para guiá-lo/a e apoiá-lo/a nas suas tarefas. A própria sociedade contemporânea apresenta condutas contraditórias, crises religiosas, flutuações de humor e parece estar constantemente em busca de uma identidade coerente. Esta realidade é preocupante e os/as educadores/as comunitários/as observam esses sintomas no cotidiano do ensino confirmatório. Entre as crianças de classe média e alta é comum negarem a participação em atividades coletivas. Elas inicialmente preferem o manuseio de seus aparelhos eletrônicos, a comunicação virtual do que o contato físico com o outro. No entanto, esta atitude pode significar a falta de oportunidades anteriores para atividades coletivas. A comunidade religiosa é o espaço em que o contato, o encontro com o outro deve ser promovido. A educação cristã promove, além do contato, o desafio para a reflexão a partir dele, sob a ótica das narrativas e dos valores cristãos. A comunidade religiosa é representada perante os/as pré-adolescentes, no período do ensino confirmatório, pelas lideranças comunitárias. A partir das reflexões 61 As 10 características referem-se, respectivamente, aos capítulos da obra de BERASTURY; KNOBEL, 1981. 43 elaboradas neste capítulo, contata-se que as lideranças necessitam acompanhar o sujeito pré-adolescente de forma a acolhê-lo no ambiente comunitário, muito mais do que exigir compromissos. Acolher significa apoiá-lo, dar suporte no âmbito da fé para a sua principal tarefa, que é a construção de sua identidade pessoal. Os assuntos mais específicos acerca da fé na pré-adolescência serão aprofundados no terceiro capítulo desta dissertação. Algumas das questões elencadas neste capítulo sobre a construção da identidade na pré-adolescência contemporânea indicam que esta tarefa neste tempo é deveras complexa e necessita atenção. Portanto, no próximo capítulo, pretende-se investigar alguns elementos essenciais que compõem a identidade durante a fase da pré-adolescência diante dos desafios da realidade contemporânea. 2 A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA E A PRÉ-ADOLESCÊNCIA 2.1 A educação cristã junto a pré-adolescentes na sociedade contemporânea O presente capítulo tem por objetivo investigar as possíveis influências da sociedade contemporânea sobre o desenvolvimento consciente da identidade durante a fase da pré-adolescência. No primeiro capítulo se constatou que a infância, a pré-adolescência e a adolescência são construções histórico-sociais da cultura ocidental, que vêm se desenvolvendo de forma mais intensa desde o século XIX. A subjetividade também é modelada a partir das relações sociais na história. A subjetividade é, portanto, “modelada” na imbricação de várias instâncias, tais como família, escola, trabalho, religião, meios de comunicação etc., as quais atravessam o indivíduo e este vai significando-as de modo singular. [...] como por exemplo a fabricação do indivíduo na modernidade, a produção de “indivíduo disciplinado” no estabelecimento do capitalismo, e agora, no neoliberalismo, a produção de uma “subjetividade flexível”.62 A relação entre a construção da identidade e a dinâmica da fé na fase da pré-adolescência será avaliada de forma mais aprofundada no terceiro capítulo desta pesquisa. Por enquanto, pretende-se observar algumas das principais características da sociedade contemporânea a partir da grande tarefa que inicia no final da infância e início da adolescência: a construção consciente da identidade própria partindo das narrativas que o sujeito assume e compõe para si em meio a uma realidade a cada dia mais complexa. Esta reflexão é de fundamental importância para uma educação cristã que deseja atuar respondendo as angústias do público pré-adolescente no contexto comunitário em que atua. Uma educação cristã transformadora necessita compreender as demandas da realidade para poder transformá-la, através da formação e da construção de um saber coletivo crítico e intencional nos sujeitos. Quando se fala em educação cristã nesta pesquisa, refere-se ao conceito elaborado pela IECLB e que consta no PECC como educação cristã contínua, pois toda a educação cristã é e deve constituir-se em continuidade, durante todo o desenvolvimento da vida. As questões teológicas que fundamentam esta compreensão no PECC serão abordadas no quarto capítulo desta dissertação. 62 ESPERANDIO, Mary Rute Gomes. Para entender pós-modernidade. São Leopoldo: Sinodal, 2007. p. 12. 46 Segundo o PECC, “a educação envolve toda a vida das pessoas e está relacionada à aquisição, à elaboração e à produção de conhecimentos, sensibilidades, valores, práticas e atitudes.”63 Educação cristã é um processo pessoal e comunitário de aprendizagem dos conteúdos da fé. Ela acontece na família e na comunidade e reflete-se nas ações e atitudes do dia a dia, que é a vivência cristã no mundo. A educação cristã não acontece de uma só vez, mas vai sendo construída e compreendida conforme as perguntas e as preocupações de cada fase da vida de forma contínua e permanente.64 A partir disso, abordar-se-ão algumas características que os pensadores da atualidade convencionaram atribuir ao período denominado modernidade e outras que compõem o cenário contemporâneo. Esta abordagem será efetuada a partir da discussão em torno das metanarrativas e da construção da identidade, que influenciam de forma mais pontual o processo de educação cristã comunitária junto aos/às pré-adolescentes. Estas demandas demonstram ser capazes de desafiar a elaboração de uma nova maneira de pensar a práxis da educação cristã, de forma a não perder sua característica transformadora, buscando, ao mesmo tempo, identificar possíveis alternativas pedagógico-didáticas de apoio à construção da identidade na pré-adolescência. Atualmente, muitos autores denominam a realidade que vivemos de pósmodernidade, outros de modernidade não superada, ou hipermodernidade. Pretende-se clarear esses termos, na medida do possível, conscientes da complexidade que caracteriza este tempo e da diversidade epistemológica que o permeia. A discussão existente em torno da validade dos termos que servem para denominar o presente gira em torno da superação das metanarrativas, conforme poderemos ver adiante. Quanto mais progride a humanidade, mais rica é a prática sócio-histórica acumulada por ela, mais cresce o papel específico da educação e mais complexa é a sua tarefa. Razão por que toda a etapa nova no desenvolvimento da humanidade, bem como nos diferentes povos, apela forçosamente para uma nova etapa no desenvolvimento da educação: o tempo que a sociedade consagra à educação das gerações aumenta; criam-se estabelecimentos de ensino, a instrução toma formas especializadas, diferencia-se o trabalho do educador do professor; os programas de estudo enriquecem-se, os métodos pedagógicos aperfeiçoam-se, desenvolve-se a ciência pedagógica. Esta relação entre o progresso histórico e o progresso da educação é tão estreita que se pode sem risco de errar julgar o nível geral do desenvolvimento histórico da 63 64 IECLB, 2011, p. 22. IECLB, 2011, p. 22. 47 sociedade pelo nível de desenvolvimento do seu sistema educativo e inversamente.65 Conservando as críticas acerca da concepção de “progresso” e “nível” de desenvolvimento das sociedades, de que trata Leontiev, é necessário chamar a atenção para a reflexão sobre a relação entre o acúmulo do registro histórico minucioso das sociedades e a complexidade do processo que constitui seus sistemas educacionais. Esta complexidade na educação parte do grande acúmulo de registros de conhecimento e informação potencializados pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Praticamente tudo o que foi acumulado e ainda está sendo produzido é acessível à população. Esta realidade está sendo sentida de forma crescente em vários aspectos do cotidiano de muitas sociedades, principalmente das ocidentais. A produção constante de saberes que se acumulam com o tempo é potencializada pela comunicação virtual. O mundo todo está conectado e pode, através de um botão, ter acesso a muitas informações e construir muitos conhecimentos de forma mais rápida do que no passado. Este acesso transforma a maneira de a pessoa ver e se relacionar com o mundo, pois o seu contato se amplia para além do contexto comunitário local. O fato de encontrar múltiplas formas de compreender a vida e de vivê-la amplia de forma inimaginável o leque de opções de sentido de vida e de verdades sobre o mundo conhecido. Quanto mais na préadolescência, quando se está, de forma muito mais consciente, e, portanto, intensamente preocupado com a sua própria identidade. Nesse sentido, como coloca Roldán, a teologia necessita encarar os desafios que esta nova realidade lhe impõe como uma oportunidade para a mudança,66 e não se refugiar de forma passiva na ignorância dos fatos que a afetam direta e indiretamente. No entanto, é necessário ter consciência de que esta tarefa é tão complexa quanto o tempo que a suscitou. A complexidade se dá como processo contínuo de divisões e subdivisões das coisas, das cadeias de relações seja na esfera do mundo humano ou na relação do humano com as coisas. Nossos interesses e empreendimentos se multiplicaram inimaginavelmente. E eles possuem curta duração. De fato o caráter efêmero de quase tudo o que fazemos 65 66 LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978. p. 273. ROLDÁN, Alberto F. Para que serve a teologia? Curitiba: Descoberta, 2000. p. 143-146. 48 hoje faz com que a complexidade adquira proporções monstruosamente ininteligíveis e incomensuráveis. 67 Para encarar da melhor maneira possível este desafio, necessita-se compreender o processo histórico, as ideias que desencadearam a presente realidade. Nesse sentido, não se pode falar de pós-modernidade ou hipermodernidade sem antes pontuar as características que compõem a modernidade. 2.2 A modernidade O termo modernidade é utilizado para marcar uma visão de mundo específica de determinado tempo histórico, com um ideário e um projeto que trazem mudanças tanto para a ciência como para a vida social. O projeto moderno fundamentava-se na razão como o único meio de alcançar a verdade e o progresso. Nesse sentido, modernidade é diferente de Idade Moderna, como pontua Esperandio. É preciso ainda diferenciar Idade Moderna de modernidade. A periodização histórica chamada de Idade Moderna é uma categoria usada – na história do Ocidente – para caracterizar o período que segue a Idade Média. Tradicionalmente se tem estabelecido como Idade Moderna o período que compreende os anos de 1453, quando houve a tomada de Constantinopla, a 1789, quando ocorreu a Revolução Francesa. Após esse período, tem-se a Idade Contemporânea.68 A modernidade surge em uma época de transformações de todo o saber e compreensão humana que emergiram do Iluminismo, como o raciocínio científico, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. A partir destes eventos o mundo passa a ser governado com total centralidade no ser humano e sua crença no domínio da razão. É o fim da sociedade governada pela Igreja, até então a única representante de Deus, é o fim do teocentrismo. “A experiência do progresso aparece como componente fundamental da síntese de espaço de experiência e horizonte de expectativa no conceito de Modernidade.”69 67 SILVA, Jessé Pereira. A Pós-Modernidade como condição. In: MARASCHIN, Jaci; PIRES, Frederico Pieper (Org.). Teologia e Pós-Modernidade. Ensaios de teologia e filosofia da religião. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. p. 52. 68 ESPERANDIO, 2007, p. 30. 69 OLMOS, A. Verbete: Modernidade. In: VILLA, Mariano Moreno. Dicionário de pensamento contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2000. p. 493. 49 Kant, com seus pensamentos acerca da centralidade da razão para o progresso humano, foi um dos filósofos que mais influenciou o pensamento da sociedade secular no século XX. No pensamento moderno, a razão é compreendida como capaz de tratar de tudo que corresponde ao mundo material, ela possui a autoridade para determinar a verdade. Ela efetua a emancipação humana de qualquer pensamento preconizado. A natureza passa a apresentar uma dimensão infinita sobre a qual o pensamento matemático autônomo deve exercer controle. Não é mais a experiência que precede a teoria, mas a teoria que precede a experiência. A busca do conhecimento não é mais o simples registro do que acontece num mundo exterior, independentemente de toda iniciativa; é uma intervenção ativa nos processos cósmicos, guiada pelas sugestões das estruturas abstratas do universo matemático. A verdade não é dada, é construída.70 A partir das ideias de Kant, Deus foi colocado no mundo dos números, distante dos seres humanos, que vivem no mundo da natureza, no mundo dos fenômenos. Os seres humanos apenas acessam Deus por causa da necessidade ética. Essa incapacidade humana de conhecer a Deus ainda desafia os teólogos contemporâneos e traz consequências para os/as educadores/as cristãos que atuam com pré-adolescentes, a partir do dilema da necessidade de crer em Deus e da incapacidade de conhecê-lo e compreendê-lo através dos postulados da razão. Na pré-adolescência, o advento do pensamento abstrato e sistemático, aliado ao contato mais intenso com conteúdos científicos na escola, desafia os/as educadores/as cristãos comunitários a encontrar formas de tornar ou manter Deus e os conteúdos da religiosidade comunitária mais próximos e significativos para o/a pré-adolescente. Entretanto, comprometimento com uma causa comum é algo difícil de concretizar em uma sociedade de características contemporâneas. [...] O atual capitalismo complexificou-se sobremaneira e adquiriu caráter globalizante por obra e graça de gigantescos complexos transnacionais e ultimamente agilizado pelos acelerados progressos da microeletrônica, telemática, robótica, ciência da informação, etc. As categorias marxistas tornaram-se pequenas para dar conta das profundas transformações do capitalismo nas últimas décadas. Sua expressão neoliberal levanta novos problemas que estão a pedir novos instrumentos de análise e de crítica. A TdL [Teologia da Libertação], à medida que esteve ainda ultimamente presa à teoria da dependência e a rígidas categorias marxistas, elaborou um discurso dissonante do momento político-econômico presente.71 70 LADRIÈRE, Jean. A fé cristã e o destino da razão. São Leopoldo: UNISINOS, 2008. p. 22. LIBANIO, João Batista; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. São Paulo: Loyola, 1996. p. 186-187. 71 50 Nem mesmo as ideias humanistas, apesar de garantirem a reflexão e a instituição dos direitos humanos, não garantiram o cumprimento das leis. A proclamação dos direitos, porém, não garante ainda sua efetiva aplicação na realidade das práticas políticas e econômicas. Aliás, a universalidade dos direitos é apenas formal. Há uma espécie de universalidade concreta que resulta da difusão da tecnociência, das trocas econômicas e da formação de um mercado mundial. Mas a forma de universalidade mecânica que foi assim criada está muito distante da solidariedade de uma verdadeira comunidade.72 A modernidade finda com a percepção do fracasso do projeto de civilização e sociedade através da razão, da ciência e do capitalismo. Embora Habermas entenda que a modernidade não terminou, pois o Iluminismo ainda não esgotou o seu projeto emancipador. De qualquer forma, as várias áreas do saber têm se dedicado de forma crescente a analisar e compreender a realidade contemporânea. Essas análises observam sociedades em condição de agonia e buscam alternativas para a superação. 2.3 Pós-modernidade ou hipermodernidade Ao trazer os conceitos de pós-modernidade e de hipermodernidade para definir as principais características que afetam a educação cristã luterana neste tempo histórico, utilizar-se-á, principalmente, as ideias de três filósofos franceses: Jean-François Lyotard (pós-modernidade), Gilles Lipovetsky e Sébasttien Charles (hipermodernidade). Esses três autores seguem a teoria da “condição agônica” proveniente de quatro traumas da modernidade. O mundo moderno trouxe, com o pensamento tecnológico, científico e humanista, a importância do indivíduo, a sociedade secularizada e o menosprezo e a desconfiança em relação à visão religiosa da vida. Na sociedade contemporânea percebe-se o aumento do individualismo, a relativização da verdade e o desinteresse pelo social e pelo político. A contribuição trazida por essa época é a valorização da diversidade. Quando se trata de teologia na realidade contemporânea, necessita-se partir da análise de um mundo profundamente e permanentemente pluri-religioso e transcultural. E as lideranças comunitárias, que trabalham com educação cristã e 72 LADRIÈRE, 2008, p. 33. 51 que desejam atuar neste contexto, necessitam, antes de tudo, compreender o seu papel, a sua função em meio a esta pluralidade. Não de maneira negativa, afinal, não se pode reverter essa realidade ou voltar ao passado, mas de maneira criativa. A vibração transcultural nos fala de um espaço a partir do qual as distâncias entre culturas foram ultrapassadas pelas migrações, pelos deslocamentos das gentes, e pela circulação global de imagens e informações nos meios de comunicação. Virtual e real, o fenômeno liquida a categoria do espaço e faz que tudo se congregue em um mundo sem fronteiras e quase sem distâncias. A utopia de “comunidade global”, como possibilidade de recriar-se com o outro-radicalmente-distinto, está ali, às nossas portas.73 Para que a transformação ocorra, a educação cristã deve basear-se em uma teologia que cumpra seu papel profético de denunciar tudo o que causa a morte neste tempo e também de anunciar a mensagem da esperança. Isso somente se dará ao se compreender os traumas que formam a base dessa realidade múltipla. A valorização da diferença se dá principalmente pelo convívio de várias culturas através da globalização e da mídia. A forte presença da mídia e do uso de aparelhos midiáticos na vida diária dos indivíduos é uma característica importante da contemporaneidade que influencia a construção da identidade na pré-adolescência, tanto através do ciberespaço como através da televisão. Ao investigar o uso das novas tecnologias de comunicação e informação pelo grupo de pré-adolescentes que frequentam o ensino confirmatório, foram feitas duas perguntas sobre o acesso e o uso de aparelhos de reprodução de som e imagem: a Tabela 11. Quantos aparelhos de reprodução de som e imagem você possui? Quais são eles? e a Tabela 12. Com que frequência você usa esses aparelhos?. A Tabela 11 revela o excesso no número de aparelhos de reprodução de som e imagem, tanto para as meninas quanto para os meninos. 50,0 das meninas possuem de 3 a 5 aparelhos e 25,0% possuem de 6 a 10. Entre os meninos, 28,5% possuem de 3 a 5 aparelhos e 21,4% indicaram que nem faziam ideia da quantidade de aparelhos. Os aparelhos citados pelos/as pré-adolescentes foram: celular, TV, ipod, MP3, MP5, câmera fotográfica, computador, rádio, DVD, ipad e vídeo game. Os resultados da Tabela 12, sobre a frequência com que usam estes aparelhos, 73 HOPENHAYN, Martín. Estilhaços de utopia. Vontade de poder, vibração transcultural e eterno retorno. In: LARROSA, Jorge; SKLIAR, Carlos. Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 266. 52 cooperam com o número de aparelhos que possuem: 75,0% das meninas e 85,7% dos meninos apontam que a frequência do uso é diária. Na Tabela 13. O que não pode faltar na sua mochila ou bolsa? predominam os aparelhos de som e imagem, com o celular em primeiro lugar, alcançando a percentagem de 45,0% entre as meninas e 38,0% entre os meninos. Estes resultados apontam para um estilo de vida tecnológico, consumista e conectado. Nádia Laguardia de Lima investiga o fascínio que o ciberespaço oferece a crianças e adolescentes. Para esta investigação ela conceitua o termo fascínio a partir de Lacan e Freud. “Lacan descreve o fascínio no momento de captação da imagem especular, que ocorre no tempo lógico do estádio do espelho, e coincide com a construção do narcisismo em Freud.”74 A autora pontua que muitos autores têm observado que a participação de crianças e adolescentes no ciberespaço dilui as fronteiras entre estas duas faixas etárias historicamente definidas, pois no mundo virtual não é necessário identificar-se, a pessoa pode ser quem ela deseja. No mundo contemporâneo a idade exaltada é a fase da adolescência e por esse motivo muitas crianças ensaiam papéis adolescentes no ciberespaço. José Outeiral entende que com a exposição das crianças à mídia significa também exposição a imagens de forte cunho sexual e erótico que podem abreviar o período de latência, conceituado por Sigmund Freud. A latência é caracterizada como um período de declínio da sexualidade que ocorre entre os 6 anos de idade até o início da puberdade. Esta exposição é consequência da falta de acompanhamento dos pais aos conteúdos dos meios de comunicação que a criança tem acesso, tanto da televisão como da internet. A abreviação do período de latência, segundo Outeiral, pode interferir nos processos afetivos e cognitivos. “Num contraponto à ‘invenção’ da infância pela modernidade, temos, hoje, a ‘des-invenção’ da infância pela pós-modernidade.”75 O individualismo é alimentado pela ilusão da autonomia total, reafirmado pela mídia, dando forma ao narcisismo contemporâneo. Diante da fragilidade do eu e das relações humanas, a marca fundante e estruturante do espelho e seus efeitos identificatórios levam o sujeito a buscar numa estrutura de ficção, uma amarra ou sustentação, mesmo que imaginária.76 74 LIMA, Nádia Laguárdia de. O brincar na contemporaneidade. A criança e os jogos eletrônicos. In: SOUTO, Kely Cristina Nogueira. A Infância na Mídia. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. p. 90. 75 OUTEIRAL, José. Adolescência: modernidade e pós-modernidade. In: WEINBERG, Cybelle (Org.). Geração Delivery: adolescer no mundo atual. São Paulo: Sá, 2001. p. 21. 76 LIMA, 2009, p. 93. 53 Os/as pré-adolescentes, ao serem perguntados/as sobre o que fazem quando têm um tempo livre, respondem que sua preferência é utilizar aparelhos eletrônicos, sendo 52,9% meninas e 42,1% meninos, conforme a Tabela 14. O que você faz quando tem um tempo livre?. Em duas entrevistas realizadas por Lima com uma criança e com um préadolescente, percebe-se um discurso que procede com os resultados do questionário aplicado ao grupo de ensino confirmatório: Eu gosto do computador porque tem joguinhos, MSN... Gosto mais de ficar na Internet do que de brincar com outras coisas. (Mateus, 9 anos, depoimento por meio de entrevista realizada pessoalmente)77 É igual televisão [computador]. Se minha mãe não manda parar eu vou ficando... (Gil, 14 anos, 16/09/2003, depoimento através de entrevista realizada pessoalmente)78 O ciberespaço oferece a possibilidade de criar narrativas artificiais de identidade, que não servirão para as relações sociais “reais”. A criança, o adolescente e o jovem, quando dispensam muito tempo para este ato criativo, a ponto de depender cada vez mais dele, esquecendo de construir suas narrativas do seu passado, presente e futuro no mundo concreto, se sente, consequentemente, deslocado neste mundo. [...] as atuais possibilidades de ensaiar diversas narrativas sobre a própria identidade, por meio de interações virtuais, em um contexto social no qual, além disso, o período de moratória torna-se mais amplo (uma emancipação familiar tardia) têm um elevado potencial de impacto nesse processo evolutivo. Igualmente, as possibilidades do espaço virtual para continuar “brincando com a identidade” durante a vida adulta também podem ser relevantes na definição dessa etapa vital.79 A comunidade religiosa pode contribuir para um relacionamento saudável dos sujeitos com o ciberespaço, colocando esta discussão em pauta, oferecendo atividades grupais concretas, onde possam co-construir suas narrativas de identidade com o apoio do grupo. Aos desafios da relação entre a família, a escola e o grupo de amigos – os microssistemas “clássicos” -, soma-se agora o das relações com um 77 LIMA, 2009, p. 93. LIMA, 2009, p. 94. 79 CAMPS, Silvia; CRESPO, Isabel; LALUEZA, José Luis. As tecnologias da informação e da comunicação e os processos de desenvolvimento e socialização. In: COOL, César; MONEREO, Carles e colaboradores. Psicologia da educação virtual: aprender a ensinar com as tecnologias da informação e da comunicação. Porto Alegre: ARTMED, 2010. p. 62. 78 54 número ilimitado de sistemas virtuais, cada um deles gerador de sua própria microcultura.80 Além disso, através de um planejamento pedagógico o grupo de ensino confirmatório pode oferecer espaços de diálogo entre os/as orientadores/as do grupo com a família, pois como vimos nas entrevistas acima, muitas vezes, o/a próprio/a pré-adolescente não consegue impor para si mesmo limites de tempo para adentrar o espaço virtual, são os pais que devem cumprir este papel quando estão conscientes dele. Segundo Cool e Monereo, está surgindo uma nova forma de sociedade, organizada de forma econômica, social, política e cultural, que pode ser denominada de Sociedade da Informação (SI). Ela se desenvolve, principalmente, através do avanço das novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC), potencializada pela internet como um novo espaço de comunicação global. Na reflexão dos autores sobre o assunto, a característica da velocidade das informações neste espaço dificulta a reflexão crítica e profunda dos cidadãos. Nesse sentido, o grande número de informações e a facilidade do acesso não são necessariamente saudáveis para a construção dos sujeitos no mundo contemporâneo. A abundância de informação e a facilidade de acesso a ela não garante, contudo, que os indivíduos estejam mais e melhor informados. A ausência de critérios para selecioná-la e confirmar sua veracidade, a abundância de informação, que responde, além disso, aos interesses e finalidades daqueles que têm o poder, os meios e a capacidade para fazê-la circular, transformam-se facilmente, para muitos cidadãos e cidadãs, em excesso, caos e ruído.81 Diante dessa realidade é necessário um acompanhamento crítico junto aos sujeitos sobre as informações a que têm acesso, fornecendo ferramentas de interpretação e reflexão sobre os conteúdos. As expectativas do meio social sobre o/a adolescente influenciam diretamente na busca de um lugar onde ele possa ser algo ou alguém, principalmente a mídia, que naturaliza e determina certos comportamentos e atitudes como sendo exclusivos e próprios de adolescentes. Ao ver um programa dirigido 80 CAMPS; CRESPO; LALUEZA, 2010, p. 60. COOL, César; MONEREO, Carles. Educação e aprendizagem no século XXI. Novas ferramentas, novos cenários, novas finalidades. In: COOL, César; MONEREO, Carles e colaboradores. Psicologia da educação virtual: aprender a ensinar com as tecnologias da informação e da comunicação. Porto Alegre: ARTMED, 2010. p. 22. 81 55 para adolescentes, este público passa a assumir para si os significados do tipo de comportamento e estética veiculados pela mídia diariamente. [...] o predomínio de uma determinada visão de adolescência implica o predomínio de determinados significados sociais relativos a esse campo. E implica também em que o jovem, predominantemente, aproprie-se desses significados para representar a sua particular experiência de adolescência.82 Segundo Gonçalves, em uma análise de programas televisivos de três emissoras de TV brasileiras, direcionados ao público adolescente, ela conclui que estes programas valorizam o jovem apenas de forma aparente. Essa “valorização” parece vir de uma suposição do que seria de interesse do adolescente e que é constantemente apresentado a ele (veja-se a repetição de determinadas temáticas nos programas – virgindade, aborto, homossexualidade, drogas, conflitos com autoridade) em aparente debate.83 No entanto, nesta posição de debate sobre o que seria “politicamente correto”, os adolescentes resolvem as discussões de maneira muito rápida e superficial, por isso a rotatividade de temáticas é grande. Os problemas gerados nos debates se resolvem muito rapidamente, em poucos episódios, e “não há compromisso com o encerramento claro de um tema”.84 Esta maneira de resolver os assuntos de forma rápida e sem maiores compromissos é sentida nos encontros com o grupo de ensino confirmatório, na vontade externada pelos/as pré-adolescentes da variedade de assuntos e de uma tendência de tédio iminente. Percebe-se uma defasagem no desenvolvimento de uma consciência crítica e holística da realidade e a frequência de reprodução de concepções dominantes e discurso de frases curtas e prontas, como se observa nas repostas do questionário, de forma geral. O nível de comprometimento e busca dos/as pré-adolescentes refletem sua identidade pessoal. É através de seu comportamento que ele será conhecido pelos outros. No entanto, para construir uma identidade, o/a pré-adolescente precisa de valores claros, que possam ser questionados e aceitos. Na sociedade contemporânea os valores e as expectativas que se têm sobre o indivíduo não estão 82 GONÇALVES, Maria da Graça Marchina. Concepções de adolescência veiculada pela mídia televisiva: um estudo das produções dirigidas aos jovens. In: OZELLA, Sergio. Adolescências construídas: a visão da psicologia sócio-histórica. São Paulo: Cortez, 2003. p. 43. 83 GONÇALVES, 2003, p. 58. 84 GONÇALVES, 2003, p. 59. 56 claros, o que dificulta o processo de desenvolvimento da identidade. Nem mesmo a família consegue proporcionar valores explícitos. “Observa-se nesta sociedade do novo milênio uma tendência ao descompromisso.”85 Stuart Hall, ao fazer um estudo sobre a composição das identidades nacionais nas sociedades pós-modernas, constata que elas são influenciadas pela fluidez de mercadorias e marcas, contribuindo para uma acentuada descentralização da identidade. Este processo se intensifica pelo contato contínuo, através da globalização, com novas culturas das mais diversas regiões do mundo que estão sendo comercializadas.86 As identidades nacionais, como vimos, representam vínculos a lugares, eventos, símbolos, histórias particulares. Elas representam o que algumas vezes é chamado de uma forma particularista de vínculo ou pertencimento. Sempre houve uma tensão entre essas identificações e identificações mais universalistas – por exemplo, uma identificação maior com a “humanidade” do que com a “inglesidade” (englishness).87 Esta identificação nacional, que gera um sentimento de pertencimento, pode ser comparada à identidade religiosa. Por exemplo, na modernidade brasileira, nas comunidades religiosas mais interioranas, os sujeitos se identificavam, muitas vezes, afirmando “sou evangélico” ou “sou católico”. Hoje, esta identificação está perdendo o significado assim como a identificação nacional. A capacidade de vinculação com eventos, símbolos e histórias de determinada religião a nível universal ou local está enfraquecendo. A identificação dos/as adolescentes se mostra muito mais através de grupos culturais locais, como grupos de rock, funk e hip-hop, que são capazes de fornecer uma diferenciação dos demais indivíduos, e também proporcionam a vinculação a lugares, eventos, símbolos e histórias. O que pode estar determinando este sentimento de pertencimento é a capacidade de um grupo ou de uma instituição vincular as narrativas dos indivíduos com as narrativas do grupo. Camps, Crespo e Lalueza investigam o desenvolvimento cognitivo a partir do impacto no manejo das TICs, encaradas como as mais novas ferramentas culturais produzidas pelos seres humanos. Para os autores, as “[...] mudanças nas ferramentas culturais supõem mudanças nas formas de inteligência valorizadas pela 85 AZNAR-FARIA, Maria; SCHOEN-FERREIRA, Teresa Helena; SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. A construção da identidade em adolescentes: um estudo exploratório. Estudos de Psicologia, Natal, ano 1, v. 8, p. 107-115, 2003. p. 112. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/epsic/v8n1/17240.pdf>. Acesso em: 20 nov. 2010. 86 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p. 7376. 87 HALL, 2006, p. 76. 57 sociedade e, portanto, na orientação do desenvolvimento cognitivo, social e emocional dos indivíduos.”88 O uso de videogames, por exemplo, altera áreas como a atenção visual e a representação icônica. Na atenção visual, crianças e jovens desenvolvem o “processamento visual paralelo”, ou seja, a capacidade de prestar atenção a mais de um acontecimento ou atividade. A representação icônica instigada através dos jogos eletrônicos é capaz de produzir uma linguagem e uma forma de pensamento iconográfico. A tecnologia contribui para orientar o desenvolvimento humano, pois opera na zona de desenvolvimento proximal de cada indivíduo por meio da internalização das habilidades cognitivas requeridas pelos sistemas de ferramentas correspondentes a cada momento histórico. Assim, cada cultura se caracteriza por gerar contextos de atividades mediados por sistemas de ferramentas, os quais promovem práticas que supõem maneiras particulares de pensar e de organizar a mente.89 Guimarães também efetua uma pesquisa sobre o impacto das TICs no desenvolvimento cognitivo. Ele pontua que ao longo da história o ser humano foi desenvolvendo instrumentos que aperfeiçoaram e potencializaram suas ações de forma a superar as dificuldades que a natureza impõe. Com o advento da modernidade e agora da contemporaneidade, as TICs passaram a ser “instrumentos que funcionam como próteses mentais, expandindo o potencial cognitivo do cérebro e da mente humana.”90 No cotidiano dos/as pré-adolescentes, as TICs estão, de maneira geral, cada vez mais presentes e atuantes. A atual geração de pré-adolescentes nasceu dentro da dinâmica de vida já profundamente permeada pela TICs. Nesse sentido, não é possível ainda ter clareza da dimensão das transformações que estas tecnologias estão operando e já operaram no cotidiano adolescente, mas certamente realizam mudanças na maneira de ver e se relacionar com e no mundo. Elas espraiaram-se por todo o sistema econômico e permearam o tecido social. O papel que desempenham na sociedade moderna é tão profundo e extenso que se torna difícil conceber um único âmbito de atividade em que não estejam presentes, ou, ainda, que não tenham modificado substancialmente atitudes, comportamentos, formas de relação, ou não proponham novas formas de fazer, de pensar e sentir e, ainda, não ponham em questão valores tradicionalmente assumidos.91 88 CAMPS; CRESPO; LALUEZA, 2010. p. 51. CAMPS; CRESPO; LALUEZA, 2010, p. 51. 90 GUIMARÃES, André Sathler. Próteses Mentais e Novo Ecossistema Cognitivo: reflexões sobre os efeitos das Tecnologias da Informação e Comunicação no processo de ensino aprendizagem. Revista de Educação do COGEIME, n. 20, p. 83-91, 2002. p. 84. 91 GUIMARÃES, 2002, p. 85. 89 58 As TICs se tornaram uma extensão da mente humana, uma forma de auxílio inteligente inédito para a humanidade. Os computadores, por exemplo, “podem reunir grandes quantidades de dados e convertê-los em comparações, listagens, gráficos, auxiliando grandemente na tarefa de atribuir significado.”92 Isto significa que operações e esforços mentais humanos, até então fundamentais, estão sendo substituídos e potencializados, aumentando de maneira imensurável a produção de conhecimento. Nesse sentido, [...] tato e visão já não serão suficientes para absorver a quantidade de informações disponíveis e continuamente geradas, e os computadores pessoais deverão se tornar cada vez mais ativos na interação com o ser humano, agindo como uma extensão de suas faculdades naturais.93 No âmbito da subjetividade dos indivíduos, a sociedade contemporânea já não oferece os valores e orientações claros da modernidade, pois se vive uma “condição agônica” produzida a partir de quatro traumas, com “quatro conseqüentes crises e deslocamentos de significado”94: o trauma cosmológico, o trauma do sujeito, o trauma histórico e o trauma da legitimidade. O trauma cosmológico surge da descentralização do universo com as descobertas de Copérnico, fazendo com que exista a possibilidade de que o mundo, tal como o conhecemos, não tenha sentido. Com isso, se inicia a morte do significado de Deus, ou seja, “o que morre é Deus como outro, a alteridade mesma de um universo cujos limites não mais se conhece, cuja ordem se faz e se refaz em equações sempre mais complexas e incompletas ou indecifráveis.”95 A partir da morte cosmológica de Deus, surge o trauma do sujeito, com as ideias de Decartes, “que afirma Deus como a possibilidade de pensar uma ideia clara e distinta e, portanto, infinita: cogito, ergo sum.”96 Deus foi limitado à consciência humana e, além disso, tornou-se a constituição da própria subjetividade, assim “o sujeito é Deus”97. A relativização biológica do sujeito instaurada pelas descobertas de Darwin deteriora a unicidade que o sujeito acreditava possuir, perfazendo um dos lados 92 GUIMARÃES, 2002, p. 86. GUIMARÃES, 2002, p. 87. 94 WESTHELLE, Vitor. Traumas e opções: Teologia e a crise da pós-modernidade. In. MARASCHIN, Jaci; PIRES, Frederico Pieper (Org.). Teologia e Pós-Modernidade. Ensaios de teologia e filosofia da religião. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. p. 15. 95 WESTHELLE, 2008, p. 16. 96 WESTHELLE, 2008, p. 16. 97 WESTHELLE, 2008, p. 17. 93 59 desse trauma moderno. O outro lado foi instaurado pela afirmação da existência do inconsciente, que não pode ser controlado pelo eu consciente. [...] O desenvolvimento das denominadas “ciências humanas” e, muito particularmente, a descoberta do inconsciente conduziram a uma revisão fundamental da idéia de subjetividade. Tornou-se impossível atribuir ao sujeito, como consciência-de-si, a possibilidade de um pleno domínio de seu próprio ser. E a idéia de reconciliação do sujeito consigo mesmo tornou-se ilusória.98 No entanto, Jean Ladrière coloca que, apesar da quebra de expectativas alimentadas na modernidade sobre a construção de um sujeito reconciliado consigo mesmo, na contemporaneidade ainda podemos perceber a continuidade da criatividade humana nas ciências e a ideia da paz perpétua de Immanuel Kant. A decepção ocasionada na modernidade apenas demonstrou aos seres humanos sua limitação cósmica e as consequentes condições para progredir no campo científico e tecnológico. A crise ecológica e o contínuo crescimento da desigualdade social são exemplos disso. Acrescenta-se ainda a essas descobertas causadoras do trauma do sujeito o fato de que, com a centralização da razão, o ser humano moderno ocidental construiu um mundo através da técnica e da manipulação científica das coisas. No momento em que se manipulam coisas, estas não têm mais qualidades de “ser”, pois se transformam somente em objetos. E, nesse processo, acabou o próprio ser humano se tornando a coisa a ser manipulada. Tornou-se, assim, inevitavelmente, mercadoria. O trauma histórico tem a ver com a relativização dos espaços e a absolutização do tempo. “O trauma histórico ou da perda de um significado único corresponde à decadência do que se tem chamado de grandes narrativas ou metanarrativas que fundaram e sustentaram o edifício Ocidental.”99 Este trauma atinge diretamente a educação cristã, pois o cristianismo se configura como uma metanarrativa que a educação cristã tem a incumbência de recontar, de forma a perpetuar-se e fazer sentido para as próximas gerações. O trauma da legitimidade está relacionado à substituição do livro pelo texto, ou seja, “a escrita como prática de produção da subjetividade de um autor.”100 98 LADRIÈRE, 2008, p. 26. WESTHELLE, 2008, p. 19. 100 WESTHELLE, 2008, p. 20. 99 60 2.3.1 Lyotard e o fim das metanarrativas Dentre uma variedade de posições teóricas acerca da contemporaneidade, de maneira geral, o que há em comum entre muitos pensadores é o fato de esta se configurar principalmente pelas transformações inéditas na sociedade, que vêm acontecendo desde o final do século XIX. O filósofo francês Jean-François Lyotard analisa o início do evento “pósmoderno”, principalmente, a partir do que ele denomina de “fim das metanarrativas” da modernidade. As metanarrativas são a crenças nos grandes discursos que moveram as massas em busca de uma verdade e de uma realização humana universais. Ao tratar da condição pós-moderna como o fim das metanarrativas, Lyotard enfoca a questão do saber, sendo que as principais transformações da pósmodernidade estão atreladas às mudanças no saber científico como discurso e estas mudanças iniciam com o advento das novas tecnologias de informação. As metanarrativas são os grandes discursos que foram capazes de serem reconhecidos e seguidos em várias culturas, arrogando e fornecendo um valor de verdade universal, capaz de direcionar a humanidade a um objetivo comum. Exemplos de metanarrativas são o Iluminismo, o Cristianismo e o Marxismo. A partir desse conceito, Lyotard compreende que os sujeitos são formados, construídos pelas estruturas narrativas dominantes no tempo em que vivem. Estes grandes discursos não alcançaram seus objetivos finais e decepcionaram seus adeptos, esfacelando sua credibilidade. De forma resumida, a crença no progresso através da razão e da ciência provou que traz benefícios à humanidade, mas também pode destruí-la; a salvação e a libertação da humanidade pela fé cristã nunca se realizaram plenamente na vida das pessoas; e o marxismo trouxe consigo regimes totalitários, ao invés do ideal de liberdade e igualdade. “O grande relato perdeu sua credulidade, seja qual for o modo de unificação que lhe é conferido: relato especulativo, relato de emancipação.”101 Com o desenvolvimento do capitalismo neoliberal, a intensa valorização e exploração do saber científico, o acesso às aparelhagens de informação, o constante aperfeiçoamento delas e sua intensa comercialização demonstram que o 101 LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 69. 61 cotidiano das pessoas está sendo bombardeado por informações verbais, sonoras e imagéticas. Por esse bombardeamento ser diário e intenso, o saber é utilizado principalmente no campo da comercialização. Esta comercialização de informações acontece devido à operacionalização do saber, pois este adquiriu uma função predominantemente técnica, para o aperfeiçoamento da produção, uma moeda de troca constante e alvo de disputa de poder. No momento em que uma informação serve a seu propósito de troca momentânea, ela será descartada, pois outra informação mais avançada deve ser produzida e ocupar o seu lugar, servindo para uma nova troca. Com as tecnologias de informação tomando um lugar tão central na vida das pessoas, Lyotard conclui que, logo, o saber, para tornar-se operacional, deve ser traduzido em “quantidades de informação” e “tudo o que no saber constituído não é traduzível será abandonado.”102 Pode-se então esperar uma explosiva exteriorização do saber em relação ao sujeito que sabe (sachant), em qualquer ponto que este se encontre no processo de conhecimento. O antigo princípio segundo o qual a aquisição do saber é indissociável da formação (Bildung) do espírito, e mesmo da pessoa, cai e cairá cada vez mais em desuso. Esta relação entre fornecedores e usuários do conhecimento e o próprio conhecimento tende e tenderá a assumir a forma que os produtores e os consumidores têm com estas últimas, ou seja, a forma de valor. O saber é e será produzido para ser vendido, e ele é e será consumido para ser valorizado numa nova produção: nos dois casos, para ser trocado. Ele deixa de ser para si mesmo seu próprio fim; perde o seu “valor de uso”.103 Como as grandes narrativas que justificavam todo o saber e sua produção perderam sua credibilidade, como se pode justificar o saber hoje? O saber científico não é a única forma de saber. Existe o saber narrativo, que no presente se encontra esfacelado em pequenas narrativas locais. Baseado no conceito dos “jogos de linguagem” de Wittgenstein, Lyortard afirma que a legitimação dos saberes na contemporaneidade só pode se dar localmente, de acordo com as pequenas narrativas de cada contexto. Esses jogos de linguagem possuem dois princípios: o primeiro “é que falar é combater, no sentido de jogar, e que os atos de linguagem provêm de uma agonística geral”104; e o segundo “é que o vínculo social observável é feito de ‘lances’ de linguagem.”105 102 LYOTARD, 2009, p. 4. LYOTARD, 2009, p. 5. 104 LYOTARD, 2009, p. 17. 105 LYOTARD, 2009, p. 18. 103 62 Com isso, pode-se perceber que, assim como a linguagem adquire sentido sendo usada como um “lance” em um jogo, com regras específicas e mutáveis, a legitimação dos saberes se dá também por consensos transitórios e parciais. Sendo assim, com o fim da crença nas metanarrativas para justificar os saberes e com o advento dos pequenos discursos, o que resta como parâmetro para legitimá-los é a performance, a eficácia, os resultados que uma teoria produz. A legitimação do saber científico atual se dá pela sua eficácia, pelo seu poder de aperfeiçoamento das performances do sistema social. Hoje, quem decide o que é relevante para ser produzido como conhecimento não é mais o Estado, ou a classe política tradicional, mas “os dirigentes de empresas, altos funcionários, dirigentes de grandes órgãos profissionais, sindicais, políticos, confessionais.”106 “[...] as ‘identificações’ com os grandes nomes, com os heróis da história atual, se tornam mais difíceis. [...] Cada qual é entregue a si mesmo.”107 O uso do critério performático para legitimar a produção de determinado conhecimento, para Lyotard, “implica certo nível de terror” na medida em que exige essa performatividade das pessoas. Neste processo, como já colocado acima, as pessoas se encontram, hoje, sozinhas, sem heróis nos quais possam se espelhar, entregues a si mesmas. O saber que deveria contribuir para formação humana, nega qualquer ontologia e se transforma em mais um produto do mercado. A relação com o saber não é a da realização da vida do espírito ou da emancipação da humanidade; é dos utilizadores de um instrumental conceitual e material complexo e dos beneficiários de suas performances. Eles não dispõem de uma metalinguagem nem de um metarrelato para formular-lhe a finalidade e o bom uso. Mas têm o brain storming para reforçar-lhe as performances.108 Entre o grupo de pré-adolescentes que frequenta o ensino confirmatório, ainda pode-se observar a admiração a pessoas que podem ser classificadas como heróis nessa fase da vida. Segundo a Tabela 19. Quem é seu maior ídolo? Por quê?, que, conforme a explicação dos/as próprios/as pré-adolescentes, é a pessoa que eles/as mais admiram e que lhes inspira, neste momento de formação de identidade, 50,0% das meninas indicaram os pais (mãe, pai ou ambos). Em segundo lugar empatam as figuras religiosas (Deus e Jesus) e as figuras do meio artístico. Para os meninos, as figuras religiosas são as menos citadas. Disputam entre os 106 LYOTARD, 2009, p. 27. LYOTARD, 2009, p. 28. 108 LYOTARD, 2009, p. 94. 107 63 meninos o primeiro lugar na preferência as figuras do meio artístico e esportivo e os pais. Nas explicações dadas pelas meninas percebe-se a importância da relação pessoal na escolha de seu ídolo através da utilização de pronomes possessivos, explícitos ou implícitos, como, por exemplo, “eu gosto”, “para mim”, “mais confio”. Entre os meninos os valores concentram-se no aspecto performático, no sucesso que alcançaram e que se expressam em frases como “toca bem”, “se esforça” e “melhor lutador”. Estes resultados demonstram que a figura dos ídolos ou heróis, que funcionam como pessoas inspiradoras para a construção de si, são pessoas próximas significativas, como os pais, ou pessoas significativas segundo os valores individuais. Isto quer dizer, pessoas que lutam a partir de interesses individuais, como o sucesso, por exemplo. Dificilmente a inspiração se direcionará para pessoas baseadas em valores coletivos. O coletivo poderia estar relacionado à escolha das figuras religiosas, no entanto, é importante considerar que as respostas do questionário que se referem a preferências religiosas podem ter sido influenciadas pela convivência social no meio religioso no momento da resposta. Isto quer dizer que os/as pré-adolescentes podem estar querendo “agradar” aos orientadores que lhes acompanharam por aproximadamente um ano e meio. Por exemplo, a pessoa do questionário F10 escreveu inicialmente que o seu ídolo era “Justin”, e, logo depois, riscou o nome e substituiu por Jesus. Provavelmente estava se referindo a Justin Bieber, cantor adolescente canadense de música pop, bastante admirado pelas meninas na atualidade. Estes resultados indicam que as narrativas que legitimam a escolha de determinados ídolos são locais e não universais, como poderia acontecer em outras épocas em que figuravam personalidades que lutavam por ideais coletivos como Che Guevara, Mahatma Gandhi e Martin Luther King. A adesão aos ídolos ou heróis continua existindo, ao contrário do que constata Lyotard, mas, assim como as narrativas, as escolhas dos ídolos estão baseadas em questões locais e individuais. As características pós-modernas elencadas por Lyotard se mostram atuantes não somente na esfera intelectual, mas também se infiltram gradativamente no cotidiano das pessoas. No início da década de 1990, muitos autores já apontavam para a importância de se considerar os efeitos das características pósmodernas nas escolas. 64 Elementos centrais do pensamento educacional tais como o ensino, a aprendizagem, a estrutura das disciplinas, o conhecimento científico, o método e o progresso tornaram-se, todos, altamente problemáticos. Até agora, educadores, tanto os práticos quanto os teóricos, tinham conseguido, em sua maioria, ignorar ou descartar as questões oriundas do “pós-moderno”. Entretanto, esse isolamento e indiferença aparente do discurso educacional não podia deixar – e não deixou – a educação imune aos efeitos da pós-modernidade.109 A educação religiosa difere da educação escolar, aos olhos dos/as préadolescentes, justamente por trabalhar um conteúdo não testado, não comprovado cientificamente, e incompatível com a performatividade exigida e valorizada pela sociedade pós-moderna, mas que arroga para si um valor de verdade. Se os conteúdos escolares na pós-modernidade estão sendo relativizados e perdendo seu valor de verdade e sentido, quanto mais os conteúdos religiosos, que se perpetuam pela tradição, pelo ensino que perpassa principalmente a família, de geração a geração, como poderá ser analisado no próximo capítulo. Neste tempo, mais do que nunca, a educação cristã luterana está sendo desafiada a compreender o povo de Deus e ir ao seu encontro de maneira concreta. O abandono da crença na verdade universal implica a perda de todo critério final, graças ao qual podem-se avaliar as várias interpretações da realidade que se entrechocam na esfera intelectual contemporânea. [...] No máximo, dizem os pós-modernos, podemos julgar essas interpretações somente com base em padrões pragmáticos, ou seja, com base “naquilo que funciona”.110 O ser humano pós-moderno se baseia naquilo que pode ter e o estético toma definitivamente o lugar do ético, nas escolhas cotidianas. Este comportamento humano traz prejuízos perceptíveis no convívio diário em sociedade e nos centros de formação, preocupando as instituições que ainda lutam por preservar valores e metanarrativas, como é o caso da educação cristã luterana. Ao falarmos em saber na educação cristã, necessitamos compreender que tipo de saber compõe este cenário. Sabe-se que é um tipo de saber narrativo e que não pode ser quantificado ou servir de moeda de troca no mercado. A partir dessa constatação, em meio à realidade pós-moderna, o desafio à educação cristã se encontra em colocar sentido nesta forma de saber no convívio comunitário, para 109 BAIN, William J.; KIZILTAN, Mustafá Ü.; M., Anita Cañizares. Condições Pós-Modernas: Repensando a Educação Pública. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Teoria educacional crítica em tempos pós-modernos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. p. 209. 110 GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um guia para entender a filosofia de nosso tempo. São Paulo: Vida Nova, 2008. p. 234. 65 além de postulados lógicos e racionais, mas muito mais para as atitudes e relações humanas concretas. Como reflete Antonio Carlos de Melo Magalhães, “Escritura e transmissão da experiência são, fundamentalmente, narrativas de fé”. Chegamos à conclusão que o processo revelatório inclui a narrativa como elemento constitutivo. Não existe, portanto, uma fé em reação à revelação, mas um processo revelatório do qual a narrativa da fé é parte constituinte. Isto porque o processo revelatório se dá sempre numa história concreta (mundo, sociedade) do povo de Deus (realidade eclesial, comunitária e cristã no sentido amplo e não restrito confessional) específico, a partir de categorias conceituais de um período (academia, reflexão, culturainterpretação).111 Magalhães faz críticas em relação a dois métodos da teologia que influenciam na formação dos/as teólogos/as e de muitos/as educadores/as cristãos/ãs. Estas críticas são válidas também para os processos de educação cristã comunitária, em especial para a educação cristã direcionada a pré-adolescentes e adolescentes. Por se considerar que a adolescência é uma fase de apogeu cognitivo e do advento da capacidade de pensar de forma abstrata, o primeiro método criticado por Magalhães é muita vezes utilizado para a elaboração de materiais didáticos para este público. 1) a primeira, de cunho mais europeu, tem uma certa “mania” de trabalhar conceitos para a vida. É como se chegássemos à verdade das coisas, simplesmente fazendo um estudo sobre os diferentes sentidos atribuídos ao conceito com o qual trabalhamos, desde que, naturalmente, uma linearidade nestes sentidos seja constatada e preservada. A teologia segundo este modelo, teria o trabalho de escolher os conceitos, mostrar linearidade nos sentidos a eles atribuídos, para, em seguida, falar ao ser humano moderno de suas aplicações e contextualizações. De tanto buscar a verdade do passado, chegamos cansados ao presente. 2) A segunda herança é de cunho mais norte-americano, é aquela que trabalha com modelos de práticas para novas práticas na comunidade. É a teologia do receituário eclesiástico. Algumas práticas bem sucedidas em determinados contextos eclesiais são rapidamente universalizadas. Em geral, essas práticas exemplares expressam um mundo de uma classe média estabelecida. Nenhuma delas dá conta das invenções religiosas no cotidiano ou reflete amorosa e criticamente sobre nossa especificidade 112 cristã em nosso continente. Para Magalhães, a teologia deve adentrar o cotidiano das pessoas através da valorização das narrativas teológicas, relacionando as narrativas bíblicas com as narrativas das pessoas no cotidiano. 111 MAGALHÃES, Antonio Carlos de Melo. Invenções religiosas no cotidiano e teologia narrativa. Estudos Teológicos,São Leopoldo, ano 45, n. 2, p. 90-106, 2005. p. 101. 112 MAGALHÃES, 2005, p. 103. 66 Recuperar aspectos fundamentais da teologia narrativa, desenterrar memórias sufocadas e colocá-las na interlocução dos grupos atuais e das memórias auto-biográficas dos sujeitos, reler as teologias auto-biográficas, vibrar novamente com as belas imagens que temos em nossas muitas histórias e narrativas, olhar mais amorosa e reflexivamente para as diferentes invenções religiosas em nosso cotidiano.113 Com o fim das metanarrativas, da possibilidade de uma verdade universal, as pequenas narrativas tomam seu lugar e demonstram ser impossível pensar em um modelo de educação cristã que seja válido para todos os contextos. É necessário pensar em projetos próprios para cada realidade, segundo suas demandas. As Igrejas cristãs tradicionais, ainda inertes e, muitas vezes, fechadas diante de tantas mudanças repentinas e complexas, não conseguem corresponder à situação agônica do indivíduo pós-moderno, que possui mais dúvidas do que certezas e que prefere experimentar a afirmar como verdadeiras algumas frases doutrinárias. 2.3.2 Gilles Lipovestky e a hipermodernidade Gilles Lipovetsky em suas obras defende que a sociedade contemporânea se constitui a partir de uma modernidade vivida em excesso, de onde surge o termo hipermodernidade para denominá-la. O autor não concorda que a modernidade tenha sido ultrapassada. O individualismo e o consumo de bens, por exemplo, valorizados na modernidade, hoje estão sendo experimentados em excesso e sendo constantemente promovidos. Em 1983, Lipovetsky publicou sua primeira obra A era do vazio. Neste livro, o autor traz a ideia de que as grandes narrativas do século XX, como a crença no progresso, no socialismo e na revolução perderam o seu poder de influência e mobilização na sociedade contemporânea. A descrença é perceptível pela falta de interesse das pessoas por temas públicos. O interesse pode até mesmo acontecer, mas logo desaparecer. No entanto, a falta de mobilização social não é absoluta, mas parcial, pois ainda existem causas pelas quais o cidadão se mobiliza. A diferença no tempo de envolvimento depende do nível de pessoalidade da causa. As pessoas, hoje, se comprometem e lutam por questões muito mais existenciais do que abstratas, ou 113 MAGALHÃES, 2005, p. 103. 67 seja, questões que interferem na sua vida cotidiana diretamente. Exemplos de interesses permanentes são as questões ambientais, que podem assumir um caráter mais universal, e questões locais promovidas por associações, ONGs, escolas, etc. É interessante notar como a preocupação ambiental e, particularmente, as práticas de Educação Ambiental (EA) vêm se construindo enquanto um Bem na contemporaneidade. Isto é, um sentido valorizado pela sociedade que tende a ser incorporado pela educação, ao mesmo tempo em que se oferece como ideal para os processos de formação identitária. Desta forma, crenças, valores, atitudes e práticas ecologicamente orientadas convertemse num valor ao mesmo tempo social e pessoal.114 Esta preocupação com a ecologia é observada no discurso dos/as préadolescentes que frequentam o grupo de ensino confirmatório, ao responderem a Tabela 20. Você acha que é possível melhorar o mundo? Explique. Para 91,6% das meninas e 92,8% dos meninos é possível melhorar o mundo. Nas explicações, 19,26% do total das 26 respostas apontam soluções relacionadas à preservação do meio ambiente (parar de poluir, reciclar, preservar, ser ecológico e cuidar do meio ambiente). O maior percentual de explicações consiste em “frases de efeito” muito semelhantes sobre a cooperação de todos. Para 38,46% dos/as pré-adolescentes, a solução para a melhoria do mundo consiste na conscientização e na cooperação universal. É interessante observar também que para 21,42% dos meninos, a solução para melhorar o mundo está relacionada com o fim da violência (conforme M2, M6 e M11), enquanto que nenhuma das meninas cita algo relacionado à violência. Isto demonstra que entre os meninos a violência é uma grande preocupação em seu cotidiano. Os resultados desta pergunta demonstram que a esperança em um mundo melhor no futuro ainda permanece neste grupo de pré-adolescentes “hipermodernos”. Para eles/as, a realização das melhoras não depende de um pequeno grupo, mas de “todos”. A perspectiva universal ainda persiste nos discursos e está bastante fundamentada na preservação do meio ambiente. Estes resultados confirmam a reflexão de Lipovetsky. No entanto, ao mesmo tempo em que ainda existe a esperança em algumas metanarrativas, também existe o sentimento de vazio e decepção. 114 O vazio é CARVALHO, I. C. M. Invenção e auto-invenção na construção psicossocial da identidade: A experiência constitutiva do/a educador/a ambiental. In: GUIMARÃES, Mauro (org). Caminhos da educação ambiental. Campinas, Papirus, 2006. p. 1. Disponível em: <http://www.isabelcarvalho.blog.br/pub/capitulos/invencao_auto_invencao.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2011. 68 utilizado como uma metáfora para a falta de orientação na sociedade. Apesar de existir o espelhamento em ídolos e heróis, de forma individual, e de ter esperança em um mundo melhor através de atitudes a serem abraçadas coletivamente, não existe uma orientação clara e determinada para oferecer segurança aos indivíduos. As referências que antes eram sólidas e claras hoje se apresentam confusas. Vazio e decepção caminham lado a lado no ser humano hipermoderno. Obviamente, a decepção, como qualquer outro sentimento, constitui uma experiência universalmente conhecida. Enquanto ente de desejo cuja essência consiste em negar aquilo que é - Sartre dizia que o homem não é aquilo que ele é, sendo aquilo que não é -, o homem é um ser que espera, e que, por isso mesmo, não pode evitar a decepção. Desejo e decepção caminham juntos. A dicotomia entre a expectativa e o real, princípio de prazer e princípio de realidade, criam um vazio que muito dificilmente pode ser preenchido.115 A obra A sociedade da decepção, composta na forma de uma entrevista coordenada por Bertrand Richard ao autor Gilles Lipovetsky, demonstra o desenvolvimento do pensamento de Lipovetsky sobre a sociedade hipermoderna. Nesta obra fica evidente que o filósofo francês vê no desenvolvimento histórico da vida pública e privada pontos positivos e negativos. Por um lado, “a ordem autoritária, disciplinar, moralista fora profundamente abalada pelo hedonismo da sociedade de consumo”116, trazendo mais liberdade ao indivíduo. Por outro, “esse acontecimento beneficiava muito menos o indivíduo do que se poderia supor.”117 O excesso de liberdade na autocompreensão do sujeito hipermoderno trouxe um sentimento de caos, no entanto, esta subjetividade liberta é na prática uma ilusão. José Souza Saramago, escritor português, crítico da sociedade atual, declaradamente comunista, busca inquietar os leitores através de seus romances fictícios. Em A Caverna (2000), Ensaio sobre a Cegueira (1995) e Ensaio sobre a Lucidez (2004), Saramago questiona o atual sistema capitalista com o seu modelo de governo democrático e seu discurso de liberdade. Através da metáfora da “cegueira branca”, o autor transmite a ideia de que o simples direito ao voto a cada dois ou quatro anos produz uma ilusão de um direito democrático. A epidemia da cegueira é um mal necessário para a conscientização do povo. O voto não garante a participação real e significativa das pessoas nos processos políticos do Estado. 115 LIPOVETSKY, Gilles. A Sociedade da Decepção. Barueri: Manole, 2007. p. 5. LIPOVETSKY, 2007, p. 3. 117 LIPOVESTKY, 2007, p. 3. 116 69 Quem detém o poder de escolha real hoje é o poder econômico, que não é democrático. Após a epidemia e conscientização da primeira obra, a metáfora da caverna de Platão, com o anúncio: “BREVEMENTE, ABERTURA AO PÚBLICO DA CAVERNA DE PLATÃO, ATRACÇÃO EXCLUSIVA, ÚNICA NO MUNDO, COMPRE JÁ A SUA ENTRADA”118, apresenta a alienação, a confusão de identidade através das personagens Algor e Marçal, que o capitalismo neoliberal induz. Saramago e Lipovestky constatam uma sociedade da ilusão. O hiper vivenciado em busca da ilusão da satisfação, que sempre demonstra ser passageira. Baudrilard também percebe esta ilusão agônica contemporânea, porém de forma mais “cruel”. É um monstro que inverte as conquistas da liberação social. É o capital que se emancipa dos trabalhadores! São os pais que se libertam dos filhos! Fim do Édipo, fim da luta de classes, à sombra dos quais tudo ia bem. Todas as correntes se invertem. Só se falava da liberdade, de emancipação, de transformar em liberdade o máximo de fatalidade possível. Hoje, apercebemo-nos que a onda libertadora não é senão a melhor maneira de impingir aos escravos o fantasma do poder e da liberdade.119 Muitos definiram Baudrilard como cínico pessimista, mas Juremir Machado da Silva o considera um minucioso observador da realidade contemporânea. Ao defini-lo, Silva também enumera os sintomas do tempo que estamos presenciando. Observador incansável e arguto, Jean Baudrillard analisou a mercantilização da cultura, o ocaso da utopia, a perda das ilusões revolucionárias, a derrocada do comunismo, a ascensão do consumismo, a crise das vanguardas artísticas, a “midiatização” das sociedades, o fim da sedução, a consolidação do obsceno, o fim da idéia de fim – fim das classes sociais, fim do capitalismo, fim da opressão, fim da desigualdade, fim da história –, o desenvolvimento tecnológico – virtual, clonagem, etc. E ironizou a “disneificação” do mundo, “a sexualidade como doença transmissível” e o delírio como única forma de racionalidade aceitável, radical e emancipatória.120 Lipovestky e os demais autores citados constatam na hipermodernidade uma sociedade da ansiedade. Buscou-se investigar a ansiedade que poderia estar presente entre o grupo de pré-adolescentes que frequentam o ensino confirmatório, perguntando “qual é o seu maior medo.” O estereótipo em torno do adolescente de que não tem medo de nada e de que não se importa com nada não condiz com a 118 SARAMAGO, José. A Caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 350. BAUDRILLARD, Jean. O Paroxista Indiferente. Entrevistas com Philippe Petit. Rio de Janeiro: Pazulin, 1999. p. 73-74. 120 SILVA, Juremir Machado da. O Paroxista diferente. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 32, p. 810, abr. 2007. p. 10. 119 70 realidade dos pesquisados. Como analisa Lipovetsky, a sociedade da ansiedade atinge todas as faixas etárias. Parece que a ansiedade dos adolescentes concentrase em torno do medo sobre as questões mais importantes para eles nesta fase da vida, como a família e os amigos e também pelos terrores produzidos, enfatizados e comunicados pela mídia, como a morte, a violência e as doenças. Morte das pessoas significativas (amigos e familiares) compõe o principal temor dos indivíduos no início da adolescência. Observa-se o medo da morte de amigos e familiares através dos resultados da Tabela 17. Qual é o seu maior medo?. Averigua-se que tanto entre as meninas quanto entre os meninos, o maior medo consiste em perder os pais ou familiares. Morte, doença e violência juntas são citadas em 53,33% das opções citadas pelos dois sexos. Lipovetsky externa sua opinião sobre o papel da religião no desenvolvimento histórico da sociedade ocidental apresentando dados da Europa secularizada – realidade que ainda não pode ser aplicada ao Brasil. Para o autor, a religião não opera milagres para solucionar todos os problemas sociais, tais como os que vivemos hoje. No entanto, o autor reconhece sua função de “ponto de apoio” em meio às inseguranças da vida. [...] a religião jamais se mostrou capaz de impedir a manifestação de todas as penas e amarguras a que estão os sujeitos. Todavia, ninguém ousará negar que, em sua vertente tradicionalista, efetivamente conseguiu representar um refúgio, uma garantia, um ponto de apoio ou de consolação insubstituível, contrapondo-se às inevitáveis provações da vida diária e aos estertores do sofrimento atroz. Ainda que a fé em Deus nunca possa ser extinta, tudo indica que a religião deixou de desempenhar o papel confortador que tivera no passado. Só 18% dos franceses crêem "inteiramente" na existência do paraíso, e 29%, na vida eterna; só 20% declaram fazer regularmente as suas orações, sendo que, na faixa entre os 18 e 24 anos, o índice é de 10%. Em face da decepção, os indivíduos já não dispõem dos hábitos de vida de piedade ou das convicções "prontas e acabadas': que costumavam atenuar suas dores e mágoas. De agora em diante, compete a cada pessoa procurar as próprias tábuas de salvação, cada vez com menos suporte e alívio provenientes da esfera do sagrado. A sociedade hipermoderna é propriamente aquela que multiplica ao infinito as ocasiões de experiência frustrante, ao mesmo tempo que deixa de proporcionar os antigos dispositivos "institucionalizados" para debelar esse mesmo mal.121 Esta vida liberta da orientação institucional pode ser sentida na realidade brasileira, mas os aspectos da religiosidade individual, como a prática de orações e a crença na vida eterna, ainda são vivenciados. 121 LIPOVETSKY, 2007, p. 6-7. Este aspecto individualista é 71 descrito também por Sebastién Charles, teórico que continua as ideias de Lipovetsky, conforme se pode acompanhar no próximo ponto. 2.3.3 Sébastien Charles e a hipermodernidade Sébastien Charles é um filósofo francês que parte das reflexões de Lipovetsky para reafirmar o conceito de hipermodernidade. Ao explicar a origem do termo pós-moderno, Sébastien Charles relembra a arquitetura e as preocupações que suscitaram este novo termo. O termo pós-moderno surgiu primeiramente na arquitetura, na década de 1960, para denominar um desejo e uma atitude de rompimento com o estilo arquitetônico moderno. A preocupação dos arquitetos pósmodernos era: [...] preocupação com o espaço a se organizar e com sua história; consideração das comunidades e do meio local; valorização do conforto interno, dos adornos e da harmonia geral; crítica dos projetos faraônicos modernos; recusa da amnésia voluntária dos modernos em relação ao mundo das tradições; tolerância com relação às diferenças de formas, de estilos ou de épocas e celebração da mestiçagem; respeito aos indivíduos considerados como futuros usuários do lugar, etc.122 Estas características citadas por Charles demonstram claramente uma insatisfação com os critérios rígidos que alimentavam a cultura moderna. Mais tarde, o termo que representava o descontentamento e o protesto contra a modernidade foi reutilizado em outras áreas e a filosofia é o exemplo que Charles cita, através dos filósofos Lyotard e Vattimo. Segundo ele, estes autores constatam a falência do projeto moderno baseado nas grandes narrativas e, assim como na arte, o moderno está ultrapassado. No entanto, Sébastien Charles considera a realidade contemporânea extremamente complexa para ser analisada simplesmente a partir do fim das metanarrativas. Para ele, a constatação do fim da modernidade é frágil na argumentação dos filósofos citados anteriormente. Tanto que outros pensadores buscaram outros termos alternativos que evitassem a ideia de um rompimento: “metamodernidade (Giddens), ultramodernidade (Gauchet e Zarka), hipermodernidade (Lipovetsky)”.123 Charles prefere o termo hipermodernidade, 122 CHARLES, Sébastien. Cartas sobre a hipermodernidade ou o hipermodernismo explicado às crianças. São Paulo: Barcarolla, 2009. p. 18. 123 CHARLES, 2009, p. 22. 72 seguindo Lipovetsky, pois o superlativo “hiper” passa a ideia de uma radicalização da modernidade. A radicalização e não o rompimento se justifica, pois os quatro princípios fundamentais que regiam a modernidade ainda permanecem, mas sob uma forma radicalizada: a liberdade e a valorização judicial do indivíduo, a valorização da democracia, o mercado como regulador da economia e o desenvolvimento tecnológico-científico. No entanto, para Charles a pós-modernidade não estava enganada em sua análise da realidade, mas na sua intenção de rompimento com a modernidade, pois a decadência das metanarrativas apenas libertou o indivíduo de qualquer tipo de sujeição. Não é, portanto, na análise que a pós-modernidade enganou-se, é na ruptura que ela acreditava representar com a modernidade. A pósmodernidade não é diferente da modernidade, ela é simplesmente a modernidade livre dos freios institucionais que bloqueavam os grandes princípios estruturantes que a constituem (o individualismo, a ciência tecnológica, o mercado, a democracia) de se manifestar plenamente.124 Esta modernidade radicalizada é uma modernidade sem ilusões, pragmática e sem concorrências. O indivíduo hipermoderno, liberto de qualquer tipo de amarra, entregue a si mesmo, faz de sua vida o que bem entende e escolhe o que mais lhe atrai. Nesse sentido, na sociedade hipermoderna, “a tradição perde espaço face à maior autonomia dos indivíduos, cujo percurso da vida é mais espontaneamente construído, não mais seguindo uma via preestabelecida pelas instâncias tradicionais da socialização.”125 Esta desagregação da tradição não está sendo sentida sob o aspecto da emancipação, mas da tensão, pois a incerteza quanto ao futuro faz imperar o medo. Charles define a sociedade hipermoderna como “complexa e paradoxal porque, ao mesmo tempo em que estimula os prazeres (o hedonismo, o consumo, a festa), ela produz comportamentos angustiados e patológicos.”126 O excesso dos indivíduos na busca de entretenimento, prazer e prosperidade material têm causado um prejuízo considerável nas relações. Os tempos hipermodernos implicam no fato de que cada indivíduo, entregue à sua própria liberdade, é submetido a influências paradoxais que opõem, ao mesmo tempo, as exigências do hedonismo e as da responsabilização, gerando, como conseqüência, um tipo de sociedade 124 CHARLES, 2009, p. 26. CHARLES, 2009, p. 28. 126 CHARLES, 2009, p. 29. 125 73 esquizofrênica dividida entre uma cultura do excesso e o elogio da moderação.127 Os grupos não têm mais poder de imposição sobre o indivíduo (religião, escola, partidos políticos), e esta é uma característica perceptível na relação familiar entre adultos e crianças. Somos educados desde a tenra infância a sermos móveis, fluidos, independentes. No entanto, este tipo de educação sem os freios ou parâmetros grupais, fornecidos antigamente pela tradição, causa muito mais uma desestabilização do ego do que afirmação triunfante do ser humano como senhor de si mesmo. Diante de um nível de autonomia e liberdade tão alto nos indivíduos, o destino da sociedade será determinado pelo seu comportamento. Assim, Charles conclui que o futuro depende “de fazer vencer a ética da responsabilidade em detrimento dos comportamentos irresponsáveis.”128 Charles usa o exemplo da metanarrativa da felicidade para explicar que nem toda metanarrativa está desacreditada, pelo contrário, algumas em especial ganham força. No entanto, não a ideia de felicidade universal e sim a busca pela felicidade individual. “Em vez de esperar da política uma salvação improvável e futura, o indivíduo hipermoderno busca ele próprio criar as condições da sua felicidade, e se possível no presente.”129 Nesse sentido, nem todas as metanarrativas perderam sua credibilidade, mas houve um deslocamento de legitimidade, pois esta não precisa e não consegue mais ser coletiva, mas individual, seguindo a maneira peculiar hipermoderna de encarar o mundo. Esta maneira peculiar de encarar o mundo está presente nas escolhas dos/as pré-adolescentes quanto ao presente e ao futuro. Buscando investigar seus projetos de vida e o que define suas escolhas no cotidiano, através do questionário foram elaboradas duas perguntas para que refletissem e respondessem: Tabela 16. Qual é o sentido da vida para você? e Tabela 18. Qual é o seu maior sonho? As respostas a ambas as perguntas são de cunho bastante individualista e principalmente se referem a buscar “aproveitar a vida”, “ser feliz” individualmente. As respostas da Tabela 16 são bastante variadas entre as meninas, mas destacam-se as respostas voltadas para a formação de uma família, que são citadas em três 127 CHARLES, 2009, p. 29. CHARLES, 2009, p. 29. 129 CHARLES, 2009, p. 29. 128 74 casos. Entre os meninos não aparece a formação de uma família, e o mesmo se aplica à compreensão de aprendizado. Para quatro meninas o sentido da vida deve ser descoberto durante o desenvolvimento dela (F6, F7, F10 e F11). Entre os meninos esta perspectiva não é citada. Estas respostas podem indicar uma educação familiar diferenciada a partir do gênero e também um amadurecimento precoce das meninas, conforme indicam as pesquisas do desenvolvimento biológico e da personalidade. Enquanto as meninas são educadas para desejar formar família, mesmo que em menor número do que poderíamos encontrar no passado, os meninos são educados muito mais para se “divertir”, “aproveitar a vida” e “ser feliz”. A felicidade é o sentido da vida da maioria dos/as pré-adolescentes, principalmente entre os meninos. Esta compreensão está presente em frases que valorizam a independência, a liberdade e a diversão, conforme apontam Lipovetsky e Charles. As respostas da Tabela 18 sobre o maior sonho confirmam as respostas sobre o sentido da vida da Tabela 16 e sobre os ídolos da Tabela 19. O maior sonho das meninas está relacionado a ter uma profissão para realizar-se individualmente. Entre os meninos, o sonho encontra-se entre a diversão e o sucesso, que está relacionado a ser alguém de destaque no esporte, como os seus ídolos. Estas respostas, portanto, confirmam as análises dos autores quanto à realidade hipermoderna e desafiam a prática da educação cristã comunitária junto a pré-adolescentes. Esta maneira de construir a identidade sem o amparo da tradição ou de qualquer valor coletivo de bem comum desafia a teologia cristã luterana voltada para a comunhão e o amor ao próximo. É necessário o diálogo entre os valores coletivos cristãos e os valores individuais dos/as pré-adolescentes hipermodernos. Este diálogo pode acontecer através do encontro de narrativas individuais e coletivas. 2.4 Os desafios de uma educação cristã luterana comprometida com este tempo A reflexão apresentada acima pelos filósofos em torno dos termos pósmodernidade e hipermodernidade, sugerindo respectivamente rompimento com a modernidade pelo fim das metanarrativas e uma modernidade vivida no excesso de suas características, apresenta questões extremamente relevantes para que a 75 teologia possa compreender a dinâmica da sociedade contemporânea. A discussão filosófica, histórica e sociológica, em torno da definição do termo mais adequado para nomear o presente, não é tarefa da teologia e sim da filosofia, da história e da sociologia. No entanto, estas discussões fornecem à teologia subsídios para compreender a sociedade para dentro da qual o saber teológico quer se fazer relevante. Algumas reflexões dos autores apresentados acima merecem pontuações. Os argumentos apresentados por Lipovetsky e Charles para derrubar a ideia do rompimento das metanarrativas de Lyotard são convincentes. Existem muitos indícios de que a crença nas metanarrativas ainda existe, porém elas se movimentam a partir de interesses individuais existenciais que levam o indivíduo a inevitavelmente aderir a uma causa universal. Além disso, a lógica do capitalismo moderno parece se expandir a cada dia, chegando a um excesso indiscutível. Estas e outras questões apresentadas por Lipovetsky e Charles parecem indicar ser muito mais apropriado utilizar o conceito de hipermodernidade para se referir ao presente do que o termo pós-modernidade. No entanto, percebe-se também na dinâmica social contemporânea um rompimento com todo o tipo de solidez apresentada pelo mundo moderno. Relações, tradições, instituições, valores, verdades tudo está fluido, como aponta o sociólogo Sygmunt Bauman.130 A adesão a qualquer destes elementos é facilmente passível de mudança. Neste sentido existe um rompimento com a solidez e constância da modernidade. Não se pode dizer quanto a estes aspectos que se vive uma espécie de excesso. A partir dessa reflexão, não é possível utilizar apenas um dos termos para definir o presente, mas perceber que ambos os pontos de vista trazem elementos muito importantes sobre a dinâmica da sociedade atual, com a qual a educação cristã atua diretamente. A reflexão sobre a comercialização do saber de Lyotard é muito importante para compreender a falta de valor atribuída aos conteúdos da educação cristã comunitária e o desafio que permanece para reconstruir esta valorização com o público pré-adolescente, que nasceu em meio a esta realidade de rompimentos, excessos e fluidez. A educação cristã, diante da realidade atual, necessita encarar a complexidade 130 biopsicossocial presente nos processos que envolvem BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. o 76 conhecimento e a aprendizagem contemporânea. Para isso, ela necessita compreender a sociedade em que atua e ter clareza da teologia que a fundamenta, que transmite e que, ao mesmo tempo, no processo de educar, reconstrói. Jessé Pereira da Silva, ao tratar do tema da complexidade na contemporaneidade, aponta para algumas características vivenciadas na sociedade e que podem afetar diretamente os sujeitos envolvidos no processo da educação cristã (educadores/as e educandos/as): • Ela é irredutível e inescapável a ponto de nos sentirmos indefesos; • Há quantidade massiva de informações e imagens sem sentido maior, num fluxo infinitamente complexo e turbulento; • Há também o sentimento de perda de senso de direção e propósito. Sentimento de confusão e incerteza; • As coisas estão mudando mais rápido do que a nossa capacidade de compreendê-las; • Experimenta-se a falta de estabilidade e equilíbrio e o desejo de reavê-los.131 Nos ambientes comunitários destinados ao processo formal de educação cristã, estas características se mostram através do sentimento de incapacidade, imobilidade e ineficácia por parte dos/as educadores/as. E, quando se fala nesses três aspectos, refere-se à capacidade transformadora da educação cristã, à capacidade de comprometimento e responsabilização dos indivíduos perante a sociedade, a partir do evangelho. As dificuldades de criar alternativas pedagógicas se dão perante a realidade da secularização, que colocou a fé à margem da vida pública. O cristianismo é, antes de tudo, uma religião. No entanto, sempre, e sobretudo em nosso mundo secularizado, as religiões tendem a ser vistas como algo estranho, como se literalmente fossem meteoritos caídos do céu sobre nossas vidas e nossas cabeças.132 É urgente a tarefa de pensar em uma educação cristã que contribua para o testemunho da fé em âmbito público e não somente privado. A educação cristã necessita interpretar o presente, compreender o passado e repensar ações com uma intencionalidade para o futuro e para o presente concomitantemente. As reflexões realizadas pelo sociólogo Zygmunt Bauman nos auxiliam a compreender os riscos que estamos correndo. Ele define o tempo que vivemos como “Modernidade Líquida”, a partir do conceito de fluidez. Segundo o autor, os 131 132 SILVA, 2008, p. 54. QUEIRUGA, Andrés Torres. Cristianismo no mundo de hoje. São Paulo: Paulus, 1994. p. 13. 77 fluidos sugerem leveza, mobilidade e inconstância. E “essas são razões para considerar ‘fluidez’ ou ‘liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade.”133 Essa fluidez nas relações humanas e nos espaços geográficos tem sido potencializada a cada dia pela virtualidade da comunicação, coroada pelo que convencionamos chamar de globalização. “A radicalidade da mudança dos valores tem levado a uma fluidez do mundo em que vivemos – potencializada pela perspectiva da realidade virtual.”134 A diversidade cultural, que convive mediante a globalização, estabelece o reconhecimento da existência, não de uma verdade, mas de verdades, ou seja, a verdade necessita ser relativizada para que a paz seja possível. O advento da modernidade e a ascensão plena do indivíduo como ponto de partida e de chegada de suas batalhas e conquistas, a ele atribuem a tarefa de construir-se o melhor que pode sem os freios e apoios da tradição, da comunidade e da fé, entre outros. A radicalidade da particularização da vida tem colocado desafios cada vez maiores ao indivíduo que, na atualidade, se guia por ostensivos sinais que lhe dizem ser indispensável consumir o que há de mais novo no mercado, ser belo, famoso, bem-sucedido e, fundamentalmente, ser sempre melhor que o seu parceiro ao lado.135 As vidas são guiadas pelo desejo, pela novidade, pela velocidade, pelo prazer momentâneo. Tudo é passageiro, inclusive as relações. Não são as necessidades ou os valores que nos remetem em direção ao consumo e às relações, mas um desejo que é uma “entidade muito mais volátil e efêmera, evasiva e caprichosa, e essencialmente não-referencial que as ‘necessidades’, um motivo autogerado e autopropelido que não precisa de outra justificação ou ‘causa’.”136 Apesar de sua vocação social humana, a individualização do sujeito contemporâneo dificulta a formação de comunidade. Uma das poucas necessidades autênticas que restam, e que não se caracteriza como desejo, em relação a grupos, é o compartilhar intimidades. Segundo Bauman, o compartilhar de intimidades tende a ser o único método de construção de comunidade. E “essa técnica de construção só pode criar ‘comunidades’ tão frágeis e transitórias como emoções esparsas e 133 BAUMAN, 2001, p. 9. SILVA, Valéria. Constituição identitária juvenil: o excesso como produto/resposta ao não-lugar, à efemeridade e à fluidez. Política & Sociedade, Florianópolis, v. 5, n. 8, p. 123-158, abr. 2006. p. 131. 135 SILVA, 2006, p. 132. 136 BAUMAN, 2001, p. 88. 134 78 fugidias, saltando erraticamente de um objetivo a outro na busca sempre inconclusiva de um porto seguro [...].”137 O cristianismo corre o risco de formar “comunidades cabide” – nas quais os indivíduos vêm pendurar seus problemas provisoriamente –, pois está imerso nessa realidade e quer agir nela. As comunidades cristãs precisam ter clareza da causa pela qual foram criadas, da sua preocupação última, do objeto que as toca incondicionalmente e une as pessoas na comunhão do corpo de Cristo. O indivíduo que luta pelos seus próprios interesses “[...] tende a ser morno, cético ou prudente em relação à ‘causa comum’, ao ‘bem comum’, à ‘boa sociedade’ ou à ‘sociedade justa’.”138 O racionalismo científico moldou o pensamento humano moderno de tal forma que hoje é dificultoso pensar uma educação cristã que supere a simples promoção da compreensão lógica de algumas afirmações teológicas. Estamos presos a um paradigma educacional fracionado, ou seja, que não nos permite uma visão sistêmica e holística da vida. “Esse efeito de indução não é automático: não basta ler a materialidade de um texto para perceber nele o anúncio da uma realidade que não é mais a do campo perceptivo.”139 Para superar uma educação cristã de saber cumulativo, é necessário, na contemporaneidade, proporcionar experiências de conhecimento. Onde estas experiências de ser incondicionalmente afirmado e de ser incondicionalmente amado são transmitidas na prática, a fé já se realiza de uma maneira elementar; pois seu núcleo é constituído por estas experiências. [...]140 Uma educação transformadora e paradigmática necessita vincular o processo de abstração do conhecimento construído em conjunto à ação que exercita e demonstra a relevância prática da correlação de saberes. Necessita diversificar os espaços de aprendizagem, pois a “[...] a fé não se restringe a considerar verdadeiras algumas frases, mas um projeto de existência que abrange todo o ser, que no Novo Testamento se expressa por ‘seguir a Cristo’”.141 137 BAUMAN, 2001, p. 47. BAUMAN, 2001, p. 45. 139 LADRIÈRE, 2008, p. 259. 140 METTE, Norbert. Aprendendo a viver e aprendendo a crer com as crianças. Concilium, Petrópolis, n. 2, 1996. p. 128. 141 METTE, 1999, p.159. 138 79 A educação cristã no contexto contemporâneo tem como desafio proporcionar um processo de conhecimento, com bases no evangelho, que seja capaz de abarcar o concreto das experiências humanas. “[...] Essa capacidade é da ordem de um esclarecimento, que mobiliza os recursos da inteligência e do coração, mas os ordenando a um télos que é a adesão ao conteúdo da palavra querigmática.”142 Maraschin já externou que não há por que continuar usando a tradição filosófica e científica ocidental, com bases iluministas, como o único caminho existente para a teoria e a práxis teológica.143 A mensagem cristã necessita ter significado correspondente à vida concreta das pessoas neste tempo, necessita estar “encarnada” e não somente servir como postulado racional. Para que isso aconteça é imprescindível fugir dos preconceitos modernos acerca da experiência do indivíduo, pelo contrário, mais do que valorizá-la é necessário saber promovê-la com intencionalidade pedagógica e teológica. O desafio do cristianismo é sempre o mesmo: ser vivido na prática. Jesus não era um professor a ensinar uma teoria, ou um pensador a esboçar um sistema, aberto ou fechado. Veio para trazer a vida, e vida em abundância. Mais do que uma doutrina, no sentido teórico, o que fez foi pregar, com as palavras e o exemplo, uma mensagem de vida, deixando-nos uma mensagem existencial. Não consta que ele tenha feito uma verificação escrita sobre os ensinamentos do sermão da montanha, ou que mandasse os discípulos analisarem criticamente as parábolas. O Evangelho fala outra linguagem: “Vai e faze o mesmo!”144 Este desafio somente pode ser superado quando encontrarmos maneiras de educar para o sacerdócio geral de todos os crentes e, como já foi dito, isto não se dá pela simples abstração de conteúdos fracionados, com uma linguagem desatualizada e desvinculada da realidade. Somente se aprende a servir servindo, passando pela experiência de ir ao encontro do outro e de suas necessidades, responsabilizando-se pelo outro, tal como aponta Sébastien Charles. E quando se fala do outro aqui não se limita a pessoas, mas do outro como o cosmos, como a realidade que o rodeia e clama por salvação no conceito mais amplo da palavra,145 a partir de uma visão holística. 142 LADRIÈRE, 2008, p. 260. MARASCHIN, Jaci. Teologia sob limite. São Paulo: ASTE, 1992. p. 138. 144 VALLS, Álvaro. Cristianismo, uma mensagem de convívio fraternal. IHU Online, São Leopoldo, ed. 209, p. 3-8, 2006, p. 8. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br>. Acesso em: 26 abr. 2010. 145 KRÜGER, René (Ed.). Para que puedan resistir. Las Iglesias luteranas latinoamericanas frente a la globalización neoliberal y la deuda externa. Buenos Aires: ISEDET/FLM, 2004. p. 91-106 143 80 A educação cristã precisa fornecer a possibilidade de uma vida com propósito sólido e concreto, consciente de uma sociedade acostumada à negatividade e ao efêmero. Ela assume esta causa, em um ambiente educativo, promovendo conexão da luta diária das pessoas com a mensagem do evangelho. O desenvolvimento de uma educação cristã capaz de promover a análise da realidade, o planejamento das ações possíveis segundo as demandas, de maneira a confrontar as comunidades cristãs, e em especial os/as pré-adolescentes com a realidade que os cerca, certamente é um caminho que pode ser trilhado e produzir bons frutos. Frutos capazes de promover comprometimento, protagonismo e responsabilidade cristã perante as múltiplas realidades que compõem a contemporaneidade. As experiências proporcionadas pelo encontro com o outro em necessidade, com acompanhamento e planejamento pedagógicos, com intencionalidade evangélica, serão capazes de promover as pequenas e novas narrativas que já estão compondo o cenário dos significados contemporâneos. A possibilidade de ser protagonista das narrativas vivenciadas em comunidade e para fora dela pode ser capaz de proporcionar a vida com sentido, apesar das incertezas do tempo que estamos vivendo. Dentre as várias características que constituem a contemporaneidade, este capítulo concentrou-se na discussão sobre as metanarrativas, pois se entende que estas sempre foram constituintes fundamentais da fé antropológica. As metanarrativas eram capazes de fornecer um objetivo coletivo a uma sociedade, préestabeleciam papéis aos sujeitos e os interligavam através de um discurso e objetivo comum. Hoje, esta maneira de pensar a sociedade como um conjunto de indivíduos em busca de aperfeiçoar sua performance, levados pelas ventanias das pequenas narrativas, permeia as relações sociais, as expectativas e os planos das pessoas. Para sobreviver bem nesta sociedade, é necessário contribuir com a produção, ter um bom desempenho e realizar tudo solitariamente. Estas características são visíveis já na pré-adolescência, na maneira de encarar a vida, de construir saberes e valores, de fazer escolhas. A partir da pesquisa deste capítulo sobre a realidade contemporânea com foco nas metanarrativas, é possível concluir que se torna necessário, no âmbito da educação cristã, firmar as pequenas narrativas pessoais e locais expostas às 81 ventanias do presente. Este firmar se constitui em um processo educativo de valorização e afirmação destas pequenas narrativas conectando-as às narrativas do evangelho. Este processo é muito sério, pois lida com questões de fé, com questões existenciais. Segundo James Fowler, Paul Tillich e Juan Luis Segundo, todo o ser humano possui uma dimensão natural denominada fé. Esta é responsável por organizar o sentido de vida das pessoas, seus valores fundamentais que guiarão suas escolhas e ações diárias. No entanto, esta fé é construída a partir das influências fornecidas pelas relações estabelecidas com o meio em que cada sujeito vive. Uma alternativa de organização desta dimensão é a fé religiosa. Nesse sentido, os jogos de linguagem, as narrativas, enfim, as condições que o meio contemporâneo oferece, influenciam diretamente o desenvolvimento da fé antropológica e, portanto, esta relação é um assunto fundamental e a ser tratado na perspectiva da educação cristã com pré-adolescentes. No próximo capítulo pretendemos esclarecer e aprofundar o conceito de fé e sua importância para a educação cristã, sob a perspectiva das transformações da contemporaneidade tratadas neste capítulo. 3 A FÉ ANTROPOLÓGICA E SUA IMPORTÂNCIA PARA A EDUCAÇÃO CRISTÃ O presente capítulo pretende abordar o conceito de fé antropológica sob a perspectiva teórica de três autores: Paul Tillich, Juan Luis Segundo e James Fowler. A fé será tratada aqui enquanto conceito indispensável a ser esclarecido e apropriado por educadores e educadoras cristãs, na medida em que o conceito for compreendido como uma dimensão humana que movimenta a pessoa ao longo de sua vida, em busca de uma realização última, de um sentido para a vida. Conforme apontou a abordagem teórica no primeiro capítulo desta dissertação, na préadolescência a busca pela identidade torna-se uma grande preocupação capaz de movimentar o sujeito. No segundo capítulo pode-se perceber que a sociedade contemporânea influencia a forma do/a pré-adolescente buscar esta identidade, de maneira individual, sem parâmetros claros e sólidos de qualquer instituição ou tradição. Na perspectiva da fé antropológica, a construção da identidade dependerá do objeto de fé da pessoa. Para esclarecer essa hipótese, inicialmente efetuar-se-á uma breve abordagem conceitual de cada autor sobre a fé, para posteriormente verificar de forma aprofundada em que medida determinados aspectos da fé antropológica se manifestam na fase da pré-adolescência e influenciam a abordagem pedagógicodidática na perspectiva da educação cristã contínua junto a esse público. 3.1 A fé antropológica Tanto para Paul Tillich como para Juan Luis Segundo e James Fowler, a fé é algo que está presente em todo o ser humano, é universal. Logo, da mesma forma, para os três autores a fé não está limitada ao conceito religioso, mas o ultrapassa, estando presente em todas as dimensões da vida humana, tratando-se de um conceito antropológico. Os três autores são bastante complexos em suas elaborações teóricas, e por esse motivo pretende-se abordar apenas alguns aspectos de suas ideias que colaborem de forma mais pontual para a fundamentação pedagógico-didática de trabalho com o público pré-adolescente no âmbito da educação cristã comunitária. Paul Tillich trabalha seu conceito de fé, 84 cronologicamente, antes do que Segundo e Fowler e influencia os conceitos de fé desses dois teólogos. Enquanto Tillich se ocupa em definir o conceito de fé e a relação entre sujeito e objeto da fé, os outros dois teólogos puderam se ocupar com o desenvolvimento dessa fé ao longo da vida humana e de seu papel concreto na mesma. Tillich enfatiza a fé em seu sentido relacional, entre um sujeito e um objeto de fé, que se transforma para o ser humano em preocupação última através de uma reflexão altamente ontológica. Alguns aspectos dessa relação sujeito-objeto de fé serão pontuados. Juan Luis Segundo desenvolve a sua ideia de fé a partir de uma hierarquia de valores, que são “coletados” das experiências de outras pessoas, que creem ser válidas, e que são capazes de proporcionar um sentido de vida. Pode-se dizer que, para Segundo, o caráter relacional da fé se dá mais entre os próprios seres humanos, de forma social, num processo educativo de amadurecimento. Deste processo social de construção da fé, pretende-se destacar sua pedagogia do “aprender a aprender” através do diálogo que testemunha a experiência. James Fowler analisa o ser humano na sua integralidade e compõe a teoria dos estágios da fé a partir de conhecimentos biopsicossociais nas fases do desenvolvimento humano. Por detrás de sua teoria estão Piaget, Kolberg e Erikson. Para Fowler, a fé se desenvolve no ser humano desde o seu nascimento, sofrendo a influência do meio em que vive, principalmente da interação com os outros seres humanos ao seu redor. Em Fowler pretende-se dar ênfase à transição do estágio da “Fé MíticoLiteral” para o estágio da Fé “Sintético-Convencional”, correspondente à fase da préadolescência. De forma resumida, pode-se dizer que Tillich fornece a esta pesquisa a reflexão ontológica da fé no ser; Segundo traz a perspectiva pedagógica da construção social da fé e coloca como momento crucial no processo de construção da fé a adolescência; e Fowler contribui com os aspectos do desenvolvimento biológico e psicológico que influenciam a fé da pessoa. Todos os três autores trazem aspectos importantes a serem observados para a elaboração de uma proposta pedagógico-didática de educação cristã comunitária junto a pré-adolescentes. 85 3.1.1 Paul Tillich Para o teólogo alemão Paul Tillich, toda pessoa tem fé, inclusive aquela que nega a existência da mesma; o ser humano sempre deposita confiança em alguma coisa. “A fé se justifica a si mesma e defende seu direito contra todos que a atacarem, porque ela só pode ser atacada em nome de uma outra fé. Este é o triunfo da dinâmica da fé: que toda negação da fé já é expressão de fé.”146 A fé é um ato do ser humano que envolve todas as dimensões do seu ser, “ela ultrapassa cada uma das áreas da vida humana ao mesmo tempo em que se faz sentir em cada uma delas.”147 A fé é algo que direciona e movimenta a pessoa em seu todo, em todas as dimensões de sua vida. Participa deste ato a polaridade, compreendendo elementos de tensão como o inconsciente irracional e consciente racional, ego e superego, o aspecto cognitivo e sentimental da pessoa. A partir disso, Tillich define a fé com uma frase muito conhecida no meio teológico: “A fé é estar possuído por algo que nos toca incondicionalmente”.148 Ou seja, a fé é, antes de tudo, um estado passivo da pessoa humana. “A fé não é uma obra da vontade”.149 Ela é um estado em que há uma entrega incondicional a um objeto de fé, que vem até nós, nos toca, sem a nossa vontade. O incondicional, que é o objeto de fé, é percebido a partir de um ato integral da pessoa, proveniente de seu centro pessoal e neste mesmo palco é possuído por ele. Este ato é possível pela capacidade natural humana de transcender suas experiências finitas e passageiras. Nesse sentido, a “expressão preocupação incondicional engloba os aspectos subjetivo e objetivo do ato de crer: a fides qua creditur, isto é, a fé pela qual se crê, e a fides quae creditur, isto é, a fé que é crida.”150 Um eu centrado é um eu profundo que pode utilizar a linguagem, isto é, um ser autoconsciente, possuidor de uma razão subjetiva. Este eu centrado se correlaciona com o ambiente em que vive através da razão objetiva, ou seja, passa a apreender e configurar uma realidade, um mundo, uma estrutura da qual depende. Apreender significa entender e expressar a essência de uma coisa ou evento e 146 TILLICH. Paul. Dinâmica da fé. São Leopoldo: Sinodal, 1974. p. 82. TILLICH, 1974, p. 8. 148 TILLICH, 1974, p. 5. 149 TILLICH, 1974, p. 10. 150 TILLICH, 1974, p. 11. 147 86 configurar significa transformar algo em ser.151 A razão (logos) torna possível a existência do eu e do seu mundo, da estrutura centrada e do todo estruturado, respectivamente; ela torna o ser humano um ser participativo, em união com o mundo que compreende. Nesta compreensão, Tillich salienta que o ser possui um mundo, um todo estruturado e é possuído por ele. “O termo ‘ser’ significa a totalidade da realidade humana, a estrutura, o sentido e a finalidade da existência.”152 Ambos existem e se relacionam através da razão. Esta relação racional consiste em um ato cognitivo. Em todo ato cognitivo existe um sujeito e um objeto. O objeto pode ser Deus ou o próprio eu, por exemplo. Nesse sentido, Tillich alerta para um perigo no método teológico: O perigo da objetivação lógica é que ela nunca se limita a ser meramente lógica. Ela comporta pressupostos e implicações ontológicas. Se Deus é situado dentro da estrutura sujeito-objeto do ser, deixa de ser o fundamento do ser e se torna um ser entre outros (sobretudo um ser ao lado do sujeito que olha para ele como um objeto). Ele deixa de ser Deus que é realmente Deus. [...] A teologia sempre deve lembrar que, ao falar de Deus, transforma em objeto aquilo que precede a estrutura sujeito-objeto e que, portanto, deve incluir, em seu discurso acerca de Deus, o reconhecimento de que não pode fazer de Deus um objeto.153 Esta relação racional técnica de sujeito-objeto que transforma ou reduz Deus à condição de objeto da cognição humana, automaticamente transforma ou reduz o ser à mesma condição. “É uma ilusão tentar transformar a fé como tal com argumentos racionais. A fé é exclusivamente uma questão de estar possuído e de entrega pessoal.”154 Isto explica porque o objeto de fé é uma preocupação existencial última. “A preocupação última é incondicional, independente de qualquer condição de caráter, desejo ou circunstância. A preocupação incondicional é total: nenhuma parte de nós mesmos ou de nosso mundo está excluída dela.”155 O ser em sua totalidade está envolvido com o objeto último de fé, que ao mesmo tempo é sujeito, é possuidor. “A fé não é uma afirmação teórica de algo incerto; é a aceitação existencial de algo que transcende a experiência ordinária. A fé não é uma opinião. Mas um estado.”156 151 TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. São Leopoldo: Sinodal, 2005. p. 90. TILLICH, 2005, p. 31. 153 TILLICH, 2005, p. 182. 154 TILLICH, 1974, p. 80. 155 TILLICH, 2005, p. 29. 156 TILLICH, Paul. A Coragem de Ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972. p. 134. 152 87 Esta compreensão da teologia ao falar sobre Deus deveria se estender à práxis da educação cristã comunitária em contato direto com pré-adolescentes. A fase da pré-adolescência, segundo James Fowler, é justamente um momento do desenvolvimento humano em que Deus, que durante a infância era mais distante, deve se mostrar mais próximo, mais pessoal. A partir da valorização do aparecimento do pensamento cognitivo na adolescência, conforme já abordado nos capítulos anteriores, cria-se um método de ensino-aprendizagem lógico-racional que torna Deus, a mensagem do evangelho e a doutrina cristã luterana excessivamente e perigosamente objetivos. O tratamento e a análise de um objeto pedem o distanciamento do mesmo e não a aproximação e a participação pessoal. É um tipo de “conhecimento controlador”, que “une sujeito e objeto para estabelecer controle do objeto pelo sujeito. Transforma o objeto em uma ‘coisa’ completamente condicionada e calculável”.157 A ação de decorar “conteúdos”, respostas prontas irrefletidas em provas escritas ou orais, diante da comunidade, transforma Deus e o evangelho em “coisas” que pouco têm a dizer sobre a vida cotidiana, sobre o sentido da vida, sobre o ser ou o risco do não ser. A fé como estado em que o ser se sente possuído por algo último foi distorcida e se converteu na crença em uma doutrina. Assim, a fé como recepção da mensagem de que somos aceitos por Deus tornou-se uma proposição que devia ser objeto de uma afirmação intelectual.158 Isto não quer dizer que se deva tomar um caminho predominantemente emocional para se relacionar com o objeto de fé. Como aponta Tillich, a fé é um ato da pessoa toda, integral. A emoção é apenas uma forma de relação entre outras que faz parte do ser e sozinha não é capaz de conferir o status de ultimacidade a um objeto. Nesse sentido, Tillich fala do conhecimento receptivo que contrasta com o conhecimento controlador, por contemplar a união ao objeto. É necessário contemplar no planejamento pedagógico-didático o ser na sua integralidade e considerar suas aspirações de acordo com sua fase de vida. [O conhecimento receptivo] não é nem efetiva nem potencialmente determinado pela relação meios-fins. O conhecimento receptivo toma o objeto em si mesmo, na sua união com o sujeito, isto inclui o elemento emocional, do qual o conhecimento controlador tenta se distanciar o máximo possível. A emoção é o veículo para receber a cognição. Mas o veículo está longe de converter o próprio conteúdo em emocional.159 157 TILLICH, 2005, p. 110. TILLICH, 2005, p. 377. 159 TILLICH, 2005, p. 111. 158 88 Ao falar do mau uso e interpretação destas polaridades do conhecimento, que deveriam andar juntas, Tillich externa um problema que já está acontecendo de forma excessiva no mundo contemporâneo, como consequência da valorização do saber técnico-científico, que Lyotard apontou através da teoria dos jogos de linguagem que determinam “aquilo que funciona”, como pudemos observar no segundo capítulo. Esta maneira de conhecer não deve penetrar na educação religiosa; na verdade ela é prejudicial. O conhecimento controlador pretende controlar cada nível da realidade. Vida, espírito, personalidade, comunidade, sentidos, valores, até mesmo nossa preocupação última, deveriam ser tratados em termos de distanciamento, análise, cálculo, utilização técnica. O que confere força a esta reivindicação é a precisão, a verificabilidade, a acessibilidade pública do conhecimento controlador e, sobretudo, o estupendo sucesso de sua aplicação a certos níveis da realidade. [...] Esta atitude acarreta uma rápida decadência da vida espiritual (não só Espiritual), uma alienação da natureza e, a mais perigosa das conseqüências, o tratamento dos seres humanos como se fossem coisas. [...] O ser humano efetivamente se tornou aquilo que o conhecimento controlador considera que ele é: uma coisa entre outras, um parafuso na máquina dominante de produção e consumo, um objeto desumanizado da tirania ou um objeto normalizado das comunicações públicas. A desumanização cognitiva produziu a desumanização efetiva do ser humano.160 Tillich, ao conceituar o termo experiência, trata da questão do ato cognitivo em relação a Deus. A experiência compreende participação existencial do ser; ela é “o meio através do qual as fontes ‘falam’ a nós, através do qual podemos recebêlas.”161 No entanto, experiência científica não pode ser aplicada no ato cognitivo em relação a Deus, pois “ele não pode ser descoberto por uma observação distanciada ou por conclusões derivadas de tal observação. Só pode ser encontrado em atos de entrega e participação.”162 Na teologia cristã, Jesus como o Cristo é o evento que precede toda experiência e deve ser o seu critério. A fé é sempre relacional, no sentido de que “não existe fé sem conteúdo que a preencha, pois a fé sempre se dirige a algo determinado.”163 A fé não existe por si mesma, mas se apropria de algo, se direciona a alguma coisa, a um objeto de fé. Nesse sentido, a fé, o ato de crer, liga e relaciona um sujeito (ser humano) e um objeto. Porém, “Deus nunca pode ser objeto sem ser sujeito ao mesmo tempo.”164 O 160 TILLICH, 2005, p. 112. TILLICH, 2005, p. 56. 162 TILLICH, 2005, p. 59. 163 TILLICH, 1974, p. 12. 164 TILLICH, 1974, p. 12. 161 89 que demonstra os dois lados desse caráter relacional, pois a fé, ao mesmo tempo em que se apropria, também compreende ser possuída. E este objeto da fé não precisa ser necessariamente religioso, pode ser “a nação, o sucesso na vida, um deus, ou o Deus da Bíblia”.165 O objeto com o qual a fé irá se relacionar sempre será para a pessoa uma preocupação última, existencial, tão importante para a vida quanto a alimentação, pois envolve a pessoa toda, desde o seu centro pessoal, e exige dedicação total, com a promessa de uma realização futura perfeita. Porém, Tillich faz uma diferença entre “o que é realmente incondicional daquilo que reivindica para si o caráter de incondicional, mas na realidade é apenas provisório e passageiro.”166 Para ilustrar essa ideia, Tillich usa o exemplo do teólogo. Para ser realmente um/a teólogo/a a pessoa precisa fazer uma decisão existencial, no âmbito da fé. Mas ninguém pode dizer de si mesmo que está na situação de fé. Ninguém pode chamar-se a si mesmo teólogo. Mesmo que seja chamado a ser professor de teologia. Todo teólogo está comprometido e alienado. Ele está sempre na fé e na vida; ele está dentro e fora do círculo teológico. Às vezes, um lado prevalece, às vezes outro. Ele nunca tem certeza sobre qual dos lados prevalece. Portanto, só pode ser aplicado um critério: alguém pode ser teólogo só na medida em que reconhece o conteúdo do círculo teológico como sua preocupação última. 167 Percebe-se que a expressão “preocupação última” é muito importante para a compreensão da ideia de fé em Tillich. O objeto da fé sempre é aquilo com o que nos preocupamos de forma última. Mas o que ou como se caracteriza uma preocupação última? “Nossa preocupação última é aquilo que determina nosso ser ou não-ser.”168 “O ser humano está de forma última preocupado por aquilo que determina seu destino último para além de todas as necessidades e acidentes preliminares”.169 O que é último e incondicional para nós não pode ser passageiro ou provisório, mas tem caráter infinito e o poder de dar sentido para nossa vida, e determinar o ser e o não ser. É este critério que diferencia a fé da idolatria. “Idolatria é a elevação de uma preocupação preliminar à ultimacidade. [...] E algo essencialmente finito é revestido de significado infinito.”170 165 TILLICH, 1974, p. 16. TILLICH, 1974, p. 11. 167 TILLICH, 2005, p. 28. 168 TILLICH, 2005, p. 31 169 TILLICH, 2005, p. 32. 170 TILLICH, 2005, p. 30. 166 90 Por nós sermos seres finitos e estarmos tomados pelo infinito no ato de fé, surge em nós uma dúvida, que deve ser considerada como natural e aceita no ato de fé. “A fé é cheia de incerteza, uma vez que o infinito, para o qual ela está orientada, é experimentado por um ser finito.”171 E aceitar essa realidade, o risco diante da possibilidade do fracasso, do “não ser” é um ato puro de coragem. O risco da fé como dedicar-se a algo que me toca incondicionalmente é de fato o maior risco que uma pessoa pode tomar sobre si. Pois se a fé de uma pessoa se evidencia como ilusória, isso pode levar a que essa pessoa perca o sentido de sua vida.172 A fé ou o ato de crer como fenômeno puramente proveniente do espírito humano necessita, assim, se visualizar, ou compreender-se dentro de uma comunhão, ou seja, em meio a seres dotados de espírito. Pois, a fé se expressa através da linguagem, sem linguagem não existe fé, e a linguagem só existe em meio a uma comunhão de seres dotados de espírito, em meio a seres humanos que externam, verbalizam sobre a sua preocupação última. Não existe fé que não viva em comunhão. A pessoa pode distanciar-se, mas não abrir mão completamente do convívio comunitário. “A vida de fé é vida na comunhão de fé”.173 Mesmo quando uma pessoa se afasta do convívio comunitário, a comunidade continua existindo para ela. Ela está presente em sua memória, fez parte de seu desenvolvimento e influencia sua maneira de viver, sendo que sempre é possível retornar ao convívio comunitário. Existem os grupos de interesse que não se constituem como comunhão de fé. Os grupos de interesse são passageiros, pois estão reunidos por um interesse comum que tende a desaparecer, e quando isso acontece também desaparece o grupo, como é o caso das comunidades “cabide”, conforme apontadas por Bauman no segundo capítulo. A comunhão de fé se une e é durável a partir de uma preocupação incondicional. A fé não pode ficar viva sem formas visíveis e sem participação pessoal dos crentes nessas formas. [...] Sem símbolos em que o sagrado é experimentado como estando presente, desaparece por completo a experiência do sagrado.174 171 TILLICH, 1974, p. 15. TILLICH, 1974, p. 16. 173 TILLICH, 1974, p. 76. 174 TILLICH, 1974, p. 78. 172 91 Esta comunhão de seres dotados de espírito se utiliza de símbolos para comunicar sua preocupação última. “Aquilo que toca o homem incondicionalmente precisa ser expresso por meio de símbolos, porque apenas a linguagem simbólica consegue expressar o incondicional.”175 O símbolo não pode ser manipulado, mas provém do inconsciente individual ou coletivo que transcende a realidade objetiva, que transcende o cognitivo, permitindo o mistério. Tillich diferencia símbolo de signo. O símbolo participa da realidade para a qual aponta. É preciso enfatizar especialmente a percepção de que símbolo e signo são distintos: enquanto o signo não tem uma relação necessária com aquilo que aponta, o símbolo participa na realidade daquilo que representa. O signo pode ser mudado arbitrariamente segundo às exigências do momento. Mas o símbolo cresce e morre de acordo com a correlação entre aquilo que é simbolizado e as pessoas que o recebem como símbolo.176 A expressão do incondicionado, no âmbito comunitário, na forma de linguagem acontece através do símbolo. O símbolo, para Tillich, possui cinco características essenciais: indica algo fora dele; faz parte daquilo que indica; levanos a níveis da realidade, que sem ele seriam inacessíveis; abre dimensões e estruturas da nossa alma que correspondem às dimensões e estruturas da realidade; e o símbolo não pode ser inventado arbitrariamente.177 Seja lá como designamos nossa preocupação suprema, se a chamamos de Deus ou não, as nossas afirmações sempre têm significado simbólico; e os símbolos então usados mostram para além de si mesmos e têm participação naquilo que eles designam. [...] A linguagem da fé é a linguagem dos símbolos.178 Tillich aponta para algo importante a se considerar na cultura ocidental quanto ao símbolo fundamental. O símbolo “Deus” está presente em todo o nosso cotidiano e “em todo ato de crer, mesmo quando esse ato de crer inclui a negação de Deus”.179 No entanto, Tillich coloca que todas as qualidades que atribuímos a este símbolo provêm de nossas experiências cotidianas finitas, como amor, poder e justiça. Tudo isso são símbolos retirados de nossa experiência cotidiana, e não afirmações sobre o que Deus fez em tempos antiqüíssimos ou fará em futuro distante. A fé não é dar crédito a semelhantes relatos, e sim 175 TILLICH, 1974, p. 30. TILLICH, 2005, p. 245. 177 TILLICH, 1974, p. 31. 178 TILLICH, 1974, p. 33. 179 TILLICH, 1974, p. 33. 176 92 aceitação de símbolos que exprimem através da imagem da ação divina o nosso estar possuído incondicional.180 Deus pode ser um símbolo para aquilo que toca incondicionalmente o ser humano. As narrativas bíblicas, consideradas como mitos por Tillich, de acordo com a característica do mito, expressam o símbolo, são capazes de expressar aquilo que toca incondicionalmente. Não devem ser interpretadas literalmente e por isso não há razão de desmitologização, como propôs Rudolf Bultmann. Os mitos devem conservar o seu valor de transmitir uma experiência que seria inacessível através de outros meios, uma experiência do incondicionado. “Existem aspectos dentro de nós mesmos, dos quais apenas nos podemos conscientizar através de símbolos.”181 Através das ideias de Tillich, é possível recuperar a busca e a revelação de um sentido existencial na expressão dos símbolos. Na contemporaneidade, a resposta à pergunta pelo ser ou não ser pode estar expressa em mitos, em narrativas bíblicas e pessoais, driblando a realidade do inconveniente das metanarrativas, valorizando o papel dos mitos que expressam símbolos livres da razão técnica-científica, ou seja, a expressão daquilo que fornece sentido existencial e não daquilo que mecanicamente funciona. Narrar e incentivar a criar narrativas próprias para comunicar a preocupação última do ser traz os símbolos e a experiência misteriosa com o incondicionado para o palco de uma vida pós-moderna a cada dia mais cheia de ambiguidades. Assim como o símbolo comunica e expressa a fé, o amor para Tillich, a partir da fé como preocupação incondicional, participa do objeto de fé e a partir dele é um poder que movimenta o ser para além de si mesmo, ele é o “desejo e a aspiração pelo separado, seja entre Deus e Homem (ser humano), seja entre duas pessoas”.182 A “expressão direta do amor é a ação”.183 Assim, o objeto de fé vai determinar o amor e a ação de cada pessoa. “O estar possuído incondicionalmente somente é legítimo quando ele se realiza numa comunidade de ação.”184 180 TILLICH, 1974, p. 34-35. TILLICH, 1974, p. 31. 182 TILLICH, 1974, p. 74. 183 TILLICH, 1974, p. 75. 184 TILLICH, 1974, p. 76. 181 93 3.1.2 Juan Luis Segundo Para Luis Segundo, a fé parte da graça de Deus que está presente nos seres humanos de forma universal. Para o autor não há existência humana sem graça. A graça é uma autodoação divina que permite ao ser humano perceber o transcendente e o impulsiona a agir no mundo concretamente, com liberdade criadora. Segundo não separa a graça da vida concreta das pessoas, para ele a graça até pode ser pensada abstratamente, no momento em que é analisada e compreendida, mas não pode limitar-se a isso, pois somente acontece na vida concreta das pessoas.185 O autor trabalha o seu conceito de fé partindo da ideia de que a condição humana é limitada, no sentido de que o ser humano não consegue viver todos os tipos de experiências que podem existir, antes de escolher o caminho que vai percorrer durante sua vida. No entanto, cada pessoa é livre186 para fazer suas escolhas de vida, um objetivo a ser alcançado, porém, cabe a cada pessoa escolher somente um, as demais opções de vida precisam ser deixadas de lado. Então, para um ser humano optar pelo melhor caminho a ser trilhado, durante a sua vida, ele irá se basear nas experiências das outras pessoas, na satisfação que as pessoas ao seu redor exibem com as escolhas que fizeram. Nesse sentido, existe uma solidariedade entre a espécie humana. As experiências de valor realizado nos são proporcionadas por nossos semelhantes. Antes de nós as termos, percebemos seu valor, suas possibilidades de satisfação, através de experiências alheias. Assim todos dependemos de todos, frente à necessária limitação de nossas experiências.187 A partir do crer em algumas pessoas, que o autor chama de “testemunhas referenciais”, é que se forma uma estrutura valorativa em cada ser humano, capaz de dar sentido para a vida. “Daí vem que a pessoa humana que nós conhecemos tenha uma dimensão cognocitivo-valorativa necessariamente social”188 e “dizer aqui 185 SEGUNDO, Juan Luis. Graça e condição humana. São Paulo: Loyola, 1987. p. 17. O conceito de liberdade de Juan Luis Segundo está baseado no filósofo russo, Nicolau Berdiaeff. Para o filósofo, a liberdade precede todo o ser e é o fundamento da divindade que atua sobre o ser humano. A liberdade é um valor supremo. 187 SEGUNDO. Juan Luis. O Homem de Hoje Diante de Jesus de Nazaré. São Paulo: Edições Paulinas, 1985. p. 8. 188 SEGUNDO, 1985, p. 9. 186 94 sociedade é dizer fé.”189 A busca humana por sentido acontece na liberdade pessoal através das relações interpessoais. Mesmo que os valores sejam escolhidos e hierarquizados sem a necessidade da experiência, mas pelo crer nas experiências de algumas pessoas, a vivência, o experimentar ao longo da vida vai direcionando a pessoa e esculpindo, afunilando sua fé. Nesse sentido, Segundo é influenciado por Teilhard de Chardin, na sua ideia de evolução humana universal, especialmente no aspecto da consciência. Este processo evolutivo da consciência é denominado por Segundo como “processo de aprendizagem”. Este processo se dá através da experiência, de geração a geração, e nele o erro tem um papel muito importante. A realidade empurra o homem para uma verdade sempre maior pelo procedimento que, em epistemologia, se chama “prova de erro” (trial and error). Daí que o erro experimentado, detectado e corrigido se torne componente de todo processo de interiorização da verdade. Dito em outras palavras, de toda “pedagogia”. E, é claro destacá-lo, da pedagogia divina.190 As narrativas bíblicas são narrativas de experiências vivenciadas com Deus e reveladas por ele na história. Os dogmas estabelecidos pela teologia, para Segundo, são uma tentativa de “pontuar o fluxo dos acontecimentos [destas narrativas], de tal maneira que se percebesse seu ‘sentido’”.191 Não somente as narrativas bíblicas constituem-se como revelação, mas as contínuas experiências do povo transmitidas de geração a geração através das narrativas. A revelação divina é um processo pedagógico como processo de crescimento em humanidade e não um “depósito de informações corretas”. Esta pedagogia divina se dá na experiência com seus erros e equívocos que fazem o ser humano crescer e amadurecer em sua humanidade. “Deus não parece se preocupar com o que revela seja verdade em si mesma, verdade eterna, verdade inalterável, mas de que se faça verdade na humanização.”192 O teólogo latino-americano define fé como “componente indispensável – uma dimensão – de toda existência humana. Em outras palavras: uma dimensão antropológica.”193 Fé, para Segundo, não significa aceitação passiva e individual de uma revelação, mas um aprender a aprender que provém de uma identidade 189 SEGUNDO, 1985, p. 10. SEGUNDO, Juan Luis. O dogma que liberta. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. p. 144. 191 SEGUNDO, 1991, p. 103. 192 SEGUNDO, 1991, p. 419. 193 SEGUNDO, 1985, p. 30. 190 95 coletiva. Este aprender a aprender é uma aprendizagem de segundo grau,194 que significa ser capaz de utilizar informações para transformar os problemas da realidade, produzindo novas informações. A memória e a pedagogia coletiva têm uma decisiva função no próprio processo da revelação: fazem com que cada nova geração não tenha que começar a partir do zero sua aprendizagem (de segundo grau). Recordando e reassumindo, de um modo vivido e assimilado, a própria identidade coletiva, as experiências passadas de um processo onde a busca, as soluções, os desafios da história e as certezas convergem, cada geração é lançada a uma maturidade mais plena e a uma nova, mais profunda e mais rica verdade.195 A função dessa fé antropológica seria a de dar uma estrutura de significado, de valores, ou seja, de dar sentido para a vida. Essa estrutura é complexa e acontece de forma automática, inconsciente, sendo que é difícil falar sobre ela. Ela vai se tornando mais consciente na medida em que a pessoa vai tendo mais experiências a partir de suas escolhas. Através dessa estrutura, os valores que são aceitos para a nossa vida são organizados de forma hierárquica, do menor até chegar um valor chamado de “absoluto”, abaixo do qual todos os outros valores são subordinados.196 Esse “absoluto, como se pode ver, não tem nada que ver aqui com infinito, perfeito, metafísico... A forma em que o menor ou o mais superficial dos homens concebe a felicidade, isso é seu ‘absoluto’.”197 Esta estrutura de valores, que impulsiona o ser humano, é efetuada por ele próprio, principalmente na fase da adolescência. Na fase infantil, a criança coloca toda a sua confiança na estrutura de valores dos pais e educadores. Porém, na adolescência, o jovem está se descobrindo como ser e esta descoberta do "eu" o leva à busca de uma nova fé (antropológica) de uma nova estrutura de valores, que lhe seja própria e que permita construir a sua identidade, mesmo que essa construção sempre se baseie nos valores de outras pessoas. De qualquer modo, para o adolescente existe o problema de achar uma nova ‘fé’, uma que seja dele mesmo. E ele não pode pedir um sistema de valores a ninguém que não seja, mais uma vez, um outro ser humano. Mesmo quando combina valores procedentes de duas ou mais pessoas, ele precisa ‘crer’ na satisfação que esses valores hão de produzir, e ‘crê’ porque vê essa satisfação refletida nessas testemunhas referenciais, mesmo que não a tenha ainda experimentado.198 194 Expressão utilizada por Juan Luis Segundo retirada de Gregory Bateson. SEGUNDO, 1991, p. 422. 196 SEGUNDO, 1985, p. 32. 197 SEGUNDO, 1985, p. 16. 198 SEGUNDO, 1985, p. 16. 195 96 A diferença da adolescência para a idade adulta consiste em que o adolescente ainda “tem – ou acredita ter – todas as portas abertas em relação a valores, enquanto o adulto está muitíssimo mais condicionado pelas opções já tomadas, pelos caminhos já percorridos.”199 Na sociedade contemporânea, como visto no capítulo anterior, a própria fidelidade aos valores não é mais um valor. Este o era na modernidade sólida da tradição. Hoje a adolescência é a fase da vida exaltada, ideal e todos os indivíduos estão estacionando nesta fase através de comportamentos atribuídos a ela, estilo de vida, jeitos de se vestir etc. As crianças adiantam o seu ciclo social e os adultos permanecem no mesmo. O resultado disso é uma concentração de testemunhas referenciais num mesmo estilo de vida, sem valores fixos, com identidades permanentemente construídas. Neste modo de vida adolescente nada é sólido, tudo é passageiro e sem maiores comprometimentos. Com isso existem pouquíssimas testemunhas que demonstrem ser válido viver a partir de um ideal, de uma causa, a não ser aquelas que evidenciam aproveitar tudo o que puder.200 Segundo também trabalha outro conceito importante, ao lado da fé, que é a ideologia, que, para ele, é uma segunda dimensão antropológica. “Trata-se, pois, de uma dimensão diferente, ainda que complementar da fé.”201 Ela tem a ver com o conhecimento sobre a eficácia dos métodos para se atingir um objetivo. 202 ideologia, quer dizer, sentido e eficácia respectivamente.” “Fé e A partir desses dois conceitos é que Segundo diferencia fé antropológica e fé religiosa. Em resumo, para os homens que são chamados - e se chamam a si mesmos - ‘religiosos’, a religião pertence, em primeiro lugar e por regra geral, à ordem das mediações, quer dizer, ao plano da eficácia (de uma eficácia mágica, que precede, no desenvolvimento humano, à eficácia científica). Daí o mal-entendido que surge do fato de a identificar com a fé (antropológica) que, como temos visto, determina precisamente o mundo dos valores e sua hierarquia, e não o mundo da eficácia.203 Nesse sentido, uma pessoa que se diz religiosa, não necessariamente tem uma fé religiosa, mas antes, quem sabe, uma ideologia. A fé cristã daquele que estrutura significativamente sua vida de acordo com o que entende ser os valores supremos possibilitados pela revelação divina em Cristo, não tem nada que ver com a ‘fé’ cristã de quem recebe um 199 SEGUNDO, 1985, p. 17. Conforme os resultados da Tabela 16. 201 SEGUNDO, 1985, p. 34. 202 SEGUNDO, 1985, p. 37. 203 SEGUNDO, 1985, p. 71. 200 97 sacramento ou assiste a uma procissão católica para se sentir mais seguro diante de Deus ou para obter uma ‘graça’.204 A fé antropológica, por ser inerente a todo o ser humano, existe antes de uma fé religiosa, por fornecer uma estrutura de valores significativos que orientam e dão consistência à existência humana. Por isso, também aqueles que se denominam ateus possuem fé, porém, fé antropológica, não religiosa. O que distingue a fé religiosa da fé antropológica é que a primeira surge da “transmissão de dados transcendentes, decisivos para o mundo de valores, e a adesão a uma tradição de testemunhas referenciais de aquisição e experiências desses dados”205, já a segunda se limita a testemunhas referenciais históricas finitas. Para Segundo, os valores e o sentido são os espaços próprios para a revelação da graça de Deus. Em relação à concepção da salvação, Segundo não concebe uma dualidade, Deus se revela na história humana concreta e quer fazer sentido para dentro dessa história. A fé humana se apropria do transcendente para dentro da história. O Deus da Bíblia, o Deus cristão, não se tem nunca revelado aos seres humanos a não ser na única linguagem que estes podiam entender: a desse antes e depois onde os afetos e as atuações do ser humano se tornam história. O Deus “eterno” chama os seres humanos a dialogar com ele dentro dessa história. Sabemos que todo o universo foi criado para que esse diálogo possa existir, ou seja, para que cada resposta do ser humano a Deus seja, “antes”, apaixonadamente guardada e “em seguida” respeitada.206 Juan Luis Segundo compreende que a relação de Deus com os seres humanos sempre se dá através de uma revelação dialógica. O ser humano nasce egoísta, mas pode transcender a limitação do egoísmo através do amor que recebe de Deus. Infelizmente, a Igreja, muitas vezes, não promove este diálogo de amor entre Deus e os seres humanos, pois prefere oferecer respostas ao invés de suscitar perguntas nos ambientes comunitários. O estilo de educação cristã formal com o grupo de ensino confirmatório, conforme abordado no primeiro capítulo, indicou uma pedagogia da “decoreba” com respostas prontas, excluindo a dúvida, a busca, as perguntas e o diálogo. 204 SEGUNDO, 1985, p. 49. SEGUNDO, 1985, p. 103. 206 SEGUNDO, Juan Luis. Que mundo? Que homem? Que Deus? Aproximações entre ciência filosofia e teologia. São Paulo: Paulinas, 1995. p. 478. 205 98 Esta forma de compreender a revelação, para Segundo, significa um “aprender a aprender a ser humano”. A revelação não pode ser depositada e decorada pela pessoa, mas é construída em uma relação de diálogo de forma que faça sentido e possa ser traduzida para a vida diária da pessoa, para o comportamento. Aprendemos a ser homens dirigidos por outros homens. É a isto que chamamos de uma aprendizagem em segundo grau – deutero-learning -, um aprender a aprender. No caso do cristianismo ou da Bíblia, aprendemos a aprender entregando nossa existência e seu sentido a esse processo histórico refletido nas experiências que se consignam em tal tradição.207 Esta tradição, da qual Segundo fala, perdeu sua credulidade, seu poder de influência e inspiração para o/a pré-adolescente contemporâneo. Suas possíveis testemunhas referenciais do presente assumem o mesmo comportamento que eles. As testemunhas do passado, que compõem as tradições do passado, a nível familiar e comunitário, permanecem vivas no registro textual e no contar e recontar de suas narrativas. No entanto, estas narrativas não podem ser contadas como verdades absolutas, a serem aceitas pelo sujeito, como mensagens sem erro, como indica Juan Luis Segundo. As experiências comunicadas pelas narrativas servem para o diálogo, para a reflexão crítica e assimilação daquilo que é importante ou relevante para a vida concreta do/a pré-adolescente. Nesse sentido é que as grandes narrativas, compostas por inúmeras narrativas menores provenientes da tradição registrada, devem ser conectadas com as narrativas pessoais e locais de cada contexto. Construindo um sentido sólido proveniente do passado relevante, conectado com as lutas do presente, projetando o futuro idealizado. 3.1.3 James Fowler James Fowler também aponta para a importância da tradição cumulativa para a construção da fé. Para o autor, a fé é diferente da religião, no entanto, quando a fé da pessoa é enriquecida pela religião, as duas contribuem para a renovação uma da outra. Nesse sentido, a metodologia de conexão de narrativas na educação cristã comunitária com pré-adolescentes, conforme vem sendo proposta ao longo das reflexões realizadas nesta pesquisa, pode contribuir para esta cooperação entre a fé antropológica e a fé religiosa. 207 SEGUNDO, Juan Luis. Libertação da teologia. São Paulo: Loyola, 1978. p. 196. 99 A fé ao mesmo tempo mais profunda e pessoal do que a religião, é a maneira pela qual uma pessoa ou grupo responde ao valor e poder transcendentes, conforme são percebidos e apreendidos através das formas da tradição cumulativa. [...] a tradição cumulativa é renovada seletivamente à medida que seus conceitos provam ser capazes de evocar e modelar a fé das novas gerações. A fé é despertada e nutrida pelos elementos da tradição. Quando esses elementos chegam a expressar a fé dos novos aderentes, a tradição é ampliada e modificada, ganhando, assim, nova vitalidade.208 Para James Fowler, a fé “tem a ver com o jeito pelo qual fazemos as apostas de nossa vida. Ela modela as formas em que investimos nossos amores mais profundos e nossas lealdades mais caras.”209 A fé, compreendida como uma dimensão antropológica, a partir das ideias de Fowler, é algo que direciona e movimenta a pessoa em seu todo, integralmente, em todas as dimensões de sua vida. Tem a ver com o mais íntimo do ser humano, com o centro de sua pessoa e sua vida. O autor afirma que “os conteúdos operativos de nossa fé – quer explicitamente religiosos ou não – moldam nossas percepções, interpretações, prioridades e paixões. Eles constituem nossas apostas de vida”.210 Os três elementos mais importantes dos “conteúdos” de nossa fé, que formam nossa personalidade e o sentido de nossa vida, são os centros de valor e poder, as imagens de poder e as estórias mestras. Poderíamos dizer que a fé é a nossa maneira de discernir e nos comprometer com centros de valor e poder que exercem força ordenadora em nossa vida. A fé, enquanto imaginação, apreende as condições últimas de nossa existência, unificando-as em uma imagem abrangente à luz da qual modelamos as nossas respostas e iniciativas: as nossas ações.211 Nesse sentido, o desenvolvimento da fé depende, dentre outros fatores, dos valores absorvidos ao longo da vida, no meio em que a pessoa vive, que constroem “o modo pelo qual uma pessoa vê a si mesma em relação aos outros”212, e consequentemente estabelece suas relações com os outros seres humanos, com o universo. “A fé é uma orientação da pessoa total, dando propósito e alvo para as lutas e esperanças, para os pensamentos e ações da pessoa”.213 208 FOWLER, 1992, p. 20. FOWLER, James. Estágios da Fé. A Psicologia do Desenvolvimento Humano e a Busca de Sentido. São Leopoldo: Sinodal, 1992. p. 16. 210 FOWLER, 1992. p. 231. 211 FOWLER, 1992, p. 32. 212 FOWLER, 1992, p.15. 213 FOWLER, 1992, p. 24. 209 100 A caminhada do desenvolvimento da fé inicia com o estágio denominado “Lactância e Fé Indiferenciada”, com a situação de dependência do bebê. Para Fowler, baseado em Erikson, este estágio é fundamental para o desenvolvimento da fé ao longo da vida, pois é responsável por estabelecer na criança uma postura de confiança ou desconfiança diante do mundo para o qual acaba de nascer. Cada ser humano nasce com potencialidades que permitem adaptar-se a este mundo. No entanto, a ativação destas potencialidades depende dos estímulos das pessoas e do ambiente que o recebem. Neste estágio, a força da fé surge através das experiências de confiança básica, das necessidades biológicas e relacionais satisfeitas. A imagem de Deus aqui é estabelecida a partir da qualidade na relação com os pais ou cuidadores. Na interação entre pais e filhos não só começa a se desenvolver um vínculo de confiança e lealdade mútuas, mas a criança – a despeito de o fazer em um nível muito básico – sente o novo e estranho ambiente como um ambiente que é ou confiável e providente, ou arbitrário e negligente.214 Neste período da vida da criança, a partir do cuidado e a educação que os pais ou cuidadores transmitem a ela – apesar de serem ainda bastante básicos –, a criança absorve desde seus primeiros contatos a estrutura de sentido dos pais para ir se adaptando ao mundo, como as crenças, os centros de valor e poder e as imagens de poder que formam o etos familiar. A partir dos 2 a 6 ou 7 anos de idade, inicia o estágio denominado “Fé Intuitivo-Projetiva”, quando a criança utiliza-se da fala e da representação simbólica para classificar e explorar o mundo, sendo que “somente símbolos e imagens concretos dirigem-se realmente à formas de conhecer da criança.”215 Palavras, imagens e objetos possuem papéis importantes em seu desenvolvimento. Nesta fase a criança é intensamente influenciada por exemplos (ritos, celebrações e gestos) para organizar o mundo ao seu redor e a sua fé passa a ser a fé da família. As histórias e imagens da cultura somadas as suas próprias associações vão compondo a imagem de Deus que possui características antropomórficas. O útil realismo dos contos de fada – e de muitas narrativas bíblicas – oferece modos indiretos, porém eficazes, para as crianças externalizarem as suas ansiedades interiores e acharem imagens e estórias ordenadoras pelas quais começam a moldar suas vidas.216 214 FOWLER, 1992, p. 25. FOWLER, 1992, p. 113. 216 FOWLER, 1992, p. 114. 215 101 O próximo estágio, denominado “Fé Mítico-Literal”, compreende os 7 a 11 ou 12 anos de idade, período denominado de pré-adolescência. Neste estágio a criança já consegue fazer distinção entre a realidade e a fantasia e inicia um processo de assimilação e interpretação literal das histórias, crenças e observâncias que caracterizam sua comunidade religiosa. A partir da sua capacidade de pensar indutivamente e dedutivamente, ela passa a narrar suas próprias experiências e ligálas a estórias. Acontece nesse período uma socialização religiosa através da participação e pertença a um grupo. O período da pré-adolescência situa-se entre o estágio da Fé Mítico-Literal e o próximo estágio, da “Fé Sintético-Convencional”. Este é o público que frequenta o ensino confirmatório e está vivendo esta transição. Ela inicia, segundo Fowler, com o advento da capacidade do pensamento operacional, ou seja, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento, de pensar abstratamente. O literalismo do estágio anterior acaba, a partir de uma “colisão ou contradição implícita nas estórias, que leva à reflexão sobre os significados. [...] Conflitos entre estórias autoritativas (a criação de Gênesis versus a teoria evolucionária) devem ser enfrentados.”217 O estágio próprio da adolescência, denominado Fé Sintético-Convencional, compreende um período da vida entre aproximadamente os 13 e os 18 anos de idade. Com o pensamento operacional formal o/a adolescente é capaz de idealizar e julgar pessoas e comunidades e de compor um mito do passado pessoal e mitos de possíveis futuros. No estágio [...] fé sintético-convencional, a experiência de mundo da pessoa amplia-se além da família. Várias esferas exigem atenção: família, escola ou trabalho, companheiros, sociedade e mídia, e talvez religião. A fé precisa proporcionar uma orientação coerente em meio a essa gama mais complexa e diversificada de envolvimentos. Ela precisa sintetizar valores e informações; precisa fornecer uma base para a identidade e a perspectiva da pessoa.218 Pretende-se neste momento analisar o discurso dos pré-adolescentes sobre a sua própria caminhada em sua comunidade religiosa, suas experiências fundamentais até então. Isto abarca compreender o que os motivou a participarem de sua comunidade religiosa através do grupo de ensino confirmatório, investigar se para eles esta participação foi significativa ou não e se existe neles a vontade de continuar participando. 217 218 FOWLER, 1992, p. 129. FOWLER, 1992, p. 146. 102 O grupo de ensino confirmatório na IECLB é um grupo tradicional, ao qual a maioria das famílias luteranas envia seus filho, quando completam entre 11 e 13 anos de idade. Por esse motivo, muitos dos/as pré-adolescentes que participam do grupo não o fazem por vontade própria, mas pela vontade dos pais. Para verificar em que medida esta realidade se confirma no discurso dos/as próprios/as préadolescentes, perguntou-se a eles/as o motivo de sua participação no grupo de ensino confirmatório. Pode-se observar na Tabela 2, apresentada no primeiro capítulo desta dissertação, que 50,0% das meninas alegam estar participando do grupo por considerarem importante, enquanto que entre os meninos essa percentagem é menor, somando 21,4%. Este resultado, segundo Fowler, é natural para esta faixa etária. Desde o nascimento a criança vai observando e absorvendo o sistema de valores dos pais ou familiares e até este estágio, ainda em situação de grande dependência de seus cuidados, ela não teve estímulos necessários em seu ambiente para examinar criticamente esse sistema herdado. Os/as pré-adolescentes no estágio da Fé Sintético-Convencional possuem o que Fowler denomina de sistema tácito de valores, eles têm consciência de que possuem valores e imagens de poder que determinam suas escolhas na vida, mas a autoridade para tal influência é externa e não de uma reflexão interna. Nesse estágio não é o pré-adolescente que escolhe o seu grupo, mas é o grupo que o escolhe. Muitas pessoas podem estancar nesse estágio por muito tempo além da adolescência, pois a transição de um sistema tácito para um sistema explícito de valores exige comprometimento. Percebe-se também a presença deste sistema tácito nos/as préadolescentes, através dos resultados da Tabela 6. Qual a sua opinião sobre a sua comunidade religiosa? A presença da opinião sugere a capacidade de julgar, mas este julgamento ainda é irrefletido. Eles expressam uma opinião, em sua maioria positiva sobre sua comunidade, na qual estão convivendo de forma mais intensa através da participação no grupo. Esta avaliação positiva é coerente com os resultados da Tabela 5. Você se sente bem na sua comunidade religiosa?, na qual o grupo admite sentir-se bem em sua comunidade religiosa. A maioria das respostas da Tabela 6 se resume pelas expressões “legal” (predominante entre as meninas), “boa” e “acolhedora” (predominante entre os meninos), sem maiores explicações. As respostas mais elaboradas são dadas apenas por um menino (M8) e por duas meninas (F5 e F9). As outras respostas provêm de um senso comum não refletido. 103 Buscando investigar a trajetória da vida dos/as pré-adolescentes em sua comunidade religiosa, através das Tabelas 3, 5 e 9, já abordadas no primeiro capítulo, 75,0% das meninas e 71,5% dos meninos já conheciam sua comunidade religiosa através da participação de seus familiares (pais, tios e avós). Mesmo que 100% das meninas e 92,8% dos meninos aleguem sentir-se bem em sua comunidade, apenas 75,0% das meninas e 71,0% dos meninos desejam continuar participando da mesma depois que as reuniões do grupo terminarem, percentagem que coincide com daqueles/as que já conheciam e participavam de sua comunidade durante a infância, acompanhando seus familiares. É importante observar que existe uma pequena percentagem de indecisos, que corresponde a 8,3% das meninas e 14,2% dos meninos, os quais podem ser atingidos por um trabalho de educação cristã comunitária que seja significativo, que proporcione acolhimento e continuidade. Analisando os dados acima, provenientes do questionário e também através da inserção e observação do grupo, percebe-se que o papel da família no processo de construção da fé é fundamental. A comunidade religiosa, enquanto instituição, tem pouca influência sobre a fé da pessoa, até que esta chegue ao estágio da Fé Sintético-Convencional. A fé é construída principalmente no palco da subjetividade humana, sobre a qual tem muita influência os pais ou mantenedores da criança, nos primeiros anos de sua vida. São as primeiras experiências da criança com as pessoas e com o ambiente que a rodeia que determinarão se o seu centro de valor e poder, suas estórias mestras e suas imagens de poder serão religiosas ou não, se serão finitas ou infinitas, frágeis ou consistentes. Portanto, um indicativo metodológico muito importante para a práxis da educação cristã comunitária com crianças e com adolescentes é o envolvimento da família nas atividades com estes públicos, no convívio comunitário. Além disso, a família necessita estar consciente da importância de seu papel na educação na fé de seus filhos desde o Batismo. Segundo Fowler, é no estágio da Fé Sintético-Convencional que surge o pensamento operacional formal, que permite pensar no hipotético. A capacidade de pensar de forma abstrata faz com que o pré-adolescente passe a considerar o pensamento do outro, principalmente a opinião que o outro tem sobre ele. Por ocasião da puberdade, como mudança física e também emocional, Fowler aponta para a importância que assumem os coetâneos. Eles servem como um espelho de si 104 mesmo, pois estão vivendo as mesmas mudanças, angústias e anseios. Com a tomada da autoconsciência, o jovem pensa que o mundo está olhando para ele, e ele passa a ser o centro de suas atenções. O grupo de amigos assume grande importância, pois eles e suas opiniões servem de espelho para si mesmo, para a construção de sua identidade. “Em suas infindáveis conversas, planos, fantasias e preocupações um dá ao outro um espelho que o ajudará a enfocar a nova explosividade e multilateralidade de sua vida interior.” 219 Podemos observar a importância do grupo de coetâneos quando são citados nas respostas de mais de uma pergunta do questionário. Segundo a Tabela 9, para 75,0% das meninas e 71,0% dos meninos afirmam desejarem continuar participando de sua comunidade religiosa após o período do ensino confirmatório. Em sua maioria, a motivação para esta participação é porque ali poderão continuar encontrando os amigos que fizeram no grupo de ensino confirmatório. “O adolescente transfere, em grande medida, para o grupo de pares, a dependência que tinha em relação aos pais; nesse sentido, o novo grupo lhe serve para separarse do grupo anterior e alcançar sua total individuação.” 220 Os amigos também aparecem durante o tempo livre dos/as préadolescentes, embora estejam em segundo lugar, conforme podemos observar na Tabela 14. Em primeiro lugar aparece o uso de aparelhos eletrônicos, no entanto, esses aparelhos também são usados para a comunicação virtual com os amigos. Neste processo para alcançar a própria identidade e definir a própria personalidade, o/a pré-adolescente pode compor um mito ou mitos pessoais para o seu passado e para o seu futuro. Estes mitos situam-se no nível das estórias e podem estar compostos pela perspectiva interpessoal, ou seja, o outro se torna um elemento importante na construção da própria imagem. O jovem começa a projetar o mito em formação do próprio eu para papéis e relacionamentos futuros. Por um lado, esta projeção representa fé no eu que a pessoa está se tornando e confiança de que esse eu será recebido e ratificado pelo futuro. Por outro lado, traz medo de que o eu possa errar de foco, possa não encontrar lugar junto a outras pessoas e possa ser ignorado, não descoberto ou relegado à insignificância pelo futuro.221 Todos os encontros do grupo de ensino confirmatório iniciavam com uma narrativa, que poderia ser bíblica ou não, sempre estando relacionada com a 219 FOWLER, 1992, p. 130. GRIFFA; MORENO, 2001, p. 34. 221 FOWLER, 1992, p. 131. 220 105 temática a ser trabalhada no dia. Quando os/as pré-adolescentes começavam a ouvir uma estória, por um momento raro, ficavam em silêncio, se despedindo momentaneamente do/a colega ao lado. Talvez, neste momento, recebessem algo que, até então, exigia uma luta constante para construir para si mesmos, um ideal, mais vida, representatividade, identidade, sua própria história. A agitação e o barulho da luta travada anteriormente cessam, para dar lugar ao silêncio contemplativo diante de um presente bem-vindo, uma narrativa que pode estar ligada àquela que ele mesmo está compondo para si. Um novo elemento que compõe o cotidiano do/a pré-adolescente próprio da contemporaneidade é o uso intenso dos sites de relacionamento como Orkut e Facebook. Nesses sites cada pessoa pode criar um perfil para si, colocando suas características, gostos, atividades, pensamentos e ter muitos amigos. Esses espaços virtuais possibilitam, através da interação com várias pessoas do mundo todo, uma ampliação imensurável da formação do mito pessoal, da identidade e da personalidade, que sempre aconteceu em cada sociedade, mas em grupos físicos locais, facilmente observáveis e controláveis. No entanto, esses perfis virtuais não são capazes de suprir o nível de aceitação, acolhimento e identificação que um grupo físico pode proporcionar para a construção da identidade do/a pré-adolescente rumo à vida adulta. Os valores, princípios e crenças necessários para compor um núcleo estável de identidade são assimilados no contato com o outro, no diálogo frente a frente, no convívio fraterno e no confronto do dia-a-dia, nas experiências com o outro em ambientes diversos. Os amigos também aparecem durante o tempo livre dos/as préadolescentes, embora estejam em segundo lugar, conforme podemos observar na Tabela 14, já citada no capítulo anterior. Em primeiro lugar aparece o uso de aparelhos eletrônicos. No entanto, esses aparelhos também são usados para a comunicação virtual com os amigos de convivência em espaços concretos como a escola, os cursos e a comunidade religiosa. Quando os/as pré-adolescentes encontram dificuldades em sua vida, os amigos aparecem novamente em segundo lugar, ficando atrás somente dos pais ou adultos. Nesta fase, apesar do grupo de coetâneos servir de espelho para si e assumir um papel fundamental no cotidiano, a confiança para ajudar nos problemas está depositada predominantemente nos adultos, principalmente naqueles que possuem autoridade diante do préadolescente. Podemos notar nas expressões citadas por eles como resposta à 106 Tabela 15. Quando você está com dificuldades e precisa de ajuda, o que você faz?: os “pais”, “pessoas que entendem do assunto”, os “professores”, “pessoas que confio” – nesta expressão também estão incluídos os amigos - e “pessoas mais velhas”. Isso demonstra que os pais ou responsáveis ainda possuem poder de influência sobre o/a pré-adolescente - o que é uma característica bastante marcante no estágio da Fé Mítico-Literal. Eles têm a responsabilidade de proporcionar o sentimento de segurança, apoio e amor incondicional para que o/a jovem sinta-se, ao mesmo tempo, livre e amparado para poder voar em direção a uma vida adulta, com sua independência, autoestima, valores próprios e personalidade definida. Caso algo em seu voo de independência dê errado, ele ainda pode contar com o porto seguro representado pelos adultos que o querem. Nesse sentido, o papel do coordenador do grupo em que o/a pré-adolescente está inserido, assim como o da família e o do/a educador/a na escola, é de educar com amor, com limites, com atitudes que sirvam de espelhamento, de modelo para a sua construção própria imagem do que significa ser um adulto neste mundo. Enquanto que o grupo de coetâneos mostra em palavras e atitudes o que o/a pré-adolescente é no presente, os adultos que lhe são significativos apontam para a possibilidade do ser no futuro. Onde quer que falemos adequadamente da fé, ela implica o fato de que as pessoas moldam ou testam as diretrizes de sua vida e os seus relacionamentos com os outros de acordo com as coordenadas de valor e poder reconhecidas como últimas.222 Quando os/as pré-adolescentes são perguntados sobre o que têm mais medo, conforme a Tabela 17 apresentada no segundo capítulo, 42,8% dos meninos e meninas respondem que seu maior medo é perder algum familiar. Percebe-se que o medo da morte ainda é uma preocupação forte neste período da vida, mas não o medo da própria morte, pois com 12 ou 13 anos de idade ainda é cedo para que se preocupem com o fim de sua vida. O medo da morte está direcionado à família, às pessoas que são responsáveis por lhes dar o sustento econômico e emocional. A possibilidade do não ser, da ansiedade humana está diretamente relacionada ao outro, mas não a si mesmo ou ao círculo aos amigos, mas ao círculo de confiança familiar. Mesmo que socialmente os amigos tenham muita importância nessa fase da vida, a família ainda exerce grande poder ante a coragem de ser. 222 FOWLER, 1992, p. 84. 107 No estágio da Fé Sintético-Convencional o/a adolescente, a partir da perspectiva interpessoal mútua, a autoridade reside nos “eles”. As expectativas do outro que exerce autoridade perante o/a adolescente ajuda a enfocar a si mesmo e definir o comprometimento com valores. Esta ideia é semelhante ao que Juan Luis Segundo entende do papel das testemunhas referenciais. As expectativas se apresentam ao/à adolescente através do diálogo. Tal como acontece na relação com os amigos, neste estágio, somente a tratativa de Deus como outro significativo é que pode tornar Deus mais pessoal e não uma relação sujeito-objeto de estudo. Na verdade, esta é uma das grandes tarefas e um dos desafios dos/as educadores/as cristãos/ãs que trabalham com adolescentes: falar sobre Deus como o outro significativo. “O comprometimento com Deus e a auto-imagem correlata podem exercer um poderoso efeito ordenador sobre a identidade e a perspectiva de valores do adolescente”.223 Quando Fowler fala em outros significativos, ele se refere [...] àquelas pessoas cujo ‘espelhamento’ do jovem tem poder de contribuir, positiva ou negativamente, para o conjunto de imagens do próprio eu e dos significados correlatos que devem ser reunidos em uma identidade e uma fé em formação.224 Como se pode falar de Deus como o outro significativo? Deus se revela como o outro significativo nas narrativas bíblicas. Quando Deus chama Moisés, ou quando vem através da pomba para o batismo de Jesus e lhe diz: “tu és o meu filho amado que me traz muita alegria.” A partir da perspectiva interpessoal mútua o/a adolescente percebe a si mesmo/a, aos outros e a Deus como possuidores de uma personalidade mais complexa. Por esse motivo Deus precisa se tornar mais pessoal e perder gradativamente suas características antropomórficas e impessoais, muito sólidas no estágio anterior. Deus – quando Deus permanece ou se torna saliente na fé de uma pessoa neste estágio – também deve ser reimaginado como alguém possuidor de profundezas inesgotáveis e capaz de conhecer pessoalmente aquelas misteriosas profundezas do eu e dos outros que sabemos que nós mesmos jamais iremos conhecer.225 O/a adolescente necessita de um Deus que o conheça. O Deus pessoal é aquele com o qual o indivíduo pode conversar na solidão de seu quarto escuro, que dá importância para os dramas sociais que estão acontecendo na sua intensa 223 FOWLER, 1992, p. 132. FOWLER, 1992, p. 132. 225 FOWLER, 1992, p. 131-132. 224 108 atividade de construção de identidade, nos conflitos com os pais, irmãos e amigos. O Deus pessoal é aquele que ajuda durante uma prova de matemática. Resumidamente, Deus se importa com aquilo que o/a adolescente se importa. Muitas vezes, dependendo da educação religiosa familiar, desde o nascimento da criança o indivíduo não desenvolveu imagens de Deus que sejam capazes de proporcionar um Deus mais pessoal na adolescência. Nesse sentido, os/as orientadores de ensino confirmatório devem em seu planejamento investigar que imagens de Deus o seu público traz do ambiente familiar. Dessa forma pode trabalhar a imagem de Deus de forma a auxiliar o/a adolescente a encontrar um Deus que o conheça. A maneira de encarar o símbolo também interfere na relação com Deus. O símbolo, neste estágio, está diretamente relacionado àquilo que ele representa, ou seja, símbolos são eles mesmos sagrados. “Qualquer estratégia de demitologização, portanto, ameaça a participação de símbolo e simbolizado, sendo entendida, conseqüentemente, como um ataque contra o próprio sagrado.”226 Se a imagem de Deus for um símbolo importante na fé da pessoa, a ponto de ser considerada sagrada, ela não pode ser objeto de distanciamento e análise, mas participação na imagem de si mesmo, como aborda Tillich. No entanto, como foi visto na análise da sociedade contemporânea no segundo capítulo, ocorreu certa relativização da imagem de Deus na sociedade secularizada a partir da modernidade, com centralidade no sujeito e na razão técnica. Para Fowler, “quando os símbolos das pessoas se trivializaram ou quando uma pessoa ausentou-se das celebrações rituais de símbolos centrais partilhados, o próprio sagrado se esvazia.”227 Quando isso acontece com muita ênfase em uma sociedade, “o vácuo de sentido e de representações simbólicas significativas resulta em ansiedade violenta e em neuroses, bem como no ressurgimento do interesse por todo tipo de fenômenos ocultistas e espiritualistas.”228 Na sociedade contemporânea vive-se o resultado desta relativização perceptível no estado de agonia com suas violências e neuroses. Através das Tabelas 21, 22 e 23 do questionário aplicado ao grupo de ensino confirmatório buscou-se investigar o discurso dos/as pré-adolescentes acerca 226 FOWLER, 1992, p. 139. FOWLER, 1992, p. 139. 228 FOWLER, 1992, p. 139. 227 109 de dois símbolos religiosos como objetos da educação cristã comunitária que estão presentes na sociedade ocidental: Deus e Jesus Cristo, conforme já apresentado brevemente no primeiro capítulo. Para a análise destes discursos e dos desenhos de Deus elaborados pelos/as pré-adolescentes é necessário, antes de mais nada, pontuar alguns aspectos da pesquisa de Ana Maria Rizzuto em diálogo com Paul Tillich. Segundo a psicanalista argentina Ana Maria Rizzuto nenhuma criança completa o ciclo edípico sem formar uma imagem de Deus, pois ele está fortemente presente na cultura ocidental. Através de seus estudos psicanalíticos sobre a formação da imagem de Deus, Rizzuto, baseada em Donald Winnicott, declara que Deus, na perspectiva psicológica, é um objeto transicional,229 ou seja, ele se forma no espaço transicional, o espaço que intermedeia o mundo interno e o mundo externo da pessoa. O processo de formação da imagem de Deus inicia na infância, a partir da relação com os pais ou pessoas significativas para a criança. A imagem de Deus inicia a partir da representação objetal primária230 e é criada e transformada de forma única em cada indivíduo, de acordo com suas experiências. A importância dos pais na formação da imagem de Deus na criança se evidencia desde antes do nascimento dela, a partir de seguinte cronologia apresentada por Rizzuto. Uma criança não nasce em um vácuo, mas para um casal que pertence a uma família. Os pais tiveram, na época de suas próprias crises edípicas, desejos, fantasias quanto às crianças que queriam ter. Durante o desenvolvimento, cada pai e cada mãe elaboraram fantasias e desejos com alguns componentes representacionais sobre as crianças por nascer. Na infância, esses também elaboraram suas próprias representações de Deus, que apresentarão mais tarde a seus filhos, tanto consciente quanto inconscientemente. Assim, os dois personagens mais importantes desse 229 Objeto transicional é um conceito utilizado pela primeira vez por Donald Winnicott e segundo o autor se caracteriza por intermediar o mundo interno e externo do bebê. A criança determina sua relação com o objeto, e nesta relação ela representa o mundo interno para o mundo externo e o externo para o interno. Um exemplo de objeto transicional é um urso de pelúcia, ao qual a criança pode recorrer para lidar com medos e angústias. Com o desenvolvimento da criança ela naturalmente abandona seus objetos da infância. Ana-Maria Rizzuto entende que Deus, como objeto transicional, não é abandonado, mas mantido por toda a vida, como um objeto ao qual a pessoa sempre pode recorrer. Este conceito encontra-se originalmente em WINNICOTT, D.W. Objetos Transicionais e fenômenos transicionais. In Textos Selecionados – Da Pediatria à Psicanálise. Trad. De Jane Russo. Ed. Francisco Alves Editora S.A. RJ.1978. 230 O conceito de representação objetal inicia com Freud, baseado em Carl G. Jung. Freud entende a representação objetal como uma espécie de imagem que a criança faz da relação entre ela e as pessoas mais próximas nos seus primeiros seis anos de vida. Essas imagens exercem grande influência sobre a pessoa durante toda a sua vida. Ao utilizar este conceito em relação à imagem de Deus, Rizzuto entende que a representação da imagem de Deus se constrói a partir da representação da imagem dessas pessoas fundamentais nos primeiros anos de vida da criança. 110 processo – Deus e a criança por nascer – são, cada um à sua maneira, pré-formados como representações nas mentes dos pais. Muitas vezes, a concepção da criança será considerada uma dádiva de Deus, uma punição imposta por ele ou uma nova tribulação enviada para testar o crente. Conscientemente, ao contar a história em palavras, ou inconscientemente, mediante atitudes, alusões e comportamento, os pais transmitirão à criança, desde o início, o tipo de intervenção divina que a trouxe à existência. Mesmo se os pais não são religiosos, ainda assim a criança precisa lidar com o fato de ter vindo ao mundo ou como resultado do desejo dos pais ou como um “acidente” biológico. Cada uma dessas possibilidades começa a formar uma “mitologia” sobre a origem da criança que, desde o princípio, pode nuançar mensagens sutis que os pais lhes transmitem. Na ocasião oportuna, essa mitologia será utilizada pela criança para fazer sua própria representação de Deus.231 Esta cronologia aponta para uma análise complexa da formação da imagem de Deus própria para a psicanálise, e obviamente esta não é uma tarefa da teologia ou da educação cristã. No entanto, a conscientização desta complexidade por parte dos/as educadores/as auxilia a compreender os/as educandos/as e seu objeto de preocupação última. O Deus privado pode, muitas vezes, não coincidir com o Deus da religião oficial ocasionando prejuízo para a vida do indivíduo. Nesse sentido é que os/as educadores/as devem estar conscientes e atentos para o Deus do público com o qual trabalham e para o que anunciam. Se o Deus privado e o oficial estão suficientemente bem integrados, a religião também pode constituir uma fonte duradoura de auto-respeito e reabastecimento egossintônico para satisfazer necessidades humanas em qualquer nível de desenvolvimento. Por exemplo, um desejo privado por fusão e amor incondicional, sentido quase exclusivamente na relação com Deus, pode oferecer ao indivíduo suficientes apoio e auto-estima. Então, como resultado da sublimação do desejo e da formação reativa, o altruísmo do indivíduo pode estar a serviço de outros dentro ou fora de um sistema compartilhado de crenças religiosas.232 Quando o Deus pessoal não coincide com o Deus oficial, Rizzuto sugere que a religião deveria estar atenta para oferecer um Deus com o qual o indivíduo possa lidar. Isto não significa inventar um Deus que possa ser incoerente com o Deus revelado ou que talvez sugira uma manipulação humana de Deus. Isto significa ouvir os medos e dificuldades da pessoa em relação a Deus para poder destacar do Deus oficial aspectos aceitáveis para ela, ou seja, aspectos com os quais ela possa lidar, que sejam coerentes com o seu desenvolvimento psicossocial.233 Quanto mais na adolescência, quando a imagem de Deus necessita ser revista. 231 RIZZUTO, 2006, p. 238-239. RIZZUTO, 2006, p. 127. 233 RIZZUTO, 2006, p. 261. 232 111 A adolescência com suas profundas mudanças corporais, seu escopo intelectual ampliado e a urgência de sua necessidade por intimidade emocional e sexual, testa ao extremo a elasticidade da representação de Deus.234 A imagem de Deus, por ser um objeto transicional, pode ser deixada de lado, no “limbo” da mente, por tempo indeterminado, até surgir algum evento que a coloque em cena novamente, como doença, morte, nascimento de uma criança etc. Na puberdade, com o surgimento da capacidade do pensamento abstrato, Deus pode, pela primeira vez, ser compreendido como conceito. No entanto, esta forma de compreender Deus, “embora útil para uma integração intelectual da crença, não se presta para a crença, mas para a construção de argumentos filosóficos ou teológicos.”235 Nesta compreensão Rizzuto se integra com a ideia de Tillich sobre o conhecimento controlador: Deus ou a preocupação última não pode ser atingido pelo pensamento técnico-científico. Esta forma de raciocínio não coopera para questões últimas do ser. A representação de Deus criada pelo indivíduo deve ser revisada e isto pode acontecer na pré-adolescência, mas não recorrendo somente à capacidade do pensamento abstrato, esquecendo-se de proporcionar ao sujeito uma experiência de aceitação incondicional, justamente em um momento da vida em que o que mais se necessita é de um grupo de afirmação. Se a representação de Deus não for não for revisada para acompanhar alterações na representação do self, ela, em breve, sai da sincronia e é experienciada como ridícula ou irrelevante, ou, pelo contrário, com ameaçadora ou perigosa.236 Quando a criança inicia sua participação na sua comunidade religiosa ela o faz com o apoio dos pais ou de seus cuidadores, que podem ser, muitas vezes, os avós. Deste ato participativo familiar, [...] a religião organizada provê a criança de modelos alternativos, apresentando história do Antigo e Novo Testamentos e imagens coloridas do céu e de uma vida melhor. Eles [...] psiquicamente [...] oferecem grupos alternativos de pessoas aos quais pode pertencer, pessoas que podem apreciar o verdadeiro valor da criança.237 Este é o papel da comunidade religiosa, apoiar a criança em sua formação, disponibilizando, no seu espaço, um ambiente saudável e acolhedor para auxiliar no 234 RIZZUTO, 2006, p. 265. RIZZUTO, 2006, p. 262. 236 RIZZUTO, 2006, p. 262. 237 RIZZUTO, 2006, p. 259. 235 112 desenvolvimento de sua representação de Deus. Apoiar a criança em formação significa fundamentalmente apoiar a família. Apoiar a família significa conscientizá-la da importância de seu papel nesta questão e fornecer a ela acolhimento e subsídios para construir uma imagem de Deus familiar coerente com a imagem oficial de sua confessionalidade. Como já dito anteriormente, é a família a maior responsável pela representação da imagem de Deus na criança. Na fase da pré-adolescência deve se dar ênfase no acolhimento e valorização do sujeito, pelo fato de empreender uma tarefa crucial para a vida adulta: a conscientização da identidade sólida e coerente. Tanto nas respostas da Tabela 21 como na Tabela 22, inicialmente pretende-se analisar o desenvolvimento da imagem de um Deus mais pessoal ou impessoal. Esta análise pode ser feita apontando o uso do pronome pessoal ao se referir ao símbolo. Na Tabela 21. Quem é Jesus Cristo? é perceptível o uso do pronome pessoal ao falar de Jesus como aquele que me ou nos salvou, ajuda e ama. O uso do pronome na primeira pessoa do singular meu/minha indica ainda mais pessoalidade. Na Tabela 21, inserida abaixo, os pronomes pessoais foram sublinhados para melhorar visualização. É interessante observar que apenas três não utilizam o pronome pessoal para se referir a Deus, enquanto que entre os meninos acontece o contrário, apenas dois deles utilizam. Para a maioria dos meninos Jesus Cristo é o filho de Deus. De forma geral, a caracterização de Jesus refere-se ao evento da cruz, através de palavras relacionadas à crucificação, morte, salvação e sacrifício. Tabela 21. Quem é Jesus Cristo? Sexo feminino F1: Jesus Cristo é o filho de Deus que morreu para nos salvar. F2: Um homem muito bom. F3: Um pai que nos ajuda em todas as horas. F4: Jesus Cristo é aquele que me salvou, é aquele que sabe de TUDO. F5: Um homem bom que nos ama do jeito que somos. F6: Um homem que sacrificou a vida por nós. F7: O Tudo na minha vida, a minha razão de estar aqui. F8: É o filho de Deus. O homem que deu a vida por todos nós. F9: É o filho de Deus. F10: O filho de Deus. F11: Nosso salvador. F12: O filho de Deus que morreu por nossos pecados. Sexo masculino M1: O filho do dono do mundo. 113 M2: Jesus Cristo é um homem que se crucificou por causa de seus pecadores, ele é um homem do mundo, ele é o criador da natureza, das pessoas, dos animais e do mundo. É um homem que ama a todos, mesmo sendo pecador, é um homem que acredita na fé e na paz pro mundo. M3: Filho de Deus, né! M4: É o representante de Deus na terra. M5: É o segundo ser mais evoluído de tudo. M6: O filho de Deus. M7: Um homem que se sacrificou por nós e dedicou sua vida a nós. M8: É o cara que se crucificou por nós. M9: Um cara legal. M10: Filho de Deus, morreu na cruz. M11: Salvador. M12: Filho de Deus. M13: Não respondeu. M14: Filho de Deus. Na Tabela 22. Quem é Deus? é interessante observar como o nível de pessoalidade cai ao se referir a Deus. Apenas quatro meninas e três meninos falam sobre Deus de forma pessoal. Entre as meninas destaca-se a resposta de F7 demonstrando ter os dois símbolos sagrados com os quais se relaciona de forma bastante pessoal. E os meninos que falam de Deus de forma mais pessoal não são os mesmos que falam de Jesus dessa forma. As definições de Deus caracterizam-no predominantemente como pai e criador. O grupo das meninas parece ter tido mais contato, ao longo de sua infância, com as narrativas sobre Jesus Cristo presentes no Novo Testamento bíblico. Estas narrativas tratam da vida, morte e ressurreição de Jesus como uma figura muito próxima, com a qual é fácil manter uma relação mais pessoal. As narrativas sobre a relação de Deus com sua criação estão mais presentes no Antigo Testamento e são menos utilizadas pelas famílias, escolas e religiões,238 por conter textos mais “polêmicos”, com episódios de violência e morte. A ausência ou o pequeno número de narrativas conhecidas sobre Deus dificultam o desenvolvimento de uma relação mais próxima com ele. Tabela 22. Quem é Deus? Sexo feminino F1: Deus é o pai de tudo e de todos. F2: Uma pessoa muito boa e legal. F3: O pai de Jesus Cristo! F4: Para mim Deus tem o mesmo papel de Jesus, porque é 3 em 1, 1 em 3. 238 Conforme a Tabela 4, estes lugares ou pessoas são os meios através dos quais os/as préadolescentes conheceram narrativas bíblicas. 114 F5: Nosso pai, que independente do que ou quem somos nos ama e quer perto. F6: Quem criou o mundo e nos deu a vida. F7: O meu superior, a minha fonte de vida. F8: É a principal força do universo. “O TODO PODEROSO!” F9: É o nosso pai. F10: O criador do universo. F11: O criador do mundo. F12: Deus é o Todo Poderoso que perdoa seus filhos. Sexo masculino M1: O PAI de todos, o criador. M2: Deus é nosso salvador, sem ele não teríamos nada, tudo gira em volta dele. M3: O meu pai, e criador! M4: É aquilo no que acreditamos. M5: O ser mais evoluído de tudo. É o pai de Jesus Cristo. M6: O pai do mundo. M7: O grande criador do mundo. M8: É a razão de tudo. M9: Um cara show. M10: É quem nos criou. M11: Criador da vida. M12: Pai de Jesus. M13: Não respondeu. M14: Criador de tudo o que existe. Segundo Fowler, a fé também consiste em imaginação, um processo de imaginação que une informação e sentimentos, provenientes de narrativas de instituições, de eventos e de relacionamentos. [...] as imagens são anteriores e mais profundas do que os conceitos. Quando nos perguntam o que pensamos ou conhecemos sobre algo ou alguém, convocamos as nossas imagens, colocando em movimento uma espécie de interrogação esquadrinhadora ou de questionamento das mesmas. Então, em um processo que implica tanto uma formação como uma expressão, narramos o que as nossas imagens “conhecem”. A narração pode tomar a forma de estória; pode assumir formas simbólicas ou poéticas, transformando imagens anteriores nascentes em imagens articuladas e compartilhadas; ou pode assumir ainda a forma proposicional de abstrações conceptuais.239 Buscou-se investigar a forma de representação da imagem de Deus entre o grupo de ensino confirmatório, através da Tabela 23. Desenhe Deus e explique o seu desenho:. Os desenhos elaborados pelos/as pré-adolescentes sobre Deus240 serão analisados primeiramente a partir da representação antropomórfica que corresponde ao estágio da Fé Mítico-Literal. Entre os 26 pré-adolescentes que 239 240 FOWLER, 1992, p. 33. Conforme Anexo H – Tabela 23. Desenhe Deus e explique o seu desenho. 115 responderam ao questionário, 3 não fizeram desenho de Deus e também não deram explicação para a Tabela 23 (F2, M11 e M13). 11 desenhos apresentam Deus de forma antropomórfica, ou seja, como uma pessoa, e as explicações dadas para o desenho confirmam esta concepção (F3, F4, F6, F8, F10, F12, M1, M6, M10, M12 e M14). Neste tipo de representação Deus é desenhado de duas formas predominantes: como uma pessoa que mora no céu, entre as nuvens, acima das pessoas, tal como as explicações dadas às crianças sobre o lugar onde Deus vive; e como uma pessoa mais concreta retirada de imagens disponíveis nas relações pessoais (uma pessoa idosa, um professor, um pai) e de narrativas bíblicas (Gênesis – à imagem e semelhança e quando Jesus caminha sobre o mar). 12 desenhos representam Deus de forma abstrata (F1, F5, F7, F9, F11, M2, M3, M4, M5, M7, M8 e M9). Na caracterização da forma abstrata de Deus estão presentes conceitos abstratos como amor, luz, esperança, natureza e energia. Estas duas formas de representar Deus indicam a convivência de dois estágios de fé. O grupo de ensino confirmatório encontra-se dividido nos dois estágios: da Fé Mítico-Literal, com a representação antropomórfica, e da Fé Sintético-Convencional, com a imagem abstrata. Provavelmente muitos dos/as préadolescentes estão vivenciando a transição de um estágio para outro, o que pode acarretar permanência de determinados aspectos do estágio da Fé Mítico-Literal e o desenvolvimento de aspectos da Fé Sintético-Convencional, concomitantemente. O planejamento das ações educativas com o grupo, consciente desta realidade, pode auxiliar os indivíduos a amadurecerem sua imagem de Deus e de Jesus Cristo promovendo a reflexão em torno destas imagens, mas respeitando o ritmo de cada um. A conexão de narrativas mais uma vez pode auxiliar neste processo, conforme as ideias de Fowler colocadas acima. No entanto, sempre se deve ter o cuidado de refletir de modo pessoal e não transformar estas imagens em objetos de conhecimento controlador. 4 A EDUCAÇÃO CRISTÃ COMUNITÁRIA E OS PROJETOS DE TRABALHO Neste momento pretende-se apresentar uma alternativa de proposta pedagógico-didática para a prática da educação cristã comunitária com préadolescentes que frequentam o grupo de ensino confirmatório. Esta proposta resultará de três movimentos: a consideração das descobertas encontradas nos três capítulos anteriores, em diálogo com a proposta elaborada para a educação cristã contínua na IECLB através do PECC e a proposta pedagógica de Projetos de Trabalho de Fernando Hernández e Monserrat Ventura. É importante lembrar que o público alvo desta pesquisa é pertencente a uma realidade de classe média urbana, com intenso acesso a novas tecnologias de informação e a espaços de consumo. Esta metodologia está voltada especialmente para este público e, por isso, não se compreende como aplicável a toda a realidade dos grupos de ensino confirmatório da IECLB. No entanto, por ser uma proposta flexível, pode ser adaptada, quando necessária, a partir de devida análise de público e de contexto e posterior planejamento. A parte final desta dissertação quer oferecer uma proposta alternativa, pois compreende que a educação cristã comunitária, diante da realidade atual, conforme a reflexão realizada nos capítulos anteriores, necessita encarar a complexidade biopsicossocial presente nos processos que envolvem o conhecimento e a aprendizagem. Para isso, ela necessita compreender a sociedade em que atua e o público com o qual trabalha e ter clareza da teologia que a fundamenta, que transmite e que, ao mesmo tempo, no processo de educar, reconstrói. 4.1 As descobertas provenientes da experiência Através do questionário aplicado ao grupo de ensino confirmatório, também se objetivou investigar o aspecto metodológico da educação cristã com préadolescentes. Para isso, ao longo de um ano e dois meses, foram introduzidos tipos diversos de atividades experimentais, para que no final deste período os/as préadolescentes pudessem avaliar suas preferências nesta caminhada. Neste último 118 capítulo torna-se interessante trazer estes dados para apreciação antes da apresentação desta proposta alternativa de trabalho. Ao longo de um ano e dois meses de reunião do grupo de ensino confirmatório de Novo Hamburgo, objetivou-se planejar e preparar os encontros contemplando os indicativos metodológicos e as quatro áreas temáticas propostas no PECC. As atividades pretenderam envolver todo o corpo como, por exemplo, através de uma adaptação de um tríduo pascal para um encontro de uma hora e meia, para falar sobre a ressurreição de Jesus. Este encontro contemplou sons, imagens e cheiros, ao se reproduzir e vivenciar a narrativa da condenação, morte e ressurreição de Jesus.241 A estrutura dos encontros também respeitava a seguinte ordem: recepção, meditação, trabalho do tema, intervalo, brincadeira ou dinâmica relacionada ao tema e despedida com oração.242 Além dos encontros semanais do grupo, estavam previstos no planejamento encontros que reunissem toda a família, com o objetivo de trabalhar alguma temática relacionada à família, conhecer suas histórias de vida e integrar as famílias dos/as confirmandos/as entre si e com o ambiente comunitário.243 Também estavam previstas atividades extras que reunissem os/as confirmandos/as por mais tempo, para que pudessem se conhecer melhor e interagir ainda mais, afinal, muitos se encontravam apenas uma vez por semana, durante a duração do encontro, e não estavam satisfeitos com isso.244 Estas atividades consistiam em retiros e passeios fora do ambiente comunitário e na comunidade. Buscou-se investigar o impacto dessa diversificação de atividades entre o grupo através da Tabela 7. Qual foi a atividade que você mais gostou no ensino confirmatório? Por quê?. Entre os meninos predominou a preferência pelos retiros com 47,0%,, ficando em segundo lugar as brincadeiras e jogos com 17,6%. Entre as meninas a preferência ficou dividida entre os retiros, com 28,6%, e as brincadeiras e jogos, também com 28,6%. Entre as explicações do grupo, constam motivos ligados à interação com os/as colegas como a integração da turma e oportunidade de se conhecer melhor. Estas atividades privilegiam a interação entre os pares e a aprendizagem com alegria e tornam para eles a aprendizagem mais significativa. 241 Conforme Anexo D – Diário de Campo 31/03. Conforme Anexo E – Diário de Campo 14/04. 243 Conforme Anexo F – Diário de Campo 17/04. 244 Conforme Anexo G – Diário de Campo 05/05. 242 119 Uma tentativa bastante simplificada de projeto de trabalho foi proposta ao grupo de ensino confirmatório, devido ao pouco tempo para a pesquisa e o planejamento desta proposta e de encontro com eles. A experiência teve a duração de dez encontros de uma hora e meia, nos últimos três meses de reunião do grupo. Esta experiência seguiu os passos dos projetos de trabalho de Hernández e Ventura, oferecendo bastante liberdade aos grupos para a pesquisa. Os grupos se formaram de acordo com a preferência dos/as pré-adolescentes e lhes foram apresentadas três possibilidades de temáticas para que pudessem escolher: Culto e Confirmação, Lutero e Credo Apostólico. Os grupos compostos por meninos, em sua maioria, escolheram Lutero e apenas um grupo escolheu Culto e Confirmação. As meninas se dividiram entre as três temáticas. Os grupos seguiram a sequência de pesquisa dos projetos de trabalho, mas se concentraram exclusivamente na pesquisa de conteúdos escritos. Demonstraram pouca criatividade na apresentação final. Praticamente aplicaram a metodologia de pesquisa dos trabalhos escolares aos projetos do ensino confirmatório, o que demonstra a importância do empenho do/a orientador/a para que se supere a forma de compreender a construção do conhecimento para além da memorização da escrita. É preciso incentivar constantemente a criatividade, o uso de recursos artísticos de expressão de ideias, o envolvimento com o outro e a variação dos espaços de ensino-aprendizagem. No entanto, os resultados da Tabela 8. Qual é o conteúdo que você mais lembra? Por quê? demonstram que entre os meninos a experiência com os projetos foi marcante, pois a grande maioria deles, com um percentual de 71,4%, apontaram a temática do seu projeto de trabalho como o conteúdo de que mais se lembram. A explicação dada por eles confere. Entre as meninas a preferência é sobre os dez mandamentos, com um percentual de 41,6%. As justificativas dadas por elas são pessoais: por considerarem importante, por gostarem. Uma das justificativas diz que tiveram que decorar os dez mandamentos, mas isso nunca aconteceu, muito pelo contrário, a abordagem sobre os dez mandamentos sempre objetivou a reflexão e a correlação com o dia-a-dia dos/as pré-adolescentes, através de dinâmicas e brincadeiras. Esta justificativa pode vir de uma correlação com as narrativas dos pais ou avós sobre sua experiência com o grupo de ensino confirmatório, quando precisaram decorar os dez mandamentos para dizê-los diante da comunidade no dia da confirmação. 120 Estes dados demonstram a importância de variar a metodologia de aprendizagem para contemplar os vários modos de ensino-aprendizagem que se mostram mais adequados para os sujeitos envolvidos. Isto não quer dizer que se deve promover em determinado momento a simples memorização de informações. Antes, quer dizer que a metodologia pode contemplar tanto a pesquisa teórica de informações como o envolvimento através de jogos e brincadeiras. O mesmo se aplica aos recursos utilizados. A Tabela 10. Você compreende melhor uma idéia ouvindo alguém falar, lendo um texto ou assistindo a imagens? buscou investigar se o maior acesso às TICs poderia estar influenciando na preferência dos/das pré-adolescentes por diferentes recursos de ensino-aprendizagem audiovisuais. Apesar de uma grande percentual não ter compreendido a pergunta, as respostas válidas estão bem divididas demonstrando que não existe maior preferência por um recurso ou outro. 4.2 Considerações da pesquisa No primeiro capítulo observamos que a expectativa de comprometimento que a comunidade religiosa deposita sobre o/a pré-adolescente não combina com o estilo de vida para o qual esta fase de vida foi sendo construída. A pré-adolescência é justamente uma fase de início de construção da identidade para a vida adulta, um período em que a convivência com os amigos e a opinião do outro se tornam extremante importantes.245 Além disso, a prática pedagógica da educação cristã comunitária com provas e memorização não demonstra ser significativa para as preocupações próprias dessa fase da vida. Uma educação cristã transformadora e paradigmática necessita vincular o processo de abstração do conhecimento construído em conjunto à ação que exercita e demonstra a relevância prática da correlação de saberes. Necessita diversificar os espaços de aprendizagem. Afinal, “[...] a fé não se restringe a considerar verdadeiras algumas frases, mas um projeto de existência que abrange todo o ser”.246 O segundo capítulo demonstrou que o descrédito das metanarrativas produziu uma realidade de valores e verdades relativas, e desafia a pensar em uma 245 Conforme a explicação dada pelos/as pré-adolescentes que frequentam o ensino confirmatório para a Tabela 9. 246 METTE, 1999, p. 159. 121 educação cristã contínua coerente, sólida e significativa para a construção da fé e da identidade do/a pré-adolescente a partir do evangelho. Uma educação cristã capaz de promover um olhar crítico, a partir de critérios cristãos claros de amor, gratidão e justiça. Diante de crises e rupturas biográficas, que questionam as noções adquiridas sobre si e o sentido da vida, a religião promove a confiança e a força para mergulhar no processo de encontrar o self e de um trato com a realidade em um novo nível.247 Um modo opressivo de compreender e praticar a educação, através do depósito de informações, perdura até hoje, como também percebe e explica OliveiraFormosinho ao se referir à educação escolar. A persistência e a resistência desse modo têm a ver com a simplicidade, a previsibilidade e a segurança da sua concretização, pois ele representa um processo de simplificação centrado na regulação e no controle de práticas desligadas da interação com outros pólos, de uma ambigüidade através da definição artificial de fronteiras e de respostas tipificadas.248 Esta maneira de educar é denominada de pedagogia da transmissão, pois não consegue vincular o conteúdo à vida diária das pessoas. Dessa forma ela não produz significado, pois não dialoga, faz com que os conteúdos funcionem como um meteorito caído do céu, que se faz presente irrefletidamente e, por isso, permanece externo ao ser. Aliás, esta pedagogia está centrada exclusivamente no conteúdo, considerando-o estático e ignorando os sujeitos envolvidos no processo de educação. A pedagogia da participação, ao contrário da pedagogia da transmissão, se concentra no sujeito e em seu contexto. Privilegia a interação e o movimento dos conteúdos e dos sujeitos. Nesse sentido, uma pedagogia da participação envolve três processos: a escuta, o diálogo e a negociação; com o objetivo de realizar uma contextualização cotidiana do saber, enfrentando o desafio de lidar com a ambiguidade, a emergência e o imprevisto. Uma pedagogia da participação transformativa deve certificar-se de que, simultaneamente, realiza o ator social em contexto, com formas de participação recíproca, e o ator pessoal em crescimento, que é um sujeito autônomo, com expressão e iniciativa próprias.249 247 METTE, 1999, p. 171. OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia. Pedagogias(s) da infância: reconstruindo uma práxis de participação. In: OLIVEIRA-FORMOSINHO, Júlia; KISHIMOTO, Tizuko Morchida; PINAZZA, Mônica Apezzato (Orgs.). Pedagogias(s) da infância: dialogando com o passado: construindo o futuro. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 17-18. 249 OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2007, p. 27. 248 122 O racionalismo científico, atuando através da pedagogia da transmissão, moldou o pensamento humano de tal forma que hoje é dificultoso pensar uma educação cristã que supere a simples promoção da compreensão lógica de algumas afirmações teológicas. Estamos presos a um paradigma educacional fracionado, ou seja, que não nos permite uma visão sistêmica e holística da vida. “Esse efeito de indução não é automático: não basta ler a materialidade de um texto para perceber nele o anúncio da uma realidade que não é mais a do campo perceptivo.”250 Para superar uma educação cristã de saber cumulativo irrefletido é necessário proporcionar experiências de conhecimento. Onde estas experiências de ser incondicionalmente afirmado e de ser incondicionalmente amado são transmitidas na prática, a fé já se realiza de uma maneira elementar; pois seu núcleo é constituído por estas experiências. [...]251 A educação cristã no contexto contemporâneo tem como desafio proporcionar um processo de conhecimento, com bases no evangelho, que seja capaz de abarcar o concreto das experiências humanas. “Essa capacidade é da ordem de um esclarecimento, que mobiliza os recursos da inteligência e do coração, mas os ordenando a um télos que é a adesão ao conteúdo da palavra querigmática.”252 Maraschin já externou que não há porque continuar usando a tradição filosófica e científica ocidental, com bases iluministas, como o único caminho existente para a teoria e a práxis teológica.253 A mensagem cristã necessita ter significado correspondente à vida concreta das pessoas neste tempo, necessita estar “encarnada” e não somente servir como postulado racional. Para que isso aconteça, é imprescindível fugir dos preconceitos modernos acerca da experiência do indivíduo, pelo contrário, mais do que valorizá-la é necessário saber promovê-la com intencionalidade pedagógica e teológica, e tudo isso tendo em vista a multiplicidade de crenças que convivem com a fé cristã. Necessitam-se mais do que nunca enfrentar a falta de criatividade, de compromisso, de envolvimento e de criticidade diante da realidade fluida apresentada aos/às pré-adolescentes hoje. E somente se alcançará isso 250 LADRIÈRE, 2008, p. 259. METTE, 1996, p. 128. 252 LADRIÈRE, 2008, p. 260. 253 MARASCHIN, 1992, p. 138. 251 123 proporcionando experiências capazes de envolver, deslocar, desacomodar, e até escandalizar. Estas experiências educativas devem contemplar todas as dimensões humanas e despertar e valorizar a participação ativa de todos os envolvidos, respeitando seus ritmos e contribuições. Além disso, estas experiências devem ser capazes de proporcionar significado aos relacionamentos humanos mais fundamentais, de forma a contrapor a efemeridade das relações passageiras. Estas reflexões estão baseadas nas ideias de Tillich, Segundo e Fowler, apresentadas no terceiro capítulo. A partir desses autores, quer-se promover uma educação cristã que vincule a fé religiosa com a fé antropológica, contribuindo para a construção de uma identidade sólida baseada no evangelho. Paulo Ghiraldelli Jr. – inspirado em Nietzsche, Donald Davidson e Richard Rorty – introduz o termo pósnarrative turn para definir uma nova “teoria educacional”, baseada na metáfora, e ainda não consolidada, mas em desenvolvimento, para a contemporaneidade já livre da influência das metanarrativas, conforme Lyotard. O conceito corresponde, segundo o autor, a uma “pós-virada em favor das narrativas”.254 Esta nova postura educativa quer promover a imaginação ao invés da conformidade com os saberes já instituídos.255 O primeiro passo desse processo educativo consiste em ter “consciência de que temos várias ‘descrições do que chamamos de realidade’”.256 Não há mais a possibilidade de crer em apenas uma verdade e apresentá-la aos/às educandos/as. O segundo passo consiste em dar sentido e significado às narrativas encontrando “jogos de linguagem”. Estes jogos de linguagem que fornecem sentido para as narrativas devem estabelecer relação entre as narrativas e a vida das pessoas. Para o autor, esse é um processo de consciência do/a educador/a e do/a educando/a. Isso depende do trabalho de professores e alunos que buscam ver o quanto essas narrativas são ou não são narrativas de suas próprias vidas, da vida de seus pais, da vida de seus filhos, da sua cidade e de seu país – ou mesmo que eles próprios poderiam ser essa vida. Nesse caso filmes como “Mulan”, “Dança com Lobos”, “Philadelphia”, ou mesmo o velho “Ben Hur” ou não tão velho “Mississipi em chamas” podem ajudar muito na formulação da idéia do que é ser diferente e do que é precisar de novos direitos de igualdade para poder sobreviver como diferente.257 254 GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Filosofia da educação. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002b. p. 57. GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002b, p. 58. 256 GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002b, p. 62. 257 GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002b, p. 63. 255 124 Enfim, o terceiro e último passo desta postura pedagógica pós-narrative turn consiste na ação de potencializar os/as educandos/as a criarem suas próprias narrativas. As histórias contadas por uma pessoa são simultaneamente uma prática social (dirigidas a uma audiência, estruturadas com base numa língua pela qual a pessoa torna pública a experiência privada, e contendo crenças, valores e ideologias provenientes do contexto sociocultural), e uma atividade auto-epistêmica [...], por meio da qual o sujeito se reconhece e se transforma, ao engendrar novos significados e comportamentos e ao tomar posição frente a eles, numa perspectiva ética.258 Além desses passos, é necessário sempre vincular a teoria dos conteúdos com a práxis, e isto significa proporcionar aos/às educandos/as experiências de conhecimento e de sentido concretos. A contemporaneidade, com a relativização de tudo o que arroga para si o valor de verdade, dificulta grandemente o papel da educação cristã, pois esta somente possui razão de ser enquanto possui um discurso que a justifique. Falando em termos estritamente filosóficos, temos a idéia de que uma parte do tempo que gastamos em educação está conectada à prática de que na relação ensino-aprendizagem prevalece ou deve prevalecer um discurso que pode se justificar; isto é, um discurso que pode reclamar para si o valor de verdade.259 Educar para compreender afirmações significa também abarcar contraafirmações e isto causa grandes incertezas. Na educação, nem todos estão preparados para lidar com a dialética e acabam partindo para os fundamentalismos. É o que Tillich colocou com muita propriedade acerca da fé: é um ato de coragem, pois a dúvida sempre estará presente no ser finito que se depara frente ao infinito. A contemporaneidade vive, como nunca antes, a possibilidade do “não ser”.260 Apesar das múltiplas incertezas sentidas pelo sujeito e da negação de tudo o que é institucional e que arroga deter a verdade absoluta, as pessoas ainda necessitam [...] acreditar em alguma coisa, viver por alguma coisa, sentir que pertencem a uma comunidade e que são membros estimados de uma sociedade, além de terem um sentimento de realização espiritual, isto é, o sentimento de estarem ligadas e incorporadas ao mundo e ao universo em que vivem.261 258 OLIVEIRA, 2006, p. 431. GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002b, p. 45. 260 TILLICH, Paul. Dinâmica da Fé. São Leopoldo: Sinodal, 1974. p. 15-16. 261 HUGHES, Phillip. Objetivos, Expectativas e Realidades da Educação para os Jovens. In: DELORS, Jacques (Org.). A educação para o século XXI. Questões e perspectivas. Porto Alegre: Artmed, 2005. p. 42. 259 125 Em meio a uma realidade de valores e verdades relativas, é necessário pensar em uma educação cristã capaz de fornecer um sentido de vida a partir do Evangelho, ou seja, capaz de promover um olhar crítico, a partir de critérios cristãos claros de amor, gratidão e justiça. Diante de crises e rupturas biográficas, que questionam as noções adquiridas sobre si e o sentido da vida, a religião promove a confiança e a força para mergulhar no processo de encontrar o self e de um trato com a realidade em um novo nível.262 A educação cristã não pode atuar de forma neutra, afinal, não existe neutralidade. Ou educa-se para manter o status quo, ou educa-se para transformar. De forma mais detalhada, Paulo Ghiraldelli Jr. explica os passos que devem ser tomados no processo de ensino-aprendizagem desta teoria contemporânea. O primeiro passo consiste na apresentação de um problema através de uma narrativa. O segundo passo relaciona este problema com os problemas da vida cotidiana dos/as educandos/as ou de seu grupo social, fazendo com que o/a educando/a se coloque no lugar da personagem da narrativa. Se o estudante aprende a ver sua vida inserida em um romance nacional pode, ele próprio, desejar ser um dos heróis nacionais que darão continuidade à luta pela liberdade, como fizeram os heróis do passado (toda cultura possui seus heróis libertários).263 O terceiro passo redescreve264 a primeira narrativa utilizando outros tipos de narrativas sem que haja hierarquia de valor entre elas, como as de caráter ficcional e científico. Na contemporaneidade não é possível hierarquizar os discursos, como na modernidade, quando o discurso científico era o que determinava a verdade. Na contemporaneidade não há espaço para qualquer método de definição do que seria uma verdade. O importante é o entendimento de que essa redescrição não está ali para desvendar o que havia de essencial e de verdadeiro na primeira narrativa. Não há uma chave para se chegar mais próximo da realidade, como não há uma chave para desvendar a interpretação correta.265 262 METTE, Norbert. Pedagogia da Religião. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 171. GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Didática e teorias educacionais. Rio de Janeiro: DP&A, 2002a. p. 56. 264 O termo redescrever é criado pelo autor para enfatizar a tarefa de colocar à disposição uma descrição diferente do problema. 265 GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002a, p. 57. 263 126 O quarto passo acontece quando o/a educando/a compõe sua própria narrativa para redescrever a primeira. O quinto e último passo é a ação cultural, social e política a partir desse processo. Por fim, o que se tem é o recolhimento das idéias e sugestões vindas das narrativas e suas redescrições para a condução intelectual, moral e estética no campo cultural, social e político de cada um. Cabe aqui a ação política organizada, inclusive a ação política partidária. Porém, é necessário lembrar que a própria formulação de uma narrativa e sua divulgação – a criação de uma nova metáfora que não só garanta direitos democráticos mas que invente outros direitos – já constituem uma ação política. 266 Ou seja, o que acontece neste processo é a apresentação de um discurso maior sobre determinado assunto (problema). Logo o grupo é desafiado a se aproximar do discurso, colocando-se nele, relacionando-se com ele. E depois se apresenta outro discurso, de ótica diferente sobre a mesma temática, para que o grupo contemple e se conscientize da e na diversidade. E logo depois, o grupo é desafiado a criar outro discurso, a partir de si mesmo, utilizando sua criatividade e autonomia para fornecer um novo sentido ao assunto. Com isso o grupo compreende-se como agente de criação de sentido. Mas essa participação não pára no discurso, pois o quinto e último passo desafia para a ação social a partir dos discursos observados e criados. Nesta proposta pós-narrative turn, a aula é um momento de troca de olhares entre educador/a e educando/a, capaz de proporcionar uma experiência de vivência, isto é, um “trabalho corajoso de se deixar levar por um discurso perigoso, pelo espanto, pela aventura, pelo caminho que ainda não está de todo aberto e que necessita do estudante, junto com o mestre ou com o livro, para poder ser aberto.”267 Esta proposta envolve o/a educando/a com o problema de forma crescente até chegar a uma ação. Pretende-se inserir esta postura na proposta dos Projetos de Trabalho, considerando-se o Plano de Educação Cristã Contínua – PECC. A reflexão realizada pela IECLB, que consta no PECC, auxilia a pensar em uma educação na perspectiva cristã de forma planejada, com uma intencionalidade para cada fase da vida, vislumbrando e projetando continuidade comprometedora. 266 GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. A teoria educacional no Ocidente: entre modernidade e pósmodernidade. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 32-36, jun. 2000. p. 35. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/spp/v14n2/9785.pdf>. Acesso em: 05 dez. 2011. 267 GHIRALDELLI JÚNIOR, 2002a, p. 71. 127 4.3 A proposta educativa do PECC A educação cristã é um compromisso de todo cristão e toda a cristã, deve acontecer durante toda a vida, ou seja, de forma contínua, sendo um elemento importante para a missão da Igreja. O PECC incentiva as comunidades da IECLB a realizarem um diagnóstico de sua realidade e a partir da identificação de pontos fracos e fortes realizarem o planejamento de suas ações educativas. “O PECC oferece linhas orientadoras para a educação cristã, no entanto, as ações de educação cristã precisam ser planejadas e executadas por cada instância a partir das suas necessidades e atribuições.”268 Ao apresentar a fundamentação teológica, a pedagógica e os princípios metodológicos do PECC, pode-se observar valores e atitudes orientadoras para as ações de educação cristã como o diálogo, o respeito, o acolhimento, a participação, o protagonismo e a igualdade que compreendem o/a educando/a como sujeito no processo de ensino-aprendizagem. Este documento, portanto, procura subsidiar lideranças comunitárias que trabalham com a educação cristã para que transgridam269 as pedagogias de transmissão e partam para a pedagogia da participação. Neste sentido a utilização da postura pó-narrative turn e dos Projetos de Trabalho é compatível com a intenção do PECC para a educação cristã comunitária. A fundamentação teológica da educação cristã contínua, conforme o PECC, está ancorada na Bíblia, no Batismo e na confessionalidade evangélica luterana. A Bíblia indica parâmetros e princípios éticos essenciais para uma educação baseada no agir educativo de Deus. Esse agir tem na ação de Jesus seu exemplo maior. O Batismo nos é dado, é graça de Deus, e compromete a comunidade a educar na fé cristã ao longo de toda a vida. A confessionalidade luterana também aponta para uma prática educativa baseada na liberdade, na aceitação e na abertura para o diálogo e no sacerdócio geral de todas as pessoas que creem.270 A partir da orientação bíblica é possível pensar a educação cristã como seis atitudes fundamentais: a lembrança dos feitos de Deus para com o seu povo; a prática do amor ao próximo (Mt 22.37,39); o serviço para a comunidade e para o mundo; o olhar esperançoso para a realidade; a promoção da reconciliação com 268 IECLB, 2011, p. 1. Conforme conceito trabalhado por Fernando Hernández em: HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998. 270 IECLB, 2011, p. 14. 269 128 Deus e com o próximo, através do amor, da bondade e do perdão; o diálogo e o respeito que valorizam o outro em sua diversidade e preservam a unidade.271 O Batismo é o início da vida cristã, a partir do qual a pessoa é tornada membro do corpo de Cristo. Ele é um presente gracioso de Deus para nós, que vai sendo experimentado durante toda a vida. A partir do Batismo, “pela graça de Deus e pela ação do Espírito Santo, crianças, adolescentes, jovens e adultos ensinam e aprendem no estudo da Palavra, na partilha, na convivência, no serviço ao próximo e nas celebrações.”272 Para que a pessoa tenha consciência do significado deste presente durante a vida, “a pessoa que foi batizada (criança ou adulta), bem como os pais e padrinhos, necessitam de orientação, preparo, acompanhamento e formação.”273 Como expressa a ordem de Jesus Cristo em Mt 28.18-20, para batizar e ensinar. A confessionalidade luterana fornece três princípios básicos para a educação cristã: a justificação por graça e fé demonstra o amor gracioso e incondicional de Deus, que não exige obra de retribuição. “O amor e a graça de Deus desafiam o educar para a aceitação, para a abertura e o diálogo que buscam a dignidade individual e comunitária através da justiça social e econômica e o zelo pela integridade de toda criação.”274 A liberdade cristã oferecida em Cristo torna a pessoa cristã senhora de sua vida, tendo Cristo como seu Senhor e como critério para as suas ações. “Educar na perspectiva da liberdade cristã é promover uma educação que avalia constantemente o processo educativo na intenção de evitar qualquer forma de imposição ou constrangimento no ensino do evangelho.”275 O sacerdócio geral de todas as pessoas que creem parte do ministério de Jesus Cristo e é confiado a cada pessoa a partir do Batismo, que forma uma comunidade de iguais, corresponsáveis e protagonistas no testemunho do evangelho no mundo. “Educar na perspectiva do sacerdócio geral de todas as pessoas que crêem desafia à promoção de um processo de ensino e aprendizagem participativos, em que todos são responsáveis pela comunicação do evangelho a todas as pessoas.”276 Na fundamentação pedagógica a educação cristã contínua tem como referência a pedagogia de Jesus. Assim como Jesus procurou instruir aqueles que 271 IECLB, 2011, p. 14-17. IECLB, 2011, p. 18. 273 IECLB, 2011, p. 17. 274 IECLB, 2011, p. 18. 275 IECLB, 2011, p. 19. 276 IECLB, 2011, p. 20. 272 129 ele encontrava e chamava através de palavras e gestos de amor, a educação cristã contínua quer capacitar os/as cristãos/ãs para viverem o seu sacerdócio na fé em Cristo. A educação cristã tem como referência a ação pedagógica de Jesus. Ele educava através de gestos e palavras. Partia da experiência de vida (João 4.1-30); contava histórias (Marcos 4.2); questionava leis, tradições e posições estabelecidas (João 8.1-11); recebia ou ia ao encontro das pessoas marginalizadas (Marcos 10,13-16; Lucas 19.1-10); caminhava com seus discípulos (Lucas 24.13-35) e tinha abertura para dialogar com as outras pessoas e delas aprender (Marcos 7.24-30); derrubava preconceitos (Marcos 5.25-34); valorizava a atitude de fé das pessoas (Marcos 2.1-12).277 O PECC, a partir de sua fundamentação teológica e pedagógica, apresenta dez indicativos metodológicos que auxiliam as comunidades no planejamento da educação cristã contínua, considerando o seu contexto. “A educação cristã orientada por esses indicativos metodológicos pressupõe que as pessoas envolvidas no processo educativo sintam-se co-responsáveis pela aprendizagem na fé.”278 1. Valorizar a experiência de vida das pessoas – compreende o diálogo através do acolhimento, respeito e valorização das histórias de vida das pessoas relacionando-as com as narrativas bíblicas; 2. Envolver todo o corpo – compreende o ser humano em sua integralidade e objetiva contemplar todos os sentidos do corpo, todas as formas de comunicação, seja “através de gestos, símbolos, expressão corporal”279 e pode-se acrescentar ainda cheiros e sabores; 3. Despertar a capacidade criativa de cada pessoa – a capacidade de criar é dada por Deus, ao fazer as pessoas a sua imagem e semelhança. A educação cristã quer despertar esta capacidade utilizando diferentes recursos e formas de ensinar em seus espaços de ensino-aprendizagem; 4. Humanizar a educação através da alegria – Ambientes alegres proporcionam o aprendizado prazeroso, integram as pessoas, descontraem e abrem para o autoconhecimento e o conhecimento do outro; 5. Dialogar com liberdade sobre dúvidas e perguntas – Todo espaço educativo deve ser capaz de proporcionar respeito e acolhimento a ponto de a pessoa sentir-se à vontade para expor suas dúvidas e perguntas e dialogar sobre 277 IECLB, 2011, p. 20-21. IECLB, 2011, p. 28. 279 IECLB, 2011, p. 25. 278 130 elas. Um espaço assim é capaz de promover a curiosidade e a construção do aprendizado coletivo, participativo e significativo; 6. Servir ao próximo – A palavra de Deus fundamenta o serviço ao próximo e a partir deste serviço pode-se refletir sobre a palavra de Deus, em um processo educativo estreitamente vinculado à vida concreta das pessoas; 7. Valorizar o processo e o caminho percorrido individualmente – cada pessoa vive um processo único de construção de conhecimento e este deve ser respeitado; 8. Planejar as ações educativas de forma flexível e aberta – “o planejamento precisa ser flexível e sensível às situações locais, às preocupações e necessidades do grupo, às intervenções das pessoas envolvidas na ação educativa.”280 9. Avaliar a caminhada – a avaliação auxilia no planejamento, ao descobrir possíveis pontos desfavoráveis para o processo de ensino-aprendizagem e, portanto, deve acontecer sempre e não apenas no final da ação educativa. O ato de avaliar compreende todas as pessoas envolvidas no processo educativo como sujeitos e por isso requer a participação de todos e não apenas dos/as educadores/as; 10. Os quatro pilares da educação indicados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO): Aprender a conhecer; Aprender a fazer; Aprender a viver com os outros; Aprender a ser. Estes quatro pilares compreendem cada pessoa como sujeito na construção do conhecimento, ou seja, capaz de dominar competências e habilidades necessárias para viver em sociedade. O PECC também apresenta quatro áreas temáticas prioritárias que “servem de base para o planejamento das ações de educação cristã.”281 A área bíblica, a confessionalidade, a missão e os contextos nos quais a pessoa está inserida (social, econômico, político, cultural e religioso). Segundo o PECC, é inegável a importância de uma educação cristã planejada para cada fase da vida. No primeiro capítulo pudemos observar algumas características complexas presentes na pré-adolescência e que precisam ser consideradas no processo de educação na fé, e esta consideração só vai se tornar transformadora se for planejada e projetada para esta fase da vida. 280 281 IECLB, 2011, p. 27. IECLB, 2011, p. 29. 131 4.4 Os projetos de trabalho Fernando Hernández pensa os projetos de trabalho para a realidade da sociedade ocidental contemporânea, a cada dia mais complexa. O mundo dos avanços das tecnologias da informação fornece diariamente enorme quantidade de informação para as pessoas. A memorização de tantas informações é tarefa inviável nesta realidade. O que o mundo contemporâneo requer do indivíduo é a capacidade de relacionar, interpretar e utilizar as informações. Para que o/a educador/a possa possibilitar esta nova forma de encarar os saberes, ele precisa transgredir a forma tradicional de educar, baseada na memorização de conteúdos extáticos. Transgredir significa ser crítico quanto às propostas da escola, questionar o que é considerado natural, investigar mais de um ponto de vista. Nesse sentido, para Hernández e Ventura, os projetos de trabalho para a educação são uma maneira de organizar o processo de ensino-aprendizagem, possibilitando o conhecimento globalizado e a aprendizagem significativa. A compreensão de globalização na aprendizagem para Hernández, conceito central para os Projetos de Trabalho, consiste em uma crítica ao construtivismo, mas não um rompimento com o mesmo. Para o autor, em uma entrevista dada ao jornal Diário na Escola – Santo André, a finalidade da escola não pode ser reduzida à perspectiva psicológica. A psicologia [...] nos oferece algumas contribuições interessantes sobre o aprender, mas nos diz muito pouco sobre a função da escola como instituição socializadora e política. É certo que o saber que o indivíduo foi construindo nos diferentes entornos de socialização devem ser levados em conta para favorecer novas aprendizagens. Também é certo que este saber está socialmente construído e significa que não podemos esquecer o caráter diferencial de como os indivíduos dão sentido e se posicionam ante ao conhecimento escolar em função das representações que conduzem à escola. Porém, nem uma visão nem outra (a primeira seria construtivista e a segunda sócio-construtivista) dão resposta aos intercâmbios, vivências, relações de poder, micropolíticas, que têm lugar em uma escola e em uma sala de aula. Portanto, a escola e a aprendizagem não podem reduzir-se ao que diz uma perspectiva psicológica. [...] Porém, mais importante é como ajudamos cada criança a encontrar na escola o lugar para aprender a dar sentido ao mundo em que vive, a si mesma e às relações com os outros. Este propósito é político e não de uma perspectiva psicológica.282 Para o autor, globalização tem a ver com a promoção da articulação dos saberes e não com o acúmulo dos saberes construídos. A articulação de saberes 282 ENSINO com diálogo e investigação. Diário do Grande ABC. Santo André, 25 jun. 2004, Diário na Escola – Santo André. p. 3. 132 consiste em estabelecer relações com os conhecimentos do passado e do presente recém construídos, integrando conhecimentos significativos para o presente e o futuro. A função de um projeto de trabalho é favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos escolares em relação a: 1) o tratamento da informação, e 2) a relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas ou hipóteses que facilitem aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio.283 Esta forma de aprendizagem significativa parte dos conhecimentos prévios da realidade da pessoa e também de seus interesses, valorizando e incentivando sua participação no processo de planejamento e execução do projeto. O planejamento docente se dá através da organização dos conteúdos, seguindo uma sequência lógica e compreensível para os/as alunos/as e também buscando atingir um sentido de funcionalidade. A avaliação neste processo de aprendizagem busca analisar o processo e as inter-relações desenvolvidas na aprendizagem. A proposta dos projetos de trabalho surge de reflexões e experiências positivas em escolas da Espanha, com o objetivo de reorganizar o currículo escolar. Este currículo deveria ser mais significativo, a ponto de ensinar os alunos “a aprender, a encontrar nexo, a estrutura e o problema que vincula a informação e que permite aprender.”284 Este objetivo para a escola coopera com o objetivo que se quer atingir no processo de ensino-aprendizagem do saber concernente ao currículo da educação cristã contínua.285 Esta proposta contribui para relacionar as narrativas da vida da pessoa com as narrativas bíblicas. Permite, por exemplo, relacionar os símbolos presentes no ambiente comunitário religioso com as narrativas que os fundaram, as doutrinas que os acompanham e então traduzir, a partir desta correlação, os significados para a vida cotidiana e assumir uma atitude concreta dessa significação. Esta possibilidade coopera com a postura pós-narrative turn, que, cumprindo esta correlação de narrativas, pode atingir o objetivo da educação cristã contínua de auxiliar “no processo de desenvolvimento integral e contínuo, que desperta e alimenta a fé e 283 HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Montserrat. A organização do currículo por projetos de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. p. 61. 284 HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p. 66. 285 Entende-se que esta proposta coopera com as reflexões em torno da revelação e o aprender a aprender indicado por Juan Luis Segundo no seu conceito de fé antropológica. 133 intervém na maneira como as pessoas vivem o dia a dia (seus modos de expressão, suas escolhas, suas ações, etc.).”286 Compreender é uma virtude cognoscitiva e experiencial de traduçãorevelação entre um original, isto é, uma informação, um problema, e o conhecimento pessoal e grupal relacionado a ela. Essa relação implica estabelecer trajetórias entre o passado e o presente, entre os significados que diferentes culturas dão às manifestações simbólicas e às versões dos fatos que são objetos de estudo.287 A proposta de Projetos de Trabalho de Hernández e Ventura é pensada para o ambiente escolar e suas diversas séries de ensino. Portanto, torna-se necessário apresentar neste ponto da pesquisa adaptações para os projetos de trabalho de forma que colaborem com a educação cristã em ambiente comunitário religioso e com o público pré-adolescente. O processo de um projeto de trabalho inicia com a escolha do tema pelos/as alunos/as, seguido de uma atuação de pesquisa por parte do/a educador/a sobre o tema escolhido, tanto para saber o que os/as educandos/as já conhecem sobre o assunto como estabelecer o fio condutor da pesquisa, de forma a possibilitar um real aprofundamento da temática. O projeto de trabalho não é elaborado por um indivíduo, mas por um grupo de educandos/as em conjunto com o/a educador/a. O grupo já formado escolhe o tema a ser pesquisado a partir de um interesse sério, de uma preocupação do grupo. No caso dos pré-adolescentes poderia ser “a independência e a maioridade penal”. Para que a escolha parta de um interesse sério é necessário incentivá-los a refletirem sobre o que eles já conhecem sobre o assunto, sobre suas experiências anteriores e sobre suas narrativas pessoais de forma que possam argumentar sobre a relevância de sua escolha. No caso do ambiente comunitário, o papel das narrativas é essencial, pois elas transmitem experiências pessoais e podem ser moldadas segundo a autocompreensão e composição do sujeito. Entre o público pré-adolescente elas têm papel organizador da identidade para o passado e o presente e para os projetos do futuro. Como já visto no segundo capítulo desta dissertação, o cristianismo está ancorado em uma metanarrativa do evangelho que está perdendo sua credulidade no mundo contemporâneo. Uma alternativa para combater tal descrédito é valorizar 286 IECLB, 2011, p. 23. HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. p. 184. 287 134 as pequenas narrativas locais e pessoais vinculando-as com a grande narrativa do evangelho. Neste primeiro passo, no contexto comunitário religioso, a dinâmica para a escolha do tema pode variar. Hernández propõe a escolha de um tema para toda a turma, de forma a trabalharem individualmente e coletivamente. Dependendo do número de integrantes do grupo de ensino confirmatório, pode acontecer o mesmo. O/a orientador/a apresenta mais de uma proposta temática para a turma escolher. Caso a turma seja muito grande é interessante formar grupos antes da escolha do tema, para que possam escolher temas diferentes e efetuar pesquisas diversas. Este último caso evita a cópia de conteúdos e atividades de um grupo pelo outro, assim como a possibilidade do sentimento de competitividade. Além disso, enriquece o diálogo de um grupo com o outro ao apresentarem e avaliarem o que estão pesquisando para a turma, pois sem a dimensão da competitividade, resta apenas o interesse pelas descobertas da pesquisa do outro. Na verdade, o que movimenta a pesquisa é a curiosidade, a autonomia e o interesse. O próximo passo consiste novamente numa atividade conjunta entre educador/a e educando/a. O/a educador/a, segundo Hernández, pode realizar sete atividades neste segundo passo: 1. Especificar o fio condutor do projeto que poderá vinculá-lo a outros temas e problemas. No caso da educação cristã comunitária, os temas e problemas estão contidos nas quatro áreas temáticas do PECC, já apresentadas anteriormente. Para exemplificar este passo do projeto, caso uma temática escolhida pelo grupo seja “a independência e a maioridade penal”, ela deve buscar informações que contemplem a área bíblica (sobre as narrativas que fundamentam esta temática, como os dez mandamentos), a área confessional (liberdade cristã), a área da missão (sobre o testemunho do/a préadolescente e da comunidade no cumprimento da vontade de Deus no mundo), e a área dos contextos (refletindo sobre os temas do contexto social que estejam relacionados com a temática, como neste caso, o cumprimento das leis e a ética). Esta busca pode ser incentivada com a elaboração de perguntas para cada área que os/as alunos/as buscarão responder e que podem gerar novas perguntas, dependendo da extensão que se quer dar ao projeto. 135 2. O segundo passo consiste em definir atividades e selecionar fontes de informação que poderão ser indicadas aos/às alunos/as para a continuidade da pesquisa. 3. Atualizar-se em torno da temática procurando vários pontos de vista para questionar os/as alunos/as e promover um raciocínio crítico em torno da temática. 4. “Criar um clima de envolvimento e de interesse no grupo, e em cada pessoa, sobre o que se está trabalhando na sala de aula.”288 Nesta ação o papel das narrativas pessoais e locais tornam-se muito importantes. 5. “Fazer uma previsão dos recursos que permitem transmitir ao grupo a atualidade e funcionalidade do Projeto.”289 Neste ponto acrescenta-se, na perspectiva da educação cristã, a atualidade e funcionalidade da pesquisa não apenas para si mesmos, mas para o grupo, a comunidade e a sociedade, partindo do princípio bíblico do PECC do serviço ao próximo. 6. “Planejar o desenvolvimento do Projeto sobre a base de uma sequência de avaliação”,290 que consiste em avaliar as hipóteses e referências do grupo sobre o tema, a aprendizagem e se são capazes de fazer novas relações. 7. Recapitular o processo realizado para que possa servir de memória de compartilhamento. Os/as alunos/as entram em cena realizando atividades que não são rígidas, mas podem ser modificadas dependendo do tema. Os/as alunos/as efetuam a confecção de um índice contendo os aspectos da temática a serem investigados, o tempo que demandará a pesquisa de cada um e as possíveis atividades necessárias para a busca. A busca por informações deve ser diversificada, contemplando a escrita, conferências de convidados, visitas, vídeos etc. No caso da educação cristã, pode-se incluir no projeto alguma atividade diaconal, contemplando o princípio bíblico e o indicativo metodológico de serviço ao próximo. Posteriormente, segue 288 HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p. 69. HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p. 69. 290 HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p. 69. 289 136 uma atividade muito importante que consiste no tratamento das informações, quando os/as alunos/as ordenam, apresentam e dialogam sobre o que pesquisaram ,propondo novas perguntas. Por último, avaliam todo o processo pessoal de aprendizado (interno) e o processo de pesquisa do grupo (externo). Este processo de busca deve envolver todos os/as alunos/as. Caso haja mais de um grupo, deve-se reservar um momento do encontro ou um encontro especial para compartilhar o que se está descobrindo para os outros grupos. O projeto deve ser compartilhado de modo que os outros grupos também possam opinar, perguntar e incentivar a pesquisa de quem apresenta. Estes momentos de apresentação podem ser criativos, através da elaboração de uma peça teatral, de uma música, utilizando recursos de mídia, com som e imagem, com dinâmicas etc. O processo de pesquisa se torna alegre, envolve todo o corpo, desperta a capacidade criativa, como apontam dos indicativos metodológicos do PECC, e valoriza o processo de pesquisa e não somente a conclusão do projeto. Para a finalização do projeto, os/as educadores/as fornecem informações que devem ser complementadas pelos/as educandos/as, buscando suas fontes e conectando a pesquisa a um novo tema ou problema.291 De forma resumida, um projeto caracteriza-se da seguinte forma, com trajetória passível de mudança: Parte-se de um tema ou de um problema negociado com a turma. Inicia-se um processo de pesquisa. Busca-se e seleciona-se fontes de informação. São estabelecidos critérios de organização e interpretação das fontes. São recolhidas novas dúvidas e perguntas. São estabelecidas relações com outros problemas. Representa-se o processo de elaboração do conhecimento vivido. Recapitula-se (avalia-se) o que se aprendeu. Conecta-se com um novo tema ou problema.292 Os passos da postura pós-narrative turn podem ser inseridos neste processo, qualificando ainda mais o protagonismo dos/as pré-adolescentes, ao elaborarem suas próprias narrativas para irem construindo sua identidade com o auxílio da educação cristã contínua. Além disso, os objetivos e os indicativos metodológicos do PECC podem ser contemplados nesta forma de educar com coerência. 291 292 HERNÁNDEZ; VENTURA, 1998, p. 75-83. HERNÁNDEZ, 2000, p. 182. 137 Avalia-se que este processo de educação por projetos de trabalho possibilita uma experiência de intenso e íntimo envolvimento com o objeto de estudo, além de valorizar e promover o protagonismo do/a pré-adolescente. Para a fase da préadolescência, este processo de pesquisa se mostra muito interessante, pois contribui para o desenvolvimento da identidade e da interação entre os pares adolescentes e suas preocupações fundamentais, ao terem a liberdade de escolherem a temática que irão trabalhar e buscarem o conhecimento por iniciativa própria, usando a criatividade. Diante do movimento de superficialização do/a pré-adolescente, promovido pela mídia e pela cultura de consumo, a educação cristã comunitária precisa promover espaços de diálogo, discussão de valores e interação entre os/as préadolescentes e suas famílias. Neste processo de educação por projetos de trabalho quer-se incluir como elemento fundamental um espaço de pesquisa e diálogo entre os/as pré-adolescentes e seus familiares, além dos colegas da mesma idade. Isto pode acontecer, incluindo na pesquisa a busca pelas narrativas e experiência dos pais, irmãos e avós que estejam ligadas com a temática. O resultado do projeto pode ser apresentado aos familiares em um dia especial de confraternização. A educação cristã lida diretamente com os valores do evangelho e uma inevitável visão crítica da realidade, em busca do testemunho e promoção da justiça e da solidariedade próprios de Reino de Deus. Sendo assim, ela não pode abrir mão de pensar em alternativas para uma educação na fé significativa e profundamente ligada ao cotidiano das pessoas. A educação cristã necessita proporcionar ao/à pré-adolescente uma percepção dos conteúdos da fé de forma dinâmica, tanto que ele/a deixe de considerar este conteúdo algo isolado, fora do universo cotidiano, e passe a usá-lo para fundamentar sua maneira de ver e viver no mundo. O conteúdo da fé cristã deve estar em constante movimento e interação, fazendo sentido na vida do/a préadolescente. Esta forma de compreender o conteúdo só se realiza no momento em que o objeto até então estático se transforma em experiência significativa e comprometedora. Através deste último capítulo se conclui que esta proposta pedagógicodidática que relaciona os indicativos metodológicos do PECC, a postura pósnarrative turn e os projetos de trabalho coopera para uma educação cristã contínua própria para a realidade contemporânea e contempla as necessidades da fase da 138 pré-adolescência. Esta proposta é positivamente flexível e adaptável para qualquer contexto, ao mesmo tempo em que mantém uma unidade a partir de parâmetros temáticos e metodológicos comuns, tendo em vista as quatro áreas temáticas do PECC e seus indicativos metodológicos. CONCLUSÃO Através dessa pesquisa pode-se constatar inicialmente que ao longo do desenvolvimento histórico-eclesiástico da IECLB a concepção sobre o ensino confirmatório foi repensada apenas nas últimas décadas e as reflexões realizadas a nível nacional se aplicam à prática de forma muito lenta, prevalecendo as práticas da tradição, ao invés da renovação pedagógico-didática da educação cristã contínua junto ao grupo. Por o grupo de ensino confirmatório ser um espaço formal de educação cristã tradicionalmente privilegiado, aplica-se a ele a metodologia encontrada nas escolas, já vivenciadas pelos/as orientadores/as. No entanto, esta metodologia espera um comprometimento do/a confirmando para a participação comunitária que ela não é capaz de promover. Além disso, a pré-adolescência é uma fase da vida construída histórico-socialmente para que o indivíduo possa preparar-se para a vida adulta, sem maiores responsabilidades. Nesse sentido, as expectativas da Igreja sobre o público que frequenta o ensino confirmatório deve ser revista e a prática educativa deve cooperar com a construção deste sujeito na sua constituição social atual. A pesquisa em torno das metanarrativas na sociedade contemporânea evidenciou que elas estão desacreditadas e que as pequenas narrativas pessoais e locais tomaram o seu lugar. O que torna relevante uma informação é a sua eficácia e toda a noção de verdade absoluta é negada. Tudo é passível de mudança a partir de um novo discurso que se mostrar mais útil. Esta realidade se mostra como um problema para a educação cristã que lida diretamente com a metanarrativa do evangelho. Uma alternativa educacional possível é o uso da postura pós-narrative turn, que insere as pequenas narrativas pessoais e locais nas metanarrativas. Para o público pré-adolescente esta alternativa é interessante, pois incentiva o protagonismo, a relação com o grupo de amigos e a promoção do elemento narrativo para a construção de sua identidade. A fé antropológica se constrói desde o nascimento até o fim da vida e é influenciada pelas pessoas significativas ao nosso redor. Na fase da préadolescência, o desenvolvimento da fé requer um Deus mais pessoal. Este Deus pessoal pode coincidir com o Deus oficial da religião e é saudável que isto aconteça, para promover uma sintonia entre este objeto transicional que auxilia na construção 140 do ser. O planejamento da educação cristã contínua deve estar consciente das peculiaridades de cada estágio do desenvolvimento da fé para melhor orientar-se segundo cada fase da vida. Sendo assim, este planejamento para o grupo de ensino confirmatório deve promover o desenvolvimento de uma imagem de Deus mais pessoal destacando para o/a pré-adolescente os aspectos do Deus oficial que colaborem para este processo. Além disso, deve-se considerar a importância da convivência e interação do grupo de coetâneos, prevendo atividades neste sentido. A alternativa proposta de uma ação pedagógico-didática para o público préadolescente que frequenta o ensino confirmatório revelou que é possível conectar os objetivos do PECC e seus indicativos metodológicos, a postura educacional pósnarrative turn e os projetos de trabalho. Esta conexão leva em consideração as descobertas da pesquisa como um todo em torno das peculiaridades da préadolescência e dos objetivos da educação cristã contínua. Ela demonstra ser capaz de promover o ensino-aprendizagem participativo, significativo e consequentemente comprometedor. Não se pode esperar participação contínua se esta não está contemplada nas atividades educativas comunitárias. Esta pesquisa não contemplou os possíveis materiais a serem produzidos para subsidiarem os “projetos de trabalho narrativos” para pré-adolescentes. Esta perspectiva fica como desafio para outras pesquisas assim como a experimentação desta proposta na prática comunitária. REFERÊNCIAS A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. ed. rev. e atual. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1997. ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 10. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. AZNAR-FARIA, Maria; SCHOEN-FERREIRA, Teresa Helena; SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. A construção da identidade em adolescentes: um estudo exploratório. Estudos de Psicologia, Natal, ano 1, v. 8, p. 107-115, 2003. 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Por que você começou a participar dos encontros do grupo de Ensino Confirmatório? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 3. Você conhecia a sua comunidade religiosa antes de participar do Ensino Confirmatório? Se a resposta for sim, como você conheceu? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 4. Você conhecia alguma história bíblica antes de participar do Ensino Confirmatório? Se a resposta for sim, através do que ou de quem você conheceu? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 5. Você se sente bem na sua comunidade religiosa? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 6. Qual a sua opinião sobre sua comunidade religiosa? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 148 ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 7. Qual foi a atividade que você mais gostou no Ensino Confirmatório? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 8. Qual é o conteúdo sobre o qual você mais lembra? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 9. Depois que o período do Ensino Confirmatório acabar você gostaria de continuar participando de um outro grupo na comunidade? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 10. Você compreende melhor uma idéia ouvindo alguém falar, lendo um texto ou assistindo a imagens? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 11. Quantos aparelhos de reprodução de som e imagem você possui? Quais são eles? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 12. Com que freqüência você usa esses aparelhos? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 13. O que não pode faltar na sua mochila ou bolsa? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 14. O que você faz quando tem um tempo livre? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 149 ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 15. Quando você está com dificuldades e precisa de ajuda, o que você faz? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 16. Qual é o sentido da vida para você? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 17. Qual é o seu maior medo? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 18. Qual é o seu maior sonho? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 19. Quem é seu maior ídolo? Por quê? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 20. Você acha que é possível melhorar o mundo? Explique. ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 21. Quem é Jesus Cristo? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 22. Quem é Deus? ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 150 ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ Tabela 23. Desenhe Deus e explique seu desenho: Explicação do desenho: ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ANEXO B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (T.C.L.E.) “O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação na pesquisa.” (Resolução. nº 196/96-IV, do Conselho Nacional de Saúde) Título da Pesquisa: Pré-adolescência pós-moderna: novos desafios e perspectivas para a educação cristã. Nome do/a Pesquisador/a: Janaina Hübner Nome da Orientadora: Profª Drª Gisela I. W. Streck Eu,.............................................................................................................................., como responsável por ................................................................................................, o/a autorizo a participar como voluntário(a) da pesquisa acima referida. Declaro que recebi da pesquisadora Janaina Hübner, responsável pela execução da pesquisa, as seguintes informações que me fizeram entender sem dificuldades e sem dúvidas os seguintes aspectos: Que o estudo se ocupa com a questão das influências da Pós-Modernidade na dinâmica da fé na pré-adolescência, Que os resultados querem compreender os novos desafios e perspectivas para a educação cristã com o público pré-adolescente na contemporaneidade. Que o estudo será feito da seguinte maneira: respostas de um questionário que será entregue pela pesquisadora, durante um período do encontro do grupo de Ensino Confirmatório, nas dependências da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão, para um grupo de 27 adolescentes. Que meu/minha filho/a participará das seguintes etapas: responder a um questionário. Que os incômodos que meu/minha filho/a poderá sentir com a participação na pesquisa são os seguintes: gasto de tempo para responder ao questionário. Que os possíveis riscos à saúde física e mental do/a meu/minha filho/a são inexistentes. Que os benefícios que meu/minha filho/a deverá esperar com a sua participação, mesmo que não diretamente são: contribuir com a educação cristã para a construção de uma ação didático-pedagógica contextualizada na dinâmica da fé em pré-adolescentes na Pós-Modernidade. Que a participação do/a meu/minha filho/a será acompanhada do seguinte modo: receberá um questionário que responderá, sendo que a pesquisadora estará presente para responder as perguntas e dúvidas. 152 Que, sempre que desejar, serão fornecidos esclarecimentos sobre cada uma das etapas do estudo. Que, a qualquer momento, meu/minha filho/filha poderá recusar a continuar participando do estudo e, também, que eu poderei retirar este meu consentimento, sem que isso me traga qualquer penalidade ou prejuízo. Que a participação de meu/minha filho/a nesta pesquisa não acarretará nenhum tipo de despesa, bem como nada será pago por sua participação. Que as informações conseguidas através da participação de meu/minha filho/a não permitirão a identificação de sua pessoa, exceto à responsável pelo estudo, e que a divulgação das mencionadas informações só será feita entre os profissionais estudiosos envolvidos neste projeto. A participação nesta pesquisa não terá complicações legais. Os procedimentos adotados nesta pesquisa obedecem aos critérios da ética em pesquisa com seres humanos conforme Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Finalmente, tendo eu compreendido perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a participação do/a meu/minha filho/a no mencionado estudo e estando consciente dos meus direitos, das minhas responsabilidades, dos riscos e dos benefícios que a participação do/a meu/minha filho/a implicam, concordo com sua participação e para isso eu DOU O MEU CONSENTIMENTO SEM QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO FORÇADO OU OBRIGADO. Endereço do (a) responsável pelo/a participante-voluntário (a) Domicílio: (rua, praça, conjunto): _______________________________________________ Bloco:/Nº:/Complemento: _____________________________________________________ Bairro:____________________________________________________________________ CEP/Cidade: _______________________________________________________________ Telefone: __________________________________________________________________ Contato de urgência: Janaina Hübner Domicílio: Rua Martin Lutero, 326. Bairro/Cidade: Morro do Espelho – 93030-120, São Leopoldo/RS. Ponto de referência: Escola Superior de Teologia – EST. 153 Endereço dos (as) responsáveis pela pesquisa Instituição: Escola Superior de Teologia – EST. Endereço: Amadeo Rossi. Bloco: /Nº: /Complemento: 467. Bairro: /CEP/Cidade: Morro do Espelho / 93030-220 / São Leopoldo/RS Telefones p/contato: 51 2111 1400 ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas durante a sua participação no estudo, dirija-se ao: Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Superior de Teologia. Rua Amadeo Rossi , 467 / Morro do Espelho / 93030220 Telefone: 2111 1400 Ramal: 455 _____________________________________ Assinatura do/a responsável legal Rubricar as demais páginas ______________________________________ Nome e Assinatura da pesquisadora Rubricar as demais páginas ________________________________________ Local e data _________________________________ Local e data ANEXO C – SISTEMATIZAÇÃO DOS DADOS DO QUESTIONÁRIO A presente sistematização de dados resulta da aplicação de um questionário que é parte integrante de um estudo de caso único, com observação de campo, sendo a pesquisadora, estudante de mestrado acadêmico em Teologia, no Programa de Pós-Graduação da Escola Superior de Teologia, na área de educação e religião. A pesquisadora foi coordenadora de um grupo de ensino confirmatório, na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana da Ascensão – IECLB, em Novo Hamburgo/RS, pelo período de um ano e dois meses. O público alvo desta pesquisa se reunia semanalmente, durante uma hora e meia, e era composto de 27 pré-adolescentes, em idade entre 12 e 13 anos. A presente sistematização de dados resulta de um questionário composto de 23 perguntas, sendo que apenas a primeira pergunta é fechada (Tabela 1. Sexo), para determinar a classificação das respostas segundo o gênero. O restante das perguntas são abertas e a análise de dados se dará de forma qualitativa, a partir de categorias estabelecidas posteriormente, baseadas nas respostas do público alvo e nas categorias estabelecidas pelo referencial teórico. Apenas uma participante do grupo não respondeu ao questionário, pois não estava presente no dia de sua aplicação, sendo que o total de questionários aplicados somou 26. Tabela 1. Sexo Sexo Feminino Masculino % 46,0 54,0 A Tabela 1. Sexo define a classificação dos questionários a partir do gênero, somando 12 (46,0%) do gênero feminino, identificados com a Letra F, seguidos de ordem numérica. As respostas do gênero masculino somam 14 (54,0%) questionários, identificados com a letra M e também seguidos de ordem numérica. 155 Tabela 2. Por que você começou a participar dos encontros do grupo de ensino confirmatório? Sexo feminino Por que começou a participar dos encontros do grupo de ensino confirmatório Por influência dos meus pais Porque eu considerei importante % 50,0 50,0 Sexo masculino Por que começou a participar dos encontros do grupo de ensino confirmatório Por influência dos meus pais Porque eu considerei importante % 78,6 21,4 Tabela 3. Você conhecia a sua comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório? Sexo feminino Conhecia a comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório Sim Não % 75,0 25,0 Se a resposta for sim, através do que ou de quem você conheceu? As meninas que responderam positivamente, compreendendo um total de 75%, disseram que conheceram sua comunidade, principalmente através de familiares (pais e avós) que as levavam aos cultos. Sexo masculino Conhecia a comunidade religiosa antes de participar do ensino confirmatório Sim Não % 71,5 28,5 Se a resposta for sim, através do que ou de quem você conheceu? Os meninos que responderam sim, compreendendo 71,5% das respostas, disseram que conheceram sua comunidade, também principalmente através de familiares (pais e avós) que os levavam aos cultos. 156 Tabela 4. Você conhecia alguma história bíblica antes de participar do ensino confirmatório? Sexo feminino Conhecia alguma história bíblica antes de participar do ensino confirmatório Sim Não % 91,7 8,3 Se a resposta for sim, através do que ou de quem você conheceu? As meninas que responderam positivamente, somando um total de 91,7%, alegam ter conhecido histórias bíblicas através dos pais, avós, padrinhos, madrinhas, escola e lendo a Bíblia por iniciativa própria. Sexo masculino Conhecia alguma história bíblica antes de participar do ensino confirmatório Sim Não % 78,6 21,4 Se a resposta for sim, através do que ou de quem você conheceu? Os meninos que responderam positivamente, somando um total de 78,6%, alegam ter conhecido histórias bíblicas através dos pais, avós e da escola. Tabela 5. Você se sente bem na sua comunidade religiosa? Sexo feminino Se sente bem na sua comunidade religiosa Sim Não % 100,0 0,0 Sexo masculino Se sente bem na sua comunidade religiosa Sim Não % 92,8 7,2 157 Tabela 6. Qual a sua opinião sobre a sua comunidade religiosa? Sexo feminino F1: Não tenho opinião formada. F2: Muito legal. F3: Muito boa, faz a gente aprender mais sobre Deus! F4: Tri. F5: Acho que é importante. É um apoio. A comunidade pode mudar a vida das pessoas. F6: Ela é legal e gosto de vir aqui me reunir. F7: Gosto muito de participar de todas as atividades e conhecer pessoas. F8: Eu acho muito importante a comunidade religiosa, e acho que a minha comunidade tem ótimos projetos. F9: É uma necessidade hoje para fortalecer a família cristã. F10: É boa porque atende nossas necessidades. F11: Muito boa. F12: Eu acho importante para nós termos contato com Deus. Sexo masculino M1: É um lugar bom. M2: Muito confortável, me fez aprender muitas coisas novas. M3: Rigorosa, apenas isso... M4: É uma comunidade boa e acolhedora. M5: É uma religião muito boa. M6: Não respondeu. M7: Acho que a comunidade é bem acolhedora M8: Eu acho que é um lugar que você é bem recebido, não importa como você for. M9: Muito boa. M10: É boa porque a gente faz muita coisa legal. M11: A opinião é que é uma comunidade acolhedora. M12: Boa e organizada. M13: Legal. M14: Foi muito boa porque conheci mais pessoas. 158 Tabela 7. Qual foi a atividade que você mais gostou no ensino confirmatório? Por quê? Sexo feminino Atividade Retiro % 28,6 Brincadeiras/Jogos Passa-noite Todas 28,6 14,3 14,3 Santa Ceia Intervalo 7,1 7,1 Justificativa Ajudaram a conhecer melhor os colegas, fazer novas amizades e unir mais a turma. Adoro jogar qualquer jogo. Não teve justificativa. Foi tudo muito divertido, adorei o ensino confirmatório. Porque aprendi mais sobre Deus. Não teve justificativa. Sexo masculino Atividade Retiro % 47,0 Brincadeiras/Jogos 17,6 Passeios Todas Passa-noite Intervalo 11,8 11,8 5,9 5,9 Justificativa Foi muito divertido; foi legal; ajudaram a conhecer melhor os colegas. Foram muito legais; nos ensinavam muito; integraram o grupo. Foram muito legais, adoro sair. Todas foram muito legais. Pudemos nos conhecer melhor e se divertir. Não teve justificativa. 159 Tabela 8. Qual é o conteúdo que você mais lembra? Por quê? Sexo feminino Conteúdo Os dez mandamentos % 41,6 Não respondeu Conteúdo do trabalho por projeto (Lutero) Santa Ceia Parábolas 25,0 16,6 Justificativa Porque é muito importante; porque eu achei muito interessante; porque foi o que eu mais gostei; porque tivemos uma atividade sobre eles, porque tivemos que decorar eles. Não respondeu. Foi o tema do meu trabalho. 8,3 8,3 Porque eu como comida todo dia. Porque lemos muitas! % 71,4 Justificativa Porque é legal; porque foi o tema do meu trabalho, porque foi o que mais escutei, porque pesquisei sobre isso. Porque aprendi como foi a santa ceia de Jesus; por causa do retiro. Não teve justificativa. Não respondeu. Sexo masculino Conteúdo Conteúdo do trabalho por projeto (Lutero, Culto e Confirmação) Santa Ceia 14,2 Os dez mandamentos Não respondeu 7,1 7,1 160 Tabela 9. Depois que o período do ensino confirmatório acabar você gostaria de continuar participando da sua comunidade? Por quê? Sexo feminino Depois que o período do ensino confirmatório acabar gostaria de continuar participando da sua comunidade Sim Não Não sei % 75,0 16,6 8,3 Por quê? F1: Sim, porque acho importante. F2: Sim, para não esquecer sobre o ensino confirmatório. F3: Não! F4: Sim, porque acho divertido. F5: Não sei, gosto da nossa comunidade, construí vários amigos aqui, porém, o tempo anda muito escasso. F6: Sim, se tivesse tempo eu viria nos cultos. F7: Sim, pois gosto muito. F8: Sim, porque eu tenho muitos amigos aqui. F9: Sim, para continuar fazendo amigos, para aprender a palavra de Deus, etc. F10: Sim, porque gosto de ver meus amigos. F11: Não, porque não tenho tempo. F12: Com certeza porque vou sentir muita falta dos meus amigos, da Jana e do Jaime. Sexo masculino Depois que o período do ensino confirmatório acabar gostaria de continuar participando da sua comunidade Sim Não Não sei % 71,0 21,4 14,2 Por quê? M1: Sim, para rever meus amigos. M2: Talvez sim, pois vou quere continuar sabendo mais e mais sobre tudo da religião. M3: Talvez no futuro, já participei demais de dois no mesmo tempo. M4: Eu não sei M5: Sim, porque eu gosto da minha religião. M6: Sim, para rever os meus amigos. M7: Sim, acho que vou participar da juventude para se reunir com os amigos que fiz. M8: Eu gostaria de vir algumas vezes para ver meus colegas novamente. M9: Sim, para se falar e conhecer outras pessoas M10: Sim, porque é legal. M11: Não M12: Não M13: Não M14: Sim, porque gostaria de conhecer mais pessoas. 161 Tabela 10. Você compreende melhor uma idéia ouvindo alguém falar, lendo um texto ou assistindo a imagens? Sexo feminino Compreende melhor uma idéia ouvindo alguém falar, lendo um texto ou assistindo a imagens Assistindo a imagens Ouvindo alguém falar Resposta nula (não compreendeu a pergunta) Um pouco de tudo % 41,6 25,0 25,0 8,3 Sexo masculino Compreende melhor uma idéia ouvindo alguém falar, lendo um texto ou assistindo a imagens Resposta nula (não compreendeu a pergunta) Ouvindo alguém falar Assistindo a imagens Lendo um texto Lendo um texto e assistindo a imagens Um pouco de tudo % 28,5 21,4 21,4 14,2 7,1 7,1 162 Tabela 11. Quantos aparelhos de reprodução de som e imagem você possui? Quais são eles? Sexo feminino Quantos aparelhos de reprodução de som e imagem possui Entre 3 a 5 Entre 6 a 10 13 18 Nenhum % 50,0 25,0 8,3 8,3 8,3 Os aparelhos citados foram: celular, TV, ipod, MP3, MP5, câmera fotográfica, computador, rádio, DVD, ipad, vídeo game. Sexo masculino Quantos aparelhos de reprodução de som e imagem possui Entre 3 a 5 Não faço idéia Muitos Entre 6 a 10 1 Nenhum % 28,5 21,4 21,4 14,2 7,1 7,1 Os aparelhos citados foram: celular, TV, ipod, MP3, MP5, câmera fotográfica, computador, rádio, DVD, ipad, vídeo game. Tabela 12. Com que frequência você usa esses aparelhos? Sexo feminino Frequência Todos os dias Raramente % 75,0 25,0 Sexo masculino Frequência Todos os dias Raramente % 85,7 14,3 163 Tabela 13. O que não pode faltar na sua mochila ou bolsa? Sexo feminino O que não pode faltar na mochila ou bolsa Celular Material escolar Maquiagem Computador Dinheiro Chave de casa Carteira Ipod Câmera % 45,0 15,0 10,0 5,0 5,0 5,0 5,0 5,0 5,0 Sexo masculino O que não pode faltar na mochila ou bolsa Celular Material escolar Chiclete Dinheiro Luvas de UFC CDs Lanche Carteira Ipod Nada % 38,0 14,3 9,5 9,5 4,7 4,7 4,7 4,7 4,7 4,7 164 Tabela 14. O que você faz quando tem um tempo livre? Sexo feminino O que faz quando tem um tempo livre Usa aparelhos eletrônicos Reúne-se com os amigos Lê Pratica esportes Brinca com o irmão Canta % 52,9 17,6 11,7 5,9 5,9 5,9 Sexo masculino O que faz quando tem um tempo livre Usa aparelhos eletrônicos Pratica esportes Reúne-se com amigos Nada Faz o dever de casa Sai de casa Várias coisas % 42,1 21,0 15,8 5,2 5,2 5,2 5,2 165 Tabela 15. Quando você está com dificuldades e precisa de ajuda, o que você faz? Sexo feminino Quando está com dificuldades e precisa de ajuda, o que faz Peço ajuda aos meus pais Pesquiso na internet Procuro alguém para me ajudar Peço ajuda a Deus Peço ajuda aos meus amigos Estudo mais Choro e me olho no espelho, me faz pensar Peço ajuda a pessoas que entendem do assunto Peço ajuda aos professores % 33,3 11,1 11,1 11,1 11,1 5,5 5,5 5,5 5,5 Sexo masculino Quando está com dificuldades e precisa de ajuda, o que faz Peço ajuda Peço ajuda aos meus pais Converso com pessoas que confio Peço ajuda aos meus amigos Levo xingão Peço ajuda a pessoas mais velhas % 40,0 26,6 13,3 6,6 6,6 6,6 166 Tabela 16. Qual é o sentido da vida para você? Sexo feminino F1: Não respondeu. F2: Crescer, ter filhos e ser uma boa mãe. F3: Fazer o que você quer! F4: Alegre. F5: Ser feliz, ter uma família e viajar. F6: Tento descobrir novas coisas a cada dia. F7: Tento descobrir a cada dia. F8: Viver feliz. F9: Aproveitar todos os momentos, como se fosse o último, estando com as pessoas que amamos. F10: Aprender com os nossos erros. F11: É uma experiência, talvez terei vida após a morte. F12: Viver feliz, construir uma família e ter fé em Deus. Sexo masculino M1: Aproveitar as coisas boas da vida. M2: O sentido da vida para mim á acreditar em deus, não ter preconceito e nascer feliz e morrer feliz. M3: Não sei, só Deus sabe. M4: Se divertir e aproveitar cada momento. M5: Amar todos, ser amado, jogar futebol e etc. M6: Aproveitar as coisas boas da vida. M7: É viver a vida ao máximo e aproveitar. M8: Tem que aproveitar. M9: Viver. M10: Ser feliz. M11: Ser você mesmo. M12: Se divertir. M13: Crer em Deus. M14: Se divertir e aproveitar tudo o que gostar. 167 Tabela 17. Qual é o seu maior medo? Sexo feminino Qual é o maior medo A morte de algum familiar Do escuro Perder os amigos Ser sequestrada Minha família e amigos ficarem doentes De cobras Morrer Ter uma doença séria % 42,8 7,1 7,1 7,1 7,1 7,1 7,1 7,1 Sexo masculino Qual é o maior medo Perder familiares Ficar infeliz para sempre De altura De um assalto De cobra Morrer Não sei % 42,8 14,2 14,2 7,1 7,1 7,1 7,1 168 Tabela 18. Qual é o seu maior sonho? Sexo feminino Cada menina apontou um sonho diferente, no entanto, a maioria está ligada à profissão que será exercida no futuro. F1: Ser de tudo um pouco. F2: Ter um bom trabalho. F3: Ir para o EUA. F4: Conhecer todos os meus familiares e Deus. F5: Estudar em Harvard. F6: Ser cheff de cozinha. F7: Me formar na Argentina e morar lá. F8: Me tornar uma boa profissional. F9: Não respondeu. F10: Ter tudo o que eu quiser. F11: Ser alguém na vida. F12: Ser jornalista. Sexo masculino M1: Realizar um sonho. M2: Me casar com uma mulher inteligente, bonita e que creia em Deus. M3: Prefiro não falar (sonho de homens héteros). M4: Me divertir bastante durante minha vida toda. M5: Ser o melhor jogador de futebol do mundo. M6: Ter tudo o que eu quiser. M7: Aproveitar a vida. M8: Me formar e ir morar no exterior. M9: Ser jogador da NBA. M10: Ser o dono do mundo. M11: Voar. M12: Ter sempre saúde. M13: Andar de montanha russa. M14: Ser um judoca profissional. 169 Tabela 19. Quem é seu maior ídolo? Por quê? Sexo feminino F1: Mitchel Musso. Porque ele é de tudo um pouco é artista e cantor. F2: Alice, porque eu gosto dela. F3: Minha mãe, porque ela é um exemplo para mim. F4: Minha mãe, pois é a pessoa que mais confio. F5: John Lennon, ele foi um cara legal e fez coisas boas. F6: Tenho vários. F7: Meus pais, pois admiro o que fazem por mim. F8: Deus (e a Emma Watson). Porque ele criou o mundo (ótima atriz). F9: Meus pais. F10: Jesus, porque ele superou os seus medos. F11: Meu pai, ele é super. F12: Jesus, porque ele morreu por mim. Sexo masculino M1: Angus Young, porque ele toca bem. M2: Tenho dois ídolos, meu pai e o Messi (jogador). Meu pais, pois ele se esforça para conseguir as coisas que quer e o Messi, porque mesmo sendo o melhor jogador do mundo ele é humilde. M3: Adam Gontier: me deixa feliz qualquer hora (cantor). Ramon Dekkers: ele é o melhor lutador de Muay Thai. M4: Meus pais, pois me educaram e me ensinaram até agora. M5: Pelé, porque ele é o melhor jogador de todos os tempos. M6: Meu pai, porque ele é um ótimo pai. M7: Meus pais, pois eles batalharam muito durante a vida para conquistar seus sonhos. M8: Steven Gerard, pois ele joga no Liverpool e eu sou do Liverpool. M9: Ray Allen, porque ele joga muito. M10: Lutero, porque fundou a igreja. M11: Não respondeu. M12: Eu. M13: Deus, porque criou a todos. M14: Meus pais, porque eles são muito determinados para as coisas. 170 Tabela 20. Você acha que é possível melhorar o mundo? Explique. Sexo feminino Apenas uma menina que respondeu positivamente não soube explicar sua afirmação, todas as outras apresentaram uma explicação. Apenas uma menina respondeu negativamente e não apresentou justificativa. É possível melhorar o mundo Sim Não % 91,6 8,3 Explicação: F1: Não sei explicar. F2: Mudar para melhor. F3: Não! F4: Pois existem várias maneiras de fazer isso. F5: Acho que se todos cooperassem seria muito possível melhorar o mundo. F6: Parando de poluir o mundo para sermos mais verdes. F7: Se todos colaborarem. F8: Acho que se todos cooperassem ele teria alguma chance. F9: Ajudando a reciclar. F10: Se todos nós fizermos a nossa parte. F11: Se todos tivessem consciência poderíamos salvar o mundo. F12: Acho que se todos nos conscientizarmos o mundo pode melhorar. Sexo masculino Todos os meninos que responderam a esta pergunta afirmaram que é possível melhorar o mundo e apresentaram justificativa. Apenas um menino não respondeu a questão. É possível melhorar o mundo Sim Não respondeu % 92,8 7,1 Explicação: M1: Se cada um fizer a sua parte. M2: Se não tivesse assalto, drogas e violência. M3: Tudo pode ser melhorado. M4: Mas para isso todos têm que tomar uma iniciativa. M5: Preservando e fazendo a diferença em tudo. M6: Prendendo os ladrões. M7: Se cada um fizer a sua parte o mundo pode ser melhor. M8: Mas não adianta melhorar o mundo se as pessoas continuarem iguais. M9: Boas ações geram boas ações. M10: Ser mais tecnológico e ecológico. M11: Acabando com a violência. M12: Se todos ajudarem. M13: Não respondeu. M14: Porque se cada um ajudar a cuidar do meio ambiente o mundo vai ficar melhor. 171 Tabela 21. Quem é Jesus Cristo? Sexo feminino F1: Jesus Cristo é o filho de Deus que morreu para nos salvar. F2: Um homem muito bom. F3: Um pai que nos ajuda em todas as horas. F4: Jesus Cristo é aquele que me salvou, é aquele que sabe de TUDO. F5: Um homem bom que nos ama do jeito que somos. F6: Um homem que sacrificou a vida por nós. F7: O Tudo na minha vida, a minha razão de estar aqui. F8: É o filho de Deus. O homem que deu a vida por todos nós. F9: É o filho de Deus. F10: O filho de Deus. F11: Nosso salvador. F12: O filho de Deus que morreu por nossos pecados. Sexo masculino M1: O filho do dono do mundo. M2: Jesus Cristo é um homem que se crucificou por causa de seus pecadores, ele é um homem do mundo, ele é o criador da natureza, das pessoas, dos animais e do mundo. É um homem que ama a todos, mesmo sendo pecador, é um homem que acredita na fé e na paz pro mundo. M3: Filho de Deus, né! M4: É o representante de Deus na terra. M5: É o segundo ser mais evoluído de tudo. M6: O filho de Deus. M7: Um homem que se sacrificou por nós e dedicou sua vida a nós. M8: É o cara que se crucificou por nós. M9: Um cara legal. M10: Filho de Deus, morreu na cruz. M11: Salvador. M12: Filho de Deus. M13: Não respondeu. M14: Filho de Deus. 172 Tabela 22. Quem é Deus? Sexo feminino F1: Deus é o pai de tudo e de todos. F2: Uma pessoa muito boa e legal. F3: O pai de Jesus Cristo! F4: Para mim Deus tem o mesmo papel de Jesus, porque é 3 em 1, 1 em 3. F5: Nosso pai, que independente do que ou quem somos nos ama e quer perto. F6: Quem criou o mundo e nos deu a vida. F7: O meu superior, a minha fonte de vida. F8: É a principal força do universo. “O TODO PODEROSO!” F9: É o nosso pai. F10: O criador do universo. F11: O criador do mundo. F12: Deus é o Todo Poderoso que perdoa seus filhos. Sexo masculino M1: O PAI de todos, o criador. M2: Deus é nosso salvador, sem ele não teríamos nada, tudo gira em volta dele. M3: O meu pai, e criador! M4: É aquilo no que acreditamos. M5: O ser mais evoluído de tudo. É o pai de Jesus Cristo. M6: O pai do mundo. M7: O grande criador do mundo. M8: É a razão de tudo. M9: Um cara show. M10: É quem nos criou. M11: Criador da vida. M12: Pai de Jesus. M13: Não respondeu. M14: Criador de tudo o que existe. ANEXO D – DIÁRIO DE CAMPO 31/03/2010 Diário de campo 31/03/2010 Este encontro se configurou de maneira diferente dos demais, pois foi elaborado no formato de um Tríduo Pascal. Como este era o encontro que antecedia a Páscoa, os/as pré-adolescentes puderam vivenciar na forma de uma celebração, os últimos dias de Jesus Cristo com seus discípulos, conforme o Evangelho de João. Inicialmente eles foram recebidos pelos orientadores na entrada da Comunidade, onde foram orientados de que teriam um encontro diferente e que exigiria deles concentração e colaboração. Depois eles foram conduzidos até o espaço do encontro já devidamente preparado em quatro ambientes distintos, cada qual correspondendo a um dia do Tríduo: quinta-feira santa, sexta-feira santa, vigília de sábado e domingo de Páscoa. Antes de adentrar o primeiro ambiente todos foram convidados a tirar seus calçados. No primeiro ambiente aconteceu a cerimônia do lava-pés, acompanhada da leitura bíblica correspondente ao ato de Jesus, quando ele lavou os pés de seus discípulos em sinal de humildade. Os orientadores convidaram os/as confirmados/as a auxiliarem a lavar os pés de seus colegas, imitando e relembrando este ato de Jesus, e dois confirmandos se prontificaram imediatamente, um menino e uma menina. Durante o lava-pés nem todos deixaram seus pés serem lavados, mas a maioria participou e avaliou como positiva e completamente nova a experiência. O segundo ambiente continha apenas almofadas no chão, algumas velas acesas e um retro-projetor que projetava imagens do Cristo desde o seu julgamento até a sua morte. Enquanto o texto bíblico era lido por um orientador, as imagens acompanhavam o texto, havendo também um fundo musical dramático. Os/as confirmandos/as se mostraram atentos/as neste momento e silenciosos/as. O terceiro ambiente representou a vigília pascal, o momento correspondente à madrugada do sábado de aleluia. Neste ambiente os/as confirmandos/as foram convidados/as e formarem um círculo ao redor de uma vela, em silêncio, simbolizando o momento de espera e vigília pela ressurreição de Cristo. No quarto e último ambiente simbolizando a Páscoa, foi celebrada a liturgia da Ceia do Senhor acompanhada de partilha de alimentos. Os orientadores deixaram claro que este era um momento a ser celebrado com alegria e confraternização, pois Jesus transformou a morte em vida, trazendo a todos a sua salvação. Os/as confirmandos/as conversaram e se divertiram, inicialmente um pouco tímidos e silenciosos, ainda impactados pelas características dos ambientes anteriores, mas foram aos poucos compreendendo o sentido desse último ambiente. Ao final do encontro realizou-se uma avaliação da noite, onde os/as confirmandos/as puderam externar como se sentiram e também sistematizar toda a celebração. Eles avaliaram a noite como diferente e interessante, e todos se lembraram do conteúdo dos textos lidos. O ambiente que a maioria mais gostou foi o segundo, com as imagens da crucificação de Cristo. ANEXO E – DIÁRIO DE CAMPO 14/04/2010 Diário de campo 14/04/2010 Este encontro teve como tema uma introdução à Bíblia. A meditação inicial recontou a narrativa da criação do mundo segundo o livro de Gênesis, com a participação dos/as confirmandos/as. Todos estavam sentados em círculo, como de costume nos encontros. O orientador distribuiu papéis coloridos aos/às confirmandos/as, e para cada papel distribuído havia outro correspondente no meio do círculo. Então o orientador iniciou a leitura bíblica e foi introduzindo os/as adolescentes na leitura conforme as cores dos papéis. Cada leitor deveria sentar no chão no meio do círculo, em cima do papel correspondente ao seu. Durante a dinâmica muitos quiseram escolher outros lugares para sentar, mas esta opção lhes foi negada. A cada momento que a leitura progredia o centro do círculo ficava mais apertado e muitos adolescentes acabaram sentando perto de colegas com os quais ainda não haviam tido contato. Durante a dinâmica a proximidade fez surgir o diálogo entre eles, enquanto um confirmando lia o texto, outros conversavam, mesmo que nunca tivessem feito isso antes. A dinâmica finalizou dando-se as mãos da maneira como estavam para simbolizar o mundo onde tudo está interligado. Este gesto foi feito com timidez, principalmente entre meninos e meninas que ainda não tinham contato um com o outro. Durante o trabalho do tema em duas turmas separadas surgiram muitas perguntas sobre a criação do mundo, Deus e ciência, surgimento da Bíblia, diferenças entre a Bíblia Católica e Evangélica. Nesse momento as perguntas eram muitas, e a tentativa de respondê-las e os comentários especulativos partiam imediatamente dos/as próprios/as confirmandos/as, todos ao mesmo tempo, em conversas paralelas, criando um ambiente confuso. O tempo não foi suficiente para trabalhar todas as perguntas levantadas pelos adolescentes, sendo que muitas perguntas ficaram sem resposta. A turma teve o momento de dez minutos de intervalo e todos interagiram, alguns ao redor da mesa de ping-pong da sala outros conversando em pequenos círculos. No último momento de brincadeiras os/as confirmandos/as realizaram uma gincana bíblica. Nesta brincadeira a turma foi dividida em grupos de três pessoas, que deveriam procurar respostas a perguntas bíblicas na própria Bíblia. Durante a brincadeira eles se mostraram dedicados, procurando textos com concentração e ajuda mútua. Eles não conseguiram terminar a tarefa antes do tempo do encontro acabar, então os grupos decidiram que o grupo vencedor seria o que tivesse encontrado mais respostas. Os vencedores receberam o “direito” de distribuir bombons para toda a turma. O encontro foi finalizado com a oração do Pai Nosso, com todos dispostos em um círculo e de mãos dadas. ANEXO F – DIÁRIO DE CAMPO 17/04/2010 Diário de campo 17/04/2010 No dia 17 de abril, das onze às dezesseis e trinta horas, realizou-se o primeiro encontro com as famílias dos/as confirmandos em um sítio, para que todos pudessem se conhecer e também para apresentar a proposta para o Ensino Confirmatório para o ano de 2010. Compareceram 33 pessoas, sendo que destas 11 eram confirmandos/as. A grande maioria foi até o sítio com um ônibus disponibilizado pela Comunidade, outros com carro próprio. Ao chegar todos tiveram um tempo livre para se conhecer, até o almoço. Os pais e mães conversaram entre si, nas rodas de chimarrão. Os adolescentes saíram animados a explorar o sítio. Após o almoço ouve um momento para o trabalho de uma temática, quando os orientadores trabalharam o tema da construção da fé, como elemento antropológico, no qual a família é de fundamental importância. Neste momento uma apresentação de slides foi intercalada com dinâmicas de integração e expressão entre as famílias. Na palestra os pais e mães se mostraram atentos e interessados, fazendo perguntas e expondo suas angústias quanto à responsabilidade de educar seus filhos na fé. Nas dinâmicas apenas uma minoria se sentiu à vontade para participar. Ao final da temática os pais e mães externaram sua opinião de que esta foi muito interessante e importante e o passeio deveria ser repetido para que as famílias pudessem se conhecer melhor. Na volta para casa o entrosamento entre as famílias e também entre os confirmandos se mostrou maior, pois todos procuraram sentar-se mais próximos e conversaram animadamente. ANEXO G – DIÁRIO DE CAMPO 05/05/2010 Diário de campo 05/05/2010 Neste encontro foi trabalhado o tema da travessia do povo de Deus no deserto, tendo como meditação a própria narrativa. Neste momento os/as confirmandos/as estavam atentos, com em todos os encontros durante a meditação narrativa. Durante o contar das passagens bíblicas correspondentes ao tema, os/as confirmandos/as demonstraram ter conhecimento das mesmas, principalmente, através de filmes passados na TV. Muitos demonstraram vontade de falar sobre os textos e de explicá-los para os colegas. No final do encontro foi realizada uma avaliação da caminhada do grupo. Cada confirmando/a escreveu em um papel aquilo que não estava gostando nos encontros. Depois cada um dobrou seu papel e colocou no meio do círculo onde estavam sentados. Feito isso eles foram convidados a pegar um outro papel que não fosse o seu, ler e pensar em uma solução para a crítica que este continha. A grande maioria externou que havia muita conversa desordenada no grupo, impedindo o entendimento, assim como muitos criticaram o pouco tempo para o intervalo. O grupo considerou que estes dois problemas estavam relacionados, pois com muita conversa as temáticas nunca terminavam no tempo que deveriam e sobrava menos tempo para o intervalo. Também concluíram que o tempo de encontro era pouco (apenas 1 hora e meia) o que resultava em pouco tempo para conversar e se conhecer. Os/as confirmandos/as concluíram que o grupo poderia se concentrar mais nos momentos de trabalhar as temáticas respeitando e ouvindo os colegas na sua vez de falar. Cada um que quisesse falar deveria levantar a mão e esperar a sua vez. A falta de tempo para conversar e se conhecer poderia ser resolvida comunicando aos pais que os encontros começariam meia hora mais cedo para aqueles que quisessem conviver e interagir mais. ANEXO H – TABELA 23. DESENHE DEUS E EXPLIQUE O SEU DESENHO QUESTIONÁRIO F1 178 QUESTIONÁRIO F2 179 QUESTIONÁRIO F3 180 QUESTIONÁRIO F4 181 QUESTIONÁRIO F5 182 QUESTIONÁRIO F6 183 QUESTIONÁRIO F7 184 QUESTIONÁRIO F8 185 QUESTIONÁRIO F9 186 QUESTIONÁRIO F10 187 QUESTIONÁRIO F11 188 QUESTIONÁRIO F12 189 QUESTIONÁRIO M1 190 QUESTIONÁRIO M2 191 QUESTIONÁRIO M3 192 QUESTIONÁRIO M4 193 QUESTIONÁRIO M5 194 QUESTIONÁRIO M6 195 QUESTIONÁRIO M7 196 QUESTIONÁRIO M8 197 QUESTIONÁRIO M9 198 QUESTIONÁRIO M10 199 QUESTIONÁRIO M11 200 QUESTIONÁRIO M12 201 QUESTIONÁRIO M13 202 QUESTIONÁRIO M14