Resenha crítica do texto Marx: Política e Revolução de Francisco Wefford In: Coleção
Clássicos da Política, volume II, organizada por Francisco Wefford. Editora Ática, São
Paulo, 2002
Por Rócio Barreto1
RESUMO
Marx é sem dúvida, um dos maiores nomes da filosofia política e formulou uma das mais
brilhantes análises sobre o capitalismo. O comentário de Wefford reflete o brilhantismo de
Marx, percorrendo vários dos temas problematizados na obra do pensador. Wefford também
se preocupa em apresentar os equívocos decorrentes de interpretações deterministas da obra
de Marx, bem como em apresentar outras leituras que se contrapõem as mesmas. Wefford
sublinha o tema da revolução e o desloca para o momento atual. Para o comentador, é
necessário abandonar leituras dogmáticas do pensador para que sejam visualizadas as
transformações que ocorreram desde a formulação de suas obras, e que redimensionam o
problema. O texto de Wefford é claro, objetivo, crítico e constitui um excelente material para
aqueles que estão começando seus estudos na obra de Marx, bem como para aqueles que já
estão familiarizados com a mesma.
Palavras-chave: Revolução; Materialismo Dialético; Marxismo; Karl Marx
ABSTRACT
Marx is one of the biggest names in political philosophy, and he had formulated one of the
most brilliant capitalism analysis. Wefford´s comment about his works reflects the brilliançy
of the thinker, considering subjects problematicized by him. Wefford is also worried in
presenting the mistakes resulting from determinist interpretations of Marx´s works´, as well in
show us some interpretations different from that. Wefford underlines the theme of the
revolution, and moves it for the current moment. To the commentator, it is necessary to leave
dogmatic interpretations of the thinker to visualize the transformations that took place since
the formulation of his works, and re-calculate the size of the problem. The text of Wefford is
clear, objective, critical and it constitutes an excellent material for those that begin their
studies on the Marx´s works, as well as for those that are already familiarized with it.
Key-Words: Revolution; Dialetic Materialism; Marxism; Karl Marx.
1
Rócio Stefson Neiva Barreto é Cientista Político e Sociólogo, formado pela Universidade de Brasília UnB, Especialista em Democracia
Participativa, República e Movimentos Sociais pela UFMG.
O capítulo em questão faz parte da Coleção Clássicos da Política, organizada por
Francisco Weffort, dividindo-se em duas partes: a primeira é composta pelo comentário do
próprio organizador da coleção, Franscisco Wefford, enquanto a segunda, por fragmentos
selecionados de algumas das obras de Karl Marx.
O comentário de Wefford começa com a contextualização histórica referente à obra de
Marx – uma época onde os ventos revolucionários atravessavam a Europa, e a Alemanha
encontrava-se defasada em relação a boa parte do continente, malgrado a influência das idéias
oriundas de uma França pós-revolucionária. Wefford aponta que vários historiadores,
incluindo o próprio Marx, “descrevem uma Alemanha que teimava em viver no passado, a
despeito da influência das novas idéias vindas de Paris”2.
Seguidamente, Wefford esboça um breve quadro acerca dos estudos e da trajetória
intelectual efetuados por Marx. Segundo o comentador, o teórico alemão começa seus estudos
em Direito, Filosofia e História, tratando também de efetuar uma revisão crítica da teoria
dialética hegeliana – a qual, diga-se de passagem, foi de grande influência para as formulações
teóricas de Marx, ainda que seja “pelo avesso”, como muitos gostam de colocar. Apenas em
um momento posterior surgem os textos mais propriamente revolucionários e uma efetiva
crítica à economia política.
Wefford nos fala então, recorrendo a Luckács, da “atualidade da revolução”. Isso
porque a época em que vivia Marx foi das mais propícias a revoluções. Segundo o
comentador, “em 1848 Marx esperava, já para o ano seguinte, uma guerra mundial como
resultado de uma insurreição que considerava inevitável por parte da classe operária inglesa” 3.
Entretanto, já em 1850, Marx coloca que a condição para a revolução seria a emergência de
uma crise no capitalismo – e para ele, a crise seria inevitável, uma vez que seria intrínseca ao
próprio modo de produção e desenvolvimento capitalista. Os rumores, em 1857, de que a crise
2
WEFFORD, Francisco. Marx: política e revolução.In: WEFFORD, F. (org) Coleção Clássicos da Política,
volume II, 2002 , p. 228
3
Idem, ibidem, p. 231
estava por vir, conferiu grande ânimo a Marx. Porém, esta crise não culminou na revolução
esperada pelo pensador.
Wefford faz uma importante observação acerca do modo como o qual Marx pensava a
revolução. Esta estaria para além da mera ideologia, do mero posicionamento político. E
revolução, em Marx, seria inevitável porque a análise teórico-crítica e metodológica o leva a
esta conclusão. É um ponto que é de suma pertinência frisar, especialmente quando
consideramos que muitos – inclusive alguns estudiosos – tendem a pensar que Marx pensava a
revolução exclusivamente em função de sua militância. Ao contrário: a revolução seria uma
conseqüência direta dos pressupostos marxistas. Portanto, Marx não era favorável à revolução
exclusivamente por razões “altruístas”, mas especialmente em função de sua fidelidade ao seu
rigor teórico e metodológico que apontava a revolução como inevitável. Trata-se de uma
implicação teórica, filosófica, para além de qualquer ideologia. Daí que Wefford coloque que
“a teoria da revolução é bem mais do que um fruto dos entusiasmos do jovem Marx. A lógica
da Revolução está embutida na própria lógica das contradições do sistema capitalista” 4. Tais
contradições engendrariam a crise que culminaria na revolução: “A revolução, portanto, vai
além das manifestações de vontade dos revolucionários. Ela está inscrita na própria história
real, e por isso, está também na lógica (dialética) que a desvenda” 5. E isso se deve ao fato de
que a ascensão burguesa acaba por produzir seus próprios “coveiros” – o proletariado –
segundo as palavras de Marx e Engels no Manifesto Comunista.
O próprio proletariado, enquanto classe revolucionária, também estaria condenado a
desaparecer, dando lugar a uma sociedade sem classes, pois “o modo de ser do proletariado é
o de uma classe portadora das virtualidades da sociedade sem classes, isto é, da sociedade
comunista”6.
Wefford também chama a atenção para uma determinada leitura economicista da obra
de Marx, que supõe que a revolução poderia apenas se dar em condições nas quais o
capitalismo esteja plenamente desenvolvido. O comentador, apoiando-se em Lichteim e na
obra Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel, desqualifica tais interpretações,
argumentando que no interior da própria perspectiva marxista, a revolução pode ocorrer em
4
Op. Cit.p. 232
Op. Cit. p. 233
6
Op. Cit. p. 234
5
países mais “atrasados”, como fora o caso da própria Rússia, que teve sua revolução proletária
logo em seguida da revolução burguesa.
Wefford também aponta Marx como um democrata radical, tanto nas obras do “jovem”
Marx quanto nas obras do “velho” Marx. Neste sentido, o pensador defende uma democracia
radical que não se limita à democracia apenas política. Wefford frisa que discorda das
interpretações que passaram a prevalecer após Althusser, que distingue um jovem Marx
humanista e um velho Marx cientista. Isso porque, para Wefford, os textos do velho Marx
correspondem a uma continuidade dos antigos. O comentador reforça sua colocação a partir
de Landshut e Mayer (que em 1934 escreveram a introdução para a Crítica da Filosofia do
Estado de Hegel) e por Lucio Colletti. Wefford se opõe àqueles que buscam “rupturas onde
existem apenas variações e mudanças inteiramente normais no interior de um pensamento em
formação”7.
A democracia radical de Marx reside na formulação do confronto entre “emancipação
política” e “emancipação social”; idéias abstratas de liberdade e igualdade apenas revelariam a
ilusão de emancipação política em um momento em que a questão do proletariado é revelada.
Os direitos do homem presentes na Constituição seriam definidos pelo Direito burguês, de
modo que os direitos assegurados pelo Estado não definem a igualdade que deve se efetuar na
sociedade – ao contrário, culminam na desigualdade econômica e social.
Wefford também menciona a inversão, feita por Marx, da dialética hegeliana.
Enquanto Hegel supunha que a vida real, concreta, é definida a partir da consciência e das
idéias criadas pelo homem, Marx propõe o inverso – são as condições materiais (“estrutura”)
que definem o plano das ideologias, das idéias, dos valores (super-estrutura). Isso porque a
classe que dispor dos meios de produção material é a mesma classe que dispõe dos meios de
produção intelectual, de modo que as idéias dominantes expressam as condições materiais
dominantes. Entretanto, não se deve entender este ponto mediante uma leitura determinista,
tão cara ao “marxismo vulgar” que entende que as idéias são meramente reflexos das
condições materiais. Deve-se entender, conforme Wefford tem o cuidado de colocar, que “a
luta de classes é tanto uma luta no plano material quanto no plano das idéias” 8. Isso porque em
7
Op. CIt. p. 238
Op. Cit. p. 241
8
momentos de crise e propícios à revolução, a classe dominante perde o monopólio da
produção intelectual.
O próximo ponto abordado pelo comentador diz respeito ao Estado e a transição para o
socialismo. Para Marx, não basta a classe operária tomar o Estado – é necessário destruir a
própria máquina estatal. Entretanto, o desaparecimento do Estado só é possível após o período
de “ditadura do proletariado”, caracterizado pela tomada, por parte do Estado, de todos os
instrumentos de produção da mão da burguesia. Este seria o caminho para a abolição das
classes e do Estado. Wefford mostra como esta formulação aparece no Dezoito Brumário de
Luiz Bonaparte e também em O Capital.
Ao fim do comentário, Wefford volta ao tema da atualidade da revolução. Como
pensar, nos dias de hoje, uma revolução em termos marxistas? Wefford aponta para a
necessidade de se pensar uma nova concepção para a luta pela emancipação humana e
universal, atentando para o fato de que mesmo a obra de Marx deve ser lida hoje com olhos
mais críticos, considerando o momento histórico de sua formulação e nas transformações que
ocorreram até então. Se os problemas são os mesmos, eles se redimensionaram.
Finda a leitura do texto de Wefford, o leitor tem muito no que pensar. Muito mais que
se limitar a uma mera análise descritiva das principais questões presentes na obras de Marx,
Wefford se preocupa em apontar vários equívocos das diversas leituras marxistas,
denunciando o determinismo e o dogmatismo presentes nas mesmas. Por isso, trata-se de um
execlente texto – talvez um dos mais bem elaborados da Coleção – não só para aqueles que
estão iniciando seus estudos em Marx, mas também para aqueles que já estão familiarizados
com sua obra.
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