cadernos ufs - filosofia
A VOZ NO DESERTO: KIERKEGAARD SOBRE
LICHTENBERG
Prof. Dr. Bento Itamar Borges – UFU
Resumo: Os tradutores costumam assumir a tarefa adicional de tornar
conhecido o autor que traduzem. E assim tem sido, certamente, para os
estudiosos e tradutores de Kierkegaard e de Lichtenberg. O filósofo
dinamarquês, por cima de suas próprias declarações, cifradas pela ironia,
de que “não era filósofo”, foi reconhecido como tal, embora isolado pela
língua rara em que escreveu. Lichtenberg continua a aguardar o devido
reconhecimento como filósofo. O anti-academicismo é um ponto comum
entre os dois autores; há entre eles não só coincidências, mas
continuidade. A academia de hoje não pode vingar-se daqueles outsiders,
ao cobrar deles uma obra sistemática , como é o caso do espirituoso
cientista de Göttingen, saudado por Kierkegaard como uma “voz no
deserto”.
Palavras-chave: Kierkegaard, Lichtenberg, anti-academicismo
Abstract: Translators must usually assume the additional task of presenting
the author to whom they dedicate themselves. This may have been both the
situation of Kierkegaard’s and Lichtenberg’s translators and researchers.
Beyond his own disguised declarations that he “was not a philosopher”, the
Danish great thinker was soon recognized as such, although he has been
relatively isolated because of the rare native idiom. In his turn, Lichtenberg
is still waiting for a due recognition of his works among philosophers. The
anti-academicism is a common point of interest for both authors and this
paper is centered in it. Kierkegaard praised Lichtenberg as a “voice in the
desert”, but we should go on to find not
only coincidences between them, but continuities as well.
Key-words: Kierkegaard, Lichtenberg, anti-academicism
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Kierkegaard foi um dos responsáveis pela valorização de Lichtenberg. 1 Agora,
creio que os estudiosos de Kierkegaard possam participar de uma campanha
em favor do reconhecimento de Lichtenberg. Será a favor da filosofia. Ao lado
de Goethe, Schopenhauer, Nietzsche, Karl Kraus, Kurt Tucholsky e tantos
leitores de outrora, hoje mais ou menos esquecidos, Kierkegaard também
tratou aquele popular cientista alemão como “o mestre dos aforismos”.
Ora, Kierkegaard aceitou o título de “mestre da ironia”, para brincar com seu
título acadêmico de magister. Por seu lado, Lichtenberg não se referiu a seus
escritos como “aforismos”. Deixou inúmeros cadernos de anotações misturadas,
que chamava de Sudelbücher, que são diários, mas certamente diferentes dos
“Papirer” de Kierdegaard, pois o termo, que lembra coisa descuidada, desmazelada, emprega-se antes na contabilidade, para um wastebook, livro de lançamentos diários em que todas as operações se mesclam, como rascunho, cujo conteúdo distribuir-se-á depois em lançamentos bancários, débitos e créditos.
Um dos principais editores e estudiosos de Lichtenberg, Wolfgang Promies,
anexou a sua documentação o testemunho de Kierkegaard, em que agradece
a Lichtenberg, com belas imagens. Uma delas, a “voz no deserto”, veio a ser
adotada por Juan Villoro para dar título ao estudo introdutório de sua tradução, publicada no México. Eis a homenagem de Kierkegaard a Lichtenberg:
Obrigado, Lichtenberg! Obrigado! Pois dissestes que não há
nada mais sem graça que conversar com um erudito em ciências, que nunca pensou por conta própria, mas sabe de mil
situações histórico-literárias. “É quase como ouvir conferências tiradas de um livro de receitas, quando se está faminto”.
Oh! Obrigado por essa voz no deserto, obrigado por esse
refrigério. Como o grito de um pássaro selvagem desperta na
noite calma toda a fantasia, imagino que, depois de um longo
palavreado com um erudito desses, viciado em boas maneiras, esse pássaro roubasse talvez um instante de bemaventurança. (PROMIES, 1964, p.162)
Goethe também reconhecera que as observações e gracejos de Lichtenberg
escondiam profundos pensamentos. Por isso cunhou a frase “onde Lichtenberg
faz uma brincadeira, ali há um problema dissimulado”, demonstrando que,
com isso, a essa época já havia superado seu profundo aborrecimento diante
da omissão silenciosa de Lichtenberg, em seu manual de física, quanto àquela teoria das cores, cria predileta de Goethe. Essa desavença atenua de certa
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Georg Christoph Lichtenberg, físico, escritor e filósofo alemão, nasceu em Ober-Ramstadt (1742) e morreu
em Göttingen (1799), em cuja universidade estudou e trabalhou grande parte de sua vida. Ficou conhecido
sobretudo por meio de seus aforismos, apreciados por Kant, Nietzsche,Tolstoi, Freud, Schopenhauer, Einstein,
Karl Kraus, Tuchoslsky e Canetti, dentre outros. Sua obra, composta, ademais, de fragmentos e esboços, só
em 1901 teve sua primeira edição completa publicada. Autores da nova geração da Teoria Crítica
reencontraram nele um precursor do combate a pseudo-científicas teorias racistas.
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forma a desumana declaração de Goethe, feita anteriormente: Lichtenberg
teria se tornado um satírico, por causa de sua “infeliz constituição corporal”.
(PATZIG, 2007, p. 214)
Kant também trocou algumas cartas com Lichtenberg, seu contemporâneo. Esse relacionamento com Kant faz parte da crítica ao academicismo,
núcleo desta comunicação.
Antes de um comentário sobre as relações entre pessoa e obra, essa referência malvada à aparência de Lichtenberg dá-nos ensejo para o tema da
responsabilidade dos tradutores, sobretudo aqueles que se tornam divulgadores
e, eventualmente, defensores dos autores a que se dedicam. Charles le Blanc
e Juan Villoro, tradutores de Lichtenberg para o francês e o espanhol, respectivamente, dão exemplos de trabalho editorial sério, aliado ao tratamento
respeitoso do autor, que se afigura simpático até mesmo nas caricaturas. Não
é o caso de uma raríssima edição portuguesa, traduzida do francês, ao que
parece; sem prefácio nem estudo introdutório, depara-se o leitor com uma
pequena amostra desordenada de frases. Todavia, na primeira página, em
uma nota, já se revela um detalhe da condição física de Lichtenberg, como se
um handicap fosse pré-condição da leitura de seus espirituosos textos.
A recepção de um autor significa mais que elogios e epígrafes, embora tais
expedientes possam valer como o início de um processo de revelação e
envolvimento. Kierkegaard foi sempre apresentado e reconhecido como filósofo, apesar de alguma cifrada declaração sua, em que negava pertencer a tal
categoria. Hoje, já dispomos de edições completas das obras de Kierkegaard
em alemão e em francês, pelo menos, além de algumas obras traduzidas para
o espanhol e o português, algumas das quais diretamente do original dinamarquês.
Bem diferente é a situação de Lichtenberg, fornecedor eventual de epígrafes,
que continua desconhecido até mesmo por teóricos críticos bem informados.
É verdade que ele foi um precursor da crítica às pseudo-teorias racistas do
fascismo no século XX, mas não se pode reduzi-lo a uma abordagem instrumental. A magistral defesa do ensaio, realizada por Adorno pode estender-se
– mediante nosso esforço – aos aforismos, gênero que adotou, aliás, no
exílio, para sua Mínima moralia, e por Horkheimer, em tempos sombrios.
Montaigne, inventor dos ensaios, teve influência sobre Lichtenberg, em temas e estilo – na escrita e na vida.
Se o reconhecimento de Kierkegaard como filósofo parece uma vantagem –
na comparação aqui ensaiada com Lichtenberg –, por outro lado, a identificação imediata e restritiva do dinamarquês a uma filosofia específica talvez não
agrade a seus estudiosos. Deve ser o caso do perfil biográfico feito por Eberhard
Harbsmeier, que localiza não só um documento escrito para o que chamou de
“atestado de nascimento da filosofia e da teologia do existencialismo”, como
também um monumento turístico, ao norte da região da Selândia, onde
Kierkegaard teria tido uma certa experiência do deserto – Harbsmeier fala disso
como o “berço do existencialismo moderno”. (HARBSMEIER, 1993, p. 195)
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Álvaro Valls entende que certos enquadramentos de seu autor predileto
venham de seleções preferidas por tradutores. Os primeiros alemães traduziram o “escritor religioso”, ao passo que os franceses “se apaixonaram antes
pelo sedutor, pelo literato” e, por fim, “surgiu nos países latinos a imagem do
‘pai do existencialismo’, cuja trilogia de melancolia, angústia e desespero
acaba arrematada pela náusea sartreana.” (VALLS, 1991, p. 8) Mas, é claro
que, ultimamente, há trabalhos sérios que nos ajudam a sair dos estereótipos, que geralmente recaem na suspeita redução da obra à pessoa.
O tradutor Charles le Blanc também recrimina as reduções da obra à biografia, inclusive sob rótulos de recentes disciplinas:
É uma tendência patética e muito em voga, tomar a vida de
um autor para explicar sua obra, um tipo de psicologismo,
que, em alguns casos, libera o espírito do intérprete do dever
de compreender a obra estudada, ao resumir, por exemplo, o
ódio pela mundanidade em Pascal a uma questão de debilidade física e a concepção de amor em Kierkegaard a um problema de impotência. (Le BLANC, 1997, p. 20-21)
O tradutor Juan Villoro, em sua edição mexicana, (LICHTENBERG, 1989)
preferiu arriscar uma certa sistematização, ao agrupar os aforismos de
Lichtenberg em capítulos como “a mente e o corpo”, “a linguagem e outras
manchas de tinta”, “os sonhos”, “Sacerdote de si mesmo”, etc., fora da
ordem cronológica dos cadernos. Por seu lado, a edição francesa de Le Blanc
respeitou a seqüência biograficamente determinada daqueles “livros de saldos” em sua mistura original de notas datadas. Em seu estudo introdutório,
todavia, Le Blanc cede e considera que Lichtenberg serviu-se de sua pena
como um guerreiro que atacava em direção aos quatro ventos: o humanismo
da Aufklãrung; combate contra a intolerância e o fanatismo; combate pela
razão e contra o sentimentalismo; combate pela ciência, contra a erudição.
Vamos nos concentrar, então, nessa última campanha de Lichtenberg, que
remete ao academicismo.
Lichtenberg tematizou – por vários ângulos – o academicismo.
Um ponto central desse desvio pedante e hermético é que
“não se raciocina mais sobre os fatos, mas sim sobre as regras”. Segundo Le Blanc, que é, aliás, autor de um livro sobre
Kierkegaard, (Le BLANC, 2003) “não se pode definir melhor o
academicismo e a aridez das escolas que constituem um professor publicus ordinarius, o que aborrecia Kierkegaard, aluno
de Lichtenberg, nesse sentido”. ( Le BLANC, 1997, p. 17)
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Parece-nos que, com razão, Kierkegaard não teve pressa de concluir seu
curso superior, o que só aconteceu aos 27 anos. Tampouco quis ele ser um
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“filósofo de carreira”, conforme a citada biografia de Harbsmeier: quis ser
pastor, mas depois desistiu da idéia, bem como rejeitou “a oferta de uma
carreira acadêmica como filósofo universitário. Não queria ser filósofo sistemático, procurando e ensinando doutrinas. Ele queria ser o que chamava de
‘pensador existente’”. (HARBSMEIER, 1993, p. 201) Em sua dissertação, segundo o tradutor Valls, “o estilo irreverente e brincalhão foi mantido [na
publicação], de modo que a erudição acumulada, erudição que o autor
[Kierkegaard] sabe não ser boa companhia para a ironia, dá uma impressão de
recurso retórico e inquietante. O estilo acadêmico tem um quê de fingido e
teatral (...)” (VALLS, 1991, p. 10)
Lichtenber g trabalhou na importante Universidad e de
G ö t t i n g e n , f oi m e m b ro de a c a d e m i a s d e c i ê n c i a s e
prestigiado por outros grandes cientistas de então, mas
não se deixava levar pela vaidade acadêmica. Era muito
popular na cidade – e hoje sua estátua está instalada no
chão da praça central de Göttingen, no caminho que sempre fazia entre a casa onde morava e a universidade. Era
querido pelos alunos, que acorreram às centenas para seu
sepultamento, embora alguns professores nem tenham suspendido as aulas, em luto.
Para Lichtenberg, a erudição “que apresenta folhagem, mas sem fruto”,
não corresponde às necessidades essenciais da natureza humana, pois o homem responde também a imperativos práticos: a ciência, que traz uma resposta, ou pelo menos alguma satisfação a esses imperativos práticos, contribui para o florescimento e para o desenvolvimento da natureza do homem. A
ciência a serviço da erudição age de modo completamente diferente:
quando perguntamos pelas horas, não queremos conhecer
o mecanismo do relógio de bolso. Em nossos dias, o conhecimento dos meios tornou-se uma ciência célebre, da
qual ninguém precisa para sua própria felicidade, nem para
a felicidade do universo. O conhecimento dos meios sem
aplicação real, sem mesmo o talento de aplicá-los ou somente a vontade de fazê-lo é, no momento, aquilo que se
denomina de modo comum erudição.(Le BLANC, 1997, p.
39-40)
A erudição não passa de uma maneira sofisticada de alguém exprimir sua
ignorância do essencial. Ela é, então, a arte suprema da dissimulação, apesar
de suas abundantes notas de rodapé. Ela conduz o pensamento a conceber o
mundo, não mais auxiliada pela razão, mas o amarra às escoras dos
comentadores, em detrimento do espírito critico e do livre exame:
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ao observar a maioria dos eruditos, eles não parecem se ocupar de nada a não ser de cortar as unhas e afiar as penas; eles
se deixam pentear por outros, deixam que outros façam suas
roupas, mandam que outros preparem suas refeições, e isso
para que eles possam observar o tempo que passa em suas
cabeças. (Le BLANC, 1997, p. 40)
Ora o tempo parece uma tempestade, se o julgarmos pelas disputas de
motivos infinitos e pelas conclusões incertas que engendram a arte de debater sobre a ponta de uma agulha, a grandes golpes de lógica palaestrica, de
metafisica terminológico-visionaria e de critica gladiatorio-offensiva. (Le BLANC,
1997, p. 40)
Para Lichtenberg, há o sábio verdadeiro e o sábio titular, esse último apenas raciocinando sobre sua ciência com uma coerência aparente, pois ele
prefere as ruas sombrias e pouco aclaradas do saber às avenidas mais largas
que põem as verdades sob a luz.
A ciência que deve, portanto, depender de uma observação atenta da natureza, da capacidade de apreender as analogias entre os diferentes fenômenos
e, sobretudo, de delas apreender as causas, mesmo que fosse pela imaginação, torna-se, com o erudito e o sábio verbosos, uma questão de memória:
Sempre foi para mim uma coisa bastante triste observar que,
na universidade, na maioria das disciplinas, ensinam-se aqueles tipos de coisa que não servem para nada a não ser para
colocar os jovens em condição de lhes ensinar o novo; ensina-se o grego para poder, em seguida, ensiná-lo mais, e é
assim que se passa do mestre ao aluno, o qual, desde que ele
tenha sucesso, tornar-se-á, no máximo, um mestre também,
um mestre que apenas ensinará a ensinar. (Le BLANC, 1997,
p. 41)
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Lichtenberg compreendeu magnificamente a aridez e a inutilidade de uma
certa espécie de saber que serve muito bem para monologar com outrem e
para entreter infinitos discursos consigo mesmo. No mais, o maníaco costume de ler demais não garante sabedoria, pois um bom número de nossos
eruditos medíocres poderiam ter-se tornado grandes homens, “se tivessem
lido menos”.( Le BLANC, 1997, p. 41)
A desconfiança de Lichtenberg em relação à erudição, tende, pode-se pensar, ao esquecimento do homem, que ela implica. A multiplicação de teses,
que se vê em nossa época, vai nesse sentido. Depois de ser inspirada pela
multiplicação dos pães, a epidemia tesarda tornou-se sub-repticiamente como
aquela nuvem de gafanhotos que faz eclipsar o sol do Egito. Pode-se dizer
que o combate pela ciência contra a erudição travada por Lichtenberg tem por
objeto permitir aos autores nos falar de homem a homem. Lichtenberg quer
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nos colocar em guarda contra a tendência da erudição a não mais considerar o
homem como um valor em si; o que sobrevém então é que se toma por um
dialeto regional uma língua universal, que se dá a um segundo o valor de
eternidade e que faz de um inseto o cosmos inteiro.
Poder-se-ia ser tentado a ver nessa desconfiança para com a erudição a
marca de uma espécie de fraqueza, de uma incapacidade de Lichtenberg para
reunir suas idéias, ordená-las e lhes conferir assim o rigor de um sistema.
Lichtenberg, um verdadeiro Aufklärer, se interrogava sobre o modo que a
ciência poderia levantar o desafio de libertar o homem. Um conhecimento
livresco reduzia a ciência a uma questão casuística. Aí jaz o sentido de suas
observações sobre as relações entre ciência e erudição.
O progresso das técnicas tinha tido um efeito sobre o modo de apreender o
fenômeno humano. O humanismo das Luzes era fundamentalmente otimista
por essa confiança que ele colocava no homem; principal beneficiário do
melhoramento das técnicas, este parecia apto a encontrar uma solução para
os diferentes problemas que o mundo lhe apresentava, visto que ele se apoiava sobre a ciência, a técnica e o trabalho. Refletindo sobre sua formação
como cientista, Lichtenberg constatou como seu próprio caráter, voluntariamente indolente e contemplativo, havia se desviado desse triplo fundamento.
É nessas relações entre ciência (razão) e técnica (experiência) que se põe a
questão do humanismo das Luzes. A relação entre a razão e a experiência não
mais compreendida no sentido de um antagonismo no seio do qual a ciência
“pura ” pode se privar da técnica , ma s sobretudo
em termo s de
complementaridade. A ciência explica a experiência e esta, por sua vez, confirma a exatidão das idéias cientificas.
Lichtenberg é representativo desse novo estado de espírito. Professor de
matemática em Göttingen, fundador do Instituto de Ciências Físicas daquela
universidade, ele foi o primeiro a incorporar no âmago de seus cursos de
física as experiências práticas, ilustrando concretamente os dados teóricos.
Essas lições, seguidas por um grande número de estudantes, para os quais o
anfiteatro não era mais suficiente, fizeram a admiração de Humboldt, mas
sobretudo de Alexandre Volta, que lucrou com sua passagem pela BaixaSaxôni a para testa r os aparelho s do laboratóri o de Licht enberg. A
complementaridade de teoria e ciência se encontra no centro de suas preocupações intelectuais. E como sua hipocondria se associava ao medo de tempestades, fez instalar em sua casa um pára-raios, invento recente para o qual
havia colaborado.
Pode-se dizer, para concluir, que Lichtenberg, como inúmeros escritores e
filósofos da Aufklärung, efetuou a passagem de uma concepção especulativa
de verdade a uma concepção ética, passagem que se verifica dentro do que
se convém chamar de antiacademicismo. O Lichtenberg da juventude foi,
certamente, mais ligado a uma concepção especulativa, mas o passar dos
anos o aproximou de uma idéia de verdade concebida como experiência prática de si, donde seu interesse pelas pinturas, as observações morais e os
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exercícios de introspecção, arte na qual o próprio Freud o considerou como a
um mestre.
De volta, portanto, ao tema do humanismo, destacamos mais uma referência de Le Blanc a Kierkegaard:
Lichtenberg analisa o homem com o fim de chegar a certezas
objetivas que pudessem servir-lhe para compreender melhor o
mundo; Pascal e Kierkegaard, dois outros observadores da
alma humana, refletiam quanto a isso – (...) o primeiro em
relação à salvação e o segundo, quanto à questão de ‘tornarse cristão’. Se, em Pascal e Kierkegaard o interesse pelo homem é o dos moralistas que pensam a condição humana a
partir de categorias religiosas, o interesse de Lichtenberg é o
de chegar a uma compreensão do ser humano que encontra
sua aplicação no campo da ética, mas, sobretudo, naquele
mais circunscrito e mais bem definido, da ciência.( Le BLANC,
1997, p 47, nota 114)
Assim, após nos apoiarmos tanto no estudo de Le Blanc, podemos concordar com ele também quanto a essa volta de Lichtenberg ao homem, o que o
inclui como objeto de observação e reflexão, ao exercitar uma certa
introspecção. Sobre essa mudança, afirma Le Blanc que, com o passar dos
anos, nosso autor aproximou-se mais de “uma idéia de verdade concebida
como experiência prática de si, donde seu interesse pelas pinturas, as observações morais e os exercícios de introspecção, arte na qual o próprio Freud o
considerou como a um mestre.”(Le BLANC, 1997, p. 41)
Gostaria, ainda, de acrescentar que, no caso muito especial
de Lichtenberg, a introspecção assumiu não apenas o sentido
literal de um olhar para dentro, mas também o de olhar para
baixo. Por respeito ao autor aqui apresentado, reservo a ele
mesmo o privilégio de falar sobre sua condição física, geralmente associada a uma certa hipocondria e aquela ironia que
beirava o sarcasmo. Lichtenberg era corcunda, de modo que
parecia sempre de estatura menor do que poderia ter sido. E
também sobre isso ele refletiu, com graça e elegância, ao
dizer: “Em mim, o coração está pelo menos a distância de um
sapato mais próximo da cabeça do que nos demais homens.
Decorre disso minha grande capacidade de justiça; as resoluções
que
tomo
podem
ser
ratificadas
ainda
quentes.”
(LICHTENBERG, 1976, p. 53)
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APÊNDICE
Alguns aforismos de Lichtenberg, traduzidos pelo autor do artigo. Ao final
de cada aforismo, a página da edição original (Insel Taschenbuch, 1976):
- A plebe se arruína pela carne, que contraria o espírito, e o erudito se
arruína através do espírito, a que tanto aspira em oposição ao corpo. (23)
- Chocado pela erudição que acorda e pela razão humana adormecida. (73)
- Na república dos eruditos, cada um quer mandar; lá não existem conselheiros, o que é ruim. Cada general deve, digamos assim, desenvolver um
plano, ficar de sentinela, varrer a guarita e buscar água. Ninguém quer
favorecer o outro. (79)
- Livros são escritos a partir de livros. Nossos poetas são lidos na maioria
dos casos por poetas. Eruditos deviam se meter mais a deitar em livros
seus sentimentos e suas observações.(81)
- Não só os famintos trabalharam nisso, como também os eruditos.(103)
- Aconselha-se com freqüência pensar por conta própria apenas para que
os erros alheios se diferenciem da verdade, por meio do estudo. Tem
alguma utilidade, mas isso é tudo? Quanta leitura desnecessária nos será
poupada? A leitura é, então, estudo? Alguém já afirmou, bem fundamentado na verdade, que a erudição da farta impressão de livros de fato se
amplia mais, ao passo que o conteúdo teria diminuído. Ler muito é prejudicial ao pensamento. Os maiores pensadores, que me precederam, foram justamente dentre todos os eruditos que eu conheci aqueles que
tinham lido menos. O prazer dos sentidos não vale nada, então? (123)
- A maioria dos eruditos é mais supersticiosa do que eles mesmos dizem,
sim, mais do que eles mesmos acreditam. Não se pode tão facilmente
livrar-se por completo de maus costumes; o que se consegue é escondêlos do mundo e evitar as conseqüências danosas. (123)
- Um erudito que chora por não entender seus próprios escritos; eis um
pensamento de palhaço. (139)
- A leitura em demasia instalou entre nós uma barbárie erudita. (139)
- Na palavra “erudito”, esconde-se apenas o conceito de que muito se
ensinou, mas não que algo também se aprendeu; daí dizerem os franceses, de modo muito engenhoso – como tudo que vem desse povo – não
les enseignés, mas les savants, e os ingleses dizem não the taught ones,
mas os learned. (142)
- O que constitui a diferença entre os eruditos ingleses e os alemães é
principalmente não apenas sua ocupação precoce com os antigos, mas
também o fato de que cedo são exortados a conhecer a fundo o que eles
aprendem. Eles não se satisfazem facilmente e insistem mais em idéias
claras. Nossa juventude se deteriora com a terrível leitura confusa, e,
certamente, mais que tudo neste mundo, através de nossos poetas, que
tanto transbordam de sentimento. (146)
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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BATT,
Kurt.
Taschenbuch,
1976,
p.
246-297
Nachwort,
in:
LICHTENBERG. Aphorismen.
Insel
HARBSMEIER, Eberhard. Kierkegaard – Pessoa e obra – Biografia
filosofia.
Educação e filosofia, vol. 7, n. 13: p. 193-205, jan-jun.
1993.
e
LE BLANC, Charles. Introduction, In: LICHTENBERG. Le miroir de l’âme.
Trad. Charles le Blanc. 2.ed. Paris, José Corti, 1997, p. 9-94
PATZIG, Günther. Sobre o filósofo Lichtenberg. Educação e filosofia,
v.21, n.41, jan-jun, 2007, p. [Trad. Bento Itamar Borges]
PROMIES, Wolfgang. Georg Christoph Lichtenberg in Selbstzeugnissen
und
Bilddokumenten. Reinbek bei Hamburg, Rowohlt,
1964
VALLS, Álvaro L. M. Apresentação, in: KIERKEGAARD, S. A. O
conceito de ironia constantemente referido a Sócrates. Trad. Álvaro L. M.
Valls. Petrópolis, Vozes, 1991, p. 7-12.
VALLS, Álvaro L. M. Entre Sócrates e Cristo: ensaios sobre a ironia e o
amor em Kierkegaard. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2000.
VILLORO, Juan. La voz nel desierto (prólogo), In: LICHTENBERG,
Georg
Christoph. Aforismos. Trad. Juan Villoro. México, Fondo de Cultura
Económica, 1989.
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