cadernos ufs - filosofia A VOZ NO DESERTO: KIERKEGAARD SOBRE LICHTENBERG Prof. Dr. Bento Itamar Borges – UFU Resumo: Os tradutores costumam assumir a tarefa adicional de tornar conhecido o autor que traduzem. E assim tem sido, certamente, para os estudiosos e tradutores de Kierkegaard e de Lichtenberg. O filósofo dinamarquês, por cima de suas próprias declarações, cifradas pela ironia, de que “não era filósofo”, foi reconhecido como tal, embora isolado pela língua rara em que escreveu. Lichtenberg continua a aguardar o devido reconhecimento como filósofo. O anti-academicismo é um ponto comum entre os dois autores; há entre eles não só coincidências, mas continuidade. A academia de hoje não pode vingar-se daqueles outsiders, ao cobrar deles uma obra sistemática , como é o caso do espirituoso cientista de Göttingen, saudado por Kierkegaard como uma “voz no deserto”. Palavras-chave: Kierkegaard, Lichtenberg, anti-academicismo Abstract: Translators must usually assume the additional task of presenting the author to whom they dedicate themselves. This may have been both the situation of Kierkegaard’s and Lichtenberg’s translators and researchers. Beyond his own disguised declarations that he “was not a philosopher”, the Danish great thinker was soon recognized as such, although he has been relatively isolated because of the rare native idiom. In his turn, Lichtenberg is still waiting for a due recognition of his works among philosophers. The anti-academicism is a common point of interest for both authors and this paper is centered in it. Kierkegaard praised Lichtenberg as a “voice in the desert”, but we should go on to find not only coincidences between them, but continuities as well. Key-words: Kierkegaard, Lichtenberg, anti-academicism 7 cadernos ufs - filosofia Kierkegaard foi um dos responsáveis pela valorização de Lichtenberg. 1 Agora, creio que os estudiosos de Kierkegaard possam participar de uma campanha em favor do reconhecimento de Lichtenberg. Será a favor da filosofia. Ao lado de Goethe, Schopenhauer, Nietzsche, Karl Kraus, Kurt Tucholsky e tantos leitores de outrora, hoje mais ou menos esquecidos, Kierkegaard também tratou aquele popular cientista alemão como “o mestre dos aforismos”. Ora, Kierkegaard aceitou o título de “mestre da ironia”, para brincar com seu título acadêmico de magister. Por seu lado, Lichtenberg não se referiu a seus escritos como “aforismos”. Deixou inúmeros cadernos de anotações misturadas, que chamava de Sudelbücher, que são diários, mas certamente diferentes dos “Papirer” de Kierdegaard, pois o termo, que lembra coisa descuidada, desmazelada, emprega-se antes na contabilidade, para um wastebook, livro de lançamentos diários em que todas as operações se mesclam, como rascunho, cujo conteúdo distribuir-se-á depois em lançamentos bancários, débitos e créditos. Um dos principais editores e estudiosos de Lichtenberg, Wolfgang Promies, anexou a sua documentação o testemunho de Kierkegaard, em que agradece a Lichtenberg, com belas imagens. Uma delas, a “voz no deserto”, veio a ser adotada por Juan Villoro para dar título ao estudo introdutório de sua tradução, publicada no México. Eis a homenagem de Kierkegaard a Lichtenberg: Obrigado, Lichtenberg! Obrigado! Pois dissestes que não há nada mais sem graça que conversar com um erudito em ciências, que nunca pensou por conta própria, mas sabe de mil situações histórico-literárias. “É quase como ouvir conferências tiradas de um livro de receitas, quando se está faminto”. Oh! Obrigado por essa voz no deserto, obrigado por esse refrigério. Como o grito de um pássaro selvagem desperta na noite calma toda a fantasia, imagino que, depois de um longo palavreado com um erudito desses, viciado em boas maneiras, esse pássaro roubasse talvez um instante de bemaventurança. (PROMIES, 1964, p.162) Goethe também reconhecera que as observações e gracejos de Lichtenberg escondiam profundos pensamentos. Por isso cunhou a frase “onde Lichtenberg faz uma brincadeira, ali há um problema dissimulado”, demonstrando que, com isso, a essa época já havia superado seu profundo aborrecimento diante da omissão silenciosa de Lichtenberg, em seu manual de física, quanto àquela teoria das cores, cria predileta de Goethe. Essa desavença atenua de certa 1 8 Georg Christoph Lichtenberg, físico, escritor e filósofo alemão, nasceu em Ober-Ramstadt (1742) e morreu em Göttingen (1799), em cuja universidade estudou e trabalhou grande parte de sua vida. Ficou conhecido sobretudo por meio de seus aforismos, apreciados por Kant, Nietzsche,Tolstoi, Freud, Schopenhauer, Einstein, Karl Kraus, Tuchoslsky e Canetti, dentre outros. Sua obra, composta, ademais, de fragmentos e esboços, só em 1901 teve sua primeira edição completa publicada. Autores da nova geração da Teoria Crítica reencontraram nele um precursor do combate a pseudo-científicas teorias racistas. cadernos ufs - filosofia forma a desumana declaração de Goethe, feita anteriormente: Lichtenberg teria se tornado um satírico, por causa de sua “infeliz constituição corporal”. (PATZIG, 2007, p. 214) Kant também trocou algumas cartas com Lichtenberg, seu contemporâneo. Esse relacionamento com Kant faz parte da crítica ao academicismo, núcleo desta comunicação. Antes de um comentário sobre as relações entre pessoa e obra, essa referência malvada à aparência de Lichtenberg dá-nos ensejo para o tema da responsabilidade dos tradutores, sobretudo aqueles que se tornam divulgadores e, eventualmente, defensores dos autores a que se dedicam. Charles le Blanc e Juan Villoro, tradutores de Lichtenberg para o francês e o espanhol, respectivamente, dão exemplos de trabalho editorial sério, aliado ao tratamento respeitoso do autor, que se afigura simpático até mesmo nas caricaturas. Não é o caso de uma raríssima edição portuguesa, traduzida do francês, ao que parece; sem prefácio nem estudo introdutório, depara-se o leitor com uma pequena amostra desordenada de frases. Todavia, na primeira página, em uma nota, já se revela um detalhe da condição física de Lichtenberg, como se um handicap fosse pré-condição da leitura de seus espirituosos textos. A recepção de um autor significa mais que elogios e epígrafes, embora tais expedientes possam valer como o início de um processo de revelação e envolvimento. Kierkegaard foi sempre apresentado e reconhecido como filósofo, apesar de alguma cifrada declaração sua, em que negava pertencer a tal categoria. Hoje, já dispomos de edições completas das obras de Kierkegaard em alemão e em francês, pelo menos, além de algumas obras traduzidas para o espanhol e o português, algumas das quais diretamente do original dinamarquês. Bem diferente é a situação de Lichtenberg, fornecedor eventual de epígrafes, que continua desconhecido até mesmo por teóricos críticos bem informados. É verdade que ele foi um precursor da crítica às pseudo-teorias racistas do fascismo no século XX, mas não se pode reduzi-lo a uma abordagem instrumental. A magistral defesa do ensaio, realizada por Adorno pode estender-se – mediante nosso esforço – aos aforismos, gênero que adotou, aliás, no exílio, para sua Mínima moralia, e por Horkheimer, em tempos sombrios. Montaigne, inventor dos ensaios, teve influência sobre Lichtenberg, em temas e estilo – na escrita e na vida. Se o reconhecimento de Kierkegaard como filósofo parece uma vantagem – na comparação aqui ensaiada com Lichtenberg –, por outro lado, a identificação imediata e restritiva do dinamarquês a uma filosofia específica talvez não agrade a seus estudiosos. Deve ser o caso do perfil biográfico feito por Eberhard Harbsmeier, que localiza não só um documento escrito para o que chamou de “atestado de nascimento da filosofia e da teologia do existencialismo”, como também um monumento turístico, ao norte da região da Selândia, onde Kierkegaard teria tido uma certa experiência do deserto – Harbsmeier fala disso como o “berço do existencialismo moderno”. (HARBSMEIER, 1993, p. 195) 9 cadernos ufs - filosofia Álvaro Valls entende que certos enquadramentos de seu autor predileto venham de seleções preferidas por tradutores. Os primeiros alemães traduziram o “escritor religioso”, ao passo que os franceses “se apaixonaram antes pelo sedutor, pelo literato” e, por fim, “surgiu nos países latinos a imagem do ‘pai do existencialismo’, cuja trilogia de melancolia, angústia e desespero acaba arrematada pela náusea sartreana.” (VALLS, 1991, p. 8) Mas, é claro que, ultimamente, há trabalhos sérios que nos ajudam a sair dos estereótipos, que geralmente recaem na suspeita redução da obra à pessoa. O tradutor Charles le Blanc também recrimina as reduções da obra à biografia, inclusive sob rótulos de recentes disciplinas: É uma tendência patética e muito em voga, tomar a vida de um autor para explicar sua obra, um tipo de psicologismo, que, em alguns casos, libera o espírito do intérprete do dever de compreender a obra estudada, ao resumir, por exemplo, o ódio pela mundanidade em Pascal a uma questão de debilidade física e a concepção de amor em Kierkegaard a um problema de impotência. (Le BLANC, 1997, p. 20-21) O tradutor Juan Villoro, em sua edição mexicana, (LICHTENBERG, 1989) preferiu arriscar uma certa sistematização, ao agrupar os aforismos de Lichtenberg em capítulos como “a mente e o corpo”, “a linguagem e outras manchas de tinta”, “os sonhos”, “Sacerdote de si mesmo”, etc., fora da ordem cronológica dos cadernos. Por seu lado, a edição francesa de Le Blanc respeitou a seqüência biograficamente determinada daqueles “livros de saldos” em sua mistura original de notas datadas. Em seu estudo introdutório, todavia, Le Blanc cede e considera que Lichtenberg serviu-se de sua pena como um guerreiro que atacava em direção aos quatro ventos: o humanismo da Aufklãrung; combate contra a intolerância e o fanatismo; combate pela razão e contra o sentimentalismo; combate pela ciência, contra a erudição. Vamos nos concentrar, então, nessa última campanha de Lichtenberg, que remete ao academicismo. Lichtenberg tematizou – por vários ângulos – o academicismo. Um ponto central desse desvio pedante e hermético é que “não se raciocina mais sobre os fatos, mas sim sobre as regras”. Segundo Le Blanc, que é, aliás, autor de um livro sobre Kierkegaard, (Le BLANC, 2003) “não se pode definir melhor o academicismo e a aridez das escolas que constituem um professor publicus ordinarius, o que aborrecia Kierkegaard, aluno de Lichtenberg, nesse sentido”. ( Le BLANC, 1997, p. 17) 10 Parece-nos que, com razão, Kierkegaard não teve pressa de concluir seu curso superior, o que só aconteceu aos 27 anos. Tampouco quis ele ser um cadernos ufs - filosofia “filósofo de carreira”, conforme a citada biografia de Harbsmeier: quis ser pastor, mas depois desistiu da idéia, bem como rejeitou “a oferta de uma carreira acadêmica como filósofo universitário. Não queria ser filósofo sistemático, procurando e ensinando doutrinas. Ele queria ser o que chamava de ‘pensador existente’”. (HARBSMEIER, 1993, p. 201) Em sua dissertação, segundo o tradutor Valls, “o estilo irreverente e brincalhão foi mantido [na publicação], de modo que a erudição acumulada, erudição que o autor [Kierkegaard] sabe não ser boa companhia para a ironia, dá uma impressão de recurso retórico e inquietante. O estilo acadêmico tem um quê de fingido e teatral (...)” (VALLS, 1991, p. 10) Lichtenber g trabalhou na importante Universidad e de G ö t t i n g e n , f oi m e m b ro de a c a d e m i a s d e c i ê n c i a s e prestigiado por outros grandes cientistas de então, mas não se deixava levar pela vaidade acadêmica. Era muito popular na cidade – e hoje sua estátua está instalada no chão da praça central de Göttingen, no caminho que sempre fazia entre a casa onde morava e a universidade. Era querido pelos alunos, que acorreram às centenas para seu sepultamento, embora alguns professores nem tenham suspendido as aulas, em luto. Para Lichtenberg, a erudição “que apresenta folhagem, mas sem fruto”, não corresponde às necessidades essenciais da natureza humana, pois o homem responde também a imperativos práticos: a ciência, que traz uma resposta, ou pelo menos alguma satisfação a esses imperativos práticos, contribui para o florescimento e para o desenvolvimento da natureza do homem. A ciência a serviço da erudição age de modo completamente diferente: quando perguntamos pelas horas, não queremos conhecer o mecanismo do relógio de bolso. Em nossos dias, o conhecimento dos meios tornou-se uma ciência célebre, da qual ninguém precisa para sua própria felicidade, nem para a felicidade do universo. O conhecimento dos meios sem aplicação real, sem mesmo o talento de aplicá-los ou somente a vontade de fazê-lo é, no momento, aquilo que se denomina de modo comum erudição.(Le BLANC, 1997, p. 39-40) A erudição não passa de uma maneira sofisticada de alguém exprimir sua ignorância do essencial. Ela é, então, a arte suprema da dissimulação, apesar de suas abundantes notas de rodapé. Ela conduz o pensamento a conceber o mundo, não mais auxiliada pela razão, mas o amarra às escoras dos comentadores, em detrimento do espírito critico e do livre exame: 11 cadernos ufs - filosofia ao observar a maioria dos eruditos, eles não parecem se ocupar de nada a não ser de cortar as unhas e afiar as penas; eles se deixam pentear por outros, deixam que outros façam suas roupas, mandam que outros preparem suas refeições, e isso para que eles possam observar o tempo que passa em suas cabeças. (Le BLANC, 1997, p. 40) Ora o tempo parece uma tempestade, se o julgarmos pelas disputas de motivos infinitos e pelas conclusões incertas que engendram a arte de debater sobre a ponta de uma agulha, a grandes golpes de lógica palaestrica, de metafisica terminológico-visionaria e de critica gladiatorio-offensiva. (Le BLANC, 1997, p. 40) Para Lichtenberg, há o sábio verdadeiro e o sábio titular, esse último apenas raciocinando sobre sua ciência com uma coerência aparente, pois ele prefere as ruas sombrias e pouco aclaradas do saber às avenidas mais largas que põem as verdades sob a luz. A ciência que deve, portanto, depender de uma observação atenta da natureza, da capacidade de apreender as analogias entre os diferentes fenômenos e, sobretudo, de delas apreender as causas, mesmo que fosse pela imaginação, torna-se, com o erudito e o sábio verbosos, uma questão de memória: Sempre foi para mim uma coisa bastante triste observar que, na universidade, na maioria das disciplinas, ensinam-se aqueles tipos de coisa que não servem para nada a não ser para colocar os jovens em condição de lhes ensinar o novo; ensina-se o grego para poder, em seguida, ensiná-lo mais, e é assim que se passa do mestre ao aluno, o qual, desde que ele tenha sucesso, tornar-se-á, no máximo, um mestre também, um mestre que apenas ensinará a ensinar. (Le BLANC, 1997, p. 41) 12 Lichtenberg compreendeu magnificamente a aridez e a inutilidade de uma certa espécie de saber que serve muito bem para monologar com outrem e para entreter infinitos discursos consigo mesmo. No mais, o maníaco costume de ler demais não garante sabedoria, pois um bom número de nossos eruditos medíocres poderiam ter-se tornado grandes homens, “se tivessem lido menos”.( Le BLANC, 1997, p. 41) A desconfiança de Lichtenberg em relação à erudição, tende, pode-se pensar, ao esquecimento do homem, que ela implica. A multiplicação de teses, que se vê em nossa época, vai nesse sentido. Depois de ser inspirada pela multiplicação dos pães, a epidemia tesarda tornou-se sub-repticiamente como aquela nuvem de gafanhotos que faz eclipsar o sol do Egito. Pode-se dizer que o combate pela ciência contra a erudição travada por Lichtenberg tem por objeto permitir aos autores nos falar de homem a homem. Lichtenberg quer cadernos ufs - filosofia nos colocar em guarda contra a tendência da erudição a não mais considerar o homem como um valor em si; o que sobrevém então é que se toma por um dialeto regional uma língua universal, que se dá a um segundo o valor de eternidade e que faz de um inseto o cosmos inteiro. Poder-se-ia ser tentado a ver nessa desconfiança para com a erudição a marca de uma espécie de fraqueza, de uma incapacidade de Lichtenberg para reunir suas idéias, ordená-las e lhes conferir assim o rigor de um sistema. Lichtenberg, um verdadeiro Aufklärer, se interrogava sobre o modo que a ciência poderia levantar o desafio de libertar o homem. Um conhecimento livresco reduzia a ciência a uma questão casuística. Aí jaz o sentido de suas observações sobre as relações entre ciência e erudição. O progresso das técnicas tinha tido um efeito sobre o modo de apreender o fenômeno humano. O humanismo das Luzes era fundamentalmente otimista por essa confiança que ele colocava no homem; principal beneficiário do melhoramento das técnicas, este parecia apto a encontrar uma solução para os diferentes problemas que o mundo lhe apresentava, visto que ele se apoiava sobre a ciência, a técnica e o trabalho. Refletindo sobre sua formação como cientista, Lichtenberg constatou como seu próprio caráter, voluntariamente indolente e contemplativo, havia se desviado desse triplo fundamento. É nessas relações entre ciência (razão) e técnica (experiência) que se põe a questão do humanismo das Luzes. A relação entre a razão e a experiência não mais compreendida no sentido de um antagonismo no seio do qual a ciência “pura ” pode se privar da técnica , ma s sobretudo em termo s de complementaridade. A ciência explica a experiência e esta, por sua vez, confirma a exatidão das idéias cientificas. Lichtenberg é representativo desse novo estado de espírito. Professor de matemática em Göttingen, fundador do Instituto de Ciências Físicas daquela universidade, ele foi o primeiro a incorporar no âmago de seus cursos de física as experiências práticas, ilustrando concretamente os dados teóricos. Essas lições, seguidas por um grande número de estudantes, para os quais o anfiteatro não era mais suficiente, fizeram a admiração de Humboldt, mas sobretudo de Alexandre Volta, que lucrou com sua passagem pela BaixaSaxôni a para testa r os aparelho s do laboratóri o de Licht enberg. A complementaridade de teoria e ciência se encontra no centro de suas preocupações intelectuais. E como sua hipocondria se associava ao medo de tempestades, fez instalar em sua casa um pára-raios, invento recente para o qual havia colaborado. Pode-se dizer, para concluir, que Lichtenberg, como inúmeros escritores e filósofos da Aufklärung, efetuou a passagem de uma concepção especulativa de verdade a uma concepção ética, passagem que se verifica dentro do que se convém chamar de antiacademicismo. O Lichtenberg da juventude foi, certamente, mais ligado a uma concepção especulativa, mas o passar dos anos o aproximou de uma idéia de verdade concebida como experiência prática de si, donde seu interesse pelas pinturas, as observações morais e os 13 cadernos ufs - filosofia exercícios de introspecção, arte na qual o próprio Freud o considerou como a um mestre. De volta, portanto, ao tema do humanismo, destacamos mais uma referência de Le Blanc a Kierkegaard: Lichtenberg analisa o homem com o fim de chegar a certezas objetivas que pudessem servir-lhe para compreender melhor o mundo; Pascal e Kierkegaard, dois outros observadores da alma humana, refletiam quanto a isso – (...) o primeiro em relação à salvação e o segundo, quanto à questão de ‘tornarse cristão’. Se, em Pascal e Kierkegaard o interesse pelo homem é o dos moralistas que pensam a condição humana a partir de categorias religiosas, o interesse de Lichtenberg é o de chegar a uma compreensão do ser humano que encontra sua aplicação no campo da ética, mas, sobretudo, naquele mais circunscrito e mais bem definido, da ciência.( Le BLANC, 1997, p 47, nota 114) Assim, após nos apoiarmos tanto no estudo de Le Blanc, podemos concordar com ele também quanto a essa volta de Lichtenberg ao homem, o que o inclui como objeto de observação e reflexão, ao exercitar uma certa introspecção. Sobre essa mudança, afirma Le Blanc que, com o passar dos anos, nosso autor aproximou-se mais de “uma idéia de verdade concebida como experiência prática de si, donde seu interesse pelas pinturas, as observações morais e os exercícios de introspecção, arte na qual o próprio Freud o considerou como a um mestre.”(Le BLANC, 1997, p. 41) Gostaria, ainda, de acrescentar que, no caso muito especial de Lichtenberg, a introspecção assumiu não apenas o sentido literal de um olhar para dentro, mas também o de olhar para baixo. Por respeito ao autor aqui apresentado, reservo a ele mesmo o privilégio de falar sobre sua condição física, geralmente associada a uma certa hipocondria e aquela ironia que beirava o sarcasmo. Lichtenberg era corcunda, de modo que parecia sempre de estatura menor do que poderia ter sido. E também sobre isso ele refletiu, com graça e elegância, ao dizer: “Em mim, o coração está pelo menos a distância de um sapato mais próximo da cabeça do que nos demais homens. Decorre disso minha grande capacidade de justiça; as resoluções que tomo podem ser ratificadas ainda quentes.” (LICHTENBERG, 1976, p. 53) 14 cadernos ufs - filosofia APÊNDICE Alguns aforismos de Lichtenberg, traduzidos pelo autor do artigo. Ao final de cada aforismo, a página da edição original (Insel Taschenbuch, 1976): - A plebe se arruína pela carne, que contraria o espírito, e o erudito se arruína através do espírito, a que tanto aspira em oposição ao corpo. (23) - Chocado pela erudição que acorda e pela razão humana adormecida. (73) - Na república dos eruditos, cada um quer mandar; lá não existem conselheiros, o que é ruim. Cada general deve, digamos assim, desenvolver um plano, ficar de sentinela, varrer a guarita e buscar água. Ninguém quer favorecer o outro. (79) - Livros são escritos a partir de livros. Nossos poetas são lidos na maioria dos casos por poetas. Eruditos deviam se meter mais a deitar em livros seus sentimentos e suas observações.(81) - Não só os famintos trabalharam nisso, como também os eruditos.(103) - Aconselha-se com freqüência pensar por conta própria apenas para que os erros alheios se diferenciem da verdade, por meio do estudo. Tem alguma utilidade, mas isso é tudo? Quanta leitura desnecessária nos será poupada? A leitura é, então, estudo? Alguém já afirmou, bem fundamentado na verdade, que a erudição da farta impressão de livros de fato se amplia mais, ao passo que o conteúdo teria diminuído. Ler muito é prejudicial ao pensamento. Os maiores pensadores, que me precederam, foram justamente dentre todos os eruditos que eu conheci aqueles que tinham lido menos. O prazer dos sentidos não vale nada, então? (123) - A maioria dos eruditos é mais supersticiosa do que eles mesmos dizem, sim, mais do que eles mesmos acreditam. Não se pode tão facilmente livrar-se por completo de maus costumes; o que se consegue é escondêlos do mundo e evitar as conseqüências danosas. (123) - Um erudito que chora por não entender seus próprios escritos; eis um pensamento de palhaço. (139) - A leitura em demasia instalou entre nós uma barbárie erudita. (139) - Na palavra “erudito”, esconde-se apenas o conceito de que muito se ensinou, mas não que algo também se aprendeu; daí dizerem os franceses, de modo muito engenhoso – como tudo que vem desse povo – não les enseignés, mas les savants, e os ingleses dizem não the taught ones, mas os learned. (142) - O que constitui a diferença entre os eruditos ingleses e os alemães é principalmente não apenas sua ocupação precoce com os antigos, mas também o fato de que cedo são exortados a conhecer a fundo o que eles aprendem. Eles não se satisfazem facilmente e insistem mais em idéias claras. Nossa juventude se deteriora com a terrível leitura confusa, e, certamente, mais que tudo neste mundo, através de nossos poetas, que tanto transbordam de sentimento. (146) 15 cadernos ufs - filosofia REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BATT, Kurt. Taschenbuch, 1976, p. 246-297 Nachwort, in: LICHTENBERG. Aphorismen. Insel HARBSMEIER, Eberhard. Kierkegaard – Pessoa e obra – Biografia filosofia. Educação e filosofia, vol. 7, n. 13: p. 193-205, jan-jun. 1993. e LE BLANC, Charles. Introduction, In: LICHTENBERG. Le miroir de l’âme. Trad. Charles le Blanc. 2.ed. Paris, José Corti, 1997, p. 9-94 PATZIG, Günther. Sobre o filósofo Lichtenberg. Educação e filosofia, v.21, n.41, jan-jun, 2007, p. [Trad. Bento Itamar Borges] PROMIES, Wolfgang. Georg Christoph Lichtenberg in Selbstzeugnissen und Bilddokumenten. Reinbek bei Hamburg, Rowohlt, 1964 VALLS, Álvaro L. M. Apresentação, in: KIERKEGAARD, S. A. O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates. Trad. Álvaro L. M. Valls. Petrópolis, Vozes, 1991, p. 7-12. VALLS, Álvaro L. M. Entre Sócrates e Cristo: ensaios sobre a ironia e o amor em Kierkegaard. Porto Alegre, EDIPUCRS, 2000. VILLORO, Juan. La voz nel desierto (prólogo), In: LICHTENBERG, Georg Christoph. Aforismos. Trad. Juan Villoro. México, Fondo de Cultura Económica, 1989. 16