Fontes de Tecnologia no Setor de Telecomunicações: Um Estudo Multicaso em Três Multinacionais (MNC’s) e um Centro de Pesquisa Instalados no Brasil Tema: Cooperação empresa-instituto tecnológico-universidade. Categoria: artigo científico Flávia Oliveira do Prado USP- Universidade de São Paulo E-mail: [email protected] Geciane Silveira Porto FEA/USP E-mail: [email protected] Resumo As telecomunicações vêm ocupando cada vez mais uma posição de destaque, em nível mundial, em face do intenso desenvolvimento tecnológico atribuído ao setor, e da globalização de atividades produtivas e financeiras. Observa-se que esse setor é extremamente dependente de inovação e das várias fontes geradoras de pesquisa e informação. Em decorrência desse cenário, torna-se de extrema importância entender o processo de identificação e utilização das fontes de inovação e tecnologia por parte das empresas do setor de telecomunicações Esta pesquisa é um estudo multicaso realizado em 3 empresas multinacionais fabricantes de equipamentos para o setor, que segundo o modelo de Frassman (2001) encontram-se no nível 1; e em um dos institutos de pesquisa cuja competência principal é a geração de tecnologia para o setor . Este estudo abordou o processo de seleção das fontes de inovação, identificou as fontes mais utilizadas para produtos e processos, a freqüência e a importância do uso destas para as empresas do setor, a natureza do conhecimento buscado em cada fonte de inovação, o processo de transferência tecnológica, as razões pelas quais levam as empresas cooperarem com as universidades e a importância da lei de informática (lei nº 10.176). Apresenta-se também a ótica do Instituto de Pesquisa, referente às questões citadas anteriormente. Palavras-chave: fontes de tecnologia, cooperação empresa/universidade/instituto de pesquisa, transferência tecnológica. !"#$% # &' ( Fontes de Tecnologia no Setor de Telecomunicações: Um Estudo Multicaso em Três Multinacionais (MNC’s) e um Centro de Pesquisa Instalados no Brasil1 1. Introdução No setor de telecomunicações as empresas necessitam se adequar ao arranjo competitivo imposto pelo mercado, ampliando tanto sua capacidade interna de inovação e de incorporação de novos conhecimentos, como buscando novas fontes de tecnologia que sejam complementares, a fim de proporcionar um grande diferencial no mundo competitivo. López (1998) salienta que com a globalização, as companhias terão que operar em um novo ambiente de pesquisa, com uma estrutura mais complexa devido a diferentes fatores. Uma das principais mudanças na estrutura de pesquisa está no aumento da necessidade de fontes externas de conhecimento, tanto em importação de tecnologia embarcada, quanto em parcerias e alianças estratégicas. Assim, este estudo pretende analisar o que faz com que as empresas do setor de telecomunicações busquem fontes de inovação e/ou tecnologia, como essas empresas selecionam estas fontes, quais são as fontes mais utilizadas para produtos e para processos e quais são as contribuições mais relevantes em relação a produtos e processos que estas fontes fornecem. Outro ponto a ser analisado são os mecanismos utilizados pela empresa para garantir a transferência da tecnologia tanto aquela contratada quanto à adquirida e qual é a ótica dos institutos de pesquisa sobre as questões citadas anteriormente. 2. Referencial Teórico 2.1 O Processo de Inovação Tecnológica Rieg (2000, p.8) afirma que a partir da década de 80, o enfoque interativo do processo de inovação começou a ter mais força, ou seja, a interação entre os subsistemas científicos, tecnológicos, produtivos e financeiros em todas as etapas do processo de inovação, cada qual desempenhando funções específicas: geração de conhecimento, desenvolvimento de tecnologias, produção de bens e serviços e apoio aos demais agentes, respectivamente. Gassmann et alii (1998) também observaram em seus estudos que empresas intensivas em tecnologia procuram localizar suas atividades de pesquisa próximas aos centros de excelência tecnológica. A gerência das atividades externas é caracterizada por maior complexidade do que as locais, porém os custos adicionais da coordenação internacional 1 Este trabalho integra o projeto temático FAPESP/PRONEX - Gestão da Inovação para a Competitividade Empresarial Brasileira no Contexto de Globalização da Economia (GICEG) – subprojeto 7 : Fontes de Inovação para o Setor de Telecomunicações 2 !"#$% # &' ( devem ser balanceados com efeitos sinérgicos, como a redução de tempo de lançamento, a melhora da efetividade e o aumento da capacidade de aprendizagem. Bignetti (2001, p.1) ressalta a importância da inovação para empresas intensivas em conhecimento que são caracterizadas pela introdução de inovações radicais e de produtos com ciclos de vida curtos. Segundo o autor, “a velocidade com que ocorre atualmente a competição tecnológica desafia os dirigentes das organizações a adotarem novas posturas estratégicas e conceberem novas formas de desenvolver tecnologias e de criar oportunidades de mercado para seus produtos”. O setor de telecomunicações comporta-se de forma similar a descrita pelo autor citado acima. As empresas estão buscando cada vez mais inovar, pois o ciclo de vida dos produtos está mais curto, e desse modo o desenvolvimento de novas tecnologias tornou-se essencial para que as empresas venham a obter vantagem competitiva e descobrir novas oportunidades, já que o mercado está mais pulverizado e o lançamento de novas tecnologias é cada vez maior. 2.2 As Fontes de Inovação e Tecnologia As fontes de inovação e tecnologia são de extrema relevância para a performance inovadora apresentada pelas empresas. De acordo com Quadros et alii (2001), os esforços tecnológicos realizados pelas empresas brasileiras são reduzidos, assim as atividades relacionadas à inovação deveriam ser identificadas de modo a explicar como a atividade inovadora no Brasil é desenvolvida. Daim et alii (1998) verificaram que dentre os possíveis canais de aquisição de tecnologia os mais importantes eram justamente o desenvolvimento interno, seguido pelos fornecedores, suporte à educação dos funcionários e encontros tecnológicos. Os autores concluíram que as fontes de aquisição tecnológica podem ser agrupadas em três fatores: a) a pesquisa e educação (Consórcio com universidades, Consórcio de pesquisa, Educação de funcionários, Faculdades, P&D externo); b) Redes de trabalho (Encontros tecnológicos, Periódicos, feiras); c) Desenvolvimento interno/ fornecedores, (Interno, Licença, Fornecedores). Barañano (1998), em um estudo com 652 empresas portuguesas, identificou como as fontes de inovação mais utilizadas para produtos ou serviços: a interligação com outras empresas; as associações com organizações externas de P&D; a imprensa, as feiras ou exposições; o departamento interno de P&D; as equipes interfuncionais; a inovação no equipamento adquirido; a relação próxima com concorrente, fornecedor, clientes-chave; as necessidades dos clientes; a análise minuciosa dos produtos concorrentes. Destacou que a principal fonte para todas as dimensões de empresas foi a necessidade do cliente, fato que comprova a preocupação em adaptar novos produtos e serviços às exigências do mercado. Uma importante diferença entre as grandes e pequenas empresas é que as primeiras se utilizam mais os departamentos internos de P&D, enquanto as pequenas empresas nem possuem tal departamento formalizado. Para inovação nos processos e procedimentos, Barañano (1998) destaca que a fonte mais utilizada, em todas as dimensões, é o benchmarking, seguido do trabalho com clienteschave, do relacionamento com fornecedores chave e com concorrentes chaves. Dentre as fontes internas de inovação de processos, a autora constatou a predominância da criação de 3 !"#$% # &' ( grupos internos para todas as empresas, enquanto fatores como equipes multifuncionais e departamento de informação interna são mais relevantes para as empresas de maior porte, uma vez que as pequenas empresas não possuem sistemas complexos de informação. Silva et alli (2000) observam que as empresas pertencentes a setores mais tradicionais absorvem predominantemente tecnologia de suporte à sua operação, caracterizando-se como usuárias e/ou receptoras de tecnologia gerada fora de sua indústria por outros setores. Já as empresas pertencentes aos setores dinâmicos têm na tecnologia o objetivo de suas atividades, desenvolvendo-se e conquistando mercados e os resultados de P&D mostram-se superiores, tanto os processos produtivos quanto os produtos finais incorporam relativa densidade tecnológica. Assim, a elevação nos níveis competitivos resulta diretamente no progresso tecnológico dos setores com os quais mantém estreita relação. Quadros et alii (2001) ao analisar as empresas industriais de São Paulo, constataram que a importância de fontes externas de informação é maior para as pequenas e médias empresas do que para as grandes empresas. No que se refere ao grau de importância atribuído as fontes de inovação, constataram que clientes, fornecedores e competidores estão em primeiro lugar para as pequenas e médias empresas, sendo que o departamento interno de P&D aparece somente em sexto lugar, o que indica que a inovação começa em áreas que não estão diretamente ligadas a atividades tecnológicas. Já as grandes organizações possuem clientes em primeiro lugar e o departamento interno de P&D em segundo, demonstrando que apesar destas seguirem a demanda do mercado como padrão de inovação, este é baseado na adoção e melhoria de tecnologias. Segundo Porto (2000, p.219), “ao comparar empresas que cooperam e as que não cooperam com a universidade no que se refere às fontes de tecnologia e inovação, destaca que as primeiras atribuem maior importância e também utilizam com maior freqüência o departamento interno de P&D, as outras empresas do mesmo grupo empresarial, as universidades, os institutos de pesquisa e a aquisição de patentes. Já as empresas que não cooperam valorizam e utilizam mais o departamento interno de P&D, publicações especializadas, conferências, simpósios e os clientes”. Bicalho-Moreira e Ferreira (2000) destacam que a interação universidade-empresa é crucial para a sobrevivência e eficiência de ambas instituições bem como para o desenvolvimento tecnológico do país. Na universidade percebe-se a falta de uma definição clara do que é considerado atividade científica ou tecnológica. Essa característica pode ser resultado de vários fatores: culturais, econômicos, institucionais, ou então, a não existência de uma consciência, tanto pela instituição como pelo pesquisador, da importância de tornar visíveis os resultados dos desenvolvimentos tecnológicos. A OECD (2000) indica que o patenteamento é tendência dos países para buscar fontes de inovação e tecnologia onde quer que elas estejam, já que os custos e os riscos da inovação têm aumentado nesse cenário globalizado de alta competitividade. Isso tem levado as empresas a aumentarem a cooperação com outras empresas para dividir os custos de trazer novos produtos e serviços para o mercado e reduzir a incerteza. Dados sobre patentes mostram que tal cooperação acontece em nível internacional. Seixas et alii (2001) também destacam a importância da formação e desenvolvimento de uma aliança estratégica em empresas de alta tecnologia, como é o caso das empresas que estão voltadas para o ramo de telecomunicações. 4 !"#$% # &' ( 2.3 O Processo de Inovação no Setor de Telecomunicações Observa-se que o setor de telecomunicações é usuário e promotor de desenvolvimento tecnológico proveniente de várias fontes geradoras de pesquisa e informação. Szapiro (2000) observa que para as subsidiárias de MNC’s, a principal fonte de tecnologia é a matriz e que estas não têm desenvolvido uma base tecnológica forte no local. Tal fato tem gerado um efeito negativo no sistema de inovação local. Por outro lado, há a expectativa de que o fundo setorial FUNTEL - Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações, venha ao encontro a esta necessidade. Outro instrumento de ação política é a Lei da Informática nº10.176, de 11/01/2001 que objetiva a criação de inteligência nacional e o fomento ao setor. Brufato e Maculan (2000, p.9), no estudo sobre a dinâmica da inovação no setor de equipamentos de telecomunicações, concluem que não há interações entre as empresas locais. Também não há interações entre as empresas locais e as filiais de multinacionais instaladas no país, ou seja, “não há fluxos de tecnologia localizados no país. Essa limitada articulação das empresas locais com empresas internacionais restringe o acesso dessas empresas a novas tecnologias e a novos produtos, colocando o país em uma posição modesta no mercado mundial e revelando que o processo de inovação de geração de inovações é exógeno ao ambiente nacional”. 3. Aspectos Metodológicos Esta pesquisa é um estudo multicaso em três empresas multinacionais fabricantes de equipamentos para o setor, que segundo o modelo de Fransman (2001) encontra-se no nível 1, fabricantes de equipamentos. Foram realizadas entrevistas em profundidade com os dirigentes da área de P&D para obtenção de informações sobre as fontes e arranjos para inovação que as empresas desse setor utilizam e com o diretor de inovação tecnológica de um Instituto de Pesquisa. 4. A Empresa Alpha A empresa analisada trata-se de uma multinacional, fabricante de equipamentos e softwares para o setor, a qual passa a ser denominada de Alpha. A matriz está localizada nos EUA, onde a empresa possui um dos maiores centros de pesquisa do mundo, responsável pelo desenvolvimento da maioria das inovações radicais geradas para toda a corporação. 4.1 Fontes de Inovação e Tecnologia A empresa Alpha para entrar no mercado brasileiro adquiriu duas empresas brasileiras para incorporar a tecnologia de centrais telefônicas. Essas empresas desenvolviam a sua tecnologia internamente no país por meio de grupos de pesquisa próprios e institutos de 5 !"#$% # &' ( pesquisa. Esses grupos e institutos de pesquisa eram fomentados pela antiga lei nº 8248 de 23 de outubro de 1991, que mais tarde deu origem a lei nº 10.176 de 11 de janeiro de 2001. Atualmente, a empresa não faz desenvolvimentos internos, mas continua investindo recursos próprios e os da lei, para desenvolver novos projetos e tecnologias no País. A empresa investe em parcerias com universidades e centros de pesquisa, tais como: UFMG, PUC-MG, UNICAMP, PUC-RJ, INATEL, CÉSAR, FITec e o CPqD. O trabalho desenvolvido com as universidades em conjunto com a empresa Alpha é um pouco diferenciado, pois a experiência de parceria com essas instituições, segundo o entrevistado, tem apresentado dificuldades ao longo dos projetos. Dentre as dificuldades mais relevantes foram destacados os custos elevados quando a empresa deseja ser detentora exclusiva dos resultados, já que essa é uma política interna da organização. No quesito negociação, geralmente estas têm sido avaliadas como muito burocráticas. No quesito cumprimento dos prazos, estes se mostraram difíceis de serem atingidos nos projetos de cooperação. Dessa forma, quando a empresa deseja gerar inovações, decide por buscar associação com as fundações ou institutos de pesquisa em razão destes apresentarem um comportamento mais ágil. Esse cenário decorre em parte da atual posição que as universidades têm perante a indústria, uma vez que priorizam a sua independência e há dificuldades para trabalhar com prazos rígidos, enquanto a empresa visa resultados em prazo determinado. Um outro ponto de divergência é a discussão da propriedade dos resultados das pesquisas, uma vez que as indústrias, em geral, requerem 100% da propriedade intelectual e muitas universidades não aceitam esta situação, devido as suas políticas de divisão da propriedade industrial, as quais diferem conforme a instituição de pesquisa. Quando o objetivo é o desenvolvimento de pesquisa básica e capacitação tecnológica, desenvolvimento de cursos específicos e treinamento do pessoal, estes são realizados nas universidades, que revelam possuir maior competência nestas atividades. No caso de desenvolvimento dos softwares, a parceria com universidades tem sido avaliada como bem sucedida. Outro ponto destacado é o fato de que dos projetos com as universidades ser mais barato do que o desenvolvimento interno. A empresa desenvolve grande número de pesquisas básicas com o centro de P&D da matriz; estas pesquisas não necessitam de um fim específico, sendo dirigidas para romper fronteiras do conhecimento. Tal fato corrobora os estudos de Galina (2001) e Gasmam et alii (1999), quando destacam que as estruturas de P&D estão se tornado cada vez mais globais. O desenvolvimento de novas tecnologias consideradas estratégicas não é realizado por meio de projetos de cooperação com as universidades, devido as dificuldades de gerenciamento adequado para manter o sigilo das novas tecnologias. No Brasil, a empresa concentra-se em pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico específico para atender metas internas de desenvolvimento científico. Com as fundações e centros de pesquisa, citados anteriormente, a empresa realiza projetos de pesquisa e desenvolvimento de produtos. 6 !"#$% # &' ( 4.2 Seleção das Fontes de Tecnologia Para selecionar as fontes de inovação a empresa possui um grupo que visita universidades e institutos de pesquisa e classifica-os segundo as suas melhores competências, com o propósito de melhorar a transferência da tecnologia e monitorar as tendências tecnológicas. O Gerente de P&D citou como exemplo de instituições com competência diferenciada, o INATEL na área de telecomunicações, a UFMG, na área de telemática e o CESAR - Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, no desenvolvimento de software. A empresa, normalmente, também envia um ou mais funcionários para o centro de pesquisa localizado nos EUA, para fazer um estágio a fim de trazer conhecimentos inovadores. Segundo o entrevistado os pesquisadores brasileiros possuem muita competência e são reconhecidos nesse centro. Devido a essa característica, a empresa desenvolve projetos em parceria com a matriz para o mercado internacional, além dos projetos específicos para o mercado brasileiro. Essa também é uma maneira que a empresa utiliza para buscar inovação. Outro mecanismo utilizado pela empresa é a Intranet, na qual são disponibilizados muitos cursos de treinamento; além de informações sobre tudo o que está sendo desenvolvido por toda a corporação, permitindo uma troca de informações entre os pesquisadores via teleconferências. A empresa é muita aberta em relação à disseminação das informações, o que revigora a sua capacidade inovativa. A organização faz monitoramento dos concorrentes, pois o mercado de telecomunicações está sempre sofrendo mudanças rápidas e os produtos têm um ciclo de vida muito curto, assim se faz necessário estar à frente do concorrente. Além deste estar se tornando muito fragmentado. O papel do cliente tem sido importante dentro do processo de inovação da empresa. As operadoras, que constituem-se no seu consumidor final, participam na definição dos produtos que eles desejam, destacando os custos e as especificações que gostariam que fossem atendidos, assim a empresa busca antecipar o que o seu consumidor final realmente necessita. A empresa também monitora as tecnologias comercializadas junto às operadoras, a fim de manter sua operacionalidade, sanar eventuais deficiências, fazer melhorias, ou mesmo simplificar processos. Tudo isso é feito para minimizar esses problemas, por meio de processos inovadores. Observa-se que as tecnologias desenvolvidas pela corporação, na sua maioria são inovadoras, sendo esta uma tendência do setor de telecomunicações. As inovações incrementais são mais freqüentes em atendimento a solicitações por parte das operadoras. Segundo o entrevistado, a participação da empresa na geração do conhecimento em relação à corporação é pequena, entretanto, no Brasil a sua representação é expressiva no desenvolvimento de produtos. 7 !"#$% # &' ( 4.3 Fontes mais utilizadas e Gerenciamento dos Projetos A fonte mais utilizada pela empresa, tanto para produtos quanto para processos, é o centro de pesquisa da matriz. Os processos são desenvolvidos sempre pela matriz devido à sua universalização, que permite a utilização em diferentes plantas. Já os equipamentos desenvolvidos no Brasil são sempre desenvolvidos em conjunto com as fundações e institutos de pesquisa. Pesquisadores da empresa responsabilizam-se pelas especificações a serem atendidas, participando diretamente do projeto cooperativo, de maneira a garantir um melhor gerenciamento do desenvolvimento; este grupo interno permite que a transferência da tecnologia seja feita naturalmente ao longo do processo, podendo colocar mais pessoas quando o projeto está atrasado, ou mais recursos financeiros quando for necessário. O gerenciamento dos projetos internos é feito por gestores específicos para cada projeto com o suporte de uma ferramenta de controle, que atualiza diariamente a situação dos projetos. Este controle é realizado por meio do acompanhamento das horas gastas em cada atividade, dos custos, do número de pessoas que estão trabalhando e das compras realizadas. Já as universidades e os centros externos possuem ferramentas próprias, e, desta forma, para que a empresa acompanhe os resultados são feitas reuniões semanalmente. Os centros mais usados pela empresa são CETUC, CESAR, USP, UNICAMP, CPqD, INATEL e FITec. A matriz não possui contatos diretos com esses centros e fundações. Todos os projetos realizados no País são coordenados pela organização brasileira sem triangulação. Quando a tecnologia é desenvolvida pela matriz, o processo de produção é importado e na subsidiária são feitas as melhorias nos processos e adaptações ao mercado brasileiro, caracterizando a tropicalização dos produtos. No desenvolvimento de produtos em conjunto com a matriz, ou gerados no Brasil, para garantir a transferência de tecnologia, são enviadas várias pessoas do Brasil para o centro de pesquisa da corporação. No caso das patentes, quando a tecnologia é desenvolvida no Brasil, ela é patenteada também nos EUA, com o nome do pesquisador, sendo os direitos atribuídos à empresa local. 5. A Empresa Orium A empresa Orium trata-se de uma multinacional, com a matriz localizada nos EUA, sendo fabricante de equipamentos e softwares para o setor. Está no país há 9 anos e a sua fábrica foi instalada há 6 anos. A empresa desenvolve com as suas fontes de tecnologia os desdobramentos da idéia “mãe”. Segundo a empresa, as tecnologias que são avaliadas como estratégicas sempre são desenvolvidas internamente, já os desdobramentos podem vir a ser desenvolvidos externamente, em centros de pesquisa que são parceiros da corporação. 8 !"#$% # &' ( 5.1 Fontes de Inovação e Tecnologia As principais fontes de tecnologia para empresa são: INATEL, CESAR – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, Instituto de Pesquisa Eldorado (IPE), CPqD e o CEITEC –Centro de Excelência Ibero Americana de Eletrônica Avançada, situado em Porto Alegre. O desempenho dessas fontes de tecnologia tem sido considerado muito bom, já que o escopo financeiro e o cumprimento de prazos têm sido alcançados conforme o planejado. A empresa desenvolve várias parcerias com universidades. Um caso interessante é o chamado PCT – Programa de Capacitação Tecnológica. O intuito desse programa era realizar uma atualização dos currículos, ou seja, gerar profissionais qualificados em telecomunicações, trabalhando em parceria com as principais universidades e escolas técnicas brasileiras. Esse programa foi composto por 17 universidades, sendo que 5 delas aprimoravam-se no desenvolvimento de hardware e 12 no desenvolvimento de software. A parceria com as universidades e centros de pesquisa surgiu a partir desse momento quando foram colocadas algumas questões que deveriam ser aprimoradas. O Instituto de Pesquisa Eldorado (IPE) foi fundado, em 1997, devido a essa percepção. A empresa faz parceria com este instituto para a realização de projetos sob o amparo da Lei de Informática (Lei n°10.176, de 11/01/2001), em que, no mínimo, 2% do faturamento bruto da empresa é aplicado em projetos de P&D desenvolvidos em parceria com entidades/universidades externas, tais como projetos de desenvolvimento de recursos humanos e projetos especiais nos seguimentos ligados à área de telecomunicações. A empresa também viabiliza projetos com o ITA. O grande desafio destacado pela entrevistada com relação à cooperação empresa-universidade é que dentro das universidades não há uma gestão que visa a realização de um trabalho em conjunto, geralmente os objetivos são distintos em relação aos da empresa, além da burocratização ser muito grande. Dentro da universidade não há uma separação entre o mundo da pesquisa e o outro que está focado nas parcerias. A parceria é muito relevante já que a inovação gera recursos que geram empregos, assim o seu desenvolvimento deveria ser mais natural. Na visão da entrevistada, o CPqD é uma instituição que tinha grande expressão no âmbito nacional, em razão de ter sido a principal fonte de tecnologia até a privatização do sistema. Entretanto devido a cultura organizacional resultante da era monopolista, o centro tem-se mantido distante das empresas. A instituição ainda não conseguiu implementar totalmente a sua mudança organizacional, eles não possuem preço de mercado, falta uma política para estabelecimento de um convênio em que o centro participa com o conhecimento e a empresa com o financiamento dos recursos necessários. A entrevistada ressaltou que as empresas estão buscando com as instituições fazer a inovação e não gerar a inovação, ou seja, o mundo organizacional está em cima do D e não do P. 5.2 Seleção das Fontes de Tecnologia A empresa classifica os centros de pesquisa e universidades segundo as suas competências de gestão e habilidades específicas de pesquisa. O PCT, Programa de Capacitação Tecnológica, mapeou de Norte a Sul, as principais universidades e centros de pesquisa do Brasil com o objetivo de verificar as principais atividades e tendências que estão sendo desenvolvidas no país. 9 !"#$% # &' ( No Brasil há o desenvolvimento dos produtos, majoritariamente, na área de software. A política interna da corporação é a pesquisa interna sigilosa, nem as subsidiárias possuem o conhecimento do que está sendo realizado, somente quando o produto se torna comercializável é que os desdobramentos são feitos pelas subsidiárias. O processo de inovação tecnológica na Orium é focado na necessidade do cliente. Realizam-se pesquisas para conhecer os diferentes perfis de usuários de aparelhos celulares. Como, por exemplo: executivos, mães, jovens, profissionais liberais das mais diversas áreas (pedreiros, encanadores e eletricistas, etc). O objetivo desse tipo de pesquisa é conhecer para cada um desses segmentos a razão que leva essas pessoas a usar determinado tipo de celular, para que elas usam o aparelho e quais são as funções mais importantes do celular. Os produtos globais são definidos com base nesses perfis. Nos mercados regionais, como o Brasil, são feitas customizações, isto é, adaptações, desenvolvimentos específicos e os testes dos produtos para toda América Latina. A política da corporação é saber o que é estratégico para cada subsidiária e cada uma faz as regionalizações necessárias, como já foi mencionado anteriormente. Observa-se que o mercado brasileiro é bastante diversificado, uma vez que são vendidos tanto produtos de baixo quanto de alto valor agregado. Entretanto, vale ressaltar que a maioria do mercado está direcionada para produtos mais baratos. 5.3 Gerenciamento de Projetos e importância da Lei de Informática O acompanhamento do desenvolvimento de projetos é feito semanalmente e há toda uma documentação dos processos que estão sendo realizados. A empresa está buscando a certificação nível quatro do CMM2, portanto a instituição que faz parceira com a empresa tem que seguir a mesma sistemática, ou seja, pessoal técnico com uma ótima formação e link direto para o acompanhamento fase a fase. O gerenciamento de projetos nas universidades que a empresa tem parceria é feito de forma análoga. Quando questionada sobre a importância da lei da informática para as empresas, ou seja, caso ela desaparecesse, quais seriam os prejuízos, a entrevistada declarou que o impacto para a empresa não seria tão grande, já que a organização tem uma relação de parceria com os centros de pesquisa que não se constitui apenas como um meio para a utilização dos recursos provenientes da lei. Os centros de pesquisa e universidades que a empresa possui como fontes de inovação são considerados como parceiros externos da empresa, sendo que estes são atestados pelos seus fornecedores. A entrevistada destacou que as empresas precisam ser competitivas em custos para garantir a sua sobrevivência. Assim, o governo deveria subsidiar P&D, já que não dá tempo das empresas obterem o retorno do investimento feito nas inovações, principalmente devido ao ciclo de vida curto dos produtos. CMM - Capability Maturity Model for Software - um modelo para julgar a maturidade dos processos do software de uma organização e para identificar as práticas chaves que são requeridas para aumentar a maturidade destes processos. Há cinco níveis : initial, repeatable, defined, managed e optimizing. 10 !"#$% # &' ( 6. A Empresa Antares A empresa Antares também é uma multinacional, fabricante de equipamentos e softwares para o setor e com a matriz situada no Canadá, onde estão presentes os gerentes de projetos PMLs (Product Line Managers), que possuem o papel de observar quais são as novas tendências de mercado e quais os produtos que devem ser gerados para suprir cada tendência em particular. São eles que definem quais institutos internos (laboratórios de desenvolvimento nas diferentes subsidiárias) e externos que serão utilizados para desenvolver um determinado produto. Segundo o entrevistado, os PMLs estão mais preocupados com mercados globais, com grande potencial de consumo. Geralmente as diversas subsidiárias recebem as encomendas de acordo com a sua competência principal e desenvolve o produto, a unidade brasileira trabalha dessa forma. Nos EUA, por exemplo, as operadoras influenciam no processo de inovação. 6.1 Fontes de Inovação e Tecnologia Até 1998, a unidade brasileira só trabalhava com o processo produtivo. Quando havia uma demanda específica de mercado, vinha uma equipe especializada para instalar a linha produtiva de um determinado produto. Atualmente, a empresa brasileira ganhou uma maior autonomia, entretanto os projetos que vêem para o Brasil são produtos que compõem redes que utilizam equipamentos manufaturados localmente e também importados. Isso se tornou possível com a lei de informática, pois em razão desta, a empresa teve um incentivo para criar um centro de pesquisa no país e começar fazer algum tipo de desenvolvimento. A empresa no Brasil responde à sede administrativa denominada CALA (Central América and Latin América), que está instalado na Flórida devido ao tamanho e importância do mercado. Cabe ressaltar que a estratégia tecnológica da empresa é determinada pelos PLMs que atendem as necessidades específicas do mercado e da legislação. O principal centro de fornecimento de tecnologia para empresa é a matriz e para capacitação dos funcionários são as instituições parceiras. O relacionamento da matriz com a subsidiária é feito a partir de três variáveis: disponibilidade de tempo, custo do desenvolvimento e capacitação técnica. Destaca-se que os engenheiros brasileiros têm desempenhado um papel importante, já que o nº de falhas é muito pequeno e o cumprimento dos prazos é preciso. O histórico do centro de desenvolvimento no Brasil é um grande argumento dentro da corporação para garantir o desenvolvimento de novos projetos. Os profissionais brasileiros têm que apresentar um menor custo e ter maior qualidade. Os principais concorrentes são a Índia e a China por terem, em geral, um custo menor, entretanto ao comparar o Brasil com a China, por exemplo, o Brasil possui um histórico de qualidade superior. Os principais parceiros da empresa no Brasil são a FINATEL (Fundação Inatel), a qual colabora com 1/3 da força de trabalho do laboratório e está totalmente integrada na estrutura de desenvolvimento da empresa, possuindo instalações dentro da organização. O CPqD é um parceiro diferente da Inatel já que este não é integrado na estrutura de desenvolvimento da empresa. Para este são enviadas partes de algum módulo que está sendo desenvolvido e que não interferem no sigilo da empresa e o instituto desenvolve a 11 !"#$% # &' ( sua parte e entrega pronto para empresa. Atualmente, embora a parceria seja em caráter permanente, a empresa não tem nenhum projeto em andamento com este instituto. O CÉSAR - Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife - também é um parceiro da empresa, além da FUNCAMP que aloca estagiários para a empresa, o COPPE-RJ e a Brisa que é uma empresa de consultoria sobre certificação de produtos junto a Anatel. Destaca-se que estas fontes são mais utilizadas para prover tecnologia incremental e contribuir para capacitação humana. Nesse aspecto, tanto o CESAR quanto o CPqD são igualmente relevantes. Com o CPqD, todos os projetos realizados foram bem sucedidos com relação ao cumprimento de prazos, qualidade técnica e cumprimento do orçamento. O desenvolvimento é estratégico para empresa e a necessidade de controle se tornou indispensável, dessa forma a tendência que a organização está seguindo é passar partes bem definidas de um projeto, que não prejudicam o sigilo e são passíveis de serem realizadas fora da organização. A FINATEL é vista como a fonte de tecnologia mais eficaz já que há uma total integração entre esta e a organização, na visão da empresa este relacionamento é uma espécie de aliança. O relacionamento com a FUNCAMP segue um modelo parecido com do INATEL, eles cuidam da parte administrativa, de contratação dos estagiários, e estes são alocados dentro da estrutura da empresa, se reportando aos funcionários de cada área específica. Desta forma o resultado do trabalho dos mesmos fica totalmente sob controle da empresa. 6.2 Gerenciamento dos Projetos e a importância da Lei de Informática Todos os projetos realizados em conjunto com os centros de pesquisa são acompanhados durante o desenvolvimento. Esse processo é natural e garante a transferência da tecnologia, uma vez que todas as fases são acompanhadas para certificar se o desenvolvimento está sendo alcançado e dessa forma há uma troca permanente de informações. Há também uma pessoa designada (Prime) para fazer a interface com centros de pesquisa cujo nível hierárquico é definido dependendo do tamanho do projeto. Essa pessoa é responsável pelo monitoramento da parte técnica, do desenvolvimento financeiro e da parte administrativa. A existência de um laboratório, no Brasil, foi possível devido à existência da lei de informática, assim o que é gasto com o laboratório é o que a empresa deixa de recolher em impostos. Segundo o entrevistado, se essa lei desaparecesse, a existência do laboratório seria repensada e muito provavelmente, as fundações seriam abaladas. A empresa também está desenvolvendo projetos com parcerias mais amplas, como por exemplo, o projeto de aplicações de Internet Móvel que está em processo de aprovação pela FINEP e será uma parceria entre várias organizações. A Empresa Antares entrará com a infra-estrutura e os parceiros farão o desenvolvimento de aplicações de Internet Móvel. O uso dos laboratórios beneficiará todos, ou seja, as operadoras, a comunidade e as universidades que deverão participar. 12 !"#$% # &' ( 7. O Centro de Pesquisas Beta O Centro de Pesquisas Beta foi criado, na década de 70, com o intuito de desempenhar um papel estratégico na capacitação tecnológica brasileira no setor de telecomunicações. Integrava uma grande empresa estatal e o Governo Federal o tinha como instrumento de política setorial. Como a economia brasileira pautava-se pelo modelo de substituição de importações, era atribuída ao Centro de Pesquisas a tarefa de liderar as iniciativas de desenvolvimento local em tecnologias de telecomunicações, articulando as atividades empreendidas por Universidades, empresas e demais centros de pesquisa, por meio da concepção e desenvolvimento de equipamentos e sistemas. Nesse período o centro possuía grande demanda devido ao poder de compra do Estado. Até então o modelo era composto por um tripé, Indústria – Centro de Pesquisas Beta Universidades (Recursos Humanos,) que se configurava como uma base consistente para o desenvolvimento de novas tecnologias. As principais universidades que participaram de pesquisas conjuntas eram a Unicamp, a PUC-Rio, a USP, o ITA e a UFMG. O centro era responsável pela transformação do conhecimento gerado pelas atividades de pesquisa em produtos industrializáveis. Após o processo de abertura da economia brasileira, o Centro de Pesquisas Beta passou a enfatizar o desenvolvimento de aplicativos de software, como por exemplo, o SAGRE (sistema de gerenciamento da planta por meio de informações geográficas). O desenvolvimento de hardware passou a ser feito de forma bastante seletiva, destacando-se apenas o projeto da central telefônica Trópico e da tecnologia de telefone público a cartão indutivo (TPCI). O centro também passou a oferecer às empresas estatais de telecomunicações uma gama de serviços tecnológicos, consultorias e projetos de engenharia. 7.1 Transformação do centro em uma fundação de direito privado Com a privatização das empresas de telecomunicações, o Centro de Pesquisas foi transformado em uma fundação de direito privado. Assim, o centro foi posto diante do desafio de transformar suas competências acumuladas – conhecimentos, sistemas, tecnologias – em recursos aptos para garantir a sobrevivência da instituição em um ambiente de mercado. Esta situação corrobora o trabalho de Graciosa (2000), que enfatiza que no cenário pós-privatização haverá a necessidade de uma importante fonte de recursos para a instituição, um quadro no qual não se desenvolverá tecnologia exclusivamente para um monopólio público, mas para as diferentes empresas deste setor, bem como a identificação de outros setores para os quais a instituição poderá passar a destinar os seus conhecimentos. O Centro de Pesquisas, após essa mudança institucional, passou a ter uma dupla função, a primeira voltada para o mercado, para a comercialização direta de seus desenvolvimentos e a segunda de caráter estratégico, voltada para preservação da competência em pesquisa e desenvolvimento, conforme preconizado em lei federal. Do ponto de vista temático, o centro intensificou a sua concentração no desenvolvimento de software, sem, contudo abandonar o perfil de atividades adotado ao longo da década de 90. 13 !"#$% # &' ( 7.2 Comercialização de tecnologia e oportunidades de negócios O Centro Pesquisas Beta se apresenta como fonte de tecnologias sob três formas principais: Provedor de serviços tecnológicos de telecomunicações, a fim de manter a inteligência nacional em tecnologias de telecomunicações por meio de trabalhos de vanguarda, neutros e independentes. Provedor de tecnologias de equipamentos e sistemas de telecomunicações, transferindo tecnologia para a indústria nacional e promovendo a criação de novas empresas de alto conteúdo tecnológico (spin offs). Provedor de sistemas software para telecomunicações, buscando competir globalmente como fornecedor de aplicativos de grande porte e complexidade para telecomunicações e promover um efeito “arraste” que beneficie as empresas nacionais ao longo da cadeia de serviços de software. Esta última forma é a que deverá ter maior peso do ponto de vista comercial, pois é onde acredita-se que estejam as maiores oportunidades brasileiras no novo cenário mundial das telecomunicações. A instituição também manteve uma competência para transferir para a indústria a tecnologia gerada nos projetos de P&D. Algumas empresas que possuem um interesse específico em determinadas tecnologias podem concretizar essas oportunidades propondo projetos em parceria com o centro e utilizando mecanismos governamentais, como os incentivos da lei da informática e os recursos do FUNTTEL. Esta é uma área que apresenta um grande potencial para a instituição, seja pelo lado da receita, seja pelo lado do benefício para as empresas do país. Outros produtos vendidos pelo Centro são as consultorias e os ensaios laboratoriais para homologar e certificar equipamentos para as indústrias. No caso dos ensaios, o centro prepara relatórios e emite certificados para verificação, por exemplo, da qualidade do produto. A instituição é credenciada pelo INMETRO e outras instituições do gênero. Segundo o Diretor de Gestão da Inovação do Centro, vislumbram-se, no momento, grandes oportunidades no desenvolvimento de novos serviços de telecomunicações para as operadoras, no fornecimento de aplicativos de software para suporte a operação e negócios dessas prestadoras e, de uma forma geral, serviços e software para aquelas empresas que desejam utilizar tecnologias de telecomunicação e tecnologia da informação voltadas para a melhoria dos seus produtos e processos. O fornecimento de tecnologia (hardware) para as indústrias sem o apoio do governo não é mais a principal forma de comercialização de tecnologia da instituição. O entrevistado ressaltou que a maioria das empresas operadoras e fornecedoras de equipamentos de telecomunicações são de origem estrangeira e possuem centros de P&D próprios em seus países de origem. Hoje, no Brasil, são poucas as instituições não-acadêmicas que possuem um trabalho independente com linhas de pesquisa próprias, podendo-se citar o CPqD, CERTI, LACTEC e CESAR. Uma possibilidade interessante para desenvolvimento tecnológico é explorar certas exigências da nova regulamentação das telecomunicações como o desenvolvimento de 14 !"#$% # &' ( tecnologias que venham permitir a desagregação do acesso à casa do usuário (unbundling), o que poderá estimular a concorrência de diversas operadoras no segmento residencial, visto que, hoje, o consumidor somente tem acesso total aos serviços de telecomunicações através da operadora local. Novas oportunidades de comercialização foram identificadas na adaptação de tecnologias originárias das telecomunicações para outros setores de atividade econômica. É o caso, por exemplo, de aplicativos de software de telecomunicações adaptados para uso no setor elétrico. Também é o caso de tecnologia de hardware para transmitir sinais de comunicação nos próprios cabos e fios elétricos (“power line comunication”), empregada para identificar e rastrear problemas no sistema, por meio de modems especiais. 8. Considerações Finais Uma vez que esta pesquisa está em andamento e, ainda não foi possível alcançar o seu objetivo principal que é verificar como funciona a dinâmica da inovação das empresas fabricantes de equipamentos do setor de telecomunicações, o estudo apresentado está restrito a três empresas e um dos centros de pesquisa. Observa-se que as empresas estudadas seguem a mesma tendência apresentada por Barañano (1998) e Daim et alii (1998) em que as principais fontes de inovação identificadas foram o departamento interno de P&D, a cooperação com universidades, as associações com organizações externas de P&D, e as necessidades dos clientes. A empresa Alpha utiliza principalmente como fontes de tecnologia a fundação interna, as universidades e centros de pesquisa como o CÉSAR, o INATEL e o CPqD. Já a empresa Orium tem como seus principais parceiros o CESAR, o INATEL e o Instituto de Pesquisa Eldorado. A empresa Orium assim como a Alpha e a Antares têm o cliente como fator chave no processo de inovação, fato que ressalta a preocupação em adaptar novos produtos e serviços às necessidades do mercado, corroborando com a colocação feita por Baranãno (1998). Outra situação observada é a interação empresa-universidade, a qual ainda apresenta algumas dificuldades. Na ótica das empresas, principalmente da Alpha e Orium, não há uma definição clara da postura das universidades perante as empresas, o que pode ser causado pelos fatores culturais, econômicos e institucionais. Isso demonstra que há uma necessidade de mudança na postura tanto das empresas quanto das universidades para que o intercâmbio de informações e conhecimentos seja mais efetivo e dinâmico. Outra evidência é que as empresa estudadas realizam no Brasil, somente desenvolvimento tecnológico, ou seja, a adaptação de novos produtos e/ou produção de produtos novos que atendam as necessidades do cliente. As inovações radicais são realizadas na matriz, o conhecimento é gerado fora do país, contribuindo assim para a fragilidade da infra-estrutura científica do País. Outro aspecto observado é que a lei de informática continua sendo decisiva para a manutenção de investimentos no país, sugerindo que a sua suspensão impactará diretamente os esforços tecnológicos atualmente desenvolvidos. 15 !"#$% # &' ( Em relação ao centro de pesquisa estudado, observa-se que este vem se adaptando às mudanças organizacionais e às necessidades do mercado. O atual foco é oferecer para o mercado novos serviços, empregando novas estratégias, que inclui atender outros setores que não sejam somente o setor de telecomunicações. Com a nova configuração, o centro deixou de ser o principal player para o desenvolvimento da pesquisa nacional, fato que contribuí para a dispersão da capacidade tecnológica brasileira. 9. Referências Bibliográficas Barañano, A. M.. A Relação entre a Inovação e a Dimensão de Empresas, XX Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, 1998. Bicalho-Moreira, Lucinéia Maria; Ferreira, Marta Araújo Tavares. Inovação Tecnológica na Universidade: Representação nos indicadores de ciência e tecnologia. XXI Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, 2000. Bignetti, Luiz Paulo. O Processo de Inovação em Empresas Intensivas em Conhecimento, XXV ENANPAD, Campinas, 16-19 de setembro de 2001. Brufato, Aline Winckler; Maculan, Anne-Marie. 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