UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA MEIO AMBIENTE, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA BRASILEIRA: A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO MARIA CECÍLIA JUNQUEIRA LUSTOSA JANEIRO 2002 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA MEIO AMBIENTE, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA BRASILEIRA: A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO MARIA CECÍLIA JUNQUEIRA LUSTOSA Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Economia Orientador: Prof. CARLOS EDUARDO FRICKMANN YOUNG RIO DE JANEIRO JANEIRO DE 2002 MEIO AMBIENTE, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE NA INDÚSTRIA BRASILEIRA: A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO MARIA CECÍLIA JUNQUEIRA LUSTOSA Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Economia Banca Examinadora: ___________________________________________________________ Prof. CARLOS EDUARDO FRICKMANN YOUNG ___________________________________________________________ Profa ELDELMIRA DEL CAMEN ALVEAL CONTRERAS ___________________________________________________________ Prof. MAURÍCIO TIOMNO TOLMASQUIM ___________________________________________________________ Prof. PAULO BASTOS TIGRE ___________________________________________________________ Profa SONIA MARIA DALCOMUNI RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE ECONOMIA/UFRJ janeiro de 2002 i Ficha Catalográfica Lustosa, Maria Cecília Junqueira Meio Ambiente, Inovação e Competitividade na Indústria Brasileira: a cadeia produtiva do petróleo [Rio de Janeiro] 2002 xviii, 246 p. 29,7 cm (IE/UFRJ, 2002) Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, IE/UFRJ, 2002 1. Meio Ambiente 2. Inovação 3. Teoria Evolucionária 4. Competitividade Aos meus antecessores, Léa e Aleixo, de quem tenho muitas saudades, A quem me sucede, Lena e Gabriel, que me ensinaram uma nova dimensão do amor. ii “Any great change must expect opposition because it shakes the very foundation of privilege” Lucretia Coffin Mott (1793-1880) “A tecnologia revela o modo como o homem lida com a natureza, o processo de produção pelo qual sustenta sua vida e, assim, põe a nu o modo de formação de suas relações sociais e das idéias que fluem destas” Karl Marx O Capital, v. I, cap. 15. iii AGRADECIMENTOS Super obrigada, Cadu! Estes são os mais sinceros agradecimentos ao meu orientador, Prof. Carlos Eduardo Young. Sua orientação durante o decorrer do meu doutoramento foi fundamental para aprofundar os conhecimentos teóricos, ampliar os horizontes no entendimento da complexa relação entre Economia e Meio Ambiente, contribuindo decisivamente para me incluir na categoria de Economista Ecológico. Seu estímulo à publicação de meus trabalhos resultou em uma produção acadêmica importante nesses quatro anos de curso. Os agradecimentos também são para os meus professores das disciplinas cursadas no doutorado, pelos valiosos conhecimentos que me foram transmitidos e pela aceitação do meu viés “ambiental” na elaboração dos trabalhos de avaliação; Para outros professores e pesquisadores do Instituto de Economia, em especial João Carlos Ferraz e Renata La Rovère pelos seminários de delimitação temática da tese; Edmar Almeida e Carmen Alveal pelo auxílio para melhorar os conhecimentos sobre a indústria do petróleo; Victor Prochnik pelo auxílio na compreensão das cadeias produtivas, além da excelente companhia na sala em que trabalhei mais da metade do meu doutorado; Valéria da Vinha pelas conversas informais sobre as questões ambientais; Para os meus colegas de pós-graduação, em especial Paulo Fernando Cavalcanti (Paulo Pernambuco, com ficou conhecido no Rio de Janeiro) pelas críticas ao capítulo teórico e a montagem do “Frank” (essa é uma outra história!); Alexandre D’Avignon (do PPE/COPPE) pelas discussões em torno das inovações ambientais; Mariana Iooty, Marina Szapiro, Luciano Losekann, Mauro Andrade e de tantos outros pela companhia nos momentos de lazer, tão raros e essenciais aos alunos de doutorado; Para os estagiários do Grupo de Pesquisa em Economia do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (GEMA) do IE/UFRJ, pela contribuição na busca de informações e elaboração de tabelas. Em especial, a Josiane Carvalho de Almeida (Josi), pela sua ajuda decisiva na edição da tese e elaboração de tabelas; iv Para os meus irmão e irmãs pela ajuda a suportar a perda de nossos pais durante o doutorado; Para o Rogério, Lena e Gabriel pelo carinho e amor de sempre. Certamente ficarão muito felizes de não me ouvirem mais dizer: “Quando eu terminar a tese ...”. A todos, muito obrigada ☺ v RESUMO O processo de industrialização das economias capitalistas modernas gerou impactos negativos sobre o meio ambiente: a poluição e a depleção dos recursos naturais. A redução dos impactos ambientais das atividades industriais é vista por muitos agentes econômicos como uma ameaça a sua competitividade. As inovações ambientais surgem como o principal caminho para aliar crescimento econômico e preservação ambiental, permitindo às empresas melhorar sua competitividade. A tese tem por objetivos: buscar evidências sobre o comportamento da indústria brasileira em relação às questões ambientais e sua posição competitiva, enfatizando a relação entre a capacidade inovativa e as preocupações ambientais; e verificar até que ponto as questões ambientais estão sendo importantes para a competitividade da indústria brasileira do petróleo, centrando na questão do desenvolvimento de tecnologias ambientais como principal elemento explicativo da relevância da preservação do meio ambiente no âmbito competitivo da indústria. Na ausência de dados específicos para analisar o comportamento ambiental da indústria brasileira, foram utilizados dados de outras pesquisas que continham variáveis relativas ao meio ambiente. Para verificar o desenvolvimento de tecnologias ambientais na cadeia produtiva do petróleo, buscou-se informações na Petrobras – a maior empresa do mercado brasileiro de petróleo – e nos projetos voltados para o meio ambiente financiados pelo CTPETRO – o fundo setorial para o desenvolvimento de ciência e tecnologia na indústria do petróleo. As principais conclusões em relação à análise do comportamento da indústria brasileira e sua posição competitiva revela as seguintes evidências: as empresas de inserção internacional demonstraram maiores preocupações com as questões ambientais; as maiores empresas consideraram que as questões ambientais influenciam na sua competitividade e que o meio ambiente é um fator de motivação para a inovação; as empresas mais inovadoras são mais motivadas a adotar inovações ambientais; a maioria das empresas de setores de alto potencial poluidor tende a considerar mais a influência das questões ambientais e sua competitividade do que aquelas de menor potencial poluidor. Na indústria brasileira do petróleo, a adoção de tecnologias menos poluentes não tem sido guiada pela proteção ambiental, mas pela busca de eficiência na utilização dos vi recursos. A análise das principais tendências da pesquisa e desenvolvimento de tecnologias ambientais revela que os principais temas abordados pelos projetos ambientais em desenvolvimento foram o monitoramento e o tratamento de final de tubo. Não há evidências de uma integração ampla entre empresas, reguladores e grupos de interesses quanto ao sistema de monitoramento ambiental e divulgação das informações de forma organizada, sistemática e de acesso fácil. Aliado a este fator, a fragilidade institucional da gestão ambiental pública reduz as pressões necessárias à implementação de uma política mais agressiva em termos ambientais para o setor. Assim, mesmo com avanços importantes na área ambiental, a política pública relativa ao meio ambiente na indústria brasileira de petróleo tem se mostrado adaptativa, se comparada às tendências mundiais – estratégias de domínio de tecnologias limpas para a geração de energia. vii ABSTRACT The industrialization process of modern capitalist economies had lead to negative environmental impacts: the pollution and the depletion of natural resources. The reduction of environmental impacts from industrial activities is seen as a threat to many economic agents’ competitive position. Environmental innovations arise as the main path to conciliate economic growth and environmental preservation, allowing firms to improve their competitiveness. This thesis has two objectives. First, to show evidences from Brazilian industry environmental behaviour and its competitive position, stressing the relationship between innovative capacity and environmental concerns. Second, to examine how environmental issues are been relevant to the Brazilian oil industry competitiveness, emphasizing the development of environmental technologies as the main element to account for the relevance of environmental preservation in the industry competitive scope. In the absence of specific data to analyze the Brazilian industry environmental behaviour, data from other surveys that had environmental related variables were used. To find out the development of environmental technologies in the oil productive chain, information from Petrobras – the main company in the Brazilian oil market – was used together with data from environmental projects financed by CTPETRO – the specific funding for science and technology development in the Brazilian oil industry. The main conclusions related to the Brazilian industry environmental behaviour and its competitive position are: companies with global insertion are more concerned with environmental issues; bigger companies considered that environmental issues influence in their competitiveness and that the environment is a motivation for innovation; more innovative companies are more prone to adopt environmental innovations; most of companies from high potential polluter sectors tend to consider that environmental issues influence more their competitiveness than those with lower potential polluter. In the Brazilian oil industry, the adoption of less pollutant technologies is not been driven by environmental protection, instead by the search of more efficiency in resource uses. The analysis of the main tendencies in the research and development of environmental technologies shows that monitoring and the end-of-pipe treatment are chief themes of environmental projects been developed. There are no evidences of a wide viii integration between companies, regulators e stakeholders concerning the environmental monitoring system e the spread of those information in a well organized, systematic and easy access way. In addition, the institutional fragility of the public environmental management system reduces the needed pressures to implement a more emphatic environmental policy for this sector. Despite of significant improvement concerning the environment, environmental public policy related to the Brazilian oil industry is being more reactive, if compared with international tendencies – the strategy of dominance of clean technologies for energy production. ix Índice Lista de Tabelas.................................................................................................................. xiii Lista de Quadros ............................................................................................................... xvii Lista de Figuras................................................................................................................ xviii INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 1 Capítulo 1 - REGULAMENTAÇÃO AMBIENTAL, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE: UMA ABORDAGEM EVOLUCIONÁRIA ........................................................................... 16 1.1 Os Problemas Ambientais e a Teoria Evolucionária ................................................. 16 1.2 Princípios Teóricos da Teoria Evolucionária............................................................. 24 1.3 Inovações Tecnológicas e Mudanças Técnicas.......................................................... 31 1.4 Inovações e Tecnologias Ambientais......................................................................... 38 1.5 Regulamentação Ambiental e Competitividade: as diferentes vertentes de análise .. 48 1.5.1 As melhorias ambientais e a necessidade de regulamentação............................. 48 1.5.2 Regulamentação ambiental e competitividade.................................................... 50 1.5.3 O debate acerca da relação entre competitividade e preservação do meio ambiente – discutindo a Hipótese de Porter ................................................................. 54 1.5.4 Análise dos fatores determinantes da relação entre regulamentação ambiental, inovações ambientais e competitividade: proposta de um instrumental analítico ....... 63 Capítulo 2 - MEIO AMBIENTE E COMPETITIVIDADE: EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS PARA A INDÚSTRIA BRASILEIRA .................................................................................... 71 2.1 Inovação e Meio Ambiente: evidências das empresas paulistas................................ 71 2.1.1 Inserção internacional ........................................................................................ 75 2.1.2 Tamanho da firma ............................................................................................... 84 2.1.3 Inovação .............................................................................................................. 89 2.1.4 Análise Setorial ................................................................................................... 93 2.2 Competitividade e Meio Ambiente: evidências da indústria brasileira ................. 102 2.3 Determinantes do Investimento Ambiental ............................................................ 106 x Capítulo 3 - A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO .................................................. 115 3.1 Breve Histórico da Indústria do Petróleo................................................................. 115 3.1.1. O surgimento e desenvolvimento da indústria do petróleo no mundo............ 115 3.1.2 A indústria do petróleo no Brasil ...................................................................... 122 3.1.3 Situação atual de reservas, produção e consumo no mundo e no Brasil........... 131 3.2 A cadeia produtiva do petróleo ................................................................................ 136 3.2.1 Delimitação da cadeia produtiva do petróleo.................................................... 139 3.2.2 Descrição e ligações da cadeia produtiva do petróleo....................................... 141 3.3 Características e Dinâmica Interna das Etapas Produtivas ...................................... 147 3.3.1. O upstream ...................................................................................................... 148 3.3.2. O downstream .................................................................................................. 152 3.3.3 Os fatores determinantes da competitividade internacional da indústria do petróleo....................................................................................................................... 158 Capítulo 4 - A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO E O MEIO AMBIENTE............ 161 4.1. Problemas Ambientais das Etapas da Cadeia Produtiva do Petróleo .................... 161 4.1.1 O upstream ....................................................................................................... 162 4.1.2 O refino ............................................................................................................. 165 4.1.3. As atividades secundárias............................................................................... 169 4.1.4. Os acidentes..................................................................................................... 170 4.1.5 O consumo do petróleo enquanto fonte de poluição ......................................... 175 4.2. A Cadeia do Petróleo e seu Aparato Regulatório na Área de Meio Ambiente...... 179 4.2.1. Breve histórico da gestão ambiental pública no Brasil ................................... 179 4.2.2. Legislação ambiental da cadeia do petróleo e as agências reguladoras .......... 181 Capítulo 5 - A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS AMBIENTAIS NA INDÚSTRIA DO PETRÓLEO NO BRASIL................................................................. 190 5.1 O Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia na Indústria do Petróleo .................. 191 5.2 A Petrobras e o Desenvolvimento de Tecnologias Ambientais............................... 197 5.3 Os Projetos do CTPETRO na Área de Meio Ambiente........................................... 199 xi 5.4 As Tecnologias Alternativas e as Convergências Tecnológicas: mudança de paradigma ou novas trajetórias tecnológicas no paradigma dos hidrocarbonetos? ....... 205 5.4.1. Tendências tecnológicas na direção de tecnologias mais limpas.................... 205 5.4.2. A estratégia de domínio de tecnologias limpas para a geração de energia ...... 207 CONCLUSÕES.................................................................................................................. 211 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 217 ANEXOS ............................................................................................................................ 227 ANEXO I ....................................................................................................................... 228 ANEXO II...................................................................................................................... 234 ANEXO III .................................................................................................................... 239 ANEXO IV .................................................................................................................... 242 ANEXO V...................................................................................................................... 246 xii Lista de tabelas Lista de Tabelas Tabela 1 – Empresas que consideram o meio ambiente uma oportunidade de negócios e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996............................................................................................ 75 Tabela 2 – Empresas que consideram perdas de mercados devido aos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996................................. 76 Tabela 3 – Empresas que consideram elevação de custos derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996................................. 77 Tabela 4 – Empresas que consideram a degradação da imagem institucional derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 77 Tabela 5 – Empresas que realizaram investimentos na reutilização ou tratamento de resíduos para redução dos problemas ambientais decorrentes de suas atividades e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996............................................................................................ 78 Tabela 6 – Empresas que realizaram investimentos na substituição de insumos contaminantes para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996............................................................................................ 79 Tabela 7 – Empresas que investiram em mudanças no processo de produção para redução de problemas ambientais e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 ............................................... 79 Tabela 8 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996......................................... 80 Tabela 9 – Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente e percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996................................. 81 Tabela 10 – Tamanho das empresas de acordo com o pessoal ocupado, segundo a origem do capital controlador – 1996....................................................................................... 82 xiii Lista de tabelas Tabela 11– Faixa de receita líquida das empresas (em R$), segundo a origem do capitalcontrolador – 1996............................................................................................. 83 Tabela 12 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade, segundo faixa de receita líquida – 1996 ................... 84 Tabela 13 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996.............................................................................................. 85 Tabela 14 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade, segundo faixa de receita líquida – 1996 ................................................................................................... 86 Tabela 15 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996.............................. 86 Tabela 16 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais por tamanho da firma, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996........................... 87 Tabela 17 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais por tamanho da firma, segundo a faixa de receita líquida – 1996................................................................................... 88 Tabela 18 – Empresas que investiram em mudanças no processo de produção para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996..................................................................... 90 Tabela 19 – Empresas que realizaram investimentos na substituição de insumos contaminantes para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996 ..................... 90 Tabela 20 – Empresas que realizaram investimentos na reutilização ou tratamento de resíduos para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996 ..................... 91 Tabela 21 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar, segundo grau de importância do departamento interno de P&D-1996 ............................................................................ 92 xiv Lista de tabelas Tabela 22 – Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente, segundo a importância do departamento de P&D como fonte interna para atividades inovativas – 1996........................................ 92 Tabela 23– Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente, segundo a importância do licenciamento e aquisição de patentes como fontes internas para atividade inovativas – 1996............. 93 Tabela 24 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade e potencial poluidor, segundo setores industriais – 1996.............................................................................................................................. 95 Tabela 25 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade e potencial poluidor, segundo setores industriais– 1996 ................................................................ 99 Tabela 26 – Reservas provadas mundiais – 1980, 1990 e 2000 ........................................ 131 Tabela 27 – Produção, consumo, superávit ou déficit de consumo e percentuais de produção e de consumo de petróleo no mundo – 1999 e 2000 (mil barris/dia) ......... 133 Tabela 28 – Produção, consumo e déficit de consumo de petróleo no Brasil – 1990 a 2000 (mil barris/dia)............................................................................................................ 135 Tabela 29 – Importações e exportações totais, importações de petróleo bruto, participação das importações de petróleo bruto nas importações totais – 1999 e 2000 ................. 136 Tabela 30 – Matriz insumo-produto do macro-complexo químico – 1996 (em R$ milhões)...................................................................................................................... 141 Tabela 31 – Decomposição do investimento offshore a preços de mercado em setor matriz.......................................................................................................................... 144 Tabela 32 – Distribuição de royalties por beneficiários – 1999 ........................................ 145 Tabela 33 – Taxas médias anuais de crescimento – 1999/1996 (em porcentagem)......... 148 Tabela 34 – Operadoras das três rodadas de licitação de blocos....................................... 151 Tabela 35 – Capacidade instalada das refinarias nacionais – 1999................................... 154 Tabela 36 – Emissões estimadas para o refino de petróleo e indústria petroquímica, segundo poluentes da água e do ar – 1996 ................................................................. 167 Tabela 37 – Emissões estimadas para o refino de petróleo, segundo poluentes do ar – 1996............................................................................................................................ 168 Tabela 38 – Balanço energético de países selecionados – 1999........................................ 175 xv Lista de tabelas Tabela 39 – Fontes e setores responsáveis pela emissão de CO2 – Brasil – 1990............. 176 Tabela 40 – Chamadas de Projeto CTPETRO – 1999/2000 ............................................. 196 xvi Lista de quadros Lista de Quadros Quadro 1 – O Macro-Complexo Químico......................................................................... 139 Quadro 2 – Cadeia Produtiva do Petróleo ......................................................................... 140 Quadro 3 – Mapa do Macro-complexo Químico – 1996 (em R$ milhões)....................... 141 Quadro 4 – Mapa do Processo de Exploração e Produção ................................................ 143 Quadro 5 – Principais Impactos Ambientais das Etapas da Cadeia do Petróleo............... 178 Quadro 6 – Algumas Leis Brasileiras Referentes ao Meio Ambiente............................... 179 Quadro 7 – O Que Determina a Resolução Conama 23/94............................................... 182 Quadro 8 – Licenças e Estudos para Licenciamento Ambiental das Atividades de E&P. 183 Quadro 9 – Cadeia do Petróleo e o Quadro Legal Federal................................................ 188 Quadro 10 – Projetos Ambientais CTPETRO................................................................... 202 xvii Lista de figuras Lista de Figuras Figura 1 – Produção,Consumo e Déficit de Consumo de Petróleo no Brasil - 1990 a 2000 (mil barris/dia)............................................................................................................ 135 Figura 2 – Esquema Básico de Refino............................................................................... 147 Figura 3 – Área Concedida por Empresa .......................................................................... 149 Figura 4 – Petróleo Processado e Capacidade de Processamento de Petróleo e Condensado nas Refinarias Nacionais ............................................................................................ 155 Figura 5 – Produção de Derivados de Petróleo nas Refinarias Nacionais – 1999............. 155 Figura 6 – Exportação de Derivados de Petróleo – 1999 .................................................. 156 Figura 7 – Postos Revendedores de Combustíveis Automotivos por Distribuidora – 1999 .................................................................................................................................... 157 xviii Introdução INTRODUÇÃO A fascinante história da industrialização mundial, com seus primórdios na Revolução Industrial inglesa, mostra o papel preponderante do desenvolvimento tecnológico no processo de mudanças radicais que desde então caracterizam as sociedades humanas. É como se tivesse sido jogada uma pedra num imenso lago: seus efeitos vão sendo sentidos na medida em que suas ondas vão se movendo para as margens. Entretanto, a industrialização não se espalhou de maneira uniforme, como as ondas do lago, mas de maneira desigual e assimétrica, sofrendo interferências econômicas, sociais, políticas e institucionais. Os efeitos visíveis – percebidos na superfície do lago – desses mais de dois séculos de história já foram evidenciados, em várias épocas, por muitos autores de diferentes áreas do conhecimento. Mas, paralelamente às ondas provocadas pela pedra jogada, há um efeito no interior do lago, debaixo da superfície até o fundo, que só pode ser percebido anos depois. É justamente esse efeito submerso, cumulativo e irreversível – os impactos negativos sobre o meio ambiente resultantes das atividades industriais – que esta tese pretende incluir na análise econômica. O desenvolvimento econômico e tecnológico desde a Revolução Industrial, baseado no uso intensivo de matérias primas e energia, aumentou a velocidade de utilização de recursos naturais1. Dada a sua abundância, a questão da sustentabilidade do sistema econômico – ou seja, a manutenção das condições para seu bom desenvolvimento, não esgotando os recursos de que necessita e deixando-os disponíveis em boa qualidade para uso futuro – não ficou no centro das preocupações dos economistas durante muitas décadas2. Mais de um século e meio depois do início do processo de industrialização é que 1 Os recursos naturais podem ser renováveis ou não renováveis. Os não renováveis são finitos “... que, em escala de tempo humana, uma vez consumido(s) não possa(m) ser renovado(s)” (Lima-e-Silva et alii, 1999:194). Pertencem a esta categoria os minerais e os combustíveis fósseis. Os renováveis não podem ser totalmente consumidos dada sua capacidade de reprodução – como a fauna e a flora – ou de regeneração – como a água e o ar. Entretanto, os recursos renováveis podem ser depletados, pois sua velocidade de exploração pode ser maior do que sua capacidade de renovação. 2 Não significa, entretanto, que os economistas clássicos não se preocupavam com a escassez de recursos produtivos, inclusive os recursos naturais. Pelo contrário, uma das grandes contribuições teóricas de David Ricardo, a teoria da renda da terra, mostra as implicações para o crescimento econômico de cultivar terras menos férteis – portanto da escassez de terras férteis –, dados os rendimentos decrescentes da produção agrícola, encarecendo os alimentos. Thomas Robert Malthus colocou os primeiros questionamentos quanto à sustentabilidade do sistema econômico, pois previa a escassez de alimentos – o centro de seu argumento é que a população crescia em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmétrica, 1 Introdução a questão da finitude dos recursos naturais, vista como ameaça ao crescimento das economias modernas, entra definitivamente na agenda de pesquisa dos economistas. Além da utilização intensiva dos recursos naturais, os rejeitos dos processos produtivos lançados no meio ambiente resultaram no acúmulo de poluentes acima da sua capacidade de absorção, gerando a poluição. Esta passa de uma dimensão local – degradação dos corpos hídricos, dos solos e da qualidade do ar – para uma dimensão regional e global. Muitas décadas após o início do processo de industrialização, a possibilidade da terra estar se aquecendo mais rapidamente, pelo aumento da concentração de gases do efeito estufa na atmosfera, tornou-se uma das principais preocupações ambientais globais. A depleção dos recursos naturais e a poluição são problemas ambientais resultantes das ações antrópicas, que também levam à perda de diversidade biológica – biodiversidade –, gerando desequilíbrios nos ecossistemas e fazendo com que percam parte de suas funções biológicas e sociais. Este conjunto de problemas é denominado de “questão ambiental”. Estes efeitos negativos sobre o meio ambiente são resultados de decisões e ações passadas, sugerindo uma interdependência temporal, revelando um processo de mudanças contínuas e evidenciando incertezas em relação ao conhecimento dos impactos ambientais resultantes do crescimento econômico. Mas a tecnologia, por si só, mesmo utilizando intensivamente recursos naturais e devolvendo os rejeitos das atividades produtivas para o meio ambiente, não geraria impactos ambientais significativos se não fosse o efeito escala. O aumento contínuo da produção demanda maior quantidade de recursos naturais e joga mais rejeitos no meio ambiente. Esse aumento está associado ao crescimento da população, logo ao crescimento da demanda, e também ao modo de produção capitalista – a outra cara-metade da Revolução Industrial. Para o crescimento da produção capitalista é necessário novos mercados, portanto, novas necessidades dos consumidores. Assim, crescem a população e suas necessidades, aumentando a escala da produção industrial, a demanda por recursos naturais e os rejeitos tornando o sistema não sustentável. Entre os economistas neoclássicos, William Stanley Jevons, em 1865, analisou o risco da exaustão do carvão, a maior fonte de energia para indústria à época, e suas potenciais conseqüências catastróficas para a continuidade do crescimento econômico (Vercelli, 2000). Arthur Cecil Pigou, em 1920, introduziu o conceito de externalidade - consumo ou produção de um bem gera efeitos benéficos ou adversos a outros agentes que não são compensados no mercado via preços -, colocando a poluição como uma externalidade negativa do processo de produção industrial. 2 Introdução dos processos produtivos. Mesmo sendo o desenvolvimento tecnológico industrial o foco desta tese, evidentemente, a abordagem da questão ambiental do ponto de vista da indústria não esgota a discussão sobre sustentabilidade, pois o comportamento dos consumidores e dos outros setores econômicos são variáveis muito importantes. Coloca-se, portanto, um trade-off entre crescimento econômico e preservação do meio ambiente. Por um lado, o crescimento econômico trouxe melhorias nas condições de vida da população, gerando maior quantidade de bens e serviços disponíveis para satisfação das necessidades. Por outro lado, este mesmo crescimento trouxe problemas ambientais, que não ficam restritos à atividade industrial, como a ocupação desordenada do solo nas vizinhanças das unidades industriais, agravando as condições ambientais, causando danos à saúde humana e à qualidade do meio ambiente. O crescimento econômico leva à dupla exclusão – a social e a ambiental. A primeira é resultado da forma desigual da distribuição dos benefícios do crescimento – seja entre a população de um país ou entre países. Aliada à exclusão social, está a exclusão ambiental, resultante da crescente degradação do meio ambiente gerada pelo crescimento econômico, que faz com que as camadas menos abastadas da população sejam mais atingidas pelas más condições ambientais – são elas que ocupam as áreas degradadas e menos usufruem de recursos naturais de qualidade. A redução da exclusão social pode ocorrer via distribuição de renda, mas para que aumente o padrão de vida de todos sem que seja reduzido o de alguns, é necessário que haja crescimento econômico. Mas este gera problemas ambientais, que reduzem o padrão de vida, gerando um antagonismo aparentemente insolúvel. Está posto o desafio: como crescer economicamente, com equidade social e preservação ambiental? Esta é uma questão que depende não somente de fatores econômicos, mas também sociais, políticos e institucionais, tornado-a muito ampla e complexa. Inovação e Competitividade O setor industrial é um dos que mais provoca danos ao meio ambiente, seja por seus processos produtivos ou pela fabricação de produtos poluentes e/ou que tenham problemas 3 Introdução de disposição final após sua utilização. Se por um lado as tecnologias3 adotadas levaram à degradação ambiental, elas também possibilitaram maior eficiência no uso dos recursos naturais e a substituição de insumos no processo produtivo – um exemplo marcante foi o melhor aproveitamento energético dos derivados do petróleo e a sua substituição parcial por outras fontes energéticas após o primeiro choque do petróleo em 1973. Portanto, o desenvolvimento tecnológico na direção de um padrão de produção menos agressivo ao meio ambiente é visto como uma solução parcial do problema. Em oposição à este “otimismo tecnológico” estão os autores conservacionistas4, que acreditam que os recursos naturais não podem ser perfeitamente substituíveis, pois possuem características particulares, “... de difícil ou mesmo impossível reprodução por sistemas produtivos; ... O consumo destes recursos contém um certo grau de irreversibilidade e, portanto, o consumo atual redunda na impossibilidade das gerações futuras disporem da base atual de recursos naturais” (Young, C. E. F. in: Oliveira, 1998:57). Entretanto, o processo concorrencial das empresas nas economias capitalistas gera uma necessidade de diferenciação permanente em relação aos seus concorrentes. A busca desta diferenciação passa pelo processo de inovação – ao ter o domínio de uma nova técnica de produção ou de um novo produto, a empresa passa a auferir vantagens econômicas, sejam lucros extraordinários ou manutenção de sua parcela de mercado. As inovações podem ser técnicas ou organizacionais. As primeiras referem-se à introdução de um novo processo, produto, sistema ou equipamento, ou seja, é a elaboração de novos princípios técnicos. As segundas são mudanças na forma de organização, nas políticas, nas tarefas, nos procedimentos e nas responsabilidades – é a introdução de novas rotinas de trabalho, procedimentos administrativos, relações intra-organizacionais, práticas gerenciais e relacionamento com os grupos de interesse (Kemp et alii, 2000). Na medida em que a preservação do meio ambiente tornou-se um fator de diferenciação para as empresas, caracterizando-se como uma oportunidade de negócios, surgiu a possibilidade de incluir preocupações ambientais em suas estratégias empresariais, 3 A tecnologia é entendida como “... a set of pieces of knowledges, both directly ‘practical’ (related to concrete problems and devices) and ‘theoretical’ (but practically applicable although not necessarily already applied), know-how, methods, procedures, experience of successes and failures and also, of course, physical devices and equipment” (Dosi, 1984:14). 4 São autores que colocaram a questão da sustentabilidade na agenda de pesquisa de diferentes áreas do conhecimento nos anos 60, como Herman Daly, Kenneth Boulding e John Krutilla. 4 Introdução por meio de práticas ecologicamente mais adequadas – adoção de tecnologias ambientais, implantação de sistema de gestão ambiental, racionalização do uso dos recursos naturais, entre outros. As tecnologias ambientais podem ser definidas como o conjunto de conhecimentos, técnicas, métodos, processo, experiências e equipamentos que utilizam os recursos naturais de forma sustentável e que permitem a disposição adequada dos rejeitos industriais, de forma a não degradar o meio ambiente – também chamadas de tecnologias ambientalmente saudáveis. Elas são obtidas por meio das inovações ambientais, ou seja, da introdução de novos procedimentos técnicos e organizacionais, no âmbito da produção industrial, que levam à maior proteção do meio ambiente. Nos casos em que as empresas não mostraram interesse em práticas menos agressivas ao meio ambiente, o Estado teve que, por meio da gestão ambiental pública, utilizar meios legais – a política ambiental e suas regulamentações – e incentivar as empresas a mudarem seu comportamento em relação aos impactos ambientais resultantes de suas atividades. A regulamentação ambiental tem um lado normativo e outro informativo – traduz as necessidades de proteção ambiental em requerimentos específicos, sinalizando para os poluidores e os fornecedores de tecnologias ambientais o que está sendo demandado. A imposição de regulamentações ambientais é percebida por muitos empresários, formuladores de políticas e acadêmicos como um trade-off no qual estariam, de um lado, os benefícios sociais relativos à maior preservação ambiental, resultante de padrões e regulamentações mais rígidos; de outro lado, tais regulamentações levariam a um aumento dos custos privados do setor industrial, elevando preços e reduzindo a competitividade tanto das empresas quanto a do país. Outros economistas flexibilizam este trade-off, argumentando que as firmas respondem às regulamentações com inovações, melhorando a competitividade. As regulamentações redefinem as possibilidades de atuação da firma, determinando seu grau de liberdade para tomar decisões por meio da definição de parâmetros a serem obedecidos. A competitividade é definida como “... a capacidade da empresa formular e implementar estratégias concorrenciais, que lhe permitam ampliar ou conservar, de forma duradoura, uma posição sustentável no mercado” (Ferraz et alii, 1995). O estudo da competitividade tem como referência a dinâmica do processo de concorrência, de acordo 5 Introdução com o referencial teórico proposto adiante. Deve-se levar em conta os fatores determinantes da competitividade em seus três níveis: empresarial, estrutural e sistêmico (Coutinho e Ferraz, 1994). A variável ambiental encontra-se nos fatores estruturais de competitividade e nos fatores sistêmicos regulatórios e internacionais, podendo ser também um fator interno à empresa. Desta maneira, estabeleceu-se um debate sobre regulamentação ambiental e competitividade no início dos anos 90, incentivando diversos estudos sobre o tema. Na vertente mais flexível, se as firmas respondem às regulamentações com inovações, buscando atender determinados parâmetros, então a questão regulamentação/competitividade passa a ser uma questão inovação/competitividade. Portanto, a primeira hipótese desta tese é que a capacitação dos setores industriais para adotar e gerar tecnologias ambientais é uma condição necessária, mas não suficiente, para que os impactos ambientais negativos das indústrias sejam minorados, reforçando sua competitividade. Uma vez que o padrão tecnológico vigente é um dos responsáveis pela degradação ambiental, a introdução e difusão de novas tecnologias ambientais podem aumentar a produtividade dos recursos naturais utilizados como insumos e minimizar a poluição. Essas novas tecnologias reduzem custos – devido ao aumento de produtividade ou pela conformidade –, podem aumentar o valor do produto e dão um diferencial em relação aos concorrentes, uma vez que padrões ambientais mais rígidos estão sendo demandados pela sociedade e adotados pelos organismos reguladores. Estes resultados reforçam a competitividade das firmas. A segunda hipótese é que as questões ambientais afetam a competitividade das empresas e setores industriais até o ponto em que elas adotam inovações ambientais para tornarem-se mais competitivas. Logo, as questões ambientais são importantes, mas não determinantes, nas estratégias competitivas dos setores industriais. Entretanto, alguns fatores influenciam a importância da variável ambiental na estratégia competitiva das firmas e dos setores industriais – a dimensão dos impactos ambientais, o tamanho das firmas, a capacidade inovativa e as relações como os mercados externo e interno. Para que ocorram melhorias ambientais, as firmas devem adotar inovações. Entretanto, a inovação na firma não é resultado de uma decisão baseada em fatores internos, mas de interações complexas entre a firma e seus clientes e fornecedores, e de um 6 Introdução contexto mais amplo, que inclui o ambiente institucional, cultural e social, a infraestrutura, aspectos macroeconômicos, o sistema de inovação. O foco da análise deve, portanto, sair da firma e centrar-se nos setores industriais, buscando uma abordagem sistêmica. Indústria Brasileira e Meio Ambiente A industrialização brasileira foi marcada por um relativo descaso com a questão ambiental, resultando na participação elevada de setores potencialmente poluidores na composição do produto industrial. Entre 1981 e 1999, o crescimento das indústrias de alto potencial poluidor foi superior ao da média geral da indústria (IBGE, apud Young e Lustosa, 2001). Esta constatação encontra explicações no processo de industrialização brasileiro, “... resultado do atraso no estabelecimento de normas ambientais e agências especializadas no controle da poluição; da estratégia de crescimento associada à industrialização por substituição de importações, privilegiando setores intensivos em emissão; e da tendência de especialização do setor exportador em atividades potencialmente poluentes” (Young e Lustosa, 2001:231). O II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) veio complementar o processo de industrialização com setores de elevado potencial poluidor, incentivando a instalação de pólos petroquímicos, de indústrias metalúrgicas e produtoras de celulose, de usinas nucleares, entre outros. O esforço exportador do início da década de 80 baseou-se nos setores implantados no II PND, aumentando a produção industrial de alto potencial poluidor. Este perfil não foi alterado com a abertura comercial do final de década de 80. A questão ambiental ganhou espaço nas preocupações sociais das empresas a partir da década de 90. Ao perceber o crescente interesse e preocupação da sociedade com o meio ambiente, as empresas buscaram inserir-se no contexto dos agentes participantes das mudanças em resposta aos anseios da sociedade, visto a diminuição da capacidade financeira do Estado e do descrédito como ator de transformação capaz de solucionar problemas sociais relevantes – o Estado de todos é apropriado para servir a interesses privados. 7 Introdução A reboque do vazio deixado pelo Estado, aproveitando para melhorar sua imagem e ter o reconhecimento da sociedade de ser um ator chave no processo de transformação, as empresas passaram a investir em programas ambientais de cunho social. Em final de 2001, existiam 183 projetos sociais ligados ao meio ambiente, patrocinados por empresas dos mais diversos setores industriais5 (Exame, novembro/2001). Mesmo com pouco incentivo fiscal, as empresas envolveram-se nestes projetos na busca de uma imagem positiva, servindo como poderoso instrumento de marketing, diferenciando-se de seus concorrentes e ganhando espaço na mídia – de forma espontânea, inclusive. Este é um primeiro indício de que o meio ambiente pode ser uma forma de melhorar a competitividade – por meio do marketing ecológico. A despeito das ações sócio-ambientais implementadas pelas empresas, com resultados positivos para o meio ambiente e para a sociedade, os problemas ambientais “dentro de casa” – resultado dos impactos ambientais negativos de suas atividades centrais – ficaram bem aquém da visibilidade dos projetos ambientais voltados para a sociedade. As exceções são as empresas que sofreram alguma pressão para fazê-lo: das regulamentações de outros países em relação ao produto exportado, como no caso das grandes empresas exportadores do setor de papel e celulose, e das regulamentações nacionais, que forçam as empresas diminuírem os impactos ambientais de suas atividades. A redução de custos também exerceu um papel importante na minimização dos impactos ambientais das empresas. O meio ambiente, entretanto, não era o foco principal – os programas de conservação de energia, de otimização de processos com objetivos de reduzir os custos com matérias primas, os processos de controle automatizados que reduzem desperdícios, entre outros, tiveram um rebate positivo na utilização mais racional dos recursos naturais. A implementação crescente da gestão ambiental, inclusive por meio da certificação de acordo com as normas ISO 14001, espelha a preocupação das empresas com seus problemas internos relativos ao meio ambiente. Porém, a certificação ambiental também serviu como um instrumento de marketing ecológico. A certificação pelas normas ISO 14031, de avaliação da performance ambiental, não tomou o mesmo impulso no esforço de certificação por parte das empresas. 5 Destes projetos, 13 foram patrocinados por empresas da indústria do petróleo: a Petrobras com 12 projetos, no valor total de R$ 4.117 mil, e a Shell com um projeto, no valor de R$ 70 mil. 8 Introdução A cadeia do petróleo O parque industrial brasileiro é bastante desenvolvido e diversificado, apresentando indústrias articuladas entre si. Para obter uma categoria relevante para a análise sistêmica, foi utilizado o instrumental analítico de complexos industriais e cadeias produtivas, que possibilita delimitar sua área de influência – a interação interfirmas e os fatores relevantes do contexto mais amplo que induzem às inovações ambientais. A escolha da cadeia do petróleo no Brasil para fazer a análise das questões ambientais a ela pertinentes, do seu processo inovativo em relação ao meio ambiente e sua influência sobre a competitividade justifica-se pelos seguintes fatores: • Todas as etapas da cadeia apresentam problemas ambientais relevantes, derivados de suas atividades de alto potencial poluidor e de risco; • Mudança do marco regulatório da indústria do petróleo, com abertura do mercado dos segmentos da cadeia produtiva, alterando fatores importantes do contexto institucional, concorrencial e do financiamento do sistema de inovações. • Mudança de marco regulatório relativo ao meio ambiente, com a legislação ambiental aprimorando-se com maior velocidade. A mais geral por causa da maior pressão social, com a crescente conscientização das questões ambientais. A específica à indústria do petróleo, pela necessidade de mais regulamentações ambientais para as atividades que foram intensificadas no upstream e pelo recente desempenho ambiental sofrível da indústria do petróleo, provocado principalmente por acidentes. • Seu peso econômico significativo, como fonte energética e de matérias primas de diversos segmentos da indústria, pela elevada participação nas receitas financeiras para a esfera governamental, pela forte demanda que exerce de outros complexos industriais e por seu peso na balança comercial. • Elevada participação na matriz energética brasileira, sendo a principal fonte energética que alimenta o sistema de transporte nacional. • Suas atividades envolvem grande complexidade de operações, exigindo ativos específicos de alto valor, logo investimentos de porte substancial. • Distribuição regional desigual, tanto das reservas quanto da localização das unidades de refino, gerando impactos regionais diferenciados – ambientais, sociais e econômicos 9 Introdução – que são influenciados por características históricas, ecológicas e econômicas heterogêneas. • O desenvolvimento tecnológico como traço marcante de sua competitividade, observado ao longo da sua evolução histórica. • Busca no mercado internacional por processos de geração de energias mais limpas – seja na própria rota dos hidrocarbonetos – gás natural, gasolinas de qualidade superior derivados do petróleo e do gás - ou por fontes alternativas aos derivados do petróleo – solar, eólica, biomassa, fontes renováveis como o álcool da cana-de-açúcar. Implica uma visão de longo prazo, com incertezas inerentes às novas tecnologias. A importância de estudar as relações entre a indústria do petróleo e seus impactos ambientais reside no fato de que a abertura do mercado para torná-lo mais competitivo gera novas formas de concorrência. Aliada a uma legislação ambiental mais restritiva, suscita o questionamento da importância da preservação ambiental como estratégia competitiva numa indústria potencialmente poluidora e com alto potencial de risco, porém com alto dinamismo tecnológico nas etapas da cadeia produtiva. Objetivos O foco da análise desta tese não é como a questão ambiental modifica a rotina das empresas – por meio da gestão, auditoria ou contabilidade ambiental –, mas sim como a questão ambiental pode mudar o ambiente competitivo e, consequentemente, as estratégias das empresas e setores industriais, tendo como estudos de casos a indústria de transformação brasileira e, mais detalhadamente, a cadeia produtiva do petróleo. A contribuição desta tese é no sentido de propor um instrumental de análise dos fatores determinantes da relação entre regulamentação ambiental, inovações ambientais e competitividade utilizando os conceitos da teoria evolucionária da mudança tecnológica, podendo servir de referencial para subsidiar políticas na direção de aliar crescimento econômico com preservação ambiental. Uma vez que a história da indústria do petróleo foi marcada por sucessivas e intensas inovações, o que permitiu seu desenvolvimento e soberania, seria também possível flexibilizar o trade-off entre produção industrial e preservação do meio ambiente por meio de inovações ambientais? Sendo as inovações um fator importante de 10 Introdução competitividade das empresas – como no caso da própria indústria do petróleo –, até que ponto a questão ambiental vai influenciar na competitividade das empresas do setor como um fator de diferenciação? A tese tem por objetivos: buscar evidências sobre o comportamento da indústria brasileira em relação às questões ambientais e sua posição competitiva, enfatizando a relação entre a capacidade inovativa e as preocupações ambientais. verificar até que ponto as questões ambientais estão sendo importantes para a competitividade da indústria do petróleo brasileira, centrando na questão do desenvolvimento de tecnologias ambientais como principal elemento explicativo da relevância da preservação do meio ambiente no âmbito competitivo da indústria. Referencial teórico Na escolha de um referencial teórico para analisar a questão central, baseando-se nas hipóteses principais desta tese, buscou-se uma teoria que tratasse de maneira adequada os elementos essenciais: meio ambiente, inovação e competitividade. A teoria evolucionária da mudança tecnológica apresenta-se como um referencial teórico consistente para abordar as questões que envolvem tecnologia e meio ambiente, pois trata o sistema econômico como inerentemente dinâmico e evolutivo, baseado em um processo constante de inovação tecnológica, organizacional e institucional. Este sistema é complexo e está sujeito a irreversibilidades, onde os agentes possuem racionalidade restrita, caracterizado pela existência de trajetórias dinâmicas de múltiplas possibilidades e por interdependência temporal. No modelo evolucionário da mudança tecnológica, a concorrência entre as firmas é o mecanismo que introduz novos elementos no sistema econômico, que são as inovações – novas tecnologias de produção que vão substituindo as anteriores. Há um mecanismo de seleção, que ocorre no ambiente seletivo – seu principal locus é o mercado, mas não o único –, que elege as técnicas produtivas. A firma cuja técnica foi eleita melhora sua posição competitiva em relação aos demais concorrentes, obtendo sucesso no processo de concorrência. O processo de seleção gera assimetrias entre as firmas em termos de sua capacidade de inovar, imprimindo um ritmo irregular, porém contínuo, ao progresso 11 Introdução tecnológico. As assimetrias possibilitam manter a diversidade, fator importante para que possa haver mudanças. Para tratar as questões ambientais, enfocando o desenvolvimento de tecnologias na direção de um padrão de produção mais limpo, sem minar a competitividade das empresas e setores industriais, é fundamental entender como se dá a mudança tecnológica. A fim de teorizar sobre a mudança tecnológica, a teoria evolucionária buscou explicar as regularidades do processo inovativo e das mudanças tecnológicas utilizando conceitos próprios. Nelson e Winter (1977) usam o conceito de regime tecnológico para definir os limites e as direções do progresso tecnológico, por meio de parâmetros básicos que internalizam princípios, os quais configuram as tecnologias disseminadas nas indústrias. Este conceito está relacionado com as crenças dos engenheiros e técnicos sobre o que é viável ou que vale a pena ser desenvolvido, evidenciando a importância de aspectos cognitivos (Kemp, 1994). A partir de uma definição ampla de tecnologia, com anteriormente definida, Dosi (1984) faz um paralelo com a noção kuhniana6 de paradigma científico e define paradigma tecnológico (ou programa de pesquisa) como um modelo ou padrão de solução para um determinado problema tecnológico, baseado em determinados princípios derivados das ciências naturais e em determinadas tecnologias de materiais. Dessa forma, o paradigma tecnológico determina em que direções a mudança tecnológica deve seguir e quais devem ser rejeitadas. Estas direções em que ocorrem as mudanças tecnológicas, são chamados de trajetórias tecnológicas, ou seja, “... the pattern of ‘normal’ problem solving activity (i.e. of ‘progress’) on the grounds of a technological paradigm” (Dosi,1984:15). As mudanças tecnológicas na direção de tecnologias ambientais podem ocorrer na trajetória tecnológica – um motor à combustão mais potente e gera menos emissões – ou no paradigma tecnológico – mudança das fontes de energia primária na direção de gerar menos impactos ambientais. No que tange à geração primária de energia, pode-se identificar o “paradigma dos hidrocarbonetos”, ou seja, baseado no petróleo e no gás natural. 6 Refere-se a Thomas Kuhn, que define paradigma científico em seu livro The Structure of Scientific Revolutions. 12 Introdução Há, portanto, fatores limitadores para as inovações ambientais: o ambiente seletivo favorável a tal tipo de inovação e o paradigma tecnológico vigente, que limita as inovações incrementais e impede inovações mais radicais – como a produção de combustíveis com emissão zero. Daí a importância das regulamentações ambientais e das instituições no sentido de atuar favoravelmente nesse ambiente seletivo, revelando uma dimensão sócioeconômica nos padrões de mudança tecnológica. Estrutura da tese A tese está divida em cinco capítulos. O capítulo 1 busca evidenciar como a teoria evolucionária da mudança tecnológica se mostra adequada para tratar as questões relativas ao meio ambiente, inovações e competitividade, a fim de delinear políticas que aliem competitividade e preservação ambiental. A introdução aos fundamentos teóricos, elaborada a partir de uma revisão da literatura, procura destacar os elementos-chave do pensamento evolucionário. São analisadas as interações entre inovações tecnológicas e mudanças técnicas no âmbito teórico. Dado que as inovações ambientais são fundamentais para que sejam minorados os impactos sobre o maio ambiente dos processos industriais, buscou-se evidenciar os principais determinantes das inovações e tecnologias ambientais. Os autores que tratam a questão ambiental e partilham dos fundamentos teóricos da escola evolucionária contribuíram com elementos importantes para o entendimento destas questões. É discutido o debate acadêmico de meados de década de 1990 acerca da relação entre regulamentação ambiental e competitividade, polarizado em duas vertentes de análise. Conclui-se que nenhuma das duas pode ser generalizada para a indústria, pois além das diferenças conceituais sobre o significado de custos e competitividade entre elas, há outros elementos importantes a serem considerados que são omitidos nesse debate. O referencial teórico proposto ainda está em construção e, portanto, é passível de complementação por elementos de análise de outras correntes teóricas. Dentre eles, o resgate do conceito de custo de uso elaborado por Keynes na Teoria Geral (Keynes, 1982), para tratar de maneira intertemporal o gerenciamento de estoques de recursos naturais, pode contribuir para o debate sobre crescimento econômico e preservação ambiental, evidenciando outros elementos relevantes para o estabelecimento de políticas – sem a 13 Introdução pretensão, entretanto, de unificar as agendas de pesquisa de diferentes escolas do pensamento econômico. O capítulo 2 busca as evidências empíricas sobre o comportamento das empresas e dos setores industriais brasileiros em relação às questões ambientais e sua posição competitiva. Na falta de dados específicos sobre o tema, foram utilizadas outras pesquisas que entre suas variáveis consideraram aspectos ambientais. São elas: a Pesquisa da Atividade Econômica Paulista (PAEP), da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), sobre os processos de reestruturação e seus impactos nos diversos setores da economia do estado de São Paulo; e a realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), sobre competitividade da indústria brasileira. As variáveis sobre meio ambiente foram cruzadas com outras relativas às empresas e setores, indicando o comportamento dos mesmos. O último tópico deste capítulo discute os principais determinantes do investimento ambiental na indústria brasileira, com base em pesquisas empíricas e na análise de elementos teóricos levantados no primeiro capítulo. O capítulo 3 descreve a indústria do petróleo utilizando o instrumental analítico de complexos industriais e cadeias produtivas, fazendo uma abordagem sistêmica. As categorias de análise das cadeias produtivas facilitam a compreensão da realidade em dois campos principais, que coincidem com os eixos fundamentais dessa tese. O primeiro refere-se à difusão de inovações tecnológicas e o segundo à concorrência. Um breve histórico da indústria do petróleo no mundo e no Brasil mostra como o domínio das reservas e as inovações tecnológicas e organizacionais foram elementos centrais no seu processo de concorrência. A situação atual de reservas, produção e consumo no mundo e no Brasil evidencia um desequilíbrio entre estes elementos em nível mundial, crescendo a importância do fator geo-político para análise da concorrência internacional da indústria. A indústria brasileira do petróleo está passando por uma profunda reestruturação, possibilitando grande aporte de investimentos em todas as etapas da cadeia produtiva. Caso a questão ambiental fique a parte deste processo, repetindo a história da industrialização, os enormes benefícios possíveis de serem alcançados podem ser anulados pelos problemas ambientais. A indústria do petróleo envolve ativos específicos de alto valor e apresenta grande potencial de risco, podendo haver perdas patrimoniais privadas – 14 Introdução os ativos financeiros e naturais – e socializadas – os danos ambientais e suas conseqüências ecológicas e sócio-econômicas. O capítulo 4 procura evidenciar a dimensão da questão ambiental resultantes das atividades da cadeia do petróleo. É uma indústria poluidora e de alto risco, podendo trazer conseqüências graves para o meio ambiente. Os principais problemas ambientais das etapas da cadeia do petróleo, resultantes das operações normais e dos acidentes, são apresentados a partir da literatura disponível. As estimativas de emissões evidenciam o potencial poluidor da atividade do refino, sem constituir um inventário de emissões. Alguns acidentes são relatados utilizando material da imprensa, mostrando que a repercussão na mídia dissemina informações que formam opiniões na sociedade, aumentando a pressão para um comportamento mais ecologicamente correto. Mesmo não sendo diretamente relacionados à cadeia produtiva do petróleo, os impactos ambientais do consumo de seus derivados como fonte energética são evidenciados por serem responsáveis por problemas ambientais globais, como as mudanças climáticas. No final do capítulo está descrito o aparato regulatório relativo ao meio ambiente, incluindo o quadro legal que incide sobre as etapas da cadeia produtiva e os órgãos de regulação ambiental. O capítulo 5 trata da pesquisa e desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo brasileira. Foram verificados quais são os temas abordados pelos projetos ambientais; e as parcerias que estão se formando na área de tecnologia ambiental – atores envolvidos e origem dos recursos. Esta análise é importante para perceber o processo de mudança tecnológica, em que direção está evoluindo e as alianças que estão se formando. Levanta-se o questionamento da não inclusão da mudança de paradigmas tecnológicos na direção de formas mais limpas de energia, nas quais estão sendo desenvolvidas por projetos em diferentes países e constituindo-se uma possível nova e complexa tecnologia, cujo domínio requer recursos financeiros e capacitação científica. As conclusões reúnem as principais considerações elaboradas ao longo da tese, procurando servir de suporte a orientação de políticas para o setor no que tange o meio ambiente e competitividade. 15 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Capítulo 1 REGULAMENTAÇÃO AMBIENTAL, INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE: UMA ABORDAGEM EVOLUCIONÁRIA 1.1 Os Problemas Ambientais e a Teoria Evolucionária A evolução tecnológica, apesar dos grandes benefícios que traz, também pode gerar externalidades negativas, como problemas ambientais. Ao longo da história da industrialização mundial percebe-se a existência de externalidades negativas das técnicas utilizadas, que podem levar à exaustão algum recurso natural devido à alta velocidade de extração para consumo ou à geração de resíduos que não podem ser reciclados ou reutilizados no processo produtivo. Esses resíduos – também chamados de emissões – podem ser absorvidos parcial ou integralmente pelo ambiente. Quando esta capacidade assimilativa é inferior à quantidade de emissões gerada ocorre, então, a poluição. Com o crescimento da escala de produção industrial nos dois últimos séculos, aumentaram as possibilidades de exaustão de recursos naturais – livres, renováveis ou nãorenováveis –, e a poluição intensificou-se. Devido à cumulatividade dos danos causados ao meio ambiente, os problemas ambientais atingem proporções crescentes. Além da exaustão de diversos recursos ambientais – sejam florestais, minerais ou pesqueiros –, o acúmulo de poluentes é danoso para todas as formas de vida, interferindo na sobrevivência e no bem-estar das espécies da fauna e da flora e aumentando a incidência de doenças humanas causadas pela poluição. Como conseqüências, são evidentes a perda de produtividade, o aumento da mortalidade e da morbidade, podendo comprometer o ritmo de desenvolvimento e crescimento das economias modernas. Diversos estudos mostram os danos causados à saúde humana por problemas de poluição atmosférica e dos corpos hídricos. No Brasil, Seroa da Motta e Mendes (1995a e 1995b) estimaram que, em 1989, os gastos médicos realizados pelo sistema Inamps7 relativos a doenças por meio de veiculação hídrica foram de US$ 40,2 milhões. Os gastos hospitalares na cidade de São Paulo com doenças causadas pela poluição atmosférica para 7 Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social. Este foi extinto pela Lei nº 8.689/93 e suas funções, competências, atividades e atribuições foram absorvidas pelas instâncias gestoras do Sistema Único de Saúde (SUS). 16 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária o mesmo ano foram de US$ 785 mil. É importante lembrar que são gastos com tratamento de doenças, sem contar as perdas econômicas que ocorrem devido à morbidade e à mortalidade causadas pela poluição. Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Folha de São Paulo, 18/09/2000) revela que as crianças expostas à poluição atmosférica na cidade de São Paulo perderam, em média, 0,8% de sua capacidade respiratória num período de seis meses, o que as torna mais suscetíveis a problemas respiratórios no futuro. A mesma pesquisa mostra que também há relação entre o aumento da poluição e mortes de idosos. Nem todas as externalidades negativas de uma tecnologia, desenhada e utilizada para fins específicos, são previstas. Quando se trata de questões relativas ao meio ambiente, as externalidades atingem uma dimensão adicional, pois elas podem ter efeitos cumulativos e de depleção, que envolvem incertezas. À medida que a poluição acumulada (efeito cumulativo) aumenta, podem ser constatados os efeitos perversos sobre os ecossistemas e a saúde humana, mas não se sabe exatamente até aonde eles podem ser afetados. Os recursos naturais não-renováveis vão se esgotando (efeito de depleção) e mesmo com o desenvolvimento tecnológico, que aumenta sua disponibilidade, o uso contínuo pode trazer outros problemas ambientais de efeitos cumulativos. Por exemplo, mesmo que as reservas de petróleo sejam ampliadas, reduzindo o risco de esgotamento total do recurso não renovável, o efeito cumulativo continua presente, pois as emissões de CO2 geradas pela queima de derivados do petróleo agravam o efeito estufa. Os recursos naturais renováveis também podem sofrer do efeito de depleção se sua capacidade de renovação for inferior a sua velocidade de exploração. Os efeitos cumulativos podem estar presentes, pois a crescente degradação ambiental compromete cada vez mais a qualidade dos recursos naturais livres – a água, o ar puro e a luz solar –, reduzindo sua disponibilidade e tornando-os inadequados para o uso. Numa perspectiva histórica, percebe-se que o aparecimento de problemas ambientais pode levar a soluções por meio de adoção de novas tecnologias ou mudanças em tecnologias já existentes. Entretanto, as soluções do passado podem tornar-se problema no futuro. Um exemplo, citado por Kemp e Soete (1992), é bastante ilustrativo. No final do século XIX, o uso de cavalos como meio de transporte trouxe grandes problemas ambientais para a cidade de Londres. Dado que cada cavalo produz em média 15 kg de 17 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária estrume por dia, o uso intensivo desse meio de transporte causou diversos transtornos à cidade, fazendo com que houvesse cerca de seis mil varredores de ruas para limpar a passagem para os pedestres. Apesar de já estarem disponíveis outros meios de transporte, eles não eram adotados em função das regulamentações que limitavam a velocidade em oito milhas/hora, pela pequena escala de produção e pela falta de infra-estrutura de suporte (postos de gasolina, estacionamentos, etc.). Na época, entretanto, contatou-se que os carros emitiam 200 vezes menos resíduos que os cavalos, quando as emissões eram medidas em gramas por milha. Um século mais tarde, o problema ambiental do passado não mais existia, dada a substituição de cavalos por meios de transporte com motores que utilizavam derivados do petróleo como combustível. Mas surgiram outros problemas – resultado da utilização generalizada destes combustíveis –, como as emissões de diversos poluentes atmosféricos, inclusive de dióxido de carbono (CO2) um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento global – o efeito estufa. Atualmente já existem outras tecnologias alternativas para a transformação da energia química em mecânica para o transporte, mas o problema do passado se repete: escala de produção reduzida, ausência de aparato institucional e de infra-estrutura de suporte. Os danos causados ao meio ambiente de origem antrópica acompanham o ritmo do crescimento econômico. A partir do século XIX, com a intensificação do processo de industrialização e dos sistemas agropecuários, a demanda por recursos naturais e os danos ao meio ambiente tornaram-se crescentes. A hipótese de que a capacidade de suporte do planeta estava chegando ao seu limite, seja pela quantidade de poluentes lançados no ambiente ou pela exaustão dos recursos naturais, data do final dos anos 60. Travaram-se intensos debates nos meios político, acadêmico e social, incorporando o discurso do movimento ambientalista, que apontava para a incompatibilidade ente preservação ambiental e o crescimento econômico baseado na utilização intensiva de recursos naturais e energia de fontes não-renováveis. Na pauta de discussão, colocava-se a questão se deveria ou não desacelerar o ritmo de crescimento econômico em função da crescente degradação ambiental. Surgiram diversos trabalhos acadêmicos que se tornaram clássicos, “... como ‘The Economics of the Coming 18 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Spaceship Earth’ (1966) de Kenneth Boulding, ‘The Entropy Law and the Economic Process’ (1971) de Nicholas Georgescu-Rogen, ‘On Economics as a Life Science’ (1968) de Herman Daly, ‘Small is Beautiful’ (1973) de E. F. Schumacher e ‘Gaia: a New Look at Life on Earth’ (1979) de J. Lovelock, entre vários outros” (Amazonas, 2001:3). Nesse debate, um dos maiores impactos foi causado pela posição do Clube de Roma, expressa no relatório Os Limites do Crescimento (Meadows et alii, 1972), que traçou um cenário catastrófico que colocava explicitamente os limites do crescimento econômico devido à finitude dos recursos naturais, propondo o “crescimento econômico zero”. A proposta de crescimento zero desencadeou uma reação dos países em desenvolvimento, pois seria um freio ao crescimento econômico, um requisito importante para reduzir as disparidades sociais. A Conferência do PNUMA8 em 1972 – também chamada de Reunião de Estocolmo – foi um marco histórico, pois foi colocado que os países do 3o mundo também teriam “direito ao crescimento”. Surge a tese do Ecodesenvolvimento, de Maurice Strong e Ignacy Sachs, que procurou mostrar a viabilidade de formas de desenvolvimento sensíveis à questão ambiental, com sustentabilidade ecológica. O Ecodesenvolvimento superou o enfoque do “crescimento zero” e tornou-se uma base do conceito de Desenvolvimento Sustentável9. O termo Desenvolvimento Sustentável foi difundido no relatório Nosso Futuro Comum, de 1987, também conhecido como Relatório Brundtland10, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas e centra-se em três eixos principais: crescimento econômico, equidade social e equilíbrio ecológico. Ou seja, o “desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1991:46). O desenvolvimento sustentável é mais uma meta do que um estado de harmonia. Do ponto de vista econômico, implica duas condições: o desenvolvimento deve permitir a 8 Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. “A tese do Ecodesenvolvimento vem a desenvolver-se no conceito de Desenvolvimento Sustentável, ensaiado desde o final dos anos 70 e que adquire seu impulso decisivo em 1987 com sua forma mais consolidada com o Relatório Brundtland ...” (Amazonas, 2001:4). 10 Em homenagem à presidente da Comissão à época, a primeira-ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland. 9 19 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária ampliação, ou pelo menos a manutenção, da qualidade de vida em um horizonte temporal longo; e manutenção, ao longo do horizonte temporal, do estoque de capital, incluindo os recursos naturais. Após três décadas desse debate, percebe-se que não é o crescimento que chegou no seu limite, mas o padrão tecnológico até então adotado pelos países industrializados. Ou seja, o crescimento econômico baseado num padrão tecnológico intensivo no uso de matérias-primas e energia, principalmente proveniente de hidrocarbonetos – grandes demandantes de recursos naturais –, pode esbarrar nos limites da finitude dos recursos ambientais, seja pela exaustão ou pela perda de qualidade. A mudança do padrão tecnológico atual na direção de padrões tecnológicos que degradem menos o meio ambiente é condição necessária para que o crescimento econômico possa ser contínuo, que juntamente com uma distribuição mais igualitária dos benefícios desse crescimento, caminha na direção do desenvolvimento sustentável. É nesse sentido que o crescimento econômico pode ser possível para todos os países, mas com tecnologias mais limpas11 e eficientes no uso dos recursos naturais. O desenvolvimento tecnológico é um dos vetores fundamentais que possibilita o crescimento econômico e é, em grande parte, guiado pelo interesse privado em obter benefício econômico a curto prazo. Ambos os processos (crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico) são descontínuos, não-lineares e evoluem no tempo, caracterizados pela interdependência temporal (path-dependency), onde tanto a história quanto os eventos e desdobramentos recentes são importantes para o entendimento destas questões. Portanto, “... economic growth is likely to be characterized by clusters of economically interrelated technological trajectories, which might give stimulus to growth in the whole economy” (Kemp e Soete, 1992:442). Assim como o padrão tecnológico causou externalidades negativas, desenvolvimentos tecnológicos (dentro desse mesmo padrão) surgiram para reduzir o ritmo de exploração dos recursos naturais e os níveis de poluição no ambiente, proporcionando melhorias ambientais significativas. Estudos empíricos ilustram essa visão otimista. Preston (1997) mostra evidências para a indústria dos Estados Unidos: durante a última 11 Kemp e Soete (1992) colocam com propriedade que o termo “tecnologia limpa”, apesar de ser amplamente usado, não é linguisticamente o mais correto. Primeiro, porque nenhuma tecnologia é totalmente limpa e segundo porque se deve distinguir tecnologia limpa (clean) e tecnologias que limpam o ambiente (cleaning). 20 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária década, a indústria química reduziu as emissões nocivas ao meio ambiente em 50%, enquanto que sua produção industrial dobrou. Resultados positivos, porém de menor porte, também foram verificados em diversos setores industriais – dentre eles, papel e aeroespacial. No Brasil, de acordo com Ferraz e Seroa da Motta (1999), ao adotarem tecnologia disponível no mercado internacional – conversores catalíticos e injeção eletrônica –, as emissões hidrocarbonetos dos veículos à gasolina reduziram em 92% de 1988 a 199712. Também adotando tecnologia européia, algumas montadoras de automóveis adotaram a pintura de veículos à base de água. Esse processo permite a redução em 75% do uso de solventes químicos na pintura – no processo de secagem, esses solventes volatizam, contaminando a atmosfera, e quando associados a outras substâncias, podem poluir solos e corpos hídricos. Dessa forma, além dos ganhos ambientais, os custos de aquisição e estocagem de solventes diminuíram, possibilitando economias que podem compensar o custo mais alto de implantação dessa tecnologia. Percebe-se, portanto, que há uma diferença entre a mudança do atual padrão tecnológico, com a base energética calcada na queima de combustíveis fósseis, e desenvolvimento de novas tecnologias, mais limpas, dentro desse mesmo padrão a fim de minimizar os impactos ambientais das atividades econômicas. Como veremos adiante, a mudança do padrão tecnológico é extremamente complexa, pois ocorre a longo prazo, depende de muitas variáveis e, mesmo induzida por qualquer tipo de política, não se sabe a priori todas as conseqüências dela decorrentes. Chega-se no centro do problema: como induzir mudanças tecnológicas na direção de tecnologias mais limpas a fim de se obter sustentabilidade ambiental – ou seja, que os recursos naturais sirvam para as gerações atual e futura, e que os níveis de poluição sejam reduzidos mesmo com o aumento da produção. Este é um problema complexo, multidimensional, interdisciplinar e sem uma resposta única. O estudo da mudança tecnológica releva que ela é um processo evolucionário, que apresenta características de não-linearidade, cumulatividade e de interdependência temporal (path-dependency). Além do mais, a mudança tecnológica na direção da sustentabilidade ambiental depende de O termo correto seria “tecnologia mais limpa” (cleaner) ou “poupadora de recursos naturais” (environmentsaving). 21 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária outros fatores não-econômicos, como desenvolvimento de capacidades específicas da firma, infra-estrutura e mudanças institucionais. O auxílio de uma teoria econômica que possa levar em conta tais características é fundamental para elucidar o entendimento e chegar a uma reposta, mesmo que parcial, da questão colocada. A seguir serão discutidas tais características para posteriormente “eleger” uma teoria que possa auxiliar no embasamento teórico para elucidar as questões pertinentes ao tema. As principais características das questões que envolvem tecnologia e meio ambiente são: • Perspectiva histórica – os problemas ambientais, que surgem como externalidades negativas do padrão tecnológico vigente, podem permanecer ao longo do tempo mesmo após a mudança desse padrão. É o caso do efeito estufa: mesmo se as emissões dos gases do efeito estufa fossem cessadas imediatamente, o problema do aquecimento global permaneceria até que tenha ocorrido o decaimento desses gases, o que pode levar décadas. Por exemplo, o dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases responsáveis por esse fenômeno, tem um período médio de decaimento de 140 anos. • Perspectiva dinâmica evolutiva – a história das mudanças tecnológicas mostra que elas são constantes e não-lineares, novos problemas ambientais vão surgindo, requerendo ações permanentes para tentar solucioná-los, revelando um caráter dinâmico e evolutivo. Tais ações referem-se tanto à resolução técnica do problema, como também mudanças institucionais, culturais e na infra-estrutura, que são necessárias para viabilizar soluções técnicas. Por exemplo, os carros movidos a gás natural, que emitem menos CO2 do que os movidos à gasolina, encontraram limitações de infra-estrutura – poucos postos revendedores que comercializam o combustível – para difusão ampla de seu uso. • Cumulatividade – um problema ambiental pequeno pode tornar-se extremamente complexo na medida em que há reincidência. Mais uma vez o efeito estufa serve de exemplo, pois é um problema ambiental que surgiu pela acumulação de gases a 20 km da superfície da terra que diminui a dissipação de calor do planeta no espaço. O 12 Esse resultado foi alcançado pelo Programa Nacional de Controle de Emissões Veiculares (Proconve), que estabeleceu metas de redução de emissões dos novos veículos entre 1988 e 1997, seguindo os padrões da OCDE. 22 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária conhecimento tecnológico também é cumulativo, resultado de experiências passadas que foram acumuladas ao longo do tempo. • Irreversibilidade – um ecossistema degradado, em geral, não pode ser revertido ao seu estado inicial, gerando seqüelas nos organismos vivos – vegetais e animais – que foram atingidos pelos problemas ambientais, podendo levá-los à extinção. São vários os exemplos, como a recuperação de minas, florestas e solos que não recuperam suas qualidades originais; as doenças que se tornam crônica devido à poluição atmosférica; e a extinção de diversas espécies da fauna e da flora. • Incerteza – esse elemento está presente nos resultados da mudança tecnológica e seus impactos, ou seja, mesmo que uma determinada tecnologia seja direcionada para um objetivo determinado, não se sabe ao certo seus desenvolvimentos posteriores e, portanto, as externalidades negativas sobre o meio ambiente também são incertas. Ademais, o processo evolutivo dos ecossistemas revela sua natureza sistêmica e complexa, em que “... a incerteza e o desconhecimento constituem-se em componentes fortemente estruturais” (Amazonas, 2001:9). Portanto, a previsão de um impacto de determinada tecnologia é repleta de incertezas, podendo mudar conforme o meio ambiente é alterado. Diante das características acima descritas, as questões que envolvem tecnologia e meio ambiente possuem os mesmos elementos da teoria evolucionária, descritos por Nelson (1987), a saber: “First, a mechanism that introduces novelties to the system. While this mechanism may have a bias for generating certain kinds of novelties, and may be predictably responsive in a broad way to certain outside forces, in an evolutionary theory its workings also involve a significant random element. Second, some understandable mechanism that ‘selects on’ entities present in the system, expanding the relative importance of some and diminishing that of others” (Nelson,1987:12). Desta forma, a teoria evolucionária engloba uma ampla gama de modelos sobre mudanças – baseadas em inovação e seleção –, sendo a teoria evolucionária na biologia e a teoria evolucionária da mudança tecnológica casos especiais. O referencial teórico desta tese é o modelo evolucionário da mudança tecnológica, no qual o mecanismo que introduz o novo elemento no sistema, no caso o sistema econômico, é a concorrência entre as firmas, sendo as inovações esse novo elemento – novas técnicas de produção que vão 23 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária substituindo as anteriores. O mecanismo de seleção depende das características do ambiente seletivo – este último tem como principal locus o mercado, mas não o único –, que “escolhe” (ou elege) uma “entidade”, no caso as técnicas. A firma cuja técnica foi eleita melhora sua posição competitiva em relação aos demais concorrentes, obtendo, portanto, sucesso no processo de concorrência. A teoria evolucionária da mudança tecnológica13 apresenta-se como um referencial teórico consistente para abordar as questões que envolvem tecnologia e meio ambiente, pois trata o sistema econômico como inerentemente dinâmico e evolutivo, baseado em “... um permanente processo de inovação tecnológica, organizacional e institucional, o qual, por dar-se em um sistema complexo, incerto e sujeito a significativas irreversibilidades (onde portanto a racionalidade deve ser vista como uma “racionalidade restrita”- bounded racionality), caracteriza-se não por um movimento de equilíbrio, mas sim pela conformação de trajetórias dinâmicas de múltiplas possibilidades e caracterizado por pathdependence” (Amazonas, 2001:10). A teoria evolucionária14, cujos princípios teóricos estão resumidos no item a seguir, propõe-se a explicar como os sistemas tecnológicos evoluem e mudam, sendo fundamental o entendimento dessa questão mais ampla para elucidar a questão central desse capítulo: como induzir mudanças tecnológicas na direção de tecnologias mais limpas. 1.2 Princípios Teóricos da Teoria Evolucionária A abordagem evolucionária, originária dos artigos seminais de Nelson e Winter (1977 e 1982), procura tratar a questão da mudança técnica de uma maneira não-ortodoxa15, transpondo conceitos da biologia evolucionária para a economia, uma vez que há processos e fenômenos que compartilham características comuns às duas ciências – inovação e seleção –, cabendo à biologia a primazia na formulação. Contribuições teóricas dos neoschumpeterianos foram incorporadas, iniciando com Freeman (1974, 1984), no sentido de 13 Esta teoria será denominada de teoria evolucionária deste ponto em diante. Tradução do termo inglês “evolutionary”, freqüentemente traduzido também como evolucionistas. A teoria evolucionária que serve como base teórica desta tese é a resultante da convergência das agendas de pesquisa de autores de origem evolucionária – Richard Nelson e Sidney Winter – com autores de origem neoschumpeteriana – Giovanni Dosi e Christopher Freeman, entre outros. 15 Nelson e Winter (1982) definem a ortodoxia como a formalização moderna e a interpretação do pensamento econômico ocidental tradicional, que tem suas raízes em Adam Smith e David Ricardo, com 14 24 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária resgatar as idéias de Josef Schumpeter. O progresso técnico é considerado uma variável fundamental no processo de desenvolvimento da firma e do mercado. A teoria evolucionária apoia-se em três princípios básicos (Tigre, 1998): As inovações – novas técnicas que geram novos produtos, processos ou novos modos de organização da firma – são inerentes ao processo de concorrência capitalista, imprimindo um caráter dinâmico e desequilibrado à economia. A racionalidade limitada dos agentes econômicos que possuem características cognitivas próprias e diferenciadas, resultado de um processo de aprendizado que é acumulado ao longo do tempo. É refutado, portanto, o princípio de racionalidade substantiva – ou maximizadora – dos agentes econômicos, no qual as variáveis de decisão são conhecidas previamente, resultando num comportamento pré-definido das firmas. A capacidade de auto-organização da firma em um contexto dinâmico e desequilibrado, rejeitando a noção de equilíbrio de mercado, impossível de ser alcançado – a não ser por uma enorme coincidência – diante das flutuações da coletividade resultantes da mudança de posição dos agentes individuais. A racionalidade limitada dos agentes econômicos, aliada à capacidade de auto- organização da firma, gera um comportamento cauteloso, que se traduz na adoção de rotinas. Estas são regras comportamentais da firma, que a auxiliam na tomada de decisões em relação às atividades operacionais e imediatas – por exemplo, nível de produção e preços – e às atividades de prazo mais longo – como os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O processo evolucionário no qual a firma está inserida e as características do ambiente competitivo alteram suas rotinas. Ou seja, as rotinas não implicam a firma tomar sempre as mesmas decisões, mas a adotar regras que permanecem válidas enquanto estiverem obtendo sucesso – chamadas de rotinas estáticas, ou repetição das práticas anteriores. As rotinas são alteradas a partir do momento em que há a incorporação de novos conhecimentos – rotinas dinâmicas (Tigre, 1998). Estes novos conhecimentos são adquiridos no processo de aprendizagem, que é acumulado ao longo do tempo e dependente das rotinas adotadas. Ou seja, há uma interação entre rotina e aprendizado. desdobramentos em John Stuart Mill, Alfred Marshall e Leon Walras. Além do mais, a ortodoxia preocupa-se principalmente com o método de análise econômica e secundariamente com questões específicas. 25 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Os conhecimentos podem ser codificados ou tácitos. No primeiro caso, eles são transmitidos através de manuais ou de descrição de procedimentos tecnológicos ou organizacionais. Os conhecimentos tácitos, diferentemente, são frutos de experiências pessoais e, por isso, difíceis de serem transmitidos e codificados. São considerados, portanto, como um ativo específico da firma – um de seus diferenciais em relação às demais no processo concorrencial. A capacidade de a firma inovar está relacionada com o aprendizado acumulado – adquirido por meio da P&D, do “aprendizado pelo fazer” (learning-by-doing) e do “aprendizado pelo uso” (learning-by-using) – que determina suas competências organizacionais e tecnológicas. O acúmulo destas competências e os ativos específicos determinam o tipo e a magnitude da inovação, revelando a direção em que a firma evolui. Ou seja, há um efeito de interdependência temporal (path-dependency), pelo qual as competências da firma são construídas a partir de conhecimentos adquiridos anteriormente, gerando trajetórias no tempo. As trajetórias são alteradas na medida em que a firma vai acumulando competências, melhorando sua capacidade inovativa, possibilitando-a de inovar continuamente e evoluir no tempo. As firmas buscam inovações para melhorar sua posição competitiva, ou seja, para obter lucros extraordinários ou, dada a ameaça de seus concorrentes, para manter sua posição no mercado – este é, portanto, o processo de busca. As rotinas da firma em relação à P&D – sua direção e magnitude – são consideradas como parte estratégica do processo de busca por inovações, pois ampliam suas competências e, consequentemente, sua capacidade inovativa. As principais características do processo de busca são: a irreversibilidade, as oportunidades tecnológicas e a incerteza. A busca é caracterizada por irreversibilidade, pois uma vez tomadas as decisões de investimentos em P&D, segue-se por um caminho que não tem como retornar ao estágio anterior sem incorrer em altos custos. As oportunidades tecnológicas estão relacionadas com a potencialidade do paradigma tecnológico de gerar novas trajetórias e melhorias na tecnologia existente, além do grau de facilidade com que as firmas possam desenvolver tais melhorias e inovações. A busca por inovações envolve, também, um grau de incerteza muito grande, pois não se sabe com antecedência os resultados dos investimentos em P&D. Dessa maneira, a busca é um processo que envolve decisões sob incerteza, pois os resultados das ações não são previsíveis e garantidos, além de que a decisão leva para uma 26 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária direção, gerando uma trajetória que não é reversível – ou implica em alto custo de reversão. Portanto, apesar de evolutivo, o processo de busca é descontínuo e não apresenta progressos em intervalos regulares. A busca contínua ocorre porque há o processo de seleção a que são submetidas as inovações. Este processo ocorre no ambiente seletivo, que pode ser definido como “... the sum of all environmental influences that determine whether an entity, given its current characteristics and functions will survive” (Kock e Guillén, 2001:78). As firmas buscam estratégias e competências que as permitem sobreviver – serem bem sucedidas – em um ou outro ambiente seletivo. Ou seja, as mesmas estratégias e competências que levam uma firma a obter sucesso em determinado ambiente seletivo, podem levá-la ao fracasso em outro. O sucesso da firma depende dos elementos predominantes do ambiente seletivo, que influenciam o processo competitivo. Estes elementos são mutáveis no tempo, fazendo o processo competitivo essencialmente dinâmico. Os principais elementos são (Possas, 1999): a) as características da estrutura de mercado, como o grau de concentração, vantagens dos principais competidores, características dos insumos utilizados e de seus fornecedores, o tamanho do mercado, as fontes e formas de financiamento, entre outros; b) fatores macroeconômicos, como as taxas de juros e de câmbio, as contas públicas e o balanço de pagamentos, entre outros; c) fatores institucionais, políticos e jurídicos, ou seja, a regulação das atividades econômicas, as regulamentações legais, as instituições, as políticas governamentais, o estabelecimento de direitos de propriedade, entre outros; d) as características do meio ambiente físico, ou seja, a dotação de recursos naturais, as características dos ecossistemas, a forma de ocupação espacial e o uso do solo, entre outros; e) as características sociais, como a estrutura demográfica, nível de renda, estrutura educacional, valores culturais, relações trabalhistas, entre outros. O ambiente seletivo tem o mercado como seu locus principal, mas não o único. Os valores do mercado – isto é, aquilo que o mercado considera importante ou elementos do ambiente seletivo – têm um papel essencial no processo de seleção e o lucro obtido é o 27 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária prêmio por ter a inovação selecionada. A pressão competitiva, exercida no processo de seleção, elimina as técnicas não lucrativas e valoriza as lucrativas (Nelson, 1987). A seleção no mercado se dá tanto pelo lado da demanda – aceitação do novo produto pelos consumidores – quanto pelo lado da oferta – imitação da inovação pelos concorrentes, ou seja, a difusão da inovação. Existem, entretanto, outros tipos de ambiente seletivo, de caráter institucional, por exemplo, como as regulações e organismos públicos – através de financiamentos, crédito, subsídios, legislações específicas, entre outros, atuam na seleção das inovações. Desta forma, o processo seletivo não depende somente de variáveis econômicas e objetivas, relevantes para o mercado. Mesmo sendo o mercado um importante locus do ambiente seletivo, revelando a lucratividade da inovação, outros elementos podem ser predominantes. O meio institucional pode ser determinante na seleção de inovações e, consequentemente, na dinâmica das firmas de um setor. Esta seria uma das formas de seleção não relacionadas com o mercado (nonmarket selection). Sejam setores estratégicos ou de segurança pública, bem como regulamentações necessárias para atender interesses sociais – saúde pública, segurança e preservação do meio ambiente –, o aparato institucional exerce o poder seletivo, onde a inovação é propositalmente selecionada, sem a interferência decisiva da lucratividade. A busca e a seleção geram desequilíbrios e assimetrias entre as firmas, que fazem esforços para diferenciarem-se continuamente de seus concorrentes – por meio de inovações–, a fim de obterem lucros ou, pelo menos, sobreviverem. Tais assimetrias se expressam em termos do grau de inovatividade, das possibilidades tecnológicas e da velocidade de imitação das firmas, e explicam o fato de umas serem inovadoras e outras não. As assimetrias tendem a diminuir na medida em que as técnicas são imitadas e se difundem, reduzindo os lucros extraordinários advindos da inovação (Dosi, 1984). Quando isso ocorre, as firmas inovadoras, sob ameaça de perda dos benefícios que usufruem (o lucro), buscam outras inovações, aumentando as assimetrias entre as firmas. Novamente, a inovação é imitada, reduzindo os benefícios e as assimetrias entre elas, desencadeando nova busca e introdução de inovações, num movimento contínuo e não-linear. Ocorre, portanto, o processo de difusão das inovações. Entretanto, a difusão das inovações tecnológicas não se dá de maneira homogênea. As tecnologias existentes se desenvolvem 28 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária e se aprimoram em ritmos diferentes, dependendo das competências específicas às firmas. Este processo modifica as condições de produção, provocando mudanças nos preços e quantidades produzidas. A concorrência é o motor do processo de introdução e difusão de inovações, de caráter dinâmico e endógeno, e a seleção determina a direção e o ritmo deste processo. Os elementos relevantes da seleção dependem da decisão individual da firma quanto à adoção da inovação, em função: da avaliação ex-post dos resultados econômicos obtidos pelas outras firmas; da avaliação ex-ante quanto à lucratividade da inovação; da preferência dos consumidores e as regulamentações existentes; das estratégias de investimento; e dos mecanismos que facilitam ou dificultam a imitação. Há uma variável expectacional – que depende da avaliação antecipada (ex-ante) dos empresários – que vai influenciar na decisão de investir na inovação. Esse elemento é importante quando se trata do gerenciamento de estoques de recursos naturais, que também envolve variáveis expectacionais16. A difusão das inovações de produto ou de processo possui determinantes diferenciados. A primeira depende mais da aceitação dos consumidores e requer imitação por parte das firmas concorrentes. No caso em que a P&D é externa às firmas, as inovações de processo serão mais difundidas dependendo dos esforços dos fornecedores de máquinas e equipamentos para aumentar seus mercados, convencendo os usuários potenciais de adotarem a inovação por suas vantagens em relação à lucratividade e eficiência técnica. Ao serem modificadas ao longo do processo de difusão, tornando-as mais eficientes, é possível que os custos de aquisição e manuseio de uma nova tecnologia sejam reduzidos, fazendo com que aqueles que a adotaram tardiamente se beneficiem dos melhoramentos introduzidos durante sua difusão. Essa é a idéia da vantagem dos imitadores posteriores – late comers – em oposição às vantagens do pioneiro – first mover –, aquelas associadas aos lucros extraordinários auferidos da inovação, que tenderiam a declinar na medida em que ela for difundida por meio da imitação dos competidores, que assim agem para garantir sua sobrevivência, dissipando os lucros extraordinários. Os processos de busca e seleção, de caráter dinâmico e endógeno, geram trajetórias tecnológicas que alteram as estruturas dos mercados. A magnitude em que estas estruturas 16 Esta questão será retomada no final do capítulo, com a introdução do conceito de custo de uso de Keynes como um instrumento analítico para o gerenciamento de recursos naturais. 29 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária são afetadas depende de suas condições iniciais e das assimetrias entre as firmas. Ou seja, na medida em que as firmas com maiores parcelas de mercado são também as mais inovadoras, maior é a tendência concentrar a estrutura inicial. Reversamente, se não são as maiores firmas as que detêm o maior potencial tecnológico, elas tendem a perder parcelas de mercado na medida em que as mais inovadoras, ao terem suas inovações selecionadas, ganham espaço no mercado, seja pela introdução de um novo produto ou via redução de custos. A estrutura inicial é afetada, gerando nova configuração (Possas, 1989), influenciando na capacidade competitiva da firma. As firmas, portanto, não podem ser tratadas como se tivessem os mesmos objetivos, pois apresentam assimetrias, com grandes diferenças entre si, sendo tais diferenças fundamentais para entendê-las. Cada firma possui um conjunto de rotinas, estratégias e competências específicas, de difícil transferência e imitação, que determina sua capacidade de sobrevivência – ou seja, sua competitividade – no ambiente a que estão submetidas. Dentre as competências da firma, existem as secundárias e as centrais (core competences), sendo estas últimas que definem as estratégias de crescimento da firma – em que se especializar, a integração vertical ou horizontal, participação em rede de firmas, subcontratação. O mercado sinaliza o que é necessário para ser competitivo, mas não diz como fazê-lo. A capacidade de sobrevivência da firma – sua competitividade – está diretamente relacionada com a maneira pela qual ela percebe e soluciona problemas, respondendo com inovações. “Do ponto de vista da firma particular, a competitividade ‘é o poder de definir (formular e implementar) estratégias de valorização do capital, desde que baseado em aspectos econômicos e não institucionais’” (Possas, 1999:173). Estas estratégias buscam atender as características do ambiente seletivo, determinando quais as competências necessárias para ser competitivo. Tal qual as inovações em geral, as inovações ambientais, também sofrem influência do meio institucional no processo de seleção: seja através de políticas setoriais que garantam uma avaliação positiva ex-ante dos empresários para gerarem e adotarem inovações ambientais, ou pelos incentivos para obtenção de resultados econômicos positivos por parte das firmas ao adotarem as inovações ambientais (avaliação ex-post). É possível, portanto, estimular a introdução e difusão de inovações ambientais, com ganhos para as empresas e para o meio ambiente. Assim, não só o mercado, mas também entidades 30 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária governamentais reguladoras dos mercados, instituições pública de pesquisa – dando apoio à P&D das empresas – e outros organismos públicos são partes integrantes do processo de geração, seleção e difusão de inovações, inclusive as ambientais. Entretanto, tais políticas – que induzem à uma avaliação positiva da firma para adotar técnicas ambientalmente corretas ou que dão incentivos para a obtenção de resultados positivos – podem cair no dilema de induzir tecnologias concorrentes entre si: por exemplo, como saber ex-ante se a tecnologia mais limpa no presente não vai causar problemas ambientais no futuro? Ou qual tecnologia incentivar, a que parece mais limpa atualmente ou a que parece mais promissora para ser ecologicamente correta no futuro? 1.3 Inovações Tecnológicas e Mudanças Técnicas A questão da adoção de técnicas ambientalmente saudáveis por parte dos agentes produtivos nos remete a uma investigação mais ampla em dois aspectos: o primeiro, como as mudanças tecnológicas ocorrem e evoluem; o segundo, como direcionar a mudança tecnológica, que mais especificamente para esta tese, seria fazer com que os agentes produtivos gerem e adotem tecnologias cada vez mais limpas. Nesta investigação mais ampla, os autores evolucionários trouxeram grandes contribuições, criando um modelo para analisar as mudanças contínuas e as descontinuidades da inovação tecnológica. Dessa forma, este item pretende elucidar algumas questões centrais em relação a tais aspectos, que auxiliam na análise empírica desta tese. Em relação ao primeiro aspecto – como as mudanças tecnológicas ocorrem e evoluem –, é importante responder quais são as regularidades no processo inovativo e as conseqüências sobre o progresso técnico; por que determinadas tecnologias são eleitas; e quais são as relações entre fatores econômicos, sociais, institucionais e científicos que influenciam o processo inovativo. Em relação ao segundo aspecto – como direcionar a mudança tecnológica – mais especificamente pretende-se verificar quais os fatores que influenciariam na direção da geração e adoção de determinadas tecnologias. É certo que o entendimento do processo de geração e difusão de inovações, acima descrito, é importante para elucidar esse último aspecto. A análise da mudança técnica e da inovação deve ser feita numa perspectiva dinâmica. Uma determinada tecnologia, a partir de certo momento, não mais satisfaz plenamente seu usuário – ou seja, não está trazendo os benefícios econômicos esperados. São identificados problemas, que são solucionados com inovações. Entretanto, quando se 31 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária introduz uma inovação não se sabe exatamente seus resultados e, muitas vezes, modificações posteriores são necessárias para adaptá-la a novas situações, revelando o caráter incerto do processo inovativo e, consequentemente, da mudança técnica. Para que as atividades inovativas ocorram, três condições devem estar presentes (Dosi, 1984): a cumulatividade, a oportunidade tecnológica e a apropriabilidade. A cumulatividade do progresso técnico representa o aprendizado acumulado, que por meio da (P&D) e do “aprendizado pelo uso” influenciam positivamente na capacidade inovativa da firma. Ou seja, há um efeito de interdependência temporal (path-dependency) em que as novas tecnologias surgem em etapas sucessivas de mudanças de uma inovação inicial, dependendo de quanto a firma possui de aprendizado acumulado. A oportunidade tecnológica está relacionada com a potencialidade do paradigma tecnológico de gerar novas trajetórias e melhorias na tecnologia existente, além do grau de facilidade com que as firmas possam acessar tais melhorias e inovações. Essa é uma condição necessária para que a firma inove, mas não suficiente. A apropriabilidade privada da inovação, ou seja, o grau em que a firma vai auferir sozinha dos benefícios econômicos associados à inovação, seja por segredo industrial ou por meio de registro de patentes, é a condição suficiente para que a firma adote atividades inovativas, para qualquer grau de oportunidade tecnológica. Assim, sem apropriabilidade não há estímulo às inovações. Apesar do caráter incerto da mudança técnica, ela não é aleatória, mas segue em determinadas direções, apresentando regularidades – o que a torna passível de teorização. É possível, portanto, identificar padrões de mudanças tecnológicas e alguns exemplos são dados por Kemp (1994): redução da quantidade de materiais que compõem diversos produtos, tendência ao uso de materiais leves para automóveis e aviões, e o uso de componentes eletrônicos em produtos. Os autores evolucionários criticam as teorias econômicas de mudança tecnológica e as classificam em oportunidade econômica (demand-pull) e oportunidade tecnológica (technology-push) Dosi (1982)17. Para as primeiras, são as forças do mercado que determinam a mudança tecnológica, ou seja, em função da sinalização das necessidades do 17 Ver Dosi (1982) para críticas as essas teorias, bem como referências de estudos sobre mudança tecnológica. 32 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária mercado, as unidades produtivas realizam um esforço de desenvolvimento tecnológico para que as inovações atendam essas necessidades. As principais críticas a esta abordagem, na sua versão mais pura, centram-se em três principais tópicos: a reação passiva e mecânica da mudança tecnológica diante das condições de mercado; a incapacidade para responder o porquê e quando determinadas tecnologias são desenvolvidas em vez de outras e em determinado momento em vez de outros; e a negação das mudanças na capacidade inovativa ao longo do tempo sem ter qualquer relação direta com as mudanças de mercado. Para as teorias chamadas de oportunidade tecnológica, a tecnologia é um fator autônomo ou quase-autônomo, pelo menos no curto prazo. Ou seja, a inovação torna-se uma variável não aleatória, sendo o processo de desenvolvimento tecnológico que definirá a próxima inovação. A principal crítica a essa abordagem, em sua versão mais pura, é a dificuldade de levar em conta a complexidade, a autonomia relativa e as incertezas associadas com a mudança tecnológica e as inovações. O fato de não considerar fatores econômicos que influenciam no processo inovativo é uma falha desta teoria. A concepção unidirecional da ciência para a tecnologia e para a produção deve ser revista para incorporar a complexa estrutura de interações entre o ambiente econômico e a direção da mudança tecnológica (Dosi, 1982). Desta forma, tanto oportunidades econômicas quanto tecnológicas influenciam na mudança tecnológica. Alguns aspectos do processo de inovação podem ser considerados, de acordo com Dosi (1984), como estabelecidos: • a crescente importância da ciência no processo inovativo; • as atividades de P&D estão cada vez mais complexas, sendo alvo do planejamento de longo prazo e dificultando as repostas imediatas dos produtores às mudanças nas condições de mercado; • uma forte correlação entre os esforços de P&D e a obtenção de resultados inovativos em diversos setores industriais, mas uma ausência de correlação entre os padrões de demanda e do mercado, e os resultados inovativos; • uma grande parte da inovações e melhorias são resultados do “aprendizado pelo fazer” (learning-by-doing), que está incorporado nas pessoas e nas firmas; 33 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária • o aumento da formalização institucional da pesquisa, porém as atividades inovativas e a pesquisa continuam sendo de natureza incerta; • a mudança técnica não aleatória em dois pontos: a sua direção, que em geral é definida pelo estado da arte das tecnologias utilizada, e a probabilidade de se conseguir avanços tecnológicos, que é função, entre outras coisas, dos níveis tecnológicos alcançados anteriormente; • a evolução tecnológica ao longo do tempo apresenta regularidades e pode-se definir, portanto, as direções das mudanças em termos de características tecnológica e econômicas dos produtos. Segundo Hall (1994), o processo de inovação corresponde a todas as atividades que geram mudanças tecnológicas e a interação dinâmica entre elas, que não precisam ser invenções primárias. Ao inovar, a firma está buscando solução para um determinado problema, que é resolvido dentro de um paradigma tecnológico, isto é, dentro de determinados padrões de soluções amplamente aceitos baseados nos princípios das ciências naturais. Assim, uma vez estabelecido o paradigma tecnológico, as inovações tornam-se seletivas na capacidade de solucionar problemas, ao mesmo tempo em que encobrem outras soluções que estariam fora do paradigma tecnológico – caracterizando uma “cegueira” do paradigma tecnológico predominante. As tecnologias são eleitas no processo seletivo, que de acordo com as características predominantes do ambiente seletivo, escolhem determinadas tecnologias e não outras. Entretanto, quando as dificuldades para achar soluções tornam-se crescentes, há um forte incentivo para a mudança de paradigma tecnológico, mas essa não é uma condição suficiente, visto que para estabelecer um novo paradigma é necessário que ocorram avanços no conhecimento básico, além de outros fatores institucionais e de mercado. Assim, o paradigma tecnológico dominante e o ambiente seletivo estabelecem o ritmo e a direção do progresso técnico, que pode até gerar uma mudança de paradigma, num processo lento e gradual. As inovações que resultam na mudança de paradigma tecnológico são chamadas de inovações radicais, em oposição às inovações incrementais – aquelas que ocorrem dentro do mesmo paradigma – que vão gerar as trajetórias tecnológicas, ou seja, soluções encontradas nos limites do paradigma tecnológico vigente. Conforme as inovações 34 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária incrementais vão ocorrendo, novas trajetórias vão sendo criadas ou bifurcadas, gerando uma ampla gama de trajetórias tecnológicas no tempo. Dentro do paradigma tecnológico vigente, é selecionada uma determinada tecnologia. Segundo B. Arthur (citado por López, 1996), a tecnologia não é eleita por ser a mais eficiente, mas torna-se mais eficiente por que foi eleita, isto é, as tecnologias tornamse mais atrativas quanto mais são utilizadas. Assim, a tecnologia possui interdependência temporal (path-dependent), ou seja, ela será resultado de trajetórias previamente definidas. Isso gera um efeito de lock-in, fazendo com que as firmas fiquem presas à tecnologia mais difundida e ao paradigma tecnológico vigente. Esses eventos têm grandes efeitos sobre a capacidade da firma em achar soluções para problemas específicos, ou seja, sobre a capacidade de inovar da firma. Rosemberg (1976) aponta alguns fatores que poderiam induzir as inovações tecnológicas: problemas tecnológicos entre as atividades inter-relacionadas; escassez ou abundância de insumos; composição, mudanças e taxas de crescimento da demanda; mudanças no custo de produção e padrões de concorrência industrial. Mesmo sendo estes fatores de caráter predominantemente econômico, outros fatores não econômicos – institucionais e sociais – têm grande influência no processo inovativo, pois estão diretamente relacionados com o ambiente seletivo. Estas considerações induzem ao segundo aspecto da investigação mais ampla – como direcionar a mudança tecnológica – e levanta a seguinte questão: o que capacita as firmas a gerar e adotar inovações? Há uma série de fatores – econômicos, sociais, institucionais e científicos – que irão influenciar na capacitação das firmas a se tornarem inovadoras. Em linhas gerais, pode-se agrupá-los em fatores internos e externos às firmas. Dentre os fatores internos, pode-se destacar: as competências específicas para resolução de problemas, a capacidade de absorção da firma e o acesso às inovações desenvolvidas por terceiros. Dentre os fatores externos, que estão intimamente relacionados com o ambiente seletivo, estão: o paradigma tecnológico vigente, o Sistema Nacional de Inovação, o contexto macroeconômico, as medidas de caráter regulatório e o grau de competição do mercado no qual a firma está inserida. As competências específicas da firma para resolução de problemas, o primeiro dos fatores internos, são acumuladas ao longo do tempo. Ou seja, são habilidades e conhecimentos que a firma possui, adquiridos com o tempo, que determinam sua 35 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária capacidade de absorver ou criar conhecimento. Essas habilidades e conhecimentos específicos dependem dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), do conhecimento individual dos funcionários, do tamanho e da natureza da empresa (pública, privada, transnacional, etc.), do setor de atividade e do grau de especialização. O segundo fator interno está diretamente relacionado com o primeiro. A capacidade de absorção, segundo Cohen & Levinthal (1990), é definida pelas habilidades de reconhecer o valor da nova informação, assimilá-la e aplicá-la para fins comerciais, sendo crucial para capacitar a firma a inovar. Essa habilidade para avaliar e utilizar o conhecimento externo é função do nível de conhecimento anterior, ou seja, na medida em que o conhecimento externo e a firma possuam padrões básicos e linguagens comuns, fica mais fácil utilizar a informação de forma produtiva. Assim, a capacidade de absorção é coproduto do P&D e dos conhecimentos tácitos adquiridos na produção. Nesse sentido, o treinamento em pessoal significa investimento na capacidade de absorção e nas atividades de P&D. Mesmo que estas não gerem resultados imediatos, está contribuindo decisivamente para aumentar a capacidade de absorção da firma. Entretanto, o investimento para desenvolver a capacidade de absorção é alto e pode ser considerado um custo irrecuperável (sunk-cost18). O acesso às inovações desenvolvidas por terceiros não é livre e, em geral, possui altos custos. Seja por falta de informação da firma que quer adotar a inovação, por estratégia concorrencial do inovador em não difundir sua inovação, por proteção de patentes e segredo industrial ou pelos custos de manutenção da capacidade de absorção, as inovações não estão disponíveis como “produtos na prateleira de um supermercado”. Isso significa que há um custo de acesso e que ele pode ser alto. Logo, para muitas firmas torna-se difícil inovar, seja pelo alto custo de desenvolvimento interno (P&D) ou de aquisição de tecnologias de terceiros. O primeiro dos fatores externos, o paradigma tecnológico vigente, como explicado anteriormente, delimita a capacidade da firma de inovar, pois define o padrão científico no qual as inovações devem ficar circunscritas. Nesse sentido, a mudança no paradigma tecnológico pode fazer com que a firma se torne mais ou menos inovadora, a depender de suas competências específicas. 18 Sunk-cost são custos que não podem ser recuperados caso a firma deixe o mercado. Em geral, representam ativos específicos da firma (Schmalensee, 1990). 36 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária O Sistema Nacional de Inovações, o segundo fator externo, vai influenciar na capacidade das firmas gerarem e adotarem inovações, pois se constitui num sistema organizacional que visa desenvolver a ciência e tecnologia dentro dos limites da nação. É um arranjo institucional complexo que envolve os laboratórios de P&D das firmas, os institutos de pesquisa e universidades, as instituições de financiamento, as instituições educacionais e as instituições legais (patentes, leis de regulação da concorrência, entre outros). O Sistema Nacional de Inovação deve ser considerado em suas três dimensões: as instituições; a interação entre elas, formando uma rede; e a capacidade de aprendizado. Assim, um Sistema Nacional de Inovação eficaz induz as firmas a serem inovadoras19. Mesmo que as firmas estejam capacitadas para serem inovadoras, há outros fatores que são determinantes para gerarem e adotarem inovações. Ou seja, uma vez capacitadas, falta explicar por que umas firmas tenderiam mais a inovar do que outras. O contexto macroeconômico é um fator que interfere nesse processo, pois revela o ambiente econômico no qual a firma está inserida. As firmas têm dificuldades para tomar decisões em condições de grande incerteza, geradas por um cenário de instabilidade macroeconômica. Nesse caso, há certa paralisia das firmas para inovar. Reversamente, a estabilidade macroeconômica cria confiança nos agentes econômicos, que tenderão a consumir e investir mais. Logo, quanto mais estável a situação macroeconômica, mais segurança as firmas têm para inovar. As medidas de caráter regulatório seriam outro fator, visto que podem induzir as firmas a adotarem inovações. Alguns setores necessitam de maiores regulamentações em função do tipo de atividade que desenvolvem. Por exemplo, as empresas cujas atividades causam impactos negativos no meio ambiente estão sujeitas ao cumprimento de regulamentações, que podem ser indutoras de inovações, a depender dos objetivos e instrumentos de política ambiental. Finalmente, o grau de competição do mercado no qual a firma está inserida é um dos fatores que mais influencia sua decisão de gerar e adotar inovações. A concorrência é o motor da inovação, isto é, a inovação é resultante do processo de concorrência capitalista. Assim, em mercados competitivos, a inovação passa a ser fator de diferenciação entre a firma e seus concorrentes, criando assimetrias entre elas 19 Para uma discussão mais aprofundada sobre o tema e a experiência de alguns países ver Nelson, 1993. 37 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária e podendo ser a única forma de sobrevivência no mercado. Nessa perspectiva, a firma tem dois destinos: inovar ou morrer. Devido às alterações que mudanças nas trajetórias tecnológicas ou no paradigma tecnológico vigente provocam na estrutura industrial, é de se esperar que a adoção de padrões tecnológicos mais limpos venha a alterar a estrutura industrial vigente e, portanto, provocar mudanças nas formas de concorrência setorial. 1.4 Inovações e Tecnologias Ambientais Os problemas ambientais gerados pelas externalidades negativas da evolução tecnológica assumem diversas dimensões: local, transfronteiriça e global20. A mudança tecnológica na direção de minimizar os impactos negativos sobre o meio ambiente depende da interação entre o nível microeconômico – comportamento das unidades produtivas e dos indivíduos – e o nível governamental, que afeta o individual e o sistema como um todo. A capacidade das firmas de gerarem e adotarem inovações ambientais é determinante para que se tenha processos produtivos e produtos menos agressivos ao meio ambiente e, consequentemente, melhorias ambientais – gerenciando adequadamente os recursos naturais e controlando a poluição. As melhorias ambientais podem ser traduzidas como menor utilização de recursos naturais e energia por unidade de produto – melhoria na produtividade dos insumos –, menor poluição e recuperação de ecossistemas degradados. Dessa maneira, a geração e principalmente a difusão de inovações ambientais são fundamentais para harmonizar preservação ambiental com o crescimento da produção industrial. As soluções tecnológicas para os problemas de poluição ambiental numa unidade industrial podem ser do tipo final de tubo (end-of-pipe – EOP) ou prevenção da poluição (pollution prevention – PP). No primeiro caso, também chamado de tratamento de final de linha, as substâncias tóxicas são tratadas antes de serem lançadas no meio ambiente – controle da contaminação – e incluem também as atividades de restauração do ambiente degradado (clean-up), tornando inofensivas substâncias tóxicas já presentes no ecossistema. 20 A dimensão local refere-se aos danos ambientais que ocorrem nos limites geográficos do país; a transfronteiriça quando os danos ambientais afetam negativamente o meio ambiente de outros países vizinhos ou da mesma região e a global quando os danos ambientais afetam recursos comuns a todos os países. 38 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária O segundo caso, prevenção da poluição ou eco-eficiência21, inclui a adoção de tecnologias mais limpas, melhoria na eficiência produtiva por meio de gestão inovadora, redução da geração de resíduos e reciclagem de subprodutos do processo produtivo que antes eram considerados resíduos (López, 1996). Ou seja, o enfoque PP prevê mudanças nas tecnologias adotadas e nas formas de gestão empresarial, enquanto que o tratamento EOP é uma adaptação nas tecnologias utilizadas e podem ser considerados, portanto, como paliativos e não soluções mais definitivas, que reduzem efetivamente a quantidade de emissões e resíduos, como no caso da PP. Os limites entre as soluções EOP e as PP apresentam uma zona de sombra, o que pode dificultar sua classificação. Um tratamento EOP permite recuperar substâncias que podem ser reutilizadas. Além do mais, muitas vezes uma solução eco-eficiente não elimina totalmente as emissões, necessitando posteriormente de tratamento EOP, demonstrando que elas podem ser complementares. Esses dois tipos de soluções podem gerar conflitos nos objetivos de curto e de longo prazo de políticas ambientais. A eco-eficiência é um objetivo de longo prazo e necessita de suporte de políticas que estimulem o surgimento e a adoção de inovações ambientais, além de mudanças organizacionais e institucionais. As soluções EOP são para controlar as emissões no curto prazo e estão mais ao alcance das firmas por serem de mais fácil adaptação à tecnologia utilizada, sem necessitar de mudanças radicais nos processos produtivos e organizacionais das firmas. Assim, políticas ambientais que estimulem a redução da poluição no curto prazo, através da adoção de soluções do tipo EOP, podem desincentivar a adoção de inovações ambientais que requeiram mudanças mais radicais (Foray e Grübler, 1996). É importante definir os termos tecnologia limpa, tecnologia ambiental e tecnologia poupadora de recursos naturais. O termo tecnologia ambiental é mais abrangente e é utilizado para definir tecnologias que são direcionadas para a melhoria do meio ambiente, logo incluindo as tecnologias mais limpas e as poupadoras de recursos naturais (ver nota de rodapé 5) e as que despoluem o ambiente. São elas: • tecnologias para despoluir o ambiente (cleaning technologies) – são consideradas tecnologias de remediação, em geral são tecnologias EOP, utilizadas depois que a 21 A eco-eficiência é a situação em que a inovação da firma leva à redução do impacto de suas atividade sobre o meio ambiente ao mesmo tempo em que gera ganhos financeiros. 39 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária poluição já ocorreu – filtros de chaminés para reduzir as emissões de material particulado, por exemplo; • tecnologias poupadoras de recursos naturais (environment-saving technologies) – são eco-eficientes, pois utilizam menos insumos, seja matérias-primas com base nos recursos naturais ou seja energia – como a reciclagem das águas em processos industriais; • tecnologias mais limpas (cleaner technologies) – são também eco-eficientes, pois apresentam um coeficiente de emissões de poluentes por unidade de produto inferior à outra tecnologia anteriormente utilizada, requerendo alterações nos processos produtivos. Também podem ser consideradas tecnologias de prevenção da poluição (pollution prevention technologies); • tecnologias de controle – utilizadas para monitorar os níveis de emissões e a degradação dos recursos naturais, como satélites para identificar os desmatamentos e queimadas, e equipamentos de medição de emissões industriais. Essa classificação de tecnologias ambientais permite a melhor compreensão da abrangência do termo, não significando que são excludentes entre si; ao contrário, elas são muitas vezes complementares. Assim, o conceito de tecnologia ambiental22 é bastante amplo, podendo englobar, inclusive, tecnologias que não foram desenhadas exclusivamente com fins ambientais, mas que podem gerar impactos ambientais positivos. São exemplos: os sistemas fabris inteligentes e a nanotecnologia – que reduziriam a demanda por recursos naturais e aumentariam o controle das externalidades ambientais negativas da produção – além da biotecnologia e dos novos materiais – capazes de reduzir o uso de pesticidas e substituir insumos de alto impacto ambiental, respectivamente (Banks e Heaton Jr., 1995). 22 As tecnologias ambientais são classificadas de maneira distinta, mas a abrangência é a mesma. Por exemplo, o National Science and Technology Council (Preston, 1997) subdivide as tecnologias ambientais em quatro categorias: tecnologias de monitoramento e avaliação, que servem para medir as emissões e determinar suas origens, e fornecer informações sobre os efeitos da degradação ambiental e do uso de insumos contaminantes sobre os ecossistemas e a saúde humana; tecnologias para evitar impactos ambientais, que variam desde modelos que reduzam a quantidade de insumos necessário à produção até a substituição de materiais; tecnologias de controle, que são do tipo EOP, incluindo a reciclagem e reutilização de materiais; tecnologias de remediação e restauração, aquelas específicas para limpar, restaurar ou recuperar o meio ambiente degradado. Medhurst (1993) subdivide as tecnologias ambientais em: equipamento end-of-pipe, técnicas de minimização de resíduos, melhoria no controle do processo produtivo, tecnologia limpas, técnicas de manejo de resíduos, reciclagem e recuperação de recursos e produtos limpos. 40 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Logo, as novas trajetórias e bifurcações de trajetórias tecnológicas devem ser induzidas para incorporarem melhorias ambientais, mesmo que não seja essa a finalidade primeira do desenvolvimento de determinada tecnologia. Ou seja, ao incorporar a questão ambiental nas inovações, podem-se obter melhorias ambientais e ganhos econômicos simultaneamente. A adoção de tecnologias menos poluentes não tem sido guiada pela proteção ambiental, mas pela busca de eficiência na utilização dos recursos (Fukasaku, 2000). Por exemplo, a alta do preço do petróleo estimulou a utilização mais eficiente dos recursos e a economia de energia nos setores mais poluentes e energo-intensivos, aumentando o rendimento energético e resultando em impactos positivos sobre o meio ambiente, inclusive na procura de fontes de energia mais limpas. Para melhor elucidar essa questão, Banks e Heaton Jr. (1995) advertem que a escolha da tecnologia apropriada é específica de cada situação e sugerem uma classificação de tecnologias a partir de uma perspectiva ambiental, variando entre pequenas mudanças (inovações incrementais) e mudanças sistêmicas (inovações radicais e mudança de paradigma tecnológico), e de tecnologias que podem ser alteradas no curto prazo e daquelas que só podem ser modificadas no longo prazo: • Controle e tratamento de poluição: melhorias no monitoramento, avaliações, controle e remediação da poluição; • Mudança de processo: mudanças gerais na tecnologia de produção que levam ao aumento da qualidade, controle, confiança e à redução de custos, ao mesmo tempo em que geram melhorias ambientais; • Desenho de produto: escolha de produtos que necessitam de menos insumos e não geram problemas de eliminação de resíduos tóxicos e de disposição final para consumidores e usos industriais; • Novos sistemas: grandes mudanças nos sistemas de infra-estrutura básica que levam à uma maior sustentabilidade ambiental do sistema; • Novas áreas de pesquisa tecnológica: áreas do conhecimento científico que apresentam um paradigma fundamentalmente diferente do atual e menos danosos ao meio ambiente. A utilização dos recursos tecnológicos para atender as necessidades sócio- econômicas e ambientais é influenciada por quatro fatores principais, a saber: aumento da demanda por novos produtos, serviços e processos produtivos; melhoria da base de 41 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária informações sobre a natureza e extensão dos problemas ambientais e suas soluções; aumento e redirecionamento da P&D; aumento da velocidade de comercialização de novas tecnologias; e novas estruturas organizacionais e institucionais (Banks e Heaton Jr., 1995). Três questões relevantes sobre a relação entre tecnologia e meio ambiente são destacadas por Foray e Grübler (1996). A primeira refere-se à incerteza, ao desconhecimento e ao conhecimento disperso que são dominantes na geração e distribuição do conhecimento tecnológico, principalmente em relação à questão ambiental. Associadas ao surgimento de uma nova tecnologia, existem incertezas quanto às suas propriedades e impactos atuais e futuros. Esses impactos podem estar associados aos usos da tecnologia em si, às incertezas de sua utilização social e às incertezas quanto à magnitude da difusão tecnológica e seus efeitos ou impactos cumulativos potenciais. Existe, também, o desconhecimento quanto à existência de determinadas tecnologias. O acesso ao conhecimento nem sempre é imediato, pois “there is simply a difference between knowledge that may exist somewhere and knowledge that is available in the right form, at the right time, to the right people” (Foray e Grübler, 1996 : 8). Além do mais, o conhecimento sobre o meio ambiente encontra-se disperso. Talvez as novas tecnologias de informação possam vir a minimizar esses problemas. A segunda questão refere-se às tensões existentes entre a inércia e estabilidade das tecnologias existentes e os fatores que induzem à mudança tecnológica, incluindo a preservação ambiental como um desses fatores. Como anteriormente mencionado, a tecnologia é resultado de uma trajetória previamente definida, gerando um efeito de lockin. Assim, a geração de novas tecnologias eco-eficientes torna-se um desafio, apesar do critério ambiental ser potencialmente indutor de mudança tecnológica. Surge uma importante questão: como superar a inércia tecnológica para acelerar a transição na direção de novas tecnologias e configurações institucionais que internalizem a questão da preservação ambiental? A última questão trata dos dilemas de política no que tange às questões ambientais. Os objetivos ambientais de curto e longo prazo podem não ser compatíveis, como acima mencionado para as soluções EOP e eco-eficientes. As regulamentações ambientais e as políticas vigentes podem não ser compatíveis com atitudes inovadoras das firmas. Além do mais, surge uma possível incompatibilidade entre a diversidade tecnológica, possivelmente mais adequada às diferentes questões ambientais, e a padronização, que reduz custos e gera 42 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária ganhos de escala. Por fim, existe o dilema entre a necessidade de acelerar a criação e difusão de tecnologias ambientais e a necessidade de minimizar a irreversibilidade tecnológica. Para Kemp e Soete (1990) a criação e a difusão de tecnologias ambientais diferem do processo tradicional de mudança tecnológica em geral, que consiste na sucessão de técnicas de produção mais novas e eficientes. Assim, apontam os fatores essenciais para o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientais nos diversos setores da economia. Tais fatores podem ser separados nos que afetam a oferta e naqueles que afetam a demanda por tecnologias ambientais. Do lado da oferta, pode-se destacar as oportunidades tecnológicas, que diferem tanto inter quanto intrasetorialmente. Essas oportunidades dependem dos conhecimentos científicos e técnicos existentes e dos equipamentos disponíveis, pois dada a diversidade dos problemas ambientais, alguns podem ser facilmente resolvidos com a tecnologia disponível, enquanto que outros não têm solução imediata e nem no futuro próximo. O outro fator refere-se às condições de apropriabilidade. Por um lado, dado o interesse social na rápida difusão dessas tecnologias, provavelmente haverá uma maior regulamentação no sentido de limitar o tempo de apropriabilidade. Por outro lado, dada a crescente expectativa em relação ao aumento da quantidade e da rigidez das regulamentações ambientais, o domínio de tecnologias mais limpas pode tornar-se um importante fator competitivo para as firmas. Finalmente, a instabilidade da demanda por tecnologia ambiental faz com que a indústria de tecnologia ambiental não se desenvolva plenamente. Dentre os fatores que afetam a demanda por tecnologias ambientais, os autores destacam, em primeiro lugar, os problemas relacionados com o conhecimento e a informação. Nestes estão incluídos tanto as competências técnicas para adaptar novas tecnologias, como também o conhecimento sobre quais técnicas estão disponíveis, como acessá-las e como obter financiamento para adotá-las. A insegurança e a incerteza em adotar de tecnologias ambientais, devido ao risco envolvido, é outro fator que afeta a demanda. Novas tecnologias requerem mudanças de rotina e treinamento de pessoal, além das incertezas inerentes aos seus resultados. Além do mais, as tecnologias ambientais podem ficar rapidamente obsoletas, na medida em que os padrões de proteção ambiental se 43 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária tornam mais rígidos. A avaliação de tais riscos varia de uma firma para outra e entre setores. A relação produtor usuário também influencia diretamente na demanda por tecnologias ambientais. Dada a diversidade dos problemas ambientais, é difícil haver um produtor de tecnologias mais limpas para todos os setores. Além do mais, o produtor de tecnologias ambientais, devido à especificidade de seu produto, não será o maior provedor de tecnologia para as empresas. O último fator apontado refere-se à distinção entre inovações de produto e de processo. As inovações de produto devem atender à demanda dos consumidores por produtos ecologicamente corretos, que vai depender da importância que atribuem ao meio ambiente e à disponibilidade de pagar por esse tipo de produto. As inovações de processo estão relacionadas com os objetivos e valores da firma, onde predominam os fatores de eficiência de custos. São, portanto, fatores diferentes que induzem cada tipo de inovação ambiental. Além desses fatores, a estrutura de mercado do setor poluidor influencia na difusão de tecnologias ambientais. As pequenas e médias empresas têm menos percepção dos problemas ambientais e possuem menos conhecimento e informações sobre as tecnologias disponíveis. É esperado, portanto, que firmas desse tipo sejam menos inovadoras, ao mesmo tempo em que não percebem a influência da preservação ambiental sobre seus negócios. O grau de competição entre as firmas e a situação financeira delas também influenciam na adoção de tecnologias ambientais. Mercados onde a competição se dá via preços, que possuem margens de lucro muito baixas e que são caracterizados pela ausência de competição – como monopólios e reservas de mercado – tendem a influenciar negativamente nas decisões da firma em adotar e desenvolver tecnologias ambientais. Preston (1997) aponta as razões pelas quais tecnologias ambientais não têm sido difundidas de maneira rápida e universal, como deveriam para superar problemas ambientais urgentes: → Subsídios governamentais: em geral estimulam o uso intensivo de determinados insumos – como energia e água – com base em tecnologias antigas, desestimulando as inovações tecnológicas que podem reduzir impactos ambientais. Por exemplo, subsídios para água, que reduzem o custo da oferta de água, do esgotamento sanitário e da irrigação, além de ofertar água para população a um preço abaixo do seu custo econômico. Certamente é um incentivo ao desperdício e não estimula tecnologia de reciclagem e 44 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária conservação desse recurso natural. O mesmo raciocínio vale para subsídios para combustíveis, energia elétrica e outros. → Não cobrar de poluidores: o fato de não cobrar dos poluidores o custo total dos problemas ambientais causados por suas atividades gera o mesmo problema dos subsídios. Por exemplo, os poluidores do ar, ao não incorporarem os custos decorrentes das doenças, mortes e perda de produtividade provocadas pela poluição que causaram, não se preocupam em reduzir as quantidades de emissões e não estimulam a inovação tecnológica. Assim, os preços de mercados devem incorporar os custos da poluição para incentivar as inovações. → Financiamento da “lacuna”: em vários países, inclusive no Brasil, o governo financia a pesquisa básica e a indústria financia a aplicação científica no processo produtivo. Entretanto, há uma lacuna entre a pesquisa básica e a aplicação efetiva no processo produtivo, que não há muito interesse em ser financiada por parte do governo, pois já é específica para uma determinada aplicação industrial, e por parte da indústria, pois nesse estágio as incertezas envolvidas são muito grandes. → Risco, incerteza das regulamentações e fragmentação do mercado: os riscos associados ao investimento no setor de tecnologias ambientais são altos em relação aos retornos. Os investidores em geral não se mostram muito interessados em investir num setor caracterizado pela incerteza e guiado pela regulamentação e gastos governamentais. Logo, o mercado de tecnologias ambientais é instável. Além do mais, como cada estado possui legislação ambiental específica, e muitas vezes divergente entre si e da legislação ambiental federal, os mercados de tecnologias ambientais tornam-se fragmentados, com várias subdivisões. Assim, os investimentos em novas tecnologias tornam-se grandes em relação ao tamanho dos mercados específicos. Adicionalmente, os mercados de capitais esperam retornos a prazos mais curtos do que o tempo de retorno do investimento em tecnologias ambientais. Os instrumentos de política ambiental também têm um papel importante na geração de inovações ambientais. Instrumentos que induzem a adoção de determinada tecnologia (best available technology) contribuem para a difusão dessa tecnologia, mas podem gerar um efeito de lock-in. Adicionalmente, uma nova tecnologia começa com desvantagens, pois as licenças para o funcionamento de qualquer planta são baseadas em tecnologias existentes, que podem diferir substancialmente da nova tecnologia. 45 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Analisando a literatura sobre tecnologia e meio ambiente acima comentada, pode-se distinguir entre os fatores que induzem ou inibem a difusão de tecnologias ambientais. Dentre os fatores inibidores estão os de ordem tecnológica, política e mercadológica: Tecnológicos: (i) incerteza, desconhecimento e conhecimento dispersos que são inerentes à geração e difusão do conhecimento tecnológico, inclusive das tecnologias ambientais, sendo muito dependentes de oportunidades tecnológicas; (ii) tensões existentes entre, de um lado, a inércia e estabilidade das tecnologias existentes (levando em consideração os custos irrecuperáveis) e, de outro, os fatores que induzem a mudança tecnológica (inclusive fatores ambientais). São questões referentes ao lock-in tecnológico e à inércia da firma em relação a mudanças de rotinas e treinamento de pessoal; (iii) a apropriabilidade da inovação ambiental é complicada, pois há o interesse social na difusão rápida contra o interesse privado de manter um fator competitivo, dada a tendência de aumento e restrição das regulamentações ambientais; (iv) a padronização de equipamentos que permitem redução de custos e ganhos de escala não é compatível com a diversidade tecnológica, de maior adaptação as especificidades ambientais locais. Políticos: (i) dilemas de política quanto: objetivos de curto e longo prazos, regulamentações ambientais vigentes serem incompatíveis com atitudes inovadoras e a necessidade de acelerar a geração e difusão de tecnologias ambientais versus a minimização da irreversibilidade tecnológica, evitando altos custos de P&D; (ii) mudanças e incertezas das regulamentações ambientais podem levar a obsolescência rápida de determinadas tecnologia; (iii) subsídios governamentais que estimulam o uso intensivo de recursos naturais, baseados em tecnologia antigas (não saudáveis ecologicamente); (iv) não cobrar dos poluidores o custo dos problemas ambientais causados por suas atividades econômicas. Mercadológicos: (i) instabilidade da demanda por tecnologias ambientais, que devido às especificidades setoriais dos problemas ambientais, reduz a escala de produção dos equipamentos, não permitindo ganhos de escala substanciais; (ii) estrutura do mercado, quanto ao tamanho das firmas, a possibilidade de diferenciação de produtos, estrutura de custos e o grau de diversificação/integração; (iii) tipo de concorrência, considerando o grau de competição entre as firmas e a situação financeira; (iv) o 46 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária retorno dos investimentos em inovações ambientais pode ser grande, o que dificulta o interesse de financiamento dessas inovações. Dentre os fatores indutores, que podem ser considerados como neutralizadores parciais dos fatores inibidores, estão os de ordem tecnológica, política, mercadológica, e estrutural: Tecnológicos: (i) aumento e redirecionamento da P&D, induzindo a incorporação da variável ambiental – internalização das questão ambiental na mudança tecnológica; (ii) oportunidades tecnológicas que facilitam a solução imediata de problemas ambientais. Políticos: (i) melhoria e disseminação da base de informações sobre a natureza e extensão dos problemas ambientais e suas soluções, estimulando a formação de banco de dados e utilizando tecnologias de informação; (ii) regulamentações que estimulem as firmas a inovarem, fazendo com que a preservação ambiental seja vista como uma oportunidade e não um custo. Mercadológicos: (i) demanda por produtos, serviços e processos produtivos ecologicamente mais adequados, tanto do lado dos consumidores quanto das empresas exigindo de seus fornecedores; (ii) aumento da velocidade de comercialização de novas tecnologias, ou seja, esforço de vendas por parte dos produtores de equipamentos menos agressivos ao meio ambiente. Estrutural: (i) novas estruturas organizacionais nas firmas que permitam o desenvolvimento de tecnologias mais limpas, incluindo o conhecimento tácito dos funcionários ligados diretamente à produção; (ii) remodelagem das instituições para induzirem a inovação ambiental. Essa análise da relação entre tecnologia e meio ambiente é importante para a compreensão da relação entre regulamentação ambiental, inovação tecnológica e competitividade. Dado que a regulamentação ambiental é um dos fatores mais importantes para induzir a adoção de inovações, e estas últimas, seguindo a racionalidade da teoria evolucionária, seriam importantes para manter a posição competitiva da firma, é preciso aprofundar mais a discussão sobre regulamentações e competitividade. A natureza dos objetivos de política ambiental – em relação ao prazo de cumprimento, ao tipo de mudança e aos custos sociais e privados envolvidos – é determinante na escolha do tipo de instrumento que pode induzir o desenvolvimento de tecnologias ambientais. 47 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Apesar dos avanços das tecnologias ambientais no setor industrial – tecnologias EOP, intensificação do uso de materiais menos agressivos ao meio ambiente, melhorias de processos e sistemas de reutilização de materiais – os problemas ambientais ainda persistem. A condição para se obter ganhos na direção de um padrão de produção mais ecologicamente correto implica a mudança na direção de um paradigma tecnológico que não esteja calcado na utilização intensiva de energia e matérias-primas, e a conseqüente adaptação de processos produtivos. Isto significa uma mudança radical e, por isso, tende a ser um processo lento e gradual. Um novo paradigma tecnológico requer um longo prazo de maturação, além de transformações na qualificação da mão-de-obra, na infra-estrutura e nas instituições. Dada a complexidade do problema, a sua urgência em termos ecológicos e a incapacidade do mercado para iniciar este processo rapidamente, é fundamental que tais mudanças sejam induzidas por meio de políticas públicas, direcionando e dando suporte aos agentes capazes de provocar tal mudança e para aqueles que terão de adaptar-se às novas condições vigentes. 1.5 Regulamentação Ambiental e Competitividade: As Diferentes Vertentes de Análise 1.5.1 As melhorias ambientais e a necessidade de regulamentação O comportamento das firmas industriais em relação ao meio ambiente é um dos fatores importantes para se obter melhorias ambientais. Como visto, o segmento industrial é um dos que mais provoca danos ambientais, seja por processos produtivos não saudáveis para o meio ambiente – uso intensivo de recursos naturais e energia –, seja pela má disposição final de rejeitos industriais ou pela fabricação de um bem cujo uso agrida o meio ambiente – em seu consumo ou em sua disposição final. Na última década, observou-se que as firmas, sejam nacionais ou estrangeiras, tomaram uma posição mais pró-ativa em relação ao meio ambiente23, ou seja, passaram a adotar práticas menos agressivas ao meio ambiente, algumas se antecipando às regulamentações ambientais ou por meio de implantação da gestão ambiental no âmbito da gestão empresarial. 23 A literatura aponta vários exemplos de firmas que são pró-ativas em relação ao meio ambiente. Para algumas referências sobre as firmas estrangeiras ver Schmidheiny (1992) e para a firmas brasileiras – multinacionais ou não – ver Maimon e Lustosa (1999). 48 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Entretanto, mesmo com a melhoria das práticas ambientais por parte de algumas firmas industriais, tais esforços no plano microeconômico são insuficientes para atender às demandas por melhorias ambientais no plano macroeconômico. Problemas ambientais globais e locais continuam na pauta de discussão – como as mudanças climáticas e os recursos hídricos –, mesmo com os avanços obtidos com tecnologias mais limpas, reciclagem e reutilização dos rejeitos industriais e processos produtivos mais energoeficientes. Para explicar esse paradoxo micro-macro, algumas questões devem ser consideradas: primeiro, que a estratégia ambiental das firmas é guiada mais pelo medo de uma falha em relação à questão ambiental – que pode levar os consumidores a boicotarem seus produtos – do que em antecipar o sucesso de uma estratégia pró-ativa (Howes et alii, 1997). Segundo, o comportamento ambiental das firmas difere significativamente em relação ao tamanho, ao mercado consumidor – externo ou interno – e ao tipo de negócio24, dando a falsa impressão de que a implantação da gestão ambiental por parte das grandes firmas é suficiente para resolver os problemas ambientais causados pela indústria. Por exemplo, as pequenas firmas poluidoras ficam invisíveis aos olhos do público, mas grandes firmas, mesmo adotando uma gestão ambiental correta, ficam mais vulneráveis às criticas do público quando surge algum problema ambiental decorrente de sua atividade industrial. Desta forma, é importante identificar os fatores que induzem as firmas a adotarem práticas mais saudáveis para o meio ambiente25. Howes et alii (1997) apontam quatro fatores: as pressões das regulamentações ambientais, as pressões dos consumidores finais e intermediários, a pressão dos grupos de interesses (stakeholders) e a pressão dos investidores. Como o comportamento das firmas é guiado pela obtenção de lucro, predominando entre seus objetivos os fatores de eficiência de custos, a adoção de métodos de produção ambientalmente corretos, por meio de uma gestão ambiental eficiente, não é um objeto prioritário, apesar da crescente consciência de seu papel poluidor e das pressões sociais (Kemp e Soete, 1990). O objetivo implícito de uma gestão ambiental é estreitar as relações com a população em geral e com as instituições públicas, de modo a permitir que as firmas e setores industriais mantenham-se competitivos (Howes et alii, 1997). Logo, haverá 24 Ver capítulo 2. 49 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária poucas atitudes voluntárias para combater a poluição e a degradação dos recursos naturais como um objetivo explícito. Nesse caso, as regulamentações seriam necessárias para induzir as firmas a adotarem tecnologias mais limpas e os setores considerados mais poluidores seriam os mais pressionados a diminuírem seus impactos ambientais. Se por um lado as regulamentações ambientais são socialmente necessárias, por outro fazem com que as firmas sejam obrigadas a obedecer a determinados padrões e a adotar determinados comportamentos, ou induzidas a tomar atitudes menos agressivas ao meio ambiente. Os órgãos reguladores estabelecem instrumentos de política ambiental que são imperfeitos e passíveis de várias críticas, principalmente quando reduzem o desempenho ambiental da firma à obediência de regras definidas externamente ao setor industrial. Ao modificarem suas rotinas e estratégias, as firmas passam a ter resultados diferenciados em seu desempenho, gerando um questionamento acerca da competitividade das mesmas. A regulamentação ambiental tem sido alvo de intensas discussões no meio acadêmico. Há um relativo consenso quanto à necessidade de regulamentação das atividades produtivas que geram impactos ambientais, mas os tipos de instrumentos a serem utilizados estão longe do consenso. Diferentes tipos de instrumentos induzem diferentes atitudes das firmas reguladas. A relação entre regulamentação e a capacidade inovativa das firmas coloca questões importantes: é uma restrição ou estímulo à inovação? Acelera ou retarda o desenvolvimento econômico? De que modo a firma pode ser induzida a fazer algo novo? (Kemp et alii, 2000). 1.5.2 Regulamentação ambiental e competitividade As questões relacionadas à competitividade e ao meio ambiente ganharam importância crescente no final dos anos 80. Nas décadas de 70 e 80, com a intensificação do processo de globalização financeira e produtiva da economia mundial – e o conseqüente aumento dos fluxos de comércio internacional –, aliada aos acordos firmados no âmbito do GATT, as barreiras tarifárias foram perdendo importância relativa para as barreiras nãotarifárias – inclusive de caráter ambiental. Alguns países desenvolvidos passaram a adotar 25 Ver capítulo 2, item 2.3, sobre as evidências empíricas dos determinantes dos investimentos ambientais no Brasil. 50 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária barreiras não-tarifárias ambientais – “barreiras verdes” –, alegando que os países em desenvolvimento possuiriam leis ambientais menos rigorosas que as suas, o que resultaria em custos mais baixos – também chamado de dumping ecológico – e, consequentemente, menores preços praticados no mercado internacional. A maneira pela qual a imposição de normas ambientais afeta a competitividade das empresas e setores industriais é percebida de forma distinta. Na década de 90 houve uma polarização desse debate em torno da hipótese de Porter e desdobramentos posteriores foram elaborados ao final da década. O debate inicial ocorre no âmbito do comércio internacional: por um lado, a imposição de normas ambientais restritivas pelos países desenvolvidos pode ser uma forma camuflada de protecionismo de determinados setores industriais nacionais, que concorrem diretamente com as exportações dos países em desenvolvimento. Por outro lado, essas mesmas normas estariam prejudicando a competitividade das empresas nacionais, pois implicariam custos adicionais ao processo produtivo, elevando os preços dos produtos e resultando na possível perda de competitividade no mercado internacional. Nesse primeiro momento, a competitividade estava relacionada ao mercado externo e importantes aspectos da relação entre competitividade e preservação ambiental começaram a ser estudados. Para OCDE (1993), a competitividade é “‘la capacité d’un pays de produire des biens et services qui soutiennent la concurrence sur les marchés internationaux et d’assurer à ses citoyens un niveau de vie toujours plus élevé susceptible de se maintenir à long term’ ” (Stevens, 1993:21). A partir dessa definição, Stevens (1993) aborda os aspectos macroeconômicos e microeconômicos da relação entre políticas ambientais e competitividade industrial. No plano macroeconômico as pesquisas realizadas revelam que os custos associados às regulamentações ambientais praticamente não influenciam na 26 competitividade global dos países da OCDE , principalmente no que tange à balança comercial e aos fluxos comerciais. Apoiados em estudos empíricos, o relatório conclui que as medidas anti-poluição representam uma fração muito pequena dos custos totais da 26 Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (em inglês, Organisation for Economic CoOperation and Development – OECD). É composta por 30 países membros, a saber: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, República Tcheca, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Islândia, Japão, Coréia, Luxemburgo, México, Hollanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, República Eslovaca, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos. 51 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária maioria dos setores industriais. Assim, algumas hipóteses são apresentadas para justificar tal conclusão: i) Peso econômico insuficiente: Estudos empíricos mostram que os custos ambientais não passam de 1% a 2% do total de custos ou receitas totais da maior parte dos setores industriais27. Consequentemente, os custos de conformidade das políticas ambientais não constituem um fator determinante para a competitividade ou para o comércio internacional no plano macroeconômico. ii) Dados e métodos imperfeitos: Os dados relativos aos custos das medidas antipoluição nos países da OCDE são imperfeitos e apresentam lacunas, tornando um obstáculo para a verificação concreta dos efeitos macroeconômicos das políticas ambientais. iii) Custos marginais da redução da poluição: A maior parte das indústrias dos países da OCDE está situada numa parte relativamente pouco inclinada da curva de custo marginal de redução da poluição. Isso significa que melhorias ambientais podem ser obtidas por um custo adicional muito baixo. Pode ser que, futuramente, quando as indústrias estiverem num ponto mais inclinado da curva de custo marginal de redução da poluição – melhorias ambientais ocorreriam a custos muito elevados –, as políticas ambientais passem a influenciar negativamente na competitividade. Mas pode ser, também, que o progresso técnico faça com que essa curva de custo marginal seja continuamente deslocada para baixo, mantendo os custos sempre baixos. iv) Neutralização dos efeitos favoráveis e desfavoráveis: No nível macroeconômico, os efeitos desfavoráveis dos custos das medidas anti-poluição sobre a competitividade podem ser compensados pelos investimentos necessários para a realização das melhorias ambientais, como os serviços ambientais, produtos ecológicos, inovações tecnológicas que aumentam a eficiência produtiva e reduzam os custos dos equipamentos, entre outros. v) Concepção das políticas ambientais: Os instrumentos de política ambiental foram concebidos e praticados com o intuito de minimizar os possíveis efeitos sobre a competitividade industrial, por meio de mecanismos compensatórios, como financiamentos, entre outros. 27 Ver Nordström e Vaughan (1999). 52 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária No plano microeconômico, relativo aos setores industriais e empresas, as medidas anti-poluição podem ter impactos negativos importantes que não são visíveis no plano macroeconômico para os países da OCDE (Stevens, 1993). Em relação aos custos totais, os custos relativos ao meio ambiente podem ser superiores a 2% nas indústrias mais poluentes – química, atividades extrativas, refino de petróleo, papel e celulose. Para essas mesmas indústrias, os investimentos ambientais podem representar de 18% a 20% do total dos investimentos realizados. Assim, as regulamentações ambientais podem ter efeitos marginais desfavoráveis naqueles setores que não são muito competitivos. Por outro lado, estudos empíricos mostram que essas mesmas regulamentações podem melhorar a competitividade de alguns setores industriais, uma vez que forçam os processos produtivos a serem mais eficientes, estimulam as inovações e a diversificação de atividades. Desta forma, os setores industriais podem melhorar a competitividade ao atribuir maior importância às questões ambientais, a depender de suas características básicas: setores que podem diferenciar produtos e que necessitam de melhorias tecnológicas constantes tendem a se beneficiar mais com as regulamentações ambientais. De acordo com Stevens (1993), os seguintes fatores fazem com que os efeitos da política ambiental sobre a competitividade variem de um setor a outro: i) Custos ambientais, que variam de acordo com os impactos negativos da atividade produtiva sobre o meio ambiente (nível de emissão de poluentes e resíduos, grau de depleção dos recursos naturais, entre outros) e o percentual dos custos totais que se refere aos custos de conformidade. ii) Fatores não ligados ao meio ambiente, tais como mão-de-obra, capital e tecnologia, que influenciam em maior ou menor grau na competitividade. iii) Tipo de setor, ou seja, sua posição relativa nos fluxos materiais de compra e consumo de recursos e as vantagens técnicas a serem obtidas da melhoria da qualidade ambiental. iv) Diferenciação de produto, isto é, se a concorrência setorial está baseada no preço ou na diferenciação de produto e das vantagens que se pode obter, via diferenciação de produto, com produtos ecológicos ou não agressivos ao meio ambiente. v) Concorrência internacional, ou seja, a posição e a natureza do setor na concorrência internacional e o caráter, local ou mundial, dos mercados considerados. 53 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária vi) Tamanho da empresa, que possibilita a firma usufruir economias de escala na produção e na obtenção de recursos financeiros e técnicos destinados a investimentos. vii) Ciclo de investimento, aliados aos custos irrecuperáveis (sunk costs) correspondentes às instalações e equipamentos, pode influir na competitividade do setor. O debate acerca da relação entre competitividade e preservação ambiental é bastante polêmico, uma vez que os custos ambientais são contabilizados no curto prazo, mas os seus efeitos sobre o meio ambiente só são percebidos no longo prazo. Além dos aspectos macro e microeconômicos dessa relação, há ainda as repercussões sobre o investimento externo – a questão do êxodo e da migração28 de indústrias poluentes para países em desenvolvimento, que possuem legislação ambiental menos rígida que os países desenvolvidos – e os mecanismos de intervenção para “nivelar as regras do jogo” no plano internacional – que incluem direitos compensatórios, ajustamento fiscal na fronteira, harmonização de políticas ambientais, ajudas financeiras para proteção ambiental, entre outros – que não serão tratados na tese29. Apesar da sua extrema relevância, esses últimos aspectos da relação entre competitividade e preservação do meio ambiente referem-se a questões internacionais, que ampliariam muito a abrangência da tese. A ênfase será dada nos aspectos microeconômicos, relativos às firmas e aos setores industriais num ambiente competitivo mais restrito, dentro dos limites da economia nacional. 1.5.3 O debate acerca da relação entre competitividade e preservação do meio ambiente – discutindo a Hipótese de Porter A relação entre competitividade e preservação do meio ambiente passou a ser objeto de intenso debate na década de 90, que se polarizou em duas vertentes de análise: a primeira acredita na existência de um trade-off, no qual estariam, de um lado, os benefícios sociais relativos à maior preservação ambiental, resultante de padrões e regulamentações mais rígidos; de outro lado, tais regulamentações levariam a um aumento dos custos privados do setor industrial, elevando preços e reduzindo a competitividade das empresas. As regulamentações são necessárias para melhorar a qualidade ambiental, mas são 28 Êxodo industrial significa a transferência da produção realizada por diferentes empresas e migração industrial é a transferência da produção de um setor industrial. 54 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária igualmente responsáveis pela elevação de custos e perda de competitividade da indústria. Essa vertente se alinha com os princípios do mainstream econômico. Opondo-se a esta visão, a segunda vertente de análise vislumbra sinergias entre competitividade e preservação do meio ambiente. Chamada pela literatura30 de hipótese de Porter – baseada nos artigos de Porter e van der Linde (1995a e 1995b) –, o argumento é que a imposição de padrões ambientais adequados pode estimular as empresas a adotarem inovações que reduzem os custos totais de um produto ou aumentem seu valor, melhorando a competitividade das empresas e, consequentemente, do país. A hipótese de Porter Para Porter e van der Linde (1995a e 1995b), que rejeitam o argumento da existência do trade-off entre competitividade e preservação ambiental, a incompatibilidade entre meio ambiente e indústria baseia-se numa visão estática da regulamentação ambiental, na qual tecnologia, produtos, processos e as necessidades dos consumidores são fixos. Além do mais, como as firmas teoricamente sempre operam em condições de custos mínimos, padrões ambientais mais rígidos certamente levariam ao aumento de custos e tenderiam a reduzir a parcela de mercado das empresas no mercado internacional globalizado (Porter e van der Linde, 1995a). A argumentação teórica dos economistas ortodoxos está baseada em dois pilares de sustentação do mainstream: o equilíbrio de mercado e a racionalidade substantiva – ou maximizadora – dos agentes econômicos (Possas, 1996). Entretanto, as empresas atuam num ambiente caracterizado pela competição dinâmica, baseada em inovações, incompatível com os pilares teóricos da ortodoxia. As pressões exercidas sobre as firmas – de competidores, de clientes e das regulamentações – fazem com que elas busquem soluções inovadoras para manterem-se competitivas. Logo, a imposição de padrões ambientais adequados pode estimular as empresas a adotarem inovações que reduzem os custos totais de um produto ou aumentam seu valor (Porter e van der Linde, 1995b). Com vários exemplos de setores e empresas que sofreram pressões para tornarem seus produtos e/ou métodos de produção ambientalmente corretos, os autores argumentam 29 Para uma discussão desses aspectos ver OCDE (1993) e Albrecht (1998), por exemplo. 55 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária que as inovações adotadas para cumprir com as regulamentações ambientais fazem com que as firmas utilizem seus insumos – matérias-primas, energia e trabalho – de modo mais produtivo, reduzindo custos e compensando os gastos com as melhorias ambientais. O argumento central é que a imposição de regulamentações ambientais adequadas pode induzir inovações que irão, em parte ou mais do que totalmente, compensar os custos31 de adequar-se a tais regulamentações – essa é a hipótese de Porter. Assim, a preservação ambiental está associada ao aumento da produtividade dos recursos utilizados na produção e, consequentemente, ao aumento da competitividade da empresa. O aumento da produtividade dos recursos é possível porque a poluição é, muitas vezes, um desperdício econômico. Resíduos industriais – sólidos, líquidos ou gasosos – podem ser reaproveitados, utilizando-os para a co-geração de energia, extraindo substâncias que serão reutilizadas e reciclando materiais. Ao analisar o ciclo de vida do produto32, há também outros desperdícios, como o excesso de embalagens e o descarte de produtos que requerem uma disposição final de alto custo. Tanto o desperdício dos resíduos industriais quanto os desperdícios ao longo da vida do produto estão embutidos nos preços dos produtos, fazendo com que os consumidores paguem, sem perceber, pela má utilização dos recursos. É nesse sentido que a utilização mais racional dos recursos, somente possível por meio de inovações, pode aumentar a produtividade e tornar a empresa mais competitiva: pela redução de custos e/ou pela melhoria de seus produtos – pelos quais os consumidores estariam dispostos a pagar mais. Porter e van der Linde (1995a) classificam as inovações ambientais resultantes de regulamentações em duas categorias: a primeira refere-se às ações mais eficientes da firma no tratamento da poluição que já ocorreu. Estas podem ser relativas ao processamento de substâncias tóxicas, às melhorias no tratamento de resíduos e ao modo de reduzir a quantidade gerada de materiais perigosos, inclusive tornando-os vendáveis. Nesse caso, há uma redução dos custos de cumprir com o controle de poluição, sem nenhuma outra mudança. 30 Ver Jaffe et alii (1995), López (1996), Albrecht (1998), Lanoie e Tanguay (1998), Nordström e Vaughan (1999) e Sinclair-Desgagné (1999), por exemplo. 31 Porter e van der Linde referem-se aos custos privados de cumprir com as regulamentações ambientais e não aos custos do sociais (despesas do Estado) em impor tais regulamentações. 32 O ciclo de vida do produto refere-se à análise de seus impactos ambientais desde a extração da matériaprima até a sua disposição final, quando não é mais útil, ou seja, analisa o produto do “berço ao túmulo”. 56 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Na segunda categoria, estão inovações cujos resultados compensam os custos de implementá-las. Ocorre simultaneamente uma redução do impacto ambiental e uma melhoria do produto e/ou processo produtivo. Assim, as inovações não somente reduzem a poluição, mas também resultam em produtos com melhor desempenho, de melhor qualidade, mais seguros, mais baratos, com maior valor de revenda, com menores custos de disposição final ou passíveis de reciclagem. No caso dos processos produtivos, além da redução da poluição, constata-se maior produtividade dos recursos, economia de materiais, melhor utilização dos subprodutos, menor consumo de energia, redução da estocagem de materiais, conversão do lixo em algo de valor, redução dos custos dos aterros ou condições mais seguras de trabalho. Vários exemplos podem ilustrar essa segunda categoria de inovações. Nos estudos citados por Porter e van der Linde (1995a), foram analisados diversos casos de inovações ambientais e somente um apresentou um aumento líquido nos custos. Além do mais, os investimentos requeridos foram baixos e o tempo de retorno do investimento mostrou-se reduzido – cerca de dois terços dos casos estudados recuperaram o investimento inicial em seis meses ou menos. Dentre os setores estudados estão os de papel e celulose, de tintas e corantes, de refrigeradores, de baterias, de tintas para impressão e eletrônico. Mesmo que algumas empresas sejam pró-ativas, isto é, adotem inovações ambientais antes que sejam obrigadas a fazê-lo, as regulamentações que fomentam esse tipo de inovações não deixam de ser importantes sinalizações. Assim, “... the actual process of dynamic competition is characterized by changing technological opportunities coupled with highly incomplete information, organizational inertia and control problems reflecting the difficulty of aligning individual, group and corporate incentives. Companies have numerous avenues for technological improvement, and limited attention” (Porter e van der Linde, 1995a : 99). Em um mundo dinâmico, onde mudanças ocorrem com freqüência, sempre estão surgindo novas oportunidades para inovações. Como os problemas ambientais não são sempre os mesmos ao longo do tempo, novos problemas podem exigir novas tecnologias, sendo as regulamentações necessárias para estimular as soluções desses novos problemas. 57 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária As regulamentações adequadas são necessárias pelas razões apontadas por Porter e van der Linde (1995b): 1. Motivar as firmas a inovarem. A pressão das regulamentações exercida sobre as firmas faz com que elas superem a inércia organizacional e que fomentem idéias inovadoras. 2. Melhorar a qualidade ambiental quando o aumento da produtividade dos recursos não compensa totalmente os custos de conformidade, ou quando o tempo de aprendizado dos efeitos da inovação é longo. 3. Alertar e educar as firmas sobre a utilização ineficiente dos recursos e sobre as áreas que têm potencial para melhorias tecnológicas. 4. Aumentar a probabilidade de que inovações de produto e processo possam ser ambientalmente corretas. 5. Criar demanda para as melhorias ambientais até que as empresas e consumidores sejam capazes de perceber e quantificar melhor as ineficiências no uso dos recursos. 6. Nivelar as regras do jogo durante o período de transição para inovações ambientais, assegurando que não haverá vantagens em não investir em meio ambiente. As críticas à hipótese de Porter e os contra-argumentos A hipótese de Porter foi rejeitada por Palmer et alii (1995), que concentraram seus argumentos em quatro pontos. A primeira crítica aponta que, apesar de Porter e van der Linde defenderem as regulamentações ambientais mais restritivas, não há referência aos benefícios sociais de tais regulamentações. Assim, seguindo a abordagem da teoria econômica tradicional, deveria ser feita uma análise custo-benefício das regulamentações, ou seja, comparar os benefícios sociais – redução da mortalidade, aumento das oportunidades de lazer, aumento do valor da terra devido à despoluição, entre outros – com os custos (privados e governamentais) de impor tais regulamentações. É nesse tipo de análise que surge o trade-off entre competitividade e preservação do meio ambiente. A argumentação de Porter e van der Linde refere-se à firma e seus custos, ou seja, tratam de custos privados de redução de impactos ambientais. Em momento algum os autores sustentaram que as inovações, advindas de regulamentações mais restritivas, iriam compensar os custos públicos com controle, monitoramento, entre outros necessários para implementar e fazer cumprir com a legislação ambiental. 58 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária A segunda crítica, de caráter metodológico, é que a hipótese de Porter é sustentada apenas com estudos de caso, sem qualquer referencial teórico que a comprove. Diante das milhares de firmas norte-americanas sujeitas às regulamentações ambientais, seria fácil encontrar evidências de firmas que tiveram seus custos aumentados e seus lucros diminuídos devido a tais regulamentações. Porter e van der Linde discordam. Os estudos que apresentam aumento de custos não são análises definitivas, pois as estimativas dos custos de cumprir a regulamentação tendem a ser exagerados uma vez que não há inovações. Além do mais, os autores apresentam casos em que a previsão de aumento de custos foi muito superior ao aumento efetivo33. Palmer et alii (1995) discordam que o enfoque neoclássico é estático, pois a literatura de economia ambiental (o mainstream da economia do meio ambiente) coloca que os instrumentos de política baseados incentivos de mercado são mais atrativos por sua eficiência dinâmica. Assim, o que diferenciaria as idéias de Porter e van de Linde dos seus críticos neoclássicos não seria a visão estática, mas a capacidade do setor privado encontrar sistematicamente oportunidades lucrativas para inovações, além de a autoridade reguladora ser capaz de corrigir essa “falha de mercado”, isto é, as regulamentações dariam o incentivo necessário às inovações redutoras de custo e de melhoria de qualidade, que o mercado sozinho não seria capaz de induzir. Utilizando um modelo estático e sem considerar as incertezas advindas das decisões de P&D, Palmer et alii demonstram que com restrições adicionais, ou mais rígidas, para o espectro de escolha da firma não se pode esperar um aumento do nível de lucros, ao contrário, a firma estaria numa posição pior que antes das restrições (Palmer et alii, 1995: 122-125). Essa é a terceira crítica. O contra-argumento de Porter e van der Linde é que esta é uma má interpretação de suas conclusões. O que eles argumentam é que regulamentações apropriadas e empresas sintonizadas com as oportunidades existentes levam, em muitos casos, a minimizar ou eliminar os custos de conformidade. A última crítica refere-se à afirmação de Porter e van der Linde de que os custos de cumprir com as regulamentações são compensados com os ganhos advindos das inovações 33 Ver item 1.5.4 para a discussão sobre a avaliação de custos das regulamentações ambientais ex-ante e expost da implementação. 59 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária adotadas para fazer face a tais regulamentações. Palmer et alii apresentam dados do Environmental Economics Division of the Commerce Department’s Bureau of Economic Analysis (BEA) sobre os gastos de abatimento e de controle de poluição dos Estados Unidos e concluem que os custos são muito maiores que os ganhos. Além do mais, mesmo que houvesse uma compensação dos custos, deveria ser levado em conta o custo de oportunidade do investimento realizado para cumprir com as regulamentações, o que elevaria o custo da regulamentação ambiental. Porter e van de Linde argumentam que os esforços para obter melhorias ambientais sempre se concentraram no controle da poluição, isto é, no tratamento da poluição depois que ela já ocorreu. Nessas condições, realmente espera-se que haja um aumento de custos. Mas os autores enfatizam o conceito de inovações cujos resultados podem compensar os custos de implementá-las, pois a poluição é considerada uma utilização improdutiva dos recursos, dado que as firmas nem sempre estão minimizando custos e, assim, um aumento da produtividade do recurso pode levar a melhoria da preservação ambiental. Além do mais, os investimentos ambientais representam uma porcentagem muito pequena dos investimentos totais da maioria das indústrias, não apresentando custos de oportunidade relevantes34. Algumas considerações merecem ser feitas quanto às duas vertentes acima consideradas: a vertente que se alinha com o mainstream possui incompatibilidades teóricas com a análise da mudança tecnológica. A teoria evolucionária é mais adequada para tratar esta questão, inclusive a questão ambiental. Mais especificamente, como coloca López (1996), o marco teórico da teoria econômica ortodoxa é criticado em dois aspectos específicos que são fundamentais para essa discussão: a teoria da firma e a teoria da mudança tecnológica e da inovação. Isso não quer dizer, entretanto, que inexiste o tradeoff entre competitividade e preservação do meio ambiente, mas as justificativas do argumento certamente são diferentes das do mainstream. A vertente da hipótese de Porter apresenta evidências importantes e argumentos pertinentes, porém mostra-se insuficiente. No que tange a questão da análise custo- 34 Os custos de operação para abatimento de emissões na indústria norte-americana representam, em média, 0,6% do valor da produção, segundo dados do Census Bureau (1996). Esse valor aumenta para 1,5% a 2% para as indústrias mais poluentes – Petróleo e produtos de carvão; Químicos e derivados; Metalurgia primária; Papel e derivados (Nordström, e Vaughan 1999). Apesar de os custos de operação para abatimento de emissões não serem os mesmos que investimentos ambientais, os dados revelam que abater as emissões industriais não implica necessariamente em alto custo. 60 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária benefício, fica evidente que o enfoque de Porter e van der Linde é microeconômico e não macroeconômico. Fazer uma análise desse tipo no nível macro é complicado quando se pretende medir – e os métodos de valoração são muitos controversos35 – os benefícios sociais da preservação ambiental. Por exemplo, qual a perda para a sociedade se um ecossistema sofrer uma alteração por causa de uma empresa poluidora? Quanto a sociedade atual ganha em recuperar um ecossistema degradado? E as gerações futuras? Qual a taxa de desconto que se deve utilizar para ter o valor presente da preservação ambiental para futuras gerações, ao fazer uma análise custo-benefício? A hipótese de Porter, levantada nos artigos citados (Porter e van der Linde, 1995a e 1995b), não evidencia sua fundamentação teórica. Há uma convergência muito grande com os autores evolucionários (como acima definidos), pois ambos criticam a economia neoclássica (mainstream) em bases semelhantes e colocam a inovação como um elemento fundamental no processo de concorrência das firmas capitalistas. Além do mais, o conceito de competitividade de Porter é convergente com o conceito de competitividade dos autores evolucionários. Palmer et alii (1995) utilizam um modelo estático e sem incertezas para mostrar que restrições adicionais levam a firma a uma posição pior que antes das restrições. A insuficiência dessa argumentação é clara pelas hipóteses irreais que utilizam, além de que não se pode analisar a hipótese de Porter na concepção de curto prazo da teoria econômica convencional, que é totalmente oposta à visão de competitividade dinâmica de Porter e van der Linde. Outros autores, como Jaffe et alii (1995), ao analisarem a questão, concluem que, no caso da indústria norte-americana, não há evidências suficientes para supor que as regulamentações ambientais tiveram um efeito adverso significativo sobre a competitividade. Ainda sobre o conceito de competitividade, vale ressaltar que a competitividade a qual se refere a hipótese de Porter é diferente daquela entendida pelos seus críticos. Como esses últimos partem do referencial teórico da economia neoclássica, a competitividade é estática e está associada a variações nos preços – visão de curto prazo. Nessa perspectiva, o aumento dos preços dos produtos, decorrentes da elevação de custos provocada pelas regulamentações ambientais, levaria à perda de competitividade das empresas e do país – por meio do aumento de preços e a conseqüente perda de mercados. A competitividade 35 A respeito dos métodos de valoração e as suas limitações ver Seroa da Motta (1998). 61 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária ao qual se refere à hipótese de Porter é essencialmente dinâmica – visão de longo prazo – e está relacionada com a capacidade das firmas de elaborarem e implementarem estratégias competitivas capazes de preservar ou fortalecer sua posição no mercado. Nesse sentido, a competitividade é convergente com a perspectiva teórica evolucionária, na qual as inovações resultam da concorrência capitalista na busca de super lucros. Uma importante consideração a ser feita é que cada setor industrial apresenta formas de concorrência e problemas ambientais específicos. Para Howes et alii (1997), o que faz com que a empresa tenha uma resposta positiva ou não a uma regulamentação ambiental depende em muito do problema ambiental considerado. Por exemplo, o controle do comércio, da produção e do uso de substâncias (CFCs e outras) que destroem a camada de ozônio – estabelecidas pelo Protocolo de Montreal – obteve respostas positivas. Mas o controle da emissão dos gases responsáveis pela mudança climática não está obtendo respostas positivas. Logo, admitir que as regulamentações ambientais adequadas melhorariam a competitividade da indústria como um todo, parece um pouco exagerado. Segundo López (1996:20), “Porter afirma que la manera en que una industria responde a los problemas ambientales puede ser un buen indicador de su competitividad global. Es muy probable que ‘una industria verdaderamente competitiva enfrente un nuevo estándar ambiental como un desafío y responda a él mediante soluciones innovativas. Una industria no competitiva, a su vez, generalmente no se encuentra orientada hacia la innovación y, por lo tanto, estará tentada a luchar contra toda regulación’”. Surge, portanto, o que López (1996) chama de hipótese de Porter II – as regulamentações ambientais reforçariam as condições de competitividade iniciais das empresas ou setores industriais. Assim, quanto mais competitivo o setor, maior seria sua capacidade de respostas inovadoras diante das regulamentações ambientais, reforçando sua competitividade. As regulamentações têm sido utilizadas para reduzir os danos ao meio ambiente e poderiam ser, também, um instrumento para aumentar a introdução e a difusão das inovações ambientais em setores mais competitivos. 62 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária 1.5.4 Análise dos fatores determinantes da relação entre regulamentação ambiental, inovações ambientais e competitividade: proposta de um instrumental analítico Apesar da hipótese de Porter II/López ser mais flexível, ainda coloca de maneira simples a relação entre regulamentação ambiental e competitividade, fazendo relações diretas entre os efeitos positivos – as inovações – da regulamentação ambiental sobre os setores mais competitivos, no sentido de reforçar sua competitividade. Essa visão simplista pode ser entendida como uma forma de “construir” uma vantagem competitiva (à la Porter) para a indústria norte-americana de equipamentos ambientais, que é uma das mais desenvolvidas no mundo. Além do mais, toda a argumentação de Porter e van der Linde é baseada em conclusões sobre estudos de caso de setores específicos dos países desenvolvidos, que pode tornar-se inválida para outros setores e para os países em desenvolvimento. Dessa maneira, o entendimento da polarização do debate leva a concluir que nem Porter, nem a análise mainstream apresentam-se como interpretações suficientes da relação entre regulamentação ambiental, inovações ambientais e competitividade. A relação entre competitividade e resultados inovativos é indireta e complexa: “competitiveness depends very much on industry conditions and on general frame conditions including cultural traits like trust, entrepreneurship and social relationships — determinants of innovation that act separately from regulations, or as a mediating force. From a competitiveness point of view the focus of regulation impact studies should be on the determinants of innovation and the overall changes throughout a value chain that occur under different regulatory policies” (Kemp et alii, 2000:iii). Dentre os fatores externos que influenciam as firmas a inovarem (item 1.3 acima), estão as medidas de caráter regulatório e entre elas as regulamentações ambientais. A maneira pela qual estas últimas influenciam as inovações não é simples e direta: não se pode dizer de maneira generalizada que as regulamentações ambientais irão restringir e inibir a capacidade das firmas a inovarem (seja pela elevação de custos ou pela imposição de normas e padrões) ou que irão induzi-la (as firmas passam a perceber oportunidades que antes não estavam visíveis). 63 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária As regulamentações ambientais podem influenciar as firmas a inovarem por duas vias (Kemp et alii, 2000): a primeira seria pela mudança nos incentivos e regras dos sistemas de inovativos, que podem ser econômicos e informacionais36. Os econômicos têm a ver com os resultados financeiros das firmas e os informacionais estão relacionados com os requerimentos específicos, inseridos nos instrumentos regulatórios, que servirão de guia para as firmas poluidoras e para os fornecedores de tecnologias ambientais no sentido de adaptarem-se às regulamentações. A outra via seria por meio das mudanças no nível e na natureza da competição provocadas pelas regulamentações ambientais, ou seja, quais as pressões competitivas sobre as firmas que estão presentes antes e depois das regulamentações, e o nível de competição entre as diferentes tecnologias ambientais para o setor em questão. Esta ótica espelha a visão da regulamentação como moduladora do progresso tecnológico, alterando trajetórias tecnológicas e a maneira pela qual as firmas inovam (ou imitam), ao invés de colocar as regulamentações ambientais como inibidoras ou indutoras do progresso tecnológico. As regulamentações ambientais e sua capacidade de induzir as firmas a inovarem na direção de tecnologias mais limpas, a adotarem sistemas de gestão ambiental eficientes e a usarem mais eficientemente os recursos naturais têm de ser verificadas por meio da pesquisa empírica, a fim de perceber como ocorrem as interações entre regulamentação ambiental, inovação tecnológica e melhoria da qualidade do meio ambiente das atividades econômicas que geram externalidades ambientais. Kemp et alii (2000) argumentam que os indicadores convencionais de inovação e de competitividade não são adequados para avaliar a eficiência do sistema produtivo, pois eles avaliam a competitividade do setor no curto prazo. Adicionalmente, muitos indicadores de competitividade são vistos numa perspectiva estática – a ótica do aumento dos custos no curto prazo – e não numa perspectiva dinâmica – a ótica de manter e aumentar as parcelas de mercado no longo prazo. A respeito dos custos que as regulamentações ambientais impõem para as firmas, é importante distinguir dois momentos: a avaliação ex-ante, ou seja, a previsão do custo associado à determinada regulamentação, elaborado pela firmas ou pelos órgãos governamentais competentes; e a avaliação ex-post, o custo efetivo incorrido pelas firmas. 36 Kemp et alii (2000) coloca que a regulamentação tem um conteúdo informacional além do normativo. 64 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária A previsão do custo da regulamentação vai ter importância fundamental na aplicação e aceitação da regulamentação ambiental, podendo alterar prazos de implementação, restringir parâmetros e modificar as especificações de conformidade. Entretanto, o que interessa em termos de competitividade na perspectiva de curto prazo, são as conseqüências da regulamentação sobre a competitividade das firmas – o custo efetivo incorrido, um dos fatores que influenciará na competitividade. Essas avaliações, em ambos os momentos, implicam a dificuldade de determinar o que deve ser considerado como custo ou não. Segundo a experiência norte-americana (Harrington et alii, 1999), as avaliações exante dos órgãos governamentais consideram, na maioria das vezes, somente os custos diretos – gastos operacionais e de capital – e, em alguns casos, custos do tempo de espera. Outros custos diretos deveriam estar incluídos, como a interrupção na produção, custos de transação, efeitos na saúde dos trabalhadores, efeitos da redução da poluição e sobre os recursos naturais, mudanças administrativas, estímulos a inovações em tecnologias mais limpas, entre outros. Evidentemente, há uma enorme dificuldade em medir tais custos empiricamente e por isso que eles são excluídos, ficando os verdadeiros custos da regulamentação sem serem especificados. Nessa discussão sobre o que deve ser ou não considerado como custo de cumprimento da regulamentação, é importante incluir a contribuição da contabilidade ambiental no arcabouço teórico aqui desenvolvido. De acordo com United Nations (1998), a contabilidade ambiental nas empresas é importante para verificar as conexões entre controle de impactos ambientais e os resultados financeiros. O conceito de eco-eficiência, que é utilizado em toda a argumentação da hipótese de Porter, deve ser medido por meio de informações sobre os custos incorridos pela firmas para adotarem melhorias ambientais – os custos ambientais –, as economias que estas melhorias ambientais geram e o desempenho, tanto financeiro quanto competitivo, alcançado. Uma firma que pertença a um setor industrial de grande potencial poluidor – seja em operações normais ou de acidentes – pode acumular um passivo ambiental37 tão grande que o preço das ações pode ser influenciado por essa variável. As seguradoras também 37 O passivo ambiental é definido pela Norma de Procedimento de Auditoria (NPA 11 - Balanço e Ecologia) do Instituto Brasileiro de Contadores (IBRACON) como toda a agressão que se pratica ou praticou contra o meio ambiente, que podem ser entre outros: o valor dos investimentos para reabilitá-lo; as multas, indenização; os gastos com projetos e licenças ambientais; as restrições a empréstimos. 65 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária estão cada vez mais preocupadas com o passivo ambiental, elevando o seguro quando a firma pode acumular um passivo ambiental indesejado. É nesse sentido que os custos ambientais adquirem uma especificidade: de reduzir o passivo ambiental38. É importante salientar, portanto, que os custos ambientais devem ser vistos como diferentes de outros custos da firma, pois podem gerar benefícios futuros que não são estritamente econômicos. Além do mais, dependendo da natureza do custo ambiental, ele pode ser considerado um ativo da firma, na medida em que gera benefícios futuros. Assim, na verificação empírica do efeito dos custos ambientais sobre o desempenho financeiro e competitivo das firmas, é importante separar os custos ambientais naqueles que são considerados ativos e os que não são ativos – que devem ser considerados como custo no sentido de uma despesa – incorporando elementos da contabilidade ambiental das empresas, até então desconsiderada na discussão do trade-off entre competitividade e preservação ambiental. São exemplos de custos ambientais considerados como ativos o reforço de tanques e dutos para redução de riscos de vazamentos futuros, aquisição e instalação de equipamentos de controle da poluição, implantação de processos produtivos que geram menos resíduos e/ou utilizam menos insumos, entre outros. Os custos ambientais considerados como despesas são os processos de despoluição, o pagamento de multas pelo não cumprimento da legislação ambiental, pagamento de indenizações por danos ambientais, entre outros. Pode-se perceber, portanto, que danos ambientais passados podem ser custos/despesas no presente e que danos ambientais evitados no presente geram redução de custos/despesas no futuro, por isso os custos de evitar danos ambientais no presente devem ser considerados ativos, na medida em que evitam despesas futuras e ainda podem gerar redução de custos do processo produtivo (redução da relação quantidade insumo/unidade de produto). Uma questão importante é se os efeitos sobre a competitividade de curto prazo das regulamentações ambientais são elaborados com base nas avaliações de custo ex-ante ou ex-post. Para Harrington et alii (1999), na comparação das avaliações ex-ante e ex-post, é importante a distinção entre custo total da regulamentação e custo unitário. Nesse caso, a quantidade total de poluição abatida é fundamental, pois muitas vezes o custo total ex-post 38 Ver capítulo 2, item 2.3, para exemplos de como o passivo ambiental pode afetar o comportamento dos investidores. 66 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária é menor (ou maior) do que o ex-ante, mas a quantidade de poluição abatida também vai ser menor (ou maior). Portanto, somente uma coincidência faria com que custos unitários iguais levassem à redução (ou aumento) da poluição proporcionalmente. Pode-se ter várias situações: o custo total ex-post é menor, mas o custo unitário é maior, ou seja, gastou-se menos do que o esperado, mas a quantidade de poluição abatida foi menos do que proporcional à diminuição do custo total; o custo total ex-post é maior, mas o custo unitário é menor, isto é, gastou-se mais, porém abateu-se uma quantidade de poluição proporcionalmente maior. Assim, a discussão de custos deve também passar, necessariamente, pela quantidade de poluição abatida, para avaliar como a amplitude do custo privado trouxe benefícios sociais. Os mesmos autores, ao compararem as avaliações ex-ante e ex-post das regulamentações ambientais norte-americanas chegam a conclusões interessantes. A primeira é que a grande maioria das avaliações é ex-ante, que são feitas pelos órgãos governamentais ou pela firmas. As avaliações ex-post, além de serem em quantidade bastante reduzida, são geralmente feitas por acadêmicos. A segunda é que, em geral, há uma tendência à superestimação dos custos das regulamentações, seja pelas firmas ou órgãos governamentais, quando eles são comparados com a linha de base (baseline). A razão mais importante dessa discrepância é atribuída às inovações tecnológicas, que não são consideradas nas previsões de custos. As outras seriam atribuídas ao cálculo errôneo da linha de base – que levaria a um resultado final distorcido – e ao caráter institucional do processo regulatório – que modificam as regras até sua publicação final, quando as estimativas são feitas na versão preliminar da regulamentação, além da tendência de sempre considerar o máximo custo estimado. Dessa forma, destaca-se a importância das inovações tecnológicas na redução dos custos de conformidade. Devido ao caráter incerto das inovações, é realmente difícil prever a possibilidade de redução de custos por este meio, o que justificaria em parte a superestimação de custos. Entretanto, Harrington et alii (1999) ressaltam que isso não implica que a regulamentação ambiental leva necessariamente a inovações tecnológicas e que a indução de inovações via regulamentações é uma questão separada da redução de custos atribuída às inovações não previstas. Esse alerta dos autores reforça a idéia de que um ambiente – um Sistema Nacional (ou setorial) de Inovações – que favoreça as firmas a inovarem é importante para reduzir as tensões da relação produção e qualidade ambiental. 67 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Além disso, mais uma vez pode-se perceber que regulamentação ambiental, com seu caráter predominante de trazer benefícios sociais, pode não representar um custo muito alto para as firmas. Mesmo que as avaliações de custos das regulamentações sejam superestimadas, elas são importantes para que se possa analisar os desdobramentos de tais regulamentações e considerar seus impactos diretos e indiretos, contribuindo para a busca de uma alternativa menos custosa que leve a pouca ou nenhuma redução dos benefícios ambientais a serem obtidos. As avaliações do custo podem influenciar na avaliação antecipada dos empresários em adotar tecnologias ambientalmente saudáveis para estar em conformidade com a regulamentação. É igualmente importante estudar os impactos diretos e indiretos das regulamentações ambientais por meio do estudo da cadeia produtiva do setor analisado, pois uma regulamentação sobre determinada etapa da cadeia pode ter influência sobre as outras etapas. Segundo a teoria evolucionária, o mercado é o principal locus de seleção de inovações e, nesse caso, a demanda da sociedade – consumidores e grupos de interesse – por produtos e processos de produção menos agressivos ao meio ambiente faz com que algumas firmas gerem inovações ambientais e outras as adotem, ocorrendo a difusão da inovação. Do lado da oferta, é importante saber o ambiente competitivo no qual a firma está inserida e se o tratamento adequado – com a adoção de tecnologias ambientalmente saudáveis – da questão ambiental é importante para manter a posição competitiva. Nesse caso, o mercado teria uma importância cada vez maior para induzir as firmas a adotarem inovações ambientais, reforçando sua competitividade. A decisão da firma em adotar tecnologias ambientais depende, entre outras coisas, da avaliação antecipada dos empresários quanto à lucratividade da inovação, sendo esta uma variável expectacional. Um dos fatores que afeta a lucratividade da inovação é o preço do recurso natural – se estiver baixo, não compensa a busca para substituí-lo ou para adotar tecnologias que o utilizem de maneira mais eficiente. Um exemplo é o petróleo, um recurso natural não-renovável. Até o primeiro choque do petróleo em 1973, os desenvolvimentos tecnológicos eram no sentido de reduzir o custo de exploração para ter o domínio de reservas a baixo custo, aumentando a velocidade de exploração. A elevação dos preços do cru, viabilizou o desenvolvimento de tecnologias de fontes alternativas de energia e de melhor rendimento do recursos e seus derivados. 68 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Há, portanto, outros elementos dos quais a teoria evolucionária da mudança tecnológica não trata, pois não são objetos centrais de análise. Dado que este referencial teórico ainda está em construção, é passível de complementação por outras correntes teóricas. Dentre eles, o resgate do conceito de custo de uso elaborado por Keynes na Teoria Geral (Keynes, 1982), para tratar de maneira intertemporal o gerenciamento de estoques de recursos naturais, pode contribuir para o estabelecimento de políticas para aliar crescimento econômico e preservação ambiental – sem a pretensão, entretanto, de unificar as agendas de pesquisa de diferentes escolas do pensamento econômico. Os recursos naturais, tratados como estoques de capital, estão sujeitos a decisões de torná-los líquidos ou de conservá-los ilíquidos, a depender da avaliação ex-ante da opção de utilizá-los na produção atual ou no futuro. O modo pelo qual se dá o gerenciamento de estoques hoje, ou seja, o grau de utilização do estoque de capital, vai influenciar não somente o nível de produção e preços atuais, mas também o nível de produção e preços nos períodos futuros, através do investimento (ou desinvestimento). O custo de uso mede a depreciação antecipada que ocorreria no equipamento de capital – no caso o recurso natural – pelo fato de utilizá-lo na produção. É importante distinguir a depreciação pela decisão do uso (custo de uso) e a depreciação pelo tempo (custo suplementar). A primeira é voluntária, no sentido de que o empresário aceita sacrificar parte de seu equipamento de capital para produzir uma determinada quantidade de bens que lhe trará um rendimento futuro. Logo, o custo de uso depende da decisão do empresário de produzir e tem, portanto, importância fundamental para calcular a renda bruta do empresário, que é uma variável de decisão de produção (Lustosa, 1998). Dado que o custo de uso é uma variável expectacional – depende da avaliação dos empresários –, está incluído no cálculo do preço de oferta das firmas em economias onde predomina a incerteza quanto ao futuro. Ele será maior ou menor conforme o objetivo final do gerenciamento do estoque de capital, determinando sua velocidade de exploração. O custo de uso, ao elevar o preço do recurso natural, estimula as mudanças tecnológicas, pois influencia no ambiente seletivo – o mercado –, que sinaliza a lucratividade da inovação. Há uma variável expectacional que é a avaliação ex-ante da lucratividade de inovação. *** 69 Capítulo 1 – Regulamentação ambiental, inovação e competitividade: uma abordagem evolucionária Da literatura analisada e dos outros elementos teóricos que foram incorporados na análise da relação entre regulamentação ambiental e competitividade, são retiradas as seguintes conclusões: O horizonte temporal é extremamente importante para compreender essa relação, pois resultados distintos podem ser igualmente válidos se considerados no curto ou no longo prazo. A questão deve, portanto, ser tratada de maneira intertemporal. As regulamentações ambientais modificam o ambiente seletivo, influenciando diretamente a competitividade das firmas, que varia de um setor a outro de acordo com os seguintes fatores: gastos com o meio ambiente (custos e investimentos), tipo de setor e seus potenciais impactos sobre o meio ambiente, possibilidade de diferenciação de produto, esfera da concorrência (local, regional ou internacional), tamanho da empresa, ciclo de investimento. O estudo da cadeia produtiva é igualmente importante, pois permite uma abordagem sistêmica na qual regulamentações e inovações em determinada atividade podem também afetar outras etapas da cadeia. A análise do padrão de concorrência setorial é importante para perceber se a questão ambiental é um fator relevante para a competitividade. Caso seja, é necessário buscar maneiras de induzir as firmas a gerarem e adotarem inovações ambientais, para tornarem-se cada vez mais competitivas. Verificar os tipos de regulamentação ambiental utilizados é importante para perceber os efeitos sobre a melhoria ambiental e sobre a competitividade das firmas, que são diferentes a depender das suas características e do setor industrial. A análise do ambiente institucional é fundamental, pois influenciam diretamente no comportamento dos agentes econômicos e no ambiente seletivo. Se as instituições não internalizarem a questão ambiental, os obstáculos a serem vencidos para a geração e difusão de tecnologias ambientais serão maiores. • A coordenação de políticas é necessária para que os esforços no sentido de melhorar as competências específicas das firmas, capacitando-as para a geração e difusão de inovações ambientais, não sejam anulados por outras políticas. Ao contrário, pode vir até a potencializá-los, como no caso da elevação artificial do custo de uso dos recursos naturais. 70 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Capítulo 2 MEIO AMBIENTE E COMPETITIVIDADE: EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS PARA A INDÚSTRIA BRASILEIRA O comportamento das empresas e dos setores industriais brasileiros em relação às questões ambientais e sua posição competitiva tem sido alvo de estudos recentes. As evidências empíricas, entretanto, ficam restritas a pesquisas em outras áreas, que incluíram um capítulo sobre meio ambiente, ou baseadas em estudos de caso, que não permitem obter resultados conclusivos sobre as hipóteses levantadas pela literatura. Há, portanto, uma enorme carência de dados específicos e levantamentos sistemáticos sobre o tema. No levantamento bibliográfico, constatou-se que somente duas pesquisas incluem perguntas relativas ao meio ambiente em seus levantamentos, são elas: a Pesquisa da Atividade Econômica Paulista (PAEP) – analisada no item 2.1 – e o Relatório da Competitividade da Indústria Brasileira (CNI et alii, 2001) – descrita no item 2.2.. A PAEP foi uma importante fonte de dados para trabalhos sobre meio ambiente e competitividade. Entre eles, estão Lustosa (1999 e 2001) e Young e Lustosa (2001). Os determinantes do investimento ambiental, para o caso brasileiro, são analisados a partir dos fatores que induzem as firmas a adotarem práticas mais ambientalmente saudáveis, levantados pela literatura no capítulo anterior. Os estudos de Ferraz e Seroa da Motta (2001) – que também utilizam dados da PAEP – e Tigre et alii (1994) são importantes para evidenciar os determinantes do investimento ambiental no caso brasileiro. 2.1 Inovação e Meio Ambiente: evidências das empresas paulistas Dada a inexistência de pesquisas empíricas que tratem especificamente da relação entre as questões ambientais e competitividade, é necessário utilizar pesquisas em temas correlatos para chegar a conclusões acerca desta relação. Uma possibilidade é a verificação empírica da relação entre inovação e meio ambiente, uma vez que pela teoria evolucionária as inovações são inerentes ao processo de concorrência. Logo, se a empresa é inovadora, não se pode afirmar que ela também é competitiva, mas certamente pode-se inferir que ela está buscando competitividade. Assim, a empresa que inova por questões ambientais estaria considerando a adoção de práticas menos agressivas ao meio ambiente 71 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras uma maneira de buscar competitividade – manter-se competitiva ou melhorar sua competitividade. No Brasil, um levantamento de dados das empresas paulistas – a Pesquisa da Atividade Econômica Paulista (PAEP) –, realizado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), incluiu variáveis sobre meio ambiente na construção da base de dados primários sobre a indústria. A concepção desse levantamento foi baseada no Manual Oslo – o guia da OCDE para levantamento (survey) sobre inovações (OCDE, 1992). A PAEP fez um levantamento primário de dados, com base no ano de 1996, de 2.400 variáveis que permitem a montagem de indicadores para analisar os processos de reestruturação e seus impactos nos diversos setores da economia do estado de São Paulo. “A pesquisa busca captar aspectos-chave relacionados à inovação tecnológica, aos recursos humanos e à adoção de novas formas de organização das empresas, assim como levantar informações que permitam mapear as principais características estruturais da economia” (Fundação SEADE, 1998:6). É uma pesquisa amostral em mais de 22 mil empresas relacionadas aos setores industrial, da construção civil, comercial, de serviços e agroindustrial. A unidade de referência é a empresa, sendo pesquisadas aquelas que “... possuíam pelo menos uma unidade local produtiva de sua principal atividade em São Paulo, no ano de referência, independentemente de terem ou não sede no Estado” (Fundação SEADE, 1998:6). O universo da pesquisa foi definido a partir de quatro critérios: ramo de atividade, porte (com cinco ou mais pessoas ocupadas), localização da sede (aquelas localizadas fora do Estado, foram consideradas as unidades produtivas que exerciam a mesma atividade da sede e com mais de 30 pessoas ocupadas) e atividade produtiva. Em relação às indústrias, o universo foi dividido em dois estratos: aleatório e certo. Este último abrange empresas com 30 ou mais pessoas ocupadas, totalizando 81,5% do pessoal ocupado e 10,2% de empresas do setor, com o levantamento de dados de caráter censitário em 12.475 empresas pesquisadas. O estrato aleatório foi dividido, segundo a atividade e a localização da sede, em 64 subdomínios (duas regiões e 32 categorias de atividades, sendo a indústria agregada em 21 categorias). “A seleção das empresas para cada subdomínio foi definida através de uma amostra aleatória sistemática, com estratificação implícita por localidade, código de atividade a 4 dígitos e porte para cada 72 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras categoria” (Fundação SEADE, 1998:10). Foram pesquisadas 4.834 empresas industriais neste estrato, totalizando 17.309 empresas pesquisadas. Da amostra efetiva, houve 3,71% de perdas operacionais, 15,94% de recusa da coleta e 80,35% de questionários coletados (77,30% foram aproveitados). Dos dados relativos ao meio ambiente, foram consideradas mais relevantes as seguintes variáveis39: Consideradas como indicadores de competitividade: 1. Oportunidade de negócios por desenvolvimento de produtos e processos não agressivos ao meio ambiente. Respostas possíveis: Sim ou Não. 2. Perdas de mercados internos e/ou externos devido aos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. Respostas possíveis: Sim ou Não. 3. Elevação de custos devido a investimentos em tratamento de resíduos, multas, etc. derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. Respostas possíveis: Sim ou Não. 4. Degradação da imagem institucional derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. Respostas possíveis: Sim ou Não. Consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade: 1. Realização de investimentos para reduzir problemas ambientais da atividade – substituição de insumos contaminantes. Respostas possíveis: Sim ou Não. 2. Realização de investimentos para reduzir problemas ambientais da atividade – mudanças no processo de produção. Respostas possíveis: Sim ou Não. 3. Realização de investimentos para reduzir problemas ambientais da atividade – reutilização ou tratamento de resíduos. Respostas possíveis: Sim ou Não. 4. Preservação do meio ambiente como fator que levou a empresa a inovar. Respostas possíveis: Indiferente, Pouco importante, Importante, Muito importante e Crucial. 5. Adoção de programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. Respostas possíveis: Sim ou Não. Estas variáveis foram relacionadas com a origem do capital (nacional, estrangeiro, nacional e estrangeiro), o percentual médio de exportações sobre vendas 39 Ver anexo I para as questões da PAEP relativas ao meio ambiente. 73 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras totais, a importância atribuída às fontes internas para atividade inovativas – departamento interno de P&D ou licenciamento e aquisição de patentes, o tamanho da empresa (por faixa de receita líquida e pessoal ocupado) e os setores industriais (CNAE40 a 3 dígitos), a fim de verificar: → Se há diferenças na percepção das empresas de inserção internacional41 e as não inseridas nesse contexto sobre a relação entre competitividade e preservação ambiental. Variáveis de inserção internacional: origem do capital e o percentual médio de exportações sobre vendas totais. Variáveis de competitividade e de inovação acima descritas. → Se o tamanho da empresa influencia na percepção da relação entre competitividade e preservação ambiental. Variáveis de tamanho da empresa: faixa de receita líquida e pessoal ocupado. Variáveis de competitividade e de inovação acima descritas. → Se a capacidade inovativa da firma tende a influenciar na adoção tecnologias ambientais, revelando uma maior sensibilidade para as questões relacionadas ao meio ambiente. Variáveis que identificam empresas com capacidade inovativa: a importância atribuída às fontes internas para atividade inovativas – departamento interno de P&D ou licenciamento e aquisição de patentes. Respostas possíveis (para ambas variáveis): Indiferente, Pouco importante, Importante, Muito importante e Crucial. Variáveis de tecnologias ambientais são aquelas consideradas como variáveis de inovação acima descritas. → Se o potencial poluidor dos setores industriais influencia na adoção de inovações para preservação do meio ambiente e na preocupação com a relação entre competitividade e preservação ambiental. Os setores industriais são classificados de acordo com a CNAE. A classificação do potencial poluidor utilizada é a da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) (FEEMA, s.d.). Variáveis de competitividade e inovação ambiental acima descritas. 40 Classificação Nacional da Atividades Econômicas, utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 41 São consideradas empresas de inserção internacional aquelas que possuem alguma ligação com o exterior, seja por meio de exportações, de participação acionária (total ou parcial) estrangeira, de filiais de 74 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras 2.1.1 Inserção internacional42 Esta seção verifica como as empresas de inserção internacional percebem a relação entre competitividade e preservação ambiental. Foram cruzadas as variáveis relacionadas à inserção internacional – origem do capital (nacional, estrangeiro, nacional e estrangeiro) e percentual médio de exportações sobre vendas totais – com as variáveis relativas ao meio ambiente e competitividade, incluindo as de inovação, acima relacionadas. As empresas de capital controlado em parte ou totalmente por estrangeiros são minoria, cerca de 2% do total de empresas, alcançando 5% na tabela 8. As tabelas seguintes mostram os resultados obtidos. Pode-se observar na tabela 1 que cerca da metade das empresas cuja origem do capital controlador é estrangeiro ou nacional e estrangeiro considerara o meio ambiente uma oportunidade de negócios. Mais de dois terços das empresas nacionais não tiveram a mesma percepção e, como estas representam a maioria das empresas pesquisadas (cerca de 98%), o resultado final é que 70,3% das empresas não consideram o meio ambiente como uma oportunidade de negócios. Tabela 1 – Empresas que consideram o meio ambiente uma oportunidade de negócios e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Oportunidade de Negócios – Produtos e Processos não Agressivos ao Meio Ambiente Sim (A) A/C % Nacional Estrangeiro 11.702 Média % exportação 29,2 1,04 Média % exportação 70,8 0,66 Não (B) B/C % Nacional e estrangeiro 322 54,9 9,40 28.367 120 46,7 7,39 264 45,1 8,94 Total (C) 40.069 Total média % exportação 0,77 9,19 Fonte: Young e Lustosa (2001) a partir da Fundação SEADE/PAEP Total 12.144 29,7 1,32 137 53,3 5,99 586 28.768 70,3 0,76 257 6,64 40.912 0,93 multinacionais ou da dependência de financiamentos de bancos internacionais, que condicionam os empréstimos a relatórios de impacto ambiental (RIMA). 42 Este item está baseado em Lustosa (1999b) e Young & Lustosa (2001), principalmente no item relativo à PAEP, que foi cerca de 90% elaborado pela autora desta tese. 75 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Se considerarmos os percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, percebe-se que as empresas que consideraram o meio ambiente como uma oportunidade de negócios são as que possuem percentuais médios maiores, independentemente da origem do capital controlador. As empresas de capital total ou parcial controlado por estrangeiros também apresentaram percentuais médios de exportação sobre vendas totais maiores do que as empresas nacionais. A tabela 2 revela que a maioria das empresas, independentemente da origem do capital controlador, não considerou perda de mercados internos ou externos devido aos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. Entretanto, as de capital controlador estrangeiro foram as que mais consideraram a perda de mercado – 12,4% contra 9,3% das de capital nacional e estrangeiro e 4,3% das de capital nacional. As empresas que verificaram perda de mercados possuem percentuais médios de exportações sobre o total de vendas mais elevados do que aquelas que responderam negativamente à questão. Tabela 2 – Empresas que consideram perdas de mercados devido aos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Implicações Efeito sobre Meio Nacional Estrangeiro Nacional e Ambiente - Perda de Mercados estrangeiro Sim (A) 1.721 72 24 A/C % 4,3 12,4 9,3 Média % exportado 1,47 15,21 11,35 Não (B) 38.326 511 234 B/C % 95,7 87,6 90,7 Média % exportado 0,74 8,20 6,20 Total (C) 40.047 583 258 Total média % exportação 0,77 9,07 6,69 Fonte: Young e Lustosa (2001) a partir da Fundação SEADE/PAEP Total 1.817 4,4 2,14 39.072 95,6 0,87 40.888 0,93 Pela tabela 3 observa-se que são as empresas de capital parcial ou total controlado por estrangeiros que mais consideraram a elevação de custos derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente – mais de 40% para as duas categoria de empresas contra 14,8% das de capital nacional. As empresas que responderam afirmativamente a esta questão possuem percentuais médios de exportação sobre o total de vendas maiores do que aquelas que responderam negativamente. 76 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 3 – Empresas que consideram elevação de custos derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Implicações efeito sobre meio Nacional Estrangeiro ambiente - Elevação de custos Sim (A) 5.919 242 A/C % 14,8 41,5 Média % exportado 2,03 13,55 Não (B) 34.131 341 B/C % 85,2 58,5 Média % exportado 0,55 5,87 Total (C) 40.050 583 Total média % exportação 0,77 9,07 Fonte: Young e Lustosa (2001) a partir da Fundação SEADE/PAEP Nacional e estrangeiro Total 104 40,2 6,72 6.265 15,3 2,55 155 59,8 6,67 34.627 84,7 0,63 259 6,69 40.892 0,93 A tabela 4 mostra que um quarto das empresas estrangeiras considerou a degradação da imagem institucional derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. A maioria da empresas nacionais (92,8%) e das empresas de capital nacional e estrangeiro (85,4%) consideraram que não há degradação de imagem institucional. As empresas que responderam sim à questão possuem maiores percentuais médios de exportações sobre vendas totais do que aquelas que responderam não. Tabela 4 – Empresas que consideram a degradação da imagem institucional derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 . Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Implicações efeito sobre meio ambiente – Degradação Imagem Institucional Sim (A) A/C % Média % exportado Não (B) B/C % Média % exportado Total (C) Total média % exportação Nacional Estrangeiro 2.891 7,2 2,12 150 25,8 11,2 37.150 92,8 0,67 Nacional e estrangeiro 38 14,6 8,86 434 74,2 8,3 40.041 0,77 9,06 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP Total 3.079 7,5 2,65 221 85,4 6,31 584 37.805 92,5 0,79 259 6,69 40.884 0,93 77 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Dentre as variáveis até aqui analisadas, observa-se que as empresas de inserção internacional são as que mais consideraram o meio ambiente como um fator de influência em sua competitividade, seja de maneira positiva – considerando uma oportunidade de negócios – ou de maneira negativa – aumento de custos. Entretanto, como observado no capítulo anterior, há que se diferenciar custos do tipo pagamento de multas com os custos (na verdade, gastos) com investimentos. Entretanto a PAEP não faz essa distinção. As variáveis de degradação de imagem institucional e perdas de mercado não se mostraram um fator de perda de competitividade. Na tabela 5, observa-se que foram as empresas de capital controlador estrangeiro (49%) e nacional e estrangeiro (45,9%) as que mais realizaram investimentos para reduzir problemas ambientais decorrentes de suas atividades, reutilizando ou tratando resíduos, sendo esse percentual de 15,9% para as empresas nacionais. As empresas que realizaram tal tipo de investimentos apresentaram maiores percentuais médios de exportações sobre o total de vendas do que aquelas que não o fizeram. Tabela 5 – Empresas que realizaram investimentos na reutilização ou tratamento de resíduos para redução dos problemas ambientais decorrentes de suas atividades e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Investimento Nacional Estrangeiro Reutilização/Tratamento de resíduos Sim (A) 6.340 285 A/C % 15,9 49,0 Média % exportado 2,02 11,81 Não (B) 33.624 297 B/C % 84,1 51,0 Média % exportado 0,54 6,42 Total (C) 39.964 582 Total média % exportação 0,77 9,06 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP Nacional e estrangeiro Total 119 45,9 9,46 6.743 16,5 2,57 140 54,1 4,36 34.062 83,5 0,60 259 6,69 40.805 0,93 A tabela 6 mostra que as empresas nacionais são as que menos investiram na redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividade substituindo insumos contaminantes – 13,5% contra 44,5% das estrangeiras e 35,5% das parcialmente estrangeiras. As empresas que realizaram estes investimentos possuem maiores 78 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras percentuais médios de exportações sobre o total das vendas do que aquelas que não o fizeram. Tabela 6 – Empresas que realizaram investimentos na substituição de insumos contaminantes para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Investimento – substituição Nacional Estrangeiro de insumos contaminantes Sim (A) 5.393 259 A/C % 13,5 44,5 Média % exportado 1,92 11,24 Não (B) 34.551 323 B/C % 86,5 55,5 Média % exportado 0,59 7,31 Total (C) 39.958 582 Total média % exportação 0,77 9,06 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP Nacional e Estrangeiro Total 92 35,5 10,98 5.744 14,1 2,48 167 64,5 4,34 35.041 85,9 0,67 259 6,69 40.799 0,93 A tabela 7 mostra um comportamento das empresas semelhante ao da tabela anterior. As empresas de capital controlador estrangeiro e nacional e estrangeiro investiram mais em mudanças no processo de produção para redução de problemas ambientais do que as empresas nacionais – 43,1%, 35,5% e 18,2% respectivamente. As empresas que realizaram investimento com esta finalidade possuem maiores percentuais médio de exportações sobre vendas totais do que as que não investiram. Tabela 7 – Empresas que investiram em mudanças no processo de produção para redução de problemas ambientais e seus percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Investimento – Mudanças Nacional Estrangeiro no Processo Produção Sim (A) 7.294 251 A/C (%) 18,2 43,1 Média % exportação 1,54 12,91 Não (B) 32.674 331 B/C (%) 81,8 56,9 Média % exportação 0,60 6,14 Total de Empresas (C) 39.968 582 Total média % exportação 0,77 9,06 Fonte: Young e Lustosa (2001) a partir da Fundação SEADE/PAEP Nacional e Estrangeiro Total 92 35,5 8,83 7.636 18,7 2,00 167 64,5 5,53 33.173 81,3 0,68 259 6,69 40.809 0,93 79 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras A tabela 8 mostra que, independentemente da origem do capital controlador, cerca de metade das empresas achou muito importante e crucial a estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar. As empresas com controle parcial ou total do capital estrangeiro, entretanto, apresentaram-se mais inclinadas a inovar por causa de questões ambientais – 53,7% e 52,8%, respectivamente, contra 46,7% das nacionais. As empresas que consideram a preservação ambiental um fator indutor de inovações (muito importante e crucial) foram as que apresentam maiores percentuais médios exportados sobre as vendas totais, em cada categoria de capital controlador. Tabela 8 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Fatores que motivaram a Nacional Estrangeiro empresa a inovar - preserv. do meio ambiente (94-96) Indiferente e Pouco Impor(A) 1.613 32 A/D (%) 21,6 10,4 Média % exportado 3,1 15,35 Importante (B) 2.361 113 B/D (%) 31,6 36,8 Média % exportado 1,56 9,47 Muito Impor e Crucial (C) 3.486 162 C/D (%) 46,7 52,8 Média % exportado 3,95 22,38 Total de Empresas (D) 7.460 307 Total média % exportação 1,79 10,10 Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP Nacional e Estrangeiro 28 Total 1.673 25,9 6,27 22 21,2 3,41 2.495 20,4 14,36 58 31,7 2,03 3.705 53,7 16,44 108 47,1 4,98 7.873 8,56 2,21 A tabela 9 evidencia que cerca de metade das empresas de capital parcial ou total controlado por estrangeiros adotou programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. Se consideradas as empresas de capital controlador nacional, apenas um quarto delas admitiu ter adotado tais programas e técnicas. Independentemente da origem do capital controlador, as empresas que adotaram tais programas e técnicas apresentaram maiores percentuais médios de exportações sobre o total de vendas. 80 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 9 – Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente e percentuais médios de exportações sobre o total das vendas, segundo origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Programas/Técnica-Melhoria Nacional Estrangeiro Nacional e Defesa Meio Ambiente (96) Estrangeiro Sim (A) A/C (%) 10.372 Média % exportado Não (B) B/C (%) 330 Total 121 10.824 25,7 56,6 47,0 26,3 1,58 10,82 8,43 1,94 29.938 74,3 253 43,4 Média % exportado 0,48 7,18 Total de Empresas (C) 40.311 Média % exportado 0,76 9,23 Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP 137 53,0 5,14 583 30.328 73,7 0,56 258 6,69 41.152 0,92 A análise das variáveis consideradas como indicadores de inovação para melhorar a competitividade revelam que foram também as empresas de inserção internacional as que mais investiram para reduzir problemas ambientais causados por suas atividades produtivas. A inovação para preservação ambiental – seja com motivação para inovação ou pela adoção de programas e técnicas para defesa do meio ambiente – foi mais adotada pelas empresas de inserção internacional. Para estas empresas, portanto, a questão ambiental mostrou-se importante na busca de competitividade. Fica evidente, portanto, que as empresas de inserção internacional tendem a ser mais preocupadas com as questões ambientais. Para todas as variáveis analisadas, as empresas que mostraram algum tipo de preocupação ambiental foram as que apresentaram maiores percentuais médios de exportação sobre vendas totais. Mesmo nos casos em que as empresas de capital parcial ou total controlado por estrangeiros não consideraram as variáveis ambientais muito relevantes – degradação da imagem institucional e perda de mercados –, ainda assim apresentaram percentuais superiores às de capital controlador nacional. Em geral, as empresas de inserção internacional sofrem pressões do exterior em relação ao seu comportamento ambiental, seja de acionistas, dos financiadores, das matrizes ou das barreiras “verdes” ao comércio internacional. Dessa forma, a responsabilidade ambiental seria uma forma de manter a competitividade externa. As empresas produtoras de celulose e papel, por exemplo, fizeram melhorias ambientais 81 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras significativas, seja no manejo florestal, seja no processo produtivo, por pressão do mercado internacional43. Mesmo tendo comprovado que as empresas de inserção internacional foram as mais sintonizadas com as questões ambientais, duas observações devem ser ressaltadas para evitar um possível viés das conclusões. A primeira, como foi dito no início desta seção, as empresas nacionais representam cerca de 98% das empresas da pesquisa. Assim, os dados referentes ao total das empresas têm uma forte influência do comportamento das empresas nacionais. A segunda é que as empresas nacionais são majoritariamente pequenas, de acordo com o pessoal ocupado44 (67,9%), como pode ser observado na tabela 10. As empresas de capital controlador estrangeiro são em sua maioria médias e grandes – cerca de 70% para os dois tamanhos – e as de capital nacional e estrangeiro seguem o mesmo padrão – 64% de empresas médias e grandes. Tabela 10 – Tamanho das empresas de acordo com o pessoal ocupado, segundo a origem do capital controlador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Tamanho da empresa – número de pessoas ocupadas 30 a 99 (pequeno) Nacional Estrangeiro 6.749 156 67,9% 29,7% 100 a 499 (médio) 2.716 216 27,3% 41,2% Mais de 500 (grande) 467 153 4,7% 29,2% Total de Empresas 9932 524 Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP Nacional e Estrangeiro Total 70 36,0% 6.974 65,5% 87 44,6% 3.019 28,3% 38 19,4% 658 6,2% 194 10.651 Entretanto, como há setores industriais mais intensivos em capital, o tamanho da empresa de acordo com o pessoal ocupado pode não evidenciar diferenças entre as firmas, pois aqueles setores demandam relativamente menos mão-de-obra por apresentarem a uma 43 Ver Dalcomuni (1998) e Castilho (1994). Essa classificação do porte da empresa segundo o pessoal ocupado é a mesma adotada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas – SEBRAE. É considerada microempresas até 19 pessoas ocupadas, de 20 a 99 é pequena, de 100 a 499 é média e mais de 500 é grande. Nas tabelas seguintes, a pequena empresa possui de 30 a 99 pessoas ocupadas, pois não fez parte da amostra da PAEP as empresas com menos de 30 pessoas ocupadas. 44 82 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras relação capital/trabalho mais elevada45. Verificou-se, portanto, a faixa de receita líquida das atividades das empresas no exercício de 1996 de acordo com a origem do capital controlador, como mostra a tabela 11. Tabela 11– Faixa de receita líquida das empresas (em R$), segundo a origem do capitalcontrolador – 1996 Origem do Capital Controlador (em 31/12/96) Faixa de Recita Líquida Nacional Até 720.000 Estrangeiro 28.732 71,0 De 720.001 a 3.000.000 70 11,3 7.538 18,6 De 3.000.001 a 6.000.000 12.000.001 e mais 29 82 1.359 36 351 Total de Empresas 40.465 Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP 1.213 2,9 103 39,7 618 1.828 4,4 13,9 56,7 7.656 18,5 11,1 13,3 3,4 62 58 1.095 28.833 69,8 23,8 9,4 2,7 30 57 1.741 Total 11,5 9,2 4,3 De 6.000.001 a 12.000.000 Nacional e Estrangeiro 1.813 4,4 260 41.344 Há uma elevada concentração (71%) de empresas nacionais na faixa de receita líquida até R$ 720 mil. As empresas estrangeiras apresentam maior concentração (70%) nas faixas de receita líquida mais altas – mais de R$ 6 milhões. Cerca de 50% das empresas parcialmente controladas pelo capital estrangeiro (nacional e estrangeiro) apresentam faixa de receita líquida superior a R$ 6 milhões, portanto menos concentradas que as estrangeiras nas maiores faixas. As empresas de controle parcial ou total do capital estrangeiro são também grandes empresas e possuem receitas líquidas superiores às empresas nacionais. Essas características também podem influenciar no comportamento em relação às questões ambientais, pois as empresas com maiores escalas de produção possuem maior visibilidade caso haja alguma externalidade ambiental negativa decorrente de suas atividades, ficando, portanto, mais vulneráveis às pressões legais e da sociedade. Por outro lado, as empresas 45 Adicionalmente, a indústria brasileira passou por um processo de downsizing no início dos anos 90, como conseqüência da maior abertura da economia brasileira ao mercado externo. Muitas empresas terceirizaram serviços não essenciais, reduzindo o pessoal ocupado, e passando para uma faixa mais baixa de pessoal ocupado. 83 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras com maior receita líquida podem também dispor de maiores recursos financeiros – seja próprio ou de terceiros – para realizar investimentos na área de meio ambiente. 2.1.2 Tamanho da firma A seção anterior mostrou evidências de que as empresas de inserção internacional estariam mais voltadas para as questões ambientais, havendo uma estreita relação entre as empresas de inserção internacional e as maiores empresas. Mesmo podendo-se concluir, por associação, que as maiores empresas também teriam o mesmo comportamento daquelas de inserção internacional, essa seção procura evidências para verificar se o tamanho da empresa influencia na percepção da relação entre competitividade e preservação ambiental. O tamanho da empresa foi definido de duas formas: a primeira pela classificação do SEBRAE de acordo com o pessoal ocupado (ver nota de rodapé 6) e a segunda pela receita líquida das empresas, pela razões expostas na seção anterior. A tabela 12 revela que quanto maior a receita líquida das empresas, as questões ambientais ganharam importância, seja na direção de melhorar ou não a competitividade. Quanto maior a faixa de receita líquida, maior é a percepção de que há oportunidade de negócios por desenvolver produtos e processos não agressivos ao meio ambiente, ou seja, para as maiores empresas, a preservação do meio ambiente pode melhorar sua competitividade. Por outro lado, são também as empresas de maior receita líquida as que mais consideraram a elevação de custos, perda de mercados e degradação da imagem institucional por problemas ambientais derivados de suas atividades produtivas. Tabela 12 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade, segundo faixa de receita líquida – 1996 Faixa de Receita Líquida Oport. de negócios Elevação de custos Perda de mercados Degrad. imagem instit. Sim Sim Sim Sim Até 720.000 26,1% 10,8% 3,5% 5,9% De 720.001 a 1.500.000 34,7% 16,4% 4,1% 7,4% De 1.500.001 a 3.000.000 35,8% 21,3% 5,9% 7,6% De 3.000.001 a 6.000.000 38,3% 28,2% 6,7% 12,4% De 6.000.001 a 12.000.000 40,0% 35,8% 8,4% 15,6% De 12.000.001 e mais 49,3% 49,9% 12,8% 23,5% 29,7% 15,3% 4,4% 7,5% Total de Empresas Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP 84 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Entretanto, a perda de mercados e a degradação da imagem institucional não se mostraram muito importantes, pois é baixo o percentual de empresas que responderam afirmativamente a estas questões (12,8% e 23,5%, respectivamente para as empresas de maior faixa de receita líquida). Além do mais, como ressaltado na seção anterior, a definição de custo não é muito clara, pois se confunde com a definição de investimento. Ao verificar as mesmas variáveis que indicam competitividade segundo o pessoal ocupado, a tabela 13 mostra que não há diferença nos resultados obtidos anteriormente. A percepção de que o desenvolvimento de produtos e processos não agressivos ao meio ambiente é uma oportunidade de negócios cresce com o tamanho da empresa. Por outro lado, são também as grandes empresas que mais perceberam a possível perda de competitividade pela elevação de custos, degradação da imagem institucional e a perda de mercados internos e/ou externos devido aos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. Entretanto, essa última variável não parece ser relevante para todos os tamanhos da firma. Tabela 13 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996 Oport. de negócios Elevação de custos Perda de mercados Degrad. imagem instit. Faixas de Pessoal Ocupado Sim Sim Sim Sim De 30 a 99 (pequeno) 33,4% 20,2% 5,8% 8,9% De 100 a 499 (médio) 41,2% 37,1% 8,8% 15,6% De 500 e mais (grande) 54,7% 60,5% 14,7% 29,8% Total de Empresas 36,9% 27,4% 7,2% 12,0% Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP Ao considerar as variáveis que são indicadores de inovação, isto é, investimentos realizados para reduzir os problemas ambientais de suas atividades, a tabela 14 mostra que quanto maior a receita líquida das empresas, mais investimentos desse tipo são realizados – reutilização ou tratamento de resíduos, mudanças no processo de produção, substituição de insumos contaminantes e adoção de programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. 85 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 14 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade, segundo faixa de receita líquida – 1996 Reut/Tratamento de Mudanças no resíduos proces. produção Faixas de Receita Líquida Até 720.000 De 720.001 a 1.500.000 De 1.500.001 a 3.000.000 De 3.000.001 a 6.000.000 De 6.000.001 a 12.000.000 De 12.000.001 e mais Total de Empresas Subst insumos contaminantes Sim 11,1% 18,5% 21,3% 32,7% 41,7% 57,7% Sim 14,6% 20,1% 24,5% 33,5% 35,4% 46,3% Sim 9,8% 17,1% 19,8% 27,2% 31,8% 40,9% Programas/técnicas melhoria p/ defesa meio ambiente Sim 19,8% 31,6% 40,0% 44,3% 47,2% 63,6% 16,5% 18,7% 14,1% 26,3% Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP As mesmas conclusões são obtidas se for considerado o tamanho da firma de acordo com o pessoal ocupado (tabela 15). Cerca de metade das grandes empresas realizaram investimentos na mudança de processos de produção e na substituição de insumos contaminantes para reduzir problemas ambientais decorrentes de suas atividades. Mais de 70% das grandes empresas investiram em reutilização e tratamento de resíduos e a adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. Na medida em que diminui o tamanho da firma, estes percentuais são menores. Portanto, as grandes empresas parecem mais preocupadas com os impactos ambientais de suas atividades – seja por exigência do mercado ou pela pressão legal. Tabela 15 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996 Reut/Tratamento de Mudanças no resíduos proces. produção Subst insumos contaminantes Programas/técnicas melhoria p/ defesa meio ambiente Faixas de Pessoal Ocupado De 30 a 99 (pequeno) De 100 a 499 (médio) De 500 e mais (grande) Sim 23,2% 42,8% 71,7% Sim 23,9% 36,7% 53,7% Sim 19,5% 32,2% 49,3% Sim 35,0% 51,7% 70,9% Total de Empresas 31,6% 29,3% 24,9% 41,8% Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP 86 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Pela tabela 16, observa-se que quanto maior o tamanho da empresa, maior a importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar. Entretanto, independentemente do tamanho da empresa, mais de 80% delas acreditaram ser o meio ambiente uma motivação para inovação (Importante, Muito Importante e Crucial), mostrando sua importância como uma forma de buscar competitividade. Tabela 16 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais por tamanho da firma, segundo o tamanho da firma de acordo número de pessoas ocupadas – 1996 Fatores que Motivaram a Empresa a Inovar - Preservação do Meio Ambiente (94-96) Tamanho da firma – número Indiferente e Importante Muito Importante e de pessoas ocupadas Pouco Importante Crucial 30 a 99 (pequeno) 383 657 880 % 19,9 34,2 45,8 100 a 499 (médio) 270 432 699 % 19,3 30,8 49,9 Mais de 500 (grande) 52 107 223 % 13,5 28,1 58,4 Total de empresas 704 1.196 1.802 % 19,0 32,3 48,7 Fonte: Lustosa (2001) a partir da Fundação SEADE/PAEP Total 1.920 100 1.400 100 383 100 3.702 100 A tabela 17 mostra a mesma variável da tabela anterior por faixa de receita líquida. Observa-se que a maioria das empresas (mais de 75%), independentemente da faixa de receita líquida, acreditou que a estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar é Importante, Muito Importante e Crucial. Porém, são as empresas de maior receita líquida (56%) que atribuíram maior grau de importância ao meio ambiente como motivação para inovação. 87 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 17 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar e percentuais por tamanho da firma, segundo a faixa de receita líquida – 1996 Fatores que Motivaram a Empresa a Inovar - Preservação do Meio Ambiente (94-96) Faixa de Receita Líquida Indiferente e Pouco Importante Muito Importante e Importante Crucial Até 720.000 782 1.126 1.694 % 21,7 31,3 47,0 De 720.001 a 3.000.000 484 672 929 % 23,2 32,2 44,6 De 3.000.001 a 6.000.000 130 231 294 % 19,8 35,3 44,9 De 6.000.001 a 12.000.000 124 188 241 % 22,4 34,0 43,6 De 12.000.001 e mais 154 277 546 % 15,8 28,4 55,9 Total de Empresas 1674 2494 3704 % 21,3 31,7 47,1 Fonte: Elaboração própria a partir da Fundação SEADE/PAEP Total 3.602 100,0 2.085 100,0 655 100,0 553 100,0 977 100,0 7.872 100,0 Se por um lado o meio ambiente pode ser um fator de aumento de competitividade para as maiores empresas – como uma oportunidade de negócios –, os problemas ambientais decorrentes de suas atividades produtivas podem afetar negativamente sua competitividade – pela elevação de custos com despoluição e multas, por redução de parcelas de mercados externos e/ou internos e pela degradação de sua imagem institucional. Entretanto, esta percepção de perda de competitividade pela elevação de custo não está bem clara, pois não há distinção entre custo e investimento – como ressaltado anteriormente. O fato de que as maiores firmas são as que mais investem na redução dos problemas ambientais decorrentes de suas atividades pode mostrar que o investimento ambiental pode ser uma busca por competitividade ou que foi realizado por outros motivos (ver item 2.3). O mesmo não ocorre com as empresas com menores faixas de receita líquida. Seja por pessoal ocupado ou por faixa de receita líquida, são as maiores empresas as que consideraram o meio ambiente um fator de motivação para a empresa inovar. Apesar desta constatação, a maioria das empresas considerou Importante, Muito Importante ou Crucial a estratégia de preservação do meio ambiente em suas inovações, independentemente do tamanho da empresa, revelando a importância crescente da variável 88 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras ambiental na estratégia de competitividade empresarial. O tamanho da empresa é, portanto, uma variável muito importante para o estudo das relações entre meio ambiente e competitividade, como já havia sido discutido no capítulo 1. 2.1.3 Inovação No capítulo anterior, foram apontados três fatores internos à firma que influenciam na sua capacitação para se tornar inovadora. Dois deles – as competências específicas para resolução de problemas e a capacidade de absorção – dependem dos investimentos em P&D. Logo, as firmas que realizam atividades de P&D estariam mais capacitadas para gerar e adotar inovações. A questão que se coloca é se tais empresas seriam também mais aptas a adotar inovações ambientais. A variável escolhida para refletir as firmas que realizam atividades de P&D foi Fontes internas para atividades inovativas, de 1994 a 1996: departamento de P&D ou licenciamento e aquisição de patentes. O primeiro elemento indica o grau de importância do departamento interno de P&D como fonte indutora de desenvolvimento da atividade inovativa na empresa e o segundo indica o grau de importância do licenciamento e aquisição de patentes como fonte indutora. A tabela 18 mostra as empresas que investiram em mudanças no processo de produção devido a problemas ambientais, de acordo com a importância do departamento interno de P&D para a atividade inovativa da empresa. Quanto mais cresce a importância do departamento interno de P&D, mais empresas fizeram investimentos no processo produtivo para solucionar problemas ambientais. Das empresas que atribuíram pouca importância ao departamento interno de P&D (Indiferentes e Pouco importante), 31,6% realizaram investimentos em mudanças no processo produtivo e 68,4% não realizaram tais investimentos. Esses percentuais mudam para 44,5% e 55,5%, respectivamente, quando consideradas as empresas que acham Muito importante e Crucial o departamento interno de P&D como fonte indutora de desenvolvimento da atividade inovativa na empresa. 89 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 18 – Empresas que investiram em mudanças no processo de produção para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996 Fontes Internas para Atividade Inovativas – Departamento de P&D (94-96) Investimento - Mudanças no Indiferente e Pouco Importante Muito Importante e Total Processo Produção Importante Crucial Sim (A) 435 1.277 A/C (%) 31,6 39,6 Não (B) 940 1.944 B/C (%) 68,4 60,4 Total de Empresas (C) 1.375 3.221 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP 1169 44,5 2.881 39,9 1.458 55,5 4.342 60,1 2.627 7.223 Pela tabela 19 pode-se observar que quanto maior a importância atribuída ao departamento interno de P&D como fonte inovativa da empresa, maior o percentual de empresas que substituíram insumos contaminantes para reduzir problemas ambientais. Das empresas que acreditaram ser indiferente e pouco importante o departamento interno de P&D para realizar atividades inovativas, cerca de um quarto realizaram investimentos para substituir insumos contaminantes. Esta proporção eleva-se para um terço, quando consideradas as empresas que atribuíram ser muito importante e crucial o departamento interno de P&D como fonte interna para atividades inovativas. Tabela 19 – Empresas que realizaram investimentos na substituição de insumos contaminantes para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996 Fontes Internas para Atividade Inovativas – Departamento de P&D (94-96) Investimento – Substituição Indiferente e Pouco Insumos Contaminantes Importante Sim (A) 338 A/C (%) 24,6 Não (B) 1.036 B/C (%) 75,4 Total de Empresas (C) Importante Muito Importante e Crucial 1.025 869 31,8 33,1 2.197 1.757 68,2 66,9 1.374 3.222 2.626 Total 2.232 30,9 4.990 69,1 7.222 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP A tabela 20 mostra uma tendência semelhante à da tabela anterior. As empresas que atribuíram maior importância ao departamento interno de P&D apresentaram um percentual maior de realização de investimentos na reutilização ou tratamento de resíduos 90 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras para reduzir problemas ambientais decorrentes de suas atividades produtivas. Entretanto, das empresas que realizaram tais investimentos, a diferença percentual daquelas que atribuíram pouca importância ao P&D em relação às demais é menor do que nas duas tabelas anteriores – onde também realizaram investimentos de outra natureza para reduzir problemas ambientais. Tabela 20 – Empresas que realizaram investimentos na reutilização ou tratamento de resíduos para redução de problemas ambientais decorrentes de suas atividades, segundo grau de importância do departamento interno de P&D – 1996 Fontes Internas para Atividade Inovativas – Departamento de P&D (94-96) Investimento Reutilização/Trat. Resíduos Sim (A) A/C (%)) Não (B) B/C (%) - Indiferente e Pouco Importante 402 29,3 972 70,2 Total de Empresas (C) Importante Muito Importante e Crucial 1.169 935 36,3 35,6 2.050 1.690 63,7 64,4 1.374 3.219 2.625 Total 2.506 34,7 4.712 65,3 7.218 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP A tabela 21 mostra o grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar, de acordo com o grau de importância do departamento interno de P&D. Independentemente do grau atribuído ao departamento de P&D interno, é crescente o percentual de empresas que acharam a preservação do meio ambiente um fator de motivação para a empresa inovar. Entretanto, das empresas que acreditaram ser a preservação do meio ambiente um motivo muito importante e crucial para a inovação, é crescente o percentual de empresas que atribuíram alto grau de importância ao departamento de P&D interno como fonte de atividade inovativa. Assim, pode-se inferir que são as empresas mais inovadoras as mais propensas a adotar inovações ambientais. 91 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 21 – Grau de importância da estratégia de preservação do meio ambiente como fator de motivação para a empresa inovar, segundo grau de importância do departamento interno de P&D-1996 Fontes Internas para Atividade Inovativas – Departamento de P&D (94-96) Fatores que Motivaram a Empresa a Inovar Preservação do Meio Ambiente (94-96) Indiferente e Pouco Importante (A) A/D % Importante (B) B/D % Muito Importante e Crucial (C) C/D % Total de Empresas (D) Indiferente e Pouco Importante 333 28,6 378 32,5 452 38,9 Importante 1.163 460 16,8 933 34,1 1.343 49,1 Muito Importante e Crucial 459 21,2 474 21,9 1.234 56,9 2.736 Total 1.252 20,6 1.785 29,4 3.029 49,9 2.167 6.066 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP Na tabela 22, pode-se verificar que não há diferenças significativas entre os percentuais das empresas que adotaram programas e técnicas visando a métodos produtivos menos agressivos ao meio ambiente e o grau de importância atribuído ao departamento interno de P&D como fonte de atividades inovativas – cerca de 50% para todas as respostas. Portanto, o fato da empresa atribuir um alto grau de importância ao departamento de P&D como fonte interna para atividades inovativas não parece exercer influência na adoção de programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. Tabela 22 – Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente, segundo a importância do departamento de P&D como fonte interna para atividades inovativas – 1996 Fontes Internas para Atividades Inovativas – Departamento de P&D (94-96) Programas e Téc. p/ melhoria Indiferente e Pouco Importante Muito Importante e Total Defesa Meio Ambiente (96) Importante Crucial Sim (A) 676 1.690 A/C (%) 49,0 52,3 Não (B) 703 1.540 B/C (%) 51,0 47,7 Total de empresas (C) 1.379 3.230 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP 1329 50,3 3.695 51,0 1.314 49,7 3.557 49,0 2.643 7.252 92 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras A tabela 23 mostra que as empresas que atribuíram maior grau de importância ao licenciamento e aquisição de patentes como fontes internas para atividades inovativas apresentaram maiores percentuais em relação à adoção de programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente. Tabela 23– Empresas que adotaram programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente, segundo a importância do licenciamento e aquisição de patentes como fontes internas para atividade inovativas – 1996 Fontes Internas para Atividade Inovativas – Licenciamento e aquisição de patentes (94-96) Progr.Téc.Melhoria p/ Defesa Indiferente e Pouco Importante Muito Importante e Total Meio Ambiente (96) Importante Crucial Sim (A) 1.231 1.161 651 3.043 A/C (%) 41,4 56,9 61,0 50,1 Não (B) 1.742 880 416 3.038 B/C (%) 58,6 43,1 39,0 49,9 Total de empresas (C) 2.973 2.041 1.067 6.081 Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP Os dados acima apresentados mostram que as empresas que possuem atividades de P&D estariam mais capacitadas para gerar e adotar inovações, inclusive as ambientais, pois foram as que mais investiram na mudança de processo de produção para a redução de problemas ambientais. São também as empresas mais inovadoras que perceberam a preservação do meio ambiente como um fator indutor da inovação. Entretanto, a realização de melhoria de métodos e processos de produção voltados para a defesa do meio ambiente não se mostrou diretamente relacionada com o fato da firma dar importância ao departamento de P&D. O mesmo não ocorre com as empresas que acham importante o licenciamento e aquisição de patentes para realizarem inovações, pois mais da metade realizou melhorias para defesa do meio ambiente. 2.1.4 Análise Setorial A análise setorial é importante para verificar o comportamento dos setores de maior potencial poluidor no que tange à adoção de inovações para preservação do meio ambiente e a preocupação com a relação entre competitividade e preservação ambiental. Os setores 93 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras industriais foram desagregados a 3 dígitos da CNAE46 e o potencial poluidor foi identificado de acordo com a classificação de atividades industriais e seu potencial poluidor da FEEMA, como parte integrante do Sistema de Licenciamento de Atividades Poluidoras (SLAP). Ao utilizar esta classificação, buscou-se ter a mesma visão de potencial poluidor das atividades industriais de um órgão oficial de controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental. A classificação da FEEMA foi elaborada pela Comissão Permanente de Normalização Técnica (PRONOL) e as atividades industriais abrangem as atividades de extração mineral, com ou sem beneficiamento, e as indústrias de transformação, utilizando a CAE 85 (Classificação de Atividades Econômica de 1985) do IBGE. Dado que a classificação de atividades utilizada pela PAEP é a CNAE, foi necessário uma compatibilização entre estas duas classificações de atividades industriais, que foi fornecida pelo IBGE. A classificação da FEEMA define o potencial poluidor “teórico” em relação ao ar, à água e o geral, de acordo com os seguintes parâmetros: Ar: partículas em suspensão (PS), dióxido de enxofre (SO2), óxidos de nitrogênio (NOx), hidrocarbonetos (HC) e odor. Água: demanda bioquímica de oxigênio (DBO), substâncias tóxicas – metais pesados, praguicidas, etc. – (STOX), óleos e graxas (OG), material em suspensão (MS). Geral: é o maior nível de potencial poluidor independente de ser da água ou do ar, mesmo que um seja mais baixo que o outro. As três classificações de potencial poluidor estão divididas em quatro níveis de potencial poluidor: alto, médio, baixo e desprezível. É importante ressaltar que quando um setor industrial é classificado como potencialmente poluidor não significa que suas unidades produtivas apresentem o mesmo nível de emissões e disponibilizam os rejeitos industriais da mesma forma. Para realmente saber como as atividades industriais estão impactando o meio ambiente, seria necessário medir a carga poluente em cada unidade industrial. Como essa tarefa é praticamente impossível, por limitações de tempo e recursos financeiros, são utilizadas diferentes classificações de setores industriais potencialmente poluidores, inclusive por meio de estimativas com base de dados internacionais. 46 Ver no anexo II os setores industriais da CNAE a 3 dígitos. 94 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Além da composição setorial – efeito composição –, que revela os setores de maior ou menor potencial poluidor, outras variáveis também influenciam na verificação da poluição industrial: a escala de produção, ou seja, o porte das unidades industriais – também chamado de efeito escala – e o tipo de tecnologia empregada, se mais ou menos limpa. A interação e a compensação entre estes três efeitos determinam o nível de saturação do meio ambiente local. O estudo destas variáveis requer estudos adicionais e foge ao objetivo desta análise. A tabela 24 mostra o comportamento dos setores industriais em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade. A grande incidência de setores de alto potencial poluidor deve-se ao fato de que um setor ser composto por sub-setores de diferentes potenciais poluidores (ver anexo III). Nestes casos, optou-se por atribuir ao agregado a classificação do sub-setor de maior potencial poluidor: por exemplo, o setor 155 (Moagem, fabricação de produtos amiláceos e de rações balanceadas para animais) é composto por 12 atividades, das quais sete apresentam médio potencial poluidor e cinco alto. A opção foi por classificar o setor como alto potencial poluidor. Tabela 24 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de competitividade e potencial poluidor, segundo setores industriais – 1996 CNAE* 113 Indúst. Extrativas 151 Prep. prod. carnes... 152 Conserv. frutas... 153 Produção óleos e ... 154 Laticínios 155 Moagem, rações ... 156 Fab. refino açúcar 157 Tor. moagem café 158 Outros prod. alim. 159 Fabricação bebidas 160 Fabr. prod. fumo 171 Ben. têxteis natura 172 Fiação 173 Tecelagem 174 Fab. artef. têxteis 175 Serv. acab. têxteis 176 Fab têxteis e artigo 177 Tecido e art. malha 181 Confecções vestuá.. Potencial Poluidor Alto Alto Alto Alto Alto Alto Alto Médio Alto Alto Baixo Alto Médio Alto Médio Baixo Médio n.c. Médio Oportunidade Negócios Sim 47,6% 44,9% 79,7% 65,7% 45,4% 37,9% 45,6% 61,6% 23,8% 48,6% 100,0% 20,8% 30,9% 23,0% 30,8% 31,9% 13,4% 20,7% 19,5% Elevação Custo Perda de Mercados Sim 51,4% 49,8% 40,3% 61,7% 34,2% 32,1% 73,2% 65,7% 12,8% 36,3% 0,0% 32,4% 25,6% 20,1% 13,0% 34,6% 4,6% 4,5% 2,6% Sim 15,6% 10,1% 3,4% 0,0% 9,6% 3,5% 16,4% 1,8% 1,8% 3,6% 0,0% 10,4% 5,8% 2,3% 4,3% 6,3% 1,4% 0,8% 0,7% 95 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras 182 Acess. e seg. prof. 191 Curtimento couro 192 Art viagens couro 193 Calçados 201 Desdobr. madeira 202 Madeira e cortiça 211 Celulose e pastas 212 Papel, cartolina ... 213 Embalagens papel 214 Artefatos cartolina 221 Edição e impressão 222 Impressão e conexo 223 Reprod mat gravad 232 Refino petróleo 234 Produção álcool 241 Prod. quim. inorg. 242 Prod. quim. organ. 243 Resinas e elastôm. 244 Fios sintéticos 245 Prod. farmacêuticos 246 Defensivos agrícol. 247 Limpeza e perfum. 248 Tintas, vernizes ... 249 Químicos diversos 251 Artigos de borracha 252 Produtos plásticos 261 Vidro e produtos 262 Cimento 263 Artef. cimento ... 264 Produtos cerâmicos 269 Cal e min. ñ metál. 271 Siderúrgicas integr. 272 Prod. siderúgicos 273 Tubos 274 Metalurgia ñ ferros 275 Fundição 281 Estruturas metálica 282 Tanques, caldeiras 283 Forjaria, trat. metal 284 Cutelaria, serralher. 289 Diversos de metal 291 Motores, bombas ... 292 Máquinas e equip. 293 Trat. maq. agrícola 294 Máquinas-ferramen 295 Equip. extr. mineral 296 Outras maq. equip. 297 Armas, municões ... 298 Eletrodomésticos 301 Máquinas escritório 302 Maq. proces. dados Médio Alto Desprezível Médio Médio Desprezível Alto Alto Médio Alto Médio Médio Médio Alto Alto Alto Alto Médio Médio Alto Alto Alto Alto Alto Alto Alto Alto Alto Médio Médio Alto Alto Alto Alto Alto Alto Baixo Médio Alto Alto Alto Alto Médio Baixo Baixo Baixo Baixo Alto Médio Médio Médio 7,3% 49,8% 27,9% 29,3% 10,1% 42,0% 100,0% 64,0% 33,4% 23,7% 32,8% 21,3% 0,0% 69,8% 53,7% 66,4% 24,8% 67,5% 12,9% 49,5% 84,0% 48,3% 76,7% 52,7% 43,7% 38,5% 40,1% 55,4% 27,3% 26,3% 44,0% 9,7% 17,6% 24,7% 35,8% 34,6% 28,4% 70,1% 23,9% 23,3% 28,8% 35,4% 30,5% 27,6% 36,3% 57,2% 24,7% 100,0% 27,0% 39,9% 19,7% 1,7% 49,2% 3,6% 7,4% 11,7% 8,9% 100,0% 59,0% 12,5% 13,7% 12,7% 10,3% 0,0% 69,8% 71,3% 26,1% 31,8% 48,7% 12,9% 28,3% 51,3% 29,7% 47,5% 39,9% 25,2% 14,5% 12,5% 83,9% 10,3% 19,4% 15,5% 31,9% 26,1% 24,4% 23,2% 18,7% 3,6% 20,0% 22,4% 21,3% 16,8% 17,2% 11,5% 13,4% 13,5% 23,5% 11,1% 88,2% 18,4% 26,9% 1,1% 0,3% 7,0% 1,2% 2,1% 1,0% 5,8% 100,0% 18,9% 3,3% 4,2% 6,0% 4,0% 0,0% 14,6% 11,2% 10,6% 14,9% 4,0% 0,0% 5,9% 17,4% 9,0% 20,5% 12,8% 3,6% 2,5% 5,0% 16,1% 4,1% 5,4% 0,3% 0,0% 7,7% 13,6% 5,9% 3,4% 4,4% 17,4% 5,8% 1,0% 6,3% 7,5% 7,4% 1,9% 1,7% 11,0% 9,7% 76,6% 7,1% 14,9% 0,0% 96 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras 311 Geradores, mot elét Médio 27,8% 13,6% 4,1% 312 Distr. energia elétr. Médio 28,1% 12,4% 3,1% 313 Fios, cabos, condut Médio 40,2% 14,0% 6,8% 314 Pilhas, baterias ... Médio 21,8% 49,1% 7,3% 315 Lâmpadas, ilumina Médio 21,4% 6,5% 1,1% 316 Mat. elétr. veículos Médio 19,2% 8,8% 3,5% 319 Outros equip. elétr. Médio 23,6% 5,7% 3,3% 321 Mat. eletrônico bás Médio 34,3% 12,0% 2,9% 322 Telef., transm. TV Médio 28,8% 11,8% 0,9% 323 Recep. TV, som ... Médio 26,9% 8,8% 8,1% 331 Apar. equip médico Médio 25,6% 10,7% 1,6% 332 Inst. medida, contr. Médio 44,1% 7,2% 0,0% 333 Automação industr. n.c. 32,6% 2,4% 1,2% 334 Ótica, foto, cinema Baixo 30,3% 8,3% 0,0% 335 Cronômetros, relóg Desprezível 12,2% 12,2% 12,2% 341 Automóveis, utilit. Alto 61,8% 66,8% 52,2% 342 Caminhões, ônibus Alto 100,0% 100,0% 100,0% 343 Cabines, carroceria Alto 21,5% 8,2% 0,0% 344 Peças, acess. veícul Alto 38,0% 21,8% 6,2% 345 Recupera. motores Baixo 15,8% 14,3% 3,1% 351 Embarcações Alto 42,5% 20,4% 13,3% 352 Veículo ferroviário Médio 10,1% 16,1% 10,1% 353 Aeronaves Alto 16,8% 20,4% 0,0% 359 Outros equip transp Médio 26,0% 14,5% 3,0% 361 Mobiliário Médio 31,3% 13,3% 4,3% 369 Produtos diversos Médio 22,7% 17,6% 8,6% Total 29,7% 15,3% 4,4% * Nomeação dos setores resumida. Ver anexo II para o nome completo de cada setor pela CNAE a 3 dígitos. Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP e FEEMA (s.d.) A análise dos dados sugere que as indústrias extrativas (113), os setores de Produtos alimentares e bebidas (setores que iniciam por 15, exceto Fabricação de outros produtos alimentícios – 158), Curtimento e outras preparações de couro (191), Fabricação de celulose e outras pastas para a fabricação de papel (211), Fabricação de papel, papelão liso, cartolina e cartão (212), Refino de petróleo (232), Produção de álcool (234), Produtos químicos (setores que iniciam por 24, exceto Fabricação de produtos químicos orgânicos – 242 – e Fabricação de fibras, fios, cabos e filamentos contínuos artificiais e sintéticos – 244), Fabricação de cimento (262), Fabricação de armas, munições e equipamentos militares (297), Fabricação de automóveis, camionetas e utilitários (341) e Fabricação de caminhões e ônibus (342), todos de alto potencial poluidor, apresentam maiores preocupações em relação à questão ambiental. São estes setores os que mais percebem o meio ambiente como uma oportunidade de negócios e que mais acusam elevação de custos devido a investimentos em tratamento 97 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras de resíduos, multas, etc. derivada dos efeitos de sua atividade sobre o meio ambiente. A perda de mercado apresentou baixos percentuais para todos os setores, com exceção de Fabricação de Celulose (211) e Fabricação de caminhões e ônibus (342), que são setores exportadores, e Fabricação de armas, munições e equipamentos militares (297). As atividades da Metalurgia básica (setores que iniciam por 27), de alto potencial poluidor, foram os que apresentaram menos preocupação em relação à questão ambiental. A Construção, montagem e reparação de aeronaves (353), mesmo sendo um setor exportador, também não registrou preocupações ambientais significativas. Os setores de Fabricação de produtos de metal, exclusive máquinas e equipamentos (setores que iniciam por 28) também não se mostraram muito preocupados com esta questão, entretanto alguns dos setores classificados como de alto potencial poluidor possuem atividades de médio potencial poluidor (ver anexo III). Pela tabela 25 pode-se observar o comportamento dos setores industriais em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade. Dentre os setores de alto potencial poluidor, os setores de Fabricação e refino de açúcar (156), Curtimento e outras preparações de couro (191), Celulose, papel (211 e 212), Refino de petróleo (232), Produção de álcool (234), Fabricação de defensivos agrícolas (246), Fabricação de automóveis camionetas e utilitários (341) e Fabricação de caminhões e ônibus (342) foram os de alto potencial poluidor que mais realizaram os três tipos de investimento. A Fabricação de cimento (262) investiu mais nas mudanças de processo produtivo e na reutilização e tratamento de resíduos para reduzir problemas ambientais da atividade das empresas. Este último tipo de investimento foi o mais importante realizado pelos setores de Abate e preparação de produtos de carne e de pescado (151), Produção de óleos e gorduras vegetais e animais (153), Fabricação de produtos químicos orgânicos (242) e Fabricação de armas, munições e equipamentos militares (297). 98 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tabela 25 – Comportamento das empresas em relação às variáveis consideradas como indicadores de inovação ambiental para melhorar a competitividade e potencial poluidor, segundo setores industriais– 1996 Subist. Insum. Cont CNAE* Potencial Poluidor 113 Indúst. Extrativas Alto 151 Prep. prod. carnes... Alto 152 Conserv. frutas... Alto 153 Produção óleos e ... Alto 154 Laticínios Alto 155 Moagem, rações ... Alto 156 Fab. refino açúcar Alto 157 Tor. moagem café Médio 158 Outros prod. alim. Alto 159 Fabricação bebidas Alto 160 Fabr. prod. fumo Baixo 171 Ben. têxteis natura Alto 172 Fiação Médio 173 Tecelagem Alto 174 Fab. artef. têxteis Médio 175 Serv. acab. têxteis Baixo 176 Fab têxteis e artigo Médio 177 Tecido e art. malha n.c. 181 Confecções vestuá.. Médio 182 Acess. e seg. prof. Médio 191 Curtimento couro Alto 192 Art viagens couro Desprezível 193 Calçados Médio 201 Desdobr. madeira Médio 202 Madeira e cortiça Desprezível 211 Celulose e pastas Alto 212 Papel, cartolina ... Alto 213 Embalagens papel Médio 214 Artefatos cartolina Alto 221 Edição e impressão Médio 222 Impressão e conexo Médio 223 Reprod mat gravad Médio 232 Refino petróleo Alto 234 Produção álcool Alto 241 Prod. quim. inorg. Alto 242 Prod. quim. organ. Alto 243 Resinas e elastôm. Médio 244 Fios sintéticos Médio 245 Prod. farmacêuticos Alto 246 Defensivos agrícol. Alto 247 Limpeza e perfum. Alto 248 Tintas, vernizes ... Alto 249 Químicos diversos Alto 251 Artigos de borracha Alto Sim 11,2% 16,6% 31,0% 21,6% 15,3% 16,1% 43,2% 3,2% 8,1% 27,1% 0,0% 23,4% 20,6% 20,5% 14,1% 20,7% 4,9% 4,3% 4,3% 4,9% 40,4% 17,8% 13,8% 17,8% 7,7% 0,0% 47,5% 16,8% 9,8% 16,9% 12,8% 0,0% 59,4% 33,2% 11,6% 25,9% 40,6% 8,3% 22,9% 82,6% 33,0% 46,8% 25,8% 30,3% Mudança Proc. Produtivo Sim 42,5% 34,5% 36,7% 34,4% 21,9% 21,2% 59,6% 32,6% 17,6% 31,9% 100,0% 9,4% 28,0% 17,7% 15,1% 22,6% 10,7% 8,8% 7,7% 26,5% 34,1% 9,8% 11,0% 18,6% 14,4% 100,0% 56,3% 18,2% 11,6% 8,8% 12,8% 0,0% 63,5% 35,0% 34,4% 29,2% 61,7% 7,9% 32,2% 82,6% 38,0% 39,2% 31,9% 38,8% Reut/Trat Resíduos Sim 31,1% 56,1% 38,5% 60,8% 37,6% 11,0% 79,7% 9,7% 4,2% 37,5% 0,0% 35,7% 28,4% 26,7% 9,8% 35,2% 9,3% 16,7% 4,7% 12,9% 52,9% 6,5% 11,4% 11,1% 7,8% 100,0% 58,9% 18,9% 9,3% 15,1% 10,3% 0,0% 46,9% 88,0% 38,0% 50,1% 58,2% 12,9% 27,8% 82,6% 19,2% 46,9% 32,1% 25,7% 99 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras 252 Produtos plásticos 261 Vidro e produtos 262 Cimento 263 Artef. cimento ... 264 Produtos cerâmicos 269 Cal e min. ñ metál. 271 Siderúrgicas integr. 272 Prod. siderúgicos 273 Tubos 274 Metalurgia ñ ferros 275 Fundição 281 Estruturas metálica 282 Tanques, caldeiras 283 Forjaria, trat. metal 284 Cutelaria, serralher. 289 Diversos de metal 291 Motores, bombas ... 292 Máquinas e equip. 293 Trat. maq. agrícola 294 Máquinas-ferramen 295 Equip. extr. mineral 296 Outras maq. equip. 297 Armas, municões ... 298 Eletrodomésticos 301 Máquinas escritório 302 Maq. proces. dados 311 Geradores, mot elét 312 Distr. energia elétr. 313 Fios, cabos, condut 314 Pilhas, baterias ... 315 Lâmpadas, ilumina 316 Mat. elétr. veículos 319 Outros equip. elétr. 321 Mat. eletrônico bás 322 Telef., transm. TV 323 Recep. TV, som ... 331 Apar. equip médico 332 Inst. medida, contr. 333 Automação industr. 334 Ótica, foto, cinema 335 Cronômetros, relóg 341 Automóveis, utilit. 342 Caminhões, ônibus 343 Cabines, carroceria 344 Peças, acess. veícul 345 Recupera. motores 351 Embarcações 352 Veículo ferroviário 353 Aeronaves 359 Outros equip transp 361 Mobiliário Alto Alto Alto Médio Médio Alto Alto Alto Alto Alto Alto Baixo Médio Alto Alto Alto Alto Médio Baixo Baixo Baixo Baixo Alto Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio Médio n.c. Baixo Desprezível Alto Alto Alto Alto Baixo Alto Médio Alto Médio Médio 13,9% 14,9% 19,7% 2,9% 16,1% 12,8% 7,0% 15,0% 22,5% 29,6% 26,3% 6,9% 45,5% 21,1% 11,2% 12,7% 27,9% 16,2% 13,3% 20,2% 35,9% 12,2% 11,6% 31,8% 32,8% 8,0% 8,9% 21,4% 14,7% 20,0% 13,8% 20,2% 16,5% 17,9% 15,5% 12,7% 6,6% 18,2% 16,0% 18,9% 12,2% 58,3% 100,0% 22,3% 25,1% 13,7% 3,4% 16,1% 12,2% 18,2% 9,3% 22,5% 37,6% 100,0% 7,8% 16,3% 23,7% 9,5% 22,1% 32,7% 31,7% 29,8% 15,5% 28,1% 25,2% 19,2% 17,7% 23,2% 19,1% 20,1% 27,6% 22,8% 18,1% 11,6% 29,3% 20,8% 5,7% 19,7% 21,6% 14,1% 65,6% 11,3% 26,4% 11,9% 15,0% 13,4% 16,6% 13,7% 21,1% 3,6% 25,3% 12,2% 32,8% 100,0% 19,3% 22,3% 21,9% 9,6% 29,1% 5,2% 28,0% 15,8% 22,6% 38,3% 83,9% 7,4% 19,6% 35,5% 36,0% 14,5% 36,6% 41,8% 31,5% 6,8% 8,5% 22,6% 18,4% 21,2% 27,1% 9,7% 12,7% 33,7% 32,5% 12,3% 88,2% 20,9% 32,8% 3,1% 13,5% 21,1% 11,1% 68,2% 9,9% 15,4% 11,3% 18,5% 11,2% 25,4% 5,7% 12,4% 7,4% 21,6% 12,2% 51,0% 100,0% 21,3% 26,3% 26,1% 11,8% 13,0% 27,8% 19,6% 11,0% 100 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras 369 Produtos diversos Médio 16,5% 18,6% 14,7% Total 14,1% 18,7% 16,5% * Nomeação dos setores resumida. Ver anexo II para o nome completo de cada setor pela CNAE a 3 dígitos. Fonte: Elaboração própria a partir de Fundação SEADE/PAEP e FEEMA (s.d.) As atividades da Metalurgia básica (setores que iniciam por 27), mesmo com alto potencial poluidor, realizaram poucos investimentos na redução dos problemas ambientais resultantes de suas atividades produtivas. A Construção, montagem e reparação de aeronaves (353) também não realizou investimentos nesse sentido. Algumas atividades do setor têxtil classificadas como de alto potencial poluidor (171 e 173) também não se apresentaram como investidores em resolução de problemas ambientais, entretanto apresentam atividades de médio potencial poluidor. A análise setorial leva à conclusão de que, entre os setores de maior potencial poluidor, o sucro-alcooleiro (156 e 234), de couro (191), de papel e celulose (211 e 212), de refino de petróleo (232), alguns setores da química (245, 246 e 248) e de transporte (341 e 342) consideram mais a questão ambiental para sua competitividade. As indústrias de alto potencial poluidor que menos levam em consideração as variáveis ambientais em sua competitividade são: borrachas e plásticos, metalúrgica, naval e aeroespacial. Os setores industriais com potencial poluidor médio, baixo e desprezível realizaram menos investimentos ambientais que os setores de alto potencial poluidor. Uma vez que são setores cujas atividades apresentam problemas ambientais menores, é esperado que não realizem grandes investimentos nessa área. As exceções são Fabricação de produtos do fumo (160), de baixo potencial poluidor, que realizou mudanças no processo produtivo por causa dos impactos ambientais de suas atividades; Fabricação de pilhas, baterias e acumuladores elétricos (314), de médio potencial poluidor, que realizou mudanças no processo produtivo e reutilização e tratamento de resíduos47; Fabricação de resinas e elastômeros (243), de médio potencial poluidor, que realizou os três tipos de investimento. Entretanto, é importante ressaltar que não foi considerado o efeito escala, ou seja, mesmo que esses setores individuais apresentem impactos ambientais potencialmente pequenos, o aumento da escala de produção nesses setores pode gerar um nível absoluto de emissões alto, caso não haja algum tipo de tratamento dos rejeitos industriais. A análise dos dados da PAEP revela algumas conclusões interessantes: 47 Este setor foi alvo de regulamentação específica, a Resolução Conama 101 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras • as empresas de inserção internacional demonstraram-se mais preocupadas com as questões ambientais, seja influenciando positivamente na competitividade (oportunidade de negócios) ou negativamente na competitividade (degradação de imagem institucional, elevação de custos e perda de mercado). É importante lembrar que a maior parte das empresas de capital parcial ou total controlado por estrangeiros são empresas médias e grandes, considerando o pessoal ocupado, e com elevado faturamento, o que faz com que elas tenham maior visibilidade e capacidade financeira para investimentos ambientais. • as maiores empresas foram as que consideraram mais relevantes as questões ambientais que influenciam na competitividade e o meio ambiente como um fator de motivação para a empresa inovar. Mesmo assim, independentemente do tamanho, a maioria das empresas considerou importante a estratégia de preservação do meio ambiente em suas inovações, revelando a importância crescente da variável ambiental na estratégia de competitividade empresarial. • as empresas mais inovadoras mostraram-se as mais motivadas a adotar inovações ambientais. Por outro lado, o fato da empresa dar importância ao departamento interno de P&D não parece exercer influência na adoção de programas e técnicas para melhoria de métodos produtivos para defesa do meio ambiente e na transferência das fases do processo produtivo e/ou fabricação de produtos por problemas e custos ambientais. As empresas que inovam por meio de licenciamento e aquisição de patentes mostraram um comportamento diferenciado, pois mais da metade realizou tais melhorias. Portanto, a fonte de inovatitivade para empresa pode ser importante na solução de problemas ambientais. • as empresas de setores de alto potencial poluidor tendem a considerar que as questões ambientais influenciam na competitividade do que aquelas de menor potencial poluidor, com exceção de borrachas e plásticos, metalúrgica, naval, aeroespacial e algumas atividades do setor têxtil. 2.2 Competitividade e Meio Ambiente: evidências da indústria brasileira O Relatório da Competitividade da Indústria Brasileira (CNI et alii, 2001) procurou evidenciar aspectos da competitividade da indústria de transformação relativos 102 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras aos anos de 1998 e 1999, incluindo o meio ambiente como um fator associado à competitividade empresarial. Esta pesquisa teve caráter amostral, num total de 1.158 empresas em 16 estados brasileiros, que foram agregados em quatro regiões: Sudeste com 57,8% da amostra, Sul com 26,0%, Nordeste com 9,7% e Norte/Centro-Oeste com 6,6%. A unidade de análise foi o estabelecimento, sendo que para empresas com mais de um estabelecimento, foi considerado os dados referentes ao de maior faturamento no estado. O porte das empresas foi determinado a partir do número de empregados, divididas em quatro faixas: microempresas com até 19 empregados (64,0% da amostra), pequenas com 20 a 99 empregados (18,5% da amostra), médias com 100 a 499 empregados (9,3% da amostra) e grandes com mais de 500 empregados (8,2% da amostra). Como há um maior número de microempresas, os resultados totais não foram obtidos pela média aritmética simples dos resultados de cada empresa, para evitar distorções. Os totais foram, portanto, ponderados pelos “resultados obtidos para cada porte pelo número de empregados que cada um possui no universo de empresas, evitando-se, assim, dar o mesmo peso para todas as empresas da amostra” (CNI et alii, 2001:9). Os setores industriais, num total de 23, foram classificados segundo a CNAE a dois dígitos48. Os resultados desta pesquisa mostram o comportamento das empresas em relação ao seu porte. No tocante à gestão ambiental, 57,5% das microempresas não adotam qualquer prática deste tipo de gestão, enquanto que somente 5,3% das grandes empresas têm o mesmo comportamento. Por outro lado, das empresas que adotam gestão ambiental, 41,7% das microempresas não verificaram benefícios decorrentes deste tipo de gestão e 4,4% das grandes tiveram a mesma opinião. Quanto aos percentuais de receita operacional líquida49 aplicados em investimentos ambientais, não há grandes diferenças entre o porte das empresas: em 1998, esses percentuais foram de 0,5% para as micro, 0,9% para as pequenas, 0,7% para as médias e 0,5% para as grandes; em 1999, esses percentuais atingem 0,6% para as micro, 0,9% para as pequenas, 0,9% para as médias e 0,8% para as grandes empresas. Do total de empresas, os gastos em investimentos ambientais foram de 0,7% da receita operacional líquida em 1998 e 0,8% em 1999, sendo a maioria realizada com recursos das próprias empresas – mais de 67% nestes anos contra 22,1% dos recursos de 48 Ver no anexo II os setores industriais da CNAE a dois dígitos. 103 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras bancos governamentais. As empresas de médio e grande portes tiveram mais acesso a esse último tipo de recurso nos anos de 1998 e 1999 – 49,0% das grandes empresas contra 2,0% das microempresas. Como resultados destes investimentos, cerca de 67% das empresas consideram que houve melhoria da sua imagem – para as médias empresas este percentual é de 74,5% e para as grandes 86,7% –; aproximadamente 25% perceberam aumento nas vendas – as médias e grandes empresas apresentam percentuais maiores, 30,1% e 28,2%, respectivamente –; o acesso a novos mercados foi identificado por 29,2% – para as grandes empresas 41,8% e para as médias 32,1%; e o aumento no custo final dos produtos foi identificado por 39,0% das grandes empresas, 37,3% das médias, 34,6% das pequenas e 18,8% das micro. Os investimentos realizados em gestão, controle e melhorias operacionais e tecnológicas otimizaram a utilização de insumos (redução de emissão de poluentes do ar e melhoria do controle de efluentes líquidos) em quase metade das empresas, aproximadamente 30% delas reduziram os resíduos sólidos e 18% não obtiveram benefícios desses investimentos. Nos anos de 1998 e 1999, 63% da empresas realizaram investimentos na redução de perdas e refugos de materiais e produtos acabados. Outras áreas, como tratamento e controle de efluentes líquidos; tratamento e controle de efluentes sólidos; tratamento e controle de ruídos; e conservação de energia, obtiveram investimentos de mais de metade das empresas. Para todos esses tipos de investimentos, as grandes empresas sempre superam as demais em termos percentuais. A principal motivação para realizar investimentos ambientais é o atendimento à legislação – 62,4% das empresas, com percentuais superiores para as grandes (72,2%) e médias empresas (65,3%). A segunda motivação mais importante é a busca de melhoria da imagem da empresa – 61,2% para todas as empresas, sendo esse percentual superior para as grandes (65,6%) e pequenas empresas (62,9%). As outras possíveis respostas – acesso a novos mercados de gestão e melhoria da gestão – obtiveram percentuais entre 20% e 30%. 49 “A ROL (receita operacional líquida) é definida como faturamento bruto menos impostos” (CNI et alii, 2001:90). 104 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Em relação à análise setorial50, os setores que destinaram maiores gastos em investimentos ambientais foram os mesmo para 1998 e 1999, sendo que os percentuais da receita operacional líquida foram crescentes para o último ano. São eles: Produtos de minerais não-metálicos (1,4% e 1,6%, respectivamente); Produtos alimentares e bebidas (0,8% e 1,3%); Celulose, papel e produtos de papel (0,8% e 1,2%); Máquinas, aparelhos e materiais elétricos (0,7% e 1,2%); Produtos de Madeira (0,8% e 1,1%); Metalurgia básica (0,9% e 1,1%) e Máquinas e equipamentos (0,7% e 0,9%). Os setores que reduziram os percentuais investidos em meio ambiente, de 1998 em relação a 1999, foram: Couro, artigos de couro, artigos de viagem e calçados; Produtos têxteis; Móveis e indústrias diversas; Produtos químicos. Essa pesquisa aponta claramente para um comportamento diferenciado entre o porte das empresas, tal como os resultados obtidos da análise da PAEP. As micro e pequenas empresas atuaram menos na solução de questões ambientais, indicada pelas variáveis de adoção de gestão ambiental, de melhoria da imagem, do aumento de vendas, do acesso a novos mercados e do investimento ambiental. Por outro lado, são as grandes empresas que identificaram aumento no custo final dos produtos e sofrem mais pressão dos requisitos legais para realizarem investimentos ambientais. Entretanto, são as mais beneficiadas com os financiamentos de bancos governamentais para investimento em meio ambiente. O único fator que não apresentou diferenciação em relação ao porte da empresa foi o percentual de investimento ambiental em relação à receita operacional líquida. Em relação à análise setorial, por apresentar os setores muito agregados, fica difícil analisar o potencial poluidor51 como foi feito na seção anterior. De modo generalizado, não há como estabelecer uma relação entre setores de maior potencial poluidor e aqueles que mais realizaram investimentos ambientais, em percentuais de receita operacional líquida. Dos setores de maior potencial poluidor – considerando a maioria de suas atividades –, alguns aumentaram seus percentuais de investimento (Produtos de minerais 50 A pesquisa cobre 22 dos 23 setores da CNAE (ver anexo II), mas “... não se conseguiu um número de empresas considerado suficientemente alto para apresentação dos resultados desagregados em seis setores – fumo; coque, refino de petróleo e elaboração de combustíveis nucleares; máquinas para escritório e equipamentos de informática; material eletrônico e aparelhos e equipamentos de comunicações; outros equipamentos de transporte; e equipamentos de instrumentação médico hospitalares, instrumentos de precisão e óticos, equipamentos para automação industrial, cronômetro e relógios. O setor de reciclagem não foi pesquisado” (CNI et alii, 2001:9). 51 De acordo com a classificação da FEEMA apresentada no item anterior. 105 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras não-metálicos; Celulose, papel e produtos de papel; Metalurgia básica) e outro reduziram (Couro, artigos de couro, artigos de viagem e calçados; Produtos químicos). Dentre os principais motivos que levaram a realização de investimentos ambientais estão a pressão legal e a melhoria da imagem da empresa. A fim de apresentar outras evidências empíricas em relação à motivação do investimento ambiental no Brasil, o item seguinte trata com maior detalhe esta questão. 2.3 Determinantes do Investimento Ambiental No primeiro capítulo foram identificados quatro fatores que induzem as firmas a adotarem práticas mais saudáveis para o meio ambiente, segundo Howes et alii (1997). Cada um deles será analisado em bases empíricas para o caso brasileiro, por meio de estudos de caso ou de pesquisas empíricas. São eles: as pressões das regulamentações ambientais, as pressões dos consumidores finais e intermediários, a pressão das grupos de interesses (stakeholders) e a pressão dos investidores. A regulamentação ambiental é um dos fatores que mais induz às firmas a adotarem uma postura menos agressiva ao meio ambiente. Como visto no capítulo anterior, a preservação do meio ambiente não é o objetivo principal da firma, sendo necessário alguma pressão para que mude seu comportamento em relação ao meio ambiente. A regulamentação ambiental influencia no processo de seleção de inovações a serem adotadas, pois o mercado não é o único ambiente seletivo, podendo o meio institucional também atuar no processo de seleção. Legislações, subsídios, créditos, financiamentos e outros mecanismos utilizados pelas instituições atuam na seleção das inovações ambientais. Os fatores institucionais são, portanto, importantes estímulos para as firmas adotarem inovações ambientais. Um exemplo é Programa Nacional de Controle de Emissões Veiculares (Proconve), que estabeleceu metas de redução de emissões dos novos veículos entre 1988 e 1997, seguindo os padrões da OECD. Segundo Ferraz e Seroa da Motta (1999), os resultados foram positivos, com redução substancial dos níveis médios de emissões dos veículos novos. Entretanto, tratou-se de uma difusão de inovação, pois a tecnologia – conversores catalíticos e injeção eletrônica – já estava disponível e sendo utilizada pelas montadoras de veículos no exterior. 106 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras Tigre et alii (1994), em pesquisa realizada junto aos produtores de equipamentos e serviços ambientais52, mostram que 69% das empresas perceberam as regulamentações governamentais como extremamente influentes no crescimento do seu mercado e que 21% consideraram tais regulamentações influentes53. Entretanto, as empresas que mais investiram em P&D são as que menos acreditaram que a pressão legal seja um meio de estímulo ao crescimento do seu mercado. Logo, vem a confirmar as conclusões da PAEP (item 2.1) de que a firmas que atribuem um alto grau de importância ao departamento de P&D interno como fonte de atividade inovativa são também as mais propensas a adotar inovações ambientais. Metade das empresas entrevistadas considerara os estímulos econômicos governamentais – financiamento subsisdiado à aquisição de tecnologias ambientais, eliminação de impostos e subsídios às atividades de P&D – como instrumentos importantes para a ampliação do mercado de tecnologias ambientais. Muitas vezes, as soluções para os problemas ambientais requerem soluções específicas, que impossibilitam os ganhos de escala, tornando alto o custo de desenvolvimento destas tecnologias. O apoio do Estado é muito importante neste aspecto. Dados de 1992 (Tigre et alii, 1994) estimam que do total dos investimentos em proteção ambiental na Grã-Bretanha, o Estado participe com 30%. Este percentual sobe para 50% na Alemanha e na Holanda quando se trata de custeio de investimento e pesquisa em conservação de energia e controle da poluição. Como conclusão da pesquisa, os autores evidenciam que “... o Estado é o principal indutor do processo de difusão de tecnologias ambientais. Através de regulamentações ele altera o relacionamento dos agentes econômicos, obrigando-os a modificarem seu comportamento, criando novos mercados e reestruturando outros. A prática tem mostrado que nos países onde há maior regulamentação ambiental é que as tecnologias são mais desenvolvidas” (p. 75). Esta conclusão reforça as teses da teoria evolucionária, mostrando que a inovação tecnológica muda estruturas industriais, criando nichos de mercado, como o de tecnologias 52 Esta pesquisa foi realizada durante a as feiras de Equipamentos ECOBRASIL (em São Paulo) e de Tecnologias Ambientais – ECOTECH – (no Rio de Janeiro) em junho de 1992. Foram entrevistadas 108 empresas produtoras de equipamentos e serviços ambientais, das quais 80 atuavam no mercado brasileiro. O objetivo da pesquisa foi verificar a estrutura, a capacitação tecnológica, os determinantes do crescimento do mercado e as estratégias das empresas fornecedoras de tecnologias ambientias. 53 Às outras opções de resposta, pouco influente e não influencia, foram atribuídos percentuais de 7% e 3% respectivamente. 107 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras ambientais. Além do mais, as regulamentações podem induzir a novas trajetórias tecnológicas ou mesmo bifurcação de trajetórias em direção a produtos e processos menos agressivos ao meio ambiente. A pressão dos consumidores finais e intermediários está ganhado importância no Brasil, pois o nível de consciência ecológica vem aumentando. Porém, ainda há uma lacuna entre a maior conscientização da população e a pressão efetiva dos consumidores para as empresas adotarem produtos e processos menos agressivos ao meio ambiente. Em relação a produtos, devido à baixa renda da população, o consumidor final tende a ser guiado pelo menor preço e não pela qualidade – incluindo um produto ecologicamente correto. Somente uma pequena parcela da população, com maior poder aquisitivo, é capaz de demandar produtos “verdes”, que possuem, em geral, um preço maior. Em relação aos processos produtivos, os consumidores intermediários – as firmas que compram bens intermediários de outras firmas – são muitas vezes induzidos a adotarem práticas mais saudáveis ao meio ambiente por exigência de seus compradores, que por terem alguma certificação ambiental (como a ISO 14001), passam a exigir de seus fornecedores a gestão ambiental em seus negócios. A pesquisa realizada por Tigre et alii (1994) revela que, dada a regulação ambiental, a pressão da opinião pública é o fator que mais facilita a adoção de tecnologias ambientais, apontado por 65% dos entrevistados. Por outro lado, a PAEP revelou que a maioria das empresas paulistas não considerou perda de imagem pelos danos ambientais resultantes de suas atividades produtivas, revelando que não há muita pressão dos consumidores. Entretanto, pela primeira pesquisa não sabemos qual a importância relativa da pressão dos consumidores considerada juntamente com as regulamentações ambientais. A pressão dos consumidores pode ser importante no sentido de estimular as firmas a realizarem investimentos ambientais. Segundo a teoria evolucionária, o mercado atua como ambiente seletivo de inovações e, nesse caso, a demanda da sociedade por produtos e processos de produção menos agressivos ao meio ambiente faz com que algumas firmas gerem inovações ambientais e outras as adotem, ocorrendo a difusão da inovação. Do lado da oferta, é importante o grau de concorrência do mercado no qual a firma está inserida e se a questão ambiental é importante para manter a posição competitiva. Em mercados competitivos, a inovação passa a ser fator de diferenciação entre a firma e seus concorrentes, podendo ser também a única forma de sobrevivência no mercado. O mercado 108 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras teria uma importância cada vez maior para induzir as firmas a adotarem inovações ambientais, reforçando sua competitividade. Quanto à pressão dos grupos de interesses, dado a fraca organização social no Brasil – com exceção de alguns sindicatos e mais recentemente com as organizações não governamentais (ONGs) –, a sociedade civil não possui muito poder de pressão para fazer com que as empresas mudem suas atitudes em relação ao meio ambiente. Adicionalmente, há grande desinformação do público em geral quanto às questões ambientais. A maioria do conhecimento da sociedade sobre os problemas ambientais é adquirida através da mídia, que não faz uma divulgação sistemática e educacional das questões ambientais, concentrando-se nos “escândalos ambientais”, como os grandes vazamentos de petróleo, desmatamento desenfreado da Amazônia e ameaças à biodiversidade e à saúde humana causadas por níveis poluição absurdos – despejo de esgoto sanitário e rejeitos industriais em corpos hídricos, níveis elevados de emissões veiculares, entre outros. Entretanto, há uma crescente preocupação com os stakeholders54, em que a atuação de ONGs ambientalistas nacionais e estrangeiras é muito importante. Resultados positivos da pressão desses grupos já ocorreram e as empresas que ganharam a concessão para exploração e produção de petróleo (nos leilões de 1999 e 2000) estão consultando os stakeholders sobre as possíveis conseqüências ambientais de suas atividades. Quanto à pressão dos investidores, pode-se observar uma preocupação crescente com o desempenho ambiental da firma, principalmente de setores com alto potencial poluidor – química e petroquímica, por exemplo. Os casos da Rhodia e da Parmalat ilustram uma situação em que o passivo ambiental herdado trouxe prejuízos às empresas. Em 1976, quando a Rhodia, subsidiária da Rhône Poulenc, adquiriu a planta da Clorogil para produção de substâncias para tratamento de madeiras, viu-se diante de uma passivo ambiental que lhe foi cobrado dezoito anos mais tarde: uma decisão judicial impôs à Rhodia a descontaminação de quatro áreas em São Vicente (SP), o que lhe custou cerca de US$ 8 milhões (Gazeta Mercantil, 21/08/1998 e 24/02/2000). A Parmalat assumiu um passivo ambiental de US$ 2 milhões quando comprou duas unidades da Etti, cujo principal problema era emissão irregular de resíduos (Gazeta Mercantil, 21/08/98). Grande parte da maior preocupação com o passivo ambiental está associada à Lei de Crimes Ambientais, de 1998, que possibilitou a cobrança de valores extremamente altos 109 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras aos responsáveis por danos ambientais55. Portanto, a quantificação do passivo ambiental antes de fusões ou aquisições de empresas com alto potencial poluidor passou a ser uma prática corrente, pois pode levar à redução do preço da transação ou até mesmo impedi-la (Gazeta Mercantil, 22/12/1998). Em muitos casos, o próprio vendedor não tem noção de seu passivo ambiental. Entretanto, alguns avanços em relação ao controle ambiental das empresas ainda precisam ser incorporados pelos investidores e acionistas, como a exigência da contabilidade ambiental, um instrumento importante para verificação contínua do passivo ambiental. Segundo analistas do mercado financeiro, o vazamento do duto da refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), ocorrido em julho de 2000, foi a causa da queda das cotações das ações da Petrobras em dia de alta na bolsa de valores. A expectativa de multa foi apontada como o principal fator de queda nas cotações. A magnitude das multas aplicadas à empresa, os gastos com despoluição do meio ambiente e o pagamento de indenizações chegam a valores elevados, sendo também fator de preocupação no mercado. Outros analistas, entretanto, acreditam que somente valores extremamente altos sejam capazes de afetar a cotação das ações (Gazeta Mercantil/Página A7, 18/07/2000). Após diversos acidentes ocorridos no ano de 2000, a Petrobras mudou sua política ambiental, com definição de responsabilidade pelas áreas afetadas, criação de um plano de excelência ambiental e a contratação de seguro para cobrir os prejuízos, que só com multas ultrapassou os R$ 270 milhões (Gazeta Mercantil/Página A8, 02/08/2000). As empresas de inserção internacional, como evidenciado no item 2.1, mostram-se mais preocupadas com os impactos ambientais de suas atividades, pois os acionistas estrangeiros são mais exigentes em relação ao comportamento ambiental da firma e a matriz exige que a filial adote os seus padrões ambientais – mesmo que os padrões ambientais exigidos sejam inferiores aos do país de origem. Além do mais, os consumidores estrangeiros, principalmente os norte-americanos e os europeus, são mais exigentes tanto em produtos quanto em processos ambientalmente mais saudáveis. Alguns estudos de caso evidenciam este comportamento: a Diretoria Corporativa de Meio Ambiente o grupo Pilkington, cuja filial brasileira é a Blindex Vidros de Segurança Ltda., estabelece diretrizes mínimas a serem cumpridas em todas as subsidiárias, 54 55 Sobre o stakeholder approach, ver Vinha (1999). Ver capítulo 3 (item 3.5) para comentários sobre a Lei de Crimes Ambientais. 110 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras independentemente das legislações locais, mantendo um padrão mínimo de conduta ambiental. A Fiat Automóveis S.A. apontou como razões para a obtenção da certificação ambiental NBR ISO 14001 o cumprimento da Política Ambiental do Grupo FIAT SpA; a determinação da matriz (FIAT Auto, Itália) de escolher a Fiat Automóveis como empresapiloto para a certificação; e o ganho de competitividade necessário para sobreviver em mercados cada vez mais globalizados (Maimon e Lustosa, 1999). Além dos quatro fatores de pressão para as empresas adotarem inovações ambientais, há outros fatores internos à firma que induzem o investimento ambiental. As reduções potenciais de custos, dada as regulamentações ambientais, foi apontado por 58% das empresas, na pesquisa de Tigre et alii (1994) como um fator que facilita a difusão de tecnologias ambientais. Esta redução está associada a utilização de insumos – água, energia, entre outros – mais eficientemente, seja pela sua redução, reuso ou reciclagem56. Na mesma pesquisa, outros fatores importantes, independente da regulamentação ambiental, foram a existência de novas oportunidades tecnológicas, identificado por 46% dos entrevistados e a estratégia e políticas dos usuários de equipamentos ambientais – os clientes – com 34%57. Ferraz e Seroa da Motta (2001) utilizam um conjunto de dados a fim de testar os determinantes do investimento ambiental. Os autores partem da idéia de regulação informal, que ganhou força com trabalhos do Banco Mundial e de seus consultores58, segundo a qual as empresas adotam práticas menos agressivas ao meio ambiente por meio de investimentos ambientais, mesmo com pouca regulação formal. Essa idéia foi testada empiricamente em países desenvolvidos e busca-se a sua validação para os países em desenvolvimento, no caso o Brasil. Foram utilizados dados da PAEP para a variável de investimento ambiental. Para explicar a probabilidade de fazer investimento local foram selecionados: o tamanho da unidade local (por número de empregados), origem do capital, exportações, idade da 56 De um balanço de 720 projetos de tecnologias limpas na França, 70% apresentaram economia no consumo de água, 60% de matérias primas e 13% de energia. O reaproveitamento de resíduos foi da ordem de 26%, a redução dos riscos de acidentes de 25% e a melhoria das condições de trabalho em 30% (Clean Technology Task Force-France, apud Tigre et alii, 1994:92). 57 Além dos fatores já mencionados, a competição (31%) e a pressão dos sindicatos (13%) foram também possíveis respostas para a questão: “Dadas as regulamentações governamentais existentes ou esperadas, quais são os fatores que mais facilitam a adoção, por seus clientes, de tecnologias ambientais? Por favor marque aqueles mais relevantes” (Tigre et alii, 1994:91) 58 Por exemplo, Hettige, Wheeler, Laplante, Lanoie, Dasgupta, Panayotou. 111 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras empresa, o potencial poluidor (verde, marrom ou vermelho para setores menos e mais intensivos em poluição, respectivamente) e escolaridade para contratação. Dados referentes à esfera municipal também foram utilizados: multas, advertências e o número de postos da CETESB existentes em cada município; a importância da indústria no município a partir de dados do IBGE; e a proporção de votos que foram para deputados estaduais e federais de partidos “verdes”, o número de ONGs ambientais por município, nível de escolaridade e renda do município. Os resultados obtidos coincidem com os obtidos na análise dos dados da PAEP (item 2.1.): • o tamanho da empresa tem influência positiva na probabilidade de realização de investimento ambiental.; • as empresas com propriedade parcial ou total do capital estrangeiro apresentam maior probabilidade de realizar investimentos ambientais; • as unidades locais que fazem inovação e mudança de processo para alcançar maior produtividade e competitividade têm maior probabilidade de fazerem investimento ambiental; • as firmas mais antigas apresentam maior probabilidade de realizarem investimento ambiental; • quanto maior a proporção de exportações sobre vendas, maior é a probabilidade da firma fazer investimento ambiental; • os setores industriais verde e marrom (com baixa e média intensidades de poluição, respectivamente) têm menor probabilidade de realizarem investimento ambiental; • a pressão formal é importante, pois a “unidades locais que estão localizadas em municípios onde o regulador (CETESB) distribuiu mais advertências por unidades locais têm uma maior probabilidade de fazer investimentos ambientais” (Ferraz e Seroa da Motta, 2001:8); • as variáveis de pressão informal – número de votos “verdes”, de ONGs e a renda – não se apresentaram como significativas. Logo, a idéia da regulação informal, aplicável para os países desenvolvidos, não parece válida para o estado de São Paulo59. 59 Os autores advertem que as conclusões são preliminares e que uma possível explicação para a estes resultados é que a CETESB (agência reguladora estadual) tem uma atuação eficiente, reduzindo a importância da regulação informal. Cabe contrapor, entretanto, que São Paulo é um dos estados que tem a 112 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras As evidências empíricas sobre competitividade e meio ambiente no Brasil induzem a conclusões interessantes, que podem ajudar na construção de políticas que visem aliar preservação do meio ambiente com competitividade empresarial. As maiores empresas e as de inserção internacional estão mais atentas para a influência da preservação ambiental em sua estratégia empresarial. As empresas que inovam (realizam investimentos em P&D) para melhorar a competitividade são as mais aptas a adotar inovações ambientais. A pressão legal é muito importante para induzir as firmas a adotarem inovações ambientais, o que reforça a necessidade de regulamentação. Entretanto, outras formas de pressão estão ganhando força e devem ser incentivadas para que haja mais investimentos em preservação ou minimização de danos ambientais das atividades industriais. A análise setorial não é conclusiva, pois os setores de maior potencial poluidor nem sempre se mostraram mais atentos aos problemas ambientais, mesmo sendo exportadores. Porém, no total da indústria, foram eles que mais realizaram investimentos ambientais – provavelmente por pressão legal. Além do mais, este tipo de análise não permite perceber especificidades implícitas em cada setor industrial, pois não estão presentes elementos importantes para estudar a relação entre competitividade e meio ambiente descritos no primeiro capítulo, como: os padrões de concorrência, para perceber como pressões competitivas induzem as firmas a adotarem e gerarem inovações ambientais, e a análise do ambiente institucional, que exerce influência decisiva sobre o comportamento dos agentes econômicos. Logo, optou-se por estudar a indústria do petróleo brasileira e sua geração de tecnologias ambientais. A escolha desta indústria justifica-se por: • sua importância na matriz energética, como fonte primária de energia; na indústria, como base da rota petroquímica e como demandante de outros setores; e na economia, como motor de diversas atividades e geradora de recursos financeiros – impostos e royalties. • seu alto potencial poluidor e de risco em todas as suas atividades. É a base do macrocomplexo industrial químico, também considerado de alto potencial poluidor. A população civil mais organizada e educada do Brasil, logo mais apta a exercer pressões sobre as empresas. Assim, dado que a maioria dos outros estados não possui tais condições, a regulação informal também seria fraca. 113 Capítulo 2 – Meio ambiente e competitividade: evidências empíricas para a indústria brasileiras utilização de derivados de petróleo como combustível é também uma importante fonte de poluição. • estar no início da cadeia produtiva a extração de um recurso natural não renovável, o que, além dos problemas de poluição apontados, levanta a questão da finitude do recurso sobre o qual está apoiada toda a indústria. • seu desenvolvimento sempre foi marcado pelo progresso tecnológico acelerado, criando uma nova estrutura organizacional, que permitiu a verticalização de suas atividades, tornando-se modelo para muitas outras indústrias. • mudança importante no marco regulatório, com a quebra de monopólio da Petrobras na maioria das atividades relacionadas à indústria. Este fato trouxe, e ainda está por vir, um maior aporte de recursos para investimentos na indústria do petróleo. • mudança na legislação ambiental com a Lei de Crimes Ambientais e a legislação específica ao setor, que está tomando forma mais definida. Dado o alto potencial poluidor e de risco em todas as atividades da indústria do petróleo, se não forem realizados investimentos ambientais, por meio da geração e difusão de tecnologias ambientais para minimizar os problemas das operações normais e dos acidentes, pode-se ter um crescimento desta indústria – e de outros setores a ela relacionados – à custa do meio ambiente, aumentando seu passivo ambiental. As grandes empresas petrolíferas internacionais passaram a inserir a variável ambiental em suas estratégias competititivas, inclusive buscando formas mais limpas de gerar energia. Os próximos capítulos procuram, portanto, revelar as especificidades desta indústria no Brasil para analisar sua relação entre competitividade e preservação do meio ambiente. Num contexto de mudança de marco regulatório, tanto da indústria como do meio ambiente, é importante verificar qual o tratamento dado às questões ambientais relativas a suas atividades centrais (core) e quais são os reflexos sobre a geração e difusão de tecnologias ambientais específicas à indústria petrolífera brasileira. 114 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Capítulo 3 A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO 3.1 Breve Histórico da Indústria do Petróleo 3.1.1. O surgimento e desenvolvimento da indústria do petróleo no mundo A história da indústria do petróleo começou no EUA, em 1854, onde iniciaram as primeiras pesquisas para obtenção do petróleo e foi fundada a primeira companhia petrolífera – a Pennsylvania Rock Oil Company of New York. A incessante necessidade de descobrir e acessar novas e rentáveis reservas de cru, tornou a indústria do petróleo palco de intensas disputas políticas e econômicas entre firmas e países. Ao longo da sua evolução, o desenvolvimento da indústria foi fortemente marcado por inovações tecnológicas tanto no seu interior como em outras correlatas, que forneciam equipamentos ou que passaram a utilizar os derivados de petróleo como insumos produtivos. Inicialmente, foram utilizados equipamentos perfuradores para obtenção de sal, que se apresentaram inadequados para extração do petróleo. Em 1859, o Coronel Edwin Laurentine Drake, um dos sócios desta companhia, ao perceber que nos locais perfurados as paredes internas desmoronavam, resolveu revesti-las com tubos de ferro, fazendo uma “camisa” de revestimento, onde foi encontrado petróleo (Menezello, 2000). Outra companhia – a Seneca Oil Co. – começou a destilar petróleo pelo método de aquecimento, descoberto pelo químico Benjamin H. Silliman. Posteriormente, diversas companhias para a exploração do petróleo foram criadas e “... em 1863, já existiam sessenta estabelecimentos de refino naquela região (Pensilvânia, EUA), com capacidade de 26.000 barris60 semanais”61. O fator central a impulsionar o vigoroso desenvolvimento da indústria foi a verticalização das atividades produtivas das empresas petrolíferas. Além das atividades de exploração, produção e refino, foram incorporadas as atividades de transporte de petróleo e seus derivados por dutos – o primeiro oleoduto foi instalado na Pensilvânia, EUA. A 60 O barril é a medida-padrão da indústria do petróleo, que teve origem no armazenamento de óleo cru em barris de uísque, pois à época houve grande aumento da produção e não havia instalações suficientes para estocar toda a produção. Um barril corresponde a 159 litros e a aproximadamente 153 quilogramas. 61 MARINHO JR., Ilmar Penna (1970). Petróleo, soberania e desenvolvimento. Rio de Janeiro:Bloch, p. 25 apud Menezello (2000). 115 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo pioneira no modelo verticalizado foi a Standard Oil Company, tornando-se o padrão de planejamento estratégico para as outras empresas petrolíferas. A integração vertical só foi possível com inovações organizacionais que possibilitaram romper com os limites ao crescimento da firma62. A Standard Oil Company concentrou-se mais no refino e no transporte, pois era dona de grande parte das ferrovias americanas, o que possibilitou seu maior controle do mercado. Essa vantagem da Standard Oil fez com que a integração vertical cobrisse os riscos do upstream – a parte de exploração e produção de petróleo – e tornou-se praticamente monopolista, possuindo de 90% a 95% da capacidade de refino norteamericana em 1879. O grupo Standard Oil foi dissolvido em 1899 e foi criada uma holding, a Standard Oil Company of New Jersey, que continuou monopolista com sua infra-estrutura e verticalização das atividades bem estruturada. Em 1911, a Suprema Corte dos EUA ordenou a dissolução da Standard Oil Company of New Jersey, a fim de restabelecer a concorrência no mercado. Assim, as participações acionárias das 33 sociedades que compunham a holding foram distribuídas, mas mantiveram o nome Standard Oil juntamente com o nome do Estado a que pertenciam. A Standard Oil Company of New Jersey manteve o nome, mudando-o para Exxon posteriormente. A indústria do petróleo expandiu-se de forma rápida. Empresas americanas estabeleceram subsidiárias em outros países e outras empresas não americanas foram surgindo, concorrendo diretamente no mercado internacional com a Standard Oil Company of New Jersey. A Shell63, criada em 1907 pela união da Royal Dutch Petroleum Company, da Holanda, e a Shell Transport and Trading Company, da Grã-Bretanha, tornou-se a segunda maior empresa petrolífera do mundo à época, concorrendo diretamente com a maior empresa americana. No final do século XIX, os derivados de petróleo começaram a ser utilizados em plantas industriais, para uso doméstico e em substituição ao carvão nos navios. O diesel passou a ser utilizado, desencadeando uma série de mudanças tecnológicas a fim de utilizá62 Tigre (1998) aponta três áreas de inovações que alteraram o perfil da estrutura da indústria como um todo, resultando em novos modelos de firmas e mercados: a eletricidade, o motor a combustão e as inovações organizacionais. As duas últimas estão diretamente relacionadas com as condições que possibilitaram o crescimento da indústria do petróleo, tornando-a uma das mais importantes do século XX. 63 No Brasil, a Shell instalou-se em 1913, com o nome de The Anglo Mexican Petroleum Products Company Limited. 116 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo lo como fonte energética. Os óleos lubrificantes e outros derivados também passaram a ganhar importância no mercado consumidor (Menezello, 2000). Entretanto, foi o sucesso do motor a combustão interna, utilizando derivados do petróleo como combustível – o diesel e principalmente a gasolina – que “... gerou outro gigante do século XX: as empresas petroleiras” (Tigre, 1998:81). Assim, os combustíveis derivados do petróleo tornaram-se amplamente utilizados, seja na indústria ou na geração de energia elétrica, seja para transporte nos navios, automóveis, aviões e locomotivas, substituindo o carvão mineral. Foram, portanto, desenvolvidas diversas tecnologias de uso sistemático de energia e a economia passou a ficar cada vez mais dependente destes combustíveis. Paralelamente às inovações que ocorreram nos anos 30, que ampliaram o uso dos derivados do petróleo como combustível, foi desenvolvida uma indústria diretamente associada à indústria do petróleo: a petroquímica. Assim, o petróleo, além de se tornar a mais importante fonte primária de energia, tornou-se insumo para diversos setores industriais. Devido a sua importância econômica crescente, ele passou a ser considerado matéria prima estratégica para o desenvolvimento dos países e alvo de grandes disputas. O poder econômico das empresas petrolíferas – internacionalizadas pela presença em países hospedeiros, que detinham grandes jazidas de petróleo – foi ampliado e em 1928 elas fizeram o primeiro acordo para racionalizar o comércio e a produção em escala internacional, introduzindo a cotação de preços para os derivados do petróleo – o Acordo de Achnacarry. Após esse acordo, vieram outros e entre eles se destaca o Acordo de Londres, de 1934, que institucionalizou o cartel internacional conhecido por “Sete Irmãs” ou majors – Esso (Exxon), Shell (Royal/Dutch Shell), Mobil, Anglo-Persian, Socal, Texaco e Gulf Oil. Esse cartel estabeleceu preços e controle de produção, colocando barreiras à entrada para novas empresas. Existia uma franja concorrencial, composta por empresas independentes e por sociedade petrolíferas nacionais, que atuavam mais nas atividades do upstream. Como poucas e grandes empresas petrolíferas dominavam o setor mundialmente, explorando reservas em países hospedeiros, muitos países iniciaram um processo de nacionalização das jazidas no final de década de 30. O governo mexicano nacionalizou suas jazidas em 1938, criando a Pemex – Petróleos Mexicanos. No Brasil, nesse mesmo 117 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo ano, surgiu a primeira regulamentação64 da indústria do petróleo, que a declara de utilidade pública e regula suas atividades de importação, exportação, transporte e distribuição. Esse processo inicial de nacionalização das jazidas não afetou as majors, que no início da década de 60, controlavam cerca de 90% das reservas mundiais de petróleo (Pinto Jr. e Fernandes, 1998). Assim, a integração vertical era possível, pois as concessões para exploração de jazidas garantiam a matéria prima necessária para as refinarias. Porém, a insatisfação crescente dos países hospedeiros com as práticas exploratórias das “sete irmãs”, auferindo enormes lucros sem contrapartida adequada para as populações e governos locais, fez surgir a Opep – Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Reunindo os países que possuíam grandes reservas de petróleo – Arábia Saudita, Argélia, Emirados Árabes, Equador, Gabão, Indonésia, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Quatar e Venezuela –, esta organização influenciou diretamente as políticas econômicas dos países capitalistas na segunda metade do século XX, mudando a correlação de forças no cenário internacional e a própria direção do desenvolvimento da indústria do petróleo. Em reação à criação da Opep, as majors iniciaram uma busca pelo domínio de reservas em outras áreas geográficas, com o objetivo de reduzir a dependência do petróleo venezuelano e árabe, principalmente. Novas fronteiras foram abertas, onde a produção era mais cara, porém com acesso mais livre, como no Mar do Norte, Canadá e Austrália, exigindo investimentos significativos em novas tecnologias de exploração e produção – a produção offshore passou a ter importância crescente65. Entretanto, pressões financeiras e econômicas de curto prazo, resultantes da queda na cotação do cru, tornaram-se obstáculos para que as majors intensificassem os esforços tecnológicos e diversificassem suas estratégias. Ainda nos anos 60, as empresas independentes e as sociedades petrolíferas nacionais, atraídas pelos lucros gerados no setor, passaram a adotar estratégias agressivas para entrar na indústria do petróleo. Novas jazidas com petróleo de boa qualidade e com 64 O decreto-lei no 395/38. A corrida em busca do petróleo fez com que surgissem as primeiras especulações sobre a possibilidade de exploração no mar – offshore – em 1897, na Califórnia (EUA). Foi construído um píer de madeira para verificar se os poços encontrados perto da praia estendiam-se mar adentro. Confirmada esta hipótese, dez píeres foram instalados para a prospecção de petróleo com 6 a 20 poços em cada píer, utilizando a mesma tecnologia para exploração na terra (Ciência Hoje, 2001). A produção offshore começou em maior escala a partir de 1947, com a descoberta de petróleo no Golfo do México, em frente do estado norte-americano da Louisiana. A partir de então, iniciou um desenvolvimento tecnológico para adaptar as plataformas aos novos ambientes, sujeitos às adversidades naturais e às profundidades cada vez maiores. 65 118 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo custo baixo foram descobertas, gerando a superprodução. A conseqüência imediata foi o acirramento da concorrência, levando a uma guerra de preços na maioria dos mercados de petróleo, rebaixando os preços. Em 1971, na tentativa de controlar os preços do petróleo, a Opep firmou um acordo com as majors prevendo o reajuste do preço duas vezes ao ano. Mas em 1972, no Congresso Árabe do Petróleo, concluiu-se que a produção continuava abundante e que as receitas dos países hospedeiros continuavam sofrendo depreciações por causa da cotação da moeda americana. Nesse cenário, este cartel reduziu a produção para elevar a cotação internacional do barril de petróleo, culminando com o primeiro choque do petróleo em 1973 – a partir de então, foram criadas as condições para a redução da influência da Opep no mercado mundial de petróleo, mudando a estratégia competitiva das grandes multinacionais do petróleo. Os países da Opep foram progressivamente adquirindo participações até constituir empresas estatais para explorar e produzir petróleo, garantindo a apropriação da renda gerada para financiar o desenvolvimento econômico. Dessa forma, foi redefinida a estrutura da indústria mundial do petróleo, com a desintegração vertical das "sete irmãs". Elas continuavam soberanas no refino, mas a exploração e produção ficaram dominadas pelos monopólios petrolíferos estatais, que estabeleceram barreiras institucionais à entrada das empresas internacionais nesse segmento da cadeia produtiva da indústria do petróleo. Até o primeiro choque do petróleo, a estratégia competitiva das empresas petrolíferas estava baseada no fácil acesso às reservas, ou seja, nos baixos custos de extração das reservas situadas nos países hospedeiros, devido à privilegiada dotação desse recurso natural. A tecnologia empregada era conhecida e difundida, não havendo muitas possibilidades de diferenciação estratégica. Assim, a competitividade das “sete irmãs” estava baseada nas vantagens de custo pelo acesso privilegiado ao petróleo do OrienteMédio, o que impunha grandes barreiras à entrada associadas à dominação pelo custo. Com a nacionalização das jazidas, as majors passaram a investir pesadamente em pesquisa, a fim de desenvolver tecnologias redutoras de custos, abrindo a possibilidade de extração em jazidas antes consideradas de difícil recuperação. O primeiro choque do petróleo fez com que grande parte dos países importadores de petróleo adotasse medidas para reduzir a dependência desta matéria prima, por meio de maior eficiência na utilização dos derivados e pela substituição parcial por fontes 119 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo energéticas e de matérias primas alternativas. O padrão de concorrência da indústria do petróleo começou a sofrer uma mudança significativa, com o fim da competitividade baseada exclusivamente no acesso ao petróleo barato. Foi dado um grande impulso à exploração offshore por meio da intensificação do progresso técnico nesta área, tornando-se um fator de diferenciação a fim de compensar a perda do domínio de reservas com baixo custo de produção. Tornou-se possível a busca de novas reservas em condições menos favorecidas, permanecendo o custo do upstream o principal fator de diferenciação. Surgiram os chamados "petróleos de tecnologia de ponta" ou "petróleos não convencionais"66, ou seja, aqueles oriundos da tecnologia de prospecção em lâminas d’água profundas, nas regiões árticas, os xistos betuminosos e o petróleo bruto extra-pesado. Desenvolveram-se, portanto, dois sub-segmentos da produção e exploração de petróleo: o de petróleo “convencional”, no qual os países membros da Opep possuíam vantagens competitivas, e o de petróleo “não convencional”, no qual as majors exerciam posição dominante. Dessa forma, as estratégias competitivas das empresas tornaram-se mais complexas, calcadas na intensificação do processo de inovação tecnológica, na diferenciação de produtos e no estabelecimento de alianças cooperativas. A bifurcação da rota tecnológica da exploração e produção de cru na direção offshore não incorporou a preocupação com danos ambientais, que já eram visíveis devido à falta de segurança nas instalações e no transporte. Com a mudança no padrão de concorrência da indústria petrolífera, a competição entre os principais atores aumentou, principalmente no segmento de petróleo “tradicional”, e a vantagem da Opep, baseada na facilidade de recuperação de suas jazidas, começou a diminuir. Mesmo assim, a Opep possuía força suficiente para promover o segundo choque do petróleo, em 1979, com o preço do barril cotado a US$ 34. A cotação elevada viabilizou economicamente quase todas as decisões de investimento durante a década de 70, possibilitando a exploração de novas fontes, fazendo com que os grandes grupos petrolíferos investissem pesadamente nas atividades de exploração e produção. Novas fronteiras foram abertas, novas empresas foram criadas, a exploração offshore consolidou-se definitivamente com explorações em lâminas d’água 66 A produção no mar dos países não pertencentes à Opep cresceu de três milhões de barris/dia em 1973 para mais de dez milhões barris/dia em 1985 (Santos e Cueille, 1998). 120 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo cada vez mais profundas e a indústria mundial do petróleo parecia ter retomado a expansão à longo prazo. Após o segundo choque do petróleo, duas tendências foram reforçadas: a política energética ativa dos países importadores, no sentido de reduzir a dependência dos derivados do petróleo, e o aumento da produção de petróleo dos países não pertencentes à OPEP. Assim, ocorreu uma mudança importante, " ... com a transformação das condições de base de contexto de oferta limitada e concentrada em um número restrito de países e demanda crescente para um contexto de oferta excedente e menos concentrada e demanda estabilizada" (Pinto Jr e Fernandes, 1998:3). Esse cenário criou as condições para o contra-choque do petróleo ocorrido em 1985/1986, quando o preço do petróleo caiu em termos reais, marcando uma nova fase na dinâmica concorrencial da indústria do petróleo. Com a baixa da cotação do barril de petróleo, aliada às crescentes dificuldades de conseguir financiamento externo, os investimentos no setor petrolífero foram reduzidos substancialmente e de maneira generalizada, bem como as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizadas pelas empresas, que se concentraram no setores mais promissores. Mesmo assim, graças a alta de preços forçada pela Opep nos dois choques do petróleo, as majors puderam desenvolver e dominar novas tecnologias, lançando-se na estratégia de diferenciação de produtos, em petróleo “não convencional” e em energias alternativas. Assim, na medida em que ocorreram as mudanças no ambiente concorrencial, os países da OPEP só poderiam retomar a posição dominante se conseguissem inibir as estratégias de diferenciação dos concorrentes com uma estratégia muito agressiva de dominação por baixos custos. Os resultados dos investimentos tecnológicos foram muito positivos: a taxa de exploração bem sucedida aumentou, os custos de exploração e desenvolvimento foram reduzidos, a taxa de exploração das jazidas cresceu e foi possível a exploração de novas regiões de difícil acesso. Por exemplo, em meados da década de 80, o custo médio de descoberta e desenvolvimento da reservas de petróleo caiu pela metade (Santos e Cueille, 1998:236). Os progressos tecnológicos na exploração offshore continuaram crescendo. Os investimentos em P&D foram retomados no final da década de 80, dada a importância estratégica das inovações tecnológicas na concorrência da indústria do petróleo. São três grandes eixos pelos quais a tecnologia pode influenciar a concorrência 121 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo internacional desta indústria (Santos e Cueille, 1998): 1) permitindo a agregação de valor aos ativos e produtos das empresas; 2) ampliando as possibilidades das empresas diferenciarem-se em outros segmentos do upstream – expansão das reservas e diversificação no domínio geográficos das mesmas; 3) diminuindo o custo das atividades. Além do mais, a tecnologia é crucial para possibilitar a recuperação terciária, para permitir a exploração offshore em águas cada vez mais profundas e para expandir o segmento de gás natural. Portanto, inovação e tecnologia sempre foram variáveis centrais na análise concorrencial da indústria do petróleo. O que, entretanto, entrou na agenda de pesquisas tardiamente – início da década de 70 –, após a expansão da economia mundial baseada na energia proveniente da queima dos derivados do petróleo e em várias indústrias que o utiliza como matéria prima, é o passivo ambiental herdado. Como será visto no capítulo 4, a indústria do petróleo apresenta alto potencial poluidor e de risco em todas as fases do processo produtivo. Nota-se, portanto, um possível trade-off entre crescimento econômico e preservação do meio ambiente. Uma vez que a história da própria indústria do petróleo foi marcada por sucessivas e intensas inovações tecnológicas, o que permitiu seu pleno desenvolvimento, seria também possível flexibilizar esse trade-off por meio de inovações tecnológicas ambientais? Sendo as inovações tecnológicas um fator importante de competitividade das empresas – como no caso da própria indústria do petróleo –, até que ponto a questão ambiental vai influenciar na competitividade das empresas do setor, talvez como um fator de diferenciação? 3.1.2 A indústria do petróleo no Brasil Durante muitos anos, a indústria do petróleo no Brasil foi identificada com as atividades da empresa estatal de petróleo, a Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras. Entretanto, os primeiros registros da história da indústria do petróleo no Brasil datam de 1864, durante Governo do Segundo Reinado, quando foram realizados os primeiros estudos para verificar a existência de petróleo no estado da Bahia. A esta busca, sucederam-se outras pesquisas, quando em 1907 foi criado o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (SGMB), vinculado ao Ministério da Agricultura. 122 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Com o advento da Primeira Guerra Mundial, a procura por petróleo foi intensificada no Brasil e no mundo. Em 1917 foi criada a Empresa Paulista de Petróleo, uma parceria entre iniciativa privada e Governo, pois a sonda pertencia ao Ministério da Agricultura. O pouco conhecimento tecnológico, aliado à extensão do território brasileiro, dificultou bastante as pesquisas para encontrar petróleo. Em 1933, houve uma reestruturação dos órgãos governamentais responsáveis pela mineração e foi criado o Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM). Esse possuía funções executivas de implantação de políticas minerais, ficando o Governo responsável pelo “planejamento estratégico”. Quanto ao aspecto legal da propriedade dos recursos minerais, a primeira Constituição da República, de 1891, estabeleceu o regime de propriedade plena, ou seja, a propriedade do subsolo e suas respectivas riquezas pertenciam ao proprietário da terra na qual se encontravam. A Constituição de 1934 alterou profundamente esse quadro legal, estabelecendo a separação entre propriedade do solo e do subsolo. Assim, a exploração de recursos minerais passou a depender de autorização federal, ou seja, foi adotado o regime de concessão (Menezello, 2000). Reforçou-se, portanto, o vínculo entre a produção de petróleo e o controle estatal, concedendo definitivamente ao petróleo o status de matéria prima estratégica. Além do mais, a Constituição de 1934 estabeleceu que as empresas que fossem exercer alguma atividade relacionada com a indústria petrolífera tinham que ser constituídas sob leis brasileiras. A Constituição de 1937 manteve a mesma dicotomia entre propriedade do solo e do subsolo, não alterando esse aspecto do quadro legal anterior. Entretanto, o nacionalismo foi exacerbado, pois além das empresas que fossem atuar na indústria do petróleo tivessem que ser constituídas sob a legislação brasileira, como estabelecido na Constituição anterior, os seus acionistas também tinham de ser brasileiros. A primeira regulamentação da indústria do petróleo surgiu em 1938, com o Decreto-lei no 395 que “declara de utilidade pública e regula a importação, exportação, transporte, distribuição e comércio de petróleo bruto e seus derivados, no território nacional e bem assim a indústria da refinação de petróleo importado ou produzido no país e dá outras providências”. O fato de ser de utilidade pública implica “... haver sobre o serviço ou atividade um ônus público em benefício da sociedade, ou seja, o interesse 123 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo privado do proprietário do bem ou serviço subordina-se ao interesse público por sua importância social” (Menezello, 2000:32). Esse mesmo decreto-lei considerava a atividade de refino indispensável à segurança nacional e ao desenvolvimento econômico do país, pois seu artigo 3o nacionalizou o setor de refino de petróleo, sendo considerado a atividade mais importante dessa indústria. Este decreto-lei (art. 4o) também criou o Conselho Nacional de Petróleo (CNP), subordinado diretamente ao Presidente da República, para comandar as ações da indústria do petróleo brasileira. Por ser considerado um setor altamente estratégico, o controle estatal era essencial, inclusive para minimizar as pressões dos interesses do capital estrangeiro. Assim, para exercer qualquer atividade ligada à indústria do petróleo, era necessária uma autorização do CNP. As pesquisas para encontrar petróleo prosseguiram e os primeiros indícios de sua existência ocorreram em janeiro de 1939, em Lobato, no estado da Bahia. O nacionalismo em torno do petróleo crescia e o Decreto-lei no 3.236 de 1941 estabeleceu que as jazidas de petróleo e gás natural existentes em território nacional eram de propriedade da União, exigindo que acionistas e sócios das empresas de extração de petróleo fossem de nacionalidade brasileira. Os movimentos contra as empresas estrangeiras tornaram-se crescentes nos anos seguintes e uma das razões era a alta concentração de mercado que elas possuíam nas áreas de refino e distribuição, sem atuar nas áreas de pesquisa e produção de petróleo67. A Constituição de 1946, entretanto, relaxou as restrições aos estrangeiros, permitindo que explorassem o petróleo brasileiro contanto que estivessem organizados de acordo com a legislação nacional. A propriedade das riquezas do subsolo continuou separada da propriedade do solo, mas determinou que a monopolização de qualquer indústria ou atividade pela União só poderia ser feita por meio de lei específica. Essa “liberalização” do quadro regulatório da indústria do petróleo desencadeou uma onda nacionalista e foi lançado o slogan ‘O Petróleo é Nosso’. Esse lema vai permear uma série de debates até a aprovação da Lei Federal no 2.004 de 1953, que vai moldar a 124 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo estrutura da indústria brasileira do petróleo durante quatro décadas, apoiada no monopólio estatal. Essa lei estabeleceu que as etapas de pesquisa, exploração, produção, refino e transporte marítimo e por dutos de petróleo e seus derivados eram monopólios da União. Ou seja, praticamente todas as atividades da indústria do petróleo foram monopolizadas sob o argumento de ser um setor estratégico tanto para a segurança nacional quanto para o desenvolvimento econômico. A distribuição, importação e exportação não foram monopolizadas pela lei, entretanto essas duas últimas atividades foram incorporadas ao monopólio estatal em atos governamentais posteriores. A mesma lei determinou que o CNP continuasse sendo um órgão autônomo com a incumbência de orientar e fiscalizar as atividades da indústria petrolífera. Instituiu, também, a sociedade por ações Petróleo Brasileiro Sociedade Anônima – Petrobras S.A. – que assegurava à União pelo menos 51% do capital votante. Entretanto, não alterou o marco regulatório “... porque apenas elenca as atividades monopolistas, confirma as competências do Conselho Nacional do Petróleo e estabelece as condições de atuação da Petrobrás” (Menezello, 2000:35). O Decreto Federal no 40.845, de 1957, ratifica as funções do CNP como orientador e fiscalizador do monopólio federal e a Petrobras a executora. É, portanto, em 1953 que foi criada a Petrobras, empresa monopolista de praticamente todas as atividades relacionadas à indústria do petróleo no Brasil, excetuando a distribuição de derivados. Como executora das atividades de uma indústria estratégica, a Petrobras desenvolveu capacitação tecnológica própria para possibilitar a exploração de petróleo no território nacional, foi responsável pela quase totalidade do refino e armazenamento de petróleo e seus derivados, além de ter sido também a responsável pelas exportações e importações de petróleo e seus derivados. Foi capaz de criar, portanto, uma estrutura tecno-produtiva sem precedentes na indústria brasileira, tornando-se um gigante da economia. Visando também atuar no segmento competitivo da indústria do petróleo – a distribuição –, foi criada em 1971 a Petrobras Distribuidora S. A. – BR. Como até o primeiro choque do petróleo, em 1973, a cotação do petróleo no mercado internacional era 67 Por exemplo, a Standard Oil Co. of Brazil era, em1946, a maior companhia distribuidora do país, que no primeiro ano de atividades no Brasil teve um lucro líquido de 332% do capital investido (MARINHO Jr., 125 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo muito baixa, a Petrobras concentrou-se nas operações do downstream, deixando a exploração e produção em segundo plano. Entretanto, com a elevação do preço do petróleo bruto, tornou-se evidente a deficiência na produção upstream. Para tentar cobrir esta lacuna, foram realizados pela Petrobras os “contratos de risco”, a partir de 1975, junto com empresas privadas que detinham tecnologia de exploração. Esses contratos previam estudos e trabalhos exploratórios por parte das empresas privadas, que não realizavam a produção, mas participavam dos resultados. A Petrobras desenvolveu capacitação tecnológica ímpar no país. Em 1955, foi criado o Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisas de Petróleo (Cenap) a fim de capacitar a mão-de-obra local e desenvolver pesquisas na área de refino, a fim de complementar a política de substituição de importações. Em 1967, foi criado o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Americo Miguez de Mello68 (Cenpes), que em 1992 recebeu 1% do faturamento bruto da Petrobras, tornando-a uma das companhias que mais investiu em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) à época. Esta capacitação hoje está presente em todas as atividades ligadas à indústria do petróleo – pesquisa em exploração e produção, pesquisa industrial, engenharia básica, coordenações dos projetos estratégicos de cunho tecnológico da Petrobras, comercialização de tecnologia e propriedade intelectual (marcas e patentes), e química analítica. O desenvolvimento de programas tecnológicos e projetos estratégicos está concentrado nas seguintes áreas: exploração; reservas e reservatórios; produção-poço; produção-instalação; catalisadores; combustíveis, lubrificantes e produtos especiais; petroquímica; logística, distribuição e transportes; avaliação de petróleo; química; biotecnologia; gás natural; e energia (site da Petrobras). A excelência da Petrobras em tecnologia, atualmente, é na exploração e produção offshore em lâminas d’água profundas e ultraprofundas69. Em 1986, foi criado o Programa de Capacitação Tecnológica (Procap) para viabilizar a exploração e produção de petróleo em águas cada vez mais profundas, dado que grande parte das bacias sedimentares brasileiras encontra-se no mar. Este esforço tecnológico fez da Petrobras a líder mundial em exploração em águas profundas, recebendo diversos prêmios da Offshore Technology Conference (OTC) pela produção em lâminas d’água cada vez mais profundas. Esta Ilmar P. Petróleo: política e poder. Rio de Janeiro:José Olympio, 1989 apud Menezello, 2000). 68 Este nome foi dado em 1975. 126 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo tecnologia permitiu que fossem descobertas reservas em água ultraprofundas – cerca de 23% das reservas de petróleo no Brasil70 (site da Petrobras). No campo de Roncador, na bacia de Campos, a produção é realizada a uma profundidade de 1.853 metros. Um importante desdobramento do Procap foi o desenvolvimento de novos bens e serviços necessários para a expansão da fronteira de produção em águas cada vez mais profundas, sendo fundamental, portanto, a capacitação técno-econômica dos fornecedores. Um exemplo é o caso dos fornecedores de Árvore de Natal Molhada, em estudo realizado por Dantas (1999). “... o desenvolvimento da capacitação técnica para a exploração de petróleo em águas profundas requer um relacionamento afinado como o mercado fornecedor especializado. ... Os procedimentos estratégicos compreendem a execução de P&D conjunto, cabendo à petroleira o papel de agente coordenador da mudança técnica pretendida, o financiamento de projeto de P&D de fornecedores e a definição prévia das especificações técnicas. ... Destaca-se, neste sentido, o papel desempenhado pela política de compras da Petrobras e a celebração dos Termos de Cooperação junto a fornecedores de bens e serviços especializados” (Dantas, 1999:167-168). Além da capacitação tecnológica, a Petrobras tornou-se, desde 1975, a maior empresa brasileira71 e foi praticamente responsável pelas atividades da indústria do petróleo – com exceção da distribuição – durante muitas décadas. A importância dessa indústria se deve às fortes ligações com outros setores da economia. Além de ser a base do macro-complexo químico (ver item 3.2.1), e, portanto, gerando os insumos necessários para os encadeamentos para frente, exerce uma demanda contínua por bens e serviços dos diversos setores da economia pelo lado dos investimentos (ver item 3.2.2), gerando também receitas tributárias diretas e indiretas, e royalties para estados e municípios. O esforço de auto-suficiência na produção de petróleo, com aumento das reservas provadas72 (ver item 3.1.3), tem produzido efeitos positivos, além da capacitação 69 As lâminas d’água profundas vão de 400 a 1.000 metros e as ultraprofundas de 1.000 a 2.000 metros. A Petrobras estima que cerca de 50% das reservas a serem descobertas estão em águas ultraprofundas. 71 A Petrobras foi considerada a maior empresa do Brasil em relação a vendas (receita operacional bruta), a lucros (lucro líquido ajustado), a patrimônio (patrimônio líquido ajustado) e a receitas líquidas em 2000 (Exame, Maiores e Melhores 2001, julho/2001, p. 74 e 77). 72 As reservas de petróleo e gás natural estão classificadas em três categorias: provadas, que “...com base na análise de dados geológicos e de engenharia, se estima recuperar comercialmente de reservatórios descobertos e avaliados, com elevado grau de certeza, e cuja estimativa considere as condições econômicas vigentes, os métodos operacionais usualmente viáveis e os regulamentos instituídos pela legislações petrolífera e tributária brasileiras”; prováveis, na qual “... a análise dos dados geológicos e de engenharia indica uma maior incerteza na sua recuperação quando comparada com a estimativa de reservas provadas”; e 70 127 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo tecnológica: sobre a balança comercial, que se trnou deficitária a partir de 1995, e sobre o desenvolvimento regional, pois as atividades da indústria petrolífera passaram a ter peso importante nas economias de alguns Estados Nordestinos – Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe e Bahia – e mais recentemente na região Norte (Neves, 2001). A Lei do Petróleo O monopólio estatal da Petrobras vai durar até a promulgação da Lei Federal no 9.478 de 1997 – a Lei do Petróleo – que traz modificações institucionais e legais significativas para a indústria do petróleo. Esta lei “dispõe sobre a política energética nacional, as atividades relativas ao monopólio do petróleo, institui o Conselho Nacional de Política Energética e a Agência Nacional do Petróleo e dá outras providências” (Lei Federal no 9.478/97). Os aspectos ambientais da Lei do Petróleo serão comentados no final deste capítulo. Mesmo sendo chamada de Lei do Petróleo, a Lei no 9.478/97 estabeleceu em seu artigo 1o os objetivos básicos que norteiam a política energética nacional, que inclui, além do petróleo, a energia elétrica e o gás natural, caracterizando-se como uma política nacional de abastecimento. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) foi criado por esta mesma lei, “... vinculado à Presidência da República e presidido pelo Ministro de Estado de Minas e Energia, com a atribuição de propor ao Presidente da República políticas nacionais e medidas específicas ...” (Art. 2o). O CNPE foi regulamentado posteriormente, pelo Decreto Federal no 3.520/00, que estabeleceu sua composição73. Como estabelecido pelo art. 20 da Constituição Federal, os depósitos de hidrocarbonetos fluidos existentes no território nacional pertencem à União. Esta também detém o monopólio (art. 177 da Constituição Federal) das atividades de pesquisa e lavra de jazidas de hidrocarbonetos fluidos, refino do petróleo, exportação e importação destes hidrocarbonetos e seus derivados, e o transporte (marítimo ou por duto) de petróleo, possíveis, “... cuja análise dos dados geológicos e de engenharia indica uma maior incerteza na sua recuperação quando comparada com a estimativa de reservas prováveis” (ANP, glossário). 73 O CNPE é composto por nove membros: seis Ministros de Estado – Minas e Energia (presidente); Ciência e Tecnologia; Planejamento e Orçamento; Fazenda; Meio Ambiente; Indústria, Comércio e Turismo –, o Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, um representante dos Estados e do Distrito Federal, um cidadão brasileiro especialista em matéria de energia e um representante da universidade brasileira, especialista em matéria de energia (Menezello, 2000). 128 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo derivados e gás natural. Estas atividades só podem ser desenvolvidas por “... empresas constituídas sob leis brasileiras, com sede e administração no País” (art. 5o da Lei 9.478/97), com concessão ou autorização da União. Foi criada a Agência Nacional do Petróleo (ANP) como órgão regulador da indústria do petróleo e vinculado ao Ministério de Minas e Energia. A agência reguladora ficou responsável, portanto, pela regulação, contratação e fiscalização das atividades petrolíferas. Cabe, portanto, à ANP a administração dos direitos de exploração e produção de petróleo e gás natural, realizando licitações e celebrando os contratos de concessão das atividades do upstream, inclusive a manutenção, coleta e administração do acervo técnico sobre as bacias sedimentares brasileiras. A ANP também concede as autorizações para construção, ampliação e operação de refinarias; estocagem, construção de instalação, efetuação de transporte, importação e exportação de petróleo, derivados, gás natural e condensado. Em termos de capacitação tecnológica para o setor petróleo, a Lei do Petróleo estabeleceu que parte dos royalties arrecadados com a lavra em plataforma continental devem ser destinados ao Ministério de Ciência e Tecnologia “... para financiar programas de amparo à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico aplicados à indústria do petróleo” (Lei Federal no 9.478/97, art. 49). Esta passou a ser outra fonte de financiamento para o desenvolvimento tecnológico no setor, que antes ficava quase que exclusivamente a cargo da Petrobras. O capítulo 5 trata da aplicação desses recursos e como a área ambiental tem sido contemplada. Para estudos e projetos da área ambiental, além dos recursos do CTPETRO, a Lei do Petróleo estabelece que 10% do pagamento da participação especial – que ocorre em casos de grande volume de produção ou de rentabilidade elevada – devem ser destinados ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Tais recursos são destinados especificamente para o desenvolvimento de estudos e projetos para recuperação de áreas degradadas pelas atividades da indústria do petróleo e para a preservação do meio ambiente. Além da Lei do Petróleo, outra mudança legal afetou a indústria do petróleo: a regulação ambiental. Há dois marcos importantes: o primeiro é a Lei Federal no 9.605/98, também conhecida como Lei de Crimes Ambientais, que prevê sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, tanto para o poluidor quanto para o órgão regulador que se omitir diante de crimes ambientais. O 129 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo segundo marco foi o acidente da Baía de Guanabara em janeiro de 2000, que gerou novas regulamentações ambientais e mudou também a estrutura organizacional da Petrobras no que tange o meio ambiente (ver capítulo 5). A legislação ambiental mais restritiva foi uma tendência dos países da América do Sul ao adotarem políticas para o desenvolvimento do setor energético – principalmente no setor de petróleo e gás. O fato de muitas áreas com potencial para o desenvolvimento da exploração e produção estarem em regiões ecologicamente sensíveis, com ameaças ao equilíbrio de ecossistemas e de populações indígenas, tornou a questão ambiental parte do processo de investimentos no setor. Esta tendência foi reflexo do crescimento da preocupação internacional com os impactos ambientais oriundos da geração de energia, o rápido crescimento de leis e políticas internacionais para o meio ambiente nas duas últimas décadas, a publicidade entorno do precário desempenho ambiental do setor no passado, e as regulamentações nacionais em reposta às pressões ambientais (Wagner, 1998). No caso do Brasil, além de seguir a tendência dos países da América do Sul, fica evidente a mudança drástica no marco regulatório tanto da indústria do petróleo, com Lei do Petróleo de 1997, quanto da área ambiental, a partir da Lei de Crimes Ambientais de 1998 e regulamentações subseqüentes. Dessa forma, essa dupla mudança demanda uma análise mais cuidadosa e detalhada das relações entre a indústria do petróleo e seus impactos ambientais. As modificações na regulação requerem, além do conhecimento das novas regras, a avaliação de como os agentes econômicos irão percebê-las, interpretar a nova regulação e reagir às demandas legais e às pressões que vão surgir da sociedade. Ou seja, transformações importantes estão ocorrendo no ambiente seletivo e é fundamental analisar suas principais tendências. A importância de estudar as relações entre a indústria do petróleo e seus impactos ambientais reside no fato de que a abertura do mercado para torná-lo mais competitivo gera novas formas de concorrência, que aliado a uma legislação ambiental mais restritiva, leva ao questionamento da importância da preservação ambiental como estratégia competitiva numa indústria potencialmente poluidora e com alto potencial de risco, porém com alto dinamismo tecnológico em algumas fases da cadeia produtiva. 130 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo 3.1.3 Situação atual de reservas, produção e consumo no mundo e no Brasil O petróleo é a base de diversas atividades produtivas, seja como matéria prima (ver item 3.2 sobre a cadeia produtiva do petróleo), seja como fonte de energia primária. Do consumo mundial de energia primária, o petróleo foi o responsável por 40% no ano de 2000 (British Petroleum, 2001). A distribuição das reservas provadas de petróleo no mundo é bastante desigual e está em grande parte concentrada no Oriente Médio – 65%, na tabela 26. Ao considerar as reservas provadas da OPEP, esse percentual eleva-se para 78%. Os países da OCDE74, considerados os mais desenvolvidos, detêm somente 8% das reservas provadas e apresentam baixa relação reservas/produção (11,5) se comparados à OPEP (74,3). Tabela 26 – Reservas provadas mundiais – 1980, 1990 e 2000 Reservas Provadas Estados Unidos Canadá México Total da América do Norte Argentina Brasil Colômbia Equador Peru Trinidade e Tobago Venezuela Outros da Am. Central e do Sul Total da Am. Central e do Sul Dinamarca Itália Noruega Romênia Reino Unido Outros da Europa Total da Europa Azerbaijão Cazaquistão Final de 1980 Final de 1990 Final de 2000 bilhão de barris bilhão de barris bilhão de barris Parte do total Razão r/p 36,5 33,8 29,7 2,8% 10,4 7,7 8,1 6,4 0,6% 8,5 44,0 52,0 28,3 2,7% 23,5 88,2 93,9 64,4 6,1% 13,8 2,5 2,3 3,1 0,3% 10,5 1,3 2,8 8,1 0,8% 17,7 0,8 2,0 2,6 0,2% 10,0 1,1 1,4 2,1 0,2% 14,4 0,6 0,4 0,3 + 8,1 0,7 0,5 0,7 0,1% 11,9 18,0 59,0 76,9 7,3% 66,4 0,5 0,6 1,4 0,1% 29,9 25,5 69,0 95,2 9,0% 39,1 0,5 0,8 1,1 0,1% 7,9 0,6 0,7 0,6 0,1% 19,4 5,5 7,6 9,4 0,9% 7,7 n/d 1,2 1,4 0,1% 31,0 14,8 3,8 5,0 0,5% 5,3 4,6 2,2 1,6 0,2% 13,9 26,0 16,3 19,1 1,9% 7,7 n/d n/d 6,9 0,7% 63,4 n/d n/d 8,0 0,8% 31,1 74 Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em inglês, Organisation for Economic Co-Operation and Development (OECD). É composta por 30 países membros, a saber: Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, República Tcheca, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Islândia, Japão, Coréia, Luxemburgo, México, Hollanda, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, República Eslovaca, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido, Estados Unidos. 131 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Rússia n/d n/d 48,6 4,6% 20,6 Turcomenistão n/d n/d 0,5 0,1% 10,2 Uzbequistão n/d n/d 0,6 0,1% 10,8 Outros da ex-URSS n/d n/d 0,7 0,1% 15,7 Total da ex-URSS 63,0 57,0 65,3 6,4% 22,7 Irã 57,5 92,9 89,7 8,6% 65,7 Iraque 30,0 100,0 112,5 10,8% * Kuwait 67,9 97,0 96,5 9,2% * Omã 2,3 4,3 5,5 0,5% 15,7 Catar 3,6 4,5 13,2 1,3% 47,1 Arábia Saudita 168,0 260,0 261,7 25,0% 81,1 Síria 1,9 1,7 2,5 0,2% 12,7 Emirados Árabes Unidos 30,4 98,1 97,8 9,3% * Iêmen 4,0 4,0 0,4% 25,2 Outros do Oriente Médio 0,2 0,1 0,2 + 9,0 Total do Oriente Médio 361,8 662,6 683,6 65,3% 83,2 Argélia 8,2 9,2 9,2 0,9% 17,4 Angola 1,2 2,1 5,4 0,5% 20,1 Camarões 0,2 0,4 0,4 12,4 República do Congo 0,7 0,8 1,5 0,1% 15,0 Egito 2,9 4,5 2,9 0,3% 10,4 Guinéa Equatorial + + 0,3 Gabão 0,4 0,7 2,5 0,2% 20,9 Líbia 23,0 22,8 29,5 2,8% 55,3 Nigéria 16,7 17,1 22,5 2,2% 29,4 Tunísia 1,7 1,7 0,3 + 10,7 Outros da África 0,2 0,6 0,6 0,1% 6,8 Total da África 55,2 59,9 74,8 7,1% 26,8 Austrália 2,4 1,6 2,9 0,3% 10,4 Brunei 1,7 1,4 1,4 0,1% 19,5 China 20,5 24,0 24,0 2,3% 20,2 Índia 2,6 8,0 4,7 0,4% 17,3 Indonésia 9,5 11,0 5,0 0,5% 9,8 Malásia 3,0 2,9 3,9 0,4% 14,1 Papua Nova Guiné 0,2 0,3 + 14,0 Tailândia 0,2 0,4 + 7,4 Vietnã 0,5 0,6 0,1% 5,2 Outros do Pacífico da Ásia 0,5 0,5 0,8 0,1% 16,7 Total do Pacífico da Ásia 40,2 50,3 44,0 4,2% 15,6 Total Mundial 659,9 1009,0 1046,4 100,0% 39,9 OCDE# 113,7 110,4 84,8 8,1% 11,5 OPEC 432,8 771,7 814,4 77,8% 74,3 não-OPEC++ 164,1 180,3 166,7 15,9% 13,4 Fonte: British Petroleum (2001). + - menos de 0,05; * - mais de 100 anos; # - 1980 e 1990 exclui países da Europa Central; ++ exclui ex-URSS; n/d - não disponível; r/p - reserva sobre produção. Ao contrário das previsões catastróficas do final dos anos 60, as reservas provadas de petróleo vêm aumentando. Em final de 1980 eram de 660 bilhões de barris e passaram para 1.046 bilhões de barris em final de 2000. O Brasil aumentou substancialmente suas 132 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo reservas de 1,3 bilhões de barris no final de 1980 para 8,1 bilhões75 de barris no final de 2000, participando com 0,8% das reservas provadas mundiais. A distribuição mundial da produção e do consumo de petróleo é também desigual, evidenciando uma divisão em um bloco de países produtores e outro de consumidores – em termos líquidos (produção menos consumo). Pela tabela 27, pode-se observar que os países desenvolvidos – considerando os da OCDE – são grandes consumidores, responsáveis por 62,4% do consumo mundial. Entretanto, esses mesmos países são responsáveis por 28% da produção mundial, apresentando um déficit de consumo de mais de 24 mil barris/dia. Os Estados Unidos, apesar de serem um grande produtor, aproximadamente 10% da produção mundial, consomem cerca de um quarto do petróleo produzido mundialmente, apresentando um déficit de consumo de 11 milhões de barris/dia. Tabela 27 – Produção, consumo, superávit ou déficit de consumo e percentuais de produção e de consumo de petróleo no mundo – 1999 e 2000 (mil barris/dia) Anos Países Estados Unidos Canadá México Total América do Norte Argentina Brasil Colômbia Venezuela Outros Am. Central e do Sul Total Am. Central e do Sul Noruega Reino Unido Outros da Europa Total da Europa Rússia Cazaquistão Outros da ex-URSS Total da ex-URSS Irã 19 99 Produção Consumo Produção 2000 Superávit Produção Consumo ou Déficit % do total % do total 18745 -11000 9,8% 25,6% 1775 935 3,5% 2,4% 1840 1610 4,8% 2,4% 22360 -8455 18,1% 30,4% Consumo 7730 2605 3345 13680 18635 1795 1765 22195 7745 2710 3450 13905 850 1115 840 3175 765 440 1805 240 480 1670 820 1255 710 3235 815 430 1825 230 495 1685 390 -570 480 2740 -870 1,1% 1,8% 1,0% 4,6% 1,2% 0,6% 2,4% 0,3% 0,6% 2,3% 6745 4635 6835 4665 2170 9,7% 6,2% 3205 2885 875 6965 6180 630 745 7555 3550 215 1720 14115 16050 2535 120 910 3565 1210 3365 2660 930 6955 6535 745 755 8035 3770 205 1675 14045 15925 2475 125 875 3475 1170 3160 985 -13115 -8970 4060 620 -120 4560 2600 4,4% 3,5% 1,3% 9,2% 9,0% 1,0% 1,0% 11,0% 5,2% 0,3% 2,2% 18,9% 21,4% 3,5% 0,2% 1,3% 5,0% 1,6% 75 Esse aumento de mais de quatro vezes das reservas provadas de petróleo no Brasil nesse período “... coincide com as descobertas realizadas em águas profundas na Bacia de Campos, em especial os campos de Marlim, Barracuda e Roncador” (Neves, 2001: 8). 133 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Iraque 2580 n.d. 2625 n.d. 3,6% Kuwait 2025 170 2150 160 1990 2,9% Omã 910 n.d. 960 n.d. 1,3% Catar 725 25 795 25 770 1,0% Arábia Saudita 8550 1305 9145 1335 7810 12,3% Emirados Árabes 2325 260 2515 280 2235 3,2% Unidos Outros do Oriente 1030 1355 1030 1375 -345 1,5% Médio Total do Oriente 21695 4325 22990 4345 18645 31,0% Médio Argélia 1510 185 1580 195 1385 1,9% Angola 745 n.d. 735 n.d. 1,0% Egito 835 575 795 545 250 1,1% Africa do Sul n.d. 460 n.d. 475 n.d. Líbia 1425 n.d. 1475 n.d. 2,0% Nigéria 2030 n.d. 2105 n.d. 2,9% Outros da África 1050 1230 1130 1255 -125 1,5% Total da África 7595 2450 7820 2470 5350 10,4% Austrália 575 840 815 870 -55 1,0% China 3215 4415 3245 4840 -1595 4,5% Bangladesh n.d. 65 n.d. 65 n.d. Índia 795 2015 785 2070 -1285 1,0% Indonésia 1405 980 1430 1065 365 1,9% China Hong Kong n.d. 195 n.d. 200 n.d. SAR Malásia 795 n.d. 805 n.d. 1,0% Japão n.d. 5620 n.d. 5525 n.d. Outros do Pacífico 5965 890 6030 -5140 1,2% 830 da Ásia Total do Pacífico 20095 7970 20665 -12695 10,6% 7615 da Ásia Total Mundial 71850 73315 74510 73905 605 100,0% OCDE 21095 46300 21545 46335 -24790 28,1% OPEC 29295 13450 30825 13305 17520 41,5% não-OPEC 34985 22750 35640 23415 12225 47,5% Fonte: Elaboração própria a partir de British Petroleum (2001). * menos que 0,05% n.d. = não disponível. Produção ou consumo que estão incluídos em outros. n.d. 0,2% n.d. * 1,8% 0,4% 1,9% 5,9% 0,2% n.d. 0,8% 0,6% n.d. n.d. 1,7% 3,3% 1,1% 6,5% 0,1% 2,8% 1,5% 0,3% n.d. 7,2% 8,3% 27,8% 100,0% 62,4% 18,0% 31,8% Por outro lado, são os países menos desenvolvidos que são também os maiores produtores de petróleo: os da OPEP, maiores detentores das reservas provadas, produzem cerca de 41% e consomem somente 18% do petróleo mundial; os países não-OPEP também apresentam superávit em relação ao consumo de cerca de 16%. São, portanto, os países desenvolvidos – Estados Unidos (25,6%), Japão (7,2%) e Europa (21,4%) – os grandes consumidores e os maiores importadores do petróleo mundial. A tabela 28 e a figura 1 mostram a evolução da produção, do consumo e o déficit de consumo em relação à produção de petróleo no Brasil. Pode-se observar que as ações 134 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo implementadas para aumentar a produção de petróleo resultaram num aumento de 93% na produção de petróleo nacional em 2000 relativo a 1990. Por outro lado, o consumo aumentou 43%, gerando uma redução no déficit de consumo em relação a produção ao longo da década de 90. A relação déficit/consumo caiu de 49% para 31% nesse mesmo período. O Brasil é responsável por 1,8% da produção e 2,4% do consumo mundial de petróleo. Tabela 28 – Produção, consumo e déficit de consumo de petróleo no Brasil – 1990 a 2000 (mil barris/dia) Anos 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2000/1999 % total mundial em 2000 Produção 650 645 645 655 680 705 795 855 990 1.115 1.255 12,6% 1,8% Consumo 1.275 1.290 1.330 1.355 1.420 1.500 1.600 1.730 1.800 1.805 1.825 1,4% 2,4% Déficit Déficit/Consumo % 625 49,0 645 50,0 685 51,5 700 51,7 740 52,1 795 53,0 805 50,3 875 50,6 810 45,0 690 38,2 570 31,2 Fonte: Elaboração própria a partir de British Petroleum (2001). P ro d u ç ã o C onsum o D é f ic i t 2000 1800 1600 1400 1200 1000 Fonte: Elaboração própria a partir de British Petroleum (2001). 800 600 400 200 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Figura 1 – Produção,Consumo e Déficit de Consumo de Petróleo no Brasil - 1990 a 2000 (mil barris/dia) 135 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Mesmo com a redução deste déficit ao longo do tempo, ainda é significativa a defasagem entre o necessário para consumo e a produção. Essa diferença é coberta por importação de petróleo de outros países, que são um peso negativo na balança comercial. A tabela 29 mostra que do total importado, 4,4% em 1999 e 5,7% em 2000 correspondem à importação de petróleo bruto. Essa situação agrava-se quando há elevação dos preços do petróleo no mercado internacional. Entretanto, os esforços na auto-suficiência da produção de petróleo estão poupando divisas – cerca de US$ 9,2 bilhões foram poupados com importação de petróleo em 1994 (Petrobras, 1995 apud Neves, 2001). Tabela 29 – Importações e exportações totais, importações de petróleo bruto, participação das importações de petróleo bruto nas importações totais – 1999 e 2000 1999 Ano Importações Totais (a) 49.269.804 Importação Petróleo bruto (b) 2.169.479 b/a % 4,4% Volume médio (barris/dia) 370.000 Preço médio (US$/barril) 16,1 Exportações Totais 48.010.975 Fonte: Elaboração própria a partir de SECEX, MDIC e Neves, 2001. 2000 55.786.195 3.190.552 5,7% 306.000 28,5 55.085.432 3.2 A cadeia produtiva do petróleo O parque industrial brasileiro é bastante desenvolvido e diversificado, apresentando indústrias articuladas, direta ou indiretamente, entre si. Desta forma, ao estudar determinada indústria, faz-se necessário delimitar sua área de influência, a fim de observar os encadeamentos para frente e para trás mais importantes, evitando conclusões extremadas de que tudo influencia em tudo ou de que uma indústria pode ser analisada isoladamente, não sendo considerada dentro do seu contexto produtivo. Para obter uma categoria relevante para análise econômica, será utilizado o instrumental analítico de complexos industriais e cadeias produtivas, proposto por Haguenauer et alii (1984) e posteriormente desenvolvidos em Prochnik (1989 e 2000) e Haguenauer et alii (2001). Assim, “constituindo um corte no sistema produtivo que agrupa conjuntos de atividades fortemente interrelacionados, a noção de complexo industrial proporciona uma visão orgânica da economia, articulando aspectos macroeconômicos a especificidades setoriais” (Haguenauer et alii, 1984:7-8). Situado entre os cortes setoriais 136 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo e as análises agregadas, a noção de complexo industrial apresenta-se como um nível intermediário de análise, bastante útil para tratar questões relativas ao alto grau de interdependência que apresentam os sistemas produtivos da economia. As cadeias produtivas estão associadas a processos produtivos, ou seja, à transformação das características dos materiais processados, que engloba diferentes etapas produtivas. Assim, “... a designação ‘cadeia produtiva’ pode ser atribuída à seqüência de estágios sucessivos assumidos pelas diversas matérias neste processo de transformação” (Haguenauer et alii, 1984:2). A cadeia produtiva pode ser segmentada em diferentes indústrias, que ao serem reatadas pela ótica do mercado, serão articuladas a outras cadeias produtivas, seja como ofertantes ou como demandantes. Dessa forma, o complexo industrial pode ser definido como “um conjunto de indústrias que se articulam, de forma direta ou mediatizada, a partir de relações significativas de compra e venda de mercadorias a serem posteriormente reincorporadas e transformadas no processo de produção” (Haguenauer et alii, 1984:7). Estas categorias de análise facilitam a compreensão da realidade em dois campos principais, que coincidem com os eixos fundamentais dessa tese. O primeiro refere-se à difusão de inovações tecnológicas, pois a tecnologia é o elemento que forma e transforma os complexos industriais, estabelecendo o tipo e a forma de articulação das indústrias. Ou seja, a difusão de inovações pode originar novos complexos, levando a um rearranjo do sistema produtivo, ou modificando as relações internas e externas do complexo. Assim, o processo de difusão de inovações pode ser analisado num contexto intermediário – nem tão restrito quanto a análise setorial e nem tão amplo quanto a ótica macroeconômica –, sendo possível vislumbrar seus impactos diretos e indiretos com maior precisão. O segundo campo é a esfera da concorrência, onde são disputadas as rendas geradas nas cadeias produtivas. A noção de complexo industrial redefine o espaço da concorrência, que “... considerando o conjunto mais amplo de indústrias articuladas, pode levar a uma melhor compreensão dos processos da competição capitalista, da lógica da tomada de decisões por parte das empresas, dos mecanismos de formação de preços” (Haguenauer et alii, 1984:9). Entretanto, ao fazer cortes na estrutura industrial, são utilizados critérios subjetivos, revelando algum grau de arbitrariedade. Isso quer dizer que a delimitação da cadeia do petróleo apresentada a seguir pode não ser a única e nem a mais perfeita, mas certamente 137 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo será suficientemente operacional para delimitar os seus principais impactos ambientais diretos e indiretos. Consequentemente, o conhecimento da cadeia do petróleo e suas ligações com outras cadeias, sejam do mesmo complexo ou de outros a ela relacionados, permite perceber como uma regulamentação ambiental imposta a uma etapa da cadeia pode ter impactos em outras etapas das cadeias produtivas a ela relacionada. Por exemplo, para reduzir as emissões de uma etapa de determinado processo produtivo, pode ser fundamental modificar padrões técnicos de um tipo de insumo que não pertence a sua cadeia produtiva, e talvez nem ao seu complexo industrial. Além do mais, dado que a estrutura industrial é mutável no longo prazo – em função de inovações tecnológicas e do aparato regulatório, que podem criar e desfazer indústrias – a delimitação de uma cadeia produtiva pode ficar sem sentido em tempos futuros. De acordo com Haguenauer et alii (1984), a economia brasileira pode ser divida em seis macro-complexos industriais, tendo como ponto de partida a matriz de transações. São eles: construção civil, metal-mecânico, têxtil, agroindústria, químico e outros, que não são considerados macro-complexos (papel e gráfica, e mobiliário). Os macro-complexos relacionam-se entre si, sendo o da construção civil o mais dependente dos demais enquanto consumidor e o químico o maior fornecedor dos demais complexos. A cadeia do petróleo está dentro do macro-complexo químico (ver quadro 1). Este macro-complexo possui uma forte articulação interna e tem duas bases principais: a cadeia de produção de elementos químicos não petroquímicos e a cadeia do petróleo. Esta última está inserida no micro-complexo petroquímico, que tem em sua base as indústrias de extração de petróleo e gás natural e o refino de petróleo; as indústrias finais são as de produção de petroquímicos básicos e intermediários, e a fabricação de resinas, fibras artificiais e sintéticas e elastômeros sintéticos. Portanto, no macro-complexo químico “... efetivamente existem cadeias produtivas que se desenvolvem linearmente e em leque, do petróleo ao diversos produtos finais...” (Haguenauer et alii, 2001:45). 138 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Petroquímica Extração de petróleo e gás natural Refino de petróleo Petroquímica básica e intermediária Fabricação de resinas, fibras artificiais e sintéticas e elastômeros sintéticos Elementos químicos Produção de elementos químicos, compostos orgânicos e inorgânicos não petroquímicos ou ou carboquímicos Produtos químicos finais Fabricação de produtos químicos diversos Fabricação de pigmentos, tintas, impermeabilizantes e solventes Beneficiamento de borracha e fabricação de artigos de borracha, exclusive pneus Fabricação de laminados plásticos Fabricação de artigos de material plástico Fabricação de adubos, fertilizantes e corretivos do solo Indústria de perfumaria, sabões e velas Indústria farmacêutica Fonte: Haguenauer et alii, 1984 Quadro 1 – O Macro-Complexo Químico Assim, alterações na cadeia do petróleo, seja por volume de produção, pela introdução de um ambiente competitivo ou por outras variáveis, podem trazer modificações importantes no micro-complexo petroquímico, e consequentemente no macro-complexo químico, uma vez que esta cadeia é a base deste complexo. 3.2.1 Delimitação da cadeia produtiva do petróleo Associadas à noção de cadeia produtiva, estão as etapas de produção. Seguindo a metodologia proposta por Prochnik (1989) as etapas de uma cadeia produtiva são classificadas por tipo de atividade: extração, produção de insumos básicos e montagem. A delimitação da cadeia produtiva do petróleo, como ressaltando anteriormente, possui um grau de arbitrariedade em sua delimitação. Para definir critérios básicos, serão consideradas as transações principais das diferentes etapas da cadeia, ou seja, seus principais fornecedores de equipamentos e insumos ou consumidores de seus produtos, podendo-se identificar os seus encadeamentos para frente e para trás. É importante lembrar que, por sua natureza, a cadeia de petróleo é a base do macrocomplexo químico, que por sua vez é um grande fornecedor para o restante da economia. 139 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Portanto, os consumidores mais na ponta não serão considerados, pois são numerosos, e sob o ponto de vista ambiental, avaliar os impactos sobre o meio ambiente das atividades produtivas dos consumidores da cadeia do petróleo, seria analisar grande parte dos impactos ambientais da própria economia. As questões ambientais ligadas ao consumo de combustíveis derivados do petróleo serão analisadas de maneira genérica (ver capítulo 4), pois este não faz parte da cadeia a ser estudada. A cadeia do petróleo é curta, pois não inclui a atividade de montagem76, porém cada segmento é composto por operações de grande complexidade. Ela pode ser dividida em duas etapas: extração, que inclui as atividades de exploração e produção (E&P) – o upstream – e a produção de insumos básicos, que inclui a atividade de refino. Outras atividades – transporte e armazenamento (T&A) e a distribuição – não são consideradas um processo de transformação em si, mas são auxiliares e essenciais para etapa do refino, logo consideradas como secundárias. Estas três últimas atividades são denominadas downstream (ver quadro 2). Além das duas etapas principais e as secundárias, a cadeia do petróleo estabelece relações com atividades de suporte, que são os serviços necessários para o desenvolvimento das atividades nas diferentes etapas da cadeia produtiva. São serviços de análises sísmicas, estudos e elaboração de projetos, estudos e relatórios de impactos ambientais, instalação de equipamentos, etc. . UPSTREAM DOWNSTREAM Exploração Transporte & & Produção Armazenamento Refino Transporte & Distribuição Armazenamento Fonte: Elaboração própria. Quadro 2 – Cadeia Produtiva do Petróleo 140 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo 3.2.2 Descrição e ligações da cadeia produtiva do petróleo A cadeia produtiva do petróleo, além de ser a base do micro-complexo petroquímico, e consequentemente do macro-complexo químico, apresenta importantes ligações com outros setores da economia, por meio das atividades de suporte. O quadro 3 e a tabela 30 mostram o mapa do macro-complexo químico e suas transações com base na matriz de 1996. A ligação mais importante, em termos de valor da produção, está na extração de petróleo e gás com o refino e a petroquímica (R$ 5.998 milhões), justamente a cadeia produtiva do petróleo. As transações internas das atividades de refino e petroquímica são também bastante intensas, atingindo cerca de R$ 10 bilhões em 1996. 793 Extração de petróleo e gás 5.998 Refino e petroquímica Indústria da borracha 2.617 2.413 Químicos diversos 270 Artigos de plástico 387 456 Farmacêutica e perfumaria Fonte: matriz insumo-produto de 1996, in: Haguenauer et alii, 2001:46. Quadro 3 – Mapa do Macro-complexo Químico – 1996 (em R$ milhões) Tabela 30 – Matriz insumo-produto do macro-complexo químico – 1996 (em R$ milhões) Farmacêutica Indústria da Artigos de Químicos Refino e Extração de e Perfumaria Borracha Plástico Diversos Petroquímica Petróleo e Gás Farmacêutica e Perfumaria 5 0 0 64 0 0 Indústria da Borracha 13 1.734 21 32 25 7 Artigos de Plástico 01 11 589 215 53 9 Químicos Diversos 387 185 270 2.444 273 51 Refino e Petroquímica 456 793 2.617 2.413 10.202 75 Extração de Petróleo e Gás 0 0 0 16 5.998 14 Fonte: matriz insumo-produto de 1996, in: Haguenauer et alii, 2001:45. 76 Um exemplo de uma cadeia que possua essas três etapas é a do cimento: extração de pedra calcárea, argila e outros materiais para produção do cimento; transformação em cimento; e montagem de artefatos de cimento (Prochnik, 1989). 141 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo O Upstream O upstream – também chamado de exploração e produção (E&P) – é a atividade de extração de petróleo, que inclui as etapas de exploração, o estudo de reservas e reservatórios, o planejamento do desenvolvimento da produção, a perfuração de poços, a completação dos poços e a produção. Cada uma dessas atividades possui etapas específicas, como podem ser observadas no quadro 4. Essas diferentes atividades geram uma cadeia de suprimento de equipamentos e serviços para a construção, montagem, instalação, operação e manutenção de sistemas de produção de petróleo. Essa cadeia de suprimento de equipamentos e serviços está ligada a diferentes setores industriais e a outras cadeias produtivas. Ao desagregar os investimentos na E&P offshore a preços de mercado, a ONIP/IE-UFRJ (2000) chega aos seguintes setores, de acordo com a tabela 31. 142 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Exploração Geofísica Perfuração exploratória Sísmica Geologia Avaliação dos poços Reservatório Planejamento do Desenvolvimento da Produção Estudo de reserva e reservatórios Projeto de instalação de superfícies Projeto de poços Perfuração Aplicação dos fluídos de perfuração Perfuração Cimentação Revestimento de poços Completação estimulação química -acidificação Isolamento das zonas produtoras Testes de vazão e pressão mecânica fraturamento hidráulico Colocação de árvore de natal químico-mecânico Produção Operação de Elevação Escoamento Separação Tratamento do óleo armazenamento Fonte: ONIP/NPGA-UFBA, 2000. Quadro 4 – Mapa do Processo de Exploração e Produção 143 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Tabela 31 – Decomposição do investimento offshore a preços de mercado em setor matriz Código Nome do Setor Principais Produtos(*) % 3 PETRÓLEO E GÁS Perfuração, perfilagem e cimentação de poços 17,2 4 MINERAL NÃO METÁLICO Cimento 0,5 5 SIDERURGIA Tubos e perfis de aço 5,7 6 METALÚRGIA NÃO FERROSOS 0,1 7 OUTROSMETALÚRGICOS 8 MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS 10 MATERIAL ELÉTRICO Tubos, conexões, fios e cabos não revestidos de cobre e alumínio Tanques, obras de calderaria pesada, estruturas metálicas, peças fundidas e forjadas Serviços de instalação industrial, turbinas, turbocompressores, árvore de natal molhada Geradores, linhas flexíveis, cabos elétricos 11 13 EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS Sistemas de medida e controle (intrumentação), computadores PEÇAS E OUTROS VEÍCULOS Embarcações, peças e acessórios 27,3 17 ELEMENTOS QUÍMICO Gases industriais 0,2 19 QUÍMICOS DIVERSOS Explosivos, preparados químicos 0,7 21 ARTIGOS DO PLÁSTICOS Tubos, cordas e peças de plástico 0,1 22 INDÚSTRIA TEXTIL Amarras 0,4 34 CONSTRUÇÃO CIVIL Construção civil 5,6 35 COMÉRCIO Comissões e corretagens 0,1 36 TRANSPORTES Afretamento 0,1 38 INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS Seguros 0,5 40 SERV. PREST. À EMPRESA Levantamento especializados geofísico, serviços TOTAL técnicos 2,2 14,4 6,5 3,6 14,9 100,0 (*) Principais produtos relacionados ao investimento do setor petróleo. Fonte: ONIP/IE-UFRJ, 2000. Dentre os setores que são mais demandados pelos investimentos offshore estão o próprio setor de petróleo e gás (perfuração, perfilagem e cimentação de poços) com 17,2% dos investimentos realizados – realizando a perfuração, perfilagem e cimentação de poços –; o de máquinas e equipamentos com 14,4% – ofertando serviços de instalação industrial, turbinas, turbo-compressores, árvore de natal molhada –; o de peças e outros veículos com 27,3% – fornecendo embarcações, peças e acessórios – e os serviços prestados com 14,9% – realizando levantamento geofísico e serviços técnicos especializados. Somente estes quatro setores respondem por mais de 70% da demanda dos investimentos na E&P offshore. Além do upstream exercer demanda a outros segmentos industriais, gerando direta e indiretamente renda para diversos setores da economia, também é responsável por uma fonte de receita importante – os royalties do petróleo. A tabela 32 mostra que os royalties 144 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo em 1999 foram divididos em três partes, cabendo cada uma delas aos estados, municípios e outras instituições. A região mais beneficiada foi a Sudeste, com 20% do total, sendo o estado do Rio de Janeiro o maior beneficiário, com 19% do total de royalties deste ano, devido à produção da Bacia de Campos (RJ), sem contar com a participação nos fundos especiais. Logo, são também os municípios fluminenses que recebem mais royalties (21%). As instituições beneficiadas são o Ministério da Ciência e Tecnologia – com 12% do total –, que destina os recursos ao CTPETRO (ver item 3.1.2) e o Comando da Marinha com 14%. Tabela 32 – Distribuição de royalties por beneficiários – 1999 Descrição Estados Municípios Outros R$ mil % total Quantidade R$ mil % total R$ mil % total Brasil 330.444 817 327.440 33,6 33,3 325.716 33,1 Região Norte 20.274 3 7.514 2,1 0,8 Amazonas 20.274 3 2,1 7.514 0,8 Região Nordeste 109.571 558 73.085 11,1 7,4 Ceará 4.267 138 4.831 0,4 0,5 Rio Grande do Norte 49.698 92 26.429 5,1 2,7 Paraíba 1 940 0,1 Pernambuco 6 5.640 0,6 Alagoas 5.206 51 2.934 0,5 0,3 Sergipe 16.446 75 13.590 1,7 1,4 Bahia 33.954 195 18.720 3,5 1,9 Região Sudeste 199.576 207 236.465 20,3 24,0 Espírito Santo 7.446 77 7.618 0,8 0,8 Rio de Janeiro 190.041 60 206.708 19,3 21,0 São Paulo 2.088 68 20.376 0,2 2,1 Minas Gerais 2 1.764 0,2 Região Sul 1.023 49 10.376 0,1 1,1 Paraná 1.019 37 1.939 0,1 0,2 Santa Catarina 4 5 3.816 0,0 0,4 Rio Grande do Sul 7 4.621 0,5 Instituições - 325.716 33,1 Ministério da Ciência - 120.240 12,2 e Tecnologia Comando da Marinha - 137.007 13,9 Fundo Especial1 - 68.469 7,0 Fonte: ANP. Com base no Decreto n.º 1 de 01/01/1991 e Decreto n.º 2.705 de 03/08/1998. 1 Distribuído entre todos os estados (20%) e municípios (80%). Total R$ mil 983.600 27.788 27.788 182.656 9.098 76.127 940 5.640 8.140 30.037 52.674 436.041 15.064 396.748 22.464 1.764 11.399 2.958 3.820 4.621 325.716 120.240 137.007 68.469 145 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo O Downstream As atividades do downstream englobam o transporte e o armazenamento do petróleo bruto77 e derivados, o refino e a distribuição. O petróleo extraído dos poços pode ser de diversos tipos, dado que a constituição e o aspecto do petróleo bruto variam de acordo com a formação geológica do terreno de onde foi encontrado. Alguns são mais leves e claros, outros têm uma coloração marrom, amarela, verde, preta e verde-escura. Essa variabilidade na composição do petróleo bruto vai ter reflexos no refino, pois a gama de produtos que podem ser obtidos e os processos utilizados varia conforme o tipo de petróleo. As atividades do downstream começam com o transporte do petróleo (extraído em território nacional ou estrangeiro) por meio de dutos, de petroleiros ou outra embarcação, ou pela utilização desses dois processos de maneira integrada até as refinarias, onde são recolhidos nos tanques de armazenamento. O petróleo a ser destilado passa por uma avaliação laboratorial, para verificar sua adequação à refinaria78 e saber a possibilidade de obtenção dos derivados. Estes últimos são obtidos por uma série de beneficiamentos do petróleo em seu estado bruto, ou seja, o refino, que constitui a separação das frações desejadas e seu processamento posterior para torná-las produtos finais e intermediários para a venda (ver figura 2). 77 Encontra-se na literatura o termo “middlestream” para designar as atividades de transporte e armazenamento de petróleo não refinado, pois não estariam vinculada a E&P (upstream) e nem ao refino e etapas posteriores (downstream) (Malheiros, 2000b). 78 Segundo a Petrobras, a “... acentuada variação de viscosidade ou maior ou menor teor parafínico poderão acarretar distúrbios no funcionamento dessas unidades (de processamento das refinarias) e mesmo posterior paralisação” (site da Petrobras). 146 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Fonte: site da Petrobras Figura 2 – Esquema Básico de Refino Os derivados de petróleo são armazenados e transportados até as empresas distribuidoras, destinando-os ao consumo interno ou para exportação, no caso de excedentes sobre o consumo interno. O transporte, em geral, é feito por dutos, caminhões ou por balsas, no caso de transporte fluvial. 3.3 Características e Dinâmica Interna das Etapas Produtivas A Lei do Petróleo mudou o marco regulatório da indústria do petróleo, provocando mudanças, ainda em curso, na dinâmica da concorrência setorial e alterando o ambiente seletivo. A quebra de monopólio e a entrada de novos concorrentes geraram um mercado mais competitivo nos segmentos da indústria do petróleo. Entretanto, como são setores em que o investimento requer um tempo longo de maturação e grande parte do conhecimento técnico e prático de gerenciamento e da pesquisa desta indústria no Brasil estão sob o domínio da empresa antes monopolista, é de se esperar que o processo de acirramento da concorrência ainda esteja muito incipiente. Por outro lado, nos momentos de transição e de mudança no ambiente seletivo, é quando se estabelecem novos elementos que serão definitivos para a concorrência setorial. A questão ambiental pode ser um desses elementos. No capítulo seguinte procura-se verificar os rumos da pesquisa na área de meio ambiente e como essa questão está sendo 147 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo internalizada por uma indústria de alto risco e potencial poluidor. A seguir são analisadas as características e a dinâmica interna das etapas da cadeia produtiva do petróleo no Brasil, procurando identificar elementos que foram transformados e outros que ainda não tiveram tempo suficiente para sofrer mudanças, mas que irão evoluir. Por fim, faz-se uma breve referência aos determinantes da competitividade internacional da indústria do petróleo. 3.3.1. O upstream Essa atividade da cadeia produtiva do petróleo apresenta no Brasil características estruturais de um setor não exportador e de alto valor agregado. É classificado com integrante da indústria extrativa, pois está baseada na extração de minerais do subsolo. Dos setores que compõem o micro-complexo petroquímico brasileiro, a extração de petróleo e gás natural foi o que mais cresceu no período 1996/1999 – 12% pela tabela 33. Este resultado pode ser atribuído ao esforço de auto-suficiência na produção de petróleo, inclusive com redução de 6,8% das quantidades importadas nesse mesmo período. Tabela 33 – Taxas médias anuais de crescimento – 1999/1996 (em porcentagem) Petroquímica Resina fibras e elastômeros Petroquímica básica e intermediária Refino de petróleo Extração de petróleo e gás natural Fonte: Haguenauer et alii, 2001:59. Produção Física 5,26 6,10 4,86 12,00 Importação (quantum) Exportação (quantum) - 3,57 -6,82 4,50 Todo este esforço de auto-suficiência na produção de petróleo deve-se à Petrobras, que atuou como monopolista deste segmento da cadeia produtiva até 1998. Neste mesmo ano, o país atingiu uma produção recorde de 1 milhão barris/dia, sendo que a Bacia de Campos contribuiu com 734 mil barris/dia – esta é a maior bacia produtora nacional (Tolmasquim et alii, 2000). Com a flexibilização do monopólio, os campos nos quais a Petrobras produzia e os blocos onde foram realizadas descobertas e estavam sendo explorados foram dispensados de licitação e concedidos à empresa – com prazo de três anos para os trabalhos de desenvolvimento e exploração. Em agosto de 1998, a ANP assinou com a Petrobras 397 contratos de concessão, sendo 115 de exploração, 51 de desenvolvimento e 231 de produção. Para estas concessões, foi permitido à Petrobras formar consórcios com outras 148 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo empresas, nacionais ou estrangeiras, a fim de incrementar suas atividades, seja por meio de troca de tecnologias ou para maior aporte de investimentos. A ANP é, portanto, a responsável pela realização de licitações para a concessão de blocos exploratórios, pela celebração dos contratos de concessão do consórcio vencedor das licitações e pela fiscalização da execução dos mesmos. Nestes contratos, a ANP incluiu uma “... cláusula que prevê investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos e processos por parte das empresas concessionárias. Estes investimentos deverão ser realizados diretamente pelas Concessionárias junto às universidades e instituições de pesquisa nacionais, credenciados pela ANP” (site da ANP). Em 1999, começou a licitação de blocos exploratórios, que ocorreu por meio de três leilões públicos – em 1999, 2000 e 2001. As tabelas do anexo IV mostram os resultados das três rodadas dos blocos licitados. Na primeira rodada em 1999, 11 empresas, individualmente ou em consórcio, foram as vencedoras do leilão. Dos 12 blocos licitados, a Petrobras foi a operadora em três deles, a Agip em três, a Texaco em dois e as demais – Amerada Hess, Esso, Unocal e British Petroleum (BP) – em um bloco. A figura 3 mostra a participação das empresas por área licitada, sendo a principais Agip (26%), Texaco (21%), Petrobrás (12%) e Esso (11%). Texaco 21% Unocal 2% YPF 5% Agip 26% Amerada 5% Shell 3% Petrobras 12% British Borneo 3% Kerr Mcgee 4% Esso 11% BP 8% Área total: 54.659 km2 Fonte: ANP Figura 3 – Área Concedida por Empresa Na segunda rodada de licitação de blocos ocorrida em 2000, 16 empresas, 149 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo individualmente ou em consórcio, venceram o leilão em 21 blocos. A Petrobras ficou como operadora em sete blocos, a Rainier em quatro, a The Coastal Corporation em três e as demais – Amareda Hess, Pan Canadian, Shell, Chevron, Union Pacific, Santa Fé e Queiroz Galvão – em um bloco cada. Na terceira rodada em 2001, houve ofertas para 34 blocos, com 23 empresas vencedoras em consórcio ou individualmente. A Petrobras ficou como operadora em 13 blocos, a Wintershall em três, a El Paso em dois, Koch Petróleo do Brasil em dois, a Phillips Petroleum Company em dois, a Samson Investment em dois e as demais – Amerada Hess, Enterprise Oil, Esso Brasileira, Maersk, Ocean Energy, PanCanadian, Petroserv, Rainier, Repsol YPF e Total Fina Elf – em um bloco. No total das três rodadas, a arrecadação com a concessão dos blocos foi de R$ 1,44 bilhões. A tabela 34 mostra as operadoras das três rodadas de licitação de blocos, que resultaram na concessão de 67 blocos (15 onshore e 52 offshore). Essa tendência de exploração offshore pode ser explicada pelas maiores perspectivas de descobertas de reservatórios em águas profundas (CTPETRO, 2000a). Pode-se observar que a Petrobras foi a empresa que mais obteve concessão para ser operadora – 23 blocos –, sendo que a maioria são em blocos offshore. Mais duas empresas brasileiras (Petroserv S. A. e Queiroz Galvão) ficaram como operadoras, cada uma em uma área para realizar suas atividades onshore. As concessões dos 42 blocos restantes foram obtidas por operadoras 79 estrangeiras , com a presença das grandes empresas petrolíferas mundiais – Esso, Texaco, British Petroleum. 150 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Tabela 34 – Operadoras das três rodadas de licitação de blocos Empresa 5 Onshore / Offshore (quantidade blocos) Offshore (20)/onshore (3) Onshore (5) Anglo-americana 3 Offshore (3) Italiana 3 Offshore (3) Norte-americana (EUA) 3 Offshore (2)/onshore (1) Alemã 3 Offshore (3) El Paso CGP Company Norte-americana (EUA) 2 Offshore (2) Esso Brasileira de Petróleo Limitada Norte-americana (EUA) 2 Offshore (2) Koch Petróleo do Brasil Ltda Canadense 2 Onshore (2) Pan Canadian Petroleum Limited Canadense 2 Offshore (2) Phillips Petroleum Company Norte-americana (EUA) 2 Offshore (2) Samson Investment Norte-americana (EUA) 2 Onshore (2) Texaco Norte-americana (EUA) 2 Offshore (2) Anglo-persa 1 Offshore Norte-americana (EUA) 1 Offshore Anglo-americana 1 Offshore Dinamarquesa 1 Offshore Norte-americana (EUA) 1 Offshore Petroserv S.A. Brasileira 1 onshore Queiroz Galvão Brasileira 1 onshore Hispano-argentino 1 Offshore 1 Offshore Petróleo Brasileiro S.A Nacionalidade*/Controle do capital Brasileira / Estatal Rainier Engineering Limited Amerada Hess Corporation Agip The Coastal Corporation Wintershall Aktiengesellschaft British Petroleum Chevron Enterprise Oil plc Maersk Olie og Gas AS Ocean Energy, Inc Repsol YPF Brasil S.A. Santa Fé Quantidade de blocos 23 Shell Anglo-holandesa 1 Offshore Total Fina Elf S.A. Anglo-holandesa 1 Offshore Franco-belga 1 onshore Norte-americana (EUA) 1 Offshore Union Pacif Unocal * Nacionalidade de acordo com a origem do capital da matriz. Fonte: Elaboração própria a partir do site ANP Apesar da quantidade de blocos licitados e das empresas que entraram no upstream da indústria do petróleo, o tempo de maturação dos projetos de prospecção e de desenvolvimento para atingirem a fase de produção é longo, de quatro a cinco anos. Portanto, uma vez que não se sabe exatamente a produção de cada bloco, ainda é 79 Há uma tendência das empresas se especializarem na operação de blocos offshore ou onshore. 151 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo prematuro fazer avaliações acerca da concorrência no mercado. Entretanto, a Petrobras continua sendo a empresa líder do setor, pois foram adicionados mais 23 blocos – atuando como operadora – àqueles que lhe foram concedidos após a quebra do monopólio. Um resultado positivo das concessões para diversas empresas será o maior conhecimento das ocorrências de petróleo e gás no Brasil. Até agosto de 2001, foram comunicadas 82 descobertas de óleo, 35 de gás, 13 de óleo e gás e duas de gás e condensado (site ANP, dados estatísticos). Esse aporte de investimento para o upstream vai gerar uma demanda por bens e serviços nacionais e importados. Pode-se observar que o comprometimento com a indústria nacional é pequeno nas três rodadas de licitação – menos de 50%, em média tanto para a exploração quanto para o desenvolvimento. Na primeira rodada de licitações o maior percentual de comprometimento foi de 50% para exploração e 60% para desenvolvimento. As segunda e terceira rodadas apresentam percentuais maiores, com um máximo de 50% para exploração e 70% para desenvolvimento. Uma razão que explica a baixa participação da indústria nacional é o seu despreparo para atender à demanda, como no setor naval. Mesmo assim, espera-se um impacto importante sobre os fornecedores do setor, dado as fortes ligações com outros setores da economia (ver tabela 6 para os investimentos offshore). 3.3.2. O downstream A principal atividade do downstream é o refino, que apresenta alto valor de produção. É integrante da indústria de transformação e apresentou taxas médias anuais de crescimento no período 1999/1996 de 5% (ver tabela 6). Apesar da redução do déficit de consumo, graças ao esforço de atingir a auto-suficiência na produção de petróleo, reduzindo a quantidade de importação em 3,5% no período 1999/1996, este segmento da cadeia produtiva ainda depende de importações de petróleo bruto e fica sujeito a variações dos preços internacionais. Até 1996, o setor foi beneficiado pela valorização do real frente ao dólar, diminuindo o custo do barril importado (Haguenauer et alii, 2001). Entretanto, em 2000, a elevação do preço do barril de petróleo – média anual de US$ 28,5/barril – elevou a participação do petróleo bruto para 5,7% das importações totais, com um volume médio 152 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo importado menor do que em 1999 (306 mil barris/dia em 2000 contra 370 mil em 1999, pela tabela 29)80. Existem no Brasil treze refinarias81: além das onze sob o controle da Petrobras82, existem duas privadas – Manguinhos83 (RJ) e Ipiranga (RS) – que foram excluídas do monopólio da União, porque foram instaladas antes do monopólio da Petrobras. Sua produção é pequena, visto que a Petrobras respondeu por 97,8% da capacidade de refino no Brasil em 1999 (tabela 35). As refinarias brasileiras processaram, em 1999, 1.557.017 barris/dia, utilizando cerca de 78% da capacidade de refino brasileira. As refinarias são heterogêneas84, diferenciando-se quanto às complexidades tecnológicas, às matérias primas processadas, aos produtos a serem obtidos e aos mercados consumidores. Como a maior parte do petróleo brasileiro é do tipo pesado, o que implica maior número de conversões para conseguir produtos de qualidade superior, algumas refinarias realizaram investimentos nos últimos quinze anos para adaptação ao tipo de petróleo nacional e para o aumento da qualidade dos produtos, elevando a capacidade de conversão de frações pesadas para mais leves, que possuem maior valor agregado. Ou seja, os investimentos foram no sentido de aumentar a complexidade das refinarias e, consequentemente, sua capacitação tecnológica. 80 No período de 1990 a 1999, o volume importado de petróleo (óleo cru e condensado) sofreu uma redução de 11,35%. Entretanto, o valor da importação (FOB) a dólares constantes cresceu 20,66% e o preço médio do barril (FOB) a dólares constantes cresceu 36,11% (fonte site ANP, dados estatísticos). 81 Para detalhes da estrutura produtiva das refinarias ver Mariano (2001). 82 A Repsol YFP fez um acordo com a Petrobras e adquiriu 30% da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap). Mas Repsol YFP tem uma estratégia de expansão no Brasil. “Além da aquisição de uma fatia da Refap, a Repsol YPF assume em maio o controle de 350 postos na Região Sul da BR, a distribuidora da Petrobras que lidera o varejo nacional de combustíveis. Em troca, cede à Petrobras quase a totalidade da Eg3, marca com 700 postos e 12% de participação no mercado argentino” (Exame, A Última Reserva). 83 Manguinhos foi criada em 1954. A Repsol YFP adquiriu, em 1999, 50% da Refinaria de Manguinhos. 84 “As refinarias brasileiras melhor adaptadas ao seu mercado consumidor são aquelas de relativo grau de complexidade, de maior escala e próximas a um centro consumidor relevante. No caso brasileiro, ainda há a particularidade de proximidade com o centro de produção de petróleo, o que reduz os custos de transporte de óleo cru. Este é o caso das refinarias do Sudeste, em particular da REDUC, da RPBD, da REVAP e da REPLAN. A RECAP ... tem a particularidade de se localizar próxima à Petroquímica União, o que lhe garante parte do escoamento de sua produção a um baixo custo de transportes. Por outro lado, existem refinarias que não estão em posição tão vantajosa, seja porque não têm escala – caso da REMAN – seja porque não têm capacidade de conversão elevada – caso da REFAP” (Tolmasquim et alii, 2000:139) 153 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Tabela 35 – Capacidade instalada das refinarias nacionais – 1999 Refinaria Estado Brasil Região Norte REMAN Amazonas Região Nordeste Capacidade de Refino (barris/dia) % capacidade Brasil 1.991.899 100,0 45.916 2,3 45.916 2,3 312.604 15,7 LUBNOR Fortaleza (CE) 6.290 0,3 RLAM Mataripe (BA) 306.314 15,4 1.226.962 61,6 31.896 1,6 242.158 12,2 Região Sudeste MANGUINHOS Rio de Janeiro (RJ) REDUC Duque de Caxias (RJ) RECAP Capuava (SP) 53.463 2,7 REPLAN Paulínea (SP) 352.230 17,7 REVAP S. José Campos (SP) 226.434 11,4 RPBC Cubatão (SP) 169.825 8,5 REGAP Betim (MG) 150.956 7,6 406.417 20,4 201.274 10,1 3.868 0,2 12.580 0,6 188.695 9,5 Região Sul REPAR Araucária (PR) SIX1 Paraná IPIRANGA Rio Grande do Sul REFAP Canoas (RS) 1 Superintendência da Industrialização do Xisto Fonte: Elaboração própria a partir de ANP. Informado com base na Portaria ANP n.º 28 de 05/02/1999 A figura 4 mostra que tanto a capacidade de refino quanto processamento de petróleo aumentou de 1990 a 1999, principalmente a partir de 1997. Do volume total dos derivados de petróleo produzidos nas refinarias nacionais (figura 5), 35% é de óleo diesel, 20% de gasolina automotiva, 18% de óleo combustível, 11% de nafta e o restante de outros combustíveis – gás liquefeito de petróleo, querosene de aviação, gasolina de aviação e querosene iluminante – e de produtos não energéticos – solventes, parafina, óleo lubrificante, asfalto, coque e outros. 154 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo 2 .5 0 0 P e tró le o P ro ce s s a d o 103 barris/dia 2 .0 0 0 C a p a cid a d e d e P ro ce s s a m e n to 1 .5 0 0 1 .0 0 0 500 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 Ano Fonte: Site Anp, Dados Estatísticos. Figura 4 – Petróleo Processado e Capacidade de Processamento de Petróleo e Condensado nas Refinarias Nacionais G á s L i q u e fe ito d e P e tró le o 8% O u tro s 1 4% G a s o li n a Au to m o tiva 20% Ó le o C o m b u s tíve l 18% Q u e ro s e n e d e Avi a ç ã o 4% N a fta 11% Ó le o D ie s e l 35% Vo lu m e to ta l p r o d u z id o : 3 9 2 .5 0 7 x 1 0 m 3 Fonte: site ANP, dados estatísticos. Figura 5 – Produção de Derivados de Petróleo nas Refinarias Nacionais – 1999 Mesmo apresentando características estruturais de indústria não exportadora, a atividade de refino costuma exportar excedentes, devido a indivisibilidade de suas frações. A exportação de petróleo, derivados e produtos conexos foi de US$ 403 milhões (FOB) em 1999 e de US$ 906 milhões (FOB) em 2000 (fonte: SECEX, MDIC). Das exportações de derivados de petróleo, 40% é de combustível para navios, 35% de óleo combustível, 22 % de gasolina automotiva e 3% de outros derivados energéticos – gasolina de aviação, gás liquefeito de petróleo, querosene de aviação, entre outros – e não energéticos – asfalto, óleo e graxa lubrificantes e outros (figura 6). 155 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo G a s o l i n a Au to m o ti va 22% Ó l e o C o m b u s tíve l 35% O u tr o s 1 3% C o m b u s tíve l p a r a N a vi o s ( b u n k e r ) 40% E x p o r t a ç õ e s t o t a is : 6 .8 6 1 x 1 0 3 m 3 Fonte: site ANP, dados estatísticos Figura 6 – Exportação de Derivados de Petróleo – 1999 Em relação à gasolina para exportação, há uma demanda crescente pela gasolina de melhor qualidade, que atenda a padrões ambientais cada vez mais elevados dos países desenvolvidos, especialmente dos EUA e da Europa. A Petrobras teve dificuldades para colocar sua gasolina no mercado norte-americano em função do Clean Air Act (Tolmasquim et alii, 2000). As atividades de transporte, incluindo as operações em terminais, também foram objeto de monopólio da Petrobras. Com a promulgação da Lei do Petróleo, o acesso de terceiros aos dutos e terminais tornou-se livre, mediante o pagamento dos serviços prestados. A Petrobras criou uma subsidiária, a Petrobras Transporte S.A. – Transpetro85 – , responsável pelo “... transporte e armazenamento de granéis, petróleo, derivados e gás por meio de dutos, terminais ou embarcações próprias e de terceiros e a construção e operação de novos dutos, terminais ou embarcações” (site da Petrobras, 2001). A Transpetro está autorizada a associar-se a outras empresas a fim de realizar suas operações, sendo considerada uma empresa de logística. A Transpetro absorveu a gestão operacional dos 59 navios da Fronape, utlizados para transporte próprio ou para frete. Cabe também a empresa, subsidiária da Petrobras, fretar navios de outras companhias para complementar suas necessidades. São 12.074 km 85 Em janeiro de 2000, a Transpetro incorporou a Frota Nacional de Petroleiros (Fronape), criada em 1949 e passando a ser uma unidade operacional da Petrobras logo após sua criação. A Fronape cresceu com a Petrobras, tornando-se a maior empresa de transporte de petróleo do hemisfério sul. Em maio de 2000, as atividades de operação de dutos e terminais da Petrobras passou também a ser de responsabilidade da Transpetro. 156 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo de dutos e 54 terminais (29 terrestres e 14 marítimos, lacustres ou fluviais, além dos situados em 11 portos comerciais) sob a responsabilidade da Transpetro. A malha de dutos brasileira é composta por uma ampla rede com 12,5 mil km de extensão e 400 unidades em operação. São 110 dutos utilizados para transferência de gás natural e petróleo e 56 para transferência de derivados, água de injeção, aguarrás, álcool etílico, CO2, gás residual, hexano, LGN e solvente. Os outros 234 dutos são utilizados para o transporte de derivados (146), de gás natural (20) e de outros produtos (68), como álcool etílico, asfalto, butano, combustível para navios (bunker), extrato aromático, gás de xisto, gasolina de pirólise, gás residual, H2S, lubrificante, MTBE, óleo básico, parafina, propano, propeno, querosene iluminante e solvente (site ANP, dados estatísticos). Mesmo com a quebra do monopólio, a Petrobras continua sendo a principal empresa deste segmento da cadeia produtiva do petróleo. A distribuição de combustíveis é a única atividade da indústria do petróleo que não fazia parte do monopólio. A figura 7 mostra os percentuais de postos revendedores de combustíveis automotivos por distribuidora. Em 1999 existiam 108 distribuidoras, com um total de 26.660 postos. A Petrobras Distribuidora detinha 25% deste mercado, seguida pela Ipiranga/Atlantic com 20%, a Shell com 13%, a Texaco com 12% e a Esso com 10%. Apesar de ser um mercado constituído por muitas empresas, seis delas dominam o mercado, que possui características de um oligopólio concentrado. B a n d e ir a Bra nc a 6% A g ip 4% O u tr a s 1 10% Es s o 10% P e tr o b r a s D is t r ib u id o r a 25% S h e ll 13% Te xa co 12% Ip ir a n g a / A t la n t ic 20% To ta l d e p o s to s : 2 6 .6 6 0 Fonte: site ANP, dados estatísticos Figura 7 – Postos Revendedores de Combustíveis Automotivos por Distribuidora – 1999 Com a flexibilização do monopólio, esperam-se novas empresas no downstream – por meio de aquisições ou consórcios – e investimentos em ampliação e modernização de 157 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo refinarias, visto o possível aumento da produção dos blocos já concedidos e a demanda por combustíveis de melhor qualidade – com maior redução do teor de enxofre na gasolina e o óleo diesel metropolitano, para redução de quantidade de dióxido de enxofre (SO2) lançada na atmosfera. Até o final de 2001, havia um projeto de instalação de nova refinaria no Brasil, aprovado em 1998 – do grupo alemão Thyssen –, que não tinha iniciado suas operações. Existe a possibilidade de que com o crescimento da economia a partir de 2002 e o aumento da produção de petróleo nacional, a capacidade de refino nacional chegue ao seu limite, colocando o país numa situação de exportador de petróleo bruto e importador de derivados. Logo, são urgentes os investimentos em refino, pois a construção de refinaria é demorada, cerca de dois a três anos, e exige investimentos na ordem de US$ 2 bilhões (Folha Online, 28/10/2001). O investimento no aumento da complexidade, além de permitir processar petróleo de diferentes tipos, “... a médio e longo prazos representam uma enorme vantagem, diante das restrições ambientais cada vez maiores e da alteração nas especificações dos combustíveis” (Tolmasquim et alii, 2000:142). Na área de importação e exportação também espera-se a entrada de companhias estrangeiras, o que pode alterar a estratégia competitiva do parque nacional de refino. A concorrência interna com derivados importados de melhor qualidade e a produção interna com normas de qualidade superiores, visando a exportação e a garantia da rentabilidade das refinarias, são fatores importantes que podem mudar o quadro competitivo. O aumento da produção de petróleo, derivados e gás gera a necessidade de investimentos na rede de transporte e de melhorias na logística das refinarias, a fim de reduzir os custos e aumentar a segurança. Na distribuição, apesar de não ter sido monopólio da União, devem surgir novas empresas, acirrando a concorrência pela qualidade e preço dos produtos (Neves, 2001). 3.3.3 Os fatores determinantes da competitividade internacional da indústria do petróleo A entrada no mercado brasileiro de petróleo de empresas que atuam no mercado internacional, como parte da sua estratégia de expansão, está ligada à concorrência internacional da indústria do petróleo. Furtado e Müller (1993) apontam o controle das reservas de petróleo como o principal fator de competitividade – fator de vantagem para os 158 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo países da OPEP – e, secundariamente, o controle dos mercados consumidores e o domínio de tecnologia – fatores de vantagem competitiva para as majors. Dentre os fatores determinantes da competitividade internos à empresa, os mesmos autores apontam o grande porte – devido ao volume de capitais necessários para investimentos, capacitação tecnológica ao longo da cadeia produtiva e aproveitamento das oportunidades de compra e venda de petróleo e derivados –, destacando a importância da capacitação tecnológica, como já ficou evidenciado no histórico da indústria (item 3.1.). Os principais fatores estruturais que levam ao maior desenvolvimento de uma indústria do petróleo competitiva são: o acesso às reservas ou o mercado consumidor. Um destes dois fatores está sempre presente nas grandes empresas que concorrem em nível mundial. Dentre os fatores sistêmicos da competitividade desta indústria, os principais são os geopolíticos, segundo Furtado e Müller (1993), dada a distribuição desigual das reservas mundiais. A intervenção do Estado nesta indústria é também destacada pelos autores, seja de controle, fiscalização ou de fomento à indústria. Seria importante acrescentar a questão ambiental aos fatores sistêmicos. No começo da década de 90, a questão ambiental foi incluída na agenda política brasileira com a assinatura de dois importantes tratados multilaterais sobre meio ambiente: a Convenção da Biodiversidade (CBD)86 em 1992, ratificada em 1994, e a Convenção da Mudança do Clima87 também em 1992. As implicações sobre a indústria do petróleo são imediatas: a exploração e produção de petróleo e gás natural no Brasil, que possui diversidade biológica ímpar na Amazônia, no Pantanal, na Mata Atlântica, no Cerrado e nos ambientes marinhos88, requerem cuidados específicos; o petróleo é a maior fonte de emissão do CO289, contribuindo com 58%, já descontados os efeitos do desmatamento. 86 A CBD teve 168 signatários no Rio de Janeiro em 5 de junho de 1992. Abrange três aspectos principais: a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes, e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos. 87 A Convenção Quadro sobre Mudança do Clima foi assinada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, em 1992. Centra-se na preocupação de que a crescente concentração de gases do efeito estufa (GEE), resultado das atividades antrópicas, pode resultar no aquecimento da superfície da Terra e da atmosfera, trazendo conseqüências desconhecidas para os ecossistemas e as populações. Objetivos: (i) estabilizar a concentração de GEE na atmosfera num nível que possa evitar uma interferência no sistema climático; (ii) assegurar que a produção alimentar não seja ameaçada e (iii) possibilitar que o desenvolvimento econômico ocorra de forma sustentável. 88 “O Brasil ocupa o primeiro lugar dentre os países detentores de megadiversidade; possui entre 15% e 20% do total de espécies da Terra; dispõe da flora de maior diversidade, com 20% a 22% do número total de espécies de plantas; conta com cerca de 10% dos anfíbios e mamíferos; e 17% das aves do planta” (KRAUSE, Gustavo. Apresentação. In: Seroa da Motta, 1998). 89 Este é um dos principais gases que provocam o efeito estufa, ver capítulo 4. 159 Capítulo 3 – A cadeia produtiva do petróleo Os passivos ambientais das empresas de petróleo também passam a ser importantes na compra de participações nos empreendimentos, pois eles podem ser cobrados posteriormente. Além do mais, a sociedade brasileira vem exercendo maior pressão por práticas menos agressivas ao meio ambiente, uma vez que foram presenciados grandes acidentes na indústria do petróleo – o vazamento da Baía de Guanabara (RJ) em janeiro de 2000; o vazamento em Araucária (PR) em julho de 2000; o afundamento da plataforma de petróleo P-36 na Bacia de Campos em 2001. Esses acidentes resultaram em multas pesadas e perda patrimonial para a Petrobras, mostrando que segurança industrial é importante tanto do ponto de vista patrimonial quanto ambiental. Portanto, a questão ambiental vem ganhando importância dentre os fatores sistêmicos da competitividade da indústria de petróleo, tanto no plano nacional, quanto no internacional. Neste último, as grandes empresas petrolíferas mundiais já se autodenominam “empresas de energia” e investimentos já estão sendo realizados para o desenvolvimento de energias alternativas aos hidrocarbonetos – a British Petroleum e a Shell são pioneiras nesse sentido. Ou seja, para se manterem no mercado no longo prazo, a visão estratégica dessas empresas evidencia que o desenvolvimento de outras formas de energia é fundamental para se obter a vantagem do first mover90. Apesar de o Estado ter tido um papel importante no controle e fomento à indústria do petróleo, descuidou-se da questão ambiental91. Fica evidente também o despreparo dos órgãos ambientais na regulamentação da legislação quando, após a quebra do monopólio, não havia, por exemplo, parâmetros específicos para o descarte de substâncias do processo de exploração e produção de petróleo. Entretanto, o Estado possui um papel fundamental na coordenação das políticas para a indústria do petróleo, incluindo a política ambiental. O aparato regulatório na área de meio ambiente relativo a cadeia do petróleo será analisada no capítulo 4. 90 São vantagens associadas à empresa que toma a iniciativa de desenvolver alguma tecnologia que no futuro será amplamente utilizada. Assim, quando a tecnologia estiver sendo difundida, esta empresa além de dominá-la, realiza ganhos da venda da tecnologia. 91 O relativo descuido do Estado com a questão ambiental no processo de industrialização brasileira é analisado por Young e Lustosa (2001). 160 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Capítulo 4 A CADEIA PRODUTIVA DO PETRÓLEO E O MEIO AMBIENTE 4.1. Problemas Ambientais das Etapas da Cadeia Produtiva do Petróleo Os problemas ambientais identificados a seguir são referentes aos métodos e processos de produção empregados nas etapas da cadeia produtiva do petróleo. As atividades da indústria do petróleo apresentam problemas ambientais em todas as atividades integrantes das etapas da cadeia produtiva. Segundo a Classificação de Atividades Industriais e seu Potencial Poluidor da FEEMA/RJ, a extração de petróleo apresenta alto potencial poluidor em relação ao ar (hidrocarbonetos e dióxido de enxofre) e à água (substâncias tóxicas, como metais pesados, e óleos e graxas). O refino de petróleo também apresenta alto potencial poluidor em relação ao ar (odor, hidrocarbonetos, óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre, partículas em suspensão) e à água (demanda bioquímica de oxigênio, substâncias tóxicas, óleos e graxas). Os impactos ambientais negativos, de maneira geral, aumentam na medida em que as etapas da cadeia produtiva tornam-se mais complexas, devido ao tipo de atividade, ao porte dos equipamentos, à natureza dos materiais empregados e ao tempo de permanência nos locais de operação (Souza Jr., 1991). Os problemas ambientais começam na instalação das atividades, estando presentes inclusive no fechamento das mesmas, como no caso de descomissionamento de poços de petróleo. As atividades da indústria do petróleo geram emissões – inerentes às operações normais do upstream e do downstream –, que com o aumento da escala de produção, aliado à cumulatividade, agrava o problema da poluição, gerando efeitos de curto e longo prazos. Além destas emissões, a cadeia produtiva do petróleo possui grandes riscos de acidentes industriais. Assim, além de alto potencial poluidor, a cadeia do petróleo também apresenta alto potencial de risco. Primeiramente, serão apresentados os principais impactos ambientais das atividades básicas (upstream e downstream), em seguida das atividades secundárias (transporte, armazenamento e distribuição) e dos acidentes industriais. Entretanto, os problemas ambientais podem variar em grau e tipo, segundo a localização da atividade. A exploração 161 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente e produção de petróleo na região Amazônica92, por exemplo, apresenta especificidades, dado as características próprias de seus ecossistemas. Serão excluídos os impactos ambientais das cadeias produtivas interligadas à do petróleo, por não serem o objeto de estudo e porque as regulamentações ambientais estudadas são referentes à indústria do petróleo. Porém, não significa que uma regulamentação em qualquer dessas cadeias que se interligam com a do petróleo não possa atingi-la e vice-versa. Por fim, faz-se uma breve referência ao consumo de petróleo (e seus derivados) enquanto fonte de poluição. 4.1.1 O upstream As principais etapas da Exploração e Produção (E&P) podem ser dividas em exploração, perfuração e produção. Os impactos ambientais são diferenciados se a E&P ocorre em terra (onshore) ou no mar (offshore). Na etapa de exploração, as atividades sísmicas onshore implicam em desmatamentos para a abertura das linhas sísmicas, que são de grande extensão, em torno de 0,1 a 0,2 hectares (Souza Jr., 1991). Em geral, se esses desmatamentos não forem seguidos de outras agressões ao ambiente, há uma tendência à regeneração das matas, que não reverte ao seu estado anterior, com uma vegetação mais rasteira. A perda de biodiversidade subjacente a essa atividade não é avaliada, mas certamente ocorre mesmo com a recuperação parcial da mata. Em alguns casos de levantamento sísmico, são utilizadas cargas explosivas, que têm de ser recolhidas se não tiverem sido detonadas, pois podem causar acidentes posteriores. Na sísmica offshore há impactos sobre a pesca, pois o movimento dos barcos nas linhas sísmicas – com 2,5 km de extensão em águas rasas e 6 km em águas profundas – pode afugentar os cardumes e os cabos podem atingir equipamentos de pesca. O air gun pode desorientar os mamíferos marinhos, além da possibilidade de rompimento da bexiga natatória dos peixes e provocar impactos com o golpe de ar sobre as aves que mergulham entre as linhas sísmicas para capturar peixes (Brasil Energia, no 230, jan/2000:35). Na atividade de perfuração, os impactos ambientais são mais significativos que na etapa de exploração, pois se utilizam equipamentos mais complexos e substâncias químicas, que geram resíduos tóxicos. O primeiro impacto da perfuração onshore está na 92 Ver Souza Jr. (1991) para os impactos ambientais na região Amazônica e Gouvêa (1994) para os impactos ambientais na bacia de Campos. 162 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente montagem da infra-estrutura para instalação da sonda. Na Amazônia, por exemplo, é necessário abrir uma clareira de cerca de 125.000 m2 na mata para ter segurança em relação à montagem e desmontagem das sondas e para o movimento dos helicópteros (Souza Jr., 1991). Essa clareira, em geral, não se recompõe devido a diferentes formas de agressão sofridas – compactação do solo para dar estabilidade ao equipamento; movimentação contínua de pessoal e máquinas; descartes e vazamentos de fluídos diversos para a terra e a utilização de fluido de perfuração. O fluido de perfuração é necessário para viabilizar e otimizar a abertura de poços, mas sua composição varia em quantidade e qualidade em função das condições geológicas específicas a cada poço perfurado. Os fluidos de perfuração podem ser de três tipos: a base de água, a base de óleo e os gasosos ou aerados, possuindo toxidades diferentes. Os diques de contenção são construídos em áreas vizinhas à sonda antes do início da perfuração do poço para receber os fluidos descartados (de perfuração e de completação), os cascalhos retirados pelos equipamentos de controle de sólidos e as águas utilizadas para limpeza dos componentes da sonda. Eles recebem estes rejeitos até o final da perfuração, acumulando-os progressivamente. Logo, em não havendo estudos adequados sobre a permeabilidade dos solos e o comportamento dos lençóis freáticos no local em que os diques são construídos, há risco de contaminação pelas substâncias poluentes neles depositadas. Os transbordamentos dos diques podem ocorrer caso haja elevação da precipitação pluviométrica, contaminando a região com substâncias tóxicas sem tratamento adequado para o descarte. Normalmente, algum tipo de tratamento é dado ao material descartado e a parte líquida resultante é lançada no meio ambiente, restando um tipo de borra. Quando não é mais necessário, o dique é aterrado. Há também o “sistema fechado de circulação” para a perfuração de poços, que minimiza a quantidade de rejeitos e o descarte de fluidos, tornando menores os volumes lançados nos diques de contenção e mais fácil o acondicionamento dos resíduos sólidos (Souza Jr., 1991). Este sistema é um exemplo de inovação ambiental, na medida em que diminui a quantidade de poluentes gerados na atividade e, possivelmente, resultando em menores agressões ao meio ambiente. Na perfuração de poços offshore, os impactos no ambiente marinho do fluido de perfuração dependem do seu nível de toxidade e da reação do ecossistema a esses diferentes níveis. Parâmetros que servem para um determinado ecossistema podem não ser 163 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente válidos para outros. A depender do nível de pressão do reservatório, há o risco de blow-out, acarretando vazamentos de óleo no mar. Na produção onshore, quando ela é realizada em áreas de florestas, como na Amazônia, a primeira conseqüência ambiental é o desmatamento para a instalação dos equipamentos e da equipe de trabalho, que em parte já ocorreu na etapa de perfuração. O desmatamento pode levar a lixiviação do solo e o assoreamento dos corpos d’água. A água de produção pode ser um grande problema ambiental. Esta água – que contem sais, gases dissolvidos (CO, CO2, H2S), metais pesados93 e gotículas de óleo e graxa, e alto teor de salinidade – é proveniente do aquífero associado ao petróleo e ao gás. A quantidade de água extraída do poço cresce juntamente com sua produção, sendo que os poços de gás produzem menos água que os de petróleo (Gouvêa, 1994). Quando lançada na terra ou nos corpos d’água terrestres, contamina as águas superficiais e subterrâneas, comprometendo o abastecimento de água. Pode também destruir matas e solos, pelo alto teor de salinidade, entre outros fatores. Na produção offshore, por meio de plataformas fixas, a instalação da estrutura metálica – jaqueta e módulos onde se instalam as facilidades da produção – não apresentam impactos ambientais significativos. A jaqueta é colocada e fixada sobre os poços já perfurados e a instalação dos módulos sobre a jaqueta é feita com um navioguindaste, com impactos desprezíveis. Na fase de operação, a água de produção lançada no mar é um dos maiores problemas ambientais. Quando lançada nas zonas costeira e de pesca, os poluentes tóxicos dessa água afetam a vida dos organismos marinhos, como os moluscos que agem como “filtros”, retendo substâncias tóxicas e, consequentemente, afetando a saúde humana quando consumidos. Não se sabe os impactos ambientais exatos do lançamento da água de produção em águas profundas. A reinjeção da água de produção de volta aos reservatórios é uma possível solução, porém a quantidade de água gerada é maior do a quantidade possível de ser reinjetada. Há também a possibilidade de tratamento desta água antes de lançada no mar ou nos corpos hídricos, porém como os elementos poluentes encontrados nas águas variam sua concentração, diferentes tipos de tratamento devem ser utilizados. 93 Os metais pesados encontrados na água de produção são: bário (maiores concentrações), mercúrio, arsênico, selênio, sulfetos, rádio 226 e o estrôncio 90 (estes dois últimos são radioativos). 164 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Existe a possibilidade de extrair ao máximo o óleo bruto contido na água que é jogada no mar e levá-lo para o refino (Gouvêa, 1994). 4.1.2 O refino O refino de petróleo é realizado em grandes unidades industriais, muitas vezes localizadas próximas de centros urbanos, gerando externalidades negativas no seu entorno. A emissão de poluentes na atmosfera, nos corpos hídricos e a inadequada disposição dos resíduos sólidos, constituem os principais problemas ambientais desta atividade. Por ser um processo industrial altamente complexo, envolvendo diversas etapas produtivas, os principais poluentes resultantes do refino estão descritos a seguir, não sendo objetivo fazer uma análise detalhada sobre o tema94. Os processos industriais do refino são considerados poluidores da atmosfera, sendo os principais poluentes emitidos “... os óxidos de enxofre e nitrogênio, o monóxido de carbono, os materiais particulados, e os hidrocarbonetos (que geralmente constituem as emissões fugitivas de compostos orgânicos voláteis, os VOC’s). Tais poluentes são liberados nas áreas de armazenamento (tancagem), nas unidades de processo, nos eventuais vazamentos e nas unidades de queima de combustíveis fósseis (fornos e caldeiras) que geram calor e energia para o consumo da própria refinaria” (Mariano, 2001:62). Os odores desagradáveis vindos das refinarias são resultantes destas emissões, causando mal-estar às populações circunvizinhas. Nos diversos processos da atividade de refino, é utilizada uma grande quantidade de água, principalmente para resfriamento e geração de vapor nas caldeiras, resultando em diversos e diferentes efluentes líquidos em função do tipo de petróleo processado, da complexidade das refinarias e da forma de operação das suas unidades. São comumente encontrados nos efluentes líquidos das refinarias: óleos, compostos orgânicos sulfurados, compostos orgânicos nitrogenados, ácidos naftênicos, ácidos minerais, sais inorgânicos, fenóis, fenilatos, lamas ácidas, partículas diversas em suspensão, entre outros (Mariano, 2001). Estas substâncias apresentam grande toxidade, com efeitos pouco conhecidos sobre o meio aquático. 94 Ver Mariano (2001) para uma descrição detalhada das etapas do processo de refino e seus respectivos impactos ambientais. 165 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Também resultam das atividades de refino os resíduos sólidos, que também variam de acordo com o tipo de petróleo processado e a complexidade da refinaria. Estes resíduos podem ser lamas oriundas de diversos processos, sedimentos dos fundos dos tanques de armazenamento de cru e derivados, borras oleosas, argilas de tratamento e sólidos emulsionados em óleo. “Os constituintes típicos (destes resíduos) incluem elementos químicos tóxicos tais como arsênio, cádmio, cromo, chumbo, bário, mercúrio, selênio e prata, compostos orgânicos ..., hidrocarbonetos halogenados e poliaromáticos, ... amônia e ácido sulfídrico” (Mariano, 2001:125). Estes componentes possuem níveis de toxidade elevada, necessitando de destinação adequada para evitar danos ambientais. As estimativas de emissões ligadas às atividades rotineiras do refino de petróleo foram calculadas a partir da Industrial Pollution Projection System (IPPS), uma base de dados desenvolvida pelo Banco Mundial95, que auxilia na estimativa da carga de poluição de setores industriais para países que não possuem base de cálculo própria. Estas estimativas foram calculadas por Young et alii (2000) para poluentes da água e do ar – utilizando as contas nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e os coeficientes do IPPS por valor da produção – e por Lustosa (1999) para poluentes do ar – utilizando os dados de emprego de 1990 da Pesquisa Industrial Anual (PIA) pelo IBGE e os coeficientes do IPPS por unidade de emprego. O IPPS considera somente a indústria de transformação, excluindo a extrativa. Assim, não foi possível obter estimativas de emissões para as atividades do upstream e nem para outras atividades do downstream consideradas como serviços – transporte e armazenamento, e distribuição. A base de dados IPPS é útil para estimar a carga de emissão setorial relativa a: ar (dióxido de enxofre – SO2 –, dióxido de nitrogênio – NO2 –, monóxido de carbono – CO –, compostos orgânicos voláteis – COV –, partículas finas – PF – e partículas suspensas totais – PST); água (demanda bioquímica de oxigênio – DBO – e sólidos suspensos totais – SST). 95 O IPPS avalia a intensidade da poluição setorial, segundo a classificação ISIC 4 revisão 3, definindo-a como quantidade de poluente por unidade de valor da produção, por unidade de valor agregado ou por unidade de emprego. Essas estimativas foram feitas com base em dados de produção e emissão de 200 mil fábricas nos Estados Unidos no ano de 1987. Para maiores informações sobre a metodologia do IPPS, ver HETTIGE, H., MARTIN, P., SINGH, M., WHEELER, D. IPPS - The industrial pollution projection system. Washington, DC:Banco Mundial, 1994, download do site: http://www.worldbank.org/nipr. 166 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente A tabela 36 mostra as emissões estimadas para o refino e petroquímica, segundo o tipo de poluente e sua posição em relação aos outros setores da indústria de transformação, calculados por Young et alii, 2000, para o ano de 199696. A agregação das contas nacionais não permite separar o refino de petróleo da petroquímica (setor 18, na classificação nível 80 do IBGE). Como a cadeia do petróleo é a base da petroquímica, a quantidade de emissões calculadas para o refino estão superestimadas, entretanto, pode-se ver o impacto da cadeia e um de seus encadeamentos para frente. Tabela 36 – Emissões estimadas para o refino de petróleo e indústria petroquímica, segundo poluentes da água e do ar – 1996 Tipo de Poluente Da água Do Ar DBO SST SO2 NO2 CO COV PF PST Quantidade (toneladas) 1.986 8.944 143.024 109.694 71.776 88.110 1.638 17.990 Posição (em 28 setores) 6 7 1 1 3 1 6 4 % emissão total da indústria transformação 3,1 0,6 25,0 35,5 13,9 41,4 1,7 11,5 Fonte: Young et alii (2000) Fica evidente o potencial poluidor do refino do petróleo e seu encadeamento para petroquímica, podendo ser considerado como etapas potencialmente poluidoras. Em relação aos poluentes do ar, o refino e a petroquímica aparecem como os maiores emissores potenciais de SO2, NO2 e COV, com participações no total estimado da indústria de transformação acima de 25%. As estimativas para CO e PST também são significativas, respondendo por mais de 10% do total estimado para cada um desses poluentes. Em relação aos poluentes da água, as estimativas não se mostram significativas em relação ao total estimado para a indústria de transformação. As atividades de refino e a indústria petroquímica podem ser consideradas, portanto, como grandes poluidores potenciais do ar – principalmente de SO2, NO2 e COV. A tabela 37 mostra as estimativas de Lustosa (1999), utilizando os coeficientes de emissões de poluentes do ar por unidade de emprego do IPPS e os dados relativos ao 96 São calculadas as estimativas para os anos de 1985 e 1990 a 1996. Somente serão apresentadas as estimativas para o ano de 1996, por ser o mais recente. 167 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente emprego setorial de acordo com a PIA/IBGE de 1990. Utilizado uma classificação setorial mais desagregada, foram obtidas estimativas de emissões atmosféricas para o refino do petróleo para o ano de 1990. Tabela 37 – Emissões estimadas para o refino de petróleo, segundo poluentes do ar – 1996 Tipo de Poluente SO2 NO2 CO COV PF PST Quantidade (toneladas) 141.242 81.248 73.374 74.779 1.426 12.461 Posição (em 60 setores) 4 1 5 1 11 11 % emissão total da indústria transformação 13,7 14,4 7,4 18,1 0,6 3,2 Fonte: Lustosa (1999). O refino de petróleo apresenta-se como um poluidor potencial do ar, principalmente de SO2, NO2 e COV, sendo responsável por cerca 14% para os dois primeiros e 18% para o último poluente, do total de emissões estimadas para a indústria de transformação, divida em 60 setores industriais. As emissões de CO e PST são importantes, porém menos significativas, com 7,4% e 3,2% do total de emissões. Estas estimativas de quantidades de poluentes não podem ser comparadas com as estimativas de Young et alii (2000), pois além de utilizar coeficientes de bases diferentes – um por unidade de valor da produção e outro por unidade de emprego –, o primeiro exercício apresentado inclui também a petroquímica. Entretanto, reforça a evidência de que o refino de petróleo é um importante poluidor potencial da atmosfera, principalmente para SO2, NO2 e COV. Assim, qualquer política ambiental que vise reduzir a quantidade de um desses poluentes na atmosfera deve-se concentrar sobre o refino de petróleo e outros setores97 intensivos na emissão desses poluentes. Ou seja, uma política direcionada para poucos setores – os grandes emissores – é possível obter ganhos ambientais significativos, sem impor regulamentações desnecessárias para os setores que são emissores marginais. 97 Para SO2, por exemplo, a Metalurgia de não ferrosos, a Fabricação cimento e clínquer, a Siderurgia e o Refino de petróleo são responsáveis por mais de 64% das emissões estimadas. Para outros poluentes do ar ver Lustosa (1999c). 168 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente 4.1.3. As atividades secundárias Em relação aos terminais marítimos, os problemas ambientais mais freqüentes das operações normais são: “emissões fugitivas (perdas não contínuas de combustíveis) em suspiros de tanques e bombas; descarte de resíduos em época de manutenção dos tanques e em período de drenagem dos óleos, quando a água retirada do petróleo é jogada no mar” (Gebig será o primeiro terminal certificado, Brasil Energia, no 230, jan/2000:35). As importações de petróleo são basicamente realizadas por transporte marítimo, sendo observados tanto o aumento da frota de petroleiros como a capacidade de transporte dos mesmos. Em 1954 existiam no mundo 3.500 petroleiros, com capacidade total de 37 milhões de toneladas, e em 1978 esses números aumentaram para 7.000 e 350 milhões, respectivamente (Unep, 1981 apud La Rovere, 1996). Esse fato evidencia o aumento potencial dos danos ambientais, pois o transporte de petróleo por navios gera impactos ambientais em sua operação normal98 – responsáveis por cerca de 35% do total de descarga de petróleo nos oceanos (La Rovere, 1996). A evaporação dos hidrocarbonetos no transporte de petróleo e derivados passou a ser, também, uma fonte de contaminação. Os petroleiros, após a descarga de petróleo, enchem seus depósitos com água do mar a fim de manter a estabilidade. Essa água é misturada aos resíduos de óleo remanescentes nos tanques dos navios – cerca de 4% da carga total –, e quando é lançada no mar novamente nos portos de recarga, deliberadamente despeja petróleo no mar. Em casos de petroleiros com capacidade de transporte de 200 mil toneladas de petróleo, estes tipos de despejo são de aproximadamente 8 mil toneladas, sendo maiores para os que possuem maior capacidade de transporte (Gouvêa, 1994). Na produção offshore, a instalação de dutos submarinos para transporte do óleo causa impactos na flora e fauna marítimas, não apresentando problemas ambientais em sua operação normal. Entretanto, estão sujeitos a acidentes por falha humana ou do próprio equipamento. Para a Bacia de Campos (RJ), as análises de risco consideraram os vazamentos de óleo e o blow-out dos poços de produção os eventos mais críticos. O transporte terrestre, seja por dutos terrestres, por via rodoviária ou fluvial, também está sujeito a acidentes por erro de elaboração de projeto, falha humana ou do equipamento em suas operações rotineiras. 98 O transporte fluvial, além dos impactos Os acidentes no transporte serão tratados no próximo item. 169 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente inerentes ao transporte de qualquer produto, os vazamentos de óleo podem provocar danos ambientais ainda mais graves. 4.1.4. Os acidentes Os acidentes industriais podem ocorrer nas atividades de Exploração e Produção, no Transporte e Armazenamento, e no Refino: incêndios, explosões e liberações tóxicas nos poços, nas áreas de tancagem de petróleo e derivados, nas unidades de refino, como, por exemplo, o vazamento de dutos e navios, explosões de poços e tanques, e incêndio nas unidades de refino. Os acidentes industriais podem provocar danos ambientais significativos, com grande repercussão na mídia, passando uma imagem negativa da indústria do petróleo perante a sociedade. Na produção offshore, os maiores riscos de acidentes ambientais estão na transferência do petróleo das plataformas para os navios. Essa transferência pode ser feita por meio de mangotes (no mar) ou de dutos (em terra), onde existe a possibilidade de vazamentos (Brasil Energia, no 230, jan/2000:35). Mesmo que estes sejam pequenos, ainda não há estudos suficientes sobre seus impactos de longo prazo sobre os ecossistemas marítimos, como manguezais e estuários. As estimativas da quantidade de petróleo lançada anualmente nos oceanos é de cerca de 4 milhões de toneladas, “... decorrente de acidentes com petroleiros, limpeza de tanques, transferência de óleo de um navio a outro, colisões de navios e atividades petrolíferas na plataforma submarina” (Gouvêa, 1994:27). No Brasil foram registrados diversos acidentes na indústria do petróleo. Os acidentes ocorrem na Petrobras desde sua criação. Em 1957, um incêndio antes da inauguração da refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP), deixou três pessoas feridas. Em março de 1975, um petroleiro fretado pela empresa derrama 6 mil toneladas de óleo na Baía de Guanabara (RJ), causando grande dano ambiental. Cinco anos mais tarde, um incêndio na plataforma de Garoupa interrompe a produção por seis meses (O Estado de São Paulo, 16/03/2001). Em 1984, a tragédia de Vila Socó, em Cubatão, matou 93 pessoas nos barracos que foram construídos num mangue, sob o qual passavam dutos da Petrobrás. No mesmo ano, uma explosão causada por vazamento de gás, na plataforma Enchova, causou 37 mortes. Nos anos seguintes, novas explosões ocorreram em plataformas da Petrobrás: Zapata, 170 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Pampo, Enchova e Pargo I. Em 1994, 2,7 milhões de litros de óleo vazaram de um terminal em São Sebastião (SP) e 18 praias foram atingidas (O Estado de São Paulo, 16/03/2001). Em janeiro de 2000, o rompimento do duto que ligava a Refinaria de Duque de Caxias ao terminal da Ilha D'água, na Baía de Guanabra (RJ), provocou um vazamento de 1,29 milhão de toneladas de óleo e uma mancha de cerca 4 km² no espelho d´água de 38 km², atingindo 8 km de praias na Baixada Fluminense. Este mesmo duto já havia rompido em 1997, apesar de ter sido utilizado apenas 10 de seus 40 anos de vida útil (Gazeta Mercantil/Página A8, 20 e 21/01/2000). A multa lavrada pela Ibama foi de R$ 51 milhões e como foi paga antecipadamente, obteve um desconto de 30% – o saldo foi depositado em um fundo para recuperação da Baía de Guanabara. O governo do Rio de Janeiro também lavrou uma multa de R$ 95 mil, que foi posteriormente retirada99. A despesa com campanha publicitária, para melhorar a imagem da empresa, foi além de R$ 1 milhão (Gazeta Mercantil, 09/02/2000). Mesmo com a maior multa ambiental aplicada até então, “... a maior parte dos profissionais mantém as projeções sobre os números de seu balanço (da Petrobras), por considerar os gastos decorrentes do acidente pouco significativo frente às receitas projetadas. De janeiro a setembro de 1999, a receita líquida da estatal foi de R$ 17,3 bilhões” (Gazeta Mercantil, 09/02/2000, grifo meu). O acidente da Baía de Guanabara foi um marco, tanto para os órgãos ambientais quanto para a Petrobras. Após o acidente, a Petrobras reviu sua política de proteção ambiental, na qual eram investidos por ano R$ 200 milhões (Gazeta Mercantil/Página A6, 24/01/2000). Após esse vazamento de óleo na Baía de Guanabara, outros foram registrados pela imprensa. Em 10 de junho de 2000, ocorreu um acidente durante o bombeamento de petróleo bruto de um navio, ancorado no terminal da refinaria de Manguinhos, na Baía de Guanabara. A refinaria foi autuada pela FEEMA, apesar de não ter sido registrado dano ambiental (Gazeta Mercantil, 29/06/2000). Em 26 de junho deste mesmo ano, devido a uma falha no sistema de transporte de um navio da Transpetro, ocorreu um derramamento de 380 mil litros de óleo no entorno da Ilha do Governador – mais um na Baía de Guanabara –, provocando um mancha de um quilômetro de extensão no espelho d’água. A Petrobras foi multada pela Prefeitura do Rio 99 Depois do acidente da Baía de Guanabara, o governo do Estado do Rio de Janeiro propôs uma lei de sanções administrativas que possibilitou a cobrança de multas por danos ambientais de até R$ 50 milhões. 171 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente de Janeiro em R$ 500 mil e pela FEEMA em R$ 50 milhões, por ser reincidente no não cumprimento à legislação ambiental (Gazeta Mercantil/Página A8, 29/06/2000). Em julho de 2000, o vazamento do duto que abastece a refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (PR), derramou 3,9 milhões de litros de petróleo cru nos rios Barigüi e Iguaçú. Este foi o sétimo acidente verificado em instalações da Petrobras – entre vazamentos em dutos e navios, além de falhas operacionais em refinarias – até julho de 2000, de acordo com a presidente do Ibama à época (Gazeta Mercantil/Página A5, 19 e 21/072000). Neste caso, o IBAMA triplicou o valor da multa por causa da reincidência, enquadrando a empresa em três artigos da Lei de Crimes Ambientais: a principal penalidade, de R$ 50 milhões, foi pela poluição de um rio federal (Iguaçu), mas como a empresa já havia poluído a Baía da Guanabara, a multa elevou-se a R$ 150 milhões. Os danos causados à fauna da baía agravaram aqueles provocados no rio e a multa de R$ 1 milhão passou a R$ 3 milhões. O prejuízo à área de preservação, que teve 150 hectares danificados, rendeu outra multa de R$ 15 milhões. A multa total foi de R$ 168 milhões. Além da pesada multa, foram gastos cerca de R$ 14 milhões para retirar o óleo do rio Iguaçu e da refinaria, segundo cálculos da Associação dos Empresários da Cidade Industrial de Araucária, com base na movimentação financeira provocada pelo aluguel de equipamentos e na contratação de mão-de-obra terceirizada para executar a remoção do óleo. (Gazeta Mercantil/Página A8, 02/08/2000). Estima-se que de janeiro a agosto de 2000, a Petrobras esteve envolvida em dez acidentes de diferentes causas e dimensões, com valor total das multas ultrapassando R$ 300 milhões. Dentre eles, além dos rompimentos dos dutos na Baía de Guanabara e em Araucária, estão o vazamento de óleo de um navio prestador de serviços para a Transpetro, também na baía, em junho; um incêndio e um vazamento de propeno na Refinaria de Duque de Caxias, ambos em fevereiro; e outro no duto que liga a Refinaria de Cubatão ao Planalto Paulista, também em janeiro. (Gazeta Mercantil/Página A8, 03/08/2000). Este valor das multas pode estar superestimado, pois houve descontos quando do pagamento da algumas multas e a empresa entrou com recurso judicial para a suspensão de outras. Como a empresa não divulgou o valor total da multas efetivamente pagas, não foi possível verificar qual o valor delas em relação ao total de recursos destinados ao meio ambiente – que em 2000 foi de R$ 200 milhões. Este valor incluía os programas sociais de 172 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente cunho ambiental, como o Projeto Tamar, as Baleia Jubarte e os programas de educação ambiental em diversas comunidades, que não estão associados a investimentos ambientais na atividade central da empresa. Após o vazamento de Araucária, outros pequenos acidentes foram registrados no mesmo ano. Em agosto, por problemas no bombeamento, o navio-tanque Cantagalo da Petrobras derramou 4 mil litros de petróleo bruto no porto de Angra dos Reis. Esta foi a terceira vez em um mês que ocorreu vazaemento de óleo por navio no estado do Rio de Janeiro (Gazeta Mercantil, 01/08/2000). Em outubro, outro vazamento de óleo de um navio da Petrobras provocou um mancha de 20 mil m2 no espelho d’água da Baía de Guanabara, perto da ponte Rio-Niterói (Gazeta Mercantil, Fim de Semana/Página 4, 06/10/2000). Em março de 2001, a plataforma P-36 da Petrobras, considerada a maior plataforma móvel do mundo, afundou na Bacia de Campos (RJ), provocando sérios danos. Além da morte de onze trabalhadores, cerca de 1,2 milhão de litros de óleo diesel e 340 mil litros de petróleo contidos na plataforma começaram a vazar, provocando duas manchas de cerca de 8 km de extensão. O prejuízo estimado foi de US$ 535 milhões, sem contar com indenizações, despoluição do local e a queda na produção (O Globo, 20/03/2001). Os boletins emitidos nos três dias que antecederam o acidente indicavam defeitos em peças da plataforma, como entupimento de válvula de sistema de ventilação e uma pressurização anormal nos equipamentos (O Estado de São Paulo, 24/06/2001). Este acidente resultou numa indenização de R$ 500 milhões, dado como perda total, sendo considerado o maior sinistro no mercado de seguros do país Mercantil/Página A5, 16/03/2001). (Gazeta Os acidentes da Petrobras fizeram o custo de contratação de seguro contra perda de equipamentos em plataformas, refinarias, dutos e terminais da empresa subir quase 600%. O afundamento da P-36 contribuiu para o aumento, mas houve uma tendência de elevação do preço internacional dos seguros, pois o último ano foi marcado por sinistros no setor de petróleo em todo o mundo (O Estado de São Paulo, 29/03/2001). No mês seguinte ao acidente da P-36, outra plataforma da Petrobras, a P-7, provocou um vazamento de 26 mil litros de petróleo no Campo de Bicudo (Bacia de Campos), devido a um descontrole de produção em um dos dutos que recolhiam o óleo do fundo do mar – estágio anterior ao “blow out”. Mais uma vez, as ações da empresa caíram 173 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente na Bolsa de Valores de São Paulo, nem tanto pelas proporções do vazemento, mas pela imagem negativa da emrpesa (O Estado de São Paulo, 13/04/2001). O IBAMA multou a Petrobras em R$ 20 milhões pelos danos ambientais causados pelas plataformas P-36 e P-7 (Reuters, 20/04/2001). Antes do acidente de P-7, no final de março de 2001, dez mil litros de resíduos de gasóleo vazaram de um dos dutos da Refinaria Landulpho Alves, na região metropolitana de Salvador. Este resíduo inflamável estava aquecido quando era bombeado da refinaria para uma unidade de dragagem. Como se solidificou no solo em contato com o meio ambiente, evitou que ocorressem maiores danos ecológicos (Agência Estado, 27/03/2001). O acidente com o navio Norma, em outubro de 2001, derramou 392 mil litros de nafta na Baía de Paranaguá (PR) após a colisão com uma pedra submersa. Foi registrada a morte de um mergulhador que trabalhava na operação de segurança. O porto de Paranaguá ficou interditado e posteriormente funcionando em estado de alerta por causa do risco de explosão do navio, sendo estimados prejuízos diários de R$ 500 mil enquanto não fossem retirados todos os derivados contidos no navio. Foram mobilizados cerca de 400 técnicos para normalizar a situação e 50 embarcações para eventuais acidentes (Agência Estado, Gazeta Mercantil em 19/10/2001; Comitê de Coordenação Petrobras/ Transpetro e Coordenação Estadual de Defesa Civil do Paraná em 20/10/2001 e Gazeta Mercantil em 23/10/2001). Em novembro de 2001, uma rachadura no duto da refinaria de Maguinhos provocou um vazamento de 100 mil litros de petróleo bruto na Baía de Guanabara, provocando uma mancha de 2 km de diâmetro no espelho d’água. Este foi considerado o maior vazamento desde o acidente com o duto da Petrobras em janeiro de 2000 (Jornal do Brasil, 24/11/2001). Os acidentes nas operações da Petrobras são mais freqüentes, dada sua participação majoritária na indústria do petróleo. Apesar de terem sido relatados os principais e mais recentes acidentes de vazamento de petróleo ocorridos no Brasil, estes possuem caráter ilustrativo, não pretendendo ser um inventário dos acidentes no país. Existem registros de vazamentos de petróleo e derivados no mundo inteiro100, revelando que estes não ocorrem somente na indústria petrolífera brasileira. 100 Ver site no National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) os relatórios e publicações de estudos de caso sobre vazamento de petróleo (http://response.restoration.noaa.gov/oilaids/reports.html). 174 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Os altos valores das multas, das indenizações e dos gastos com despoluição mostram que são elevados os custos financeiros associados aos acidentes na indústria do petróleo, sem incluir os danos ambientais, as mortes de trabalhadores, as perdas patrimoniais, entre outros. Os custos, financeiro e outros de difícil valoração, dos danos podem ser maiores que os da prevenção. Portanto, nem todo gasto deve ser considerado como custo nas questões de segurança e meio ambiente na indústria do petróleo, podendo ser considerado como investimento (ver capítulo 1), pois além de serem ativos da empresa, evitam danos que levam a custos efetivos. 4.1.5 O consumo do petróleo enquanto fonte de poluição Os problemas ambientais acima apresentados são referentes aos métodos e processos de produção das etapas da cadeia produtiva do petróleo. Entretanto, o consumo de petróleo e seus derivados como fonte energética também é responsável por graves problemas ambientais. A utilização de petróleo como fonte de energia primária apresenta grande participação no balanço energético de diversos países (ver tabela 38) – no caso brasileiro, 41,2%. Ou seja, o problema da escassez futura de petróleo, adiado graças à evolução tecnológica que permitiu a eficiência energética e a descoberta de novas reservas, perde importância para o problema da poluição, que pode ter conseqüências de curto e longo prazos. Tabela 38 – Balanço energético de países selecionados – 1999 Países \ Fontes Petróleo EUA 39,5 China 20,5 França 37,6 Rússia 22,1 Brasil 41,2 Fonte: Neves (2001) Gás Natural 26,6 1,9 12,8 51,3 3,6 Carvão Hidroeletricidade 24,6 1,4 75,4 2,2 5,4 2,4 19,5 2,3 6,7 47,6 Nuclear 8,0 41,8 4,8 0,8 Os problemas de poluição gerados pela queima de combustíveis fósseis (derivados do petróleo, gás natural e carvão) advêm de diversos poluentes – material particulado, CO, SOx, NOx, compostos orgânicos, traços de metais, radionuclídeos, além de CO2. As emissões destes poluentes variam de acordo com o tipo e a composição do combustível utilizado, além das tecnologias utilizadas para reduzi-las. De qualquer forma, esses poluentes “... contribuem para o agravamento de três problemas interligados de poluição 175 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente atmosférica, justamente os mais significativos em termos de riscos ambientais e globais: a contaminação do ar em zonas industriais e urbanas, a acidificação do meio ambiente e o aquecimento global da atmosfera” (La Rovere, 1996:22 ). Um dos principais efeitos de longo prazo da poluição atmosférica é o aquecimento global do planeta – também conhecido como efeito estufa. Este é um fenômeno natural, que ocorre pelo aumento da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera101, mas que tem sido acelerado pelas ações antrópicas102. A emissão de CO2 é um dos maiores alvos de preocupação, dado que seu tempo de decaimento é de 140 anos. A tabela 39 mostra as fontes e os setores responsáveis pela emissão de CO2 no Brasil (inventário com base em 1990), sem considerar o desmatamento, que é a maior fonte contribuinte do país. Tabela 39 – Fontes e setores responsáveis pela emissão de CO2 – Brasil – 1990 Fonte de emissão de CO2 (1990) % Setores Responsáveis (1990) % Petróleo 58 Indústria 38 Queima de madeira 16 Transportes 33 Coque 12 Residencial 10 Carvão 10 Agricultura e Agropecuária 7 Gás natural 4 Transformação de energia 6 - Outros 6 Total 100 Total 100 Fonte: The CDM in Brazil Options and Opportunities - Prof. José Goldemberg – USP, apud BNDES/MCT, 1999. O petróleo é responsável por 58% das emissões de CO2 e a indústria e transporte juntos por 70% no Brasil – o modelo de transporte adotado no país é fortemente baseado no transporte rodoviário, tanto para cargas quanto para passageiros, que utiliza derivados do petróleo como combustíveis. Portanto, as questões ambientais relativas à indústria do petróleo abrangem diversos aspectos: os impactos negativos sobre ecossistemas, quando da instalação das atividades; as emissões rotineiras, que provocam poluição com 101 Os principais gases do efeito estufa são: Vapor d’água (H20); Ozônio (O3); Dióxido de carbono (CO2); Metano (CH4 ); Óxido Nitroso (N20); Clorofluorcarbonos (CFCs); Hidrofluorcarbonos (HFCs). Perfluorcarbonos (PFCs). 102 Há uma controvérsia científica quanto à influência das atividades econômicas sobre o efeito estufa. “A partir dos dados disponíveis até 1990 e da tendência de emissões nos níveis atuais, sem a implementação de políticas específicas para redução de emissões, a projeção do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) é que o aumento da temperatura média na superfície terrestre seja entre 1 e 3,5°C no decorrer dos próximos 100 anos, enquanto o aumento observado no século XIX foi entre 0,3 e 0,6°C” (BNDES/MCT, 1999:6). Na dúvida, adota-se o princípio da precaução, ou seja, reduzir a emissão dos GEE para não acelerar esse fenômeno. 176 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente conseqüências locais, transfronteiriças e globais; os riscos de acidentes associados às atividades industriais – extrativas e de transformação –; as emissões atmosféricas oriundas do consumo, seja para geração de energia secundária ou pelo uso de seus derivados como combustíveis. Os maiores consumidores mundiais de petróleo são os países desenvolvidos (ver item 3.1.3) e têm, portanto, uma responsabilidade maior quanto às possíveis mudanças climáticas resultantes do aquecimento global, além da responsabilidade histórica pelas emissões de CO2, intensificadas com a Revolução Industrial103. As emissões de CO2 têm um componente de estoque muito grande, dado o seu tempo de decaimento maior do que 100 anos. Ou seja, as emissões ocorridas no passado influenciam os níveis presentes de futuros de concentração de poluentes. Este problema ambiental assumiu tal importância que se tornou alvo da Convenção Quadro sobre a Mudança do Clima104, assinada por 175 e a União Européia em 1992, no Rio de Janeiro. São justamente os países da OECD, com exceção do México e da Coréia do Sul, que se comprometeram em reduzir suas emissões de CO2, estabelecido pelo protocolo de Quioto105. Entretanto, para que ocorram as reduções nas emissões, é necessário que este protocolo seja ratificado, sendo que os EUA, o maior emissor, recusouse a fazê-lo em 2001. Da mesma maneira que o problema da escassez de petróleo perdeu importância pelos desenvolvimentos tecnológicos posteriores às previsões catastróficas do final dos anos 60, será que a tecnologia, juntamente com os fatores que propiciam o desenvolvimento tecnológico, pode ser também determinante na minimização dos impactos ambientais causados pela extração, processamento e uso do petróleo (ver quadro 5)? Como evidenciado nos capítulos anteriores, as regulamentações e a eficiência dos órgãos reguladores têm um papel importante na geração e difusão de inovações ambientais. A seção seguinte mostra o aparato regulatório ambiental da cadeia produtiva do petróleo. 103 Antes da Revolução Industrial, a concentração de CO2 na atmosfera era de 280 ppm (parte por milhão, em volume) passando para 340 ppm em 1980 (La Rovere, 1996). 104 Há uma enorme literatura sobre Mudança Climática. Ver, por exemplo, BNDES/MC (1999) e Seroa da Motta et alii (2000). 105 O Protocolo de Quioto foi assinado na 3ª Conferência (COP-3) realizada entre 1 e 12 de dezembro de 1997, em Quioto – Japão. Este inclui metas e prazos relativos à redução ou limitação das emissões futuras de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo efeito estufa, exceto aqueles já controlados pelo Protocolo de Montreal. 177 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Etapas Impactos ambientais Instalação Upstream a) offshore b) onshore Downstream Atividades secundárias Transporte Impactos pesca; Atividades normais sobre a Alto potencial poluidor em relação ao ar e à água; Impactos sobre a pesca; A utilização de fluido de perfuração pode causar impactos sobre o ecossistema marinho; Rrisco de blow-out, acarretando vazamentos de óleo no mar; A água de produção, quando lançada nas zonas costeira e de pesca, afetam a vida dos organismos marinhos e consequentemente, a saúde humana quando consumidos; Desmatamento para Alto potencial poluidor em relação ao ar e à a instalação dos água; equipamentos e Desmatamentos para a abertura das linhas da equipe de sísmicas com perda de biodiversidade, trabalho. podendo causar a lixiviação do solo e o assoreamento dos corpos d’água; Risco de contaminação da água e da terra pelas substâncias tóxicas oriundos dos descartes e vazamentos de fluído utilizado na perfuração; Contaminação das águas superficiais e subterrâneas, quando a água da produção é lançada na terra ou nos corpos d’ água terrestres, comprometendo o abastecimento de água e destruindo matas e solos, pelo alto teor de salinidade, entre outros fatores; A utilização de uma grande quantidade de água, gera efluentes líquidos que contêm óleo, graxas, fenóis, amônia, sólidos dissolvidos ou em suspensão, se não tratada, pode causar a contaminação da água e do solo; Alto potencial poluidor do ar principalmente de SO2, NO2 e COV – além de gerar odores desagradáveis; A instalação de dutos Emissões fugitivas; traz impactos nas Descarte de resíduos; flora e fauna Descarga de petróleo nos oceanos; marítimas; Evaporação dos hidrocarbonetos; Armazenamento Acidentes Incêndios, explosões e liberações tóxicas; Incêndios, explosões e liberações tóxicas; Incêndios, explosões e liberações tóxicas nos poços; Vazamento de dutos e navios; Incêndios, explosões e liberações tóxicas; Distribuição Consumo Contaminação do ar em zonas industriais e urbanas; Acidificação do meio ambiente; Aquecimento global da atmosfera; - Fonte: Elaboração própria. Quadro 5 – Principais Impactos Ambientais das Etapas da Cadeia do Petróleo 178 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente 4.2. A Cadeia do Petróleo e seu Aparato Regulatório na Área de Meio Ambiente 4.2.1. Breve histórico da gestão ambiental pública no Brasil A gestão ambiental pública no Brasil é recente106. Até a década de setenta, não existia um órgão especificamente voltado ao controle ambiental. As legislações existentes tratavam da exploração de alguns recursos naturais, por meio de medidas isoladas – o Código Florestal de 1934 (Decreto no 23.793), que tratava das matas nativas; o Código de Águas de 1934 (Decreto no 24.643), que estabeleceu normas de uso dos recursos hídricos, especialmente o seu aproveitamento hidrelétrico; a Comissão Executiva da Defesa da Borracha de 1947 (Lei no 86), que estabeleceu medidas para a assistência econômica da borracha natural e a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) de 1962 (Lei delegada no 10), vinculada ao Ministério da Agricultura (Lustosa e Young, 2001). O quadro 6 mostra algumas leis referentes ao meio ambiente. 1934 – Decreto nº. 24.643, de 10/07/34: Código de Águas 1965 – Lei nº. 4.771, de 15/09/65: Código Florestal 1967 – Lei nº 5.197, de 03/01/67: Lei de Proteção à Fauna 1973 – Decreto nº 73.030, de 30/10/73: Criação da SEMA 1975 – Decreto º 76.389, de 03/10/75: Medidas de Prevenção e Controle da Poluição Industrial 1975 – Decreto Lei nº 1413, de 14/10/75: Controle da Poluição do Meio Ambiente por atividades industriais 1977 – Decreto nº 3, de 19/01/77: Estabelece normas para prevenção ou correção do prejuízo da poluição industrial ao meio ambiente. 1980 – Lei nº 6.803, de 02/07/80: Zoneamento Industrial nas áreas críticas de poluição 1981 – Lei nº 6.902, de 27/04/81: Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental 1981 – Lei nº 6.938, de 31/08/81: Política Nacional do Meio Ambiente 1985 – Lei nº 7.347, de 24/07/85: Disciplina Ação Civil Pública 1988 – Constituição Federal 1988 – Lei nº 7.661, de 16/05/88: Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro 1989 – Lei nº 7.735, de 22/02/89: Criação do IBAMA 1989 – Lei 7.797, de 10/07/89: Criação do Fundo Nacional do Meio Ambiente 1989 – Lei 7.802, de 11/07/89: Controle do uso de agrotóxicos no país 1997 – Lei 9.433, de 08/01/97: Política Nacional de Recursos Hídricos 1998 – Lei 9.605, de 12/02/98: Lei de Crimes Ambientais Fonte: D’Avignon (2001:90) Quadro 6 – Algumas Leis Brasileiras Referentes ao Meio Ambiente Em 1973 foi criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) (Decreto nº 73.030), vinculada ao Ministério do Interior, sendo o primeiro órgão independente de 106 Para uma análise mais detalhada da gestão ambiental pública no Brasil ver D’Avignon (2001, capítulo 3). 179 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente controle ambiental. Dentre suas atribuições estavam “... evitar condutas predatórias, estar atenta à poluição, principalmente a de caráter industrial, e proteger a natureza” (D’Avignon, 2001:83). Entretanto, a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) somente foi instituída em 1981 nos termos da Lei no 6.938, quando foram estabelecidos seus objetivos, ações e instrumentos. Dentre esses últimos estão o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, o zoneamento ambiental, a avaliação de impactos ambientais, e o licenciamento ambiental e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras. Essa mesma lei constituiu o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), integrado pelo: Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão deliberativo e normativo; Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA107), executor da PNMA, cabendo-lhe a responsabilidade pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação ambiental em âmbito nacional e regional; órgãos estaduais e municipais de controle ambiental, que possuem as mesma funções do IBAMA, entretanto, em nível local. A Constituição Federal de 1988 foi um grande avanço na inclusão das questões ambientais, com destaque para a proteção ambiental. O artigo 225 estabelece que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, cabendo à União, Estados e Municípios zelar pela proteção ao meio ambiente e combater a poluição. A década de 90 foi marcada por avanços na legislação ambiental. Em 1996, foi instituída a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei no 9.433), criando também o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos e o Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Em 1998, as condutas e atividades lesivas ao meio ambiente passam a sofrer sanções penais e administrativas estabelecidas pela Lei no 9.605 – a Lei de Crimes Ambientais. Esta lei é considerada um marco importante no aparato regulatório do meio ambiente, pois estabelece sanções tanto para o poluidor quanto para os órgãos reguladores do meio ambiente, podendo ser pessoas físicas ou jurídicas (artigos 2 e 3), agravando a pena em caso de reincidência. As multas por infração administrativa podem chegar até R$ 50 milhões. 107 O IBAMA foi criado em 1989 e assumiu os direitos, créditos, obrigações e receitas dos órgãos reguladores extintos – a SUDEHVEA (Superintendência da Borracha), o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), a SEMA (Secretaria Especial do Meio Ambiente) e a SUDEPE (Superintendência do Desenvolvimento da Pesca). 180 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente A Lei de Crimes Ambientais é aplicada a empresas que não apresentaram uma conduta ambiental correta. A Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) foi multada em R$ 536 mil, logo após ser sancionada esta lei, por não dispor das licenças necessárias para desenvolver suas atividades, contribuindo para o aumento da poluição em Cubatão (SP), uma área que apresenta sérios problemas ambientais (Gazeta Mercantil, 21/07/1999). 4.2.2. Legislação ambiental da cadeia do petróleo e as agências reguladoras A indústria do petróleo obedece, em geral, à legislação geral sobre o meio ambiente. Mudanças significativas ocorreram com a Lei do Petróleo, a Lei de Crimes Ambientais e com os acidentes de vazamento de óleo ocorridos em 2000 (ver item 4.1.4). O vazamento do duto na Baía de Guanabara, em janeiro de 2000, foi um marco tanto na legislação relativa ao setor petróleo quanto na reestruturação da Petrobras. A Lei do Petróleo faz referências ao meio ambiente. Dentre os princípios e objetivos da Política Energética Nacional, estabelecidos por esta lei, está o de “IV – proteger o meio ambiente e promover a conservação de energia” (art. 1o), sendo que a proteção do meio ambiente é um dever constitucional, previsto no art. 225o da Constituição Federal. Pelo art. 8o da Lei do Petróleo cabe a ANP: “... IX – fazer cumprir as boas práticas de conservação e uso racional do petróleo, dos derivados e do gás natural e de preservação do meio ambiente”. Além dos recursos destinados por lei ao CTPETRO (ver capítulo 5), o art. 50o da Lei do Petróleo estabelece que nos casos de grandes volumes de produção, ou de grande rentabilidade, deve haver o pagamento de uma participação especial – com critérios definidos pelo Decreto Federal no 2.705/98 (Menezello, 2000). Desta participação, o § 2o do art. 50o estabelece que 10% devem ser destinados ao Ministério do Meio Ambiente para o “... desenvolvimento de estudos e projetos relacionados com a preservação do meio ambiente e recuperação de danos ambientais causados pelas atividades da indústria do petróleo”, com o apoio técnico da ANP. O quadro 9 mostra legislação aplicada à indústria do petróleo (específica e geral), em nível federal108. A Lei de Crimes Ambientais (lei 9605/98), de caráter genérico, é aplicável a todas as etapas da cadeia produtiva. 108 Ver Mariano (2001, anexo II) para maiores detalhes sobre a legislação ambiental incidente sobre a atividade de refinob – federal, do Estado do Rio de Janeiro e dos EUA. 181 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Na E&P, incidem as Resoluções Conama específicas – 01/86 sobre critérios básicos e diretrizes gerais para o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA); 06/90, sobre a aplicação de dispersantes químicos em vazamentos, derrames e descargas de petróleo; 23/94, sobre procedimentos específicos para o licenciamento das atividades relacionadas à exploração e lavra de jazida de combustíveis líquidos e gás natural (ver quadro 7), excluindo as atividades de sísmica e descomissionamento; e 265/00, sobre o derramamento de óleo na Baía de Guanabara e indústria do petróleo, determinando auditoria ambiental independente em todas as instalações da Petrobras – e uma de caráter geral – 237/97, que regulamenta os aspectos de licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional do Meio Ambiente. LPper – Licença LPpro – Licença Prévia para Perfuração Prévia de Produção para Pesquisa Perfuração de poços Produção para de exploração pesquisa de viabilidade econômica LI – Licença de Instalação LO – Licença de Operação Instalação de unidades e sistemas de produção e escoamento Elaboração de um EIA/RIMA Início da operação do empreendimento Abrangência Exige estudo de Liberada com a geográfica definida viabilidade ambiental entrega de um Exige Relatório de Projeto de Controle Controle Ambiental Ambiental (RCA) Fonte: Primeiras licenças para perfuração – Brasil Energia, no 230, jan/2000, p. 32. Quadro 7 – O Que Determina a Resolução Conama 23/94 O licenciamento regulamentado pela Conama 237/97, mesmo de caráter genérico para as atividades poluidoras – efetiva e potencialmente – e que podem causar degradação ambiental, incidiu diretamente sobre as atividades da cadeia do petróleo (exceto sobre as atividades da E&P que já eram regulamentadas pela Conama 23/94), que passaram a ter que obter licenciamento ambiental. As unidades industriais que já desenvolviam atividades antes do licenciamento tiveram que assinar, posteriormente, termos de ajuste de conduta. A exigência de estudos de impacto ambiental (EIA) e relatórios de impactos ambientais (RIMA) constituem a base de avaliação para o licenciamento das atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, sendo este o principal instrumento disponível para a gestão ambiental. As licenças são de três naturezas (planejamento, instalação e operação), e a elaboração dos estudos de 182 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente impactos ambientais fica a cargo de consultor independente contratado pelo proponente do pedido de licença. Ainda incidem sobre a E&P os decretos, de caráter geral, 99.274/90 – que trata no capítulo IV do licenciamento das atividades utilizadoras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras (ver quadro 8) – e 2.508/98 – que promulga a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição Causada por Navios. A Lei 9966/00 é específica à indústria do petróleo e foi promulgada após o acidente de vazamento de óleo na Baía de Guanabara (RJ), ocorrido em janeiro de 2000. Esta torna obrigatória a auditoria ambiental independente, de dois em dois anos, em instalações portuárias, plataformas e suas instalações de apoio. Esta lei foi uma inovação, pois a auditoria ambiental é uma importante fonte de informações tanto para a gestão ambiental pública quanto empresarial. Atividade Sísmica Licença ambiental Licença de Operação (LO) Perfuração Licença Prévia para Perfuração (LPper) Pesquisa para Produção Licença Prévia de (testes de longa Produção para duração) Pesquisa (LPpro) Desenvolvimento Licença de Instalação (LI) Estudo ambiental Estudo ambiental (EA) Relatório de controle ambiental (RCA) Estudo de viabilidade ambiental (EVA) Regulamentação Decreto no 99274/90 e Res. Conama 237/97 Res. Conama 23/94 Res. Conama 23/94 Estudo e relatório de impacto Res. Conama 23/94 ambiental (EIA/RIMA) ou Relatório de avaliação ambiental (RAA)* Produção Licença de Operação Projeto de Controle Ambiental Res. Conama 23/94 (LO) (PCA) * O EIA/RIMA é exigido quando não há unidade de produção no campo (área produtora de petróleo e gás natural) em que ocorrerá o desenvolvimento. O RAA é exigido quando já existe alguma unidade de produção no campo em que ocorrerá o desenvolvimento. Fonte: Malheiros, 2000a:37 Quadro 8 – Licenças e Estudos para Licenciamento Ambiental das Atividades de E&P Nas atividades de transporte e armazemanto de óleo bruto incidem as resoluções de caráter genérico – Conama 237/97 para o licenciamento de dutos – e as específicas – Conama 06/90 sobre a aplicação de dispersantes químicos em vazamentos, derrames e descargas de petróleo – e uma específica sobre derramamento de óleo, a Conama 265/00. Em relação às atividades de transporte e armazenamento de derivados, a legislação aplicável é a mesma para o transporte e armazenamento de óleo bruto, com exceção de Conama 06/90, específica para essas últimas atividades. Sobre o refino de petróleo incidem as Resoluções Conama específicas ao setor – 183 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente 16/93 sobre o licenciamento ambiental junto ao IBAMA para as especificações, fabricação, comercialização e distribuição de novos combustíveis e sua formulação final para uso em todo o país; e a 265/00 sobre derramamento de óleo – e a de caráter geral sobre de licenciamento (Conama 237/97). A Lei 9966/00, sobre poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas em águas sob jurisdição nacional, específica ao setor, também é aplicável ao refino. A distribuição possui uma regulamentação específica pelas Resoluções Conama 09/93, que estabelece definições e torna obrigatório o recolhimento e destinação adequada de todo o óleo lubrificante usado ou contaminado; 16/93, sobre o licenciamento ambiental junto ao IBAMA para as especificações, fabricação, comercialização e distribuição de novos combustíveis e sua formulação final para uso em todo o país; 265/00, sobre derramamento de óleo e a 273/00, sobre prevenção e controle da poluição em postos de combustíveis e serviços. São diferentes agências que exercem o controle da legislação ambiental sobre a indústria do petróleo. No upstream, as licenças ambientais para a exploração offshore e a onshore de fronteira (entre estados ou com outros países) e em terras indígenas ou em unidades de conservação do domínio da União, são de responsabilidade do IBAMA109. O Escritório de Licenciamento de Atividades de Petróleo e Nuclear (ELPN) do IBAMA, instalado no Rio de Janeiro em 1998, é o responsável pelo licenciamento offshore. A concessão das licenças ambientais para exploração onshore dentro dos limites do estado é de competência do respectivo órgão ambiental estadual110, a não ser que sejam delegados 109 De acordo com a resolução Conama 237, cabe ao IBAMA o licenciamento ambiental “de empreendimentos e atividades com significativo impacto ambiental de âmbito nacional ou regional, a saber: I - localizadas ou desenvolvidas conjuntamente no Brasil e em país limítrofe; no mar territorial; na plataforma continental; na zona econômica exclusiva; em terras indígenas ou em unidades de conservação do domínio da União; II - localizadas ou desenvolvidas em dois ou mais Estados; III - cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais do País ou de um ou mais Estados; IV - destinados a pesquisar, lavrar, produzir, beneficiar, transportar, armazenar e dispor material radioativo, em qualquer estágio, ou que utilizem energia nuclear em qualquer de suas formas e aplicações, mediante parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN; V- bases ou empreendimentos militares, quando couber, observada a legislação específica. 110 A resolução Conama 237, no art. 5o, estabelece que “Compete ao órgão ambiental estadual ou do Distrito Federal o licenciamento ambiental dos empreendimentos e atividades: I - localizados ou desenvolvidos em mais de um Município ou em unidades de conservação de domínio estadual ou do Distrito Federal; II localizados ou desenvolvidos nas florestas e demais formas de vegetação natural de preservação permanente relacionadas no artigo 2º da Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, e em todas as que assim forem consideradas por normas federais, estaduais ou municipais; III - cujos impactos ambientais diretos ultrapassem os limites territoriais de um ou mais Municípios; IV – delegados pela União aos Estados ou ao Distrito Federal, por instrumento legal ou convênio”. 184 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente aos órgãos ambientais municipais, por instrumento legal ou convênio, o licenciamento ambiental da atividade que cause impacto ambiental local. No downstream, o licenciamento do refino e da instalação de dutos é, em geral, de responsabilidade dos órgãos ambientais estaduais. Entretanto, quando o duto é interestadual ou ultrapassa as fronteiras do país, compete ao IBAMA licenciá-lo. Não há hierarquia entre as agências federais, estaduais e municipais, sendo umas independentes das outras e podendo ocorrer transferências de competências após consultas específicas. Pode-se observar que parte da regulamentação específica da indústria do petróleo é mais recente e foi elaborada depois de graves acidentes. Fica evidente um relativo atraso no estabelecimento de normas ambientais em relação à indústria do petróleo se comparado à velocidade das mudanças ocasionadas pela quebra do monopólio. Nas atividades de E&P, particularmente, não há especificações de normas ambientais para descarte de fluidos e cascalhos, além da falta regulamentação para o descarte da água de produção – identificados como problemas ambientais desta etapa da cadeia produtiva (ver item 3.4). Apesar deste relativo atraso, pode-se observar que a legislação específica para a indústria do petróleo está mais restritiva, tendendo a impor padrões ambientais cada vez mais elevados. Entretanto, algumas questões devem ser ressaltadas para melhorar a eficiência da gestão ambiental pública. A falta de estabelecimento de linhas de base (baselines) – ambientais e sócio-econômicas – para posterior avaliação dos efeitos, positivos ou negativos, das atividades da indústria do petróleo é uma lacuna importante a ser preenchida (Wagner, 2001). Estas informações deveriam estar disponíveis na ANP para avaliação das áreas a serem licitadas e para maior conhecimento das empresas interessadas, a fim de que se possa ter um planejamento integrado da E&P no país, além de facilitar a elaboração e análise dos EIA/RIMAs exigidos. O processo de licenciamento da E&P necessita de reformulações para adequar-se às condições do novo cenário sem o monopólio da Petrobras. As normas de licenciamento estão sendo revistas e a demora deste processo gera incertezas, relativas aos custos de conformidade e à complexidade das regulamentações, para as empresas que estão entrando no mercado. Além do mais, o atraso no processo de licenciamento é freqüente, gerando custos adicionais para as empresas (Wagner, 2001). Ainda em relação à legislação ambiental, apesar do aparato regulatório ser sofisticado, as regulamentações encontram-se dispersas, sendo algumas de caráter geral e 185 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente outras específicas ao setor – como ficou evidenciado acima (ver quadro 9). Por falta de regulamentações específicas, a aplicação daquelas de caráter geral leva a uma situação de análise de caso por caso, fato que contribui para a demora nos processos de licenciamento. A questão das competências dos órgãos ambientais é igualmente importante, pois “há consenso entre juristas (Machado, 2000 e Milaré, 2000), de que existe indefinição de competências, na área de meio ambiente, para a ação nas esferas federal, estadual e municipal. Isto gera, de um lado, disputas e conflitos de licenciamento e fiscalização e, de outro, acarreta vazios e omissões, que muitas vezes são utilizados em detrimento da qualidade ambiental e em benefício de interesses privados” (D’Avignon, 2001:95). A fragilidade institucional da gestão ambiental pública é uma barreira para o gerenciamento ambiental adequado para a indústria do petróleo. A falta de infra-estrutura dos órgãos ambientais – federais, estaduais e municipais – e a baixa remuneração dos técnicos qualificados, provocando uma migração para o setor privado, são questões que merecem especial atenção para o melhor desempenho destes órgãos. Estas condições deficientes refletem na falta de monitoramento sistemático e de qualidade, o que remete à falta inventários, banco de dados e indicadores, ou seja, de linhas de base e acompanhamento sistemático dos impactos ambientais e sociais da indústria do petróleo (Wagner, 2001). Percebe-se, portanto, que a falta de recursos humanos e financeiros é maior do que de uma legislação ambiental adequada. A Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), estabelecida nos termos da Lei 6.938/81, elege 12 instrumentos de controle industrial (art. 9o)111. Entre eles, os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental, constitui-se numa poderosa estratégia do IBAMA para tornar-se uma referência nacional de 111 A saber: o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental; o zoneamento ambiental; a avaliação de impactos ambientais; o licenciamento e a revisão de atividades efetiva ou potencialmente poluidoras; os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade ambiental; a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público Federal, Estadual e Municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas; o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente; o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumento de Defesa Ambiental; as penalidades disciplinares ou compensatórias do não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção da degradação ambiental; a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser divulgado anualmente pelo IBAMA (inciso incluído pela Lei 7.804, de 18/07/89); a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambiente, obrigando-se o Poder Público a produzí-las, quando inexistente (inciso incluído pela Lei 7.804, de 18/07/89); o Cadastro Federal de atividades potencialmente poluidoras e/ou utilizadoras dos recursos ambientais (inciso incluído pela Lei 7.804, e 18/07/89) (D’Avignon, 2001). 186 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente tecnologias ambientais. Entretanto, passados 20 anos do estabelecimento da PNMA, este programa encontra-se em fase incipiente, com limitado número de publicações, um banco de dados em construção e a divulgação de informações defasada112. Dado os diferentes atores envolvidos na questão ambiental da indústria do petróleo, é necessário melhorar a coordenação de políticas e construir uma infra-estrutura tecnológica, a fim de compatibilizar os interesses da sociedade civil, dos órgãos ambientais, das empresas que ligadas diretamente à indústria e de seus fornecedores, e da agência reguladora. Além das questões ambientais, devem também ser observados os impactos socio-econômicos da intensificação das atividades petrolíferas no país. Portanto, a tarefa de planejamento integrado é um desafio que necessita ser superado em curto espaço de tempo. 112 O Boletim Ambtech disponível no site do IBAMA, que visa a divulgação de tecnologias ambientalmente saudáveis, é de 1998 (ver http://www2.ibama.gov.br/ditam/tas7.htm). Arquivo consultado em novembro/2001. 187 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente UPSTREAM DOWNSTREAM Exploração Transporte & & Produção Armazenamento Res. Conama 01/86 Res. Conama 06/90 Res. Conama 06/90 Res. Conama Res. Conama 23/94 Res. Conama 237/97 Armazenamento Res. Conama Res. Conama Res. Conama Res. Conama Res. Conama Decreto 2508/98 265/00 265/00 Lei 9605/98 Lei 9605/98 Decreto 99274/90 Lei 9966/00 Lei 9966/00 Res. Conama Decreto 2508/98 Lei 9605/98 Lei 9966/00 Res.Conama 09/93 265/00 237/97 Res. Conama Distribuição 237/97 16/93 265/00 237/97 Transporte & Refino Res. Conama 16/93 Res.Conama 265/00 Res.Conama 273/00 Lei 9605/98 Quadro 9 – Cadeia do Petróleo e o Quadro Legal Federal Lei 9605/98 – Lei de Crimes Ambientais Lei 9966/00 – Prevenção, controle e fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou perigosas em águas sob jurisdição nacional 188 Capítulo 4 – A cadeia produtiva do petróleo e o meio ambiente Decreto 99274/90 – Trata no capítulo IV do licenciamento das atividades utilizadoras de recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras, bem assim os empreendimentos capazes, sob qualquer forma, de causar degradação ambiental, dependerão de prévio licenciamento do órgão estadual competente integrante do SISNAMA, sem prejuízo de outras licenças legalmente exigíveis. Decreto 2508/98 – Promulga a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição Causada por Navios, concluída em Londres em 02/11/73, seu Protocolo, concluído em Londres em 17/02/78, suas Emendas de 1984 e seus Anexos Opcionais III, IV e V Resolução Conama 01/86 – Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para o Relatório de Impacto Ambiental - RIMA Resolução Conama 06/90 – Dispõe sobre a aplicação de dispersantes químicos em vazamentos, derrames e descargas de petróleo Resolução Conama 09/93 – Estabelece definições e torna obrigatório o recolhimento e destinação adequada de todo o óleo lubrificante usado ou contaminado. Resolução Conama 16/93 – Torna obrigatório o licenciamento ambiental junto ao IBAMA para as especificações, fabricação, comercialização e distribuição de novos combustíveis e sua formulação final para uso em todo o país. Resolução Conama 23/94 – Institui procedimentos específicos para o licenciamento das atividades relacionadas à exploração e lavra de jazida de combustíveis líquidos e gás natural Resolução Conama 237/97 – Regulamenta os aspectos de licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional do Meio Ambiente Resolução Conama 265/00 – Sobre o derramamento de óleo na Baía de Guanabara e Indústria do Petróleo Resolução Conama 273/00 – Estabelece e disciplina o licenciamento ambiental para postos de revenda 189 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Capítulo 5 A PESQUISA E O DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS AMBIENTAIS NA INDÚSTRIA DO PETRÓLEO NO BRASIL A mudança no aparato regulatório da indústria do petróleo no Brasil alterou o ambiente seletivo de inovações e as condições de financiamento de ciência e tecnologia (C&T). Com a flexibilização do monopólio, o montante de recursos para investimentos nas atividades de C&T deixou de depender exclusivamente da Petrobras, com possibilidade de um aporte crescente de recursos, pois os blocos licitados ainda se encontram nas fases preliminares da atividade de E&P. Em relação às atividades produtivas, espera-se um aumento dos investimentos no upstream e no downstream. Dado o alto potencial poluidor e de risco em todas as fases da cadeia produtiva do petróleo113, se não forem realizados investimentos na área de meio ambiente por meio da geração e, principalmente, da difusão de tecnologias ambientais, a fim minimizar os problemas das operações normais e dos acidentes, pode-se ter um crescimento desta indústria – e de outros setores a ela relacionados – à custa do meio ambiente, levando ao aumento do passivo ambiental existente. Ao restringir a análise ao que as empresas e agências de fomento consideram a área de meio ambiente, pode-se cair numa situação em que projetos de outras áreas sejam responsáveis por danos ambientais, sendo necessário o desenvolvimento de novas tecnologias para minimizá-los. Assim, o ideal seria que parâmetros de impacto ambiental estivessem incluídos em todos os projetos desenvolvidos pela indústria, o que iria requerer um conhecimento adicional de engenharia para reconhecer a priori as possíveis externalidades negativas114. Esta seria a maneira correta da indústria do petróleo caminhar na direção um padrão de produção com menores impactos sobre o meio ambiente. Por limitações de tempo e de disponibilidade de informações, não é possível para esta tese analisar todos os projetos em desenvolvimento a fim de ver se os parâmetros ambientais foram incluídos a priori. Portanto, a análise está centrada nos projetos 113 Ver capítulo 4, item 4.1. Nesse sentido, coloca-se um problema identificado teoricamente: como saber ex-ante qual a inovação mais limpa ou ecologicamente mais correta, uma vez que há duas prioridades, a saber: a primeira é atender a determinado parâmetro de emissão ou de utilização de insumos; a segunda é que o atendimento de tais parâmetros não ocorram em detrimento de outras variáveis. Há, portanto, uma componente de incerteza muito grande. 114 190 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil direcionados à área de meio ambiente, mesmo com as limitações acima mencionadas. Este capítulo tem como objetivo verificar: • os temas abordados pelos projetos ambientais; • quais os tipos de parcerias que estão se formando na área de tecnologia ambiental – atores envolvidos e origem dos recursos. Esta análise é importante para perceber que alianças estão se formando e como isso pode influenciar no ambiente seletivo e na competitividade das firmas. Desta forma, não é objetivo fazer um inventário das tecnologias ambientais da indústria do petróleo, mas verificar quais os principais temas em que trajetórias tecnológicas que estão sendo desenvolvidas pelos agentes – a Petrobras, a principal inovadora do setor em todas as áreas tecnológicas no Brasil (incluindo a ambiental), e os projetos em desenvolvimento financiados pelo CTPETRO. 5.1 O Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia na Indústria do Petróleo A capacitação tecnológica sempre foi um elemento chave na competitividade da indústria do petróleo ao longo de sua história. O incentivo à ciência e tecnologia (C&T) para a pesquisa e desenvolvimento (P&D), a formação de recursos humanos, a geração e absorção de novos conhecimentos e inovações em todas as fases da cadeia produtiva é, portanto, fundamental para estimular a competitividade tanto no plano internacional quanto interno. No Plano Plurianual de Investimentos 1999-2003 do CTPETRO (MCT et alii, 1999a), questões ambientais estão entre os grandes temas que são considerados desafios para o século XXI, a saber: “efeito estufa e a necessidade da redução de emissões ( e.g. CO2 ) para a atmosfera; poluição nas grandes cidades ou em áreas geográficas densamente habitadas; ...; uso do petróleo e gás natural de forma não agressiva à natureza e ao ser humano” (MCT et alii, 1999a:2). Neste Plano de Investimentos, o atendimento à legislação ambiental, principalmente em relação ao descarte de fluidos, é apontado como fator de motivação para realização de P&D. Este é um ponto importante, pois a legislação ambiental específica para a indústria do petróleo está sendo elaborada após a abertura do 191 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil mercado, podendo gerar um clima de incerteza para os investidores quanto ao custo de conformidade115. O monopólio das atividades da cadeia produtiva do petróleo gerou um cenário em que a Petrobras centralizava praticamente todas as funções das atividades de C&T. O financiamento, o planejamento e coordenação, e a execução da P&D ficavam praticamente a cargo da empresa monopolista, cabendo uma pequena parcela às universidades e institutos de pesquisa. A formação de recursos humanos e seu financiamento ficavam divididos entre o Estado (as universidades e as escolas técnicas) e a Petrobras. Em relação ao conhecimento tecnológico gerado, tanto a Petrobras quanto os fornecedores eram os usuários, sendo a Petrobras o único cliente (Furtado, 2001). Este cenário começou mudar em 1997 com a quebra do monopólio, estabelecido nos termos da Lei do Petróleo. Está previsto em seu artigo 49 que da parcela do valor do royalty que exceder a 5% da produção, seja da lavra onshore ou offshore116, 25% serão destinados ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para financiar programas de amparo à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico aplicados à indústria do petróleo. O art. 49 foi regulamentado pelo Decreto nº 2.851/98, que “dispõe sobre programas de amparo à pesquisa científica e tecnológica aplicados à industria do petróleo, e dá outras providências”. Cabe ao MCT a administração de tais recursos, tendo a Financiadora de Estudos e Projeto – FINEP – como agente técnico-operacional e financeiro, o apoio técnico da ANP e parcerias com universidades e centro de pesquisas. Foi criado o Plano Nacional de Ciência e Tecnologia do Setor Petróleo e Gás Natural – o CTPETRO – para dar as diretrizes da aplicação destes recursos. O CTPETRO visa o desenvolvimento de projetos de pesquisa conjuntos entre a comunidade científica – universidades e centros de pesquisas – e o setor empresarial ligado ao setor de petróleo e gás – empresas, associação de produtores e fornecedores, com a coordenação e apoio técnico dos organismos governamentais – o CNPq, a FINEP e a agência reguladora – buscando estabelecer um sistema setorial de inovação. Este é um modelo pioneiro de financiamento de C&T no país que garante o financiamento para estes 115 Aspecto já levantado no capítulo 1. É importante sinalizar para as empresas o custo das regulamentações ambientais com já faz a agência ambiental federal dos EUA – o EPA. Mesmo que haja uma defasagem entre o custo estimado e o efetivo, é uma sinalização para os investidores dos custos e investimentos ambientais necessários à realização do empreendimento. 192 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil investimentos sem depender da disponibilidade de recursos do Tesouro Nacional e da barganha política na distribuição destes recursos no orçamento do Governo. A duração dos convênios assinados no âmbito do CTPETRO varia de 12 a 24 meses. Um relatório final do projeto e outro das partes envolvidas devem ser apresentados para o encerramento dos convênios, bem como a aferição dos impactos previstos e daqueles alcançados. Avaliações são feitas para redefinição do Plano Plurianual de Investimento, baseando-se nos resultados obtidos pelos projetos executados. A quebra do monopólio fez com que outros agentes assumissem as funções das atividades de C&T, que estavam praticamente a cargo da Petrobras. Em relação à P&D, o CTPETRO passou a ser outro agente financiador, contribuindo com aproximadamente 30% dos recursos destinados aos projetos – em 2000, o CTPETRO investiu R$ 166 milhões e a Petrobras R$ 335 milhões (Furtado, 2001); o planejamento e a coordenação passaram a ser dividido entre a Petrobras e o CTPETRO; e as universidades passaram a ter uma participação substancialmente maior na execução dos projetos. A formação de recursos humanos passou a contar com uma participação mais intensa das universidades e escolas técnicas, reduzindo a da Petrobras. O CTPETRO, por meio da ANP e do CNPq, passou a ser outro agente financiador da formação de recursos humanos, além da Petrobras. As operadoras dos blocos concedidos para E&P tornaram-se potenciais usuários e clientes das novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas, juntamente com a Petrobras e seus fornecedores (Furtado, 2001). O CTPETRO possui áreas temáticas para o desenvolvimento de projetos de acordo com os Planos Plurianuais de Investimentos. Estes planos são revisados periodicamente, incorporando sugestões do Projeto Tendências Tecnológicas. Para o biênio 2001-2002, a nota técnica 01/2000 (CTPETRO, 2000a) estabeleceu um modelo conceitual de referência com a integração de três vertentes principais: a nacional, a setorial e a regional. Procura-se identificar fragilidades, oportunidades, vantagens e deficiências da indústria do petróleo e gás natural a fim de estabelecer estratégias para o incremento da inovação e competitividade do setor. A vertente nacional identifica os seguintes temas importantes para melhorar a competitividade do país: a) desenvolvimento de produtos e processos; b) qualidade e regulamentação técnica; c) logística; d) meio ambiente e e) segurança industrial. A 116 Este mesmo artigo prevê distribuição diferenciada dos royalties conforme o local da lavra. 193 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil vertente setorial identifica as áreas consideradas como desafios tecnológicos para o setor: a) exploração; b) águas profundas; c) recuperação avançada de petróleo; d) refino; e) gás natural e f) produtos. A vertente regional busca respeitar as especificidades regionais, como distribuição de reservas, infra-estrutura produtiva, capacitação de P&D e impactos sócio-econômicos. O meio ambiente é identificado como um dos elementos importantes para melhorar a competitividade do país. Se por um lado a indústria do petróleo se apresenta como um dos motores do crescimento econômico, por suas demandas a outros setores da economia e pela geração adicional de receitas para o Governo, por outro lado, por apresentar alto risco e potencial poluidor, é importante prevenir e minimizar tais impactos sobre o meio ambiente e, consequentemente, sobre a sociedade. A questão ambiental perpassa todas as vertentes: na nacional, os outros temas estão estreitamente relacionados com o meio ambiente, como a segurança industrial para evitar acidentes, o desenvolvimento de produtos e processos mais limpos, a logística minimizando os impactos ambientais do transporte. Na setorial, os desafios tecnológicos devem ter a questão ambiental internalizada para buscar maior eficiência na aplicação dos recursos, por meio de tecnologias cada vez mais limpas – ao desenvolver tecnologias que geram impactos negativos no meio ambiente, serão despendidos recursos adicionais para o desenvolvimento de tecnologias de limpeza e recuperação ambiental, do tipo final de tubo (end-of-pipe). Na vertente regional, as especificidades dos ecossistemas devem ser respeitadas, dada a necessidade de desenvolvimentos tecnológicos específicos para cada localidade. Por exemplo, o grande potencial de exploração de petróleo e gás na região Amazônica brasileira, um dos biomas com maior concentração de biodiversidade do mundo, requer tecnologias adequadas de forma a minimizar os impactos ambientais das atividades exploratórias117, além de ser um alvo fácil de críticas internacionais. Tendo desenvolvido alta tecnologia de E&P em águas ultra-profundas, a preservação da imagem do país como pioneiro nesta tecnologia deve estar aliada também à responsabilidade ecológica e social. “A efetiva incorporação da variável meio ambiente 117 A região Amazônica é bastante diversa tanto em seus aspectos biológicos como em aspectos sócioeconômicos. Wagner (2001) ressalta que as empresas que possuem experiência em E&P na Amazônia equatoriana e peruana devem experimentar diferenças significativas em relação à região sob domínio 194 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil pelo processo decisório no âmbito do setor petróleo e gás natural representa um de seus maiores desafios” (CTPETRO, 2000a:9). Porém, é também uma oportunidade única, pois as mudanças no marco regulatório do setor, com a criação de um fundo de financiamento de P&D, e o novo ciclo de investimentos podem propiciar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias ambientalmente saudáveis, tornando o país umas das lideranças em tecnologias ambientais específicas ao setor. Nos anos de 1999 e 2000, as linhas de pesquisa do CTPETRO foram para: “ • pesquisa e monitoramento da qualidade dos combustíveis; • apoio a projetos individuais de pesquisa científica e tecnológica relacionadas ao setor, sob a coordenação do CNPq; • apoio à infra-estrutura das universidades das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste (exceto Distrito Federal) e do Estado do Espírito Santo; • atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico – compreendendo a pesquisa aplicada, o desenvolvimento experimental, a engenharia não-rotineira, a tecnologia industrial básica e os serviços de apoio técnico – em áreas temáticas definidas e atividades consideradas prioritárias para os diferentes segmentos da indústria do petróleo; • pesquisa e desenvolvimento de novos instrumentos para análise da qualidade de combustíveis” (CTPETRO, 2000a). O apoio a projetos individuais de pesquisa científica e tecnológica sob coordenação do CNPq foi objeto de um convênio cooperativo firmado entre a Finep e o CNPq em 2000. Os projetos dos três editais aprovados até 2001 contemplaram 453 bolsas específicas do programa RHAE (Programa de Capacitação de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas), no total de R$ 7,8 milhões. Os recursos financeiros do CTPETRO no ano de 2000 foram da ordem de R$ 166 milhões (Furtado, 2001) e a previsão é de crescimento da disponibilidade de tais recursos. Para o exercício de 2001, a previsão é de R$ 184 milhões, para 2002 de R$ 206 milhões e para 2003 de R$ 236 milhões (MCT et alii, 1999b). brasileiro, onde os grupos indígenas são menos organizados, devendo estar atentas para as formas de uso do solo e das condições sociais que prevalecem na região. 195 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil As chamadas de projetos para serem financiadas pelo CTPETRO iniciaram em 1999, com programas especiais seguidos de editais (tabela 40). Os editais118 01/2000, 02/2000 e 04/2000 foram direcionados para temas específicos, a saber: monitoramento da qualidade de combustíveis, métodos de análise da qualidade de combustíveis e capacitação laboratorial nas regiões Norte e Nordeste, respectivamente. Os programas de 1999, o edital 03/2000 e o edital CNPq 01/2000 foram direcionados para vários temas. A ANP coordena o projeto de formação de recursos humanos, executado pelas universidades. Tabela 40 – Chamadas de Projeto CTPETRO – 1999/2000 Chamadas Temas Valor total (R$ 1.000) 133.780,0 Percentual do Propostas Valor médio valor total aprovadas (R$ 1.000) 54,9 321 416,8 Programas 1999 Vários Edital 01/2000 16.230,2 6,7 12 1.352, 2.786,4 1,1 6 464,4 55.876,4 23,0 126 443,5 13.343,9 5,5 16 834,0 Edital CNPq 01/2000 Qualidade de combustíveis (monitoramento) Qualidade de combustíveis (métodos analíticos) Vários (13 áreas temáticas) Capacitação laboratorial (NO/NE) Vários 7.039,1 2,9 195 36,1 PRH/ANP Formação de RH 14.838,2 6,1 31 478,7 243.893,8 100 723 337,3 Edital 02/2000 Edital 03/2000 Edital 04/2000 Total Fonte: CTPETRO, 2001a. Em relação ao edital 03/2000, apesar da previsão inicial de que 73% dos recursos fossem destinados a projetos em parcerias com empresas (as intervenientes), o efetivo foi de 53%. Foram 17 intervenientes contempladas com os recursos, sendo que a Petrobras respondeu por 81% dos projetos com empresas, recebendo 72% dos recursos aprovados (Furtado, 2001). Esta análise demonstra que apesar das intenções em diversificar os atores do sistema setorial de inovação da indústria do petróleo, este objetivo não vai ser alcançado a curto prazo. A Petrobras, por possuir capacitação tecnológica adquirida ao longo de muitos anos, foi apropriou-se de grande parte dos recursos do CTPETRO. A fraca participação das 118 Os editais podem ser feitos pela Finep ou pelo CNPq. Quando não tiver nenhuma especificação, são editais da Finep e quando for do CNPq está especificado Edital CNPq. 196 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil outras empresas pode ser explicada, por um lado, pela baixa capacitação tecnológica específica à área de petróleo das empresas nacionais, e, por outro, pela P&D das empresas estrangeiras serem desenvolvidos fora do país. Por fim, sem menosprezar a importância do CTPETRO como fonte de financiamento para a C&T na indústria do petróleo, o montante absoluto de recursos é pequeno em relação aos investimentos das grandes empresas petrolíferas mundiais. 5.2 A Petrobras e o Desenvolvimento de Tecnologias Ambientais O Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) desenvolve projetos em quase todas as áreas relacionados ao meio ambiente. Segundo o Coordenador do Programa 119 , os fatores ambientais são muito importantes Tecnológico de Meio Ambiente do Cenpes e decisivos na pesquisa de combustíveis e produtos inovadores. Outros projetos em engenharia básica, possuem requisitos de meio ambiente e de segurança. O Cenpes atua também nas áreas de prevenção, reuso, redução do consumo de energia, redução de rejeitos industriais (emissões, efluentes e resíduos), entre outros. Desde 1993, o Cenpes conta com uma carteira de projetos de P&D, que constituem os Programas Tecnológicos, que também são executados pelos demais órgãos da empresa. “Nos programas tecnológicos são realizadas pesquisas para identificar problemas e necessidades, acompanhar e avaliar as inovações tecnológicas nacionais e internacionais, e realizar estudos em laboratórios e plantas-piloto reproduzindo situações reais. O objetivo é propor soluções adequadas ao mercado e à legislação” (site da Petrobras, 2001). São seis programas tecnológicos, sendo um específico à área de meio ambiente. O Programa de Recuperação Avançada de Petróleo (Pravap) busca inovações com objetivo de aumentar a apropriação de reservas, elevar o índice de recuperação de petróleo de uma jazida e expandir a produção de petróleo e gás. O Programa Tecnológico para Ampliação de Fronteiras Exploratórias em bacias produtoras (Profex) tem por objetivo desenvolver e disponibilizar novas tecnologias para a redução do risco e do custo exploratório/explotatório na apropriação de novas reservas de hidrocarbonetos. Estes 119 Estas informações e as referentes ao Proamb foram obtidas por meio de entrevista informal com o Coordenador do Programa Tecnológico de Meio Ambiente do Cenpes, Pedro Penido D. Guimarães. Entretanto, segundo o coordenador, muitas informações não estão organizadas de forma sistemática, o que ocorrerá no início de 2002. 197 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil programas podem ter impactos positivos no meio ambiente, pois buscam aumentar a eficiência e a redução do risco do processo de extração de petróleo, postergando a abertura de novos poços e, consequentemente, os impactos ambientais inerentes. O Programa Tecnológico da Petrobras para Sistemas de Exploração em Águas Ultraprofundas em até 3.000m, PROCAP-3000, é uma continuação do Programa de Capacitação Tecnológica (Procap), iniciado em 1986. Busca-se a exploração em águas cada vez mais profundas, onde está situada a maior parte das reservas provadas de petróleo no Brasil. O Programa de Desenvolvimento de Tecnologias Estratégicas de Refino (Proter) visa a redução de custos na área de refino. O objetivo é conciliar o aumento de produção de petróleo nacional, mais pesado do que o importado, com a demanda crescente por óleo diesel e gasolina no mercado interno. Procura-se também atender à demanda na melhoria da qualidade da gasolina, melhorando seus padrões ambientais. Este programa também pode gerar impactos positivos sobre o meio ambiente, na medida em que estejam sendo pesquisadas gasolinas que atendem a padrões ambientais superiores. O Programa Tecnológico de Dutos (Produt) visa aumentar a confiabilidade e a capacidade operacional dos dutos, aumentar a vida útil dos mesmos, minimizar os riscos de vazamentos e custos operacionais, e reduzir o tempo de reparo dos dutos e os impactos de vazamentos no meio ambiente. Este projeto cresce em importância na medida em que se espera o aumento da malha dutoviária de cerca de 12 mil km atuais para 21 mil km em 2001 (site da Petrobras, 2001). Este programa mostra-se com potencial para gerar impactos ambientais positivos, principalmente em relação aos vazamentos de dutos, que foram causas de muitos acidentes recentes envolvendo a indústria do petróleo. Falta, entretanto, uma avaliação mais profunda para ver se estes possíveis impactos positivos sobre o meio ambiente dos projetos acima descritos não serão anulados por outros impactos negativos por eles gerados. O Programa Tecnológico de Meio Ambiente (Proamb) é específico à área de meio ambiente e tem seus projetos centrados principalmente em remediação, tratamento de rejeitos e emergências, ou seja, tecnologias de final de tubo (end-of-pipe). Os objetivos do Proamb na área de pesquisa é desenvolver e disponibilizar tecnologias para a excelência ambiental e na área de emergências de fornecer suporte técnico às emergências ambientais. 198 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Em 2001, o Proamb possuía 70 projetos120 em sua carteira, organizados em sete temas tecnológicos ou áreas de concentração: 1) Caracterização de Petróleos, Produtos e Insumos de Produção; 2) Caracterização e Monitoramento de Ecossistemas; 3) Emissões Atmosféricas; 4) Efluentes Hídricos; 5) Resíduos e Recuperação de Áreas Impactadas; 6) Avaliação e Desenvolvimento de Tecnologias para Emergências; e 7) Avaliação de Impactos e Valoração de Danos Ambientais. Estes projetos são desenvolvidos na própria empresa e em parcerias com universidades e institutos de pesquisa brasileiros, além de alguns convênios com instituições estrangeiras. Não há parcerias com empresas privadas para a realização de P&D nas áreas voltadas para o meio ambiente. Os projetos são financiados com recursos próprios e do CTPETRO. Além do desenvolvimento de tecnologias de monitoramento/prevenção e do tipo final de tubo, a Petrobras está desenvolvendo tecnologias de energia alternativa, mais limpas e/ou renováveis – foto voltaica, eólica, célula combustível, solar e biomassa. Seguindo a tendência das principais empresas petrolíferas mundiais, a Petrobras está mudando o seu foco de empresa de petróleo para empresa de energia, com o desenvolvimento de tecnologias de energia renovável, como já ocorre com outras grandes empresas do setor121. 5.3 Os Projetos do CTPETRO na Área de Meio Ambiente Os projetos na área de meio ambiente tiveram uma participação de aproximadamente 30% do total de recursos do CTPETRO até 2000 (Colombi Netto, 2001). Os projetos em andamento a cargo da Finep estão concentrados em três áreas principais: 120 O grande número de projetos e a não disponibilização de forma sistemática das informações a eles concernentes, reforça a intenção de analisar os principais temas em que trajetórias tecnológicas que estão sendo desenvolvidas pelos agentes envolvidos. 121 Na década de 90, as grandes empresas petrolíferas mundiais passaram a denominar-se de empresas de energia. A British Petroleum (BP), por exemplo, tem um programa chamado de “Green Operations” que dissemina, por meio de uma rede de comunicação, as experiências dos gerentes e engenheiros das unidades industriais da companhia espalhadas em muitos países. Dentro do “Green Operations” existe um programa tecnológico para identificar a distância entre o desempenho de suas atividades produtivas e as expectativas ambientais da sociedade (redução na emissão de gases do efeito estufa, conservação da biodiversidade e gerenciamento das águas), com relatos de experiências bem sucedidas (informações obtidas na própria empresa). A BP já utiliza o termo “beyond petroleum”, coincidente com as iniciais da empresa, que significa “além do petróleo”. 199 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil monitoramento, recuperação de áreas degradadas e tratamento de resíduos, conforme o quadro 10. Título do Projeto Área temática* Desenvolvimento de métodos de biorremediação em derrames de petróleo no mar e em sedimentos costeiros Interação de óleos com sedimentos na zona costeira da bacia de campos - processos de biorremediação Reposição florestal em áreas perturbadas de exploração e produção/Petrobrás - INFRA N/NE) Implementar laboratório de pesquisas ambientais que subsidie as atividades de análises de risco, de prevenção à poluição, de diagnóstico, aos projetos de monitoramento e de gestão ambiental do programa de pósgraduação em água, meio ambiente Eficiência tecnológica dos sensores e catalisadores (biológicas e químicos) na redução da poluição do petróleo e gás natural (INFRA N/NE) Monitoramento de emissões em postos de gasolina - MONITORPOSTO Tratamento resíduos Recuperação Tratamento resíduos/ Recuperação Recuperação Infra-estrutura Tratamento resíduos Monitoramento Avaliação do potencial de remediação dos Recuperação solos contaminados com petróleo e seus derivados na região de Mossoró e Guamaré RN, através de análises microbiológicas BIOREMED Separação petróleo-àgua - SEPA Tratamento efluentes Estudo e modelagem do transporte e do destino Tratamento de contaminantes orgânicos no sistema solo- resíduos aquífero Monitoramento Geoambiental de áreas Monitoramento costeiras na zona petrolífera de MACAU / RN - área entre Guimaré e MACAU MARPETRO Aproveitamento de Óleos Lubrificantes usados Reutilização em unidades de FCC - LUBLIMPO Recuperação de áreas degradadas pela Recuperação atividade de exploração e produção de petróleo no Rio Grande do Norte e Ceará - RADEP Ecossistemas continentais na área de Monitoramento influências das atividades petrolíferas da Bacia de Campos: bases ecológicas para prevenção e mitigação de riscos ambientais - Instituição / Interveniente Unidade executora Edital Univ.Estadual do s.i. / Norte Fluminense / idem Univ. Estadual do s.i. Norte Fluminense / idem Fund. de Apoio s.i. Institucional Muraki / UTAM Fundação de Apoio s.i. à Pesquisa e Extensão (BA) – FAPEX / UCSAL PADCT de Univ. Católica de s.i. Pernambuco / UNICAP 01/1999 Inst. Tecnologia não há para o Desenvolv. / Univ. Fed. Paraná Univ. Federal da não há Paraíba / Programa Pós-Grad. em Desenvolv. e Meio Ambiente Fund. Univers. de não há Desenvolv. Extensão e Pesquisa / UFAL Fund. Apoio ao Desenvolvimento da UFPE / UFPE Fundação Norte Petrobras Riograndense de Pesquisa e Cultura / UFRN Univ. de Salvador / UNIFACS Univ. do Estado do não há RN / Centro de Est. e Pesq. Meio Amb. e Desenv. Regional do Semi-Árido Fundação Bio-Rio / não há UFRJ PADCT 01/1999 01/1999 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 200 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil ECONORFLU Desenvolvimento de tecnologia para Tratamento de Fund. Apoio ao não há gerenciamento de rejeitos radioativos resíduos Desenvolvimento da UFPE / UFPE decorrentes da exploração e produção de petróleo - RADPETRO Viabilidade técnica, ambiental e econômica da Reutilização Fundação Ceciliano Petrobras aplicação da areia oleosa em estradas vicinais Abel de Almeida / e em artefatos de concreto - VITAE UFES Detecção e controle ativo de ruído em Monitoramento Fundação de Apoio UFPB ambientes de plataformas offshore à Pesquisa e à CONTROLEAR Extensão (PB) Detecção e biomonitoramento de poluentes Monitoramento Fundação Djalma não há associados à indústria do petróleo em Batista / Inst. Nac. ambientes aquáticos na Amazônia de Pesquisa da BIOMONITOR Amazônia (INPA) Estudos Geoambientais em Zonas de Monitoramento Fundação de Apoio não há Manguezal da Região de São Francisco do à Pesquisa e Conde - recôncavo Baiano: Subsídios a um Extensão (BA) / Programa de Monitoramento para Regiões de UFBA Manguezal Impactadas por Atividades Petrolíferas - MANGUESFC Potenciais impactos ambientais no transporte Recuperação Fundação de Apoio de gás natural e petróleo na Amazônia; Institucional Rio análisede risco, planos de contingências e Solimões / UFAM estratégias de recuperação de áreas impactadas - PIATAM Microbiologia Ambiental e do Petróleo: Recuparação Fundação Arthur UFV Produção Avançada de Biossurfactantes, Bernardes / UFV Biorremediação e Recuperação Avançada de Petróleo - UFVPETRO Utilização de microesfera de quitosona e seus Tratamento Parque de Polymar derivados na remoção de metais pesados e de resíduos Desenvolvimento Tecnológico – resíduos de petróleo de águas contaminadas QUITOSSOMA PADETEC / idem Metodologia para o monitoramento ambiental Monitoramento Fund. Padre Leonel não há relacionado à atividade petrolífera e utilização Franca / PUC - Rio de biomarcadores para avaliar processos de (Depto. Química) biodegradação - MMA Seleção e Monitoramento Ecofisiológico de Recuperação/ Fundação de Apoio Petrobras Espécies Arbórea para Revegetação Monitoramento Institucional Experimental de áreas Degradadas de Muraki / Inst. Nac. Exploração e Produção da Petrobras /AM de Pesquisa da REFLORA Amazônia (INPA) Remediação de solos e aqüíferos impactados Recuperação Fundação de Apoio Hidro por hidrocarbonetos solúveis - REHISOL à Universidade de São Paulo / USP Tecnologia eletroquímica como alternativa na Tratamento Fund. Univers. de não há degradação de resíduos da indústria de resíduos Desenvolv. Extenpetróleo - DEGRADAÇÂO são e Pesquisa / UFAL Monitoramento ambiental em atividades de Monitoramento Fund. de Apoio à IBP perfuração exploratória marítima - MAPEM Univ. Fed. do Rio Grande do Sul / UFRGS 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 03/2000 201 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Banco de Dados Ambientais para a Indústria Monitoramento do Petróleo - BAMPETRO Laboratório de Análise e Monitoramento Infra-estrutura Ambiental do Gás Natural Monitoramento, manipulação, controle e Monitoramento avaliação do meio ambiente (físico e social) na sua relação com a produção de petróleo na religião de Mossoró/RN – MMCAMA Implantação do Laboratório de Estudos Infra-estrutura Ambientais – LEA Fund. de Apoio ao não há Ensino, Pesquisa e Extensão do CCMN da UFRJ / REDEPETRO Fund. da Univ. Estadual de MS / UEMS Univ. do Estado do RN / idem 03/2000 Inst. Tecnologia e não há Pesquisa /Univ. Tiradentes 04/2000 Eliminação dos particulados de diesel com Controle catalizadores promovidos emissões de Inst. Tecnoloiga e não há Pesquisa / Univ. Tiradentes Laboratório de referência para análise de Infra-estrutura Inst. Oceanográfico não há hidrocarbonetos de petróleo – Lab. Quim. Org. da Marinha / USP Pró-Reitoria Elaboração de procedimentos para avaliação Monitoramento de TBG ambiental estratégica da implantação de Pesq. e Extensão / GASPETRO/ unidades termoelétricas e de gasodutos de UEMS MS GÁS transporte no território nacional Compósitos magnéticos para aplicação em Recuperação FUB – Núcleo de FUB despoluição ambiental Física Aplicada / UNB Avaliação da vulnerabilidade à contaminação Monitoramento FAURGS / Inst. de não há das águas subterrâneas relacionadas ao sistema Geociências de dutos no trecho TEDUT (município de UFRGS Ozório) – RETAP (município de Canoas) RS s.i. = sem informação * Classificação da área temática de elaboração própria. 04/2000 04/2000 s.i. s.i. / s.i. s.i. s.i. Fonte: FINEP Quadro 10 – Projetos Ambientais CTPETRO Provavelmente, por viés do edital 03/2000, que deu prioridade para 13 áreas temáticas, entre elas Monitoramento e Conservação do Meio Ambiente, houve uma grande concentração de projetos na área de monitoramento. Entretanto, a conservação ficou restrita ao tratamento de resíduos e recuperação de áreas degradadas, principalmente, seguido de montagem de infra-estrutura, reutilização de resíduos e controle de emissões – ou seja, do tratamento de final de tubo (end-of-pipe). Não foi identificado nenhum projeto de conservação do meio ambiente no sentido da prevenção da poluição, que exige inovações radicais, como a geração de energia fora do paradigma dos hidorcarbonetos. 202 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Reforçando este argumento, o Projeto Tendências (CTPETRO, 2000) sugere a abertura de um edital para P&D em fontes alternativas e renováveis de energia. Como não foram analisados os impactos ambientais dos projetos nas outras áreas temáticas, por não ser o objetivo desta tese, essa é uma conclusão parcial. Como foi ressaltado nos projetos desenvolvidos pela Petrobras, a pesquisa na área de dutos – para minimizar o risco de acidentes –, a engenharia de poços – para aumentar a segurança dos mesmos –, a recuperação avançada de petróleo – reduzindo a necessidade da exploração de novas áreas –, novas tecnologias de refino – para melhorar a qualidade dos derivados, tornando sua utilização menos agressiva ao meio ambiente – e o uso racional e conservação de energia são exemplos que podem reduzir os impactos ambientais das atividades da cadeia do petróleo. A necessidade de integração/coordenação das diversas áreas com o meio ambiente fica evidente, uma vez que o Plano Plurianual de Investimentos 1999-2003 (MCT et alii, 1999a) reconhece que as questões ambientais são um desafio para este século. Entretanto, dada a defasagem do uso de tecnologias ambientais, mesmo as do tipo final de tubo, e da qualidade do monitoramento na indústria de petróleo no Brasil, este é um avanço no sentido de preencher esta lacuna. Apesar da intenção de realizar parcerias entre as empresas e destas com as universidades e os institutos de pesquisa, não foram verificadas parcerias com o setor privado, seguindo a tendência dos projetos das outras áreas aprovados nos anos de 1999 e 2000. A Petrobras foi a que mais participou como interveniente dos projetos identificados pela Finep como sendo da área ambiental. Mesmo com as informações parcialmente incompletas, a análise geral é válida, pois o quadro geral não seria alterado substancialmente com todas as informações. O mais importante é a verificação posterior dos resultados destes projetos e a difusão das novas tecnologias desenvolvidas. Nesse último ponto, não há referências nos documentos do CTPETRO (MCT et alii, 1999a, 1999b, 1999c) sobre o processo de difusão das tecnologias, que são fundamentais para resolução dos problemas ambientais apresentados pela cadeia produtiva do petróleo. A questão da apropriação das tecnologias desenvolvidas, como no caso de registro de patentes, não ficou explícita nos documentos acima mencionados. 203 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Como visto no capítulo anterior, as agências reguladoras de meio ambiente necessitam de pesquisas científicas para estabelecer parâmetros de emissões para as regulamentações. Os projetos de monitoramento podem vir a preencher essa lacuna. O projeto Monitoramento Ambiental em Atividades de Perfuração Exploratória Marítima – MAPEM – coordenado pelo Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta com a participação de outras unidades da UFRGS, do Núcleo de Estudos do Mar – NEMAR – da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) como co-investidor, por meio de recursos financeiros (cerca de 35% do total) reatados entre 15 empresas. O total do investimento a ser realizado é de R$ 4.339.172,00 (site do IBP). Como muitos projetos são de monitoramento, os órgãos reguladores de meio ambiente tornam-se potenciais usuários das novas tecnologias e conhecimentos que irão resultar destes projetos. Nesse sentido, deveria haver uma relação mais estreita com os órgãos reguladores para determinar as áreas de interesse a serem direcionados os editais do CTPETRO no que concerne ao tema meio ambiente. A falta de informações sobre os ecossistemas brasileiros e sua dinâmica é muito grande, acentuando-se ainda mais para a Amazônia e o Pantanal. O Projeto Tendências (CTPETRO, 2000) sugere que sejam realizadas parcerias com o CTPETRO, especificamente com os fundos específicos do Ministério do Meio Ambiente122, para realização de P&D, “reforço da base de conhecimentos específicos e planos de gestão, monitoramento e recuperação ambiental de ecossistemas prioritários; e fortalecimento institucional visando o aumento da capacidade de resposta das agências ambientais no que diz respeito à regulamentação e controle das atividades do setor, como também de atendimento a situações de emergência” (CTPETRO, 2000:35). Dessa forma, o monitoramento ambiental, realizado pelas empresas ou pelos órgãos ambientais competentes, pode servir como um instrumento importante na gestão ambiental, seja privada ou pública. 122 Ver art. 50 da lei 9.478/97 – a Lei do Petróleo. 204 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil 5.4 As Tecnologias Alternativas e as Convergências Tecnológicas: mudança de paradigma ou novas trajetórias tecnológicas no paradigma dos hidrocarbonetos? A preservação do meio ambiente passou a ser uma preocupação crescente para indústria do petróleo mundial, aumentando sua importância como fator sistêmico da competitividade. A indústria de petróleo brasileira tem que incorporar a questão ambiental de maneira definitiva nas atividades de P&D na busca pela competitividade no nível internacional. Duas grandes tendências tecnológicas estão sendo observadas, facilitando a incorporação da estratégia ambiental nas atividades produtivas da indústria: uma é a convergência tecnológica das indústrias do gás e do petróleo e a outra é a viabilização econômica de fontes de energia mais limpas ou alternativas – que geram menos externalidades ambientais negativas que as atuais. 5.4.1. Tendências tecnológicas na direção de tecnologias mais limpas A evolução das indústrias do gás e do petróleo ocorreu de maneira relativamente independente, pois geravam produtos que atendiam a mercados diferentes, não ocorrendo uma concorrência inter-energética importante (Almeida, 2001). Porém, desenvolvimentos tecnológicos recentes estão promovendo uma convergência tecnológica dessas duas indústrias. A conversão de gás natural em derivados do petróleo (GTL123) – gasolina, diesel e nafta –, que possuem alto valor de mercado, tem apresentado resultados que a tornam economicamente viável. Duas motivações principais são apontadas para o aprimoramento desta tecnologia: a primeira é a “... a possibilidade de exploração de reservas de gás natural localizadas em locais remotos, onde as tecnologias de transporte disponíveis atualmente não são aplicáveis. Outro fator motivador do investimento nesta tecnologia é o recrudescimento das restrições da legislação ambiental referente à qualidade dos derivados de petróleo, em particular em grandes centros urbanos da América do Norte e Europa. Estas restrições implicam na necessidade de pesados investimentos na tecnologia de refino para produção de derivados mais limpos” (Almeida 2001:3). Desta forma, a conversão de gás em 123 “Gas-to-liquids” – GTL – em inglês. Este processo consiste na separação e recombinação das moléculas de hidrocarbonetos, podendo ser obtidas por meio do gás natural ou do carvão. 205 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil derivados de petróleo é uma alternativa para viabilizar produtos de qualidade superior, sem enxofre e a emissão de material particulado, quando da sua utilização. As empresas petrolíferas estrangeiras estão investindo em P&D para obter futuramente o domínio deste mercado. A Shell e a Sasol possuem plantas de GTL em operação e outras empresas (Rentech, Syntroleum, Sasol, Chevron e BP-Amoco-Arco) pretendem realizar investimentos em novas plantas. Outras empresas petrolíferas, como a Kerr-McGee, a Marathon, a Phillips, a Statoil, a Texaco e a YPF, obtiveram licenças para adotar a tecnologia com o intuito de investirem neste mercado (Almeida, 2001). Além da convergência tecnológica das indústrias do gás e do petróleo, passou a haver uma concorrência de combustíveis produzidos por cada uma delas. O gás natural veicular (GNV) e a pilha a combustível possibilitam a utilização do gás no setor de transporte. No caso do GNV, o gás comprimido é diretamente utilizado como combustível124. Em relação à pilha a combustível, o gás é utilizado para produzir hidrogênio, por meio de um reformador. Este hidrogênio abastece a pilha, que produz eletricidade para o motor elétrico do veículo. Nessa perspectiva, o domínio de reservas de gás natural passa a ser estratégica para a competitividade neste mercado, atraindo empresas que tradicionalmente não estão ligadas nem à indústria do gás e nem à do petróleo, crescendo o interesse no desenvolvimento de reservas de gás que não estão associadas ao petróleo. Desta forma, diante das convergências tecnológicas em curso e da maior concorrência entre os energéticos, abre-se a possibilidade de modificação nas configurações das estruturas de ambas as indústrias. As fontes de energia alternativas, incluindo as renováveis, apresentam-se como uma tendência de desenvolvimento tecnológico nas grandes empresas petrolíferas mundiais. A British Petroleum detém 20% do mercado mundial de células solares, que possui participação muito pequena na geração de energia elétrica, dado seu alto custo de produção. A Shell tem realizado parcerias com outras empresas – Siemens e Eon – na busca de aumentar para 15% sua participação neste mercado. A empresa acredita que as células solares serão uma importante fonte de geração de energia por volta de 2060 (Financial Times, 17/10/2001). 124 Atualmente há cerca de 230 mil veículos movidos a GNV no Brasil. 206 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil A Petrobras também realiza este tipo de investimento, entretanto não foi possível obter o montante que a empresa está investindo nesta área, a fim de saber o esforço de P&D nesse sentido. O Projeto Tendências do CTPETRO recomenda o P&D de fontes alternativas de energia, sobretudo as renováveis, por meio da “... abertura de edital específico para o tema Tecnologias relacionadas à viabilização econômica de fontes alternativas de energia: biomassas, xisto, solar, eólica e células combustíveis (CTPETRO, 2000:35). Esta é uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico ímpar para o Brasil. Mesmo com o fim do Programa Nacional do Álcool (Pró-álcool), iniciado em 1975, é importante a P&D em fontes alternativas de energia, aprofundando os estudos da viabilidade do álcool como fonte energética, o aproveitamento do lixo – um dos maiores problemas ambientais das cidades brasileiras –, a produção de óleo combustível a partir de vegetais – o babaçu, o dendê, entre outros –, a energia solar e a eólica. Nestas áreas, o país possui vantagens de dotação destes recursos – que são renováveis, ao contrário do petróleo e do gás – e desenvolvendo tecnologias economicamente viáveis pode-se apropriar das vantagens do pioneiro. 5.4.2. A estratégia de domínio de tecnologias limpas para a geração de energia Apesar da crescente demanda mundial de energia e insumos no longo prazo, existem barreiras também crescentes para a expansão ilimitada da indústria do petróleo, seja pelas restrições geológicas ou pelos impactos ambientais locais e globais decorrentes de suas atividades. A diversificação das fontes de matérias primas e energia já está ocorrendo, mas nem sempre as empresas são capazes de induzir e dar continuidade a este processo. Os altos investimentos em P&D, aliados aos retornos incertos, e as necessidades de curto prazo das empresas faz com que a atuação do Estado seja imprescindível nesse processo. Um exemplo de política de longo prazo pensando o problema é a Visão 21125 (Vision 21) do Departamento de Energia dos EUA. Esta consiste em um programa de P&D de longo prazo (15 a 20 anos) para desenvolver tecnologias necessárias à criação de plantas de geração de energia ultra-limpas. Partindo da constatação que: a demanda de 125 Este item foi elaborado a partir das informações obtidas no site do U.S. Department of Energy (DOE) - http://www.fetc.doe.gov/ 207 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil energia é crescente, particularmente de eletricidade, nos EUA e no mundo; a energia fóssil precisa fazer parte do mix de fontes energéticas no futuro; as preocupações ambientais associadas ao uso da energia fóssil precisam ser atendidas126; a reestruturação da indústria de energia, com novos atores com diversos produtos e estoques, e a falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias; e o reconhecimento da importância de novas futuras opções de geração de energia, como a economia do hidrogênio, fizeram convergir de fatores de mercado, com as preocupações ambientais e a necessidade crescente de geração de energia. O objetivo deste projeto é minimizar as externalidades ambientais associadas ao uso de combustíveis fósseis para a produção de eletricidade e para o transporte a custos competitivos. A fim de atingir este objetivo, a Visão 21 requer inovações que gerem tecnologias revolucionárias, ao invés de realizar melhoramentos nas tecnologias existentes. O envolvimento da indústria é fundamental, seja no planejamento – para garantir a viabilidade de mercado das novas tecnologias – ou na repartição de custos. As tecnologias mais limpas, que utilizam energia fóssil – células combustível, sistemas de turbinas avançados, entre outras – não podem atingir a eficiência, os desempenhos ambiental e econômico necessários para as plantas de energia da Visão 21. A intenção é integrar diversas tecnologias avançadas, ao invés de improvisar o desempenho e o custo, baseando em mercados flexíveis, diversidade de produtos e a ecologia industrial. Desta forma, o governo dos EUA está buscando ir além dos problemas ambientais da indústria do petróleo, atingindo o ponto focal que é a geração de energia em planta ultra-limpas. Sendo um dos maiores produtores de tecnologia ambiental no mundo, juntamente com a Alemanha e o Japão, os EUA estão buscando soluções para os problemas ambientais resultantes do paradigma tecnológico convencional de geração de energia – o paradigma dos hidrocarbonetos. A proposta da Visão 21 existe enorme esforço e investimento em C&T e aponta na direção de mudança de paradigma, que vai gerar novas trajetórias tecnológicas, possibilitando os EUA a usufruírem das vantagens do pioneiro. 126 Nos EUA, o cumprimento das regulamentações ambientais pela indústria do petróleo está se tornando mais complexa e cara. Em 1996, esta indústria, incluindo o refino, gastou US$ 8,2 bilhões com proteção ambiental (site DOE). 208 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil Mesmo existindo grandes incertezas quanto ao ponto de inflexão em relação às questões ambientais – ou seja, se há condições de reverter parcialmente os danos causados ao meio ambiente – há indícios de grandes transformações, sobretudo no setor energético, que tem impactos substanciais sobre o meio ambiente. Mas a mudança de paradigma é lenta e gradual, ocorrendo a convivência do paradigma convencional – que provoca danos ambientais – com um paradigma inovador – mais ambientalmente saudáveis. Portanto, esforços tecnológicos também devem ser direcionados para reparo dos danos causados e para novas tecnologias ambientalmente saudáveis. Em contraste, mesmo com avanços importantes, a política pública relativa ao meio ambiente na indústria brasileira de petróleo tem se mostrado adaptativa, se comparada às tendências mundiais. O incentivo ao P&D, por meio do novo sistema de promoção da C&T, tem sido direcionado para cobrir lacunas do incipiente sistema de monitoramento. Mesmo com resultados positivos destes projetos, não há evidências de uma integração ampla entre empresas, reguladores e grupos de interesses quanto ao sistema de monitoramento ambiental e divulgação das informações de forma organizada, sistemática e de acesso fácil. Aliado a este fator, a fragilidade institucional da gestão ambiental pública, com problemas estruturais, reduzem as pressões necessárias à implementação de uma política mais agressiva em termos ambientais. A quantidade de projetos de tratamento de final de tubo, constatada na análise dos projetos financiados pelo CTPETRO e pela Petrobras, também confirma a política adaptativa que tem sido implementada na P&D ambiental. Como ressaltado no capítulo teórico, pode haver conflitos de políticas que estimulem este tipo de solução com outras que estimulem mudanças mais radicais, como novos processos e novas formas de geração de energia. A necessidade de uma política transformadora atende não somente às demandas ambientais, mas vai também na direção da tendência estratégica das grandes empresas petrolíferas mundiais de serem empresas de energia, indo além do petróleo com fonte energética. A questão cresce em importância numa perspectiva de ciclo de vida do produto, pois a indústria petróleo tem uma dupla responsabilidade: além de importante fonte de energia primária, também produz insumos indispensáveis para outros setores industriais. Logo, não somente a geração de energia deve caminhar na direção de um padrão ecologicamente correto, mas também a produção de insumos. Não se trata de diminuir a 209 Capítulo 5 – A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil importância da indústria do petróleo, mas reconhecer suas limitações por estar apoiada em um recurso natural não renovável, portanto finito, e cujo consumo é a principal causa do aquecimento global. Este desafio é ainda maior para a indústria brasileira do petróleo, que passa por momentos de transformação e consolidação de uma nova estrutura. Se não forem incorporadas as tendências da indústria mundial – incluindo as questões ambientais –, corre-se o risco de ficar cada vez mais dependente de tecnologias dos países desenvolvidos, sem aproveitar e desenvolver o potencial de ciência e tecnologia do país, possivelmente mais capacitado para achar soluções próprias para as questões ambientais tão específicas ao cenário brasileiro. Isto afeta a competitividade da indústria, mas os programas de pesquisa e desenvolvimento não estão sendo formulados a partir desta ótica. A reformulação desta lógica trará benefícios no longo prazo não só na esfera ambiental, mas também na competitiva. 210 Conclusões CONCLUSÕES As inovações ambientais, sejam tecnológicas ou organizacionais, são o caminho principal para aliar crescimento econômico e preservação ambiental. A sua geração e a difusão, entretanto, é um processo complexo e multidimensional, que exige categorias de análise para eleger seus elementos centrais. O foco desta tese foi justamente discutir este processo de geração e difusão de inovações, e não apontar quais são as inovações mais adequadas para resolver determinados tipos de problemas ambientais. A importância de centrar a análise no processo de geração e difusão de inovações está no fato de compreender seus mecanismos, a fim de que possam ser implementadas políticas tenham como objetivo aliar preservação ambiental e competitividade – consideradas incompatíveis por muitos empresários, formuladores de política e acadêmicos. Muitas vezes, a questão ambiental sequer é considerada, levando a processos produtivos que geram externalidades ambientais negativas. Repete-se, portanto, a divisão desigual dos frutos do crescimento econômico – apropriação privada dos lucros e socialização das externalidades negativas – a poluição e a depleção dos recursos naturais. O acirramento do processo concorrencial gerou inovações cujos requisitos necessários para seu sucesso modificaram o comportamento das firmas pela necessidade de internalização e profissionalização das atividades de P&D. Este fato possibilitou as firmas inovadoras a também se preocuparem na busca de soluções para problemas ambientais. Aliar competitividade à preservação ambiental é decorrente da capacidade das firmas e setores industriais de adotar inovações ambientais. Portanto, há dois processos complementares – o de geração e o de difusão – que possuem características distintas. Dependendo do setor industrial, os elementos relevantes deste processo são diferentes. Para que melhorias ambientais ocorram, o processo de difusão de inovações tem um papel crucial, dado o interesse social na preservação do meio ambiente. Entretanto, a apropriabilidade é uma das características principais do processo de geração de inovações, no qual não há interesse da firma em difundir sua inovação. Há, portanto, a necessidade de regulamentações e políticas de compensação para a firma inovadora. Nos casos em que a firma não mostre capacidade ou interesse em adotar inovações ambientais, a regulamentação ambiental tem um papel importante para induzi-la a fazê-lo. Para muitos, a regulamentação ambiental implica custos para as firmas, podendo afetar a 211 Conclusões competitividade. Nesse ponto, é fundamental o horizonte de análise: no curto prazo, qualquer mudança em processos, métodos, rotinas e técnicas pode implicar em custo, mas no longo prazo, estas mudanças podem geram benefícios – nesse caso, os custos seriam considerados como investimentos. Se os custos forem repassados para os preços, o diferencial é o que a sociedade paga para ter um ambiente mais saudável. A regulamentação ambiental possui um caráter diferente de outras regulamentações, pois modula a inovação para atingir objetivos cujos resultados são socialmente usufruídos, ao contrário da redução de custos, cujos resultados são apropriados privadamente. As regulamentações redefinem as possibilidades de atuação da firma, determinando seu grau de liberdade para tomar decisões por meio da definição de parâmetros. Além de fatores econômicos que influenciam no processo inovativo, há também fatores institucionais, que delimitam as “regras do jogo”, e sociais que influenciam no ambiente seletivo de inovações. É fundamental que a questão ambiental seja internalizada nas instituições, para que torne o ambiente seletivo mais favorável às inovações ambientais. É possível, portanto, estimular a introdução e difusão de inovações ambientais, com ganhos para as empresas e para o meio ambiente. Assim, não só o mercado, mas também entidades governamentais reguladoras, instituições pública de pesquisa – dando apoio à P&D das empresas – e outros organismos públicos são partes integrantes do processo de geração, seleção e difusão de inovações, inclusive as ambientais. Entretanto, estabelecer regulamentações que possam gerar inovações não é tarefa fácil e depende da capacitação do órgão regulador, do tipo de solução que promove e da capacidade de resposta dos regulados. Regulamentações que levam a mudanças de processos produtivos exigem também mudanças organizacionais e institucionais, portanto, são mais difíceis de serem implementadas, exigindo uma visão de longo prazo e uma coordenação ampla de políticas para os efeitos de umas não sejam anulados pelos das outras. Regulamentações que levam ao tratamento de final de tubo (end-of-pipe) estão mais ao alcance imediato das firmas por serem de mais fácil adaptação à tecnologia utilizada, sem necessitar de mudanças radicais nos processos produtivos e organizacionais das firmas. Assim, regulamentações ambientais que estimulam a redução da poluição no curto prazo, através da adoção de soluções do tipo final de tubo, podem desincentivar a adoção 212 Conclusões de inovações ambientais que requerem mudanças mais radicais. Pode haver, portanto, uma incompatibilidade entre os objetivos de curto e longo prazos. As regulamentações ambientais e as políticas vigentes podem não ser compatíveis com atitudes inovadoras das firmas. Além do mais, surge uma possível incompatibilidade entre a diversidade tecnológica, possivelmente mais adequada às diferentes questões ambientais, e a padronização, que reduz custos e gera ganhos de escala. As evidências empíricas para a indústria brasileira mostram que, mesmo sendo considerada como um custo, a pressão legal é o fator que mais induz à adoção de tecnologias ambientais. A análise do comportamento da indústria brasileira em relação às questões ambientais e sua posição competitiva revela as seguintes evidências: as empresas de inserção internacional demonstraram maiores preocupações com as questões ambientais, seja por pressão de seus investidores, por reproduzirem a gestão ambiental das matrizes, por serem de grande porte com visibilidade de suas ações, por pressão do mercado externo ou por terem capacidade financeira para realizarem investimentos no meio ambiente; As maiores empresas consideraram que as questões ambientais influenciam na sua competitividade e o meio ambiente é um fator de motivação para a inovação. A maioria das empresas, independente do tamanho, considera importante a estratégia de preservação do meio ambiente em suas inovações, revelando a importância crescente da variável ambiental na estratégia de competitividade empresarial. As empresas mais inovadoras são mais motivadas a adotar inovações ambientais. A fonte de inovatitivade para empresa pode ser importante para na solução de problemas ambientais. As empresas de setores de alto potencial poluidor tendem a considerar mais a influência das questões ambientais em sua competitividade do que aquelas de menor potencial poluidor, com exceção de borrachas e plásticos, metalúrgica, naval, aeroespacial e algumas atividades do setor têxtil. A difícil generalização das conclusões acerca da relação entre preservação ambiental e competitividade levou ao estudo da cadeia produtiva do petróleo, por ser um setor estratégico tanto na geração primária de energia quanto no fornecimento de insumos para outros setores industriais. Seu alto potencial poluidor e de risco é motivo de preocupações crescentes por parte da sociedade, além de envolver perda de ativos e gerar 213 Conclusões custos efetivos – pagamentos de multas, indenizações, recuperação do meio ambiente, marketing para melhorar a imagem da empresa. A adoção de tecnologias menos poluentes na indústria do petróleo não tem sido guiada pela proteção ambiental, mas pela busca de eficiência na utilização dos recursos. A alta do preço do petróleo estimulou a utilização mais eficiente dos recursos e a economia de energia nos setores mais poluentes e energo-intensivos. Aumentou o rendimento energético e teve um impacto positivo sobre o meio ambiente, inclusive na procura de fontes de energia mais limpas. A Petrobras foi monopolista de praticamente todas as atividades da cadeia produtiva – exceto a distribuição, a ponta da cadeia – durante mais de quatro décadas, e continua sendo a empresa líder do setor – em relação às suas demandas, produção, investimentos, e P&D. A flexibilização do monopólio implicou mudanças institucionais, no financiamento da C&T, entre outros fatores que modificaram as características do ambiente seletivo e, consequentemente, as competências necessárias para que as firmas obtenham vantagens competitivas. Em decorrência da abertura do mercado petrolífero brasileiro, a intensificação das atividades produtivas da indústria do petróleo já está ocorrendo. Têm sido freqüentes as parcerias realizadas para atuação no upstream por meio dos blocos exploratórios concedidos pela agência reguladora da indústria do petróleo e gás – a ANP. Considerar os problemas ambientais decorrentes das atividades produtivas e secundárias da cadeia do petróleo é fundamental para que não se tenha o crescimento da indústria à custa da crescente degradação ambiental. Além da responsabilidade das empresas, a preservação ambiental é de responsabilidade do Estado, em sua três esferas de poder. A legislação ambiental brasileira é avançada em relação a de outros países, inclusive de alguns mais desenvolvidos. Entretanto, a fragilidade institucional da gestão ambiental pública é uma barreira para o gerenciamento ambiental adequado para a indústria do petróleo. A falta de recursos humanos, financeiros e da disponibilidade de informações organizadas e sistematizadas são problemas que necessitam solução imediata. A legislação ambiental específica à indústria do petróleo vem se tornando mais complexa em decorrência da flexibilização do monopólio e dos acidentes na indústria, que provocaram uma reação em termos da legislação ambiental. Estes dois fatos também 214 Conclusões levaram à reestruturação dos sistemas de segurança, saúde e meio ambiente da principal empresa do setor, a Petrobras. A mudança de marco regulatório na indústria do petróleo, por meio da Lei do Petróleo, trouxe mudanças no sistema setorial de inovação, deixando de ser a Petrobrás o único ator no desenvolvimento de ciência e tecnologia (C&T) nesta indústria. Um fluxo de recursos financeiros para financiamento da C&T vindos dos royalties, sem depender dos recursos do Tesouro Nacional, foi uma inovação importante. A análise das principais tendências da pesquisa e desenvolvimento de tecnologias ambientais na indústria do petróleo no Brasil revela que, apesar do sistema inovador implantado para o desenvolvimento de C&T, as políticas têm sido adaptativas ao invés de transformadoras, gerando mudanças no processo produtivo. Foram identificados dois temas principais abordados pelos projetos ambientais em desenvolvimento – o monitoramento e o tratamento de final de tubo. O monitoramento é importante para preencher a lacuna existente, seja das empresas ou dos órgãos ambientais, principalmente. O monitoramento é um instrumento de gestão ambiental pública, servindo para o estabelecimento de linhas de base. A grande concentração de projetos em tratamento de final de tubo revela uma ausência de preocupação com o desenvolvimento de tecnologias mais limpas no mesmo paradigma dos hidrocarbonetos ou de novas fontes primárias de energia, tendência das estratégias das empresas petrolíferas mundiais. O esforço para mudança de paradigma é explicado tanto em termos ambientais – redução da poluição e finitude das reservas de petróleo – quanto de estratégias empresariais, de domínio de uma tecnologia que gere energia a custo baixo sem agressões ambientais significativas. As questões ambientais ganharam importância dentre os elementos do ambiente seletivo, fazendo com que mudassem as estratégias empresariais para reforçar sua competitividade. Seja por pressão da sociedade, das regulamentações ou das tendências do mercado internacional, a indústria brasileira do petróleo vem, aos poucos, percebendo a importância da questão ambiental para sua competitividade. A intensificação da P&D na área de meio ambiente e a melhoria da qualidade e eficiência da gestão ambiental pública são fatores que devem ser estimulados para auxiliar nessa complexa tarefa de produzir sem agredir o meio ambiente. 215 Conclusões Além da maior preocupação com as relacionadas ao meio ambiente, é fundamental maior atenção às questões sociais, para que o crescimento econômico ocorra sem exclusão social e ambiental. 216 Referências Bibliográficas REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO. Anuário Estatístico – glossário. Disponível no site www.onip.org.br. 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Gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) interno F005 l__l__l__l (%) Gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) externo F006 l__l__l__l (%) Gatos em aquisição e/ou licenciamento de patentes e assistência técnica F007 l__l__l__l (%) Gastos em desenho industrial F008 l__l__l__l (%) Gastos em comercialização de novos produtos F009 l__l__l__l (%) Gatos em plantas, máquinas, software e outros equipamentos 228 Anexo I F010 l__l__l__l associados com novos produtos ou processos (%) 100 (%) Total 6.1.6 Classifique, de acordo com a importância, os fatores que motivaram a empresa a inovar, no período 1994-96. 1 Indiferente 2 Pouco importante 3 Importante 4 Muito importante 5 Crucial A Não se aplica F031 l__l Preservação do meio ambiente 6.2 ESTRATÉGIAS E GESTÃO DA PRODUÇÃO 6.2.4 Classifique a situação da empresa frente aos programas/técnica/métodos voltados para o aumento da qualidade e produtividade. 1 SIM 2 NÃO Utilizava Utilizou em 1994 em 1996 F100 l__l F101 l__l Melhorias de métodos produtivos para a defesa do meio ambiente CAPÍTULO 8. MEIO AMBIENTE 8.1 O desenvolvimento de produtos e processos não agressivos ao meio ambiente constituise em oportunidade de negócios para a empresa? 1 SIM 229 Anexo I 2 NÃO H001 l__l 8.2 Os efeitos sobre o meio ambiente derivados da atividade de sua empresa implicam: 1 SIM 2 NÃO Elevação dos seus custos, devido a investimentos Em tratamento de resíduos, multas, etc. H002 l__l Perda de mercados internos e/ou externos H003 l__l Degradação de sua imagem institucional H004 l__l 8.3 Identifique o tipo de investimento que a empresa já realizou para reduzir os problemas ambientais causados por sua atividade. 1 SIM 2 NÃO Substituição de insumos contaminantes H005 l__l Mudanças no processo de produção H006 l__l Reutilização ou tratamento de resíduos H007 l__l 230 Anexo I RELATÓRIO DA COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA (CNI et alii, 2001) QUESTIONÁRIO MEIO AMBIENTE Não deixar respostas em branco. Se o valor for nulo, colocar 0 (zero), pois o item em branco será considerado não resposta. 25 Onde são formulados os procedimentos relativos à gestão ambiental? Na direção geral Na gerência de produção Em uma unidade própria de gestão (especificar)__________________________________ Integrada com outras áreas (especificar)_________________________________________ Outros (especificar)_________________________________________________________ Não se adotam procedimentos de gestão ambiental 26 Percentual da receita operacional líquida (ROL) aplicado em investimentos ambientais: 1998 Percentual _____% 1999 previsto para os próximos 2 anos _____% _____% 27 Assinale com um “X” os principais resultados dos investimentos ambientais adotados pela sua empresa: Aumentou/ Melhorou Diminui/ Piorou Inalterado Custo final do produto Vendas Acesso a novos mercados 231 Anexo I Imagem da empresa 28 Quais os principais benefícios ambientais obtidos com os investimentos em gestão, controle e melhorias operacionais e tecnológicas? (Marque até três alternativas) Otimização de insumos (redução do uso de materiais de bens e serviços; do consumo de energia e água, e substituição de insumos tóxicos Redução de emissões de poluentes do ar Redução, recirculação e controle de efluentes líquidos Redução e disposição de resíduos sólidos (especificar) ____________________________ Outros (especificar)________________________________________________________ Nenhum benefício 29 Assinale com um ”X” os tipos de investimentos associados à gestão ambiental que seu estabelecimento já realizou e/ou pretende realizar para melhorar o seu desempenho ambiental: Realizou últimos anos nos Pretende realizar Não realizou e dois nos próximos dois não pretende anos realizar Tratamento e controle de efluentes líquidos Tratamento e controle de resíduos sólidos Tratamento e controle de emissão de gases Tratamento e controle de resíduos Procedimento para redução de perdas e refugos de materiais e de produto acabado Conservação de energia Adoção de fontes de energia mais limpas Recirculação e recuperação de água Melhoria de projeto, design, e embalagem do produto 232 Anexo I Treinamento da mão-de-obra para a gestão ambiental Implantação de sistemas de gestão ambiental (inclusive de certificação) Outros (especificar) ______________________________________________________________ 30 Quais as duas principais motivações para a realização de investimentos ambientais? Atendimento a requisitos legais Melhoria da imagem da empresa Acesso a novos mercados Melhoria da gestão Outros (especificar)________________________________________________________ 31 Assinale com um “X” as fontes de financiamento que seu estabelecimento tem utilizado ou pretende utilizar nos futuros investimentos em meio ambiente: Nos últimos dois anos Nos próximos dois anos Não utilizou e não pretende utilizar Próprios Bancos governamentais Bancos privados Outros (especificar) ______________________________________________________________ 233 Anexo II ANEXO II CLASSIFICAÇÃO CNAE (2 dígitos) – utilizada no Relatório da Competitividade da Indústria Brasileira (CNI et alii, 2001) – somente Indústria de Transformação 15 – Produtos alimentares e bebidas 16 – Produtos de fumo 17 – Produtos têxteis 18 – Confecção de artigos do vestuário de acessórios 19 – Preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos de viagem e calçados 20 – Produtos de madeira 21 – Celulose, papel e produtos de papel 22 – Edição, impressão e reprodução de gravações 23 – Fabricação de coque, refino de petróleo, elaboração de combustíveis nucleares e produção de álcool 24 – Produtos químicos 25 – Artigos de borracha e plástico 26 – Produtos de minerais não-metálicos 27 – Metalurgia básica 28 – Fabricação de produtos de metal – exclusive máquinas e equipamentos 29 – Fabricação de máquinas e equipamentos 30 – Fabricação máquinas para escritório e equipamentos de informática 31 – Fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos 32 – Fabricação de material eletrônico e de aparelhos e equipamentos de comunicações 33 – Fabricação de equipamentos e instrumentos médico-hospitalares, instrumento de precisão e óticos, equipamentos para automação industrial, cronômetros e relógios 34 – Fabricação e montagem de veículos automotores, reboques e carrocerias 35 – Fabricação de outros equipamentos de transporte 36 – Fabricação de móveis e indústrias diversas 37 – Reciclagem de sucatas 234 Anexo II CLASSIFICAÇÃO CNAE (3 dígitos) – utilizada nas tabelas elaboradas a partir da PAEP (FUNDAÇÃO SEADE, 1999) 113 – Indústrias extrativas 151 – Abate e preparação de produtos de carne e de pescado 152 – Processamento, preservação e produção de conservas de frutas, legumes e outros vegetais 153 – Produção de óleos e gorduras vegetais e animais 154 – Laticínios 155 – Moagem, fabricação de produtos amiláceos e de rações balanceadas para animais 156 – Fabricação e refino de açúcar 157 – Torrefação e moagem de café 158 – Fabricação de outros produtos alimentícios 159 – Fabricação de bebidas 160 – Fabricação de produtos do fumo 171 – Beneficiamento de fibras têxteis naturais 172 – Fiação 173 – Tecelagem - inclusive fiação e tecelagem 174 – Fabricação de artefatos têxteis, incluindo tecelagem 175 – Serviços de acabamento em fios, tecidos e artigos têxteis 176 – Fabricação de artefatos têxteis a partir de tecidos - exclusive vestuário - e de outros artigos têxteis 177 – Fabricação de tecidos e artigos de malha 181 – Confecção de artigos do vestuário 182 – Fabricação de acessórios do vestuário e de segurança profissional 191 – Curtimento e outras preparações de couro 192 – Fabricação de artigos para viagem e de artefatos diversos de couro 193 – Fabricação de calçados 201 – Desdobramento de madeira 202 – Fabricação de produtos de madeira, cortiça e material trançado - exclusive móveis 211 – Fabricação de celulose e outras pastas para a fabricação de papel 212 – Fabricação de papel, papelão liso, cartolina e cartão 213 – Fabricação de embalagens de papel ou papelão 235 Anexo II 214 – Fabricação de artefatos diversos de papel, papelão, cartolina e cartão 221 – Edição; edição e impressão 222 – Impressão e serviços conexos para terceiros 223 – Reprodução de materiais gravados 232 – Refino de petróleo 234 – Produção de álcool 241 – Fabricação de produtos químicos inorgânicos 242 – Fabricação de produtos químicos orgânicos 243 – Fabricação de resinas e elastômeros 244 – Fabricação de fibras, fios, cabos e filamentos contínuos artificiais e sintéticos 245 – Fabricação de produtos farmacêuticos 246 – Fabricação de defensivos agrícolas 247 – Fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza e artigos de perfumaria 248 – Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes, lacas e produtos afins 249 – Fabricação de produtos e preparados químicos diversos 251 – Fabricação de artigos de borracha 252 – Fabricação de produtos de plástico 261 – Fabricação de vidro e de produtos do vidro 262 – Fabricação de cimento 263 – Fabricação de artefatos de concreto, cimento, fibrocimento, gesso e estuque 264 – Fabricação de produtos cerâmicos 269 – Aparelhamento de pedras e fabricação de cal e de outros produtos de minerais não-metálicos 271 – Siderúrgicas integradas 272 – Fabricação de produtos siderúrgicos - exclusive em siderúrgicas integradas 273 – Fabricação de tubos - exclusive em siderúrgicas integradas 274 – Metalurgia de metais não-ferrosos 275 – Fundição 281 – Fabricação de estruturas metálicas e obras de caldeiraria pesada 282 – Fabricação de tanques, caldeiras e reservatórios metálicos 283 – Forjaria, estamparia, metalurgia do pó e serviços de tratamento de metais 284 – Fabricação de artigos de cutelaria, de serralheria e ferramentas manuais 236 Anexo II 289 – Fabricação de produtos diversos de metal 291 – Fabricação de motores, bombas, compressores e equipamentos de transmissão 292 – Fabricação de máquinas e equipamentos de uso geral 293 – Fabricação de tratores e de máquinas e equipamentos para a agricultura, avicultura e obtenção de produtos animais 294 – Fabricação de máquinas-ferramenta 295 – Fabricação de máquinas e equipamentos para as indústrias de extração mineral e construção 296 – Fabricação de outras máquinas e equipamentos de uso específico 297 – Fabricação de armas, munições e equipamentos militares 298 – Fabricação de eletrodomésticos 301 – Fabricação de máquinas para escritório 302 – Fabricação de máquinas e equipamentos de sistemas eletrônicos para processamento de dados 311 – Fabricação de geradores, transformadores e motores elétricos 312 – Fabricação de equipamentos para distribuição e controle de energia elétrica 313 – Fabricação de fios, cabos e condutores elétricos isolados 314 – Fabricação de pilhas, baterias e acumuladores elétricos 315 – Fabricação de lâmpadas e equipamentos de iluminação 316 – Fabricação de material elétrico para veículos - exclusive baterias 319 – Fabricação de outros equipamentos e aparelhos elétricos 321 – Fabricação de material eletrônico básico 322 – Fabricação de aparelhos e equipamentos de telefonia e radiotelefonia e de transmissores de televisão e rádio 323 – Fabricação de aparelhos receptores de rádio e televisão e de reprodução, gravação ou amplificação de som e vídeo 331 – Fabricação de aparelhos e instrumentos para usos médico - hospitalares, odontológicos e de laboratórios e aparelhos ortopédicos 332 – Fabricação de aparelhos e instrumentos de medida, teste e controle - exclusive equipamentos para controle de processos industriais 333 – Fabricação de máquinas, aparelhos e equipamentos de sistemas eletrônicos dedicados a automação industrial e controle do processo produtivo 334 – Fabricação de aparelhos, instrumentos e materiais ópticos, fotográficos e cinematográficos 335 – Fabricação de cronômetros e relógios 237 Anexo II 341 – Fabricação de automóveis, camionetas e utilitários 342 – Fabricação de caminhões e ônibus 343 – Fabricação de cabines, carrocerias e reboques 344 – Fabricação de peças e acessórios para veículos automotores 345 – Recondicionamento ou recuperação de motores para veículos automotores 351 – Construção e reparação de embarcações 352 – Construção, montagem e reparação de veículos ferroviários 353 – Construção, montagem e reparação de aeronaves 359 – Fabricação de outros equipamentos de transporte 361 – Fabricação de artigos do mobiliário 369 – Fabricação de produtos diversos 238 Anexo III ANEXO III POTENCIAL POLUIDOR DE CADA SETOR DE ACORDO COM A QUANTIDADE DE ATIVIDADES EM CADA CATEGORIA CNAE 113 151 152 153 154 155 156 157 158 159 160 171 172 173 174 175 176 177 181 182 191 192 193 201 202 211 212 213 214 221 222 223 232 234 241 242 243 244 245 246 247 248 249 251 Potencial Poluidor Alto Alto (5) / Médio (1) Alto Alto Alto (5) / Médio (7) Alto Médio Alto(5) / Médio (10) / Desprezível (3) Alto(3) / Médio (2) / Desprezível (1) Baixo (2) / Desprezível (1) Alto (2) / Médio (1) Médio Alto (7) / Médio (1) Médio (2) / Baixo (1) / Desprezível (1) Baixo Alto (1) / Médio (4) / Desprezível (8) n.c. Médio (1) / / Desprezível (6) Médio (1) / Desprezível (4) Alto Desprezível Médio (1) / Baixo (1) / Desprezível (10) Médio (1) / Baixo (1) Médio (1) / Baixo (3) / Desprezível (13) Alto Alto (1) / Médio (1) Médio ( ) / Desprezível (1) Alto (1) / Médio (3) / Desprezível (3) Médio (3) / Baixo (3) / Desprezível (3) Médio (2) / Desprezível (1) Médio Alto Alto Alto (4) / Médio (2) Alto (6) / Médio (2) Médio Médio Alto (1) / Baixo (4) Alto Alto (4) / Médio (1) Alto (1) / Médio (2) Alto (6) / Médio (1) / Baixo (1) / Desprezível (1) Alto (5) / Médio (2) / Baixo (8) 239 Anexo III 252 261 262 263 264 269 271 272 273 274 275 281 282 283 284 289 291 292 293 294 295 296 297 298 301 302 311 312 313 314 315 316 319 321 322 323 331 332 333 334 335 341 342 343 344 345 351 352 353 359 361 Alto (1) / Médio (6) / Baixo (7) / Desprezível (2) Alto (5) / Médio (1) n.c. Médio (1) / Baixo (4) / Desprezível (1) Médio Alto (1) / Médio (5) / Baixo (1) Alto Alto Alto Alto Alto (6) / Médio (1) Baixo (4) / Desprezível (1) Médio (1) / Baixo (1) Alto (3) / Médio (2) / Desprezível (1) Alto (1) / Médio (1) / Desprezível (3) Alto (1) / Médio (1) / Baixo (1) / Desprezível (1) Alto (3) / Médio (2) / Baixo (8) Médio (2) / Baixo (5) Baixo Baixo Baixo Baixo Alto Médio (2) / Baixo (4) Médio n.c. Médio (2) / Baixo (2) Médio (1) / Baixo (2) Médio Médio Médio (3) / Baixo (2) / Desprezível (1) Médio (3) / Baixo (1) Médio Médio Médio Médio Médio (1) / Baixo (4) Médio (1) / Baixo (3) n.c. Baixo Desprezível Alto Alto Alto Alto (1) / Baixo (1) Baixo Alto (1) / Médio (1) / Baixo (1) Médio Alto (2) / Médio (1) Médio (2) / Baixo (2) / Desprezível (1) Médio (1) / Baixo (2) / Desprezível (6) 240 Anexo III 369 Total Médio (5) / Baixo (10) / Desprezível (14) - 241 Anexo IV ANEXO IV RESULTADO DAS RODADAS DE LICITAÇÃO DE BLOCOS REALIZADAS PELA ANP – 1999 a 2001 Tabela IV.1 – Resultado da Primeira Rodada de Licitação de Blocos – 1999 1999 Blocos Área [km2] / Total 54.659 BM-S-2 BM-S-3 8.302 6.591 Participação das Empresas (%) Comprometimento com a Indústria Nacional Exploração Desenvolvimento 11 Empresas 25% 26% *Texaco (100%) 50% 35% 20% BM-S-4 7.723 *Amerada Hess (45%), Kerr McGee (30%) e 5% Petrobras (25%) *Agip (100%) 25% BM-C-3 1.660 *Petrobras (40%), Agip (40%) e YPF (20%) 25% 20% BM-C-4 2.777 *Agip (55%) e YPF (45%) 10% 20% BM-C-5 2.154 *Texaco (100%) 50% 35% BM-C-6 686 *Petrobras (100%) 50% 60% BM-ES-1 2.710 *Esso (100%) 5% 15% BM-ES-2 2.409 *Unocal (40,5%), Texaco (32%) e YPF (27,5%) 50% 35% BM-CAL-1 1.307 *Petrobras (50%) e YPF (50%) 5% 20% BM-POT-1 4.252 *Agip (100%) 10% 20% BM-FZA-1 14.088 *BP (30%), Esso (25%), Petrobras (20%), Shell 20% (12,5%) e British Borneo (12,5%) 20% 20% Fonte: ANP 242 Anexo IV Tabela IV.2 – Resultado da Segunda Rodada de Licitação de Blocos - 2000 2000 Participação das Empresas (%) Comprometimento com a Indústria Nacional Exploração Desenvolvimento Total 16 Empresas 42% 48% BM-S-10 * Petrobras (50%), Chevron (25%) e BG (25%) 35% 30% BM-CAL-4 * The Coastal Corporation (100%) 50% 50% BT-REC-3 *Rainier (100%) 50% 70% BM-SEAL-5 *Amerada Hess (85%) e Odebrecht (15%) 21% 36% BM-C-7 *Pan Canadian (100%) 35% 35% BT-SEAL-2 *Petrobras (100%) 50% 70% 35% 30% BM-S-8 *Petrobras (50%), Shell (40%) e Petrogal (10%) BT-PR-4 *The Coastal Corporation (100%) 50% 50% BT-POT-4 *Petrobras (100%) 50% 70% BM-C-10 *Shell (100%) 36% 30% BM-S-7 *Chevron (65%) e Petrobras (35%) 35% 35% BT-SEAL-1 *Union Pacific (100%) 40% 50% BM-C-8 *Santa Fé (45%), SK (40%0 e Odebrecht (15%) 35% 40% BT-REC-1 *Queiroz Galvão (60%) e Ipiranga (40%) 50% 70% BM-S-9 *Petrobras (45%), BG (30%) e YPF (25%) 35% 30% BT-POT-3 *Rainier (100%) 50% 70% BM-SEAL-4 *Petrobras (6%) e Amerada Hess (40%) 35% 30% BM-PAMA-1 *The Coastal Corporation (50%) e Pan Canadian (50%) 50% 40% BT-SEAL-3 *Rainier (100%) 50% 70% BM-S-11 *Petrobrás (65%), BG (25%) e Petrogal (10%) 35% 30% BT-REC-2 *Rainier (100%) 50% 70% * Operadora do bloco Fonte: ANP 243 Anexo IV Tabela IV.3 – Resultado da Terceira Rodada de Licitação de Blocos - 2001 2001 Participação das Empresas (%) Blocos / Total 23 Empresas BM-S-17 *Petróleo Brasileiro Comprometimento com a Indústria Nacional Exploração Desenvolvimento 28% plc 20% 39% 30% *Petróleo Brasileiro S.A.(45 %); Queiroz Galvão Perfurações 50% S.A. (18,34 %); Petroserv S.A. (18,34 %); El Paso CGP Company (18,34) BM-CE-1 *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) 20% BT-REC-6 *Samson Investment (55 %); Company Companhia Brasileira de 50% Petróleo Ipiranga (45 %) BM-ES-9 *Esso Brasileira de Petróleo Limitada (40 %); Petróleo Brasileiro 5% S.A. (30 %); Kerr-McGee Corporation (30 %) BM-C-19 *Wintershall Aktiengesellschaft (100 %) 21% BM-S-22 *Amerada Hess Corporation (80 %); Ocean Energy, Inc. (20 %) 31% BT-POT-6 *Koch Petróleo do Brasil Ltda (100 %) 50% BM-J-1 *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) 20% BM-PAMA-3 *Phillips Petroleum Company (100 %) 20% BM-ES-7 *Wintershall Aktiengesellschaft (100 %) 16% BM-S-15 *Maersk Olie og Gas AS (100 %) 20% BM-C-15 *Ocean Energy, Inc. (65 %); Amerada Hess Corporation (35 %) 31% 70% BM-BAR-1 BM-S-14 20% 16% 30% 21% *Petróleo Brasileiro S.A. (80%); Petróleos de Portugal - 20% Petrogal, S.A. (20 %) BT-REC-5 *Petroserv S.A. (100 %) 50% BM-ES-11 *Phillips Petroleum Company (100 %) 20% BM-S-19 *Repsol YPF Brasil S.A. (50%); Enterprise Oil plc (25%); Den 15% Norske Stats Oljeselskap a.s. (25 %) BM-ES-5 *Petróleo Brasileiro S.A. (65%); El Paso CGP Company (35 %) 20% BM-PAMA-2 *PanCanadian Petroleum Limited (100 %) 16% BT-REC-4 *Samson Investment Company (55%); Companhia Brasileira de 50% Petróleo Ipiranga (45 %) BM-C-14 *Total Fina Elf S.A. (30 %); Petróleo Brasileiro S.A. (25%); 20% Enterprise Oil plc (22.5 %); Shell Brasil S.A. (22.5 %) 30% BM-S-12 30% BM-CE-2 *Petróleo Brasileiro S.A. (70%); Queiroz Galvão Perfurações 20% S.A. (30 %) *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) 20% BT-POT-7 BM-ES-6 BM-S-24 BM-ES-10 BT-ES-12 BM-C-16 *Koch Petróleo do Brasil Ltda (100 %) *El Paso CGP Company (100 %) *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) *Enterprise Oil plc (100 %) *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) 70% 40% 30% 30% 70% 30% S.A. (50 %); Enterprise Oil (25 %); Den Norske Stats Oljeselskap a.s. (25 %) BM-CAL-5 *Petróleo Brasileiro S.A. (100 %) *Wintershall Aktiengesellschaft (100 %) BM-S-21 50% 30% 20% 15% 50% 20% 30% 70% 15% 36% 31% 70% 30% 25% 21% 30% 31% 70% 20% 25% 30% 21% 70% 30% 30% 244 Anexo IV BM-CAL-6 *Petróleo Brasileiro S.A. (45%); Queiroz Galvão Perfurações 50% S.A. (18,34 %); El Paso CGP Company (18,33%); Petroserv S.A. (18,34 %) BM-S-13 *El Paso CGP Company (100 %) 40% BT-POT-5 *Rainier Engineering Limited (100 %) 50% * Operadora do bloco Fonte: ANP 70% 50% 70% 245 Anexo V ANEXO V RELAÇÃO DOS PROFISSIONAIS CONSULTADOS • Pedro Penido Guimarães – Coordenador do Programa Tecnológico de Meio Ambiente do Cenpes (Petrobras). • Crsitina Aragão – FINEP. • Paulo Gusmão – Instituto Nacional de Tecnologia (INT), responsável pela área de meio ambiente no Projeto Tendências – CTPETRO. • BP 246