EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E DIREITO: RELATO DE UMA
PROFESSORA EM FORMAÇÃO
Roberta Valeska Santana Vieira 1 - IFSUL
Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
Este relato de experiência descreve aspectos vivenciados pela autora durante a realização de
estágio supervisionado no âmbito de um curso de Formação Docente para a Educação
Profissional, numa turma do Curso Técnico em Meio Ambiente, do Instituto Federal Sul-riograndense, Câmpus Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça. Adotei este trabalho como
uma das múltiplas ferramentas de construção do saber docente. Neste exercício narrativo
(auto)biográfico pude perceber-me como professora em formação e como deu-se o início do
processo de transformação de uma professora meramente intuitiva no seu trato profissional reprodutora da experiência como aluna numa metodologia arcaica do século XIX - para uma
educadora ciente de sua responsabilidade social e que busca na diversidade e na articulação da
teoria e prática contributos para a ampliação das possibilidades e construção de outros novos
saberes. Trata-se de um olhar qualitativo, que abordou a problemática desenhada a partir de
métodos descritivos e observacionais. Como fontes, utilizei caderno de campo, projeto de
estágio, questionários focados (um no espaço escolar e outro na sala de aula), planos de aula
reflexivos, apontamentos diários e observação estruturada (pesquisadora participante). Este
artigo tem como objetivo apresentar como vivenciei o ponto de partida do meu processo de
transformação em educadora, através da narrativa das experiências e das atividades vividas
durante o estágio. Este trabalho está embasado, dentre outros autores, nas propostas de
HOFMANN (2011), LIBÂNEO (1991-2004), LUCKESI (2004) e PIMENTA (2012).
Busquei propiciar às estudantes espaços de reflexões sobre o seu papel enquanto cidadãs. A
experiência foi significativa e impulsionadora para perpetuar na construção de novos saberes.
Palavras-chaves: Relato de experiência. Saberes docentes. Estágio supervisionado.
Introdução
O presente relato de experiência é extraído do meu portfólio do estágio supervisionado
desenvolvido no Programa de Pós Graduação em Educação Profissional latu sensu com
1
Especialista em Educação Profissional Habilitada para a Docência na Educação Profissional pelo Instituto
Federal Sul-rio-grandense, Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Pelotas. E-mail:
[email protected]
ISSN 2176-1396
14693
Habilitação à Docência, do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSUL), Campus Pelotas.
Este programa envolve um conjunto de atividades de formação em ensino e pesquisa que
propicia ao professor-estagiário a compreensão da realidade escolar, a aquisição de
competência para a intervenção adequada, bem como a investigação e vivência de projetos
pedagógicos que permitem ao estagiário construir experiências significativas de
aprendizagens e relacionar teoria e prática em situações reais de ensino.
Meu objetivo foi aprimorar o que aprendi durante o curso de formação docente,
aproximando a realidade da atividade teórica. Tentei sempre analisar e questionar
criticamente a realidade à luz das teorias, numa visão indissociável de teoria e prática.
Procurei, em todos os momentos, colocar-me receptiva a todas as experiências; sempre
considerando o estágio como campo de conhecimento e com vista na minha transformação e
do outro. No mesmo compasso visei exercitar-me como educadora reflexiva, que considera o
conhecimento tácito do estudante como parte integrante no seu processo de transformação e
problematizar a prática social. Acima de tudo, almejo conquistar um lugar no mundo do
trabalho, mas de um modo totalmente diferente de tudo o que já havia experimentado ao
longo de doze anos no magistério com a graduação da Ciência Jurídica. Ou seja, afastar-me da
ação intuitiva e involuntária para galgar uma prática docente baseada em referenciais teóricos
e reflexiva.
Exerci o meu estágio no IFSUL –Câmpus do Conjunto Agrotécnico Visconde da
Graça (CAVG), no Curso Técnico em Meio Ambiente, na disciplina de Legislação Ambiental
em virtude da minha formação inicial como bacharel em Ciências Jurídicas. No presente
relato de experiência procuro inventariar as atividades que desempenhei no transcorrer do
estágio, realizando, de sobremaneira, a reflexão da minha prática docente.
Metodologia
A prática pedagógica integra o currículo do curso de formação de professores desde o
primeiro ciclo do programa. Na primeira fase, a turma construiu, em conjunto com as
professoras orientadoras, dois instrumentos de coleta de informações: um focado no espaço
escolar e outro na sala de aula. A construção compartilhada destes dois instrumentos por toda
a turma foi para mim de grande valia, pois cada etapa, cada pergunta serviu para ponderar
sobre todo o conhecimento que até então estávamos trabalhando com os demais professores
do programa.
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Numa segunda etapa, partimos individualmente para as observações em sala de aula.
Aqui, pude realizar o meu estágio supervisionado na disciplina de legislação ambiental.
Observando as aulas ministradas pela professora titular (supervisora), tanto na modalidade
integrada ao ensino médio como na subsequente, num período de dois meses e numa carga
horária de duas horas e vinte minutos semanais, me aproximei e refleti sobre a atuação da
professora supervisora do estágio. O ano letivo de 2014 no IFSUL-Câmpus CAVG iniciou em
outubro em razão do movimento grevista dos docentes. A turma que estagiei, ao contrário
dos demais colegas do programa de formação para docente, não foi a mesma que observei na
etapa anterior. Assumi a turma do Curso Técnico em Meio Ambiente, na modalidade
subsequente, com uma carga horária semanal de 1 h e 20min.
Experiências e atividades desenvolvidas no estágio supervisionado
Quando ingressei no curso de Pós Graduação em Educação Profissional com
Habilitação à Docência, adotei um compromisso pessoal de estar aberta a todas as
experiências. Tratava-se de adotar uma postura flexível, de estar disposta a experimentar as
teorias pedagógicas ali discutidas e refletir sobre as mesmas.
O projeto de estágio defendido por mim teve como título: O traço verde na análise
argumentativa da pesquisa científica: a sustentabilidade do cotidiano. Tracei como objetivos a
serem alcançados com os estudantes: abordar o panorama da legislação ambiental nacional;
enraizar a sustentabilidade como rotina; discutir o paradigma do Meio Ambiente como
patrimônio público por meio da análise crítica-reflexiva da pesquisa científica; contribuir para
a construção da cidadania ambiental. A proposta consiste em estimular o educando ao
raciocínio e ao discurso fundamentado, usando da lógica da argumentação e da
fundamentação2.
Para poder trabalhar com uma educação efetivamente transformadora, elaborando algo
que seja significativo no comportamento dos educandos, acredito que não basta tratarmos de
meio ambiente. Desta forma, ao longo da minha prática docente, foram lançadas
semanalmente palavras-chave para que os alunos, individualmente, registrassem alguma ação
2
A arte da argumentação é básica para as Ciências Jurídicas. Contudo, a minha proposta para este recorte sobre
as Noções Gerais de Direito, dentro da disciplina de Legislação Ambiental, estava centrada na ideia de que
trabalhar com o Direito não implica em saber a legislação (isto reduz o operador do direito a um rábula), mas que
o Direito se exprime através de Princípios - máximas fundamentais de dimensão ético valorativa do sistema
jurídico - e Regras - normas que impõem, permitem ou proíbem uma exigência.
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vivenciada por si ou por terceira pessoa. Estes registros poderiam ser por escrito ou com
recurso de vídeos, fotografias, desenho, história em quadrinho dentre outros – a critério do
estudante. Assim, a atividade de estágio toma o significado de enraizar a sustentabilidade no
cotidiano do estudante, além de buscar consolidar a cidadania ambiental.
No primeiro encontro, preparei a minha apresentação aos estudantes, do curso técnico
em meio ambiente e a da disciplina de legislação ambiental. Já aqui busquei dinamizar,
inserindo imagens e cores no material preparado. Com isto me afastei do monocromático
preto e branco que sempre vivenciei tanto como aluna quanto como docente na graduação em
Direito. Propus a discussão com os estudantes sobre o acordo pedagógico. Dialogamos
também sobre o mundo do trabalho, a necessidade de flexibilização do profissional e a escola
como lócus de aprendizagem.
A turma da modalidade subsequente era bem pequena, composta de 9 alunos, na sua
maioria mulheres e apenas um rapaz. Adotei o uso de uma pequena caderneta na qual
realizava o controle da frequência e a identificação de seus e-mails. Nela também realizei o
exercício de prestar a atenção na expressão individual dos alunos, fazendo anotações que
inicialmente pareciam aleatórias, mas que ao final me auxiliaram na percepção do cotidiano.
Hofmann (2011) menciona que avaliar significa acompanhar a construção do conhecimento,
não há como acompanhar vários alunos, ao mesmo tempo, sem registros diários, contínuos,
articulados em tempos e significados.
Procurei reinventar-me a cada plano de aula, a cada encontro com os alunos,
alinhavando-o com os saberes construídos no programa de pós-graduação. Na tentativa de
superar a minha resistência ao uso das redes sociais, propus um meio alternativo de
comunicação com a turma através do ambiente virtual de aprendizagem gratuito (AVA –
MOODLE). Combinamos que por meio da internet faríamos qualquer ajuste a respeito da
aula, repassaria material didático empregado na aula, textos, link de vídeos, etc. A cada
semana, previamente, repassei à turma um material de apoio, que consistia em um ou mais
textos do assunto que iríamos tratar na aula seguinte, a fim de que o estudante pudesse (a seu
critério) ler sobre o assunto que iríamos tratar. Além disso, disponibilizava todo o material
que produzia. Este espaço foi adotado por todos. Não é possível a escola negar que vivemos
em plena revolução informacional e que esta (re)modifica o contexto de relação entre
famílias, indivíduos, sociedade ou, particularmente, educando-escola e indivíduo-sociedade,
deixando-os serem domesticados pelas informações midiáticas.
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Queria me afastar, por completo, da aula meramente expositiva, característica das
tradicionais Faculdades em Ciências Jurídicas. Propus-me a atuar na perspectiva de
Vygotsky(1998), para a qual a função do professor é ser um mediador. O professor deixa de
ser “o dono do saber” para ser um orientador, alguém que acompanha e participa do processo
de construção e das novas aprendizagens do aluno em seu processo de formação.
Trabalhar com a legislação ambiental exigiu a inserção do estudante em conceitos
muito próprios da ciência jurídica como as fontes do direito, os princípios e as regras,
hierarquia das leis, a estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente, competência dos
entes federados em matéria ambiental, dentre outros. Diante disso, tornou-se inevitável que as
aulas fossem expositivas. Todavia, não mais uma aula discursiva – em que o professor fala
ininterruptamente e ao fim recebe comentários e questões – mas um ensino ativo centrado no
aluno, partindo dos saberes de cada estudante e do compartilhamento do senso comum No
processo de construção do conhecimento, que considera tanto as experiências dos alunos
como as dos professores inseridos, se fez necessária uma abordagem dos conteúdos através de
um método dialético, a partir da reflexão e discussão conjunta, uma nova concepção e nova
forma de ação. Sob esta égide é que procurei trabalhar na sala de aula.
Analisar e refletir sobre o plano de ensino também foi uma tarefa enriquecedora na
medida em que ele deve possuir estreita relação com o plano do curso para garantir coerência
e integração de ações. Tive acesso ao plano do curso já quando solicitei o estágio junto ao
Câmpus CAVG. Vali-me do formulário elaborado em conjunto com a turma de formação para
docência ao fazer a análise do coletivo, da proposta da escola, para ter como base o contexto
real considerando as possibilidades e necessidades dos alunos quando da construção do plano
de ensino.
Reconheci através das conversas paralelas entre as alunas que a turma se sente a
margem do curso. Assim como a turma que observei (da modalidade subsequente) falta
identidade com o curso e com a instituição. Reclamam do pouco contato com a coordenação
do curso técnico do meio ambiente e da falta de atenção para necessidades básicas como
cortinas nas janelas da aula (que prejudicam a visão do quadro ou de qualquer projeção) ou
mesmo ausência injustificada de professores. Creio que o espaço físico interfere muito nesta
ausência de identidade da turma com o curso. Veja que cada turma, independente da
modalidade ou do ano, tem aula em salas bem distintas dentro do Campus. Não há um local
próprio onde todos os alunos do curso possam estar juntos: conhecendo-se, compartilhando e
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discutindo interesses. E há de ser considerado que o CAVG é um Campus agrícola, com
pavilhões bem distantes, distribuído em 201 hectares.
Agora, sem dúvida o mais trabalhoso para mim foi articular os planos de aula, para
que ficassem ajustados a tudo que vinha sendo trabalhado nos encontros das diversas
disciplinas e oficinas do programa de formação para docente. De tudo, pude perceber que o
planejamento de uma aula (como um todo) é importante tanto para o professor (que mantém
um roteiro, ainda que mental do que vai acontecer naquele encontro) como para aluno que
consegue identificar por si o conteúdo e fazer as suas conexões. Percebi que ao planejar a aula
devo me preocupar em dar a oportunidade ao grupo de alunos de crescer tanto nos conteúdos
escolares - aprimorando e enriquecendo seus conceitos - como no seu envolvimento social, a
partir da sua participação no mundo como cidadão comprometido com um mundo melhor.
Adotei como estratégia, ao chegar à sala de aula, colocar no canto superior esquerdo
do quadro os objetivos e o conteúdo programado para aquele dia e no canto inferior direito, o
conteúdo da próxima aula. Assim, o estudante poderia, se o quisesse aprofundar suas leituras,
além de ter a clareza dos objetivos da aula do dia.
Apresentei ao grupo casos concretos e tive a grata satisfação deles aos poucos
realizarem as conexões apontando para as suas realidades. Tomei como base as provocações
de Hofmann (2011) que menciona a importância de considerar toda a resposta do aluno como
ponto de partida para novas interrogações ou desafios do professor no processo de ensino
aprendizagem. Alega a educadora que devem-se ofertar aos alunos muitas oportunidades de
emitir ideias sobre um assunto, para ressaltar as hipóteses em construção, ou as que já foram
elaboradas. Avaliar significa ação provocativa do professor desafiando o educando a refletir
sobre as situações vividas, a formular e reformular hipóteses, encaminhando-o a um saber
enriquecido, acompanhando o “vir a ser”, favorecendo ações educativas para novas
descobertas.
A autora propõe para a realização da avaliação, na perspectiva de construção, duas
premissas fundamentais: confiança na possibilidade do aluno construir as suas próprias
verdades; valorização de suas manifestações e interesses. O aparecimento de erros e dúvidas
dos alunos, numa extensão educativa é um componente altamente significativo ao
desenvolvimento da ação educacional, pois permitirá ao docente a observação e investigação
de como o aluno se coloca diante da realidade ao construir suas verdades.
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Prosseguindo, procurei dinamizar a aula despertando os estudantes para outros olhares
relativos aos conteúdos programáticos futuros, através de vídeos ao final de cada encontro.
Exemplo disso aconteceu com a Lei de Resíduos Sólidos. Ainda quando discutíamos a
estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA – reservei alguns minutos
finais da aula para reproduzir vídeos. Num primeiro dia, foi um vídeo que retratava a
experiência de coleta de lixo numa cidade no interior de São Paulo e noutro encontro um
vídeo sobre o sistema de coleta de lixo implantado em Barcelona/Espanha. Aproveitei
também a disposição de uma das alunas que integra o NUGAI–IFSUL (Núcleo de Gestão
Ambiental), como bolsista, em compartilhar com a turma uma experiência dela realizada em
novembro/2014 numa escola municipal de Pelotas, sobre educação em resíduos sólidos.
Assim, utilizamos juntas, o espaço da sala de aula para expor ao grupo a experiência local e a
Lei de Resíduos Sólidos.
Por várias vezes nestes últimos meses, parei para refletir sobre o que é ensino, e o que
é aprendizagem. A primeira onda de ideia esteve centrada na representação de um processo de
mão única no qual estão inseridos estes dois termos, ou seja, quem aprende também ensina e
vice versa. A partir disso, decorre a mudança de paradigma, qual seja: quem ensina não é mais
o único detentor do conhecimento; portanto, não está mais restrito a uma posição de
transmissor. O conhecimento passa a ser um valor democrático. E como tal, deve ser
compartilhado por todos os agentes deste processo: seja pelo educador, seja pelo educando. A
aprendizagem que experimentei deu-se por imitação e experimentação. Aprendi observando a
natureza, interagindo com o meio, com o outro ser humano, por tentativas, por curiosidade ou
mesmo por necessidades. Portanto, ensinar e aprender exigiu-me uma postura aberta e flexível
a fim de que tenhamos bons resultados.
Quando comecei as primeiras leituras sobre educação, sempre me deparei com a
pergunta: Como posso melhorar a minha atividade docente? Por diversas vezes, li que não
existia uma receita. Entendi que não há uma linha do sucesso garantido, mas me inflamei de
esperança quando discutimos na disciplina Processo de Ensino e Aprendizagem II algumas
sugestões de técnicas de ensino. Sendo assim, como atividade de integração, (objetivando
diferenciar os princípios fundamentais que regem o Direito Ambiental dos princípios de
14699
Direito Administrativo e de Direito Público que também norteiam este ramo do Direito) criei
a dinâmica: Palavra Cruzada Muda3.
Escolhi uma palavra-chave relativa ao tema da aula, no caso, princípio. Coloquei no
quadro a palavra-chave e o diagrama de palavra-cruzada. Escrevi em pedaços de papel as
descrições dos princípios relativas a cada letra da palavra-chave escolhida, numerando os
pedaços de papel e, logo a seguir, entreguei as duplas de estudantes, um dos pedaços de papel
contendo a questão e a lista dos prováveis princípios. Ao final, cada dupla deveria escrever a
palavra no diagrama e compartilhar com a turma o princípio e sua respectiva identificação.
Completando o diagrama no quadro, apareceu a palavra-chave.
Acreditando que a interação professor-aluno não pode ser reduzida ao processo
cognitivo de construção de conhecimento, pois se envolve também nas dimensões afetivas e
motivacionais, procurei sempre saber o que acontecia com os faltantes da aula, o que faziam
fora do ambiente escolar, seu estado de saúde, quando mencionavam estar doentes, ou as suas
dificuldades em se deslocar até o Campus, além de questões mais pontuais como: se estavam
compreendendo bem o conteúdo e as dúvidas semanais.
Propiciar aos educandos(as) espaços de reflexões sobre o seu papel enquanto cidadãos
de uma nova época é de suma importância, para que possam exercer sua cidadania dentro e
fora do espaço escolar. A conquista da cidadania deve fazer parte da educação
contemporânea. A escola precisa estar organizada de maneira que ultrapasse o universo da
teorização do ideal de cidadania. É importante que as teorias vinculadas à organização do
espaço escolar, cidadania, qualidade de ensino, gestão democrática entre outros, faça, parte da
rotina diária da escola e consequentemente daqueles que são sujeitos no espaço escolar. Do
mesmo modo, vale referir que não é somente papel da educação, buscar mecanismos que
propiciem ideais democráticos, que conduzam a uma sociedade mais justa, solidária, mais
humana menos competitiva. No entanto segundo a análise de Libâneo a escola tem um papel
importantíssimo e “insubstituível quando se trata de preparação cultural e científica das novas
gerações para enfrentamento das exigências postas pela sociedade contemporânea”
(LIBÂNEO, 2004, p.44).
Diante da grande responsabilidade, do compromisso, que a educação exerce na
formação cognitiva e social -numa ação recíproca entre educadores-educandos e vice-versa - é
preciso que esta não ande em descompasso com a temporalidade, com as inovações técnicas,
3
Esta técnica foi uma releitura do texto: Métodos de Ensino para a Aprendizagem e Dinamização das Aulas
(RANGEL, 2005).
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científicas, informacionais e culturais para atingir a todos(as) como um todo. Em cima disso,
é que propus aos estudantes a confecção de um portfólio social e reflexivo como estratégia de
avaliação. Por meio do portfólio o estudante pode tomar consciência sobre o seu
comportamento perante o patrimônio público, sua responsabilidade social e o meio ambiente.
A proposta de Jussara Hofmann (2011) me estimulou a provocá-los em organizar um
portfólio, cujo significado não é demonstrativo ou ilustrativo de etapas de aprendizagem, mas
elucidativo dependendo, para tanto, de uma escolha adequada e da clareza de seus propósitos.
A pretexto refere: “Ele precisa constituir-se em um conjunto de dados que expresse avanços,
mudanças conceituais, novos jeitos de pensar e de fazer, alusivos à progressão do estudante”.
(HOFMANN, 2011, p.202).
No entanto, identifiquei no início a dificuldade dos alunos em representar uma ação
produzida por eles a partir da palavra chave lançada. Retomamos o diálogo sobre o qual o
nosso papel social enquanto cidadãos. Adotei a construção do portfólio social como estratégia
para a efetivação de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos. Fomentar a
inclusão de temáticas relativas à discriminação e violação de direitos, desenvolver uma
pedagogia participativa que inclua conhecimentos, análises críticas e habilidades para
promover os direitos humanos são ação programáticas previstas no Plano Nacional de
Educação em Direitos Humanos e seguem os princípios norteadores das diretrizes nacionais.
Para atender a função educativa do ensino, refere Libâneo (1991), o trabalho do
professor deve estar voltado para a formação de qualidades humanas, modos de agir em
relação ao trabalho, ao estudo, à natureza em concordância com princípios éticos. Implica em
ajudar os alunos a desenvolver qualidades de caráter como: a honradez, a dignidade, o
respeito aos outros, a lealdade, a disciplina, a verdade, a urbanidade e cortesia. Condiz com a
consciência coletiva e o sentimento de solidariedade humana.
Entre os colegas de formação docente, muito discutimos sobre a avaliação, seu
significado. Basicamente questionávamos ser ela uma prática seletiva e classificatória, ou
diagnóstica e inclusiva. Luckesi (2004), ao traçar considerações gerais sobre a avaliação no
cotidiano escolar, menciona que o ato de avaliar a aprendizagem implica em
acompanhamento e reorientação permanente da aprendizagem. Ele refere que o ato de avaliar
exige um ritual de procedimentos que não pode ser esquecido para se obter um resultado bem
sucedido. Alerta ser necessário nos reeducarmos continuamente.
14701
A regularidade do trimestre foi interrompida pela greve do transporte coletivo
municipal, pelo recesso de final de ano, as férias coletivas em janeiro/2015, duplo feriado no
mês de fevereiro/2015, o que ocasiona o encerramento do trimestre. Planejei a retomada dos
conteúdos através de um bloco de questões – nos moldes do que me foi indicado e discutido
na especialização. Desta forma, eu poderia me exercitar quanto a elaboração de questões
avaliativas e os alunos aproveitariam igualmente para recapitular e consolidar a matéria. Mas
antes de propor a tarefa de resolução das questões, propus uma técnica para retomada dos
conteúdos trabalhados que denominei “Técnica do Cochicho”4. Dividi a turma em duplas;
distribui um ponto do conteúdo para a dupla; num período de 7 minutos cada aluno deveria
discutir e preparar o ponto para explicá-lo a outros colegas; novamente redistribui os alunos,
separei as duplas, distribui-os em trio e a partir de então cada aluno explica para os demais
colegas o seu ponto. Desta maneira todos puderam revisar os conteúdos trabalhados e se
preparar para responder as questões individualmente. Também, como peça integrante ao ritual
da avaliação, entreguei uma ficha de autoavaliação do estudante, bem como realizei uma
autoavaliação da minha atuação como professora em formação. A Lei de diretrizes e Bases nº.
9.394/96 nos proporciona os dois mais importantes princípios da afetividade e amor no
domínio escolar: o respeito à liberdade e a consideração à tolerância, que são inspirados nos
princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Ambos têm por fim último o
pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para as ocupações no trabalho. E é nisso que acredito e tenho tentado trabalhar
com a educação hoje.
Considerações Finais
Foi desafiador para mim este estágio, mas a pré-disposição em aprender foi de grande
valia. Ingressei com o objetivo de aprimorar o modo como ministrava uma aula, Queria sair
da mera intuição para obter uma base mais sólida para desempenhar esta atividade. Buscava
técnicas em didática porque ingenuamente acreditava ser isto o importante na sala de aula;
acabei mergulhada num mar de provocações que me fizeram tomar consciência de que ser
uma educadora é radicalmente diferente de ser uma professora.
A educação surgiu em minha vida como uma válvula de escape, uma fuga do
atordoado dia-a-dia de outra atividade profissional. No entanto, ela foi me preenchendo ao
4
Idem.
14702
ponto de me entregar inteiramente a ela e permanecer com o desejo de aprender mais sobre o
processo ininterrupto de ensinar e aprender. Os contatos mantidos com os colegas e
professores do programa de pós-graduação auxiliaram numa mudança positiva em minha
vida. Quando menciono que me coloquei sempre numa postura aberta durante este programa
de formação para docente refiro que procurei utilizar o complexo das sensações para construir
saberes: sensações auditivas, visuais, olfatos e o tato.
Foi assim que procurei tornar intensa toda a minha caminhada, fazendo da vida uma
obra de arte. Compreendi que na arte de ser educador está à tarefa do mediador e, por assim
dizer, faz-se necessária à produção de um território habitável. Um espaço comum que forneça
– de forma política, ética e estético – uma teia interativa com os educandos. Pude desta forma,
passando pela montagem de trabalhos, por diálogos no espaço da sala de aula ou fora dela,
por vivenciar a perda e conquistas de outros colegas do grupo, por possíveis elaborações de
conflitos individuais e/ou institucionais, pela simples e prazerosa companhia dos amigos em
torno de um objeto que trouxe e inventou bons momentos, ou, tentando resumir: pela
multiplicidade estética que o grupo foi capaz de criar, a ponto darem materialidade a uma
forma de expressão - VIDA.
REFERÊNCIAS
HOFMANN, Jussara Maria. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-escola
à universidade. 31ed. Porto Alegre: Mediação, 2011.
LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 5ed. Goiânia:
Editora Alternativa, 2004.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Editora Cortez,1991.
LUCKESI. Cipriano Carlos. Considerações gerais sobe avaliação no cotidiano escolar. In:
Impressão Pedagógica. Editora Gráfica Expoente: Curitiba, nº 36, 2004, p.4-6.
PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio Docência. 7ed. São
Paulo: Cortez, 2012.
RANGEL, Mary. Métodos de Ensino para a Aprendizagem e Dinamização das Aulas. 2
ed. São Paulo: Papirus Editora, 2005.
VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998.
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