Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br Moda e Identidade Social Fashion and Social Identity Hugo Cristo Sant’Anna [email protected] Resumo A moda é vendida pelos meios de comunicação de massa como um dos principais canais para que os indivíduos expressem seu estilo individual e distinção dos seus pares. No entanto, partindo de estudos antropológicos sobre o campo da moda (Bergamo, 1997), da teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2003) e da Categorização Social (Tajfel, 1981), este artigo propõe uma leitura psicossociológica da temática analisando o processo de incorporação das tendências da moda ao cotidiano das pessoas, desde o projeto dos designers, passando pelos críticos e formadores de opinião até a chegada às ruas e aos consumidores finais. Palavras Chave: moda, mercado de consumo, comunicação de massa Abstract Fashion is sold on mass media as one of the main channels which individuals could express their individual style and distinctiveness from their pairs. However, following anthropological researchs about the fashion system (Bergamo, 1997), the theories of Social Representations (Moscovici, 2003) and Social Categorization (Tajfel, 1981), this paper proposes a psychosocial review of the subject analysing the process of incorporing fashion tendencies on people’s everyday life, departuring from the designer’s project, passing through critics and opinion formers util the arrival at the streets and at the final consumers. Keywords: fashion, consumption market, mass communication Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br Introdução Provavelmente, uma das questões mais presentes nas discussões sobre o mercado de consumo contemporâneo diz respeito à Moda, e esse conceito mantém uma relação de simbiose com a mídia e com os fenômenos sociais. Nos últimos anos, vários veículos de comunicação passaram a destinar espaço para assuntos relacionados ao universo da Moda, que numa conceituação do senso comum corresponderia ao reflexo das transformações da sociedade contemporânea, dos costumes e do comportamento em geral. Criticando tal conceito, Alexandre Bergamo (1998), afirma que a condição da sociedade contemporânea é a de mudança constante, de maneira que “[...] tomar algo, seja o que for, como reflexo disso, é não só uma desmesurada redundância, mas também uma tentativa de encontrar um abrigo contra os riscos de uma análise mais consistente e objetiva”. Segundo Bergamo, o senso comum encontraria em tal conceito uma morada segura para o entendimento disso que conhecemos como Moda, ao mesmo tempo em que criaria a necessidade para a especialização desse discurso da redundância, abrindo espaço para que “[...] uns poucos qualificados possam emitir novos pareceres – de igual redundância – sobre o tema”. Em uma outra perspectiva, complementar à primeira, Bergamo recupera o sentido da Moda enquanto “manifestação artística das mudanças sociais”. A compreensão da Moda enquanto forma de arte, segundo o autor, implicaria no emprego de instrumentos próprios de análise para a sua compreensão, reforçando a necessidade dos especialistas e seus pareceres. Essa concepção parece retirar a Moda do lugar comum, colocando-a numa posição à margem da sociedade, compreendida e destinada a poucos, quando na verdade a questão central da Moda estaria justamente nas relações ordinárias do cotidiano das pessoas: “o sentido da moda está nas vivências, nas representações e naquilo que orienta a relação das pessoas com as roupas, aprovando e desaprovando, emitindo juízos de valor” (Ibid, 1998). O sociólogo Paulo Sérgio do Carmo, em seu livro Culturas da Rebeldia – A juventude em questão (2001), discute a utilização da Moda por parte dos jovens na construção de suas identidades: “Conforme a socióloga Gilda de Mello e Souza, a moda é um dos instrumentos mais poderosos de integração e desempenha uma função niveladora importante, ao permitir que o indivíduo se confunda com o grupo e desapareça num todo maior que lhe dê apoio e segurança”. O conjunto de elementos que são entendidos como parte de um estilo da Moda carregam valores simbólicos que remetem à identificação com um grupo social particular. Roupas, calçados, acessórios, penteados, maquiagens etc. fundem-se em imagens que buscam unir membros do grupo de pertença e distingui-los dos demais. Para o indivíduo, identificar-se é questão fundamental: “Com a necessidade típica de auto-afirmação, a preocupação com a própria imagem assume importância toda especial nesse momento da vida, sobretudo porque permite exibir sinais Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br seguros de pertencer a um determinado grupo, de definir uma identidade”. (Ibidem, p. 192) No trabalho de Paulo Sérgio do Carmo é muito presente a questão das roupas agindo como forma de ocultação de referências identitárias negativamente carregadas. Segundo o autor, é comum observar jovens de baixa renda, moradores das periferias dos grandes centros gastarem todo o dinheiro que recebem de salário em roupas, tênis e acessórios que os ajudem a “fugir da identificação de pobre”. Nesse sentido, o autor também comenta o comportamento das classes dominantes em estar sempre renovando seus padrões da moda, com o objetivo de recompor os sinais de hierarquia social, que logo serão de novo imitados. Segundo Tajfel (1982), supõe-se que um indivíduo tenderá a manter-se como membro de um grupo e a procurar a pertencer a novos grupos se esses grupos contribuírem de alguma maneira para os aspectos positivos de sua identidade social. Em contra partida, se um grupo não preenche esse requisito, o indivíduo tenderá a abandoná-lo a não ser que não seja possível abandoná-lo por razões objetivas ou por essa decisão entrar em conflito com valores importantes e que compõem a autoimagem aceitável do indivíduo. Quando o abandono do grupo representa dificuldades, pode-se mudar a interpretação pessoal dos atributos do grupo justificando as características indesejáveis, ou ainda aceitar a situação e empenhar-se em ações que possam resultar em mudanças na situação. A identificação como pobre por parte dos adolescentes citados por Paulo Sérgio do Carmo é um aspecto negativo da identidade social deles, mas há poucas possibilidades efetivas de abandono dos seus grupos e aceitação nos grupos pertencentes às classes dominantes. A busca pelos padrões de moda da elite pode ser entendida como uma falsa ação de mudança na situação, uma vez que se mascara a realidade social através das roupas. Ao mesmo tempo, é possível verificar estilos da Moda que valorizam positivamente grupos marginalizados como formas de reinterpretação positiva dos atributos grupais, como no caso do movimento norte-americano Black is Beautiful, dos Rappers e outros membros da cena Hip-Hop nos EUA e no Brasil, dos movimentos afirmativos da cultura negra na Bahia etc. É importante ressaltar que nem sempre foi possível enquadrar padrões característicos de determinados grupos sociais como integrantes do sistema da Moda, ao menos na concepção de Moda criticada por Bergamo – a restrita à esfera dos especialistas. Até por volta dos anos 50, o fluxo produtivo da Moda era no sentido das classes dominantes e da alta-costura em direção às ruas. A partir dos anos 60, na tentativa de fundir indústria e moda, buscou-se inspiração na estética das ruas – a contracultura – tendo os jovens como principal público consumidor. Carmo (2001, p. 198), no entanto, ressalta que a democratização da moda e a conseqüente aproximação entre os estilos de se vestir entre as classes não significou o surgimento de um modelo uniforme de aparência. Mantiveram-se as hierarquias sociais, porém com fronteiras menos nítidas no que diz respeito ao vestuário. Essas questões, somadas à valorização da cultura jovem a partir dos anos 60 resultaram na Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br estruturação do sistema da Moda tal qual conhecemos hoje. O objetivo maior é parecer jovem num cenário marcado por “modas” e diversidade de discursos, aonde o fluxo produtivo vai das ruas em direção à altacostura, valorizando-se o que está nos meios de comunicação e não apenas o que sai dos ateliês dos renomados estilistas. Em qualquer uma das relações estabelecidas entre o grupo social e os padrões estéticos que o identificam, é importante lembrar o fato de que tais padrões precisam ser socialmente aceitos e compartilhados pelos integrantes do grupo, mesmo se considerarmos que essa estética foi forjada artificialmente pela indústria da moda e imposta através da mídia. Moda e Representações Sociais Representações Sociais “são uma modalidade de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, contribuindo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (Jodelet, 1989 apud Pereira de Sá 1995). Através de Moscovici (2003) é possível listar algumas características gerais para as Representações Sociais (RS): destinam-se à criação de teorias do senso comum que consigam explicar e tornar objetiva a realidade social para os indivíduos que compartilham as mesmas representações; transformam o não-familiar em familiar, facilitando a aceitação e assimilação do novo por parte dos indivíduos, auxiliando na elaboração de comportamentos e na comunicação; através de processos de categorizações e associações das novidades a conhecimentos já familiares – objetivação, ancoragem – facilita-se sua compreensão; as representações são sempre compartilhadas por algum agente social em relação a algum objeto social em contexto particular. Partindo do conjunto de características listados para as RS, podese fazer uma aproximação interessante desse conceito com a Moda, especialmente se a considerarmos enquanto linguagem. Para que seja possível realizar essa aproximação, é necessário compreender os dois principais discursos sobre a Moda existentes nos meios de comunicação. O primeiro corresponderia à linguagem especializada e hermética dos críticos, organizada como um universo reificado, que visa principalmente reforçar hierarquias e destacar posições sociais privilegiadas. Os principais veículos desses discursos são os desfiles, as revistas especializadas em Moda e as colunas sociais, publicações que se mantém distantes da grande maioria da população por razões de ordem econômica ou por simples falta de acesso às fontes de informação. Os especialistas codificam os elementos da Moda, avaliando o que é certo ou errado, escolhendo quais peças devem ser combinadas, definindo o que é apropriado para cada evento social. A cada nova estação, apresentam um conjunto de soluções válidas para uma pequena parcela da população que dispõe dos recursos financeiros e informativos necessários para estar em sintonia com a Moda. Os desfiles de Moda funcionam como uma “apresentação formal” dos novos parâmetros para os principais formadores de opinião – jornalistas, comunicadores, celebridades, empresários etc. Após a Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br realização de eventos como o São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio é possível encontrar edições especiais de publicações especializadas em Moda inteiramente dedicadas à interpretação e sistematização das novidades: “O melhor: O calor do deserto marroquino aportou nas passarelas brasileiras junto com a nova coleção da TNG. Com cores quentes, como laranja e vermelho, as peças são esvoaçantes, permeadas por detalhes dourados, bem ao estilo árabe. Mas o jeans não ficou esquecido e foi base de quase todos os looks. Das calças justíssimas aos paletós estruturados, o denim chegou com aspecto ora empoeirado, ora destroyed”. “Como usar: A calça tipo pijama faz look sexy e despojado com um top frente única. A saia ampla e longa faz parceria antenada com uma t-shirt sequinha e um caracô. O short clarinho compõe produção navy com uma camisa pólo marinho ou listrada”. Juliana Ali, sobre o desfile da TNG Cobertura do Fashion Rio no site da Revista Estilo Julho/20051 O segundo discurso da Moda existente na mídia, e rejeitado pela elite, é o da comunicação de massa, das novelas, dos programas de auditório, das revistas que falam da vida das celebridades do momento, que de certa forma se configura como um universo consensual. Recuperando a discussão de Tajfel sobre as iniciativas de reinterpretação positiva das identidades sociais, pode-se supor que a alternativa que resta à maioria da população é identificar e legitimar seus próprios padrões estéticos através de imagens de personalidades em destaque na mídia e de tudo que essas representam. A imitação dessas celebridades poderia permitir que a maioria da população entrasse em contato com o discurso especializado do qual foi privada, tendo a oportunidade de incorporar, à sua maneira, aqueles padrões estéticos à sua realidade social. “Novelas, Carla Perez, pagode são indicativos não só do desprezo dos grupos mais favorecidos e de um corpo de profissionais qualificado sobre moda, mas são também indicadores dos gostos populares. Como é sabido, este gosto não é reconhecido enquanto tal pelos meios de informação legítimos do mundo da moda, sendo por eles classificados como uma forma (rudimentar) de imitação. É comum que nas lojas seja pedida a camisa (calça, saia ou o que quer que seja) de uma determinada personagem de novela, ou de algum conjunto musical mais diretamente associado ao gosto popular, como um grupo de pagode, de axé music, ou de música sertaneja”. (Bergamo, 1998, p.) 1 http://revistaestilo.abril.com.br/ Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br O processo de assimilação descrito poderia ser analisado segundo a teoria das RS, uma vez que lidamos com interpretações da Moda socialmente compartilhadas por um determinado grupo. Mediante a formação de tais representações, os indivíduos orientariam seus hábitos de consumir, se vestir e se comportar, questões que inevitavelmente estabelecerão algum tipo de relação com a formação de suas identidades sociais. Para o jovem, vestir-se como o artista X ou a atriz Y vai além da mera identificação com padrões estéticos, uma vez que as qualidades ou características específicas da personalidade ou do grupo social a qual esta pertence também influenciam as escolhas. Identidade Social através das RS da Moda Os elementos das representações sociais que os indivíduos criam sobre seus ídolos ou referenciais manifestam-se através das roupas, atitudes, opiniões sobre assuntos diversos, das relações com as famílias, amigos e instituições. Ser punk, mauricinho ou funkeiro implica não só em vestirse de uma determinada maneira, mas também se apresentar como membro desses grupos em diversas instâncias da dinâmica social. Obviamente existem casos onde a identificação do sujeito é mais superficial ou mesmo resultante de pura afinidade com algumas peças de roupa, mas a forma através da qual o restante da sociedade representa o grupo social ou grupos sociais associados àqueles padrões estéticos e de comportamento certamente serão atribuídos ao indivíduo. A participação da Moda no processo de construção das identidades sociais dependeria não apenas do acesso ao discurso especializado ou daquilo que é veiculado na mídia. Os indivíduos formariam e compartilhariam Representações Sociais sobre os padrões estéticos criados pelos especialistas e a partir dessas informações estabeleceriam relações de pertença (ou não pertença) a grupos que contribuiriam positivamente para aspectos de suas identidades. Moda na Juventude Com base no que foi discutido até o momento, pode-se supor que as relações entre a juventude, a mídia, a Moda e o mercado de consumo são extremamente complexas, devendo ser consideradas como partes indissociáveis de uma mesma temática: o lugar social do jovem na sociedade contemporânea. Os jovens são o foco de um mercado de consumo cada vez mais competitivo e sofisticado. Lado a lado com as fantásticas inovações tecnológicas aparecem estratégias de venda igualmente revolucionárias, captando a atenção da juventude com extrema eficiência. Todo o arsenal publicitário está voltado para a formação de desejos de consumo indefinidamente, criando a noção de que seria impossível obter felicidade a não ser pela aquisição de bens materiais. Harvey (2002), sugere que “numa sociedade do descarte joga-se fora tudo: valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego às coisas, pois tudo torna-se obsoleto. Adquirir uma imagem ‘competente’, Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br ‘confiável’, ‘pós-moderna’ através da compra de um sistema de signos, como roupas de grife, carro a moda, discursos e saberes ‘avançados’ é o significado da vida”. A idéia da sociedade do descarte de David Harvey mistura-se ao conceito da sociedade de consumo de Zygmunt Bauman (1998), uma vez que ambas defendem de certa forma a necessidade de superexposição dos consumidores às novas tentações como pré-requisito para a funcionalidade do sistema. No entanto, Bauman afirma que se para o mercado seduzir precisa de consumidores que desejam ser seduzidos. Para esses consumidores ideais, amadurecidos, a impossibilidade de viver a vida de outra forma se apresentaria disfarçada como livre exercício da vontade. Pode-se escolher qualquer coisa entre o universo infindável de opções disponíveis, exceto a própria opção de não escolher entre nenhuma delas. A Moda, devido à sua natureza efêmera e necessidade de renovação constante, provavelmente se apresenta como um dos principais exemplos das técnicas de sedução do mercado de consumo contemporâneo. Mas quem a Moda seduz? Como identificar os desejos de grupos sociais tão heterogêneos e influenciados por tantos fatores? Através do conjunto de argumentos apresentados até o momento, pudemos levantar algumas hipóteses sobre as questões envolvidas nos hábitos de consumo do jovem, tanto na necessidade do consumo em si quanto nos fatores que influenciam a determinação social do objeto que deve ser consumido. O que interessa neste momento é identificar a forma através da qual esse objeto foi concebido e que permite que o mesmo seja inserido na dinâmica descrita até o momento. Os objetos de consumo, sejam de origem industrial ou artesanal, podem ser entendidos como produtos de design. Nesse sentido, resultam de um processo complexo de definição de suas características funcionais, estéticas e simbólicas: como funciona/para quê serve; qual sua aparência; o quê significa para quem usa. O designer, ao conceber as características citadas, precisa necessariamente dialogar com os contextos social, econômico e tecnológico vigentes, ou estaria fadado a desenvolver um produto que seria inviável ou ignorado por seus potenciais consumidores. Na linguagem do mercado de consumo, o designer seguiria ou captaria tendências, palavra muitas vezes utilizada com o sentido de Moda e que corresponderia de certa forma ao conjunto de hábitos, preferências, necessidades e desejos da sociedade em um momento particular. Há tendências para cores, formas e texturas (características estéticas); necessidades, hábitos (características funcionais); e mesmo para valores sociais (características simbólicas). O sucesso de um produto no mercado de consumo dependeria, em grande parte, à correta captação e fusão dessas tendências. Obviamente a própria necessidade de incorporar tendências depende da natureza do produto, mas de maneira geral pode-se dizer que existem tendências gerais possíveis de serem observadas em praticamente todos os segmentos do mercado, principalmente aquelas ligadas ao aspecto estético. Mais uma vez, a Moda se configuraria como um dos mais ricos expoentes para verificação do momento social, pois necessitaria captar Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br as tendências vigentes mais do qualquer outro segmento do mercado. Esse fato poderia ser combinado ao argumento de Alexandre Bergamo no combate à idéia da Moda enquanto forma de arte, uma vez que deslocaria a fonte de inspiração dos estilistas de suas capacidades singulares de criação para uma perspectiva psicossociológica, decorrente da interação cognitiva entre o indivíduo e um conjunto de informações em flutuação no meio social. O designer passaria de criador para interpretador, concentrado em catalisar tendências e não em simplesmente inventar a partir do nada aspectos dos produtos de consumo. Naturalmente, ao falarmos de meio social, de tendências, de interpretações, estamos lidando com o universo das Representações Sociais. E se nos pareceu possível na discussão anterior a idéia de que o jovem forma representações sobre a Moda, parece também razoável a idéia de que o mercado pode manter elementos de RS sobre a juventude para articular as tendências no processo de concepção dos objetos de consumo. As perguntas “quem a Moda seduz” e “como identificar os desejos de grupos sociais tão heterogêneos e influenciados por tantos fatores” poderiam ser respondidas através da análise dos elementos das representações que permeariam as características funcionais, estéticas e simbólicas dos produtos industriais. A diferença fundamental entre as representações que os jovens poderiam manter sobre a Moda e as representações que o mercado manteria sobre o jovem consiste no fato de que no primeiro caso, lidaríamos com interpretações socialmente partilhadas sobre uma linguagem, enquanto no segundo estariam em questão interpretações sobre grupos sociais específicos, resultando inevitavelmente na formação de estereótipos sociais. Uma proposta de articulação para os conceitos de estereotipia e identidade social Na prática, o que significaria para o indivíduo identificar-se como punk, mauricinho ou funkeiro? Tratam-se de termos que designariam um conjunto generalizante de atributos estéticos e de comportamento socialmente compartilhados. A própria noção de público-alvo poderia ser entendida através das representações estereotipadas de determinados grupos, rapidamente identificáveis e categorizáveis por meio de uma palavra que cristalizaria uma série de atributos. Se falarmos em juventude enquanto público-alvo de algum produto, e o fazemos considerando como reconhecemos um jovem – o que gosta, onde vai, como se comporta – estamos inevitavelmente referindo-nos a um determinado estereótipo de jovem, capaz de ser sintetizado e generalizado através de algum termo socialmente designado para tal função. A própria natureza homogeneizante do mercado de consumo parece ser ideal tanto para o emprego dos estereótipos sociais quanto para a aplicação dos modelos universalizantes de qualquer grupo. A indústria da Moda produz para um modelo geral de consumidor conforme tendências e por meio de categorizações sociais estereotipadas: os mauricinhos, as patricinhas, os hippies, metrossexuais, Moda e Identidade Social – Hugo Cristo (2006) – www.hugocristo.com.br aventureiros, badboys etc. O que interessa no emprego desses termos são os valores simbólicos, atributos estéticos e necessidades funcionais a que remetem, no meio social. Pode-se concluir que ao mesmo tempo em que os estereótipos sociais forneceriam subsídios para a identificação de algumas tendências, interagiriam naturalmente com os grupos nos processos de formação de suas identidades sociais, uma vez que os produtos que incorporariam as representações sociais estereotipadas poderiam vir a desempenhar funções categorizantes – as relações de pertencimento a determinados grupos passariam a ser definidas pela posse ou não de algum objeto socialmente relevante (Darriba e Castro, 1998). De certa forma, a lógica do mercado de consumo e do sistema da Moda depende que o indivíduo se veja nos produtos que consome e simultaneamente que o produto consiga refletir a imagem que o indivíduo deseja ver. Referências BAPTISTA, M. Estereotipia e Representação Social – uma abordagem psico-sociológica. Comunicação apresentada à Conferência Internacional ‘A Persistência dos Estereótipos’, promovida pelo grupo de Estudos Culturais do Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, Aveiro, 28 e 29 de Novembro de 2003. BAUMAN, Zygmunt. Ser Consumidor numa sociedade de consumo. Em Globalização – As conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. BERGAMO, Alexandre. O campo da Moda. São Paulo: Revista de Antropologia vol. 41 número 2, 1998. CARMO, P.S. Culturas da Rebeldia – A juventude em questão. São Paulo: Editora Senac, 2001. DARRIBA, V. e CASTRO, L. R. Construções identitárias e a busca da felicidade na cultura de consumo. Em Lúcia Rabello de Castro (Org.) 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