Publicado inicialmente em 1968, este livro reúne a correspondência entre o o educador Anísio Teixeira e o médico Maurício Rocha e Silva que se estendeu de 1965 a 1967 e focalizava questões abordadas no livro Lógica da Invenção, deste último. Discorrendo sobre um problema fundamental da filosofia, o da teoria do conhecimento, os autores analisam a relação entre conhecimento nas ciências exatas e nas ciências humanas. http://www.editora.ufrj.br/eCommerce/asp/livro.asp? idLivro=406 Apresentação Tarso B. Mazzotti Anísio Teixeira envia uma carta a Maurício Rocha e Silva, datada de 25 de dezembro de 1965, deflagrando uma profícua correspondência, enfeixada em livro publicado pela Edart em 1967, em que faz a crítica do livro Lógica da invenção, de Maurício Rocha e Silva. Qual era o tema capaz de apaixonar os missivistas e, posteriormente, o editor Artur Neves, que resolveu publicar a correspondência entre os dois autores, bem como as notas e os esclarecimentos? Um dos temas mais controvertidos de todos os tempos: há ou não uma lógica da investigação, da criação, da descoberta? Em termos mais antigos: há uma lógica da inventio !invenção"? Pode#se ensinar a técnica ou a arte de argumentar e contra#argumentar; mas haveria alguma técnica para inventar argumentos? A novidade ou a criação se dá por inspiração? Surge de uma intuição? Vejamos, inicialmente, como os missivistas procuraram responder as essas questões. Maurício Rocha e Silva ilustra sua posição recordando uma lição que considera ter sido a mais importante de sua vida $ e que lhe foi dada pelo professor Max Bergman, do Instituto Rockefeller, por volta de 1941#1942. Rocha e Silva encontrava#se em um beco sem saída em suas pesquisas, e, ao consultar Bergman, este lhe teria dito: “De agora em diante, você deverá tentar os mais loucos pensamentos, isto é, as coisas mais malucas, para poder abrir caminho ou alguma brecha por onde prosseguir” !os termos em itálico estão em inglês no original". Teria de inventar uma saída, experimentar as mais diversas, pois nenhuma lógica ou cânone viria em seu socorro. Para Rocha e Silva, aquela frase teve o valor de “um tratado de filosofia da investigação científica e, certamente, mais útil do que qualquer manual que pretenda ensinar ao jovem as regras da pesquisa científica” !ver Maurício Rocha e Silva, carta de 21 de abril de 1967". A partir daí, Rocha e Silva diz ter começado a descongelar as regras e argumentos que aprendera, dentre as quais aqueles que afirmam ser a ciência “o supra#sumo do bom senso e que a investigação científica caminha de degrau em degrau, seguindo as leis ou regras da lógica indutiva ou dedutiva” !ibid.". Se a invenção, a criação, não segue as regras estabelecidas nos manuais e tratados de investigação científica, então só pode ter origem no não#racional, no irracional. É essa a tese defendida por Rocha e Silva em seu livro Lógica da invenção, e que chocou Anísio Teixeira. Qual a razão do espanto? Por que a obra de Rocha e Silva chocou Anísio Teixeira? Ele afirma, em sua primeira carta, que Rocha e Silva procura persuadir o leitor de que a concepção atual de universo é absurda, pois contradiz a lógica. Anísio Teixeira considera que a ciência !uso o singular, como os autores" “suprimiu a velha separação entre o homem e a natureza e os identificou no mesmo processo de evolução e crescimento” !ver carta de Anísio Teixeira, Natal de 1965". Para Rocha e Silva há uma “distância entre a ciência de hoje e a observação de senso comum”, este compreendido como os saberes usuais provindos de outras épocas. Tal distância, enfatiza Anísio Teixeira, não é uma irracionalidade, só ocorreu porque não se dispunha dos “instrumentos modernos de observação” !ibid.". Para ele, Aristóteles chegaria a “formulações semelhantes às atuais” !ibid.", caso dispusesse dos mesmos instrumentos. Para Anísio, não há diferença de métodos, mas de instrumentos de pesquisa, e uma %...& consciência maior de que o conhecimento científico é uma hipótese, ou melhor, a construção de um modelo que equivale à realidade enquanto responde às dificuldades de sua interpretação, mas não é a realidade. Daí poder modificar#se e aperfeiçoar#se. !Ibid." Tem#se, então, o problema colocado inicialmente por Anísio Teixeira: as concepções científicas não são nem paradoxais, nem absurdas. Elas correspondem ao estado de conhecimento produzido pelo aperfeiçoamento dos instrumentos de investigação, dentre estes a lógica. Até aqui não foi posta a questão da “lógica da invenção”, o que será apresentado a seguir. Ainda na primeira carta, Anísio Teixeira critica Rocha e Silva por tornar idênticos os processos envolvidos na produção de conhecimento científico e na criação artística !esta entendida como a das belas#artes". Isso porque Rocha e Silva “deforma a natureza do real progresso que se opera no campo da ciência em contraste com o da arte”. Qual a diferença? Para Anísio Teixeira, a ciência progride efetivamente; é, em linguagem atual, construtiva, acumula conhecimentos, ao passo que na arte não existe tal acumulação, ou essa não é construtiva. Rocha e Silva, como vimos acima, considera esse processo acumulativo, e o passo a passo, um grande engano, pois a criação ou a invenção não decorre da acumulação de conhecimentos, mas de rupturas. Se é assim, por que intitular seu livro de Lógica da invenção? Ainda que Anísio Teixeira não faça essa pergunta diretamente, sua primeira carta apresenta#a. Rocha e Silva, em resposta à carta inicial de Anísio Teixeira, afirma que utilizou a palavra “lógica no seu sentido comum, que é o entendido por todos e tão usado pela minha filhinha de 6 anos: é lóó#gi#coo!” !carta de 16 de janeiro de 1966". Antes dissera que a ciência lógica equivale a qualquer “ciência de catalogação”, sendo estéril para a investigação ou a invenção. Logo depois afirma que não quis dizer que “o trabalho de criação não segue qualquer lógica, e, muito menos, restringir o sentido da lógica à lógica aristotélica” !ibid.". O título de seu livro indica que Rocha e Silva considera a existência de uma lógica da investigação, porém e s t a n ã o é q u a l q u e r u m a q u e e l e co n h e ç a p r e v i a m e n te . E m b o r a co n s i d e r e “implicitamente” !o que deixa explícito na carta" a existência de uma “lógica da invenção”, ela não foi estabelecida ou formalizada. Se o fosse, qualquer um seria capaz de criar ou inventar, até mesmos os autômatos. Depois de ilustrar sua posição apresentando artistas plásticos os mais diversos, ataca a posição de Anísio Teixeira a respeito do progresso na ciência e da inexistência de progresso na arte. Rocha e Silva considera que a arte também progride, uma vez que os artistas geniais representam “um pico, um máximo de perfeição na sua época” !ibid.". Por outra parte, afirma que a ciência progride, mas a lógica não, pois ela é um fenômeno periférico daquela, ela “é arrastada pela primeira e constitui sempre um epifenômeno” !ibid.". Temos, agora, as questões em debate: há ou não uma lógica da invenção? A invenção artística é similar ou idêntica à científica? Há ou não progresso nas artes? Ambos admitem que as ciências progridem, mas discordam quanto ao progresso nas artes. Que critérios utilizar para afirmar que há ou não progresso nas artes? Para Rocha e Silva, a obra de um gênio artístico é a culminância de uma perfeição alcançada em um certo momento histórico. Para Anísio Teixeira, as grandes obras de artes são efetivamente bem constituídas, mas não apresentam a qualidade de superação, de ultrapassagem, tanto que as obras do neolítico podem ser vistas como modernas, algo que Rocha e Silva afirmara em seu livro então sob o fogo das críticas. Aqui encontramos um problema decorrente do que se entende por “progresso”, problema que pode ser esclarecido quando se compreende que uma ciência formal $ como a lógica ou a matemática $ é construtiva, ou seja, os enunciados demonstrados corretos e verdadeiros são a base para os demais. Nas ciências em que o conhecimento depende do que se entende ou se diz a respeito das coisas no mundo não são construídos, mas constituídos. Isso porque as premissas dos argumentos dependem do que o grupo entende ser o significado dos termos utilizados, e estes se referem a algo que se põe como real ou belo. Como o que se tem por “objeto” é estabelecido pela teoria ou modelo utilizado, então, nas ciências não formais, sempre lidamos com a instituição do real !e do belo, por certo", e, por isso, uma teoria pode vir a ser substituída por outra considerada mais adequada ou correta. Certamente isso impõe que se definam critérios de validação das teorias ou dos modelos, e nesse procedimento pode#se recorrer à lógica, mas esta não é capaz de dizer se os enunciados de partida são verdadeiros ou falsos, pertinentes ou não, pois a lógica opera sobre a forma de relacionar as proposições. Um exemplo é a afirmação de que corpos esféricos com massas diferentes caem em uma velocidade proporcional às suas massas na superfície da Terra. Do ponto de vista estritamente lógico, essa proposição é verdadeira, ainda que seja falsa, como mostrou Galileu. Parece#me que o centro do debate encontra#se naquilo que ambos entendem por “lógica”. Para Rocha e Silva, “lógica” é o mesmo que cálculo, mas não necessariamente álgebra, ainda que possa ser uma, como mostra ser o caso da lógica de Boole. Por seu lado, Anísio Teixeira entende “lógica” como um processo bem mais amplo $ como o definido por Dewey $ que envolve a ciência lógica, mas não está contido nela. Nesse sentido amplo, trata#se de procedimentos, de modos de fazer ou algoritmos, no sentido extenso dessa palavra. Na perspectiva de Anísio Teixeira, o processo de conhecer origina#se de uma pergunta $ com o que Rocha e Silva concorda $, e as respostas a essa pergunta são validadas segundo as condições histórico#sociais, as quais envolvem desde a lógica admitida para o tema ou objeto até os demais instrumentos de verificação dos modelos postos em disputas. Mas, qual a origem das perguntas? Por certo, não são perguntas triviais, caso contrário o conhecimento existente não seria questionado. A resposta a essa questão aparece mais explicitamente nos artigos que complementam o livro: “Informação e criação”, de Maurício Rocha e Silva, e “Bases da teoria lógica de Dewey”, de Anísio Teixeira. Sigamos a ordem da edição, que se inicia pelo trabalho de Rocha e Silva. “Informação e criação” examina a teoria da informação que constitui a base para a construção de computadores, compara#a com os circuitos neuronais, e afirma que tais processos não explicam o “trabalho de invenção ou criação original”. Para Rocha e Silva: O cérebro humano, na sua capacidade inventiva, deve trabalhar numa espécie de fog ou neblina, e as suas decisões se apresentam como imagens desfocadas de um aparelho de rádio ou de televisão. !Ibid." Isso pode parecer estranho aos leigos, afirma, mas não para o “homem de gênio”, para quem tal concepção é “o supra#sumo da clareza de pensamento e exatidão nos seus conceitos” !ibid.". Depois de longa digressão, Rocha e Silva coloca o problema da insuficiência dos modelos mecânicos !cálculo" para a produção da novidade, que teria origem em algo como uma “‘intuição’ de senso estético, capaz de distinguir o que é falso, no sentido absoluto, e portanto feio e inestético, do que é potencialmente verdadeiro, e essa seria justamente a nova verdade in status nascendi, ou o novo conceito de belo” !ibid.". Para isso, a máquina teria de ser dotada de um “filtro” ou critério capaz de selecionar tanto o estético quando o verdadeiro, um “senso” capaz de “uma espécie de premonição do que virá a ser a verdade, não obstante evidências contrárias que são aceitas rotineiramente como certas e que, subitamente, se mostram falsas, em potencial” !ibid.". O autor apresenta “exemplos”, ou, melhor dizendo, ficções a respeito de possíveis máquinas que conteriam aquelas qualidades, concluindo não haver evidências de que tal tipo de máquina possa ser criado. Retomando os argumentos que utilizara nas cartas, conclui: Seria preciso que a máquina tivesse a organização necessária para eliminar o que parece certo, substituindo#o por um sinal perturbador que soa apenas como ruído espúrio, ou que a máquina seja dotada do órgão apropriado para “sentir” que o seu trabalho de seleção poderia ter potencialidades futuras não suspeitadas por nenhuma das informações introduzidas no seu input ou armazenadas na sua memória, porque a tanto monta o trabalho de inventar do cérebro humano. !Ibid." Ou seja, apesar do título de seu livro que deu origem ao debate, não é factível uma máquina ou uma lógica da invenção. O apelo aos autômatos, para a exposição extensa dos processos de computação, apenas amplifica o que vinha sustentando: o gênio, científico ou artístico, é imprevisível, e o produto do ato genial aparece, aos demais, como absurdo em relação ao usual. A exposição de Rocha e Silva foi bem recebida por Anísio Teixeira, que ressaltou o fato de um computador apenas restituir informações ou respostas nele introduzidas pelos homens, seus programadores, o que é trivial. Para Anísio Teixeira, a atividade mental do homem se efetiva na comunicação, por isso a linguagem tem um papel fundamental, sendo “o melhor retrato da mente humana” !Anísio Teixeira, carta sem data". Para ele, a gramática é um “tratado de lógica da linguagem” !ibid.". E, acrescenta: A vida humana consiste em uma série de atos envolvendo conhecimentos e saberes, hábitos, familiaridade ou novidade, sentimento e imaginação, fluindo como uma estória %narrativa&, que se percebe e compreende e que tanto nos apaixona, que procuramos revivê#la nas estórias dos outros, que são a novela e o romance. !Ibid." Nada disso, porém, constitui o “esforço de pensar”; este só ocorre quando se interrompe uma continuidade de pensamento e somos assaltados por um “problema” que nos deixa perplexos. Em tal situação, a mente busca “localizar, definir a dificuldade e resolvê#la com os conhecimentos de que disponha” !ibid.". Esse delineamento do problema com vistas a solucioná#lo é o “ato de criação”, pois cria ou inventa a solução. Para Anísio Teixeira, o debate “gira em torno da caracterização dessa %...& fase, em que o homem não está apenas a viver inteligentemente mas a pensar” !ibid.". Termina dizendo que sua tentativa de analisar “a lógica da busca do conhecimento” pode ser melhor apresentada ao se assumir a definição de Dewey sobre a “lógica da descoberta do conhecimento”, apresentada no artigo “Bases da teoria lógica de Dewey”. Nesse artigo, Anísio Teixeira afirma que o conhecimento científico é um modelo possível em certo momento, e, como tal, pode e deve ser ultrapassado. Mais ainda, a diferença entre o senso comum e o senso científico não se encontra na lógica com que operam, mas em seu “objeto”. O educador sustenta que há diferenças entre a “investigação do senso comum” e a “investigação do tipo científico”, mas que isso “não significa dualismo”, porque, para Dewey, há continuidade entre o senso comum e o científico, assim como existe continuidade entre o comportamento orgânico e a cultura, uma vez que “na própria atividade dos seres vivos” encontra#se “a matriz do comportamento lógico” !ibid.". O lógico não está no vital e nem na cultura, mas na mediação entre ambos, expressa#se em operações que permitem a superação de uma “situação problemática”. Tais atividades produzem modificações “das energias do organismo” e “modificações do próprio meio natural, antecipando, portanto, a aprendizagem e a descoberta” !ibid.". Por essa via, os problemas do subjetivismo psicológico ou os relativos aos processos mentais e lógicos desaparecem, pois o “processo de investigação, o ato de pensar, não é nenhum ato da mente em si e por si, mas uma interação, ainda ou sempre, entre o organismo e o meio, funcionalmente em nada diferente da digestão, digamos” !ibid.". Essa interação é tornada símbolo, cujo referente é o comportamento humano, que não é somente uma relação com o meio natural e social, mas uma determinada associação que tem como resultado um “sistema de símbolos e significações, de sentido e uso comum ou geral”, que é a linguagem, pelo que “a lógica se fez a lógica da linguagem, a lógica do discurso” !ibid.". Essa “lógica do discurso” se depreende da necessidade de interação humana, das exigências postas para os indivíduos em suas relações sociais, que requerem considerar seus múltiplos pontos de vista para que possam estabelecer o que lhes é comum. Para Dewey, segundo Anísio Teixeira, é a linguagem que compele o indivíduo ao “comportamento lógico, isto é, geral e objetivo. Geral, porque comum e não individual, e objetivo, porque não autístico” !ibid.". Uma das possíveis fontes de discórdia entre o biólogo Rocha e Silva e Anísio Teixeira talvez se encontre na suposição de continuidade entre o orgânico e o cultural, pela qual a lógica se encontra prefigurada nas atividades dos seres vivos. Um assunto a ser melhor explorado, mas que parece ter sua origem no sistema sintético de filosofia ou no evolucionismo de Herbert Spencer, mas não no de Darwin, como muitos têm afirmado. Não é possível, aqui, desenvolver essa questão. No entanto, pode#se perceber que Anísio Teixeira, seguindo a teoria de Dewey, sugere que o ato criativo não é exclusividade do “gênio”, entidade evocada permanentemente por Rocha e Silva, pois a busca de solução para qualquer situação problemática é um ato criativo. Estaria, aqui, o centro da disputa? Rocha e Silva sustentaria a concepção do romantismo alemão sobre o caráter genial? Se for assim, compreendem#se as razões do biólogo ao assimilar os atos de produção científica à produção artística. Pelo lado de Dewey, os artistas ou técnicos “geniais” não são apenas aqueles, mas todos os que produzem alguma coisa nova, não repetitiva. Daí dizer que “não é absurdo afirmar#se que o gênio é uma longa paciência, onde há mais transpiração que inspiração” !Anísio Teixeira, carta de 29 de janeiro de 1996". Voltemos ao problema da produção de conhecimento ou da “lógica da descoberta do conhecimento” proposta por Dewey. A “lógica descoberta do conhecimento” é um procedimento, nomeado “lógica”, que se efetiva em uma situação social, portanto em um extra#lógico. Tal procedimento é o diálogo entre pessoas que apresentam um mesmo conhecimento a respeito de um assunto, o que Aristóteles considerava ser próprio da dialética e sistematizou nos Tópicos e nas Refutações sofísticas. Além disso, o que Anísio Teixeira considera serem os procedimentos próprios da investigação do senso comum, são os que ocorrem tanto na situação dialética quanto na retórica, uma vez que em ambas há a negociação de significados a respeito do que se considera preferível fazer ou ter !o que, no século XX, apresenta#se sob a rubrica “valor”", como exposto no artigo “Bases da teoria lógica de Dewey”. Onde, então, localizar a lógica? Anísio Teixeira diz que ela é a “lógica do discurso”, que busca efetivar algo geral e objetivo; todavia, a ciência lógica não trata de tais aspectos, pois, como bem salienta Rocha e Silva, as premissas dos silogismos são dadas quando operamos logicamente !no sentido estrito". Isso porque na lógica simbólica ou matemática os elementos do silogismo, as premissas, são “variáveis”, sinais auto#referentes, que podem ser preenchidos por qualquer significado. É diverso da silogística aristotélica, que é propriamente uma lógica semântica, donde ser preciso conhecer os significados dos termos postos em presença para tratar da validade da inferência. As operações lógicas são as mesmas, certamente muito mais refinadas na lógica contemporânea no que diz respeito às formas que assumem as relações segundo os operadores em uso, mas são muito distintas. Na lógica simbólica não é preciso efetivar algum acordo a respeito do significado dos enunciados, na lógica aristotélica e posterior, especialmente nos contextos de produção de conhecimento a respeito do mundo, é preciso estabelecer significados, o que permite o uso de uma lógica semântica. Ilustrarei isso com uma asserção apresentada por Perelman e Olbrechts#Tyteca !1996, p.127#129" a respeito da “petição de princípio”, ou “raciocínio circular”, que consiste em “postular o que se quer provar”. Nos livros de lógica, a petição de princípio é capitulada como uma falácia lógica, mas aqueles autores mostraram não ser assim, pois a lógica seria desprovida de significado caso fosse uma falácia lógica, pois o princípio da identidade !A = A", seria uma petição de princípio. Eles sustentam que essa falta ou falácia é argumentativa, pois depende de os ouvintes ou leitores denunciarem o orador/ escritor de incorrer em tal erro. Creio que isso é suficiente para dizer que as premissas originadas de um contexto material, não formal, são negociadas e admitidas, ou não, pelos grupos sociais, pelo que não são lógicas; são termos originados em uma negociação em certas situações sociais que podem ser operados por meio de formas ou esquemas ou figuras da lógica. Isso implica considerar que nas situações retórica e dialética produzem#se as premissas dos silogismos, viabilizando, em certas circunstâncias, estabelecer teorias ou modelos ou metáforas que são aferidos de alguma maneira. Uma vez aferidos e considerados conhecimentos confiáveis, cabe organizá#los de maneira bem formada para sua exposição ou ensino. Essa forma foi inicialmente sistematizada por Aristóteles nos Analíticos anteriores e nos Analíticos posteriores, dos quais se originaram os estudos lógicos, e que, hoje, constituem uma ciência particular e bastante afastada da lógica semântica aristotélica. Esse mesmo instrumental para o pensamento é utilizado nas situações retórica e dialética, com vistas a examinar enunciados contraditórios e incompatíveis, mas, dependendo do contexto social, é possível que os envolvidos admitam contradições e incompatibilidades, porque põem em primeiro lugar o que consideram ser preferível. Donde o rigor !concisão e conclusividade" das teorias estar diretamente vinculado aos grupos sociais ou auditórios, não apenas aos instrumentos utilizados, o que leva água ao moinho de Dewey. Mas ainda permanece em aberto a questão inicial: Há ou não uma lógica da invenção? Caso se considere que os procedimentos usuais nas situações retórica, dialética e de exposição !analítica" requerem o silogismo, e que este é necessário para se responder questões postas em contextos apropriados, então se poderá dizer que o ato criador é comum a todos os homens diante de perguntas relevantes, não triviais, tal como assinalou Anísio Teixeira. Caso se julgue que o ato criador, obra de um gênio, emerge na consciência de maneira insuspeitável, quase sem trabalho, como uma inspiração, então aqueles procedimentos são descartáveis. Nessa hipótese, estaremos no terreno do romantismo ou do idealismo alemão, para o qual há pessoas geniais ou, como dizia Hegel, “indivíduos históricos” cujos interesses particulares coincidem com os do Espírito !Deus", e que, ao realizarem esses interesses, efetivam o que é necessário no tempo/época. O gênio seria, então, o mesmo que “indivíduo histórico”, alguém que torna real, efetivo, o que já se encontra no Espírito Absoluto, e o faz sem saber, de maneira inconsciente. Só sabemos depois de efetivado, donde a filosofia ser a “coruja de Atena” que levanta seu vôo no entardecer, depois de realizados os trabalhos do dia, quando pode rever o realizado e apreender as razões dos atos. O criador, aquele que modifica a história, o indivíduo histórico ou herói, é instrumento do Espírito !Geist, Deus"; ainda que tenha uma parcela importante no realizado, ele não é o legítimo produtor do novo, que institui um Volksgeist !espírito#do#povo" ou Kultur. Tomemos, agora, o tema das “duas culturas”, o que é facilitado pela noção de Kultur em Hegel. Os literatos !filósofos" e os cientistas estariam condenados a se manterem em mundos ou culturas separadas? Rocha e Silva considera que sim, pois operam lógicas diversas, não sendo factível romper os muros entres as “duas culturas”. Anísio Teixeira, julga que tais muros não se justificam, uma vez que todos operamos com a mesma “lógica”. O que nos faz retornar ao ponto inicial. Esse círculo de má finitude não pode ser rompido nos termos propostos pelos missivistas, pois, para Rocha e Silva, a lógica e as metodologias são camisas#de#força que tolhem a criatividade; para Anísio Teixeira, são instrumentos necessários que não impedem a invenção, mas requerem que essa seja pertinente ou efetiva. No entanto, pode#se romper o círculo, desde que consideremos que a lógica e a metodologia !melhor seria dizer no plural" apresentam no indicativo e no imperativo normas ou regras do fazer que foram testadas antes. Pode#se ler aquelas regras pelo avesso: fizemos de outra maneira e não deu certo, logo faça como recomendamos aqui. Um estudo, mesmo que superficial, das regras das metodologias e das lógicas mostra que para cada uma há seu inverso, bem como um conjunto de razões que explicam por que fazer dessa ou daquela maneira. O mesmo se encontra em outras técnicas ou artes: seus manuais expressam um repertório de experiências a respeito do assunto que tratam. Mas, aqui, tanto Rocha e Silva quanto Anísio Teixeira parecem estar juntos, a produção da novidade, a invenção, não segue as regras, rompem#nas abrindo novas perspectivas, as que depois serão codificadas. Talvez, a polêmica tenha se sustentado no uso equívoco do termo “lógica”, o qual, para um, é um cálculo $ o que é de fato $ e, para o outro, um conjunto de procedimentos gerais. Tivessem ajustado essa nomenclatura, o que tentaram sem sucesso, teriam alcançado algum acordo. Nesse caso, teria realmente havido um diálogo. Não foi o que se deu, tal como Anísio Teixeira denuncia em sua “Nota introdutória”, no terceiro parágrafo, ao se referir à “Nota introdutória” escrita por Maurício Rocha e Silva, afirmando: “o nosso chamado diálogo” !grifei". Em seguida, explica: “Em rigor cada um expôs seu ponto de vista, sem maior preocupação de análise do ponto de vista adverso.” A condição para o diálogo, próprio da situação dialética, é o exame cuidadoso da posição do contendor, o que não ocorreu. Ambos permaneceram em suas posições, e a questão que se apresentava como central para Anísio Teixeira não foi examinada. Qual era, afinal, a crítica central de Anísio Teixeira ao livro de Rocha e Silva? “Minha divergência decorreu %...& do que julguei %ser& certa liberdade literária no tratamento da ciência” !ver “Nota introdutória” de Anísio Teixeira; grifei". Essa “certa liberdade literária” pode ser caracterizada tanto pela fluidez com que Rocha e Silva utiliza os termos técnicos quanto por suas especulações acerca dos processo psicológicos, de que estes seriam quânticos, seguindo as pegadas de Bohr !ver, por exemplo, “Nota introdutória” de Maurício Rocha e Silva, parágrafos 15 e 18". O filósofo requer do cientista maior rigor, enquanto este sugere que, sendo obra de gênio, os outros, os “leigos”, não a compreendem... O que Anísio Teixeira requeria era o que se exige das pessoas envolvidas em um diálogo ou debate que deva conduzir a alguma decisão plausível ou adequada ou correta. Basta pensar na situação judicial para ficar explícita a relevância da determinação das evidências, a produção das provas necessárias para as decisões que afetam a vida dos envolvidos e de todos nós. Sem algum critério para decidir a respeito do crime e de sua autoria, caímos na barbárie. Nesse sentido, não há porque falar em “duas culturas” como algo desejável e inelutável, daí Anísio Teixeira pôr em cena a constatação de Snow que sustenta a posição de Rocha e Silva. Se há “duas culturas”, isso não decorre da existência de duas lógicas ou de algum imperativo ontológico, mas expressa uma circunstância a ser superada, uma vez que todos os homens necessitam compreender as ciências, inclusive os filósofos, pensa Anísio Teixeira. Rocha e Silva toma existente por irreversível, como se fosse um fato natural, logo só pode sustentar a incomunicabilidade entre os representantes das “duas culturas”. Sendo assim, não poderia falar em diálogo, mas de monólogos desenvolvidos entre membros de comunidades ontológica e epistemologicamente separadas. O que se pode concluir do debate? Pouca coisa. Ambos permaneceram em suas posições. Para eles, o problema permaneceu em aberto, como admitem em diversas passagens. O tema que parece central, o da existência ou da pertinência de uma “lógica da invenção” foi posto em questão, depois admitido como possível, mas não existente, em seguida apareceu como similar à “lógica da investigação” !theory of inquiry" proposta por Dewey. As ilustrações e exemplos utilizados por Rocha e Silva, bem como os chamados à ordem realizados por Anísio Teixeira, não auxiliam a resolução do problema inicial, uma vez que outros temas subjacentes vieram à tona, e cada um exigiria um exame em separado. O debate, ou mais propriamente a querela, a respeito da lógica da invenção não teria origem no uso da linguagem? Não seria um problema de nomenclatura? Anísio Teixeira traduz pelo termo “lógica” a “teoria da investigação” !theory of inquiry", que apresenta um esquema de procedimentos que tem início no questionamento e retorna a ele depois de se ter obtido alguma resposta. Rocha e Silva usa o termo tanto no sentido extenso e comum quanto no técnico, no qual ela é um cálculo em que os agentes são os operadores lógicos !e, ou, se... então etc.", não os humanos. Parece#me plausível, mas as palavras não são por si, elas tiram seus significados do contexto discursivo, das “visões de mundo”, o que justificaria Rocha e Silva ao falar em “duas culturas”. Ma, isso não elimina o desejado por Anísio Teixeira: unificar a cultura filosófica !literária" e a cultura científica, alterando a primeira, mas não literalizando a segunda, como teria feito Rocha e Silva. A via proposta por Anísio Teixeira é a de uma educação escolar que favoreça o processo de tornar senso comum !conhecimento comum" de nossa época os conhecimentos científicos. Isso é tanto necessário para a superação da brecha entre as culturas quanto para a produção de novos conhecimentos, uma vez que só se pode inovar quando se conhece suficientemente o “velho”. De maneira não intencional, Rocha e Silva corrobora essa afirmação quando narra a situação em que foi concitado a produzir “os pensamentos loucos” para sair do beco sem saída da pesquisa que desenvolvia. Ele mesmo diz que foi preciso romper com as regras estabelecidas, mas isso, podemos dizer, só foi factível por as conhecer. Aqui, ele teria de dar razão a Dewey, mas para isso ambos teriam de suplantar a querela em torno do termo “lógica”, pelo que teriam de ter efetivamente dialogado. Referências bibliográficas BACK, M. Models and Metaphors. Studies in Language and Philosophy. 5. ed. Ithaca: Cornell University Press, 1972. BOUVIER, A. Philosophie des sciences sociales. Paris: PUF, 1999. CUNHA, M. V. O conhecimento e a formação humana no pensamento de Aristóteles. In: PAGNI, P. A.; SILVA, D. J. !org.". Introdução à filosofia da educação. Temas contemporâneos e história. São Paulo: Avercamp, 2007. p. 60#84. LE BLOND, J. M. Logique et méthode chez Aristote. 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