Resumo
Os efeitos benéficos da prática regular de atividade física nos níveis de pressão arterial (PA), e
na consequente prevenção das doenças cardiovasculares (DCV) são sem dúvida uma
importante questão para a manutenção de saúde ao longo da vida. Apesar das DCV
manifestarem-se normalmente apenas na vida adulta, muitas vezes estas doenças têm o seu
período de incubação durante a idade jovem. Neste contexto, deve-se dar atenção ao
surgimento dos fatores de risco das DCV durante a idade jovem, de modo a evitar o
surgimento destas doenças na idade adulta. O objetivo do presente estudo consistiu na análise
da influência que os níveis de aptidão física e os níveis de composição corporal possuem nos
níveis de PA de jovens entre os 12 e os 18 anos, inseridos no contexto escolar. A amostra foi
constituída por 91 jovens caucasianos (12 - 18 anos) pertencentes a duas escolas do norte de
Portugal. Posteriormente, a mesma foi agrupada em 3 grupos, onde no grupo I foram incluídos
jovens dos 12 aos 13 anos, no grupo II foram incluídos jovens dos 14 aos 16 anos, e por fim,
no grupo III, foram incluídos jovens dos 17 aos 18 anos. A todos os indivíduos da amostra foi
avaliado o nível de aptidão física, os valores da PA em repouso, e as componentes da
composição corporal. Depois da recolha dos dados, cada variável foi categorizada de acordo
com a especificidade da mesma, de modo a qualificar a amostra. Os resultados permitiram
identificar que as variáveis da aptidão física possuem uma reduzida influência nos níveis de
PA, em contrapartida com as componentes da composição corporal, onde o índice de massa
corporal (IMC) foi a variável que mais se relacionou com um aumento significativo nos níveis
de PA, principalmente entre os 14 e os 18 anos de idade. Identificou-se ainda que uma
reduzida prática de atividade física semanal está associada a níveis mais baixos de aptidão
física, e níveis de pressão arterial sistólica (PAS) superiores ao desejável. Os resultados
obtidos sugerem que indivíduos com baixos níveis de atividade física estão susceptíveis a
sofrerem de pré-hipertensão e de hipertensão, com uma maior influência dos níveis de
composição corporal, nomeadamente o IMC. Em suma, jovens em contexto escolar que
possuam baixos níveis de atividade física, tendem a possuir níveis elevados de PA,
aumentando desta forma o risco de sofrer no futuro de uma DCV.
Palavras-chave: Pressão arterial, Atividade física, Aptidão física, Composição corporal,
Hipertensão, Jovens, Escola.
Abstract
The beneficial effects of regular practice of physical activity on blood pressure levels, and in the
consequent prevention of cardiovascular diseases are certainly an important issue for
maintaining lifelong health. Despite the cardiovascular diseases normally begin to manifest
itself only in adulthood, often these diseases have their incubation period during young age.
This way, it´s important to be alert to the signs of risk factors of cardiovascular diseases during
young age, to avoid the emergence of these diseases in adult age. The goal of this study was
to analyze the influence that physical fitness levels and body composition levels have on levels
of blood pressure in young people between 12 and 18 years, inserted in the school context.
The sample study was made in 91 Caucasian young people (12-18 years) belonging to two
schools in the North of Portugal. Later on, the same sample was divided in 3 groups, where in
group I was included young people from 12 to 13 years, in group II young people from 14 to 16
years, and finally, in group III, were included young people from 17 to 18 years. All the sample
in this study was evaluated in the levels of physical fitness, blood pressure and body
composition. After collecting the data, each variable was categorized according to the
specificity of it, so as to qualify the sample. The results indicated that the variables of physical
fitness had a reduced influence on blood pressure levels, in contrast with the components of
body composition, where the body mass index was the variable that most provides a significant
increase in blood pressure levels, mainly between 14 and 18 years of age. Also was identified
that a reduced physical activity life style is associated with lower levels of physical fitness, and
with systolic blood pressure levels higher than desirable. The results obtained suggest that
individuals with low levels of physical activity tend to suffer from pre-hypertension and
hypertension, with a greater influence of body composition levels, in particular the body mass
index. Finally, young people inserted in school context who have low levels of physical activity
may have elevated levels of blood pressure, which increases the risk of suffering in the future
of a cardiovascular diseases.
Key-words: Blood Pressure, Physical Activity, Physical Fitness, Body Composition,
Hypertension, Young People, School.
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
2º CICLO EM ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO
A INFLUÊNCIA DA APTIDÃO FÍSICA E DA
COMPOSIÇÃO CORPORAL, NA PRESSÃO
ARTERIAL DE JOVENS EM IDADE ESCOLAR
SANDRO MIGUEL VIEIRA DA SILVA
Orientador: Professor Doutor Nelson Joaquim Fortuna Sousa
Vila Real, 2011
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
2º CICLO EM ENSINO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO
A INFLUÊNCIA DA APTIDÃO FÍSICA E DA COMPOSIÇÃO
CORPORAL, NA PRESSÃO ARTERIAL DE JOVENS EM
IDADE ESCOLAR
SANDRO MIGUEL VIEIRA DA SILVA
Orientador: PROFESSOR DOUTOR NELSON JOAQUIM FORTUNA SOUSA
VILA REAL, 2011
Dissertação apresentada à UTAD, no DEP – ECHS, como
requisito para a obtenção do grau de Mestre em Ensino de
Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário, cumprindo o
estipulado na alínea b) do artigo 6º do regulamento dos Cursos
de 2ºs Ciclos de Estudo em Ensino da UTAD, sob a orientação
do Professor Doutor Nelson Joaquim Fortuna de Sousa.
Agradecimentos
A elaboração deste estudo não seria possível sem a colaboração direta ou indireta de várias
pessoas, que nos ajudaram a ter sucesso na sua realização. A eles é dedicado este capítulo,
onde lhes queria expressar toda a minha gratidão, pois, de algum modo, me ajudaram a
terminar uma etapa de árduo empenho, crescimento pessoal e desenvolvimento profissional.
Desta forma, gostaríamos de manifestar um profundo agradecimento:
Ao meu orientador, Professor Doutor Nelson Joaquim Fortuna Sousa, por ter arcado a
orientação deste trabalho, pela competência e exigência transmitida, e pela disponibilidade e
interesse manifestado ao longo de toda a realização deste trabalho.
Às Professoras Doutoras Graça Pinto e Catarina Abrantes, pela cedência do material que nos
ajudou na recolha dos dados.
Ao André Pereira, pela disponibilidade e ajuda demonstrada no tratamento estatístico dos
dados.
Aos alunos da Escola Secundária de S. Pedro, em Vila Real, e da Escola Secundária de
Arcozelo, em Ponte de Lima, pela sua participação e dedicação.
À Professora Paula Ferreira, pela constante ajuda e cooperação nos pedidos burocráticos para
a recolha dos dados.
À minha família, especialmente aos meus pais, avós e irmão, por toda a paciência,
compreensão e apoio demonstrado durante todo o meu percurso escolar e universitário.
À Sara Pinto, pela companhia constante, e pela compreensão e apoio incondicional transmitido
em qualquer ocasião.
Aos colegas universitários, Elsa Cerqueira, Diogo Coutinho e Jorge Ferreira, pelo ilimitado
apoio, pela troca de ideias, e acima de tudo pela amizade criada.
Por fim, aos amigos de infância, André Sousa, André Vieira, Francisco Silva, Pedro Pinheiro e
Tiago Oliveira, pela companhia inseparável, e por todos os momentos de divertimento e
descontração passados.
A todos, o meu sincero agradecimento.
I
Resumo
Os efeitos benéficos da prática regular de atividade física nos níveis de pressão arterial (PA), e
na consequente prevenção das doenças cardiovasculares (DCV) são sem dúvida uma
importante questão para a manutenção de saúde ao longo da vida. Apesar das DCV
manifestarem-se normalmente apenas na vida adulta, muitas vezes estas doenças têm o seu
período de incubação durante a idade jovem. Neste contexto, deve-se dar atenção ao
surgimento dos fatores de risco das DCV durante a idade jovem, de modo a evitar o
surgimento destas doenças na idade adulta. O objetivo do presente estudo consistiu na análise
da influência que os níveis de aptidão física e os níveis de composição corporal possuem nos
níveis de PA de jovens entre os 12 e os 18 anos, inseridos no contexto escolar. A amostra foi
constituída por 91 jovens caucasianos (12 - 18 anos) pertencentes a duas escolas do norte de
Portugal. Posteriormente, a mesma foi agrupada em 3 grupos, onde no grupo I foram incluídos
jovens dos 12 aos 13 anos, no grupo II foram incluídos jovens dos 14 aos 16 anos, e por fim,
no grupo III, foram incluídos jovens dos 17 aos 18 anos. A todos os indivíduos da amostra foi
avaliado o nível de aptidão física, os valores da PA em repouso, e as componentes da
composição corporal. Depois da recolha dos dados, cada variável foi categorizada de acordo
com a especificidade da mesma, de modo a qualificar a amostra. Os resultados permitiram
identificar que as variáveis da aptidão física possuem uma reduzida influência nos níveis de
PA, em contrapartida com as componentes da composição corporal, onde o índice de massa
corporal (IMC) foi a variável que mais se relacionou com um aumento significativo nos níveis
de PA, principalmente entre os 14 e os 18 anos de idade. Identificou-se ainda que uma
reduzida prática de atividade física semanal está associada a níveis mais baixos de aptidão
física, e níveis de pressão arterial sistólica (PAS) superiores ao desejável. Os resultados
obtidos sugerem que indivíduos com baixos níveis de atividade física estão susceptíveis a
sofrerem de pré-hipertensão e de hipertensão, com uma maior influência dos níveis de
composição corporal, nomeadamente o IMC. Em suma, jovens em contexto escolar que
possuam baixos níveis de atividade física, tendem a possuir níveis elevados de PA,
aumentando desta forma o risco de sofrer no futuro de uma DCV.
Palavras-chave: Pressão arterial, Atividade física, Aptidão física, Composição corporal,
Hipertensão, Jovens, Escola.
II
Abstract
The beneficial effects of regular practice of physical activity on blood pressure levels, and in the
consequent prevention of cardiovascular diseases are certainly an important issue for
maintaining lifelong health. Despite the cardiovascular diseases normally begin to manifest
itself only in adulthood, often these diseases have their incubation period during young age.
This way, it´s important to be alert to the signs of risk factors of cardiovascular diseases during
young age, to avoid the emergence of these diseases in adult age. The goal of this study was
to analyze the influence that physical fitness levels and body composition levels have on levels
of blood pressure in young people between 12 and 18 years, inserted in the school context.
The sample study was made in 91 Caucasian young people (12-18 years) belonging to two
schools in the North of Portugal. Later on, the same sample was divided in 3 groups, where in
group I was included young people from 12 to 13 years, in group II young people from 14 to 16
years, and finally, in group III, were included young people from 17 to 18 years. All the sample
in this study was evaluated in the levels of physical fitness, blood pressure and body
composition. After collecting the data, each variable was categorized according to the
specificity of it, so as to qualify the sample. The results indicated that the variables of physical
fitness had a reduced influence on blood pressure levels, in contrast with the components of
body composition, where the body mass index was the variable that most provides a significant
increase in blood pressure levels, mainly between 14 and 18 years of age. Also was identified
that a reduced physical activity life style is associated with lower levels of physical fitness, and
with systolic blood pressure levels higher than desirable. The results obtained suggest that
individuals with low levels of physical activity tend to suffer from pre-hypertension and
hypertension, with a greater influence of body composition levels, in particular the body mass
index. Finally, young people inserted in school context who have low levels of physical activity
may have elevated levels of blood pressure, which increases the risk of suffering in the future
of a cardiovascular diseases.
Key-words: Blood Pressure, Physical Activity, Physical Fitness, Body Composition,
Hypertension, Young People, School.
III
Índice Geral
Agradecimentos ....................................................................................................................... I
Resumo .................................................................................................................................... II
Abstract .................................................................................................................................. III
Índice Geral ............................................................................................................................ IV
Índice de Quadros ................................................................................................................... V
Índice de Figuras.................................................................................................................... VI
Lista de Abreviaturas ............................................................................................................ VII
1.
Introdução ........................................................................................................................ 2
1.1 - Pressupostos e limitações ............................................................................................. 7
2.
Revisão bibliográfica ...................................................................................................... 9
2.1 - Atividade física, Aptidão física e Exercício físico ........................................................... 9
2.2 - Avaliação da aptidão física .......................................................................................... 11
2.3 - Benefícios da atividade física e o seu contributo para a redução das DCV ................. 12
2.4 - Pressão arterial e a sua evolução até à Hipertensão ................................................... 16
3.
Metodologia ................................................................................................................... 21
3.1 - Amostra....................................................................................................................... 21
3.2 - Desenho do estudo ..................................................................................................... 22
3.3 - Avaliação da Pressão Arterial ..................................................................................... 22
3.4 - Avaliação da Composição Corporal ............................................................................ 23
3.5 - Avaliação da Aptidão Física ........................................................................................ 25
3.6 - Análise estatística ....................................................................................................... 28
4.
Resultados ..................................................................................................................... 30
5.
Discussão dos resultados ............................................................................................ 43
6.
Conclusões .................................................................................................................... 50
7.
Referências Bibliográficas ............................................................................................ 53
IV
Índice de Quadros
Quadro 1: Componentes da aptidão Física (Caspersen et al., 1985). .................................... 10
Quadro 2: Benefícios para a saúde da prática de atividade física (U.S. Department of Health
and Human Services, 2008). ................................................................................................... 13
Quadro 3: Fatores de risco das DCV (Pyörälä et al., 1994). ................................................... 15
Quadro 4: Classificação dos níveis de PA (U.S. Department of health and human services,
2003)....................................................................................................................................... 17
Quadro 5: Constituição da amostra. ....................................................................................... 21
Quadro 6: Valores de corte do IMC (Cole et al., 2000). .......................................................... 23
Quadro 7: Valores de corte para o PC (Taylor et al., 2000). ................................................... 24
Quadro 8: Valores ótimos para a %MG (The Cooper Institute for Aerobics Research, 2007). 25
Quadro 9: Valores de corte para o Teste do VV (The Cooper Institute for Aerobics Research,
2007)....................................................................................................................................... 26
Quadro 10: Valores de corte da aptidão muscular (The Cooper Institute for Aerobics Research,
2007)....................................................................................................................................... 28
Quadro 11: Análise descritiva da amostra. ............................................................................. 30
Quadro 12: Teste do X2 para a PAS, com as variáveis da aptidão física e da composição
corporal. .................................................................................................................................. 36
Quadro 13: Relação entre a PAS e o IMC no grupo II. ........................................................... 36
Quadro 14: Relação entre a PAS e o PC no grupo II.............................................................. 37
Quadro 15: Relação entre a PAS e a FLO no grupo III........................................................... 38
Quadro 16: Relação entre a PAS e o IMC no grupo III. .......................................................... 38
Quadro 17: Teste do X2 para a PAD, e as variáveis da aptidão física e composição corporal. 39
Quadro 18: RLM para PAS e PAD no grupo II........................................................................ 40
Quadro 19: RLM para PAS e PAD no grupo III....................................................................... 41
V
Índice de Figuras
Figura 1: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste do VV; e à direita, a relação
entre aptos e inaptos em cada grupo. ..................................................................................... 31
Figura 2: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste SA; e à direita, a relação
entre aptos e inaptos em cada grupo. ..................................................................................... 31
Figura 3: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste da FLO; e à direita, a relação
entre aptos e inaptos em cada grupo. ..................................................................................... 32
Figura 4: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste de ABD; e à direita, a relação
entre aptos e inaptos em cada grupo. ..................................................................................... 32
Figura 5: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste de EXB; e à direita, a relação
entre aptos e inaptos em cada grupo. ..................................................................................... 33
Figura 6: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos da PAS; e à direita, a relação entre
PAS normal, pré-hipertensão e hipertensão em cada grupo. .................................................. 33
Figura 7: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos da PAD; e à direita, a relação entre
PAD normal, pré-hipertensão e hipertensão em cada grupo. .................................................. 34
Figura 8: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos do IMC; e à direita, a relação entre
IMC normal, sobrepeso e obesidade em cada grupo. ............................................................. 34
Figura 9: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos do PC; e à direita, a relação entre
aptos e inaptos em cada grupo. .............................................................................................. 35
Figura 10: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos na %MG; e à direita, a relação entre
indivíduos magros, saudáveis e com excesso de gordura em cada grupo. ............................. 35
Figura 11: Relação entre a PAS e o IMC no grupo II. ............................................................. 37
Figura 12: Relação entre a PAS e o PC no grupo II. .............................................................. 37
Figura 13: Relação entre a PAS e a FLO no grupo III. ........................................................... 38
Figura 14: Relação entre a PAS e o IMC no grupo III. ............................................................ 39
VI
Lista de Abreviaturas
%MG
- Percentagem de Massa Gorda
ABD
- Abdominais
cm
- Centímetros
DCV
- Doenças Cardiovasculares
EXB
- Extensões de Braços
FLO
- Flexibilidade de Ombros
GML
- Prega Geminal
IMC
- Índice de Massa Corporal
kg/m2
- Quilogramas por metro quadrado
mmHg
- Milímetros de Mercúrio
PA
- Pressão Arterial
PAD
- Pressão Arterial Diastólica
PAS
- Pressão Arterial Sistólica
PC
- Perímetro de Cintura
RLM
- Regressão Linear Múltipla
SA
- Senta e Alcança
T
- Prega Tricipital
VV
- Vaivém
WHO
- World Health Organization
X2
- Qui-Quadrado
VII
1. Introdução
1. Introdução
Nas últimas décadas, a industrialização alterou significativamente a atividade humana, devido
à mecanização de atividades que substituíram variadas funções até então exercidas pelo
Homem, proporcionando assim uma produção em série e em grande escala de variados
instrumentos. Para a população, esta alteração permitiu melhorias a vários níveis, pois foram
construídos e aperfeiçoados utensílios como os transportes públicos e privados, os
eletrodomésticos, as máquinas agrícolas e industriais, o computador, diversos meios de
comunicação, entre outros, que tiveram como efeito o aumento da esperança média de vida e
a melhoria da qualidade de vida do ser humano (Padez, 2002). No entanto, apesar da
evolução científica e tecnológica ocorrida possuir benefícios em inúmeros aspetos, deve-se
também ter em consideração que esta evolução tem vindo a acarretar aspetos negativos para
a civilização humana. A introdução das novas tecnologias reduziu bastante a quantidade de
esforço requerido pelo Ser Humano (Padez, 2002). Segundo Mellerowicz & Franz (1981), à
100 anos atrás a energia despendida pelo homem no seu trabalho era de 90% da sua força
muscular, e, hoje em dia, apenas atinge uns escassos 1%.
Devido à evolução tecnológica que ocorre todos os dias de forma significativa, o acomodar do
Homem à tecnologia está cada vez mais presente na mentalidade de toda uma população,
acarretando assim problemas de saúde à mesma, devido aos cada vez mais reduzidos níveis
de atividade física. A comprovar esta afirmação, a World Health Organization (WHO, 2002)
afirma que 17% da população mundial adulta é inativa fisicamente. Num estudo realizado pela
Comissão Europeia, onde foi questionado se realizavam exercício físico pelo menos duas
vezes por semana, os resultados mostraram que menos de metade dos entrevistados
responderam afirmativo, embora os resultados variassem entre 18,8% na Grécia, e 77,8% no
Luxemburgo (Comissão Europeia, 2002). O mesmo estudo comprova que, com o avanço da
idade a atividade física diminui, pois entre os 15 e os 24 anos a percentagem varia entre 45 e
os 88%, e aos 55 anos a percentagem varia entre os 8 e os 85%. De acordo com Varo et al.,
(2003), na Europa, uma menor prevalência de sedentarismo foi encontrada nos países do
Norte,
especialmente
nos
países
escandinavos,
em
comparação
com
os
países
mediterrânicos, sendo a prevalência maior entre os fumadores, obesos, viúvos, indivíduos
divorciados e indivíduos com baixa escolaridade. No contexto Português, a WHO (2008)
verificou que 51% dos portugueses com mais de 15 anos possuíam uma insuficiente atividade
física. Relativamente aos adolescentes, e comparando os dados de Portugal com os de outros
países, a WHO (2004) refere que os jovens de 15 anos praticam em média uma hora ou mais
de atividade Física em 2,95 dias por semana (2,7 raparigas e 3,4 rapazes), em contrapartida
com os Estados Unidos da América que ocupa o lugar cimeiro (3,8 raparigas e 4,7 rapazes) e
Malta que ocupa o último lugar (2,3 raparigas e 3,7 rapazes). Segundo um estudo realizado
2
por Matos et al., (2001), com uma amostra do 6º, 8º e 10º ano de escolaridade, 71,9% dos
jovens praticam atividade física duas ou mais vezes por semana, além das aulas de educação
física, sendo que os rapazes possuíam valores superiores em relação às raparigas. Num outro
estudo, que teve como amostra alunos entre os 10 e os 19 anos de idade, Vasconcelos & Maia
(2001) voltaram a comprovar que os rapazes possuem valores médios de atividade física
superiores às raparigas em todos os escalões etários, com a exceção dos 10 anos de idade.
O facto de hoje em dia os níveis de atividade física serem baixos, como o constatado nos
estudos anteriores, advém de vários fatores que a sociedade conferiu à sua população.
Durante a infância e a adolescência, as atividades de lazer e ocupação do tempo livre são
cada vez mais sedentárias, e os fatores que mais tem contribuído para esta causa são a
visualização exagerada de televisão, os jogos de consola, o computador e a reduzida
socialização entre pares (Andersen et al., 1998; Guimarães, 2002; Lazzoli et al., 1998). Para
toda a população, mas, especialmente para os mais jovens, nos dias de hoje a vida sem
Internet, telemóvel e outros meios de comunicação parece ser impensável (Jäger & Samnøen,
2008). Na idade adulta, os computadores, os transportes públicos e privados, a introdução de
máquinas industriais, entre outros, vieram reduzir a quantidade de energia despendida durante
o trabalho, reduzindo também os níveis de atividade física (Padez, 2002, Mellerowicz & Franz,
1981).
É unânime que a prática de atividade física é um comportamento de grande importância para a
promoção de um estilo de vida saudável (Lopes et al., 2001). A atividade física e o incentivo à
adoção de um estilo de vida saudável são importantes desde a infância (Gaspar, 2004;
Matsudo et al., 2000), pois este é um período crucial para o crescimento e desenvolvimento
saudável das mesmas (Heitzler et al., 2011), e também porque vários estudos defendem que
hábitos de prática de atividade física incorporados durante a infância e adolescência,
provavelmente serão transferidos para a vida adulta (Laakso & Viikari, 1997; Taylor, 1999). As
aulas de Educação Física, nas Escolas, têm sido apontadas como uma ótima oportunidade
para a promoção da atividade física nos jovens (Schneider & Cooper, 2011), tornando-se
assim veículos para uma possível obtenção de níveis de aptidão física favoráveis, que
provavelmente reduzem os problemas de saúde mais frequentemente relacionados com a
inatividade física. Níveis satisfatórios de aptidão física relacionam-se favoravelmente com a
manutenção/melhoria da capacidade funcional do organismo, atenuando o desenvolvimento
de doenças cardiovasculares (DCV), proporcionando assim, uma melhor qualidade de vida
para a população (Boreham & Riddoch, 2001; Morris, 1994; Morton et al., 1994). Em sentido
contrário, Heyward (1991) refere que níveis baixos de aptidão física constituem riscos para a
saúde.
3
À medida que as pessoas envelhecem, as capacidades físicas vão diminuindo, e surgem
também alterações psicologias, como por exemplo, o sentimento de velhice, a depressão e o
stress (Matsudo et al., 2000). Tudo isto, aliado ao facto de as pessoas se tornarem menos
ativas com o avanço da idade cronológica, facilita a aparição de doenças crónicas, que,
agravam o normal processo de envelhecimento (Matsudo et al., 2000). Perante tais factos, os
hábitos de atividade física promovidos e desenvolvidos durante os primeiros estágios de vida,
poderão persistir na vida adulta, reduzindo assim a incidência de doenças crónicas associadas
a estilos de vida sedentários. Torna-se assim consensual que a promoção e incentivo à prática
de atividade física durante a infância e a adolescência, é um aspeto fundamental.
A atividade física é um aspeto basilar para o desenvolvimento saudável da criança e do
adolescente (Chaves et al., 2007), e tem sido cada vez mais indicada para a melhoria da
saúde (Bortoni & Bojikian, 2007). A ausência de prática de atividade física está claramente
agregada ao sedentarismo, sendo este um importante fator de risco para diversos problemas
de saúde, nos quais as DCV assumem particular relevo (Bij et al., 2002). Independentemente
do sexo, o sedentarismo é sem dúvida um dos fatores de risco com maior prevalência nas
DCV (Ministério da Saúde - Brasil, 2002; Correia et al., 2010). Neste sentido, é importante
adotar um estilo de vida ativo e saudável para ajudar a controlar e a diminuir outros fatores de
risco das DCV, como o tabagismo, a hipertensão arterial, a hipercolesterolémia (Ministério da
Saúde - Portugal, 2002). Além dos fatores supracitados, destacam-se também o excesso de
peso e a obesidade, e alguns hábitos relacionados com os estilos de vida, como a alimentação
rica em calorias e gorduras saturadas, o colesterol, o sal, e o consumo de bebidas alcoólicas
(Pandey et al., 2006). A todos estes fatores deve ser dada uma especial atenção, de modo a
adotar medidas preventivas que potenciem a redução da probabilidade de desenvolver uma
DCV ao longo da vida (Ministério da Saúde - Portugal, 2002).
Depois de todos estes aspetos abordados, é consensual que o sedentarismo é um problema
grave que atualmente afeta a população mundial, além de todos os problemas de saúde
inerentes à mesma, os gastos que os países possuem no tratar as doenças que surgem
devido à inatividade física são colossais. Exemplo disto, na Inglaterra, estima-se que a
inatividade física custe cerca de 8,2 bilhões de libras por ano (9,37 bilhões de euros), onde
este valor não inclui a contribuição da inatividade para a obesidade, em que o orçamento anual
é cerca de 2,5 bilhões de libras (2,86 bilhões de euros) (Department of Health, Physical
Activity, Health Improvement and Prevention, 2004). Perante tais fatores, é sugestivo afirmar
que a prática de atividade física possui benefícios económicos, porque irá reduzir os custos
dos tratamentos dessas mesmas doenças, além de acarretar benefícios físicos e psicológicos
para o indivíduo (Direção Geral de Saúde, 2007). Fica patente a ideia que investir na prática
de atividade física não será dinheiro desperdiçado, porque desta forma, reduzir-se-á o dinheiro
gasto a tratar os problemas associados à inatividade física.
4
Visto isto, um estilo de vida que contemple a prática de atividade física regular, possivelmente
irá contribui para um melhor funcionamento dos vários sistemas corporais, assim como reduzir
o risco de contrair várias doenças degenerativas, além de melhorar a qualidade de vida das
pessoas (Bouchard et al., 1994). Perante estes factos, tentar detetar precocemente a presença
de fatores de risco nas crianças e jovens deverá ser uma prioridade, para que seja possível
planear e a implementar programas preventivos direcionados à redução da probabilidade de
manifestação de DCV na idade adulta. O presente estudo irá centrar-se a este nível, pois tem
como objetivo verificar se os jovens possuem já algum fator de risco, com especial atenção à
hipertensão arterial. De todos os fatores de risco das DCV, procurou-se focalizar, sobretudo, a
hipertensão arterial, pois indivíduos hipertensos têm um risco aumentado para sofrer de DCV
no futuro, como a arteriosclerose, os acidentes vasculares cerebrais, o enfarte agudo do
miocárdio, a doença renal, entre outras (U. S. Department of Health and Human Services,
2003; Salgado & Carvalhaes, 2003; Corrêa et al., 2005), sendo estas algumas das principais
causas de morbilidade e/ou mortalidade prematura em Portugal e nos restantes países
industrializados (Gaspar, 2010). Oliveira (2011), refere que a hipertensão é reconhecida como
um dos principais fatores de risco das DCV. Aliado a isto, Guilbert (2003) estima que o número
de pessoas com hipertensão no mundo é de cerca de 1 bilhão, e o número de mortes por ano
devido à hipertensão é de 7,1 milhões de pessoas. Em Portugal, segundo um estudo realizado
por Fiuza et al., (2008), a prevalência da hipertensão arterial, após ajustamento ao sexo e
idade foi de 43,5% para homens, e de 43,25% para as mulheres. Os fatores que podem estar
associados à elevação da pressão arterial (PA) são o sedentarismo, o stress, o tabagismo, o
envelhecimento, o histórico familiar, a raça, o género, o peso e os fatores dietéticos (Molina et
al., 2003). Embora a idade e os fatores genéticos possuam alguma importância na prevalência
da hipertensão, existem fatores de risco que são influenciados por modificações nos estilos de
vida (Rique et al., 2002), sendo a estes fatores de risco que o estudo dará mais relevância.
Depois desta breve reflexão sobre a realidade atual dos níveis de atividade física e as suas
consequências para a saúde, nomeadamente a sua influência no aparecimento de DCV,
formulou-se o seguinte objetivo para o estudo: Estudar a influência que os níveis de aptidão
física e de composição corporal possuem nos níveis de PA em jovens entre os 12 e os 18
anos de idade. Neste sentido, e com base no objetivo delineado, formularam-se as seguintes
hipóteses para o estudo:
H01 – Não existe uma associação significativa entre os níveis de aptidão muscular, e os valores
de PA (pressão arterial sistólica [PAS] e pressão arterial diastólica [PAD]), em jovens com
diferentes idades escolares (12-13; 14-16; 17-18 anos).
5
H02 – Não existe uma associação significativa entre os níveis de aptidão aeróbia, e os valores
de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13; 14-16; 17-18 anos).
H03 – Não existe uma associação significativa entre os valores do índice de massa corporal
(IMC), e os valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13;
14-16; 17-18 anos).
H04 – Não existe uma associação significativa entre os valores do perímetro de cintura (PC),
e os valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13; 14-16;
17-18 anos).
H05 – Não existe uma associação significativa entre os valores da percentagem de massa
gorda (%MG), e os valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares
(12-13; 14-16; 17-18 anos).
H06 – Não existe uma relação significativa entre a variação dos níveis de aptidão muscular, e a
variação dos valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13;
14-16; 17-18 anos).
H07 – Não existe uma relação significativa entre a variação dos níveis de aptidão aeróbia, e a
variação dos valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13;
14-16; 17-18 anos).
H08 – Não existe uma relação significativa entre a variação dos valores do IMC, e a variação
dos valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13; 14-16; 1718 anos).
H09 – Não existe uma relação significativa entre a variação dos valores do PC, e a variação
dos valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13; 14-16; 1718 anos).
H10 – Não existe uma relação significativa entre a variação dos valores da %MG, e a variação
dos valores de PA (PAS e PAD), em jovens com diferentes idades escolares (12-13; 14-16; 1718 anos).
6
1.1 - Pressupostos e limitações
Uma das limitações para a recolha dos dados antropométricos foi a utilização de
equipamentos portáteis e não invasivos, que não sendo instrumentos “Goldens”, permitiram
uma avaliação da composição corporal relativamente rápida e eficaz. Os investigadores foram
devidamente treinados para a recolha dos dados, em que o mesmo investigador recolheu os
dados a todos os indivíduos numa escola, e outro investigador recolheu os dados na outra
escola. Como existiu apenas um momento de avaliação, não foi possível determinar o Erro
Técnico de Medição intra-avaliador, pois segundo Perini et al., (2005), para fazer o cálculo do
Erro Técnico de Medição intra-avaliador, têm de ser considerados os resultados das medidas
das dobras cutâneas feitas em 20 sujeitos, num primeiro e num segundo dia de avaliação. Em
contrapartida, os instrumentos de medição foram devidamente calibrados sob a coordenação
do laboratório de aptidão física, exercício e saúde da Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro. A avaliação da antropometria não foi possível ser efetuada em jejum, pois a avaliação
dos jovens foi realizada nas respetivas escolas e condicionada pelos horários escolares. No
entanto, foi respeitado um período de jejum mínimo de 3 horas.
Relativamente aos testes de aptidão física, os mesmos foram efetuados de acordo com o
protocolo de testes do FITNESSGRAM®, utilizando o material sugerido pelo respetivo
manual1. Igualmente à recolha dos dados antropométricos, o investigador foi devidamente
treinado. Os testes escolhidos no FITNESSGRAM® foram os recomendados no manual1, para
salvaguardar a solicitação motora dos vários grupos musculares do corpo humano.
Todos os sujeitos incluídos na amostra não praticavam atividade física mais do que 2 vezes
por semana. No entanto, esta seleção foi efetuada apenas com uma pergunta verbal aos
indivíduos, não tendo sido utilizado nenhum tipo de questionário para caracterizar os níveis de
atividade física habitual dos jovens.
1
The Cooper Institute for Aerobics Research (2007).
7
2. Revisão Bibliográfica
2. Revisão bibliográfica
2.1 - Atividade física, Aptidão física e Exercício físico
A relação existente entre atividade física e aptidão física está amplamente estudada, sendo
que elevados níveis de atividade física estão associados a bons níveis de aptidão física
(Haskell et al., 1985; Malina, 2001; Astrand, 1992). A atividade física, a aptidão física e a
saúde relacionam-se entre si de uma forma positiva, pois, indivíduos fisicamente ativos
apresentam melhores níveis de aptidão e saúde que os seus pares menos ativos (Malina,
2001; Shephard & Bouchard, 1994). Um bom nível de atividade e aptidão física está
normalmente associado à saúde, mas uma melhoria no nível de aptidão física não é um
sinónimo exato de uma superior resistência às doenças ou às suas consequências (Haskell et
al., 1985). Segundo a WHO (1946), saúde é definida como um completo estado de bem-estar
físico, mental e social e não meramente a ausência de doença ou efemeridade. A saúde deve
ser mantida e promovida desde a infância e adolescência, evitando comportamentos de risco,
de modo a diminuir a probabilidade de morbilidade e/ou mortalidade precoce (Glaner, 2003).
A atividade física tem sido cada vez mais indicada para a promoção da saúde e melhoria da
qualidade de vida nas crianças e jovens (Bortoni & Bojikian, 2007). Segundo Caspersen et al.,
(1985), a atividade física é definida por qualquer movimento corporal produzido pela contração
dos músculos esqueléticos, implicando um gasto energético acima dos níveis de repouso. A
ausência de atividade física impede a manutenção de bons níveis de aptidão física (Maia,
1996), constituindo assim riscos para a saúde (Heyward, 1991), pois o sedentarismo é um
importante fator de risco para diversos problemas de saúde, onde as DCV apresentam uma
particular relevância (Bij et al., 2002). O Center for Disease Control and Prevention e o
American College of Sports Medicine recomendam para todas as pessoas adultas, 30 minutos
(podem ser acumulados) ou mais de atividade física de intensidade moderada na maioria dos
dias da semana, de preferência todos (Pate et al., 1995). Recentemente, o American College
of Sports Medicine e a American Heart Association, recomendam ainda, para a manutenção da
saúde, que todos os adultos com idade entre os 18 e 65 anos devem praticar atividade física
aeróbia de intensidade moderada, pelo menos 30 minutos em cinco dias da semana, ou
atividade física aeróbia de intensidade vigorosa, pelo menos 20 minutos em 3 dias da semana
(Haskell et al., 2007).
De acordo com Simons-Morton et al., (1988), a atividade física apropriada para crianças é
aquela que proporciona um movimento dinâmico dos grandes grupos musculares por períodos
de 20 minutos ou mais, 3 ou mais vezes por semana, numa intensidade que estimule os
batimentos cardíacos a 140 batimentos por minuto, ou mais. Segundo a WHO (2010), a
atividade física ideal para crianças e jovens entre os 5 e os 17 anos de idade deve incluir
9
brincadeiras, jogos lúdicos e de recreação, exercícios planeados, entre outros, no contexto
escola, família e atividades comunitárias, com o objetivo de melhorar a aptidão cardiorespiratória e muscular, a saúde óssea e reduzir os sintomas de ansiedade e depressão.
Enquanto a atividade física engloba qualquer movimento corporal produzido voluntariamente
pelos músculos esqueléticos que resultem num dispêndio de energia acima dos níveis de
repouso, a aptidão física expressa a capacidade funcional do corpo humano para a realização
de esforços físicos associados à prática de atividade física (Caspersen et al., 1985). Segundo
Pate (1983), a aptidão física pode ser definida como o estado caracterizado pela capacidade
de executar atividades diárias com vigor, e a demonstração de traços e capacidades
associadas com o baixo risco de desenvolvimento prematuro de doenças hipocinéticas. De
acordo com Böhme (2003), a aptidão física refere-se à capacidade do indivíduo apresentar um
adequado desempenho físico nas atividades diárias, que lhe permita retardar o aparecimento
do cansaço durante a realização das mesmas. O mesmo autor considera ainda que a aptidão
física é um produto resultante da atividade física que deve ser desenvolvida e/ou conservada
durante todas as fases da vida, de modo a proporcionar-lhe um desempenho físico adequado
nas suas atividades diárias.
De acordo com Guedes et al., (2002), as componentes da aptidão física dividem-se em dois
principais grupos: a aptidão física relacionada com a saúde; e a aptidão física relacionada com
o desempenho atlético. No quadro 1, são apresentadas as componentes da aptidão física
agrupadas de acordo com a sua especificidade.
Quadro 1: Componentes da aptidão Física (Caspersen et al., 1985).
Resistência cardiorespiratória
Resistência muscular
Saúde
Força muscular
Composição corporal
Flexibilidade
Aptidão Física
Agilidade
Equilíbrio
Desempenho atlético
Coordenação
Velocidade
Força
Tempo de reação
10
Relativamente ao campo da saúde, as componentes da aptidão física albergam os atributos
biológicos que possam oferecer algum tipo de proteção ao aparecimento e desenvolvimento
de problemas de saúde, devido ao comprometimento da condição funcional. Já as
componentes relacionadas com o desempenho atlético, apenas incluem os atributos
exclusivos à prática mais eficiente dos variados desportos.
Ainda dentro da atividade física, existe o conceito de exercício físico, que diz respeito a um tipo
específico de atividade física, que deverá envolver regularidade e planeamento, com
frequência, duração e intensidade previamente definidas, sempre com o objetivo de melhorar
uma ou mais componentes da aptidão física, e/ou melhorar a capacidade de desempenhar as
tarefas diárias com sucesso (Caspersen et al., 1985). O exercício físico quando realizado
regularmente, provoca importantes adaptações no sistema cardiovascular (Rondon & Brum,
2003).
2.2 - Avaliação da aptidão física
A infância e a adolescência são dois períodos extremamente importantes, pois a eles estão
associados períodos críticos de solicitação motora, onde o organismo está especialmente
sensível à influência de fatores ambientais e comportamentais, que poderão influenciar o
futuro do comportamento motor dos mesmos (Guedes & Guedes, 2005). Perante isto, é de
extrema importância o acompanhamento dos índices de desempenho motor das crianças e
jovens, além da importância comprovada de que o acompanhamento motor das crianças e
jovens pode contribuir de forma decisiva para promover a prática de atividade física no
presente e para toda a vida (Guedes & Guedes, 2005). De acordo com Coelho et al., (2003),
as crianças e jovens devem conseguir autonomamente interpretar os seus níveis de aptidão
física e atividade física, de modo a se envolverem ativamente na definição de objetivos
individuais e planeamento de atividades, para que estes atos perdurem na vida adulta.
Como parece ser do senso comum, é impossível obter uma visão global do desempenho
motor de um individuo recorrendo apenas à administração de um único teste motor. Para
contornar este problema, normalmente recorre-se à utilização de baterias de testes motores
que reúnem diversos testes, em que cada um destes dá informações acerca de uma
capacidade motora em particular, que no seu conjunto dará uma informação global do
desempenho motor (Guedes & Guedes, 2005). Existe também a preocupação na aplicação
dos testes, que o desgaste funcional de um teste influencie o menos possível os testes
seguintes (Guedes & Guedes, 2005). Para bateria de testes, Guedes & Guedes (2005)
sugerem que o número ideal que deve compor a mesma é de três a quatro testes, quando
estes envolvem a componente de aptidão física relacionada à saúde.
11
De todas as baterias de testes referenciadas na literatura, e direcionadas à aptidão física
relacionada à saúde, as que obtém mais aceitação são: a Physical Best, desenvolvida pela
American Alliance for Health, Physical Education, Recreation and Dance; a National Children
and Youth Fitness Study, idealizada pelo U. S. Department of Health and Human Services; e a
FITNESSGRAM®, concebida pelo The Cooper Institute for Aerobics Research (Guedes &
Guedes, 2005). Um protocolo de cooperação feito entre a Faculdade de Motricidade Humana,
em Lisboa, e o The Cooper Institute for Aerobics Research, legitimou a bateria de testes
FITNESSGRAM® para a população portuguesa, sendo esta uma das mais adequadas para
mensurar os níveis de aptidão física dos jovens portugueses.
2.3 - Benefícios da atividade física e o seu contributo para a redução das DCV
A prática de atividade física regular e o incentivo à adoção de um estilo de vida saudável são
importantes desde a infância (Gaspar, 2004). Ao contrário do que parece ser uma abordagem
típica, a atividade física necessária para proporcionar uma redução dos riscos de contrair DCV
não tem que ser uma atividade física vigorosa. A atividade física pode e deve ser adequada às
condições específicas do indivíduo (ao seu nível de aptidão física), sem nunca desprezar
fatores importantíssimos como a idade e os seus antecedentes de saúde (Gaspar, 2004). Num
estudo realizado por Debusk et al., (1990), onde compararam um grupo que realizava
atividades moderadas durante trinta minutos diários, e outro grupo que praticava três sessões
diárias de dez minutos da mesma atividade, com intervalos de pelo menos quatro horas,
permitiu constatar que tanto o grupo da atividade contínua como o da atividade disjunta
apresentou melhorias significativas no consumo máximo de oxigénio. A partir deste estudo,
conclui-se que os benefícios da atividade física também podem ser adquiridos através de
atividades acumuladas, recorrendo apenas a intensidades moderadas. Perante isto, é urgente
nos dias de hoje transmitir a informação aos jovens, no sentido da possibilidade de alcançarem
melhorias nos níveis de aptidão física sem a necessidade de praticar atividade física vigorosa
ou moderada contínua, que muitas vezes é desagradável e desmotivadora para alguns jovens.
Basta alterar hábitos diários como subir escadas em alternativa ao uso do elevador, ou andar
curtas distâncias a pé em alternativa ao uso do automóvel (Gaspar, 2004). Para os indivíduos
que se sintam bem e prefiram atividades mais formais e vigorosas, como nadar, andar de
bicicleta, jogar futebol, entre outras, devem ser incentivados a praticá-las (Gaspar, 2004).
Atualmente, é cada vez mais reconhecido pela população a importância da prática da atividade
física regular, tendo em conta os seus benefícios para a saúde em geral. Nunca a saúde foi
tão associada à atividade física como nos dias de hoje (Costa, 1997). Com o avançar da idade,
existe uma tendência de declínio do gasto energético devido à diminuição da atividade física.
12
Este facto deve-se ao aumento dos compromissos profissionais, à disponibilidade da
tecnologia e à progressiva redução dos espaços livres nos centros urbanos que reduzem as
oportunidades de lazer, favorecendo assim atividades sedentárias, tais como ver televisão,
jogar consola e a utilização dos computadores (Lazzoli et al., 1998). A prática de atividade
física é então um aspeto importante a ter em conta para a aquisição e/ou manutenção de um
estilo de vida saudável (Ribeiro, 2010). O corpo humano, em consequência da atividade física
regular, passa por alterações morfológicas e funcionais, evitando ou adiando assim o
surgimento de determinadas doenças, e melhorando também a capacidade para o esforço
físico (Instituto do Desporto de Portugal, 2009). Segundo o Department of Health and Children
(2000), a atividade física regular reduz os riscos de contrair alguns problemas de saúde em
todas as faixas etárias, incluindo até pessoas com deficiência. Os benefícios da prática de
atividade física regular são imensos, encontrando-se bem documentados na literatura, e
podem ser revistos no quadro 2.
Quadro 2: Benefícios para a saúde da prática de atividade física (U.S. Department of Health and
Human Services, 2008).
Benefícios para a saúde da prática de atividade física
Crianças e jovens
Adultos, idosos e pessoas com deficiência
Forte evidência:
Forte evidência:
Melhoria da resistência cardio-respiratória
Melhor aptidão cardiorrespiratória e muscular;
e da aptidão muscular;
Perda de peso – quando combinado com uma
Manutenção de uma composição corporal
dieta equilibrada;
favorável;
Menor risco de contrair: acidente vascular
Melhoria da saúde óssea;
cerebral, doença cardíaca coronária, hipertensão,
Melhor saúde cardiovascular e
perfil lipídico adverso, diabetes tipo 2, síndrome
metabólica.
metabólica, cancro do cólon e da mama;
Prevenção de quedas;
Evidência moderada:
Redução dos níveis de depressão;
Reduz os sintomas de ansiedade e
Melhor função cognitiva em adultos mais velhos.
depressão.
Evidência moderada:
Menor risco de fartura pélvica;
Aumento da densidade óssea;
Melhor qualidade do sono;
Menor risco de cancro do pulmão.
13
Na idade adulta, um estilo de vida ativo está claramente associado a uma redução da
incidência de várias doenças crônico-degenerativas (Lazzoli et al., 1998). Relativamente às
crianças e jovens, um bom nível de atividade física contribui para melhorar o perfil lipídico e
metabólico, e reduzir a prevalência de obesidade, que nos dias de hoje é sem dúvida uma
doença que afeta abundantemente esta faixa etária (Lazzoli et al., 1998; Moreira, 2006;
Papandreou et al., 2008). Além destes benefícios que a atividade física proporciona nas
crianças e jovens, outro, não menos importante, é o facto comprovado de que a prática de
atividade física regular na infância e na adolescência possui uma transferência para a vida
adulta, reduzindo assim a prevalência do sedentarismo com o avançar da idade, contribuindo
desta forma para uma melhor qualidade de vida futura (Lazzoli et al., 1998). Por esta razão, a
escola deverá ser um local prioritário para a implementação da prática regular de atividade
física, de modo a promover benefícios futuros na qualidade de vida de uma população
(Ribeiro, 2010). Gordon-Larsen et al., (2000), num estudo realizado com adolescestes entre os
11 e os 21 anos de idade, verificaram uma associação positiva entre as aulas de Educação
Física e os padrões de aptidão física dos jovens, particularmente quando realizadas com
regularidade durante a semana. Os mesmos autores salientam ainda que provavelmente estas
aulas de Educação Física representam a única oportunidade de alguns jovens poderem
praticar atividade física estruturada. Em Portugal, a carga horária de atividade física que a
escola oferece às crianças e jovens não é suficiente, de acordo com o recomendado pela
literatura, logo os jovens portugueses que apenas praticam atividade física na escola (nas
aulas de Educação Física), possivelmente não serão jovens ativos. Este é um problema que
deveria ser revisto pelas altas instâncias do país, de modo a proporcionar aos jovens mais
oportunidades para praticar exercício físico.
As DCV, como o próprio nome indica, são doenças que afetam o sistema circulatório do corpo
humano, nomeadamente o coração e os vasos sanguíneos. Este tipo de doenças tem vindo a
aumentar drasticamente, constituindo-se nos dias de hoje como a principal causa de morte ou
incapacidade em todo o mundo. A comprovar esta afirmação, a WHO (2002) afirma que as
DCV são a principal causa de morte nos países desenvolvidos, sendo estas responsáveis por
cerca de um terço das mortes anuais em todo o mundo e, provavelmente, estarão num futuro
próximo também presentes nos países em vias de desenvolvimento (Ribeiro, 2010). Na
Europa, as DCV representam mais de 4,35 milhões de mortes por ano (49% de todas as
mortes), sendo que 55% das mortes ocorrem em mulheres e 43% nos homens (Petersen,
2005). Na população Portuguesa, 34,1% da mortalidade é devida às DCV (Direção Geral de
Saúde, 2007). As DCV que mais se manifestam são o acidente vascular cerebral, o enfarte
agudo do miocárdio e a embolia pulmonar (Gaspar, 2010), sendo estas as principais causas
de morbilidade e mortalidade prematura no nosso país. As principais componentes das DCV
são a aterosclerose e a trombose (Gaspar, 2010).
14
A evolução natural das DCV pode ser evitada ou alterada, quando se identifica e controla os
fatores de risco das mesmas. O aumento da ocorrência das DCV no último século, alertou a
comunidade científica para uma busca incessante pelos fatores de risco que provavelmente
auxiliam no seu desenvolvimento (Chor et al., 1999). A etiologia das DCV é bastante
complexa, mas muitas vezes tem origem na presença de fatores de risco inerentes ao próprio
indivíduo, ou à própria comunidade onde se encontra inserido (Raínho, 2011). Segundo o
mesmo autor, as DCV estão associadas a estilos de vida não saudáveis, mas que são
modificáveis, logo, o controlo dos fatores de risco é fundamental para reduzir as
consequências das DCV, que podem causar morbilidade precoce, ou até causar a morte
prematura. De acordo com Py & Jacques (1998), os fatores de risco podem ser definidos como
parâmetros ambientais, circunstanciais, constitucionais ou genéticos que quando identificados
indicam uma maior suscetibilidade do indivíduo em desenvolver uma DCV. Pyörälä et al.,
(1994) apresentou uma classificação dos fatores de risco, que ainda hoje se mantém válida e
útil na compreensão do risco cardiovascular. Os autores dividem os fatores de risco em dois
principais grupos: os modificáveis, que são aqueles que numa perspetiva de prevenção,
podem ser corrigidos/evitados; e os fatores de risco não modificáveis, que não são passíveis
de intervenção (ver quadro 3).
Quadro 3: Fatores de risco das DCV (Pyörälä et al., 1994).
Fatores de risco das DCV
Modificáveis
Não modificáveis
Tabagismo;
Dislipidemias;
Hipertensão;
História pessoal e familiar de DCV;
Diabetes mellitus;
Idade;
Obesidade;
Sexo.
Fatores dietéticos;
Fatores trombogénicos;
Sedentarismo;
Consumo excessivo de álcool.
Embora os fatores não modificáveis possam influenciar no desenvolvimento das DCV, os
fatores de risco modificáveis possuem um grande peso num possível desenvolvimento das
DCV, devendo estes fatores serem controlados através de modificações nos estilos de vida
(Rique et al., 2002). Muitos autores defendem que as DCV têm o seu período de incubação
durante a infância e adolescência, logo a prevenção deve ser iniciada nestas idades (Hollmann
& Hettinger, 1983; Ross & Pate, 1987; Organización Mundial de la Salud, 1990). Assim, a
15
prevenção das DCV nos jovens deverá ser um alvo prioritário, pois a adolescência é uma fase
particularmente importante, onde ocorrem mudanças físicas e psicossociais de uma forma
acelerada, que facilitam o desenvolvimento de vários fatores de risco (Ramos, 2010). Além do
mais, a adolescência é uma fase da vida onde podem ser adquiridos comportamentos
desviantes, que poderão permanecer inalterados ao longo da vida (Ramos, 2010). A
prevenção iniciada prematuramente deverá ser preferida comparativamente à prevenção em
circunstâncias em que as alterações patológicas irreversíveis já se tenham estabelecido
(Ribeiro, 2010). É do senso comum que a prevenção das DCV deve evitar comportamentos de
risco, estando alerta perante o aparecimento dos fatores de risco que estão devidamente
identificados na literatura. Relativamente à alimentação, Krauss et al., (2000) afirmam que o
consumo de vegetais, frutas e grãos integrais ajudam na prevenção e controlo das DCV. Estes
mesmos autores recomendam também para a prevenção das DCV, a manutenção de um peso
saudável, assim como a prática de atividade física regular, e o consumo prudente de gorduras
e alimentos altamente calóricos. A prática regular de atividade física é reconhecida como um
fator importante para a aquisição de um estilo de vida saudável, e consequentemente, tem
sido associada a um aumento da expectativa de vida, diminuindo também a possibilidade de
aquisição de fatores de risco das DCV (Twisk et al, 2001).
2.4 - Pressão arterial e a sua evolução até à Hipertensão
A pressão sanguínea refere-se à pressão exercida pelo sangue contra a superfície interna dos
vasos sanguíneos, ou seja, é a força que move o sangue através do sistema circulatório (Rego
& Mota, 1999). A PA indica a pressão existente no interior das artérias, isto é, é a força que o
sangue transmite às paredes das artérias durante a sua passagem, após ser bombeado pelo
coração (Lolio, 1990). A PA varia entre um valor máximo durante a sístole que corresponde à
PAS, e um valor mínimo na diástole, que diz respeito à PAD (Lolio, 1990).
A hipertensão arterial representa um dos mais significativos fatores de risco para as DCV,
sendo este um agente etiológico de acidentes vasculares cerebrais, doenças vasculares
periféricas, insuficiência cardíaca e insuficiência renal (Kaplan et al., 2003). Segundo Polónia
et al., (1996), a hipertensão é caracterizada por valores altos de PA, devido normalmente à
diminuição das propriedades elásticas das artérias e arteríolas, que aumentam as resistências
vasculares periféricas devido à vasoconstrição excessiva, oferecendo assim maior resistência
à passagem do sangue. O U.S. Department of Health and Human Services (2003), define a
hipertensão arterial em adultos quando a PAS se encontra num nível igual ou superior a 140
milímetros de mercúrio (mmHg) e/ou quando a PAD for igual ou superior a 90 mmHg, na
16
ausência de medicação anti-hipertensiva. No quadro 4, é apresentada a classificação dos
níveis de PA.
Quadro 4: Classificação dos níveis de PA (U.S. Department of health and human services, 2003).
Categoria
PAS (mmHg)
PAD (mmHg)
Ótima
<120
<80
Pré-hipertensão
120-139
80-89
Hipertensão - grau 1
140-159
90-99
Hipertensão - grau 2
≥160
≥100
Segundo Zanchetti et al., (2003), a hipertensão manifesta-se através de 3 formas: hipertensão
sistólica isolada, hipertensão predominantemente diastólica, e hipertensão combinada,
sistólica e diastólica.
De acordo com Guilbert (2003), o número estimado de pessoas hipertensas em todo o mundo
é de 1 bilhão, atribuindo-se à hipertensão 7,1 milhões de mortes por ano. A hipertensão é sem
dúvida um dos fatores de maior risco das DCV (Oliveira, 2011), e a doença crónica que
apresenta maior prevalência no mundo (Salgado & Carvalhaes, 2003). Nos Estados Unidos,
segundo um estudo realizado por Burt et al., (1995), estima-se que 24% da população não
institucionalizada seja hipertensa. Em Portugal, num estudo realizado por Fiuza et al., (2008),
a prevalência da hipertensão arterial, após ajustamento ao sexo e idade foi de 43,5% para
homens, e de 43,25% para as mulheres.
Em crianças e jovens, a PA é consideravelmente mais baixa do que nos adultos, e durante as
duas primeiras décadas de vida aumenta progressivamente perante um padrão de
normalidade (Saavedra, 2005). Devido a esta circunstância, a definição de hipertensão não é
tão homogénea como nos adultos, e baseia-se em estudos feitos com indivíduos de ambos os
sexos, que permitiram elaborar tabelas onde estão combinados os percentis de altura e idade,
com os valores de corte da PA (U.S. Department of health and human services, 2005). É
atribuído o padrão de normalidade a quem estiver abaixo do percentil 90, pré-hipertensão aos
que estão compreendidos entre os percentis 90-94, e hipertensão aos que apresentam valores
acima do percentil 95 (U.S. Department of health and human services, 2005). A préhipertensão é entendida como um aumento ligeiro da PA, que por si só parece ter pouca
importância, mas que em conjunto com outros fatores de risco provoca um aumento
significativo do risco cardiovascular (Perdigão, 2010). A PA nos jovens está intimamente
relacionada com crescimento somático, onde estão incluídas a altura, a maturação esquelética
e a maturação sexual (Gerber & Stern, 1999; Lever & Harrap, 1992). Um único registo de PA
alta não deve constituir um diagnóstico de hipertensão, ou seja, um paciente só deve ser
17
classificado como hipertenso quando obtiver registos contínuos em 3 ou mais consultas que
revelem uma PAS e/ou PAD acima dos valores de corte acima referidos (Oliveira, 2000).
A hipertensão arterial é uma doença crónico-degenerativa do sistema cardiovascular, e o seu
controlo constitui um desafio para os profissionais de saúde devido por vezes à sua
inexplicável causa (Cade, 2001). Segundo Luna & Castro (1999), existem dois tipos de
hipertensão arterial: a hipertensão primária, que não apresenta uma causa precisa para a sua
manifestação, e a hipertensão secundária que apresenta uma causa concreta para a sua
exteriorização. A hipertensão primária é então de origem desconhecida, no entanto, fatores
ambientais como uma dieta desequilibrada, o stress, o tabagismo e a inatividade física,
conciliados com uma predisposição hereditária parecem ser as razões principais para esta
efemeridade (Luna & Castro, 1999; Oliveira, 2000). Este tipo de hipertensão compreende 90 a
95% de todos os casos diagnosticados, podendo ser controlada através do uso de medicação
anti-hipertensiva, juntamente com uma dieta equilibrada, estilos de vida saudáveis e a
realização de atividade física regular. Estas alterações nos estilos de vida, normalmente
permitem uma redução da PA e minimizam as complicações nos órgãos do aparelho
circulatório (Cade, 2001; McArdle et al., 1996). A hipertensão secundária é menos frequente
que a hipertensão primária, e é resultante de desordens estruturais e endócrinas, como a
obesidade, o hipertireoidismo, doenças renais, e devido à toma de alguns tipos de
medicamentos (Luna & Castro, 1999).
Em comparação com os adultos, a hipertensão arterial tem uma prevalência relativamente
baixa em crianças e jovens (Magalhães et al., 2002), pois esta normalmente surge entre os 30
e os 50 anos de idade, progredindo assintomática e lentamente sem lesões nos órgãos alvo
durante 10 a 20 anos (McArdle et al., 1996). No entanto, a hipertensão primária no adulto pode
ter a sua origem na infância, e, perante isto, devem ser adotadas estratégias preventivas nesta
faixa etária, de modo a identificar e controlar os diversos fatores de risco cardiovascular
associados à hipertensão arterial (Magalhães et al., 2002; Monego & Jardim, 2006).
São variados os fatores de risco que podem desencadear o desenvolvimento da hipertensão
arterial nos jovens. O peso e o IMC são reconhecidos como os maiores agentes para a
elevação dos níveis de PA, principalmente a partir dos 6 anos de idade, onde a PAS isolada
apresenta uma importante relevância (Sinaiko, 1996; Brandão et al., 1989; Brandão et al.,
1996; Brandão et al., 2000). Brandão et al., (1996) comprovaram que a presença de sobrepeso
está associada à manutenção de um percentil elevado de PA, e que o seu desaparecimento
determinava uma redução da PA. Este é um aspeto bastante importante a ter em conta, devido
aos elevadíssimos graus de sobrepeso e obesidade que se observam hoje em dia a nível
mundial. A comprovar estar afirmação, a International Obesity Task Force (2010) afirma que
na união Europeia, aproximadamente 60% dos adultos e mais de 20% das crianças em idade
18
escolar são obesas ou possuem sobrepeso. Em Portugal, a prevalência de sobrepeso situa-se
entre os 13% e os 30%, e a obesidade varia entre o 4% e os 14% (Ramos, 2005; Rito, 2006).
A ingestão de sal também tem sido um fator amplamente estudado, pois existem inúmeras
evidências que demonstram uma íntima associação entre o consumo de sal e o aumento da
PA em vários grupos populacionais (Bartosh & Aronson, 1999; Grobbee et al., 1990). No
entanto, um estudo de Berenson et al., (1989), demonstrou que as crianças que ingeriam mais
sal, também eram as crianças que ingeriam mais calorias, tomando-se assim difícil separar os
efeitos de todos os nutrientes ingeridos sobre a PA. A atividade física também apresenta uma
íntima relação com os níveis de PA, tanto em adultos como em crianças (Magalhães et al.,
2002). De acordo com Lieberman (1994), crianças com baixos níveis de aptidão física
apresentam maiores níveis de PA, tanto em repouso como durante o esforço físico. Por fim,
fatores psicossociais como o stress podem influenciar de forma positiva a PA, pois foram
encontrados níveis superiores de PA em populações urbanas quando comparadas às rurais
(Magalhães et al., 2002). Depois de todos estes aspetos analisados, é facilmente percetível
que se deve ter em atenção os fatores citados desde as idades mais jovens, de modo a reduzir
a probabilidade de na idade adulta vir a sofrer de hipertensão, e consequentemente de DCV.
A infância e a adolescência são, então, uma fase fulcral para a aquisição de estilos de vida
saudáveis, entre os quais se destacam a prática do exercício físico, uma alimentação saudável
e o não consumo de tabaco (Perdigão, 2010). Vários estudos têm mostrado que estilos de vida
sedentários e níveis baixos de aptidão física estão associados de forma significativa com o
desenvolvimento de hipertensão (Blair et al., 1984; Berlin & Colditz, 1990; Carnethon et al.,
2005; Singh et al., 2006). Visto isto, a prática de exercício físico é sem dúvida uma efetiva
opção não farmacológica para a redução do risco cardiovascular e da PA (Whelton et al.,
2002). Um estudo realizado por Mora et al., (2007), que teve como amostra 27055 mulheres
saudáveis, comprovou que o risco de contrair DCV diminuiu linearmente com os níveis mais
altos de atividade física, sendo que os biomarcadores inflamatórios / hemostáticos e a PA
foram os fatores de risco que mais contribuíram para esta descida. Estes autores estimaram
que as alterações da PA associadas à atividade física contribuíram em 27,1% para a redução
do risco de ocorrência de eventos cardiovasculares. Segundo Wallace (2003), a prescrição de
exercício aconselhada para o tratamento da hipertensão deve focar, particularmente, a
componente cardiovascular, entre 20-60 minutos, 3 a 5 dias por semana, com intensidade de
40 a 70% do volume máximo de oxigénio. Em suma, é imprescindível nos dias de hoje uma
maior sensibilização para a deteção e controlo da hipertensão em grupos etários mais jovens.
A monitorização da PA em idades precoces, assim como o controlo de outros fatores de risco,
é essencial para predizer com fiabilidade a evolução para hipertensão na idade adulta. O
objetivo final será sempre reduzir os riscos de contrair uma DCV.
19
3. Metodologia
3. Metodologia
3.1 - Amostra
A amostra deste estudo foi constituída por 91 jovens caucasianos (12-18 anos), dos quais 49
pertencem ao sexo Masculino e 42 correspondem ao sexo Feminino. A amostra foi agrupada
de acordo com o quadro 5.
Quadro 5: Constituição da amostra.
Masculino
Amostra
Grupo I
Feminino
TOTAL
N
Média Idade ± DP
N
Média Idade ± DP
N
Média Idade ± DP
23
12,78 ± 0,42
16
12,69 ± 0,48
39
12,74 ± 0,44
12
14,83 ± 0,72
13
15,00 ± 0,82
25
14,92 ± 0,76
14
17,71 ± 0,47
13
17,85 ± 0,38
27
17,78 ± 0,42
(12-13 anos)
Grupo II
(14-16 anos)
Grupo III
(17-18 anos)
Todos os elementos da amostra não apresentavam desordens músculo e/ou esqueléticas que
pudessem condicionar a sua participação nos testes de aptidão física ou que pudessem ser
agravadas com a sua concretização. O recrutamento da amostra foi realizado em duas escolas
do norte de Portugal. Para efeitos de seleção, nenhum elemento da amostra era praticante de
desporto federado, nem praticava atividade física planeada e supervisionada mais de duas
vezes por semana. Previamente, foi efetuado um pedido à direção das Escolas, solicitando a
autorização para a recolha dos dados e utilização das respetivas instalações. Foi também
obtido um consentimento informado e assinado dos encarregados de educação, através do
envio de uma autorização, onde estava registado o objetivo do estudo e as avaliações de
medida a realizar. Em todos os dados recolhidos foi mantida e respeitada a sua
confidencialidade, onde apenas a equipa de investigação teve acesso aos mesmos. Uma vez
que a recolha dos dados foi realizada em contexto escolar, a mesma foi efetuada numa hora
livre, para que os intervenientes não faltassem às suas aulas.
21
3.2 - Desenho do estudo
O modelo de pesquisa deste estudo é do tipo transversal, sendo que as avaliações efetuadas
foram realizadas por dois técnicos especializados, um em cada escola. O recrutamento da
amostra foi efetuado durante as aulas de educação física, com o consentimento dos
professores de cada turma. Nesta fase, o investigador selecionou os indivíduos para efeitos de
amostra, e marcou com eles uma hora livre para as avaliações, respeitando, pelo menos três
horas de jejum. Esta recolha ocorreu ao longo do segundo período de aulas. No dia da
recolha, efetuou-se uma breve explicação de como se iria proceder à recolha dos dados. Após
o período introdutório, iniciou-se a recolha dos dados com a medição da PA a cada elemento
da amostra. De seguida, procedeu-se à avaliação antropométrica, que incluiu a apreciação do
peso, da estatura, do PC, e da %MG. Posteriormente, e após uma estimulação ativa do
sistema músculo-esquelético (aquecimento) de cerca de 5 minutos, procedeu-se à aplicação
dos testes de aptidão muscular (Abdominais [ABD], Extensões de Braços [EXB], Senta e
Alcança [SA] e Flexibilidade de Ombros [FLO]). Por fim, procedeu-se à avaliação da aptidão
aeróbia, através do teste do Vaivém (VV).
3.3 - Avaliação da Pressão Arterial
A avaliação da PA foi efetuada com os indivíduos sentados corretamente numa cadeira, e
após 5 minutos de repouso. Nesta medição utilizou-se um esfigmomanômetro portátil Omron®,
modelo 705IT. A braçadeira foi colocada no braço direito, livre de roupas e sem garroteamento
com roupas apertadas noutros locais do corpo. As medições da PA foram sempre realizadas
pelo mesmo investigador, em cada escola, respeitando as normas e procedimentos da
American Heart Association (Pickering et al., 2005) e da European Society of Hipertension
(O'Brien et al., 2003). A cada indivíduo foram realizadas três aferições da PA, com intervalo
mínimo de cinco minutos entre elas, estando o avaliado sempre em repouso. Após realização
das três aferições, calculou-se a média aritmética das mesmas, e o valor encontrado foi
analisado na tabela de valores de PA, de modo a encontrar o respetivo percentil de cada
aluno. Os valores de corte da PA são definidos segundo o U.S. Department of Health and
Human Services (2005), referidos anteriormente na revisão bibliográfica (pág. 17).
22
3.4 - Avaliação da Composição Corporal
O peso foi mensurado em roupa interior e descalço, com uma balança digital portátil Toshiba®.
A altura foi medida recorrendo a um estadiómetro portátil graduado em milímetros, sendo a
medição realizada com o indivíduo em posição antropométrica e sem calçado. A leitura do
resultado foi feita após uma inspiração profunda, com aproximação a 0,1 centímetros (cm),
depois de a haste superior do estadiómetro estar colocada sobre o topo da cabeça (Heyward &
Stolarzcky, 1996). Recorrendo a estas duas variáveis, foi determinado o IMC através da
seguinte fórmula:
IMC = Peso (quilogramas) / Altura 2 (metros)
Os valores de corte propostos por Cole et al., (2000) para o IMC são os apresentados no
quadro 6.
Quadro 6: Valores de corte do IMC (Cole et al., 2000).
Valores de Corte (cm)
Idade (anos)
Sobrepeso
Obesidade
Feminino
Masculino
Feminino
Masculino
12
21,7
21,2
26,7
26,0
13
22,6
21,9
27,8
26,8
14
23,3
22,6
28,6
27,6
15
23,9
23,3
29,1
28,3
16
24,4
23,9
29,4
28,9
17
24,7
24,5
29,7
29,4
18
25
25
30
30
O PC foi apreciado com uma fita antropométrica em milímetros, tendo sido cumpridos os
procedimentos definidos por Callaway et al., (1988). A medição foi efetuada na zona de menor
perímetro entre a grelha costal e as cristas ilíacas, tendo sido efetuadas pelo menos duas
medições, com uma tolerância de 1 cm entre elas.
23
Os valores de corte usados para o PC foram os propostos por Taylor et al., (2000), que são
apresentados no quadro 7.
Quadro 7: Valores de corte para o PC (Taylor et al., 2000).
Idade (anos)
Valores de Corte (cm)
Feminino
Masculino
12
73,8
74,7
13
75,6
76,9
14
77,0
79,0
15
78,3
81,1
16
79,1
83,1
17
79,8
84,9
18
80,1
86,7
A %MG foi obtida utilizando a equação desenvolvida e validada por Slaughter et al., (1988),
sendo esta a equação utilizada na bateria de teste do FITNESSGRAM®. A equação é
apresentada de seguida, e utiliza a prega tricipital (T) e a prega geminal (GML).
%MG = 0.735 (T + GML) + 1.0
Esta equação tende a sobrestimar a densidade corporal com um erro total de 0.0112 g/cc, ou
5.4% de massa gorda nos rapazes (Francisco, 2009).
A medição das pregas foi efetuada com um adipómetro Slimguide®. Para a T, os indivíduos
mantiveram-se em posição antropométrica. Na GML, os indivíduos sentaram-se em cima de
uma mesa, de modo a manterem as pernas pendentes. Foram efetuadas duas medições para
cada prega (no mínimo), com aproximação a 1mm, e considerado um limite de tolerância de
1mm (Harrison et al., 1988).
Para a medição das pregas adiposas, foram traçadas duas linhas perpendiculares, uma
definindo o eixo maior da prega, e outra, a profundidade a que seria colocado o adipómetro.
Recorrendo aos dedos polegar e indicador esquerdo, a prega foi elevada cerca de 1 cm
proximal do ponto antropométrico, estando os mesmos distanciados entre si cerca de 8 cm
(Harrison et al., 1988). Depois de elevada a prega, o adipómetro foi colocado sobre o ponto
antropométrico, perpendicularmente ao eixo maior da prega a cerca de 1 cm de profundidade.
(Harrison et al., 1988). O valor obtido foi depois anotado na ficha de registo.
24
As pregas mensuradas foram as seguintes:
Geminal:
A direção da prega é vertical, sendo o ponto de referência a zona de maior perímetro, na parte
média e interna da perna direita.
Tricipital:
O ponto de referência é a meia distância entre o acrómio da omoplata e a apófise olecraneana
do cúbito. A direção da prega é vertical, e foi medida na parte média e posterior do braço
direito.
Os valores ótimos recomendados para a %MG são os apresentados no quadro 8:
Quadro 8: Valores ótimos para a %MG (The Cooper Institute for Aerobics Research, 2007).
Idade (anos)
Valores Ótimos (%)
Feminino
Masculino
12
16,9 – 24,5
16,0 – 22,0
13
17,5 – 24,5
16,6 – 23,0
14
17,5 – 25,0
17,5 – 24,5
15
17,5 – 25,0
18,1 – 25,0
16
17,5 – 25,0
18,5 – 26,5
17
17,5 – 25,0
18,8 – 27,0
18
17,5 – 26,0
19,0 – 27,8
3.5 - Avaliação da Aptidão Física
Na avaliação da aptidão aeróbia foi utilizado o Teste do VV, instrumento do FITNESSGRAM®.
Neste teste, foram cumpridos com rigor todos os procedimentos descritos no respetivo manual
(The Cooper Institute for Aerobics Research, 2007). Previamente, o investigador explicou
detalhadamente todos os procedimentos do teste aos intervenientes, passando depois à
aplicação do teste a cada 8 indivíduos. O Teste do VV terminava quando o executante
concretizava os 21 patamares de esforço, ou falhava dois sinais sonoros, não
necessariamente consecutivos. Por fim, anotou-se na ficha de registo o nível que cada
indivíduo atingiu, sendo este posteriormente convertido em número de percursos efetuados.
25
Os valores de corte recomendados para o Teste do VV são os apresentados no quadro 9:
Quadro 9: Valores de corte para o Teste do VV (The Cooper Institute for Aerobics Research, 2007).
Idade (anos)
Valores de corte (percursos)
Raparigas
Rapazes
12
23
32
13
23
41
14
23
41
15
23
51
16
32
61
17
41
61
18
41
61
Na bateria de teste do FITNESSGRAM®, os testes de força, resistência muscular e
flexibilidade foram combinados numa única categoria de aptidão física, uma vez que a principal
componente em avaliação é o estado funcional do sistema músculo-esquelético (The Cooper
Institute for Aerobics Research, 2007). Para cada item referido, foi aplicado um dos testes
recomendados. Previamente, todos estes testes foram explicados e exemplificados aos
elementos da amostra. A amostra executou 2 vezes cada teste antes de cada avaliação, com
o intuito de verificar se os mesmos estavam a ser corretamente executados. Foi também
efetuada uma breve estimulação ativa (aquecimento) de 5 minutos, onde se recorreu a uma
corrida lenta e à mobilização geral de todas as articulações.
Para a força e resistência muscular, o teste adotado foi o Teste de ABD. Neste teste, o
executante realizou o maior número de ABD até ao máximo de 75 repetições, a uma cadência
específica definida por uma música reproduzida num leitor de CD`s. Os elementos da amostra
efetuaram esta prova em decúbito dorsal sobre um colchão, e uma faixa de medida com 75 cm
x 11,5 cm. Com as pernas ligeiramente fletidas e afastadas, os pés sempre em contacto com o
colchão e os braços ao longo do tronco, realizaram flexão anterior do tronco, de forma
contínua e ritmada, deslizando os dedos desde a extremidade proximal até à extremidade
distal da faixa medida. Por fim, registou-se o número de execuções efetuadas.
O teste adotado para a avaliação da força e resistência muscular na região superior do corpo
foi o Teste da EXB. Este teste consiste na execução do maior número possível de EXB, a uma
cadência definida por uma música reproduzida num leitor de CD`s. Para um desempenho
correto do teste, o executante assume inicialmente uma posição de decúbito ventral,
colocando as mãos por debaixo dos ombros, dedos estendidos, membros inferiores em
extensão, ligeiramente afastados e apoiando-se nas pontas dos pés. O executante elevava-se
apenas com a força dos braços até os estender, mantendo sempre as costas e as pernas
alinhadas, ou seja, o corpo formava sempre uma linha reta da cabeça até aos pés. Em
26
seguida, o executante fletia os membros superiores até os cotovelos formarem um ângulo de
90º, com os braços paralelos ao solo. Este movimento foi repetido tantas vezes quantas
possíveis, até à segunda execução incorreta, momento este que coincidiu com o final do teste.
No final registou-se o número total de extensões corretamente executadas.
Para a avaliação da flexibilidade, foi aplicado um teste para avaliar a flexibilidade na região
inferior do corpo (músculos posteriores da coxa), e outro para avaliar a flexibilidade da região
superior do corpo (cintura escapular), estimando assim a flexibilidade em duas regiões
distintas do corpo.
Relativamente à avaliação da flexibilidade dos músculos posteriores da coxa, o teste utilizado
foi o SA. Este teste consiste na tarefa de alcançar a distância especificada na zona saudável
de flexibilidade para ambos os lados do corpo. Recorreu-se a uma caixa com cerca de 30 cm
de altura, sobre a qual se colocou uma fita métrica, de modo a ficar a marca dos 22,5 cm na
extremidade distal da caixa, e a extremidade “0” da fita ficar mais proximal do executante. Para
a correta realização do teste, o executante deve estar descalço e sentado junto à caixa, com
uma perna em completa extensão (a planta do pé está em contacto com a exterminada da
caixa), e a outra perna fletida, (a planta do pé está assente no solo, a uma distância de
aproximadamente 5 a 8 cm do joelho da perna que está em extensão). Os braços deverão
estar estendidos para a frente e colocados sobre a fita métrica, com uma mão sobre a outra.
Com as palmas da mão voltadas para baixo, o executante tem de fletir o corpo para a frente 4
vezes intervaladamente, mantendo as mãos sobre a fita métrica pelo menos 1 segundo, de
modo a verificar a distância atingida. É permitido neste teste o movimento do joelho fletido
para o lado devido ao movimento do tronco para a frente. Depois de medir um dos lados, o
executante troca a perna fletida, e repete o mesmo processo. Por fim, apenas foi registado o
melhor resultado obtido de ambos os lados.
Para avaliar a flexibilidade da região superior do corpo, o teste adotado foi o Teste da FLO.
Este é um teste bastante simples, onde o executante tem de tocar as pontas dos dedos de
ambas as mãos por trás das costas. Para avaliar a flexibilidade do ombro direito, o executante
deve alcançar o meio das costas com a mão direita, por cima do ombro direito.
Simultaneamente, a mão esquerda deve ser colocada por trás das costas, tentando alcançar
os dedos da mão direita. Para avaliar o ombro esqueço, o processo é o inverso. Na aferição
dos resultados, foi medida a distância a que as mãos ficaram uma da outra no caso de não
conseguir tocar. Para os indivíduos que conseguiram tocar, foi medida a distância de
sobreposição das mãos. O valor de corte é o valor “0”, ou seja, foi atribuída uma distância
negativa a quem não conseguiu tocar, e uma distância positiva a quem conseguiu tocar. Todos
os executantes que obtiveram valores negativos são considerados inaptos neste teste.
27
Os valores de corte indicados para a aptidão muscular são os apresentados no quadro 10:
Quadro 10: Valores de corte da aptidão muscular (The Cooper Institute for Aerobics Research, 2007).
Valores de corte - Aptidão muscular
Idade
(anos)
ABD (execuções)
EXB (execuções)
SA (cm)
Raparigas
Rapazes
Raparigas
Rapazes
Raparigas
Rapazes
12
18
18
7
10
25,5
20
13
18
21
7
12
25,5
20
14
18
24
7
14
25,5
20
15
18
24
7
16
30,5
20
16
18
24
7
18
30,5
20
17
18
24
7
18
30,5
20
18
18
24
7
18
30,5
20
3.6 - Análise estatística
A análise estatística dos dados foi realizada informaticamente, utilizando o programa SPSS®
17.0, e o software de cálculo Microsoft Excel 2007 para a representação gráfica.
Inicialmente efetuou-se um estudo exploratório da amostra, onde se testou a normalidade da
amostra, e caracterizou-se as variáveis em relação aos valores médios e desvio padrão, para
cada grupo. Para cada variável, foi também apresentado o gráfico de dispersão, e um gráfico
com a percentagem de sujeitos aptos e inaptos.
Depois de devidamente categorizadas, foi aplicado a cada grupo os testes estatísticos do QuiQuadrado de Pearson (X2), de modo a testar a independência ou associação existente entre
os testes de aptidão física e composição corporal, com a PAS e PAD.
De seguida, foi aplicada uma regressão linear múltipla (RLM) a cada grupo, de modo a
analisar o efeito que cada teste de aptidão física e que cada variável da composição corporal
possui na PAS e na PAD.
Nesta análise foram consideradas como variáveis dependentes a PAS e a PAD. As variáveis
independentes foram os testes de aptidão física (VV, FLO, SA, ABD e EXB), e as
componentes da composição corporal (IMC, PC e %MG).
Considerou-se um grau de significância de 5%, sendo este o valor de referência normalmente
utilizado nas Ciências Socias para testar hipóteses.
28
4. Resultados
4. Resultados
Neste capítulo, apresentam-se os resultados obtidos através da aplicação da metodologia
anteriormente descrita. No quadro 11, é apresentado o registo dos valores médios e o desvio
padrão, por grupo, de todas as variáveis em estudo.
Quadro 11: Análise descritiva da amostra.
Variáveis
VV
(Percursos)
SA
(cm)
FLO
(cm)
ABD
(repetições)
EXB
(repetições)
PAS
(mmHg)
PAD
(mmHg)
IMC
(Kg/m2)
PC
(cm)
%MG
(%)
Grupo I (12-13 anos)
Média ± DP
Grupo II (14-16 anos)
Média ± DP
Grupo III (17-18 anos)
Média ± DP
33,5 ± 14,8
36,4 ± 14,3
41,4 ± 17,5
21,3 ± 6,8
18,5 ± 5,6
21,5 ± 4,6
9,7 ± 4,6
6,9 ± 7,1
7,7 ± 5,7
34,3 ± 12,0
33,7 ± 18,8
27,0 ± 11,3
12,0 ± 9,7
9,9 ± 7,5
10,5 ± 6,9
123,5 ± 12,8
125,4 ± 8,0
129,7 ± 7,6
69,8 ± 11,6
72,5 ± 9,8
71,6 ± 8,4
20,4 ± 2,4
22,3 ± 3,4
23,0 ± 3,1
73,2 ± 8,9
77,7 ± 8,0
81,3 ± 10,0
18,1 ± 5,3
18,0 ± 6,2
18,6 ± 4,3
Relativamente aos valores médios dos testes de aptidão física apresentados no quadro 11,
verifica-se, com a exceção dos testes do VV e do SA, um melhor desempenho dos indivíduos
mais novos. Quanto aos valores médios de PA e da composição corporal, verifica-se que o
grupo III possui os valores mais elevados, à exceção da PAD.
30
Para uma análise mais aprofundada de cada variável, em seguida são apresentadas figuras
ilustrativas de cada variável estudada. É exposto nas figuras, a distribuição dos valores
médios, o número e a percentagem de sujeitos inaptos e aptos por grupo.
Aptidão Física
A distribuição dos valores do teste VV, na figura 1, verifica-se entre 20 e 45 percursos para o
grupo I, entre 25 e 45 percursos para o grupo II e entre 30 e 50 percursos para o grupo III. A
percentagem de indivíduos inaptos é superior nos grupos II e III, sendo esta diferença mais
expressiva no grupo III.
Percursos
Inaptos
Aptos
81,5
59
56
41
16 23
44
22
14 11
N
%
N
Grupo 1
%
5
N
Grupo 2
18,5
%
Grupo 3
Figura 1: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste do VV; e à direita, a relação entre
aptos e inaptos em cada grupo.
Na figura 2, verifica-se uma distribuição dos valores do teste SA entre 15 e 27 cm no grupo I,
entre 15 e 22 cm no grupo II, e entre 17 e 25 cm no grupo III. A percentagem de inaptos é
superior em todos os grupos, sendo mais expressiva nos grupos II e III.
cm
Inaptos
Aptos
80
74,1
51,3
48,8
20 19
N
20
20
25,9
20
7
5
%
Grupo 1
N
%
Grupo 2
N
%
Grupo 3
Figura 2: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste SA; e à direita, a relação entre aptos e
inaptos em cada grupo.
31
Na figura 3, e relativamente à FLO, a percentagem de indivíduos inaptos é reduzida, ou seja,
quase todos os indivíduos atingiram o patamar recomendado neste teste.
cm
Inaptos
Aptos
100
85,2
84
39
21
0
4
0
N
%
N
Grupo 1
23
16
4
%
N
Grupo 2
14,8
%
Grupo 3
Figura 3: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste da FLO; e à direita, a relação entre
aptos e inaptos em cada grupo.
Quanto à distribuição dos valores do teste de ABD observada na figura 4, registou-se valores
entre 25 e 40 repetições no grupo I, entre 20 e 45 repetições no grupo II e entre 20 e 30
repetições no grupo III. A percentagem de aptos é claramente superior em todos os grupos.
Repetições
Inaptos
Aptos
89,7
77,8
72
35
10,3
4
N
%
Grupo 1
7
18
N
28
21
22,2
6
%
Grupo 2
N
%
Grupo 3
Figura 4: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste de ABD; e à direita, a relação entre
aptos e inaptos em cada grupo.
32
Na figura 5, registou-se uma distribuição de valores no teste de EXB entre 5 e 20 repetições no
grupo I, entre 4 e 15 repetições no grupo II e entre 5 e 15 repetições no grupo III. Ainda no
grupo I, aproximadamente 46% da amostra está apta, enquanto no grupo II e III a
percentagem de aptos é mais reduzida, sendo 40% e 41% respetivamente.
Repetições
Inaptos
60
53,8
46,2
21 18
%
40,7
16
10
N
Grupo 1
59,3
40
15
N
Aptos
%
11
N
Grupo 2
%
Grupo 3
Figura 5: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos no teste de EXB; e à direita, a relação entre
aptos e inaptos em cada grupo.
Pressão Arterial
Na figura 6, os valores da PAS estão entre 115 e 135 mmHg para o grupo I, entre 120 e 130
mmHg para o grupo II e entre 125 e 135 mmHg para grupo III. A percentagem de indivíduos
hipertensos é elevada nos grupos I e II, igualando a percentagem de sujeitos com padrão de
normalidade. No grupo III, a percentagem de indivíduos pré-hipertensos é a mais elevada do
grupo.
mmHg
Normal
Pré-hipertensão
41 41
16 16
7
18
N
%
44,4
37
36 36
28
18,6
1012
9 7 9
Grupo 1
Hipertensão
N
%
Grupo 2
N
5
%
Grupo 3
Figura 6: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos da PAS; e à direita, a relação entre PAS
normal, pré-hipertensão e hipertensão em cada grupo.
33
Contrariamente aos valores registados na PAS, verifica-se na figura 7 que a percentagem de
indivíduos com padrão de normalidade na PAD é claramente superior em todos os grupos. No
grupo I, apenas 3% apresentam pré-hipertensão e 15% apresentam hipertensão. No que
concerne ao grupo II, 4% apresentam pré-hipertensão e 16% apresentam hipertensão. Já no
grupo III, 15% apresentam pré-hipertensão, não havendo casos de hipertensão.
mmHg
Normal
Pré-hipertensão
82
32
Hipertensão
85,2
80
16
15,4 20
2,6
14
4
N
%
%
N
Grupo 1
16
23
14,8
0
40
N
Grupo 2
%
Grupo 3
Figura 7: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos da PAD; e à direita, a relação entre PAD
normal, pré-hipertensão e hipertensão em cada grupo.
Composição Corporal
Na figura 8, pode-se constatar que a distribuição dos valores de IMC, está entre 18 e 22 Kg/m2
no grupo I, entre 20 e 25 Kg/m2 no grupo II e entre 21 e 23 Kg/m2 para o grupo III. A
percentagem de indivíduos normais é claramente superior em todos os grupos.
Especificamente, no grupo I, 26% apresentam sobrepeso e nenhum apresenta obesidade. No
grupo II, 28% apresentam sobrepeso e 4% apresentam obesidade. Já no grupo III, 19%
apresentam sobrepeso e 4% apresentam obesidade.
2
Kg/m
Normal
Sobrepeso
74,4
29
10
N
0
%
Grupo 1
77,8
68
25,6
0
Obesidade
17
28
71
N
21
4
%
Grupo 2
51
N
18,5
3,7
%
Grupo 3
Figura 8: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos do IMC; e à direita, a relação entre IMC normal,
sobrepeso e obesidade em cada grupo.
34
Na figura 9, pode-se verificar que a distribuição dos valores do PC se situam entre 65 e 80 cm
para o grupo I, entre 70 e 80 cm para o grupo II e entre 75 e 85 cm para o grupo III,
apresentando uma tendência para aumentar com a idade. A percentagem de indivíduos aptos
é sempre superior, no entanto, nos grupos I e III a diferença é mais reduzida.
cm
Inapto
Apto
68
53,8
46,2
51,9
48,1
32
18 21
8
N
%
17
13 14
N
Grupo 1
%
N
Grupo 2
%
Grupo 3
Figura 9: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos do PC; e à direita, a relação entre aptos e
inaptos em cada grupo.
Pode-se aferir na figura 10 que a distribuição dos valores da %MG encontra-se entre 13 e 22
% no grupo I, entre 12 e 20 % para o grupo II e entre 16 e 20 % no grupo III. A percentagem
de indivíduos saudáveis é superior em todos os grupos. Relativamente à percentagem de
excesso de gordura, esta é mais relevante nos grupos I e II, sendo respetivamente 12,8% e
16% dos casos.
%
Magreza
Saudável
71,8
28
6
5
N
15,4 12,8
%
Ex. Gordura
77,8
68
17
4
4
N
Grupo 1
16 16
%
Grupo 2
21
5
18,5
3,7
1
N
%
Grupo 3
Figura 10: À esquerda, a distribuição dos valores obtidos na %MG; e à direita, a relação entre
indivíduos magros, saudáveis e com excesso de gordura em cada grupo.
35
No Quadro 12, apresentam-se os resultados do teste do X2 para a PAS, com as variáveis da
aptidão física e da composição corporal.
Quadro 12: Teste do X2 para a PAS, com as variáveis da aptidão física e da composição corporal.
Grupo I
Variável
2
Grupo II
2
X de pearson
Grupo III
Sig.
2
X de pearson
Sig.
X de pearson
Sig.
VV
,547
,832
,90
,875
,822
,814
SA
,367
,916
,198
1,000
2,960
,275
FLO
------
------
3,505
,286
10,228
,012*
ABD
,490
1,000
,277
1,000
2,604
,279
EXB
2,426
,326
1,455
,596
1,319
,461
IMC
1,490
,555
14,026
,001**
9,334
,036*
PC
,163
1,000
7,785
,025*
3,101
,286
%MG
5,441
,258
3,852
,508
3,317
,640
* p<0,05; **p<0,01
Após a leitura do quadro 12, foram identificadas nos grupos II e III associações significativas.
Relativamente ao grupo II, as variáveis que possuem uma associação significativa são o IMC e
o PC, logo, o IMC e PC da amostra estão associados à PAS. No grupo III, as variáveis que
possuem uma associação significativa são o IMC e a FLO, logo, o IMC e a FLO da amostra
estão associados à PAS.
Para as restantes variáveis, o valor de significância é superior ao valor de referência de 5%,
pelo que não se rejeita a hipótese nula, ou seja, não existe uma relação entre os restantes
testes de aptidão física, nem os restantes parâmetros da composição corporal, com a PAS.
Os resultados estatisticamente significativos são ilustrados seguidamente em tabelas de
contingência.
No quadro 13, é apresentada a relação existente entre a PAS e o IMC no grupo II.
Quadro 13: Relação entre a PAS e o IMC no grupo II.
PAS
Normal
Pré-hipertensão
Hipertensão
Normal
N
% na categoria
N
% na categoria
N
% na categoria
9
52,9%
6
35,3%
2
11,8%
IMC
Sobrepeso
0
,0%
1
14,3%
6
85,7%
Obesidade
0
,0%
0
,0%
1
100,0%
36
Para melhor interpretação dos resultados apresentados no quadro 13, apresenta-se a figura 11
com a relação entre a PAS e o IMC no grupo II.
Figura 11: Relação entre a PAS e o IMC no grupo II.
No quadro 13 e na figura 11, a percentagem de sobrepeso e obesidade no grupo II é superior
para os que apresentam hipertensão, surgindo ainda uma pequena percentagem com
sobrepeso para os que apresentam pré-hipertensão, sendo as diferenças identificadas,
estatisticamente significativas.
No quadro 14, é apresentada a relação existente entre a PAS e o PC no grupo II.
Quadro 14: Relação entre a PAS e o PC no grupo II.
PC
PAS
Normal
Pré-hipertensão
Hipertensão
N
% na categoria
N
% na categoria
N
% na categoria
Inaptos
1
12,5%
1
12,5%
6
75,0%
Aptos
8
47,1%
6
35,3%
3
17,6%
De modo a melhorar a interpretação dos resultados apresentados no quadro 14, apresenta-se
a figura 12 com a relação entre a PAS e o PC no grupo II.
Figura 12: Relação entre a PAS e o PC no grupo II.
37
No quadro 14 e na figura 12, a percentagem de sujeitos aptos no grupo II é superior para os
que apresentam PAS normal e inferior para os que apresentam hipertensão, sendo as
diferenças identificadas, estatisticamente significativas.
No quadro 15, é apresentada a relação existente entre a PAS e a FLO no grupo III.
Quadro 15: Relação entre a PAS e a FLO no grupo III.
FLO
PAS
Inaptos
Normal
Pré-hipertensão
Hipertensão
N
% na categoria
N
% na categoria
N
% na categoria
Aptos
0
,0%
1
25,0%
3
75,0%
10
43,5%
11
47,8%
2
8,7%
Para melhor interpretação dos resultados apresentados no quadro 15, apresenta-se a figura 13
com a relação entre a PAS e a FLO no grupo III.
Figura 13: Relação entre a PAS e a FLO no grupo III.
No quadro 15 e na figura 13, a percentagem de indivíduos aptos no grupo III é superior para os
que apresentam PAS normal e inferior para os que apresentam hipertensão, sendo as
diferenças identificadas, estatisticamente significativas.
No quadro 16, é apresentada a relação existente entre a PAS e IMC no grupo III.
Quadro 16: Relação entre a PAS e o IMC no grupo III.
PAS
Normal
Pré-hipertensão
Hipertensão
Normal
N
% na categoria
N
% na categoria
N
% na categoria
10
47,6%
9
42,9%
2
9,5%
IMC
Sobrepeso
0
,0%
2
40,0%
3
60,0%
Obesidade
0
,0%
1
100,0%
0
,0%
38
Para melhor interpretação dos resultados apresentados no quadro 16, apresenta-se a figura 14
com a relação entre a PAS e IMC no grupo III.
Figura 14: Relação entre a PAS e o IMC no grupo III.
No quadro 16 e na figura 14, identifica-se uma percentagem de sobrepeso no grupo III superior
para os que apresentam hipertensão, surgindo ainda uma percentagem com sobrepeso e
obesidade para os que apresentam pré-hipertensão, sendo as diferenças identificadas,
estatisticamente significativas.
No Quadro 17, apresentam-se os resultados do teste do X2 para a PAD, e as variáveis da
aptidão física e composição corporal.
Quadro 17: Teste do X2 para a PAD, e as variáveis da aptidão física e composição corporal.
Grupo I
Variável
2
X de pearson
Grupo II
Sig.
2
X de pearson
Grupo III
Sig.
2
X de pearson
Sig.
VV
1,802
,489
1,664
,613
1,067
,561
SA
,975
1,000
,313
1,000
1,643
,318
FLO
------
------
4,167
,259
,817
,596
ABD
,409
1,000
4,167
,196
,021
1,000
EXB
1,947
,387
1,250
,772
,482
,624
IMC
,702
,748
8,193
,098
,285
1,000
PC
1,444
,663
2,252
,496
1,008
,596
,494
1,000
5,257
,376
,285
1,000
%MG
Para a variável PAD, não existem associações significativas com nenhum dos testes de
aptidão física e da composição corporal, logo, os resultados dos testes de aptidão física e da
composição corporal são independentes da PAD.
39
De seguida são apresentadas as análises de RLM com o método Backward Stepwise, de
modo a testar a quantidade de variância que cada variável explica na equação de regressão
(Pestana & Gageiro, 2005). Pretende-se com esta análise verificar a relação existente entre a
PAS e PAD, e os testes de aptidão física e as variáveis da composição corporal. Os seguintes
resultados serão expostos por grupo, e apenas serão apresentados os resultados que
indiquem a existência de variáveis significantes para o modelo.
Grupo I
Neste grupo, todas as variáveis do modelo foram excluídas, pois apresentavam um valor de
significância superior a 5%, logo, as variáveis não são significativas para a explicação das
variáveis dependentes (PAS e PAD). Perante esta análise, não existem variáveis dos testes de
aptidão física, e da composição corporal, significativas para explicar a PAS e a PAD, assim
como, também não foi possível calcular o valor do coeficiente de determinação.
Grupo II
No quadro 18, são apresentados os resultados significativos obtidos após a aplicação do
modelo de RLM para o grupo II.
Quadro 18: RLM para PAS e PAD no grupo II.
Variáveis
EXB
IMC
PC
PAS
bi
-----1,265
------
T
-----3,049
-----2
r = 0,288
PAD
Sig.
-----,006**
------
bi
-,428
3,368
-1,498
t
-2,084
3,786
-3,832
Sig.
,050*
,001**
,001**
2
r = 0,549
* p<0,05; **p<0,01
Relativamente à PAS, o coeficiente de determinação indica que 28,8% da variação que ocorre
na PAS é explicada pelas variáveis incluídas no modelo. Após a análise do quadro 18, verificase que a variação do IMC é significativa para a explicação da PAS, ou seja, a variação de uma
unidade no IMC provoca um aumento médio de aproximadamente de 1,3 mmHg na PAS,
mantendo-se as restantes variáveis constantes.
No que concerne à PAD, o coeficiente de determinação indica que 54,9% da variação que
ocorre na PAD é explicada pelas variáveis incluídas no modelo. Após a análise do quadro 18,
40
verifica-se que o teste de EXB, o IMC e o PC são significantes para o modelo, contribuindo
para a explicação da PAD. As variáveis incluídas no modelo indicam que:

A variação de uma unidade no IMC provoca um aumento médio da PAD de
aproximadamente 3,4 mmHg, mantendo-se as restantes variáveis constantes;

A variação de uma unidade no Teste de EXB provoca uma diminuição média da PAD
de aproximadamente 0,43 mmHg, mantendo-se as restantes variáveis constantes;

A variação de uma unidade no PC provoca uma diminuição média da PAD de
aproximadamente 1,5 mmHg, mantendo-se as restantes variáveis constantes.
Grupo III
No quadro 19, são apresentados os resultados significativos obtidos após a aplicação do
modelo de RLM para o grupo III.
Quadro 19: RLM para PAS e PAD no grupo III.
Variáveis
ABD
IMC
PAS
bi
,253
1,493
t
2,096
3,380
r2=0,336
PAD
Sig.
* ,047
** ,002
bi
-----1,288
t
-----2,379
Sig.
-----* ,026
r2 = 0,216
*p<0,05; **p<0,01.
No que diz respeito à PAS, o coeficiente de determinação indica que 33,6% da variação que
ocorre na PAS é explicada pelas variáveis incluídas no modelo. Após a análise do quadro 19,
verifica-se que a variação do teste de ABD e do IMC são significativos para o modelo,
contribuindo para a explicação da PAS. Os resultados sugerem que a variação de uma
unidade no teste de ABD, provoca um aumento médio de aproximadamente 0,3 mmHg na
PAS, e que a variação de uma unidade no IMC provoca um aumento médio de
aproximadamente 1,5 mmHg na PAS, mantendo-se as restantes variáveis constantes.
Quanto à PAD, o coeficiente de determinação indica que 21,6% da variação que ocorre na
PAD é explicada pelas variáveis incluídas no modelo. Após a análise do quadro 19, verifica-se
apenas o IMC é significante para o modelo, contribuindo para a explicação da PAD. Os
resultados sugerem que a variação de uma unidade no IMC provoca um aumento médio de
aproximadamente 1,3 mmHg na PAD, mantendo-se as restantes variáveis constantes.
41
5. Discussão dos Resultados
5. Discussão dos resultados
O propósito do presente estudo foi analisar o efeito de níveis de aptidão física em jovens, com
prática de atividade física semanal inferior a duas vezes por semana, nos níveis de PA. Foi
também avaliada a associação dos níveis de composição corporal com os níveis de PA da
amostra. Neste estudo, procura-se identificar se os níveis baixos de atividade física da
amostra, assim como um perfil antropométrico menos favorável, estão relacionados com níveis
mais elevados de PA nos jovens.
Com base nos resultados obtidos na análise descritiva da amostra, verificou-se de uma forma
evidente, que uma reduzida prática de atividade física semanal propicia níveis baixos de
aptidão física, uma vez que a percentagem de indivíduos inaptos nos testes do VV, do SA e da
EXB foram claramente superiores em todos os grupos, sendo mais evidentes nos grupos II e
III. Estes resultados vão de encontro à hipótese defendida por Maia (1996), onde este refere
que a ausência de atividade física impede a manutenção de bons níveis de aptidão física.
Pollock et al., (1995) referem que a prática regular de atividade física aumenta a capacidade
funcional e melhora os níveis de aptidão física, através da melhoria no consumo de oxigénio,
da resistência, da força muscular, da flexibilidade e de composição corporal favorável. Os
resultados inferiores obtidos nos grupos II e III sugerem que os níveis de aptidão física
diminuem com a idade. Estes resultados vão de encontro ao defendido na literatura disponível
(Matsudo et al., 2000; Comissão Europeia, 2002).
Relativamente à PA, identificou-se em todos os grupos a existência de uma percentagem
elevada de indivíduos com níveis de PAS superiores ao desejável, uma vez que a
percentagem de indivíduos com PAS normal nunca foi superior às restantes. Mais ainda, se
agregar os indivíduos pré-hipertensos com os indivíduos hipertensos a percentagem é
claramente superior relativamente aos indivíduos com PAS normal. Estes resultados vão de
encontro ao defendido por Lieberman (1994), quando refere que baixos níveis de aptidão física
apresentam maiores níveis de PA. No que concerne à PAD, a percentagem de indivíduos com
padrão de normalidade é claramente superior em todos os grupos. Estes resultados podem ser
explicados devido ao facto de a PAD possuir uma oscilação reduzida em relação à PAS. Outro
fator que pode ter influência nos resultados do presente estudo, pode estar relacionado com os
valores em Baseline da amostra para a PAD. De facto, os valores médios registados na
avaliação da amostra, mostram uma percentagem muito reduzida de hipertensos nos grupos I
e II (15,4% e 16%, respetivamente), e ausência de hipertensos no Grupo III, sugerindo valores
normais e saudáveis para a PAD nesta amostra. Assim sendo, a associação destes resultados
com outras variáveis categorizadas e associadas a outros fatores de risco, pode estar limitada.
43
Quanto à composição corporal, identificou-se um padrão de normalidade superior nas três
variáveis estudadas, e em todos os grupos. Esperava-se nesta componente que o número de
pessoas com padrão de normalidade fosse menor, devido à reduzida prática de atividade física
semanal dos indivíduos. Estes resultados foram obtidos provavelmente devido à idade da
amostra, pois durante a adolescência o crescimento ocorre a um ritmo acelerado, devido ao
elevado metabolismo e crescimento anabólico (Jacobson et al., 1998; Ré, 2011). Os resultados
podem ainda evidenciar que poderá existir um equilíbrio no balanço entre o conteúdo alimentar
e o gasto de energia corporal, o que favorece a manutenção de níveis de composição corporal
normais (Jacobson et al., 1998). Quando os níveis de atividade física são baixos e existe uma
elevada ingestão alimentar em relação ao gasto energético corporal, o padrão associado à
composição corporal costuma ser elevado. A literatura confirma que a falta de atividade física e
os distúrbios alimentares são hoje em dia um dos principais fatores predisponentes para
elevados níveis de composição corporal (Schutz, 1995; Ruiz & Ruiz, 1993).
De forma a permitir uma melhor compreensão e uma discussão mais aprofundada dos
resultados obtidos, apresenta-se de seguida a análise inferencial dos resultados, onde
inicialmente discutir-se-á os resultados do teste do X2, e posteriormente os resultados obtidos
após a aplicação do modelo de RLM. A análise inferencial será realizada com base na
comparação dos testes de aptidão física e das componentes da composição corporal, com os
níveis de PAS e PAD.
No teste do X2, e relativamente à PAS, identificaram-se resultados estatisticamente
significativos apenas no grupo II e III. A ausência de resultados estatisticamente significativos
no grupo I pode dever-se ao facto de ser o grupo mais jovem da amostra, que está
provavelmente menos sujeita à exposição de fatores de risco. Na literatura não foram
encontradas justificações para explicar a ausência de resultados significativos nestas idades.
Quanto ao grupo II, os resultados permitem constatar que existe uma associação significativa
da PAS com o IMC e com o PC. No grupo III, voltou a expressar-se uma associação
significativa da PAS com o IMC, em conjunto desta vez com uma das variáveis da aptidão
física, a FLO. Perante estes resultados, é possível identificar que o IMC está claramente
associado com a PAS, pois obtiveram-se resultados estatisticamente significativos nos grupos
II e III, sendo bastante expressiva a associação no grupo II (p=0,01). Mais ainda, identifica-se
claramente nas tabelas de contingência para os grupos II e III (págs. 36 e 38, respetivamente),
que os indivíduos com padrão de sobrepeso e obesidade são pré-hipertensos ou hipertensos,
não tendo sido encontrado nenhum sujeito com PAS normal que possui-se um padrão de
sobrepeso ou obesidade. A literatura vai de encontro aos resultados obtidos, defendendo que
os elevados níveis de IMC têm forte influência sobre os valores da PA (Guimarães et al., 2008;
44
Silva & Lopes, 2008; Sinaiko, 1996; Brandão et al., 1989; Brandão et al., 1996; Brandão et al.,
2000). Relativamente ao PC no grupo II, registou-se resultados idênticos aos do IMC, onde a
grande percentagem dos sujeitos inaptos são hipertensos, e os indivíduos aptos possuem na
sua maioria uma PAS normal. Estes resultados vão de encontro ao defendido por vários
autores, onde sustentam que o PC elevado está associado a níveis de PA elevados (Niskanen
et al., 2004; Carneiro et al., 2003), e que o PC é um dos mais fortes preditores de risco de
DCV (Daniels et al., 1999). Por fim, e após reconhecida a associação entre a PAS e o teste de
FLO no grupo III, identifica-se na tabela de contingência (pág. 38) que todos os alunos inaptos
possuem pré-hipertensão ou hipertensão. Esta associação, apesar de significativa, parece um
pouco estreita, devido ao elevado número de indivíduos aptos neste teste de aptidão física
(apesar dos baixos níveis de atividade física), e devido à natureza do teste. Não existe na
literatura disponível informação sobre a influência deste teste sobre os níveis de PA. Quanto à
PAD, não foram identificadas quaisquer associações significativas com os testes de aptidão
física e da composição corporal, logo, o nível de aptidão física e de composição corporal é
independente da PAD segundo o teste do X2. Estes resultados podem ser explicados pelo
número elevado de indivíduos com PAD normal, e devido a pouca variação desta variável.
Nesta análise, identificou-se uma superior contribuição das componentes da composição
corporal em detrimento das componentes da aptidão física, para explicar a variação da PA.
No que concerne aos resultados da análise de RLM, e relativamente à PAS, foram
identificados resultados estatisticamente significativos apenas nos grupos II e III, dos quais
alguns resultados vêm aumentar a credibilidade dos resultados obtidos no teste do X2. O grupo
I não obteve novamente resultados significativos, devido provavelmente às mesmas razões
enumeradas anteriormente. A influência do IMC na PAS voltou a expressar-se, pois o IMC
obteve valores significantes nos grupos II e III. No grupo II, identificou-se que apenas o IMC
contribui significativamente para a explicação do modelo para a PAS (r2=0,288), ou seja,
28,8% da variação que ocorre na PAS é explicada pelo IMC. Mais ainda, os resultados
mostram que a variação de uma unidade no IMC provoca um aumento médio na PAS de
aproximadamente 1,3 mmHg. No grupo III, o teste de ABD juntamente com o IMC são
responsáveis por 33,6% da variação que ocorre na PAS. Neste grupo, identificou-se ainda que
a variação de uma unidade no IMC provoca um aumento médio da PAS de aproximadamente
1,5 mmHg, e que a variação de uma unidade no teste de ABD provoca um aumento médio da
PAS de aproximadamente 0,3 mmHg. O aumento dos níveis da PAS faz com que o evento
cardíaco se torna mais provável. O resultado do teste de ABD não vai de encontro ao
esperado, pois o previsto e o defendido na literatura disponível, é que o aumento nos níveis de
aptidão física diminuem os níveis de PA, e não o contrário (Blair et al., 1991; Daley & Spinks
2000; Nied & Franklin, 2002; Mora et al., 2007). Relativamente à PAD, e contrariamente ao
45
teste do X2, foram obtidos resultados significativos nos grupos II e III. No grupo II, identificouse que o IMC, o PC e o teste de EXB obtiveram resultados significativos, sendo responsáveis
por 54,9% da variação que ocorre na PAD. Estes resultados vêm aumentar ainda mais a
credibilidade da relação existente entre o IMC e a PA, pois os resultados sugerem que o
aumento de uma unidade no IMC provoca um aumento médio na PAD de aproximadamente
3,4 mmHg. Este aumento a concretizar-se trará problemas de saúde aos indivíduos, pois irá
aumentar bastante o risco de um evento cardiovascular. No entanto, devido à pouca variação
da PAD e ao número elevados de indivíduos com PAD normal, este resultado parece pecar um
pouco por excesso. Já a variação de uma unidade no teste de EXB e no PC provoca uma
diminuição média na PAD de aproximadamente 0,4 mmHg e 1,5 mmHg, respetivamente. Os
resultados relativos ao PC são contrários aos previstos, visto que seria de esperar que o
aumento do PC provoca-se um aumento dos níveis de PA, como acontece com o IMC, e é
defendido na literatura disponível (Niskanen et al., 2004; Carneiro, Faria, Ribeiro et al., 2003).
Quanto ao grupo III, o IMC foi novamente a única variável que obteve um resultado
significativo, sendo mais um indicador que a variação desta componente da composição
corporal influência a PA dos jovens. Neste caso, o IMC é por si só responsável por 21,6% da
variação que ocorre na PAD. Mais ainda, a variação de uma unidade no IMC provoca um
aumento médio da PAD de aproximadamente 1,3 mmHg. Esta análise, sugere uma grande
influência da composição corporal nos níveis de PA, principalmente do IMC, que obteve
resultados significativos quando relacionado com a PAS e com a PAD, nos grupos II e III. Seria
de esperar uma maior influência das variáveis da aptidão física nos níveis de PA, pois, níveis
baixos de aptidão física estão associados de forma significativa com o desenvolvimento de
hipertensão (Blair et al., 1984; Berlin & Colditz, 1990). No entanto, os resultados
estatisticamente significativos obtidos no teste de ABD e na FLO vêm corroborar a influência
dos níveis de aptidão física nos níveis de PA.
Depois de uma análise mais pormenorizada dos dados obtidos em cada teste aplicado, é
sugestivo afirmar que as componentes da aptidão física não possuem tanta influência nos
níveis de PA como as componentes da composição corporal. Nos grupos II e III, os grupos
onde se identificou resultados estatisticamente significativos, o IMC foi sem dúvida a variável
com maior relevância, ou seja, com base nos resultados obtidos neste estudo, o IMC é o que
mais influência os valores da PA. Esta é uma relação descrita com evidência na literatura.
Segundo Brandão et al., (1996), a presença de sobrepeso e obesidade está associada à
manutenção de um percentil elevado de PA. Este é um fator preocupante para a sociedade
atual, pois os jovens são cada vez mais sedentários. O sedentarismo provoca uma diminuição
dos níveis de aptidão física e elevados níveis de composição corporal. Os jovens que possuam
estas características, vão estar mais susceptíveis a níveis de PA elevados, como prova este
46
estudo. De acordo com McCarthy et al., (2008), 30% das crianças com sobrepeso possuem
níveis elevados de pressão arterial, logo, através da avaliação da composição corporal podem
também ser identificados os jovens com alto risco para virem a sofrer de uma DCV.
Relativamente às componentes da aptidão física, seria de esperar uma maior influência das
mesmas nos níveis de PA, pois, crianças com baixos níveis de aptidão física apresentam
maiores níveis de PA, tanto em repouso como durante o esforço físico (Lieberman, 1994;
Carnethon et al., 2005; Singh et al., 2006). Apesar dos resultados pouco significativos, ficou
também patente neste estudo que os indivíduos inaptos nas diferentes variáveis analisadas,
possuem na sua maioria níveis de PA mais elevados. Estes resultados sugerem que a
ausência de atividade física impede a manutenção de bons níveis de aptidão física (Maia,
1996), constituindo assim riscos para a saúde (Heyward, 1991), ou seja, sujeitos não aptos
nos vários testes de aptidão física estão mais susceptíveis à hipertensão, sendo este um fator
de risco para a saúde, mais propriamente para o desenvolvimento de DCV (Ministério da
Saúde - Portugal, 2002; Oliveira, 2011; Pyörälä et al., 1994; Kaplan et al., 2003). Deve-se
ainda referir que não foi identificada qualquer associação significativa entre os níveis de
aptidão aeróbia e a PA. De acordo com Cooper (1991), o treino aeróbio regular é adequado
para os indivíduos que sofrem de hipertensão, pois indivíduos hipertensos podem diminuir em
aproximadamente 10 mmHg a PAS e PAD em repouso. Perante isto, seria de esperar
resultados significativos entre estas variáveis.
A hipertensão arterial tem uma prevalência relativamente baixa em crianças e jovens
(Magalhães et al., 2002). No entanto, estudos comprovam que a hipertensão primária no
adulto pode ter a sua origem na infância, e, perante isto, devem ser adotadas estratégias
preventivas durante as idades mais jovens, de modo a identificar e a combater os diversos
fatores de risco cardiovascular associados à hipertensão (Magalhães et al., 2002; Monego &
Jardim, 2006). Um jovem que possua níveis baixos de aptidão física ou elevados níveis de
composição corporal, deve ser visto como um caso preocupante a cuidar, de modo a reduzir o
impacto de fatores de risco como a hipertensão, pois esta começa a instalar-se
assintomaticamente no organismo numa idade precoce. A estes indivíduos devem ser
aumentados progressivamente os níveis de atividade física, pois, indivíduos fisicamente ativos
apresentam melhores níveis de aptidão física e saúde que os seus pares menos ativos
(Malina, 2001; Shephard & Bouchard, 1994). Uma única sessão de exercício física semanal é
suficiente para reduzir os valores da PA em sujeitos hipertensos (Brandão et al., 2002). A
prática regular de exercício físico é um meio não farmacológico seguro e eficaz, na melhoria
da saúde cardiovascular (Sousa, 2008). Possuir um bom nível de atividade física contribui
também para melhorar o perfil lipídico e metabólico, reduzindo a prevalência de obesidade
(Lazzoli et al., 1998; Moreira, 2006; Papandreou, 2008), atenuando assim a probabilidade de
desenvolver hipertensão em idades mais precoces. A atividade física apresenta uma íntima
47
relação com os níveis de PA tanto em adultos como em crianças (Magalhães et al., 2002).
Segundo Neter et al., (2003), a perda de peso acarreta também uma redução da PA.
A prevenção da hipertensão permite aos jovens estarem mais precavidos em relação ao
aparecimento de uma DCV no futuro, como a arteriosclerose, os acidentes vasculares
cerebrais, o enfarte agudo do miocárdio, a doença renal, entre outras (U. S. Department of
Health and Human Services, 2003; Salgado & Carvalhaes, 2003; Corrêa et al., 2005).
Relembrando o leitor, estas doenças são as principais causas de morbilidade e/ou mortalidade
prematura no nosso país e no mundo (Gaspar, 2010).
48
6. Conclusões
6. Conclusões
Em suma, no presente estudo, as variáveis da aptidão física possuem uma reduzida influência
nos níveis de PA, em contrapartida com as componentes da composição corporal.
Tendo em conta os resultados apresentados e a sua interpretação, chegou-se às seguintes
conclusões:
 Uma reduzida prática de atividade física semanal propicia níveis mais baixos de aptidão
física;
 Indivíduos com prática de atividade física baixa possuem níveis de PAS superiores ao
desejável;
 Em idades mais jovens (12-13 anos), não existe influência dos níveis de aptidão física e de
composição corporal nos níveis de PA.

O IMC é a variável que mais propicia um aumento significativo nos níveis de PA,
principalmente entre os 14 e os 18 anos.

Os resultados obtidos sugerem que indivíduos com baixos níveis de atividade física estão
mais susceptíveis a sofrerem de hipertensão, com uma maior influência dos níveis da
composição corporal.
Perante estas conclusões, podemos validar as hipóteses H02, H05, H07 e H10, ou seja, não foram
encontradas quaisquer associações e/ou relações entre a aptidão aeróbia e a %MG, com os
níveis de PAS e PAD. Todas as outras hipóteses foram validadas parcialmente. No que diz
respeito às hipóteses H01 e H06, apesar da pouca influência dos níveis de aptidão física na PA,
estas não são totalmente aceite devido aos resultados estatisticamente significativos obtidos
no teste de FLO no teste do X2, no grupo III para a PAS, no teste de EXB no modelo de RLM,
no grupo II para a PAD, e no teste de ABD no modelo de RLM, no grupo III para a PAS.
Quanto às hipóteses H03 e H08, estas não são excluídas na totalidade, pois, o IMC não obteve
resultados significativos em todas as análises efetuadas, apesar de ter óbito resultados
significativos em grande parte das mesmas. As hipóteses H 04 e H09 são apenas validadas
parcialmente, pois, foram obtidos resultados estatisticamente significativos no teste do X2, no
grupo II para a PAS, e no modelo de RLM, no grupo II para a PAD.
50
Por fim, relembra-se ao leitor que é de fundamental importância a realização da avaliação da
aptidão física nas escolas, para se detetar possíveis fatores de risco das DCV o mais
precocemente possível, de modo a desenvolver antecipadamente ações com os jovens que
possam auxiliar a promoção da saúde dos mesmos.
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