UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA Venicius Scott Schneider CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA UMA PRÁXIS DA SUPERVISÃO O Trabalho de Supervisão em Psicanálise num Hospital Geral Rio de Janeiro 2013 2 Venicius Scott Schneider CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA UMA PRÁXIS DA SUPERVISÃO O Trabalho de Supervisão em Psicanálise num Hospital Geral Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Orientadora: Professora Drª Maria Cristina Candal Poli Rio de Janeiro 2013 3 DIRETORIA DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTU SENSU E DE PESQUISA Rua Ibituruna, 108 – Maracanã 20271-020 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 2574-8871 - (21) 2574-8922 FICHA CATALOGRÁFICA S358c Schneider, Venicius Scott. Conceitos fundamentais para uma práxis da supervisão: o trabalho de supervisão em psicanálise num hospital geral / Venicius Scott Schneider, 2013. 114f. : 30 cm. Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2013. Orientação: Profa. Dra Maria Cristina Candal Poli. . 1. Psicanálise. 2. Supervisão. 3. Hospital. I. Poli, Maria Cristina Candal. II. Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade. III. Título. CDD – 616.89 Decs Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho 4 Venicius Scott Schneider CONCEITOS FUNDAMENTAIS PARA UMA PRÁXIS DA SUPERVISÃO O Trabalho de Supervisão em Psicanálise num Hospital Geral Dissertação aprovada em 27/06/2013. Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicanálise, Sociedade e Práticas Sociais. BANCA EXAMINADORA Profa. Dra. Maria Cristina Candal Poli – Universidade Veiga de Almeida (UVA) Prof. Dr. Antonio Luiz Quinet de Andrade – Universidade Veiga de Almeida (UVA) Profa. Dra. Fernanda Theophilo Costa-Moura – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 5 AGRADECIMENTOS À Profa. Maria Cristina Poli pela paciência e dedicação ao trabalho de orientação. Ao Prof. Antonio Quinet, em quem a palavra entusiasmo encontra as mais variadas ressonâncias. À Profa. Fernanda Costa-Moura pelas contribuições e participação na banca. A todos os professores que de alguma forma contribuíram para a elaboração do presente trabalho. Aos colegas e professores do mestrado. Ao pessoal da secretaria. Aos colegas e amigos do HC-UFPR que colaboraram para que esta dissertação fosse possível, principalmente Marcos, Luiz Renato, Wael, Cristina e Claire. Aos meus familiares, especialmente à família Zuquello que tão gentilmente me acolheu em sua casa. À Andrea sem a qual esta empreitada nem teria iniciado. 6 RESUMO Esta dissertação concentra-se no trabalho de fundamentação conceitual sobre supervisão em psicanálise freud-lacaniana e sua práxis num hospital universitário. Para tanto, partiu-se da elaboração de uma breve história sobre supervisão ressaltando sua especificidade. Em seguida, foi desenvolvida a fundamentação que concebe a supervisão como um dos três pilares da formação em psicanálise, situando os obstáculos que costumam ocorrer neste processo. No qual foram destacados, a partir de uma analogia com o sonho da “injeção de Irma”, três momentos que se colocam na busca do saber sobre a condução do caso clínico. Deste modo, se construiu a base para estabelecer os fundamentos psicanalíticos para uma direção da supervisão. Com o intuito de viabilizar uma lógica da supervisão num hospital-escola, foi desenvolvido o modo de funcionamento dos discursos em Lacan. Verificou-se que sua operatividade pauta-se principalmente nos discursos da histeria e do analista. Palavras-chave: psicanálise, supervisão, hospital, Lacan, discursos. 7 ABSTRACT This dissertation focuses on the work of conceptual basis of the supervision in Freudian-Lacanian psychoanalysis and its praxis at university hospital. For that, a elaboration was started from a brief history about supervision emphasizing its specificity. Then, it was developed a fundamentation which conceives supervision as one of the three pillars of the training process in psychoanalysis placing the obstacles that often occur. Through an analogy of the dream of "injection of Irma" it was highlighted three moments that arise in the pursuit of the knowledge of the conduction of the clinical case. Thus, it was built a base to establish the fundamentals for a psychoanalytic direction of supervision. In order to make possible a logic of supervision in a teaching hospital, it was developed the operating mode of discourse in Lacan. It was observed that the operability is guided mainly in discourses of hysteria and the analyst. Key words: psychoanalysis, supervision, hospital, Lacan, discourses. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................09 1. CAPÍTULO I - BREVE HISTÓRIA DA SUPERVISÃO EM PSICANÁLISE ......................................................................................................................21 1.1. A SUPERVISÃO E SEUS PRIMÓRDIOS....................................................21 1.2. SUPERVISÃO E INSTITUIÇÃO...................................................................30 1.3. CONCLUSÃO...............................................................................................35 2. CAPÍTULO II - DA SUPERVISÃO COMO UM DOS PILARES DA FORMAÇÃO E SEUS OBSTÁCULOS........................................................37 2.1. DOS OBSTÁCULOS............................................................................40 2.2. CONCLUSÃO......................................................................................50 3. CAPÍTULO III - “CHAMO IMEDIATAMENTE O DR. M”...............................53 3.1. INTRODUÇÃO ...........................................................................................53 3.2. O PEDIDO DE SUPERVISÃO......................................................................54 3.3. TRÊS MOMENTOS DA SUPERVISÃO........................................................56 3.4. SUPERVISÃO, RESGATE DA EXPERIÊNCIA...........................................62 3.5. A JANELA....................................................................................................64 3.6. A SOLUÇÃO........................................................................................66 4. CAPÍTULO IV – DOS FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS PARA UMA DIREÇÃO DA SUPERVISÃO......................................................................67 5. CAPÍTULO V - OS QUATRO DISCURSOS: UMA OPERAÇÃO NUM HOSPITAL-ESCOLA PARA UMA LÓGICA DA SUPERVISÃO.................77 5.1. DOS FUNDAMENTOS CONCEITUAIS RELATIVOS AOS QUATRO DISCURSOS.................................................................................................77 5.2. DA OPERAÇÃO DOS DISCURSOS NA INSTITUIÇÃO MÉDICA- UNIVERSITÁRIA............................................................................................86 9 5.3. UM CASO CLÍNICO SUPERVISIONADO EM UM HOSPITAL-ESCOLA..89 5.4. A LÓGICA DOS DISCURSOS NO CAMPO DA SUPERVISÃO...............93 6. CONCLUSÃO.............................................................................................103 7. BIBLIOGRAFIA..........................................................................................106 8. ANEXO.......................................................................................................113 10 INTRODUÇÃO A prática da supervisão entendida como a orientação de um analista reconhecido (Freud, [1918] 1919) em relação a um iniciante, no que tange a seu modo de dirigir a cura de pacientes sob seus cuidados, instituiu-se no Serviço de Psicologia do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, desde seus primórdios em 1986. A partir de 1990, com a criação do serviço de Psicopatologia, os profissionais passaram do número de cinco para vinte. Tendo início dois tipos de supervisão, uma entre os colegas, outra dos colegas para com os estagiários, grupo composto principalmente por estudantes de quarto e quinto ano de psicologia. Tal mudança deu-se a partir do fechamento de vagas para profissionais voluntários em virtude de mudanças na política da instituição. Conjuntamente a essas circunstâncias, o Serviço de Psicologia criou quatro centros de estudos, cada qual tendo uma questão específica para tratar. Um deles, que existe até hoje, denomina-se Centro de Estudos e Trabalho em Psicanálise, cujo escopo principal reside na reflexão sobre o trabalho da psicanálise no hospital, seu alcance, suas limitações, seus impasses. Dentro das discussões do centro surgiu a idéia de estabelecer um debate sobre a prática da supervisão no hospital por se tratar de atividade realizada sem maiores reflexões. A pergunta norteadora básica era: Como cada um pensa e desenvolve a atividade de supervisão no hospital? Da primeira parte da pergunta, a respeito da concepção sobre a supervisão, surgiu um trabalho apresentado em 2001, na jornada de encerramento do curso de Aperfeiçoamento em Psicologia Clínica no Hospital, com o título, “Chamo imediatamente o Dr. M., ou, sobre a supervisão”, que em linhas gerais desenvolvia a concepção que Lacan apresenta no seminário 2, a propósito do sonho da injeção de Irma, situando a função da supervisão como aquela de identificar onde está o eu do supervisionante na direção da cura, de modo a permitir que esteja o menos possível para que o tratamento siga sem tal interferência. 11 O eu é aquele que julga saber, mas que só se manifesta como conhecimento sem nenhuma operatividade, ou melhor, aparece como desconhecimento para que nada aconteça, resultando na captação imaginária do que supostamente seria o que se passa com o analisante a partir de uma compreensão recíproca que visa apagar uma das molas da direção da cura, a saber, a angústia. O mencionado sonho de Freud situa-se como uma marca na descoberta do inconsciente e da interpretação dos sonhos. Marca que se manifesta em cada tratamento, cuja experiência deve ser mantida como letra viva, transmitindo o que é próprio da psicanálise. O aspecto específico da supervisão estaria relacionado à angústia de Freud que o levou a procurar o Dr. M. diante da possibilidade de um equívoco da direção da cura de Irma. Outro direcionamento indagava sobre o que se julga saber sobre a psicanálise e o que desse saber é efetivamente operativo no que tange uma direção de cura. Como diz Didier-Weill ([1988]1994), podemos estar de acordo com Galileu a respeito da queda dos corpos, mas diante da questão: ao se soltar de uma mesma altura uma esfera de um quilo e uma de dez quilos qual chegará antes ao chão? A vacilação quanto à resposta pode surgir, e certamente surgirá, em quem, apesar de estar de acordo com Galileu, não souber operar a fórmula, mesmo conhecendo-a, utilizando os elementos expostos no problema. Assim verificamos que o mesmo ocorre quanto aos conceitos da psicanálise, que podem ser conhecidos, mas não articulados de modo a serem efetivos para servirem como norteadores na direção da cura. O âmbito da supervisão é o local por excelência para propiciar esse encontro entre o universal da teoria e o particular da clínica. Ao se levantar o aspecto do saber que vige na supervisão constata-se não se tratar do que poderia ser entendido como sendo próprio do discurso universitário em que haveria um saber a respeito do objeto que seria passado pelo mestre, que conhece mais, para o discípulo que conhece menos. Pois, a partir de tal visada ficaria de fora o aspecto do sujeito barrado em sua relação de impotência em operar com os significantes mestres de forma a interrogar o modo de constituição do saber. Sucintamente, a supervisão não poderia partir 12 somente do princípio de ausência de saber por parte do iniciante, que seria suprida pela presença do saber por parte do iniciado. Pois, como salienta Darriba (2007), trata-se de uma revisão na própria relação com o saber. Este, ao ser abordado desde o discurso analítico, parte de princípios que subvertem a relação do praticante ao saber, já que para ele, via de regra, ao procurar uma supervisão, considera que há uma falta de saber que poderá ser preenchida com a sapiência do mestre. Aspecto que adianta uma questão a ser desenvolvida posteriormente por estar relacionada à suposição de saber e conseqüentemente a transferência. Porém, ao se tratar de psicanálise, tal endereçamento deve ser relançado a partir da fala do praticante sobre seu paciente para que daí possa advir a dita subversão quanto à falta de saber, transmutando-a para um saber em falta. Como um primeiro passo na proposta de qualificação de mestrado vige o intuito de desenvolver a fundamentação teórica psicanalítica sobre a supervisão. Palavra que não existe no vocabulário de Freud, que a denominou análise de controle (kontrolanalisis) e a considerava como um procedimento ao qual o analista se submeteria quando tivesse alguma dificuldade na clínica que o mobilizasse a procurar um analista reconhecido, com vistas a orientá-lo em seu embaraço. Para tanto também será utilizada a concepção lacaniana sobre o tema, que propicia uma ampliação da abordagem a partir do remanejamento dos conceitos. Apesar de Lacan considerar o termo inglês, supervision (supervisão), uma boa proposta, mas somente para a língua inglesa, por julgálo menos sinistro que controle (controle), em francês, utiliza em um dos textos das conferências nos Estados Unidos (Lacan, 1975) um outro nome que não supervisão, termo que também existe em francês, a saber, superaudição, trabalhando o aspecto surpreendente que naquilo que o praticante diz de seu analisante, seja possível ter uma representação daquele que está em análise, vendo aí uma nova dimensão, concebida a partir da abordagem topológica dos nós. Em suma, tal trabalho intenta, a partir do estudo do tema da supervisão, nas obras de Freud e Lacan, em sua relação com a teoria e sua inserção na prática, estabelecer uma concepção sobre a supervisão. Tema que tem ficado relegado a um segundo plano, como indica a escassa bibliografia, apesar de 13 fazer parte dos três pilares da formação em psicanálise; análise pessoal, estudos de psicanálise e a supervisão. No âmbito da abordagem histórica do tema existem aspectos importantes a serem considerados, pois permitem situar melhor a questão da supervisão nas instituições psicanalíticas. Provavelmente o primeiro supervisionante (1), segundo Vegh (2008), foi Stekel, o qual após interromper sua análise com Freud solicitou a este que o orientasse na condução dos tratamentos que dirigia. Hans Sachs foi o primeiro analista didata que separou as funções da análise didática da de supervisão (Safouan, 1985). A escola de Berlim foi a primeira a se preocupar com a formação dos analistas criando uma instituição de formação em 1920, curiosamente ignorando nos seus preceitos formadores as indicações do que seria desejável considerar como formador, ou seja, o inconsciente. Tratando a supervisão como uma prática que visaria ao controle do praticante, monitorando o estar de acordo com as regras, visando uma espécie de produção de um determinado padrão. A parte da proposta do Centro de Estudos e Trabalho em Psicanálise, cujo objetivo era o debate sobre o fazer de cada um, ficou para outro momento que acabou por não se concretizar e seria retomado na pesquisa do presente trabalho. Porém, aqui se operou uma modificação no projeto que, num primeiro passo, desenvolveria um aspecto de pesquisa através de entrevistas com os profissionais do serviço de psicologia, ligados a psicanálise, para fazer um levantamento sobre o modus operandi de cada um, visando obter material para avançar e discutir as questões específicas desta práxis no hospital. Tal fato deveu-se ao trabalho de orientação que sugeriu que a dissertação se restringis______ (1) Optou-se pelo uso da palavra “supervisionante”, e não supervisionando, supervisando, supervisionado, entre outras, por se julgar que representa melhor a condição daquele que se propõe a se submeter a um processo de supervisão. Tal proposta foi encontrada no texto de Quinet (2009, p. 125), e parte provavelmente da mesma lógica de Lacan (12-05-1972) quanto a nominar aquele que se dispõe a submeter-se a uma análise de “analisante”. 14 se à fundamentação teórica e à reflexão oriunda de minha própria experiência para desenvolver o tema. Desse modo, o problema ficou circunscrito ao tema, a ser trabalhado, sobre os fundamentos conceituais que norteiam a concepção de supervisão, seguido da proposta de pesquisa a partir do material proveniente das supervisões por mim orientadas. Estas têm o intuito de situar a discussão da práxis da supervisão psicanalítica numa instituição médicauniversitária. As supervisões ocorrem semanalmente durante todo o estágio que é anual, por um período de aproximadamente uma hora e se dão em caráter individual. Tal característica está vinculada a escolha por parte do supervisor, que pode oferecê-la em grupo ou individualmente. O trabalho de atendimento clínico a pacientes internados em um hospital geral, particularmente o Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, é ofertado à comunidade de estudantes do quinto ano de psicologia ou a profissionais que tenham interesse em entrar em contato com o trabalho específico de clínica psicanalítica no hospital. Existem profissionais que trabalham com outras linhas de orientação e que, justamente por isso, não serão abordadas. Tal estágio, independentemente de tratar de modelos denominados pela instituição de “voluntário” (para profissionais) ou “curricular” (para estudantes), necessariamente envolve uma intenção isenta de obrigatoriedade, ou seja, quem procura o estágio, o faz por interesse próprio. Um critério desejável para quem procura o estágio reside em que esteja em análise ou já tenha tido esta experiência. Quando não há uma definição por parte do candidato sobre a linha de trabalho em que pretende seguir, pelo menos, de acordo com minha orientação, há a necessidade da existência de uma intenção de conhecê-la e operar desde seus princípios. Assim, se o interesse pelo estágio é motivado unicamente pela intenção de trabalhar com a especialidade médica em que está inserido o estágio, tal visão precisará ser revista, pois não se trata de psicologia hospitalar, mas sim, de trabalho clínico num hospital. Ou seja, a especialidade médica não é o condutor da abordagem e, apesar de existirem algumas especificidades próprias à patologia médica, o trabalho implica na consideração do ser doente e não da doença. 15 Em virtude de o trabalho ocorrer em um hospital geral, com pacientes que internam por um motivo médico e não psicológico, portanto, que não pediram, em sua grande maioria, para que fossem escutados, gradativamente constatou-se a importância de estudar a organização na qual o psicanalista está inserido. Pois, geralmente, a abordagem do paciente é ditada por premissas que compõem o que se convencionou chamar de discurso médico (Clavreul, 1980). Assim, faz-se fundamental discernir o paciente atendido pela equipe médica, daquele que é atendido pelo psicanalista, já que não é o mesmo, apesar de em alguns pontos poder haver convergências. Pois, para cada profissional o objeto de trabalho é diferente, enquanto para um o que impera é a lógica do funcionamento do corpo biológico, para outro é a lógica do discurso que concerne ao corpo em outro nível, ou seja, na qualidade de erógeno. Tal distinção é uma entre uma infinidade que precisa ser cuidadosamente marcada para que a direção do trabalho de um, não se confunda com a de outro. Para isso será utilizada a lógica dos discursos de Lacan que permite, com grande precisão, distinguir as especificidades de cada discurso, e, portanto, de seu objeto. Outro aspecto importante no trabalho com pacientes internados é o de que o atendimento ocorre nos leitos, normalmente em enfermarias, nas quais estão presentes mais de um paciente, além da existência de uma série de profissionais e estudantes das mais variadas áreas, cada qual exercendo sua função específica na instituição. Deste modo o chamado setting acaba sendo bastante diferente do que seria o usual, ou seja, uma sala ambientada para receber individualmente a pessoas que procuram tratamento por algum tipo de sofrimento psíquico. Tais características imprimem a necessidade de um maior rigor no trabalho da escuta, já que partirá da premissa que a oferta pode criar a demanda, mas num ambiente que não seria propriamente o seu. Com isso se quer dizer que não há lugar para o trabalho em psicanálise no hospital? Não. Apenas significa que certas condições que atuam como facilitadoras se acham ausentes nesta circunstância. Por isso a necessidade de um rigor maior para viabilizar que a escuta do sujeito, saliente-se, do inconsciente, tenha lugar. Pode-se então apresentar como justificativa pela escolha do tema a existência de uma visão comum entre alguns autores (vide abaixo) que estão 16 de acordo quanto a pequena produção de textos na área a ser pesquisada, o que marca a importância e a necessidade de maior investigação, bem como publicações neste campo. Na tentativa de interrogar o que se faz, para não cair numa reprodução instituída pela tradição de um modelo que se repete sem interrogar seus fundamentos, faz-se importante rever os meios através dos quais se desenvolveu a proposta de supervisão e identificar o ordenamento lógico que está em jogo para poder torná-lo um instrumento de trabalho com fundamentos operativos. Como já foi mencionada, a atividade de supervisão ocorre no Serviço de Psicologia- HC- UFPR praticamente desde sua criação. Porém a reflexão sobre o tema vinculado à prática da supervisão em psicanálise no hospital não foi desenvolvida, pelo menos de maneira sistemática. Hoje o Serviço de Psicologia acolhe estagiários do curso de graduação vindos da UFPR e outras instituições, os participantes do curso de Qualificação em Psicologia Hospitalar, bem como, com a abertura de residência em psicologia no HC-UFPR, residentes que desenvolvem sua prática nas áreas que são disponibilizadas pelos profissionais, e que são supervisionados por estes em suas atividades. Faz-se importante considerar que tal atividade implica, se não habilidades específicas por parte do supervisor, (que podem ser desenvolvidas na medida em que cada um reflita sobre sua prática e se proponha a sustentar teoricamente os conceitos que a norteiam), a que pelo menos esteja advertido das questões fundamentais que envolvem tal prática. Num segundo momento, ao já se ter um levantamento e elaboração do material, é possível efetuar, como produto da dissertação, um feedback do trabalho para os profissionais nas reuniões teórico-clínicas do Serviço de Psicologia (estas reuniões visam congregar a participação da maioria dos profissionais do serviço, estagiários e residentes) ampliando assim o campo de discussão sobre o tema. Pois, como nos indica Goldberg (1990), urge a necessidade de inclusão de um curso de supervisão nos programas de treinamento em psicanálise e psicoterapia, para que possam criar conceituais para trabalhar com a questão, ao invés de tratá-la na medida em que ocorre 17 sem maiores reflexões. Assim, mesmo não se tratando de um curso ( como foi proposto no anexo p.113), faz-se importante ao menos criar uma sensibilidade para a existência de uma problemática em relação ao tema e algumas possibilidades de encaminhamento. Para se ter uma idéia da discussão teórica sobre a supervisão vale destacar brevemente a problemática apresentada através da pena de alguns autores sobre o tema, por exemplo, no que se refere a produção teórica existe um consenso entre eles (Costa 2007; Goldenberg, 2007; Fontenele, 2006), que tratam do assunto sobre haver uma relativa limitação de bibliografia sobre o tema da supervisão, existem várias questões no que tange ao seu encaminhamento, ou seja, o modo pelo qual ela é efetuada, que é orientado pela conceituação que a define. Fato facilmente verificável ao se comparar as diversas posturas dos autores que tratam do tema, nestas pode-se notar concepções divergentes apesar de se tratar da mesma orientação teórica. Smirnoff (1992) resume a situação dizendo que são raras as instituições que tem uma proposta de formar supervisores, não havendo consenso quer sobre a prática ou objetivo da supervisão, ocorrendo inclusive situações divergentes. Como exemplo, há autores que entendem que na supervisão deve-se utilizar o método da associação livre como diretiva, visando retomar a concepção do saber específico da psicanálise (Darriba, 2007), enquanto outro (Goldenberg, 2007) entende tratar-se de um método diferente do método utilizado para uma análise por estabelecer como base a proposta de que se fala de um tema próprio, o que é passível de ser visto como um impasse já que não se poderia priorizar nada “a priori”, segundo a proposta do método psicanalítico. Ainda nessa perspectiva das divergências encontramos outra autora, Vilma Kovacs ([1936] 2001) discípula de Ferenczi, que num artigo escrito em 1936 defendia a idéia de que não haveria diferença entre supervisão e análise e que o analista-supervisor seria a pessoa mais apta a identificar eventuais impasses na clínica do praticante por sua condição de analista. Em oposição parcial temos o texto de Safouan (2006), que considera que tal situação pode eventualmente ocorrer por motivos muito específicos que dizem respeito a 18 determinada questão transferencial, mas que de modo geral entende que não é desejável tal proposta por propor uma formação com caráter monolítico, evitando as multiplicidades possíveis. Por se tratar de psicanálise é importante considerar o aspecto da técnica em relação à supervisão, pois se pode entendê-la no sentido de tratarse unicamente de transmitir uma técnica, trabalho que seria menos árduo, já que haveria um conhecimento prévio acumulado que estabeleceria um determinado caminho certo por onde seguir orientando o suposto iniciante na direção. Sabemos que nem sempre os que procuram supervisão são iniciantes, que os motivos da procura são variados, que as questões não são unívocas, portanto é preciso criar para cada situação, uma técnica específica para cada caso. Segundo Safouan (1985) podemos encontrar em Ella Sharpe a proposição de que a técnica psicanalítica jamais é aprendida, o melhor técnico seria aquele que mantém a disposição de estar aberto para o singular de cada caso, sem pautar-se por um ideal de analista, estando sempre em condições de aprender algo novo. Diante de tal postura o que se teria a ensinar ao supervisionante? Ou se trataria de indicar um saber que se coloca no próprio discurso do supervisionante sem que saiba? Há uma proposta que pretende situar a supervisão como “mais que um ensino e menos que uma análise”, Solnit (1970) propõe que o impasse pode ser transposto na medida em que se a considere como uma experiência educacional e uma relação, na qual se deve evitar a regressão por parte do supervisionante encorajando a identificação ao supervisor, que como analista deveria propor-se como tela. No processo de supervisão não se trataria da contratransferência, considerada como tema para a análise pessoal, mas, educacionalmente, o supervisor poderia ajudar a entender o que no paciente provocou a contratransferência no praticante tratando de aprimorar o chamado instrumento terapêutico. Nasio (1999) se opõe a tal direcionamento propondo que efetivamente se considere tais efeitos, mas não com o objetivo de instrumentalizá-los visando comunicá-los ao analisante. Num outro viés, tem-se os problemas levantados por Quinet (2009) que se referem ao acting-out e a passagem ao ato por parte do praticante. Na 19 medida em que o que norteia seu ato, suposto analítico, vem permeado pelo próprio fantasma, que se manifesta como tentativa de evitar o ato analítico pelo horror que este pode causar, levando o praticante, em virtude da urgência criada pelo modo como é tomado pelo discurso do analisante, a atuar mostrando o objeto em questão justamente por não poder interpretá-lo, ou, pelo outro lado do fantasma, saindo de cena pelo apagamento causado pela barra sobre o sujeito-analista num momento de embaraço. O ponto cego, citado por Freud em “Conselhos aos médicos que exercem a psicanálise” (1912), talvez tenha influenciado a escolha de supervisão como um meio de compensação pela ausência de visão. Freud se refere a esse ponto como um resto não analisado que se manifesta no tratamento impedindo a escuta do inconsciente, onde deveríamos encontrar o desejo do analista, temos a contratransferência. Aí encontramos diferenças entre autores novamente, Nasio (1999) vê nesse ponto o caminho para abordar a supervisão, com também Safouan (1975). Grinberg (1975) considera que a contratransferência é assunto de análise, propondo o campo da supervisão ao que chama contra-identificação projetiva. Há dissensões quanto a proposta de se utilizar um modelo, quanto a diferença entre análise e supervisão, a diferença desta com o estudo de caso e mesmo quanto à palavra supervisão ser uma boa denominação para designar o trabalho que envolve. Enfim, é possível estender mais amplamente as diversas questões sobre o tema levando em conta a transferência, a topologia, a instituição, o desejo, a angústia, a identificação, o narcisismo, o objeto a, o lugar do terceiro, a transmissão, os discursos, entre outras, que mereceriam um desenvolvimento específico devido a sua pertinência e que serão abordados especificamente ou tangencialmente nos capítulos seguintes. Para estabelecer no trabalho de dissertação os fundamentos psicanalíticos que norteiam a supervisão, partiu-se de um breve histórico da supervisão em psicanálise, que nomeia o capítulo um, no qual é desenvolvida a proposta de Mijolla (1992), de situar diversas situações, seguindo o fio principalmente na obra de Freud, que poderiam ser pensadas como tendo uma estrutura de supervisão e que levantam diferentes aspectos deste processo. A 20 partir de 1920, com a criação do Instituto de Berlim, o problema da supervisão passa ao nível institucional, com a apresentação de duas posições divergentes quanto ao seu estatuto: como aprendizagem de uma técnica ou como uma continuação da análise pessoal. Propostas divergentes que ficaram aparentemente solucionadas por uma decisão institucional que apagou a problemática. Esta, será retomada pela escola lacaniana, dando um novo modo de recolocar o problema, cujo desenvolvimento finaliza a abordagem histórica. O segundo capítulo trata da supervisão como um dos pilares da formação, estabelecendo sua especificidade própria a partir dos fundamentos psicanalíticos, os quais indicam que para que a operação analítica ocorra fazse necessária a abstenção da presença do eu do analista. Assim, a presença do analista implica na inclusão da noção de descentramento do sujeito, para que sua manifestação convirja com a do inconsciente. Costumam aparecer diante de tal tarefa vários tipos de obstáculos para que o trabalho de análise ocorra e que podem ser identificados na supervisão. A identificação de alguns obstáculos e o desenvolvimento de sua lógica encerram o conteúdo dessa parte do trabalho. O terceiro capítulo foi composto no intuito de apresentar três diferentes momentos passíveis de serem encontrados na supervisão, partindo da própria fundação da psicanálise, situada por Freud na interpretação do sonho de Irma, que lhe deu a chave dos sonhos e a via régia para o inconsciente. Tomando-se como base a frase escrita no relato do sonho: “chamo imediatamente o Dr. M.” e situando-a como paradigma da busca do saber sobre o caso. Nesta busca destacam-se: um primeiro momento, que se presentifica através da manifestação de angústia diante do quadro clínico; um segundo momento, que ocorre ao se fazer um apelo ao saber do outro e o terceiro momento, que concerne à solução do caso pelo resgate da palavra. O quarto capítulo contém a finalização da proposta da primeira parte da dissertação, que consiste em estabelecer os fundamentos para uma direção da supervisão. Marcando, para isso, a especificidade que tal trabalho envolve ao se utilizar da conceituação pautada em Freud e Lacan, destacando a 21 necessidade de considerar a transferência, ponto nodal de todo tratamento que se diga psicanalítico, e que também está presente no âmbito da supervisão. O quinto capítulo marca os alcances e limites da operação psicanalítica no hospital a partir da teoria dos discursos, ao apresentar brevemente a fundamentação lacaniana dos quatro discursos como formalizações que procuram equacionar os modos como a linguagem estrutura o campo dos laços sociais. Tais discursos, ao elucidar os laços sociais, permitem também esclarecer os modos de relação que operam nas instituições, neste caso em particular, a hospitalar, que, além disso, está inserida no contexto universitário. Inseridos nesta instituição existem psicanalistas que intentam fazer circular o discurso próprio a seu campo, desta premissa partirá o diálogo com os outros discursos desde tal contextura. Fundamentada a operação dos discursos neste hospital-escola, parte-se para o estabelecimento de uma lógica da supervisão utilizando-se de situações concernentes a tal contexto. Conclui-se identificando os discursos histérico e do analista como sendo os norteadores do processo da supervisão. 22 CAPÍTULO I 1. BREVE HISTÓRIA DA SUPERVISÃO EM PSICANÁLISE O presente capítulo visa perfazer um breve passeio pela história da psicanálise levantando alguns dos principais aspectos históricos e teóricos que permitem tratar do tema da supervisão. Esta se encontra elevada ao grau de pilar da formação do analista em 1919, - ao lado da análise pessoal e do estudo dos textos- momento em que a questão da formação foi colocada em pauta de modo mais sistemático em virtude do crescimento do número de pessoas que queriam se tornar analistas. Sua denominação tem sido fruto de várias discussões, Freud a chamava de análise de controle (kontrollanalisis), termo que aparece no texto de 1919 num artigo sobre o ensino da psicanálise na universidade. Mais tarde, em 1922, surgiu o termo traduzido para o inglês como supervisão (supervision) segundo Moreau ([1977] 2001, p.40), o qual ficou mais difundido no campo da psicologia e psiquiatria. Lacan, apesar da existência do termo supervisão em francês (supervision), retoma a denominação freudiana de controle - que em geral é utilizada pelos analistas lacanianos-, apesar de não a considerar uma boa denominação, e chega a propor o termo de superaudição (Lacan, 1975, p. 42-45), por ressaltar a importância da escuta psicanalítica para o exercício de tal atividade, ao invés do olhar. 1.1. A supervisão e seus primórdios A supervisão, que implica numa atividade de formação, surgiu para nomear o que inicialmente ocorria como um relato de caso. O primeiro a que se pode referir data do período pré-psicanalítico e ocorreu entre Freud e Breuer. A partir do intercâmbio entre eles a descoberta do inconsciente por Freud foi o resultado de uma tentativa de investigação de fenômenos que eram considerados orgânicos pela ciência da época e diziam respeito à histeria. As conseqüências de tal descoberta, apareceram no mesmo ritmo em que surgiam impasses, que foram sendo equacionados na medida em que uma concepção 23 nova levantava novos problemas. Lembremos que Breuer não era propriamente um analista, mas um médico, quatorze anos mais velho que Freud, bastante reconhecido na sociedade vienense, com um “passado científico” (Freud [1925] 1976, p.31), enquanto Freud era um recém formado. Para começar a se situar no que se passava com ‘suas histéricas’, o contato com Breuer foi de grande importância, pois este, ao relatar sobre seu atendimento de Anna O.(cujo nome verdadeiro é Bertha Pappenheim), abriu o caminho para a descoberta do inconsciente. Note-se que Freud possuía um grande interesse clínico que se orientava na direção de escutar o que era dito pelas pacientes, foi ele quem persuadiu Breuer a publicá-los. Este, tinha seus motivos para evitá-lo, pois o caso tinha sido extremamente complicado e a recuperação que consta nos “Estudos sobre Histeria” ([1895] 1976) não corresponde inteiramente aos fatos. Para o que nos interessa, vale destacar que, no encaminhamento do caso, Breuer envolveu-se demasiadamente a ponto de causar um problema com sua esposa que desconfiava de sua exagerada dedicação ao tratamento. A descrição de Jones (1970, p. 237) do modo como se deu o término do tratamento, apesar de envolver discussão sobre a veracidade do ocorrido,- ou seja, de que Anna O. estaria tendo câimbras abdominais e de que as tenha atribuído a estar esperando um filho do Dr. B., o que o fez finalizar o tratamento e viajar para Veneza com sua esposa que então engravidou-, apesar de não ser inteiramente correto, contém um dado de realidade histórica que confirma a viagem do casal com a filha recémnascida, o que imprimiu a necessidade de uma interrupção temporária do tratamento de Anna O.. Portanto, durante o tratamento, Mathilde engravidou e Anna O. sabia disso. Como segundo dado, sabe-se que o nome da mãe de Breuer era o mesmo que o da paciente, ou seja, Bertha. Por fim, há o exagerado interesse de Breuer sobre o caso da jovem paciente, uma bela mulher que costumava fascinar os homens a sua volta. Freud explica numa carta a Zweig (Pinto, 2009, p.33) que a idéia da fantasia de gravidez lhe ocorreu posteriormente, ao lembrar-se de um fragmento do relato de Breuer sobre o caso, que disse ter retornado à casa de Anna O. após ter sido chamado, e encontrou-a delirando com câimbras no baixo ventre. Fato considerado por Freud como a chave, a qual Breuer não utilizou, para abrir o caminho do tratamento para a questão da maternidade. Lembrando, em outro 24 momento, que apesar do relato, segundo Breuer, de que idéias sexuais não apareciam em sua fala, elas se comprovaram em sua vida, pela dedicação a ações sociais condenando a prostituição, em prol do feminismo e na direção de um pensionato de moças. Neste processo pode-se dizer que o inconsciente aparece primeiro no outro, ou seja, em Anna O. e foi sendo gradativamente elucidado a partir da palavra dela e da direção dada pelo doutor. Note-se que Breuer nunca identificou nenhum conteúdo sexual nos sintomas, tal conteúdo sempre foi objeto de dissensão entre ele e Freud. Assim, tudo corria bem no tratamento na medida em que não aparecia o que seria denominado de transferência, considerada por Freud o alfa e o ômega do tratamento. Justamente onde Breuer se viu implicado no trabalho para além do que gostaria e, do que só se deu conta pelas conseqüências das quais preferiu se afastar. Ou seja, pelo fato de não conseguir considerar o que de seu próprio ser estaria em jogo no tratamento. Ao decidir relatar a Freud como a um terceiro, que não estava implicado diretamente no que envolvia o embaraço na direção, a fala de Freud isenta Breuer de seu envolvimento ao lhe dizer que o desejo que estava envolvido era o de Anna. Quanto a Breuer, este estaria isento de qualquer participação. Será? O fato é que Freud relata que somente conseguiu convencer Breuer de publicar o caso, após ter descrito uma situação semelhante que lhe ocorrera, na qual uma paciente resolvera abruptamente abraçá-lo, sendo interrompidos por um serviçal. Freud não considerou que tal fato fosse motivado por seus encantos pessoais, o que lhe permitiu teorizar sobre a transferência. Portanto, a implicação de Breuer no processo não pode ser desconsiderada, Freud tenta isentá-lo ao afirmar que não era seu desejo que estava em jogo, tratava-se do de Anna. Certamente deve-se levar em conta a presença do analista como um fator que pode induzir, unicamente por sua presença, o fenômeno da transferência. Porém, seu direcionamento depende do modo em que o ser do analista figura, pois se trata de diferenciar o desejo do analista como função operativa, da presença do ser do sujeito analista. Somente a presença do sujeito enquanto puro desejante, logo que não pode dizer nada de si por resultar na extinção da qualidade de desejante (Lacan 25 [1960-1961] 1992, p.357), propicia que possa situar o objeto do desejo do qual acaba sendo o suporte. Deste modo se viabiliza a possibilidade da identificação do lugar que é suposto pelo outro, na condição de não responder como sujeito. Note-se que se o analista não sustentar seu lugar instalar-se-á a cegueira coletiva. Assim, essa suposição deve envolver da parte do analista que esteja advertido de seu desejo para não responder como o outro enquanto semelhante, confundindo o que seria o lugar do Outro, lugar do inconsciente. O fato é que Breuer, que certamente estava bastante inquietado pelo que tinha sido este trabalho com Bertha, precisou falar a alguém sobre ele, apesar de querer calá-lo. Dirigiu a Freud seu relato como um médico fala a um aluno de um caso curioso, quem sabe no intuito de entretê-lo, ilustrar uma situação estranha. O problema é que esse aluno era Freud, que soube destacar a importância do que o método catártico podia esclarecer, bem como dar uma direção ao impasse trazido por ele no que se referia à transferência. Concepção que posteriormente precisaria ser revista por não levar em conta o desejo de Breuer em relação a Bertha, com os efeitos considerados indesejáveis ao que se espera de um tratamento psicanalítico. Já que Bertha respondeu inconscientemente a esse desejo em relação a ela, que ele desconhecia, ou melhor, não reconhecia. Assim, Breuer, mais do que uma supervisão, que eventualmente poderia ser um caminho para seguir em uma análise, necessitava de uma análise, para poder, caso fosse de seu interesse tornar-se analista, desenvolver uma convicção sobre a existência do inconsciente, que veicula o que se coloca como o que é próprio do desejo. Uma supervisão poderia ser o lugar no qual seu impasse, ao ser trabalhado, propiciaria o levantamento da necessidade de um retorno à análise. Nesta situação, já se ressalta a especificidade do relato de caso na supervisão em psicanálise, por ser necessário considerar o desejo do analista em seu relato e na direção do tratamento. Lembrando que a supervisão entra como um segundo passo na formação do analista, primeiro faz-se necessário passar pelo processo analítico. Depois, caso o trabalho tenha levado a uma decisão de seguir na experiência analítica, o analista pode procurar uma supervisão na medida em que julgue precisar tratar dos impasses que a clínica coloca. O que situa o enlace da supervisão com a análise. 26 Efetivamente, esse foi um dos grandes problemas com que Freud se deparou na época em que saiu de seu isolamento e assumiu a liderança do movimento psicanalítico. Pois seus discípulos não tinham tido, em sua grande maioria, uma experiência de análise pessoal. Porém, dirigiam análises que os levavam com freqüência a consultar Freud sobre seus impasses com seus analisantes. Stekel, talvez tenha sido o primeiro a ser propriamente supervisionado por Freud em torno de 1902. Depois de uma breve análise com ele, na qual experimentou seus “efeitos benéficos” (Freud [1914] 1976, p.36), passou a solicitar um tempo para falar de seus atendimentos ao mestre, com o qual costumava rivalizar. Freud já sabia que a auto-análise não era possível para garantir uma formação, como indica na carta 75 ( Freud [1892-1899] 1977, p.361-366) dirigida a Fliess. Em virtude disso a necessidade de uma análise pessoal passou a ser o principal caminho para quem quisesse vir a se tornar psicanalista. Um outro exemplo, no qual Freud conversava sobre seus tratamentos, está representado na sua relação com Wilhelm Fliess, médico especialista em nariz e garganta, o qual conheceu na casa de Breuer. Desenvolveu com ele uma intensa amizade que também, como a com Breuer, acabou por se romper. Esta amizade envolvia um grande volume de manuscritos, em virtude de Fliess residir em Berlim eles se correspondiam por cartas. Nelas constavam, além dos temas das famílias, a descrição de casos e a elaboração teórica dos fundamentos da psicanálise, conhecidos como “rascunhos”, escritos no intervalo entre 1887 e 1904. Durante este período também ocorreu o que Freud denominou de sua auto-análise, realizada entre agosto de 1897 e fevereiro de 1898. Há quem defenda idéia de que Fliess foi o analista de Freud. Sem dúvida este o tinha em alta conta, convocava-o para ajudá-lo na sua auto-análise, na qual analisava seus sonhos e sintomas, criando simultaneamente o meio através do qual efetuava este caminho, ou seja, um método. Fliess ajudou-o nesta tarefa, porém, pode-se dizer que se ocupou o lugar do Outro para Freud foi no sentido de que o que “ele esperava de Fliess era que este lhe fornecesse material para ele compreender alguma coisa em suas psicanálises” (Porge,1998,p. 30). Seria possível considerar aqui mais um viés que envolve a supervisão, ou seja, entre amigos com um objetivo de criar uma nova ciência - 27 Freud esperava que Fliess, com sua teoria biológica, pudesse fornecer meios de apoiar, a partir de um outro campo (físico), sua teoria sobre o psíquico-, trabalho no qual as discussões clínicas e teóricas podem vir a contribuir para avançar nos impasses que surgem no trabalho. Marcando a dimensão epistêmica da supervisão, na qual procura-se elaborar um saber sobre o caso. Outro aspecto que realça o quanto a presença e a fala dirigida ao outro tem um poder esclarecedor, pode se verificar num fragmento da carta de 20/10/1895, no qual Freud, ao relatar sua satisfação em ter desvelado o problema do funcionamento das neuroses e da consciência, explicita a importância da figura de Fliess para ele: “Se tivesse esperado mais duas semanas para lhe mandar o relatório, tudo teria ficado muito mais claro. No entanto, foi só ao tentar expor o assunto a você que todo ele se tornou evidente para mim. Logo, não poderia ser de outra maneira. Agora não disporei de muito tempo para uma apresentação sistemática.” (Freud apud Masson, 1986, p.147) Aqui fica ressaltada a importância da presença de um outro, que certamente não se trata somente da presença física de Fliess, mas do endereçamento a ele que funciona como um terceiro, o que permite o esclarecimento daquilo que se pensa. Pois, é ao se dirigir a ele que Freud pode se dar conta de um assunto que não lhe é claro, mas que passa ao campo da visibilidade ao supor um olhar deste outro ao que ele pretende desenvolver. Pode-se neste ponto traçar uma analogia com a supervisão, na qual o relato do atendimento permite que se possa esclarecer o que se pensa sobre o caso. Após a chamada auto-análise e a criação da psicanálise propriamente dita, a relação de Freud muda da que ocorre entre mestre e aprendiz, como a que ocorreu com Breuer, para a de colegas que colaboram mutuamente aspirando a serem mestres, como com Fliess, e retorna para a de mestre e discípulo, com o surgimento de demandas de orientações clínicas quanto a casos. Mijolla (1992, p. 117) nos informa que em 1906, Carl Gustav Jung, em sua correspondência com Freud, faz uma solicitação de auxílio na expectativa de ab-reagir uma experiência vivenciada com uma paciente que, em 1909, saberemos tratar-se de Sabina Spielrein, cuja famosa história do envolvimento 28 com Jung tornou-se inclusive mote para livros e filmes. Neste contexto, a noção de supervisão sofre uma alteração, pois note-se que aqui já não mais se trata de uma consulta eminentemente técnica sobre uma direção a ser dada sobre um caso, mas da implicação do praticante na direção da cura sob seus cuidados, envolvido no que Freud denominará em 1910 de contratransferência. Esta, segundo Safouan ([1975] 1980, p. 197), é situada como um fator, que junto com a transferência, ao ser analisado, constitui o que ele define como a função da supervisão. Pois seu aparecimento implica na interrupção da análise. Ainda segundo Mijolla (1992, p.118), em resposta a carta a Jung, em 1909, Freud, envolvido na questão entre Spielrein e Jung (que passou a difamá-la após a ruptura do laço entre eles, por receio de que o caso pudesse denegrir sua reputação, inclusive com Freud), escreve a Jung com condescendência dizendo das dificuldades que ele mesmo teve em relação a alguns tratamentos, dos quais pode se preservar dos efeitos da contratransferência devido “as necessidades imprevistas da vida sob as quais meu trabalho se colocou e o decênio de atraso, em comparação ao senhor, com o qual cheguei à PSA, me preservaram das mesmas aventuras.”(Freud apud Mijolla,1992, p.118). O fato é que Freud não se situava da mesma maneira em relação aos analisantes, como o faziam seus mestres, colegas ou discípulos. Por algum motivo seu desejo não se colocava do mesmo modo, não querendo assumir um lugar de amor que viria a silenciar o que estava colocado como desejo. Como se pode ler em Richebacher (2012, p.149) ele priorizava a continuação da psicanálise após sua morte e para isso considerava que Jung, como católico, poderia salvar a psicanálise do risco de se tornar uma questão semítica e nacionalista. Provavelmente, como lemos em “A história do movimento psicanalítico” (1914), pelo seu estilo de apresentar a psicanálise como uma teoria e técnica nas quais existiam lacunas, abrindo mão da autoridade de chefe de escola, visando estimular a “autoconfiança de trabalhadores intelectuais” e “sua independência prematura do mestre” (Freud [1914] 1976, p.37). Por isso, acabou por ter problemas, pois as condições psicológicas necessárias para construir o próprio percurso intelectual nestes termos são raras, criando muitas vezes condições para desvios quanto à 29 psicanálise que eventualmente poderiam ser evitados. Por isso escreveu sobre as dificuldades próprias à formação em psicanálise, devido ao longo tempo de dedicação necessário, bem como a rigorosa disciplina, além da autodisciplina, tão difíceis de serem encontradas. Freud valorizou a coragem e devoção de pessoas que estavam dispostas a assumir a empreitada num assunto que gerava tanta reserva, o que o fez tolerar de alguns membros, como podemos inferir em relação a Jung, certas situações que não ocorreriam em outros termos. Verifica-se assim que Freud valoriza a iniciativa pessoal e a liberdade de pensamento, contudo é rigoroso no que tange a utilização dos fundamentos da psicanálise, que facilmente pode seguir vias que se afastam de suas premissas, como ocorreu, por exemplo, com a supervisão. Com a criação de instituições oficiais, que tinham por meta preservar a pureza da psicanálise, acabou-se por relegar os princípios da psicanálise ao esquecimento, ou seja, no que se refere a voltá-los para refletir sobre sua implicação neste pilar da própria formação. Freud, decepcionado com o que considerou um fracasso em conseguir que os membros do grupo, que criariam a primeira instituição psicanalítica em 1910, apresentassem entre si um espírito de camaradagem, constatou que a rivalidade era o que se sobrepunha ao intuito da colaboração para o avanço campo psicanalítico, o que o fez afastar-se parcialmente e acompanhar com certa desconfiança o futuro da instituição. Deu-se conta, um pouco mais tarde, que não havia considerado o que a clínica lhe havia ensinado, ou seja, de que uma “rejeição total do conhecimento analítico pode ocorrer sempre que surge uma resistência especialmente forte em qualquer profundidade da mente” (Freud [1914] 1976, p.62), e que o mesmo poderia ocorrer com os analistas, como foi obrigado a constatar. Fator que também pode figurar no trabalho analítico, do qual a supervisão pode indicar a presença. Mas, somente o percurso analítico anterior permitirá a abertura necessária para que, da indicação, se retire alguma consequência efetiva. Pode-se verificar que o encaminhamento de Freud sempre privilegia o que advém do atendimento a seus analisantes, e é esse o critério que destaca 30 na orientação de seus discípulos. O trabalho que desenvolve com Max Graf, que observava o próprio filho desde muito pequeno para coletar dados que pudessem auxiliar no trabalho de investigação da sexualidade infantil, pode nos dar uma idéia disso. O pequeno Hans, como ficou conhecido, desenvolveu uma fobia a cavalos que foi tratada por seu pai sob a orientação de Freud. Este, afirma que sua intenção não é de acompanhar o pai de Hans em suas ansiedades e tentativas de encontrar uma explicação para a fobia, após Graf manifestar sua preocupação e explicações sobre o estado do filho. Tal posicionamento de Freud indica uma primeira orientação que pode ser destacada sobre o direcionamento quanto a este trabalho analítico. Pois considera as manifestações de inquietação de Graf quanto ao quadro do filho inoperantes para a direção da cura, bem como, a teorização antecipatória. E continua: “começaremos por examinar os elementos de que dispomos” “... não é nosso dever ‘compreender’ um caso logo à primeira vista, isso só é possível num estádio posterior...” “Por enquanto deixemos em suspenso nosso julgamento e daremos nossa atenção imparcial a tudo quanto houver a observar” (Freud [1909] 1976 ,p.33-34). Deixando marcada a proposta de privilegiar o material que é trazido, para depois poder construir algo sobre ele. O que se pensa sobre o que pode estar ocorrendo deve ficar relegado para um posterior exame que se dará pela confrontação com o que o material traz. A compreensão deve ser postergada para que a lógica discursiva elucide o que se apresenta como ininteligível. Há também a constatação de Freud de que o estilo como Graf segue no modo de interrogar o que se passa com seu filho segue os moldes de um “inquérito através de suas próprias linhas ao invés de permitir que o garotinho expressasse seus pensamentos” (Freud [1909] 1976, p.73). Ou seja, o que deveria estar sendo considerado como fundamental, a saber, a associação livre do analisante, passa a ser interrompida pelo ímpeto investigativo que diz mais da posição do que interroga do que daquele que associa. Outro aspecto interessante é o que se dá quando o analisante está adiantado em relação ao analista, cuja concepção do que está ocorrendo na análise limita sua capacidade interpretativa. Como quando Graf não entende propriamente o que Hans quer lhe dizer, por considerar apenas um aspecto do 31 conflito que tem em relação a ele, ou seja, o ódio. Deixando de levar em conta o amor, provavelmente influenciado pela interpretação dada anteriormente por Freud em uma consulta a Hans na qual ele estava presente. Nesta parte do texto Freud escreve que o “diálogo que segue...tem de fato mais importância com relação ao progresso do esclarecimento do pai do que em relação ao pequeno paciente”( Freud [1909] 1976, p. 54). Aqui a teoria vem a se adiantar à escuta, propondo uma solução que não considera a fala do analisante, mas a do teórico, resultando numa dificuldade em dar uma direção pertinente ao caso. O último aspecto que será considerado dos direcionamentos dados ao caso do pequeno Hans é o problema que envolve os esclarecimentos dados ao analisante, pois do mesmo modo que Hans ofereceu resistência em aceitar que as mulheres não possuíam pipi, devido ao dano narcísico que naquele momento se produziria, o mesmo pode ocorrer com analistas na medida em que a questão tratada não tenha sido trabalhada anteriormente em sua própria análise. De forma similar, na supervisão, eventuais esclarecimentos podem sofrer o mesmo destino que com Hans, consequentemente a possibilidade de cada um em se beneficiar de uma supervisão estará limitada à condição que o supervisionante possui de interrogar em si mesmo o que a direção da cura que assumiu evoca. O que reforça a importância da análise do analista como primeiro pilar da formação ao qual seguirá a supervisão. 1.2. Supervisão e instituição Seguindo a proposta de Mijolla (1992) de situar algumas relações entre Freud e seus mestres, pares e discípulos, para destacar algumas perspectivas ao longo da história que levantam aspectos a serem considerados no âmbito da supervisão, constatou-se que esta não era desenvolvida de modo sistemático por não haver ainda uma instituição que se preocupasse com a formação dos analistas. Como sabemos por Freud, somente em 1910 o número de adeptos passou a ser relevante a ponto de ser necessária a criação de uma instituição, à qual se deu com o nome de “Associação Psicanalítica Internacional.” Com ela Freud pretendia limitar os abusos a que eram associados o nome da psicanálise e para isso deveria haver uma “sede cuja função seria declarar: ‘Todas essas tolices nada têm a ver com a análise; isso 32 não é psicanálise’” (Freud [1914] 1976, p.57). Vimos que Freud ficou bastante decepcionado com o resultado, mas não deixou de apoiar a proposta. Porém, sempre manteve uma liberdade quanto ao que era promulgado como fundamental pela instituição. Pode-se constatar isso com relação a Bernfeld, como nos relata Safouan(1985, p. 17): “em 1922, ele teve com Freud uma discussão em torno de seu projeto de se instalar em Viena como analista praticante. O grupo berlinense incentiva os analistas, e mais especialmente os iniciantes, a empreender uma análise didática antes de começar sua prática. Bernfeld perguntou a Freud se ele pensava que esta preparação era desejável no seu caso. A resposta não se fez esperar: “É absurdo, diz Freud. Vá em frente. Você certamente vai ter dificuldades. Veremos, quando for o momento, o que se poderá fazer para tirá-lo do embaraço.” Nesta situação Freud não impõe uma injunção de formação, espera que a questão que se apresenta ao praticante possa mobilizá-lo a desvendá-la, indicando deste modo como considera que pode se dar uma efetiva formação. Além de que neste momento já havia publicado o texto sobre a psicologia das massas(1921), que trazia à luz o modo como se constituem as instituições e a as autoridades. Como nos conta Safouan (1985), até por volta de 1920, a formação dos analistas passava principalmente por Freud, que os analisava e os supervisionava sem estar sujeito às exigências institucionais. Freud sempre manteve uma certa autonomia que criava eventualmente algum embaraço nas chamadas “autoridades”, assim denominadas com uma certa ironia (Safouan, 1985, p.16). Depois juntaram-se a ele Abraham, Ferenczi e Federn. O princípio de funcionamento da formação envolvia a constatação da não possibilidade de conduzir análises sem uma análise pessoal, já que a auto-análise não preenchia os requisitos para tal. Com isso os menos experientes acabavam por procurar alguém com mais experiência para se consultarem e se orientarem quanto aos tratamentos sob seus cuidados. Para ordenar tal situação, um grupo de Berlim toma a iniciativa de convidar Hans Sachs para se dedicar especialmente à análise de analistas. Assim, ele se tornou o primeiro analista didata e, como encontrava dificuldade em conduzir análises ao mesmo tempo que supervisionar seus analisantes, procedeu a uma divisão neste processo. 33 Desse modo, estabeleceu que a análise ficasse isenta do processo de ensino, devendo este ser desenvolvido em seminários. A função da supervisão ficou direcionada para as discussões dos casos. Esta situação durou até aproximadamente 1923-24, quando a Comissão de Ensino da Sociedade de Berlim decidiu regulamentar suas atividades. A partir daí a formação passou a consistir na necessidade da análise pessoal, que passa a ter um tempo mínimo, na obrigação de se supervisionar, bem como participar dos seminários de ensino. Deste modo estabelece-se um programa de formação que não deixa de apresentar problemas. No que tange à supervisão ele se coloca principalmente nas duas formas de conceber a supervisão. Uma, na qual a instituição vem se antecipar à iniciativa do sujeito, definindo o caminho a ser seguido para aceder ao título de analista, sendo responsável por ensinar uma técnica da qual estaria excluído o sujeito. Outra, que teria o mérito que visaria integrá-la à experiência analítica através da consideração da contratransferência, com a conseqüência de eludir o eixo do tratamento que reside no desejo do analista, o qual somente será desenvolvido mais tarde por Lacan. A primeira proposta, de acordo como foi desenvolvida por Max Eitington, fundador em 1920 da Policlínica Psicanalítica de Berlim, tinha por objetivo seguir a proposta freudiana apresentada no texto sobre as “Linhas de progresso na terapia psicanalítica” (1919), cujo intuito visava ampliar o campo de atendimento psicanalítico para uma camada mais ampla da população e estabelecer uma proposta de formação para os que queriam tornar-se psicanalistas. Quanto à supervisão, no texto chamado “Relatório sobre a Policlínica Psicanalítica de Berlim” ([1922] 1923, apud Moreau, 2001, p. 44-54), ela é considerada como uma forma de proteger os pacientes dos eventuais prejuízos causados por um analista iniciante e um meio de aprender sobre a técnica psicanalítica tendo por base a idéia de um ensino. Numa outra vertente, há a proposta de Vilma Kovacs que em seu texto, “Análise didática e análise de supervisão” (Kovacs [1936] apud Moreau, 2001, p. 54-62), critica a concepção de supervisão apresentada pelo Instituto de Berlim por não considerar os princípios psicanalíticos para a formação do 34 analista na própria supervisão, tida por ela como praticada de modo superficial, com uma concepção de ensino baseada no aprendizado de uma técnica e, portanto, sem relevância. Ademais, se em seus princípios de formação era fundamental a análise do analista, por outro lado, não se solicitava que fosse mais aprofundada que a do analisante, como passou a ser posteriormente, segundo Balint ([1953] 1990, p. 25) por indicação de Ferenczi. Pela forma particular que envolve sua formação, de não poder ser aprendida unicamente pela leitura ou pela aplicação em um outro, como no caso de uma formação médica, implica em que se convença de uma vida mental inconsciente própria através da experiência do processo em si mesmo através de um outro. Para que o analisante não seja objeto da transferência dos afetos do analista, o que se denominou contratransferência, faz-se necessária uma atitude constante de análise do próprio analista aos efeitos que o discurso do analisante produz nele, no intuito de que eles não entrem em jogo durante o tratamento. A partir destas considerações, Kovacs propõe que a supervisão ocorra ainda durante a análise do analista, pois assim torna-se mais fácil identificar os conflitos que impedem o trabalho do analista. Acrescentando ainda a proposta de que o supervisor seja também o analista didata, por viabilizar uma melhor percepção do momento de finalizar ou dar continuidade à análise do analista de acordo com as dificuldades que surgirem em função dos impasses no tratamento do analisante do analista. Resumamos então as duas posições a respeito da supervisão, como foram apresentadas pelo “Relatório do Comitê Internacional de Formação” (Bribing [1937] apud Moreau, 2001, p. 62-63): - “a supervisão na perspectiva de aprendizagem de uma técnica e de um ensino da psicanálise; -a supervisão na perspectiva mais ampla de uma formação teóricoclínica e da continuação da análise pessoal.” Historicamente a primeira perspectiva levou a melhor e Safouan (1985) se pergunta pelo motivo, desenvolvendo a hipótese de que com a descoberta do câncer de Freud em 1923, produziu um mal-estar entre os analistas, pois 35 ele sustentava em sua pessoa a autoridade que possibilitava distinguir a verdadeira psicanálise da falsa. Com a ameaça de ver o lugar do mestre vazio operou-se uma institucionalização da psicanálise, agindo-se como se ela nunca tivesse existido. Transformando-se, o que apresentava como o cumprimento de um dever, numa “operação policial”, repleta de regras rígidas que acabaram por “transformar em obrigação o que era do domínio da escolha” (Safouan, 1985, p. 21). Deste modo tanto a análise quanto a supervisão passaram a ser passos necessários para obtenção de um título, deixando de lado o detalhe do modo de implicação do sujeito em seu pedido, detalhe que, deve-se convir, neste campo, é nada menos que fundamental. Pois, como poderia se dar ao luxo de entregar-se a uma associação livre na medida em que o título de analista a ser obtido estaria vinculado ao modo como seria avaliado pelo que dissesse a seu didata, bem como pelo seu supervisor? Verificamos que o problema da supervisão passou, gradativamente, de uma prática que partia de uma demanda dos praticantes mobilizada por um desejo, para uma obrigação que, por ser considerada um passo necessário da formação, resultou em ignorar a importância do desejo e da demanda. Aspectos que não eram interrogados, pois, partia-se do princípio de que se tratava de um modo de aprender a aprimorar uma técnica. Quando foi descoberta a implicação daquele que dirige uma cura no modo de operá-la, devido a constatação da contratransferência, a questão ficou de certo modo sem resolução, pendendo entre a proposta de Eitington e Kovacs. Segundo Quinet, a IPA encerrou o debate entre as duas propostas estabelecendo através de regulamentação a “obrigatoriedade de que o supervisor não fosse o analista do candidato, e sim um outro escolhido na lista estabelecida pelos didatas” (2009, p.124). No que tange à supervisão na instituição de orientação lacaniana, que será desenvolvida mais detalhadamente no capítulo seguinte, a questão é reaberta, pois: “A supervisão na Escola lacaniana não é uma prática controlada pela Escola- nem há uma carga horária de supervisão, tampouco se exige que o analista em formação escolha seu supervisor em uma lista de didatas. No entanto, a supervisão não deixa de 36 fazer parte da formação do analista lacaniano. Segundo Lacan, não há prática que prescinda de supervisão (ou controle), e a prática psicanalítica não está fora disso. Se a supervisão não é obrigatória, ela é, no entanto, aconselhável ao analista que se autoriza por si mesmo a receber em análise sujeitos que o demandam. Na escola de Lacan, a supervisão não é imposta, mas se impõe como dever ético; é o analista em formação que escolhe seu supervisor, ficando a seu critério se este deve ou não ser seu analista como supervisor. Isso não significa tampouco que o analista deve se sentir obrigado a aceitar a demanda de supervisão por parte de seus analisantes. ...Por não ser regulamentada, a supervisão não é tutelada pela Escola. Abre-se, assim, a perspectiva da pluralização de supervisores e a responsabilização do analista por sua formação em uma escola que não é o Outro da vigilância e do controle.” (Quinet, 2009, p. 124-125) Evidentemente é possível estender a história da supervisão muito além do que foi elaborado, pode-se recorrer a enorme correspondência de Freud com seus discípulos, na qual trata de vários aspectos que podem elucidar seu posicionamento quanto à supervisão. Talvez a correspondência com Edoardo Weiss (1979) seja a mais extensa nesse sentido, permitindo ter uma idéia de como Freud concebia e orientava uma supervisão. Destaquemos que sua orientação sempre marcava um cuidado em evitar conselhos e, quando os dava, destacava seu caráter de sugestão, não de palavra final. Visava a que o caminho da direção da cura fosse construído pelo analista. Prevenia quanto à ambição terapêutica, sublinhando a proposta da psicanálise como método investigativo no qual a cura vem por acréscimo. Seguiremos, a partir do que se julga fundamental para elaborar as bases conceituais da supervisão. Destacando os impasses levantados na sua história e propondo uma orientação desde a fundamentação freud-lacaniana. 1.3. Conclusão Conclui-se com um resumo dos principais aspectos que foram destacados na história referente à supervisão, que se confunde com a história da própria psicanálise, ao situar as descobertas de alguns fundamentos conceituais partindo das dificuldades que conduziram a eles. Os diversos obstáculos ao trabalho analítico, por poderem se presentificar como impasses para o analista, levando-o a buscar uma supervisão, foram ordenados 37 historicamente. Lembrando que por se tratar de uma práxis que implica em que o analista faça parte do processo para que uma análise ocorra, faz-se necessário levar em conta a transferência, a análise do analista e seu desejo, como Breuer não pode fazê-lo. Com Fliess, levantou-se a importância fundamental de se considerar o outro no processo epistêmico, através do qual, ao lhe dirigir o pensamento, pode-se chegar a esclarecer o que se pensa. Com Jung, ressaltou-se o problema relativo ao fenômeno da contratransferência e seu lugar na supervisão. Com o caso do pequeno Hans e a correspondência com Weiss, foram destacadas algumas concepções e orientações dadas aos analistas, na qualidade de supervisão, sobre os fundamentos para uma direção do tratamento e sobre a limitação da possibilidade de adotar a orientação analítica quando há implicação subjetiva do mesmo. Por fim, foi apresentada a relação da supervisão com a instituição e seus impasses. Vale lembrar que a análise pessoal deve ser considerada como o pilar que, enlaçado ao estudo dos textos podem constituir uma estrutura que sustenta a base necessária à qual deve-se agregar a supervisão. Esta, como o sustentáculo da operação na qual o singular se articula ao universal, constituindo um dos pilares do campo de formação propriamente chamado de psicanalítico. Deste modo se verifica que as três instâncias formadoras estão interligadas, sendo a análise pessoal a base que permite a abertura para o inconsciente constituindo a pedra de toque que viabiliza ao analista identificá-lo em suas infinitas formas de manifestação. O estudo teórico que deve ser permeado pela interrogação que a própria análise permitiu, e que deste modo recoloca a necessidade de um trabalho constante na revisão dos conceitos psicanalíticos e, por fim, a supervisão, que permitirá seguir a partir da experiência do inconsciente na interrogação das análises, conjugando a teoria com a singularidade. 38 CAPÍTULO II 2. DA SUPERVISÃO COMO UM DOS PILARES DA FORMAÇÃO E SEUS OBSTÁCULOS Ao ser desenvolvida a história da supervisão psicanalítica pode-se ressaltar que ela possui uma especificidade que passa a ser melhor verificada ao se identificar suas bases conceituais num contexto histórico nas quais se sustenta. Assim, parte-se do princípio, a ser esclarecido no desenrolar do trabalho, que se trata de uma situação na qual o norte está dado pela formação em psicanálise, que na supervisão implica não em informação, mas construção, a partir dos impasses colocados, de um saber que diz respeito à singularidade de cada caso. Esta, só pode emergir a partir de um descentramento do sujeito, que se dá com o analista ocupando o lugar de semblante de objeto. Neste sentido, o saber deve ser orientado em direção à verdade do sujeito sempre como meio dita. Para que isso ocorra há que se situar a partir da transferência, a qual dará o norteamento para que o discurso analítico tenha lugar em ato, possibilitando uma transmissão fundada numa ética. Tal direção pode ser estabelecida no avesso de um ensino de uma técnica, cujo saber apaga a posição ética do sujeito, por antecipar um sentido que não corresponde ao que advém da fala do supervisionante desde a elaboração que este faz do fato clínico. Como uma breve retomada, vale lembrar que a supervisão em psicanálise possui uma especificidade própria, em virtude de ser construída desde as premissas conceituais psicanalíticas. Portanto, supervisão não concerne ao que costumeiramente poderia ser associado a controle, ou à inspeção de uma tarefa, para garantir um andar na linha, por exemplo, da técnica estabelecida pelo supervisor. Pois, ao contrário, trata-se de cernir uma lugar que permita ao supervisionante tirar as conseqüências desde sua própria experiência, do que foi seu ato. Para tanto, é preciso inicialmente que o analisante, que a partir de sua análise, decide por se tornar analista, nesta 39 prática encontre em seu percurso dificuldades de tal ordem que ele julgue suficientes para levá-lo a procurar por um analista, o qual ele considere capaz de orientá-lo nos impasses que surgem desde os casos que assume. Este, será denominado de supervisor, cabendo a ele interrogar, utilizando para isso as categorias próprias à psicanálise, aquilo que está em jogo, tanto no pedido, como na orientação quanto ao caso. Pois, todas as suposições quanto ao saber, à grande experiência ou ao modo de operar do supervisor são modalidades de engajamento que visam obturar ao que o analista deve estar sempre aberto, que é ao novo, ao não entendido, logo, àquilo que não tem um saber elaborado prévio. Sendo sua função, justamente, a de propiciar a possibilidade da elaboração de uma teoria a cada caso, implicando o praticante neste trabalho, do contrário, o ensino de uma técnica seria suficiente. Assim, contrariamente ao que é proposto como sendo a tarefa do supervisor, como, por exemplo, apresentar-se como um modelo a ser seguido, compete a ele favorecer uma abertura, de forma que o supervisionante encontre os recursos, situados na experiência clínica, para seguir num trabalho psicanalítico. Pois, como nos diz Safouan: “a supervisão não ensina nada àqueles que não têm nada a aprender” (2006, p.279). Obviamente, existe uma série de dificuldades que obstruem a direção a ser dada num trabalho psicanalítico, é aí justamente, que pode ser favorável a ocorrência de um trabalho de supervisão. Pode-se ter uma idéia da dificuldade da tarefa, ao verificar o modo específico como Freud deixa constatar em sua forma de conceber o psíquico, como o que “é tão único e singular, que nenhuma comparação pode refletir sua natureza” (Freud [1919] 1976, p.203). Propõe que a análise é um processo que implica em separação, divisão, das atividades mentais até chegar a seus componentes. Para isso é preciso que o tratamento analítico ocorra “na medida do possível, sob privação – num estado de abstinência” (Freud [1919] 1976, p.205). Tal abstenção diz respeito a não intervenção pela escolha de um dos pólos do conflito psíquico que foi supostamente silenciado pelo sintoma. Ao analista, na medida em que passa a fazer parte do sintoma que lhe é dirigido pela transferência, cabe abster-se de abrandá-lo oferecendo qualquer espécie de síntese, pois esta se dá automaticamente pela ação do eu. Como se trata de descentramento, a direção 40 a ser dada é a de manter uma abertura que permita a emergência do que Freud chamou de inconsciente, dando lugar para que o que é único e singular possa se manifestar. Para isso, conta-se com a abstinência, o que vai contra o movimento do eu, que se apresenta imediatamente disposto a oferecer-se como solução. Esta, sendo proveniente do eu, necessariamente desconhecerá o modo particular como cada um sustenta sua estrutura psíquica, cuja determinação procede de raízes pulsionais que mobilizam as construções lógicas, ordenadas de modo a não permitir que apareçam como determinantes. Determinantes que, segundo Leclaire, precisam ser consideradas no trabalho do analista como uma das exigências quanto à sua formação, a qual deve ser “sensível as potentes determinações das condutas humanas, aquelas que trabalham sem que o sujeito saiba: a saber, as raízes irracionais que animam as construções lógicas...”(1991, p.18). Neste ponto vale conjugar o estádio do espelho em Lacan ( [1945]1998, p.96-103) para dar os fundamentos do que se entende por eu, este será fruto do narcisismo, operador que permite a constituição do eu pela identificação com sua imagem no espelho. Para ilustrar este momento constituinte, Lacan nos remete à uma cena comum, na qual a mãe com seu filho no colo, diante de um espelho, identifica a imagem da criança como sendo a criança. Assim, o eu se antecipa numa forma a partir do autoerotismo que, animado pelo ideal do eu, - o qual nada mais é que o ideal do outro (Quinet, 2012, p.25)- o leva a se identificar com o que o outro espera. Tal processo se dá em função da dívida que tem em relação a este outro, e tem como resultado a tomada de uma imagem pelo que se é. Deste modo, o seu eu está constituído pela relação ao outro, função que de modo geral é executada pela mãe, que pelo intermédio da linguagem, campo do Outro, estabelece as diretrizes simbólicas que montam a cena que constitui o campo da visão. Há necessariamente uma confusão que se estabelece neste ponto, pois, a imagem que a mãe nomeia como sendo a criança, não é ela. Trata-se de uma imagem, cujo estatuto estará permeado pela palavra, o que dará um norte para as pulsões autoeróticas, constituindo um objeto ideal que sempre estará presente como imagem do eu especular. A partir disso, todo objeto será visto através deste eu ideal. Este permite uma constituição que forma uma ilusão de totalidade antecipatória, desconhecendo 41 o que era seu corpo até então, ou seja, um corpo fragmentado pelas pulsões. Quinet propõe um algoritmo que permite representar sinteticamente este “drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação – e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identificação espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade que chamaremos de ortopédica- e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental.” (Lacan [1945]1998, p.100), Situando o eu como um intruso que vem se alojar “no lugar preparado para o sujeito sem ele o ocupe”, eu/($) (2012, p.15). Uma vez constituído o eu como esta estrutura rígida que opera no aparelho psíquico, ele estabelece um modo de ver o mundo que passa pela lógica especular, na qual a visão de mundo passa pelo reflexo de si mesmo, que desconhece ser oriundo de um “dinamismo libidinal... e de uma estrutura ontológica do mundo humano que se insere em nossas reflexões sobre o conhecimento paranóico” (Lacan, 1998 [1945] p.97). Deste modo a presença do eu será o resultado de uma constituição libidinal que ordena o conhecimento do mundo a partir de uma referência própria, por isso denominado de conhecimento paranóico. 2.1. Dos obstáculos Desde tal forma de funcionamento, na qual a projeção dos próprios impulsos no mundo externo (espelho) propicia a criação de teorias (eu) para entendê-lo, verifica-se que tal modo de proceder só é viável em virtude de que a constituição de si comporta a relação com um outro, que vem representar de maneira particular os traços fornecidos pela civilização. Resultando num modo de ser que constitui um eu tendo como saldo a alienação do sujeito. Assim, constata-se a presença, em vários graus, desses modos de interpretar sua posição no mundo, recurso ao qual se lança mão para situar-se na vida, que serve como critério para estabelecer padrões de compreensão do outro, de si e do mundo. Portanto, há a necessidade de um esforço contínuo e grande disciplina para que se possa sustentar um posicionamento que comporte uma abertura suficiente para assimilar uma perspectiva diferente em relação à própria sem tentar readquirir um equilíbrio pautado na própria experiência, de modo a aproveitar as novas noções surgidas (Lacan [1954]1987, p. 58). 42 O julgar faz parte do modo de operar do ser humano, como é destacado por Freud em seu artigo sobre “A negativa” ([1925] 1976) e, normalmente é primeiramente efetuado desde o princípio do prazer. O princípio de realidade será instituído secundariamente como um prolongamento do princípio do prazer, marcando que o que é diferente ou o que é estranho ao eu sempre exigirá um trabalho para ser absorvido. Desde tal perspectiva, seu critério é sempre subjetivo, portanto é necessária uma grande disciplina para dialetizá-lo. Dificilmente haveria discordância entre qualquer profissional da área de saúde mental, ou mesmo de qualquer pessoa em geral, da necessidade de considerar o contexto em que se encontra determinada pessoa ou texto, para que seja possível uma esperada isenção ao julgar o que se passa em determinada situação ou leitura. Constata-se, porém, que é muito mais fácil julgar como um preceito evidente do que efetivamente operar desde tal premissa. Freud no texto “O mal-estar na civilização” (1930), manifesta a dificuldade que é poder estabelecer o grau e os critérios de felicidade utilizados pelos homens de outra civilização ou outra época. O que pode ser ampliado para qualquer situação que implique em avaliar um estado subjetivo qualquer, ou mesmo os critérios utilizados pelo próprio analisante em relação a sua história, pois, “sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas – isto é, nos colocarmos, com nossas próprias necessidades e sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade. Esse método de examinar as coisas, que parece objetivo por ignorar as variações da sensibilidade subjetiva, é, naturalmente, o mais subjetivo de todos.” (Freud [1930] 1976, p.108) Note-se que tais perspectivas podem incluir o que diz respeito ao cotidiano dos relatos de atendimentos nas supervisões. Nelas o supervisionante conta uma história sobre o seu atendimento e cabe ressaltar que o seu modo de conceber a história do caso determinará o modo como figurará nela. Como toda história é permeada pelo eu, cuja tendência é produzir um relato coerente de forma a eliminar a incongruências, falhas, equívocos, 43 vacilações, cabe sempre perguntar sobre sua ascendência sobre as atividades que realiza. Para demonstrar como isso acontece, pode-se recorrer ao texto de Koyré, situado nos “Estudos do pensamento científico”(1972), no intuito elucidativo. Nele concebe-se como título, “Traduttore- traditore”, a conhecida associação entre tradução e o seu inexorável resultado em relação ao texto original, traição. Onde expõe a necessidade de um cuidado redobrado na tradução das obras clássicas em virtude da dificuldade própria de qualquer tradução, cujo erro implica em sérias conseqüências, como a de “substituir, involuntariamente, por nossas concepções e nossos hábitos, concepções e hábitos, totalmente diferentes do autor” (Koyré [1972] 1982, p.256-258). Ao não situá-la a partir de uma crítica rigorosa corre-se o risco que produzir deturpações como na tradução da obra de Copérnico, cujo título era “Das revoluções das órbitas celestes”, e passou a ser “Dos movimentos circulares dos corpos celestes”. Provavelmente não se trate de uma modificação intencional por parte do tradutor, cujo intuito é ser o mais fiel possível as idéias do autor trabalhado, mas a substituição de órbita por corpo introduz um modo de entendimento da obra que induz o leitor ao erro. Pois Copérnico estava apresentando uma conceituação nova que passou a ser desconsiderada em virtude da limitação dos critérios do tradutor, que ao não alcançar a lógica do texto, imprimiu seu próprio entendimento sobre o tema. Outro exemplo trazido por Koyré, diz respeito à tradução de um texto de Galileu, que, ao ser traduzido para o inglês, foi acrescido da palavra ‘experiência’, que para surpresa de todos, não existe no texto original. Galileu refere sua descoberta quanto às propriedades da queda e do arremesso, mas não através da experiência. Evidentemente esta palavra é acrescida devido ao fato de que o tradutor não podia conceber que tal descoberta poderia se dar sem a execução de uma experiência. Este acréscimo compreende Galileu como se fosse um empirista, o que induz a um desvio do modo como concebia a ciência e da lógica de seu pensamento. A analogia com o que ocorre na supervisão apresenta limitações, mas pode ser elucidativa no que se refere à compreensão de uma situação na qual 44 há um acréscimo de saber por parte de um tradutor, ou, similarmente, na de um analista, que por não estar aberto à lógica discursiva que se apresenta, antecipa um saber. Cuja característica reside em pertencer unicamente àquele que traduz ou escuta, por não estar à altura da tarefa que lhe compete naquele momento. Não que seja necessário supor uma má fé, que eventualmente pode existir em tal situação, mas uma limitação ligada aos preconceitos do eu. Estes preconceitos geram como resultado um falseamento do texto no caso do tradutor. Ao se tratar de um analista opera-se uma obturação do trabalho de permitir a emergência da singularidade daquele que fala na medida em que o compreende desde seu próprio eu. Nesta situação caberia à supervisão permitir ao praticante interrogar seu lugar na direção da cura, de modo a propiciar situar-se desde a perspectiva da lógica do texto. Pois todo texto falado ou escrito se dirige a alguém com uma determinada intenção, a qual comporta também uma dimensão inconsciente, que a lógica do texto pode destacar. Para tanto, é preciso ocupar, na qualidade de semblante, o lugar de a quem o texto se dirige para poder ser situado por ele e responder a partir dele, fora dele. Note-se que o “fora”, não indica que que haja desimplicação por parte daquele a quem o texto se dirige, mas, cabe a ele destacar a dimensão do Outro, enquanto campo da linguagem, que, portanto, o implica, marcando a presença de um desejo. Um outro modo de manifestação da presença do eu ocorre através do conhecimento que, construído “a priori”, por não partir da experiência clínica, tão cara a Freud, corre o risco de desprezar o que se constata, por não fazer parte do repertório conceitual construído. Um exemplo disso pode ser encontrado na História do Movimento Psicanalítico (1972 [1914]), no qual Freud verifica que os achados psicanalíticos sobre a existência da sexualidade infantil surpreendiam menos pela sua evidência, passível de ser observada em crianças, do que pela preocupação em torná-los irrelevantes. Menciona então os resultados diferentes a que chegou C. G. Jung, que procedeu do seguinte modo: “se forma primeiro uma concepção teórica da natureza do instinto sexual e procura-se então explicar a vida das crianças a partir dessa base” (Freud [1974] 1914, p.29). O esforço requerido para não antecipar um sentido é realmente grande, por ir contra a natureza do eu, que não deve entrar na 45 partida analítica sob o risco de produzir uma resposta ao sujeito ignorando sua singularidade. Manter tal direção na supervisão, ao interrogar constantemente o modo como se fundamenta uma práxis a partir da experiência analítica, não deixa de ser uma das funções da supervisão. Pois, a função de síntese do eu, que utiliza como referência as próprias impressões, não deixa nunca de operar, sendo necessário um trabalho no sentido da análise, portanto, na direção contrária a da síntese, que se institui a cada vez. A presença do eu pode também ser encontrada no que é com freqüência procurado por aquele que pretende com a supervisão vir a ter uma melhor “compreensão” dos analisantes. O que aparece neste tipo de pedido remete a uma concepção que vale a pena ser interrogada, pois aquele que procura compreender a partir de uma empatia que comporta um sentido, certamente não se deu conta de se sustentar em uma premissa que supõe a possibilidade de transparência do outro. Deste modo, ignora que o sentido da compreensão se dá a partir de “fundamentos radicais de não-senso” sobre os quais se fundam os “fatos subjetivos” (Lacan, 10/11/1967). Assim, seria bem mais a não compreensão que poderia levar a ordenar de modo mais preciso a experiência propriamente analítica. Pois, ao se propiciar a compreensão abre-se um caminho para que a questão se apague, com isso desorientando aquele que procura, ao lhe dar um sentido ao qual ele se apegará para evitar o que poderia encontrar (Lacan [1969] 2003, p. 379). A compreensão e o saber, desde esta perspectiva, vêm a estabelecer uma espécie de barreira de proteção contra o que no cotidiano da clínica se manifesta como angústia, como uma forma de evitá-la. Esta, costuma aparecer com certa freqüência naqueles que se dedicam ao trabalho analítico, quando o praticante de algum modo se sente concernido pelo que se presentifica a partir do discurso do analisante. Lacan ([1960-1961] 1992, p.354), no que tange à aparição da angústia do analista na análise que este dirige, é categórico, ela não deve entrar em jogo na análise, por indicar a presença do ser do analista. Esclarecendo que não é porque a angústia do analista foi superada em sua análise que não emergirá durante a condução de um tratamento. E, neste momento, o que terá valor será o ponto de conseqüência a que o analista está com seu desejo, que se não operar, permitirá que surja o sinal de angústia ou a 46 angústia propriamente, por corresponder ao que o eu espera que não seja tocado, e que é avisado pelo sinal. A recusa em responder ao sinal de angústia pelo qual é chamado, deixando em aberto o lugar desde onde é convocado, permite que emerja a possibilidade de verificar desde onde surge tal sinal, ao qual o sujeito se apega para não saber nada do objeto que o causa. Uma forma de responder diante das situações que a clínica apresenta, quando não se sustenta uma práxis de forma autêntica, tende a operar desde o exercício de um poder. Este se coloca na medida em que, por não dirigir a cura desde os princípios psicanalíticos que permitem tratar o outro como um sujeito, trata-lo-á como alguém que precisa ser curado, e que para tanto deve seguir os passos estabelecidos pelo mestre que tem o poder de curar. Impondo seu modo para que tudo corra da melhor maneira, mas..., para quem? Evidentemente, para o praticante. Tal forma de exercício aparece, por exemplo, quando, ao tentar seguir rigorosamente as orientações dadas por Freud em seus textos, esperando que o analisante siga a regra analítica e, este, na medida em que supostamente não o faz, é repreendido ou submetido a uma tentativa de convencimento, por não estar de acordo. Portanto, nesta situação, há o esquecimento que cabe ao psicanalista dirigir o tratamento e não a consciência (Lacan [1958] 1998, p. 592). A aparência de obviedade não deve ser critério para descartar a importância de tal fato, pois, o campo da dificuldade aparece no particular do cotidiano da clínica. Na qual o mal-estar que eventualmente aparece no supervisionante está diretamente relacionado a tal prática. A proposta de um trabalho de estabelecimento dos fundamentos da supervisão em psicanálise, para em seguida estendê-lo para o espaço hospitalar, envolve a necessidade de considerar alguns aspectos que concernem à especificidade desta práxis para poder situar posteriormente seus princípios. Para tanto, apresentou-se a supervisão como um dos pilares da formação, que juntamente com o estudo dos textos fundamentais, engloba também a análise pessoal. Este aspecto é primordial para quem pretende trabalhar com psicanálise, pois, como foi desenvolvido no capítulo anterior, só ao passar por um processo analítico e poder ser tocado pelo que concerne ao 47 inconsciente é que se viabiliza a possibilidade de avançar no atendimento a analisantes, que não irão além do percurso que seus analistas seguiram em sua análise pessoal. Aqui já se marca uma consideração que merece um esclarecimento, pois o que justifica uma afirmação como essa? Por que o estudo dos textos não seria suficiente? Por que uma simples orientação técnica não teria a eficiência esperada? Um aspecto que merece ser considerado quanto à necessidade de um trabalho analítico para aquele que pretende dispor-se a psicanalisar, é a condição de que não é possível saber de si a não ser pelo outro. Assim, para não interferir indevidamente no trabalho do analisante é preciso estar advertido do que diz respeito à própria subjetividade, que deve estar fora da partida analítica, pelo menos no que tange as intervenções do analista. Para poder identificar tal subjetividade é preciso lançar mão de uma análise pessoal, pois o saber sobre si é impossível sem que intervenha a dimensão do outro. A proposta de uma auto-análise não pode vir a suprir a condição de quem pretenda trabalhar como psicanalista, como Freud explicitamente desenvolve na carta 14/11/1897 onde escreve a Fliess: “Minha auto-análise ainda se encontra interrompida, e compreendi qual o motivo. Só consigo analisar-me com o auxílio do conhecimento adquirido objetivamente (como observador). A verdadeira auto-análise é impossível; não fosse assim, não haveria nenhuma doença [neurótica]. Visto que ainda encontro alguns enigmas em meus pacientes, eles só terão que me apoiar, a mim também, na minha auto-análise.” (Freud, 1950 [1892-1889] 1977, p. 366) Note-se que Freud considera que há a necessidade de um outro para que se possa esclarecer o que ocorre com ele, deste modo retira-se qualquer tentativa de introspecção como um meio de análise. Além disso, fica evidente que somente pode desvendar os enigmas dos casos sob seus cuidados na medida em que sua análise avance. Na última frase da citação da carta de Freud, ele diz encontrar enigmas nos casos de seus analisantes e que estes somente poderão ser esclarecidos na medida em que análise pessoal do analista avance de modo a poder acompanhar até onde vai o analisante. Vale ressaltar que tal proposta não quer dizer que a própria análise esclarece o que 48 se passa com o outro, no caso, o analisante. Pois, tal interpretação levaria à uma concepção na qual o que do outro toca ao analista, será esclarecido desde a experiência vivida em análise pelo analista, o que seria uma contradição com a idéia de descentramento do sujeito. O que a análise viabiliza é que a abstinência do analista, ao abrir mão de seu eu, dando lugar para que o que vem do analisante, possibilite que a formulação de uma questão pelo sujeito venha a ser interrogada de forma a permitir que o modo de constituição de seu ser emerja, desde que o sujeito possa ser posto em questão. Para tanto é preciso que o analista esteja aberto para receber o que vem do outro, desde uma perspectiva que não implique seu ser. Desde modo a luz que advém da fala do analisante não produzirá um fechamento da abertura, por poder suportar a presença do outro, como outro radicalmente Outro, sem ter que fechar os olhos diante do que se forma como imagem pela palavra, que se apresenta como diferente do eu do analista. Como se poderá verificar no capítulo seguinte, no qual o eu de Freud, em seu sonho denominado de “ Injeção de Irma”, diante da visão do que havia em sua garganta, se decompõe, por naquele momento, se deparar com um quadro que o interroga em seu íntimo, ou seja, no modo como quer ser visto pelo outro. Por não poder operar desde uma premissa que leve em conta o outro, verifica-se que a auto-análise traz em seu bojo uma concepção que retira a necessidade da presença do outro. Este, pela sua presença, marca uma diferença em relação ao eu que não permite a constituição do um como todo, totalidade que eliminaria a diferença. Ou seja, o eu só advém como aparência de totalidade na medida em que desconhece sua alienação ao outro, e, vale ressaltar, nenhuma inclusão do outro no eu constituirá uma totalidade, já que ao outro também falta o que poderia constituir o eu como um conjunto fechado. Como podemos encontrar em Quinet (2012), há cinco modalidades de outro em Lacan, cada qual tendo uma função específica. Para o que nos interessa, destaque-se que a presença do outro é fundamental, pois “não há sujeito sem outro”, consideração que a auto-análise tende a ocultar. Lacan estabelece uma diferenciação do pequeno outro, tratado como semelhante, e o Outro iniciado com letra maiúscula, simbolizado por A, Autre (outro em francês) que representa o campo do simbólico, este permite e 49 organiza as relações entre os semelhantes. Este Outro, como campo da linguagem, engloba o que seria o código. Código que é utilizado para que o ser falante se represente como alguém para si mesmo e para o outro. O problema é que o ‘si’ só passa a existir a partir do Outro, representado pelo outro. A mensagem que é emitida, só toma seu sentido a partir do momento que retorna através do Outro para o sujeito, que, caso contrário, fica ensimesmado, numa enfatuação que não lhe permite ver desde o lugar de onde olha, o que, além de marcar a divisão do sujeito, é estruturalmente impossível sem que para tal tarefa se lance mão de um outro. O que se constata no cotidiano, pelo incômodo que pode ser causado pelo olhar do outro que vê no sujeito o que ele não enxerga. É na medida em que há um outro que vê, por se situar em uma perspectiva diferente, e diz o que enxerga, que se pode produzir um incômodo. Já que, normalmente, não se quer saber do que se encontra ali. E o que se encontra aí? A causa, que está atrás como a cauda, esta, na condição de não ser vista, pode permanecer como álibi para que o sujeito continue a insistir em responder sintomaticamente onde o ato deveria advir. A possibilidade aberta pela escuta psicanalítica só se viabiliza a partir de uma experiência pessoal, resultado do trabalho de uma análise, que poderá propiciar que aquele que a procura por um sintoma, após ter se submetido a tal processo decida por ofertar a outras pessoas a possibilidade de se analisarem. Mesmo que o motivo da procura seja tornar-se analista, não deixa de envolver a idéia de sintoma, pois, querer ser analista traz nesta demanda um dado a ser analisado, já que o “querer ser” implica na necessidade de ser a partir de um outro, que pode estar perfeitamente representado no analisante, o qual deixará de ser escutado pelo praticante na medida em que este espere um reconhecimento. Nota-se com isso que o motor do trabalho analítico não reside no desejo de ser analista, mas no que Lacan conceituou como o “desejo do analista”, resultante do trabalho de análise que indica a passagem de psicanalisante a analista. Tal desejo viabiliza sair do círculo da demanda, permitindo dar uma resposta que não se apóie na resposta estereotipada da fantasia, pois ela foi atravessada ao se desvelar o modo como se constituiu um Outro, ao qual se atribui uma falta, à qual se oferece como sendo o objeto que poderia obturá-la. Deste modo pode emergir o desejo do analista, como um 50 operador que permite manter uma possibilidade de abertura ao que se apresenta como um fechamento pela via da demanda, mantendo a direção aberta pela queda do Sujeito Suposto Saber, a uma escuta que privilegie a singularidade de cada analisante, constituindo um saber a partir de um semidizer e não um saber que antecipa um sentido ao saber supostamente de que sujeito se trata. Ao finalizar seu trabalho de análise, no qual se tratou de questões referentes a própria vida, a escola lacaniana propicia, a quem se disponha, um lugar para repassar a alguns participantes da escola a experiência do que foi sua própria análise. Tal proposta tem o intuito de contribuir no sentido de esclarecer o que se sucedeu nesta passagem. A este procedimento dá-se o nome de passe (Quinet, 2003). Leclaire (1991), a partir da proposta lacaniana do passe, apresenta o que considera uma terceira modalidade de supervisão, que diferentemente do ensino de uma técnica, ou da continuação da análise, relaciona o passe ao desejo do analista. Este, na qualidade se ter emergido da análise do analista, colocando o desejo de retomar a experiência do inconsciente com um outro. A supervisão viria a permitir situar em que condições este desejo opera na clínica. Como o sintoma vem no lugar de um ato que não se realizou, a partir de uma análise, a procrastinação pelo pensamento ou a encenação no domínio do corpo da antecipação do que viria a se realizar, cedem lugar a uma realização efetiva. O ato analítico, que pressupõe o desejo do analista, vem proporcionar ao que se encontra na posição analisante a que possa vir situar o objeto causa do desejo no lugar do analista, vindo por sua vez a colocar-se em sua divisão de sujeito. Assim, o analista vem ocupar como semblante o lugar do objeto pulsional de forma a se apagar como sujeito, e, deste modo, o sujeito pode emergir em sua divisão, causada pelo objeto, constituindo sua fantasia, figurada pelo matema S barrado punção de a ($<>a). A supervisão em psicanálise toma justamente neste ponto sua orientação, pois, onde se esperava que o ato analítico propiciasse o corte, - por onde se viabilizaria a queda do Sujeito Suposto Saber, com a conseqüente ejeção do analista como objeto decaído, - este pode não ocorrer. O que 51 eventualmente leva ao surgimento de um curto-circuito propiciado pela passagem ao ato ou pelo acting-out. Modalidades de ato que se apóiam em um dos pólos da fantasia do analista. A supervisão pode operar como um meio através do qual o analista venha a reconhecer a diferença entre estas possibilidades, podendo verificar desde onde se sustentou seu ato. Note-se que, independentemente da experiência clínica do analista, este não deixa de ter um eu, o qual, constantemente, está tentando impor seu domínio de modo a suturar o sujeito barrado, lembremos o algoritmo que sintetiza tal dinâmica, eu/($). Deste modo a experiência não de dá de uma vez por todas, mas a cada vez, de novo. Portanto, ninguém está em condições de dizer que opera sempre, desde o discurso analítico, existem pontos cegos que podem ser destacados a partir de uma visão desde outra perspectiva, que pode ser obtida em uma supervisão. Sustentado o motivo que afirma da necessidade de que para o exercício de uma análise esteja implícita a passagem por um tratamento analítico, verifica-se que é somente por uma experiência pessoal que se faz possível abrir mão da sustentação de um ato que não esteja pautado na fantasia do praticante. O ato, ao ser fundamentado no desejo do analista, abre um caminho específico que concerne propriamente ao que se pode chamar psicanálise. Para que ele possa ocorrer é preciso que, no lugar onde aparece a angústia, que normalmente leva a uma nova tentativa de recalque, haja um passo que abra a via para o desejo. Para tanto, é preciso considerar o modo como se é tomado na transferência, pois só se é ouvido deste lugar que imputa um ser, para intervir a partir da falta, abrindo o caminho para a interrogação do ser. 2.2. Conclusão Verificou-se que a supervisão se institui na qualidade de pilar da formação em psicanálise como um passo segundo, dado por aquele que em sua análise foi tocado pelo inconsciente. Cabe ao analista a decisão por procurar uma supervisão, que, se não é imposta, porém é desejável. Já que ela tem uma dupla função, que reside em proporcionar a oportunidade de poder articular o particular da clínica com o universal da teoria, bem como permitir 52 que o praticante possa situar um olhar que comporte a possibilidade de verificar o modo como opera o discurso psicanalítico. Constatou-se que desde o modo de operar do praticante, este pode se deparar com situações que obstaculizam sustentar uma práxis desde os fundamentos concernentes à psicanálise, as quais estão relacionadas: aos preconceitos do eu, que antecipam um sentido; à aplicação da teoria à prática, resultando em uma desconsideração da experiência; à proposta da compreensão, como um modo de se colocar no lugar do outro, o que equivale praticamente torná-lo irrelevante; à construção de barreiras para evitar a angústia, como um modo de não se haver com o desejo; ao exercício de um poder, quando o ato não se sustenta de forma autêntica; à auto-análise como uma das formas de não considerar o outro; e à vasta problemática que se coloca nesta relação ao outro que desconhece a diferença com o Outro, campo do simbólico, que permite interrogar o modo como o ser de cada um se constitui a partir da divisão do sujeito; à angústia do analista, ao presentificar seu ser; aos simulacros do ato analítico, que por se sustentarem em um dos polos da fantasia, presenciam-se como passagem ao ato ou acting-out. Todos estes aspectos não podem ser, uma vez enunciados, dados por aprendidos. Diferentemente da ciência, que pode se dar ao luxo de esquecer o modo como cada conceito foi construído, cabe a cada um, a cada vez reinventar a psicanálise para cada situação, sendo constantemente pressionado pela forma de estruturação do psiquismo que visa eliminar a diferença. Provavelmente por isso, como nos relembra Cottet (1984, p.18), Freud dizia em carta a Binswanger, que não há nada para o que o homem, por sua organização, seja menos apto que à psicanálise. A supervisão pode permitir, a quem se dispuser a se deixar interrogar por sua práxis, um modo de verificar o ponto de conseqüência de seu desejo em relação à causa analítica. Para apresentar a psicanálise ao mundo, Freud escolheu um sonho denominado de “Injeção de Irma” ([1900] 1974) para estabecer o paradigma da interpretação dos sonhos. Irma era uma analisante cujo tratamento não caminhava muito bem, e Freud considerava que o motivo da dificuldade residia em ela não aceitar a solução que ele propunha. No sonho, quando diante da 53 visão da cavidade bucal de Irma, ele fica horrorizado pela coisa que se apresenta diante dele, e desaparece para buscar auxílio em pessoas que acabam por dar respostas tolas, que não permitem que ele possa vir a elucidar o que se passa no caso dela. Assim, diante de um fato clínico que o angustia, chama pelo Dr. M., o qual acompanhado de outros colegas, representantes do saber médico da época, não tem a resposta. Esta, se encontra na própria palavra de Freud, que para prosseguir, já não era inteiramente ele, precisou apagar-se enquanto eu para dar lugar ao sujeito do inconsciente, passo que precisa ser dado por cada um que se aventure por esta seara, dispondo-se ao trabalho com o inconsciente. Tal decisão de um sujeito certamente encontrará impasses, cujo ultrapassamento implica na necessária abertura à retomada da experiência do inconsciente, a qual se dá a cada vez, e implica em que o desejo do analista esteja presente, caso contrário, a tendência natural será o esquecimento do que esta experiência desvela. O estabelecimento de uma analogia entre o sonho de Freud e a supervisão pode se dar pela angústia que eventualmente surge diante do fato clínico, a procura pelo saber sobre o caso e a solução que se encontra na palavra que diz do caso, como será desenvolvido a seguir. 54 CAPÍTULO III 3. “ CHAMO IMEDIATAMENTE O DR. M.” O presente capítulo visa desenvolver o conceito de supervisão a partir do sonho da Injeção de Irma, ao ressaltar a frase descrita no sonho: “chamo imediatamente o Dr. M”. Reconhece-se nesta, a busca de Freud por um saber sobre a condução do caso clínico. Busca-se, assim, ao longo do capítulo, desdobrar diferentes perspectivas sobre a supervisão a partir da análise deste sonho. Indica-se, fundamentalmente, o modo como ele expressa o deslocamento de Freud de um apelo ao mestre e à ciência para a pergunta pelo desejo. Movimento este análogo ao que se espera em um percurso de supervisão clínica no contexto da formação de analistas. 3.1. Introdução A supervisão em psicanálise passou a ser gradualmente considerada na história como um dos três pilares da formação psicanalítica, juntamente com a própria análise e o estudo de textos dos mestres. Inicialmente, como foi visto, era exercida como uma conversa amigável para tratar de questões relativas aos impasses que surgiam no trabalho com a clínica. Um dos primeiros supervisionantes da história da psicanálise, Stekel, ao finalizar seu tratamento com Freud, solicitou a ele que pudessem continuar se encontrando com o intuito de discutir sobre a direção da cura de seus pacientes. De fala informal, passou a lugar de formação institucional obrigatória com a criação do Instituto de Berlim, que a tornou uma atividade que necessariamente deveria fazer parte da formação do analista. Com a escola lacaniana tal atividade, apesar de deixar de ser exigida e controlada institucionalmente, permaneceu como um ponto crucial na formação, sendo exercida de modo sistemático. Tal fato marca que o lugar da supervisão está assegurado como base de formação. Porém seu estatuto segue indefinido: não 55 se trata somente de um ensino teórico, nem unicamente da transmissão de uma técnica; situa-se propriamente na interseção dos dois campos, enlaçados no geral da teoria interrogada pelo singular da clínica. O que chama a atenção quanto a este fundamento da formação psicanalítica é a produção textual relativamente limitada quanto a um tema básico. Neste sentido, vale retomá-lo procurando situar sua função a partir da conceituação psicanalítica. Podemos, com esse intuito, situá-lo como fazendo parte do momento de criação da psicanálise, mais especificamente, no sonho em que Freud diz ter descoberto a significação dos mesmos. 3.2. O pedido de supervisão O sonho da “Injeção de Irma”, que consta na “Interpretação dos sonhos” (Freud [1900] 1972) como “um sonho exemplar”, pode ser denominado de sonho inaugural da psicanálise, pois foi a partir dele que Freud diz ter chegado à conclusão de que um sonho é uma realização de desejo. Ele chega a manifestar sua vontade de que uma placa fosse escrita no frontispício da casa onde teve o sonho. Nela deveriam constar os seguintes dizeres: “Aqui, em 24 de junho de 1895, o segredo dos sonhos revelou-se ao Dr. Freud”. Esse também é o sonho que marca uma virada de Freud com relação a seu trabalho anterior, o “Projeto para uma Psicologia Científica” (Freud [1895] 1972), no qual pretendia elaborar uma psicologia para neurólogos, de acordo com a conceituação científica da época. Para criar a psicanálise precisará abandonar esta filiação e metaforizar o trabalho do projeto. Faz isso ao criar o inconsciente, que é composto de pensamentos dos quais não se sabe da existência, mas que determinam a ação humana. Tem-se notícia de suas manifestações nos sonhos, chistes, atos falhos e sintomas, expressões que de algum modo fazem parte da vida de todos. Freud estava imbuído, quando teve o sonho dito “exemplar”, em desvendar os mistérios da histeria, cuja ciência da época possuía uma explicação orgânica da qual ele discordava. No preâmbulo do sonho descreve que atendia a uma jovem senhora que mantinha laços de amizade com a família. Ele inicia esclarecendo o problema que se estabelece ao se submeter a tais circunstâncias, que limitam a liberdade do analista pelas pressões 56 impostas nas relações de proximidade e que reduzem a autoridade do praticante. O resultado de tal tratamento obteve êxito parcial em virtude, sobretudo, da permanência dos sintomas somáticos. Na época, Freud não tinha um claro critério dos indicativos de um término de trabalho e propôs à paciente uma solução aos sintomas que gerou uma discórdia entre eles. A paciente relutava em aceitar tal “solução” e provocou a interrupção do tratamento a partir das férias de verão. Na sequência de tais acontecimentos, Freud recebeu a visita de um colega que ele denomina Otto - que na verdade trata-se do pediatra da família chamado Oscar Rie. Este teve contato com a família de Irma e diz a Freud que ela não melhorou completamente. Freud percebe uma certa recriminação na fala do doutor, mas não dá maior atenção ao fato. Na mesma noite, em 23 de julho de 1895, Freud escreve a história do caso para Dr. M. (Breuer), a fim de justificar-se pelo resultado do tratamento. Situado o contexto em que o sonho ocorreu, de acordo com as indicações dadas pelo próprio Freud, passemos ao relato do sonho: Um grande salão — numerosos convidados a quem estávamos recebendo. — Entre eles estava Irma. No mesmo instante, puxei-a de lado, como que para responder a sua carta e repreendê-la por não ter ainda aceitado minha “solução”. Disse-lhe: “Se você ainda sente dores, é realmente apenas por culpa sua.” Respondeu ela: “Ah! se o senhor pudesse imaginar as dores que sinto agora na garganta, no estômago e no abdômen… — isto está me sufocando.” — Fiquei alarmado e olhei para ela. Parecia pálida e inchada. Pensei comigo mesmo que, afinal de contas, devia estar deixando de perceber algum distúrbio orgânico. Levei-a até a janela e examinei-lhe a garganta, e ela deu mostras de resistências, como fazem as mulheres com dentaduras postiças. Pensei comigo mesmo que realmente não havia necessidade de ela fazer aquilo. — Em seguida, ela abriu a boca como devia e, no lado direito, descobri uma grande placa branca; em outro lugar, vi extensas crostas cinza-esbranquiçadas sobre algumas notáveis estruturas recurvadas, que tinham evidentemente por modelo os ossos turbinados do nariz. — Chamei imediatamente o Dr. M., e ele repetiu o exame e o confirmou… O Dr. M. tinha uma aparência muito diferente da habitual; estava muito pálido, claudicava e tinha o queixo escanhoado… Meu amigo Otto estava também agora de pé ao lado dela, e meu amigo Leopold a auscultava através do corpete e dizia: “Ela tem uma área surda bem embaixo, à esquerda.” Indicou também que parte da pele do ombro esquerdo estava infiltrada. (Notei isso, tal como ele fizera, apenas do vestido.)… M. disse: “Não há dúvida de que é uma infecção, mas não tem importância; sobrevirá uma disenteria, e a toxina será eliminada.”… Tivemos 57 também pronta consciência da origem da infecção. Não muito antes, quando ela não estava se sentindo bem, meu amigo Otto lhe aplicara uma injeção de um preparado de propil, propilos… ácido propiônico… trimetilamina (e eu via diante de mim a fórmula desse preparado, impressa em grossos caracteres)… Injeções como essas não deveriam ser aplicadas de forma tão impensada… E, provavelmente, a seringa não estava limpa (Freud [1900] 1972, p. 115). Uma possível analogia deste sonho com o pedido de supervisão reside na angústia com que Freud se depara diante de um quadro clínico que Irma apresenta. Ele, que estava seguro de sua posição como o mestre cujo saber objetiva o outro, vê-se interrogado pelo quadro, e busca uma solução através de outros, representantes do saber, aos quais vai perguntar sobre o que podem dizer do que se passa com Irma. A solução apresentada por eles é patética, desresponsabilizando Freud de ter cometido qualquer falta na avaliação de Irma. Por fim, aparece de um outro lugar uma outra solução, representada numa fórmula, a da substância denominada trimetilamina, que pode também ser chamada de solução. 3.3. Três momentos da supervisão Neste sonho é possível destacar três momentos que costumam ocorrer no trabalho de supervisão. No primeiro há o pedido de supervisão, que aparece na ordem da necessidade, da urgência, em virtude da angústia diante de um fato clínico, tal qual o com que se defronta Freud ao se deparar com a visão da cavidade bucal de Irma. Nesta perspectiva, ele está diante da constatação de que o saber que possuía não era suficiente para que se situasse diante do que a clínica revelava. O que o leva a chamar - destaque-se o caráter de urgência imediatamente (esse é eventualmente o efeito que a clínica causa ao praticante), o Dr. M. (sabemos tratar-se de Breuer). Freud lhe atribuía um notório saber na vida em vigília, e preocupava-se com sua opinião, porém, no sonho, ele o apresenta como alguém muito fragilizado. Tal como Breuer, que se apresentava reticente quanto ao valor da sexualidade na etiologia das neuroses, Irma havia rejeitado a solução para o que se apresentava como o sentido de seu sintoma. Freud não se pergunta sobre o que poderia estar 58 errado no seu modo de dirigir a cura, atribui o fracasso a uma recalcitrância da paciente em aceitar o que ele propôs. Ele estava numa encruzilhada, visto que para esclarecer o que se passava com Irma, ver-se-ia diante da necessidade de interrogar o “status quo” científico do qual Breuer era o representante. Numa outra vertente, ele precisava da presença de um outro para estabelecer o quadro tal como se apresentava e legitimar sua interpretação. Assim, na noite anterior ao sonho, escreveu o caso clínico de Irma no intuito de entregá-lo à Breuer na tentativa de justificar o estado da paciente, o que marca um dos caminhos da supervisão, na medida que a elaboração do caso propicia destacar a linhas principais do modo como se o concebe. Era óbvio que, para Freud, ele ainda ocupava um lugar de autoridade da qual esperava reconhecimento, porém sua debilidade apresentada no sonho permite supor que não poderia encontrar a resposta nele. Pois, via a Breuer como um mestre, reconhecido por sua autoridade, que poderia auxiliar no desvendamento do que acontece no caso, mas, como foi visto, Freud não poderia avançar com ele no desdobramento do tema da etiologia sexual. Este, aparecia como um limite ao qual Breuer não estava disposto a transpor. Assim, na busca de uma resposta dada pelo outro, Freud sabia que não poderia contar inteiramente com ele. Havia um passo que só poderia ser dado por ele, Freud, que implicaria num ultrapassamento de um limite do que a ciência propunha como cura para as neuroses. Ao analisar seu sonho, Freud, sozinho, constitui a psicanálise, dirigindo-se aos seus leitores. Encontrando um “sentido do sonho que é o seguinte – não há outra palavrachave do sonho a não ser a própria natureza do simbólico” (Lacan [1954-1955] 1987, p.203). Analogamente à supervisão, note-se que o sozinho necessariamente implica em considerar o outro, mas o ato de fundação do campo do inconsciente, é solitário. Como ocorre com o trabalho do analista durante o trabalho da análise, é no “a posteriori” que cabe a cada um dirigir-se a um outro para poder construir o que aconteceu. O estatuto atribuído ao outro sofrerá variações de acordo com o modo como se espera ser visto pelo outro. Entre Freud e Breuer, este, apesar de ter valor, não ocupa um lugar cuja idealização não permita um posicionamento que comporte o pensamento crítico por parte 59 de Freud, que insiste em seguir o seu próprio caminho, e nesta via encontra-se com o seu desejo. Nesse momento, pode-se considerar um outro viés da demanda de supervisão que se mantém atual e que diz respeito a alguns impasses de sua inscrição institucional. Na instituição de formação de analistas, a procura de supervisão pode se pautar pela busca do reconhecimento do Outro de um lugar que se quer ocupar. Os efeitos de alienação decorrentes de tal intuito se sustentam na demanda dirigida aos semelhantes, que visa encontrar índices que garantam a integridade do eu (o que é o inverso do que se espera da posição de um analista). Podemos lembrar aqui o silogismo de Lacan ([1966] 1998) a propósito do tempo lógico: como todo grupo só se forma a partir de três - nenhum dos quais sabendo quem é por não encontrar respostas nas próprias palavras – busca-se nos semelhantes o traço com o qual se possa identificar e diferenciar. Tal traço se situa também como um ponto ideal que permitirá a unidade do grupo (Freud [1921] 1972). No sonho de Freud percebe-se que o problema é que esse traço - unário - fica interrogado pela questão - seu objeto - sobre a qual ele está debruçado: a histeria. A histérica tem por vocação interrogar o saber do mestre que, no caso em questão, seria a ciência sustentada pelos pares de Freud. Ao por em questão a ciência, e sem ter ainda fundado uma comunidade analítica, a quem Freud se identificaria senão à própria histérica? É desde essa posição, portanto, que ele produz sua demanda e a endereça ao Dr. M. A demanda surge então como um pedido de auxílio mobilizado pela angústia de que? De deparar-se com um objeto que interroga o lugar que se ocupa no quadro. O primeiro movimento do supervisionante diante de tal situação consiste em procurar no supervisor um saber que restitua sua unidade. Porém, cabe a este propiciar que possa, pela restituição de sua própria palavra sobre o caso, encontrar o caminho que permita manter uma abertura que viabilize seguir no rastro do sujeito, e assim reconhecer a palavra que emerge do inconsciente. Para tanto, faz-se necessário que o eu do analista esteja aberto para o que advém do sujeito do inconsciente, como no sonho, no qual a dissipação do eu de Freud deu lugar para o surgimento da palavra, que não pertencia a nenhum dos que figuravam na cena, mas que ao ser retomada 60 em sua interpretação viabilizou a constituição de um sujeito que passou a existir como resultado da articulação significante. A possibilidade de tal abertura não se dará a não ser através de uma análise prévia, da qual resultará um “sujeito advertido”, cuja presença do inconsciente não se dará em estado bruto, mas estará mitigada pela experiência que teve do mesmo (Lacan [1960-1961] 1992, p.184). A supervisão através da retomada do percurso no caso permitirá situar eventuais impasses que podem surgir como obstáculos na direção da cura em virtude do poder do desconhecimento advindos dos efeitos imaginários provenientes do eu. Como mencionado no início, ao se retomar a indicação que a abordagem do sonho da injeção de Irma permite, adentra-se em diferentes aspectos da questão da supervisão; em particular a da supervisão como possibilidade de interrogar a direção dada pelo praticante a partir das concepções que norteiam sua escuta. Aqui, Freud deixa bem clara sua concepção naquele período sobre a histeria e o modo de tratá-la: basta comunicar à paciente a solução e o sintoma deverá se desfazer. As concepções de transferência e recalque ainda estão para ser elaboradas. Percebe-se então um clínico que, naquele momento, esquece da necessidade de inclinar-se sobre as manifestações da paciente para relançar a fala, até que a verdade do inconsciente surja. Freud não tem ali uma pergunta a Irma, tem somente a reprovação de todos a sua volta que ressaltam sua insuficiência em dar uma resposta. Deste modo é a ele que cabe saber e não ao que possa advir da fala da paciente, que fica impedida pela solução. Ponto no qual a supervisão pode incidir de modo a interrogar os critérios que o analista define para operar desde o que considera o discurso analítico, sempre resgatando o valor da palavra em seu estatuto de significante, o que permite identificar o que se coloca como questão. No terceiro ponto a ser considerado sobre a supervisão, constata-se que a solução condensa tanto àquela dada pela interpretação por Freud à paciente, quanto à fórmula da injeção, a trimetilamina. Portanto, Losung, a solução, pode ser entendida tanto como o líquido que é utilizado na seringa, quanto a resolução de um problema (Lacan [1954] 1985). Desde essa perspectiva, é possível estabelecer um paralelo entre o problema do tratamento de Irma e o sonho de Freud. Para ele a solução envolvia a questão da sexualidade que 61 somente encontrava eco de aprovação em Fliess. Sabe-se, através da pena de Gay (1989), que Irma era na verdade Emma Eckstein, a quem Freud fez questão que Fliess operasse por considerar que sua patologia envolvia o nariz. Após a cirurgia Emma passou mal e foi encaminhada a outro especialista que descobriu na sua cavidade nasal algo como meio metro de gaze esquecida. Esta, ao ser retirada, provocou uma hemorragia, a qual levou Freud sentir um mal estar. Chega-se assim ao ponto em que a referência ao outro - Breuer, Fliess claudica e mesmo esse que apóia, mostra sua inconsistência. Mas o que interessa nesse momento a Freud é a sua paixão, de querer ser reconhecido, de querer curar a qualquer custo. Isso que fica evidenciado na parte do sonho em que aparece a seringa suja: suja por seu desejo de curar. Aí emerge a solução, que está na própria palavra que deve ser dada àquela que fala e não pelo cientista que quer chegar a ela mesmo que a custa do apagamento do sujeito. Neste ponto, conforme nos indica Lacan ([1954-1955]1987, p.209), em que a ambição excedeu a ponto de se interpor na direção da cura, aparece a contratransferência como um obstáculo. Pois, onde deveria aparecer o desejo do analista, como lugar que possibilita uma saída dos círculos da demanda, aparece o desejo de Freud, que vem marcar o seu interesse sexual por Irma. Ele não o diz com todas as letras no texto, porém, fica evidente que havia um desejo sexual dele em relação a Irma, como se pode deduzir da simbologia da seringa e do conteúdo que foi injetado em Irma. Pois a trimetilamina corresponde à substância que produz o odor resultante do contato do esperma com o ar, semelhante ao amoníaco. Além disso, como lembra Lacan ([19541955] 1987), pode-se identificar em Freud uma questão com o erotismo uretral como se evidencia no sonho. Cottet (1984, p.65), relembra a resposta epistolar a Abraham a respeito da pergunta sobre se o sentido sexual do sonho foi esgotado, ao que Freud responde: “ É um delírio de grandeza sexual o que ali se esconde; as três mulheres: Matilde, Sofia e Ana, são as três madrinhas de minhas filhas. E eu possua a todas!”. Se o sexual sempre está em jogo, independentemente do tipo de relação, envolverá necessariamente a relação analítica, na qual deve ser identificado o elemento sexual para não ser o critério que orienta a intervenção analítica. Caso Freud desse margem a seu interesse sexual por Irma, provavelmente não haveria psicanálise. 62 Ao operar com um saber imposto, o mestre depara-se com sua condição de impotência. A histérica, desobediente, se opõe à cura que o mestre lhe ordena. Tal é o impasse a que chega um tratamento dirigido pelo discurso do mestre. Somente o discurso do analista poderia provocar um giro, de modo a reordenar os elementos, para que se situem de forma a restituir o lugar do saber à verdade da fala de Irma. Com essa operação verifica-se que ‘ali onde deveria haver o desejo do analista encontra-se o eu de Freud’. Será que poderíamos estabelecer nesta fórmula o avesso do conhecido lema freudiano da 31ª conferência (1932): ‘Wo Es war soll Ich werden’? Foi Lacan quem retomou esta máxima que resume o dever do analista e lhe conferiu um modo de leitura que resgata o gume dos conceitos psicanalíticos. Dela, havia a tradução do inglês para o francês nos seguintes termos: “O eu deve desalojar o isso” (Lacan [1966] 1998, p.591). Idéia absolutamente diversa da proposição freudiana por não considerar que Ich, em alemão, tanto designa o ego, formado a partir das identificações, com o sujeito do inconsciente (que, junto com Lacan, concebe-se como “uma questão”). Deste modo temos a proposição por Lacan da seguinte tradução: “ali onde o inconsciente estava, o sujeito, como questão, deve advir”. Foi justamente esse passo que Freud, no tratamento de Irma, não pode dar. Eis aí o resultado que poderíamos chamar de ponto cego do analista na direção de cura. Pois ali onde aparece o corpo de Irma, caberia ao analista antepor uma questão para que a solução brotasse de sua boca, através da fala. Pode-se, por fim, destacar os três momentos que compõem, de modo geral, o trabalho de supervisão. No primeiro, a mobilização da angústia diante do quadro clínico, que gera as mais variadas demandas. Estas, ao serem trabalhadas de modo a privilegiar que o discurso em vigor seja o analítico, permitem uma nova orientação, que se dá em direção ao desejo. Para que isso ocorra, a solução apresentada deve advir da articulação significante, de modo a destacar o sujeito em questão. 63 3.4. Supervisão, resgate da experiência Sob outra perspectiva, vale considerar que o elemento que permitiu o presente desenvolvimento acerca da função da supervisão foi um resgate do campo dos sonhos. Como postula Freud “os sonhos são a via régia para o inconsciente”; é a partir desta análise que se dá, portanto, o surgimento de uma nova dimensão no campo do saber: a psicanálise. Qual foi a manobra efetuada neste experimento que permitiu tal transformação? Como uma primeira resposta poder-se-ia adiantar: a fala do sonhador sobre seu sonho. Caso Irma fizesse o que Freud esperava , isto é, aceitasse a solução imposta pelo discurso, nada saberíamos de tal sonho. Ele, mobilizado pelo incômodo relativo a não realização de seu próprio desejo de cura, ao contrário do que normalmente se faz com o sonho, ou seja, esquecê-lo, resgatou-o, a partir do seu relato, do campo do indeterminado, trazendo-o para o lugar de enigma e assim pode aceder ao sentido de sua experiência. Ele o recupera do lugar de resíduo do sono para considerar que ali há uma significação outra que lhe habita, e diz respeito ao desejo do sonhador a que só se tem acesso pelo exercício da fala. Assim procedendo, na interpretação dos sonhos - tal como em uma sessão de supervisão, poderíamos acrescentar -, constata-se a construção de uma realidade que até então não existia. O estatuto dessa realidade implica que esteja formada por uma amarração específica composta pela apresentação de aspectos do imaginário, marcados pela relação dual, do simbólico, pelo estatuto do terceiro que permite a suposta relação, e o real, como ex-sistência que situa os limites de suas possibilidades. O campo da realidade que se constrói através da palavra vai se estabelecendo a partir da descrição do que pode ser considerado como um relato do caso, do qual trata-se de destacar a significação da palavra “caso”, como o que cai (Quinet, 2009, p. 55). Isso pode ser observado de forma inaugural no sonho de Freud, mas vale para todas as situações de supervisão. Pois, o que caiu, a partir do trabalho de elaboração do caso, conjugado com interpretação do sonho, que indicou a implicação de Freud com o caso, foi nada menos que a criação da psicanálise. Na supervisão, analogamente, trata- 64 se de, ao resgatar a experiência sob forma de questões, elaborando-as, reinventar a psicanálise a cada vez. Para que isso seja possível parte-se do relato, o qual vem permeado pela elaboração efetuada pelo praticante, assim como também a escuta está predeterminada a destacar elementos que se consideram importantes para compor o quadro dos “fatos”. As aspas visam destacar a concepção de que só há fato a partir do que é dito. Ou seja, a psicanálise demonstra que só haverá uma realidade de acordo com a abordagem discursiva que for utilizada para interpretá-la. Em psicanálise é preciso lembrar que em todo saber constituído há uma dimensão de erro que consiste em esquecer a função criadora da verdade em sua forma nascente (Lacan [1955] 1985, p.30) e é a ela que a direção da supervisão se orienta. Somente ao se destacar do imaginário da experiência os seus determinantes simbólicos é que se apresentará o buraco do real. Ou seja, é a partir da apresentação de um quadro da situação clínica, no qual se situa o imaginário da cena tal qual pintada pelo supervisionante, que o supervisor poderá ressaltar as linhas simbólicas até chegar ao ponto sujeito, isto é, o ponto desde onde se vislumbra o “infinito de um olhar sem representação” (Quinet [2002] 2002, p.154). Como exercício para sustentar tais proposições, sigamos na linha de raciocínio do sonho da injeção de Irma. Freud nos deixa claro ao tentar situarnos no contexto do sonho, que ele estava tomado pela intenção de justificar-se com Breuer, através da escrita da história de caso de Irma. Na primeira parte do sonho, é Freud quem tenta se desculpabilizar e, ao tentar entender o que se passa com Irma, tem um encontro que o deixa sem palavras. Nesse ponto, o sonho passa para uma outra cena em que se trata de uma espécie de discussão clínica de um caso em que Breuer (o Dr. M.) é chamado para dar seu parecer e onde nem Freud nem Irma estão mais presentes. O resultado é que toda explicação acaba por revelar que um dos motivos da inquietação de Freud que se realizava no sonho era resolvido ao apresentar o que se passou com um fato sem importância. Mesmo que o tema desse trabalho vise à supervisão e não propriamente às análises dos sonhos, constata-se uma relação tangencial nas duas abordagens. O que se verifica no sonho de Freud é que o impacto da clínica foi 65 amortecido pelas explicações, de modo que a implicação do sujeito diante da imagem, ou melhor, do quadro clínico, desapareceu, para dar lugar à fala de outros a respeito do caso, sem implicação transferencial com a paciente. A analogia que se estabelece diz respeito a um certo tipo de procura por supervisão que busca uma explicação para o caso de forma a que a exposição não implique de maneira nenhuma o expositor. Porém, ao falar da situação clínica a um analista, como “de um fato qualquer”, a escuta demarca o lugar daquele que fala e permite uma outra visão. A super-visão evidentemente não procura esquadrinhar – lembremos a ironia de Poe na busca da polícia pela carta roubada - os elementos apresentados à modelagem do cientista, como se fosse um investigador que procura as e-vidências. Pois estas, por mais precisas que sejam, não permitem descobrir onde está a carta ou, no caso da supervisão, o elemento norteador do trabalho clínico. Para tanto, justamente, é preciso abster-se do campo da visão para que o olhar - ou melhor, a escuta indique o caminho a seguir. No caso do sonho de Freud, certamente não seria infrutífero, como indicamos, tentar identificar no caso apresentado o que fez com que o analista fosse tão afetado. Portanto, na apresentação de caso em supervisão não é possível ter uma atitude supostamente objetiva como se os fatos não implicassem o analista na experiência. Mesmo em se tratando de um relato clínico supostamente objetivo, o eventual impacto (como no sonho), ou pelo menos o modo como é articulado, implica a fala do analista, que certamente pode procurar os motivos inconscientes que produziram tal efeito ou a forma como o quadro (clínico) é pintado por aquele que escuta. É certo que as impressões que a fala do analisante causam no analista podem ser tratadas em sua própria análise, o que não o impede de que, ao tratá-las na supervisão, possa verificar os pontos nos quais a função operatória do desejo do analista deu lugar à manifestação de sua subjetividade. 3.5. A janela No sonho da Injeção de Irma, Freud se refere a uma janela, da qual procurou se aproximar para poder ver o que se passava com sua paciente, por julgar que em sua solução não havia considerado a possibilidade de algum mal 66 orgânico. Uma janela - uma abertura ou ponto de luz - através da qual se poderia ver de modo mais claro o que se passava no quadro apresentado. Através dessa “janela” podemos vislumbrar Freud na figura de um médico que examina, através do olhar, a cavidade bucal da paciente com o intuito de identificar seu mal. Como é sabido, tanto pelo próprio Freud quanto através de Lacan (1955[1985], p.223), nessa cena pode-se apreender o que existe de mais angustiante na vida de Freud, seja no que tange às mulheres, seja em relação à morte. Pois essa imagem enigmática que evoca o “umbigo do sonho” estabelece um para além daquilo que ali se mostra no qual o real pode ser tangenciado. Pode-se dizer que nesse quadro pintado pelo inconsciente, Freud representa a intenção de ser visto pelo Outro como aquele que sabe, que, com seu olhar penetrante, adentra no segredo de Irma. Nesse ponto ele ainda crê, como Guildenstern, ignorante na arte musical, poder fazer soar as notas da flauta que, metaforicamente, guardam o segredo de Hamlet (Shakespeare[1602] 2008). O efeito da imagem produz em Freud a surpresa pelo que vê, o que faz com que ele, como sujeito, desapareça, e seu eu se multiplique após esse encontro. O que foi visto ali que produziu tal conseqüência? Ele se depara com um real obturado pela imagem que ele gostaria que fosse vista pelo Outro. Porém, ao narrar seu sonho ele se encontra nessa imagem que criou de si: um sujeito alienado ao saber da ciência que, portanto, ignora, como um outro que julga poder furtá-lo pelo que não sabe (Lacan [1966] 1998, p. 251), e que vem interrogar tal saber. Pergunta-se por que Freud não acordou neste ponto do sonho; argumenta-se que ele é “durão”, pois, ao se deparar com a queda de tal alienação, não acorda para continuar sonhando. Mas, o que permite que siga concerne a sua “paixão de saber” (Lacan[1954-1955]1987, p.203), assim, continua no sonho até o ponto em que seu desejo de saber se transforma em saber sobre o desejo – cifrada na fórmula da trimetilamina -, que se realiza no sonho, mas que só pode ser alcançada a partir da associação livre do sonhador, como um semi-dizer. No ponto em que aparece na tela a mancha, o estranhamento representado pelos cornetos brancos na garganta de Irma, a falha de Freud é enquadrada. Ele que via sua bela imagem, passa a ser atropelado pelo que 67 ‘isso mostra’ (Lacan [1964] 1985). Freud fica capturado na imagem que o deixa mudo - justamente na medida em que é pela fala no sujeito e não do sujeito – e que pode, ao passar pelo desfiladeiro do significante, propiciar o passo da subjetivação. Para tanto, faz-se necessária a referência ao Outro. Ao endereçar a palavra a outro, torna-se possível compor o quadro em seus elementos, circunscrevendo-se o ponto desde onde se vê, marcando-o com uma questão, e não uma resposta. 3.6. A solução Ao procurar encontrar a solução para o problema que se apresenta na cavidade bucal, Freud angustia-se diante da visão da carne. Mas justamente não era exatamente a referência à carne, ou melhor, ao corpo o que o levou a escrever a Breuer para explicar o caso? Não era a recusa da aceitação da solução proposta por ele, motivada pela consideração de que o problema era de origem orgânica? Para além do motivo pelo qual o corpo seria causa de angústia, vale considerar que no momento seguinte Freud entrega os pontos, e vai chamar alguém para ajudá-lo. Não seria normalmente essa a condição do supervisionante ao procurar uma supervisão? E nesta, tanto o supervisor, quanto o supervisionante com freqüência aprendem com o trabalho sobre o caso, cujo acréscimo somente pode advir a partir da fala daquele que relata o caso. A solução que se apresenta na fala não advém justamente de uma boca que, ao mesmo tempo em que cala ao referir-se ao corpo/sintoma, diz por onde pode advir a possibilidade de apontar ao desejo? 68 CAPÍTULO IV 4. DOS FUNDAMENTOS PSICANALÍTICOS PARA UMA DIREÇÃO DA SUPERVISÃO Todo aquele que trabalha com a clínica psicanalítica e que tem uma preocupação com a direção dada à cura daqueles que escuta, provavelmente em algum momento de sua formação disponibilizou-se a supervisionar ou controlar o modo como opera o dispositivo psicanalítico. A procura de uma supervisão pode se dar pelos mais variados motivos, os quais no tempo oportuno merecem ser interrogados pelo próprio praticante, de preferência em sua análise. Porém, um aspecto que pode ser considerado geral, para quem se propõe à supervisão, é o da suposição de um saber. Quem procura um psicanalista para falar de seus atendimentos atribui a ele um saber que indubitavelmente não julga possuir. Como nos indica Freud ([1919] 1972, p.217), para o trabalho de análise de controle deve-se procurar um analista ‘reconhecido’ pelo praticante como tal. Note-se que ele não menciona mais experiente, o que cabe ressaltar, já que a experiência, neste contexto, indica um saber maior sobre os problemas da clínica em virtude do tempo em que determinado psicanalista se dedicou a sua prática. Ao se refletir mais detidamente no significante “reconhecido”, verifica-se que ele abrange, para além da experiência, a dialética da relação com aquele que se escolhe. A partir desta, os lugares serão definidos pela suposição do supervisionante a respeito do que espera do supervisor e da forma como este, ao levar em consideração tal suposição, poderá direcionar o trabalho de modo tal que permita situar a distribuição de lugares que tem espaço a partir da fala do supervisionante sobre o caso. Nesta distribuição existem pelo menos dois aspectos a serem considerados: um em relação ao supervisor e outro que tange ao lugar que o praticante ocupa no discurso do analisante. A direção dada pelo supervisor envolverá ambos aspectos, identificáveis na resposta que 69 dará ao problema apresentado que, em algum momento, favorecerá uma retificação da idéia de saber sobre o caso. Pois, o trabalho do supervisor de identificar em determinado impasse clínico o limite que se apresenta, exige que a escuta da singularidade da clínica implique o desejo do analista que, mesmo na qualidade de supervisor, se dá em ato, destacando: a especificidade do fio condutor do caso e o impasse clínico do supervisionante. Para o supervisor a escuta será dirigida não a partir de uma experiência prévia, que supostamente poderia antecipar um sentido que se repete em mais um caso, mas utilizando para isso a fala do supervisionante sobre o analisante, o que redistribui os lugares e saberes prévios a partir do destaque da palavra oportuna. Com isso já se tem um norteamento quanto à direção, pois desde tal premissa, o encaminhamento dado a um pedido que envolva um saber da ordem do conhecimento colocado no supervisor, precisa ser retificado. Tal operação tem como conseqüência a retomada da direção da cura no sentido da desobstrução do caminho, cujo percurso foi interrompido pela presença do ser do praticante. Sabemos por Lacan ([1953-1954]1986) que os conceitos, ao serem operados com precisão, possuem o fio cortante de uma navalha, desde que estejam alinhados com o trabalho do inconsciente. Pois, como nos diz Lacan, “A extrema complexidade das noções empregadas em nosso campo faz com que em nenhum lugar um espírito, ao expor seu julgamento, corra mais totalmente o risco de descobrir sua medida” (Lacan [1966]1998, p. 240). O modo como se concebe o que se faz define a direção que damos a nossa práxis e, quanto menos tenhamos discernimento do modo como a pensamos, mais seremos direcionados por concepções que temos, mas ignoramos. Nesse sentido, a proposta de um retorno à Freud por Lacan, segue uma mesma direção, ao utilizar a própria conceituação freudiana aplicando-a aos textos, para poder medir o alcance de seu estatuto, o que evidentemente demonstrouse de grande valor. Ao relatar o trabalho realizado em uma supervisão, a particularidade da articulação envolve a forma como se concebe o discurso trazido pelo analisante. Tal forma já vem permeada pelo modo de julgamento do 70 supervisionante, que a partir de sua fala poderá ter uma idéia de sua própria medida. Neste ponto tem-se um índice do lugar da intervenção do supervisor, já que nem a teoria, nem a subjetividade do analista, devem aparecer como operadores na práxis do praticante, ou melhor, este precisa evitar antecipar um sentido que deve advir a partir da lógica interna do discurso proferido pelo analisante. Tal posicionamento vai ao encontro do que Lacan propôs, denominando de “ignorantia docta, o que não quer dizer sábia, mas formal, e que pode ser, para o sujeito, formadora” (Lacan [1954]1986, p.317), onde o não saber douto leva a um saber. Se a proposta é psicanalítica, a fundamentação da supervisão deve seguir os mesmos princípios, ou seja, o contínuo relançamento da questão sobre os fundamentos com a conceituação própria. Em termos históricos isto nem sempre ocorreu, na época do Instituto de Berlim, criado por volta de 1920, quando a notícia do câncer de Freud afetou fortemente o movimento psicanalítico, este, mediante a possibilidade da perda do pai-Freud, apressou, no intuito de preencher a esperada, mas não ocorrida (pelo menos até 1939), lacuna, com o recurso da burocracia. Com tal mentalidade a supervisão passou a ser, naquele momento, um modo de controle para assegurar o andamento da ‘boa psicanálise’, mas, note-se bem, para a instituição. Deste modo não se teria mais uma análise de controle, mas o controle do praticante que analisa. Em outros termos, o conceito norteador era o administrativo, para o qual a linha de montagem, para garantir a qualidade do produto, precisaria de um controle, dado por um supervisor, a partir de um padrão a ser seguido pelo supervisionante (Safouan, 1986). É tentador considerar que a supervisão, ao surgir nestes moldes, venha a tamponar a idéia da falta do pai da psicanálise, cujo saber, caso ele estivesse presente, certamente viabilizaria as condições de estabelecer as diretrizes do que deveria ser feito. Os filhos, ignorantes e desamparados, ao se remeterem ao saber do pai, preencheriam seu pote de ignorância com a sapiência deste e, sem se preocupar, poderiam, assobiando a música do mestre, seguirem, cegos, o suposto bom caminho, por estarem acompanhados de seu guia de viagem pessoal (Freud [1926]1972, p.117). Ou seja, se há uma visão de mundo (Weltanschauung), não se trata de repassar tal visão, como a super-visão, 71 mas, a partir da visão constituída estabelecer por que vias ela pode se instaurar como tal. Com a sobreposição da questão institucional constata-se a conseqüência no modo da direção dada à supervisão para aquele que vem demandá-la. A primeira é a da elisão da demanda, pois o que antes era uma possibilidade passa a ser uma obrigação. Outro aspecto é o de que, ao considerar a psicanálise somente como uma técnica que precisa ser ensinada como reprodução de um padrão, apaga-se a dimensão essencial da ética que a envolve, passando-se então a operar a partir da sugestão, ou seja, sem elucidar a transferência que está em jogo, por utilizar um saber que recalca o que deve ser trazido à luz, ao não se permitir manifestar o que é próprio da verdade. Essas duas formas de conceber o modo de direcionar a demanda que envolve uma supervisão produzem um impasse que suprime a ética e sustenta a encarnação do saber na instituição omitindo o lugar do sujeito. Esta situação leva a função da supervisão a uma espécie de beco sem saída. Pelo lado do saber o que se obtém nestas condições é a obturação da verdade. O contraponto desta condição que obtura a manifestação do sujeito pela via da instituição ou da técnica, consiste em fundamentar a direção da supervisão pelo apontamento das questões subjetivas do praticante que interferem na condução do tratamento. Neste ponto aparece o impasse pelo lado do furo no saber, que se apresenta como a contraposição às concepções supracitadas, indicando o avesso de uma mesma posição a partir da crítica que gera a exclusão da supervisão, que pode figurar na questão: por que ir procurar alguém para tratar das questões da clínica, na medida em que concernem a aspectos subjetivos, senão o analista na própria análise? O fato é que, apesar desses obstáculos, os que praticam a psicanálise com fundamentação lacaniana continuam a sustentar a necessidade de um trabalho de supervisão que, portanto, deve seguir na estreita trilha que se situa entre a Cila do saber e Caridbe do não saber. Fina linha que pode ser percorrida desde que se destaque o fio da orientação lacaniana dada pela banda de Moebius que, colocada entre dois, permite sair do impasse ao situar 72 que as duas faces estão na verdade em continuidade e que é o corte, operado com o conceito, que fornecerá a direção. Cabe àquele que escuta permitir que o sentido do que é dito emerja, ou seja, ele não está dado de antemão, pois será o resultado do que advirá da fala do supervisionante, o que só ocorre na medida em que o lugar ocupado pela suposição do saber atribuída ao supervisor pela fala do supervisionante possa estar desocupada da presença de seu saber. O encaminhamento da demanda precisa ser trabalhado de modo a que, a cada vez que se coloque no sentido de instituição de um saber do qual o supervisor seria o portador e, que supostamente deveria passar para o supervisionante nos moldes da garantia de preencher a falta de saber, que a partir de sua falta, o caminho trilhado possa direcionar a que esse saber seja subvertido, de modo que possa vir a ser um saber em falta. Ponto de virada no qual por um instante é possível vislumbrar “além dos limites do saber” (Lacan [1962-1963]2005, p.26), já que é o saber sobre o analisante, ao estar situado de modo a impedir que sua verdade emerja pela ausência de intervenção do analista, por direcioná-lo de modo exterior a seu discurso, que limita o além. O saber, ao ser interrogado, permite por um curto espaço de tempo, situá-lo desde o lugar da verdade, mesmo que em seguida venha ocupá-lo com um novo saber. Para exemplificar tal proposição, tomemos uma situação que pode surgir como uma queixa do supervisionante em relação ao analisante: o paciente não diz nada ou nada que seja significativo. O modo de encaminhar o suposto impasse pode envolver uma tentativa psicologizante, na qual o que é dito se situa numa relação com um critério previamente estabelecido. Deste, não se tem idéia, o que faz com que tal afirmativa envolva a concepção de uma valorização “a priori”, a partir de critérios próprios, do que se considera importante ou não em uma fala. Pois o fato de falar, implica, parafraseando o cogito cartesiano, em um, “logo sou”. Tal ser é constituído a partir de subsídios de sapiência que julgam desde esse lugar, cuja conseqüência resulta na exclusão do sujeito do inconsciente. Enfim, exclui que o que é dito, mesmo que envolva alguma ordem de silêncio, marca um dizer, cuja posição daquele que escuta só pode ser marcada, pelo menos na via da psicanálise, com um: ao não falar você diz. Se a marca da divisão subjetiva não for apontada, nada 73 advirá a não ser o incômodo da impotência. Ao saber enunciado no ‘ele não fala’, o supervisionante marca uma posição quanto à direção dada, que comporta sua limitação, passível de ser identificada no retorno da própria mensagem de forma invertida, em um, logo, ‘nada a dizer’, gerando uma condição de mutismo recíproca. Ao destacar a fala do silêncio, o supervisor, permite àquele, vislumbrar, momentaneamente, um para além do limite que concerne ao saber. Tal situação marca fidedignamente o desvio que se opera na direção da cura ao referir o sujeito em relação à realidade (ele não diz nada) e não ao significante (que representa a intenção do sujeito que fala ou cala, para além do que diz), cujo resultado é a degradação psicológica do sujeito (Lacan [1964] 1985, p.135). Ao dirigir a fala para alguém, no caso um supervisor, a relação com a coisa dita adquire já uma outra dimensão, pois a retomada da experiência pela fala possibilita a criação de uma distância que a presença de um outro permite, de modo a que o olhar sobre o fato passa pelo dito, resignificando o fato. Ao falar das várias situações clínicas aparentemente ao acaso, normalmente passa-se a verificar um traço que se repete em determinadas situações. Tal traço só passa a existir a partir da fala, e não antes. Destaque-se que o lugar do supervisor é aquele de uma “subjetividade secundária” (Lacan [1966]1998, p.254), lugar no qual ele é colocado a partir da fala do supervisionante, que viabiliza a este, ao operar como um segundo olho, criar uma visão que permite situar com precisão a profundidade, ressaltando o relevo discursivo do quadro que se monta. O endereçamento da fala ao supervisor permite a criação de um espaço do dito, espaço criado pelo significante, do qual uma conseqüência seria a de poder se destacar da situação para tomar a distância necessária para ver. Note-se que essa distância não é a da medida psicológica, mas topológica, por permitir a que o sujeito veja de onde fala. Tal condição é ilustrada pelo quadro Las meninas, de Velásquez (Lacan, aula de 27/03/1968), e indicada por Lacan como um esquema norteador de controle para situar o lugar daquele que dirige a cura nos vários tempos do tratamento. Nele, o autor está situado na tela do 74 mesmo modo que o analista que participa da experiência da análise (contrariamente a “dita” neutralidade científica), porém a tela que pinta no quadro fica marcada como uma incógnita, já que só pode ser vista pelo pintor que figura na tela, a qual só pode ser preenchida com o que supõe o observador, a partir do que imagina que o outro vê. É nesse lugar, que permanece como uma incógnita, sobre o qual, por parte do espectador, se sobreporá uma suposição como uma espécie de completude, onde deverá surgir o desejo do analista, como marca da diferença entre o esperado e o obtido. Caso haja correspondência entre este e aquele, partiria-se do princípio da possibilidade da comunicação, na qual um se dirige ao outro na tentativa de ver do mesmo modo, com o conseqüente encontro do suposto objeto, cuja falta produz a busca, no campo da realidade. Partindo-se dos princípios psicanalíticos, o objeto está perdido desde sempre e o seu reencontro somente se dá pela via da falta, portanto a representação que é composta na tela será a da fantasia, que recobre um objeto inapreensível, transmutando-o como passível de transmissão. O desejo do analista, enquanto função, tem a direção apontada para o objeto, cuja marca é a da impossibilidade. A procura da luz sobre o caso por parte do supervisionante pode ser encaminhada de acordo com a concepção de sua função abordada no seminário 11 (Lacan [1964] 1985, p.105), onde situa que a possibilidade do campo da visibilidade só se abre na medida em que ela esteja ausente enquanto luz, mas justamente, por isso, presente como luminosidade. Similarmente à distinção da função da visão e do olhar, em que este precisa estar ausente para que a visão se assente sobre os objetos, o quadro nos quais eles figuram não basta ser descrito por um observador neutro, ainda se faz necessário o estabelecimento do lugar de onde se fala a partir daquilo que se escuta, para que no quadro pintado seja possível estabelecer o lugar que se ocupa na transferência, que é o que dá o norte para a direção da cura. Para tanto a simples presença do supervisor já marca uma diferença por permitir ao supervisionante a suposição de um outro olhar. Na direção do trabalho da supervisão, o supervisionante geralmente traz algum impasse que se apresenta na direção da cura. Cabe ao supervisor priorizar a escuta da fala do praticante de modo a que ela forneça os elementos 75 em jogo que dificultam o trabalho. Um desses elementos foi denominado de contratransferência por Freud ([1910] 1972, p.130), que ao tratar dos avanços da psicanálise menciona um que não havia até então sido considerado, a saber: o aspecto do “resultado da influência do paciente sobre os sentimentos inconscientes do médico”. As menções freudianas sobre tal proposta são exíguas e serão retomadas e desenvolvidas de modo mais sistemático pelos pós-freudianos. Lacan resgatará tais textos para criticá-los marcando uma posição francamente contrária a tal conceito, apesar deste ter o mérito de lembrar a “implicação necessária do analista na situação de transferência” (Lacan [1960-1961]1991), por considerar que ele elide o ponto pivô, o eixo central da direção da cura, ao qual ele denomina, desejo do analista. Este deve ser considerado como uma função que, enquanto operativa, permite a manutenção da abertura necessária para que onde a transferência vem obturar a fala, ao tentar convencer o outro de possuir aquilo que lhe falta, a função do desejo ao operar, pode retornar a demanda desviada da pulsão, mantendo uma falta em relação ao objeto que supostamente estaria positivado ( Lacan [1964]1985). Uma situação de supervisão que pode ilustrar a problemática da transferência encontra-se na obra de Grinberg (1975), na qual se encontra o seguinte relato: “Ao receber em uma oportunidade um estudante que vinha a sua sessão de supervisão, me chamou a atenção que ao cumprimentar-me não estendera a mão como o fazia habitualmente. Mostrou-se um pouco ansioso e preocupado e manifestou que desejava comunicar-me o que lhe havia ocorrido em uma das sessões com seu paciente. Aclarou-me que havia se sentido muito comovido pelo estado de angústia que experimentara a paciente devido a uma intervenção cirúrgica séria, que seria efetuada em um filho pequeno: a amputação de um braço por um acidente. Em um momento dado, a paciente rompeu a chorar desconsoladamente e estendeu a mão para trás, em direção ao analista. Este ao comprovar que não havia podido aliviá-la com suas interpretações, se sentiu compelido a responder ao gesto da mulher, que lhe parecia um pedido desesperado de ajuda, e pegou sua mão e apertou-a. Ficou logo impactado e com culpa frente ao sucesso. Admitiu que se sentia incomodado frente a mim pela transgressão técnica que havia cometido. Então assinalei a ele que não me havia apertado a mão ao chegar. Surpreendeu-se muito, já que não havia registrado conscientemente e recordou então que a paciente 76 tampouco lhe havia dado a mão quando entrou na sessão. Havia duvidado se convinha incluí-lo em alguma interpretação, mas depois o reprimiu.”(Grinberg, 1975, p.32). O relato segue visando estabelecer os fundamentos do ocorrido. Para o presente intuito, basta considerar que a transferência circula ao redor de uma falta situada num discurso que trata de uma perda, no caso: o braço do filho. O contexto envolve um clima de comoção no qual a analisante, diante de uma tentativa de elaboração de um luto, busca reencontrar o objeto perdido através da mão do analista. Este se apresenta diante da situação em um estado de impotência, o qual se dá na medida em que julga poder oferecer à analisante aquilo que lhe falta e com isso propiciar-lhe algum alívio. Mas o que será que efetivamente ela pede? Será a mão que pertence ao corpo do analista? Será que o alívio produzido pela oferta da mão se deu pela mão da realidade? Logo, basta dar o que falta ao outro para deixá-lo tranqüilo? Será que uma mãe, cujo filho perdeu um braço, se satisfaria com um aperto de mão? Ao considerar o ocorrido nesta vertente, constata-se que ali onde o discurso analítico deveria vigorar instaurou-se um saber que apagou o sujeito em questão, pois o peso da transferência só é passível de ser carregado enquanto se a direciona, pela operação do desejo do analista, à questão do sujeito. O que permite que neste lugar de garantia do encontro da mão que ajuda possa haver a sustentação de uma interrogação para que surja o furo que fornece uma ajuda, pelo menos desde a perspectiva lacaniana (Lacan [2007] 1975, p.131). Tal furo torna-se operativo pela referência ao significante, que figurou na sessão como “mão”, que na qualidade de significante pode efetivamente ser a mão que ajuda ao manter a presença da ausência, para que a demanda ao ser desviada pela presença da mão na realidade, reencontre sua via na medida em que realize o luto do objeto. Para que tal operação psicanalítica possa ocorrer é preciso que um determinado lugar não esteja ocupado pelo analista, que deve se comportar, neste lugar, como um morto, para que o analisante possa encontrar os elementos que estão em jogo como determinantes de sua posição. Tal lugar é denominado por Lacan de i(a), conceituado como o “eu enquanto imagem do outro, o eu na medida em que é, basicamente, função de desconhecimento” (Lacan [1960-1961]1991, p.350). 77 Como nos indica Lacan no seminário 11, cabe, ao distinguir a diferença essencial que há entre i(a) e a (1) ([1964]1985, p.257), lembrar que quando algo do analista vem ocupar esse lugar de i(a) na direção da cura, o trabalho sofrerá um desvio quanto ao seu fim. Esse algo pode ser da ordem do saber, da ambição terapêutica ou dos afetos e neste aspecto vale inserir a angústia. Tais fatores ao se manifestarem, o fazem pelo viés do reconhecimento do que supostamente falta ao outro, quando, no contraponto, pelo dispositivo, o analista, ao calá-los, pode saber do desejo, mas nada sobre o que este sujeito, que se dispôs a análise, deseja, pois somente deste modo pode vir a “ter em si deste desejo, o objeto” (Lacan [1960-1961]1991, p.195). Tem-se, portanto, no que tange à supervisão, ao menos no campo psicanalítico, elementos norteadores para a sua direção, ela está pautada nos próprios conceitos psicanalíticos, que permitem para todo aquele que se disponha - pois a supervisão deve ser uma decisão do praticante -, a verificar no “a posteriori” por onde se encontra em relação ao ato analítico, contar com um lugar aberto a tal escuta. ______ (1) Apesar do erro de tradução, na segunda edição corrigida de 1985, dizendo que não há diferença essencial. 78 CAPÍTULO V 5. OS QUATRO DISCURSOS: UMA OPERAÇÃO NUM HOSPITAL-ESCOLA PARA UMA LÓGICA DA SUPERVISÃO O presente capítulo visa apresentar brevemente a fundamentação lacaniana dos quatro discursos como formalizações que procuram equacionar os modos como a linguagem estrutura o campo dos laços sociais. Estes se ordenam em torno de uma falta fundamental que figura nos diferentes modos de enlaces. Tais discursos, ao elucidar os laços sociais, permitem também esclarecer os modos de relação que operam nas instituições, neste caso em particular, a hospitalar, que, além disso, está inserida no contexto universitário. Pois se trata de um hospital-escola, cujas premissas residem num tripé composto pelo que se denomina: ensino, pesquisa e assistência. Inseridos nesta instituição existem psicanalistas que intentam fazer circular o discurso próprio a seu campo. Desta premissa partirá o diálogo com os outros discursos desde tal contextura. Exposta a lógica de funcionamento dos discursos e sua operatividade numa instituição hospitalar, desenvolver-se-á a lógica da supervisão desde tais fundamentos, estabelecendo um diálogo com as especificidades do âmbito hospital-escola. Conclui-se situando o trabalho da supervisão em psicanálise como estando pautado principalmente por dois discursos, o do analista e o da histérica. 5.1. Dos fundamentos conceituais relativos aos quatro discursos A principal proposta de Lacan, em seu seminário “O avesso da psicanálise” (Lacan [1970] 1992), visa à produção de quatro discursos, nos quais estabelece como uma característica a qualidade de serem discursos sem palavras, que podem manter-se a partir de algumas relações fundamentais, que só se sustentam pela linguagem. Pois esta possibilita a existência de “relações estáveis, no interior das quais certamente pode inscrever-se algo de bem mais amplo, que vai bem mais longe do que as enunciações efetivas” (Lacan [1970] 1992, p.11). Assim, o intuito é o de, a partir do que é estrutural, 79 formalizar os lugares e elementos que ordenam e regulam determinados laços sociais, nos quais a palavra terá lugar e endereçamento ordenado por um estabelecido prévio, o campo da linguagem. Por exemplo, um médico ao receber um paciente em seu consultório tem sua função já pré-determinada pelo discurso, bem como o que se espera do paciente, que age, normalmente, desde tal expectativa, e, que, portanto, não precisa ser dita, pois cada um já sabe, qual função lhe cabe. Deste modo, o médico perguntará sobre a doença, definindo, através de sua indagação, os limites da fala do paciente, pois, o que importa é a doença. No que tange ao ser que tem uma doença, cabe o silêncio. Note-se que tal silêncio é eloqüente, na medida em que é fruto de um discurso que, apesar de sem palavras, pode nos esclarecer que tipo de laço levou a uma mudez. Um prévio estabelecimento de lugares, em virtude da linguagem, leva a considerar o que pertence ao médico e o que concerne ao paciente. A abordagem da doença pelo saber do médico tem como conseqüência a capacidade de reduzir o paciente a um objeto, devido ao discurso que o delimita. Neste caso, poderíamos aproximá-lo do discurso do mestre, no qual o médico, na qualidade de agente, com seu saber transforma o paciente em objeto, por tratar da doença sem levar em conta a questão do sujeito. Deste modo, a estruturação do discurso leva a que possa ser identificado, através da palavra, um mais além do que ela diz. Quinet ([2006] 2010, p.26) define o discurso como “a conjunção do enunciado com a enunciação”. Pois é preciso considerar que o que é dito envolve um mais além da fala que, ao ser resgatado, marca a referência à estrutura da linguagem que permite situar o sujeito, mas não o define. A noção de estrutura pode ser abordada pela diferenciação entre o que seriam os fenômenos e aquilo que os condiciona. As manifestações, que poderiam ser chamadas de efeito, envolvem uma articulação de elementos que formam um conjunto ordenado por um sistema. Cada elemento desse sistema pode ocupar lugares diferentes tendo como conseqüência uma mudança de função. Um sintoma pode ser considerado uma manifestação que está articulada à estrutura (Miller [2011] p.78). Sua fenomenologia esta orientada por elementos prévios, distribuídos em determinados lugares, que tem como resultado da operação sua manifestação. Deste modo, ao se propor “a 80 formalização do discurso” e “algumas regras destinadas a pô-la á prova, encontramos um elemento de impossibilidade” que está “na raiz do que é um fato de estrutura.” (Lacan [1970] 1992, p.43) O ponto de partida para a formulação dos discursos situa-se na proposta freudiana das três profissões impossíveis destacadas, por exemplo, no texto denominado “Análise terminável e interminável” ([1937] 1972, p. 283). Estas são: governar, educar e psicanalisar às quais Lacan acrescentará uma quarta categoria de impossibilidade, o fazer desejar (Lacan [1970] 1992, p. 165). Freud, no texto “O mal-estar na civilização” ([1930]1972) equaciona o sofrimento do homem como sendo proveniente de três fontes: do próprio corpo em sua inevitável degeneração; do mundo externo que continuamente lembra ao homem sua insignificância e da relação humana, normalmente relegada a um segundo plano, mas nem por isso menos produtora de mal-estar. Os discursos criados por Lacan visam aparelhar simbolicamente as impossibilidades que envolvem as relações, destacando seus lugares, seus elementos e sua articulação. Aparelhar quer dizer civilizar a pulsão através da exigência de uma renúncia pulsional, caso contrário, como diz Freud, seu próximo é para o homem: “não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo.” (Freud [1930] 1972, p.133) Para viabilizar o laço social é preciso que haja renúncia a tais impulsos, com a conseqüência de uma “perda real de gozo” (Quinet [2006] 2010, p.17). Portanto, para que o sujeito se constitua enquanto tal, é preciso que abdique de uma parcela de sua satisfação pulsional, resultando que a vida em sociedade implica em abrir mão de uma cota de felicidade. Como não há ser humano a não ser na qualidade de social, a idéia de felicidade sofre um duro golpe. Para todos os modos de manifestação do mal-estar na civilização há uma tentativa de estabelecer diretrizes do que seria o bom caminho para lidar 81 com ele. Porém, tal projeto depara-se com uma série de impedimentos que são da ordem do impossível. Apesar de impossíveis, não se quer dizer com isso que seja o caso de não fazer nada no que tange a esta limitação, mas de manter como ponto de partida, pelo que a experiência da humanidade traz que, por mais que se queira governar, sempre haverá um desgoverno, um não dominado, que escapa as regras ditadas. Por mais que se eduque, sempre resta uma ignorância ou um não saber que mantém a busca de vir a saber sobre o que falta. Quanto a curar, sempre resta um não analisado, um aspecto a ser desvelado, uma dor que não se cura por ser própria da vida, um ponto que permanece, apesar de circunscrito, presente como singularidade. E o fazer desejar? Por acaso já se descobriu, apesar das inúmeras tentativas, algum elemento químico ou processo mental que assegure aquele que o possui de poder fazer que o outro o queira? Parece minimamente razoável supor que se pode fazer alguém desejar algo que já não esteja colocado como anteriormente desejável a esse alguém? Portanto, por mais que se deseje alguém, é impossível garantir que este alguém venha a responder do mesmo modo. Constata-se assim que efetivamente o eu não é senhor em sua própria morada, belo modo de dizer o que em outras palavras poderia ser colocado como: não manda, é comandado; não sabe, pois o não saber é condição de sua constituição; é incurável, posto que não há cura para a barra do sujeito e incapaz de fazer desejar em virtude da causa do desejo estar perdida. Tais limitações são o ponto de partida dos discursos, que se ordenam ao redor destes impossíveis. Os discursos são sem palavras, mas definem lugares sem que seja necessária uma explicação prévia, suas denominações estão dadas de acordo com as impossibilidades. Desta forma são propostos quatro discursos, a saber: o do mestre, o da universidade, do histérico e do analista. A apresentação esquemática dos discursos elaborados por Lacan no seminário 17, identificando seus lugares, seu campo, seus elementos e suas relações através de setas, pode ser encontrada na obra de Quinet chamada “Psicose e laço social” (2006), como segue abaixo: 82 (Quinet [2006]p.29) Os elementos que compõem os discursos são quatro, começando pelo Sujeito barrado, representado por um $, denotando como sua característica a impossibilidade de ser substantivado. Portanto, sua forma de presentificação sempre se dá em relação a uma articulação. Esta é formada por outros dois termos do sistema, S1 e S2. Denominados respectivamente de significante um, ou significante mestre e de significante dois, ou significante do gozo ou saber. A nominação de cada termo varia conforme o problema abordado, mas sua característica principal se mantém, ela reside em propiciar uma articulação. Assim S1 é o nome de um significante que representa um sujeito, que é barrado, para um conjunto de significantes chamado S2, ou saber. Como resultado da operação dos significantes há uma produção denominada de objeto a, ou mais de gozar, elemento que nomeia o fracasso da articulação significante. O fracasso é de onde se pode partir para circunscrever o objeto a, 83 pois ele representa o que não anda, o que capenga, aquilo que falta, em resumo, o objeto perdido que opera como causa do desejo. Em outra vertente, figura como o mais de gozar, um excesso que se situa em relação à falta como um a mais, um excedente, cujo encontro propiciaria a satisfação gozosa. Assim, na hiância que se estabelece entre o significante um e o dois, vai se instaurar, por um lado, o sujeito dividido, tendo como correlato o objeto a que funda uma perda naquele, bem como a perspectiva de preenchê-la. As várias inter-relações entre a e $ são representadas no matema da fantasia que permite construir uma miragem, na qual haveria o perfeito acoplamento entre elementos irremediavelmente heterogêneos. O S1, denominado significante mestre, advém da impossibilidade do encontro do objeto, representando suas marcas como traços da experiência mítica da satisfação. Esta, supostamente teria ocorrido no primeiro encontro com o objeto, cuja natureza, por essência é faltante. Sua característica de comandar o gozo, na medida em que visa obtê-lo na miragem de um reencontro, leva a uma repetição da primeira experiência em virtude da impossibilidade do encontro. Porém, gera como consequência o S2 que, na qualidade de saber, é o resultado da tentativa de qualificar o gozo. Os traços destacados comporão a rede de saber sobre o que seria necessário para obter o gozo, por isso a outra denominação do S2 como “meio de gozo” (Lacan [1970] 1992, p.37). Os elementos não ficam soltos, mas ocupam lugares que são permutáveis em uma certa ordem, resultando em determinada consistência. São quatro lugares separados por uma barra que faz com que haja uma parte de cima e uma de baixo. Tais lugares são o do agente, acima a esquerda, que sustentado em uma verdade, abaixo a esquerda, dirige-se ao outro, acima a direita, visando obter uma produção, abaixo a direita. [ agente ] [outro ] [ verdade ] [ produção ] 84 Onde está o agente, situa-se o lugar da ordem, do mandamento. Não importa o elemento que esteja aí colocado, será ele que dominará a característica imputada ao discurso por ocupar tal lugar. Assim, se o agente for o S1, o que dominará será a lei e ter-se-á o discurso do mestre. Caso seja o S2, o dominante será o saber, resultando no discurso do universitário. Em se tratando do sujeito barrado ($), o dominante será o sintoma, ordenando o que se denomina discurso da histérica. Por fim, operando como agente o objeto a, ao qual o analista fará figurar no discurso que lhe concerne na qualidade de semblante, obter-se-á o discurso psicanalítico. No lugar do outro, encontra-se aquele a quem o agente se dirige e que é o dominado. Em se tratando do discurso do mestre é o escravo que está sujeito a sua ordem. No discurso da histérica encontra-se o mestre castrado, dominado pelo enigma do sintoma. No caso do discurso do universitário, o comando dado pelo saber orienta-se a quem Lacan chama o “astudado” (Lacan [1970] 1992, p.98), jogo de palavras que junta o objeto a, que está no lugar do outro, com o estudante conjugado no particípio, que resulta em estudado. Um dos modos de situar tal proposta reside em considerar o estudante na condição de objeto, na medida em que o saber se apresenta como universal, totalizante, devendo, por isso, ser reproduzido e não operar como fundamento para elaboração de questionamento e produção. Deste modo o estudante passa a ser considerado como uma “unidade de valor” (Lacan [1970] 1992, p.76). Resultado: a revolta do sujeito. No discurso do analista o outro é tratado como um sujeito barrado ($) que, sob o comando de um objeto, precisa se manifestar como sujeito a partir da própria palavra. Ao se considerar a barra que se situa abaixo do lugar do outro, pode-se referi-la ao que este deve, a partir de cada laço social, produzir. Em se tratando do discurso do mestre, o produto ou perda pode ser retratado a partir da ordem de trabalhar para o escravo que produz um objeto para a satisfação do senhor. No discurso da histérica, a produção é de um saber do mestre movido pela interrogação do sujeito. O discurso do universitário tem como produção um sujeito revoltado ou sintomatizado devido ao fato de ser tratado como objeto. Por fim, no discurso do analista, o trabalho do sujeito resulta na produção do significante mestre ao qual está assujeitado. 85 Para fundamentar o lugar da verdade, vale circunscrever a função da primeira barra que se situa na primeira fração dos discursos, já que em cada um ela “representa a interceptação da apreensão de qual é a verdade em causa em cada laço social” (Quinet [2006] 2010, p.17). Pois, quanto mais se procura pelo lado da verdade, mais o poder dos impossíveis se torna evidente (Lacan [1970] 1992, p.179), por isso tal dimensão é cuidadosamente escondida, sendo encoberta com a aparência da impotência. Assim, a verdade do discurso do mestre é que ele é castrado, não passa de mais um. No discurso da histérica “sua verdade é que precisa ser o objeto a para ser desejada” (Lacan [1970] 1992, p.167). No discurso do universitário, o comando instituído pelo saber está, na verdade, sustentado por um mestre, o que tem como conseqüência que o saber não é unívoco. Na contramão deste saber está o do discurso do analista que, por estar no lugar da verdade, só vigora na condição de meio-dizer. Esclarecida a função dos elementos que compõem os discursos, bem como seus lugares, a lógica da ocupação destes por aqueles produzindo os modos específicos de aparelhar o gozo, agora se trata de verificar seu modo de funcionamento. Deste modo, no discurso do mestre, verifica-se a mesma estruturação que a do inconsciente, pois, neste, o sujeito barrado está representado por um significante (S1) para outro significante (S2), tendo como produção um resto. Este aparece figurado nas formações do inconsciente como o chiste, lapso, ato falho ou sintoma, nas quais há um gozo. Tal discurso também pode apresentar a lógica que rege a fundação da civilização, na medida em que permite situar a existência de uma ordem no lugar do agente que, emitida pelo mestre, implica na submissão ao que é entendido como lei por parte do escravo, com sua conseqüente renúncia ao objeto do gozo. No lugar da verdade encontra-se o sujeito dividido, que deve permanecer elidido para que a ordem sustentada por este discurso se mantenha sem ser interrogada. No que tange ao discurso do universitário, o elemento que está no lugar do agente é o saber que, ao tratar o outro na qualidade de objeto, acaba por produzir um sujeito que “se revolta ou sintomatiza” (Quinet [2006] 2010, p.35), 86 por ter sido objetivado e, portanto, destituído de sua condição de sujeito. Aqui, o lugar da verdade está ocupado pelo significante mestre, que lembra que o saber, que pretende tudo objetivar, está sustentado pelas idiossincrasias do mestre. Este, que pode ser encarnado por alguém, na verdade é um significante, que tem como uma de suas características a produção de equivocidades, que devem permanecer sob a barra para que a operação do discurso ocorra. O sujeito dividido colocado no lugar do agente é o que comanda no discurso histérico e, neste, pode ser chamado de sintoma. Pois é desde um sintoma que o outro, na qualidade de mestre, se verá interrogado, a ponto de ser obrigado a responder com a produção de um saber sobre a causa do malestar. O problema reside em que tal saber será sempre insuficiente quanto a esclarecer a causa, em virtude de que ela está no lugar da verdade. Em tal situação, o gozo, que está na condição de representado pelo sujeito, só se manterá na medida em que permanecer como causa perdida. Quando é o objeto a que está operando no lugar de agente, o discurso é o do analista. Neste, o comando do analista no lugar de objeto leva a que o sujeito dividido, colocado no lugar do outro, venha a produzir os significantes aos quais está alienado. Para isso, o saber deve estar no lugar da verdade, que neste caso tem como característica a de ser um saber que não tem o mesmo estatuto do que está no discurso do mestre, por visar justamente que o sujeito possa interrogar sua alienação ao mestre e verificar que se trata de um significante. Assim, este saber deve operar a partir do não-tudo-saber, retirando sua condição de efetividade ao se apresentar como um semi-dizer. Constata-se desta forma que o discurso do analista funciona como o avesso do discurso do mestre, pois na produção daquele aparece o significante mestre, não encarnado, como no discurso do mestre, mas enquanto puro significante, o que tem como conseqüência tornar manifestas as condições que permitem que o mestre ocupe um lugar de liderança, destituindo-o. O avesso do discurso universitário encontra-se no da histeria, pois onde o saber vem instituir uma totalidade criando uma segregação do sujeito, a 87 histeria irá resgatá-lo, fazendo que vigore através do sintoma, representando um ‘não’ do sujeito à tiranização do saber. Em virtude da constatação de que os discursos mantêm uma interdependência entre si, vale destacar que, justamente por isso, não se trata de estabelecer um lugar privilegiado para um deles em detrimento do outro. Mas, justamente por sua interdependência dever-se ao fato de que um não se constitui sem o outro, sendo um o avesso do outro, que será importante, dependendo de cada situação, poder viabilizar o giro dos discursos, permitindo dar a palavra para o mal-estar vigente. Como foi apresentado, cada discurso tem sua função determinada, a saber: governar, educar, psicanalisar e fazer desejar. Sua estruturação é composta pelos mesmos elementos que, ao mudarem de lugar, produzem uma outra organização discursiva. Se tais discursos podem servir como “uma espécie de pólo de atração para o qual convergem (...) todos os discursos existentes”, por outro lado, “nenhum discurso existente pode ser identificado estritamente a um desses quatro discursos” (Jorge [1980] p. 10). Deste modo, o discurso que será desenvolvido na sequência como “discurso médico” apresenta-se próximo do discurso de mestre e do universitário, não se sobrepondo inteiramente a eles. Porém, esta diferença não exclui a possibilidade de um trabalho que se sirva da análise discursiva, permitindo destacar a estrutura e modo de operação que vigora em cada discurso. Neste sentido passaremos a consideração do mencionado discurso e sua inserção na universidade. 5.2. Da operação dos discursos na instituição médica-universitária Após esta breve exposição sobre os fundamentos dos discursos e sua lógica, o passo seguinte reside em operar com eles para constituir o que Clavreul (1980) denominou de “discurso médico”. O motivo da escolha por tal caminho consiste na necessidade de poder estabelecer com clareza os modos de operação discursiva que tem lugar numa instituição hospitalar universitária e poder identificar a possibilidades de operar com quartos de giro no discurso dominante para dar lugar também a outras construções discursivas. Particularmente, para quem o trabalho fundamenta-se no discurso analítico, 88 numa instituição principalmente médica, a tendência a deslizar do próprio discurso para o médico torna-se rapidamente uma aparente facilidade. Pois o discurso médico de mãos dadas com o discurso universitário possui uma pregnância tal que conduz, com uma aparente naturalidade, para a padronização. Esta ocorre através da proposta do uso de protocolos, prontuários, uniformes, procedimentos, avaliações, testes, que, se por um lado são de vital importância para o ato médico, por outro lado, em virtude do discurso que o sustenta, tem por condição de sua operação o apagamento do sujeito. Vale ressaltar que a presente proposta intenta destacar o modo como se constitui este discurso, o que conseqüentemente implica em identificar seu alcance, mas também sua limitação. Não se trata, portanto, de uma denúncia, mas de uma constatação. A partir desta é possível verificar os impasses a que tal discurso chega e propor novas direções que permitam uma circulação por outros discursos. Deste modo, se a medicina estabelece uma nova ordem que vem substituir a salvação pela saúde (Foucault [1987] p.228), obtida caso se siga os passos estabelecidos pelo mestre, a morte traz um limite a tal razão, como o faz a loucura para a psiquiatria. Limites estruturais que restringem o imperativo do poder e o totalitarismo do saber. O poder concerne ao discurso do mestre, discurso de dominação ao qual se aproxima o discurso médico. Em virtude de sua estruturação implicar em que, no lugar do agente encontre-se uma ordem à qual o paciente, situado no lugar do outro, deve se submeter como um escravo. Na produção encontrase a doença como objeto constituído a partir da articulação significante. No lugar da verdade encontra-se o sujeito do desejo, apagado pela objetivação do outro, identificando-o a sua doença, condição para que a operação do mestre ocorra. O caráter de mandamento que acaba tomando o dizer do médico é sustentado por sua prática ordenada por um discurso que prioriza a articulação entre significantes. Estes compõem um campo a partir de sinais que, ao passarem pelo crivo do significante, sofrem uma mutação que permite congregá-los de modo a estabelecer, por exemplo, um diagnóstico. Com isso, constata-se que não se tem uma doença por se ter determinados sinais que a indicam, mas sim que a doença é fruto da leitura desde um determinado 89 discurso que a funda como tal. Pois os sinais podem ser lidos desde outras perspectivas, como os fornecidos pelo discurso religioso. Desta forma uma manifestação que seria considerada uma histeria pelo médico, teria o diagnóstico de possessão demoníaca sob a ótica do clérigo. O que leva a concluir que o objeto de investigação é determinado pelo discurso que o aborda. Pela forma particular como estão ordenados os elementos que compõem o discurso médico, o sujeito do desejo, situado no lugar da verdade, fica velado. Isto, devido a que seu modo de constituição em relação ao objeto implica na característica de se opor ao sujeito, deixando-o a margem do processo. Aqui não há, supostamente, nenhuma inter-relação entre o sujeito e o objeto, a tomada deste visa ser inteiramente efetivada pelo simbólico, mascarando a divisão do sujeito, propondo-o como idêntico ao significante (Lacan [1970] 1992, p.84), ou seja, elidindo o real que está em causa na divisão do sujeito. Este discurso caracteriza-se por estabelecer um campo de realidade que obtura a possibilidade de efetuar a análise da fórmula da fantasia que é representada pelo matema ($<>a), podendo ser lida como a “relação do a com a divisão do sujeito”(Lacan [1970] 1992, p.101). A fantasia não deve ser considerada como oposta a realidade, mas sim a condição de sua constituição. Pois, o sujeito constrói sua realidade a partir de significantes que circunscrevem um real que permanece, em relação à divisão do sujeito, fora do campo do simbólico. Tal aspecto acaba impossibilitado de ser levado em conta pelo discurso do mestre, devido ao fato de que, na fantasia, o objeto está interrelacionado ao sujeito, este como aparelho lacunar, em cuja lacuna o objeto vem a se instaurar na qualidade de objeto perdido, ao qual são propostos objetos sub-rogados de uma falta (Lacan [1964] 1985, p.175). Portanto, ao obturar a falta pela constituição de um objeto, surgido da articulação significante que subsidia sua consistência, obtém-se no contraponto um apagamento do sujeito do desejo, pelo fato de lhe conferir o objeto substituto como se fosse o original. É possível encontrar no discurso médico os efeitos dessa lógica ao se analisar o modo como se estabelece a dita relação médico-paciente. Devido à forma como estes dois elementos se ordenam pode-se dizer que o médico, 90 enquanto tal, procura eliminar toda a subjetividade em jogo ao proceder à avaliação do doente. Este, por sua vez, ao ser avaliado, torna-se um objeto e, por isso, conseqüentemente, destituído de sua característica de sujeito doente. O que será avaliada é a doença, identificada a partir dos sinais coletados pelo discurso médico ao qual um sujeito, por se dispor a entrar nele, acaba sendo suprimido. Conclui-se, portanto, que a relação médico-paciente não existe, mas, sim, a relação discurso médico-doença (Clavreul [1980]). Este modo específico de medicina, como ciência clínica, surge em um contexto histórico que tem pouco mais de dois séculos, como se pode constatar em Foucault, no livro “O Nascimento da Clínica” (1980). Ele resume, de maneira exemplar, a passagem de um tipo discursivo a outro quanto à forma como o problema das doenças é abordado. Primeiramente a pergunta direcionada a quem procurava um médico era: o que é que você tem? Com o surgimento da anatomia patológica que se propunha a abrir cadáveres para ali encontrar a causa da doença, tornando visível o que, até então, era invisível, aparece um novo modo de questionamento: onde lhe dói? Permitindo constatar que o modo de interrogar o problema funda seu campo operativo, no específico do discurso médico, ao encontrar no corpo a morada da doença. 5.3. Um caso clínico supervisionado em um hospital-escola (1) Pode-se encontrar, numa situação em que o paciente está internado num hospital universitário, um modo de ressaltar os elementos discursivos em jogo e suas inter-relações. A paciente, que era atendida por uma estagiária de psicologia supervisionada pelo autor do presente trabalho, já havia sido internada várias vezes devido a um problema circulatório que estava levando à gangrena da perna. Como o médico que a assistia já havia salvado seu membro de uma amputação, estava confiante em se submeter a uma técnica experimental, através da qual se faria uma ligação externa das vias ______ (1) Vale ressaltar que por se tratar de um estágio no qual os participantes normalmente não são psicanalistas, o discurso analítico presentifica-se como uma orientação para a intervenções efetuadas. 91 circulatórias com o intuito de irrigar a perna que começava a dar mostras de ausência de circulação sanguínea. Tal procedimento consistia em ligar a circulação da perna saudável com a da outra perna, de modo que, para isso, ficaria imobilizada por aproximadamente um mês, com as pernas amarradas uma a outra. Como acréscimo ainda havia a possibilidade de prejudicar a outra perna. A segunda opção consistia em se submeter à cirurgia de amputação da perna, procedimento ao qual a família estava inteiramente de acordo e, aliás, preferia, principalmente por minimizar os riscos que envolviam a proposta experimental. A paciente não aceitava a possibilidade de vir a ter sua perna amputada, pois estava convicta de que, nesta nova condição, seria repudiada pelo marido, apesar deste insistir que para ele este aspecto era irrelevante. Diante destas circunstâncias decidiu-se por dar o passo na direção da esperança. A resposta esperada não estava ocorrendo e, numa visita médica, na qual os professores, residentes e alunos ficam ao redor do leito para avaliar o paciente, estudar o caso e definir as diretrizes quanto aos procedimentos a serem tomados, um residente emitiu a seguinte pergunta: por que ainda não amputaram a perna desta paciente? A reação da paciente, neste caso, impaciente, foi de sair de seu lugar de objeto para se manifestar na seguinte fala: como o senhor é insensível doutor! Criou-se com isso um clima de constrangimento geral que resultou na decisão do médico, provavelmente por se encontrar sem saída, de retirar-se do ambiente. Após sua saída, explicaram à paciente tratar-se de uma questão que se referia ao encaminhamento do tratamento, porém o mal-estar já estava instalado. O que pode ter gerado tal mal-estar? Primeiramente pode-se constatar que houve uma reação da paciente, fato que normalmente não acontece, pois os pacientes eventualmente nem estão no leito, ao redor do qual se sucede a visita da equipe médica. Portanto, a avaliação médica praticamente dispensa a presença do paciente, já que para operar precisa dos dados do corpo. É este, na qualidade de máquina, que efetivamente tem importância para que o 92 discurso médico funcione e, para isso, separa o corpo daquele que o porta, deixando clara sua posição. Nesta, a fala do paciente está dirigida por uma investigação que define seu objeto, a doença. No que tange ao doente, a preferência é que permaneça silencioso. Note-se que a justificativa dada pela equipe à paciente não carece de razão, esta, reside na variação do discurso médico que também pode operar, como nesta situação, através do discurso universitário. Aqui o dominante que agencia é o saber e, é em nome deste que o médico fez seu questionamento, tendo por conseqüência a transformação do outro em um objeto. Portanto, é o discurso em sua especificidade que condiciona a não existência da relevância de considerar um sujeito para operar. Seu imperativo de tudo saber não deixa margem para o sujeito por transformálo em objeto. O produto gerado advém da exclusão do sujeito que surge como revoltado ou, neste caso, como impaciente. Ao proceder a um questionamento sobre o modo como o médico respondeu à interferência da paciente, pode-se aventar a hipótese de que foi tocado em sua posição de sujeito que deveria ter permanecido apagado. O que leva a confirmar a divisão entre aquele que executa uma função delimitada por um discurso, e a pessoa que se dispõe a assumir tal função. Marca da divisão do sujeito, que aparece a partir da expressão “insensível”. Mas, por acaso, não é isso que se espera de um cirurgião? Ou seja, a insensibilidade, para que justamente opere com a razão máxima visando obter o melhor resultado? Porém, é preciso ressaltar, no que tange a seu objeto. O mal-estar do lado do médico surgiu ao se identificar ao insensível, o que o levou a necessariamente ter que sair da sala e do discurso no qual operava. Dividido entre o sensível e o insensível, qual a posição do sujeito? A equipe médica resgatou-o com seu saber no comando, situando-o em seu silêncio, ao deixar claro qual é o seu objeto. Neste ponto verifica-se que o discurso médico circula em torno dos dois discursos dominantes na civilização, a saber: o do mestre e o universitário. Cujo caráter impositivo se precipita, respectivamente, como manifestação de poder ou de saber. Constatou-se que o discurso universitário se fundamenta no saber do mestre que, ao ser interrogado, leva a que apareça a divisão do sujeito, seja no lugar da verdade ou no lugar da produção. 93 No que tange aos discursos que se situam no avesso da civilização encontra-se o da histérica e o do analista. O primeiro pode ser localizado na manifestação da paciente que veio a interrogar o saber do mestre, situado no lugar do outro, ao colocar como agente do discurso o sujeito dividido, produto do discurso do universitário em virtude de ter sido tratado como objeto. O mestre é o que produz o saber que será utilizado pela universidade, criando uma falsa idéia de totalidade. Tal modo de saber, que figurou na pergunta feita pelo médico, foi interrogado, deixando evidente a presença de um sujeito que sustentava um discurso. Por outro lado, marcou um furo no saber que foi em seguida preenchido com mais saber. Já o discurso do analista pôde vigorar na medida em que ofereceu uma escuta a quem, na condição de sujeito, foi interrogado pelo objeto ao qual se identificou, possibilitando fazer emergir, como produto, o que o fez assujeitar-se à ordem médica na condição de objeto. Pois, com isso visava manter o que supôs ser a causa do desejo do Outro, representado, no caso, pelo marido. O laço analítico permitiu ao sujeito produzir os significantes que o alienavam aos ideais do Outro, o que viabilizou a realização do luto do membro que veio a ser amputado, porém, com o seu consentimento. Neste caso supervisionado foi possível, na medida em que o discurso analítico teve lugar, constatar os efeitos terapêuticos que surgiram durante o trabalho ao permitir que através da fala livre fosse sendo construído, gradativamente, um espaço para que o sujeito tivesse lugar. Na supervisão, o trabalho sistemático sobre o caso possibilitou destacar, a partir da experiência do discurso, questões sobre a direção do tratamento, cuja elaboração resultou no desdobramento supra-citado, e numa abertura para um seguimento dos atendimentos no âmbito ambulatorial, sequência que não será abordada nesta dissertação. Deste modo, constata-se que os discursos permitem uma forma estruturada e precisa de leitura dos fatos, que são criados a partir de atos que fundam, dependendo do elemento que se encontra no lugar de agente do discurso, um modo particular de laço social. Com tais instrumentos verifica-se que “o setting não define o discurso, tampouco as palavras pronunciadas, e sim 94 o ato” (Quinet [2006] 2009, p.41). Com isso pode-se deduzir que não é o lugar onde os fatos se desenrolam que fundará o discurso, mas sim o ato, enquanto “dizer que funda um fato” (Quinet [2006] 2009, p.41). Sendo que, desde tal premissa, o discurso do analista também pode operar numa instituição hospitalar universitária, desde que haja um ato que o sustente. Portanto, o trabalho de supervisão em psicanálise realizado num outro setting não configura necessariamente uma adaptação da mesma a determinado contexto, cuja consequência seria a de abrandar sua operatividade criando uma pseudopsicanálise. Mas, sim, reside na operação que propicia a circulação dos discursos a partir da identificação da especificidade da lógica discursiva em vigor, dando lugar para que o discurso histérico e principalmente o analítico venha a luz. A função deste último reside em se direcionar ao sujeito, partindo de sua questão para poder chegar ao sujeito em questão, ou seja, a função de tal discurso consiste em dar lugar ao que concerne ao inconsciente. Concluindo, não importa em qual contexto o discurso analítico se situe, no que tange a sua aplicação, ele sempre estará endereçado a um sujeito (Quinet [2009] p.74). 5.4. A lógica dos discursos no campo da supervisão Com o que foi até agora desenvolvido verificou-se a lógica de funcionamento dos discursos e um modo particular de sua operação numa situação clínica envolvendo algumas possibilidades de sua articulação com o contexto em que se insere, ou seja, um hospital geral. Constatou-se que não é o contexto que funda o ato analítico, mas o agente ocupando o lugar de objeto é que possibilita a emergência do discurso em sua especificidade. Deste modo, o lugar da psicanálise é criado a partir do ato analítico, o qual funda um fato que será construído desde a perspectiva discursiva adotada. Assim, o lugar da psicanálise ficará assegurado, no caso, na instituição hospitalar, desde que possa considerar o modo como uma instituição se constitui a partir dos discursos e das variações a que estão sujeitos de acordo com o lugar ocupado pelo agente, podendo operar oportunamente ao permitir destacar o poder dos impossíveis que estão em jogo. Agora trata-se de levantar, a partir dos discursos, uma lógica sobre seu modo de operar no campo da supervisão e, com este fim, utilizar como referência exemplos extraídos da práxis da 95 supervisão em psicanálise no hospital. Para tanto, a referência aos discursos permite destacar as demarcações do campo e limites de cada um deles, oferecendo a possibilidade de situar a partir da fala do supervisionante o agente que norteia cada discurso. A importância em partir dos discursos reside em facilitar a problematização da pertinência da circulação do discurso analítico na instituição hospitalar, bem como, em ressaltar o modo de estruturação desta, de modo a permitir poder situar os elementos em jogo para poder operar de modo mais preciso. Pois, os supervisionantes efetuam sua prática neste contexto que, apesar de não definir a possibilidade do ato analítico, resulta numa complexificação do processo, devido à necessidade de agregar elementos que não são usuais no trabalho de um analista, o que implica em uma exigência de prontidão e flexibilidade para tornar operativa a intervenção que levará em conta os fundamentos psicanalíticos considerando as especificidades do meio discursivo em que se encontra. Estas, podem ser verificadas frequentemente como as situações apresentadas a seguir: as anotações em prontuários que estão à disposição da equipe e mesmo do paciente, o atendimento a pacientes em enfermarias (o que implica na possibilidade da presença de outras pessoas), a eventual presença de acompanhantes, a atuação da equipe do hospital (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, pessoal de limpeza entre outros) com uma grande gama de demandas que precisam ser acolhidas e encaminhadas, o atendimento a pacientes nos ambulatórios que são encaminhados pelo hospital pelos mais variados motivos. A condição do internamento, que está vinculada prioritariamente à doença de ordem orgânica, mas nem sempre. Tal situação é evidente quando é necessário estabelecer um diagnóstico diferencial para definir o campo de operação, como no caso dos fenômenos psicossomáticos ou sintomas histéricos e doenças orgânicas. Dentro deste contexto levantam-se situações para as quais cabe criar possibilidades de forma a permitir a vigência do discurso psicanalítico. Foi abordado como um dos problemas da supervisão a importância de diferenciar o estatuto do saber que lhe concerne, já que, por não se tratar do ensino de uma técnica, envolve a necessidade de que o saber seja construído 96 a partir da fala do supervisionante sobre seus atendimentos. A fala normalmente já aparece ordenada como fruto de um preparo anterior à supervisão, que vai definindo o modo como o supervisionante compõe o quadro que pretende apresentar. Constata-se, portanto, que o produto deste trabalho se dá a posteriori, sendo a supervisão o espaço privilegiado para a elaboração do saber sobre o caso (Quinet [2009] p.128), espaço onde o singular do caso vem discutir com o universal da teoria. Tal processo permite verificar a elaboração efetuada e seus eventuais impasses, dificuldades, limitações diante do ato analítico, como o que pode ocorrer com o surgimento da angústia do praticante frente ao atendimento, a qual acontece com certa frequência, na medida em que este busca por um saber antecipado sobre o que supostamente se passa com o paciente antes mesmo de ele ser atendido. Como pode eventualmente ocorrer com a leitura prévia do prontuário, mobilizada pelo “saber o que o paciente tem”, para, por exemplo, parecer saber sobre o problema que ele apresenta. Outra forma de se defender contra o mal-estar diante da possibilidade criada pela oferta da fala livre pode ser a tentativa de organizar questionários padronizados. Pois, deste modo, estabelecem-se os lugares de modo inequívoco, sendo o instrumento, o objeto que permite que se apague, ou pelo menos, tente-se apagar as manifestações próprias da ordem da subjetividade. Tanto no que tange ao praticante, que fica isento de ter que elaborar a estratégia a partir do que escuta, quanto ao paciente (uso este termo em virtude de que nestas entrevistas em enfermaria, normalmente, não há uma demanda de atendimento, parte-se do princípio de que com a oferta pode advir uma demanda) na medida em que o questionário estabelecerá as perguntas desde alguma premissa que antecipa um sentido, normalmente pressentido por quem responde. O questionário pode ter sua função, dependendo da abordagem teórica que o sustenta fundamentando o que visa estudar, porém, no que tange à psicanálise, implica em um desvio do que pressupõe o método da associação livre, que pretende que possa emergir algo a partir da fala na medida em que se oferece uma escuta e não o inverso. Somente quando o não saber pode entrar em jogo como um elemento que permite formular perguntas que não visam apresentar as desculpas pela 97 ignorância que, neste caso, não é douta, ou, antecipar um sentido para evitar que surja o mal-entendido com a angústia que o acompanha, mas construí-lo a partir da lógica discursiva para que possa emergir o que está em questão, é que se está situado desde uma perspectiva que considera a possibilidade da emergência do inconsciente. Para isso é fundamental que o lugar do objeto como agente esteja situado de modo a permitir que o próprio sujeito venha a produzir os significantes a que está alienado, partindo da articulação significante própria. Outro aspecto do saber que costuma se apresentar nas supervisões, concerne ao uso da teoria como uma forma de evitar, mais uma vez, a associação livre. A tentativa de encaixe do analisante na teoria, advém das mais variadas formas, tendo como resultado a queixa na supervisão de que há uma resistência do lado do analisante que não colabora, não associa direito, somente fala sobre futilidades, quer saber demais do praticante, pede-lhe coisas, interroga-o, fala demais dos outros e nada sobre si, não trata de seu sintoma, de modo tal que não é um bom analisante. Formas usuais de queixas que, por não poderem se sustentar desde uma lógica que considere o inconsciente, resultam em uma práxis que opera um exercício de controle. Pode-se considerar que principalmente o discurso universitário é o que está vigente neste tipo de proposta. Pois o saber está no lugar do agente, tratando o outro como um objeto, quando se trata de resgatar o sujeito. Um fator bastante usual que ocorre no trabalho com pacientes que estão inseridos no meio hospitalar reside em confundir o que seria concernente ao discurso médico, com o que pode ser oferecido pelo discurso analítico. Tal fato se dá na medida em que o motivo da internação é tomado como o motivo da entrevista com o praticante, pois, a internação em si mesma não tem o poder de conferir a necessidade de uma entrevista. Porém, pode vir a ser a possibilidade de uma abertura para o aparecimento de uma questão. Como não poderia deixar de ser, uma das ocorrências frequentes no trabalho de supervisão diz respeito a problemas de ordem transferencial, que aparecem nas mais variadas situações. Uma delas foi desenvolvida como tema do relatório final de conclusão de estágio, cujo resumo é apresentado numa 98 jornada de encerramento anual das atividades de estágio e fica à disposição do serviço de psicologia do HC.UFPR, do qual foi extraído o seguinte fragmento: “Ao retornar ao relato dos casos mencionados, percebi que a problemática que pretendia abordar não estava clara, como imaginava. Percebi, através das supervisões, que apenas o último desses correspondia à temática que me propunha a tratar. A Sra. T. realmente não sabia definir qual era o “problema” do filho e a senhora com câncer sabia de seu diagnóstico, embora lidasse com ele de um jeito peculiar - não foi possível, durante os atendimentos, esclarecer qual era a função de “não acreditar” no câncer – e depositava esperanças no tratamento. Percebi, devido à dificuldades em delimitar a temática que iria tratar, que passei a fazer uma leitura enviesada dos casos. Deparei-me, pois, com uma das dificuldades da pesquisa: a generalização, em que perde-se de vista o que há de singular em cada caso e corre-se o risco de querer encaixar a teoria da prática, e não o oposto, como fez Freud. As percepções feitas até então eram importantes, mas eu estava longe de ter uma questão ou temática para abordar. O que eu tinha era o relato de três casos, aos quais novamente me voltei e os discuti em supervisão. Notei, então, que tratavam-se de casos cujos diagnósticos clínicos eram de doenças graves e que os atendimentos haviam me causado mal-estar e angústia, sentimentos que me motivaram à levá-los para a minha análise pessoal. Nesta etapa, um lapso por mim cometido deu-me um indicativo da direção a ser seguida. O lapso aconteceu quando, na primeira versão do relatório, eu escrevia sobre os casos que já relatei, mais especificamente, quando tratava das falas dos pacientes, que denotavam uma esperança acerca do tratamento que eu não percebia nesses. Eis o lapso: ...os comunicados dos pacientes denotavam um otimismo que não parecia (a) ser (b) sentindo por eles (c)” Analisando o lapso durante supervisão, o resultado foi: (a) Parecia: percepção subjetiva e, sustentada pelo discurso do paciente. portanto, não (c) “sentindo por eles [pacientes]” pode ter, pelo menos, dois sentidos. O primeiro deles é o objetivo: algo sentido em relação aos pacientes, como amor e ódio. O segundo é o subjetivo: estar sentindo no lugar dos pacientes. Logo, a pergunta é: se eu estou sentido no lugar deles, onde estão os pacientes? (b) E finalmente, analisando o lapso integralmente, é possível pensar no meu “ser” ou em mim sentido no lugar dos pacientes. Logo, onde estão os pacientes? Portanto, a dificuldade em definir a questão a ser abordada no relatório era fruto da proximidade que eu possuía em relação aos pacientes atendidos, por quem nutria afetos que 99 traziam dificuldades para direcionar o trabalho. Os meus sentimentos em relação à eles resultaram em prejuízos para a escuta e em compreensões da fala dos pacientes. Ex: quando a senhora acometida por câncer me fala sobre a esperança com o tratamento, mas eu entendia tal fala como sinônimo de morte. Assim, não se trata mais de uma escuta guiada pelo discurso do paciente, mas pela compreensão do praticante orientada por um sentimento subjetivo que não está sustentada pelo método psicanalítico.” (2011) O relatório faz parte da exigência do estágio como uma das tarefas necessárias para sua conclusão. Porém, a temática trabalhada resulta da escolha do estagiário que precisará destacar uma questão que se colocou para ele durante o estágio, para em seguida proceder a uma elaboração por escrito que será apresentada como trabalho de conclusão. Parte-se, portanto, do que o estagiário pode destacar da própria experiência, para em seguida, proceder ao trabalho de elaboração. Pois o trabalho clínico vai levantando uma série de perguntas que ao serem levadas para a supervisão, serão encaminhadas de forma a que, voltadas para a própria experiência do supervisionante, possam lhe ser restituídas de modo a se direcionar a respostas que mantém a abertura da questão do sujeito. O que mantém a direção do tratamento sempre voltada para o que se manifesta de específico a partir da fala, que somente poderá fazer parte de uma universalização da teoria, “a posteriori”. Prioriza-se, assim, a análise em detrimento da síntese. Note-se que o trabalho de supervisão envolve a idéia de um “processo” (Quinet [2009] p. 129) que não se restringe ao momento da supervisão, ele envolve o atendimento, mais a elaboração do atendimento, nos quais se destacam as linhas principais do trabalho, a supervisão e a retomada do trabalho num movimento contínuo. Verifica-se no texto citado que a questão desenvolvida no relatório somente pode ser cernida após ser situada a dificuldade em supervisão, que permitiu identificar o que, até então, não aparecia como o elemento comum que se repetia nos casos apresentados, a saber: a implicação subjetiva da praticante. Poder se dar conta dos efeitos que a palavra ouvida causa, mobilizando uma das características do significante que consiste em antecipar o sentido (Quinet [2003] p.42), desde premissas que compõe a própria estruturação fantasmática, conflui como uma das possíveis funções da 100 supervisão. Assim, na linha associativa, que segue de S1 para S2, o efeito de sentido terá uma orientação contrária. Nesta direção constitui-se um sujeito e seu objeto correspondente na retroação, que vem estabelecer uma relação entre os significantes. Caso não haja uma abstenção de se colocar o modo como se compõe subjetivamente tal relação, o praticante tenderá a compreender o que se passa com aquele que fala desde uma perspectiva que concerne a própria subjetividade. Para evitar que isso ocorra é necessária uma disciplina que somente a análise pode propiciar, pois, do contrário, se já é difícil perceber tal interferência, a possibilidade de elaborar os percalços que interferem na escuta analítica, torna-se inviável. Ao se interrogar o estatuto da relação entre supervisor e supervisionante pode-se destacar as condições propiciatórias para que uma supervisão ocorra, que, brevemente, podem ser resumidas num “a mais” do supervisor e um “a menos” do supervisionante, que através da supervisão transformar-se-ão em “um a menos” e “um a mais” (Costa [2007] p. 8). Em outras palavras, a busca da supervisão, em geral, vem acompanhada de uma demanda que confere ao supervisor uma suposição de saber sobre o caso que precisa ser subvertida. Assim, este “a mais” atribuído ao supervisor, sofre uma mutação no trabalho de supervisão, na medida em que o saber advém da fala do supervisionante que possui um saber, sem saber que o tem, deste modo, o que era “menos”, ou seja, a falta de saber, passa a ser “mais”. Note-se que este “mais” não segue o curso do “a mais” de saber do supervisor para o “menos” de saber do supervisionante, já que é o “não saber” do supervisor que propicia que o supervisionante venha a saber desde a própria palavra proferida. O resgate da direção dos tratamentos, bem como na questão a ser trabalhada no relatório, ocorreu ao se retomar o que apareceu no próprio discurso da praticante. Ao se indicar o que se colocava no texto, abriu-se um caminho até então inédito, que permitiu ressituar sua posição na escuta, retomando o sentido: da direção dada ao trabalho; abolindo-o como antecipação; analisando-o pelo que produziu como sentido em si, na própria análise. 101 Verifica-se que tal percurso segue o caminho avesso ao que estava sendo percorrido pela praticante, por colocar sobre a barra a relação da fantasia, que ao ser interrogada permite abrir espaço para que o que advém da palavra do outro tenha lugar, justamente por manter uma hiância entre os significantes, como uma posição ética. Esta, dá margem para que o sujeito possa vir a produzir os significantes aos quais está alienado, o que pode ser verificado no trabalho de supervisão, por proporcionar a possibilidade de que a elaboração do caso tenha lugar. Sucintamente, neste processo dá-se a passagem do discurso do mestre para o do analista. Constata-se também, a partir do texto, que a surpresa do lapso pôde desvelar, por um momento, o que se colocava como limite pelo saber, ao se permitir escutar a palavra proveniente do inconsciente, que surge como emergência da verdade em estado nascente, interrogando o modo como se compõe a trama discursiva (Lacan [1954-1955] 1985, p. 30). Ao se manter o sujeito barrado como agente abre-se a possibilidade que o outro, no caso o praticante, possa vir a interrogar o modo como compõe a lógica conceitual para abordar os problemas da clínica. Deste modo, o universal da teoria fica impedido de corresponder inteiramente ao singular da clínica, que, caso ocorresse implicaria no tratamento do outro como um objeto, eludindo que o saber sempre é parcial. Assim, a construção do saber sobre o caso, não visa a sabê-lo todo (posto que é impossível), marcando a limitação do saber, como o lugar da verdade, na qualidade daquilo que inevitavelmente faltaria aquele para completá-lo. A supervisão segue, nesse sentido, no avesso do discurso universitário, marcando a limitação do saber por um lado, e por outro estimulando a produção de um saber especifico sobre o caso. No relato confirmou-se que a teoria aplicada à clínica atrapalha o trabalho. A supervisão portanto não deveria cair no mesmo impasse. Então porque fazer supervisão? Se ela não ensinará um saber sobre a técnica, nem propiciará uma garantia de um bem fazer? Resposta: para aprender. Mas, se não se trata propriamente de um ensino, o que se pode aprender? A reinventar a psicanálise. Não criá-la, pois a criação sempre será obra de Freud. Mas se verificamos na história o que cada mestre acrescentou sobre a técnica, por que 102 não se chegou a um consenso? Conclusão, porque não há uma técnica psicanalítica, constata-se que, a cada vez, reinventaram um modo de pensar a psicanálise segundo a singularidade de cada um (Safouan [2006] p.279). Assim, cabe aquele que exerce a psicanálise reinventá-la a cada vez com cada analisante. Como a cada vez que se joga o jogo de xadrez, ele precisa ser reinventado. Para isso é fundamental partir da própria experiência, esta, sempre emerge em forma de questão, que se presentifica das mais variadas formas. O “aprender a aprender desde a própria experiência”, proposto por Safouan ([2006] p. 280) como resposta à pergunta sobre o que há de ensino na supervisão, marca esta como um lugar no qual o aprender não está voltado para o saber que se sabe de antemão, que inclusive vem obturar o que se pode vir a saber. Trata-se de operar desde a “ignorantia docta” (Lacan [19531954] 1986, p.317), ou seja, de um não saber douto, que visa guiar o sujeito, não a um saber, mas “nas vias de acesso a esse saber”, onde o que conta são as vias de seu erro. Este, consiste em “esquecer a função criadora da verdade em sua forma nascente” (Lacan [1954-1955] 1985, p. 30). Resgatar esta função da verdade que se apresenta a partir da experiência de cada um, que se coloca como único guia, do qual se tem algo a aprender, reside em outra função da supervisão. Fato ocorrido no mencionado exemplo, no qual, a partir da tentativa de formalização da própria experiência constatou-se uma construção incompatível com o saber constituído, abrindo-se para a verdade da palavra que o próprio texto continha. No que tange ao sujeito que se presentificou no trabalho citado, constata-se que durante os atendimentos imprimiu-se uma significação que visava estabelecer uma barreira de proteção contra a angústia que as variadas situações clínicas faziam ressonar. Ao surgir em supervisão a percepção do toque da angústia no ser do praticante, desdobraram-se duas vias de trabalho, uma que apontava para a própria análise, outra que permitia, a partir da própria experiência, uma abertura para a elaboração de saber. Nesta elaboração há articulação do saber com o não saber, o que revitaliza a clínica, por reinventála. Assim o universal da teoria se conjuga com o particular da clínica, o que só 103 pode advir a partir da abertura de uma escuta para a subjetividade que está em questão. Tal percurso estava impedido pela obturação da questão do sujeito que, em virtude da presentificação do ser do praticante, não podia interrogar o que do sujeito se formulava como questão. 104 6. CONCLUSÃO O “instante de ver” que depertou o interesse em aprofundar o estudo neste campo, ocorreu a partir da experiência própria e de colegas em uma variada gama de situações clínicas relativas principalmente ao campo da supervisão em psicanálise no âmbito hospitalar. O qual foi direcionado basicamente por duas questões, a saber: quais os fundamentos conceituais que permitem estabelecer diretrizes que norteiem a supervisão em psicanálise? Como fundamentar o estatuto de tal práxis em um hospital? Interrogações que, mantidas, foram seguidas de um “tempo de compreender”, envolvendo um processo de elaboração teórica que percorreu um caminho no qual foram dados os seguintes passos: o estabelecimento de uma história da supervisão em psicanálise, o qual propiciou a restituição da supervisão para o campo propriamente psicanalítico, cujo estatuto se fundamenta em uma conceituação que considera o inconsciente como ponto de partida. Deste, pode-se ter uma idéia de seu funcionamento a partir do que se verifica no outro, porém, no que que tange ao praticante, este só terá notícias do seu através do outro. Fato que levou Freud a afirmar da necessidade de uma análise pessoal para poder se dar conta da efetividade do inconsciente de modo a criar uma convicção quanto a sua existência. A partir da experiência da própria análise advém um analista que ao defrontar-se com dificuldades da clínica procura um analista reconhecido, entrando a supervisão como um segundo momento na formação. Marcando-a como uma escolha de alguém que está disposto a seguir na interrogação sobre os impasses colocados pela clínica e seu modo de operar o discurso analítico. O que ressalta uma grande diferença com a obrigatoriedade para garantir um controle de qualidade como pode ocorrer em determinadas instituições. O segundo passo envolveu a proposta de identificar a supervisão como um dos pilares da formação do psicanalista, na qual se dá a construção, a partir dos impasses colocados, de um saber que diz respeito à singularidade de 105 cada caso. Nesse processo, aparecem obstáculos que são elencados e desenvolvidos de modo sistemático. O terceiro passo consistiu em estabelecer três momentos da supervisão: a angústia diante do quadro clínico que se apresenta, a demanda de saber sobre o caso e a solução. Procedendo a uma analogia com o sonho da “injeção de Irma” de Freud. O quarto passo residiu em desenvolver os fundamentos conceituais da supervisão tomando como norte a transferência, que estabelece o quadro clínico situando o analista na pintura. A operação deste, orientada pelo “desejo do analista”, consistirá em situar-se desde o lugar de semblante do objeto a, diferenciando-o de i(a). O quinto passo partiu da fundamentação dos quatro discursos propostos por Lacan, visando estabelecer seu modo de operação em uma instituição médica-universitária. Para em seguida poder estabelecer uma lógica dos discursos para uma práxis da supervisão no hospital, concluindo que ela se dá ao operar principalmente através do discurso da histeria e do analista. Por fim, chega-se ao “momento de concluir”. Como um primeiro ponto a destacar, verifica-se, a partir da práxis da supervisão, a importância da necessidade de que as pessoas que se dispõem a um trabalho em psicanálise submetam-se a uma análise. Supervisionantes que são aceitos no hospital sem um trabalho analítico, acabam por verificar sua necessidade (o que não deixa de ser uma das funções da supervisão), os que já fazem um trabalho analítico, constatam que sem ele o trabalho ficaria, se não impossível, muito prejudicado. A supervisão se encontra como um pilar fundamental para a formação, o que se pode verificar na retomada constante nos relatórios dos estagiários sobre importância crucial da supervisão no estágio, sem a qual a experiência fica sem uma direção, logo, sem consequência formativa. Uma outra tomada da supervisão, que ficará para um momento futuro, poderia consistir em trabalhá-la a partir das coordenadas dadas por Lacan, no texto denominado “A direção da cura e os princípios de seu poder”([1958] 106 1998). No qual pode-se pensá-la a partir da noção de “tática”, que poderia ser vista como o trabalho em cada supervisão, a “estratégia” que consistiria na tomada do conjunto dos trabalhos de supervisões e a “política” na qual falta a ser estaria norteando para a questão do sujeito. Assim, a tomada da supervisão uma a uma e em seu contexto, devem estar direcionadas por uma política que esteja voltada para recolocar sempre em pauta o desejo em relação a causa analítica. 107 7. BIBLIOGRAFIA BALINT, M. (1953) Formação analítica e análise didática. In: Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, ano I, número 3/4, nov., p. 25-28, 1990. BRIBING, E. e LANDAUER, K. (1937) Relatório do comitê internacional de formação. In: Bulletin of the Internacional Psychoanalytical Association, p. 369-372, apud MOREAU, M. Análise quarta, controle, formação. In: Jornal de Psicanálise. São Paulo: Lis, vol. 34, números 62/63, p.39-67, 2001. CLAVREUL, J. A ordem médica. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980. 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Análise de controle. Porto Alegre: CMC, 2008, p. 41-53. ZUBERMAN, J. A. Análise de controle. Porto Alegre: CMC, 2008. 114 8. ANEXO PROPOSTA DE CURSO TÍTULO: -Curso introdutório à teoria da supervisão em psicanálise e sua práxis no hospital. OBJETIVO GERAL: -Apresentar aos participantes os conceitos que fundamentam a supervisão e sua práxis no hospital. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: -Conceituar supervisão em psicanálise partindo de uma de abordagem histórica; -Situar a problemática da supervisão no contexto hospitalar; -Apresentar situações da prática da supervisão; -Debater o tema a partir da experiência dos participantes; -Criar uma sensibilidade à necessidade de refletir sobre esta práxis. JUSTIFICATIVA: -Trata-se de um tema pouco estudado e com bibliografia limitada. -Verifica-se que são poucos os profissionais que tem conhecimento sobre os fundamentos conceituais da supervisão. -A práxis da supervisão normalmente é efetuada de modo a repetir o modelo que o supervisor aprendeu de forma intuitiva como supervisionante. -A supervisão constitui um dos principais meios de formação profissional por estabelecer a discussão da teoria com a prática. Portanto, deve ser fundamentada para não ocorrer sem maiores reflexões. PÚBLICO ALVO: -Profissionais da área da psicologia e psicanálise. CONTEÚDO: -Conceituar supervisão em psicanálise; 115 -Contextualizar o conceito através de abordagem histórica; -Situar a problemática da supervisão no contexto hospitalar; -Apresentação de situações de supervisão. -Desenvolver a teoria dos discursos em Lacan, fundamentação para a questão da supervisão no hospital. direcionando sua METODOLOGIA: -Aulas teóricas e debates. TEMPO DE DURAÇÃO: -A ser definido. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CLAVREUL, J. A ordem médica. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980. FONTENELE, L. Caminhos e descaminhos da supervisão em psicanálise. In: JORGE, M. A. C. (org.). Lacan e a formação do psicanalista. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2006, p.263- 275. FREUD, S. (1937) Análise terminável e interminável. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. GOLDENBERG. R e DUVIDOVICH, E. A Supervisão na Clínica Psicanalítica. São Paulo: Via Lettera, 2007. LACAN, J. (1969-1970) Seminário 17. O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. LECLAIRE, S. (org.) État dês lieux de la psychanaliyse. Paris: Albin Michel, 1991. MOREAU, M. Análise quarta, controle, formação. In: Jornal de Psicanálise. São Paulo: Lis, vol. 34, números 62/63, p.39-67, 2001. SAFOUAN, M. (1975) (Hacia uma) teoria del analisis de control. In: Actas de la Escuela Freudiana de Paris. Barcelona: Ediciones Petrel, 1980, p. 189-205. 116