Projeto A Vez do Mestre Pós-Graduação em Psicopedagogia PSICOPEDAGOGIA E VALORES NA PRÁTICA EDUCACIONAL COM ADOLESCENTES: Um diálogo entre o valor de educar e o trabalho psicopedagógico. POR: ARTHUR VIANNA FERREIRA Rio de Janeiro 2005 2 Projeto A Vez do Mestre Pós-Graduação em Psicopedagogia PSICOPEDAGOGIA E VALORES NA PRÁTICA EDUCACIONAL COM ADOLESCENTES: Um diálogo entre o valor de educar e o trabalho psicopedagógico. Monografia apresentada a Universidade Candido Mendes para obtenção parcial do grau de especialista em Psicopedagogia orientado por Prof. MS. Nilson Guedes de Freitas POR: ARTHUR VIANNA FERREIRA Rio de Janeiro 2005 3 AGRADECIMENTO A todos que proporcionaram a conclusão deste curso de pós-graduação Lato Sensu que foi de importante valia na minha formação profissional, ajudando grandiosamente na minha atuação como educador em meios populares. A Ordem de Santo Agostinho, aos meus irmãos da comunidade Agostiniana da Consolação do Rio de Janeiro, a SIC- AIACOM e suas oficinas de valores que foram objeto deste estudo, aos meus colegas de curso do Projeto “A vez do mestre” e a todos os professores. Muito Obrigado! 4 DEDICATÓRIA À Deus, aos meus pais, Sr. Ferreira e Sra. Edina Vianna e aos meus amigos, em especial a Maria Nazaré Mattos de Rezende que em um dia do mês de julho as 06 horas manhã, com um recorte de jornal nas mãos, me incentivou a fazer este curso. 5 EPÍGRAFE “Quando um aluno tem dificuldades para aprender, é necessário armar-nos de misericórdia e de paciência. (...) Por que ensinar aos ignorantes é um serviço necessário, ensinar agradando-os é uma recompensa prazerosa, porém ganhá-los ensinando sobre as suas próprias vidas é a maior das vitórias”. Santo Agostinho em Instrução aos catecúmenos, 13,18. 6 RESUMO O presente estudo monográfico visa refletir sobre a importância da psicopedagogia e de sua prática de intervenção dentro de oficinas que discutem valores ético-morais e sociais entre jovens de 12 a 17 anos em uma instituição não governamental dentro de uma comunidade carente do bairro do Engenho Novo no Rio de Janeiro. O trabalho levanta a problemática de como a psicopedagogia pode auxiliar na transmissão de valores dentro da educação não formal de adolescentes em uma instituição não governamental. Para tanto determina o objetivo geral de ampliar o conceito de intervenção psicopedagógica como uma ferramenta válida que facilite o trabalho de educação de adolescentes em oficinas pedagógicas de formação humano-Ético-social. Apoiando-se no discurso de autores como Nadia Bossa, Jorge Visca, Piaget, Neide Noffs e Dulce Sampaio, tenta explicar a importância da educação em valores para adolescente e jovens, assim como o papel do educador neste processo. Preocupa-se em situar a psicopedagogia dentro do processo de ensinoaprendizagem ressaltando sua contribuição. Propõe a utilização da intervenção psicopedagógica como facilitadora de vínculos entre educador e educando, a apresentando como uma ferramenta importante a ser utilizada na relação do educando com os temas desenvolvidos pelo grupo no espaço educativo. Finalmente, aponta como conclusão a utilização da teoria da Epistemologia Convergente como ferramenta de intervenção psicopedagógica no trabalho do educador de valores seguido de algumas dicas para a sua prática dentro das oficinas. Palavras Chaves: valores, intervenção psicopedagógica, epistemologia convergente, jovens e adolescentes e Instituição não-governamental. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................................................................................8 1. O VALOR DE EDUCAR EM VALORES.......................................................................11 2. A PSICOPEDAGOGIA E A ATUAÇAO NA EDUCAÇÃO..........................................19 3. A PSICOPEDAGOGIA E A EDUCAÇAO DE ADOLESCENTES EM OFICINAS DE VALORES: Uma adorável parceria......................................................................................33 CONCLUSÃO......................................................................................................................45 BIBLIOGRAFIA...................................................................................................................49 ANEXO.................................................................................................................................51 ÍNDICE.................................................................................................................................52 FOLHA DE AVALIAÇÃO..................................................................................................55 8 INTRODUÇÃO Os valores sempre permearam as relações humanas. Através deles o homens e mulheres que constituem a sociedade se relacionam e dão sentidos a todas as suas atividades. Assim ocorre também dentro da educação. Cada vez mais vemos a necessidade de ressaltar os valores dentro do processo de ensino-aprendizagem em todas as instituições educacionais sejam elas escolares, não-governamentais, cooperativas ou empresas. Os valores ajudam no processo educacional e seu ensino dá aos que estão envolvidos um sentido que ajuda na relação entre o mundo concreto e a aprendizagem. Este panorama se torna mais importante naquelas instituições que possuem em seu programa educativo, oficinas que trabalham especificamente com a questão da vivência de valores dentro da sociedade. Este tipo de trabalho educativo é desenvolvido, principalmente, por espaços educacionais que foram sendo gerados pelos diversos segmentos sociais, e que tem como objetivo atingir a grande massa que o estado não logra alcançar, com seus esquemas educacionais que buscam cumprir as exigências de uma educação formal. Estes saberes são considerados como educação não formal, sobretudo por deixarem de cumprir determinadas exigências clássicas e obrigatórias a esta outra educação. De caráter mais prático e funcional, este tipo de educação não é muito valorizado pela sociedade, embora determine atividades básicas de relevante importância dentro do contexto sociológico urbano. A educação não formal acaba sendo apreciada pelas instituições não governamentais, ONG’s, que somam forças humanas, físicas e econômicas, criando um ambiente propício para a propagação de atividades educacionais que atendam às necessidades básicas e imediatas destas populações de risco social. Assim como nas grandes capitais de nosso país, na cidade do Rio de Janeiro se encontram várias instituições com estas características supramencionadas. Uma delas, o Projeto SIC-AIACOM, atua diretamente com crianças e adolescentes em situação de risco 9 social, moradores de comunidades de baixa renda do bairro do Engenho Novo e adjacências. Para isso, além de atuar junto a crianças e adolescentes, a instituição também se preocupa com o seu meio familiar, e por isso, desenvolve atividades comunitárias através de oficinas profissionalizantes. Dentro desta perspectiva de desenvolvimento integral da pessoa, as oficinas de valores direcionadas aos adolescentes são um espaço privilegiado onde os mesmo podem aprender, discutir e re-significar valores por eles desconhecidos que os ajudam na reintegração social e em todos os outros aspectos de sua vida, seja educacional ou profissional. Porém, esta tarefa educativa se faz mais complicada se levarmos em consideração o fato de que a faixa etária da adolescência já possui por si mesma suas inquietações. Para um melhor trabalho, o educador precisa lançar mão de outros recursos para que o jovem se sinta atraído pelo trabalho e possa incorporar em sua prática social, os conteúdos desenvolvidos comunitariamente dentro das oficinas de vivência de valores. O objetivo deste trabalho monográfico é trazer a reflexão à utilização da Psicopedagogia como uma proposta de auxilio da práxis dos educadores dentro das oficinas de vivência de valores em uma instituição não governamental do bairro do Engenho Novo na cidade do Rio de Janeiro. A interrogativa de como a psicopedagogia pode ajudar na transmissão de valores e seu desenvolvimento dentro da prática do educador serão respondidos dentro de três capítulos que ajudaram a situar o nosso estudo na realidade educacional em que se encontra as oficinas. O primeiro capítulo tenta deliberar o que sejam os valores, o reconhecimento de sua utilização dentro do processo educacional e a sua importância na educação de jovens e adolescentes. Os valores fazem parte da educação do homem desde de seus primórdios sendo exaltado por filósofos como Cicerón, Hobbes ou Kant que serão estudados neste capítulo. No próximo segmento, aprofundamos um pouco mais sobre a Psicopedagogia, suas origens, o psicopedagogo como profissional e sua ética, a intervenção como sua prática e seu campo de atuação dentro da educação propriamente dita Utilizamos a discussão de 10 autores como Nadia Bossa, Neide Noffs, Terezinha Carraher e Jimenez e Ayala sobre aquilo que é o específico desta especialidade dentro do processo de ensino-aprendizagem, relacionando o educando com o meio em que ele se encontra. Ao terceiro capítulo iremos dedicar uma atenção especial ao abordar alternativas dentro a psicopedagogia que ajudem o trabalho dentro das oficinas de valores filosóficos com os adolescentes reavaliando as ações dos educadores e suas posturas educacionais frente aos seus educandos. Utilizando autores como Jorge Visca, Piaget e Dulce Sampaio ampliamos os horizontes de uma prática pedagógica mais perto das necessidades reais dos educandos e do bom desenvolvimento do trabalho do educador. Os valores e a educação são duas faces da mesma moeda. Um ajuda ao outro na formação do indivíduo. O profissional da área da educação sabe em sua prática que sem valores não se pode atrair a atenção dos alunos para nenhum dos conteúdos propostos. A psicopedagogia possui uma ferramenta preciosa, que este pequeno estudo convida a descobrir e incita a realizar um esforço para coloca-la em prática segundo as nossas necessidades educacionais. Uma adorável parceria entre as oficinas de valores e a intervenção psicopedagógica é o nosso sonho e desejo, assim como o objetivo que impulsiona este estudo monográfico. Não custa a nós, educadores, pelo menos tentar. E assim, fazer da nossa tentativa um caminho que nos leve a uma prática educacional coerente e funcional, que mostre o verdadeiro valor de nossa profissão para a educação da juventude de nossa sociedade do Rio de Janeiro. 11 1. O VALOR DE EDUCAR EM VALORES. A educação em valores é um caminho a ser trilhado pelos educadores de jovens e adolescentes que se preparam para o mundo adulto. Vale a pena trazermos a reflexão o conceito de valores, o papel deles na educação e sua importância na construção do conhecimento dentro da relação professor-aluno. 1.1. O que são valores? A noção de valor vem do grego e significa: valor, preço, estimação, apreciação, dignidade ou merecimento. A palavra foi usada na antiguidade para indicar o preço dos bens materiais e para designar a dignidade ou mérito das pessoas. São os estóicos que introduzem este término no domínio da ética, denominando valores ao objetos das seleções morais. Assim o fizeram porque entenderam o bem no sentido subjetivo, o qual os dava a possibilidade de considerar os bens e suas relações hierárquicas como objetos de preferência ou de eleição. No geral definiam o valor como toda a contribuição a uma vida conforme a razão. Ciceron amplia: “Conforme a natureza ou digno de eleição”.(OZMON:2004, 15) Por conforme a natureza entendiam o que deve ser eleito em todos os casos, ou seja, a virtude; pelo digno de eleição, entendiam os bens que os homens devem preferir como as habilidades, a arte, o progresso entre as coisas espirituais, a riqueza, a fama, a saúde, a força e a beleza das coisas externas. Estas divisões entre os valores obrigatórios e valores preferenciais será expressada mais tarde como a divisão entre os valores intrínsecos e valores extrínsecos ou instrumentais. No mundo moderno volta a reaparecer o valor com a noção subjetiva de bem com o filósofo Hobbes:“O valor ou estimação de um homem é como o de todas as coisas, seu preço”. (OZMON:2004, 33). Kant (1980, 76) identifica o bem com o valor no geral quando diz:“Cada um denomina bem o que aprecia ou aprova, ou seja, aquilo no que existe um valor objetivo”. 12 Assim, ele limita a noção de valor do bem moral, excluindo o que produz prazer e o que é belo. O conceito de bem é substituído pelo de valor. Este se torna herdeiro da teoria subjetivista defendida pelos estóicos e complementada por Epicuro, que diz que um bem é aquilo que eu desejo, por tanto, vale aquilo que é objeto de minha eleição, minha eleição a realizo em base ao prazer que eu procuro para fugir da dor. O conceito de virtude desaparece por que se abandona uma reflexão sobre o que é melhor para o homem. Esta reflexão é substituída pelo quais são os valores estimados pela sociedade – que serão estudados pelos sociólogos - e por uma reflexão sobre as atitudes e modos de ser na vida que acompanha a estes valores sociais - que serão estudados pelos psicólogos. O conceito de ideal cai em desuso e é substituído pelo valor, talvez porque o nível da sociedade não se baseia em ideais muitos elevados, senão perseguem agora um bem estimado pelos homens que chamam “dinheiro” e que estão enraizados nas consciências das culturas e que suscita diversas paixões. Na verdade, o conceito moderno de valor emerge como herdeiro da teoria subjetivista (defendida no século XIX pelos utilitaristas ingleses) que diz que o que vale é aquilo que é objeto da minha eleição, de minha preferência, que me proporciona prazer e me afasta da dor, com o qual o homem se constitui na medida das coisas assim como diz Protágoras. Apesar da teoria dos valores, a axiologia, tenta ser uma solução ao questionamento do homem tradicional ela não consegue. E os problemas antigos reaparecem de forma antinomia entre uma concepção objetivista e uma concepção subjetivista dos valores se constituindo como um dos temas fundamentais das discussões morais na atualidade. A concepção objetivista, herdeira da teoria metafísica se apega a um valor das coisas, não transcendental, mas imanente. A antinomia se apresenta na atualidade da seguinte maneira: elejo algo por que eu reconheço um valor intrínseco no sentido de uma propriedade inerente a esse algo ou por que elejo algo que este se torna valioso. No primeiro caso uma coisa pode ser valiosa independentemente do que eu eleja, no segundo caso são as eleições que outorgam o valor das coisas. Na verdade, diremos que as coisas 13 serão valiosas por consenso (porque as vontades operam na mesma direção). Porém, e se ocorrer às eleições entre os sujeitos sociais e não se dá o consenso? Pode ser que a eleição pode ocorrer sobre qualquer coisa e que pode haver tantas coisas quantos sujeitos elegendo, com o qual se perderia o conceito de valor, porque “se tudo vale, nada vale”. No primeiro caso a solução viria da educação. Educar consiste em alentar, despertar, sensibilizar ou inocular nos educandos a capacidade ou possibilidade de apreciar o valor das coisas que tem valor. No segundo caso a solução se apresenta na forma de uma intervenção política que faça que as vontades confluam em uma só direção e que a coisa elegida não prejudique a maioria dos componentes da sociedade (podendo perfeitamente prejudicar as minorias). As modalidades que os políticos inventaram são: informar, premiar e castigar. O dilema parece que se apresenta como: ou educo na família e na escola ou terei que convencer a força. A preocupação que apresenta Pablo Latapí (apude Savater:2002, 97) supõe que a anarquia chegou a extremos insustentáveis, intoleráveis ou insuspeitados pela destruição, corrupção e decomposição social impetrante. Por isso, o educador deve integrar a suas funções de instruir e a de educar também a função de formar valores humanos em seus alunos. Ao educador se apresentam os seguintes problemas: a) Quais os valores devo ensinar? b) Como faço para realizar? Esta primeira pergunta interroga qual moral ou código moral substituirá a amoralidade ou imoralidade que penetrou em todos os níveis na sociedade. Vários teóricos da Pedagogia planteiam que os valores a serem implantados na educação são: tolerância, respeito, solidariedade, democracia, liberdade política, defesa ecológica, responsabilidade, entre outros. A característica comum é que estes valores são apresentados como bons em si, ou seja, como absolutos e por tanto bons para todos sem possibilidade de crítica alguma, 14 pois qualquer pessoa com sentido comum teria que aceita-los imediatamente. Alguns educadores se empenham nesta tarefa e propõem modalidades pedagógicas para o exercício de suas atividades. O importante é o que o valor representa em nossa sociedade e que a educação pode ser o local privilegiado de sua transmissão. 1.2. Os valores na educação. Muitos estudos têm se realizado nos últimos anos sobre a influência dos valores sobre a conduta das crianças e dos adolescentes. Os jovens como os adultos enfrentam um mundo de problemas e decisões que refletem a complexidade da vida do homem.Nestas decisões estão em jogo os valores como forças que direcionam todas as nossas ações. Estas, com freqüência, entram em conflito; em parte pela pouca claridade do sistema de valores da sociedade e da outra parte pela desorientação da existência humana. A tarefa de educar e, com ela, a de educar nos valores, não fica circunscrita somente ao âmbito familiar. Família e sociedade são espaços sociais fortemente comprometidos nesta responsabilidade. García Morente vai concluir esta relação da seguinte maneira: Hay una primera concesión de esta amplia responsabilidad que afecta a la persona del educador. Si el educador en la escuela ha de contribuir a que el hombre se descubra a sí mismo, descubra el mundo y su profundo significado, no es indiferente el concepto de hombre y del mundo que tenga. Y más que el concepto, más que la visión intelectual, importa su actitud valorativa de los demás hombre y de su inserción en el mundo; lo que él sea y el modo, incluso, de auto conocerse, constituyen la aportación fundamental al proceso de autorrealización del alumno. (PASSMORE:1983, 22) Mas a educação no se reduz a realização professor-aluno. No marco da escola como instituição se da uma interação constante entre a estrutura, a organização e a metodologia didática. Estes levam em si juízos de valor e convertem os mesmos em veículos decisivos de esquemas de valoração e de adesão a determinados valores. Faz-se importante revisar alguns conceitos sobre o papel do valor na educação. 15 1.2.1. O homem, centro dos valores. Os valores não existem sem o homem, que com eles está em disposição de dar significado a própria existência. O centro ou o lugar dos valores é o homem concreto que existe com os demais no mundo. As coisas adquirem valor no medida em que se colocam neste processo de humanização do homem. Esta condição de encontro com os valores reclama uma atitude educativa na qual tem que se reconhecer o lugar central do homem na constelação de valores, reconhecimento que nos conduz de imediato a esfera da liberdade humana. 1.2.2. A educação “em” e “para” a liberdade do homem. Para Dondeyne, não basta valorar as coisas ao redor da esfera do humano. Hay que ponerse al servicio de este valor promoviéndolo para mí y para los demás por medio de gestos concretos y eficaces, dándole así al mismo tiempo sentido a la vida y haciendo propio este sentido. (PASSMORE:1983, 51) Toda a ação educadora se encaminha a provocar um processo que vem marcado por ações tais como optar, preferir e aderir a um sistema de valores. A liberdade constitui-se o fio condutor da educação. Para isto ela adquire as seguintes conotações: A liberdade como marco situacional - O marco situacional é a situação vivida pelo sujeito que valora. Elementos integrantes do situacional são fatores diversos como o psicológico, as percepções e as crenças, as qualidades dos grupos de pertença, a configuração do sistema social em que se desenvolve entre outros. Ante esta realidade se reforça a expressão de Mounier: “Minha Liberdade não é somente um surgir; está ordenada, ou melhor, ainda, invocada pela minha realidade”.(apude SAMPAIO: 2004, 34); e a liberdade e seu entorno comunitário - os valores não estão exclusivamente na linha de ter e possuir, senão também de dar e de reconhecer aos demais. O educador deve promover responsabilidades ante a vivência dos valores desde nós mesmos. Deve gerar a possibilidade de formar homens que optem pelo seu próprio sistema de valores e sejam coerentes com os mesmos. Deve promover uma ação educacional séria com o compromisso de humanização e transformação a partir do comunitário. 16 1.2.3. A aceitação dos valores como processo de educação. A aceitação de um valor implica assinação de um mérito ou valor a uma realidade de bem, onde o valor pode vir ou para reflexão pessoal ou vivencia, ou pelo caminho da crença, se dando aceitação do testemunho de juízo do outro. Sólo cuando la elección es posible, cuando hay mas de una alternativa de la cual escoger, décimos que puede surgir un valor. Y sólo puede surgir un verdadero valor cuando se ha meditado y considerado cuidadosamente cada alternativa, y sus consecuencias, entre un cierto numero de alternativas. (PASSMORE:1983, 29) A tarefa da educação será a de relacionar os valores aceitados pelo jovem com outros existentes, comparando-os e buscando que ocupe uma organização ou hierarquia de valores que se devem ser vividos pelos jovens em seu cotidiano. Desta forma ocorrerá, naturalmente, uma internalização que pode se dar de diversas maneiras diferentes, segundo a aceitação de alguns valores sobre os demais. Este processo produz uma ininterrupta modificação de conduta. Ao largo do processo de internalização, o sujeito vá conseguindo captar os fenômenos, reagindo junto deles, avaliando-os e conceituando-os. Simultaneamente, a educação contribui para a estruturação dos valores dentro de um sistema que chegará a modelar a vida da criança e do jovem a vida inteira. 1.2.4. Enfoque final sobre uma educação nos valores. A educação nos valores é atualmente uma das áreas educativas mais interessantes e conflituosas. É um campo que exige uma profunda reflexão e discussão. Como resposta a esta necessidade percebida com urgência por alguns educadores, surgiu diversas correntes e métodos sob o título “educação humanista”. Este tema atraído o interesse de pedagogos, psicólogos, psicopedagogos, sociólogos, filósofos e expertos em política científica. Apesar desta enorme corrente de busca nos amplos setores educacionais, temos que reconhecer que o tema está nos termos de gestação e se apresenta sob diversos nomes. As próprias palavras “valores” e “valoração” estão em processo de ser clarificados para chegar a uma linguagem 17 comum mais ou menos aceitado de maneira universal e aplicado nas distintas oficinas que justificam sua existência a partir de sua educação. 1.3. A importância da educação de valores para jovens e adolescentes. A educação nos valores é o processo que ajuda as pessoas a construir racional e autonomamente seus valores. Ou seja, capacitar o ser humano de mecanismos cognitivos e afetivos que, em completa harmonia, nos ajudam a conviver com equidade e compreensão necessárias para nos integrar como indivíduos sociais e como pessoas únicas, no mundo que nos rodeia. Trata-se de trabalhar as dimensões morais da pessoa para assim potenciar o desenvolvimento e fomento de sua autonomia, racionalidade e uso do diálogo como mecanismo habilitador na construção de princípios e normas, tanto cognitivos como condutores. Estas dimensões, a sua vez, possibilitaram a equidade e empatia necessárias no dito processo, para que as formas de pensar e atuar se nos apresentem conjuntamente, em uma relação simétrica frente a resolução de conflito de valores. Na educação de valores não se questiona as mudanças significativas que es estão operando no nível pessoal nem social. Pressupõem que, se os valores econômicos distinguem e desvalorizam os valores psicológicos e afetivos que nos ajudam a ser pessoas com critérios de auto reflexão até nós mesmos e o mundo que nos rodeia, quem sabe num futuro não muito longe, viveremos em uma sociedade despersonalizada e egoísta. Os valores viriam como uma ferramenta importante para que esta realidade não se concretizasse. Esta necessidade de fomentar na educação os valores é devido aos câmbios sociais, culturais e educativos. A evolução das tecnologias é um triunfo do homem, porém não pode deixar de lado a dimensão humana da pessoa. Por isto, educar em valores é a preocupação cada vez maior dos intelectuais que perguntam sobre o ser humano e o que projetamos para o futuro. O mundo e o conhecimento são constituídos socialmente, todas as pessoas podem se considerar como participantes ativas deste processo. Por esta razão e como educadores que 18 somos temos de ser conscientes de nosso papel e da maneira como ajudamos a nossos jovens a construir-se também socialmente. A educação de valores tem um papel essencial nesta tarefa. A educação em valores pretende adaptar as necessidades derivadas das crises contemporâneas e reorganiza-las em função das expectativas educativas que delas derivam. O ato de valorar é uma tarefa humana e coletiva que nunca termina. Ele fundamentará o projeto comum de dar um sentido ao nosso mundo. Se os valores estão na base de todas as nossas ações é inevitável reconhecer sua importância para a práxis educativa. A educação se tornará mais coerente e eficaz, se formos capazes de vivenciar estes valores em nossas ações educativas junto aos nossos alunos.(ARANHA: 2002, 119) A educação em valores deve começar nas primeiras idades e deve levar em consideração aspectos psicológicos, sociológicos e afetivos. A psicopedagogia vem assomar-se a esta educação de valores. Vem construir juntamente com estas outras áreas a sua temática e enriquecer sua pobre bibliografia, através das atividades programadas e jogos. . Porém a transmissão de valores se da de forma implícita em sua grande maioria passando assim, valores conscientes e inconscientemente na relação com os alunos. A maneira que o educador entende o mundo e exerce o seu trabalho educacional é o potencial que transmitimos a nossos educandos. A sua finalidade é que nossos adolescentes, através deles, sejam os adultos do futuro. Ou seja, pessoas comprometidas com sua sociedade, solidárias, justas, sinceras, capazes de se colocar no lugar do outro e assim dar continuidade a educação em valores. É no trabalho educacional de valores que construímos a qualidade da humanidade do futuro. 19 2. A PSICOPEDAGOGIA E SUA ATUAÇÃO NA EDUCAÇÃO A psicopedagogia pode ser uma ferramenta importantíssima dentro do processo de ensino aprendizagem e torna-se para o professor um instrumento fundamental para que a sua prática alcance a efetividade desejada em todos os aspectos educacionais. Para isso, faz-se importante, desmistificar e conhecer o que é a psicopedagogia, sua história, seus agentes e suas práticas. 2.1. O que é psicopedagogia? Muitos teóricos e estudiosos sentem uma grande dificuldade em conceituar o que seja a prática psicopedagógica. Esta dificuldade vem da facilidade que temos em, ao olharmos a semântica da palavra em questão, fazemos a equação básica para conseguirmos alguma definição usando a nossa lógica: Psicologia + Pedagogia = Psicopedagogia Este conceito de que ela é a simples junção dos conhecimentos da Psicologia e da Pedagogia, que ocorre freqüentemente no senso comum, se torna uma definição reducionista e limita e empobrece a capacidade de atuação do profissional em sua vasta área de atuação. Segundo Nadia Bossa (1994, 21). A psicopedagogia se ocupa de aprendizagem humana, que advento de uma demanda – o problema de aprendizagem, colocando num território pouco explorado, situado além dos limites da Psicologia e da própria pedagogia – evolui devido à existência de recursos, ainda que embrionários, para atender essa demanda, constituindo-se, assim, numa prática. Na realidade, a psicopedagogia é um campo do conhecimento que se propõe a integrar, de modo coerente, conhecimento e princípios de diferentes ciências humanas com a meta de adquirir uma ampla compreensão sobre os variados processos inerentes ao aprender humano. É uma área de interesse multidisciplinar. À Psicopedagogia interessa 20 compreender como ocorre os processos de aprendizagem e entender as possíveis dificuldades situadas neste movimento. Para tal, faz uso da integração e síntese de vários campos de conhecimento, tais como a Psicologia, a Psicanálise, a Filosofia, a Psicologia transpessoal, a Pedagogia, a Neurologia, a Sociologia, entre outros. É necessário comentar que a Psicopedagogia é comumente conhecida como aquela que atende crianças com distúrbio de aprendizagem. É notório o fato de que as dificuldades, distúrbios ou patologias podem aparecer em qualquer momento da vida e, portanto, a Psicopedagogia não faz distinção de idade ou sexo para o atendimento. O papel do Psicopedagogo é o de ser mediador no processo de desenvolvimento intelectual de forma preventiva e terapêutica, recorrendo a várias estratégias pedagógicas objetivando se ocupar dos problemas que podem surgir nos processos de transmissão e apropriação dos conhecimentos. Ele pode atuar em diferentes campos de ação, situando-se tanto na saúde como na educação, já que seu fazer visa compreender as variadas dimensões de aprendizagem humana, que afinal, ocorrem em todos os espaços e tempos sociais. 2.1.1. Um pouco da História da Psicopedagogia. O inicio do “fazer” psicopedagógico ocorre na Europa, ainda no final do século XIX, evidenciada pela preocupação com os problemas de aprendizagem na área médica. Acreditava-se na época, que os comprometimentos na área escolar eram provenientes de causas orgânicas, pois se procurava identificar no físico as determinantes das dificuldades do aprendentes. A crença de que os problemas de aprendizagem eram causados por fatores orgânicos perdurou por muitos anos e determinou a forma do tratamento dada à questão do fracasso escolar até bem recentemente. Na década de 40 a 60, na França, ação do pedagogo era vinculada à do médico. No ano de 1946, em Paris foi criado o primeiro centro psicopedagógico. O trabalho cooperativo entre o médico e o pedagogo era destinado a crianças com problemas escolares, 21 ou de comportamento e eram definidas como aquelas que apresentavam doenças crônicas como diabetes, tuberculose, cegueira, surdez ou problemas motores. A denominação “Psicopedagógico” foi escolhida, em detrimento de “Médico Pedagógico”, por que se acreditava que os pais enviariam seus filhos com mais facilidade. Em decorrência de novas descobertas científicas e movimentos sociais, a Psicopedagogia sofreu muitas influências. Na América do Sul, a nova área de atuação de conhecimento surge nos anos 50. Na Argentina, o aparecimento da Psicopedagogia se deu em 1955 na Universidad Del Salvador, quando o Dr. Juan Rodriguez Leonard, comprometido com a organização da faculdade de Psicologia, pensa que deveria ter uma disciplina que fosse capaz de resolver os problemas surgidos em aula com a aprendizagem escolar. Ela surge no interior da carreira de Psicologia, e desde o começo se cogita a possibilidade de se transformar em uma carreira autônoma. Em 2 de maio de 1966, o Estado Argentino reconhece como oficial a carreira de Psicopedagogia e regulariza o seu trabalho profissional. No Brasil, em 1958, surge o Serviço de Orientação Psicopedagógico da Escola Guatemala, no Rio de Janeiro. O objetivo era melhorar a relação professor-aluno. Nas décadas de 50 e 60 a categoria profissional dos psicopedagogos organizou-se no país, com a divulgação da abordagem psico-neurológica do desenvolvimento humano. Atualmente, a Psicopedagogia vem se firmando no mundo do trabalho e se estabelecendo como profissão. Porém sofre muito preconceito por parte da Psicologia como a acusação de esta roubando o espaço do Psicólogo Educacional, e resistência por parte das instituições de ensino para seu encaixe dentro do sistema educacional. Muitas vezes o Psicopedagogo é visto como um intruso dentro das instituições Educacionais. O Projeto de Lei 3.124/97 do Deputado Barbosa Neto que prevê a regulamentação da profissão de psicopedagogo e que cria o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Psicopedagogia, está em tramitação na Câmara dos deputados em Brasília na Comissão de Constituição Justiça e Redação. A regulamentação da profissão ocorrerá para o nível de especialização e o projeto já foi aprovado na Comissão do Trabalho e na Comissão de Educação, Cultura e Desporto. 22 2.1.2. Campo de Atuação do Psicopedagogo Inicialmente, a atuação psicopedagógica caracterizava-se somente no aspecto clínico, como vimos nos seus primórdios na França. Hoje ela já pode ser contemplada no aspecto escolar, chamado Institucional, em segmentos hospitalares, empresariais e em organizações que aconteçam gestões de pessoas. Podemos vislumbrar a Psicopedagogia como uma área do conhecimento que estuda e lida com o processo do ensino e da aprendizagem. Esse processo ocorre em vários locais: escola, hospitais, clínicas, etc. (NOFFS: 2003, 42) A Psicopedagogia clínica tem como missão retirar as pessoas da sua condição inadequada de aprendizagem, dotando-as de sentimentos de alta auto-estima, fazendo-as perceber suas potencialidades, recuperando desta forma, seus processos internos de apreensão de uma realidade, nos aspectos: cognitivos, afetivo, emocional e de conteúdos acadêmicos. O aspecto clínico é realizado em Centros de Atendimento ou Clínicas Psicopedagógicas e as atividades ocorrem geralmente de forma individual. O Aspecto Institucional, com já mencionado, acontecerá em organizações e está mais voltada para a prevenção dos insucessos interpessoais e de aprendizagem e à manutenção de um ambiente harmonioso, se bem que muitas vezes, deve-se considerar a prática terapêutica nas organizações como necessária. A Psicopedagogia institucional deverá estudar as modalidades de ensino-aprendizagem desencadeadas e/ou possibilitadas pela instituição escola. Sua intenção é cuidar da prevenção e do enfrentamento de conflitos envolvendo a escolarização. (NOFFS: 2003, 26) É importante perceber que a Psicopedagogia vai ganhando um papel importante em um novo momento educacional que vai aparecendo que é os alunos de Necessidades Educativas Especiais dentro do ensino regular. Ela tem sido uma peça fundamental dentro da inclusão destes indivíduos dentro do contexto escolar e também social. 23 2.2. A Intervenção Psicopedagógica no processo de ensino aprendizagem. A priori, a Intervenção Psicopedagógica é a atuação de ações pedagógicas dentro do processo ensino-aprendizagem do indivíduo para que se realize de forma mais adequada a captação do conhecimento e seu relacionamento transpessoal com o ambiente social em que se encontra. Porém, segundo Nadia Bossa (1994) faz-se difícil teorizar a Intervenção Psicopedagógica pelas seguintes razões: 1. A psicopedagogia é uma especialização aberta toda a ciência humana que atuam com a aprendizagem humana. Por tanto, o sujeito psicopedagogo irá fazer uma leitura com as ferramentas que possui dentro de sua área específica e sua atuação concreta; 2. A intervenção está atrelada ao problema que o profissional encontra. Por tanto, não existe somente um método. O profissional ele desenvolve alguns modelos para sua atuação. A intervenção pressupõe do psicopedagogo criatividade frente aos conteúdos aprendidos em sua especialização, para assim criar um caminho adequado para o seu problema específico; 3. A intervenção psicopedagógica é algo prático que deve primar pela transdisciplinaridade. A busca por resultados envolvendo outras matérias afins dificulta em uma padronização da teoria da intervenção. Ë mais importante a preparação do profissional como o conhecimento teórico suficiente para se relacionar livremente com as diferentes disciplinas e criar intervenções necessárias que atinja o processo de aprendizagem como um todo. Enfim, é importante salientar que a intervenção psicopedagógica irá depender essencialmente do profissional e seus conhecimentos, e não de uma teorização a priori. Não existe uma “fórmula mágica” para que atuando sobre determinado problema temos a garantia de que funcionará sempre. Esta concepção de intervenção é impossível, já que todo os alunos são diferentes e cada um possui necessidades e problemas específicos. Para uma intervenção psicopedagógica deve se levar em consideração o lado psicológico do 24 indivíduo, o seu ambiente social, o seu problema específico de aprendizagem entre outros. É a partir da experimentação que conseguimos trilhar um caminho intervencional. A atuação pressupõe um esforço no qual o profissional registra sua “escuta” e “olhar, a descrição observada. Esse ponto de partida visa buscar o seu significado e vai à constatação ou comprovação dos dados levantados. (NOFFS: 2003, 126) Porém, podemos apontar alguns métodos influentes dentro deste processo de intervenção psicopedagógica. 2.2.1. Os métodos de influência em Psicopedagogia. Existem vários modelos teóricos no campo da Psicopedagogia, que nos levam a considerar as dificuldades de aprendizagem e que são úteis ao trabalho de intervenção. As linhas mais tradicionais enfocam o diagnóstico e tratamento, colocando ênfase na recuperação daqueles temas que estão vinculados diretamente com a aprendizagem escolar. Por exemplo: Ensinar a ler, a escrever ou abordar disgrafias e disortografias, as dificuldades para resolver operações matemáticas. A intervenção se organiza como uma tarefa de recuperação e ensinamento destes aspectos não aprendidos ou mal aprendidos. A ênfase, neste caso, está posta no ensinamento e na aprendizagem com a planificação de um programa para atender este objetivo. O programa consistirá em graduar exercícios variados referidos a dificuldade concreta na escola. As linhas mais modernas tentam vincular os problemas de aprendizagem com a conduta em sua totalidade, incluindo a história de vida do sujeito, sua família, sua escola, seu entorno social e sua estrutura psíquica. Neste caso a intervenção não tem planificação prévia nem modelo terminado. A construção vai se dando pouco a pouco e nunca se sabe de ante mão até onde chegará ou se dará o resultado. Claro que o psicopedagogo, ao propor um trabalho tem o seu objetivo e sabe aonde quer chegar, porém não é algo determinante, pois vai depender do sujeito que ele direcionou o seu trabalho. Se o paciente aposta que é possível, será possível. 25 O lugar do saber não está unicamente ao lado do terapeuta, o paciente sabe o que passa com ele. Faz-se importante estar com ele e ir descobrindo-se com ele para uma intervenção eficaz no processo de aprendizagem. Segundo Fernandez (1990, 129) “o saber é transmissível de pessoa a pessoa, experimentalmente”. Nesta linha estaria a chamada reeducação ou recuperação do problema de aprendizagem tratado pelo estilo tradicional. A planificação está com o psicopedagogo que sabe aonde se deve chegar, respeitando o ser aprendente como um tudo. É importante o psicopedagogo, ter claro estas duas posturas básicas para articular o seu trabalho de intervenção psicopedagógica. 2.2.2. A ética do Profissional e o aspecto terapêutico da intervenção A intervenção psicopedagógica está atrelada diretamente a ação do profissional de psicopedagogia. Sua postura profissional ajudará no relacionamento com o seu paciente, assim como trará a intervenção um caráter terapêutico dentro das dificuldades apresentadas no processo de ensino-aprendizagem. Os psicopedagogos devem seguir certos princípios éticos que estão condensados no Código de Ética, devidamente aprovado pela Associação Brasileira de Psicopedagogia, no ano de 1996. O código de Ética regulamenta as seguintes situações: 1. Os princípios da Psicopedagogia: determinados pelos teóricos graduados e atuantes dentro da área profissional. 2. As responsabilidades dos psicopedagogos: sua participação ativa dentro do processo de aprendizagem e importância das suas intervenções. 3. As relações com outras profissões: especialmente com os psicólogos e pedagogos. 4. O sigilo: como parte do trabalho psicopedagógico. 26 5. As publicações cientificas: que devem ser incentivadas pelos profissionais pois fomentam a pesquisa dentro da área. 6. A publicidade profissional: para que haja um respeito entre os profissionais da mesma área de atuação. 7. Os honorários: uma uniformidade no atendimento e não haja abusos dentro da “profissão”. 8. As relações com a educação e saúde: que são objetos privilegiados do estudo e da relação onde ocorre o campo de trabalho do psicopedagogo. 9. A observância e cumprimento do código de ética: como participação ativa e coerente mo meio profissional. A intervenção psicopedagógica passa por instrumentais que se encontram na psicopedagogia clínica. Não podemos esquecer que na história da constituição da mesma, ela tem a sua origem dentro da terapia medica e seus anseios em buscar soluções científicas para os problemas de aprendizagem. Por isso, segundo CARRAHER (1997), a intervenção psicopedagógica se utiliza destes instrumentais básicos para sua melhor aplicação dentro do processo de apreensão do conhecimento. Estes compreendem em: Avaliar e diagnosticar as condições de aprendizagem, identificando as áreas de competência e de insucesso do aprendente (No diagnóstico clínico ademais de entrevistas e anamnese, deverá utilizar provas psicomotoras, provas de linguagem, provas de nível mental, provas pedagógicas, provas de percepção, provas projetivas e outras conforme o referencial teórico adotado pelo profissional); Realizar devolutivas para os pais ou responsáveis, para a escola e para o aprendente; Atender o aprendente, estabelecendo um processo corretor psicopedagógico com o objetivo de superar as dificuldades encontradas na avaliação; Orientar os pais quanto a suas atitudes para com seus filhos, bem como professores para com seus alunos; e Pesquisar e conhecer a etiologia ou a patologia do aprendente com profundidade. 27 O Psicopedagogo deve ter posturas abertas para o novo, à disponibilidade para a mudança, conhecimentos significativos construídos e a humildade para reconhecer e enfrentar os erros. (NOFFS: 2003, p.78) Todas estas práticas devem ser conhecidas e aplicadas, não somente na clínica como também nas instituições onde o psicopedagogo dedicar seu trabalho. Ele deve ter um conhecimento multidisciplinar, pois no processo de avaliação diagnóstica, é necessário estabelecer e interpretar dados em várias áreas, dentre elas: auditiva e visual, motora, intelectual, cognitiva, acadêmica e emocional. A partir do conhecimento destas áreas é que o profissional encontrará um quadro diagnóstico favorável para escolher a metodologia mais adequada para o seu processo de intervenção corretor do processo de aprendizagem que foi diagnosticado como problemático. 2.3. A Psicopedagogia e sua atuação educacional. O foco principal da psicopedagogia corresponde ao esforço em entender os processos de ensino-aprendizagem viabilizando um melhor relacionamento entre aquele que aprende, o conteúdo e o ensinante. Desta forma se configura, como espaço privilegiado da atuação psicopedagógica, os diversos grupos e instituições onde o ensino se faça presente, delimitando assim, o seu espaço de atuação educacional em nossa sociedade. Porém, são nas Instituições de ensino formal (como escolas e faculdades) e informal (como as Ong’s, cooperativas populares e empresas) que podemos perceber mais claramente como estas relações educacionais se processam e conseqüentemente, tornando-se lugar em que a intervenção psicopedagógica se faz necessária. A Psicopedagogia se posiciona diante dos processos educacionais como aquela que vem identificar e ajudar na resolução destes processos facilitando a vida de quem aprendem e quem ensina. Desta forma a sua área de atuação é a educação e suas relações pessoais, pois nelas o sujeito se reconhece como agente ativo do processo de aprendizagem e por conseguinte de elementos que possam atingir a sua vida pessoal e social em todos os seus âmbitos. 28 A educação é o caminho para a realização humana. (...) A educação não pode restringir-se a treinamento ou apenas informações. É necessário repensa-la e faze-la servir a vida, à realização humana, social e ambiental. (SAMPAIO: 2004, 34) Nesta relação tão intrínseca entre a educação e a psicopedagogia, ela se torna expoente importante na detecção de problemas que possam ocorrer e que atrapalhar de maneira peculiar os processos educacionais. Por tanto, faz-se interessante apontar neste os problemas mais comuns que possam acontecer neste processo. O psicopedagogo poderá identificar alguns e outros não. Isto está intimamente relacionado à formação do profissional com a especialização em Psicopedagogia Institucional. Conhecida às dificuldades poderá encaminhar o aluno ou aprendente ao trabalho de um profissional da área em que o mesmo necessite ser melhor acompanhado. Para o mesmo utilizaremos a classificação das dificuldades de aprendizagem feitas por JIMENEZ e AYALA (2004). 2.3.1. Disortografia Corresponde a perturbação da utilização escrita da língua. Geralmente esta associada a atraso da linguagem oral. É resultante de uma aprendizagem defeituosa ou de um meio cultural desfavorável, como falta de atenção ou de leitura compreensiva. Os principais fatores da causa das dificuldades de ortografia são: hábito defeituoso de estudo, a Falta de interesse e atitudes desfavoráveis diante do grupo, as limitações em conhecimentos básicos sobre fonética e a estrutura da palavra, a linguagem deficiente, especialmente apresenta anomalias na pronuncia, a escrita lenta e ilegível, as discriminações auditivas insuficientes e o baixo rendimento intelectual. 2.3.2. Dispraxia Falta de organização do movimento. As pessoas dispraxicas são incapazes de ordenar um movimento em relação ao seu próprio corpo, da mesma foram que não podem adaptar seus movimentos a um objeto exterior. Esta impotência se dá ao mau conhecimento do próprio corpo, do espaço interior e do exterior. 29 Na escola esta dificuldade aparecerá na falta de orientação, no uso indevido do lugar de trabalho e seus materiais (mau uso do caderno, lápis, borracha, quadro, etc) e nas aulas de educação física e outros jogos e esportes. 2.3.3. Disgrafia Apresentação de uma escrita defeituosa sem que seja justificado, a priori, por um diagnóstico de transtorno neurológico ou intelectual. Existem dois tipos de disgrafia: Motriz, que se manifesta na lentidão, movimentos gráficos dissociados, signos gráficos indiferenciados, uso incorreto do lápis e postura inadequada ao escrever; e a Específica, que se apresenta na má percepção das formas, a desorientação espacial e temporal, aos transtornos de ritmos comprometendo a motricidade fina. Os indivíduos com disgrafia podem apresentar as seguintes características: a) Rigidez da escritura: com uma forte tensão no controle da mesma; b) Grafismo solto: com escritura irregular mas com poucos erros motores; c) Impulsividade: escrita pouco controlada, letras difusas, deficiente organização da página; d) Inabilidade: escrita torpe e problemas em copiar palavras; e) Lentidão e meticulosidade: escrita muito regular, mas lenta, se preocupa com precisão e controle. 2.3.4. Disartrias São erros na articulação das palavras que não coincidem com as normas sócioculturais impostas pelo ambiente, que dificultam a inteligibilidade do discurso e que se apresentam a uma idade que já deveria ter uma articulação correta. Se a causa dos erros ocorre por serem problemas do Sistema Nervoso Central, se denomina disartrias em sentido estrito. Caso se encontre no nível periférico, se denominam 30 dislasias. Como está é a sua única diferença, não faremos diferenciação, considerando que estão dentro dos Transtornos do Desenvolvimento Psicológico e, por tanto, de competência específica da psiquiatria, porem a prática dentro de sala de aula pode ser auxiliado pelo psicopedagogo. Os sintomas específicos são a substituição, omissão, inserção e distorção dos fonemas. Além disso, costumam ser distraídos, desinteressados, tímidos, agressivos e com pouco rendimento escolar que, muitas vezes, acreditam falar bem, sem dar-se conta de seus erros, e em outras, mesmo sendo conscientes deles, são incapazes de supera-los. A substituição é um erro de articulação no qual um som é trocado pelo outro. As formas mais freqüentes são a substituição de r por d ou por g, de s por z, e do som k por t. Na omissão se omite um fonema ou toda a sílaba em que se encontre o dito fonema. A inserção se intercala um som que não corresponde a essa palavra para apoiar e resolver a articulação do dificultoso. Na distorção se articula o sonido da forma incorreta mas aproximada a adequada e sem chegar a ser uma substituição. As formas podem variar da seguinte forma: Rotacismo – disartria do fonema r e rr; Lambdacismo – disartria do fonema l; Gammacismo –disartria dos fonemas guturais g, x e k; Deltacismo – disartria dos fonemas t e d; Rinoartria – disartria dos fonemas nasais m, n e nh; Pararrotacismo – substituição do fonema r por outro como g, t, d, l, etc; Parasigmatismo, substituição do fonema s por outro como t, z, etc; Paralambdacismo, substituição do fonema l por outro; Paragammacismo – substituição dos fonemas guturais por outros; Paradeltacismo, substituição dos fonemas dentais por outros. 2.3.5. Disfasia e Afasia de desenvolvimento. Disfasia é a perda parcial e a Afasia é a perda total da fala devido a uma lesão cortical nas áreas específicas da linguagem. A nomenclatura com respeito ao problema de fala (disfasia ou afasia do desenvolvimento, retraso idiopático da linguagem, oligofasia, disacusia, surdez verbal ou agnosia auditiva congênita), porem neste estudo vamos nos preocupar com os sintomas que podem dar indícios deste problema. 31 Os problemas de aprendizagem se manifestam na confusão do conhecimento do esquema corporal, na distinção entre figura e fundo e das partes sobre o todo, na pobre coordenação visomotora, transtorno de lateralidade, nas dificuldades de noções de tempo e espaço, possuem dificuldades de formar conceitos e na aquisição de conceitos abstratos durante a adolescência. Os transtornos de linguagem são do tipo de agnosia auditivo-visual como pobreza de associações verbais, falta de habilidade para aquisição da linguagem simbólica (leitura e escritura) e atraso na aquisição de linguagem em fase compreensiva e/ou expressiva. Os tipos de Disfasias são: Motriz ou Expressiva, se caracteriza pela inteligência, audição e compreensão da linguagem dentro dos limites normais porém possui a incapacidade de imitar palavras, capacidade limitada para imitar os fonemas. Possui uma vocabulário por esta atrelado a linguagem espontânea; Sensorial ou receptiva, onde os indivíduos possuem incapacidade de nomear objetos, pobreza nas associações verbais, capacidade limitada de imitar a palavra, pobreza na evocação dos objetos e incapacidade para interpretar a linguagem ambiental; e Mista. Onde se apresentam tanto os problemas Motrizes quanto os sensoriais. 2.3.6. Discalculia É a dificuldade de integrar os símbolos numéricos em sua correspondência com as quantidades reais dos objetos. O valor do número não se relaciona com a coleção de objetos. Constata-se igual dificuldade em efetuar uma boa coordenação espacial e temporal que é um importante mecanismo de operações e dificulta ou impossibilita a realização de cálculos. Geralmente, uma pessoa disléxica, tem por costume transportar a sua dificuldade com as letras para com os números. Por isso, o professor deve averiguar se a criança não apresenta falhas ou retraso na área de lecto-escritura pois pode influenciar nesta área lógico-matemática. As relações grupais trabalhadas em um contexto de interação e integração dão o significado próprio da prática psicopedagógica institucional, na qual o criar e o manter vínculos sadios são essenciais. (NOFFS: 2003, 174) 32 Enfim, estas são as principais dificuldades que se apresentam durante o processo de aprendizagem, na qual a psicopedagogia é convidado atuar e intervir, com a sua prática, dentro dos processos educacionais nas instituições. Como dissemos anteriormente, não é função do psicopedagogo identificar e até diagnosticar estes problemas supramencionados, porém a sua ajuda é muito importante já que o mesmo dispõe de uma prática pedagógica que ajuda na recuperação e na inclusão do mesmo ao processo educacional e na sociedade. Para isto a interdisciplinaridade é essencial no trabalho psicopedagógico e fundamental para a valorização da educação. 33 3. A PSICOPEDAGOGIA E A EDUCAÇÃO DE ADOLESCENTES EM OFICINAS DE VALORES: UMA ADORÁVEL PARCERIA. Ao entender a Educação como um processo, os valores humanos tornam-se essenciais para a atividade pedagógica, assim como, a preocupação de que estes sejam entendidos e vivenciados de forma efetiva pelos alunos. Com base nos dados sobre os valores e do papel auxiliador da psicopedagógica na apreensão do conhecimento humano vejamos o papel do educador e a intervenção deste mesmo educador como psicopedagogo dentro da área de educação de valores para adolescentes de uma instituição não governamental. 3.1. O papel do Educador nas oficinas de valores. Educar é desenvolver todas as possibilidades da natureza humana, fazer o homem tender para a perfeição, desabrochar o que tem em potência, o que pode vir a ser. (ARANHA: 2002, 148) O papel do educador das oficinas de valores deve visar o seu esforço na práxis. Educar para valores é algo primordial dentro de nossa sociedade pois são estes mesmo valores que darão sentidos as ações concretas do indivíduo na sociedade. Desta forma, o ser que passa pelo processo de aprendizagem associada com os valores humanos cria o senso crítico da realidade em que se encontra e procura melhorar o espaço de relações sociais não só a partir do trabalho, mas da manutenção de seu bem físico-psiquico-afetivo. O jovem precisa ser orientado para desenvolver os valores humanos para os quais estão mais capacitados. Alegria, entusiasmo e disponibilidade também são típicas do jovem. O educador deve aproveitar estas qualidades e desenvolve-las. Assim o jovem fará de sua vida um encontro e uma presença com os demais, mas com a segurança de estar progredindo naquilo que pode fazer de melhor: viver. (MORENO: 2002. p.136) Na verdade, o educador é o facilitador no processo educacional que visa os valores humanos como elemento importante para o desenvolvimento do individuo como ser social. 34 A importância do educador leva-o a adquirir uma postura diferente frente as realidade educacional que se encontra inserido. O equilíbrio tanto físico quanto psicológico, pode contribuir de forma decisiva para transformar o eu real do professor numa personalidade mais próxima do ideal do docente educador. O equilíbrio psicológico pode trazer uma flexibilidade, uma adaptação eficaz ao ambiente, despertando nos alunos motivações e estímulos para forjar seu caráter e sua personalidade. (MORENO: 2002,22) Este trabalho se torna mais conflitante para alguns educadores quando os seus educandos são adolescentes. A adolescência é o período durante o qual a capacidade de adquirir e de utilizar conhecimentos chega a sua máxima eficiência. Segundo OZMON (2004), na teoria de Piaget o Adolescente passa para a etapa das operações concretas, que se caracterizam como a saída do pensamento da criança para as operações formais. Ao aparecer as operações formais o adolescentes adquirem várias capacidades: pode tomar como objeto o seu próprio pensamento e raciocinar a respeito do mesmo; pode considerar não somente uma possibilidade de resposta a um determinado problema, mas sim várias possibilidade de uma só vez; e capacidade de gerar hipóteses sistematicamente e compara-las com o mundo ao seu redor. Esta capacidade última de distinguir entre o pensamento e a realidade se deve da capacidade de tomar em conta as possibilidades. Ela é fundamental para a criação da consciência do indivíduo. Porém o pensamento do adolescente se volta mais abstrato e por isso distante da realidade imediata. A discrepância entre o real e o possível causa no adolescente a inconformidade e contribui para a rebeldia característica da adolescência. O adolescente reconhece o caráter privado do pensamento e se volta introspectivo, analítico e autocrítico. Nesta fase o desenvolvimento dos valores e dos princípios moral se reflete nas relações com o outro e com os demais. Da mesma maneira a projeção de metas futuras e dos planos de vida que caracterizam aos adolescentes, depende do grau considerável da maturidade cognoscitiva que se constrói na adolescência. 35 É neste momento que se faz presente os Educadores, em especial nas Oficinas de valores da instituição. Eles têm o papel fundamental de cuidar para que este processo se realize de forma que suscite nos jovens uma reflexão sobre a sua realidade e levante hipóteses concretas para a modificação da mesma dentro do contexto social de abandono em que se encontram. Para isto o educador deve ter consciência: de sua importância social para a criação de atitudes comprometidas com a solução dos problemas de nossa sociedade; de sua relevância para a cultura e a formação de uma concepção científica do mundo nos adolescentes; de seu interesse para a formação de personalidades capazes de desfrutar da obra do homem e da natureza; do tempo disponível para trabalhar de maneira interdisciplinar através das distintas oficinas afins; e dos interesses e capacidades dos adolescentes que participam das oficinas. Além disso nunca se esquecer de que o adolescente sempre espera uma postura ética e moral das suas atitudes dentro do trabalho educacional, pois “o educador é ponte e nunca obstáculo para qualquer aprendizagem.” (SAMPAIO:2004, 18) Por tanto, nos escreve MORENO (2002) que o educador dentro de oficinas de valores deve conceber a sua tarefa educativa como um processo de acompanhamento, apoio, estímulo, promovendo continuamente a auto-educação dos jovens e adolescentes. Para fazer uma educação popular todo docente deve esforçar-se em: Estabelecer uma relação dialógica, próxima e horizontal com os jovens, os responsáveis, companheiros de trabalho e integrantes das comunidades e criar um clima de confiança, segurança afetiva e respeito que favoreça a comunicação espontânea e criativa; Promover, segundo suas possibilidade, a participação ativa dos jovens no processo educativo. Aportar suas experiências, conhecimento, inquietudes, interrogações e dificuldades para que adquiram o hábito de se esforçar e descobrir a importância de ser agentes ativos de seu processo de aprendizagem; Buscar um equilíbrio entre o trabalho individualizado, o trabalho em equipe e a realização de projetos. Ensinar a utilizar os instrumentos de comunicação de maneira crítica; Promover a investigação participativa, o dialogo, o confronto, a ação no povo, a reflexão sobre a realidade, e descobrir alternativas para transforma-la; Iniciar uma nova 36 forma de educação na qual todos aportam suas experiências; Facilitar, liderar, provocar um processo de experiências que favoreçam no educando a apropriação dos instrumentos teóricos e técnicos do saber. O processo educacional deve resgatar a auto-estima por acreditar que somos capazes de viver e sermos merecedores de bem-estar, deixando a culpa, abrindo espaço para a autoaceitação, autoconfiança e assim podermos transferir para os outros esses sentimentos. (SAVATER: 2000, 95) O educador tem um vasto caminho a percorrer dentro das oficinas de valores. O trabalho com os jovens requer dedicação e disciplina se quisermos alcançar os objetivos levantados, porém temos uma ferramenta preciosa dentro deste processo para nos ajudar: a psicopedagogia. 3.2. A utilização da intervenção psicopedagógica na relação ensinante e aprendente dentro das oficinas de valores com adolescentes. Dentro do projeto social SIC-AIACOM, as oficinas de valores ocupam um espaço importante de integração social dos jovens ao bairro do Engenho Novo no Rio de Janeiro. Os educadores são ferramentas importantes dentro deste processo pois são os facilitadores para que os objetivos da instituição sejam colocados em prática junto a esta comunidade carente. A psicopedagogia pode ajudar neste processo de ensinante-aprendente facilitando os canais de aprendizagem. É sobre a relação das oficinas de valores e a psicopedagogia será objeto de nosso estudo neste apartado. 3.2.1. As Oficinas de Valores do SIC-AIACOM Assim como nas grandes capitais de nosso país, na cidade do Rio de Janeiro se encontram várias instituições com as características supramencionadas. Uma delas, o Projeto SIC-AIACOM - fundado pela Ordem dos Frades Agostinianos ligados à Igreja Católica no Brasil e dirigido por leigos especializados nas áreas educacional e social - atua diretamente com crianças e adolescentes em situação de risco social, moradores de comunidades de baixa renda no bairro do Engenho Novo. 37 O objetivo geral da instituição é em contribuir para a formação integral de crianças e adolescentes que vivem com seus direitos sociais violados, possibilitando-lhes desenvolver, dentro de suas potencialidades humanas, consciência crítica e espírito solidário, tornando-se agentes transformadores da realidade, envolvendo neste processo a família e a comunidade em risco social. Seu objetivo específico é consolidar-se como espaço de articulação, convivência pedagógica e oportunidades sociais para um universo de crianças e adolescentes, de classes populares, investindo em seu processo de formação, inclusão e protagonismo infanto-juvenil. Para alcançar seus objetivos, o AIACOM empreende uma ação metodológica através de dois programas que, embora estejam articulados, desencadeiam ações específicas: a linha sócio- educativa e a sócio-familiar. A linha sócio-educativa é o atendimento direto e efetivo, em meio aberto (ECA Lei 8069/90, art.90), de crianças e adolescente, dos 04 a 17 anos, buscando a sua formação holística. Realizado em dois turnos e oferecendo quatro refeições diárias, cria um espaço alternativo para o desenvolvimento de atividades ligadas à arte, cultura, lazer, educação, promoção em saúde e acompanhamento escolar. A linha sócio-familiar compreende ações direcionadas ao trabalho comunitário e, prioritariamente, ao atendimento das famílias das crianças e jovens do projeto, buscando, de forma direta ou indireta, atuar nas necessidades e conflitos sociais que levam à desestruturação destes grupos familiares, possibilitando-lhes melhoria da qualidade de vida. Enfim, para alcançar seus objetivos gerais e específicos, além de atuar junto a crianças e adolescentes, a instituição também se preocupa com o seu meio familiar, e por isso, desenvolve atividades educativo-comunitárias na linha sócio-familiar com os responsáveis das crianças atendidas pelo projeto, através de oficinas profissionalizantes (Culinária/Corte e Costura). Desta forma, a atuação institucional contribui no desenvolvimento integral da população atendida, potencializando seus recursos individuais, familiares e comunitários. 38 O trabalho de educação de valores está dividido dentro do projeto educacional da Instituição nos seguintes espaços educativos: na oficina de dança, que busca desenvolver a expressão artística, a consciência corporal e os movimentos harmônicos (linguagem e técnica) levando o grupo a compreender e vivenciar o processo de construção coreográfica. No ano de 2004, esta oficina veio buscar a integração de movimento, corpo, sentimentos e valores humanos. A música serviu como um grande estímulo para o desenvolvimento da expressão corporal. Cada vez mais, potencializa-se o processo de protagonismo infantojuvenil. Este ano de 2005 pretende-se aprimorar a técnica e a pesquisa rítmica, de forma a ampliar os estilos e modalidades de dança nas produções de espetáculos para a comunidade; na oficina de teatro, que leva ao grupo de adolescentes o teatro, como instrumento de libertação, desenvolvendo a capacidade teatral, a expressão corporal e o conhecimento geral, a través da literatura e da dramaturgia universal. O trabalho continua promovendo o contato com a Arte e a cultura no sentido amplo, buscando despertar no indivíduo o potencial artístico segundo os valores do grupo, além de exercitar expressões artísticas contemporâneas. Para a montagem de espetáculos foram utilizadas as leituras de textos clássicos e regionais. Em 2005, pretende-se investir na produção de peças voltadas para o público infantil, a forma a estreitar os laços com as escolas parceiras, potencializando as apresentações culturais; na oficina de vivência de valores que tenta sensibilizar as crianças e adolescentes para a vivência de valores fundamentais nas relações humanas, possibilitando um contraste entre o modelo atual de sociedade como um projeto de sociedade mais humano e fraterno. A Oficina cria espaços de convivência e interação onde se experimentam relações solidárias e fraternas através de dinâmicas, histórias, músicas , contos e jogos. Busca solidificar seu trabalho através da promoção de atividades que busquem a realização concreta, onde os jovens possam se comprometer e contribuir, através de suas atitudes, com a construção de um mundo solidário; e no grupo operativo que constitui um espaço de escuta e troca através de atividades que despertem o interesse e a atenção dos adolescentes, levando-os à reflexão acerca de questões atuais, favorecendo a afirmação da identidade individual e coletiva, na perspectiva de reconhecer-se como sujeito de sua história. O tema de 2004 foi “A vida como direito” na perspectiva de refletir o valor da vida, enquanto direito primordial e básico de todas as pessoas e grupos humanos. Para 39 tal, foram utilizadas dinâmicas, jogos cooperativos e produções de textos, além de saídas externas que propiciaram a interação com outras experiências de trabalho social. Para este ano de 2005, a principal expectativa é reforçar a identidade desse grupo de trabalho, investindo em uma participação crítica e ativa na sociedade, buscando inclusive garantir a inserção em fóruns de debates, núcleos de lideranças jovens e nos conselhos de Direito. Embora a psicopedagogia pode ser uma ferramenta muita bem utilizada em todas estas oficinas de trabalho da Instituição, a nossa proposta de estudo se prenderá a estas duas últimas oficinas (Oficinas de Vivência de valores e Grupo Operativo) que trabalham mais objetivamente a educação de valores com os adolescentes. Dentro destas oficinas, a ajuda que parece ser a mais conveniente a ser dada pela Psicopedagogia é a utilização da Epistemologia Convergente como facilitador do processo de ensino-aprendizagem nestas oficinas. 3.2.2. A Psicopedagogia como auxiliadora no processo de aprendizagem e sua aplicação efetiva dentro oficinas de vivência de valores. Existem diferentes modelos teóricos que no campo da Psicopedagogia nos levam a considerar a realidade da aprendizagem escolar. As linhas mais tradicionais enfocam o diagnóstico e o tratamento, pondo ênfase na recuperação daqueles temas que estão vinculados diretamente com a aprendizagem. Por exemplo: ensinar a ler, a escrever ou abordar as disgrafias e disortografias, ou as dificuldades para raciocinar ou para resolver outras operações matemáticas. Nesta linha a ênfases está no ensinamento e na aprendizagem com a planificação de um programa para alcançar este objetivo. O programa consistirá em graduar exercícios variados referidos a dificuldade concreta. Nos anos 60 constatava-se que a produção do fracasso da escola na criança carente ou diferente supunha haver um problema de comunicação entre o professor e o aluno, causado pelas diferenças culturais entre eles. (NOFFS: 2003, 19) Contudo, as linhas modernas da Psicopedagogia tentam vincular os problemas antes mencionados com a conduta em sua totalidade, incluindo, a história de vida do sujeito, sua família, sua escola, seu ambiente vital e sua estrutura psíquica. Neste caso, não existe uma 40 planificação nem um modelo terminado previamente. Ela se constrói avançando pouco a pouco e nunca se sabe de antemão até onde se chegará ou como ficará a peça terminada. O lugar do saber não está unicamente do lado do terapeuta, o paciente sabe o que passa com ele e é necessário que o educador esteja com ele para descobrir. Segundo Rubestein (apude BOSSA:1994, 25), O psicopedagogo preocupa-se em detectar as causas pelas quais o sujeito não aprende ou está inadaptado, quais são as interferências ambientais e as características individuais que justificam e determinam a aparição de um determinado sintoma. Uma das teorias da Psicopedagogia que leva em consideração o sujeito como um todo é a Epistemologia Convergente. Esta teoria tenta fazer uma confluência das escolas como a psicanálises e a Pedagogia construtivista, tratando de conceituar o sujeito que aprende desde seus aspectos afetivos, cognitivos e de sua relação com o meio. Aqui o sujeito é observado em três posições teóricas diferentes: o intelectivo, o social e o intrapsíquico. A partir desta postura se formula as melhores atividades para ajudar no processo de aprendizagem. Nesta linha teórica é importante o trabalho do psicopedagogo, diante do processo de ensino-aprendizagem fazer as seguintes considerações: Um trabalho de investigação com o indivíduo a cerca da formação de suas funções psíquicas superiores (memória, representações) através de anamneses, e Provas Operatórias com base na teoria explicitas nos livros de Piaget (1996) ou de Jorge Visca (1985). Depois deve buscar a relação deste conhecimento e aprendizagem com as funções psíquicas do individuo, o valor da linguagem, do meio e da cultura, o sujeito e o objeto no processo de conhecer e aprender. Neste processo se transcende a consideração do sujeito como única categoria na qual se produz o problema de aprendizagem e se introduzem os outros níveis como podem ser a família, a escola e outras instituições que participam da vida da criança. A partir da aplicação desta teoria o trabalho de intervenção psicopedagógico ganha um enfoque de interdisciplinaridade com as demais áreas da vida do aprendente. 41 En este recorrido epistemológico en la constitución de la Psicopedagogía, diremos que los constructos con relación al concepto de ciencia, a veces transitan desde una transición entre un concepto de ciencia al estilo positivista que lentamente intenta cambiar hacia un enfoque actual e interdisciplinario. (KLIMOVSKY: 1995, 53) A teoria de intervenção epistemológica convergente tem sua forma estruturada na experiência. O sujeito ou situação observada pelo psicopedagogo é ponderado não somente pela teoria que o capacitará a fazer o diagnóstico, mas também sua experiência existencial e por sua posição filosófica que assume na vida e que se ancora seu conhecimento e sua realidade. Por isso, é levado em conta no exercício da prática desta intervenção a formação do profissional que o ajudará a realizar um trabalhando convergindo para as diversas alternativas de prática e relacionamento com o sujeito e seus problemas e trará objetividade ao trabalho desenvolvido, com a opção do caminho a ser percorrido na intervenção no problema e as teorias a serem convergidas para a solução do mesmo. La selección, por parte del profesional del cuerpo teórico con el que fundamentará su intervención es una decisión que lo posiciona en el lugar desde el que se dará cuenta de sus abordajes e convergencias como psicopedagogo. (KLIMOVSKY: 1995, 69) A Epistemologia convergente como proposta de intervenção vem ajudar o trabalho nas oficinas de valores no que diz respeito à construção do conhecimento como conjunto de Educador e Educando, onde o mesmo a partir da convergência de pressupostos básicos da Psicologia e da pedagogia pode construir um conhecimento que atenda as necessidades específicas daquela população, resgatando os seus valores e potencializando novas formas de atuação social. Os conteúdos tratados dentro de cada oficinas são escolhidos pelo próprio grupo e articulado pelos educadores. No momento do planejamento destes conteúdos e da colocação de suas práticas o aluno deve ser visto através de todos estes elementos propostos pela psicopedagogia. Acreditar que o método vem a priori da formação do grupo e dos indivíduos é uma violação a própria proposta do conhecimento gerado dentro destas oficinas no processo de autonomia do sujeito de sua própria educação (cf. FREIRE: 2000, 57) 42 A intervenção ajudará o educador a resgatar nestas oficinas, elementos primordiais para alimentar nos adolescentes o interesse pelos temas discutidos, que envolvem o seu meio social, sua inteligência e seu desenvolvimento intrapsíquico. Para remontarmos as bases de uma efetiva educação em valores utilizamos a reflexão de SAMPAIO (2003), sobre os principais pontos a serem levados em consideração na utilização da epistemologia convergente como teoria de intervenção psicopedagógica: a autoconsciência, a administração das emoções, a automotivação e auto-estima e a percepção do outro. A educação de valores nas oficinas realizadas pela instituição busca desenvolver a autoconsciência para que cada indivíduo assuma o comando da sua própria vida com responsabilidade. Para isto é importante integrar o homem nos níveis físico, emocional, mental e espiritual. A consciência corporal faz o homem ter consciência de seu lugar no espaço e no meio onde vive; a emocional resgata a auto-estima como elemento primordial para o jovem se aceitar como tal, criando a confiança necessária para se sentir capaz de atuar em qualquer processo de aprendizagem em sua vida; a mental busca através das vivências derrubar as barreiras das defesas, dos preconceitos, das crenças e nos condicionamentos, dos medos e da insegurança, trazendo à consciência as causas das dificuldades e os passos a serem dados buscando transformar os padrões mentais; e o espiritual buscando desbloquear e integrar os níveis do ser (o pensar, o agir e sentir) através do exercício de autopercepção, do contato com os valores, qualidades e potencialidade existentes em si mesmas, fundamentais para a abertura de relacionamento com os jovens. Temos que passar do mundo artificialmente criado para o mundo das necessidades humanas, Os problemas não se resolvem no nível da racionalidade, mas em todos os outros níveis que constituem o ser humano. (SAMPAIO: 2004, 76) A administração das emoções consiste em dar poder a si próprio para dirigir a sua própria vida na busca do equilíbrio da satisfação pessoal e das boas relações humanas. Permite experimentar sentido positivo e o aprendizado que as emoções nos apresentam. Desta forma o educador, ao se deparar com alguma dificuldade que possa ocorrer dentro do processo de aprendizagem, tanto por parte do aluno ou do grupo em alguma tarefa proposta, poderá detectar aonde estes sentimentos que atrapalham o andamento das relações 43 educacionais e, poderá a partir de sua formação pedagógica, criar caminhos alternativos para o desenvolvimento de seus trabalhos. Agir produtivamente deve ser a meta de todo ser humano para que possa criar um ambiente propício à auto-realização na manifestação de suas potencialidades e talentos. Por isso a automotivação e a auto-estima ajudam a descobrir o que o indivíduo pode e deve fazer para o meio em que vive e para si mesmo. Dá ao indivíduo o sentido de que as dificuldades fazem parte do crescimento e é preciso ter vontade de supera-las à medida que elas aparecem. Desta forma, toda a dificuldade de aprendizagem que possa acontecer com o indivíduo pode ser superada elevando a sua auto-estima e incentivando a suas capacidades pessoais em relação a si mesmo e ao grupo. Na medida em que nossas emoções atrapalham ou aumentam nossa capacidade de pensar e fazer planos, de seguir treinando para alcançar uma meta distante, solucionar problemas e coisas assim estão definidos limites ao nosso poder de usar nossas capacidades mentais inatas, e assim determinam como nos saímos na vida. Na medida em que somos motivados por sentimentos de entusiasmo e prazer no que fazemos, esses sentimentos nos levam ao êxito. (GOLEMAN: 1995, 29) A percepção do outro, através de atividades de empatia e sociabilidade, busca desenvolver aspectos de integração social e de compreensão dos valores em sua própria vida. Assim se proporcionará momento de encontros, onde cada um ampliará a percepção de si para enxergar o outro como companheiro de jornada e reconhece-lo como ser que constrói sociedade. Paradigmas como “salve-se quem puder”, do “levar vantagem em tudo”, do “manda quem pode e obedece quem tem juízo” não podem funcionar dentro de oficinas que primam pelos relacionamentos e reconstituição do ambiente social em que estes jovens se encontram. A intervenção, ao envolver o social e o pessoal, cria a possibilidade de um tecido orgânico de relações e aprendizagens onde todos podem vencer numa relação de parceria na qual aproveitar o melhor de todos, oferecendo oportunidade e motivação para o desenvolvimento de potencialidades é a meta do trabalho. Portanto, para toda esta ação psicopedagógica no conteúdo das oficinas de valores e em suas relações é importante que o educador tenha consciência das mudanças a educação 44 que pede a nossa realidade. É necessário um redimensionamento do conhecimento de forma integrada: ciência, tradição, filosofia, arte e política mostram que o papel do educador se amplia e se fortalece como necessário para o desenvolvimento humano. Ela deve voltar para a reeducação dos conceitos, das relações e para a capacidade de vivermos juntos, dando sentido as práticas e atos do cotidiano. Para isto o educador precisa mudar. Não se trata de formar educadores, como se eles não existissem. Como se houvessem escolas capazes de gera-los, ou programas que pudessem traze-los a luz. É necessário acorda-los. (SAMPAIO: 2004, 135) O educador deve ter clara a sua missão, exercitando suas habilidades e competências, comprometendo-se e responsabilizando-se com a formação de seus educandos. É neste momento em que se criam os vínculos, base de toda a relação educacional e chave de toda intervenção psicopedagógica. A educação em valores deve ser sempre em prática, constante, permanente e progressiva. Os valores são mais do que nunca necessários em uma época como a nossa em todos os ambientes sociais, profissionais e familiares. Este é o desafio da educação no terceiro milênio. (MORENO: 2002, 123) Quando o educador compreende a inter-relação das estruturas criativas e defensivas no ensino, ele tem acesso à formação da personalidade dos seus alunos que transcende o mesmo saber objetivo e penetra no conhecimento do ser. Através do vínculo afetivo na relação professor-aluno, o educador terá acesso à alma de seus alunos e poderá expandir todas as dimensões do ser no desenvolvimento dos potenciais criativos. Enfim, o processo de educação se dá nessa interação entre o viver do aluno e o viver do educador nos quais perpassam todos os valores que estão presentes em nossa sociedade. 45 CONCLUSÃO O homem só chega ao homem pela educação. Ele não é senão aquilo que a educação faz dele. É Importante sublinhar que o homem sempre é educado por outros homens e por outros homens que, por sua vez, também foram educados. Por isso a educação é o problema maior e mais difícil que se pode colocar para o homem. (KANT: 1980,77) O ato de educar é de suma importância na vida dos homens e na sua constituição como seres dentro da sociedade. Esta arte é conseguida através dos esforços de pessoas que unindo suas aptidões as suas satisfações pessoais, realizam este trabalho de formação das pessoas para que possam assumir seus papeis de protagonistas de sua história pessoal. O presente trabalho que foi apresentado levantou a problemática de como a psicopedagogia pode auxiliar dentro de uma prática concreta das oficinas de valores com jovens e adolescentes atendidos por uma Instituição não governamental. Partimos da hipótese de que a educação deve levar em consideração não somente os conteúdos do processo de aprendizagem e que as relações pessoais entre professor-aluno e seu vínculo se fazem cada vez mais importante no ensino-aprendizagem, já que, relaciona os conteúdos com a própria vivência do aluno no mundo. Com base em nossa problemática, hipótese e uma discussão baseada em filósofos da educação e de conhecidos autores dentro da Psicopedagogia em três capítulos deste estudo monográfico chegamos a seguinte conclusão. A psicopedagogia vem ajudar neste processo de reconhecimento dos valores dentro da educação, como também da aprendizagem dos mesmos em seus lugares específicos para tanto. A sua teoria juntamente com a sua prática de intervenção no processo ensinoaprendizagem dá subsídios para que a realidade educacional se amplie através das relações humanas que ajudam a enxergar o educando como um ser completo e agente ativo do processo em que se encontra imbuído. O aspecto terapêutico da psicopedagogia dá abertura 46 ao profissional da educação para mudar sua postura e construir conhecimentos significativos para sua prática. O reconhecimento das dificuldades de aprendizagem dentro deste processo ajuda o profissional a buscar um trabalho educacional interdisciplinar como outras áreas afins da educação, ressaltando o seu papel de integradora da educação e seus conteúdos ao mundo real dos seus educandos. A psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar, levando sempre em conta as realidades internas e externas da aprendizagem, tomadas em conjunto. E, mais, procurando estudar a construção do conhecimento em toda a sua complexidade, procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos, afetivos e sociais. (NOFFs: 2003, 12.) Com este embasamento teórico podemos perceber no decorrer deste estudo que a psicopedagogia pode – e deve - ajudar no processo de formação humano-ético-social de educação não formal aplicada nas oficinas de vivência de valores da Instituição relacionada a trabalho monográfico. O educador, ao se reconhecer como aquele que estimula a autoeducação dos adolescentes e jovens, pode utilizar recursos próprios da intervenção psicopedagógica para o melhor desenvolvimento de sua atuação educacional dentro destas oficinas. Este presente estudo aponta a epistemologia convergente como uma destas teorias de intervenção auxiliadora na realidade vivida pela Instituição e uma das mais coerentes para atingir os objetivos dentro das oficinas de valores com jovens e adolescentes. Assim, ao tentar conceituar o sujeito desde seus aspectos afetivos, cognitivos e sua relação com o meio, elementos essenciais para uma educação de valores, esta teoria irá auxiliar o profissional da educação a reconhecer o educando como protagonista da sua história e, por isso, transformador em potencial de sua realidade. Ademais, este tipo de intervenção psicopedagógica tem sua forma estruturada na experiência, por isso, a mesma se torna propicia para utilização dentro das oficinas pelos educadores resgatando os interesses dos adolescentes pelos temas discutidos e seu melhor aproveitamento dentro de todo o corpo institucional co-relacionando o seu trabalho com os das outras oficinas. Porém, o trabalho continua na medida em que esta intervenção é utilizada como ferramenta auxiliar para estimulação dos trabalhos dos educandos dentro das oficinas. 47 Desta forma a nossa hipótese inicial está corroborada pelo aspecto de que a psicopedagogia e sua proposta de intervenção é um dos caminhos mais seguros para poder se apropriar dos valores que estão presentes no processo de aprendizagem, pois ela leva em consideração o educando como um todo e ajuda ao educador a discernir sobre o melhor caminho a realizar com os educandos para uma melhor apreensão dos conteúdos, os valores intrínsecos em cada um deles e a colocação em prática dentro deste ambiente educacional específico que são as oficinas de valores da instituição mencionada neste trabalho monográfico. Este estudo também pode levantar inquietações que podem ser objetos de estudos posteriores. Dentro do projeto pedagógico da instituição a temática de trabalho com os jovens muda todos os anos, com o intuito de se trabalhar valores diferentes e decorrentes da realidade em que esta vivendo a comunidade do Engenho Novo. Desta mesma forma, a intervenção se modifica também juntamente com a rotatividade de ações comunitárias com esses jovens. Por isso, faz-se importante perguntar – em estudo posterior, podendo ter este como base - Como esta rotatividade de temas influencia na vida destes jovens atendidos pela comunidade e como a psicopedagogia pode ajudar na eufemização de diferenças que possam ocorrem quando o trabalho se realiza de maneira interdisciplinar dentro da instituição? Quais as modificações concretas ocorridas na vida destes jovens com o exercício da psicopedagogia e sua intervenção dentro das oficinas de vivência de valores? Qual o impacto da intervenção psicopedagógica realizada pela instituição na rede de relacionamentos destas crianças em suas famílias, escola e comunidade em que se encontram inseridas? Não é possível improvisar a formação de um caráter, a perfeição de uma vida e a realização de um ideal. Os valores dentro da educação surgem para orientar a convivência, para caminhar para uma civilização melhor e uma autonomia do próprio ser humano. (MORENO: 2002, 135) 48 O trabalho educacional continua, a intervenção psicopedagógica se faz necessária e os valores para o homem em seu processo educacional se tornam imprescindível. Neste caminho construído nas relações interpessoais, potencializamos ações educativas que darão à crianças, jovens e adolescentes a possibilidade de se apropriar de sua história e construir uma sociedade melhor. E nós, educadores, desenvolveremos o nosso trabalho de maneira efetiva sentindo-se realizados ao descobrirmos que contribuímos para o processo de ensino aprendizagem dentro da realidade educacional de nosso país. 49 BIBLIOGRAFIA ANTUNES, Celso. A construção do afeto. São Paulo: Augustus, 2003. ARANHA, Maria Lucia de Arruda. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 2002. BOSSA, Nadia. A Psicopedagogia no Brasil: Contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artmed, 1994. CARRAHER, Teresina Nunes. O método clínico: usando os exames de Piaget. São Paulo: Cortez, 1997. FERNANDEZ, Alicia. A inteligência Aprisionada. Porto Alegre: Artmed, 1990. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987 _____________. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990 GOLEMAN, D. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. JIMENEZ, Juan Gonzalez; AYALA, Mercedes Amparo. Dificultades de Aprendizaje de la escritura: Aplicaciones de la Psicolinguistica y de las nuevas tecnologías. Madrid: Trotta, 2004. KANT, Emmanuel. Reflexões sobre a educação. São Paulo: Abril, 1980. KLIMOVSKY, G. Las desventuras del conocimiento científico. Buenos Aires: Tekné, 1991. LUCKESI, Cipriano Carlos.Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994. 50 MORENO, Ciriaco Izquierdo. Educar em valores. São Paulo: Paulinas, 2002. NOFFS, Neide. Psicopedagogo na rede de ensino. São Paulo: Elevação, 2003. OZMON, Howard. Fundamentos Filosóficos da Educação. Porto Alegre: Artmed, 2004. PASSMORE, John. Filosofía de la Enseñanza. México: Fondo de Cultura Económica, 1983. PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. São Paulo: Martins Fontes, 1996. RATHS, Louis E. Ensinar a Pensar. São Paulo: EPO, 1977. SAMPAIO. Dulce Moreira. A pedagogia do Ser. Petrópolis: Vozes, 2004. SAVATER, Fernando. O valor de Educar. São Paulo: Martins Fontes, 2000. STAMBARCK, Susan. Inclusão – um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999. VISCA, Jorge. Clínica Psicopedagógica. Buenos Aires: Miño y Davila Editores, 1985. 51 ANEXO 52 ÍNDICE AGRADECIMENTO............................................................................................................III DEDICATÓRIA...................................................................................................................IV EPÍGRAFE.............................................................................................................................V RESUMO..............................................................................................................................VI SUMÁRIO...........................................................................................................................VII INTRODUÇÃO......................................................................................................................8 1. O VALOR DE EDUCAR EM VALORES.......................................................................11 1.1. O que são os valores?.........................................................................................11 1.2. Os valores na educação ....................................................................................14 1.2.1. O homem, centro dos valores............................................................15 1.2.2. A educação “em” e “para” a liberdade do homem. ..........................15 1.2.3. A aceitação dos valores como processo de educação........................16 1.2.4. Enfoque final sobre uma educação nos valores...................................16 1.3. A importância da educação de valores para jovens e adolescentes....................17 2. A PSICOPEDAGOGIA E A ATUAÇAO NA EDUCAÇÃO..........................................19 2.1. O que é psicopedagogia? ...................................................................................19 2.1.1. Um pouco da História da Psicopedagogia...........................................20 2.1.2. Campo de Atuação do Psicopedagogo................................................22 53 2.2. A Intervenção Psicopedagógica no processo de ensino aprendizagem..............23 2.2.1. Os métodos de influência em Psicopedagogia....................................24 2.2.2. A ética do Profissional e o aspecto terapêutico da intervenção...........25 2.3. A Psicopedagogia e sua atuação educacional.....................................................27 2.3.1. Disortografia........................................................................................28 2.3.2. Dispraxia..............................................................................................28 2.3.3. Disgrafia..............................................................................................29 2.3.4. Disartrias..............................................................................................29 2.3.5. Disfasia e Afasia de desenvolvimento.................................................30 2.3.6. Discalculia...........................................................................................31 3. A PSICOPEDAGOGIA E A EDUCAÇAO DE ADOLESCENTES EM OFICINAS DE VALORES: Uma adorável parceria......................................................................................33 3.1. O papel do Educador nas oficinas de valores.....................................................33 3.2. A utilização da intervenção psicopedagógica na relação ensinante e aprendente dentro das oficinas de valores com adolescentes..................................................................36 3.2.1. As Oficinas de Valores do SIC-AIACOM..........................................36 3.2.2. A Psicopedagogia como auxiliadora no processo de aprendizagem e sua aplicação efetiva dentro oficinas de vivência de valores................................................39 CONCLUSÃO......................................................................................................................45 BIBLIOGRAFIA...................................................................................................................49 54 ANEXO.................................................................................................................................51 ÍNDICE.................................................................................................................................52 FOLHA DE AVALIAÇÃO..................................................................................................55 55 FOLHA DE AVALIAÇÃO UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PROJETO A VEZ DO MESTRE Pós-graduação “Lato Sensu” Título da Monografia: Psicopedagogia e Valores na Prática Educacional com adolescentes: Um diálogo entre o valor de educar e o trabalho psicopedagógico. Data de Entrega: ______14 de julho de 2005_________ Avaliação: _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ Avaliado por__________________________________Grau __________________ ____________________________, ______de ___________________de 200__. 56