Professores das diversas áreas do conhecimento se utilizam da noção de gêneros textuais no processo didático? Reflexões sobre a prática pedagógica de professores paraibanos em formação a distância Kelly Melo (UFCG) Rosa Maria da Silva Medeiros (UFCG) Resumo: Este trabalho tem como objetivo delinear de que modo professores da rede pública de ensino da Paraíba entendem a noção de gêneros textuais e se os utilizam no processo de ensino aprendizagem na escola. Baseando-nos em Coscarelli e Ribeiro (2005), Araújo e BiasiRodrigues (2005), está sendo realizada uma análise interpretativa de cunho qualitativo e quantitativo das discussões feitas por 150 professores paraibanos de diversas áreas do conhecimento no ambiente colaborativo de aprendizagem do eproinfo. De acordo com as primeiras análises do corpus constatamos que a noção de gêneros textuais parece-nos pouco compreendida e utilizada em sala de aula pelos professores pesquisados, excetuando-se os professores formados na área da linguagem. Palavras- chave: gêneros textuais, processo de ensino-aprendizagem, EAD. Abstract: This paper aims to outline how public school teachers teaching Paraíba understand the notion of genre and use them in teaching and learning process at school. Building on Coscarelli and Ribeiro (2005), Araujo-Biasi and Rodrigues (2005), is being conducted an interpretive analysis of matrix qualitative and quantitative nature of the discussions made by 150 teachers from various areas of Paraíba knowledge in collaborative learning of eproinfo. According to the first analysis of the corpus we find that the notion of genre it seems little understood and used in the classroom by the teachers, except teachers trained in the language. Keywords: genre, teaching-learning, distance education Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -1- Introdução Este artigo tem como objetivo delinear de que modo professores das diversas áreas do conhecimento entendem a noção de gêneros textuais e se os utilizam no processo de ensino aprendizagem na escola. À primeira vista é possível entenderem que a relevância de dominar tal noção esteja diretamente relacionada ao professor de língua portuguesa. Podemos constatar isso nas orientações dadas pelos PCN (1998) sobre o processo de ensino de língua portuguesa na escola quando especifica que a unidade básica para esse ensino deve ser o texto, e consequentemente, a noção de gênero textual precisa ser tomada como objeto de ensino. Nesse contexto, configura-se como sendo a principal função do professor de língua portuguesa ampliar a competência discursiva dos alunos, ou seja, levá-los a aprimorar estratégias de utilização da língua de modo variado, produzindo textos adequados a diferentes situações comunicativas sejam orais e/ou escritas. É, portanto, fundamentalmente atribuída ao professor da área da linguagem a função de desenvolver nos alunos habilidades de leitura, escrita e oralidade. Função, esta, muitas vezes, equivocadamente interpretada no imaginário coletivo como uma função exclusiva desse professor. Entretanto, vale salientar que “toda educação comprometida com o exercício da cidadania precisa criar condições para que o aluno possa desenvolver sua competência discursiva” (PCN, 1998, p.23). Sendo assim, o desenvolvimento da competência discursiva do alunado não é tarefa apenas do professor de Português, mas de todo educador, de todos os profissionais das diversas áreas do conhecimento comprometidos com uma formação crítica, reflexiva. A competência discursiva dos alunos não é só praticada nas aulas de língua portuguesa. Nas aulas de matemática, história, geografia, biologia etc, os alunos também põem em prática essa competência ao falarem, escreverem, Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -2- ouvirem e lerem textos. A diferença é que nas aulas de português cabe ao professor criar condições para ampliação e aprimoramento de tal competência. Sendo assim, compreender a noção de gêneros textuais e utilizá-los no processo de ensino não é uma recomendação exclusiva para professores da área da linguagem, mas estende-se a todos os professores que prezam por um ensino contextualizado que possibilite os alunos a refletirem sobre a realidade que os cercam, sobre os textos que lêem, ouvem e/ou escrevem dentro e fora da escola. Metodologia Este trabalho é resultado de uma pesquisa realizada com 150 professores paraibanos de diversas áreas do conhecimento no ambiente colaborativo de aprendizagem do eproinfo/MEC. Esses professores são provenientes de diferentes localidades situadas no litoral, brejo, agreste e sertão paraibano. Todos estão num processo de formação continuada a distância propiciada, em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, pelo curso de extensão 180h – Mídias na Educação desde novembro de 2009. O corpus de análise são as contribuições feitas por esses professores quando respondem a uma atividade referente ao módulo sobre a mídia Material Impresso no Fórum - um ambiente de aprendizagem em que os professores debatem sobre assuntos relacionados à utilização das diversas mídias – TV e Vídeo, Informática, Rádio e Material Impresso – na sala de aula. O debate no Fórum geralmente se constitui pela postagem de contribuições (resposta dada à atividade pelo professor) e comentários (avaliação crítica e sugestões dadas sobre/às contribuições dos colegas participantes do fórum) – (Ver figura 2, p. 06) No módulo Material Impresso, os professores tiveram acesso a um conjunto de textos teóricos cujo principal enfoque é dado aos gêneros textuais. A atividade do Fórum solicita aos professores que conceituem, com suas próprias palavras, gêneros textuais e relatem qual gênero costumam Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -3- utilizar como ferramenta de trabalho; e qual gênero costumam solicitar aos alunos e por que razão (Ver figura 1, abaixo). Figura 1: Atividade do Fórum sobre os gêneros textuais Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -4- Figura 2: Fórum com contribuições e comentários postados pelos professores Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -5- Baseando-nos em Coscarelli e Ribeiro (2005), Araújo e Biasi-Rodrigues (2005), a análise do corpus coletado é de cunho interpretativista. Metodologicamente, é feita uma análise de conteúdo, subsidiada por uma discussão de dados qualitativa e quantitativamente. Professores das diversas áreas do conhecimento se utilizam da noção de gêneros textuais no processo didático? A atividade sobre gêneros textuais e suas especificidades foram respondidas por 62,8% dos professores. Mais de 37% não a responderam, alegando falta de tempo para leitura dos textos teóricos devido à carga horária e acúmulo de trabalho docente. O total dos professores que participaram ativamente no fórum é constituído por representantes da maioria das áreas de conhecimento. Verifiquemos, no quadro abaixo, como esse total é configurado percentualmente. Quadro 1: Percentual dos professores participantes do Fórum ÁREAS DE ATUAÇÃO PERCENTUAL ÁREAS DE ATUAÇÃO PERCENTUAL LÍNGUA PORTUGUESA 27,8% BIOLOGIA 3,7% MATEMÁTICA 16,7% SEM IDENTIFICAÇÃO 3,7% PEDAGOGIA 14,8% GEOGRAFIA 5,6% HISTÓRIA 13% QUÍMICA 1,8% INGLÊS 7,4% EDUCAÇÃO INFANTIL 1,8% EDUCAÇÃO FÍSICA 3,7% Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -6- No quadro 1, podemos contatar que o curso de extensão Mídias na Educação – 2009/2010 possui um público variado condizente com o propósito de propiciar conhecimentos teórico-metodológicos sobre as mídias aos profissionais da área educacional. Tal público é constituído predominantemente por professores cujas áreas de atuação se concentram em Língua Portuguesa, Matemática, Pedagogia e História. Tais profissionais são responsáveis por 72,3% do total de professores inscritos no curso, sendo que a maioria é representada por docentes da área da linguagem, equivalente a 24,8%; e por docentes que atuam na área da Matemática, 16,7%. A fim de efetivar o que Souza (2005, p. 108) defende como sendo aprendizagem colaborativa, ou seja, ‘uma atividade na qual os participantes constroem cooperativamente um modelo explícito de conhecimento’, foi elaborada um atividade no Fórum para que os professores postassem contribuições a fim de conceituarem, com suas palavras, gêneros textuais; e responderem às questões descritas, abaixo: 1. Qual disciplina lecionam? 2. Qual é o gênero que costumam utilizar como ferramenta de trabalho? 3. Qual é o gênero que costumam solicitar aos alunos? Por quê? Além das contribuições, o Fórum se caracteriza pela atitude de cada professor tecer comentários às contribuições socializadas pelo colega de profissão com quem escolher para interagir. Dessa forma, buscamos utilizar o ambiente Fórum com o intuito de “poder ajudar os participantes a expressar, elaborar, compartilhar, melhorar e entender suas criações, fazendo com que pensem seu próprio pensamento” (SOUZA, op. cit., p. 108) em relação ao conteúdo que estavam estudando – mídia impressa/gêneros textuais e a sua atuação em sala de aula. Dos três questionamentos acima descritos, apenas 1,8% não identificaram a área de atuação por não explicitarem que disciplina lecionam. Não foram Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -7- constatadas respostas relativas à questão 2, explicitando que gênero cada professor costuma utilizar como ferramenta de trabalho. Em contrapartida, a questão 3 foi respondida por todos, pois, ao tentarem conceituar gêneros textuais, foi comum acrescentarem a informação de que gêneros costumam solicitar aos alunos, embora a justificativa por utilizá-los (quando era apresentada) fosse superficial e vaga. Um fato que parece evidenciar certa imprecisão sobre a noção conceitual, a funcionalidade e importância do gênero textual em sala de aula. Tal fato foi constatado em 64,8% das contribuições postadas por profissionais da área da Matemática, Biologia, História, Geografia, Educação Física, Química, Educação Infantil, Pedagogia e o sem identificação da área. Um exemplo representativo dessa categoria de respostas, pode ser a contribuição reproduzida, a seguir: Gêneros textuais: Refere-se às diferentes formas de expressão textual, seja literárias ou não, por exemplo (narrativas,discursivas,argumentativas,dissertativas etc.), utilizadas como formas de organizar a linguagem. No meu entendimento, visto as experiências em sala de aula, os gêneros textuais são as variadas formas de expressão textual, como os textos produzidos em prosa, poesia, contos, crônicas entre os mais diversos, incluindo na atualidade, os textos produzidos em cartas, conversas e emails. Opondo-se a essa categoria de respostas, constatamos que 35,2% das contribuições dos docentes da área da linguagem, Língua Portuguesa e Inglês, apresentam a noção de gênero textual de modo menos impreciso, delineando a funcionalidade e relevância dessa noção para efetivar um ensino contextualizado e reflexivo. Vejamos, a seguir, as contribuições ilustrativas dessa categoria: São textos que empregamos nas situações cotidianas de comunicação. Há vários gêneros textuais como o telegrama, o sermão, tipos de carta, reportagem jornalísticas carta-eletrônica, bate-papo e assim por diante. (professor de Português) Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -8- Toda produção destinada a atender uma necessidade de interação verbal do cotidiano pode ser considerada um gênero textual. (professor de Inglês) De acordo com a análise das contribuições acima delineadas e que são ilustrativas das postagens feitas no Fórum sobre gêneros textuais e suas especificidades, constatamos que a noção de gêneros textuais parece-nos pouco compreendida e utilizada em sala de aula pela maioria dos professores pesquisados, excetuando-se os professores formados na área da linguagem. Percebemos que, embora todos os professores tenham tido acesso a textos teóricos variados sobre a noção de gêneros, por meio da plataforma do eproinfo; os professores ainda confundem a noção de gêneros textuais com tipos/tipologia textuais. Tal dificuldade é menos evidenciada nas contribuições de docentes formados na área de Letras. Um fato que pode ser explicado em virtude de que nesse curso a noção de gêneros textuais é divulgada como indispensável para o processo de ensino aprendizagem da língua. Entretanto, uma outra constatação feita nesse artigo deve ser considerada para uma reflexão mais aprofundada sobre a formação de professores, inclusive, os de língua – é o fato de não ser mencionado gêneros textuais inerentes ao trabalho didático do professor. A maioria dos professores citam diversos gêneros textuais que circulam efetivamente na sociedade e que, no geral, é/ou pode ser solicitado aos alunos oralmente ou por escrito na escola. Conhecimentos que podem ter sido apreendidos ao longo de sua formação acadêmica. Todavia, é possível que a falta de contribuições que focalizem gêneros específicos do fazer docente não tenham sido mencionados pelos professores por não terem o hábito de refletir sobre sua própria prática pedagógica. Por estarem geralmente focalizados no quê ensinar aos alunos, dando pouca atenção ao percurso trilhado e aos recursos mobilizados por ele para efetivar esse ensino. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação -9- Referências Bibliográficas XAVIER, A. C.,SANTOS, C. F. E-fórum na internet: um Gênero digital. In: ARAUJO, J. C., BIASI-RODRIGUES, B. Interação na internet: novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 2001. SOUZA, R. R. Contribuições das teorias pedagógicas de aprendizagem na transição do presencial para o virtual In: COSCARELLI, C.; RIBEIRO, A. E. Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. Belo Horizonte:Ceale,2005. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação - 10 -