ESTUDO DAS PROPRIEDADES REOLÓGICAS DE UM SOLO FABRICADO EM LABORATÓRIO Patrícia Franklin Guimarães1; Luciana Thomasi1; Gilberto Ferreira Alexandre1; Ian Schumann Marques Martins2 & Paulo Eduardo Lima de Santa Maria3 RESUMO Os fundamentos do modelo reológico de Martins (1992)[1] são discutidos resumidamente e, baseado neste modelo, são feitos estudos sobre: a) o efeito da velocidade nos ensaios CIU ; b) a fluência não-drenada e sua relação com os ensaios CIU ; c) a hipótese da existência de uma parcela viscosa na tensão normal efetiva, como proposto por Taylor (1942)[2], e como esta influenciaria os ensaios CIU e de fluência não-drenada. Assim, são realizados ensaios triaxiais CIU , de fluência não-drenada e de adensamento hidrostático especiais em corpos-de-prova de uma mistura de caulim e bentonita com 7cm de diâmetro e 14cm de altura. Diversos cuidados especiais são tomados: temperatura controlada, aquisição automática de dados e “free-ends” para atenuar o efeito de restrição de topo e base. Baseado nos resultados, conclui-se que: a) o estudo do comportamento tensão-deformação-tempo das argilas saturadas é extremamente relevante; b) o modelo de Martins (1992)[1] explica adequadamente o fenômeno da fluência não-drenada, apesar da interferência de tixotropia nos resultados e do fato de a poro-pressão não ser função exclusiva da deformação cisalhante; c) é verdadeira a hipótese de existência de uma parcela viscosa na tensão normal efetiva, função do índice de vazios e da velocidade de deformação volumétrica específica. ABSTRACT The fundamentals of Martins’ Reological Model (1992)[1] are briefly discussed, and based upon it, the following studies have been carried out: a) strain rate effects on CIU tests; b) undrained creep phenomena and its relation with CIU tests; c) the existence of a viscous component on the effective normal stress, as proposed by Taylor (1942)[2], and its effect on CIU and undrained creep tests. In order to achieve this goal, CIU , undrained creep and special hydrostatic consolidation tests were carried out using 7 cm diameter and 14 cm high specimens of a kaolin-bentonite mixture under some special conditions. Based on the results the following conclusions were reached: a) the understanding of the stress-strain-time behavior of saturated clays is extremely relevant; b) the Martins’ Model (1992)[1] can adequately explain the undrained creep phenomena, despite the tixotropy observed in the tests and the fact that pore-pressure is not an exclusive function of the shear strain; c) the assumption of the existence of a viscous component of the effective normal stress has been confirmed and it is a function of void ratio and specific volumetric strain rate. PALAVRAS-CHAVE: Viscosidade, reologia, comportamento tensão-deformação-tempo. INTRODUÇÃO Sabe-se que, dentre outros fatores, o comportamento dos solos argilosos é dependente do tempo e, de uma maneira geral, este afeta a acurada previsão de deformações e resistências desses solos. Sabe-se também que várias foram as tentativas de incorporar o tempo ao comportamento desses solos, nenhuma porém, foi capaz de explicar satisfatoriamente todas as suas manifestações. Visando a compreensão deste comportamento, iniciou-se na COPPE/UFRJ, com o prof. Willy Lacerda, um programa de estudos sobre a reologia dos solos argilosos saturados. Neste programa, destaca-se a contribuição de 1 M. Sc., Doutorando COPPE/UFRJ; Lab. de Geotecnia - Bloco anexo ao CT; Cidade Universitária - Ilha do Fundão; CEP 21945-970; Rio de Janeiro; RJ; Brasil; (0XX21) 290-1730; (0XX21) 290-1730 R:202. 2 D. Sc., Professor COPPE/UFRJ 3 Ph. D., Professor COPPE/UFRJ Martins (1992)[1], que propõe um modelo de comportamento baseado no conceito de viscosidade estrutural, relacionada à ação da água adsorvida das partículas argilosas, e como esta influencia as variações volumétricas e a resistência ao cisalhamento. O conceito de viscosidade estrutural não é novo, e se deve a Terzaghi (1941)[3] e Taylor (1942)[2]. Como desdobramento do modelo de Martins (1992)[1], foi construído um laboratório de reologia na COPPE/UFRJ, sendo as primeiras teses desenvolvidas as de Guimarães (2000)[4], Thomasi (2000)[5], e Alexandre (2000)[6]. Estas teses versam sobre a confirmação experimental das hipóteses do modelo de Martins (1992)[1], realizadas no laboratório de reologia da COPPE/UFRJ, em um solo argiloso saturado fabricado em laboratório, e o presente trabalho tem como objetivo apresentar os resultados obtidos nestas teses. O MODELO DE MARTINS (1992) Sinteticamente, o conceito de viscosidade estrutural, devido a Terzaghi (1941)[3] e Taylor (1942)[2], atribui propriedades diferentes às águas livre e adsorvida do qual o solo argiloso saturado é composto. Entende-se por água livre aquela que pode se locomover por fluxo, e água adsorvida aquela que não se locomove, ficando aderida às partículas de argila por afinidade elétrica entre a carga elétrica de sua superfície e o dipólo da molécula de água. À água livre seria atribuída a viscosidade comum da água, e à água adsorvida seria atribuída uma outra viscosidade, muito maior que a da água livre. Esta viscosidade (da água adsorvida), seria devido à orientação dos dipólos das moléculas de água, e seria tanto maior quanto mais próximo o dipólo estivesse da superfície da partícula. A uma distância muito pequena da partícula, a água estaria praticamente no estado sólido, e aos contatos entre partículas entre suas respectivas camadas de água adsorvida no estado sólido, deu-se o nome, por Terzaghi (1941)[3], de "solidbond". Nestes contatos, a resistência ao cisalhamento seria de natureza friccional. Já a distâncias maiores, a viscosidade seria maior que a da água livre e, a estes contatos entre partículas feitos através de suas respectivas camadas de água adsorvida com tal viscosidade, deu-se o nome, por Terzaghi (1941)[3], de "film-bond". Nestes contatos, a resistência ao cisalhamento seria de natureza viscosa. Martins (1992)[1] traduziu em equações o idealizado por Terzaghi e Taylor, apresentadas abaixo: σ = σ′ + u , e τ = τf + τv (1) (2) Sendo que os índices f e v representam as parcelas de natureza friccional e viscosa, respectivamente, e que: τf = σ′ ⋅ tgφ′ ,e τ v = η(e ) ⋅ dε dt (3) (4) Sendo η(e), o coeficiente de viscosidade do solo, função do índice de vazios, e dε/dt a velocidade de deformação cisalhante. Como apresentado em Martins (1992)[1], o estado de tensões, representado pelo círculo de Mohr, poderia ser decomposto em duas elipses, associadas às parcelas viscosa e friccional, batizadas por Martins (1992)[1] de elipse de Taylor e de Coulomb. Neste modelo, a mobilização do atrito e a geração do excesso de poro-pressão seriam devidos ao desenvolvimento das deformações cisalhantes, ou seja, seriam funções exclusivas da deformação cisalhante, e a ruptura, no espaço τ vs. σ', segundo este modelo, se daria quando a elipse de atrito tocasse a envoltória de ruptura, caracterizada pelo ângulo de atrito básico do solo, φb. Neste modelo, fenômenos como o aumento da resistência com o aumento da velocidade de deformação, fluência e relaxação de tensões poderiam ser explicados. De fato, Martins (1992)[1] chega a aplicar esses conceitos a uma campanha de ensaios não-drenados (CIU convencionais com diversas velocidades, de fluência e relaxação) realizada por Lacerda (1976)[7] na San Francisco Bay Mud. Porém, como nesta campanha não se dispunha de um sistema de aquisição automática de dados ou controle de temperatura, decidiu-se por estudar o modelo e suas hipóteses em um solo argiloso fabricado em laboratório, com aquisição automática de dados e controle rigoroso de temperatura. Para uma descrição mais detalhada do modelo recomendam-se os trabalhos Martins et al. (2001)[8] e Martins (1992)[1]. ESCOPO DO ESTUDO No intuito de estudar o modelo de Martins (1992)[1], foi programada uma bateria de ensaios especiais, compreendendo basicamente, ensaios triaxiais do tipo CIU , com diversas velocidades de deformação cisalhante, ensaios hidrostáticos especiais e ensaios de fluência não-drenada, realizados respectivamente por Guimarães (2000) [4], Thomasi (2000)[5] e Alexandre (2000)[6]. A campanha de ensaios foi cercada de cuidados nas fases de preparação das amostras e dos corpos-de-prova, bem como as técnicas, procedimentos, materiais e equipamentos utilizados. LABORATÓRIO Para a realização dos ensaios nessa pesquisa, foi montado um laboratório com características especiais, entre elas controle de temperatura e aquisição automática contínua de dados. O sistema de aquisição de dados é composto de uma fonte estabilizada Panambra e multímetro digital com saída tipo RS232 (para interface com o computador) equipados com módulos multiplexadores de 16 canais da Hewlett-Packard (HP 34902A). Esses equipamentos estão conectados a microcomputadores tipo Intel Pentium. O laboratório possui paredes, piso e teto forrados com placas de isopor e cobertos com madeira para isolar termicamente o local. Esse laboratório não possui paredes com o exterior, o que facilita seu isolamento térmico, uma vez que não há insolação direta. A influência da temperatura no comportamento de solos argilosos pôde ser comprovada por Marques (1996)[9], devido à sua natureza viscosa. Os ensaios desta pesquisa são feitos à temperatura de (19 ± 1)°C ao ar, sendo de (19 ± 0.3)°C dentro da célula triaxial. Para isso o laboratório conta com 3 aparelhos de ar-condicionado do tipo “split system” da Hitachi, que são usados em sistema de rodízio. EQUIPAMENTOS UTILIZADOS Foram utilizados nesta campanha os seguintes equipamentos: bureta graduada com capacidade de 100cm³ e sensibilidade de 0.2cm³; células de carga internas de fabricação da Wykeham Farrance de 3kN; LVDTs Schaevitz com curso de 25 mm; transdutores de poro-pressão Wykeham Farrance de 1000kPa e prensas para ensaio triaxial Wykeham Farrance, modelo WF 10057 TRITECH 50kN. A calibração dos instrumentos utilizados nessa pesquisa foi realizada no Laboratório de Reologia, em ambiente com temperatura controlada de (19±1)°C. Foi utilizado o mesmo sistema de aquisição a ser utilizado para a realização dos ensaios. E para cada instrumento calibrado, foram realizados 3 ciclos de carregamento e 3 de descarregamento. Os valores obtidos foram plotados de duas maneiras: considerando os 3 ciclos de carregamento−descarregamento isolados para a verificação da compatibilidade entre os resultados e todos os 3 ciclos de carregamento−descarregamento juntos. Para a determinação das constantes foi usado um pacote estatístico. Foram calibrados os LVDTS, as células de carga e os transdutores de poro-pressão. ESCOLHA DO SOLO UTILIZADO No estudo em questão optou-se por utilizar um solo preparado em laboratório. Assim, são minimizados problemas como heterogeneidade, amolgamento e diferença de salinidade entre a água intersticial e a que envolve o corpo-de-prova na câmara triaxial. Além disso, a fabricação de amostras em laboratório possibilita o controle de determinadas variáveis que podem intervir no estudo, mantendo-as fixas. No estudo em questão, é fundamental a utilização de amostras uniformes, para que se possa testar a validade do modelo. Neste estudo escolheu-se um solo que apresentasse propriedades reológicas acentuadas, que se mostrassem de forma clara e que pudessem ser quantificados com facilidade. Optou-se então por uma mistura de caulim e bentonita, restando apenas a definição das proporções da mistura. Para a definição da proporção caulim−bentonita, estudaram-se os seguintes parâmetros: limite de liquidez (LL), limite de plasticidade (LP), índice de plasticidade (IP) e coeficiente de adensamento secundário C αε , definido por ∆ε (5) ∆ log t onde ε é a deformação específica e t o tempo. O material utilizado foi: caulim branco - pó puro; bentonita sódica malha 200 - cor creme e água destilada, todos de um mesmo lote. Foram estudadas 4 tipos de misturas de caulim e bentonita, e para a escolha da mistura tomou-se como referência os valores da Argila do Sarapuí, bastante estudada, onde os efeitos viscosos são suficientemente evidentes, cujos valores de LL, LP e IP médios giram em torno de 122%, 51% e 71%, respectivamente, e cujo Cαε, na faixa normalmente adensada, varia entre 0.020 e 0.030. Resultados da Argila do Caju, Lira(1988)[10], também foram utilizados como referência. Além disso, foram consideradas características como homogeneização, trabalhabilidade e permeabilidade. A mistura escolhida foi a de 20% de bentonita e 80% de caulim. Para se avaliar as porcentagens de caulim e de bentonita que apresentavam as características ideais para os ensaios programados, foram realizados ensaios convencionais de adensamento com estágios de 72 horas. A mistura escolhida possui as características apresentadas na Tabela 1 abaixo: C αε = Tabela 1. Caracterização da mistura 20% de bentonita e 80% de caulim LL (%) LP (%) IP (%) Gs 92.5 21.8 70.7 2.617 Os valores de Cα e Cαε encontrados no ensaio edométrico para a mistura de 20% de bentonita e 80% de caulim, para a tensão de 50kPa, são Cα = 0.049 e Cαε = 0.014. PREPARAÇÃO DE AMOSTRAS As células para ensaio triaxial utilizam corpos-de-prova de 7cm de diâmetro e 14cm de altura, por possibilitarem uma maior acurácia nas medidas de deformação cisalhante e volumétrica, resistência, etc. Por essa razão, foram confeccionados cilindros de aço inoxidável com 15cm de diâmetro e 30cm de altura para preparação das amostras, com base e pistão perfurados para a saída da água do adensamento. A altura do cilindro foi determinada a partir da deformabilidade determinada em ensaios de adensamento edométricos em cilindros CBR, e a largura foi escolhida de tal forma que minimizasse o efeito do atrito da parede do tubo com o solo durante o adensamento. Em cada amostra, necessita-se de cerca de 2300g de solo seco (460g de bentonita e 1840g de caulim) juntamente com a quantidade de água destilada correspondente a 2 vezes o limite de liquidez (U = 92.5%), 4.255 l, valor esse que garante saturação próxima de 100%, durante a fase de homogeneização. A mistura dos solos é feita a seco (sua umidade higroscópica desprezada), em uma bacia, até ficar o mais homogênea possível, e, em seguida, colocada aos poucos dentro do recipiente da batedeira de solos, com cerca de 75% da água destilada e posta para bater por 8 horas, para homogeneizar. A água é colocada antes do solo, pois se observou que assim se promovia uma saturação maior. A cada 2 horas, desliga-se a batedeira por cerca de 30min, para evitar o superaquecimento da máquina e para homogeneizar melhor a amostra, revolvendo-se o fundo para desfazer possíveis grumos. O restante da água é adicionado à medida que o processo se desenvolve, durante os intervalos, uma vez que a amostra tende a ressecar na superfície. A amostra preparada é colocada no cilindro de aço inox lubrificado (previamente nivelado na bancada), com vaselina (para minimizar o atrito entre a amostra e a sua parede) com dois discos de geotêxtil tipo bidim OP-30 (um em cima e outro embaixo) para se promover o adensamento vertical com duas fronteiras drenantes. Inicia-se, então, o pré−carregamento até se atingir a tensão de, aproximadamente, 30kPa. O pré-carregamento é feito em 3 dias, da seguinte maneira: 1º dia: sobrecarga (pistão, cilindro de apoio do pendural e pendural); 2º e 3º dias: carregamentos pela manhã e final da tarde (pesos adotados em função do peso da sobrecarga). Como o cv deste solo é muito baixo (cerca de 1.74x10-4 cm²/s) e o tempo para se obter U = 90% era superior a 14 dias, optou-se utilização da drenagem combinada para o preparo da amostra. O procedimento original, descrito acima, foi modificado, colocando-se junto à parede do cilindro 8 tiras de geotêxtil (bidim OP-30) de 2cm de largura e 40cm de comprimento, dispostas em espaços regulares ao longo do perímetro do tubo, presas no disco inferior de bidim a uma distância de cerca de 2cm da parede interna do cilindro (no interior da massa de solo). Com esse novo procedimento, o tempo de adensamento foi reduzido para um quinto do valor original. Após a fase de adensamento das amostras, procedia-se à moldagem dos corpos-de-prova. MOLDAGEM DOS CORPOS-DE-PROVA Ao final do adensamento a amostra era retirada do cilindro pela base, para se evitar a reversão das tensões cisalhantes que possam existir entre o solo e o cilindro, e levada ao moldador. No moldador era dado o formato cilíndrico à amostra com o auxílio de régua e espátulas, retirando-se o excesso de solo até que atingisse as dimensões necessárias: 7cm de diâmetro por 14cm de altura. Durante o desbaste eram retiradas 3 cápsulas para determinação da umidade, determinações essas, feitas com material do desbaste próximo ao corpo-de-prova. Retirado do moldador, este era colocado no berço, onde eram aparadas suas extremidades. O corpo-de-prova era então pesado e levado para que pudesse ser montado na célula triaxial. MONTAGEM DOS ENSAIOS Montagem dos ensaios CIU e de fluência Para a montagem, a base da câmara triaxial é colocada sobre a prensa. Sobre o pedestal da base é colocada uma pedra porosa, previamente saturada por fervura e resfriada. Sobre esta é colocado um disco de acrílico untado com graxa de silicone e, aderido a este, um disco de membrana de látex. Coloca-se então o corpo−de−prova e, em sequência, outro conjunto disco de membrana de látex/disco de acrílico untado com graxa de silicone. Sobre o disco de acrílico do topo coloca-se o “top-cap”. Envolve-se lateralmente o corpo-de-prova com dois papéis-filtro previamente umedecidos em água destilada, de forma que cubram toda a superfície lateral do corpo-de-prova e alcancem a pedra porosa. Por último, coloca-se a membrana de látex, que é presa ao pedestal e ao “top-cap” com elásticos. Montado o corpo-deprova, coloca-se a campânula da câmara triaxial e a câmara é, então, preenchida com água destilada e desaerada. Com o objetivo de se obter uma distribuição uniforme de tensões e deformações no corpo-de-prova, a drenagem, durante o estágio de adensamento hidrostático, é radial e são adotados os chamados “free ends”. Os “free ends” são utilizados para atenuar o efeito de restrição de topo e base, causado pelo atrito desenvolvido entre o pedestal da célula triaxial, o “top-cap” e o corpo-de-prova e, conseqüentemente, uniformizar o campo de tensões neste. Essa técnica consiste em colocar membranas de látex, aderidas às placas de acrílico com graxa de silicone, em contato com o topo e a base do corpo-de-prova, como recomendado em Rowe & Barden (1964)[11]. A utilização de 2 papéis-filtro, ao invés de apenas um, se deve à necessidade de reduzir o tempo de adensamento hidrostático. Inicialmente de 8 dias, o tempo de adensamento passou para 5 dias. “top-cap” graxa de silicone disco de acrílico papel filtro disco de membrana corpo-de-prova disco de membrana disco de acrílico graxa de silicone pedra porosa pedestal da base Figura 1. Montagem do corpo-de-prova Para os ensaios com duração superior a 14 dias, seguindo outra recomendação de Rowe & Barden (1964)[11], fez-se uso de duas membranas de látex lubrificadas com graxa de silicone, ao invés de apenas uma, como usual, para prevenção da difusão da água da câmara triaxial para o corpo−de−prova, ocasionado pela diferença na concentração de sais nas águas. Visando mais uma vez minimizar este efeito, utilizou-se água destilada tanto na confecção das amostras como na água da câmara triaxial. Apenas um ensaio com esta velocidade foi realizado, tendo o mesmo sido prejudicado e, conseqüentemente, descartado, em virtude de falta de energia elétrica no laboratório. Para garantir a saturação do corpo-de-prova foi aplicada uma contra-pressão de 50kPa, mantida por pelo menos 36h. Posteriormente, aplicou-se um incremento de tensão confinante (∆σ3) igual a, pelo menos, três vezes o valor da tensão inicial (σvi), ou seja, a tensão de pré-carregamento, que corresponde à tensão de adensamento hidrostático, visando minimizar os efeitos da anisotropia que possa ter sido criada durante a fase de pré-adensamento da preparação das amostras, seguindo recomendação de Wroth (1985)[12]. Media-se, então, o parâmetro B de Skempton (1954)[13], que deveria ser superior a 98%, e iniciava-se o adensamento. Com o parâmetro B medido igual ou superior a 98% (em todos os ensaios esse valor foi superior a 99%) abria-se a drenagem dando início à fase de adensamento hidrostático, atingindo-se o final do primário em aproximadamente 5 dias. Foram utilizadas tensões de adensamento de 90kPa, 140kPa e 190kPa. Durante esta fase, eram feitas leituras de variação de volume (∆V) × tempo (t) com o emprego de uma bureta. Quando a velocidade de adensamento atingia o valor de 4(±1)×10-8s-1, a drenagem era então fechada para início da fase de cisalhamento. Essa velocidade de deformação volumétrica foi escolhida de modo que todos os ensaios iniciassem a fase de cisalhamento sobre a mesma influência da viscosidade. Para o cisalhamento, a prensa era ligada, imprimindo ao corpo-de-prova uma velocidade de deformação constante de 0.1%/min ou 0.01%/min. O ensaio era encerrado quando se atingia cerca de 20% de deformação axial ou quando havia a formação de um plano de ruptura. Após o fim dos ensaios, os corpos-de-prova eram pesados e cortados transversalmente em 5 partes para que, em cada uma delas, fosse determinado o teor de umidade, com o objetivo de verificar a distribuição de poro-pressões ao longo do corpo-de-prova. A diferença entre a umidade no centro e nas extremidades da amostra foi inferior a 1% mostrando uma uniformidade nos corpos-de-prova. Montagem dos Ensaios Hidrostáticos Especiais Os ensaios hidrostáticos especiais consistem na monitoração do excesso de poro-pressão durante a fase de adensamento e após o fechamento da drenagem. Nestes ensaios não há fase de cisalhamento, visando o estudo da hipótese de Taylor (1942)[2] sobre a existência de uma parcela viscosa na tensão normal efetiva, parcela esta, originariamente não considerada pelo modelo de Martins (1992)[1]. A montagem desses ensaios difere dos anteriores pela drenagem e pela medida do excesso de poro-pressão. Nestes ensaios, a drenagem é feita pela face superior do corpo-de-prova. A medida de poro-pressão é feita por meio de uma pedra porosa instalada num orifício central da placa de acrílico, situada na base do corpo-de-prova. RESULTADOS OBTIDOS São mostrados a seguir alguns resultados da campanha de ensaios realizada, que demonstram a comportamento reológico do solo fabricado em laboratório. A Figura 2 mostra o comportamento da poro-pressão quando da abertura da drenagem, para dar inicio ao adensamento hidrostático. O sistema de aquisição de dados foi ajustado para 8 leituras por segundo (máxima taxa de aquisição com filtragem digital possível do equipamento), o que possibilitou registrar uma queda quase que instantânea da poro-pressão no momento da abertura da drenagem. Já a figura 3 mostra o crescimento da poro-pressão quando do fechamento da drenagem ao final do adensamento primário. A poro-pressão, inicialmente próxima de zero, começou a subir ao longo do tempo, comportamento este dependente da velocidade de deformação volumétrica que o corpo-de- prova detinha no momento do fechamento da drenagem. Observa-se que, quanto maior a velocidade de deformação volumétrica, maior o crescimento da poro-pressão após o fechamento da drenagem. 20 ah-5, v=1.5x10-8s-1, p´e=90kPa 80 Poro-pressão (kPa) Poro-pressão (kPa) 90 70 ah-5, p´e=90kPa, ei=2.71 60 ah-6, p´e=90kPa, ei=2.93 50 10 p´e=tensão de adensamento ei= índice de vazios no início 40 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 ah-6, v=2.6x10-9s-1, p´e=90kPa 15 5 0 20 0 2 4 6 8 10 12 14 Tempo (dias) Tempo (s) Figura 2. Comportamento da poro-pressão no início Figura 3. Comportamento da poro-pressão após o dos ensaios de adensamento hidrostático fechamento da drenagem nos ensaios de adensamento hidrostático 100.00 100.0 80.00 80.0 60.00 60.0 q' (kPa) σd (kPa) Pela Figura 4, pode-se notar que a velocidade de deformação cisalhante influencia o caminho de tensões, a tensão desviadora e a poro-pressão gerada no cisalhamento. Quanto ao comportamento da poro-pressão, em especial, pode-se observar que, quanto maior a velocidade de deformação cisalhante, menor a poro-pressão gerada. Fato este que contraria a hipótese do modelo de Martins (1992)[1], onde se afirma ser a poro-pressão função exclusiva da deformação cisalhante. Face aos resultados dos ensaios hidrostáticos especiais, pode-se levantar a hipótese da poro-pressão gerada no cisalhamento ter duas componentes, uma ligada ao tempo de adensamento (ou velocidade de deformação volumétrica), e outra ligada à deformação cisalhante, daí o fato de a poro-pressão gerada nos ensaios mais lentos ser maior do que a gerada nos ensaios mais rápidos. 40.00 20.0 20.00 0.00 0.0 40.0 3.0 6.0 9.0 ε (%) 12.0 15.0 18.0 0.0 30.0 60.0 90.0 120.0 p' (kPa) 150.0 180.0 120.00 100.00 CP1 - vel. 0.1%/min, p' =95kPa e CP8 - vel. 0.1%/min, p' =140kPa e CP9 - vel. 0.1%/min, p' =190kPa e CP10 - vel. 0.01%/min, p'e =90kPa ∆u (kPa) 80.00 60.00 40.00 CP12 - vel. 0.01%/min, p'e =140kPa 20.00 0.00 0.0 CP13 - vel. 0.01%/min, p'e =190kPa 3.0 6.0 9.0 12.0 15.0 18.0 ε (%) Figura 4. Resultado de ensaios CIU realizados 210.0 Ponto importante a se destacar nos resultados ora apresentados, é que são todos exemplos que contrariam o princípio das tensões efetivas. Como explicar, segundo este princípio, a queda inicial de poro-pressão, quando da abertura da drenagem, nos ensaios hidrostáticos especiais? Ou o crescimento da poro-pressão, quando do fechamento da drenagem, ao final do adensamento primário? Como explicar que dois corpos-de-prova de um mesmo solo, adensados à mesma tensão hidrostática e índice de vazios, podem apresentar resistências diferentes? Na Figura 5 é apresentado o resultado de um ensaio de fluência, realizado neste mesmo solo, e sua respectiva curva de viscosidade obtida. Vê-se claramente que o comportamento da parcela viscosa não é linear e dependente apenas do índice de vazios, como admitido no modelo de Martins (1992)[1]. Seu comportamento se aproxima mais de um fluido não-newtoniano, pseudo-plástico, dependente da índice de vazios e da velocidade de deformação, e pode ser representado por uma função de potência. 3,5 1,E+05 3,0 -0,8203 1,E+04 y = 13,08x 2 R = 0,998 η (kPa*min/%) ε (%) 2,5 2,0 1,5 1,0 1,E+03 -0,8032 y = 13,55x 2 R = 0,9983 1,E+02 1,E+01 0,5 1,E+00 0,0 1,E-01 1,E-05 -0,8281 y = 3,58x 2 R = 0,9989 Flu-01 Flu-02 Flu-05 0 5000 10000 15000 20000 1,E-04 1,E-03 1,E-02 1,E-01 1,E+00 1,E+01 1,E+02 dεε /dt (%/min) Tempo (min) Figura 5. Resultado de ensaios de fluência não-drenada Apesar de alguns pontos discordantes, o modelo se mostrou coerente na interpretação dos fenômenos, como se pode observar pela comparação entre a mobilização do atrito, velocidade de deformação e da deformação cisalhante previstas pelo modelo e os valores reais observados, mostrados na tabela abaixo. Os valores comparados correspondem ao ponto de cruzamento dos ensaios de fluência com os ensaios CIU realizados a diferentes velocidades de deformação. Tabela 2. Comparação dos resultados obtidos nos pontos de cruzamento dos caminhos de tensão efetiva dos ensaios de fluência e CIU convencionais Ensaio u (kPa) ε (%) dε/dt (%/min) tg φmob Flu-01 31 1.2 0.01 0.238 31 1.33 0.011 0.241 CIU -10 Erro (%) Ensaio Flu-05 CIU -08 Erro (%) Ensaio Flu-05 CIU -12 Erro (%) u (kPa) 33 33 10.8 ε (%) 1 1.27 10 dε/dt (%/min) 0.1 0.11 1.26 tg φmob 0.225 0.223 u (kPa) 74 74 27 ε (%) 5 3.84 10 dε/dt (%/min) 0.01 0.095 1 tg φmob 0.474 0.445 - 23.2 5 7 CONCLUSÕES Baseado no que foi exposto acima conclui-se que: 1) Contrariamente ao que previa o modelo de Martins (1992)[1], a poro-pressão é função da velocidade de deformação volumétrica ao final do adensamento primário, no momento do fechamento da drenagem, e da deformação cisalhante. 2) Contrariamente ao admitido no modelo de Martins (1992)[1], a função de viscosidade não é linear. A função de viscosidade que melhor se ajusta aos pontos experimentais é de potência. 3) Nos pontos de cruzamento dos caminhos de tensão efetiva dos ensaios de fluência e ensaios CIU com várias velocidades, tem-se a mesma deformação cisalhante, velocidade de deformação, poro-pressão (por construção), e atrito mobilizado, como previsto no modelo. 4) Os ensaios hidrostáticos especiais corroboram a hipótese de Taylor (1942)[2] sobre a existência de uma parcela viscosa na tensão normal efetiva. AGRADECIMENTOS Os autores gostariam de agradecer ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a PETROBRAS, pelo suporte financeiro para o desenvolvimento desta pesquisa. BIBLIOGRAFIA [1] Martins, I. S. M., Fundamentos de um Modelo de Comportamento de Solos Argilosos Saturados, Tese de D.Sc., COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1992. [2] Taylor, D. 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