UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM DIDATICA E METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR IV BRUNA VIGNALI RAMOS DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA GEOGRÁFICA: UMA REVISÃO DE LITERATURA QUE COMPREENDE O ESTUDO DA GÊNESE DA GEOGRAFIA MODERNA Criciúma, Setembro de 2006. 1 BRUNA VIGNALI RAMOS DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA GEOGRÁFICA: UMA REVISÃO DE LITERATURA QUE COMPREENDE O ESTUDO DA GÊNESE DA GEOGRAFIA MODERNA Monografia apresentada à Diretoria de PósGraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC, para a obtenção do título de especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior. Orientadora: Profª. Drª Fábia Liliã Luciano Criciúma, Setembro de 2006. 2 Dedico este trabalho às professoras Fábia Liliã Luciano e Leila Maria V. Beltrão ambas muito importantes na minha vida acadêmica e com certeza na realização deste trabalho. 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, ao mestre Jesus,pelo dom da vida. A minha orientadora Fábia Liliã , que acreditou em meus ideais. Aos meus pais Erivaldo Scheffer Ramos, Paulo Abel Lima, e minha mãe Márcia Lima por terem me proporcionado o direito de estudar e obter grau superior e neste sentido alçar mais um degrau da vida acadêmica. Ao meu marido Everton Sutil pelo amor, pela Maria Luiza, incentivo, paciência, compreensão e força para chegar ao final desse curso. 4 A história é a geografia do tempo, enquanto a Geografia é a história do espaço. Elisée Reclus (1830-1905) 5 RESUMO O presente estudo tem o objetivo de apresentar a historia da geografia a partir do seu surgimento, sua concepção como ciência geográfica reunindo os pressupostos necessários para a constituição desta, apontando todavia, a evolução do entendimento da Geografia no decorrer do século XIX sendo caracterizada pela escola tradicional. A problematização no entanto, nada mais é do que o conhecimento que dá respaldo ao que se transformou na Geografia propriamente dita. É importante conhecer, como a geografia que nós trabalhamos na atualidade repensada no século XIX, como alguns geógrafos constituíram esse conhecimento e percebiam a geografia da época. Palavras-chave: conhecimento geográfico; empirismo; cientificidade. 6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................. 7 2 DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA: UMA REVISÃO DE LITERATURA.... 8 2.1 Gênese do Conhecimento Geográfico................................................. 8 2.2 Grécia: Aspectos Importantes na Constituição da Geografia ........... 9 2.2.1 Especificidades econômicas e históricas da Alemanha no início do século XIX, como berço da ciência geográfica.................................... 11 3 A Constituição da Ciência Geográfica ……....................................……. 15 3.1 O Determinismo Geográfico: Geografia Tradicional........................... 16 3.1.1 Alexandre Von Humboldt e Karl Ritter............................................... 18 3.2 A Antropogeografia de Ratzel............................................................... 20 3.3 O Possibilismo Geográfico................................................................... 21 3.3.1 Paul Vidal de La Blache ..................................................................... 23 4 APRESENTAÇÃO DOS DADOS DE ESTUDO.......................................... 24 4.1 Análise dos Dados................................................................................. 24 4.2 Implicações do Estudo .......................................................................... 25 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................ 27 REFERENCIAS.............................................................................................. 28 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR.............................................................. 29 7 1 INTRODUÇÃO O título desse trabalho, Do conhecimento à Ciência geográfica: uma revisão de literatura que compreende o Estudo da gênese da geografia Moderna, surge da paixão pela disciplina de Geografia, por meio da curiosidade e da constituição desta como ciência, a fim de perceber suas transformações, que contribuíram a cada tempo para o estudo do espaço geográfico. O entendimento da evolução do pensamento geográfico e das correntes filosóficas que lhe dão suporte é crucial para os geógrafos do século XXI, pois a adoção de uma postura consciente frente à prática pedagógica, depende do conhecimento aprofundado da evolução e do pensamento ligado à ciência que se pretende ensinar. Ao se pressupor que a educação é um processo social, produto das relações de seu tempo, é fundamental compreender que o que se quer ensinar também é fruto desta mesma condição e, por tal, o domínio, a compreensão da evolução deste conhecimento é condição primordial para uma prática pedagógica consolidada. Por meio da história da geografia pretende-se aprofundar o estudo relacionado ao seu surgimento como conhecimento geográfico e os motivos que levaram esta a se tornar uma ciência, apresentando e discutindo a partir de uma revisão bibliográfica, as interpretações que vários autores fazem sobre a origem do conhecimento geográfico e da ciência geográfica. 8 2 DO CONHECIMENTO À CIÊNCIA: UMA REVISÃO DE LITERATURA Este capítulo relata sobre a gênese do conhecimento geográfico; aspectos de sua constituição, o país onde a geografia é reconhecida como ciência; bem como algumas especificidades como dados econômicos e históricos. 2.1 Gênese do Conhecimento Geográfico A geografia é definida por alguns como o estudo da superfície terrestre ou como a descrição da terra. Surgindo com as primeiras comunidades gentílicas que estudiosos desta temática definiram como a pré-geografia, considerando sua existência desde em 12 a.C. Quaisquer que fossem os motivos dos deslocamentos e das migrações mais antigas, variando da necessidade á aventura-las levaram ao conhecimento mais amplo da superfície da Terra e á tendência ao registro ou á transmissão desse conhecimento. Trata-se, incontestavelmente, de material geográfico (SODRÉ, 1976, p.13). Os conhecimentos da área de influência dos gregos eram amplos. Salienta o papel de Heródoto que não apenas historicamente ficou conhecido, mas inclusive foi o primeiro a registrar aspectos geográficos em sua obra, decorrente das observações em suas longas viagens. Preocupando-se com a descrição de lugares, porém sem aparecer naquele momento como a relação entre homem e meio, com base nos estudos acordo com Sodré (1976, p.14), afirma que: Assume particular destaque, conseqüentemente, o registro desse conhecimento. Assim, se aceitarmos uma divisão da historia dos conhecimentos geográficos para não falar ainda em geografia – que inclua a etapa preliminar da pré-história, comportaria uma subdivisão: antes do registro e depois do registro. Desse ângulo, é geralmente admitido que, os gregos foram os primeiros a registrar de forma sistemática os conhecimentos geográficos. Foram os gregos, aliás, que batizaram os conhecimentos sobre a superfície da terra como geografia. 9 Em relação a este conjunto de idéias, cabe salientar que, o conhecimento empírico era primordial na sociedade grega, desencadeando contudo, o conhecimento geográfico baseado na racionalidade humana. No entanto, intensa gama desse conhecimento incontestavelmente obtido pelos gregos, se encontrava disperso, caracterizados por relatos de viagem, escritos em tom literário, curiosidades, descrição de lugares exóticos, continentes, fenômenos naturais. Tais temas trabalhados por diferentes pensadores passam a serem tratados como cruciais à geografia. A geografia aparecia antes de definir seu campo, os seus métodos, as suas técnicas, como tributários e menos importantes, de outras áreas do conhecimento, cientificas ou não. Estava ainda, carregada de mitos, lendas e deformações, que escondiam o que, em seus rudimentos, havia de verdadeiro e de duradouro. Seu desenvolvimento, visando sua futura autonomia, estaria ainda, e por muito tempo, na dependência das áreas, cientificas ou não, de que o homem servia para sobreviver e progredir (SODRÉ, 1976, p.19). Na idade média as modificações nas relações humanas e ao contrário da ordem feudal que afirmava uma concepção teocêntrica, (universo e homem são criaturas) com o pensamento burguês surgem o antropocentrismo (O homem é o centro da terra vista como submissa e como que deve ser subjugado mais pelo homem). 2.2 Grécia: Aspectos Importantes na Constituição da Geografia A geografia nasce com os gregos que são os primeiros a registrar de forma sistemática os conhecimentos ligados a esse ramo do saber como ciência e filosofia. Ao mesmo tempo em que alguns autores descrevem as regiões conhecidas, outros pesquisadores gregos como por exemplo Tales e Anaximandro 10 que estudavam a medição do espaço e a discussão da forma da Terra (Geodesia) ou mesmo o próprio Heródoto que obtinha uma geografia regional, se classificada atualmente, por intermédio da descrição dos lugares. Cláudio Ptolomeu, que descreveu a “Síntese Geográfica“, constituiu-se em um dos principais veículos que caracteriza no entanto, as descobertas do pensamento grego clássico. Pode-se dizer que o conhecimento geográfico se encontrava disperso. As matérias apresentadas com essa designação eram bastante diversificadas, sem um conteúdo unitário. Isso não quer dizer que inexistam autores expressivos, no decorrer deste enorme período da história da humanidade (MORAES, 1988, p.33). Do ponto de vista particular, importa destacar como os elementos geográficos estavam misturados, quando não subordinados, a outros, que apareciam como principais. Não havia geografia e geógrafos, conseqüentemente. Havia filósofos, historiadores, cientistas, que se referiam, secundariamente e a aspectos geográficos. Em face desta situação, Sodré (1976, p.14) pondera que: A Grécia tem importância, também, por ser o centro de uma sociedade escravista que recebera e ultrapassara a herança mercantil dos fenícios. Ora, o comércio é a fonte principal dos contatos; não apenas estimula a curiosidade como abriga o conhecimento. Cabe aos gregos, conseqüentemente, coletar, sistematizar, como compendiar os conhecimentos de natureza geográfica. Dominado o Mediterrâneo eles conhecem o litoral sul da Europa e o litoral norte da África como o estreito litoral oeste da Ásia; conhecem o mar vermelho, o mar negro, a mesopotâmia e o golfo pérsico e as terras que se estendem até a Índia. Percorreram esses mares e terras e em muitos lugares estabeleceram feitorias. As razões que determinaram que tenha sido a Europa a dar à luz a ciência são complexas, mas têm a ver com a filosofia grega e a sua noção de que os seres humanos podiam alcançar uma compreensão do modo como o mundo funciona por intermédio do pensamento racional. 11 2.2.1 Especificidades econômicas e históricas da Europa, como berço da ciência geográfica Na idade média as modificações nas relações humanas e ao contrário da ordem feudal que afirmava uma concepção teocêntrica, (universo e homem são criaturas) com o pensamento burguês surgem o antropocentrismo (O homem é o centro da terra vista como submissa e como que deve ser subjugado mais pelo homem). A terra, de lugar habitado pelos deuses para os gregos e somente Deus pelo cristão medieval, passa a ser vista pouco a pouco somente ao homem. De acordo com Pereira (1999, p. 84): As razões que levam à institucionalização da Geografia podem ser encontradas tanto na ação de fatores externos, como na evolução da lógica interna do conhecimento científico, ligadas ao processo de avanço e domínio das relações capitalistas de produção. O desenvolvimento das forças produtivas referentes à ascensão desse modo de produção também provoca transformações no pensamento filosófico e cientifico relativas às profundas modificações que se operam na instância econômica e política. É nesse contexto que ocorre a transformação do feudalismo para o capitalismo. No entanto as condições para a sistematização do conhecimento geográfico, o pressuposto mais fundamental da geografia moderna era o conhecimento efetivo de todo o planeta, posto que, o “mundo conhecido” atingisse a total extensão da Terra. As viagens de Marco Pólo espalharam pela Europa o interesse pela Geografia. Durante a Renascença e ao longo dos séculos XVI e XVII as viagens de exploração reavivaram o desejo de bases teóricas mais sólidas e de informação mais detalhada. “A descoberta e incorporação de novas terras, as principais viagens de circunavegação e as expedições exploradas vão propiciar naquele momento, o 12 estabelecimento de uma representação realística do planeta em meados do século XVII” (MORAES, 1983, p.17). A expansão marítima, os descobrimentos, a posterior apropriação de novas áreas do globo, inscreve-se como parte ativa do processo de transição do feudalismo para o capitalismo. A priori as expedições eram financiadas diretamente pelas coroas européias uma vez que estas tinham interesse nas expedições exploradoras do século XV chegando às expedições científicas do século XVIII (MORAES, 1983, p.18). Nesse momento histórico cabe entender que o contato direto dos europeus com terras distantes por meio dos “descobrimentos” trazia assim informações geográficas importantes para o avanço do mercantilismo e com a formação de impérios coloniais. Somente a posterior geopolítica de dominação de territórios, assim como traria avanços significativos na aplicação de técnicas cartográficas, que tentavam aprimorar a representação do espaço e de localização. Outro pressuposto para o aparecimento de uma Geografia unitária, residia no aprimoramento de técnicas cartográficas , o instrumento por excelência do geógrafo. Era necessário haver possibilidade de representação dos fenômenos observados , e da localização dos territórios. Assim, a representação gráfica, de modo padronizado e preciso era também uma necessidade posta pela expansão do comércio (MORAES, 1988, p.36). A Idade Moderna caracterizou-se por ser o período dos grandes descobrimentos, realizados especialmente pelos navegadores portugueses e espanhóis. “Em trinta anos o horizonte geográfico, que não ultrapassava 60º de latitude por 100º de longitude, alargou-se até abranger quase toda a Terra” (MARTONNE, 1953, p.7). Nessa época, os estudos de Geografia Regional (mais ligados à Etnografia) e Geografia Geral (voltados para a Astronomia e Cartografia) tornam-se mais intensos, em razão do rápido conhecimento do planeta por parte dos desbravadores europeus, que demandavam estudos detalhados sobre os lugares descobertos, além de instrumentos de navegação e localização precisos. 13 As condições materiais para que a geografia fosse sistematizada, são de certa maneira forjadas no processo de avanço e domínio das relações capitalistas. De um lado o desenvolvimento das forças produtivas, subjacente à emergência do novo modo de produção, por outro a existência de uma classe preocupada com a evolução do pensamento, organizam-se em movimentos ideológicos, filosóficocientíficos marcando não somente a transição do feudalismo para o capitalismo. Seguindo esse conjunto de idéias, existem outras proposições que auxiliaram, ou serviram de fonte para a sistematização da ciência como por exemplo à detectada pelos pensadores políticos do iluminismo que discutiam as formas de poder e a organização do Estado, visto que se trata de um tema próprio da geografia e de acordo com (Moraes, 1988, p.39): Rousseau, por exemplo, discutiu a relação entre a gestão do Estado, as formas de representação e a extensão do território de uma sociedade.Dizia ele que a democracia só era possível nas nações pouco extensas , e que os Estados de grandes dimensões territoriais tendiam necessariamente a formas de governo autocráticas. Ressalta-se que os economistas políticos desse período, discutiam questões geográficas quando estudavam os problemas do aumento populacional, a produtividade natural do solo, os recursos minerais de determinados lugares, expondo esses temas em suas teorias, sendo Adam Smith e Thomas Malthus sempre citados pelos sistematizadores do conhecimento geográfico. Posteriormente, as teorias do evolucionismo, (visto como um conjunto de teorias de Darwin e Lamarck) encontram-se presentes nas obras dos primeiros geógrafos por apresentar o papel desempenhado pelas condições ambientes, noções de ecologia como sendo o estudo da inter-relação coabitam determinado espaço. dos elementos de 14 Reunindo-se então todos esses pressupostos, os estudos relacionados à geografia vai obter pleno reconhecimento da sua autoridade, pois além de fornecer a sustentação necessária que dará legitimidade à disciplina, traz consigo uma base científica sólida para as indagações da Geografia que na segunda metade do século XIX se transformará em ciência geográfica. 15 3 A CONSTITUIÇÃO DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA A Alemanha aparece como berço da sistematização geográfica, onde a questão espacial era fundamental. A necessidade do domínio e organização do espaço, a própria constituição do território advindas das relações do campo aliadas ao “capitalismo Agrário”, como também na organização política que se forma no decorrer do século XIX, com a constituição do Estado-nacional alemão, resulta nas condições que permitiram avanços no pensamento geográfico para as classes dominantes no inicio do século XIX. Moraes (1988 p.46) afirma que: Este ideal de unidade vai ter sua primeira manifestação concreta com a formação, em 1815, da “Confederação Germânica”, que congregou todos os principados alemães e os reinos da Áustria e da Prússia. Apesar de não constituir ainda uma unificação nacional, estabeleceu maiores laços econômicos entre seus membros, com o fim dos impostos aduaneiros entre eles. È dentro desta situação que se pode compreender a eclosão da Geografia. Temas como domínio e organização do espaço, apropriação do território, variação regional, entre outros estarão na ordem do dia na pratica da sociedade alemã de então. É sem duvida, deles que se alimentará a sistematização geográfica. Embora lançando raízes históricas ao longo dos séculos, somente no Século XIX que a Geografia começou a usufruir o status de conhecimento organizado, penetrando nas universidades. Os estudiosos, no século XVIII, procuraram dividir a ciência em vários ramos; porém segundo Andrade (1989, p.11): […] o conhecimento científico não pode ser compartimentado, ele é um só, e a divisão das ciências é apenas uma tentativa de compatibilizar a vastidão deste conhecimento com a capacidade de acumulação de conhecimentos pelo homem. Intelectuais como Kant e Comte são notados pelas suas classificações científicas; contudo, as ciências humanas (com exceção da Sociologia) foram excluídas das suas classificações, inclusive a Geografia, que ‘só conquistaria a posição de ciência autônoma nas últimas décadas do século XIX’. 16 Há muitas definições ate então para a geografia, porém alguns autores vão definir a Geografia como o estudo da paisagem, ou seja, o estudo dos aspectos visíveis do real, da individualidade dos lugares, estudo da diferenciação de áreas ou ainda, como estudo do espaço . Porém o positivismo entendido aqui como o conjunto das correntes nãodialéticas, onde os estudiosos que seguem vão buscar suas orientações gerais centrados no patamar que alavanca o pensamento geográfico tradicional. 3.1 Determinismo Geográfico: Geografia Tradicional O Determinismo nasceu com os primeiros rudimentos sobre aspectos e fenômenos que viriam a ser objeto da Geografia tradicional. A forma inicial do determinismo esteve ligada à relação entre clima e homem. Na história do pensamento geográfico é quase unânime o estabelecimento do marco inicial da Geografia Moderna na publicação das obras de Alexandre Von Humboldt e Karl Ritter como pioneiros do processo da sistematização geográfica (MORAES, 1989, p.15). Tratava-se de uma constatação da relação natureza – homem, onde esta primeira determinava o modo de vida e o desenvolvimento intelectual das pessoas, que era estabelecida conforme essa corrente do pensamento, de acordo com clima, ou seja região do planeta em que habitava. Os povos das regiões quentes são tímidos como os anciãos; os das regiões frias são corajosos, como os jovens [...] Ter-se-á nas regiões frias pouca sensibilidade para os prazeres; ela será maior nas regiões temperadas ; nas regiões quentes será exagerada. Os indianos são naturalmente sem ânimo; os próprios filhos dos europeus nascidos nas índias perdem o que é próprio de seu clima (MORAES, 1989, p.16). 17 A Geografia aparece como uma disciplina de observação conhecida nesse período como “empirismo raciocinado” obedecendo a uma observação sistemática onde o geógrafo contemplaria a paisagem sem ir além das aparências. Do clima dependeriam não somente os costumes bem como o que regularia a política, servindo de suporte inclusive para o fenômeno da colonização de determinadas regiões do planeta, que historicamente serviram aos países europeus. Para Montesquieu (1962, p.253-266): Não devemos, pois, espantar que a covardia dos povos de clima quente, os tenha quase sempre, tornados escravos, e que a coragem dos povos de climas frios tenha mantido livres. È uma conseqüência que deriva de sua causa natural. Levando em consideração que a ciência é à busca da comprovação do fato, a maturação das condições históricas, materiais e sociais para a existência da sistematização da ciência, a geografia aparecia como uma disciplina que se preocupava com a conexão entre os elementos, buscando a causalidade existente na natureza. A paisagem causaria no observador uma “impressão”, a qual, combinada com a observação sistemática dos seus elementos componentes, e filtrada pelo raciocínio lógico, levaria a explicação: à causalidade das conexões contidas na paisagem observada (MORAES, 1988, p.48). A busca da articulação entre natureza e sociedade não foi tarefa fácil para os geógrafos. Na verdade, construir uma ciência de articulação na época em que surgiu oficialmente a geografia pareceria ser como remar contra a maré, pois nesse período a visão de ciência dominante privilegiava a divisão entre ciências da natureza e da sociedade. 18 3.1.1 Alexandre Von Humboldt e Karl Ritter Alexandre Von Humboldt entendia a geografia como a parte terrestre da ciência do cosmos, parecendo uma síntese de todos os conhecimentos relativos a Terra. Em termos de método, propõe o que chamou de “empirismo raciocinado”, ou seja, a intuição a partir da observação. Humboldt possuía uma formação de naturalista (botânico e geólogo) e realizou inúmeras viagens percorrendo a Europa, a Rússia asiática, o México, a América Central, a Colômbia e a Venezuela, observando os fenômenos físicos e biológicos; seus trabalhos são todos de natureza científica, sem qualquer finalidade pedagógica. Sua proposta de geografia aparece na justificativa e explicitação de seus próprios procedimentos de análise. De acordo com Moraes (1988, p.47): Humboldt entendia a Geografia como a parte terrestre da ciência do cosmos, isto é, como uma analise de síntese de todos os conhecimentos relativos á Terra. Caberia ao estudo geográfico: ’reconhecer a unidade na imensa variedade de fenômenos, descobrir pelo livre exercício do pensamento e combinando as observações, a Constancia dos fenômenos em meio as suas variações aparentes’. Apesar de naturalista, Humboldt mostra também grande curiosidade pelo homem e pela organização social e política dos territórios, “achando que há uma grande relação entre estas e as condições naturais” (PEREIRA, 1993, p.117). Em sua obra Ensaio Político sobre o Reino da Nova Espanha, considerada a primeira verdadeiramente geográfica no sentido moderno, comprova seu interesse em relacionar a sociedade e o meio onde ela se estabelece. Além do princípio de causalidade, Humboldt aplicou o chamado princípio de geografia geral, ou seja, nenhum lugar da Terra pode ser estudado sem o 19 conhecimento do seu conjunto, sendo que um fenômeno verificado em determinada região pode ser generalizado para todas as outras áreas do globo com características semelhantes. Na visão de Martonne (1953, p.13): A aplicação deste princípio é o desmoronamento definitivo da barreira que separa a Geografia Regional da Geografia Geral, a aproximação destes dois ramos duma mesma ciência e a sua recíproca fecundação. No dia em que foi compreendida a significação de tudo isso nasceu a Geografia moderna. A obra de Karl Ritter (filósofo e historiador) é basicamente metodológica definindo o conceito de “sistema Natural”, ou seja, uma área delimitada dotada de uma individualidade, uma vez que caberá a geografia explicar a individualidade desses sistemas, pois nesta denota o desígnio da divindade ao criar aquele lugar específico. Por estas razões antropocêntricas (homem é o sujeito da natureza) e regional (estudo individualizado) valoriza as relações homem-natureza. Desta forma, conforme Moraes (1988, p.48): A meta seria chegar a uma harmonia entre a ação humana e os desígnios divinos, manifestos na variável natureza dos meios. Para Ritter a ordem natural obedeceria a um fim previsto por Deus, a causalidade da natureza obedeceria à designação divina do movimento dos fenômenos. Mesmo tratando-se de constatações e objetos de estudo diferentes a s teorias aparecem como fundamentos inquestionáveis de uma geografia unitária, que ganha em determinado momento um caráter institucional, principalmente na formação de cátedras, nascendo contudo a geografia nas universidades, criando assim, uma linha de continuidade do pensamento geográfico antes não existente. A influência de Humboldt e Ritter foi, portanto, decisiva para conferir à Geografia o seu verdadeiro caráter científico. “Os dois sábios alemães, de diferentes 20 formações, davam origem a uma nova ciência de cuja existência certamente não suspeitavam ao iniciarem as suas reflexões” (ANDRADE, 1989, p.13). Esses autores ajudam a manter aberta uma via de discussão teórica do pensamento geográfico, na Alemanha; nos outros países da Europa, a Geografia seguia constituída de levantamentos empíricos e enumerações exaustivas sobre os diferentes lugares da Terra. 3.2 A Antropogeografia de Ratzel Caracterizado pelo empirismo por meio da análise pela observação e descrição, a obra de Friedrich Ratzel representou um papel fundamental no processo de sistematização da Geografia moderna. Este apresenta a primeira proposta explicita de um estudo dedicado à discussão dos problemas humanos. A análise das relações, entre o Estado e o espaço, foi um dos pontos privilegiados da Antropogeografia. Para Ratzel, o território representa as condições de trabalho e existência de uma sociedade. A perda de território seria a maior prova de decadência de uma sociedade (MORAES, 1988, p.56). A Geografia proposta por Ratzel privilegiou o elemento humano, e abriu várias frentes de estudo, valorizando questões referentes à História e ao espaço, como: a formação dos territórios, a difusão dos homens no globo (migrações, colonizações etc..) a distribuição dos povos e das raças na superfície terrestre, o isolamento suas conseqüências, além de estudos monográficos das áreas habitadas. Tendo em vista o objeto central que seria o estudo das influências, que as condições naturais exercem sobre a evolução das sociedades. 21 A tardia unificação da Alemanha caracteriza o momento histórico vivido por Ratzel, alimentava um expansionismo do estado alemão, servindo como estimulo para sua obra onde repensava o espaço . É fácil observar a intima vinculação entre essas formulações de Ratzel, sua época e o projeto imperial alemão. Esta ligação se expressa na justificativa do expansionismo como algo natural e inevitável, numa sociedade que progride , gerando uma teoria que legitima o imperialismo bismarckiano (MORAES, 1988, p.56) Conceitos importantes como Território e Espaço Vital surgem, onde neste manifestaria a necessidade territorial de uma sociedade, tendo em vista uma relação entre a população e seus recursos, assim como a guerra, a violência e a conquista como justificativa para a reprodução de determinadas sociedades. 3.3 O Possibilismo Geográfico O possibilismo geográfico aparece na França, no século XIX em oposição ao determinismo e a antropogeografia, Paul Vidal de La Blache a partir de críticas surge uma geografia com uma nova visão, contrapondo-se as enumerações exaustivas e os relatos de viagem. A proposta de Geografia apresentada por ele consiste na relação homemnatureza na perspectiva da paisagem onde o homem como ser racional é que modifica o meio onde ele vive de acordo com suas necessidades e a natureza serve para possibilitar tais necessidades. Observou que as necessidades humanas são condicionadas pela natureza, e que o homem busca as soluções para satisfaze-las nos materiais e nas condições oferecidas pelo meio. Nesse processo de trocas mutuas com a natureza, o homem transforma em a matéria natural, cria formas sobre a superfície terrestre: para Vidal é aí que começa a obra geográfica do homem (MORAES, 1988, p.48). 22 O pensamento geográfico francês nasceu com a tarefa de deslegitimar a reflexão geográfica alemã, uma vez que ao rejeitar o determinismo ambientalista, seu ponto de vista denominado de possibilismo, mas não queria dizer que o homem é um agente livre para quem tudo é possível. Reconheceu plenamente que a escolha do homem é severamente limitada pelo sistema de valores de sua sociedade, sua organização, tecnologia, em suma pelo que chamava modo ou gênero de vida do homem. A Geografia Regional representou a reafirmação de que os aspectos próprios da Geografia eram o espaço e os lugares. Os geógrafos regionais dedicaram-se à recolha de informação descritiva sobre lugares, bem como aos métodos mais adequados para dividir a Terra em regiões. As bases filosóficas foram desenvolvidas por Vidal de La Blache e Richard Hartshorne. Para Vidal, a região como uma determinada paisagem, onde os gêneros de vida determinam a condição e a homogeneidade de uma região, Hartshorne não utilizava o termo região: para ele os espaços eram divididos em classes de área, nas quais os elementos mais homogêneos determinariam cada classe, e assim as descontinuidades destes trariam as divisões das áreas. E este ficou conhecido como método regional. Outro ponto defendido por ele foi de região, como sendo uma unidade de análise geográfica, que exprimiria a própria forma dos homens organizarem o espaço terrestre. Não seria apenas um dado teórico de pesquisa, mas também um dado da própria realidade. A função do geógrafo seria delimitá-la, descrevê-la, e explicá-la. 23 3.3.1 Paul Vidal de La Blache Considerado o fundador da geografia francesa moderna e da corrente francesa de geografia humana, marcou uma nova visão da geografia, combatendo o pensamento geográfico determinista de alguns autores, para enfocar uma forma mais humanizada, relativizada e detalhada dos estudos geográficos, tendo na Geografia Regional sua principal objetivação. La Blache criou uma doutrina , o possibilismo, e fundou a escola francesa de Geografia. E, mais, trouxe para a França o eixo da discussão geográfica , situação que manteve-se durante todo o primeiro quartel do século atual (Moraes, 1988, p.73). A natureza então encarada como uma fornecedora de possibilidades para a modificação humana, e não determinando sua evolução, sendo o homem o principal agente geográfico. La Blache também redefine o conceito de gênero de vida, herdado do determinismo: trata-se não mais de uma conseqüência inevitável da natureza, mas de “um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis” (CLAVAL, 1974 apud CORRÊA, 1991, p.13). 24 4 APRESENTAÇÃO DA METODOLOGIA DO ESTUDO A pesquisa a ser realizada foi do tipo básica de natureza bibliográfica, qualitativa, exploratória, descritiva e analítica. O local para o levantamento de dados foi utilizado o acervo disponibilizado nas Bibliotecas da UNESC . O instrumento de coleta a das informações foi à leitura e o resumo sob a forma de fichários e arquivamento das fontes referenciadas. Após o levantamento das informações, as mesmas foram posteriormente categorizadas e interpretadas à luz da análise de conteúdo. 4.1 Análise dos Dados Mesmo que a geografia possua uma gênese grega, e que dela tenham resultado os primeiros estudos geográficos, sua verdadeira gênese como ciência ocorreu na Alemanha do século XIX, à luz dos trabalhos de Alexander von Humboldt e Karl Ritter. Somente após a expressiva contribuição desses mestres, a Geografia pôde estabelecer-se sobre bases científicas verdadeiras, deixando de ser uma simples descrição do planeta para transformar-se em uma ciência, fundamentada na busca pelas relações entre natureza e sociedade, suas causas e conseqüências. A corrente determinista, nascida na Alemanha, possuía uma visão extremamente ligada aos interesses nacionalistas e expansionistas alemães do século XIX que, não realizando seu desejo de formar um império colonial na África e na Ásia (assim como outros países europeus), foi retomado pelos nazistas a partir das primeiras décadas do século XX, quando os alemães procuraram dominar a Europa, além de exterminar os grupos étnicos que não eram considerados “puros”. 25 Porém o possibilismo estava diretamente relacionado com o poder, visto que foi fundado pelo intelectual escolhido pelo governo francês para instituir a Geografia na França, Paul Vidal de la Blache. Elisée Reclus, até então o renomado nome da Geografia francesa, teve sua figura esquecida por muito tempo, justamente por ser anarquista e, portanto, não se adequar aos interesses oficiais. “A Geografia de La Blache […] foi a que expandiu com maior força, porque […] atendia melhor às necessidades da burguesia francesa” (MAMIGONIAN, 2003, p.16). O método regional estava voltado para a catalogação de lugares. Essa característica fez com que ele fosse difundido nos países que possuíam grandes impérios coloniais – sobretudo França e Inglaterra –, pois catalogava todas as informações necessárias sobre as regiões dominadas pelas potências imperialistas: riquezas minerais, vegetação, clima e relevo. As primeiras cadeiras de Geografia foram criadas na Alemanha, em 1870, e posteriormente na França. Organizada e estruturada em função das obras de Alexandre Von Humboldt e de Carl Ritter, desabrochando na Alemanha e na França, pouco a pouco a Geografia foi-se difundindo para os demais países. 4.2 Implicações do Estudo A gênese da geografia constituiu-se em um conjunto de conhecimentos de ordem empírica e positivista que resultou na constituição dos temas relacionados a essa nova disciplina implantada posteriormente nas universidades alemã e francesa por alguns estudiosos ligados às ciências naturais, não necessariamente geógrafos de formação, porém que legitimaram a geografia agregando caráter científico e sistematizado à disciplina em formação. A ciência geográfica constitui-se a partir da Geografia Tradicional, corrente 26 do pensamento geográfico que abriu novos caminhos e discussões acerca do objeto da geografia, quanto às demais correntes do pensamento como por exemplo o movimento de renovação da geografia ou mesmo a geografia pragmática até chegarmos em uma concepção filosófica mais completa até então que é a geografia crítica de Milton Santos. É importante salientar a importância do pensamento geográfico no século XIX, o entendimento do que era geografia, do objeto de estudo do geógrafo nesse período, a fim de pensarmos a geografia de sala de aula pois que esta é norteada por esse conhecimento ideológico do fazer geográfico. 27 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A geografia que epistemologicamente se originou na Grécia antiga juntamente com as demais ciências advindas da filosofia, obteve caráter sistemático e científico com auxílio da escola alemã que fundamentou o pensamento geográfico, estudando temas e interpretações integrados, deixando de ser apenas conhecimento para tornar-se à ciência Geográfica. O Determinismo caracteriza um entendimento de Geografia todavia equivocado, mas de imenso valor para os estudos que surgiram por outros países a exemplo da França abrindo novas discussões e críticas acerca do pensamento, como os apresentados no possibilismo geográfico, ambos caracterizando a geografia tradicional resultando na articulação de uma disciplina autônoma. No entanto, a Geografia “nasceu” e conseguiu crescer para chegar ao estágio atual para assim chegar a conclusão de que a Geografia é a ciência do espaço, não um espaço parado, mas sim, um espaço dinâmico onde as relações entre homem e natureza e relações entre homem e homem são constantes. Não esquecendo que a geografia é o estudo científico da superfície da terra com o objetivo de descrever e analisar a variação espacial de fenômenos físicos, biológicos e humanos que acontecem na superfície do globo terrestre, mas também que a Geografia se propõe a algo mais que descrever paisagens, que ela tem sua importância para a sociedade onde a articulação dessa ciência até hoje importante objeto de discussão. 28 REFERÊNCIAS ANDRADE, Manuel Correia de. Caminhos e descaminhos da Geografia. Campinas, SP: Papirus, 1989. 85 p. CORRÊA, Roberto Lobato. As correntes do pensamento geográfico. In: ________. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1991. 93 p., p. 7-21. MAMIGONIAN, Armen. A escola francesa de Geografia e o papel de A. Cholley. Cadernos geográficos, Florianópolis, n. 6, p. 7-45, maio 2003. MARTONNE, Emmanuel de. Panorama da Geografia. Volume I. Lisboa: Cosmos, 1953. MONTESQUIEU. Do espírito das leis. 2 vols., São Paulo, 1962, pp.253-266. 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