2005
Histórias de Sucesso
Mulheres
Empreendedoras
COPYRIGHT © 2006, SEBRAE – SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É permitida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma
ou por qualquer meio, desde que divulgadas as fontes.
Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
Presidente do Conselho Deliberativo Nacional: Armando de Queiroz Monteiro Neto
Diretor-Presidente: Paulo Tarciso Okamotto
Diretor-Técnico: Luiz Carlos Barboza
Diretor de Administração e Finanças: César Acosta Rech
Gerente da Unidade de Gestão Estratégica: Gustavo Henrique de Faria Morelli
Gerente da Unidade de Atendimento Individual: Ênio Duarte Pinto
Coordenação do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso: Renata Barbosa de Araújo Duarte
Coordenação do Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora: Clarice Veras
Comitê Gestor do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso: Rosana Carla de Figueiredo Lima – Sebrae
Nacional, Eligeneth Resplande Pimentel – Sebrae/TO, Fabrícia Carneiro Fernandes – Sebrae/AL,
Renata Maurício Macedo Cabral – Sebrae/RJ, Tânia Aparecida Silva – Sebrae/GO
Colaboração: Romilda Torres de Sousa, Adriano Dias Batista, Dulcileide O. Gonçalves,
Lucy Vaz da Silva, Beatriz Bello Rossetto.
Tutoria Nacional: Daniela Abrantes Serpa – M.Sc., Sandra Regina H. Mariano – D.Sc.,
Verônica Feder Mayer – M.Sc.
Diagramação: Adesign
Produção Editorial: Buscato Informação Corporativa
D812hf
Histórias de Sucesso: mulheres empreendedoras/Organizado por
Renata Barbosa de Araújo Duarte, Clarice Veras – Brasília:
Sebrae 2006.
224 p. : il.
Publicação originada do Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora
2005.
ISBN 85-7333-405-3
1. Empreendedorismo 2. Estudo de caso 3. Mulher I. Duarte,
Renata Barbosa de Araújo II. Veras, Clarice
CDU 65.016:001.87
BRASÍLIA
SEPN – Quadra 515, Bloco C, Loja 32 – Asa Norte
70.770-900 – Brasília
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www.sebrae.com.br
PROJETO DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO
OBJETIVO
O Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso foi iniciado em 2002
como um direcionamento estratégico do Sistema Sebrae para atender
aos seguintes objetivos:
1) gerar um processo de produção de conhecimento dentro do
Sistema Sebrae, visando utilizá-lo como uma das ferramentas para
obtenção de resultados no âmbito de atuação do Sebrae;
2) sensibilizar os colaboradores sobre a importância da produção de casos, contribuindo para o processo de Gestão do Conhecimento Institucional;
3) replicar os casos no âmbito do Sebrae e junto aos parceiros e
instituições de ensino superior, visando à capacitação de empresários,
empreendedores e alunos, por meio da análise de situações reais
vividas por pequenos empreendimentos brasileiros.
4) divulgar para a sociedade as experiências bem-sucedidas na
geração de emprego e renda, por meio da publicação do material em
livro e no site do Sebrae – www.sebrae.com.br.
METODOLOGIA DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO
A metodologia Desenvolvendo Casos de Sucesso foi criada com o
objetivo de garantir a qualidade do conteúdo e nivelar a formação
didática dos escritores, responsáveis pela descrição dos estudos de
casos em todo País, e de seus orientadores acadêmicos. A metodologia
do Sebrae é uma adaptação do consagrado método de ensino adotado
na Harvard Business School.
O LIVRO HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
Este livro conta as 15 histórias de sucesso das finalistas do Prêmio
Mulher Empreendedora 2005, promovido em todo o Brasil pelo Sebrae,
BPW (Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais do Brasil) e Secretaria Especial de Políticas para Mulheres.
As histórias aqui apresentadas mostram a trajetória de mulheres que
acreditaram em seus sonhos e criaram as condições para a realização
dos seus objetivos, alcançando resultados significativos. São exemplos
de um Brasil vibrante, criativo e inovador.
O livro é resultado dos projetos Desenvolvendo Casos de Sucesso e
Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora, uma realização das unidades de
Gestão Estratégica e de Atendimento Individual.
HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
EDIÇÃO 2005
DISSEMINAÇÃO DOS CASOS DE SUCESSO DO SEBRAE
O site Casos de Sucesso do Sebrae (www.sebrae.com.br, link Casos de
Sucessos) apresenta todos os estudos de casos das edições Histórias de
Sucesso, organizados por área de conhecimento, região, municípios e
palavras-chave. Contêm, ainda, vídeos, fotos, artigos de jornal, que
ajudam a compreender o cenário onde os casos se passam, colocando-os
ao alcance dos meios empresariais e acadêmicos. Oferece também um
manual de orientação para instrutores, professores e alunos sobre como
utilizar o estudo de caso para fins didáticos.
As experiências relatadas ilustram iniciativas criativas e empreendedoras voltadas ao enfrentamento de problemas tipicamente
brasileiros, podendo inspirar a disseminação e aplicação dessas soluções
em contextos similares. Esses estudos estão em sintonia com a crescente
importância que os pequenos negócios vêm adquirindo como promotores
do desenvolvimento e da geração de emprego e renda no Brasil.
Boa leitura e bom aprendizado!
Gustavo Morelli
Gerente da Unidade de Gestão Estratégica
Renata Barbosa de Araújo Duarte
Coordenadora Nacional - Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso
EDIÇÃO 2005
HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
FLORES DE PILÕES
PARAÍBA
MUNICÍPIO: PILÕES
INTRODUÇÃO
O
sertão não virou mar, mas o brejo virou um mar de flores. Flores que
perfumam e embelezam ambientes, servem para presentear e que
serviram para despertar 21 mulheres da comunidade Avarzeado, no município de Pilões, no Estado da Paraíba.
A economia da região era voltada para o cultivo da cana-de-açúcar que,
em seu apogeu, nos anos de 1980, alcançou 160 mil toneladas/ano, mas,
devido à falência da usina Santa Maria, o plantio da cana entrou em declínio
e as 46 famílias que lá trabalhavam direta ou indiretamente tiveram que
mudar da atividade canavieira para a cultura da banana e do urucum.
Apesar de conseguirem ainda formar uma associação de moradores para
produzir aguardente, a renda da comunidade declinou. As dificuldades para
manter a ocupação permanente aumentaram.
A vida dos moradores da comunidade não era um mar de rosas; as
flores estavam longe de perfumar aquele ambiente que outrora vivera
momentos áureos da cultura canavieira. Percebendo que o sonho de uma
melhor qualidade de vida para os filhos e para a comunidade estava
ficando cada dia mais distante, um grupo de mulheres resolveu tomar
uma iniciativa para mudar o quadro.
Pensando assim, em maio de 1999, Karla Cristina Paiva Rocha, residente
na comunidade, reuniu o grupo para decidir o que elas poderiam fazer
juntas, já que isoladamente seria mais difícil provocar alguma mudança.
Surgiu a idéia de plantar flores. Entretanto, elas não tinham conhecimento,
e, apesar de saberem trabalhar com a terra, não tinham idéia de como produzir e vender flores para gerar renda. O sonho de cada uma era um só:
trabalhar para ajudar no sustento da família. Mas qual seria o caminho a ser
seguido? O que estava reservado ao grupo de mulheres de Avarzeado?
Jacy Viana de Andrade Leobino, analista da Agência Sebrae Guarabira/PB, elaborou o estudo de caso
sob orientação do professor Paulo Francisco Monteiro Galvão, do Centro Universitário João Pessoa, integrando as atividades dos Projetos “Desenvolvendo Casos de Sucesso” e do “Prêmio Sebrae Mulher
Empreendedora 2005”, do Sebrae.
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Acervo Sebrae/PB
MULHERES COLHENDO FLORES NA ESTUFA
FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
A VACA NÃO FOI PARA O BREJO, MAS A CANA SAIU DE LÁ
O
município de Pilões foi criado em 20 de junho de 1953 e fica distante
da capital da Paraíba, João Pessoa, 142,5 quilômetros. Sua população
era de 7.800 habitantes (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE
– Censo 2000), e tinha como atividade principal a cana-de-açúcar. Essa
atividade dinamizava a economia da região, com seus derivados, a
cachaça, o açúcar e a rapadura, sendo essa um dos alimentos mais
tradicionais da região. A densidade demográfica era de 169,62 hab/km2
(IBGE - Censo 2000). O município era conhecido também pelas suas
belezas naturais, como quedas d’águas e serras, sem esquecer ainda dos
seus belíssimos engenhos coloniais.
É nesse município, rico em paisagens, que se localiza a comunidade
Avarzeado. Os primeiros moradores foram descendentes de escravos e
os 350 hectares de terra da comunidade foram herdados pelo bispo
D. Santino Maria da Silva Coutinho, que fez uma doação à arquidiocese
do Estado.
Próximo àquela comunidade havia uma usina chamada Santa Maria,
que produzia açúcar e nela trabalhavam direta e indiretamente todos os
moradores daquela comunidade. Segundo Maria Helena Lourenço dos
Santos, presidente da Cooperativa de Floricultores do Estado da Paraíba
(Cofep), foi por volta de 1990 que todos ficaram desempregados por
causa do declínio da cultura canavieira: alguns foram viver da cultura
de subsistência em terras cedidas pela diocese, outros resolveram
plantar banana e mandioca. Já um outro grupo resolveu montar um
engenho de aguardente, onde todos da comunidade podiam moer sua
cana, para fabricação de aguardente, pagando uma pequena taxa pelo
serviço. Apesar da diversificação da atividade, o declínio da usina
trouxe uma desaceleração da economia local, aumentando o desemprego e desencadeando várias dificuldades na região, que possuía um
dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da
Paraíba, 0,389 (IBGE – Censo 2001).
A diocese de Guarabira, desde 1978, assumiu as terras do Avarzeado,
que, por sua vez, tinham sido doadas pela Arquidiocese da Paraíba. O
vigário geral da época resolveu dividir aquelas terras em lotes para que
os agricultores pudessem trabalhar e tirar da terra o sustento da família. E
assim, de acordo com a necessidade de cada um, a terra foi dividida,
ficando ainda uma área total de 14 hectares para o cultivo coletivo.
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SEBRAE/PB – FLORES DE PILÕES
A partir desse período, eles também tiveram a liberdade de plantar
outra cultura, uma vez que na época da usina isso não era permitido
(apenas a cana deveria ser cultivada). Nesse período, também foi construído um seminário rural na comunidade, que tinha como objetivo a
formação religiosa, dando oportunidade para que os filhos dos agricultores também pudessem estudar para serem padres ou freiras.
A comunidade era formada por homens e mulheres simples, que
viviam num local de difícil acesso; poucas pessoas iam lá. No período das
chuvas, o acesso era possível apenas utilizando-se animais, porque outro
tipo de transporte não chegava ao local.
A renda média dos agricultores, segundo Karla Cristina, era o equivalente
a R$ 200,00, mas devido ao fechamento da usina, principal fonte de renda
comunidade, esse valor foi reduzido para cerca de R$ 140,00. Parecia mesmo que as flores não queriam embelezar aqueles caminhos e que os bons
ventos não estavam querendo soprar por aquelas bandas.
Foi nesse contexto sem perspectivas de crescimento que um grupo de
mulheres resolveu se unir com o objetivo de melhorar as condições de
vida da comunidade.
Em maio de 1999, o Sebrae/PB foi convidado por Karla Cristina
Paiva Rocha e Maria Helena Lourenço dos Santos, principais lideranças
do projeto, para uma reunião, tendo como incumbência levar sugestões de negócios que poderiam ser desenvolvidos pela comunidade.
Foi sugerido pelo coordenador da Agência Sebrae da região, José
Marcílio de Sousa Santos, a realização de uma reunião com todo o
grupo para que juntos pudessem trocar idéias e sugestões, e chegassem a um consenso de qual o tipo de empreendimento poderia ser
desenvolvido pela comunidade.
Depois de algumas reuniões, o grupo chegou à conclusão de que sabia
mesmo era trabalhar com a terra, portanto, teria que ser uma atividade
voltada para a agricultura. Decidiram cultivar flores, uma atividade inédita
na região e desconhecida por elas. Foi uma intuição, um desejo, pois as
mulheres acreditavam que, além da cana-de-açúcar, daquela terra poderiam brotar flores.
Sendo assim, decidiram montar uma cooperativa. A idéia foi bem aceita
por todas. Com a renda obtida, as mulheres poderiam ajudar no sustento
dos filhos trabalhando na localidade, tendo oportunidade de vê-los crescer.
“Em Pernambuco, municípios como Gravatá e Garanhuns produzem
flores. Nós podemos tentar aqui também”, declarou Maria Helena.
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HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
Entretanto, alguns dos esposos não concordaram com a idéia. Um
deles chegou a fazer o seguinte comentário: “Como é que numa região
como a nossa, cercada por cana-de-açúcar e banana, essas mulheres
saem com uma história dessa, de plantar flores!”. Apesar das críticas, as
mulheres do Avarzeado não desistiram dos seus ideais. Karla Cristina
convidou uma pessoa de Gravatá/PE, conhecida cidade produtora de
flores, para passar alguns meses na comunidade a fim de juntas plantarem algumas espécies de flores e depois dividirem o lucro ou o
prejuízo. Com alguns meses de experiência, foi verificado que a atividade era viável. A comunidade começava a enxergar a luz que há
tempos não brilhava por ali e que poderia clarear seus caminhos.
Essas condições de surgimento, comuns para a maioria das micro e
pequenas empresas, eram também algumas das causas corriqueiras do
desaparecimento precoce do empreendimento.
As sócias reconheceram que todo seu trabalho poderia ser infrutífero
como fora antes com banana e cachaça.
As ações do Sebrae da Paraíba foram no sentido de acompanhar
os pontos falhos. Antes da porteira, no suprimento de insumos; na
porteira, no sistema de plantio e pós-colheita. A contratação de um
consultor e o interesse ávido por aprender mudaram o panorama. O
controle de qualidade da água, a preparação da adubação, a colheita,
o tratamento das flores colhidas e a embalagem foram sendo aprimorados. A existência de um mercado com carências gerou resultados eficazes. Mas necessitavam mais. Aprimorar tudo isso para o
negócio ser de fato competitivo.
DESCOBRINDO O CAMINHO DAS FLORES
D
epois de tomada a decisão de plantar flores, contratou-se um consultor através do Programa de Apoio Tecnológico para Micro e
Pequenas Empresas (PATME), um programa do Sebrae na área de tecnologia, para fazer análises, com o objetivo de verificar se na terra, na
água ou no clima existia alguma substância desfavorável ao plantio em
grande escala. Verificou-se que a qualidade da água seria um problema
na produção, seja por excesso de partículas em suspensão, que provocava queda de pressão e entupimentos, seja pelo pH alto, que anulava
o efeito dos defensivos e dificulta a hidratação das flores.
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SEBRAE/PB – FLORES DE PILÕES
Foi sugerido então pelo consultor a construção de um ou dois
tanques com cinco a dez mil litros cada para que a água do riacho
pudesse decantar e ter seu pH corrigido. Além disso, ele sugeriu que
um conjunto de coletores para conduzir a água das calhas da estufa
para o tanque fosse feito, permitindo, durante o inverno, que se
trabalhasse com água de chuva. Outras orientações foram fundamentais: as variedades de flores a cultivar, as condições climáticas ideais e o
uso de plásticos de cobertura que permitiam o cultivo de flores de
clima temperado.
O Sebrae/PB foi novamente procurado para esclarecer e trazer
informações sobre a legalização da cooperativa. A Cooperativa de
Floricultores do Estado da Paraíba foi constituída em setembro de
1999, por 21 mulheres.
Em outubro de 1999, realizou-se o curso de manejo de flores com o
apoio do Sebrae. Esse foi o primeiro passo de uma longa caminhada na
área de capacitação.
Contudo, surgia outro desafio: o que fazer para angariar recursos e
iniciar a plantação? A comunidade reuniu-se novamente, decidiu elaborar um projeto e encaminhar ao Banco do Nordeste, mas encontrou
outra barreira: não tinham a garantia real exigida pelo banco. O recurso
não foi liberado, mas a determinação, a força de vontade e a persistência fizeram com que as cooperadas levantassem a cabeça e fossem
procurar outros meios para a realização do grande sonho.
O MELHOR CAMINHO
C
om o apoio da prefeitura do Município de Pilões, a cooperativa
buscou incentivos do Projeto de Apoio às Comunidades Rurais de
Baixa Renda (Projeto Cooperar), do governo do Estado, apoiado com
recursos do Banco Mundial, destinado a financiar associações e cooperativas de pequenos produtores rurais.
Encaminharam o projeto com a certeza de que valeria lutar pelos ideais
porque, segundo uma das cooperadas: “Não era um simples financiamento, era uma carta de alforria para aquelas mulheres, que até
então eram trabalhadoras do lar”.
Em março de 2003, Karla Cristina participou do Empretec, seminário
do Sebrae em parceria com o Pnud e o Ministério das Relações Exte-
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FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
riores, que busca desenvolver as características do comportamento
empreendedor. Após sua participação se tornou mais evidente seu
papel de líder na comunidade.
Ao saber que aconteceria uma feira em Gravatá/PE, a nova
“empreteca” (como são chamados os participantes do seminário), Karla
Cristina procurou o Sebrae e solicitou apoio para visitar o evento. Dezesseis cooperadas participaram da caravana. Foi enviada, também,
uma representante para outra feira, em Holambra/SP, cidade produtora
de flores, de onde voltou com informações e experiências valiosas
para serem utilizadas na cooperativa.
Enquanto esperavam retorno do Cooperar a respeito do projeto enviado, as cooperadas foram colhendo informações e adquirindo experiências, objetivando aprender mais sobre a atividade que estavam iniciando.
Esperaram seis meses, mas a esperança de poder contribuir para o sustento da família fazia com que tivessem forças para esperar o quanto fosse
preciso. Entretanto, nesse período, receberam uma notícia que soou como
música para os ouvidos: o projeto fora aprovado. A alegria contagiou a
comunidade, rostos alegres, sorrisos distribuídos. Elas enxergavam,
enfim, a esperança de aumentar a qualidade de vida da comunidade.
O Banco Mundial financiaria 75%, o Cooperar 15%, e a cooperativa
teria que arcar com 10%. Outro desafio teria que ser vencido: onde iriam
conseguir os 10%? Foram 10 longos meses de trabalho, sem remuneração.
Era a contrapartida que a cooperativa tinha que pagar e a única forma seria com a força de trabalho do grupo.
Outros importantes parceiros que apoiaram a iniciativa foram o
Sebrae, por meio de capacitação, consultoria e acesso a mercados, e a
prefeitura, responsável pela eletrificação do projeto.
Segundo o gerente regional do Sebrae em Guarabira/PB e gestor do
Programa de Desenvolvimento da Floricultura no Brejo Paraibano, José
Marcílio de Sousa Santos, “elas foram perseverantes, não mediram esforços
em busca de parceiros: Sebrae, Prefeitura Municipal de Pilões, Projeto
Cooperar, Governo do Estado, Centro de Ciências Agrárias da UFPB,
Emater, Fundação BB, Banco do Brasil, especialistas na área, fornecedores, concorrentes. Foram humildes e inteligentes, souberam ser pioneiras,
romperam paradigmas, pois sabiam que ninguém poderia retirar-lhes o
direito de uma vida digna e de serem felizes no local que escolheram para
criarem seus filhos, junto de seus familiares, no torrão onde hoje fazem
brotar flores”.
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SEBRAE/PB – FLORES DE PILÕES
A COLHEITA DAS FLORES
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om o recurso do projeto foram adquiridas as mudas em São Paulo/SP,
onde o índice de mortalidade é mínimo, para garantirem uma flor de
qualidade e não haver desperdícios. Foram adquiridas também nove
estufas com estrutura em madeira.
A cooperativa iniciou sua plantação gerando dez empregos diretos e
cinco indiretos. Formaram um esquema de trabalho, dividido entre as
cooperadas: plantio, adubação, tutoria, prevenção, corte e preparo do
solo. Para o processo verificou-se a habilidade de cada uma. Plantaram
inicialmente crisântemos, shena, calábria, margarida, lameetbraeit e depois
diversificaram com gladíolo e tango.
Segundo Karla, “no começo foi difícil, pois não é fácil você chegar em
uma floricultura oferecendo o seu produto assim, do nada, e concorrer
com fornecedores com mais de 10 anos no mercado, porém nossa flor
chegou com qualidade bem superior à do concorrente, e foi assim que aos
poucos conquistamos nossos clientes”. Grande parte dessas flores provinham do Sudeste e ter um fornecedor regional mais próximo se tornou
uma vantagem competitiva.
A produção atendia as cidades de João Pessoa/PB, com 40%; Timbaúba/PE, com 30%; Campina Grande/PB, com 20%; Esperança/PB, com
5% e Guarabira/PB, com 5%.
As cooperadas tinham um plano de trabalho especial, no qual o grupo
recebeu as informações necessárias para o processo de trabalho em datas
comemorativas, como Dia das Mães, Finados, e chegavam a dobrar a
produção nesses períodos.
Antes essas mulheres não tinham renda alguma, dependiam única e
exclusivamente da renda dos maridos. Em 2005 ganhavam em média um
salário mínimo, chegando a dobrar esse valor em períodos de pico.
Para Karla Cristina, “o segredo de quem está iniciando qualquer atividade é a união, a humildade e a consciência do que cada uma deve ou
não fazer, cada qual tem seu papel lá dentro”.
A experiência chamou a atenção de instituições, órgãos e empresas
que chegaram a visitar a cooperativa, como o Banco do Brasil, Emater,
entre outros.
No período de 16 a 18 de junho de 2004, Karla Cristina, tesoureira e
líder do grupo, esteve em Washington, apresentando o projeto da floricultura para vários países. A dinâmica e a tenacidade demonstradas na
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FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
apresentação convenceram um grupo indiano a visitar a comunidade de
Avarzeado e conhecer de perto sua experiência.
A Cofep começava a gerar resultados positivos, mas as cooperadas não
pararam de buscar informações. Por meio de incentivo do Sebrae, duas
cooperadas visitaram em setembro de 2004 a Frutal, onde aconteceu paralelamente a Feira Internacional de Flores e Plantas Ornamentais, na cidade
de Fortaleza/CE. Elas tinham como objetivo, além de visitar a feira para
conhecer de perto outras experiências, negociar cinco estufas de estrutura
metálica, pois tinham como meta o aumento da produção.
Chegaram a fazer bons negócios na Frutal, conversando com outros
produtores, observando a qualidade dos concorrentes e captando informações para aplicarem na cooperativa. Ainda conseguiram negociar cinco
estufas metálicas (com qualidade superior às que já tinham). As estufas
foram adquiridas com recursos do Pronaf Mulher, sendo realizada a
primeira operação na Paraíba. Com isso a produção foi praticamente
dobrada.
A BELEZA DAS FLORES CONQUISTA SEU ESPAÇO
A
Cofep começou a levar bons resultados para a comunidade: a
geração do emprego e renda, o resgate da auto-estima daquelas mulheres que viviam apenas para o lar, sem renda alguma, conhecendo o
drama do desemprego de familiares.
Além de terem sido produzidos alguns documentários relatando as suas
experiências, receberam várias visitas de grupos que queriam conhecer o
projeto e ver de perto como pessoas simples chegaram tão longe.
A mulher simples e obstinada que vem liderando este empreendimento
coletivo tinha reconhecidos pelo público os seus esforços e o mérito do
seu trabalho.
Maria Helena, presidente da cooperativa, foi vencedora do Prêmio Voz
Mulher, que visava premiar histórias de mulheres empreendedoras,
oferecido pelo Banco Mundial em Recife/PE, que tinha como premiação
R$ 4.500,00.
Em 2005, a cooperativa estava em franco processo de expansão,
pretendendo iniciar a produção em mais duas comunidades da região, por
meio de uma parceria com o Banco do Brasil e o Instituto da Terra e
Planejamento da Paraíba (Interpa).
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SEBRAE/PB – FLORES DE PILÕES
Essa expansão visava colocar um novo produto no mercado que são
as folhagens, que, até então, não eram produzidas lá. As cooperadas
estavam enxergando essa atividade como uma ótima oportunidade de
negócio. Também por meio dessa parceria seria adquirido um veículo
para distribuição das flores, pois a cooperativa pagava frete para realizar esse trabalho. Desse modo a cooperativa passaria a produzir um
insumo importante para sua atividade e melhoraria sua capacidade de
distribuição.
Diante dos fatos, percebe-se que as cooperadas sabiam que valia a
pena lutar pelos seus ideais, persistir, mesmo contando inicialmente com
“a cara e a coragem”, e sempre acreditando no potencial de cada uma.
Percebe-se ainda que a luta da comunidade continuava. As mulheres
estavam querendo voar mais alto e garantir o tão sonhado sustento das
famílias daquela região que, em 2005, visivelmente já tinham uma melhor
qualidade de vida.
Segundo Reinaldo Rosendo Ferreira, consultor do Sebrae/PB, “a Cofep
deve ser considerada como um modelo e marco de referência para agricultura familiar. A comunidade onde se originou a cooperativa é exatamente
igual a tantas outras de pequenos produtores. O que fez a diferença e deve
servir de exemplo foi a força de vontade e o comprometimento das pessoas em
buscar uma alternativa para o desenvolvimento sustentável da comunidade.
Assim, alguns pontos foram essenciais para o seu sucesso: uma cooperativa
formada somente por mulheres com força de vontade e capacidade de absorção e utilização de tecnologias de produção, a organização social e a racional distribuição de trabalho que se identifica na comunidade e o desejo dos
seus membros de reunir as potencialidades locais com o espírito empreendedor do grupo”. Acrescente-se a capacidade de liderança de Karla Cristina.
AS FLORES DO FUTURO
A
iniciativa de montar a floricultura foi de fundamental importância
para a comunidade, uma vez que as mulheres não tinham perspectivas de melhoria de qualidade de vida, se continuassem como estavam,
numa região de difícil acesso, sem trabalho, fadadas a continuarem seus
dias naquela mesmice, e com experiências anteriores mal sucedidas.
A idéia de implantar o projeto na comunidade poderia ser a luz que
estavam esperando para clarear os caminhos, estando ali a esperança de
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FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
dias melhores. Elas não tinham experiência anterior. Valeu a intuição e a
força de vontade para o trabalho.
Constatou-se que devido à persistência e à busca da superação das
dificuldades que o grupo enfrentou, conseguiram alcançar o trabalho tão
almejado, a renda e a dignidade de poder contribuir para o sustento da
família, que era o principal objetivo do projeto. Foram obstinadas, fizeram
sacrifícios por longo período e não desistiram do seu objetivo.
No primeiro ano de implantação, em 2002, a cooperativa produziu cerca
de 3.600 pacotes com 20 hastes cada. Em 2005, já produzia em média 44.000
hastes/mês, e vinha conquistando mercado pela qualidade das flores.
Floriculturas de Pernambuco e São Paulo eram os grandes fornecedores do mercado paraibano. Um dos desafios iniciais da Cofep, portanto,
era conquistar uma fatia desse segmento. Além disso, havia a meta de passar a atuar nos mercados locais desses concorrentes, como a venda, por
exemplo, de 30% de sua produção para a cidade de Timbaúba (PE).
Para o sucesso do projeto, a parceria foi de fundamental importância.
Sem os parceiros não seria possível a realização do sonho da comunidade
Avarzeado que beneficiava cerca de 21 famílias.
A experiência, além de ser um caso de ineditismo por ser a única
cooperativa de flores formada exclusivamente por mulheres na Paraíba,
serve ainda de modelo para outras comunidades que lutam por melhores
condições de vida. Modelo que seguia a gestão compartilhada, tendo
como foco principal a inclusão social.
E o desafio continuava: atingir maiores fatias do mercado, investir
sempre na qualidade em todos os aspectos para conseguir manter-se nele
de forma competitiva.
Ameaças externas sempre vão existir como em qualquer outra
atividade, mas o grau de empreendedorismo e determinação do grupo era
que determinava a continuidade desse projeto que, em 2005, estava sendo
expandido para mais duas comunidades da região.
“Que sirva de exemplo para todos nós o comportamento das cultivadoras
das Flores de Pilões, que não se intimidaram diante das diversas dificuldades, tais como: inexistência de recursos para mobilização, organização e
legalização; inexistência de garantias reais, exigidas pelas instituições
financeiras; indisponibilidade de espaço físico comum para o projeto; desconhecimento da nova cultura; preconceitos, por serem mulheres e pobres;
divisão das tarefas durante o período amargo da implantação do projeto
com os afazeres domésticos”, afirma José Marcílio de Sousa Santos.
HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
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QUESTÕES PARA DISCUSSÃO
• Que estratégias as cooperadas poderiam utilizar para alcançar maiores
fatias do mercado?
• Como beneficiar um número maior de famílias da comunidade?
• O que determinará a continuidade do projeto?
AGRADECIMENTOS
Presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/PB: José Marconi Medeiros Souza.
Diretoria Executiva do Sebrae/PB: Carlos Alberto Batinga Chaves, Natanael Rohr da Silva, Pedro
Aurélio Mendes Brito.
Ao gerente da agência Sebrae Guarabira/PB, José Marcílio de Sousa Santos; à cooperada da
Cofep, Karla Cristina Paiva Rocha; à Presidente da Cofep, Maria Helena Lourenço dos Santos; ao
consultor do Sebrae/PB, Reinaldo Rosendo Ferreira; à coordenadora da Assessoria de Comunicação do Sebrae/PB, Renata Câmara Avelino; ao orientador metodológico do Sebrae/PB, professor
Paulo Francisco Monteiro Galvão.
E a todos que contribuíram direta e indiretamente para a realização deste trabalho.
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FLORES DE PILÕES – SEBRAE/PB
ANEXOS
GRÁFICO 1: PRODUÇÃO DE HASTES
880.000
2002
2003
2004
288.000
288.000
2005
72.000
Fonte: Cofep (2005)
Conforme dados fornecidos pela cooperativa, a produção no ano de 2002
era de 72.000 hastes por ano, em 2005 a produção chegou a 44.000 hastes
por mês, devido à aquisição das estufas metálicas.
GRÁFICO 2: RENDA PER CAPITA
R$ 450
2002
2003
R$ 200
R$ 240
R$ 260
2004
2005
Fonte: Cofep (2005)
Antes da formação da cooperativa, as mulheres locais não tinham renda
alguma; após a implantação do projeto, atingiram a renda de um salário
mínimo; em 2005 essa renda é de um salário e meio, chegando a
aumentar em período de pico, nos meses de maio e novembro.
HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
EDIÇÃO 2005
13
SEBRAE/PB – FLORES DE PILÕES
GRÁFICO 3: PERCENTUAIS DE VENDAS
5%
5%
João Pessoa/PB
20%
Timbaúba/PE
40%
Campina Grande/PB
Esperança/PB
Guarabira/PB
30%
Fonte: Cofep (2005)
Observa-se que a cooperativa vende 70% da produção no Estado da
Paraíba, entretanto vem conquistando outros mercados, a exemplo de
Pernambuco.
BIBLIOGRAFIA
DORNELAS, José Carlos de Assis. Empreendedorismo: transformando
idéias em negócios. São Paulo: Campus, 2001.
Guia passo a passo – metodologia para o desenvolvimento dos casos de
sucesso do Sebrae: Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso. Brasília:
Sebrae, 2003.
Proder – Programa de Emprego e Renda: Pilões. João Pessoa,
Sebrae/PB/1997. 58p. Série Diagnóstico Sócio-econômico, 28)
OCB (Organização das Cooperativas Brasileira) – Manual de Cooperativismo. OCB:Brasília/DF, 2002.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE. Disponível em:
<http:www.Ibge.gov.Br>.
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EDIÇÃO 2005
HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS
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