Primitivação A primitivação é a operação inversa da derivação. Definição: Seja f uma função definida num intervalo I. Qualquer função F definida e diferenciável em I tal que F ′ x = fx, para todo o x ∈ I, diz-se uma primitiva de f em I. f diz-se primitivável em I se admitir uma primitiva em I. Naturalmente, se F for uma primitiva de f, também F + C (em que C é uma constante) é uma primitiva de f. Mais, num intervalo, todas as primitivas de uma dada função diferem de uma constante: Proposição: Sejam F e G duas primitivas de f num intervalo I. Então, F e G diferem de uma constante. Notação: P x fx, Pfx e ∫ fxdx representam (em geral) todas as primitivas de f. Questões: • • P x fx ′ = ? P x f ′ x = ? Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 1 Propriedades das Primitivas Proposição: Sejam f e g funções primitiváveis no intervalo I e α ∈ R. Então, nesse intervalo, tem-se que: 1. Pfx + gx = Pfx + Pgx; 2. Pαfx = αPfx; Atenção: a primitiva do produto não é o produto das primitivas!!! Proposição: Se f é uma função contínua num intervalo, então f é primitivável nesse intervalo. Mais: Proposição: Se f é uma função contínua no intervalo I, para cada x 0 ∈ I e y 0 ∈ R, existe uma e uma só primitiva F de f em I tal que Fx 0 = y 0 . Fx 0 = y 0 → condição inicial do problema A esta questão, de determinar a (única!) primitiva que verifica uma certa condição inicial, chama-se Problema de valores iniciais ou Problema de Cauchy. Exemplo: Sabendo que a velocidade de uma partícula é dada por vt = e 2t , determine a lei do movimento, considerando que no instante inicial se encontra na origem. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 2 Recordemos algumas regras de derivação: Sendo u e v funções deriváveis e α ∈ R : • • • • • • • α ′ = 0; • • • • e u ′ = u ′ e u ; u + v ′ = u ′ + v ′ ; αu ′ = αu ′ ; u. v ′ = u ′ v + uv ′ ; u ′ v−uv ′ , se v2 ′ α−1 uv ′ = u α ′ = αu u ′ nn u n−1 , c/ n ∈ N; ← resulta tb. do ant. c/ α = 1 n a u ′ = u ′ a u ln a, c/ a > 0; ← resulta do anterior u′ u ln u ′ = ′ log a u = ; 1 u′ ln a u , c/ a > 0; ′ portanto, log 10 u = • • • • • • • ′ em particular, 1v = − vv2 ; u′ n u = ′ v ≠ 0; ′ sen u ← resulta do anterior u′ u ln 10 = u ′ cos u; cos u ′ = −u ′ sen u; tg u ′ cotg u arctg u = u ′ sec 2 u ′ recorde-se que sec x = = −u ′ cosec 2 u ′ arccotg u = ′ u′ 1+u 2 ′ u′ 1−u 2 recorde-se que cosec x = 1 senx ; ← resulta do anterior ; • arccos u ′ = − • sec u ′ = u ′ sec u tg u; u′ 1−u 2 Ana Matos (versão de 3 Jan 08) ; ; u = − 1+u ; 2 arcsin u ′ = 1 cos x ; ← resulta do anterior ∙ cosec u ′ = −u ′ cosec u cotg u. Primitivas 3 Separando - Propriedades: se f e g são funções diferenciáveis • • • • • f + g ′ t = f ′ t + g ′ t; αf ′ t = αf ′ t, c/ α ∈ R; f. g ′ t = f ′ tgt + ftg ′ t; f g ′ f ′ t ′ gt−ftg ′ t g 2 t t = , se gt ≠ 0; fgt ′ = g ′ tf ′ gt → derivação da composta Derivadas conhecidas: • • • α ′ = 0; • • • • • • • • • • • e x ′ = e x ; • arccos x ′ = − • sec x ′ = sec x tg x; x α ′ = αx α−1 ; ′ n x = , c/ n ∈ N; ← resulta tb. do ant. c/ α = 1 nn x n−1 a x ′ = a x ln a, c/ a > 0; ln x ′ = 1 x ′ log a x = ′ sen x 1 n ← resulta do anterior ; 1 x ln a , c/ a > 0; ← resulta do anterior = cos x; cos x ′ = −sen x; tg x ′ cotg x arctg x = sec 2 x ′ recorde-se que sec x = = −cosec 2 x ′ arccotg x = ′ 1 1+x 2 1 senx ; ; 1 1−x 2 ← resulta do anterior ; 1 1−x 2 Ana Matos (versão de 3 Jan 08) ; recorde-se que cosec x = 1 = − 1+x ; 2 arcsin x ′ = 1 cos x ; ← resulta do anterior ∙ cosec x ′ = −cosec x cotg x. Primitivas 4 Algumas primitivas imediatas Função Primitiva sin x − cos x + C cos x sin x + C x α , α ≠ −1, x > 0 x α+1 α+1 +C 1 x ln|x| + C 1 1+x 2 1 arctan x + C 1−x 2 arcsin x + C Uma tabela de primitivas, é uma tabela de derivadas apresentada ao contrário! Nota: Pela regra de derivação da função composta, Fϕx ′ = ϕ ′ xF ′ ϕx. Assim, se F é uma primitiva de f, então Fϕx é uma primitiva de ϕ ′ xfϕx. A versão mais geral da tabela anterior é: Função Primitiva ϕ ′ x sin ϕx − cos ϕx + C ϕ ′ x cos ϕx sin ϕx + C α ′ ϕ xϕx , α ≠ −1, ϕx > 0 ϕ ′ x ϕx ϕ ′ x 1+ϕx 2 ϕ ′ x 1−ϕx 2 Ana Matos (versão de 3 Jan 08) ϕx α+1 α+1 +C ln|ϕx| + C arctan ϕx + C arcsin ϕx + C Primitivas 5 Primitivas imediatas FUNDAMENTAIS: Sendo u função derivável e α ∈ R : • • • • • • • • Pu ′ u α = • • Pu ′ sec 2 u = tg u + C; u α+1 α+1 u + C se α ≠ −1; Pu ′ e u = e + C; Pu ′ a u = P u′ u au ln a + C, c/ a > 0; ← dispensável, vem da ant. = ln|u| + C; P u ′ senu = − cos u + C; Pu ′ cos u = senu + C; P P u′ 1+u 2 = arctg u + C; u′ = arcsenu + C; 1−u 2 2 P u ′ cosec u = −cotg u + C. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 6 Técnicas de Primitivação Primitivação por partes Proposição: Sejam f e g são funções com derivada contínua no intervalo a, b. Então, neste mesmo intervalo, Pf ′ xgx = fxgx − Pfxg ′ x. Primitivação por mudança de variável (ou substituição) Notação: para representar fgt usa-se também a notação: fgt = fx| x=gt . Proposição: Seja f uma função contínua no intervalo I e ϕ : J → I uma aplicação cuja derivada é contínua e não se anula em J. Então, P x fx = P t fϕtϕ ′ t| t=ϕ −1 x . Observação 1: prova-se que uma função definida num intervalo com derivada não nula é invertível. Observação 2: existem versões da primitivação por substituição com hipóteses ligeiramente diferentes, por ex.- “f uma função primitivável no intervalo I e ϕ : J → I uma aplicação bijectiva com derivada contínua”. Uma das principais dificuldades na primitivação por substituição reside na escolha da mudança de variável adequada! Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 7 Algumas substituições aconselhadas Sendo f uma função racional dos argumentos indicados, Primitiva Substituição Pfe x x = ln t Pfln x x = et p r x = t m , m = m.m.c.q, s, . . . Pf x, x q , x s , . . . p • r Pf x, ax + b q , ax + b s , . . . ax + b = t m , m = m.m.c.q, s, . . . P a2 − b2x2 x= sen t Pf x, ax 2 + bx + c , a > 0 ax 2 + bx + c = t + a x Pf x, ax 2 + bx + c , c > 0 ax 2 + bx + c = tx + c Pf x, ax 2 + bx + c , ax 2 + bx + c = x − αt, com b 2 − 4ac > 0 com α raiz de ax 2 + bx + c função racional de senx e cosx → substituição: t = tg então: x = 2arctg t senx = • a b 2t 1+t 2 cos x = 1−t 2 1+t 2 tg x = x 2 2t 1−t 2 . Nota: há casos particulares em que funcionam melhor outras substituições. Por exemplo: c/ funções rac. de sen 2 x, cos 2 x e tg x, a substituição t = tg x normalmente funciona melhor. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 8 Primitivação de funções racionais (por decomposição) Definição: Chama-se função racional a qualquer função que se Px possa escrever na forma Qx , com P e Q polinómios de coeficientes reais. A função racional diz-se própria se grPx < grQx e imprópria caso contrário. Fase 1: Para primitivar devemos sempre trabalhar com funções racionais próprias! • Qualquer função racional imprópria Px Qx pode escrever-se na forma polinómio + f. rac. própria. Basta fazer a divisão de Px por Qx. Proposição (Regra da divisão): Sendo Px um polinómio e Qx um polinómio de grau ≥ 1, existem sempre polinómios Cx e Rx, univocamente determinados, tais que Px = Qx. Cx + cociente Rx , com grRx < grQx. Resto da div. Então Px Qx Rx = Cx + Qx poli. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) f. rac. própria Primitivas 9 Resta-nos ver como primitivar funções racionais próprias. Seja Px Qx uma função racional própria. Fase 2: decompõem-se Qx tanto quanto possível como produto de parcelas mais simples, isto é, de: - constantes; - parcelas da forma x − r l , c/ l ∈N→ parcelas corresp. às raízes reais parcelas corresp. - parc. da forma x 2 + bx + c k , c/ k ∈N→ a pares de raízes sem raízes reais compl. conjugadas aglomerando as parcelas correspondentes às mesmas raízes → l é a multiplicidade da raíz real r e k a multiplicidade das raízes de x 2 + bx + c (2 complexos conjugados). Então Qx fica escrito na forma Qx= a × constante x − r 1 l 1 × ⋯ × x2 + b1 x + c1 k1 parcelas corresp. parcelas corresp. às raízes reais a pares de raízes ×⋯ compl. conjugadas Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 10 Fase 3: Determinar uma expressão da forma A1 A2 Al x − r + x − r 2 + ⋯ + x − r l → nº de parcelas = l = = multipl. da raíz real r para cada factor x − r l e uma expressão da forma D1 + E1x + D2 + E2x + ⋯ + Dk + Ek x 2 k x 2 + bx + c x 2 + bx + c x 2 + bx + c ↓ nº de parc. = k = multip. das raízes complexas associadas a x 2 + bx + c para cada factor x 2 + bx + c k de tal modo que • Px Qx seja soma de todas estas parcelas. Chamam-se fracções elementares (ou fracções simples) às funções racionais da forma A D + Ex ou n m . 2 x − r x + bx + c sem raízes reais Proposição: Toda a f. rac. própria pode ser decomposta numa soma de fracções simples nas condições acima inicadas. A decomposição anterior pode ser feita pelo método dos coeficientes indeterminados. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 11 Fase 4 (e última!): Determinar as primitivas das fracções simples. A ln|x − r| + C, se k = 1 • P A x−r k = P Ax − r −k =A x−r −k+1 −k+1 + C, se k > 1 com C constante real. • D+Ex x 2 +bx+c Parcelas da forma : Não tendo raízes reais, o polinómio x 2 + bx + c pode escrever-se na forma x − α 2 + β 2 , sendo α ± βi as suas raízes. Fazendo directamente as contas (que dão sempre situações de logaritmo e/ou arctg) ou com a mudança de variável x − α = βt conclui-se que P D+Ex x−α 2 +β 2 = E 2 ln x − α 2 + β 2 + Eα+D β arctg x−α β +C Nota: se E = 0 obtém-se sempre um arctg; se E ≠ 0 ou se obtém só um logaritmo ou se obtém uma soma de um logaritmo e um arctg. Ana Matos (versão de 3 Jan 08) Primitivas 12 • Parcelas da forma D+Ex k x 2 +bx+c , c/ k > 1: Decompondo o polinómio como no caso anterior e com a mesma mudança de variável, reduz-se esta situação ao cálculo de uma primitiva imediata e da primitiva P 1 k 1 + t 2 . Esta primitiva (c/ k > 1 determina-se por partes, fazendo 1 1 + t2 − t2 = 1 t2 = − k k k−1 k 1 + t 2 1 + t 2 1 + t 2 1 + t 2 1 1 2t = − t . k−1 2 1 + t 2 k 1 + t 2 f g′ e baixando sucessivamente o grau do denominador. Assim, por exemplo: P 1 2 1 + t 2 =P 1 1 + t2 2t − 1 P t . = 1 + t 2 2 2 f g′ =P pois g= −1+t 2 −1 1 1 + t2 1 = 1P 2 1 + t2 Ana Matos (versão de 3 Jan 08) 1 − 1 −t 1 2 + P 2 1+t 1 + t2 = t t + 1 = 1 arctgt + 1 2 2 1+t 2 2 1 + t2 Primitivas 13