CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO DE SEGURIDADE SOCIAL E FAMÍLIA EVENTO: Audiência Pública N°: 1396/09 DATA: 03/09/2009 INÍCIO: 09h45min TÉRMINO: 12h54min DURAÇÃO: 03h10min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 03h10min PÁGINAS: 65 QUARTOS: 38 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO JUVÊNCIO FURTADO – Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. ALBERI GRANDO – Secretário Municipal de Saúde de Passo Fundo, Rio Grande do Sul. CELSO RAMOS – Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. JOSÉ LÚCIO DOS SANTOS – Superintendente de Vigilância de Saúdo do Governo do Estado do Paraná. EDUARDO HAGE – Diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. SUMÁRIO: Discussão sobre a dispensação do medicamento Tamiflu. OBSERVAÇÕES Houve exibição de imagens. Há falha na gravação. CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Bom dia a todos. Declaro aberta a presente reunião de audiência pública da Comissão de Segurança Social e Família, convocada, nos termos do requerimento de autoria do Deputado Eleuses Paiva, aprovado por esta Comissão, para discutir a dispensação do medicamento Tamiflu. Convido para compor a Mesa os senhores: Eduardo Hage, Diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde; Juvêncio Furtado, Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia; Alberi Grando, Secretário Municipal de Saúde de Passo Fundo, Rio Grande do Sul; Celso Ramos, Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, a quem faço uma reverência em especial, em virtude da minha condição de cirurgião no Rio de Janeiro há 25 anos; e José Lúcio dos Santos, Superintendente de Vigilância em Saúde do Governo do Estado do Paraná. Comunico aos senhores membros desta Comissão que cada convidado terá o prazo de 15 minutos para fazer sua exposição, prorrogáveis a juízo desta Presidência, não podendo ser aparteado. Os Deputados inscritos para interpelar os convidados poderão fazê-lo estritamente sobre o assunto da exposição, pelo prazo de 3 minutos, tendo o interpelado igual tempo para responder, facultadas a réplica e a tréplica, pelo mesmo prazo, não sendo permitido ao orador interpelar quaisquer dos presentes. Já contamos com a presença dos nobres Deputados Eleuses Paiva, Germano Bonow, Jofran Frejat e assistentes. Dando início aos trabalhos, passo a palavra ao primeiro expositor, Sr. Juvêncio Furtado, Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. O SR. JUVÊNCIO FURTADO - Bom dia a todos. É uma grande honra estar aqui discutindo esse assunto de grande interesse para o Brasil inteiro, em nome da sociedade que ora presido. É uma grande satisfação estar aqui com todos os senhores. A Sociedade Brasileira de Infectologia, e estou ao lado de um ex-presidente, prima por lidar com todos os problemas relativos às doenças infecciosas no Brasil. É uma sociedade científica que hoje tem por volta de 2 mil associados. Ao longo de toda a história de endemias e epidemias no Brasil, desde a sua fundação, há 27 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 anos, tem participado ativamente de todas as discussões em que pode estar presente. Por conta disso, em relação à epidemia da gripe, ao momento em que vivemos, ela tem participado de maneira expressiva. Num primeiro momento, fazendo uma chamada nacional sobre o problema e, num segundo momento, discutindo junto ao Ministério da Saúde sobre a dispensação da medicação Tamiflu, da medicação Oseltamivir — nome químico dessa droga — no Brasil e a maneira como a sociedade entendeu que deveria ser praticada. Hoje sabemos que, no tocante à gripe — provavelmente, os outros expositores vão detalhar mais, e vou expor a eles esta posição —, há uma redução no número de casos novos. Isso é visível. Ao mesmo tempo, os casos mais graves estão diminuindo. Claro que a ação do Ministério da Saúde — provavelmente, o Dr. Eduardo Hage vai fazer esse detalhamento — teve uma importância muito grande no controle da epidemia no Brasil. Da nossa parte, em relação à medicação Tamiflu, em determinado momento — isso foi no dia 3 de agosto —, entendemos que ela deveria ter sido indicada não somente aos casos graves, mas também àqueles outros casos que o médico assistente, o médico que atendeu esses pacientes, entendesse que deveria recomendar. Tivemos reunião com o Ministério da Saúde, oportunidade em que a posição da Sociedade Brasileira de Infectologia foi apresentada de maneira formal. Junto ao Ministério, essa flexibilização do tratamento foi realmente implementada. A partir de então, observamos que a medicação específica foi dispensada de maneira mais ampla no País. Talvez não com a capilaridade que esperávamos, mas, enfim, passou a estar disponível com muita agilidade em vários centros — as dificuldades serão aqui discutidas —, e mudou, sob a nossa ótica, a gravidade dessa doença no País. Ou seja, a partir do momento em que o tratamento passou a ser feito de forma mais precoce, os casos graves reduziram. Obviamente, não foi só essa a razão, mas também por esta razão. Resta a seguinte questão, que podemos debater ao longo desta reunião: o que fazer a partir de agora? Certamente, no próximo ano, o mundo terá uma primeira ou segunda onda, dependendo do entendimento dos especialistas. 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Teremos, sim, o vírus circulando. Os epidemiologistas todos falam em uma taxa de ataque de 20% a 30%. Isso significa que há possibilidade de 20% da população brasileira serem acometidos por este vírus. Hoje também se sabe — isso, provavelmente, será apresentado — que o vírus da gripe que circula, o Influenza, é um novo vírus. Circula com maior intensidade um novo vírus. Portanto, a maioria dos casos que tivermos de gripe serão causados por este novo vírus. Diria que, para o próximo ano, e ainda para este, a maior questão que teremos oportunidade de discutir é: como esse medicamento, hoje a única arma disponível para combater essa gripe, poderá ter sua distribuição ampliada nos municípios, nos lugares mais distantes? E como esse processo está? Provavelmente, isso será discutido nesta reunião. Mas a grande arma para o próximo ano será o uso da vacina, que já está em fase de desenvolvimento final, foi aprovada em testes em vários países do mundo e deverá ser disponibilizada. Esta é a grande arma que teremos para o próximo ano: vacinar a parte que for possível da população. Mas também esta é uma questão a ser discutida: que grupos de pessoas vacinaremos? Quantas doses de vacina teremos disponíveis no próximo ano? E quem será vacinado prioritariamente? É claro que existem algumas regras, e poderemos discuti-las ao longo desta reunião: quem especificamente deverá fazer uso da vacina? Quantas doses o Ministério poderá disponibilizar para uso na comunidade brasileira? Então, para o próximo ano, para o próximo inverno, teremos duas armas. A primeira arma e a mais eficaz, sem dúvida, será a vacinação. E a segunda, a medicação, que já temos disponibilizada no Brasil e no mundo, o Oseltamivir, cujo nome comercial é Tamiflu. É a única droga disponível no momento no Brasil. Uma outra droga, o Zanamivir, também poderá ser disponibilizado, a critério do Ministério da Saúde. Então, vislumbramos para o próximo ano uma vacinação em grande escala, para reduzir não só a incidência da gripe, mas também, evidentemente, o número de casos graves. Junto com isso — não há como enfrentar uma epidemia nova sem fazê-lo —, temos de aumentar a disponibilidade de leitos de terapia intensiva, porque os casos graves necessitaram, necessitam e vão necessitar de apoio. Essa 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 foi uma das grandes dificuldades que o Brasil teve. O número de leitos de UTI, como todos sabemos, é deficitário. É necessário que o número de leitos de terapia intensiva seja ampliado, para que se tenha disponibilidade para tratar esses casos graves. E, evidentemente, uma forma diferente de tratar terá de ser implementada ao longo do tempo. Apresentei apenas um panorama do que será essa discussão. Encerro essa minha fala neste momento. Vou estar à disposição para discutir o tema. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Agradeço ao Sr. Juvêncio Furtado. Gostaria, desde já, de dizer a todos os nossos convidados que a Comissão de Seguridade Social e Família do Congresso Nacional sente-se honrada com a presença dos senhores aqui, nesta manhã, na Casa do Povo. Passo a palavra ao próximo convidado, Sr. Alberi Grando, Secretário Municipal de Saúde de Passo Fundo, Rio Grande do Sul. O SR. ALBERI GRANDO - Inicialmente, gostaria de agradecer ao Deputado Dr. Paulo César o convite e de fazer uma saudação especial ao nosso colega sanitarista, o sempre Secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, Dr. Germano Bonow, e ao Dr. Eleuses, que já conheço. Eu me apresento: sou médico, sou Secretário de Saúde de Passo Fundo pela terceira vez e, com muito orgulho, membro do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul. Passo Fundo tem uma história, e essa história deve ser contada, para que, a partir dela, quem sabe, consigamos melhorar a situação numa outra epidemia. Tomara que não venha, nem o segundo surto. Dizem que vai vir, mas tomara que não venha. De qualquer maneira, essa historia acaba sendo importante e, por isso, vou tentar mostrar a vocês o que fizemos em Passo Fundo. (Segue-se exibição de imagens.) Passo Fundo, para quem não conhece, é uma cidade que fica ao norte do Estado. O Rio Grande do Sul tem uma extensa fronteira com o Uruguai e a Argentina, e Passo Fundo fica logo ali. Então, há uma fronteira com a Argentina e o Uruguai, o que explica nosso primeiro caso. 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Passo Fundo é uma cidade de 180 mil habitantes. É conhecida nacionalmente pela Jornada de Literatura, que leva a Passo Fundo, a cada 2 anos, mais de 30 mil pessoas; pelo Festival Internacional do Folclore, que reúne mais de 100 mil pessoas, a cada 2 anos, e mais de 20 países; é considerada o maior centro médico hospitalar do interior do Rio Grande do Sul e tem excelência em atenção básica de saúde. Passo Fundo tem o Hospital São Vicente, com 590 leitos; o Hospital da Cidade, com 188 leitos; o Hospital Municipal, com 92; e um hospital privado, com 90 leitos. A Secretaria Municipal de Saúde tem hoje 1.100 servidores e um orçamento, em média, 17% acima daquilo que é preconizado como o necessário. Nós dividimos o Município em 4 Distritos Sanitários. Tem uma assistência descentralizada de saúde, com 6 grandes unidades básicas de saúde, em que se dá consulta, com sala de observação, exames e medicamentos; duas unidades de pronto atendimento, consultas e encaminhamentos; 30 médias e pequenas unidades com consulta, realizando em média 20 mil atendimentos médicos por mês e 36 mil atendimentos de enfermagem. Em relação à gripe A, em Passo Fundo, no dia 28/06, logo depois de a gripe ter aparecido no México, houve a morte de um caminhoneiro. Na verdade, ele não era de Passo Fundo, mas de Erechim, cidade próxima. Mas, como Passo Fundo é um centro regional de saúde, é a referência para o atendimento desses pacientes. Então, esse paciente veio de Erechim. Era caminhoneiro e estava vindo da Argentina. Ele não quis fazer o tratamento na Argentina e veio com a primeira sintomatologia dessa síndrome durante todo o trajeto, para se tratar em casa, em Erechim. Foi tratado, não deu certo. Enviado para Passo Fundo, acabou falecendo. No dia 8 — portanto, dez dias depois, ou menos do que isso —, morreu em Passo Fundo um comerciante dono de uma lancheria. Esse paciente não tinha histórico de viagem nenhuma. Portanto, já se pensou que esse vírus estava próximo de nós. No dia 10/07, morre um garçom, também sem histórico de viagem ao exterior. Então acendeu a luz de alerta. O serviço de epidemiologia da Secretaria de Saúde foi em busca de dados, porque tínhamos conhecimento da história do México. Daí, morreram o 4º, o 5º... até o 22º, no dia 21/08, um agricultor também sem histórico de 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 viagem. Foram essas as mortes, até esse momento, em Passo Fundo. Pode ser que durante esses 2 ou 3 dias em que estou em viagem tenha morrido mais gente, mas eram 22 pessoas falecidas. A primeira coisa que Passo Fundo fez assim que tomou conhecimento, que acendeu a luz vermelha, foi constituir um comitê municipal, o chamado Comitê Municipal da Gripe A, por decreto do Prefeito Municipal — Decreto nº 88, de 17 de julho de 2009. Esse comitê é composto por Secretaria Municipal de Saúde, Secretaria Municipal de Educação, Secretaria Estadual de Saúde, diretores técnicos dos hospitais, Faculdade de Medicina, Defesa Civil, Conselho Municipal de Saúde e Ministério Público Estadual. Penso que a constituição desse conselho fez com que desse certo tudo aquilo que fizemos. Ele congrega todos os interessados e todos os que têm conhecimento do que acontece em Passo Fundo. São atribuições desse conselho: acompanhar a rede municipal, quer dizer, o atendimento do paciente lá na ponta, o primeiro atendimento, que é feito nas Unidades Básicas de Saúde, e a rede hospitalar, quer dizer, o outro extremo, onde o paciente é internado quando se agrava a sua situação; dar sugestões, passar as informações não só para a comunidade, mas também para os profissionais da saúde que atendem os pacientes; dar informações sobre eventos e sugestões ao Prefeito e decidir sobre aulas, se começavam ou não as aulas, se terminavam ou não as férias. O conselho assumiu essa responsabilidade, e o fez de maneira correta, sem ceder a pressões, que foram muito grandes, principalmente em relação a eventos. A Jornada Nacional de Literatura foi suspensa e transferida para outubro, por sugestão do conselho, para evitar a aglomeração de pessoas. Sabíamos que o vírus estava em Passo Fundo e, certamente, com essas 20 mil pessoas que iriam visitar Passo Fundo, haveria uma chance muito grande de disseminação. Esse comitê também capacitou os profissionais que atendiam na rede, no início, no atendimento ao paciente. O material sobre manejo dos pacientes em hospitais também foi o comitê que elaborou. Como se distribuía o medicamento Tamiflu a pacientes da rede? Com base no protocolo do Ministério da Saúde e no protocolo da Secretaria Estadual de Saúde, criamos uma ficha de referência. O paciente, de posse dessa ficha, 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 preenchida pelo seu médico, ia até a farmácia municipal e lá era dispensado o medicamento, de maneira precoce. Essa ficha de referência estava disponível no site da prefeitura. Qualquer profissional, sendo ou não da rede, podia preenchê-la. De posse dessa ficha e da receita médica, o medicamento era distribuído na rede. E, aos pacientes hospitalizados, de acordo com o protocolo do Ministério da Saúde e o protocolo da Secretaria Estadual de Saúde, acrescidos dos arts. 16 e 57 do Código de Ética Médica. Foi aí que surgiu aquela história de que Passo Fundo havia quebrado o protocolo do Ministério da Saúde. Não foi bem assim. Apenas nos baseamos no seguinte: uma vez preenchida, a ficha de referência do Comitê Municipal para Prevenção da Gripe — tipo um check-list, onde o médico preenchia os dados do paciente — era remetida à farmácia municipal. O art. 16 do Código de Ética Médica diz que nenhum dispositivo regimental poderá limitar a escolha, por parte do médico, dos meios a serem postos em prática para execução do tratamento, salvo quando em benefício do paciente. E o art. 57 diz que é vedado ao médico deixar de utilizar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento a seu alcance em favor do paciente. A partir do momento em que o paciente estava à sua disposição, dentro da UTI, não havia como o médico fugir de fazer aquilo que era necessário. Foi exatamente o que se fez em Passo Fundo: a partir do momento em que o paciente estava à sua disposição, o médico tinha a obrigação de usar tudo o que fosse necessário à recuperação daquele paciente. A farmácia municipal dispensou, de 28 de junho a 31 de agosto, 160 tratamentos — caixas do Tamiflu 75 miligramas, com 10 comprimidos, e 8 suspensões. O Hospital São Vicente de Paula, maior hospital de Passo Fundo, realizou 179 atendimentos — pacientes internados em UTI e pacientes atendidos em ambulatórios —; usou 115 caixas e 16 suspensões. O Hospital da Cidade, Hospital Prontoclínica, que tem o mesmo diretor, atendeu 96 pacientes com sintomas da gripe, usou 72 caixas e 2 suspensões. Essa projeção visa a mostrar apenas que a faixa etária em Passo Fundo é a mesma que em qualquer outro lugar. 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Da mesma maneira, a sintomatologia é gritante. Tanto na gripe sazonal, como gripe A, é a mesma: 100% dos pacientes apresentam tosse, febre, dispneia — esses eram os 3 sintomas que nos chamavam a atenção —, mialgia e coriza, depois iam diminuindo. Paciente que apresentasse esses 3 sintomas: tosse que não cessava com nenhum tipo de medicamento, febre que resistia a antitérmicos e muita falta de ar era considerado um caso grave. A esse paciente era dada toda uma atenção. Ele era inclusive hospitalizado e ia para a UTI, se necessário. Passo a mostrar a situação em Passo Fundo, os óbitos ocorridos e confirmados, por faixa etária. Morreram na região de Passo Fundo 22 pessoas, 11 mulheres e 11 homens; entre os residentes em Passo Fundo, 8 mulheres e 3 homens. Casos notificados e confirmados, com cura: 21 mulheres e 10 homens na região com presença do vírus H1N1. Especificamente em Passo Fundo, foi confirmada a presença do vírus em 17 mulheres e 4 homens, mas se salvaram. Usaram o Tamiflu? Todos usaram. Casos suspeitos identificados em Passo Fundo, com cura, mas sem resultado de exame ainda. Trata-se de pacientes que apresentaram a síndrome e estão curados, foram embora e já estão trabalhando: 51 homens e 45 mulheres. Especificamente residentes em Passo Fundo: 28 homens e 28 mulheres. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Agradeço ao Sr. Alberi Grando e o parabenizo pela exposição. Concedo a palavra ao próximo convidado, Sr. Celso Ramos, Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. O SR. CELSO RAMOS - Bom dia a todos. Sr. Presidente, Deputado Dr. Paulo César, agradeço por me facultar a palavra; Deputado Eleuses Paiva, agradeço o convite de estar aqui. (Segue-se exibição de imagens.) Este não é um currículo, é apenas, digamos, uma pré-qualificação da minha pessoa perante um cenáculo tão elevado quanto este. 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Não tenho a declarar nenhum conflito de interesse em relação isso, com a possível exceção de me considerar, pelo menos, um colaborador, de longa data, do Ministério da Saúde. Eu e o Dr. Eduardo Hage já trocamos e-mails. Ele já me facultou apresentações oficiais do Ministério não especificamente sobre o vírus H1N1, mas sobre o vírus H5N1. Ele sabe da minha colaboração com o Ministério nos tempos, ainda, do Secretário Jarbas Barbosa. Também me considero amigo do atual Secretário, Dr. Gerson Penna. E, mais ainda, fui professor do Ministro José Gomes Temporão, nosso residente lá no hospital, que há 2 anos foi escolhido Médico do Ano pela Sociedade de Medicina e Cirurgia, a qual já presidi. De modo que, se eu tivesse algum conflito de interesse nessa questão, seria a favor e não contra as autoridades oficiais. O Brasil sempre considerou a gripe um simples resfriado. A verdade é essa. O Dr. Eduardo sabe que no sistema de vigilância epidemiológica de gripe há coisas de 9, 10 anos, aproximadamente. Todos nós, médicos, não o Governo, só nos preocupamos com a vacinação contra a gripe em adultos há 10 anos também, mais ou menos o mesmo tempo. Em boa parte das Escolas de Medicina, o assunto gripe não é adequadamente ventilado. Digo isso com um certo conforto, porque na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro essa questão é objeto de discussão em todos os cursos. Inclusive, ontem, falei sobre isso lá. As autoridades também acham que é muito difícil realizar vigilância epidemiológica de gripe, porque a doença altamente indiferenciada, do ponto de vista clínico. Um dos poucos trabalhos que conheço é o do Dr. Eduardo Hage — não me lembro se na revista do SUS ou na revista de Epidemiologia, nos últimos 3 números. Na verdade, uma das poucas coisas que se tem aqui. A resposta internacional e do próprio Governo brasileiro tem de ser entendida, na minha opinião, na perspectiva, desde a década passada, de que teríamos uma pandemia de gripe grave e que essa pandemia, provavelmente, seria causada pelo vírus da gripe aviária, H5N1, ou por alguma variedade dele. Mais ainda, a experiência, em 1983, com a Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada por um 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 coronavírus, uma doença que surgiu subitamente na China e que pôde ser controlada, suscitou a ideia de que um controle muito intenso do que estava acontecendo poderia levar à interrupção de transmissão. O próprio Regulamento Sanitário Internacional, que foi votado pela Assembleia Mundial da Saúde em 2005 e entrou em prática, se não me engano, há um ano, tinha essa visão. Isso explica também uma certa hesitação da Organização Mundial de Saúde em declarar uma pandemia quando certamente ela já havia. Era porque a doença não se apresentava com a gravidade que se havia antecipado. Com todos os méritos que o Dr. Juvêncio Furtado já acentuou do comportamento das autoridades nesse episódio no Brasil, temos 3 pontos que, na minha opinião, merecem reparo. O primeiro é o fato de que ainda hoje, até onde sei, há restrição no acesso a exames. Os exames eram feitos apenas em 3 laboratórios de referência do Governo — o Adolfo Lutz; o Evandro Chagas, em Belém do Pará; e a FIOCRUZ, no Rio de Janeiro —, e agora isso foi estendido para o Paraná, para Minas Gerais e não sei se para o Rio Grande do Sul. Então, temos mais 3 Estados. Mas, até onde sei, laboratórios privados que já têm condição de fazer esse teste estão encontrando dificuldade em fazer o teste específico, o RT-PCR, e oferecê-lo para a população como um todo. Isso, na minha maneira de ver, está incorreto. Acho que houve também um retardo, talvez pequeno — a apresentação do Dr. Alberi Grando mostra isso —, na declaração da transmissão autóctone. Isso se explica por uma razão muito clara, algo que, em epidemiologia, se chama viés de seleção: o teste só era feito em quem tinha vínculo epidemiológico. Portanto, todos os casos positivos eram aqueles que tinham vínculo epidemiológico com o exterior. Isso era óbvio. Se eu determinasse amanhã que os testes não seriam feitos em pessoas de Brasília, mas só em pessoas de Sobradinho, por exemplo, a epidemia estaria restrita a Sobradinho e não invadiria Brasília. Isso é um viés de seleção clássico. O último ponto é a restrição de acesso ao Oseltamivir, não apenas alguma restrição que houve e que de certa forma ainda há por esse mecanismo emperrado de distribuição com pouca capilaridade através da rede pública, mas também as medidas que o Governo tomou e que impedem o acesso da medicina privada, digamos assim, a essa medicação. 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Lembro que, no Município do Rio de Janeiro, 51% da população têm acesso ao sistema suplementar de saúde. Escolhem esse sistema e pagam por ele porque não acreditam, infelizmente, que o nosso Sistema Único de Saúde seja quase perfeito. Temos um sistema de saúde muito bom — eu diria que ele é único no mundo —, mas não temos um sistema de saúde quase perfeito. Ouvi nesta Casa, há aproximadamente duas semanas, o Ministro Temporão dizer que não havia restrição à venda, mas que o Governo continuaria comprando prioritariamente toda a produção do Oseltamivir enquanto a situação perdurasse. Isso significa que o Governo objetivamente não permitirá que a droga seja acessível através das farmácias privadas, o que para mim é uma situação extraordinária. Quais são as justificativas para isso? As justificativas que têm sido apresentadas, na minha maneira de ver, não se sustentam. Em 20 de agosto, a Organização Mundial da Saúde lançou essas normas. Elas não diferem substantivamente do que o Ministério da Saúde tem dito, mas sim na facilidade ou na dificuldade de acesso. Vejam os indivíduos que têm qualquer fator de risco — esses fatores de risco estão aqui embaixo; os senhores me desculpem o diapositivo estar em Inglês, mas quis trazê-lo com o imprint, a marca registrada, da Organização Mundial da Saúde —: crianças com menos de 5 anos, idosos com mais de 65 anos, indivíduos asilados, gestantes, pacientes com doenças crônicas, imunosupressões, infecção pelo HIV etc. Não está dito de maneira alguma que indivíduos saudáveis infectados pela gripe pandêmica não devem ser tratados. Está dito que eles não necessitam de tratamento. Não há uma contraindicação a esse tratamento. Ocorre que, presumivelmente, o benefício disso não é tão grande assim. Sem sombra de dúvida, se a doença é grave ou está em progressão, é óbvio que devemos tratá-la. O Sr. Secretário de Saúde de Passo Fundo já teve a oportunidade de demonstrar isso aqui. Não vou perder tempo falando sobre o assunto. Pacientes com doença grave ou progressiva devem ser tratados. O tratamento deve ser iniciado assim que possível. Pode-se pensar em fazer uso da droga por tempo mais prolongado e com dose aumentada. Essa recomendação se dá para todos os pacientes, incluindo gestantes e crianças com menos 5 anos. 12 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 As primeiras recomendações do Ministério da Saúde eram de que a droga não poderia ser usada em crianças abaixo de 2 ou 3 anos, se não me engano. Em gestantes, fazia-se sempre — depois recuaram — uma observação de que era necessário maior cuidado. Afirmava-se que o médico era responsável pela indicação do tratamento, como se ele não fosse responsável pelo que prescreve e pelo diagnóstico que faz. Os pacientes com doença não complicada especificamente — aquilo lá é paciente com doença confirmada ou fortemente suspeitada — não necessitam ser tratados — reafirmo —, mas isso não quer dizer que não possam ser tratados. Pacientes em “grupos de risco” de doença complicada — provavelmente lá atrás isto aqui não pode ser lido — devem ser tratados com o Oseltamivir ou Zanamivir, como já foi dito. A resistência é um assunto bastante complexo. Talvez eu não tenha tempo para explicar. Esses são dados, repito, da Organização Mundial da Saúde. Coloquei isso aqui só para que se veja que a Organização Mundial da Saúde não considera isso como uma doença comum ou igual à Influenza sazonal. Isso é uma doença certamente diferente por algumas razões especiais. Não é uma doença necessariamente com uma gravidade maior, mas é outra coisa. Até o presente momento, foram detectados apenas 12 casos de resistência do vírus pandêmico ao Oseltamivir. Esses casos foram, na sua maioria, associados ao uso profilático, que implica o uso de doses mais baixas — ou seja, metade da dose —, em pelo menos o dobro do período de tempo. Portanto, expõe-se o vírus com mais facilidade a doses subterapêuticas, aumentando o tempo de exposição e facilitando o desenvolvimento de resistência. Porém, todos esses casos até agora foram isolados, ou seja, nenhum deles teve conexão epidemiológica com o outro. Não há nenhuma evidência de que esses casos estejam sendo transmitidos adiante. Isso é novidade? Não. Isso já é bastante conhecido em pacientes com gripe endêmica. Ao se iniciar o tratamento, não é propriamente infrequente que, na altura do terceiro dia, seja isolado o vírus resistente, vírus este que em seguida desaparece. 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Algo que pode estar preocupando as autoridades é a situação que surgiu na Europa e principalmente nos Estados Unidos. Na estação de transmissão de gripe de 2007 para 2008, de repente na Áustria surgiram várias amostras de vírus H1N1 endêmico — não deste novo, pandêmico — resistentes ao Oseltamivir, mantendo a sensibilidade a outras drogas. Isso foi publicado, em janeiro deste ano, no Eurosurveillance, um boletim epidemiológico da União Europeia. Em seguida, nos Estados Unidos, surgiu esta situação que aqui está. Isso se refere, até 24 de junho de 2004, ao vírus sazonal, não ao vírus epidêmico. Esse vírus sazonal H1N1, nos Estados Unidos, apresenta hoje uma resistência de 99,5%. Meu Deus, o que aconteceu? Nada demais. Isso sucedeu, mas o vírus H3N2, que circula junto com isso, tendo condições de se recombinar, submetido à mesma pressão de droga a que esse aqui é submetido, tem resistência de 0%. Ou seja, ainda que o uso de medicamento possa estar associado à resistência, ele não é obrigatoriamente seguido de resistência e nem me parece que eu possa deixar de usar uma droga quando indicada, para guardar essa reserva estratégica para um momento que eu não sei qual seja. Isso aqui é apenas para mostrar a velocidade como isso aconteceu e como pode ocorrer. Temos que ver essa tabela aqui primeiro. Essa é a mais antiga. Vemos que nos Estados Unidos, de abril de 2008 a setembro de 2008, havia apenas 30% de amostras resistentes, e já no último trimestre do ano passado e em janeiro deste ano chegou a 98%. Os senhores virão que no Brasil temos apenas 18 isolados virais, 4 amostras resistentes, naquela época do H1N1 endêmico. Esses são dados da Organização Mundial de Saúde. Óbvio que não falo pelo Laboratório Roche. Ele tem feito esforço para aumentar a produção da droga no mundo. Outro aspecto. Efeitos colaterais comuns do Tamiflu ou do Olsetamivir: náuseas, vômitos, diarreia, dor estomacal e cefaleia. Essa não é uma droga associada a um padrão de efeitos colaterais tão significativo que possa levar S.Exa., o Ministro da Saúde, a dizer que, com essa restrição, que não existe, mas que existe, na prática, nós, as autoridades, estamos impedindo a automedicação. 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 É verdade. Mas as autoridades permitem o uso de corticosteroides, permitem a venda sem receita, pelo menos ainda, de antibióticos, anti-inflamatórios, antidiabéticos orais, enfim, de uma série de drogas que têm efeitos colaterais conhecidos muito mais sérios do que esse aqui. Essa é a bula brasileira, atualizada em fevereiro de 2008. Mostra também que não há nada demais, nada de excepcional. Esses são os efeitos colaterais: náuseas, sem vômitos — isso ocorre em indivíduos que tomaram placebo nos ensaios terapêuticos, 7%, e indivíduos que tomaram o medicamento, 11%, a diferença é pequena, vômito, 3%, diarreia, 8%. Deu mais diarreia em quem tomou placebo, do que em quem tomou a droga ativa. Um efeito colateral importante que essa restrição pode ter é isso aqui. Isso é também do Laboratório Roche. A Roche adverte contra a compra de medicamento pela Internet, o que é perfeitamente possível, a um custo bem mais elevado do que o que custaria a droga no mercado, no Brasil. Mostra que é possível até comprar isso pela Internet, em português, seja em sites brasileiros, seja em sites portugueses. Creio que esse é o último. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Agradeço ao Dr. Celso Ramos e o parabenizo pela exposição. Registro a presença do Deputado Alceni Guerra, membro da Comissão, exMinistro da Saúde, integrante do Democratas, do Paraná. Concedo a palavra ao Sr. José Lúcio dos Santos, Superintendente de Vigilância em Saúde do Governo do Estado do Paraná. O SR. JOSÉ LÚCIO DOS SANTOS - Bom dia a todos. Estou aqui em nome do Dr. Gilberto Martins, Secretário de Saúde do Paraná, que, por motivo de compromisso assumido para esta data, não pode comparecer. Estou aqui numa demonstração do quanto S.Sa. também gostaria de estar presente neste momento de tão importante discussão para a saúde pública do Brasil. Quero fazer um relato muito sucinto da situação do Paraná no enfrentamento da pandemia de Influenza. Só para situar, para quem não conhece o Estado, o Paraná tem a estrutura da Secretaria Estadual dividida em 22 regionais, que cobre 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 todo o território, agrupando-o em número de municípios por cada regional, que varia de 7 até 30 municípios. E as regionais têm uma presença muito grande junto aos municípios, cumprindo papel assessor, complementar, que o próprio Estado vem desenvolvendo. Digo isso para entendermos o enfrentamento da pandemia. Depois do dia 26 de abril, quando o mundo foi sacudido com a notícia da Organização Mundial de Saúde de que algo estava acontecendo no Hemisfério Norte — México, Canadá, Estados Unidos —, iniciamos a organização de um trabalho não apenas no Governo, mas envolvendo diversos segmentos da sociedade, tanto científicos quanto outros segmentos organizados como clubes de serviços, enfim, os setores de trabalho, transporte, para discutir aquilo que nós imaginávamos e tínhamos certeza de que ia chegar. E considerando especialmente o Paraná, um Estado do Sul, cuja Capital tem a menor temperatura média entre as Capitais brasileiras, cujo inverno costuma ser rigoroso, e que concentra, na região metropolitana, um terço da população do Estado do Paraná, certamente, ao chegar a doença, considerando o vírus Influenza, mais apropriado para a disseminação em regiões mais frias, teríamos uma situação bastante crítica, considerada em relação a outros Estados do Brasil, com temperaturas bem mais altas, com maior dispersão. Por outro lado, chamava nossa atenção, naquele momento, a intensa interação com os países vizinhos, especialmente com a Argentina e com o Paraguai, o que nos colocava, então, numa situação de alerta bastante elevado. Seguramente, podemos afirmar que esse vírus, nessa andança do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul, já sofreu algumas modificações, e não sabemos exatamente em que grau. Vírus para o qual se estabeleceu uma circulação sustentável no Paraná, seguramente mais parecido ou semelhante ao vindo da Argentina, porque, quando fazíamos vínculo epidemiológico cem relação à viagem, começamos a confirmar casos no Estado do Paraná, e a maciça maioria deles tinha vínculo com a Argentina. O Paraná apresenta hoje uma situação de números que destoa dos outros Estados do Brasil, porém há que se considerar evidentemente alguns fatores importantes, como o próprio clima, como já falei — em regiões metropolitanas importantes, não só de Curitiba, mas de Cascavel, de Foz do Iguaçu, de Londrina, de Maringá, entre outras —, também a sensibilidade do serviço em notificar e 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 investigar, porque nós temos um trabalho muito intenso com os serviços de estar muito alerta na identificação de casos o mais precocemente possível. Depois, quando eu mostrar o resumo, vocês verão como anda a nossa sensibilidade em relação à notificação de casos. Outro importante fator que contribui para mostrarmos esse retrato que estamos mostrando foi a descentralização do diagnóstico, a participação efetiva do LACEN-Paraná na realização dos exames, quando foram realizados, nos últimos 30 dias, mais de 7 mil. Isso permitiu ampliarmos a busca, a procura e o acompanhando até onde o vírus estava chegando e de que forma. Isso nos permite não apenas diagnosticar os casos, mas, acima de tudo, fazer efetivo monitoramento da situação da dispersão do vírus, como, por exemplo, poder afirmar hoje, que, do total de exames positivos para o Influenza, realizados no LACEN, 84% da circulação refere-se ao vírus H1N1, e 16% ao sazonal. E também verificar que, no final de julho, as amostras enviadas ao LACEN, a positividade para H1N1 em relação aos negativos era de 60% e hoje estão em torno de 20%, o que demonstra claramente que a circulação do vírus de fato está perdendo força. Portanto, essa análise epidemiológica só foi possível fazer nesse tempo, quase em tempo real, com a efetiva entrada do LACEN na realização dos exames. Até o dia 31 de agosto, os números apresentavam-se assim: 40.093 casos notificados. Daí a percepção e a sensibilidade dos serviços de saúde em notificar a síndrome gripal. Desses, confirmamos 4.931 casos e descartamos 2.095. Infelizmente, tivemos 195 casos confirmados que complicaram e foram a óbito. Os dados demonstram também que a maior frequência desses óbitos ocorreu no final de julho, início de agosto, o que nos remete à conclusão de que a maior circulação do vírus também se deu em meados de julho. Outro fato importante nesse enfrentamento foi que o Estado do Paraná decidiu implantar mais de 80 leitos de UTIs, encaminhando aos hospitais kits básicos — respirador, monitor, oxímetro — para facilitar o enfrentamento, fazendo diariamente o monitoramento da ocupação desses leitos, tanto os gerais quanto os de UTI, para que tenhamos condições de hoje dizer que, como foi dito nesta Mesa, a procura, tanto nos ambulatórios, nas unidades de saúde, como, nos casos mais graves, que estão indo para o hospital, têm seguramente diminuído. E o 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 agravamento dos casos segue realmente o padrão semelhante a outros lugares, nada diferente, inclusive em relação à faixa etária. Quanto ao antiviral, quero de pronto afirmar que não chegou a haver falta do medicamento em nenhum momento. Porém, houve momentos de stress na Secretaria de Saúde, especialmente no final de julho, quando os casos começaram a tomar uma proporção que nos assustava. Naquele momento ainda não sabíamos se o próprio Ministério teria condição de nos repassar o medicamento na mesma proporção que os casos estavam aparecendo. Foi um momento de stress. E esse stress não ocorreu apenas na Secretaria, foi compartilhado com a classe médica, com a sociedade científica, que, num canal aberto de discussão que mantivemos, houve vários debates bastante importantes naquele momento. Mas essa apreensão vivida passou, porque, com o estabelecimento da progressão dos casos naquele momento e com o Ministério também estabelecendo uma sintonia ao nos repassar os medicamentos, deu-nos tranquilidade para enfrentar a situação, e esse stress momentâneo passou. Ajustada a isso, a versão do protocolo do dia 05 de agosto, que colocou na tarja a questão da responsabilidade médica, que não poderia ser diferente também de estar prescrevendo o medicamento, e tendo o Estado o medicamento em quantidade suficiente, do que não podemos reclamar, foi possível descentralizarmos os medicamentos a todos os Municípios do Estado, evidente que em quantidades considerando a população e o aparecimento de casos. Em alguns municípios não houve um caso até hoje, mas tem lá 2 tratamentos guardados e, se precisar, ele começa a usar enquanto pede mais para os casos que aparecerem. Então, essa descentralização ocorreu em um momento importante. Na falta do medicamento infantil, recebemos o sal para manipular e dispensar. Fizemos isso no Paraná e ainda estamos fazendo na medida em que as necessidades aparecem, porque ele tem vida útil bastante reduzida: 3 semanas em temperatura ambiente e 6 semanas sob refrigeração. Mantemos esses estoques, além dos municípios descentralizados , nas 22 regionais. Por isso eu falei das regionais, porque nenhuma delas fica mais distante do seu município do que a 2 horas de viagem. Isso facilita, dá tranquilidade ao profissional para segurar o paciente no interior, sem aquela preocupação de remetê- 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 lo para maiores centros, criando dificuldade, às vezes, até de vaga para internamento e tudo o mais. Depois que a situação se agrava, realmente, sabe-se que tem que ir para maiores centros, com melhores condições de atenção. Além do estoque central — e o CEMEPAR faz toda essa administração para nós. Desenvolvemos, como já é de praxe das Vigilâncias, não é diferente em nenhum Estado, sempre, não apenas neste momento, um trabalho de orientação quanto ao uso racional do medicamento para os vários profissionais e para a população de um modo geral. Especialmente, em relação ao antiviral, um insumo estratégico, não deve ser entendido diferente, não como um impeditivo para que seja usado quando o médico assistente entender que precisa ser utilizado — e, como já foi colocado, não vou repetir, toda a legislação que o médico tem obrigação de seguir. Daí para frente, entendemos que ter o medicamento foi de extrema importância e devemos continuar tendo o medicamento, pois vamos ter que pensar um pouco no futuro, no ano que vem. Assim como temos de buscar a vacina hoje, embora pese não sabermos em que proporção vamos vacinar, mas temos que ter essa garantia, especialmente pensando no próximo inverno. Temos o exemplo e podemos aprender muito como o vírus vai se comportar daqui para frente com o inverno no Hemisfério Norte. Temos de estar muito atentos a isso. Certamente, hoje não temos muitas respostas a diversas perguntas que nos fazem. Não podemos desconsiderar nenhum aprendizado adquirido até agora, pois não podemos esquecer que estamos diante de uma situação que nunca vivemos antes e de uma pandemia nunca vivida em tempo real e sendo acompanhada no mundo todo. Então, temos que aproveitar todo esse aprendizado. Considerando que estamos entrando agora num período mais quente, de fato, e que o vírus deve perder força, como estamos observando, devemos nos preparar, muito seriamente, para o próximo ano, para o próximo inverno. Há duas ferramentas extremamente importantes e que podem ser utilizadas, além do que é imensurável: o aprendizado do manejo clínico do paciente, em que momento, de fato, o paciente deve ser encaminhado, ir para uma UTI; em que 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 momento deve ser iniciado o tratamento; quais condições levam à complicação e tudo mais: a questão do medicamento disponível para o próximo ano e a busca incessante, incansável do Ministério da vacina para o enfrentamento do problema. Essas são algumas considerações que, de fato, queria colocar. Não tenho a intenção de me alongar. Acho importante nos colocarmos à disposição para esclarecer as dúvidas ou, porventura, dar maiores informações aos senhores. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Agradeço ao Sr. José Lúcio dos Santos e parabenizo-o pela exposição. Antes de passar a palavra ao último expositor, gostaria de registrar a presença nesta Comissão dos colegas médicos do Departamento Médico da Câmara dos Deputados. Tem a palavra o Sr. Eduardo Hage, Diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. O SR. EDUARDO HAGE - Bom dia a todos. Muito obrigado pelo convite para participar desta reunião e prestar esclarecimentos, não somente para apresentar a situação da pandemia de Influenza, especialmente como tem sido o impacto no Brasil, mas para mostrar as medidas adotadas e esclarecer alguns pontos objeto desta discussão. Agradeço ao Exmo. Sr. Deputado Dr. Paulo César o convite. (Segue-se a exibição de imagens.) Ontem, divulgamos o boletim mais recente. Como todos os senhores têm acompanhado, temos divulgado semanalmente todas as informações referentes à pandemia de Influenza no mundo e, em especial, a situação no Brasil, com dados regularmente notificados, de forma on-line, por todas as secretarias estaduais e municipais, que têm a mesma quantidade, a mesma qualidade de informação presentes no Ministério da Saúde. Como fazemos a avaliação por semana epidemiológica, nesse boletim, com dados até o último sábado, dia 29 de agosto, tivemos notificados no País 6.592 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave pelo novo vírus H1N1. Como os senhores têm acompanhado, desde meados de julho, seguindo recomendação da Organização Mundial de Saúde, têm sido monitorados 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 exclusivamente os casos com algum desenvolvimento de forma grave, bem como a atenção dada, seja para diagnóstico, seja para tratamento, àquelas pessoas que, mesmo que tenham síndrome gripal, apresentem algum fator de risco que mereça medidas específicas. Do total de casos de Influenza notificados com algum desenvolvimento de forma grave, considerando tanto Influenza sazonal, quanto Influenza pelo novo vírus, 87% representa Síndrome Respiratória Aguda Grave pelo novo vírus. Isso tem seguido o padrão, especialmente dos países do Hemisfério Sul, que iniciam gradativamente, ampliando esse percentual de casos detectados pelo novo vírus, ou seja, há uma substituição gradual da circulação viral pelo novo vírus. Como já referido aqui, a evolução mais recente em relação à pandemia em nosso País já tem evidenciado, de forma concreta e consistente, uma redução no número de casos, não somente dos casos confirmados de H1N1, como de todos os casos, naquela faixa, na coluna azul, que estão ainda em investigação, ou seja, evidenciando que não somente a confirmação de casos pelo H1N1 tem reduzido, casos graves, como também em todos os casos possíveis, suspeitos e prováveis tem havido essa redução. Isso tem refletido, em verdade, como tem sido a tendência da pandemia em nosso País nas últimas 3 semanas nos principais Estados: Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, aqueles que têm maior volume de casos; todos têm apresentado e referido também essa tendência de redução. Na distribuição geográfica, tanto em relação aos casos notificados de Síndrome Respiratória Aguda Grave, quanto em relação àqueles casos graves, especificamente pelo novo vírus, há uma dispersão bastante ampla. Isso segue o padrão de Influenza sazonal, uma das semelhanças em relação à Influenza sazonal, ou seja, maior ocorrência nesse período de inverno, maior concentração, maior impacto, tanto na disseminação, quanto em termos da ocorrência de casos graves, nos Estados do Sul, primeiro, e posteriormente nos Estados da Região Sudeste. Por exemplo, até a semana passada, tivemos 1.859 municípios com notificação de casos, mostrando não somente a dispersão do vírus, mas que o sistema de vigilância não está concentrado em alguns Estados ou em alguns municípios, mesmo aqueles de grande porte. 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Como eu fiz referência, a notificação é feita de forma on-line, por qualquer município que tenha hoje computador, acesso à Internet, o que representa a quase totalidade dos 5.564 municípios do País. Na distribuição por faixa etária o padrão apresenta uma diferença em relação à Influenza sazonal. Já tem sido referido, não somente no Brasil, como em outros países, que há predomínio, em termos percentuais, da ocorrência da Síndrome Respiratória Aguda Grave pelo novo vírus na faixa etária de adultos jovens. Entretanto, estamos falando que isso está seguindo o padrão de ocorrência de todos os casos de Influenza pelo novo vírus, ou seja, a maior ocorrência proporcional de casos graves se deve pela maior transmissão nos adultos jovens. Esse é um ponto importante porque não necessariamente está significando maior risco de ocorrência de formas graves, muito menos o maior risco de óbito na população de adultos jovens. Esse é um ponto importante para discutirmos: fator de risco , ou seja, o que leva a uma probabilidade de desenvolver forma grave e o que tem a maior probabilidade de levar ao óbito. Em relação aos sintomas apresentados tanto pelo novo vírus quanto pelo vírus sazonal para aqueles casos graves, há uma semelhança em relação a esse padrão observado, mas quando observamos algumas situações, em especial em adultos jovens que têm sua situação agrada e mais especificamente aqueles que requerem ventilação, por exemplo que vão para a UTI, alguns quadros são observados de forma diferente como tem sido relacionado para a Influenza sazonal. Por exemplo, a maior ocorrência em algumas situações de uma pneumonia primária, causada especificamente pelo vírus Influenza, e não necessariamente associada com a infecção bacteriana, que ocorre muitas vezes associada na Influenza sazonal. Esse padrão tem-se diferenciado em algumas situações e requerem abordagem especial para os casos, em especial para os adultos jovens. Entretanto quando vemos no contexto populacional os sintomas apresentados são indistintos. Não é possível pela sintomatologia distinguir quem tem a Influenza sazonal e quem tem a Influenza pelo H1N1, exceto, como eu referi, quando defronte ao paciente na UTI com quadro grave evoluindo para pneumonia primária e com algumas características, muito provavelmente, trata-se do novo vírus. 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 No último informe, conforme a divulgação de ontem, já estão registrados 657 óbitos em todo o País. Aqui vemos a distribuição. Trabalhando com taxa de mortalidade, como sempre, o parâmetro para avaliar como está sendo o maior impacto da mortalidade tem que ser relativizado pela população. Obviamente não é possível comparar Sergipe, pelo total da população, com o Estado de São Paulo ou o Rio de Janeiro. Para medir o impacto é necessário ver o número de óbitos em relação ao total da população. Isso segue, de forma geral, aquele padrão geográfico que vimos com a maior ocorrência da pandemia nos Estados do Sul, seguido da Região Sudeste, e dentro dessas regiões alguns diferenciais, como foi apresentado aqui pelo Lúcio em relação ao Estado do Paraná, características climáticas, bem como características em relação à precocidade do diagnóstico laboratorial. Isso tem trazido algumas diferenças dentro das regiões em relação aos Estados. O mesmo vale para compararmos como está o impacto da pandemia no Brasil em relação a outros países. Portanto, se formos comparar o número de óbitos em relação ao total da população brasileira, o que se traduz pelo coeficiente de mortalidade, representa 0,34 óbitos por cada 100 mil habitantes, dentro de um padrão que tem sido observado para os países do Hemisfério Sul, com grande parte já saindo do pico da pandemia, ou alguns já com esse pico bastante distante. Vamos discutir agora, muito rapidamente, alguns fatores de risco implicados seja na ocorrência de casos graves, seja na ocorrência de óbitos. Esse é um ponto relevante no que diz respeito à discussão da indicação do tratamento. Esse é um ponto não somente pautado pelo Ministério da Saúde do Brasil e pela a Organização Mundial da Saúde, como também pelo Ministério da Saúde e pelas as Secretarias de Saúde dos Estados Unidos, do Canadá, entre outros países. Temos avaliado regularmente, semanalmente, quais os possíveis fatores de risco implicados na ocorrência da gravidade, relacionados ao novo vírus, bem como comparando com a Influenza sazonal e em relação à letalidade. O que temos observado não é diferente dos padrões registrados em outros países. Os senhores verão mais adiante que, no monitoramento dessa pandemia, desde o primeiro dia, quando se formou a ocorrência da emergência, não quando se declarou a pandemia, em 25 de abril, regularmente estamos acompanhando as 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 informações, os relatórios e boletins de todos os países. Isso com base diária, de manhã, de tarde e de noite, o que permite avaliar que esse é o padrão observado em todos os países, seja para a ocorrência de casos graves, seja para a ocorrência de óbito. Tudo que incluímos no protocolo, não foi agora, mas desde o primeiro dia, e o fator de risco é considerado para efeito de diagnóstico, de tratamento, tem sido constantemente comprovado que esses grupos efetivamente são mais vulneráveis, pessoas que tem comorbidade, doença pulmonar crônica, doenças cardiovasculares, imunossupressão, seja adquirida, seja por uso de medicamentos, entre outros. Faixa etária. Nessa caso há grande discussão de que, por exemplo, crianças são menos acometidas. Claro que elas são menos acometidas pela forma grave porque elas estão sendo menos acometidas em relação à transmissão da doença quando comparada com o adulto jovem. Mas, como eu referi, quando vamos avaliar o risco em crianças, em menores de 2 anos, em alguns países em menores de 5 anos, o risco de desenvolver a forma grave ou de vir à óbito em crianças é maior do que em adultos jovens. Esse é um ponto que as publicações mais recentes de todos os países têm evidenciado. Especial atenção vai continuar sendo dada às grávidas. Diversos relatórios da Organização Mundial da Saúde de vários países têm evidenciado que as grávidas têm representado fator de risco para o agravamento e/ou para óbito. Por exemplo, em relação ao H1N1, na primeira coluna, de 2.684 mulheres potencialmente em idade fértil, 23% eram gestantes, ou seja, dentre o grupo de mulheres em idade fértil quase um quarto desse grupo era de gestantes que desenvolveram a doença. Isso, seguramente, quando se for calcular risco, comparando com a população em geral, tem uma dimensão muito maior, mostrando que a gestação, mas não isoladamente a gestação, temos feito algumas análises também que evidenciam que especialmente gestação com outro fator de risco aumenta mais a probabilidade seja de agravar, seja de desenvolver forma grave. Entretanto, isso não significa que a maior proporção das mulheres gestantes que desenvolvem a doença vão ter forma grave ou vão morrer, de maneira alguma. A letalidade entre as mulheres gestantes que têm forma grave e que vão à óbito está em torno de 10%, semelhante ao que tem sido observado para os demais com 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 forma grave. Estamos falando daqueles quadros graves, não do total de casos de Influenza. Em relação aos óbitos há pequenas diferenças em relação ao fator de risco que se expressa mais na gravidade e no óbito. Isso tem seguido também um padrão semelhante em outros países. O mesmo vale para gestantes, que têm peso importante em termos de constituir fator de risco isoladamente ou associado a outros fatores de risco. Isso tem sido reportado, por exemplo, na Comunidade Europeia, o Eurosurveillance representado aqui, um dos boletins semanais da Comunidade Europeia, também tem se debruçado sobre esse aspecto. E o que tem sido feito? Todos têm acompanhado que o Sistema de Vigilância Epidemiológica da Influenza já funciona desde 2000 e tem permitido monitorar não somente a ocorrência de casos graves mas a circulação viral em todo o País. Isso tem permitido — outra forma de olhar a pandemia — que nas unidades sentinelas, que em geral são ambulatórios, muitos deles de pediatria, também se evidencia essa redução na procura de serviços por síndrome gripal em geral, seja por H1N1, seja por outros vírus respiratórios. O percentual nesse sistema, nessa rede sentinela, são coletadas amostras daqueles que apresentam alguma sintomatologia e são examinados nos laboratórios estaduais. Esse sistema não é restrito para a circulação viral aos 3 laboratórios de referência nacional e a outros estaduais. Esses exames são realizados para a circulação viral como um todo, nos laboratórios centrais de todos os Estados, com as amostras positivas, por exemplo, da Influenza, que são encaminhados para os laboratórios de referência. E tem sido demonstrado, obviamente, maior predominância do H1N1. Mas como estão monitorando todos os vírus respiratórios é importante lembrar que não é somente o vírus H1N1, o novo vírus e o vírus Influenza que estão circulando, outros vírus estão circulando e provocam também quadro gripal. Eventualmente, complicam e podem vir a ser submetidos a tratamento. Daí, vamos discutir mais adiante o cuidado na indicação do tratamento. Já temos quase 14 mil 700 amostras examinadas nessa rede laboratorial. Aqui, a proporção de positivos para o novo Influenza é menor do que vimos em 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 relação ao total de casos, porque aqui estão sendo considerados não somente o Influenza, mas outros vírus respiratórios. Por exemplo, no Brasil como na Argentina e no Chile em crianças há em muitas situações predomínio, mesmo agora, da circulação de outro vírus respiratório que, inclusive, é muito mais grave em crianças pequenas, como o vírus sincicial respiratório. Ou seja, não é somente o vírus Influenza A que está circulando, ainda que ele predomine. Esse também é um dado importante. Aproximadamente metade das amostras que chegam ao laboratório não tem detecção alguma de agente infeccioso. Isso diz respeito à coleta e encaminhamento de amostras fora da indicação. Ou seja, não tem um quadro gripal bem caracterizado. As amostras estão sendo coletadas e examinadas, o que necessariamente implica aumento de sobrecarga dos laboratórios de referência para examinar aqueles que teriam indicação. Então, esse é um ponto importante que tem sido trabalhado junto às secretarias estaduais e municipais de saúde. Quando verificamos somente os exames de biologia molecular, PCR, que dá o diagnóstico específico para o H1N1, temos essa proporção evidenciando, mais uma vez, a alta circulação e a predominância da circulação do novo vírus em relação aos demais vírus respiratórios. Entretanto, aqui estamos considerando aqueles que vão para a unidade de referência para teste de biologia molecular. Qual foi a resposta? Vou passar muito rapidamente. Isso foi apresentado já aqui pelo Sr. Ministro há 3 semanas. Vou destacar somente alguns pontos para discussão. Como já referido, desde o dia 24, quando foi emitido o comunicado de emergência da saúde pública, ainda no nível 4, o gabinete foi acionado. Desde então, diariamente, realizam-se reuniões nesse gabinete para acompanhamento da situação no mundo, no Brasil, adoção das medidas e aperfeiçoamento das medidas que vêm sendo adotadas desde então. Esse gabinete tem uma constituição interministerial. Uma das primeiras medidas foi propor crédito suplementar para aquisição de medicamentos de forma adicional, equipamentos de proteção individual, bem como de aporte à rede de atenção. 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 No segundo momento, quando passa do nível 4 para o nível 5, começa a se detectar os primeiros casos no Brasil. Observa-se um avanço da doença em direção ao Hemisfério Sul, mas ainda em nível bastante inicial com poucos casos. Buscavam –– e naquele momento era indicado, como todos os demais países estavam adotando por recomendação da OMS –– medidas de contenção. Ou seja, se não evitar, reduzir ao máximo a introdução de forma disseminada do vírus no País. Essa medida foi adotada durante o período inicial da pandemia não somente para o Brasil. Todos os países adotaram e tiveram alguns resultados nesse retardamento da introdução do vírus em cada País. Quando se declara a pandemia, e isso ocorreu em meados de junho, já havia um novo cenário. Obviamente, a transmissão estava disseminada em vários países. Aqueles que não tinham ainda detectado ou não estavam tendo capacidade ou não tinham um volume muito grande de pacientes, de pessoas procedentes das áreas afetadas, mas era uma questão de tempo, todos os países da América do Sul, por exemplo, passaram a ter um grande número de casos, inclusive o Brasil. E o temor que se tinha inicialmente de uma letalidade, muito mais elevada do que se observou posteriormente, não foi confirmado. Nesse momento, até julho, quando a OMS e todos os países deixaram de considerar todos os casos de síndrome gripal, a letalidade estava girando em torno de 0,5%. Isso em relação a todos os casos de Influenza. Os desafios e a manutenção de algumas medidas de contenção, mas já adotando medidas de mitigação, em especial priorização de grupos com fatores de risco e pessoas que tinham algum sinal de agravamento para objeto da atenção, visando evitar o óbito. Isso também de acordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde, seguida por vários países. O protocolo é um ponto importante. Desde o primeiro momento as medidas de prevenção e controle vinham se adequando à situação mundial. Isso é natural em qualquer sistema de vigilância. Em especial, como foi falado aqui, em um momento em que se está vivendo uma pandemia em tempo real, é necessária a adequação das medidas, o que se caracteriza pela flexibilidade do sistema. Não é porque necessariamente as medidas estão erradas num ou em outro momento. A avaliação a posteriori sempre é fácil para todos nós, mas à medida que se está 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 acompanhando a evolução de uma doença desconhecida antes, não de todo, obviamente, mas com aquelas características que supõe maior letalidade, e à medida que se vai conhecendo mais, como está ocorrendo em outros países, como está sendo a transmissão no Brasil, é natural, e todos os sistemas, não somente o brasileiro, vão adequando os seus protocolos. Entretanto, algumas medidas estão constando desde a primeira versão. Trago um ponto importante para esclarecermos. A indicação do tratamento com antiviral somente para caso grave –– é bom frisar –– nunca constou do protocolo brasileiro para o enfrentamento da pandemia. Desde o primeiro protocolo já se previa e se indicava –– isso está mantido até hoje –– para aqueles que têm fator de risco, mesmo que tenham somente síndrome gripal, sem alguma complicação, estavam com indicação do tratamento a partir, obviamente, da indicação médica. Isso é bom frisar porque em muitas situações temos ouvido que a indicação do tratamento do Oseltamivir para pessoas que tinham fator de risco, mas não tinham forma grave, só veio recentemente. Isso não corresponde à realidade. Todos os jornalistas que têm acompanhado a situação têm lá nos seus arquivos, e podem verificar, qual foi o primeiro protocolo. E consta exatamente isso. Esse é um ponto importante para esclarecermos o que significa não restrição, mas indicação do tratamento. Não é somente uma prerrogativa do Ministério da Saúde do Brasil. Vou dar alguns exemplos. O CDC dos Estados Unidos, Centro de Prevenção e Controle de Doenças, de Atlanta, é o órgão correspondente ao nosso nos Estados Unidos, que a grande maioria dos pesquisadores, profissionais da área, tanto de saúde pública quanto da área de medicina, têm utilizado como referência para várias situações. Olhem o que está na página do CDC em relação à indicação do tratamento: exatamente igual, só muda a língua. Aqui está em português, ali, em inglês. Não há diferença alguma. Isso pode ser acessado agora na página do CDC em relação à indicação para formas graves e em relação para quem tem fator de risco. Canadá, idem. Temos aqui todo o material. Isso pode ser acessado na página. Tenho cópia aqui para distribuir depois a todos os senhores. Consta a indicação do Oseltamivir para casos graves e casos com fator de risco, independente da gravidade. A OMS, Organização Mundial da Saúde, também faz a mesma 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 recomendação. Isso já existia desde antes e no dia 21 foi reiterado a indicação do tratamento para casos graves e a indicação para quem tem fator de risco, mesmo que não tenha sinal algum de agravamento. Vários outros países adotaram essa indicação. Portanto, não foi somente o Brasil que cumpriu e vem cumprindo essa recomendação. Vários países. Estamos agora com a missão do CDC aqui. Estamos numa atividade conjunta com um dos responsáveis pelo manejo discutindo a pandemia. As semelhanças das medidas de recomendação adotadas pelo CDC são muito grandes em relação ao que é recomendado pelo Ministério da Saúde do Brasil, o que não quer dizer que protocolo ou o que seja adotado em Estados dos Estados Unidos sigam rigorosamente isso. Essa é a grande diferença. Os Estados Unidos têm uma estrutura federalizada diferente da nossa. Os Estados têm protocolos específicos, não cumprem necessariamente o protocolo do CDC. E, mais ainda, nem sempre o protocolo é seguido pelos profissionais de saúde. O que consta do protocolo do CDC –– temos cópias tanto do CDC quanto do Canadá –– pode ser evidenciado depois. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Eduardo Hage, V.Sa. dispõe de 1 minuto para a conclusão. O SR. EDUARDO HAGE - Ok. Antes, na fase de contenção, a recomendação era para que fossem internados aqueles que pertenciam ao grupo de risco para agravamento. Em todos os casos, suspeitos ou confirmados, como eu disse, era mantido o tratamento num primeiro momento. A primeira mudança em relação ao tratamento aconteceu quando se passou da fase de contenção para a de mitigação. Antes, repito, os poucos casos para os quais havia indicação de tratamento, independentemente de ter ou não agravamento, de ter ou não fator de risco, eram tratados. A partir do momento que se adota a medida de mitigação e de acordo com a recomendação da OMS, a indicação passou a ser o tratamento de quem tinha síndrome gripal e algum fator de risco ou sinal de agravamento. Mais uma vez reafirmo que o fator de risco, independentemente de ter ou não agravamento, desde o primeiro dia consta do protocolo. Isso pode ser verificado na página do Ministério. 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 As outras medidas de distanciamento social gradativamente foram adaptadas. A terceira mudança diz respeito à realização dos exames laboratoriais. Quando a doença já estava disseminada, todos os países passaram a adotar a realização do exame PCR somente para pacientes que apresentassem fator de risco. E é isso que vem ocorrendo atualmente. Em relação à flexibilização do tratamento. Na última semana de julho, ocorreu uma discussão no Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde — CONASS e entendeu-se que para os casos graves –– isso é objeto de publicação recente da OMS –– seria necessário prorrogar o tratamento, que antes estava restrito a 5 dias, de acordo com a indicação. Houve mudança tanto na dose quanto no tempo de tratamento, que foi prorrogado para os casos graves. Essa flexibilização foi entendida como necessária. Duas semanas depois, a OMS também registrou essa medida, mas não em relação a incluir fator de risco, porque isso já estava incluído desde o primeiro dia. A rede laboratorial existente já foi referida aqui. Além dos laboratórios de referência nacional, há 3 laboratórios estaduais. Isso para uma restrição importante. Não existem kits e insumos o suficiente para se conseguir o diagnóstico em um laboratório de uma hora para outra. O Paraná, primeiro Estado a introduzir o exame, teve de aguardar aproximadamente 1 mês para a chegada dos insumos. Salvo engano, foram 68 insumos para a realização desse tipo de teste. São poucos os produtores mundiais. Tratamento e vacina. Isso já é do conhecimento de todos. Tínhamos matériaprima para 9 milhões, que já está sendo transformada em cápsula. Além disso, há a aquisição adicional de 800 mil tratamentos adultos e mais a transformação para a solução pediátrica, mas lembrando que a utilização é de acordo com o protocolo. Em relação à vacina, podemos discutir adiante. No que diz respeito ao enfrentamento da próxima pandemia, o Brasil, todos sabem, tem o Instituto Adolfo Lutz, que, em parceria com outras instituições, já está realizando os testes clínicos para a produção da vacina. Ela será aplicada para proteger, mais uma vez, os grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento da forma grave. Assim tem sido preconizado pela Organização Mundial da Saúde. E, em reunião recente, o CDC também estabeleceu isso no seu protocolo. 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 As restrições ao uso do oseltamivir são cumpridas de acordo com o estabelecido na literatura. Cito alguns estudos. Já foi referido aqui que a resistência existe também para um dos vírus sazonais H1N1 nos Estados Unidos e na Comunidade Européia. Tínhamos somente nesses 4 países, mas agora já são 12 casos de detecção de vírus resistente ao oseltamivir. Já disponibilizamos aproximadamente — esse valor é da semana passada — 1 milhão de tratamentos para todos os Estados. Vou dar 2 exemplos. Ao Paraná já foram enviados 133 mil tratamentos, enquanto o acúmulo de casos com indicação é de 11.802. Esses são dados acumulados. Ainda que se acresçam a esse montante os que apresentam fator de risco, seguramente esse número suplanta, e muito, o de eleitos para tratamento. No Rio Grande do Sul ocorreu o mesmo. Foram enviados 132 mil tratamentos, enquanto o número de casos era de 2.800, até semana passada. Ou seja, a quantidade que tem ido para os Estados mais afetados supera, e muito, o número de casos a serem tratados, bem como casos outros, como os de fator de risco, que têm indicação de tratamento. Comunicação de risco. Uma série de atividades. Isso já foi apresentado. O que estamos fazendo está de acordo com a Organização Mundial da Saúde. O que consta no protocolo é exatamente o que a OMS recomenda. Para enfrentar a segunda onda, temos a aprovação de crédito suplementar. Isso já está sendo encaminhado. Haverá aquisição, por exemplo, de mais medicamento para suporte, em especial para produção dessa vacina, que tem um custo bastante elevado. Daqui a 2 semanas, vamos ter oportunidade de discutir com todos os países das Américas que medidas eles estão adotando e como estão se prevenindo já para a próxima fase, especialmente os países do Hemisfério Norte e, posteriormente, os países do Hemisfério Sul. Temos, portanto, alguns desafios ainda atuais e que devem estar presentes para uma próxima pandemia. Primeiro, a superlotação de hospitais. Há a necessidade de se ter, efetivamente, uma organização de serviços. Casos leves devem ir para unidades básicas de saúde. Deve haver garantia de atendimento ágil a pacientes com caso grave. Quanto mais se organizar a atenção, mais facilmente só serão indicados para internação aqueles casos que requerem a internação. 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O tratamento de gestantes tem sido objeto de um cuidado especial, sim. Isso acontece em parceria com a Sociedade Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia. A comunicação de risco é um ponto importante para melhorarmos ainda mais a capacidade de comunicação, de informar adequadamente. Entre os desafios futuros, tudo indica, está a segunda onda da pandemia. Não é 100% certo que ela ocorrerá, mas todos os países estão se preparando para isso. Tendo em vista que ela vai surgir no Hemisfério Norte muito proximamente, a forma como vai se desenhar essa onda vai ser objeto de acompanhamento diário. Mas há alguns pontos que não estão muito claros: quais vão ser as características dessa segunda onda? Haverá a mesma transmissibilidade? Terá o mesmo potencial para gerar casos graves e a mesma letalidade? Podem ocorrer modificações que façam com que as medidas até então adotadas tenham diminuída a sua eficácia, em especial em relação ao uso da vacina e do antiviral? Isso diz respeito à indicação tanto de um como de outro, de acordo com a recomendação da OMS, para aqueles grupos mais vulneráveis, que devem obedecer à proteção mais imediata para evitar casos graves e óbitos. Estou disponível para discussão. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Agradeço ao Sr. Eduardo Hage e o parabenizo pela exposição. Antes de passar a palavra ao autor do requerimento, o nobre Deputado Eleuses Paiva, do DEM de São Paulo, convido-o para assumir a presidência da Mesa, como autor do requerimento. (Pausa.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Eleuses Paiva) - Bom dia a todos. Eu gostaria de cumprimentar os colegas que participaram desta Mesa, o Secretário de Saúde de Passo Fundo, Rio Grande do Sul; o representante do Secretário de Estado de Saúde do Paraná; o Dr. Celso; o Dr. Juvêncio; e o representante do Ministro, Dr. Eduardo Hage. Sinto-me extremamente honrado de compartilhar esta reunião com o Dr. Paulo César e mais 2 brilhantes ex-Secretários de Estado de Saúde: Dr. Germano Bonow, que sempre vem nos ensinando, e Dr. Jofran Frejat, com quem sempre aprendi muito, bem como com um ex-Ministro da Saúde, que, como o Deputado 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Paulo falou, é nosso eterno Ministro da Saúde. Trata-se de pessoa de gabarito, por todos nós do setor de saúde extremamente reconhecido. Serei extremamente breve. Fui autor do requerimento, mas, na realidade, represento todos os senhores que, em conversas informais, sempre demonstraram preocupação com o momento que estamos vivendo. Não queria nem falar como Deputado, porque na última semana senti preocupação muito grande por ser Deputado de um partido que não é da base do Governo. Quero dizer que não existe nenhum gesto político. Falo muito mais como médico. Até porque, quando vim para esta Casa — compartilho isto com os 4 membros da Comissão de Seguridade Social —, passei a trabalhar muito mais pelo “PS” do que pelo meu partido. O “PS”, na realidade, é o “Partido da Saúde” e está promovendo este debate sem qualquer outra relação político-partidária. Quero cumprimentar muito o Juvêncio, da Sociedade Brasileira de Infectologia — SBI, que desde o primeiro momento dessa pandemia sempre esteve presente. Cumprimento o Ministério da Saúde, que nos deu condição de ter os melhores especialistas ao nosso lado, para procurarmos a melhor estratégia. Todos nós estamos aprendendo muito. Não estávamos preparados para a discussão desse novo vírus. E foi baseados nisso que tivemos a ideia de trazer ao debate Passo Fundo. Depois quero ouvir outros Parlamentares, mas, a meu ver, Passo Fundo tomou uma medida extremamente ousada, um pouco diferente do que estamos acostumados a ver no cenário. Os dados são extremamente animadores, pelo que pude observar. É uma experiência, para todos nós, muito rica. Quanto à dispensação do Tamiflu, eu estava conversando com o Deputado Germano Bonow, com o Ministro Alceni e com o Deputado Jofran. Com o Paulo eu falei menos sobre isso. Todos nós temos recebido, demais, nos nossos e-mails, uma discussão sobre a dificuldade do acesso à dispensação de Tamiflu. Outro dia eu estava fazendo uma lista. Ontem tive a oportunidade de jantar com 4 prefeitos de cidades pequenas do interior. Todos eles me relataram a dificuldade de acesso ao Tamiflu ou a doses suficientes. Alguns deles, aliás, não tinham em estoque o Tamiflu. O que nós podemos observar é que normalmente isso 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 ocorre com cidades menores. E eu estava fazendo um ranking. Queria saber do Ministério e do representante do Secretário do Estado do Paraná se a política é ampliada a todo o território. Há políticas estaduais diferentes. As cidades de pequeno porte estão tendo dificuldade de acesso, talvez pela estratégia montada pelo Ministério de atendimento a certos núcleos dentro do Estado. Alguns setores teriam maior acesso à droga. Também não tenho dúvida dessa dificuldade, até porque nós vemos a presença de Tamiflu no mercado paralelo. Eu, particularmente, sou do Estado de São Paulo. E só existe mercado paralelo quando se tem falta do medicamento. Do contrário, não teríamos um mercado paralelo de Tamiflu. Há outro fato para analisarmos, em relação ao qual ouvi recentemente algumas opiniões da sociedade. O Presidente da Casa, juntamente com o Primeiro Secretário, encaminhou um ofício solicitando Tamiflu para o Serviço Médico da Câmara dos Deputados. Houve uma grande revolta da população, que afirmou que esta Casa teria benefícios mais uma vez se obtivesse o Tamiflu. Ao ver essa revolta, a mim só surgiu uma única conclusão: se as pessoas estão revoltadas com a possibilidade de ter aqui na Casa é porque elas não têm do lado de fora. Do contrário, não teriam por que se revoltar. O mais lógico é que houvesse a dispensação a toda a sociedade. Estou vendo aqui 2 colegas que trabalham na Câmara dos Deputados. Só ocorreu isso porque, na realidade, temos de admitir, a sociedade não está se sentido contemplada com a dispensação e imaginou que, se tivéssemos aqui na Casa, nós realmente teríamos privilégio em detrimento de toda a sociedade, com o que também não concordo. Estava conversando com o Juvêncio e com o Celso, dois infectologistas que são referência para nós nas suas especialidades. Provavelmente, estamos vivendo 2 momentos. Um momento em que estamos tendo uma descendência, os números comprovam isso, uma diminuição de casos e, provavelmente, estamos no final de um ciclo. Mas existe um outro grupo que diz que teríamos só uma sazonalidade, provavelmente no ano que vem, no próximo inverno teremos um segundo ciclo. Estamos tendo essa diminuição, mas eles estão antevendo um segundo ciclo, vindo 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 do Hemisfério Norte, do inverno daquele Hemisfério. E aí, talvez, haja uma segunda onda. Tanto num caso como noutro, a única preocupação que quero compartilhar com os colegas é a nossa dificuldade de saber quais as estratégias que vamos adotar. Vejo a estratégia das vacinas, que está em discussão — é uma pena que o nosso colega Isaías Raw não esteja presente. Nesses dias, quando tenho falado com a imprensa, sempre aparece a seguinte pergunta: Como vai ser a vacinação? Porque nós já sabemos que não tem vacina para todos. Então, aproveito para perguntar qual será a lógica, se é que já foi trabalhada., Se não foi, vamos trabalhar essa ideia. Qual vai ser a lógica de vacinação, já que não tem para todos? Como vamos fazer essa estratégia? Até porque, o Deputado Jofran Frejat estava falando, a grande novidade que temos é o adulto jovem. Fosse a gripe antiga, estaria fácil pensarmos quem seriam as populações para procurarmos a vacinação. Como temos um fato novo, essa é a estratégia e ela tem de ser muito debatida. A mesma pergunta faço ao Ministério: como o Ministério está pensando a dispensação? Até porque precisamos ter a clareza de que estamos aprendendo, mas precisamos evoluir. Se tivermos o segundo ciclo, temos que discutir um avanço em cima do que já fizemos no passado. Preocupa-me muito, e aqui terminarei a minha fala, quando falamos de rede hospitalar. Acho que fazemos uma hipocrisia muito grande. Vejo o Deputado Jofran Frejat se posicionando nas Comissões, falando forte. Fazemos uma hipocrisia muito grande quando falamos que temos as unidades de terapia intensiva prontas, adaptadas para receber. Estamos falando de síndrome aguda respiratória. Isso, infelizmente, é uma grande mentira para a sociedade. Nós não temos unidade de terapia intensiva nem sem a epidemia de H1N1. Nós não temos. Essa é a realidade do País. Nós temos saúde subfinanciada no País. Temos uma crise mesmo sem o problema que enfrentamos, da pandemia e da endemia. Vamos admitir que a saúde é subfinanciada e vamos conseguir recurso. 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O Deputado Jofran Frejat lembra da época do INAMPS. O financiamento do INAMPS, Deputado Jofran Frejat, era 30% da Seguridade Social. Estou falando apenas em âmbito federal. Hoje, seriam 120 bilhões. O Governo Federal aplica 55 bilhões na saúde. Temos menos da metade do valor que deveria ser aplicado pelo Governo Federal. Isso tem de ser aberto para a população. Se queremos enfrentar essa crise e se acreditamos que temos condições, devemos fazê-lo. Infelizmente, o Ministério não poderá fazer um grande milagre se não modificar a política de financiamento à saúde pública no País. Muito obrigado aos senhores debatedores. O Celso já está querendo fazer alguma pergunta. Quero somente pedir para ele um pouco de tempo. Passarei a palavra aos Parlamentares, para, a seguir, realizarmos um debate entre todos. Com a palavra o Deputado Jofran Frejat. O SR. DEPUTADO JOFRAN FREJAT - É a minha vez. Sr. Presidente, senhores expositores, caros colegas, com esses dados que meu caro Deputado Eleuses Paiva apresentou, de menos da metade dos recursos que vinham do INAMPS — e eu estava naquela época já no INAMPS, acompanhando —, nós entendemos que vamos ter de tratar a doença pela metade também. Não precisamos fazer mais nada. O dinheiro é esse, o preço do remédio não mudou. Mas eu queria trazer umas preocupações. A Organização Mundial da Saúde, e espero que ela esteja errada, há pouco tempo afirmou que aproximadamente 30% da população mundial iria ser afetada pelo vírus Influenza A (H1N1), o que corresponderia a 2 bilhões de pessoas. Vamos calcular o que foi dito. No Brasil se espera no mínimo 20% e no máximo 30%, o que iria dar em torno de 40 milhões de pessoas. Ao levarmos em consideração Estados Unidos e Inglaterra, onde o índice de mortalidade é o menor até agora, indefinido, em torno de 0,4% a 0,5%, nós teríamos de 7 a 8 milhões de mortos por essa gripe. Aqui no Brasil, considerando que fossem 40 milhões de pessoas, 20% da população atingida, considerando esse percentual, o índice de mortalidade é 36 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 absolutamente inaceitável. Aproximadamente, no Brasil, está em torno de 1%. Está maior do que lá. Aliás, quero até conferir um dado aqui com o Dr. Hage. Ele disse que foram notificados 6.592 casos, tendo havido 657 óbitos. É isso? É um percentual altíssimo. Aqui dá 10%. Dez por cento é inaceitável, não é verdade? Pois bem, o que me parece? Nós verificamos, observando as exposições, que o índice de resistência ao antiviral é baixo. Qual é o risco maior que nós temos? Ter um número “x” de pessoas com resistência ou ter inúmeros mortos porque nós não usamos o medicamento. A outra perspectiva é a seguinte: não há medicamento suficiente para distribuir à população. Isso me parece relativamente claro nas áreas mais periféricas dos Estados. Nas pequenas cidades eles não têm essa distribuição fácil. O que deve acontecer, também, com a vacina, porque não vai ter vacina para todo mundo? Nós temos de colocar isso claramente. Temos de pegar o grupo de risco. Mas nós temos de ser claros. Não podemos esconder as coisas. Temos remédio suficiente? Não. Então, vamos usar o remédio apenas para aqueles pacientes que têm sintomatologia grave, definida como vírus Influenza A (H1N1) para que nós, médicos, não fiquemos numa situação complicada. Chega um paciente e nos diz: Estou querendo o remédio Tamiflu. Não posso passar, não adianta, você não tem aquele elenco de sintomas. Se fosse o meu caso, como doente, eu iria apertar o médico: Ah, doutor, tenha paciência, mas eu quero. Aliás, temos informação de que, em alguns Estados que fazem fronteira com outros países, os Secretários de Saúde estão comprando medicamento lá fora e trazendo para cá. Talvez, essa seja a razão de ter baixado muito a mortalidade em alguns Estados. Então, precisamos ser muito claros quanto a essas questões. Em Medicina, existe a mentira caridosa, muito conhecida. Quer dizer, o indivíduo está morrendo e se diz a ele: Você vai melhorar, o que é isso? Nós vamos recuperá-lo disso daí. Mas numa situação dessa, quem tem filho, quem tem parente não quer saber, aperta o médico. O médico acaba sendo a última figura que ele vai colocar contra a parede. 37 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Então, é preciso ficar claro. O Ministério da Saúde precisa informar, pelo menos, para as autoridades de saúde, para os conselhos regionais, para as autoridades de associação médica: Não temos medicamento suficiente ou temos e estamos guardando para determinado momento. Em segundo lugar, esse foi um teste para o Sistema Único de Saúde, que está sendo precarizado há não sei quantos anos. E o teste mostrou que realmente não temos uma rede de distribuição eficiente. Em qualquer lugar, em qualquer outro país, compra-se Tamiflu na farmácia, com a receita médica, evidentemente. Não é como comprar aspirina, AAS, dipirona, etc. Com a receita médica, vai lá e compra. Qual é o problema? Por que essa prioridade apenas para o Governo? O Governo não é dono da minha saúde. Quem cuida da minha saúde sou eu, o profissional que eventualmente cuida de mim e minha família. Daqui a pouco estaremos com a “SAUDEBRAS”, haverá mais uma “bras” para resolver essas questões. Essas preocupações estão levando, pelo menos a classe médica, a uma situação extremamente desconfortável. Sou cirurgião, não sou infectologista, mas é grande nossa experiência com pacientes graves que tiveram bacteremia, viremia e septicemia. Conhecemos isso bem. Sabemos que se não utilizarmos o medicamento que impede a reprodução viral na fase inicial, na fase final não se conseguirá impedir. Isso acontece também com a bactéria, é a mesma coisa. É uma guerra. Enquanto se consegue dizimar o primeiro batalhão, ele não se reproduz. Mas depois que o exército invadiu não há antiviral que resolva. O doente vai desenvolver uma viremia, vai para a UTI, vai para o respirador, o que encarece o tratamento, vai morrer de pneumopatia grave, e assim por diante. Essas coisas precisam ficar claras para que possamos encontrar uma saída. Os médicos estão numa situação extremamente desconfortável. Obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Eleuses Paiva) - Parabéns, Deputado Jofran Frejat, sempre extremamente objetivo. Cumprimento-o pela explanação. Cirurgião é assim mesmo. Com a palavra o Deputado Germano Bonow. Só para sabermos, o Deputado Germano Bonow é cirurgião também? O SR. DEPUTADO GERMANO BONOW - Não, não. 38 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O SR. PRESIDENTE (Deputado Eleuses Paiva) - Os clínicos são mais light. O SR. DEPUTADO GERMANO BONOW - Sou de saúde pública, mesmo. Vou reforçar a posição do Deputado Jofran Frejat. A sensação de quem vem de um Estado como o Rio Grande do Sul, que atravessou um período muito difícil nos meses de julho e de agosto, é a de que tínhamos um exército de saúde sem munição. Havia uma infraestrutura de milhares de postos de saúde e de serviços de saúde atendendo à população sem medicação. É evidente que para as autoridades, para o pessoal do Ministério, para o Secretário de Saúde do Estado, para o Secretário de Saúde do Município havia a medicação, mas não para o cidadão na ponta, para o doutor do posto de saúde que atende às 6 da tarde o paciente que adoeceu e chegou de manhã, que veio de ônibus, que vai para a farmácia (que vai estar fechada às 8 da noite), que não tem dinheiro para voltar. Quando esse paciente tomar o remédio, já terão se passado 12, 24 horas. Estamos diante de uma doença aguda, não estamos diante de uma doença crônica. Não temos como controlar isso em termos de País. Quando o Ministro esteve aqui, S.Exa. falou na distribuição de 400 mil tratamentos aproximadamente. Um panfleto distribuído à Mesa falava em termos de 50 mil serviços de saúde no País. Ora, a grosso modo, isso perfazia 8 tratamentos por serviço de saúde. Dr. Hage, há uma questão chave. O Ministério, as autoridades, nós da área da Saúde não tínhamos a vivência de uma pandemia, de uma epidemia, de uma gripe de um vírus com comportamento um pouco diferente. Então, aprendemos. Até foi dito pelo responsável pela área de saúde da Argentina que estamos aprendendo com essa epidemia. Mas isso não nos dá o direito de ignorar a nossa cultura. Qual é a nossa cultura? A nossa cultura é a de um país com milhares de farmácias, com milhares de serviços de saúde, que, de repente, decide centralizar a distribuição de um determinado medicamento e fazer a distribuição proporcionalmente ao caso. Veja bem a dificuldade. O senhor disse que foi mantida a recomendação médica a todos os casos, suspeitos e confirmados. Mas ponha-se na situação do doutor que está na linha de frente e tem um caso suspeito. Ele preenche a ficha ou não preenche a ficha? Ele tem esta dúvida que levanta o Deputado Jofran Frejat: há remédio suficiente? Os 39 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 colegas do Ministério estão com dificuldades de distribuir o remédio? Tenho que ser parceiro nisso? Se há remédio em número suficiente, que o coloquem na rede. Será adquirido com receita controlada, como psicotrópico. O médico tem que preencher. Tudo bem, isso faz parte, mas que se facilite o acesso ao cidadão. Essa questão é passado, e não temos mais que discutir o passado. Mas se vem uma segunda onda, temos que começar a nos prevenir. O Deputado se referiu ao Estado de fronteira. No meu Estado, as pessoas compram medicação no Uruguai, e a medicação é transportada em ônibus para qualquer ponto do Estado. Veja a situação de um cidadão do meu Estado que está vendo pessoas de sua relação adoecerem, outras morrerem, e sabe que do outro da rua há medicação — Livramento é separada de Rivera apenas por uma rua. Por que não comprar ali se ele pode comprar? Por que não ajudar o SUS e comprar ali? A questão do medicamento é um drama para quem está na linha de frente do sistema de saúde nessas regiões que foram mais atingidas, o que não nos tranquiliza em relação ao centro do País. Em relação à segunda onda, falou-se muito que se procura associá-la com o clima. Quem nos garante que a segunda onda será no próximo ano? A epidemia espanhola, no Rio Grande do Sul, ocorreu em novembro e dezembro. Consta na literatura que Rodrigues Alves morreu, antes de tomar posse, em decorrência da gripe espanhola, em 1919. Veja bem, uma gripe no verão. Quem nos garante que vamos ter a segunda onda no próximo inverno? Até pode ser, pois esse vírus tem um outro tipo de comportamento. A questão da vacina preocupa muito. Não sabemos se ela será eficaz, não sabemos a quantidade que vamos ter nem quantas pessoas serão vacinadas. Alguns órgãos de imprensa falam na possibilidade de produzir 3 milhões de doses/mês, o que seria totalmente insuficiente num país das dimensões do nosso. E não sabemos se o Ministério já buscou alguma possibilidade de comprar vacinas em outros países. Os jornais de hoje falam que a Novartis está com 3 plantas, está buscando produzir a vacina em 3 países diferentes. A questão toda é a possibilidade de o profissional na linha de frente receitar e ter a medicação à sua disposição, e a existência ou não de vacina quando se avizinhar a próxima onda. 40 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Muito obrigado. Parabenizo todos os expositores, o Secretário do Paraná, o Dr. Juvêncio, o Dr. Celso, pois enriqueceram muito o debate. As informações do Dr. Hage foram importantíssimas. Cumprimento também o Dr. Alberi, pela experiência de Passo Fundo. Dr. Alberi, sou do Estado. Em algum momento a imprensa disse que Passo Fundo se antecipou, começou a tratar o paciente já nas primeiras 48 horas, fosse suspeito ou não. Isso teria influenciado de uma forma muito grande a mortalidade da doença naquela cidade. Criticamos a distribuição de medicamentos e alertamos para as vacinas, mas eu queria fazer uma observação ao Ministro e ao corpo de saúde do Ministério com relação a essa parte de vigilância epidemiológica. Nos cuidados com os portos, com os aeroportos, com as Secretarias Estaduais de Saúde, diante de uma doença de comportamento ainda desconhecido, o Ministro merece nosso reconhecimento pelo tremendo esforço, e as nossas sugestões se referem a um possível evento. Transmita-lhe isso, por favor. O SR. PRESIDENTE (Deputado Eleuses Paiva) - Parabéns, Deputado Germano Bonow. Estou vendo que os sanitaristas são mais contundentes do que os cirurgiões. Vamos anotar isso. Com a palavra o Deputado Alceni Guerra. O SR. DEPUTADO ALCENI GUERRA - Sr. Presidente, espero falar com a suavidade de um pediatra. Quero cumprimentá-lo pela iniciativa de trazer autoridades para falar sobre o Tamiflu. Queria lembrar, Presidente, que os 30% da Seguridade Social foram um acordo de todos os Constituintes, entre os quais 3 futuros Presidentes da República: o Presidente Itamar Franco, o Presidente Fernando Henrique Cardoso e o Presidente Lula. Fizemos o acordo dos 30% da Seguridade, e isso constou das Disposições Constitucionais Transitórias. Isso tem que ser levantado até o fim. O sistema de saúde não funcionará sem o aporte desses recursos equivalentes a 30% da Seguridade. Começo com os elogios à vigilância do Ministério, ao Ministro, tomando o cuidado de ser suave, porque já vivi críticas na pele como Ministro 41 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Gosto sempre de contar o mesmo fato. Em silêncio e em segredo vacinei todos os ianomâmis no interior da Amazônia, porque entre eles havia febre amarela. Levei alguns milhares de sanitaristas e técnicos de saúde para a Amazônia, no sul e no sudeste, para vacinar os ianomâmis, e o fiz em segrego porque os ianomâmis eram uma espécie de ícone da brasilidade na época. Em qualquer lugar do mundo éramos recebidos por centenas de manifestantes que queriam a delimitação das terras dos ianomâmis. Vacinei em segredo porque, se dissesse que havia febre amarela entre os ianomâmis, com certeza o mundo desembarcaria no Brasil e atrapalharia o nosso trabalho. Vacinamos todos. O prêmio foi uma proposta do Conselho Federal de Medicina de cassação do meu registro, porque eu não havia notificado a febre amarela entre os ianomâmis. Na Bolívia, fiz a mesma coisa e recebi a maior condecoração que o Governo boliviano concede a um estrangeiro, por ter vacinado os índios. E vacinei não por amor à Bolívia, mas por amor ao Brasil, com medo de que a febre amarela chegasse ao Brasil no comboio de trem que vinha da Bolívia. Então, num país ganhei a maior medalha e no outro a proposta de cassação do meu registro de médico. Fui salvo por um juiz que disse que a obrigação de notificar não era minha, mas de quem atendia na ponta. E aí continuei com o meu CRM 3991, do Estado do Paraná, salvo, graças a Deus. É difícil criticar uma autoridade porque resvalamos com muita facilidade quando o assunto é emocional, como esse da Gripe H1N1. Mas eu gostaria de fazer algumas considerações. Acho que demoramos muito tempo com Tamiflu estocado na Fiocruz. Demoramos demais. Havia gripe no Brasil inteiro e tínhamos que pedir à Fiocruz a liberação do medicamento. Acho que o tempo foi exagerado. A descentralização, depois, também não foi adequada. Demoramos a atender os nossos municípios. Lembro-me de que no fim de julho estive na fronteira com a Argentina, no Município de Barracão, e encontrei a seguinte situação. Havia Tamiflu à vontade no outro lado da fronteira e no Paraná apenas em Francisco Beltrão, a 100 quilômetros de distância da Cidade de Barracão. Tive a sorte de observar o caso de uma mulher com suspeita de influenza A, em estado grave, que solicitou medicação em Francisco Beltrão. Dois dias depois o 42 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 remédio foi negado. Ela já havia atravessado a rua na companhia do marido e comprado Tamiflu na Argentina, estava medicada. Eu disse ao Ministro que eram duas posições diferentes. Descobri que em Santa Catarina, no Município de Dionísio Cerqueira, onde também há divisa seca, havia o Tamiflu; nos municípios do Paraná não havia e em Francisco Beltrão estava estocado. Comuniquei isso ao Secretário e espero que isso tenha sido resolvido definitivamente. Trago o caso para Brasília; nós estamos na Câmara dos Deputados. Recebi agora algumas observações dos meus colegas médicos. São 20 suspeitas diárias de gripe aqui na Câmara. Nossos colegas, todos os dias, têm essa casuística. São 20 casos. Cinco profissionais médicos já se infectaram com a gripe. A Câmara pediu o Tamiflu ao Ministério, e foi negado. E, como disse o Deputado Eleuses, fomos ridicularizados nacionalmente, como se fosse uma afronta ter o Tamiflu: Só pra nós? Também discordo. Acho que não. Acho que todas as unidades de saúde deveriam ter o Tamiflu, e há estoque suficiente para colocá-lo em todas as unidades de saúde. A receita é de responsabilidade do profissional médico, para o combate à gripe. Acho que temos de ter uma política agressiva do ponto de vista de enfrentamento da doença. Precisamos continuar com essa vigilância extraordinária que o Ministério está exercendo, mas precisamos inovar no combate à gripe, distribuir o Tamiflu para todas as unidades de saúde. Temos 9 milhões de doses em estoque. É possível. Elas vão continuar em estoque, porque estarão no estoque da unidade de saúde e não mais no estoque da Fiocruz, no Rio de Janeiro. A responsabilidade de receitar é do médico. Então, precisamos, sim, colocar na ponta. O estoque continuará. Nenhum médico deixará de assumir a responsabilidade de receitar esse medicamento. E quando ele não for receitado, continuará em estoque. Ao mesmo tempo em que comungo com o Deputado Germano Bonow, elogiando a vigilância do Ministério, reclamo. Acho que precisamos ser mais agressivos na distribuição do Tamiflu. Reporto-me também à vacina. Acho que estamos sendo tímidos com a vacina. Temos condições de produzir em grande escala. O Dr. Isaias Raw, do Butantan, falou que temos condições. É preciso dar a eles os recursos já, para que 43 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 produzam em grandes quantidades. Não é suficiente? Vamos comprar no mercado internacional. Não é preciso ter vergonha de comprar a vacina. Tem-se de ter a coragem de vacinar a população toda. Concordo com o Deputado Germano Bonow: é bobagem esperar o próximo inverno. A gripe espanhola matou durante o verão de 1918 um Presidente da República. Não temos de esperar os meses frios para produzir a vacina, distribui-la e vacinar a população brasileira. Termino comungando com o Deputado Germano Bonow. Acho elogiável a atitude do Ministério na parte da vigilância, mas precisamos cuidar da nossa timidez de serviço público no enfrentamento com a vacina. Deputado Eleuses, parabenizo V.Exa. pela convocação de todas as autoridades. Digo ao meu conterrâneo José Lúcio que continuo com a preocupação da falta do Tamiflu nos municípios da fronteira com Argentina e Paraguai; a maioria, divisa seca. Os estoques estão nas regionais, eu reconheço. Acho que deveríamos colocar nas áreas de risco, como na fronteira, e não só na Secretaria Municipal de Saúde, mas nas unidades de atendimento. O médico tem a responsabilidade de receitar e, com certeza, só dará Tamiflu a quem realmente esteja com evidências da Gripe A. Era isso. Obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Eleuses Paiva) - Parabéns, Deputado Alceni Guerra. Antes de passar a palavra aos membros da Mesa, vamos combinar o tempo: talvez 5 minutos para cada um dos debatedores fazerem suas considerações. Aí poderemos deixar em aberto e, depois, encerraremos. Antes de conceder a palavra, quero passar um dado. Talvez eu tenha de me retirar momentaneamente e quero deixar minha pergunta ao Ministério da Saúde e também à Sociedade Brasileira de Infectologia. Na qualidade de médico, estou assistindo a exatamente o que disseram os Deputados Frejat, Bonow e Alceni. E estou vendo os meus colegas de profissão, que estão ali atrás. Eu falo que sou médico e estou Deputado. Ainda estou na 44 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 atividade. O que estamos sentindo na linha de frente é uma extrema dificuldade de poder, nesse momento, tomar conduta. Os três balançaram a cabeça no sentido de que isso é verdade. Se der, depois vou tentar dar a palavra a vocês. Eu falo isso para o Ministério. Se ele tiver dúvida... Talvez o gestor não esteja entendendo o que está acontecendo com o médico lá na ponta: Olha, eu distribui... Estou bem. Façam uma pesquisa. Nós temos 350 mil médicos. Vou encaminhar isso daí hoje mesmo para o Conselho Federal de Medicina. Façam uma pesquisa com os médicos deste País e perguntem se eles estão à vontade na prescrição de Tamiflu e se há Tamiflu para todo o mundo. É unânime: nós estamos tendo dificuldades. Não tenho a mínima dúvida disso. Isso é real. Todos que estão no exercício estão tendo essa dificuldade. Há 2 hipóteses. Uma delas é de que não há remédio suficiente. Se há insuficiência, realmente temos de discutir estratégias a respeito do que podemos fazer com o que nós temos. Aí eu posso entender o que está acontecendo. Então, ou não temos remédio suficiente ou temos falha na distribuição. Se é suficiente, temos falha na distribuição. Quero fazer a seguinte pergunta. Até como ex-membro de conselho regional, como ex-dirigente de entidade médica, pergunto aos senhores o seguinte. Remédio, para mim, só deveria ser entregue sob prescrição médica. É até bom que tragamos essa discussão para dentro da Casa. É um absurdo que seja diferente. Remédio não é objeto de consumo. Não se pode entrar num supermercado e dizer: Agora, vou pegar uma dipirona, vou pegar um antibiótico. Remédio é para ser utilizado sob prescrição médica, sob orientação médica. Então, eu pergunto: Por que não lançamos o desafio de deixarmos em aberto o Tamiflu sob prescrição médica, em farmácias, em unidades básicas de saúde, em prontos-socorros? Tem estoque suficiente, mas só se entrega sob prescrição médica. Acredito que, se tivermos em estoque, poderemos dar um salto de qualidade. Vamos obedecer à ordem de fala. O primeiro a falar foi o Juvêncio. Assim, ele terá 5 minutos. Peço ao Deputado Bonow para assumir a presidência dos trabalhos. 45 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O SR. JUVÊNCIO FURTADO - Eu acho que todas as exposições foram complementares, mas algumas coisas precisam ser pontuadas. Primeiro: as dificuldades que ocorreram ao longo dessa epidemia ficaram muito claras aqui. Cada um expressou a sua preocupação. Nós temos de pensar em como continuar esse enfrentamento de uma forma que possamos utilizar os nossos eventuais erros para corrigir a rota no futuro. A primeira coisa abordada aqui foi a questão da medicação. Nós todos não temos dúvidas de que a medicação deve estar disponibilizada, obviamente sob prescrição médica e responsabilidade médica, que é aquilo que nós esperamos de todos nós, médicos, especialistas nesse assunto. Claro que a medicação deve estar disponível para todos, desde que seja prescrita e que tenha indicação. Evidentemente, todos nós, médicos, aqueles que têm conhecimento maior ou menor, devemos nos preparar para saber indicar, de maneira precisa, essa medicação. Evidentemente, em nosso País, as prescrições médicas muitas vezes não são respeitadas em termos de farmácia. Qualquer pessoa vai a uma farmácia e compra qualquer remédio. Então, esse é um grande desafio para termos o controle dessas medicações, e aqui nós transferimos isso ao medicamento oseltamivir, que deve ser prescrito, ter as indicações absolutas e tem de estar disponível. Acho que isso é consenso de todos. Tem medicamento em número? Tem. Tem de estar disponível? Tem. E tem de ser utilizado com precocidade, isso já foi apontado aqui várias vezes, porque é nessa precocidade que você reduz a gravidade da doença. Esse é um primeiro ponto claro, acho que não há dúvida quanto a isso. A maneira que isso será feito, se será disponibilizado em todas as farmácias, se será colocado apenas na rede pública, capilarizado ao posto de saúde, é uma decisão que não cabe, pelo menos a mim, tomar. Mas que o medicamento tem de estar disponível para utilização sempre que necessário, não há dúvida. Obviamente, mais uma vez repetindo, sob prescrição médica, como deveria ser feito com relação a qualquer medicamento. Esse é o primeiro ponto que queria deixar claro. Segundo ponto, em relação ao enfrentamento do próximo ano. Acho que não há dúvida de que esse vírus continua circulando. Em todos os países do mundo onde a epidemia começou o vírus continua circulando. Ele está presente, está 46 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 causando doença, numa proporção menor, evidentemente, mas está causando doença. Eu não tenho nenhum receio de dizer que no próximo ano nós teremos também, nós continuaremos com ele. Quer dizer, no próximo ano, não. Neste e no próximo ano continuaremos com o vírus circulando. Portanto, todas as medidas devem ser implementadas no controle. Uma arma nova que não pode ser desprezada é a vacina. Claro que aliar a indicação terapêutica à vacina é o ideal. Então, a vacina, dentro da disponibilização que o mercado mundial permite... Nós temos aqui a possibilidade de fazer essa vacina. Tenho certeza de que o Ministério da Saúde vai dirigir todos os recursos possíveis para a fabricação da vacina no Brasil, dentro da disponibilidade do Instituto Butantan, que é a fábrica brasileira com possibilidade de produzi-la. E vai disponibilizar recursos para que nós tenhamos o maior número possível de vacina, para vacinar o maior número de pessoas no Brasil. Esse é ponto. Agora, que pessoas serão vacinadas é uma estratégia que deve ser discutida, evidentemente como participação de toda a sociedade. Existem estratégias, acredito, já preparadas para vacinar, dependendo do número de doses de vacinas que nós tivermos — vacina que, provavelmente, será dada em duas doses. Outra questão que me preocupa também — e é um investimento que tem de ser feito agora, não pode ser postergado — são os leitos hospitalares para atendimento aos casos mais graves e, principalmente, os leitos de terapia intensiva. Temos de aumentar o número de leitos de terapia intensiva. Isso é fato. E os profissionais que lidam na terapia intensiva têm de estar preparados para enfrentar a insuficiência respiratória promovida pela nova gripe, que é diferente do que ocorreu. E nós vimos as experiências relatadas há 10 dias, de todos os países sulamericanos, mostrando, nas unidades de terapia intensiva. E os brasileiros, evidentemente, tiveram algumas dificuldades no começo sobre como enfrentar esse caso. Então, é necessário que os profissionais também sejam preparados para enfrentar esses casos graves de insuficiência respiratória em decorrência da nova gripe. 47 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Outra medida que tem de ser discutida de maneira mais clara é como enfrentar a questão do que foi feito no Brasil em relação a fechamento de escolas, de indústrias, de empresas e assim por diante. Isso tem de ser muito claro. Se nós nos reportamos à literatura, fechar escola... Há muitas publicações sobre influenza, influenza sazonal, influenza comum, mostrando o resultado inicial. Depois que as escolas são reabertas, o número de casos volta a subir. Isso fica mais ou menos claro. Está cheio de publicações internacionais sobre o assunto. Esses são os pontos bem objetivos que quero deixar claros em relação a essa discussão. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Germano Bonow) - Obrigado, Dr. Juvêncio. Com a palavra o Dr. Alberi Grando, por 5 minutos. O SR. ALBERI GRANDO - Eu vejo que realmente o tratamento dessa síndrome foi uma novidade. Como foi dito, nós aprendemos a trocar o pneu com o carro andando — ao menos nós, lá, em Passo Fundo. É interessante. Nós que acompanhamos desde o início vimos não só a população, Deputado Germano Bonow, preocupada com a situação — porque as informações vinham nem sempre de fontes fidedignas. Vimos também os profissionais da saúde terem grande preocupação, porque não sabiam o que estava acontecendo. E se aprendeu bastante. Eu vejo que o aprendizado foi muito interessante e bom, como falei antes, pela formação desse comitê municipal. O comitê congregava as pessoas que, de fato, entendiam do assunto, sabiam o que estava acontecendo. A partir daí, as informações foram dadas de acordo com aquilo que era real. Não havia boatos, sabia-se o que se estava dizendo. Era informação tanto para a população quanto, principalmente, para os profissionais, que estavam com medo. Lembro-me de que na primeira reunião com os nossos profissionais da rede era um susto só. Ninguém mais queria atender. Eu faço pediatria e acabei fazendo um plantão num domingo de tarde porque não tinha quem o fizesse. Não que eu fosse mais corajoso; eu também estava com medo. Mas alguém tinha de fazer, e eu fui para lá, o que foi muito bom para mim. 48 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Passo Fundo realmente se antecipou, Deputado Germano Bonow, no seguinte sentido. O paciente que chegasse ao hospital entrava em isolamento. Não que não se seguisse o protocolo, ele era seguido. O protocolo é uma necessidade, e vai ser sempre. Seria burrice de quem lida com sanitarismo falar que não existe protocolo. Claro que existe. Agora, naquele momento em que eu estava com o meu paciente, eu tinha de tomar uma decisão. A decisão era tomada, independente do protocolo que houvesse. Foi isso que Passo Fundo fez antes dos outros, acho. Isso foi muito importante: o médico decidia. Agora, uma coisa é certa: nunca faltou medicamento em Passo Fundo, nunca faltou. O Estado nos forneceu medicamento sempre que foi necessário, e para a região também. Não houve falta. Criamos, como eu disse antes, a maneira de se ter acesso a esse medicamento: por meio da receita do médico, na rede; no hospital, não. Lá, como eu disse, quem tomava a decisão era o médico, naquele momento, porque achava que era necessário. Ele tinha não só o direito, mas a obrigação de usar o medicamento se fosse necessário. Nosso Código de Ética manda que se faça isso. Mas na rede o que se fazia era receitar e no site da Prefeitura estava a ficha referência da qual falei. De posse dessa ficha, a pessoa ia até a farmácia municipal que dispensava o medicamento, claro que de acordo com o que estava naquela ficha. Mas digo-lhes que não houve negativa alguma, todos foram dispensados, embora constasse ali “sim” ou “não” à dispensação, mas todos justificados foram dispensados. O importante foram as informações claras. Outra coisa importante em relação aos leitos, tanto de isolamento, quanto de UTI: os próprios hospitais, por sugestão e avaliação que se faziam duas vezes por semana no comitê, tomaram a decisão de fazer ampliação dos leitos. E tivemos o apoio do Estado, que forneceu os respiradores. Foi iniciativa do próprio hospital ao ver a necessidade de ampliar sua capacidade instalada. Por último, para encerrar, vi 3 coisas que faziam com que as pessoas e os profissionais se tranquilizassem, com certeza: o medicamento disponível, o exame o mais rápido possível, para não criar aquele pânico e, claro, a perspectiva de uma vacina. Por mais leigas em medicina que sejam, as pessoas sabem que se houver uma segunda onda, com a vacina ela será menor. 49 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Esses 3 pontos são fundamentais e tranquilizam o profissional e a população e diminuiu a possibilidade de pânico, o nosso grande problema. Mesmo sendo profissional da saúde, médico, Secretário de Saúde, eu me assustava quando via a população mais assustada ainda. A possibilidade de o medicamento ser necessário de acordo com o protocolo e com aquilo que o médico decidia, a possibilidade de um exame que nos dissesse logo se aquilo era o H1, e às vezes nem tão importante no manejo do paciente haver o diagnóstico, davam tranquilidade. Um outro aspecto é vacina também. Essas 3 coisas para mim são fundamentais. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Germano Bonow) - Obrigado, Dr. Alberi Grando. Com a palavra o Dr. Celso Ramos, por 5 minutos. O SR. CELSO RAMOS - Eu só quero dizer o seguinte: uma coisa é o que está escrito, outra coisa um pouquinho diferente é o que é feito. Vou começar pelas normas do Ministério em relação ao uso clínico. Dr. Eduardo, elas não são idênticas às do CDC. Eu como meu diploma em público se o senhor me disser que as regras para quimioprofilaxia do CDC são idênticas às do Ministério da Saúde. Se o senhor disser isso agora, eu como o meu diploma de médico. Outra coisa: as indicações podem ser as mesmas, mas a ênfase que damos à palavra, a ênfase que (falha na gravação) na prática pode ser outra. O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, o Hospital do Fundão, onde trabalho, era o hospital de referência no Rio de Janeiro, onde os primeiros casos confirmados foram internados. O médico especialista examinava o caso no hospital de referência, decidia que havia indicação de uso, era obrigado a pegar o telefone, ligar para o nível central e conseguir autorização para fazer uso do medicamento. Pergunto a V.Exa., Deputado Germano Bonow, sanitarista que é, se isso é aceitável. Pergunto a V.Exa., Deputado Eleuses Paiva, líder inconteste da categoria médica, se isso não é uma absoluta agressão à prerrogativa do médico de fazer a prescrição. No entanto, estava lá como a coisa tinha de ser feita. Mas a coisa não era bem assim, Dr. Eduardo, porque a restrição vinha pelo outro lado. 50 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Em agosto houve uma reunião aqui, na qual a bancada do Rio de Janeiro — permita-me usar esse termo — batalhou e propugnou pela maior liberação do uso. Cito 2 nomes: Dra. Margareth Dalcolmo; Diretora do Centro de Referência Hélio Fraga, de Pneumologia e Tisiologia, órgão do Ministério da Saúde e Dra. Marisa Silva Santos, Assessora Específica e Infectologista da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Então, houve esse último protocolo citado aqui. A Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro fez o quê? Fez o que é óbvio, o que deveria estar na lei se tivéssemos, Deputado Eleuses Paiva, uma lei do ato médico, uma lei que dissesse quais são as prerrogativas do médico, o que ainda não temos: colocou o formulário de solicitação do Oseltamivir na Internet e passou ao médico a prerrogativa de detectar e diagnosticar o caso, fazer a indicação e a prescrição. Isso é alguma novidade, Deputado? Não. Isso deveria estar ocorrendo de outra forma, Ministro? Não. Então, o que aconteceu? No Rio de Janeiro, a medicação ficou mais fácil. Aí eu pergunto. Embora eu tenha alguma qualificação como epidemiologista, teria dificuldade de discutir epidemiologia com o senhor, Dr. Eduardo. Agora, sobre clínica e tratamento, eu me sinto qualificado. Se o senhor for àquela sua lista de coeficiente de mortalidade, verá que no Rio de Janeiro o coeficiente é um dos mais baixos. O senhor pode garantir que a maior liberalização do uso do medicamento lá não tem nada a ver com isso? Apenas o fato de o Rio de Janeiro reconhecidamente — perdoem-me a ironia — ter uma excelente rede assistencial no sistema público justifica a menor taxa de coeficiente de mortalidade? Outra coisa, o RT-PCR, o diagnóstico. Eu tenho um diapositivo ali dentro do computador. Em pouco mais de 15 dias, o CDC liberou para, se não estou enganado no número, mais de 600 laboratórios do mundo, inclusive para cá, os primers. Uma vez tendo os primers, o exame não é propriamente difícil. Não vou citar nomes, mas posso, confidencialmente, passá-los para o Dr. Eleuses Paiva. Um laboratório privado do Brasil, aliás, não foi um, mas mais de um, desenvolveu o teste, o RT-PCR in house, como se diz. O laboratório tem sede em São Paulo, e o teste foi validado em São Paulo, no Instituto Adolfo Lutz. Esse laboratório resolveu usar esse teste no Rio de Janeiro, em situações muito próximas 51 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 do Sistema Único de Saúde. Mas eu me reservo uma certa confidencialidade nisso, porque eu não tenho autorização para dizer o que eu estou dizendo aqui. O laboratório fez uma solicitação à ANVISA; desnecessária, porque não se tratava de um kit. Era um teste desenvolvido dentro do laboratório. A ANVISA resolveu consultar a Fiocruz, a qual respondeu que não; que no Rio de Janeiro só quem faria o teste seria ela. Eu pergunto a V.Exa, Ministro Alceni Guerra, se isso não implica em alguma restrição, ainda que isso não esteja escrito em lugar algum. Uma coisa é o que está escrito; outra coisa é o que está sendo feito. Eu assisti ao Ministro José Gomes Temporão, nesta Casa, na reunião de bancada do PMDB, há duas ou três semanas, dizer que não havia restrição à venda, até porque não pode haver restrição à venda, mas que o Ministério da Saúde, enquanto durasse a situação atual, continuaria comprando toda a produção do Laboratório Roche. E aí passou a enumerar as vantagens de que o medicamento não estivesse à venda. Então, uma coisa é o que está escrito, outra coisa é a situação concreta. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Germano Bonow) - Obrigado, Dr. Celso Ramos. Concedo a palavra ao Dr. José Lúcio dos Santos. O SR. JOSÉ LÚCIO DOS SANTOS - No momento em que nos aproximamos da parte final desta reunião, tenho a sensação de estar bastante gratificado. Tudo o que se disse aqui, realmente, se somou, no sentido de termos uma condição melhor para o enfrentamento dessa epidemia. Quero levantar só 2 pontos. De certa forma, valorizei todo um trabalho de notificação de casos. De fato, os serviços responderam ao trabalho realizado na ponta, o que ficou claro quando o Dr. Eduardo mostrou, no mapa do Brasil, a notificação de casos de síndrome respiratória aguda grave. O Paraná estava todo em vermelho. Isso mostra o quanto os serviços dos profissionais de saúde, mesmo os da ponta, responderam a todo aquele trabalho realizado lá atrás, quando ainda não tínhamos a circulação implantada no Brasil, muito menos no Estado do Paraná. Esse fato reforça todo um trabalho que vinha sendo feito. 52 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Quero compartilhar o sentimento com o sempre Ministro Alceni Guerra, de forma não só carinhosa, mas respeitosa à sua pessoa por tudo o que representa, particularmente, para o Paraná e para o todo o Brasil. O Ministro disse que vivemos, no final de julho, um estresse e o compartilhamos com a classe médica e com a sociedade científica. Como tudo é muito dinâmico, neste um mês e meio, passamos por momentos diversos. Mobilizamos toda uma estrutura. O senhor que foi Ministro sabe como ela se dá, não na velocidade que gostaríamos. Exatamente naquele momento, final de julho, o senhor presenciou a situação em Barracão. De fato, o número de casos, mesmo os suspeitos, estava aumentando. Tínhamos, naquele momento — repito, não faltou —, uma quantidade relativamente pequena, mas suficiente para as regionais, mesmo que a duas horas de distância. Conseguimos dar um passo: descentralizar em todos os 399 municípios do Paraná. Talvez não no número que gostaríamos, mas, pelo menos, está mais próximo. Nós nos somamos à preocupação e vivemos, no mesmo momento, a situação. Quero deixar isso bem claro. Temos de pensar, mesmo, no futuro. A descentralização de diagnóstico é extremamente importante para o tratamento de qualquer crise, qualquer situação epidêmica. No Paraná, há laboratórios com experiência em biologia molecular. Houve decisão política de se adquirir, correr atrás, batalhar para se conseguir comprar insumos em tempo, não era o quanto precisávamos, porém, mais curto do que poderíamos imaginar. No dia 27 de julho, começamos a realizar os exames. Trabalhamos dia e noite, em turno extra, e conseguimos realizar 7 mil testes. Além disso, temos de pensar na medicação. O inverno no Hemisfério Norte será bem antes do nosso, o que é fato. E há a vacina. Não devemos esquecer-nos da estrutura hospitalar. Repete-se o financiamento da estrutura hospitalar. Colocamos mais de 70 kits básicos nos hospitais: respirador, monitor, oxímetro. Isso tem custo, mas foi o que nos deu a condição, mesmo que não ideal, de enfrentamento dessa situação pela qual estamos passando. Por último, insisto, não devemos desvalorizar o aprendizado que nos está passando o enfrentamento dessa pandemia. Desde o manejo clínico do paciente, 53 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 até ao atendimento na ponta, à logística de medicamento, à questão de se pensar, de fato, nos outros laboratórios que podem contribuir para esse processo, à medicação, à vacina. Enfim, já que não há para todos, quais grupos são prioritários para se amenizarem os casos graves e, consequentemente, os óbitos.? Temos de trazer essas reflexões para esta Casa, que tem condições de emparelhar-se com as autoridades de saúde, com o Ministério, com as Secretarias estaduais e municipais na busca de um SUS que possa ser aquilo que sonhamos na VIII Conferência, em 1986. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Dr. Paulo César) - Obrigado, Dr. José Lúcio. Com a palavra Dr. Eduardo Hage. O SR. EDUARDO HAGE - Obrigado, Sr. Presidente. Também considero esta reunião importante. Todos nós temos atendido à Comissão e continuamos disponíveis para discussão, não somente quanto ao enfrentamento realizado até esta fase, mas especialmente para a segunda onda, bem como para o período entre essas duas ondas. E pelo o que tem sido observado em outros países, há uma diminuição dos casos, como tem ocorrido no Brasil, mas eles não desaparecem. Continua havendo circulação, ainda que com muito menor intensidade, mas é necessário também atenção nesse período. Eu vou responder a algumas perguntas — seguramente vão escapar poucas, assim espero —, na ordem em que foram apresentadas, primeiro pelo Deputado Eleuses Paiva. Um ponto fundamental diz respeito à dificuldade de acesso ao Oseltamivir, em especial nos municípios. Todos sabem que a competência do Ministério da Saúde é prover insumos, organizar a utilização das políticas e ações, no caso, o estabelecimento de normas, e apoiar as Secretarias estaduais e municípios no enfrentamento dessas situações. Cumprindo essa competência, ao Ministério da Saúde coube e tem cabido a aquisição do medicamento e a distribuição para as Secretarias Estaduais de Saúde. Não compete ao Ministério a organização da logística e distribuição dentro de cada Estado, o que não quer dizer que tenhamos nos furtado a discutir junto com os Estados a forma mais ágil, oportuna e abrangente de fazer chegar o medicamento. 54 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Por exemplo, no Rio Grande do Sul, estivemos em mais de uma oportunidade junto com a Secretaria Estadual de Saúde discutindo esses aspectos, assim como no Estado do Paraná, também discutindo não somente o que é especificamente nossa competência, mas como o Estado pode organizar-se e ser apoiado para que essa organização se dê a contento. Isso foi expresso aqui. Há o exemplo do município. O que teve maior enfrentamento da pandemia reflete que, quando se tem uma boa organização, se consegue superar a logística e a distribuição, o que não quer dizer que essa logística seja perfeita em todos os Estados e em todas as regiões. Obviamente, não. Quanto a isso nós temos de retomar a discussão em todas as Secretarias Estaduais de Saúde. Em setembro, teremos uma reunião com todos os dirigentes estaduais da área de epidemiologia e da área de atenção, tanto da atenção básica quanto a de alta e média complexidades, junto com a reunião do CONASS — Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde. E este será um dos pontos abordados: como os Estados podem aprimorar mais ainda a logística de distribuição? Uma pergunta tem de ser definitivamente respondida: a dificuldade eventual na distribuição e na dispensação para o paciente se deve à falta ou insuficiência do medicamento? Definitivamente, não. Citei os exemplos de 2 Estados e vou dar os dados para o País. Atualmente, como já disse, já são quase 1 milhão de tratamentos distribuídos. Na semana passada, tínhamos para todo o País 757 mil tratamentos distribuídos para 36.500 casos. De acordo com o protocolo, entrou um caso suspeito, não só por H1N1, mas por qualquer coisa, há indicação de síndrome respiratória aguda grave, faz-se o tratamento, mesmo — e eu já me referi a isso — acrescendo aqueles casos em que não há alguma manifestação de gravidade, mas há fator de risco, o que consta no protocolo do Brasil, dos Estados Unidos, do Canadá e de outros países da América do Sul e da OMS. Essa razão supera em mais de 10 tratamentos que seriam necessários. Claro que a distribuição, o envio do medicamento não corresponde exatamente ao número de pessoas que devem tomá-lo. Tem de haver estoque no Estado, mas, de acordo com a logística de distribuição do Estado, se faz a organização dos estoques, seja regional ou municipal, de maiores portes. Cada 55 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Estado tem uma forma de organização. Mas não se deve a nenhuma eventual falta de medicamento, não somente o que já foi distribuído, muito menos o que tem disponível. Posso deixar informações para Comissão sobre o que já foi distribuído. Semanalmente atualizamos a informação. Também podemos encaminhar semanalmente o que é distribuído para todas as Secretarias de Estado. Gostaria de voltar ao ponto de uma questão. Por que a indicação do tratamento para aqueles que têm doença respiratória aguda grave e aqueles que têm fator de risco, mesmo sem nenhum sinal de agravamento? Existem já algumas publicações, e só vou citar a mais recente: The Lancet, uma das mais conceituadas. Em 8 de agosto, a publicação fez uma avaliação da influência sazonal e chamou a atenção de que ela pode aplicar-se para o novo vírus, por algumas características. Mas os autores que fizeram uma meta-análise não identificaram benefício no uso e na indicação do tratamento de síndrome gripal, sem fator de risco ou sem sinal de agravamento. O mesmo vale para a publicação do BMJ — British Medical Journal — para crianças, que também não identificou beneficio do tratamento para todos os casos de síndrome gripal, sem ter fator de risco ou fator de agravamento. Há outras publicações, inclusive na semana passada, a PSOL, uma sigla dessa publicação. Há também os protocolos de países. Tenho aqui o protocolo do Canadá, que não adotava inicialmente esse protocolo. O Canadá modificou o seu protocolo e passou a seguir a recomendação da OMS depois da ocorrência de um caso de resistência ainda que, como já foi apontado pelo Dr. Celso, grande parte da resistência se deve ou à subdosagem ou a indicações fora do tratamento, em especial quando se usa subdosagem durante longo tempo, ou em alguma situação de profilaxia. O Canadá mudou o seu protocolo, que está disponível na página daquele país para quem quiser ler — se for mais fácil, deixo cópia aqui —, no dia 25, e a indicação de utilização é estritamente igual à do Brasil. Com relação ao que disse Dr. Celso, pelo amor de Deus, não rasgue seu diploma. O senhor foi o professor do Ministro e talvez invalidasse o diploma de vários outros médicos. Mas creio, Dr. Celso, que há uma distinção. O senhor está se referindo à quimioprofilaxia, para a qual está correto e existe diferença, mas não 56 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 para indicação de tratamento fora da quimioprofilaxia. Isso é reiterado. Não somente consta no protocolo, mas os Estados Unidos a cada 10 dias religiosamente publicam em sua página — eles não divulgam os dados toda semana. Os senhores verão na segunda página, no quarto parágrafo, qual a indicação. E eles remetem para o protocolo. É exatamente igual em relação à indicação do tratamento para casos de influenza, ou seja, com a síndrome respiratória aguda grave ou fator de risco. Podemos estar errados? Todos podemos: Brasil; Estados Unidos; Canadá; Peru; Bolívia; Uruguai; Paraguai; vários países da Comunidade Européia, exceto Reino Unido, bem como essas publicações recentes, que são as únicas disponíveis. O Chile adota para todos os casos. Todos podem estar errados? Podem, mas nós tomamos decisões baseadas em evidências científicas, e não podemos fugir disso. Portanto, não podemos hoje, à luz do que é recomendado por esses países, pela Organização Mundial de Saúde e por publicações conceituadas, adotar a recomendação de tratamento de antivirais para todos os casos de síndrome gripal, tendo ou não fator de risco. Não vamos adotar isso enquanto não houver outras evidências científicas. Portanto, quanto a ampliar ou facilitar a utilização para aqueles que necessitam, temos de efetivamente separar essas duas questões porque, em muitos momentos, a discussão está sendo extremamente confundida. Como reconheci, é necessário, sim, aprimorar a logística de distribuição, para estar o mais próxima possível dos pacientes e dos profissionais a sua utilização; entretanto, de acordo com os protocolos e não com a adoção de recomendações individualizadas que não cumpram não somente o protocolo mas não sigam evidência científica. Nós nos pautamos e vamos continuar nos pautando pelas evidências científicas. Quanto à vacinação, voltando também a algumas questões levantadas pelo Presidente, já foi dado algum conhecimento na primeira presença do Sr. Ministro aqui. Estima-se que haverá disponibilidade de vacina para aquisição pelo Brasil para proteção de 30 a 35 milhões de pessoas, mesmo considerando que duas doses sejam necessárias. Isso se deve a um fato simples: não há vacinas, não há produtor no mundo com capacidade para produzir mais vacina para atender todos os países. Não é porque nós adotaremos um protocolo mais rigoroso ou porque nós queremos 57 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 economizar dinheiro. É o contrário, foi proposta a segunda medida para crédito suplementar exatamente para haver dinheiro em conta para pagar a vacina que seja necessária, de acordo com a disponibilidade do fabricante. Na América do Sul, somente o Instituto Butantan tem condição de produzir a vacina. Se houvesse outro lugar, na Argentina, na Patagônia, nós iríamos lá comprar. Em qualquer lugar do mundo, se houvesse disponível, o Ministério da Saúde iria comprar. Não há vacina disponível, muito menos para fornecimento agora. Os laboratórios ainda estão realizando testes, não só para avaliar a eficácia, mas a segurança. Quando esses testes forem finalizados, eles serão primeiramente utilizados nos países do Hemisfério Norte, que obviamente foram atendidos primeiro pelos demais laboratórios. Nossa aquisição não será só do Butantan. Se o Butantan puder fornecer... E ele trabalha em parceria com outros laboratórios, não é produção só dele. Ele já tem parceria, por exemplo, para a influenza, para a vacina sazonal, e a parceria será mantida para essa nova vacina. Há possibilidade de que sejam criados? Sim. O próprio Dr. Isaías tem apostado muito, e nós também acreditamos e queremos que isso resulte em sucesso, no uso de uma substância que potencialize o número de doses. O Instituto Butantan já têm sido realizados alguns testes. É possível que se possa duplicar ou triplicar a potência da dose da vacina, o que permitiria compensar a necessidade de duas doses para cada pessoa. Ainda estão sendo realizados alguns testes para verificar o aumento da potência de duas ou três vezes, ou como isso será processado. Vamos aguardar essa que pode ser uma boa notícia. Podemos ter mais vacinas do que o que estamos esperando, sim. E o Butantan é um dos pioneiros nesse tipo de avaliação, porque já vem desenvolvendo isso há algum tempo. Em relação à rede de assistência hospitalar, eu concordo com que uma série de iniciativas devem ser ainda reforçadas, especialmente no que diz respeito à atenção especializada para a ampliação do número de leitos de UTI, para aquisição de kits de respiradores. 58 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 O Ministério comprou, num primeiro momento, alguns kits para distribuição nos Estados, o que será reforçado para a próxima onda, bem como o estabelecimento de guias específicos. E a iniciativa não é do Ministério. Nós trabalhamos sempre em parceria com as sociedades científicas. Por exemplo, a sociedade que representa os intensivistas colaborou, estabeleceu um protocolo. Nós o colocaremos na página. Foi feita estreita parceria, parece-me que a SBI também participou, para que haja melhor aprimoramento na atenção de alguns casos. Como eu me referi, alguns casos são pouco usuais para a influenza sazonal, porque eles foram redesenhados agora para assistência em UTI, em algumas situações. Por fim, em relação à parceria com o Conselho Federal de Medicina e a ouvir mais os médicos, em termos da satisfação e de como estão participando disso, acho que é bem-vindo. Nós temos já essa parceria com o Conselho. Por exemplo, estivemos já em duas oportunidades em reunião do Conselho, que inclusive apoiounos muito na divulgação do protocolo, na distribuição para a classe médica, bem como para as outras entidades. O Deputado Jofran Frejat falou das estimativas que se fazem aqui. Claro que elas têm uma margem de variação muito grande. Temos procurado ler todos os trabalhos publicados online. O grau de variação dessas estimativas é muito grande. Por quê? Até recentemente, 3 meses atrás, os únicos parâmetros existentes eram das pandemias anteriores. Somente a partir do momento, claro, que se conheceu, como ocorreu a transmissão dessa pandemia nos países do Hemisfério Norte, foi possível fazer algumas estimativas, mas ainda elas são muito amplas. Isso diz respeito à taxa de ataque, número básico de transmissão, mas devemos levar em conta o fato de que somente uma proporção dos casos que vão ser infectados — e se dirigem ao Centro de Saúde — terá manifestação dos sintomas. Desses, somente uma proporção de casos que desenvolve doença grave vai exigir leito de UTI. Ou seja, são vários recortes que devem ser feitos. Hoje, todo mundo está utilizando os parâmetros para a influenza sazonal, está calibrando para essa influenza, mas com uma margem de variação muito grande. 59 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Cabe lembrar que todos não são acometidos ao mesmo tempo. O cenário é diverso para cada área. Por exemplo, estava conversando com o Secretário Municipal. Seguramente — no caso de epidemiologia nunca se diz seguramente, mas muito provavelmente —, o impacto nos municípios mais afetados na próxima onda vai ser menor, porque não há tanto suscetível assim. Grande parte já foi acometida — a maioria absoluta, 90 a 95% — pela doença sem desenvolver a forma grave. Portanto, o impacto vai ser menor. É preciso fazer o cenário para o País como um todo e para cada um dos Estados. Importante frisar que a letalidade, apresentada aqui há 1 mês, é para casos graves. Não é em absoluto — isso consta na nota todas as semanas — letalidade para o total de casos. A última vez que se calculava a letalidade, tanto a OMS quanto o Ministério da Saúde do Brasil e de outros países, em relação ao total de casos registrados, era abaixo de 0,5%. Não houve aumento para 10%, de maneira que estamos contando coisas diferentes. Essa letalidade tende a reduzir não porque está reduzindo a cada semana. Há prioridade na realização dos exames para aqueles casos mais graves. Portanto, a cada semana, nós temos resultados de casos que não eram tão graves assim e que foram realizados posteriormente pela sobrecarga no laboratório. Por exemplo, 3 semanas atrás, — os senhores podem verificar no boletim — a letalidade para casos graves era de 12%. Hoje está em 10%, e a tendência é reduzir, chegando ao que está sendo observado em outros países que já encerraram a fase de pico: 5, 6%, segundo as publicações que nós temos acompanhado todos os dias na página desses Ministérios. Em relação aos comentários do Deputado Jofran Frejat e pela experiência dele, foi citada a indicação do tratamento. A meu ver, eu já me posicionei. Mas quero deixar bem claro que nós temos disponibilizadas todas as informações. Todas. Não há nenhum objetivo do Ministério da Saúde de mentir ou omitir informações. Eu, como os demais colegas, sou médico, prestei juramento como todos aqui, e nem eu e minha equipe teria ou tem essa prática, ou vai ter a prática, de trabalhar com algumas informações e não divulgá-las de forma transparente. Por isso, nós seguramente temos um número muito maior registrado e divulgado de óbitos que outros países que informam com uma periodicidade muito mais longa. 60 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 No que diz respeito à sua consideração, Exmo. Deputado, sobre a distribuição ser proporcional ao número de casos do medicamento, não somente há um número de casos registrados, mas, se for possível observar em outro momento, eu deixo aqui a planilha, segue a lógica não só populacional. E a lógica populacional significa que, quanto maior a população, maior o número de tratamento necessário. Mas para a influenza ela não é adequada, porque temos, por exemplo, Estados no Norte e Nordeste que têm tradicionalmente um impacto das epidemias de influenza sazonal muito menor do que os Estados do Sul e Sudeste. Portanto, são considerados também esses fatores em termos do impacto esperado nos Estados dessas regiões. E, dentro das regiões, há diferença entre os Estados. Mas volto a dizer que o fornecimento para os Estados é confortável. Em relação ao que disse o Exmo. Deputado Alceni Guerra sobre a demora na produção e encapsulamento do Oseltamivir em pó que estava em Farmanguinhos, é natural que tivesse demorado aproximadamente 1 mês. Para a produção em Farmanguinhos, foi necessário parar por 1 mês a produção do Efavirenz, que é feito no mesmo maquinário. Só a limpeza demora 15 dias, porque tem uma tinta etc., alguns aspectos que levaram à essa demora. E obviamente, como iniciamos um tratamento de uma pandemia que ninguém estava esperando, o que tínhamos era estocado na forma de pó, de acordo com o que era recomendado. Se nós tivéssemos 9 milhões em capsulas — e nós adquirimos isso em 2006 —, nós estaríamos em maus lençóis com um curto período de utilização desse medicamento. Por isso, foi feita a aquisição, em 2006, de 9 milhões de tratamentos em pó para o seu encapsulamento, o que não quer dizer que no início nós não tivéssemos nenhuma capsula. Ao contrário, o ano passado, nós adquirimos uma quantidade. No início deste ano, nós adquirimos outra quantidade. E isso tem resultado nessa distribuição feita desde o início da pandemia. No que diz respeito à indicação da vacinação, e volto ao tema porque o Deputado Alceni Guerra frisou essa questão, por que esperar a próxima onda? Como eu disse, não há vacina disponível agora ou para utilização na população neste momento ou antes da segunda onda no Hemisfério Norte. O Butantan, em parceira com outros laboratórios internacionais, só tem condições de fornecer a vacina a partir do final do ano. Há falta de produção de 61 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 laboratórios. Não há como antecipar a vacina. Se houvesse, obviamente que essas vacinas seriam encaminhadas ao Ministério muito mais precocemente. Por fim, esclareço que a letalidade no Rio de Janeiro segue o padrão, Dr. Celso, da ocorrência do impacto da influenza sazonal naquele Estado todos os anos. Não está havendo nada diferente. Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, maior impacto. Posteriormente, São Paulo e Rio de Janeiro, maior impacto, o mesmo que se observa todos os anos nesta época do ano. Não se deve a uma maior flexibilização eventual pelo Rio de Janeiro, até mesmo porque o Rio de Janeiro tem adotado o protocolo. A dispensação — colocando na página da Secretaria, uma atitude muito bemvista — foi proposta conjuntamente, como eu me referi, há aproximadamente mais de 1 mês, pelo Ministério da Saúde, com todos os Secretários Estaduais de Saúde, — que antecedeu a reunião dos profissionais, infectologistas e outras sociedades colaboradoras — para dispor, colocar na página ou ter dispensação para qualquer médico. Perdão, o preenchimento do formulário para encaminhamento para os pontos de dispensação. Essa iniciativa foi feita conjuntamente com as Secretarias Estaduais de Saúde. O SR. DEPUTADO ELEUSES PAIVA - Sr. Presidente, não querendo interromper, mas já interrompendo, aproveito a oportunidade — provavelmente é a última fala do Dr. Eduardo Hage — para saber da possibilidade de colaboração. S.Sa. nos disse que a política do Ministério é facilitar a dispensação para quem necessitar. Verdadeiro? É isso que eu entendi. Vamos tentar, vamos fazer uma reunião. Quero saber se não é possível haver um meio de comunicação no Ministério, por meio de 0800 ou de um site ou alguma coisa, para que os profissionais médicos possam comunicar-se. Todos os médicos com quem eu falei, aqui em Brasília, colocaram uma dificuldade. Que se dê uma garantia ao médico que prescrever e que o paciente com essa consulta tenha condições de estar tendo... Quem não tiver a dispensação entra num site — e podemos fazer até pela Câmara dos Deputados — ou liga para um 0800. Assim, até o próximo Ministério terá noção do que está acontecendo. 62 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Eu falo para o senhor, que é um epidemiologia, e o senhor me responde, mas nós não temos números para poder adequá-los, para saber em qual Estado ou região está havendo problema. Não se sabe se é verdadeira, por exemplo, a suspeita de alguns Parlamentares que são do Rio Grande do Sul e do Paraná de que nas cidades fronteiriças a epidemia abaixou, porque está todo mundo — não sei se a palavra correta é essa — contrabandeando o Tamiflu, porque nos países vizinhos a venda, a dispensação não é feita como no Brasil. Portanto, a população tem acesso ao medicamento. Será que não seria bom termos um mecanismo desse? Até o próprio Ministério poderia ter esse mecanismo e divulgá-lo para a sociedade. Quer dizer, eu tenho uma receita do médico e não consigo o Tamiflu, mas eu tenho um local que eu posso reclamar. Na realidade, isso não existe. Estou falando disso, porque eu tive problemas, na minha família, com dispensação do Tamiflu. E eu só o consegui porque eu me identifiquei. Na hora que a pessoa se identifica, diz quem é, abrem-se as portas, as facilidades. Mas a população normal não tem acesso ao medicamento. Portanto, gostaria de saber se não existe um mecanismo desse que pudesse ser feito na tentativa de ajudar. Vamos identificá-lo porque, a partir do momento que nós o identificarmos, creio que fica mais fácil a ação. O SR. EDUARDO HAGE - Deputado, muito obrigado pela sugestão. Isso é perfeitamente possível de ser feito e vai ser levado inclusive para a reunião de Dirigentes de Epidemiologia, da área de atenção. Não adianta recebermos todas as informações e elas não estarem articuladas com os Estados. Seguramente, vamos utilizar inclusive os meios existentes na Assessoria de Comunicação e outros. Nós vamos, por intermédio de V.Exa., informar qual a maneira de fazer isso. O último ponto diz respeito a essa questão. A venda de medicamento pelas farmácias, reitero, não é prerrogativa do Ministério, e também não é prerrogativa impedir a venda do medicamento nas farmácias. Fizemos consulta inclusive à própria assessoria jurídica. Houve motivo para alguns processos que já foram julgados pela Justiça Federal. Ficou entendido que realmente não é nossa a prerrogativa. No início da pandemia, a companhia não tinha medicamento suficiente para abastecer a demanda no Ministério da Saúde e a rede comercial, o que é 63 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 prerrogativa da companhia. Há grande possibilidade — a companhia já nos informou —, com o aumento da produção, de colocar o medicamento na rede, a partir do momento que haja essa disponibilidade. Parece-me agora, para os próximos meses, que não há obviamente nenhum impedimento para venda do medicamento nas farmácias. O SR. PRESIDENTE (Deputado Germano Bonow) - Quero só fazer um alerta. Já são 12h49min. De acordo com as regras da Casa, nós temos de nos encaminhar para o encerramento. Se o senhor, que veio de longe e está pedindo 1 minuto, quiser ter uma inquietação que não implique numa resposta de 20 minutos por parte do Dr. Eduardo, tudo bem. O SR. CELSO RAMOS - Não, é só o seguinte: eu ouvi o Ministro dizer que o Ministério continuaria comprando toda a produção e, com isso, prioritariamente fazendo com que o medicamento não chegasse à farmácia. V.Sa. está dizendo o contrário do que o Ministro falou. O SR. EDUARDO HAGE - Como a reunião foi feita nesta Casa, ela está gravada, e a afirmação pode ser conferida. O Ministro afirmou, e eu estava presente em todas as audiências, que o Ministério comprará todo o estoque necessário para abastecimento do Ministério da Saúde. Ele não afirmou que vai comprar o estoque da companhia. É pública a quantidade de medicamento que o Ministério vai adquirir. O laboratório, por outro lado, informa que tem capacidade para atender o Ministério e colocar o medicamento à disposição no comércio. São coisas diferentes. Nós não perguntamos quanto medicamento eles têm nem dissemos que, se são 9 milhões, todo ele é nosso. Não, nós apresentamos a demanda. Óbvio, da mesma forma que estamos aqui discutindo a dispensação, nós precisamos, sim, aumentar esse estoque para o enfrentamento da segunda onda. O produtor, e ele tem de confirmar, informa que tem condições de atender não somente ao Brasil, mas a outros países e ainda colocar o medicamento na rede de vendas. Prerrogativa do produtor. O SR. PRESIDENTE (Deputado Germano Bonow) - Eu quero encaminhar para o encerramento, se o Deputado Eleuses Paiva permitir, agradecendo a participação a todos os componentes desta Mesa, que, a meu ver, foi bastante rica — Dr. José Lúcio, Dr. Celso, Dr. Alberi, Dr. Juvêncio, Dr. Eduardo. 64 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Vou fazer um comentário. Eu tinha anotado uma série de comentários, mas essa palavra final, Dr. Eduardo, foi extremamente importante. Há uma preocupação dos profissionais médicos da linha de frente. Visitei o Hospital de Clínicas de Porto Alegre durante a epidemia, para tratar da saúde mental. No momento em que conversava com o professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entrou uma pessoa na sala, entregou um papel a ele e disse: “Isso aqui é o meu plantão”. Eu disse: “Mas plantão de quê, psiquiatra, professor?” Ele disse: “Não, é que está faltando médico no Hospital de Clínicas para atender à gripe; estou descendo para atender lá embaixo, na barraca e eu tenho que cumprir, porque os médicos estão adoecendo”. Sem dúvida nenhuma, esse estresse a que se referiu o Secretário do Paraná é um componente da rede de prestação de serviço. Passo Fundo também enfrentou esse estresse, com certeza. A logística não é uma questão de responsabilizar o Ministério ou o Secretário. O senhor diz que há possibilidade de que nessas milhares de farmácias — acho que deve haver umas 80 mil farmácias no País — haja uma caixa de Tamiflu que poderá ser receitada pelo médico. E o médico ficará em dúvida, pois não tem formação de clínico. Muitos estão afastados, ou são cirurgiões, ou psiquiatras, ou estão na administração, mas, de repente, têm de atender na linha de frente. A rede de prestação de serviço fica um pouco tranquila. Vamos ver se o seu laboratório vai cumprir isso ou não; se não cumprir, fica a preocupação de alguns Deputados — Jofran Frejat, Eleuseus Paiva, o Alceni Guerra, eu — com a prescrição do Tamiflu. O Deputado Eleuses Paiva fez uma referência ao Conselho Federal de Medicina. Realmente, se pudesse ser ouvido um pouco o Conselho Federal de Medicina, quanto às necessidades dos profissionais da área de saúde, seria interessante. Por outro lado, fica uma preocupação muito grande quanto à vacina. Quando estamos falando de vacina, parece-me que o ideal, o que temos lido na imprensa leiga, seria vacinar a totalidade da população do País. Com a possibilidade de 30 milhões de doses, vacinaremos 15%. Prioridades deverão ser estabelecidas pelos senhores. Este é um problema de saúde pública. 65 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Nome: Comissão de Seguridade Social e Família Número: 1396/09 COM REDAÇÃO FINAL Data: 03/09/2009 Fico pelo menos um pouco tranquilo, porque também tive informações de que, na rede de prestações de serviço, na área hospitalar do Rio Grande do Sul, houve o fornecimento de equipamentos, respiradores, que vieram dos Estados do Norte, no momento crítico, julho e agosto, que estávamos atravessando no Rio Grande. A disponbilização do Ministério, na rede hospitalar, desses equipamentos é extremamente importante. Deputado Eleuses Paiva, estou encaminhando-me para o encerramento. A V.Exa, que fez o requerimento, agradeço, bem como aos integrantes da Mesa. Não havendo mais nada a tratar, vou encerrar esta reunião, convocando reunião ordinária, para a próxima quarta-feira, 9 de setembro, às 9h30min, no Plenário VII, para discutir os itens da pauta. Está encerrada a reunião. 66