Algumas contribuições de Rousseau, presentes na obra Emílio ou Da Educação, que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação Adriana Ferreira Boeira i Resumo: O artigo insere-se no eixo temático “Educação e Recursos Midiáticos” e tem como objetivo apresentar algumas contribuições de Rousseau, presentes na obra Emílio ou Da Educação, que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação. Inicialmente, expõe-se a estrutura da obra. Em seguida, apresentam-se algumas considerações disponíveis no Livro I e Livro II, sobre “A idade de natureza”. Busca-se refletir sobre as considerações apresentadas nesses livros tentando aproximá-las das estratégias que podem ser utilizadas pelos professores explorando os recursos disponíveis nos blogs. Finalmente, destaca-se que embora Rousseau escrevesse essa obra pensando nas crianças e na educação de seu tempo, muitas de suas considerações são atuais contribuindo para que possamos refletir sobre a educação e as práticas pedagógicas realizadas na escola atualmente, de maneira especial, sobre as estratégias para a utilização dos blogs na educação com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. Palavras-chave: Educação. Liberdade. Processo de Aprendizagem. Estratégias Pedagógicas. Blogs Educativos. Some contributions to Rousseau present in Emilio’s work or In Education, that help thinking strategies for the use of blogs in education Abstract: The article is part of the main theme "education and media resources" and it aims to present some contributions to Rousseau, present in Emilio’s work: or in Education, which help thinking strategies for using blogs in education. Initially, it exposes the structure of the work. Next, we present some considerations available in Book I and Book II about "The age of nature." It tries to reflect on the considerations presented in these books trying to bring them the strategies that can be used by teachers exploring the resources available in blogs. Finally, we emphasize that although Rousseau wrote this book thinking in children and the education of his time, many of his current considerations are contributing so that we can think about education and teaching practices carried out in school today, especially on the strategies for the use of blogs in education with students in the later series of elementary school. Keywords: Education. Freedom. Learning Process. Pedagogical Strategies. Educational Blogs. 1 INTRODUÇÃO 2 Este artigo insere-se no eixo temático “Educação e Recursos Midiáticos” e tem como objetivo apresentar algumas contribuições de Rousseau, presentes na obra Emílio ou Da Educação, que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação. A obra Emílio ou Da Educação foi escrita por Jean-Jacques Rousseau, no período de 1757 a 1762, e é composta pelos Livros I, II, III, IV e V. Emílio é o nome da personagem principal da obra. Trata-se de uma personagem fictícia criada pelo autor, que por sua vez, assume na obra o papel de seu preceptor. A vida do órfão Emílio é apresentada desde o seu nascimento até os seus 25 anos de idade. Primeiramente, no Livro I e Livro II é exposto a denominada “A idade de natureza”, que trata respectivamente do nascimento de Emílio até seus 2 anos de idade e dos 2 aos 12 anos de idade. Em seguida, “A idade de força”, que corresponde dos 12 aos 15 anos de Emílio, é apresentada no Livro III; enquanto que o Livro IV expõe “A idade de razão e das paixões”, que corresponde ao seu desenvolvimento dos 15 aos 20 anos de idade. Finalmente, o Livro V, intitulado “A idade de sabedoria e do casamento”, apresenta o desenvolvimento de Emílio dos 20 aos 25 anos de idade. Ressalta-se que para este artigo, interessa-nos as considerações de Rousseau presentes no Livro I 1 e Livro II 2 sobre “A idade de natureza”. Especialmente, a faixa que corresponde dos 5 aos 12 anos de idade, onde a criança atinge a idade escolar e frequenta o Ensino Fundamental atualmente. Assim sendo, “Algumas considerações disponíveis no Livro I e Livro II: ‘A idade de natureza’” é o título da primeira seção. Entre as considerações, enfatizase o conceito de educação e as ideias sobre liberdade, visto que o objetivo da educação de Emílio é formar um homem livre. Na seção intitulada “Contribuições de Rousseau que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação”, inicialmente, apresenta-se o conceito de blogs e algumas de suas características. Em seguida, busca-se refletir sobre as possíveis contribuições de Rousseau que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. 2 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES DISPONÍVEIS NO LIVRO I E LIVRO II: “A IDADE DE NATUREZA” 1 2 Página 7 a 64. Página 65 a 200. 3 A denominada “A idade de natureza”, que trata do nascimento de Emílio até seus 12 anos de idade, é para Rousseau (1999, p. 91) “o mais perigoso intervalo da vida humana”, pois “é o tempo em germinam os erros e os vícios, sem que tenhamos ainda algum instrumento para destruí-los”. Desse modo, Rousseau (1999, p. 91) declara que “a primeira educação deve ser puramente negativa”, que “consiste, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em proteger o coração contra o vício e o espírito contra o erro.” Mas qual é o conceito de educação para o autor? A seguir, busca-se trazer elementos para responder esta pergunta. 2.1 Educação Para Rousseau (1999, p. 9), “a educação é uma arte” e por isso “é quase impossível que ela tenha êxito, já que o concurso necessário a seu sucesso não depende de ninguém”. Então, segundo ele (1999, p. 9), “tudo o que podemos fazer à custa de esforços é nos aproximar mais ou menos do alvo, mas é preciso sorte para atingi-lo”. Apesar do autor afirmar que o sucesso da educação não depende de ninguém, ele não exime os homens da responsabilidade de educar as crianças. Pelo contrário, isso fica evidente ao distinguir os três tipos de educação, especialmente, quando se refere à educação dos homens. Rousseau (1999, p. 44) afirma que “nascemos capazes de aprender, mas sem nada saber e nada conhecendo”. Portanto (1999, p. 8), “nascemos fracos, precisamos de força; nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes nos é dado pela educação.” Para ele, a capacidade de aprender é a educação que vem da natureza. Além da educação que vem da natureza, ele distingue mais dois tipos de educação: educação que vem dos homens e das coisas. Assim (1999, p. 8), o desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e a aquisição de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas. Nesse caso, recebe-se da natureza, por exemplo, os órgãos e a faculdade de pensar e falar. Mas é no contato com outras pessoas, que se aprende a utilizar esses órgãos e faculdades. Pratica-se a educação das coisas no momento em que se pensa e ou se fala partindo de experiências. Consequentemente, segundo Rousseau, a natureza, os homens e as coisas são os 4 mestres responsáveis pela formação do ser humano 3 . O autor também distingue o conceito de educação e vida, e destaca a sua relação. Afirma (1999, p. 14) que o mais bem educado é “aquele de nós que melhor souber suportar os bens e os maus desta vida; donde se segue que a verdadeira educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. Começamos a nos instruir quando começamos a viver; nossa educação começa junto conosco”. Ressalta-se que para Rousseau (1999, p. 15), viver não é respirar, mas agir; é fazer uso de nossos órgãos, de nossos sentidos, de nossas faculdades, de todas as partes de nós mesmos que nos dão o sentido de nossa existência. O homem que mais viveu não é o que contou maior número de anos, mas aquele que mais sentiu a vida. Dessa forma, não é considerado “bem educado” aquele que somente tem mais acesso a informações e conhecimentos. Aqueles que, por diferentes razões, nunca frequentaram a escola, por exemplo, não podem ser considerados “mal educados” por este motivo, pois a educação vai muito além da educação formal proporcionada pela escola. Conforme ratifica Rousseau (1999, p. 45), a educação do homem começa com o nascimento; antes de falar, antes de ouvir, ele se instrui. A experiência antecipa as lições. [...] Ficaríamos surpresos com os conhecimentos do mais grosseiro dos homens se seguíssemos seu progresso desde o momento em que nasceu até onde está. Destaca-se a partir das considerações do autor, que a educação é um processo complexo e que seu sucesso não depende unicamente de uma pessoa, e ou de um tipo de educação isolada, mas exige um conjunto de contribuições de todos os tipos de educação que compõem a formação humana. Quanto ao tipo de educação dos homens; ressalta-se que a responsabilidade e a influência sobre a educação da criança, provêm de seus pais, depois dos familiares e amigos. Mais tarde, já ao atingir a idade escolar, e também para aqueles que frequentam a universidade; dos professores e colegas. Porém, a educação não depende exclusivamente dos estudantes ou de seus professores, da escola, dos pais, dos recursos e estratégias que são utilizados, pois ela não se encerra ao concluir o Ensino Fundamental, Ensino Médio, a Graduação e ou a Pós-Graduação. A educação ocorre a todo tempo e por toda a vida. Assim, também contribuem para o tipo de educação dos homens os colegas de trabalho. Enfim, todas as pessoas com quem nos relacionamos, direta ou indiretamente, desde o nascimento. Também, a concepção de Educação proposta por Rousseau não está focada na 3 Acredita-se que os três tipos de educação apresentados pelo autor são importantes e neste estudo não se tem como objetivo discutir e ou classificá-los em ordem de importância na formação humana. 5 preparação do homem para executar funções específicas, que a sociedade exige, e que lhe conferem determinado status, pois antes de se tornar um profissional, o ser humano é um homem. Sobre a educação de Emílio assegura Rousseau (1999, p. 14), viver é o ofício que quero ensinar-lhe. Ao sair de minhas mãos, concordo que não será nem magistrado, nem soldado, nem padre; será homem, em primeiro lugar; tudo o que um homem deve ser, ele será capaz de ser, se preciso, tão bem quanto qualquer outro; e, ainda que a fortuna o faça mudar de lugar, ele sempre estará no seu. Para que Emílio esteja sempre no seu lugar, independentemente do lugar onde se encontre, só será possível, se ele for um homem livre. Portanto, o objetivo da educação de Emílio é formar um homem livre, tratando-o como um ser livre e respeitando a sua liberdade. Na sequência, a partir dessas considerações, trata-se do tema liberdade. 2.2 Liberdade Rousseau declara que a liberdade das crianças já é impossibilitada após seu nascimento, quando recebem faixas por todo o corpo que impedem seus movimentos. Defende que as crianças não sejam submetidas a tais procedimentos e que possam movimentar-se livremente. De acordo com o autor (1999, p. 55) é necessário “dar às crianças mais verdadeira liberdade e menos domínio, deixar que façam por si mesmas e exijam menos dos outros”. Também, afirma (1999, p. 67) que “podendo mais por si mesmas, precisam com menos frequência recorrer aos outros. Junto com a força, desenvolve-se o conhecimento, que as põe em condições de dirigi-la”. Para isso, as palavras obrigação, ameaça, promessa, força, adulação e imposição perdem espaço. Rousseau ressalta que a forma de educação pública e comum é oposta à forma de educação particular e doméstica. A escola, através de seus diferentes ambientes (salas de aula, refeitórios, pátios, bibliotecas e, mais recentemente, laboratórios de informática), é o local onde diversas crianças com educação particular e doméstica singulares se encontram e onde ocorre a educação pública e comum. O autor ainda critica os instrumentos usados para educar, entre eles, a rivalidade, os ciúmes, a inveja, a vaidade, a avidez e o temor vil. Para ele (1999, p. 86), “ao tentar convencer vossos alunos sobre o dever de obediência, juntais a essa pretensa persuasão a força e as ameaças, ou, que é pior, a adulação e as promessas. Assim, atraídos pelo interesse ou obrigados pela força, eles fingem ser convencidos pela razão”. Afirma (1999, p. 89) que “tentaram-se todos os instrumentos, menos um, exatamente o 6 único que pode dar certo: a liberdade bem regrada”. Dessa forma, o conceito de liberdade não pode ser entendido como fazer o que se quer, o que se bem entenda, quando, como e com quem quiser. No dicionário on-line (2010) encontramos, entre outros significados, que liberdade é o “direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem”. Portanto, embora possamos distinguir o conceito de liberdade do conceito de responsabilidade ambos estão relacionados. Educar utilizando como instrumento, a liberdade regrada, não é tarefa fácil e exige muito do preceptor, que precisa ser zeloso, simples, discreto e contido. Para Rousseau (1999, p. 55) entre as suas funções, além de vigiar, observar, seguir, espreitar com vigilância seus preceptores “é preciso ajudá-las e suprir o que lhes falta, quer em inteligência, quer em força, em tudo que diz respeito à necessidade física”. Rousseau (1999, p. 76) afirma que “o homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada” e que (1999, p. 71) “o homem é muito forte quando se contenta com ser o que é, e é muito fraco quando deseja erguer-se acima da humanidade”. Também, segundo o autor (1999, p. 76), “a sociedade enfraqueceu o homem não apenas lhe tolhendo o direito que tinha sobre as suas próprias forças, mas sobretudo tornando-as insuficientes”. Então, os homens são livres para fazerem suas escolhas, para decidirem seus caminhos e estão sempre em busca da perfectibilidade, demonstrando uma constante insatisfação. Ao conquistar algo, já tem outras vontades. Talvez também por isso, Jean Jaques, prefira educar Emílio no campo, longe de coisas que possam atrair e despertar desejos desnecessários no menino. Emílio só tem contato com o mundo quando atinge aproximadamente 20 anos de idade. Destaca-se que o preceptor nos dias de hoje, encontraria maiores dificuldades em evitar os desejos de Emílio, considerados por ele desnecessários, mesmo levando-o para o campo. Isso também, porque a utilização de computador com acesso a internet, que não é exclusividade das pessoas que moram nas cidades e grandes centros urbanos, permite que as pessoas acessem informações e se relacionem com outras pessoas. Sem levar em conta o lugar onde estão ou moram podem utilizar o computador com acesso a internet para acessar páginas de museus de todo o mundo, páginas de jornais e revistas do Brasil e de outros países. Morar no campo não impede que se informem, e ou que se relacionem com pessoas que residam ou que se encontrem em outras localidades. Outro motivo, que contribui para que o preceptor preferisse educar Emílio no campo, está relacionado às questões sobre a linguagem oral. Para o autor a pronúncia das crianças do campo é mais nítida do que as crianças da cidade. O fato das crianças da cidade não pronunciarem as palavras nitidamente se deve 7 segundo Rousseau (1999, p. 61), a necessidade de aprender de cor muitas coisas e de recitar em voz alta o que decoraram, pois ao estudar, acostumam-se a resmungar e a pronunciar mal e negligentemente. Ao recitarem, é pior ainda; procuram penosamente as palavras, arrastam e alongam as sílabas. Quando a memória vacila, não é possível que também a língua não balbucie. Assim se contraem ou se conservam os vícios de pronúncia. Dessa forma, ressalta-se que, para Rousseau, aprender não é decorar informações que não vão de encontro com os interesses dos estudantes. Conforme complementa o autor (1999, p. 116), em qualquer estudo que seja, sem a ideia das coisas representadas, os signos representantes não são nada. Todavia, sempre limitamos a criança a estes signos, sem jamais podermos fazê-la compreender nenhuma das coisas que representam. Julgando ensinar-lhe a descrição da terra, só lhe ensinamos a conhecer mapas; ensinamo-lhes nomes de cidades, de países, de rios, que ela não concebe que existam em outra parte que não sobre o papel onde lhes mostramos. Assim, outra condição para a aprendizagem refere-se à necessidade de aproximar os conhecimentos científicos aos conhecimentos da vida. Percebe-se isso, na passagem em que o autor critica os ensinamentos dos pedagogos. Rousseau (1999, p. 115) afirma que os pedagogos ensinam, palavras, mais palavras, sempre palavras. Dentre as diversas ciências que se vangloriam de lhes ensinar, evitam escolher as que seriam realmente úteis para as crianças, porque seriam ciências de coisas e as crianças não se dariam bem. No entanto, escolhem as ciências que parecemos saber quando sabemos os seus termos: a heráldica, a geografia, a cronologia, as línguas, etc,. Todos estudos estão distantes do homem, e sobretudo da criança, que será uma maravilha se algo de tudo isso lhe puder ser útil uma só vez em sua vida. Além disso, é necessário atenção especial dos adultos ao que as crianças falam, respeitando suas ideias, pois segundo ele (1999, p. 61), os vícios de pronúncia, adquiridos também pela decoreba, podem ser prevenidos e corrigidos com facilidade; porém, aqueles “que as fazemos contrair tornando sua fala surda, confusa, tímida criticando continuamente seu tom, censurado todas as suas palavras, não se corrigem jamais”. Portanto, não se pode exigir de uma criança um vocabulário e atitudes de um adulto. De acordo com o autor (1999, p. 86), a natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perverter essa ordem, produziremos frutos temporões, que não estarão maduros e nem terão sabor, e não tardarão em se corromper; teremos jovens doutores e velhas crianças. A infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhes são próprias; nada é menos sensato do que querer substituir essas maneiras pelas nossas. Ainda, criticando a educação da época, afirma (1999, p. 4) que “os mais sábios 8 prendem-se ao que aos homens importa saber, sem considerar o que as crianças estão em condições de aprender. Procuram sempre o homem na criança, sem pensar no que ela é antes de ser homem”. Dessa forma, a obra rompe com concepções que tratavam à criança como um adulto em miniatura, exigindo-lhes que tivessem os mesmos comportamentos dos adultos, não considerando seu desenvolvimento, seus interesses e necessidades. Até agora foram apresentadas algumas considerações de Rousseau, presentes no Livro I e II. Discute-se, a seguir, as possíveis contribuições de Rousseau que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. 3 CONTRIBUIÇÕES DE ROUSSEAU QUE AJUDAM A PENSAR ESTRATÉGIAS PARA A UTILIZAÇÃO DOS BLOGS NA EDUCAÇÃO Nesta seção, inicialmente, apresenta-se o conceito de blogs e algumas de suas características. Em seguida, busca-se refletir sobre as possíveis contribuições de Rousseau que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. 3.1 Blogs: conceito e algumas características Existem muitas definições para a palavra da língua inglesa blog, entre elas, a página do serviço de criação e hospedagem de blogs Blogger (2009, grifo nosso) define que, o blog é uma página web atualizada frequentemente, composta por pequenos parágrafos apresentados de forma cronológica. É como uma página de notícias ou um jornal que segue uma linha de tempo com um fato após o outro. O conteúdo e tema dos blogs abrange uma infinidade de assuntos que vão desde diários, piadas, links, notícias, poesia, ideias, fotografias, enfim, tudo que a imaginação do autor permitir. Em geral, ao criar um blog (Figura 1), através dos diversos serviços de criação e publicação de blogs disponíveis na internet, escolhe-se um modelo (A), um endereço (B) e um título (C). O blog pode ter um ou mais autores e é composto por postagens. Cada postagem (D) pode apresentar textos, imagens, links e vídeos, e informa a data (E), o título (F), e nome do autor (G) da publicação. O diferencial do blog, em relação aos outros sites, é que apresentam um espaço destinado aos comentários (H) dos leitores. 9 B- ENDEREÇO DO BLOG C- TÍTULO DO BLOG E- DATA PUBLICAÇÃO F- TÍTULO POSTAGEM A- MODELO D- POSTAGEM G- AUTOR DA POSTAGEM H- COMENTÁRIOS Figura 1: Blog Artigo CINFE. Disponível em: <http://artigocinfe.blogspot.com/>. Acesso em: 11 jan. 2010. Os blogs, assim como tantos outros recursos e softwares, não foram desenvolvidos, inicialmente, para finalidades educacionais. Mas, por apresentar determinadas características, tais como: a facilidade de criação, a gratuidade de publicação, a possibilidade de construção coletiva, de comunicação, interação e colaboração entre estudantes e professores através da linguagem, tem sido explorado por professores de diferentes áreas do conhecimento e estudantes dos diversos níveis de ensino, da educação infantil até a pós-graduação. Segundo Rodrigues (2008, p. 55, grifo do autor), weblog ou simplesmente “blog” são palavras já inseridas no contexto escolar, no cotidiano das salas de aulas. Já se percebe o uso de blogs com intenção pedagógica, com a finalidade de utilizá-los como instrumento interativo, participativo para o contexto escolar, em ambientes já familiarizados com o uso da Internet. A blogsfera já tem em seu espaço grande número de adeptos que utilizam o gênero não apenas como um diário virtual, mas também com fins pedagógicos [...]. Os blogs têm sido utilizados na educação por professores e estudantes com inúmeros objetivos. Existem blogs utilizados pelos professores com o objetivo de publicar e divulgar as atividades e projetos realizados com os estudantes na sala de aula. 10 Também utilizam os blogs com o objetivo de publicar textos, imagens, links e vídeos sobre os mais variados conteúdos a fim de filtrar as informações para a pesquisa dos estudantes. Ressalta-se que os blogs podem ser explorados na educação mais do que para divulgar atividades realizadas na sala de aula e ou indicar os materiais para pesquisa dos estudantes. Os professores podem explorar o blog como um ambiente alternativo para o desenvolvimento do processo de aprendizagem. O blog permite que sejam realizados trabalhos envolvendo estudantes de escolas localizadas em cidades, estados e países distintos. Dependendo do objetivo do blog definem-se as estratégias de sua utilização. Anastesiou e Alves (2004) destacam que estratégia vem do grego strategía e do latim strategia, é a arte de aplicar ou explorar os meios e condições favoráveis e disponíveis, com vistas à consecução de objetivos específicos. Deste modo, as autoras enfatizam que o professor deve ser um estrategista (2004, p. 69), no sentido de estudar, selecionar, organizar e propor as melhores ferramentas facilitadoras para que os estudantes se apropriem do conhecimento. [...] Por meio das estratégias aplicam-se ou exploram-se meios, modos, jeitos e formas de evidenciar o pensamento, respeitando as condições favoráveis para executar ou fazer algo. Assim, os professores podem explorar as funcionalidades e recursos disponíveis no blog para selecionar, organizar e propor atividades que promovam a construção coletiva, a liberdade, a autoria, a autonomia, a comunicação, a interação e a colaboração entre estudantes e professores através da linguagem. A seguir, discute-se sobre as possíveis contribuições de Rousseau que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação. 3.2 Reflexões sobre as considerações de Rousseau e a utilização dos blogs na educação Acredita-se que entre as contribuições de Rousseau, presentes na obra Emílio ou Da Educação, que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental, e ou com estudantes de outros níveis de ensino, está a necessidade de conhecê-los para tentar aproximar os seus conhecimentos, dos das diversas áreas. Segundo Rousseau (1999, p. 4), “começai, pois, por melhor estudar vossos alunos, pois com toda certeza não os conheceis” e (1999, p. 87) “tratai vosso aluno de acordo com a idade”. Dessa forma, antes de planejar e aplicar as estratégias para a utilização dos blogs na educação, ou qualquer outro recurso, é fundamental conhecê-los, qual é a sua realidade e quais são os seus conhecimentos. 11 Afinal a criança não chega à escola, como uma folha de papel em branco, e ou, de um ano para outro, ao trocar de série, seus conhecimentos não desaparecem. Percebe-se nessa consideração, uma aproximação entre as ideias de Rousseau e de Vigostki, pois este último destaca que (2001, p. 109) “a aprendizagem escolar nunca parte do zero. Toda a aprendizagem da criança na escola tem uma pré-história”. Isso significa, que é importante valorizar a história de vida, as experiências dos estudantes que chegam à escola, pois a educação e a aprendizagem realizada na família, na comunidade em que estão inseridas é rica de experiências e de significados. Estas podem ser exploradas pelos professores e enriquecer, contribuir para o desenvolvimento do processo de aprendizagem escolar. Ignorar a cultura, a aprendizagem, os conhecimentos, as experiências dos estudantes, pode dar a entender que o conhecimento registrado nos livros e ou o conhecimento do professor é superior ou melhor do que a bagagem trazida por eles. Não se esclarece que se trata de conhecimentos diferentes que podem dialogar. Além de identificar os conhecimentos dos estudantes sobre os conteúdos das diversas áreas, já que estamos refletindo sobre estratégias de utilização dos blogs, faz-se necessário, inclusive, investigar qual são os conhecimentos dos estudantes sobre os blogs. Que blogs conhecem e acessam, sabem o que é uma postagem, um comentário e como comentar e criar uma postagem, quais são suas dificuldades, dúvidas e sugestões. Isso pode ser feito utilizando o próprio blog, criando e disponibilizando um questionário para os estudantes responderem. Para Rousseau (1999, p. 117), o “estudo, desprovido de qualquer interesse, não vos dá mais prazer do que instrução”. Portanto, outra consideração apresentada por Rousseau que ajuda a pensar estratégias para a utilização dos blogs, é a necessidade de considerar os interesses e a liberdade dos estudantes. Assim, o professor ao propor o estudo de determinado conteúdo, específico da série e da disciplina, pode recomendar que os estudantes pesquisem sobre o assunto que tenham mais interesse. Não é necessário determinar que todos os estudantes utilizem as mesmas fontes de consulta e que pesquisem sobre um único assunto, visto que, geralmente um conteúdo abrange diversos temas. Sendo assim, ao imaginar a utilização de um blog, o professor e os estudantes podem ter participação ativa no processo de aprendizagem, sendo responsáveis pela criação de postagens e registros de comentários. Mas considerando uma outra contribuição de Rousseau, que critica a obrigatoriedade e as ameaças, destaca-se que as postagens e comentários registrados pelos estudantes no blog não poderiam ser impostos, obrigando os estudantes a realizar essas atividades somente para não serem punidos. 12 O professor poderá desafiar os estudantes a criarem as postagens no blog sobre os assuntos de seus interesses concedendo-lhes liberdade para escolherem os recursos que serão utilizados: textos, vídeos, imagens, links. Ao estudar o conteúdo Corpo Humano, por exemplo, é possível que os estudantes individualmente ou em grupos, pesquisem sobre a parte do corpo que tenham mais interesse e curiosidade em investigar e criem uma postagem com as descobertas no blog coletivo. Enfim, diversos assuntos podem ser contemplados na pesquisa, pois há aqueles que têm interesse em pesquisar sobre o coração, outros sobre o cérebro e outros assuntos. Uma outra vantagem de explorar essa estratégia é que, caso a pesquisa seja realizada em dupla ou em grupo, os estudantes têm que dialogar e entrar em um consenso. Para isso, cada um pode expor seus argumentos aos demais a fim de decidir o assunto cuja pesquisa será realizada. Nessa negociação a vontade do grupo prevalece sobre a vontade individual. Mesmo assim, é possível que cada um se sinta representado na decisão do grupo. Como aprender, segundo Rousseau, não é decorar, as postagens poderiam registrar o entendimento, o pensamento dos alunos através da linguagem escrita. E não simplesmente copiar e colar, transferindo os textos das fontes de pesquisa para a postagem do blog. Nesse aspecto, é que podemos considerar mais uma contribuição de Rousseau: trata-se da liberdade bem regrada. Para ele (1999, p. 88), “a pior educação é deixá-lo flutuando entre as suas vontades e as vossas, e haver uma disputa contínua entre vós e ele para decidir quem mandará”. Apesar dos estudantes terem liberdade para pensar, discutir e escolher o assunto de seu interesse e criar as postagens e comentários no blog, isso não significa que podem criar postagens e comentários sobre o que bem entenderem, sem considerar determinados critérios que podem ser construídos coletivamente. Ao finalizar a sua postagem, os estudantes podem acessar as postagens criadas pelos colegas para ler as demais pesquisas publicadas. Além disso, podem contribuir com a pesquisa do colega, inserindo um comentário, indicando fontes para enriquecer a pesquisa, registrando sua opinião, suas dúvidas e sugestões sobre o assunto exposto. Faz-se necessário que o professor fique atento aos registros realizados pelos estudantes no blog, tendo a sensibilidade para respeitar os pensamentos dos alunos registrados através da linguagem escrita, não criticando e nem censurando as palavras deles. Pois, acredita-se que assim como Rousseau destacou que os vícios de pronúncia podem ser prevenidos e corrigidos facilmente e que os vícios que tornam a fala surda, confusa e tímida não se corrigem jamais, a linguagem escrita registrada nos blogs também pode apresentar silêncio, confusão e timidez. 13 Portanto, o papel desempenhado pelo professor ao propor aos estudantes a criação de uma postagem ou o registro de um comentário no blog, é tão importante quanto o papel desempenhado por ele ao propor uma atividade na sala de aula utilizando outros recursos e estratégias. Embora muitas vezes os estudantes dominem melhor as ferramentas dos blogs, o papel do professor é fundamental, pois cabe a ele pensar e aplicar estratégias e explorar tais recursos pedagogicamente. Para isso, não precisa dominar todos os recursos, pode criar situações de aprendizagem aproveitando os conhecimentos dos estudantes, incentivando-os a compartilhar tais conhecimentos com seus colegas e professores. Enfim, os estudantes realizam as propostas com o incentivo, o acompanhamento, a orientação e intervenção atenta do professor, e também dos pais, que podem acessar o blog do local de trabalho e ou de casa. Ainda mais que, a utilização dos blogs está vinculada ao acesso à internet, que também apresenta seus riscos através da exploração de uma infinidade de conteúdos que podem ser prejudicais, tais como as páginas que incentivam o preconceito, a prostituição, a pedofilia e que divulgam fotos pornográficas. Não se trata simplesmente de evitar o acesso a estas páginas, mas principalmente de promover uma discussão sobre esses assuntos e sobre a utilização desse ambiente. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: Rousseau escreveu a obra Emílio pensando nas crianças e na educação de seu tempo (século XVIII). Apesar disso, muitas de suas considerações são atuais contribuindo para que possamos refletir sobre a educação e as práticas pedagógicas realizadas na escola hoje em dia, especialmente, sobre a utilização dos blogs na educação com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental. O autor (1999, p. 69) lembra que “a humanidade tem seu lugar na ordem das coisas, e a infância tem o seu na ordem da vida humana: é preciso considerar o homem no homem e a criança na criança”. Constata-se que as considerações de Rousseau contribuem para romper com concepções que tratavam a criança como um adulto em miniatura, exigindo-lhe que tivessem o mesmo comportamento dos adultos; colaboram para valorizá-la como um ser humano, que apresenta seu próprio desenvolvimento, interesses e necessidades, e enfatiza a importância da atenção dessas considerações para sua educação. 14 Acredita-se que é possível que a escola, onde ocorre a educação pública e comum, possa explorar ao invés de ignorar a diversidade de educação singular e doméstica apresentada pelos estudantes através de estratégias planejadas e aplicadas pelos educadores. Assim, a escola pode ser considerada um espaço privilegiado de aprendizagem; pois, na escola professores e estudantes com conhecimentos, culturas, valores, experiências, ideias e emoções, semelhantes e diferentes se encontram e tem a oportunidade de aprender uns com os outros. Ressalta-se que nem sempre isso ocorre, muitas vezes, os conhecimentos que a criança apresenta ao chegar à escola não são explorados. Da mesma forma, seus interesses e necessidades são ignorados. Além disso, não há muitas escolhas, na maioria das vezes, todos são submetidos a aprender as mesmas coisas, ao mesmo tempo, num mesmo ritmo, a adotarem uniformes, cumprirem horários e participar de rituais como a fila, entre outros. Emílio por si só tem que fazer suas escolhas. A escola poderia dar subsídios e auxiliar para que as pessoas sejam capazes de pensar e fazer escolhas com autonomia. Ratifica-se que o papel desempenhado pelo professor ao propor aos estudantes a criação de uma postagem ou o registro de um comentário no blog, é tão importante quanto o papel desempenhado por ele ao propor uma atividade na sala de aula utilizando outros recursos e estratégias. Cabe ao professor pensar e aplicar estratégias e explorar tais recursos pedagogicamente. Enfim, os estudantes não realizam propostas sem o incentivo, o acompanhamento, a orientação e intervenção atenta do professor. Ressalta-se que a educação é um processo complexo que não depende unicamente de um elemento isolado (estudante, professor, pais, recurso e ou estratégias utilizadas...), mas exige esforços de todos esses elementos que compõem a formação humana. Da mesma forma, quanto às estratégias de utilização dos blogs pelos estudantes, o sucesso não depende unicamente dos estudantes, dos professores e ou do próprio blog. Para finalizar, destaca-se que são muitas as contribuições de Rousseau, contidas nos Livro I e Livro II, sobre “A idade de natureza”, que ajudam a pensar estratégias para a utilização dos blogs na educação. Em síntese, entre elas: - Conhecer os estudantes; - Valorizar os seus conhecimentos aproximando-os dos das diversas disciplinas; - Considerar os interesses dos estudantes; - Aplicar a liberdade regrada entre os instrumentos utilizados para educar; - Considerar que aprender não é decorar. 15 Além dessas contribuições tão importantes, há outras presentes na obra, tais como sobre a educação religiosa, educação estética e educação moral, as quais poderão ser exploradas em estudos e artigos posteriores. Em decorrência deste artigo, poderá ser investigado mais profundamente, a luz dos conceitos e considerações apresentados por Rousseau, os registros dos blogs através das postagens e dos comentários realizados pelos professores e estudantes de determinado nível e área de ensino. REFERÊNCIAS ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos; ALVES, Leonir Pessate. Processos de ensinagem na universidade: pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. Joinville: UNIVILLE, 2004. BLOG ARTIGO CINFE. Disponível em: <http://artigocinfe.blogspot.com/>. Acesso em: 11 jan. 2010. BLOGGER. O que é. Disponível em: <http://blogger.globo.com/br/about.jsp>. Acesso em: 19 dez. 2009. PRIBERAM- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Liberdade. Disponível em: <http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=liberdade> . Acesso em: 12 jan. 2010. RODRIGUES, Cláudia. O uso de blogs como estratégia motivadora para o ensino de escrita na escola. Campinas: UNICAMP, 2008. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da educação. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. VIGOTSKI, Lev Semenovich; LURIA, Alexander Romanovich; LEONTIEV, Alexis N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 9.ed. São Paulo: Ícone, 2001. i Graduada em Tecnologia em Processamento de Dados pela Universidade de Caxias do Sul (2001), e em Pedagogia Anos Iniciais do Ensino Fundamental (Crianças Jovens e Adultos) pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (2007); Especialista em Informática na Educação pela Universidade de Caxias do Sul (2008). Atualmente é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul (PPGEd-UCS), professora da Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus e auxiliar do laboratório de informática da Universidade de Caxias do Sul. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Informática na Educação, atuando principalmente na orientação do professor para o uso das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), e na elaboração de projetos pedagógicos com a inserção da informática para alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Investiga a relação entre a linguagem registrada, por 16 estudantes e o professor, em blogs educativos e o desenvolvimento do processo de aprendizagem. E-mail: [email protected]