EDITORIAL SUMÁRIO PERFIL CORREIO LEITOR CALEIDOSCÓPIO EM FOCO REPORTAGEM OPINIÃO HISTÓRIA CRÓNICA SP ENTREVISTA TÉCNICA 01. 12 1A 8 Exemplo de técnica O relógio mecânico 2 1C 1B Análise de alguns aspectos técnicos e funções de especial interesse no exame de relógios mais emblemáticos. por Dody Giussani – L’ Orologio O 7 funcionamento do relógio mecânico – com do) fornece uma medição de tempo. A oscilação do pêndulo carac- a descrição das partes que compõem o teriza-se pela frequência que exprime um número de oscilações movimento quer seja automático, quer para a unidade de tempo. Se a unidade de tempo escolhida for o se- manual, só com indicação das horas, com gundo, a frequência exprime-se então em oscilações / segundo, ou data, ou ainda, com calendário etc. – repre- ainda em hertz. senta um assunto demasiado vasto para ser Estas características maiores podem reconhecer-se no funcionamen- tratado de forma exaustiva num único artigo. No en- to do balanço-espiral que consta no sistema oscilante utilizado nos tanto, parece-nos oportuno procedermos à análise do funcionamento relógios de bolso. Neste caso, as oscilações são completadas pelo ba- do calibre mecânico, examinando também pormenorizadamente a lanço que gira num sentido e no seu oposto, entre duas posições ex- terminologia que identifica as componentes e características princi- tremas. O motor de funcionamento e o de retorno entre as duas pais de um mecanismo. posições opostas descreve uma oscilação. Na maioria dos relógios de Para começarmos, partimos do princípio de funcionamento dos reló- bolso, o balanço-espiral consegue uma oscilação em um quarto de se- gios mecânicos para definir os grandes pontos fundamentais que es- gundo, seguindo-se quatro oscilações ao segundo, o que corresponde tão na base do seu funcionamento. A medição do tempo por inter- a uma frequência de quatro hertz. Contudo, a frequência de oscilação médio de mecanismos (rodas, molas e ponteiros) assenta dos movimentos relojoeiros aparece tradicionalmente não em hertz, efectivamente sobre a existência de sistemas de mecanismos os- como o estabelece o Sistema Internacional de Medição, mas sim em alternâncias / hora – sistema em que uma alternância corresponde a A frequência de oscilação dos movimentos relojoeiros aparece tradicionalmente não em hertz, como o estabelece o Sistema Internacional de medição, mas sim em alternâncias / hora. meia-oscilação (ou só o movimento de funcionamento da posição inicial à posição oposta). Efectuando-se a devida conversão (quatro oscilações correspondem a oito alternâncias e uma hora a 3600 segun- 10 dos), nota-se que a frequência de quatro hertz equivale a 28 800 alternâncias / hora – ou seja, a frequência usada e normalmente re- 6 gistada na maioria dos relógios mecânicos de produção actual. Regressemos ao funcionamento do relógio mecânico. Uma vez equipado com uma sistema oscilante (considerando ainda o balanço-espiral do relógio de bolso em questão), importa construir um 9 5 mecanismo que esteja apto a calcular as oscilações e a manter-se, ao mesmo tempo, em movimento. De facto, tínhamos emitido uma 3 hipótese um tudo nada ‘ousada’ no princípio do nosso raciocínio ao cilantes, movendo-se com uma frequência de oscilação suficiente- supor que existe naturalmente um sistema oscilante dotado de uma mente constante para fornecer uma base sobre a qual se consegue frequência de funcionamento constante. O que realmente não é ver- construir um sistema de medição do tempo. dade, dado que as oscilações de qualquer que seja o oscilante acabam O sistema de oscilação mais simples é o pêndulo. Como se supõe amortecendo a força desperdiçada (atrito interno, atrito entre as su- que um pêndulo isócrono completa cada oscilação (movimento de perfícies de contacto, viscosidade do ar e dos lubrificantes). Para se funcionamento e regresso entre a posição inicial e a mesma no seu obter oscilações caracterizadas por uma duração idêntica de tempo, é oposto) num tempo idêntico, o cálculo das oscilações multiplicado preciso recorrer a um sistema que contrarie a força de atrito ou que pelo tempo durante o qual o pêndulo executa cada oscilação (perío- recupere a energia gasta em calor (o trabalho desperdiçado aquando 070 | ESPIRAL 4 11 ESPIRAL | 071 EDITORIAL SUMÁRIO PERFIL CORREIO LEITOR CALEIDOSCÓPIO EM FOCO REPORTAGEM OPINIÃO HISTÓRIA CRÓNICA SP ENTREVISTA TÉCNICA O Relógio mecânico 03. rectamente com o oscilante (sistema balanço-espiral). Balanço Efectivamente, sempre que se dá uma oscilação, o balanço acciona 02. Botão um elemento mecânico chamado âncora – que por sua vez faz Disco avançar regularmente uma roda solidária da âncora: a roda de esBobina cape. A cada meia-oscilação (alternância) do balanço-espiral, essa roda irá avançar um lance igual à metade da distância efectiva entre dois dos seus dentes. Portanto, no caso de um movimento com 28 800 alternâncias / hora, a roda do escape avança um espaço en- Eixo tre dois dentes (lance) a cada quarto de segundo (duração de uma oscilação ou de duas alternâncias). Ponte do tambor Garfo Âncora Neste relógio, a roda de escape apresenta 20 dentes e cumpre uma Tambor volta em cada cinco segundos, ou seja em cada 40 alternâncias Haste (meia-oscilação) do balanço-espiral. No mesmo eixo da roda de escape está colocado um pinhão (roda dentada com um número limi- Ponte dos segundos tado de dentes), o qual também executa uma volta em cinco segundos para engrenar com a roda dos segundos do movimento, devendo Ponte da âncora ainda a mesma apresentar um número de dentes de forma a comRoda dos segundos Alavanca de entrada Alavanca de saída pletar uma volta em 60 segundos, ou também após cada 12 voltas Mola de corda completas da roda de escape com o seu pinhão. Se supusermos que o pinhão de escape tem dez dentes, isto quer dizer que a roda dos se- Âncora gundos deverá estar equipada com (12 x 10) / 1 = 120 dentes. Roda central Ponte do escape Cobre-pitão Eixo do tambor Roda mediana Entre a roda de escape e o tambor (do qual a roda recebe a energia Pinhão necessária ao movimento) insere-se uma engrenagem de rodas, chamada sistema de engrenagens, que por sua vez engloba a roda Roda de escape dos segundos e transporta a energia do tambor de corda para o escape. Por sua vez, o escape fornece-a ao balanço-espiral sob a for- Porta-pitão ma de impulsos sempre que se acciona a âncora da parte do baTampa do tambor lanço, de modo a contrariar o efeito da força de atrito, e manter ainda a frequência de oscilação tão constante quanto possível. Raqueta Roda do escape Vejamos agora, de mais perto, cada elemento de que estivemos a gens do relógio, em cujo eixo giram intrinsecamente pequenas al- falar para completar a análise do seu funcionamento. mofadas de rubi (12) que desempenham a função de conter o lubrificante e reduzir os atritos do roçar. Galo Alavanca Espiral 01. Um exemplo de movimento mecânico de corda manual, o Calibre 1400 de Vacheron Constantin. A partir do tambor de corda (3) 02. No desenho ampliado do Calibre Vacheron Constantin 1400 en- podem-se observar as rodas que compõem o sistema de engrena- contram-se indicados os termos técnicos que identificam todas as gens unindo o próprio tambor à roda de escape: roda mediana (9), roda central (8), roda dos segundos (2), e roda de escape (10). O movimento da roda de escape é acertado sobre a âncora (5), que por sua vez oscila em redor de um eixo, movendo-se a cada alPitão ternância do balanço espiral. Este último é constituído na sua es- Balanço Parafuso de fixação ao mostrador Platina trutura por um volante que conta com um verdadeiro balanço próprio (7), introduzido no mecanismo e junto a uma finíssima mola de espiral (4). A mesma age chamando a si o balanço das duas posições de rotação máxima nos dois sentidos mercê da sua do atrito, transforma-se em energia térmica). É ainda por esse moti- (rodas e ponteiros) requeridas na indicação da hora. força elástica, pelo que o balanço-espiral roda a cada alternância vo que os relógios dispõem de um movimento mecânico que serve de A indicação da hora assenta, portanto, sobre a contagem das os- sobre um ângulo bastante aberto (superior a 1800) num sentido reserva de energia do mesmo: o tambor. cilações do sistema oscilante: esse princípio é válido quer no caso do como no seu oposto. O balanço acciona um elemento mecânico chamado âncora – que por sua vez faz avançar regularmente uma roda solidária da âncora: a roda de escape. partes primordiais do mecanismo. Pode-se portanto observar a estru- O tambor de corda apresenta uma mola espiral que, sempre que car- relógio mecânico que estamos a examinar, quer no caso do relógio Outros elementos fundamentais do movimento mecânico são a tura do tambor de corda formado por um eixo central (eixo do tam- regada, fornece ao movimento a energia necessária ao seu devido de quartzo (neste último, o sistema oscilante é um sistema eléctrico platina (11), ou seja, o disco de latão (com banho a ródio) proposi- bor), em redor do qual se enrola a mola da corda, assaz idêntica às mo- funcionamento: ou seja, manter em movimento o oscilante, contras- acertado num cristal de quartzo, quanto à contagem das oscilações, tadamente torneado para acolher todas as componentes e suportes, las que se encontram no alarme ou também nos jogos de mola, e por tando com energia nova o efeito de desgaste da força de atrito, e fa- realiza-se num circuito integrado). Efectua-se a contagem das os- bem como as pontes (elemento de suporte, sempre em latão). um tambor dentado que transmite a energia elástica da mola (que zer ainda funcionar todas as demais componentes do mecanismo cilações num relógio mecânico por meio do escape que interage di- Entre as pontes (1A, 1B, 1C) e a platina (11) estão engastadas as roda- uma vez enrolada tende para desenrolar-se) para o sistema de en- 072 | ESPIRAL ESPIRAL | 073 EDITORIAL SUMÁRIO PERFIL CORREIO LEITOR CALEIDOSCÓPIO EM FOCO REPORTAGEM OPINIÃO HISTÓRIA CRÓNICA SP ENTREVISTA TÉCNICA O Relógio mecânico 04. grenagens, e consequentemente a todo o mecanismo. A bobina, ou se- impulso necessário para evitar os atritos e manter em movimento o ja, a roda colocada sobre o tambor e visível pelo fundo do movimento balanço-espiral com uma frequência suficientemente constante. (veja na figura 1) é solidária do eixo do mesmo tambor e vem rodando sempre que se dá a corda manualmente ao relógio, obrigando assim a mola de corda a enrolar-se – isto é, a ‘armar-se’. 05. A figura mostra a interacção entre a roda de escape, a âncora e o balanço (representado só como comando de impulso) durante uma alternância (em 0,125 segundo). Na primeira figura, o escape 03. O escape com âncora, bem como os elementos que o compõem, encontra-se na fase de ‘repouso’: um dente (A) da roda de escape excepto a espiral, tem por papel fornecer a energia elástica encosta-se à superfície de ‘repouso’ da alavanca de entrada da ân- necessária ao balanço para completar as suas oscilações em redor cora. Nesse preciso instante, a roda do escape encontra-se bloquea- do eixo central. da na sua rotação da âncora, e por isso também as rodas do sistema A roda de escape (ou melhor, a âncora no seu pinhão) recebe a ener- de engrenagens, que lhe estão associadas, estão paradas. Na se- gia necessária ao movimento do tambor de corda através das rodas gunda figura, o balanço acabou de iniciar a sua rotação sob a inter- do sistema de engrenagens e por intermédio da âncora distribui venção da espiral, o comando insere-se no interior do garfo e faz ro- também a energia da mola de corda para o tambor sob a forma de dar a âncora: a alavanca de entrada levanta-se, soltando então a impulsos. Os impulsos são estímulos de um duração verdadeira- 05. rotação da roda de escape (a esta fase dá-se o nome de ‘alçada’. Girando no sentido das horas, o dente (A) da roda de escape que O sistema de engrenagens de um movimento mecânico com frequência de funcionamento de 28 800 alternâncias / hora e as respectivas rodas que o compõem. pousava contra a superfície de ‘repouso’ da alavanca de entrada empurra a superfície de impulso da mesma alavanca, fornecendo um impulso à âncora que o transmite directamente ao comando do balanço (fase de ‘impulso’). Esta fase é bem visível no terceiro desenho apresentado. Desta forma, a âncora restitui ao balanço-espiral a energia gasta por este último na fase de ‘alçada’ para fornecê-la à outra âncora, por ser necessária ao balanço-espiral para este se manter em movimento e contrariar o efeito da força de atrito. Na quarta figura, o balanço acabou de completar a sua alternância. E a âncora abriu à sua volta o próprio ângulo de oscilação para se fechar em fase de ‘repouso’ no extremo oposto contra o batente de limitação da direita. Um dente (B) da roda de escape, que pôde ro- mente mínima que a própria âncora transmite ao tambor no seu dar de um ângulo igual à metade da distância entre dois dentes (ou sentido de rotação, em cada alternância (meia-oscilação). O ele- de meio-passo), encontra-se agora em contacto com a superfície de mento do tambor que recebe os impulsos é o comando (um pe- ‘repouso’ da alavanca de saída da âncora: a roda de escape está no- queno eixo vertical fixo na superfície inferior do disco de impulso vamente parada. do balanço) que a cada alternância se insere no interior do garfo da Tambor 06. Roda dos segundos Roda de escape âncora. A âncora é montada sobre um eixo colocado entre dois braços, conhecido pelo termo francês de tige (haste). O movimento 06. O sistema de engrenagens de um movimento mecânico com da âncora é uma oscilação sobre o seu próprio eixo e sob a acção da frequência de funcionamento de 28 800 alternâncias / hora e as res- roda de escape e do balanço. pectivas rodas que o compõem. Para simplificar, não estão representadas no desenho nem a espiral Ao alterar a frequência de oscilação do balanço espiral, o número nem os batentes de limitação do ângulo de oscilação da âncora (dois de dentes da roda de escape varia (exemplo: no caso das 21 600 al- eixos verticais colocados nos dois lados da haste da âncora). ternâncias / hora, 15 será o número de dentes) bem como os da ou- Balanço tra roda do sistema de engrenagens. Toda a arquitectura do sistema de engrenagens pode ser realizada de tal forma que a roda central 04· Nesta figura podem-se observar os batentes de limitação da ânco- cumpra uma volta em 60 minutos: essa é a razão por que neste ca- ra (G1 e G2) não assinalados na figura 3. A interacção entre a âncora so recebe o nome de roda dos minutos. Do sistema de engrena- e o balanço assenta na troca de energia em ambos os sentidos. Efecti- gens, o movimento é de seguida transmitido para a minuteria e vamente se o balanço mover a âncora num sentido e no seu oposto a para os ponteiros, de forma a serem visualizados no mostrador de cada alternância, a âncora ao mesmo tempo transmite ao balanço o horas e minutos do relógio. 074 | ESPIRAL Roda central Roda mediana ESPIRAL | 075