O PERFIL DO JOGADOR PIVOT F. Mário Santos (Docente no Instituto Superior da Maia, ISMAI – Portugal (Doutorando em Ciências da Actividade Física e Desporto na Universidade da Corunha) Resumo Este estudo tem como objectivo definir o perfil do jogador pivot ao nível dos aspectos Somáticos, Técnicos e Tácticos, das suas acções em competição. Introdução Como desporto colectivo, o Andebol apresenta uma característica multidisciplinar na análise da prestação desportiva da equipa e dos seus jogadores. Neste quadro inserem-se, por exemplo, os níveis da aptidão física, habilidades técnicas, aspectos somáticos, psicológicos dos atletas e também a estratégia da equipa. A tendência actual de evolução do andebol, conduz o jogo a uma elevada velocidade. Esta leva a que exista maior número de ataques e consequentemente, um maior número de acções ofensivas e defensivas de cada atleta no seu posto específico. Logo, esta situação poderá implicar um maior número de intervenções do jogador pivot no decorrer do jogo. As exigências da alta competição conduzem a uma maior especialização das funções dos jogadores e análise da sua prestação individual. O jogo é muito complexo e os atletas ocupam diferentes posições específicas dentro do campo, com rendimentos distintos em função daquela especialização posicional. Nesta perspectiva, o jogador pivot surge com funções muito especiais em relação a todos os outros atletas, sendo mesmo considerado como o posto específico que representa o segundo central da equipa. Os postos específicos de central e pivot representam os jogadores que mantêm a importância do posto específico, e cujo papel é de decisiva importância na prestação competitiva da equipa (Sierra, 1974; Seco, 1991; Antón, 1984; Czerwinski, 1984; Moscai, 1992). 1 A bibliografia disponível em estudos desta natureza não é vasta. Em Portugal são mesmo escassos ou quase inexistentes os estudos sobre as características e análise da prestação do pivot do campeonato nacional. A evolução do Andebol nacional e internacional passa também, pela melhoria da qualidade e rendimento do pivot, como constatamos através das análises dos campeonatos nacionais e mundiais realizados até aos dias de hoje. Merecendo assim, este posto específico, a nossa especial atenção. Em nossa opinião, e nesta perspectiva, é de decisiva importância analisar e caracterizar as qualidades individuais dos jogadores que compõem uma equipa, partindo daquilo que os vários autores entendem como fundamental para cada posto específico até ao produto final, isto é, a equipa e o seu máximo rendimento. A tendência actual de evolução do andebol, conduz o jogo a uma elevada velocidade. Esta leva a que exista maior número de ataques e consequentemente, um maior número de acções ofensivas, defensivas, técnicas , tácticas e físicas de cada atleta no seu posto específico. Logo, esta situação, poderá implicar um maior número de intervenções do jogador pivot no decorrer do jogo. Deste modo, pensamos que seria interessante podermos proceder a uma análise mais objectiva da problemática da identificação dos factores ofensivos e defensivos individuais da performance desportiva - motora de jogadores pivot de alto rendimento de nível mundial. O presente estudo foi realizado com um grupo de praticantes pertencentes a selecções nacionais, participantes no Campeonato do Mundo de 2003 realizado em Portugal. O estudo é de carácter descritivo, e parece justificar-se não apenas pela escassez de elementos relativos a este assunto, mas também porque poderá constituir-se como um instrumento de trabalho para os treinadores visando a maximização da performance do jogador pivot. Assim os objectivos do presente estudo são os seguintes: 1. Elaborar um sistema de variáveis que possibilite a análise da acção do jogador pivot; 2 2. Identificar as acções técnico - tácticas mais relevantes do jogador pivot de alto rendimento; 3. Compreender a importância da colaboração ofensiva do jogador pivot na eficácia do ataque da equipa. Metodologia A amostra do presente estudo é constituída por 22 atletas do sexo masculino, jogadores de Andebol, do posto especifico de pivot, pertencentes a 10 equipas apuradas para os 1/8 de final do Campeonato do Mundo realizado em Portugal no ano de 2003. Esta prova foi escolhida como objecto de estudo por se tratar da competição mais importante do calendário competitivo internacional, e por nela se encontrarem os melhores pivot’s. A análise das equipas mais representativas, pode contribuir para o aperfeiçoamento do processo de treino, criar situações favoráveis para a observação e aferir a pertinência dos comportamentos dos jogadores no jogo (Barbosa, 1999; Garganta, 1998; Prudente, 2000). Instrumento de Observação O problema do presente estudo tinha haver com a avaliação da prestação desportiva do pivot no jogo. Para a realização desta tarefa foi necessária a construção de uma ficha de observação que obedece ao seguinte critério. A construção da ficha de observação obedeceu ao seguinte critério: numa primeira fase, realizamos um inquérito dirigido aos peritos da modalidade, treinadores da 1ª divisão nacional portuguesa, treinadores estrangeiros e outros treinadores nacionais de diferentes escalões competitivos. Neste inquérito constavam 58 parâmetros físicos, técnicos, tácticos, que em nossa opinião eram importantes na avaliação da prestação desportiva do pivot. Foi pedido aos peritos que assinalassem os parâmetros que, na sua opinião, consideravam, de facto, os mais importantes na avaliação da prestação desportiva do pivot e que acrescentasse, se assim o entendessem, outros que julgassem muito importantes 3 ou pertinentes. Numa 2ª fase, após esta auscultação aos treinadores foi criada uma grelha de observação. Procedimento de Observação As observações dos pivots internacionais foram registadas em cassetes VHS Pal, pela Federação de Andebol de Portugal (FAP) durante o Campeonato do Mundo realizado em Portugal, no ano 2003. Para a observação dos registos, foi utilizado um video Sony VHS Combo Black Trinitron KV-V1410E . Procedimentos Estatísticos Para a descrição da amostra recorremos aos valores percentuais, média e do desvio padrão. Utilizou-se também o Software SPSS12.5, para a realização da análise descritiva, dos dados, onde se realizaram como procedimentos as percentagens e a distribuição de frequências. Apresentação dos Resultados Dimensões Somáticas No Quadro 4.1, são apresentados os resultados da comparação de médias dos indicadores somáticos em estudo, entre os jogadores pivot observados e as equipas observadas. Quadro 1 - Resultados das médias dos indicadores somático avaliados no grupo em estudo e suas equipas. Variável Pivot Equipas Altura 196.0 ± 6.0 191.5 ± 1.5 Peso 101.7 ± 9.5 92.8 ± 2.6 Os valores são médias (x) ± desvio-padrão (sd) Pela análise dos resultados anteriores constata-se que os jogadores pivot são mais altos e pesados, que a média do peso e altura das equipas observadas. 4 Elementos Técnicos Elementos Técnicos Defensivos No Quadro 4.2, são apresentados os resultados das percentagens referentes aos Elementos Técnicos Defensivos observados, durante actividade defensiva realizada pelos jogadores pivot observados Quadro 2. –Taxa de frequência dos Elementos técnicos Defensivos observados no grupo em estudo. Variável Pivot Controlo Braço com bola 48.1% Controlo do adversário 11.3% Bloco 6.1% Ressaltos Defensivos 4.8% Intercepção 3.5% Exclusão 2’ 3.5% 7 metros contra 1.7% Provoca falta do atacante 1.7% Roubos de bola 0.9% Erros Defensivos 18.6% Os valores apresentados no quadro anterior evidenciaram uma maior percentagem de acções de Controlo do Braço com Bola, na actividade defensiva, realizadas pelo grupo em estudo. 5 Elementos Técnicos Ofensivos Quadro 3. – Taxa de frequência dos elementos técnicos ofensivos, observados no grupo em estudo. Variável Pivot Recepção A Uma Mão 10.6% Recepção A Duas Maõs 89.4% Recepção Directa Peito 59.6% Recepção Diagonal Peito 8.5% Recepção Picada Directa 14.9% Recepção Picada Diagonal 8.5% Recepção Alta 8.5% Recepção Interior área 23.4% Recepção Exterior área 76.6% Rotação Lado Dominante 68.1% Rotação Lado Oposto 31.9% Rotação em Um apoio 51.1% Rotação em Dois apoios 48.9% Rotação com Finta 31.9% Rotação sem Finta 68.1% Impulsão Um Apoio 78.7% Impulsão Apoios Simultâneos 19.1% Remate em Suspensão 31.9% Remate Costas 2.1% Remate em Suspensão e Queda 66.0% Remate Angulo Inferior 21.3% Remate Ângulo Superior 25.5% Remate Meia Altura 27.7% Remate Picado 19.1% Remate em Chapéu 6.4% Elementos Técnicos Ofensivos No Quadro 3, são apresentados os valores das percentagens da Forma , Tipo e Local de Recepção; o Lado, nº de apoios realizados, com ou sem finta na Rotação; Tipo de Impulsão e o Tipo de Remate e sua Execução. 6 Pelos valores apresentados, verifica-se que as percentagens do Local de Recepção, que os jogadores pivot observados realizam mais recepções a duas mãos e directas para o peito. Verifica-se que os valores das percentagens do Local de Recepção no Exterior da Área, Rotação para o Lado Dominante, num Apoio e Sem Finta e com Impulsão no Remate num só Apoio, são superiores. Deste conjunto de resultados sobressai o maior número de remates realizados pelos jogadores pivot em Suspensão e Queda, evidenciando uma maior percentagem de remates a Meia Altura. No entanto, verifica-se que os jogadores pivot também rematam com idênticas percentagens para os Ângulos Superiores e Inferiores. Aspectos Tácticos Aspectos Tácticos Defensivos No Quadro 3.1, são apresentadas as percentagens dos resultados dos sistemas defensivos utilizados pelas equipas em que os jogadores pivot observados, participaram. Quadro 3.1. - Taxa de frequência dos sistemas defensivos utilizados pelas equipas do grupo em estudo. Variável Pivot 6:0 45.0% 5:1 48.9% 3:2:1 6.1% Pela análise do Quadro 3.1, verifica-se que os valores das percentagens de utilização superior do sistema 6:0. Verifica-se também a utilização do sistema 5:1. No Quadro 3.2., são apresentadas as percentagens dos valores das posições defensivas ocupadas pelos jogadores pivot observados, nos sistemas defensivos utilizados pelas suas equipas. 7 Quadro 3.2. - Taxa de frequência da posição ocupada nos sistemas defensivos, pelo jogadores pivot observados. 1 2 3 4 Variável Pivot Posição 2 33.3% Posição 3 41.1% Posição 4 25.5% 5 6 1 Sistema 6:0 2 3 6 4 5 Sistema 5:1 1 4 2 6 5 3 Sistema 3:2:1 Figura 1- Representação das posições nos sistemas defensivos Pela análise do Quadro 3.2., verifica-se que os valores das percentagens da Posição 3 ocupada pelos jogadores pivot observados nos sistemas defensivos, é superior. Aspectos Tácticos Ofensivos No Quadro 3.3., são apresentadas as percentagens dos resultados referentes à participação no Contra – Ataque e Reposição após golo, realizada pelos jogadores pivot observados. Quadro 3.3. - Taxa de frequência da participação no Contra-Ataque e Reposição após golo do grupo em estudo. Variável Pivot C.A. Directo 3.2% C.A. Apoiado 6.0% C.A.A. Recebe 1º passe 5.6% C.A. Finaliza 1.6% Reposição após golo 82.5% Pela análise do Quadro 3.3., verifica-se que os valores das percentagens, evidenciam uma superior participação no Contra-ataque Apoiado e na Reposição após golo, dos jogadores pivot observados. No Quadro 3.4, são apresentadas as percentagens dos resultados do tipo de 8 trabalho táctico prévio realizado, para Assistência aos jogadores pivot observados. Quadro 3.4. - Taxa de frequência do trabalho prévio para assistência do grupo em estudo. Variável Decisão Pivot Individual do portador da bola 2.5% Após trabalho de grupo 62% Após trabalho colectivo 35.5% Pela análise do Quadro 3.4., verifica-se que os valores das percentagens da assistência para os jogadores pivot após trabalho de grupo, são superiores. No Quadro 3.5., são apresentados os resultados das percentagens dos indicadores tácticos ofensivos observados no seio do grupo de atletas em estudo. Quadro 3.5. - Taxa de frequência dos indicadores tácticos observados no grupo em estudo. Variável Pivot Vantagem Posicional 62.2% Bloqueio 62.2% Ecran 18.0% Apoio / Poste 5.95 Desmarcação 13.4% Sete Metros a Favor 3.3% Colabora no golo equipa 17.2% Atrito 98.5% A análise do Quadro 3.5, evidencia que os jogadores pivot observados provocam mais vezes atrito e recorrem com maior frequência a acções tácticas ofensivas onde imperam o bloqueio e a vantagem posicional. Este facto evidencia uma ideia de recurso à desigualdade dimensional existente entre os jogadores pivot e os outros jogadores de campo. O facto de o somatório das percentagens das acções não perfazerem 100%, deve-se ao facto, de estas se poderem repetir no decorrer do mesmo ataque. 9 No Quadro 3.6., são apresentadas as percentagens do número de vezes em que os ataques das equipas observadas utilizam, o meio táctico colectivo, passar do sistema 3:3 para 2:4, jogando assim com dois jogadores pivot. Quadro 3.6. - Taxa de frequência da impulsão no Remate do grupo em estudo. Variável Total Ataques NºAtaques 2:4 % Sistema 2:4 389 98 25.2 Pela análise do Quadro 3.6., verifica-se que o valor da percentagem indica que o sistema 2:4 é utilizado em um quarto do total de ataques observados. Discussão dos Resultados Dimensões Somáticas Os resultados obtidos no nosso estudo para os indicadores peso e altura apresentam uma percentagem média superior dos jogadores pivot em relação à média das equipas observadas. Constatando-se que em média são os jogadores mais altos e pesados das equipas. Santos (1999) refere, que a primeira particularidade centrada neste domínio, evidencia o maior tamanho e robustez dos jogadores pivot. Ehret (1995) refere mesmo a um nível elevado de competição, sem um pivot grande não se consegue ganhar, pois a eficácia das tarefas técnica e táctica exigem deste posto específico do pivot um contacto físico permanente com os defesas adversários. Para Santos (1999), todos os indicadores técnicos observados, independentemente das diferentes formas de rematar, recepcionar e passar, pensa que esses resultados apresentam uma relação directa com os indicadores somáticos por se tratar de um posto específico do jogo de Andebol em que o contacto corporal está sempre presente. Seco (1998), afirma ainda que a tendência dos pivots é serem os jogadores com os maiores valores para estas duas variáveis antropométricas, numa equipa. 10 Santos (1999) concluiu, que para a excelência desportiva do jogador pivot, o seu maior tamanho parece jogar um papel decisivo, pelo menos num quadro mais exigente de competição. Em resumo, e no plano diferenciado de grupos de jogadores, toda a bibliografia é unânime em considerar que o posto específico de pivot exige jogadores mais altos e mais pesados (Caninas e col., 1986; Mraz, 1991; Vilaça, 1992; Leitão, 1998; Santos,1999). Este parece-nos ser um importante factor de selecção de atletas, pois no andebol actual, os melhores clubes e as melhores selecções têm no pivot jogadores de grande dimensão e peso. Rito (2000), no seu estudo selecção em andebol, concluiu que os postos específicos de pivot e laterais apresentam, em todos os escalões etários, valores de altura, peso e diâmetro palmar superiores aos jogadores de outras posições. Demonstrando assim, haver preocupações na selecção de jovens com características dimensionais, adaptadas aos postos específicos e neste particular aos jogadores pivot. Elementos Técnicos Relativamente à habilidades técnicas defensivas e ofensivas utilizadas pelos jogadores pivot, o presente estudo analisou controlo defensivo do adversário com bola, o bloco defensivo, os erros defensivos, as recepções na forma ( a uma ou duas mãos), no tipo (directas ou diagonais ao peito, as altas e as picadas directas ou diagonais), o local da recepção ( interior ou exterior da área), as rotações no que concerne ao lado ( dominante ou oposto), aos apoios (a um apoio ou a dois apoios), à finta ( com ou sem finta), no remate a impulsão ( em um apoio ou apoios simultâneos), o tipo (em suspensão, costas e suspensão e queda) e a execução ( picado, chapéu, meia altura, ângulo superior ou inferior). Elementos Técnicos Defensivos Os indicadores do presente estudo relativamente aos elementos técnicos defensivos controlo do braço com bola, controlo do adversário, bloco e erros 11 defensivos, indicam que os jogadores pivots realizam mais acções defensivas de controlo do braço e de controlo do adversário do que blocos. Os resultados também nos mostram que os jogadores pivot, cometem mais erros defensivos que acções de controlo de adversário. Sem dispormos de dados que suportem de forma consistente estas constatações, pensamos que os valores destes indicadores, demonstram uma grande actividade defensiva e fundamentalmente uma actividade eficaz, pois o parâmetro mais relevante é o controlo do braço com bola. Esta predisposição para o contacto poderá ficar a dever, ao hábito de o jogador pivot, nas funções ofensivas que desempenha estar em sistemático contacto corporal. Elementos Técnicos Ofensivos Os indicadores do presente estudo relativamente aos elementos técnicos ofensivos forma de recepção da bola, indicam que os jogadores pivots realizam, fundamentalmente, recepções a duas mãos do que a uma mão. Os resultados também nos mostram que os jogadores pivot, recebem algumas vezes a uma mão, pensamos que tal acontece em situações de grande pressão defensiva ou da necessidade de assegurar a posse de bola, num ou noutro, passe mais arriscado por parte dos passadores, principalmente, passes executados para o interior da área. Por vezes, há necessidade de se jogar com o pivot no interior das defesas e assim aumentar o leque de opções para vencer a estrutura defensiva contrária. Os indicadores do presente estudo relativamente ao tipo de recepção de passe directo ou diagonal para o peito, recepção de passe picado directo ou diagonal e recepção alta, indicam que os jogadores pivots internacionais realizam mais recepções de passe directo para o peito. Os resultados também nos mostram que os jogadores pivot também recebem passes picados directos e pontualmente realizem recepções altas. No presente estudo os jogadores pivot realizam mais recepções de passe directo para o peito, lugar que pensamos ser o mais seguro para a executar a recepção, pois é nessa zona que o pivot coloca as suas mãos, na sua posição base ofensiva. 12 Sem dispormos de dados que suportem de forma consistente esta constatação, pensamos que os valores destes indicadores dependem decisivamente da qualidade do passador. Constantini (1995) refere que o posto de pivot está a progredir e de ter maior decisão no jogo porque cada vez mais há melhores passadores, o que beneficia e coloca o jogo interior num lugar de destaque. Ehret (1995) refere também que é decisivo, para o êxito num jogo, a precisão do passe para o pivot. Johansson (1995), Ehret (1995) e Leitão (1998) são unânimes em considerar que a evolução do jogo de Andebol tem sido conseguida fundamentalmente pela possibilidade de jogar cada vez mais a ritmos elevados e em espaços reduzidos. Constantini (1999) refere, a importância da relação dos outros jogadores com o pivot, estes terão que perceber a actividade deste no interior da defesa, suas movimentações, desmarcações, utilização de bloqueios para libertar um companheiro ou rematar e equilibrar o espaço do jogo. No que diz respeito ao lado para o qual os jogadores pivot, preferencialmente executam as suas rotações, os resultados do presente estudo, evidenciam que os jogadores pivot rodam mais vezes para o lado dominante do que para o lado oposto. Este facto poderá ser resultado, da proximidade e pressão exercida pelos defensores, que obriga o pivot a decidir muito rápido optando assim pelo seu lado preferencial e a procura do lado oposto quando é obstruído pelos defensores. A rotação para o lado dominante é muitas das vezes a garantia do aproveitamento de um espaço ganho, entre defensores em ambientes defensivos muito adversos, estes espaços são explorados com explosividade, velocidade e surpresa pelos jogadores pivot. Oliveira (2001) no seu estudo refere que o jogador pivot realiza a maioria dos remates efectuando a rotação e a recepção pelo lado dominante, lado este de mais fácil execução. Quando o pivot realiza a acção pelo lado dominante, tem vantagem quando se vira para a baliza, pois fica praticamente em posição frontal à baliza, tal não acontecendo quando roda para o lado oposto, onde ele tem de prolongar o seu movimento para conseguir posição frontal. No entanto, quando realiza rotações para o seu lado oposto é mais eficaz. 13 No posto específico de pivot, as percepções cinestésicas com os defensores, são determinantes, na obtenção de informação para a execução de acções posteriores, ou após a recepção estando de costas para a baliza percepcionar a situação de equilíbrio do seu opositor, para o poder fintar, observar o guardaredes, rematar ou provocar livre de 7 metros e exclusão (Lalin, 1995). No que concerne, ao modo como os jogadores pivot se impulsionam para o remate, os resultados do nosso estudo evidenciam que os jogadores pivot utilizam na maioria das vezes a impulsão num apoio. Embora também realize impulsão para remate, com apoios simultâneos. Pensamos que a impulsão a um apoio é mais rápida e eficaz evitando os contactos desequilibra dores dos opositores, a utilização de apoios simultâneos poderá acontecer em situações em que os jogadores pivot realizaram rotação para o seu lado oposto ou em situações de grande adversidade defensiva no momento da impulsão e na procura de maior estabilidade para o posterior remate à baliza. No que diz respeito ao tipo de remate, em suspensão e suspensão e queda, os resultados do nosso estudo evidenciam que os jogadores pivot rematam mais vezes em suspensão e queda. No entanto os resultados também nos indicam que os jogadores pivot, realizam remates em suspensão mas, com menor frequência. O presente estudo corrobora com os resultados de Vilaça (1992), que observou, numa comparação entre pivots de elite nacional e internacional, que ambos os grupos utilizam mais vezes o remate em queda. Para Santos (1999), no seu estudo o tipo de remate utilizado pelos jogadores pivot, é o remate em suspensão, resultados que não corroboram com os resultados do presente estudo. Perante esta constatação, parece-nos evidente que o remate em suspensão e queda é o tipo de remate mais utilizado pelos jogadores pivot. É também nossa convicção que o remate em suspensão e queda é a melhor opção de finalizar visto que proporciona ao jogador pivot, um maior tempo de observação do guarda-redes e escolha do local onde pretende concretizar; 14 muitas vezes por pressão dos defensores ou por pretender procurar outros locais de finalização explora o tempo de impulsão, até ao último momento do contacto com o solo, em queda. Podemos também constatar, que o remate em suspensão e queda é o tipo de remate mais eficaz realizado pelo pivot. Na análise realizada à execução do remate, os jogadores pivot executam mais vezes remates a meia altura e aos ângulos superiores, que aos ângulos inferiores e de execução picada. Aspectos Tácticos O Andebol é caracterizado por ser uma modalidade de contacto física e inteligência táctica (Casimiro, 2005). Tacticamente exige-se do jogador um conhecimento adequado do jogo de tal forma que, pelas suas acções, integradas num todo colectivo, seja facilitado o processo ofensivo e defensivo (Borges, 1996). O posto específico de pivot tem uma importância muito grande no seio da equipa, mas nem sempre lhe é rendida justiça (Godor, 1991). As suas acções são de facto importantíssimas dentro do processo do jogo, conforme refere Seco (1991), para quem uma equipa sem um bom guarda-redes e sem um pivot de qualidade nunca chegará ao êxito. A importância dos jogadores pivot no seio das equipas de andebol está para lá de uma só actividade táctica ofensiva, cada vez mais e com maior número de jogadores pivot envolvidos, as equipas potenciam também, suas de defesas e seus sistemas defensivos, assim como seus processos de contra-ataque. O pivot é portanto, e na opinião destes autores, uma posição chave do Andebol moderno. Aspectos Tácticos Defensivos A actividade defensiva realizada pelos jogadores pivot observados, leva–nos a constatar a sua grande importância no processo defensivo das equipas, pela forma como tacticamente é utilizado nos sistemas defensivos e as posições que neles ocupa. 15 Na análise realizada os sistemas defensivos, utilizados pelas equipas observadas e em que os jogadores pivot foram utilizados, o presente estudo indica uma preferencial utilização, pelas equipas dos sistemas 5:1 e 6:0 em detrimento do sistema 3:2:1, havendo uma maior utilização do sistema 5:1. Poderemos dizer que, a utilização de um ou mais jogadores pivot, jogadores esses de grande dimensão, nos sistemas defensivos zonais 5:1 e 6:0, faz em nosso entender todo o sentido táctico. No que concerne à menor utilização do sistema 3:2:1, sistema mais exterior, aberto e com maior espaço entre os defensores, poderá dever-se à grande dimensionalidade e menor mobilidade dos jogadores envolvidos no processo defensivo ou pura e simplesmente, por opção táctica dos treinadores. Relativamente à posição que ocupam os jogadores pivot nos sistemas defensivos, os resultados do nosso estudo evidenciam, uma maior utilização nas posições 2 e 3 dos sistemas e menor utilização na posição 4. Podemos também constatar que no sistema defensivo 5:1 as posições em que os jogadores pivot foram mais utilizados foram as posições 4 e 3, no sistema defensivo 6:0 as posições em que foram mais utilizados os foram as posições 2 e 3, já no sistema 3:2:1 os jogadores pivot foram mais utilizados na posição 2. Todas estas posições são, no centro e no interior dos sistemas, com a excepção da posição 3 no sistema 3:2:1, que como já referimos o menos utilizado pelas equipas observadas. Esta constatação poderá levar-nos a pensar da responsabilidade defensiva e da importância táctica, que é atribuída aos jogadores pivot nos sistemas e manobras defensivas das equipas. Aspectos Tácticos Ofensivos Nos aspectos tácticos ofensivos o Atrito é meio táctico individual mais utilizado pelos jogadores pivot, a Vantagem Posicional é em igual medida que o Bloqueio meio táctico de grupo, que surge como sendo uma das acções tácticas, preferencialmente utilizadas pelos jogadores pivot. Já, para a variável Écran, os resultados revelam que os jogadores pivots realizam mais Écrans do que 16 Desmarcações e Apoio/Poste. Para este ultimo indicador, os resultados revelam que os jogadores pivot só o utilizam algumas vezes, no decorrer do jogo. Verificamos que o pivot, Colabora no golo da equipa através de acções que provocam desequilíbrios no seio da defesa e que ajudam na obtenção do golo da equipa e são realizadas mais vezes que o meio táctico apoio/poste, realçando ainda um traço psicológico dos jogadores pivot, o altruísmo. Verificamos também que a obtenção de Sete metros a favor é uma atitude táctica dos jogadores pivot que acontece algumas vezes durante o jogo. Quanto ao processo táctico prévio de assistência para os jogadores pivot, os resultados conduzem, a tecer considerações sobre os três aspectos desta variável, decisão individual do portador da bola o processo de assistência menos utilizado, o trabalho de grupo e o trabalho colectivo, dos quais devemos referir o trabalho de grupo como o processo táctico prévio mais utilizado para assistir os jogadores pivot observados. Relativamente ás variáveis Contra-ataque directo ou Apoiado e Contra-Ataque Recebe 1º Passe ou Contra-ataque Finalização, verificamos que actividade táctica dos jogadores pivot, nestas variáveis do jogo observadas, realiza mais vezes contra-ataque apoiado, recebendo mais de cinquenta por cento das vezes o primeiro passe, realiza menos contra-ataque directo, mas finaliza-o em mais de cinquenta por cento das vezes. Para a variável Reposição Após golo, os resultados verificam que os jogadores pivot realizam a maioria das reposições após golo. No nosso estudo, verificamos, também que as equipas observadas, realizaram no seu ataque, passagens do sistema ofensivo 3:3 para 2:4, em um quarto dos ataques realizados. Relativamente, à dimensão somática, os resultados do presente estudo coincide com a literatura, os jogadores pivots são em média mais altos e mais pesados do que a média dos outros jogadores. Do ponto de vista técnico e táctico defensivo e ofensivo, a literatura não é vasta e não refere nada de concreto. Importante será realçar que os indicadores tácticos, Atrito, Vantagem Posicional, e Bloqueio são indicadores que dependem decisivamente de aspectos somáticos. E que, o facto de os remates directos serem direccionados a 17 meia altura e para os ângulos superiores, se deve em nossa opinião, à dimensão do jogador pivot e à grande agressividade por parte do guarda-redes em avançar sobre a pivot aquando do remate, vulnerabilizando assim a baliza a meia altura e os ângulos superiores. Todavia, esta apreciação poderá parecer ingénua mas a riqueza deste estudo pressupõe uma visão mais integrada. Os parâmetros observados confirmam que, a existência de uma desvantagem dimensional nos jogadores pivot, poderá ser uma lacuna incontornável na construção das equipas de alto rendimento, do andebol da actualidade. Sobre esta temática deveremos, em nossa opinião, exigir rigor nas escolhas dos jovens que poderão no futuro ser os potenciais pivots. Desta forma, no que respeita a este posto específico, as performances das equipas serão seguramente melhores, ao nível do seu rendimento global. Conclusões No contexto do presente estudo emerge, de forma clara, o seguinte conjunto de conclusões: 1. Em relação aos indicadores da dimensão somática: • Os jogadores pivots são em média mais altos e mais pesados do que a média de todos os outros jogadores. 2. Quanto aos Elementos Técnicos defensivos: • Os pivots realizam mais acções de controlo do braço com bola e de controlo do adversário. 3. Quanto aos Elementos Tácticos defensivos: • Sobressaem as posições defensivas 2 e 3, centrais na defesa, como as posições de maior utilização dos jogadores pivot, nos preferenciais sistemas defensivos 5:1 e 6:0, utilizados pelas equipas. 4. Em relação a Elementos Técnicos ofensivos: • Os jogadores pivot realizam mais recepções a duas mãos, mais recepções de passe directo para o peito e no exterior da área; 18 • Realizam as suas rotações mais vezes para o lado dominante, executando a rotação num apoio e em dois apoios e sem finta; • A impulsão é realizada num apoio, rematam em suspensão e queda e executam remates a meia altura e para os ângulos superiores. 5. Os aspectos tácticos ofensivos: • O Atrito é meio táctico individual mais utilizado pelos jogadores pivot, a Vantagem Posicional é em igual medida que o Bloqueio; • O jogador pivot, Colabora no golo da equipa através de acções que provocam desequilíbrios no seio da defesa e que ajudam na obtenção do golo da equipa; • O processo táctico prévio, à assistência dos jogadores pivot, é o trabalho de grupo; • O pivot realiza preferencialmente contra-ataque apoiado, do que directo, recebendo na maioria das vezes o primeiro passe; • Na variável Reposição Após golo, os jogadores pivot realizam a maioria das reposições; • No ataque as equipas, realizam passagens do sistema ofensivo 3:3 para 2:4, em um quarto dos ataques realizados. Bibliografia • Araujo, J. (1996): A Selecção em Basquetebol. In Simpósio In Equação da Selecção. FCDEF. UP. Porto. • Barbosa, J. (1999): A organização do jogo de andebol. Estudo comparativo do processo ofensivo em equipas de alto nível, em função da relação numérica ataque-defesa. Dissertação de Mestrado. FCDEF-UP. Porto. 19 • Borges, S.J. L. (1996): O Perfil do Deslocamento do Andebolista. Um Estudo com Jogadores Seniores Masculinos. Dissertação de Mestrado. FCDEF. UP. Porto. • Casimiro, Emanuel (2005): Determinação do Perfil Psicológico de Prestação do jogador de andebol Português. . Monografia realizada no âmbito do 5º ano da licenciatura em Desporto e Educação Física - UTAD- Vila –Real. • Donner, A. (1995): Alguns aspectos teórico/práticos determinantes no êxito do treinador de andebol. Andebol Revista, nº 5/6: 31-34. • Ehret, A.; Johansson, B.;Zovko, Z.; Constantini, D. (1995): Dossier special mondial. L`analyse du jeu par les meilleurs entraineurs. Approches du Handball. (27): 7-16. • Garganta, J. M. (1997): Modelação Táctica do Jogo de Futebol. Estudo da Organização Ofensiva em Equipas de Alto Rendimento. Dissertação de Doutoramento. FCDEF. UP. Porto. • Garganta, J. (1998); Analisar o jogo nos Desportos Colectivos; uma preocupação comum ao treinador e ao investigador. Revista Horizonte (83): 7-14. • Godor, M. (1991). L´Entrainement des pivots. Euro-Hand: 198-212. • Lalin, C.N. (1995): Analisis del balonmano: Analisis del bloqueio. INEFGalicia. • Leitão, A.P.B. (1998): O processo ofensivo no andebol - estudo comparativo entre equipas femininas de diferente nível competitivo. Dissertação apresentada nas Provas de Mestrado. FCDEF-UP. 20 • Mocsai, L. (1992): La Formacion Tecnica y su Importancia en el Balonmano Moderno. Revista Eurohand. Francia. • Mortágua, L. (1995): Verificação dos Indicadores de Selecção para o Jogador Central em Andebol. Monografia de Licenciatura. FCDEF. UP. Porto. • Oliveira, A. P. V. S. (1996): O Guarda-redes de Andebol. Um Estudo Exploratório das suas Características e Eficiências nos Remates de 1ª Linha e de Ponta. Dissertação de Mestrado. FCDEF. UP. Porto. • Oliveira, R. (2001): O guarda-Redes de andebol “ Estudo exploratório das suas características e eficiência nos remates do jogador pivot”. Monografia realizada no âmbito do 5º ano da licenciatura Curso Superior de Educação Física Desporto. ISMAI- Maia. • Prudente, J. (2000): A concretização do ataque no Andebol Português de alto nível em superioridade numérica de 6x5. Dissertação de Mestrado. Universidade da Madeira. Funchal. • Roman, J.D. (1989): Iniciacion al balonmano. Editorial Gymnos. Madrid. • Santos, M. (1997): Análise das combinações tácticas ofensivas de grupo em equipas de alto nível. Ataque posicional em igualdade numérica. Monografia realizada no âmbito do Seminário , da Opção de Andebol, FCDEF-UP. • Santos, F.M. (1999): Perfil de Excelência do Jogador Pivot de Andebol definido a partir de Indicadores Somáticos, Técnicos e Tácticos. Dissertação de Mestrado. FCDEF. UP. Porto. 21 • Santos, L.R. (1997): Processo de selecção em andebol. Um estudo exploratório com treinadores brasileiros. Dissertação de Mestrado, FCDEFUP. • Seco, J.D.R. (1997): Los XI Campeonatos del Mundo Junior, Turquia 1997. • Seco, J.D.R. (1998): Estudio de las zonas de lanzamiento en los JJ.OO. de atlanta 96: incidencia de los lanzamientos desde la iª línea. Rev. Arena de Balonmano, nº 2: 3-7. • Tavares, R. (2000): Importância do Pivot no ataque organizado. Monografia realizada no âmbito do 5º ano da licenciatura em Desporto e Educação Física na Opção de Andebol. FCDEF. UP. • Werner, P. & Almond, L. (1990): Models of games education. JOPERD, 61(4): 23-27. • Zerhouni, M. (1980): Principes de base du football contemporain. Fleury. Orges. 22