PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO: AS AÇÔES EXTENSIONISTAS DO
GRUPO PET/TURISMO – FURG EM SANTA VITÓRIA DO PALMAR, RS, BRASIL.
FIGUEIRA, Michel Constantino 1
RESUMO: A produção acadêmica extensionista em torno de bens culturais,
materiais e imateriais, e seu incentivo turístico na cidade de Santa Vitória do Palmar,
Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, é o objeto central do presente trabalho.
Apresentamos, aqui, as atividades desenvolvidas pelo Programa de Educação
Tutorial em Turismo da Universidade Federal do Rio Grande (PET/Turismo –
FURG), entre os anos de 2011 e 2012. A proposta do PET/Turismo-FURG nasceu,
sob apoio do Ministério da Educação do Brasil (MEC), com o objetivo principal de
formar um grupo de excelência acadêmica que viabilizasse a qualificação de
estudantes e docentes do Curso de Bacharelado em Turismo Binacional da FURG,
localizado em Santa Vitória do Palmar, numa proposta de produção teórico-prática
de articulação entre ensino, pesquisa e extensão junto à comunidade local. Neste
artigo, apresentamos as ações extensionistas desenvolvidas pelo Grupo
PET/Turismo – FURG em Santa Vitória do Palmar através da criação, realização e
execução de diversos projetos de extensão tais como cursos técnicos, exposições
temáticas, eventos científicos, musicais e culturais, elaboração de materiais
didáticos de educação patrimonial, roteiros turístico-culturais temáticos, entre outros
projetos executados destinados à comunidade santa-vitoriense. Entre os projetos
realizados citamos o Curso de Turismo Histórico para Santa Vitória do Palmar,
desenvolvido, no ano de 2011, pelos alunos bolsistas do grupo e aplicado para
moradores, empresários do setor, artesãos e empreendedores do setor do turismo e
hotelaria. Os alunos, sob orientação do Tutor do grupo, elaboraram planos de aula,
preparam e ministraram aulas e elaboraram as apostilas de quatro disciplinas
oferecidas no curso: Educação Patrimonial, História de Santa Vitória do Palmar,
Turismo Histórico e Cultura Popular. Após a realização do Curso, os alunos do PET
realizaram a entrega de certificados aos alunos do curso, demonstrando o papel da
extensão no incentivo e fomento da educação e do turismo cultural na comunidade
local. Outra atividade extensionista de grande sucesso foi o evento musical Música
Sem Fronteiras realizado em parceria com o Clube Comercial Caixeral de Santa
Vitória do Palmar, em 2012, que permitiu que artistas da música local
apresentassem composições próprias com entrada gratuita. O evento elevou a
autoestima dos músicos por servir como oportunidade de valorização e promoção de
suas obras musicais, servindo, ainda, como uma ação que levou música gratuita a
comunidade local. Nesse artigo, aprofundaremos o destaque dos projetos didáticopedagógicos de extensão realizados numa cidade de pouco mais de 34000
habitantes, onde referências materiais (prédios históricos, monumentos, museus,
sítios arqueológicos) e imateriais (artesanato, gastronomia, lendas, saberes e
fazeres) do conjunto histórico-patrimonial local foram destacados e serviram de base
para atividades que promoveram a geração da auto-estima e o espírito
empreendedor de moradores e grupos sociais em crise socioeconômica. Defensor
ativo dessa produção turística sobre o patrimônio, Dias (2006) considera que nas
últimas décadas tem se modificado o pensamento sobre o patrimônio e sua função,
sendo que, sobretudo em relação ao turismo, o patrimônio passa a ter valor, não
apenas simbólico, mas também econômico (Dias, 2006). Mas, desde quando e
1
Doutorando em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Pelotas - UFPel. ExTutor do Grupo PET/Turismo – FURG (Bolsista Capes 2010-2012). Professor do Curso Superior de Tecnologia
em Hotelaria– UFPel. Email: [email protected]
porque os viajantes querem ver, sentir o patrimônio? Choay (2006) explica que, já no
século XVIII, o patrimônio foi estimulador das viagens de estudos e lazer na Europa
(Choay, 2006). Isto procede, pois os turistas são sempre atraídos “pelo patrimônio
arquitetônico e urbanístico, pelos museus, pela cultura ou por um ambiente singular”
(Vinuesa, 2004:38-39). Nessa ótica, com projetos dinâmicos e criativos,
desenvolvidos e realizados com a participação da comunidade e com o apoio do
Poder Público e da iniciativa privada, o Grupo PET/Turismo – FURG produziu o
incentivo à geração de incremento alternativo na renda e democratização e acesso à
cultura em Santa Vitória do Palmar, tendo na perspectiva do desenvolvimento do
turismo cultural, associado aos bens patrimoniais locais, uma possibilidade de
renovação da realidade local. As ações de extensão desenvolvidas envolveram a
aplicação de métodos e procedimentos característicos das disciplinas que integram
o Curso de Turismo Binacional - FURG na atividade turística desenvolvida no
município, dando ênfase as suas diversidades turísticas e culturais. A extensão é a
ação com e na comunidade. A filosofia extensionista foca ações na aplicação de
idéias acadêmicas de modo prático com uso da criatividade e em prol da qualidade
de vida, da formação cultural-educacional, da geração de perspectivas, do aumento
da estima e do estímulo a perspectivas de geração de emprego, renda e
desenvolvimento social, econômico, político e cultural para as comunidades onde a
universidade atua. Isso permite aos alunos, professores e projetistas envolvidos nos
projetos contribuírem com essas comunidades em que estejam inseridos, buscando
atingir seus anseios. Assim, os acadêmicos do Grupo PET/Turismo - FURG
experimentaram um ensino e consolidaram a produção científica diretamente na
comunidade, através de atividades práticas, destacando e incentivando habilidades
e criatividades, baseando-se em projetos desafiadores com a participação e para a
comunidade de Santa Vitória do Palmar. As inovações implementadas pelas ações
de extensão do grupo PET também promoveram a geração do sentimento de
pertencimento da comunidade santa-vitoriense através da valorização da sua
identidade cultural e estimulo à sua memória social, conscientizando atores sociais
locais no processo de preservação, salvaguarda e promoção da herança cultural
local, vista aqui como sinônimo de patrimônio particular da comunidade local. Sobre
o conceito de patrimônio, os autores seguintes destacam o mesmo como herança de
uma identidade afirmada e reafirmada constantemente (Camargo, 2002), “bens
materiais e imateriais” transmitidos com novos significados (Dias, 2006:67), e bem
construído pela negociação entre diversos atores sociais, envolvendo Poder Público
e cidadãos que o reconhecem como testemunho de experiências, servindo para o
conhecimento do passado, dando sentido aos grupos e compondo a sua identidade
coletiva (Rodrigues, 2005). Do ponto de vista acadêmico, a produção extensionista
com atuação junto ao patrimônio cultural de Santa Vitória do Palmar representou,
neste caso, a formação de futuros profissionais (os alunos envolvidos) que possam
conduzir, futuramente, o planejamento e a gestão do turismo cultural, enquanto setor
econômico alternativo para comunidades em situação de risco socioeconômico e
produtivo. Santa Vitória do Palmar está localizada na fronteira sul do Estado do Rio
Grande do Sul (fronteira com o Uruguai). A cidade encontra-se em fase de
desenvolvimento de alternativas econômicas que possam minimizar décadas de
dificuldades sociais. Do ponto de vista econômico produtivo, Ferreira (S/D)
identificou que “até a década de 1940 o município é voltado para uma economia
pastoril” (Ferreira, S/D) passando após a uma economia baseada na orizicultura
(cultivo do arroz irrigado), o que hoje representa a base de sua economia. Porém,
atualmente, aquela que, nas décadas de 1970 e 1980, movimentou o “progresso”
local sofre um acelerado processo de estagnação, incentivando o abandono de
granjas, vilas e comunidades, fomentando o êxodo rural de diversas famílias em
direção a centros urbanos locais e de outros municípios. É, diante de tal situação
socioeconômica e cultural, que são desenvolvidas atividades econômicas
alternativas, tais como o turismo. Com isso, com a chegada da universidade, em
particular do Curso de Turismo Binacional – FURG e a atuação do PET/Turismo FURG, a comunidade recebeu o retorno por parte dessa universidade, a qual está
comprometida com o desenvolvimento institucional e social, vinculados à uma
formação acadêmica ética, focada na emancipação cultural e humana dos alunos,
através de uma metodologia que estimule sua percepção e ação criativa sobre a
região onde encontra-se inserida. Segundo Dencker (1998), para atingirmos o
conhecimento que desejamos de modo racional e eficiente, nos utilizamos de uma
metodologia, ou seja, “os passos que serão dados para atingir objetivos” (Dencker,
1998:105). Isto, porque, tivemos em Dencker (1998) a orientação teórica-técnica
fundamental para nossa aplicação de uma metodologia articulada na tentativa de
explicar um problema, a partir de objetivos e metas propostos, realizados em fases e
etapas diversas (Dencker, 1998). O projeto PET/Turismo-FURG focou, entre os anos
de 2011 e 2012, suas ações de extensão com base na pesquisa analíticointerpretativa do potencial cultural impresso nas manifestações culturais de Santa
Vitória do Palmar (palco histórico de conflitos entre Portugal e Espanha nos séculos
XVII e XVIII e Brasil e Uruguai nos séculos XIX e XX) de modo a interpretar,
constantemente, as possibilidades, necessidades e interesses de inserção desse
legado nas perspectivas e motivações locais de desenvolvimento do turismo cultural,
através da “consciência crítica e social ao lado do desejo de inserção ética e
sustentável em um dos mercados que mais crescem no mundo e que se
caracterizam como ponta nas sociedades pós-industriais” (Ansarah, 2004: 9-10). Por
fim, concluímos que, durante este período de trabalho, a extensão em torno do
patrimônio cultural local serviu para incentivar o desenvolvimento do turismo em
Santa Vitória do Palmar.
Referências
ANSARAH, Marília Gomes dos Reis (2004).“Apresentação”. In: ANSARAH, Marília
Gomes dos Reis (Orgª.). Turismo: como aprender, como ensinar, 2. – 3ª ed. São
Paulo: Editora Senac São Paulo, P.9-10.
CAMARGO, Haroldo Leitão (2002). Patrimônio Histórico e cultural. – São Paulo:
Aleph.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. (2006). Tradução de Luciano Vieira
Machado. 4ª Ed. – São Paulo: Estação Liberdade: UNESP.
DENCKER, Ada de Freitas Maneti (1998). Pesquisa em turismo: planejamento,
métodos e técnicas. 9ª Ed. – São Paulo: Futura.
DIAS, Reinaldo (2006). Turismo e Patrimônio Cultural: recursos que acompanham o
crescimento das cidades. São Paulo: Saraiva.
FERREIRA, Lenize Rodrigues. Transformações na paisagem urbana de Santa
Vitória do Palmar: a produção da cidade. (S/D). Retirado do WorldWebSite:
http://egal2009.easyplanners.info/area05/5209_Ferreira_Lenize_Rodrigues.pdf
RODRIGUES, Marly (2005). “Preservar e consumir: o patrimônio histórico e o
turismo”. In: FUNARI, Pedro Paulo & PINSKY (Orgs.). Turismo e patrimônio cultural.
– São Paulo: Contexto. 4. Ed. P.15-24
VINUESA, Miguel Ángel Troitiño. (2004) “Turismo e desenvolvimento nas cidades
históricas Ibero-Americanas: desafios e oportunidades”. In: PORTUGUEZ, Anderson
Pereira. Turismo, memória e patrimônio cultural (Org.). São Paulo: Roca. P.33-50
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