GILBERT O FREYRE GILBERTO Gilberto.p65 1 27/05/2010, 16:01 PRESIDENTE DA REPÚBLICA L UIZ I NÁCIO L ULA DA S ILVA MINISTRO DA CULTURA JUCA F ERREIRA FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES – FUNARTE SÉRGIO M AMBERTI Presidente DIRETORA EXECUTIVA MYRIAM L EWIN CENTRO DE PROGRAMAS INTEGRADOS TADEU D I P IETRO Diretor GERÊNCIA DE EDIÇÕES MARISTELA RANGEL Gerente CENTRO DE ARTES VISUAIS R ICARDO R ESENDE Diretor COORDENAÇÃO DE ARTES VISUAIS ANDRÉA LUIZA PAES Coordenadora COORDENAÇÃO GERAL DE PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO ANAGILSA N ÓBREGA Coordenadora Geral Gilberto.p65 2 27/05/2010, 16:01 GILBERT O FREYRE GILBERTO Organização Clarissa Diniz Gleyce Heitor Rio de Janeiro 2010 Gilberto.p65 3 27/05/2010, 16:01 GILBERTO FREYRE © 2010 Clarissa Diniz e Gleyce Heitor Todos os direitos reservados Fundação Nacional de Artes – Funarte Rua da Imprensa, 16 – Centro – 20030-120 – Rio de Janeiro – RJ Tel. (21) 2279-8080 / 2279-8078 [email protected] – www.funarte.gov.br Produção editorial JOSÉ CARLOS MARTINS Produção gráfica JOÃO CARLOS GUIMARÃES Assistentes editoriais SIMONE VAISMAN MUNIZ SUELEN BARBOZA TEIXEIRA Arte-final digital CARLOS ALBERTO RIOS ELAINE DOS SANTOS BATISTA Revisão RAQUEL BAHIENSE Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Funarte / Coordenação de Documentação e Informação Gilberto Freyre / Organização, Clarisse Diniz e Gleyce Heitor. – Rio de Janeiro : Funarte, 2010. 275 p.: 21 cm. – (Coleção Pensamento Crítico) ISBN 978-85-7507-134-2 1. Crítica de arte. 2. Crítica literária, Freyre, Gilberto, 1900-1987. I. Diniz, Clarisse. II. Heitor, Gleyce. CDD 701.18 Gilberto.p65 4 27/05/2010, 16:01 SUMÁRIO 11 Apresentação JUCA FERREIRA Ministro da Cultura 13 Gilberto Freyre SÉRGIO MAMBERTI Presidente da Funarte 15 Introdução CLARISSA DINIZ e GLEYCE HEITOR 19 PARTE I “Regional, tradicional e, a seu modo, moderno”: acerca de um posicionamento 21 27 49 51 Gilberto.p65 A propósito de “regionalismo”, “modernismo” e “romance social” Modernidade e modernismo nas artes A propósito de regionalismo tradicionalista Regionalismo criador 5 27/05/2010, 16:01 53 PARTE II “O homem situado”: relações contextuais 159 163 167 171 175 177 181 185 Algumas notas sobre a pintura no Nordeste do Brasil A propósito de pintores e das suas relações com a luz regional Um pintor brasileiro fixado em Paris Lula Cardoso Ayres: sua interpretação do Brasil A arte de Lula Cardoso Ayres: sua base regional Painéis de mestre Lula Um muralista brasileiro Um muralista épico Portinari Ouro como cor característica Mestre Portinari e sua Sagrada Família Pintura, Brasil e trópico Arte e civilizações tropicais A propósito de Francisco Brennand, pintor, e do seu modo de ser do trópico Em torno dos experimentos de um artista Revolução no trajo do homem Trajo, trópico e anti-imperialismo A propósito de Brasília Mais uma vez, Brasília Brasília e Lúcio Costa Espírito e não estilo Cícero Dias e seu “nonsense” 189 PARTE III 55 75 81 93 97 101 105 109 111 115 121 125 129 149 “Dançar com os olhos”: reflexões sobre a crítica 191 195 Gilberto.p65 Ainda a propósito de críticos literários Querela entre pintores e escritores 6 27/05/2010, 16:01 199 203 Críticos como criadores: a propósito de um gaúcho Um crítico na verdade criador 205 PARTE IV “Manter os artistas”: sugestões para um campo da arte 207 211 215 217 221 223 225 227 Os artistas e a rotina Arte ou literatura paga Retrato de Portinari Uma revista de cultura Contra a burocratização da cultura As artes e o perigo do dirigismo Ainda a propósito de dirigismo nas artes e nas letras A propósito de uma política nacional de cultura 229 PARTE V “Problemas da sociologia da arte” 231 245 249 251 257 261 263 265 275 Gilberto.p65 Arte, ciência social e sociedade Sociologia, literatura e arte Problemas de sociologia da arte A favor da arte popular regional A propósito de artes populares Gilberto Freyre: “há artistas que são pura, religiosa e até sectariamente artísticos” Ainda a questão da “arte pura” Outros textos de Gilberto Freyre sobre arte Referências bibliográficas 7 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 8 27/05/2010, 16:01 AGRADECIMENTOS Ana Maria Belluzzo Bárbara Collier Bitu Cassundé Eglantine Alice Nery Fundação Gilberto Freyre Gilberto Freyre Neto Ilka Guedes Jamille Barbosa Joaquim Falcão Moacir dos Anjos Museu Murillo La Greca Paulo Herkenhoff Paulo Marcondes Soares Paulo Sérgio Duarte Ricardo Resende LOCAIS DE PESQUISA Fundação Gilberto Freyre Biblioteca do Instituto Ricardo Brennand Fundação Joaquim Nabuco Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco Universidade Federal de Pernambuco Gilberto.p65 9 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 10 27/05/2010, 16:01 APRESENTAÇÃO JUCA FERREIRA Ministro da Cultura A coletânea Paulo Sergio Duarte – A trilha da trama e outros textos sobre arte, editada pela primeira vez em 2004, pela Funarte, em pouco tempo se tornou obra indispensável a historiadores, pesquisadores, artistas, estudantes e a todos os que desejam aprofundar seu conhecimento sobre as artes visuais. Com a reedição deste livro, a Funarte reafirma o compromisso de estimular a reflexão crítica e teórica sobre a cultura nacional. O livro reúne 29 ensaios, divididos em três partes. Na primeira, Artistas brasileiros contemporâneos, o autor analisa obras de alguns nomes importantes das últimas décadas, como Antonio Dias, Lygia Clark, Waltercio Caldas, Amilcar de Castro, Carlos Vergara e Lygia Pape. A segunda parte, Resenhas, discorre sobre lançamentos de livros de crítica e catálogos de mostras. Por fim, a terceira parte, Estudos sobre teoria e história da arte, é voltada a questões mais abran-gentes da área, que ajudam a contextualizar historicamente a produção artística nacional. rânea. Gilberto.p65 11 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 12 27/05/2010, 16:01 GILBERTO FREYRE SÉRGIO MAMBERTI Presidente da Funarte A coletânea Paulo Sergio Duarte – A trilha da trama e outros textos sobre arte, editada pela primeira vez em 2004, pela Funarte, em pouco tempo se tornou obra indispensável a historiadores, pesquisadores, artistas, estudantes e a todos os que desejam aprofundar seu conhecimento sobre as artes visuais. Com a reedição deste livro, a Funarte reafirma o compromisso de estimular a reflexão crítica e teórica sobre a cultura nacional. O livro reúne 29 ensaios, divididos em três partes. Na primeira, Artistas brasileiros contemporâneos, o autor analisa obras de alguns nomes importantes das últimas décadas, como Antonio Dias, Lygia Clark, Waltercio Caldas, Amilcar de Castro, Carlos Vergara e Lygia Pape. A segunda parte, Resenhas, discorre sobre lançamentos de livros de crítica e catálogos de mostras. Por fim, a terceira parte, Estudos sobre teoria e história da arte, é voltada a questões mais abran-gentes da área, que ajudam a contextualizar historicamente a produção artística nacional. Juntos, os textos de Paulo Sergio Duarte apresentam um panorama rico e único da arte brasileira na segunda metade do século XX. Ao abordar os questionamentos, a estética e a trajerânea. Gilberto.p65 13 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 14 27/05/2010, 16:01 INTRODUÇÃO CLARISSA DINIZ e GLEYCE HEITOR Este livro surgiu de uma surpresa e, como tal, perdura. Como grande parte dos pesquisadores brasileiros formados na virada do século XX para o século XXI, não havíamos convivido com o pensamento freyreano senão como um mito do qual nos distanciávamos pela então “certeza” de seu caráter conservador. Julgando-o desinteressante e estando informados por uma cultura – sobretudo a universitária – que majoritariamente negava a validade atual de sua obra, apenas superficialmente dela tomamos conhecimento. Em 2008, colaborando com o projeto Arte no Brasil: Textos Críticos no Século XX, sob a coordenação e orientação da historiadora da arte Ana Maria Belluzzo, e através dele investigando o desenvolvimento da crítica de arte em Pernambuco, surpreendemonos com um atuante Gilberto Freyre crítico de arte. Este Freyre nos instigou a uma aproximação antes evitada. Ainda que alguns aspectos de seu pensamento tenham se confirmado diante de nossas expectativas, outros vários se revelaram. Da máxima freyreana de ser “regionalista, tradicionalista e, a seu modo, moderno”, em sua crítica de arte – tantas vezes apresentada como ensaio, crítica literária, comentários ou breves sugestões – não foi difícil identificar aquilo que seria o “a seu modo, moderno”. Gilberto.p65 15 27/05/2010, 16:01 16 GILBERTO FREYRE As preocupações de sua “crítica de estética”1 e de sua crítica cultural estiveram sempre em consonância com seus pensamentos social, antropológico e político, pelo autor compreendidos como perspectivas inter-relacionadas: “precisamos cada vez mais pensar em termos de inter-relação das coisas”2 . Daí, nesta coletânea, estarem presentes textos cujo objeto não se restringe a uma obra de arte ou artista, mas que fazem ver a expandida concepção estética de Gilberto Freyre, cujas preocupações se dividiram, com igual ênfase, entre pinturas, poemas, trajes, canções, penteados, formas de habitar. Nesse sentido, de acordo com as recorrências da crítica freyreana, organizamos os textos selecionados – dentre os mais de 250 lidos (listados ao fim deste livro) – em cinco enfoques3 . Se tais abordagens refletem, por um lado, nossa tentativa de contextualizar sua produção crítica no espaço-tempo em que se desenvolveu, atentando para suas especificidades; por outro, dizem respeito a uma leitura que deseja extrair, de sua obra, o que nela pode dialogar com as inquietações da contemporaneidade. Em “Regional, tradicional e, a seu modo, moderno”: acerca de um posicionamento, a questão da distinção entre as concepções de regionalismo e modernismo é tratada, destacando o esforço do autor em afirmar a autonomia do primeiro, entendendo-o não como um desdobramento nordestino do modernismo paulista, mas como um movimento com interesses e estratégias específicos que, mesmo em estreita relação com o local, não se imaginava, contudo, regionalmente restrito. 1. FREYRE, Gilberto. A arte de Lula Cardoso Ayres: sua base regional. Jornal do Commercio. Recife, 29 de maio de 1960. 2. FREYRE, Gilberto. A favor da arte popular regional. Diário de Pernambuco. Recife, 27 de fevereiro de 1972. 3. A seleção de textos incluída neste livro diz respeito a um recorte da crítica desenvolvida por Freyre, priorizando suas leituras a respeito das artes visuais ou acerca de assuntos – como a arquitetura e o vestuário – que formam um corpo de argumentação que apreende suas preocupações centrais no campo da estética. Ressaltamos que o pensamento crítico de Gilberto Freyre contempla ainda análises de outras artes, como a literatura e a música, que podem ser encontradas sobretudo nos jornais e revistas com as quais o autor colaborou ao longo de sua vida. Gilberto.p65 16 27/05/2010, 16:01 17 PENSAMENTO CRÍTICO A segunda parte do livro – “O homem situado”: relações contextuais – aborda a expansão do pensamento regionalista para além de seu caráter de movimento, conformando diretrizes para a relação do homem com o ambiente. Partindo dessa preocupação central, Freyre analisa como se dá a harmonização – ou seu oposto – dos indivíduos, grupos e culturas com seus meios e histórias, insistindo na necessidade de uma consciência ecológica nas práticas sociais e artísticas. Em “Dançar com os olhos”: reflexões sobre a crítica, estão reunidos artigos nos quais o autor busca definir aquelas que seriam, para ele, a relevância e as funções da crítica, atentando para o caráter criador do crítico. Por sua vez, “Manter os artistas”: sugestões para um campo da arte, quarta parte desta coletânea, apresenta a faceta política de um Freyre comprometido não apenas com a análise da arte e da cultura no Brasil, como também com a constituição de uma situação favorável à produção, ao fomento, à difusão, à formação, à comercialização, à institucionalização e à teorização dessas. Por fim, temos, em “Problemas da sociologia da arte”, um conjunto de textos que sintetizam preocupações diversas desse que foi um dos fundadores, no Brasil, desta disciplina. Se, para Freyre, não existe “arte pura” e toda ela está, a priori, socialmente imbricada, a sociologia da arte faz-se fundamental na análise da produção artística ao perceber e problematizar os diversos aspectos dessa relação. A surpresa de nosso contato com Gilberto Freyre vem se dando, como deixa entrever a organização deste livro, não pela negação de seu conservadorismo ou de suas construções idealizadas sobre aspectos da cultura brasileira, mas pela ampliação da leitura que fazemos de seu pensamento. Se o regionalismo dos anos 1920 e 1930 nos pareceu uma espécie de doutrina, a partir do contato com a crítica de arte de Freyre percebemos esta invenção se moldando numa consciência contextual que, ainda que advinda de sua leitura da formação social do Nordeste brasileiro, extrapola-a, configurando-se como um horizonte ideológico para a produção de arte e de cultura. Gilberto.p65 17 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 18 27/05/2010, 16:01 PARTE I “REGIONAL, TRADICIONAL E, A SEU MODO, MODERNO”: ACERCA DE UM POSICIONAMENTO A propósito de “regionalismo”, “modernismo” e “romance social” Modernidade e modernismo nas artes A propósito de regionalismo tradicionalista Regionalismo criador Gilberto.p65 19 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 20 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE “REGIONALISMO”, “MODERNISMO” E “ROMANCE SOCIAL” Das novas vozes de críticos que se levantam no Brasil três me pareceram de uma limpidez e de um vigor extraordinário: as dos dois Wilson – Wilson Martins e Wilson Chagas – e a de Temístocles Linhares. Todos homens do Sul. Vou logo me referindo à região de origem dos três jovens críticos porque a nota de hoje é precisamente sobre regionalismo em literatura: na literatura brasileira. O assunto foi referido, em crônica recente, pelo senhor Temístocles Linhares de uma maneira que me põe em atitude de defensiva por ter ousado de referir-me a um movimento regionalista no Norte do Brasil, contemporâneo e, sob certos aspectos, equivalente do movimento modernista do Sul; e não seu derivado ou sua simples variante – o caso do grupo Cataguases; nem pura reação aos seus excessos neste ou naquele sentido; o caso do verdeamarelismo ou mesmo do integralismo. Ponto de vista que mantenho. Pois nenhum dos ismos a que o senhor Temístocles Linhares se refere como submovimentos que teriam correspondido, em várias partes do país, ao regionalismo esboçado no Nordeste desde 1923, teve a autonomia, a Gilberto.p65 21 27/05/2010, 16:01 22 GILBERTO FREYRE independência, a pureza de origens e de fins em face do poderoso movimento modernista de São Paulo que caracterizou o movimento do Recife. Faltou, é certo, a esse movimento a grandeza, a flama e o ardor missionário de um general de Exército de Salvação da literatura e da arte como o que o modernismo do Sul teve em Mário de Andrade, cuja imensa figura de profeta desdobrado em guerreiro, não nos deve fazer esquecer o valor, igualmente considerável, do senhor Oswald de Andrade. Este foi talvez mais do que ninguém, o estrategista da dura batalha que então se travou em nosso país; e que assumiu característicos de um episódio de guerra entre religiões. Tanto assim que os modernistas do Sul puderam contar imediatamente ao seu lado com majestosas figuras de desertores ou convertidos: velhos pecadores como Graça Aranha que deixaram escandalosamente a igreja velha se juntarem à nova, enquanto no interior do templo profanado Coelho Neto extremava-se em clamar, rouco e indignado, que morreria “o último dos helenos”. Dentre os adolescentes de mais talento e de mais sensibilidade da época, não foram poucos os que madrugaram nas letras ou nas artes sobre o sinal da nova religião. Mario de Andrade não era homem que tendo descoberto a Verdade com V maiúsculo em literatura e em arte deixasse de procurar fazer novos Graças abandonarem as academias. Sua atividade de catequista, de reformador, de missionário foi simplesmente espantosa. Lembra a dos grandes missionários da Companhia de Jesus nos seus dias heroicos de catequese nas américas. Ora, era um novo Graça que ele arrancava ao pecado. Ora era um adolescente de talento que libertava da monotonia estéril da gramática ou do despotismo árido dos gramáticos revelandolhe novos mundos, novas liberdades e sobretudo essa Verdade com V maiúsculo de que os adolescentes sempre se revelaram particularmente ávidos tanto em literatura como em política. Donde um irreverente já ter escrito que a verdade assim compreendida conforta os homens ávidos de síntese como um bife aos famintos de boi já reduzido a carne assada ou cozida. E conforta, embora o conforto seja quase sempre efêmero. Gilberto.p65 22 27/05/2010, 16:01 23 PENSAMENTO CRÍTICO Ora a dramaticidade, a teatralidade, a mistagogia esplêndida de que o espírito missionário de Mário de Andrade animou o modernismo do Sul, dando-lhe uma eficiência imediata como movimento revolucionário de uma repercussão imensa como esforço de renovação das letras e das artes brasileiras, faltou ao regionalismo do Norte. Este foi também um movimento quase sem imprensa e sem banda de música, sem estandartes e sem verdades ou sínteses misticamente capazes de operar conversões em massa entre a mocidade. Houve conversões e adesões: porém tão sem ruídos que às vezes os próprios convertidos ignoravam estarem mudando radicalmente de rumo de vida ou de sentido de cultura. E de tal modo faltou ao movimento publicidade ou divulgação no Rio e em São Paulo – então mais indiferentes do que hoje aos acontecimentos intelectuais do resto do Brasil – que um ministro do então presidente Bernardes, alarmado com as primeiras notícias de um surto regionalista em Pernambuco, chegou a telegrafar ao Recife perguntando até onde iam as intenções separatistas dos novos revolucionários. Também faltaram ao regionalismo no Norte críticos militantes ou teóricos que se empenhassem em obra séria de sistematização de ideias ou tendências. O modernismo do Sul teve não um ou dois porém vários: Tristão de Ataíde, Prudente de Morais Neto, Sergio Buarque de Holanda, Graça Aranha, Mário e Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Tasso da Silveira. Críticos e teóricos de primeira ordem e não apenas evangelistas e catequistas irresistíveis. Seus escritos constituem uma obra inteligentíssima de apologética. Deram ao movimento consistência, síntese e nitidez. Talvez lhe tenham acentuado, também, característicos de seitas. Mas raramente a uma vantagem deixa de corresponder alguma desvantagem – diria o conselheiro Acácio. O regionalismo do Nordeste nunca se tornou o mesmo movimento sistemático ou sintético que foi o modernismo do Rio– São Paulo–Minas. Mas, por outro lado, nunca se extremou em seita de qualquer espécie. Nunca foi uma política literária. Nem Gilberto.p65 23 27/05/2010, 16:01 24 GILBERTO FREYRE uma política nem uma mística. Nenhum dos seus armadores teve a pachorra de corresponder-se por meio de bilhetinhos quase idílicos com a mocidade ávida de converter-se ao primeiro ismo revolucionário. O que ele criou – se na verdade criou alguma coisa – foi apenas uma espécie de atmosfera nova, que fez muitos dos homens novos do Nordeste – e mesmo alguns dos velhos – começarem a ver sob uma nova luz a gente e as coisas, a paisagem e o passo de sua região e do seu país; e também os problemas do seu tempo. E essa nova visão, a um tempo regional e universal, da vida e dos problemas humanos, é uma nota identificadora de alguns dos trabalhos mais sérios saídos do Nordeste nos últimos vinte ou vinte e poucos anos. Não só romances como poemas; não só biografia com ensaios de história, de crítica e de sociologia. Nenhum deles é sectariamente, regionalista. Nenhum deles traz a marca ou o carimbo nítido e inconfundível de uma seita, de uma escola, de um movimento sistematizado, de um nome de mestre ou chefe absorvente de uma data certa de convenção ou de primeira comunhão literária aos pés de um novo messias literário. Mas em todos aqueles trabalhos há um critério ou sentido regional da vida ou da cultura humana que se faz mais adivinhar do que aprender. E de que os autores mais jovens talvez nem tenham tido consciência. Estes são os esclarecimentos que me sinto obrigado a oferecer ao senhor Temístocles Linhares: a crônica recente a que se ocupou generosa mas lucidamente de um trabalho meu, também recente. Trabalho de que não pode aceitar duas ou três generalizações mais afoitas. Uma delas, a que atribui ao regionalismo do Nordeste importância de “movimento original” na história da nossa cultura. Para o senhor Temístocles Linhares – se bem o compreendo – o lugar do regionalismo do Recife é entre os submovimentos derivados do modernismo de São Paulo ou Rio: o de Cataguases, o verde-amarelismo. Festa. Para mim, continua a ser em plano superior a estes ismos menores e ao lado do maior: o modernismo de São Paulo. Deste teria sido não só contemporâneo como, sob alguns aspectos, equivalente. Nun- Gilberto.p65 24 27/05/2010, 16:01 25 PENSAMENTO CRÍTICO ca um derivado ou uma variante. Muito menos uma reação deliberada aos seus excessos. Também o senhor Temístocles Linhares me acusa de grave omissão de nomes num trabalho com pretensões a síntese do elemento social na literatura e na arte brasileira como o último capítulo de Interpretação do Brasil. Escreve que falo nessas páginas em romance social, exaltando demasiadamente o senhor Jorge Amado, mas deixando de referir-me à senhora Raquel de Queiroz e aos senhores Otávio de Faria e Erico Veríssimo. À senhora Raquel de Queiroz e o senhor Erico Veríssimo faço referência; mas ao senhor Faria, não, e é, na verdade, um grave pecado de omissão aquele em que acaba de surpreender-me o agudo e vigilante crítico que é o senhor Temístocles Linhares. Diário de Pernambuco Recife, 14 de setembro de 1947 Gilberto.p65 25 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 26 27/05/2010, 16:01 MODERNIDADE E MODERNISMO NAS ARTES Entre os brasileiros de São Paulo e os de Pernambuco sempre foram muitas as afinidades. Martius, quando aqui esteve no começo do século passado, destacou o fato de se encontrar entre paulistas e pernambucanos o maior número de brasileiros instruídos. Mas não vem dessa inconstante superioridade de instrução dos paulistas e dos pernambucanos sobre os demais brasileiros – pois todos reconhecemos a supremacia em saberes acadêmicos mais de um vez assumida no Brasil pelos baianos, pelos mineiros ou pelos maranhenses – principal afinidade da gente da velha província do Sul com a da antiga província do Norte. Vem antes daquele ânimo ou gosto de iniciar, de descobrir, de renovar, de antecipar, que sendo um vivo característico dos paulistas, também se encontra entre os pernambucanos. Que fez dos homens de São Paulo e dos homens de Pernambuco os primeiros brasileiros a substituírem os portugueses no esforço de colonização do Brasil, como notou uma vez o historiador Abreu e Lima. No esforço de transformação da colonização do Brasil em autocolonização, como diríamos hoje. Paul Adam reparou nos paulistas que conheceu em 1913 um excessivo desprezo por tudo que fosse passado, atraso, “en retard” e um amor talvez exagerado por tudo que fosse “avancé”. Gilberto.p65 27 27/05/2010, 16:01 28 GILBERTO FREYRE Surpreendeu assim o arguto francês na gente desta parte do Brasil o pendor modernista que não tem sido senão o excesso de uma virtude: o gosto, o ânimo, o espírito paulista de modernidade. Pendor e ânimo que se encontram também, embora menos intensos, entre os pernambucanos. No Brasil, quase tudo que é manifestação de modernidade ou explosão de modernismo em política, em literatura, em indústria, em pintura, até em religião e em ética, tem partido de São Paulo ou do Recife. Ou de paulistas e pernambucanos. Nos dias de Nassau, o Recife foi um centro tão escandaloso não só de modernidade como de modernismo que os burgueses da Holanda não conseguiram acomodar-se a tanta inovação perigosa. Um dia Nassau quase surrealista anunciou aos recifenses que ia fazer um boi voar. E no final de oito anos arrojos experimentais do Conde – um europeu do Norte enamorado do trópico – desembaraçaram aqueles burgueses rotineiros de um dos maiores voluptuosos do modernismo na arte política e na arte da administração que já floresceram na América. Desde então parece ter ficado no pernambucano o gosto de modernidade às vezes extremado em furor modernista. 1710 foi um movimento modernista, se não de sentido republicano, de tendência violentamente antilusitana. 1817 foi outro. 1824, ainda outro. A Revolta Praieira também: antilusista e ao mesmo tempo antifeudalista. O pernambucano Abreu e Lima – tão cheio do espírito de aventura que se fez soldado de Bolívar – foi um modernista em suas ideias e atitudes. Ao morrer no Recife em 1856 teve que ser sepultado no Cemitério dos Ingleses: a Igreja Católica, pelo seu bispo em Pernambuco, considerou-o herege. A chamada “Escola do Recife” foi modernismo do mais puro. O germanismo no direito, na literatura, na filosofia – modernismo do mais cru. A “poesia científica” de Martins Júnior, modernismo do mais louco com aparência de lógico. O abolicionismo de Joaquim Nabuco, não: este foi uma das manifestações mais saudáveis de modernidade em arte política que já houve entre nós. Tanto que não se extremou sequer em republicanismo: do Gilberto.p65 28 27/05/2010, 16:01 29 PENSAMENTO CRÍTICO fim do século passado se exageraram, com o positivismo como um quase cubismo que deixou na própria bandeira nacional sua marca. Dos paulistas seria supérfluo recordar que sempre estiveram à frente, no Brasil, de movimentos de antecipação, de inquietação, de sofreguidão pelo novo, pelo diferente, pelo moderno. Nos mais remotos dias da colônia, já eram tidos pelos mais terríveis rebeldes desta parte da América. Ainda no século XVIII, um padre paulista quis voar. Outro padre paulista, Diogo Antônio Feijó, foi quase escandalosamente modernista em suas ideias de católico e de padre. O republicano foi em São Paulo que primeiro se sistematizou como modernismo político. Em 1922, o modernismo brasileiro nas artes e nas letras seria um movimento principalmente paulista. Paulistas e pernambucanos se confundem em vir sendo no Brasil os brasileiros de espírito mais constantemente moderno e às vezes mais exageradamente modernista. Mas de uma vez têm sido corrigidos em excessos de aventura intelectual ou política, industrial ou estética, pelo espírito de conservação, de prudência, de rotina, de tradição, de equilíbrio, de doçura na conciliação de extremos, dos baianos e dos mineiros. Estes são os maiores mestres de arte política em nosso país justamente por ser a arte política, entre todas as artes, aquela que mais se aprimora pela doçura na conciliação dos extremos: doçura tão do temperamento dos baianos quanto da índole dos mineiros. Eles, baianos e mineiros, são os maiores e os mais antigos mestres dessa arte no Brasil; nós, paulistas e pernambucanos, somos, com os homens do Rio Grande do Sul e de outras áreas, eternos aprendizes dessa arte. E por sermos eternos aprendizes, nosso pendor é maior do que os dos outros mestres para as aventuras de inovação, de experimentação, de renovação e até de revolução, sem as quais não se compreende modernismo nem mesmo modernidade. Admiramos os mestres; mas isto não quer dizer que nos conformemos em que a arte política deva ser exercida apenas, ou quase exclusivamente, por eles. Deve ser exercida também Gilberto.p65 29 27/05/2010, 16:01 30 GILBERTO FREYRE por aprendizes, os excessivamente prudentes pelos excessivamente inovadores, os exageradamente tradicionalistas pelos exageradamente experimentalistas, mesmo quando estes sejam mais modernistas do que modernos em seu espírito ou em sua técnica de inovação ou experimentação. Feito isto, teremos caminhado para a mais saudável das compensações: aquela que se obtém pela interpenetração de antagonismos ou pela reciprocidade de influências, sempre tão útil na arte política. É a lição dos ingleses, maiores mestres nessa arte do que os próprios baianos ou os próprios mineiros. Donde se poder concluir que feliz é o povo que, como o brasileiro, tem baianos e mineiros por mestres e paulistas e pernambucanos por aprendizes – aprendizes e renovadores – de arte política. De São Paulo, por ter sido e por ser ainda a província brasileira por excelência da aventura, das bandeiras, da inovação, da experimentação, da renovação, e, por conseguinte, do modernismo nas artes, inclusive na política – zona em que esse modernismo já chegou em teoria até a essa espécie de autonomismo desvairado ou de estadualismo enlouquecido que é o separatismo; de São Paulo não se diga, numa generalização rígida, que só tem dado à política brasileira aprendizes, uns de gênio, outros sem gênio. Pois brasileiro nenhum pode esquecer ser esta a província materna dos Gusmões, dos Andradas e dos Prados, vários dos quais têm sido em política antes mestres que aprendizes: dois dos quais foram talvez os mais altos e completos homens públicos que a América Portuguesa já produziu: Alexandre de Gusmão e José Bonifácio. Não precisei procurar seus nomes para com eles fortalecer uma tese porque não são nomes que alguém precise procurar quando fale de arte política no Brasil: foram eles os maiores mestres que a difícil arte teve entre nós e são ainda os mais visíveis porque verdadeiramente monumentais. Note-se, entretanto, em ambos, o seguinte: nenhum dos dois foi mestre rígido que pela soberania do gênio ou pela majestade do saber renunciasse, depois de consagrado ou de velho, o direito ou a alegria de continuar aprendiz, experimentador, homem de Gilberto.p65 30 27/05/2010, 16:01 31 PENSAMENTO CRÍTICO aventuras intelectuais. José Bonifácio foi homem também de aventuras sentimentais. Foram um e outro, até o fim da vida; modernos embora nenhum dos dois estritamente modernistas no seu modo de ser moderno. Pois o modernismo implica em considerar-se perfeito um momento que é ou foi moderno; em parar um homem ou um grupo na adoração desse momento considerado todo ou quase todo insuperável; em sistematizar-se e até cientifizar-se essa adoração como fez ingenuamente Martins Júnior com a poesia que chamou científica. São Paulo teve entre seus homens públicos um modernista típico que foi o sábio Pereira Barreto, corrigido e retificado com tanto brilho em alguns dos seus excessos por Eduardo Prado, o antimodernista extremo. E quem fala em São Paulo e em modernismo, em geral, tem de referir-se mais demoradamente ao “modernismo” na literatura e nas belas-artes que aqui se desenvolveu escandalosamente e revolucionariamente em torno de Mário de Andrade, de Anita Malfatti, de Guilherme de Almeida, de Victor Brecheret, de Tarsila e de Oswald de Andrade: movimento considerável de renovação das letras e das artes que, entretanto, envelheceu depressa pelo fato de ser contraído e sistematizado numa quase seita de adoração do que fora apenas um momento ou um instante – instante libertador, revolucionário, violentamente antiacadêmico – na vida do brasileiro criado com muita gramática ou com excessivo respeito pelas academias. Toda adoração dessa espécie se torna, quando passa de um instante, a própria negação daquele critério de modernidade, presente e vivo na obra inteira de José Bonifácio e de todos que, sendo modernos, não são nunca modernistas de seita. Adoração de que vigorosamente se desembaraçou Mário de Andrade no fim da vida e de que cedo se libertaram Tarsila, Di Cavalcanti e o admirável mestre de modernidade que se tornou, depois dos dias heroicos do “modernismo”, Oswald de Andrade, com o seu incessante ardor experimental e a sua também incessante vigilância, não só crítica como autocrítica. Essa vigilância não permitiu que ele sistematizasse seu modo de escrever Gilberto.p65 31 27/05/2010, 16:01 32 GILBERTO FREYRE num modo de escrever sectariamente antigramatical e calculadamente modernista. Desde 1922 que Oswald de Andrade escreveu de um modo novo mas não fanaticamente novo: sem aqueles sinais maçônicos que só os iniciados compreendem e admiram noutros “modernistas” hoje arcaicos. Sem abusos de “gostosura”, de sentenças começando com “me”, de diminutivos exageradamente açucarados. O mesmo estou certo que teria acontecido com Antônio Alcântara Machado se ele tivesse amadurecido, como amadureceu Oswald de Andrade, no escritor moderno, e não simplesmente modernista, que prometia ser. E não nos esqueçamos de Ronald de Carvalho, de Manuel Bandeira, de Carlos Drummond de Andrade, de Sérgio Buarque, de Prudente de Morais Neto, de Tristão de Ataíde, de Menotti Del Picchia, de Cassiano Ricardo, de Rodrigo M. F. de Andrade, de Afonso Arinos de Melo Franco, de Emílio Moura, de Tasso da Silveira, de Flávio de Carvalho, de Aníbal Machado, para citar só esses. Para esses, ou para alguns desses, o modernismo, apenas na aparência é que foi um simples jogo de inteligência. Na verdade foi uma áspera mas fecunda aventura, não apenas de inteligência ou da sensibilidade, mas da personalidade inteira. Aventura necessária para o desenvolvimento de tantos inquietos em modernos: os modernos saudáveis que são ainda hoje. Ninguém, entretanto, mais incessantemente moderno no Brasil dos últimos trinta anos que o exmodernista, o ex-antropofagista e creio que o ex-marxista de seita, Oswald de Andrade, que proclamou ele próprio, numa das melhores páginas do seu Ponta de Lança – a página 122 – ter sido dos que salvaram o sentido do “modernismo” com a “antropofagia”, isto é, com um movimento pós-modernista, de superação do modernismo já meio oficial de Mário de Andrade; ter sido dos que caminharam sempre, e decididamente, “para o futuro”. Poderia Oswald de Andrade ter sido mais exato e ter dito que concorreu para salvar o sentido moderno do “modernismo” brasileiro. Oswald de Andrade foi, na verdade, dos que salvaram o sentido moderno do modernismo no Brasil; dos que cedo se Gilberto.p65 32 27/05/2010, 16:01 33 PENSAMENTO CRÍTICO dispuseram a salvar o movimento iniciado em São Paulo em 1922 de permanecer apenas seita modernista; dos que cedo de se empenharam em salvá-lo de permanecer apenas literário ou estético; dos que cedo procuraram não só pela palavra como pela ação acrescentar-lhe sentido social e, dentro do sentido social, sentido político. E esse sentido político, democrático. Por tudo isso ele foi, como ninguém, dentre os sobreviventes do modernismo paulista de 1922, um moderno ao lado do qual nenhum pós-modernista sente esse não sei quê de desconfortável que nos comunica a presença de um indivíduo intransigente ou ostensivo no seu modernismo de mocidade ou de seita, no seu modernismo já superado por outros modernismos de que ele, entretanto, modernista parado, não toma sequer conhecimento, conservando todos os cacoetes, todos os modismos, todos os característicos de sua seita antiga e escrevendo pelos sinais maçônicos dessa seita. Oswald de Andrade conservou do “modernismo” de 1922 o que havia de revolucionariamente e permanentemente moderno no movimento, do mesmo modo que um grupo de homens, já de meia-idade e alguns até de idade avançada, chamados “tenentes”, conservaria na política brasileira o sentido revolucionariamente e permanentemente moderno do tenentismo de 1922, de 1924, de 1930: seu sentido ético e político de ação renovadora. É o que se salva dos ismos quando os ismos encontram Oswalds de Andrade e Juracis Magalhães que os salvem: seu sentido de modernidade que é também um sentido de continuidade criadora. Através dessas aproximações ao assunto creio ter, em parte, sugerido o necessário sobre a distinção a termos em vista entre modernidade e modernismo. O problema me parece que é psicológica e sociologicamente o mesmo em qualquer arte. O mesmo, psicológica e sociologicamente, na arte política que nas artes plásticas, por exemplo. Em todas as artes os modernistas passam e os modernos ficam. Donde me ter aventurado uma vez a comparar um conhecido sistema de arte política com um conhecido sistema de arte plástica, para a ilustração do que seja modernismo em Gilberto.p65 33 27/05/2010, 16:01 34 GILBERTO FREYRE oposição à modernidade em qualquer arte. Nessa comparação é que insisto neste ensaio, dentro, aliás, do critério sociológico de análise das artes plásticas como manifestação da mesma cultura que produz a arte política ou a arte industrial ou a arte da bruxaria, já adotado, em curioso trabalho, por um dos mais notáveis críticos paulistas dos nossos dias: professor Sérgio Milliet, no seu ensaio Marginalidade da pintura moderna. Marginais as artes plásticas porque, para o professor Sérgio Milliet, as artes plásticas e a música avançando, nas épocas de transição como a nossa, mais que a economia ou a política, “na ânsia” de encontrarem “a expressão certa do mundo novo”, ultrapassariam “o estágio do público, mesmo da elite”, perderiam pé, destoariam da “cultura em formação”. E ficariam em estado de marginalidade: rejeitadas pela civilização superada e incompreendidas pela civilização nova ou em formação. Enquanto a arte política – depreende-se, creio eu, das palavras do crítico paulista – não seria assim, não conheceria esse conflito, não experimentaria esse drama, pois, segundo o professor Sérgio Milliet, “políticos, economistas, administradores, mesmo os mais avançados, vivem de conluios e de concessões”. Será certo que as artes plásticas e a música se afastem tanto, pela sua intransigência, da arte política, da arte industrial e da arte de administração? Será que estas podem ser caracterizadas pelo excesso de concessões em que vivem os políticos, os economistas, os administradores? Ou não sofrerão todas as artes – a música, as artes plásticas, a arte política, a industrial, a de administração (todas elas, para o sociólogo, manifestações de cultura diversas apenas na qualidade, e, por conseguinte, sujeitas, nas épocas de transição, às mesmas aventuras de marginalidade) – os efeitos do mesmo processo de modernização? Modernização nos seus primeiros avanços quase sempre exagerada em modernismo; depois aquietada, porém não estagnada, em sã e criadora modernidade, obtida, parece que invariavelmente, à custa de concessões ou conluios entre o novo e o velho, entre o ímpeto revolucionário e a inércia invencível ou a tradição irredutível, seja esta a que se encontra na política ou Gilberto.p65 34 27/05/2010, 16:01 35 PENSAMENTO CRÍTICO na economia, nas artes plásticas ou na música, na dança ou na própria arte da modista. Pois não nos esqueçamos de que há uma parenta pobre das artes mais ilustres, muito amada dos ricos e chamada “moda”; e como lembra um ensaísta dos nossos dias, Júlio Payrá, é a moda que particularmente se antecipa em anunciar o que as outras artes exprimem menos visivelmente ou menos escandalosamente: o fim de uma época ou de uma civilização. O começo de outra. Creio que é antes isto do que a intransigência absoluta de umas artes e a transigência excessiva de outras que se passa mais ou menos com todas as artes em face do processo de modernização. Nas fases de transição de cultura, esse processo parece alcançar a umas artes mais rápida ou violentamente do que a outras, sem deixar, porém, de afetar a todas, de tornar a quase todas instáveis, de a todas alterar em suas formas que, entretanto, nunca se estabilizam em formas inteiramente novas: terminam sempre retendo ou guardando alguma coisa das antigas, por algum tempo consideradas pelos fanáticos do modernismo renovador, abomináveis, nefandas, intragáveis, intoleráveis. Um desses fanáticos foi comparado, e muito bem comparado, a Savanarola. É claro que nem de longe pretendo dar, neste pequeno ensaio, ao assunto imenso, o desenvolvimento que ele merece; nem serei eu o mais competente para fazê-lo. O que aqui esboço é uma simples “nota prévia” que talvez venha a desenvolver um dia em estudo sistemático. Pois o paralelismo de desenvolvimento entre as artes ou as várias manifestações ou exteriorizações artísticas ou quase artísticas de cultura, sendo assunto já enfrentado magnificamente por um mestre da altura do professor Sorokin, tem ainda aspectos virgens a ser explorados ou considerados. E um deles talvez seja esse da arte política ser menos diversa do que parece, em ser processo de modernização – sempre contrariado pelo de regressão ou de conservação – da arte da dança ou da arte da pintura ou da arte da arquitetura. Aliás, Havelock Ellis consideraria todas essas artes manifestações de uma só: a dança da vida. E o certo é que em todas Gilberto.p65 35 27/05/2010, 16:01 36 GILBERTO FREYRE elas deparamos com períodos de modernismo que são também períodos de fanatismo. Ou de revolucionarismo “heroico”, puro, ortodoxo. O cubismo foi decerto, nas artes plásticas, um desses períodos de fanatismo ou de revolucionarismo “heroico” que na arte política é ainda atravessado pelo marxismo-comunista. Pois este tendo deixado de ser “heroico” na Rússia, ou para os russos, continua a sê-lo para aqueles que, fora da Rússia, ainda a supõem, ou a desejam, em fase heroica de intransigência marxista, de ortodoxia revolucionária, de purismo fanático. É a atitude atual dos comunistas chineses, por exemplo. Parece que na arte política tais períodos de fanatismo tendem a prolongar-se mais do que nas artes plásticas, sem que deixe de haver semelhança nos seus modos de formação, nos seus métodos de desenvolvimento e nos seus efeitos de ação. Os historiadores do cubismo destacam o fato de revelar ele pontos de contato com a arte sem figura humana de Islã, atribuindo alguns essa afinidade à circunstância de terem sido dois dos seus principais criadores, Picasso e Gris, “filhos da Espanha” que alguém já chamou “inquisitorial e moura”. Mas não se esquecem de recordar que o movimento foi étnica e culturalmente heterogêneo nas suas origens, embora principalmente espanhol (elemento representado por Picasso), francês (elemento representado por Braque) e eslavo (elemento representado por Apollinaire). Ora, quase o mesmo se tem dito do marxismo: também ele revela pontos de contato com uma cultura antiga: a hebreia; com um sistema severamente religioso: o dos profetas do Velho Testamento. Ao mesmo tempo agiram sobre sua formação e sobre seu primeiro desenvolvimento elementos nacionais diversos: o alemão, o francês, o inglês, o eslavo. Entretanto, um e outro foram, ou continuam a ser, revoluções internacionais: duas das maiores revoluções internacionais de todos os tempos. E é interessante, do ponto de vista sociológico, assinalarmos coincidências entre os dois movimentos, isto é, entre suas formas, seus métodos, seus processos de agressão à ordem estabelecida quer nas artes plásticas, quer na plástica social, esta, Gilberto.p65 36 27/05/2010, 16:01 37 PENSAMENTO CRÍTICO até certo ponto, obra de arte política. São métodos diversos tanto dos do expressionismo como dos do anarquismo, duas outras coincidências que toleram e até pedem estudo sociológico. Ambos – cubismo e marxismo – surgiram violentos em sua agressão à ordem estabelecida e aos valores dominantes. O cubismo querendo tudo nas artes plásticas reduzido a formas geométricas simples, a formas apenas associadas entre si por um processo mental, a volumes puros, a linhas justas, a exemplos como que didáticos de uma nova gramática da pintura, da escultura, da arquitetura. O marxismo, também: seu primeiro ímpeto foi substituir uma gramática de arte política por outra violenta e inteiramente nova. Cubismo e marxismo apresentaram-se como “científicos”, como “matemáticos”, como “antirromânticos”, quando na verdade seus criadores ou sistematizadores foram como Apollinaire ou como Marx, como Picasso e como o próprio Engels, homens antes românticos que matemáticos, antes poéticos que científicos em sua formação, em seu temperamento, em suas concepções da vida e dos outros homens. O estudo de Marx como poeta está feito magistralmente por um os maiores críticos do nosso tempo, Edmund Wilson, num ensaio, Finland Station, que já recomendei uma vez, em conferência em São Paulo, à melhor atenção dos estudantes paulistas; o estudo de Picasso como noutro grande poeta do nosso tempo está igualmente feito, em páginas sugestivas, por Joan Merli – “Picasso es um filósofo pero también es um lírico” – e por outro espanhol, Ramón Gomez de la Serna, para quem dentro de Picasso há quatro homens lutando e estimulando-se: “o mudéjar, o mourisco, o universal romano, o espanhol”. Esses conflitos de culturas, mais do que de homens, dentro de um indivíduo só, tendem sempre a produzir antes poetas do que lógicos, antes profetas que cientistas puros. Marx, segundo outro dos seus intérpretes mais lucidamente críticos, o professor Lewis Mumford, procurou esconder sua “visão apocalíptica de profeta judeu” sob a aparência de pesquisa severamente erudita dos fatos; e denominou seu esquema antes filosófico, que científico, de sociologia ou de Gilberto.p65 37 27/05/2010, 16:01 38 GILBERTO FREYRE economia política, de “ciência”, para “esconder até de si próprio suas profundas solicitações emocionais e sua atitude essencialmente religiosa diante do destino humano”. Duas qualidades que dariam àquele esquema semicientífico “o poder de atrair o apoio das deprimidos e dos desesperados dentre os homens de massa”. Não terá Picasso sido semelhante a Marx neste ponto? Não terá sido um homem para quem o cubismo foi, por um lado, uma herança de cultura islâmica – reatada, atualizada e exagerada por ele no seu aspecto experimentalmente estético – e por outro lado, um meio de conter-se, e ao seu espanholismo, ao seu fanatismo, ao seu intensismo ibérico, ao seu anarquismo peninsular dentro de cubos disciplinadores, aos quais acabou, entretanto, corrompendo com sua força poética, como um adolescente que corrompesse sua governante alemã com a força do sexo agressivamente jovem e virgem? Cubos dos quais acabou libertando-se para novas aventuras de personalidade lírica. E tanto em Marx, comunista “científico”, como em Picasso, cubista antisentimental, encontramos exemplos de revolucionários que se esquivam a permanecer fanaticamente dentro dos seus próprios sistemas modernistas. Transbordaram do modernismo. Permanecem modernos. Continuam modernos. Enquanto os sistemas modernistas para cuja criação concorrem mais com seu gênio poético do que com a sua inconstante meticulosidade científica são, cada dia mais, sistemas superados, ultrapassados, excedidos por outros sistemas, embora de modo nenhum destruídos ou aniquilados, nem o cubismo porquanto anticubismo se tem levantado furiosamente contra ele, nem o marxismo porquanto antimarxismo se tem inventado para reduzi-lo a pó. Do sistema sociológico e, ao mesmo tempo, econômico e político, ligado ao nome de Marx e de Engels, parte considerável se acha incorporada, ou em processo de incorporação, às ciências sociais e à engenharia social ou à arte política. Nessas ciências e nessa arte, ninguém hoje pode dizer-se moderno, nem pensar ou agir modernamente, sem ter passado não digo como um adepto – embora não haja mal nenhum na fase de experiên- Gilberto.p65 38 27/05/2010, 16:01 39 PENSAMENTO CRÍTICO cia, de prática ou de iniciação marxista por que passe um adolescente mais sôfrego ou inquieto dos nossos dias – mas como um estudante do marxismo. Pelo estudo do marxismo é que melhor se chega àquela conclusão de Mumford de que nesse sistema o fundamentalmente errado está na rigidez de suas categorias. Uma rigidez de categorias que lembra, seja dito de passagem, o esquemático da concepção cubista da natureza. São categorias segundo as quais, como observa Mumford, as “relações materiais” seriam sempre a causa, e não uma das bases, de todas as relações humanas, fazendo-se confusão constante de “causa” com “base” e exclusão sistemática – exclusão a que não nos autoriza o estudo sociológico das sociedades e das culturas –, da base ideal, ou não material, daquelas mesmas relações. Pois o que se sabe hoje é que em qualquer sociedade ou cultura humana os aspectos políticos, artísticos, religiosos de sua vida ou organização nem precedem os técnicos ou os econômicos nem tampouco decorrem passivamente deles. São, como dizem os sociólogos mais modernos, organicamente relacionados. Outro ponto em que o marxismo foi tão simplistamente modernista em arte política quanto o cubismo nas artes plásticas foi em esperar que, abolida nas sociedades ou, pelo menos, reduzida, a hierarquia que se exprime em classes – espécie de equivalente, na plástica social, da perspectiva na pintura – e aclamado o proletariado “classe única” – “classe única” bem alimentada, bem-vestida, bem abrigada – cessariam todos os motivos de luta entre os homens, como se das novas condições de vida não surgissem novos motivos de insatisfação, de inquietação, de luta. Pelo que críticos como o já citado professor Mumford acusam o marxismo de ter caído na mística vitoriana de happy end. A verdade é que os desenvolvimentos sociais excitados ou estimulados pelo largo emprego da eletricidade nas sociedades mais adiantadas só têm feito, como salienta outro crítico atual do marxismo, o professor Lancelot Hogben, diminuir, nas sociedades que fazem maior uso de eletricidade, a tendência para a proletarização da classe média. Tendência entrevista por Marx Gilberto.p65 39 27/05/2010, 16:01 40 GILBERTO FREYRE como geral e irresistível. O professor Hogben vem demonstrando, em estudos objetivos e inteligentes, que não: o emprego cada dia maior da eletricidade vem exigindo número cada dia maior de peritos, de técnicos, de especialistas nas sociedades britânicas e, por conseguinte, reduzindo, entre elas, a tendência para a proletarização – no sentido de pauperização – da classe média. Esta é que vem se expandindo numa espécie de classe única com várias subclasses. Nos Estados Unidos é também o que se tem verificado: e ali de forma ainda mais acentuada. É o que mostra Alfred Bingham no seu Insurgent America: outro trabalho sociológico que sendo de orientação pós-marxista não é, de modo algum, antimarxista. Recomendo-o aos brasileiros que porventura ainda não o conheçam. Como lhes recomendo os estudos do professor Myrdal sobre a Suécia e o admirável ensaio em que um pensador britânico, o professor John Macmurray – que tive o gosto de conhecer na Universidade de Edinburgo de que foi durante anos professor de filosofia –, sobrepõe ao marxismo sistemático ou sectário o que denomina “democracia construtiva” ou “democracia positiva” diversa da negativa, que seria a liberal ou libertadora. A democracia “construtiva” ou “positiva” do professor Macmurray baseia-se no reconhecimento do fato de que os problemas humanos são hoje principal ou primariamente econômicos: um fato posto violentamente em relevo pela revolução marxista em sociologia, em economia e em política. Daí ser impossível uma democracia econômica, sem que se faça obra de planificação social, tecnicamente centralizada mas politicamente descentralizada: com o máximo de participação, nesse esforço, do homem comum através do seu município ou da sua comuna. Na revivescência da democracia local ou municipal que, felizmente, é hoje uma das preocupações mais vivas entre os brasileiros empenhados na renovação da nossa vida política e na organização democrática das relações entre os grupos rurais e os urbanos da nossa população, estaria o meio mais simples de se fazer coincidir a democracia política com a Gilberto.p65 40 27/05/2010, 16:01 41 PENSAMENTO CRÍTICO econômica, a rural com a urbana. Pois nada nos autoriza a acreditar com Marx que a vida rural seja o que ele considerou, num excesso de modernismo ou de cubismo político, uma “vida idiota” que deva ser sistematicamente substituída pela generalização da estrutura urbana ou metropolitana a todas as áreas de atividade humana. Nesse afã de subjugar de todo ao complexo urbano a natureza – que teria reduzidas suas curvas rurais às retas, aos ângulos, ao cubos urbanos – o modernismo marxista como que se antecipou ao cubismo picassista, também empenhado no que um crítico alemão, Wilhelm Hansenstein, chamou muito germanicamente de “desnaturalização da natureza pela forma”. Desnaturalização atingida, no cubismo, por uma nova ordem dada à representação plástica das coisas e do corpo humano, quase reduzidos a pretextos para criações geométricas. Por isto André Salmon chamou ao cubismo de “pintura-equação” do mesmo modo que se poderia chamar ao marxismo de “política-equação”. Pretendendo servir-se só do cubo, do paralelepípedo, das formas piramidais e da esfera, o cubismo foi, nas artes plásticas, um equivalente do marxismo. Pois este na arte política ou na engenharia social, procurou ser absolutamente, fanaticamente, rigidamente linear, esquemático, cúbico. Le Fauconnier, em experiências de pintura cubista do corpo humano, acabou descobrindo um novo ritmo de composição baseado em esquema cúbico-trigonométrico. O mesmo conseguiu Braque. Donde o cubismo ter se tornado o “fanatismo sectário” a que se referem Hansenstein e outros críticos. Hansenstein, porém, vai mais longe em sua análise quase sociológica do fato e comenta que com esse fanatismo “estreitou-se o horizonte” para os pintores que se tornaram fanaticamente cubistas, Mas nunca – adianta ele – “movimento artístico nenhum deixou de ser isso”, querendo referir-se a movimentos artísticos revolucionários ou reformadores. E tendo sido o cubismo “uma reação dialética aos hegelianistas, não encontrou outro meio de afirmação senão a violência. Ambos foram movimentos fanáticos e sectários violentíssimos. Mas sem esse Gilberto.p65 41 27/05/2010, 16:01 42 GILBERTO FREYRE fanatismo, sem esse sectarismo, sem essa violência, sua revolução teria se limitado a tempestades em copos de água parlamentares ou em vasilhas de lavar pincéis. Pela violência modernista, marxistas e cubistas abriram caminhos para a modernidade em que começamos a viver hoje, tanto nas artes plásticas como na engenharia social ou na arte política. Sem o cubismo, talvez ainda estivéssemos na fase de arranha-céus em estilo gótico ou em estilo mourisco, como os da fase paleotécnica de Nova Iorque; ou na pintura puramente anedótica, costumista, literária, sentimental ou “naturalista” do século XIX. Sem o marxismo talvez continuássemos a pretender resolver os problemas de engenharia social com a democracia liberal ou com o parlamentarismo de século XIX; os problemas da miséria, com a filantropia apenas sentimental. Com a continuação da violência, porém, e do fanatismo, do sectarismo, do modernismo revolucionário, remédios e médicos teriam destruído o doente antes de lhe curar as feridas. Nas artes plásticas, como na arte política – aquelas revolucionadas pelo cubismo, esta pelo marxismo – às violências renovadoras sucederam-se acordos, transigências, acomodações, concessões, entendimento entre o violentamente novo e o imperecível, o permanente, o eterno em todas as artes. Derain, por exemplo, não tardou a afastar-se do cubismo; que o salvara do academicismo decrépito, para aproximar-se do relativo naturalismo ou classicismo em que conseguiu fazer obra já de sabor moderno mas sem nenhum ranço modernista. Em arte política, já haviam começado a fazer o mesmo, políticos de formação marxista. Políticos que vêm conseguindo, desde os fins do século XIX, conciliar métodos e princípios de sua formação didaticamente marxista com a técnica pós-marxista. Uma combinação de passos de dança livre com movimentos de exercício de ginástica aprendida em colégio. E através dessa conciliação, vêm abandonando eles a rigidez ou a disciplina modernista tornando-se criadoramente modernos, uns sob o nome de “fabianos” ou “trabalhistas”, outros sob a denominação de “socialistas reformistas”, alguns até sob a de “socialistas cristãos” ou “solidaristas”; Gilberto.p65 42 27/05/2010, 16:01 43 PENSAMENTO CRÍTICO ou mesmo de neomarxistas. Os continuadores desses homens transigentes é que são hoje, não apenas modernos, mas moderníssimos, na arte política de contemporização, enquanto os que se conservam intransigentemente marxistas ou fanaticamente antimarxistas são “modernistas” ou “antimodernistas” superados já por várias gerações de pós-modernistas. Escreveu William Orpen em The outline of art, referindo-se principalmente aos cubistas, que seria um erro afirmar-se que, em pintura, as experiências dos extremistas foram experiências sem valor. Tecnicamente eles abriram o caminho para um novo realismo: o realismo moderno, que é tão diverso do pré-cubista. E nesse novo realismo, o sisudo crítico de arte britânico pensa que a “estrutura firme” e o “desenho rígido” dos cubistas se combina com uma verdade e uma beleza de cor que se derivam de inimigos por eles duramente combatidos: os impressionistas ou os neoimpressionistas. O que, sendo exato, como parece ser, indica que, ao contrário da suposição do ilustre crítico paulista de pintura, que é mestre Sérgio Milliet, a modernidade nas artes plásticas, como a modernidade na arte política, se mantém ou se desenvolve, através de transigências, contemporizações, acordos, concessões, entendimentos entre vários ou sucessivos modernismos e o que é indestrutível na tradição clássica. O que Orpen diz dos cubistas, em relação com a pintura moderna, pode-se talvez dizer dos marxistas, em relação com a política moderna. Eles nos enriqueceram a arte política e a arte da administração com “a estrutura firme” e o “desenho rígido” do seu sistema, sobre o qual se desenvolveu a moderna técnica de planificação. Ora, sem a técnica de planificação não se concebe mais engenharia social. Mas não é só: como cubistas políticos, os marxistas puseram para sempre em relevo a antes deles quase esquecida democracia econômica, sem a qual não se concebe mais organização democrática. Ainda mais: eles tornaram dramaticamente claro o fato – como destaca mais de um sociólogo moderno – de que os métodos e princípios capitalistas, em vez de leis da natureza, são produtos de arte ou de cultura humana, podendo ser, assim, substituídos por outros Gilberto.p65 43 27/05/2010, 16:01 44 GILBERTO FREYRE métodos ou princípios que correspondam melhor que aqueles à natureza humana, em vários de seus aspectos condicionada, embora de modo algum rigidamente determinada, pelas condições técnicas ou econômicas da vida. Superado o marxismo pelas teorias e experiências de democracia pós-marxista, ultrapassado por elas, excedido por elas, essa superação não nos deve fazer esquecer o fato de que sem a teoria e a experiência marxista não haveria a atual democracia social: nem a cooperativista nem a experimentalmente socialista nem a planificista. São todas tipos pós-marxistas de democracia que, em vários países, já se apresentam com resultados capazes de nos fazer acreditar no inteiro êxito de avanços verdadeiramente revolucionários no sentido de uma nova e complexa organização das relações entre os homens. Por muito tempo, entretanto, essa nova organização conservará traços marxistas visíveis ou pronunciados, embora unidos a outros traços – inclusive os cristãos – em combinações que Marx não previu. Nem previu nem desejou. Combinações impostas, umas pelos desenvolvimentos sociais de novas condições técnicas que o grande e arguto judeu – tão grande que não caberia hoje em nenhum partido marxista, tão arguto que provavelmente não seria hoje nem leninista nem trotskista – não chegou a entrever ou a considerar, como o largo emprego da eletricidade nas indústrias e na vida das comunidades modernas; outras conseguidas pela arte de conciliação de antagonismos ou de extremismos em que são mestres, ainda mais que os pintores capazes de combinar materialismo econômico – que, aliás, não deve nunca ser confundido com o materialismo vulgar – com idealismo cristão, parlamentarismo britânico com tecnicismo vebleniano. E é o que se vem verificando nos últimos decênios e continua a se verificar nos nossos dias, inclusive, como é do conhecimento de todos, dentro da própria Rússia: a superação dos modernismos políticos do século passado e dos começos do atual. A superação do modernismo revolucionário pela modernidade criadora. Entre os modernismos superados, aquele que venho considerando o equivalente político do cubismo e que, pela sua ação Gilberto.p65 44 27/05/2010, 16:01 45 PENSAMENTO CRÍTICO violentamente revolucionária das teorias e dos métodos capitalistas de ocupação e representação do espaço social, foi, a meu ver, o maior de todos: o marxismo. Superação – acentue-se, bem – e não destruição. Superação. Conciliação de critérios: principalmente do critério da tradição com o de experimentação. Tal tem sido essa conciliação que desde a vitória do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha já nos podemos considerar, em assuntos de engenharia social, no início de uma dessas fases de modernidade criadora que quase sempre se sucedem aos períodos simplistamente radicais e violentamente revolucionários. Alguns característicos da fase pós-marxista de teoria e metodologia democrática em arte política e em engenharia social já podem ser reconhecidos. Um deles – a “acumulação sistemática de fatos sociais” – em que a senhora Helen Merrell Lynd vê, com inteira razão, em livro recente, um dos desenvolvimentos mais significativos na política de transição britânica do liberalismo econômico para o socialismo democrático de hoje – mesmo quando orientado por políticos intitulados “Conservadores” –, é de especial interesse para os que se preocupam com o estudo sociológico dos problemas a serem enfrentados e, se possível, resolvidos pela arte política e pela engenharia social dos nossos dias, depois de situados e esclarecidos pela sociologia e pelas demais ciências do homem. Pois sem esse estudo – e sem outros estudos de caráter científico dos mesmos problemas – não se faz obra sólida de organização ou reorganização em sociedades complexas como as modernas, rebeldes a quanto cubismo político, sociológico ou econômico parta do princípio de que sua doutrina linear ou absoluta já é a síntese das sínteses e dispensa novos esforços de análise: a não ser os livros como que sagrados, obras de grandes profetas ou de grandes revolucionários necessários mas insuficientes: indestrutíveis mas ultrapassados. Há vinte anos, falando aos estudantes de direito de São Paulo, no seu já histórico 11 de agosto, foi este o meu tema. Procurei então alertar a inteligência da gente mais nova do Brasil contra a suficiência doutrinária dos simplistas de qualquer espécie. Continua a ser esta uma das minhas maiores preocupações. Gilberto.p65 45 27/05/2010, 16:01 46 GILBERTO FREYRE Fique bem claro, entretanto, que não se trata de opor à arte política a ciência política ou à engenharia social a ciência social como se nessa oposição estivesse outra solução messiânica para os problemas da nossa época. Sou dos que de modo nenhum acreditam em política científica; dos que de modo nenhum desejam, na vida pública, a substituição pura e simples do político, que deve ser principalmente um artista ou um engenheiro social, pelo cientista. Esse cientificismo foi um dos característicos do marxismo nos seus dias mais enfáticos na Europa, hoje revividos na América do Sul pelos representantes retardados de uma doutrina já superada em tantos pontos por outras doutrinas. Consideraram-se eles os donos de uma “ciência certa” ou da “única ciência verdadeira” com a qual fácil lhes seria concertar todo o mundo e seu Pai. Fora dos marxistas retardatários, creio poder afirmar-se que não existe hoje, entre políticos, mística cientificista: aquela mística cientificista que, no Brasil, teve, nos últimos anos do século passado, tão grandes entusiastas: o já lembrado Pereira Barreto, em São Paulo, por exemplo; em Pernambuco o também já recordado Martins Júnior, modernista de fim de século que foi um verdadeiro lírico na sua crença na “política científica” ao mesmo tempo que na “poesia científica”. Fracassou estrondosamente em ambas, para ser recordado hoje pelas boas, excelentes páginas, que escreveu sobre história do direito e pelos bons exemplos que nos deixou de altivez e de honestidade. Mas não é de admirar. Na própria Europa e nos Estados Unidos, houve quem supusesse que, depois de Comte ou de Darwin, de Spencer ou de Marx, tudo se resolveria em política e em ciência social através da aplicação aos problemas humanos de conceitos ou métodos de ciência mecanicista. Através do quantitativismo, denunciado vigorosamente por Ritchie e hoje repelido pela melhor ciência social. Do que parecem estar convencidas as inteligências mais lúdicas que se preocupam com os problemas de organização ou reorganização social é de que tais problemas exigem soluções sociais “conservadores” – soluções sociais quanto possível cienti- Gilberto.p65 46 27/05/2010, 16:01 47 PENSAMENTO CRÍTICO ficamente sociais; mas através de meios políticos que não são, nem podem ser principalmente científicos, mas principalmente artísticos. Pois o dia do político, que é essencialmente um artista, não passou e talvez não passe nunca. Nem o cubismo matou o artista nas artes plásticas substituindo-o pelo geômetra nem o positivismo ou o marxismo destruiu na política a figura tão viva, tão necessária, tão moderna, como nos melhores dias da Grécia ou da pólis. Como cientista, é que ele foi um modernista necessário mas superado. Necessário para trazer à arte política o contato com a ciência, admitindo, como está hoje, que sem esse contato a arte política pode degenerar em bruxaria sociológica. O ideal é que o político, o artista político, seja um homem de formação não apenas jurídica ou legalista, mas principalmente científica ou técnica – como foi o caso de Stafford Cripps, químico, o de Henry Wallace, agrônomo, o de Bevin, o de Benes, sociólogo – mas sem que sua formação científica ou técnica seja sua única recomendação para o serviço público e para a atividade política. Sua principal recomendação para a atividade política deve ser sua capacidade para exercê-la como artista. Ou como político. Pois política é arte, é dança, é ritmo, e quem for incapaz de arte, de dança, de ritmo pode passar pela política como um grande modernista revolucionário – violento, duro, hirto; nunca com o vigor e, ao mesmo tempo, a graça de um moderno de todos os tempos que saiba praticar a sabedoria da contemporização. Sabedoria que concorre para fazer os verdadeiros clássicos e os genuínos modernos em qualquer arte. Versão revisada de palestra proferida sob o título de Modernidade e modernismo na arte política, no Teatro Municipal de São Paulo, em 22 de junho de 1946 Vida, forma e cor: Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 Gilberto.p65 47 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 48 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE REGIONALISMO TRADICIONALISTA O historiador admiravelmente beneditino – beneditino com b minúsculo, no que não há diminuição alguma para suas virtudes de erudito já consagrado tanto nos estudos de história como nos de geografia dos quais se tornou mestre – que é o excelente professor Tadeu Rocha, num pronunciamento, pelas suas manchetes, sensacional, atribui à aliás benemérita, embora efêmera, Revista do Norte, o que chamou de “deflagração” do movimento regionalista e tradicionalista, no Recife na década de 1920. No que talvez tenha se excedido um pouco, embora deva ser considerada oportuna sua homenagem a essa um tanto esquecida publicação na qual, eu próprio, muito jovem, colaborei: um dos meus artigos, sobre a modernidade na arte de Vicente do Rêgo Monteiro. A verdade é que regionalismo e tradicionalismo, de modo assistemático, tem havido, entre nós, desde dias bem mais velhos que os da brava revista dos irmãos Albuquerque e Melo. Um deles, mestre em requinte de arte gráfica. O outro, bom desenhista. Pode-se dizer que, desde a Prosopopeia, há aqui regionalismo e tradicionalismo. A Prosopopeia foi poema já regionalista dentro de um começo de tradição luso-tropical. Gilberto.p65 49 27/05/2010, 16:01 50 GILBERTO FREYRE E que dizer-se de Dom Domingos de Loreto Couto? Dos patriotas de 1817 e sobretudo dos da Confederação do Equador? Do Carapuceiro: de Aquino Fonseca? De Franklin Távora, cearense pernambucanizado? Ou de Carneiro Vilela? Ou de Joaquim Nabuco? Ou do Oliveira Lima de Pernambuco? Ou do Alfredo de Carvalho de Horas de Leitura e outros escritos de cunho regional e tradicional? Ou de Pereira da Costa? Ou de Artur Orlando? Ou de Mario Sete? Ou de Carlos Lyra Filho? O que faltava a essas tendências e às da admirável Revista do Norte era uma sistemática. Uma perspectiva que as projetasse sobre o futuro como esforço decisivo na renovação da cultura. Um aprofundamento de motivos e de abordagens. Um gosto pela tradição e pela região que não repudiasse um pendor para o moderno, para o atual, para a renovação, indo no plano do regional, pioneiramente, no planejamento do futuro da região à base da sua tradição: projetando-se a tradição sobre o futuro. Estes seriam os característicos do movimento regionalista e tradicionalista e, a seu modo, modernista que teria seu início ostensivo no Recife em 1924 e que culminaria no Congresso aqui reunido em 1926 quando seu secretário leu para os convidados a uma das reuniões o que ele considerou essencial e novo nessas características. Pronunciamento que já vinha desde 1923 esboçando em seus artigos e que constituiriam seu manifesto sobre o assunto. Uma ampliação de cuidados por valores regionais e tradicionais que incluísse a culinária, a doçaria, a arquitetura, a jardinagem, os jardins, os brinquedos de crianças, as facas de ponta de Pasmado, as artes de barro e de palha. Aparentes insignificâncias que passaram a ser valorizadas. Diário de Pernambuco Recife, 4 de novembro de 1973 Gilberto.p65 50 27/05/2010, 16:01 REGIONALISMO CRIADOR Uma das incompreensões que limitaram a visão de Samuel Putnam, como historiador e crítico das letras brasileiras, foi com relação ao “regionalismo” vindo do Norte: “regionalismo” que, ao lado do “modernismo” irradiado do Sul, deu à nossa literatura sua atual configuração. Samuel Putnam pensou tratar-se de um movimento regionalista de sentido apenas nordestino. E não de um movimento – como foi o que teve por centro o Recife de 1923 a 1930 – de valorização do critério de região como meio de a cultura brasileira desenvolver-se e avigorar-se em conjunto mas não monoliticamente. Valorização desse critério como meio e não com fim de desenvolvimento cultural. É assim que deve ser compreendido o regionalismo ou o provincianismo que, em sentido aparentemente contrário ao do “modernismo” do Rio e de São Paulo, na verdade completou esse movimento, ao juntar-se uma influência à outra. Pois o próprio regionalismo ou provincianismo do Recife era a seu modo “modernista” e a seu modo universalista. Tanto que por seu intermédio é que várias tendências novas – ou ignoradas ainda no Brasil – de literatura ou filosofia europeia e norteamericana – a renovação chestertostinia da apologética católica, o expressionismo alemão, o antirrenanismo de Psicari, o socialismo de Peguy, o marxismo retificado de Veblen e Geor- Gilberto.p65 51 27/05/2010, 16:01 52 GILBERTO FREYRE ge Sorel, a psicanálise aplicada aos estudos sociais – comunicaram-se no Brasil. Também a “poesia nova” dos Estados Unidos sobre o que existe interessantíssimo documento: carta do poeta Manuel Bandeira a um amigo do Recife fixando suas primeiras impressões daquela “poesia nova”, cujo vigor o surpreendeu e o encantou até o entusiasmo. Agora que nos jornais de província do Brasil já se reconhece, como ainda há pouco, em interessante artigo aparecido num diário de Minas, haver se acentuado, depois de 1930, “uma fértil independência dos intelectuais situados nas capitais dos Estados Unidos e até mesmo dos isolados em cidades e vilas do interior, fazendo nascer o regionalismo literário de onde saíram diversas revistas de literatura e arte”, é justo que se reconheça haver essa condição nova de criatividade literária e artística no Brasil resultado principalmente daquele movimento regionalista: o do Recife de 1923 a 1930. Regionalismo de sentido criador e não caipirista. Nem simplesmente folclórico. Nem amigo apenas do “pitoresco” ou da “cor local”. História nenhuma das letras brasileiras – principalmente do seu passado mais próximo de nós: tão próximo que nos arranhe ou acaricie a própria pele – pode ser hoje traçada sem que se reconheça a força, a repercussão, a influência – influência antes subterrânea que ostensiva – do critério regional de atividade literária, artística, cultural, esboçado pelos “regionalistas” e “provincianistas” do Recife, de 1923 a 1930. Esboçado ou apresentado sob forma experimental naquele período, para logo depois de 1930 rebentar em expressões decisivas. Entre essas, os romances de José Lins do Rego, os contos de Luís Jardim, os estudos de Gonçalves Melo, e a pintura de Cícero Dias da fase recifense. Ou a pintura, hoje plenamente madura, de Lula Cardoso Ayres. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1950 Gilberto.p65 52 27/05/2010, 16:01 PARTE II “O HOMEM SITUADO”: RELAÇÕES CONTEXTUAIS Algumas notas sobre a pintura no Nordeste do Brasil A propósito de pintores e das suas relações com a luz regional Um pintor brasileiro fixado em Paris Lula Cardoso Ayres: sua interpretação do Brasil A arte de Lula Cardoso Ayres: sua base regional Painéis de mestre Lula Um muralista brasileiro Um muralista épico Gilberto.p65 53 27/05/2010, 16:01 Portinari Ouro como cor característica Mestre Portinari e sua Sagrada Família Pintura, Brasil e trópico Arte e civilizações tropicais A propósito de Francisco Brennand, pintor, e do seu modo de ser do trópico Em torno dos experimentos de um artista Revolução no trajo do homem Trajo, trópico e anti-imperialismo A propósito de Brasília Mais uma vez, Brasília Brasília e Lúcio Costa Espírito e não estilo Cícero Dias e seu “nonsense” Gilberto.p65 54 27/05/2010, 16:01 ALGUMAS NOTAS SOBRE A PINTURA NO NORDESTE DO BRASIL Aquele interesse pelas coisas, na razão inversa de sua proximidade que Lafcadio Hearn encontrou na Martinica, encontraria também entre nós. Vem dessa tirania da distância sobre os nossos olhos e sobre a nossa imaginação o não termos ainda produzido um pintor verdadeiramente nosso: a paisagem e a vida do Nordeste brasileiro se acham apenas arranhadas na crosta. Nos seus valores íntimos continuam virgens. É que as tintas capazes de interpretar a paisagem do Nordeste, ora de um ocre todo seu, que exige incisões de traço e até ascetismo de cor e repele carícias de esfuminho e agrados de tintas macias; ora de uma exuberância lubricamente tropical, parecendo querer chupar tintas e cores com a fome de um mata-borrão imenso – não são por certo os entretons corretamente acadêmicos dos velhos gramáticos da Pintura; nem as cores carnavalescamente brilhantes dos “impressionistas” – isto é, daqueles cujo “impressionismo” é preciso farpear de aspas. Mesmo quando a pintura se tem aproximado, no Nordeste, da paisagem regional tem sido para a sacrificar, por um Gilberto.p65 55 27/05/2010, 16:01 56 GILBERTO FREYRE desses processos, à tirania da distância. Tem sido para escrever em mata-borrão como se escrevesse em papel de linho. Já Euclydes da Cunha, a propósito de ser a geografia física do Brasil um “livro ainda inédito”, escrevera: “Alheamo-nos desta terra. Criamos a extravagância de um exílio subjetivo, que dela nos afasta enquanto vagueamos como sonâmbulos pelo seu seio desconhecido”. E mais adiante: “As nossas mesmas descrições naturais recordam artísticos decalques, em que o alpestre da Suíça se mistura, baralhado, ao distendido das “landes”; nada do arremessado impressionador dos itambés a prumo, do aspecto rebrilhante dos cerros de esquartzito, do desordenado estonteador das matas, do dilúvio tranquilo e largamente esparso dos enormes rios, ou do misterioso quase bíblico das chapadas bíblicas...” Na pintura especialmente tem sido assim. Nossos pintores têm vivido alheios à paisagem, que os desorienta sem dúvida pela dessemelhança de cor e de luz da europeia em cujo contato sua técnica se oficializa languemente. E dão ideia de uns como castrati, incapazes de fecundar os ricos assuntos que se oferecem, virgens e nus, tanto aos pintores como aos escritores de tendências pictóricas. Ainda não apareceu pintor com a coragem, as tintas, o ritmo épico, a bravura de traço capazes de interpretar a paisagem do Nordeste, nos seus contrastes de verticalidade – a da palmeira, a do visgueiro, a do mamoeiro – e de volúpias rasteiras – a do cajueiro, a do mangue, a da jitirana. O mesmo se passa com a paisagem amazônica, com a do Brasil Central, com a do Paraná, com a do Vale do Rio Doce. Mas aqui me limitarei a falar da do Nordeste, embora sob o critério de região e de tradição pudesse generalizar e estender a maior parte destes reparos ao conjunto brasileiro de paisagens regionais – quase todas ainda tão virgens de pintores que as revelem quanto o Nordeste. No Nordeste, esperam ainda pintores com a coragem e as tintas para as pintar, rudezas do alto sertão e do “agreste”, violentamente rebeldes ao acadêmico dos mestres convencionais como ao carnavalesco dos contramestres “impressionistas”; todo Gilberto.p65 56 27/05/2010, 16:01 57 PENSAMENTO CRÍTICO esse “mortífero derrame de luz”, descrito por José Américo de Almeida em página vigorosa, e que, além de vertente ocidental de Borborema, “transforma as campinas num cinzeiro”; esses maciços de caatingueiras, salpicadas nos tempos de chuva de vermelhos sensuais que brilham depois, nos primeiros dias de sol, com um escândalo de sangue fresco; salpicadas também de amarelos e de roxos espessos, oleosos, gordos, às vezes dando vida a formas que são meios-termos grotescos entre o vegetal e o humano, verdadeiros plágios da anatomia humana, do sexo de homem e da mulher. Formas no verão alto chupadas pelo sol de todo esse sangue, de toda essa cor, de toda essa espécie de carne; e quase reduzidas aos ossos dos cardos; a relevos duros, ascéticos, angulosos, assexuais. Não haverá, talvez, paisagem tropical como a do Nordeste brasileiro, tão rica de sugestões para o pintor; nem animada de tantos verdes, tantos vermelhos, tantos roxos, tantos amarelos. Tudo isso em tufos, cachos, corólulas, folhas, de recortes os mais bizarros como os cachos vermelhos em que esplende a ibirapitanga ou arde o mandacaru; como as formas heráldicas em que se ouriçam os quipás; como as folhas em que se abrem os mamoeiros; como as flores em que se antecipam os maracujás; como as coroas-de-frade. Coroas-de-frade que, no silêncio de igreja dos meios-dias do “agreste” e do sertão, parecem recordar os frades mártires e os padres heroicos que o Nordeste tem dado ao Brasil. É como se a paisagem tivesse ao mesmo tempo alguma coisa de histórico, de eclesiástico e de cívico; e participasse das tradições da região, associando-se pelas suas formas vegetais aos feitos humanos: aos sacrifícios e aos heroísmos dos homens que a tornaram essencialmente brasileira e católica. Entretanto, da paisagem do Nordeste, só a “mata” achou, até hoje, quem a fixasse com gosto, ainda que com insuficiência; e esse raro pintor brasileiro com o senso regional intensamente especializado foi Jerônimo José Teles Júnior. De Teles Júnior escreveu uma vez Oliveira Lima que não era um artista vagamente brasileiro, mas “um artista essencial- Gilberto.p65 57 27/05/2010, 16:01 58 GILBERTO FREYRE mente pernambucano”; e mais do que isso: “pintor da mata, não o pintor do sertão”. Pintor de uma zona e não de uma região inteira. “A mata – são palavras de Oliveira Lima, escritas em 1905, quando ainda vivia em Pernambuco, quase ignorado, o pintor pernambucano, a quem tive anos depois como meu mestre particular de desenho – a mata com o seu bafejo perfumado, a sua atmosfera de calor úmido, o seu estremecimento de fecundação e a sua pulsação de crescimento, é o que particularmente fascina aquela palheta vibrante.” E ainda: “ele nunca se sente mais à vontade do que refletindo e fixando as ladeiras de barro vermelho sobre o qual rodas de carros de bois deixam sulcos profundos nas porções mais enxutas, entre as poças escuras; as túmidas várzeas de massapê cobertas de canas, tão apertadas as plantas que não têm quase espaço para agitar suas folhas laminadas, de que emergem como penachos as frechas pardacentas; as capoeiras emaranhadas em que a vegetação brota irregularmente, alguma mais viçosa, outra mais vagarosa, toda ela de um tom verde-claro de esperança; mas que tudo, as matas propriamente, com suas árvores linheiras, a procurarem por um natural instinto os raios de sol, erguendo os troncos enlaçados pelos cipós, sobre um chão forrado de folhas secas e limpo de garranchos que não logram medrar na sombra eterna. São estas árvores elegantes e frondentes que Teles Júnior decididamente prefere às árvores menos alteosas, tortuosas e pouco densas da caatinga ou do sertão. Preso à “mata” como se tivesse nascido para a pintar, para fixar os verdes de suas árvores e os vermelhos do seu massapê, Teles Júnior não a interpretou: apenas a fixou. Estava aí sua insuficiência: não ser a sua pintura, de interpretação. O interesse das telas de Teles Júnior está principalmente na documentação que oferecem – documentação exata, quase fotográfica – de uma fase da paisagem nordestina: a da natureza “já assenhoreada pelo homem e defendendo a custo a sua integridade selvagem e as suas opulências florestais”; a da natureza tropical perturbada nas suas últimas volúpias selvagens pelos avanços civilizadores da cana-de-açúcar. Porque em certos trabalhos do pintor pernam- Gilberto.p65 58 27/05/2010, 16:01 59 PENSAMENTO CRÍTICO bucano chegam a branquejar, à distância, casas de engenho; chegam a fumegar ao longe bueiros de banguês. Mas o elemento humano local, animador dessa paisagem de “mata”, Teles sempre o desprezou na sua pintura descritiva. Nos seus quadros – à exceção de um ou outro – a vida de engenho apenas se adivinha de longe, por aqueles sulcos de rodas dos carros de bois no vermelho das ladeiras, observados por Oliveira Lima. Do grosso das pinturas de Teles pode-se dizer que parecem ilustrações para um compêndio de geografia física; e não paisagens para um livro de geografia humana. Os coqueiros existiam mais para ele do que os homens; as mangueiras mais do que as mulheres; os morros mais do que os sobrados; as moitas mais do que os mucambos. Os próprios animais aparecem pouco nos seus quadros. É raro uma pintura de Teles como Domingo no campo: avermelhada por uma briga de galo. Sua cor é o verde. Seu vermelho, o do barro. O elemento de sua predileção é o arvoredo com uma ou outra mancha encarnada ou azul: o massapê, a água dos rios, a água do mar das costas de Pernambuco, uma saia de lavadeira, um xale de negra. Seus quadros mais característicos são aqueles em que aparecem coqueiros; aqueles em que o pintor se delicia em surpreender os efeitos dos ventos de agosto sobre as palmas dos coqueiros velhos das praias do Nordeste; aqueles em que estão retratadas estradas de subúrbios do Recife: Madalena, Remédios, Aflitos, Campo Grande, Caxangá. Quase tudo que é verde regional ele apanhou: desde o verde azulado do alto-mar ao verde doentio dos mangues. Mas as casas, os homens, as barcaças, as jangadas, o interior dos engenhos – isso nunca interessou vivamente a Teles Júnior. Surpreende como uma técnica de produção que era toda um encanto para os olhos – a de fazer açúcar nos banguês ou nos engenhos de almanjarra, contemporâneos da meninice de Pedro Américo e de Teles – tenham sempre escapado ao interesse dos nossos pintores. Só os hóspedes da terra procuraram fixar a beleza ingênua da provinciana indústria animadora da nossa paisagem. Franz Post, principalmente. Dele nos restam, Gilberto.p65 59 27/05/2010, 16:01 60 GILBERTO FREYRE como se sabe, desenhos e pinturas deliciosas, fixando aspectos da vida de engenho do Nordeste. Era então a indústria de fazer açúcar o esforço que hoje nos parece quase brinquedo de meninos grandes, dos engenhos movidos a mão, a roda de água ou a giro de animais. Aos desenhos de Franz Post animam figuras de negros trabalhando no meio daquelas fábricas de aquedutos de pau ou tangendo os carros de bois cheios de cana madura. Nas sua pinturas aparecem casas-grandes; figuras de senhores de engenho; e sob telheiros acachapados, cenas de trabalho caracteristicamente regionais; danças de negros; flagrantes de xangôs, em que se prolongam os gestos de semear, de colher, de plantar cana. A técnica da produção do açúcar oferece, com efeito, elementos para uma pintura tão nossa que é verdadeiramente espantoso o fato de sempre lhe terem sido indiferentes os pintores da terra; espantoso que Post – um estrangeiro – tenha sido o maior, quase o único pintor do trabalho e da dança do trabalhador nos canaviais e nos engenhos do Nordeste. A plástica da mineração e da tecelagem, que o grande pintor que é Diego Rivera vai interpretando no México com uma nota épica nessa interpretação, não é por certo mais poética nem mais rica em sugestão de beleza – beleza viva, forte, masculina e até mesmo (pode-se dizer fazendo paradoxo) “feia e forte” – que a plástica da indústria do açúcar, do trabalho nos engenhos tradicionais do Nordeste; e hoje nas usinas – embora estas reduzam ao mínimo o elemento humano, a cor humana, local ou regional, o ritmo tradicional, brasileiro, afro-brasileiro, do braço operário. Já o francês Tollenare, visitando, em 1816, um engenho pernambucano de roda de água, observava nos escravos africanos e afro-brasileiros que deitavam canas na boca das moendas a elegância de movimentos. Os que conhecemos o processo de fabrico de açúcar nos banguês, sabemos como se sucedem em verdadeiro ritmo os efeitos plásticos do trabalho de fazer açúcar à maneira tradicional da região. Não é só a entrega de cana à boca da moenda. Há ainda as figuras pretas, pardas ou ama- Gilberto.p65 60 27/05/2010, 16:01 61 PENSAMENTO CRÍTICO relas de homens que se debruçam sobre os tachos de cobre onde se coze o mel para o agitar com as enormes colheres e para o baldear com as gingas; e ante as fornalhas onde arde a lenha, para avivar o fogo; e esses corpos meios nus em movimento, oleosos de suar, se avermelham à luz das fornalhas; e assumem, na tensão de algumas atitudes, relevos de estátuas de carne. Parecem de bronze. Há em tudo isso sugestões fortes não só para a escultura monumental como para a pintura. Imagino às vezes os flagrantes mais característicos do trabalho de engenho fixados em largas pinturas murais, num palácio, num edifício público. Isto é que seria pintura verdadeiramente brasileira pelo seu sentido humano e social; e não os quadros patrióticos, convencionais, cívicos, artificiosos, que ornam as paredes das sedes estaduais ou municipais de governo entre nós. Quadros que são vãs tentativas de ensinar história moral e civismo aos meninos brasileiros. A civilização brasileira de produtores de açúcar e de trabalhadores de engenho já devia ter encontrado sua expressão na pintura; e a decoração mural dos edifícios públicos deveria ser a primeira a fazer sentir à criança, ao adolescente, ao estrangeiro, à gente do povo, o esforço humano, a vitória portuguesa e depois brasileira sobre a natureza dos trópicos. A luta, a dor, a alegria que essa civilização condensa. Imagino uma decoração mural de proporções épicas que nos recordasse os quatrocentos anos de produção de açúcar: desde a fase primitiva, com escravos criminosos atados a corrente à boca das fornalhas incandescentes e senhores de engenhos de barbas ainda medievais, até as usinas de hoje, grandiosas e formidáveis, máquinas monstruosas, claridades de luz elétrica, maravilhas de técnica. Numa como que vingança de técnica do homem contra a natureza, nas usinas são as máquinas que imitam o vegetal, o animal, o humano; que tomam o lugar dos negros, outrora “mãos e pés do senhor de engenho”, na fase célebre do cronista. Todo um mundo de cambiteiros, de banqueiros, de negros de fornalha, de metedores de cana, de mestres de açúcar – Gilberto.p65 61 27/05/2010, 16:01 62 GILBERTO FREYRE recordaria aquela pintura mural ao fixar o passado da economia açucareira do Nordeste, contrastando depois esse esforço humano com a vitória das máquinas modernas. Todo um mundo de homens brancos e de cor e também de animais – bois, bestas, cavalos. Os animais que a indústria do açúcar fez sofrer ao lado dos negros e dos brancos. Já deveríamos, na verdade, ter passado a idade passivamente colonial de decorar edifícios públicos com as figuras das quatro estações do ano que não representam aspectos da nossa vida nem regional nem mesmo brasileira; com os Mercúrios; com os eternos leões felpudos e as eternas moças cor-de-rosa e de barrete frígido – convenções tão distantes da realidade da nossa história social, da realidade da nossa flora, da realidade da nossa etnologia. É verdadeiramente curioso ter sido preciso haver uma guerra no Paraguai para o Nordeste do Brasil produzir um pintor: Pedro Américo. Entretanto não faltava no Nordeste onde se exercessem o gosto épico e a eloquência de animador de conjuntos de Pedro Américo, contemporâneo ainda da escravidão. Ele precisou do estímulo de uma luta internacional ou entre Estados – ou antes, entre o Brasil e um caudilho da América do Sul – para pintar quadros eloquentes. Seus olhos não se impressionaram com outras lutas. Com as lutas que o pintor viu desde menino na sua própria terra: do homem com a natureza; de escravos contra senhores. Pedra Bonita, Palmares, a Guerra dos Cabanos, o Quebra-Quilos, a Revolta Praieira, 1817, 1824 – nada disso teve repercussão sobre a sensibilidade de Pedro Américo. Quase o mesmo pode dizer-se de Vitor Meireles, autor de um quadro famoso, A Batalha dos Guararapes, ligado não só pelo assunto como pelo material em que o pintor se baseou, às tradições do Nordeste. Em 1709 mandara a Câmara de Olinda pintar três grandes painéis sobre madeira, para decoração do Paço Municipal: painéis representando a Batalha de Tabocas e as duas dos Guararapes para – diz a resolução oficial daquele ano – “notícia dos que nascerem nos vindouros séculos [...] Gilberto.p65 62 27/05/2010, 16:01 63 PENSAMENTO CRÍTICO tendo para maior honra, louvor e glória de Deus e nossa, Amém”. Esses painéis foram efetivamente pintados e, segundo o cronista Pereira da Costa – em notas mss. – confiados pela Câmara de Olinda a Vitor Meireles para estudos necessários à pintura de sua tela. E foram tão úteis – os painéis – àquele pintor de telas patrióticas, que em ofício de 26 de março de 1874, dirigido à Presidência da Província, Meireles confessava: “de nenhum merecimento artístico são aquelas pinturas; entretanto se atendermos à sua antiguidade que se lê da respectiva explicação com a data de 1709 e aos costumes ali pintados, que me parecem ser reproduzidos com alguma fidelidade, tornam-se por isso não só dignas de apreço como também de utilidade para o trabalho de que me acho comissionado pelo Governo Imperial”. Do mesmo sabor dos painéis da Câmara de Olinda, um tanto arbitrariamente classificados pelo pintor Meireles – nisso bem do seu meio e da sua época, o Rio de Janeiro convencional e como que vitoriano do tempo de Dom Pedro II – como quadros “sem nenhum merecimento artístico”, são os painéis interessantíssimos do forro da Igreja da Conceição dos Militares, do Recife; e os da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres e da Matriz de Iguaraçu. O primeiro representando a Batalha dos Guararapes e mandado pintar pelo governador José César de Meneses em 1781; os de Prazeres, representando as duas batalhas luso-brasileiras contra holandeses, a de 1648 e a de 1649; os de Iguaraçu – onde também foram pintados quadros e painéis sobre assuntos piedosos, principalmente franciscanos – relativos a episódios da história local. Dos painéis da Conceição dos Militares – que podem ser hoje admirados nessa igreja – foi autor, artista da terra, a quem em 1863 – lembra Pereira da Costa – Muniz Tavares, em discurso, referiu-se nestes termos: “O pincel não é de Rafael, de Urbino nem de Correggio, foi porém de um artista pernambucano, patrioticamente inspirado...” Pintores de assuntos piedosos, houve vários no Recife, no século XVIII e desde os fins do XVII, após a Restauração: um destes, Aristides Tebano, que pintou vários quadros na primei- Gilberto.p65 63 27/05/2010, 16:01 64 GILBERTO FREYRE ra Igreja do Livramento em 1695. Do século XVIII, é João de Deus Sepúlveda, autor – dizem os historiadores – das pinturas no forro da nave da Igreja de São Pedro do Recife; mas não – acrescentam – dos quadro do altar-mor: obra de Francisco Bezerra. Do mesmo século é Luis Alves Pinto, que pintou o forro do coro da mesma igreja. E do século XIX: Sebastião Canuto da Silva Tavares, que informam os historiadores ter pintado os painéis das igrejas de Madre de Deus, Santo Antônia, Santa Rita, Convento de São Francisco do Recife, Recolhimento de Iguaraçu. E ainda: Arsênio Fortunato da Silva. Não está rigorosamente determinado é quem tenha sido o preto “muito orgulhoso de seus dotes”, a quem o inglês Koster, escrevendo no começo do século XIX, chamou “o mais afamado pintor de igreja de Pernambuco”. Recentes pesquisas de mestre Gonçalves de Melo vêm esclarecendo muito fato interessante, ligado às artes, em geral, à pintura, em particular, no Nordeste. Pintores de anjos, de santos, de Nossas Senhoras, não nos faltaram, na era colonial e durante o Império, embora nenhum deles tenha sido homem de gênio. Pintores de fidalgos e bispos, de mestres-de-campo e de patriotas, houve alguns. Mas não há evidências nem mesmo memória de um pintor português ou luso-brasileiro dedicado, nesta ou noutra parte do Brasil, à pintura descritiva – e não apenas alegórica – do indígena, do negro, do escravo, do mulato, do caboclo, da gente do povo. Esta quase só aparece em nossa velha pintura regional como soldado, como miliciano, como henrique, nos painéis patrióticos; ou em quadros de ex-votos ou de milagres de santos. Quando a verdade é que o Nordeste da escravidão foi um luxo de matéria plástica que a pintura brasileira não soube aproveitar. Matéria plástica não só lírica como dramática. E não apenas anedótica e ostensivamente sentimental. Logo o desembarque das massas de africanos, que às vezes chegavam aqui podres de pústulas, escorrendo sangue, manando pus, restos de homens grotescamente reduzidos a cabeças bambas de bonecos dizendo sim, a ventres inchados sobre mulambos de pernas – logo o desembarque dos escravos acompanhados Gilberto.p65 64 27/05/2010, 16:01 65 PENSAMENTO CRÍTICO dos “conhecimentos” para os caixeiros verificarem a mercadoria, era alguma coisa de horrivelmente pitoresco. Alguma coisa com um ar estranho de dança macabra que se prestava a pinturas ainda mais dramáticas que as de batalhas e de revoluções. Oliveira Martins recorda, em página célebre, o que era os negros ao desembarcarem: “à luz claro do sol dos Trópicos aparecia uma coluna de esqueletos cheios de pústulas com o ventre protuberante, as rótulas chagadas, a pele rasgada, comidos de bichos, com o ar parvo, esgazeado e idiota”. Mas pintor nenhum no Brasil dos tempos coloniais ou do Império sentiu a dramaticidade dessas cenas ou soube pintálas. Limitavam-se todos a pintar santos e figuras de anjos no teto ou nas paredes das igrejas; Nossas Senhoras; retratos de capitães-mores e depois barões, viscondes, bispos, uma vez por outra contra sugestivos fundos ou cenários regionais. Material, todo esse, sem dúvida, de interesse para a reconstrução e a interpretação do passado brasileiro, em geral, e do da região, em particular. Mas é para lamentar que o material mais dramático, mais cheio de interesse humano e de significação social, tenha sido desprezado pelos artistas mais antigos do Nordeste. Por outro lado, é em pinturas ingênuas de ex-votos nas igrejas, em quadros pintados para registrar milagres de Nossa Senhora ou dos santos – e não nos pintores mais ilustres – que vamos encontrar sugestões da vida cotidiana da região no que ela oferecia de mais característico: o trajo, o vasilhame doméstico, o mobiliário, a cor da gente mestiça, as cores folclóricas predominantes no trajo e na decoração das casas. Os mercados de negros deviam ser um vivo pitoresco ao lado de revelações de forte beleza humana: a beleza que resistia em homens, em mulheres, em adolescentes, em crianças, aos maus-tratos das viagens. Porque entre os negros esverdeados pelas potemas, moleques acinzentados pelas doenças, pretos alongados pela fome em figuras de El Greco, exibiam-se belos adolescentes cheios de viço, negras ainda moças, fêmeas de peitos e nádegas arredondadas, molecas de formas sedutoras ou simplesmente saudáveis – todos deixando-se passivamente apalpar Gilberto.p65 65 27/05/2010, 16:01 66 GILBERTO FREYRE pelos compradores; moles às suas exigências; saltando, tossindo, rindo, escancarando as dentaduras às vezes magníficas; mostrando a língua; estendendo o pulso. Tudo isso como se fossem bonecos, desses que guincham e sacodem os braços ao menor aperto dos dedos de um menino. Havia moleques de tórax mais franzino, que se davam de “quebra” aos compradores de “lotes”; havia – como os anúncios de jornais indicam – pretos raquíticos de pernas cambadas, cabeças achatadas e peito de pombo; havia doentes. Mas não devia ser pequeno o número de negros sãos e de formas eugênicas, dos quais um bom pintor teria feito quadros de conjunto magníficos. Enquanto um pintor igualmente bom mas com pendor para fixar o patológico teria pintado quadros impressionantes de magotes de negros doentes, maltratados, supliciados. O olhar fino e um tanto lúbrico de Tollenare pousou sobre os mercados de escravos do Recife com uma certa volúpia, ainda que no bom do negociante francês existisse a indignação moral contra o comércio humano. E ele assim nos descreve um mercado de pretos na velha capital de Pernambuco: “Grupos de negros de todas as idades e de todos os sexos, vestidos de uma simples tanga acham-se expostos à venda diante dos armazéns. Estes desgraçados estão acocorados no chão e mastigam com indiferença pedaços de cana que lhes dão os compatriotas cativos que encontram aqui. Grande número dentre eles padece de moléstias da pele e está coberto de pústulas. [...] As raparigas conservam os contornos graciosos da adolescência: a cor preta em pouco prejudica o encanto das suas gargantas de Hebe e dos seus seios; aos seus olhos não falece uma certa expressão voluptuosa e traduzem com ingênua timidez o desejo de serem compradas por quem as observa com mais interesse.” Descrição ótima. É pena que o francês Tollenare não fosse pintor: com o seu poder de interpretação psicológica nos teria deixado quadros de um interesse humano considerável e até de algum vigor dramático; e não simplesmente flagrantes de pitoresco colonial. Pintores de formação francesa desgarrados ou fixados no Nordeste foram Vauthier, Lassailly, Berard; os filhos de francês Gilberto.p65 66 27/05/2010, 16:01 67 PENSAMENTO CRÍTICO Mavignier e Gadault. Todos do século XIX: do meado e do fim. Mas quase não pintaram senão retratos de gente ilustre, embora Vauthier tivesse bem agudo o sentido da paisagem regional e dele – de Louis Léger, não de Pierre – devam existir alguns flagrantes artísticos de natureza pernambucana ao lado dos seus desenhos técnicos de casas e pontes que apodrecem nos arquivos oficiais de Pernambuco. Quanto a Gadault, discípulo na Europa de Léon Coinet, seu entusiasmo era pela pintura de igreja: pintou um Jesus e a Samaritana para a Matriz da Boa Vista; pintou uma Morte de Abel; pintou um Beijo de Judas. Mas pintou também um pôr de sol pernambucano. De estrangeiros, o pintor que se apresenta com maior interesse regional é, depois de Post, Lassailly, que andou fixando muito trecho característico da paisagem pernambucana no século XIX: Olinda, a Várzea, o Beberibe. Mas sem se aventurar nunca à pintura dos tipos regionais, das mulatas do Recife, dos negros, dos escravos. Quanto ao espanhol Manoel Pelaez, diplomado – segundo documento oficial – pela Escola de Belas Artes de Madri e que no fim do século XIX deu aulas de desenho e pintura na Repartição de Obras Públicas de Pernambuco, parece que sua ação foi principalmente didática. Nem fez obra de criação ou interpretação, nem se interessou pelos negros, pelos caboclos e por outros tipos regionais. Entretanto, os negros no Recife de outrora estavam em toda a parte. E é esse Recife de outrora, cheio de negros, de pretasminas, de mulatas, que não teve infelizmente pintores. Nem nos séculos coloniais nem no século imperial. Cheio de negros e de mulatos só, não: cheio também de procissões e de festas de igreja; de frades esmoleiros e de soldados; de irmãos das almas e de sinhazinhas brancas a caminho da missa. A pintura, mesmo a simplesmente descritiva, ou a ingenuamente anedótica, deixou essa riqueza de vida e de cor quase sem registro. Gilberto.p65 67 27/05/2010, 16:01 68 GILBERTO FREYRE Ficaram quase sem registro aquelas mucamas enfeitadas de laços de fitas e de estrelas-marinhas de prata que davam certa pompa oriental às ruas do Recife dos tempos coloniais; aquelas pretalhonas com tabuleiros de arroz-doce, de cabeções picados de renda e reluzindo de miçangas, esplendendo de vermelhões, cheias de ar místico que hoje as rainhas de maracatu caricaturam pelo carnaval; os minas carregadores de palaquim; as negras vendedeiras de caju e de mangas; os haúças enormes, quase gigantes, com o corpo coberto de tatuagens; os pretos carregadores de fardos, de caixas e dos clássicos “tigres” (que às vezes largavam a tampa, emporcalhando-lhes a nudez oleosamente suada). Toda uma multidão que passa pelos livros de viagens – infelizmente bem menos ricos de ilustrações sobre a vida e a gente do Nordeste da última fase colonial que os álbuns sobre o Rio de Janeiro e do Brasil das fazendas de café; que passa principalmente pelos anúncios com descrições tão meticulosas de negros fugidos que, ainda hoje, por meio deles, um pintor de imaginação e de cultura histórica poderia reconstruir cenas inteiras e tipos completos, em quadros que seriam arte e ao mesmo tempo bom material antropológico e histórico. Por meio deles e por meio das descrições de viajantes. A Maria Graham, senhora inglesa que esteve no Recife em 1821 e a quem não faltava queda para o desenho, encantaram as raparigas de cor que viu de cestos de frutas à cabeça e xales azuisclaros atirados sobre os ombros. Henderson admirou a plástica dos negros remadores do Capibaribe. E Tollerane fixou como nenhum outro viajante da primeira metade do século XIX – sem esquecer Koster – os encantos de corpo e as graças de movimentos das negras e mestiças de engenhos do Nordeste. Notou-lhes de feio a flacidez dos seios; seios caídos, moles, às vezes murchos. Porém um feio, esse, que as raparigas disfarçavam com certa arte, servindo-se de pano azul ou vermelho. “Apertam-se abaixo das axilas – escreve o francês – com pedaços de pano azul ou vermelho que lhes desenham bem o talhe e os rins e fazem um grande nó que oculta a deformidade que acabo de assinalar.” E dos movimentos do corpo das negras Gilberto.p65 68 27/05/2010, 16:01 69 PENSAMENTO CRÍTICO observa: “são todos suaves e cheios de graça; não há um só que um artista ou uma dançarina possa desdenhar”. A comistão de sangue vem produzindo no Nordeste efeitos os mais diversos e interessantes, tanto de forma como de cor, sem que a pintura da terra, eternamente colonial no sentido parasitário de viver da Europa, dos motivos europeus, das convenções greco-romanas, se aperceba de alguns, pelo menos, dos encantos regionais mais vivos, de figura ou forma humana. A pintura da terra continua a procurar para os seus nus, seguindo o exemplo dos Amoedos e dos Antônios Parreiras, a convencional nudez cor-de-rosa dos modelos europeus. Mulheres brancas, louras, ruivas até. Desprezamos a prata – ou antes o ouro – de casa. Nenhum pintor moderno se dedica, no Nordeste, a pintar mulatas, caboclas, negras. Dos mestres da segunda metade do século XIX apenas Aurélio de Figueiredo – que esteve por algum tempo no Recife, onde deu lições de pintura a Teles Júnior – saiu-se um dia dos seus cuidados de alegorista e deixou os motivos ilustres de sua arte – Estrela-d’alva, Lavoura, Comércio, Duas noivas – para pintar A mameluca: uma mestiça espreguiçada na sua rede. Nem ao menos coleção fotográfica dos nossos tipos cruzados, dessas que se vendem em cartões postais em Martinica e em Guadalupe – capresses, chabines, quadroons, octoroons – possuímos ou procuramos organizar. Que eu conheça, as únicas tentativas nesse sentido são as de Ulisses Freyre, em excursões regionalistas e tradicionalistas que temos realizado juntos, aos domingos, pelo Recife ou pelas praias e pelo interior de Pernambuco, parando nos engenhos, nas feiras, nos lugarejos mais característicos da região. Entretanto a quadraruna do Nordeste, a octoruna, a mulata, a cabocla, tão decantadas nas trovas pelo requeime de sua carne e pela graça de suas formas, já poderia ter produzido, na pintura, alguma coisa como a Maja desnuda dos espanhóis. Essa Maja desnuda que é a sublimação do afrodisismo peninsular. Gilberto.p65 69 27/05/2010, 16:01 70 GILBERTO FREYRE Restam-nos – é certo – do tempo dos holandeses, não dois ou três, mas vários retratos, acabados ou em borrão, de tipos índios, negros e mestiços que aqui se depararam à volúpia do exótico dos pintores europeus trazidos ao Brasil pelo conde Maurício de Nassau. Retratos, alguns deles, em tamanho natural, referindo-se, é claro, ao século XVII. Alguns são de A. Eckhout; outros não trazem assinatura, como o quadro da dança, no Museu Etnográfico de Copenhague, que representa oito homens executando uma dança de guerra, todos de flecha e maça. “Duas mulheres revestidas [...] de cinturas de folhas estão colocadas à direita, debaixo de uma árvore, enlaçadas e tapando os narizes”, informa Paul Ehrenreich, no seu Sobre alguns antigos retratos de índios americanos, publicado em tradução portuguesa pela Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, no seu nº 65. Em Copenhague há também, segundo o mesmo Paul Ehrenreich, dois retratos de negros brasileiros; e no Zoobiblion, “representações de uma dança de negros, de um mercado de escravos em Pernambuco e de uma aldeia de brasilienses (tupis)”. São talvez trabalhos do pintor Zacharias Wagner. Trabalhos encomendados por Nassau. Os cronistas referem que em 1679, no dia 22 de agosto, o rei Luís XIV da França visitou no Louvre os quadros de assuntos brasileiros – rigorosamente, do Nordeste do Brasil – que o conde Maurício de Nassau lhe oferecera. Oferecera propriamente, não, pois há do sagacíssimo conde germânico – cuja figura está para sempre ligada à história das ciências e das artes no Novo Mundo – uma carta ao ministro do rei da França, em que insinua recompensas: “Avisam-me, e Vossa Excelência terá sem dúvida ouvido dizer, que o rei quer fazer a mercê das Índias que eu tomei a liberdade de oferecer a Sua Majestade.” Dessas “raridades das Índias”, constavam quadros de tipos mestiços ou indígenas do Nordeste dos quais se encontra relação minuciosa, publicada pela Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, no seu nº 33. Já não estão elas no Louvre, porém dispersas. Sabe-se, por uma carta do próprio Nassau ao marquês de Pompone, que os quadros representavam “todo o Brasil por meio de figuras, a saber: a nação e os Gilberto.p65 70 27/05/2010, 16:01 71 PENSAMENTO CRÍTICO habitantes do país, os quadrúpedes, os pássaros, os peixes, frutas, plantas, tudo de tamanho natural, bem como a situação do dito país, cidade e fortalezas com os quais retratos se pode formar uma galeria, o que seria uma cousa mui rara, que se não encontra no mundo, pois eu tive ao meu serviço durante o tempo que vivi no Brasil seis pintores, cada um dos quais pintava aquilo para que era mais apto; e se um curioso vir essa tapeçaria, não terá necessidade de atravessar os mares para contemplar o belo de quarenta quadros os quais poderão servir de modelo para uma tapeçaria”. Convém referir as ilustrações de Franz Post, orlando mapas, no livro de Barlaeus; e os estudos de tipos regionais do Brasil Norte-Oriental que ilustram a obra científica História Natullis Brasiliae. Porque Post não se limitou a pintar cenas do Nordeste, em quadros: foi um ilustrador copioso de livros. Trabalhos, todos esses, de hóspedes do assunto tanto quanto o foram da terra; e não é curioso que depois deles, só na década de 1920-1930, pintores do Norte, jovens pintores, começaram a voltar ao assunto? Em Fédora do Rêgo Monteiro, em Carlos Chambelland e Vicente do Rêgo Monteiro vamos encontrar tipos regionais de negros, de caboclos e de mestiços aproveitados com autêntico interesse artístico, em pintores que marcam o início, no Nordeste, de um bom regionalismo na arte brasileira, marcado também pelas estilizações de caju, por Joaquim Cardozo e de folhas de mamoeiro, por Joaquim do Rêgo Monteiro; e pelos admiráveis desenhos de 1925 de Manoel Bandeira. Mais feliz com os pintores do que o Brasil foi, antes dessa renovação e da paulista – que culminaria em Portinari –, o México. Mas não só o México: o Uruguai, também, com o seu Figari. Só depois de Portinari e do de Rivera: com um trabalho igual de interpretação nacional ou regional da vida e da gente brasileira. Interpretação, destaque-se bem: e não simples descrição etnográfica ou anedótica. Nem ao menos o Ceará, “terra predestinada à arte pela dor”, segundo Tristão de Ataíde, e a região onde o Brasil mais se aparenta à Rússia dolorosa dos romances, achou – antes dos mexicanos – expressão plástica para o intenso de sua vida e de Gilberto.p65 71 27/05/2010, 16:01 72 GILBERTO FREYRE sua paisagem. Nem ao menos alguma coisa de parecida às fotografias com que a Red Cross faz a réclame dos horrores das fomes na Armênia tem resultado das grandes secas cearenses. Só depois daquela década – 1920-1930 – alguns pintores mais jovens começaram a se apresentar, no Brasil, animados por um ritmo novo de imaginação; libertos da sentimentalidade convencionalmente romântica e também dos abafos de técnica acadêmica; o poder criador em livre e vibrátil tensão; meio revoltados contra a pintura simplesmente anedótica ou cenográfica. E procurando os assuntos brasileiros. Os regionais. Os locais. Não os evitando como outrora – quando só por desfastio um Aurélio de Figueiredo deixava suas figuras alegóricas para pintar uma autêntica mameluca estendida na sua rede do Ceará; e Arsênio da Silva – pintor que teve grande voga no fim do século XIX – abandonava os assuntos piedosos para fixar, em tela que ficou célebre, a cachoeira de Paulo Afonso. Isto sem nos esquecermos do paulista Almeida, no Sul, e Teles Júnior, no Norte. Com esse grupo jovem de pintores, o Nordeste já deixou de ser como o Portugal de Antônio Nobre: um país onde não se sabe “que é dos pintores que não vêm pintar”. Vem surgindo uma pintura de interpretação da vida e da paisagem do Nordeste, ao lado de outra, de romancistas e de poetas. Pintores com o sentido telúrico da sua arte vêm versando assuntos regionais, sem perderem o sentido brasileiro e universal das coisas, dos fatos, das pessoas: das relações entre as pessoas; sem resvalarem para o caipirismo ou para o separatismo literário ou artístico. Nem para o patriótico, anedótico, o apologético – perigos a evitar nessa fase nova de abrasileiramento da nossa arte e da nossa literatura. Num país exageradamente sensível ao prestígio como que místico do exótico e do distante como o Brasil, é preciso excitar o entusiasmo criador dos artistas novos em torno das nossas próprias coisas. No que não haverá diminuição para os mesmos artistas, mas intensificação de sua personalidade artística, do seu poder, de sua força. Gilberto.p65 72 27/05/2010, 16:01 73 PENSAMENTO CRÍTICO Ninguém, por certo, menos regionalista, no sentido sistemático ou de escola, do que o grande pensador católico dos nossos dias que é Jacques Maritain, a quem se deve a atualização da filosofia estética de São Tomás. Católico nos dois sentidos da palavra: no religioso e no outro. Pois é no professor Maritain, universalista dos mais puros, que muito claramente se lê que a arte “par son sujet et par ses racines [...] est d’un temps et d’un pays,” 4 E ainda: “Voilà pourquoi dans l’histoire des peuples libres les époques de cosmopolitisme sont des époques d’abâtardissement intellectuel. Les oeuvres les plus universelles et les plus humaines sont celles qui portent les plus franchement la marque de leur patrie”5 . E é de Maritianesta citação da Maurras: “l’attique est plus universel à proportion qu’il est plus sévèrement athénien.” 6 É o que modernamente se observa num romancista como Thomas Hardy: ninguém mais inglês nos assuntos e nas raízes. Seus romances não parecem somente trazer o selo inglês, porém, mais claro ainda, estampado sobre o selo, o carimbo de Wessex, com a data. Entretanto esse romancista tão regional e tão do seu tempo é o autor da obra de ficção mais universalmente humana que a Inglaterra produziu neste último meio século. Não há perigo nas tendências regionais que se vêm desenvolvendo nos jovens pintores do Nordeste. Ou nos seus novos romancistas, poetas, escritores: alguns deles com alguma coisa de pintores no seu modo de ser escritores e de interpretarem as formas e as cores do Homem situado nesta parte tropical do mundo. Vida, forma e cor Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 4. Por seu assunto e por suas raízes [...] é de um tempo e de um país. 5. Eis porque na história dos povos livres as épocas de cosmopolitismo são épocas de bastardia intelectual. As obras mais universais e as mais humanas são aquelas que carregam mais francamente a marca de sua pátria. 6. O ático é mais universal em proporção que ele é mais severamente ateniense. Gilberto.p65 73 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 74 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE PINTORES E DAS SUAS RELAÇÕES COM A LUZ REGIONAL O Brasil está com alguns pintores novos – uns mais, outros menos novos – que não são nem acadêmicos no mau sentido nem puros improvisadores; e sim artistas honestamente experimentais que procuram realizar-se, e realizar seus projetos de arte “diferente” através de esforços sistemáticos de pesquisa. O que os torna merecedores de um particularíssimo apreço da parte dos que desconfiam dos puros improvisos e estimam a arte em que se junte à espontaneidade o estudo. Pois em arte nenhuma isso de improvisação simples e absoluta resulta noutra coisa senão em sucessos fáceis e transitórios. Não está na improvisação o corretivo ao mau academismo. Ainda há pouco, em inteligente artigo, o crítico Willy Lewin recordava, a respeito do assunto, opiniões do grande pensador inglês moderno que foi Whitehead. Inclusive sua própria confissão de ter escrito um livro, aparentemente obra de improviso, como resultado de muitos anos de luta com o assunto: luta dissimulada, mas luta. Outra coisa não é a pesquisa, quer científica, quer artística, quando cientista e artista são homens de alguma imaginação Gilberto.p65 75 27/05/2010, 16:01 76 GILBERTO FREYRE criadora. Sem essa imaginação, é que estudo, experimento, experiência passam a ser apenas exercícios aridamente acadêmicos, ou técnicos; e infecundos. A imaginação criadora aplicada à pesquisa explica os triunfos obtidos, no plano mais alto da criatividade, por um Picasso; e no mesmo plano, ou em planos mais modestos, por vários dos mais significativos artistas não só do nosso tempo como de outras épocas. E magnificamente por Da Vinci. Daí só podermos nos regozijar com o fato de ter o Brasil de hoje tanto na pintura como noutras artes – na literatura, no teatro, na arquitetura – centros em que a pesquisa vem, não matando a espontaneidade, mas sobrepondo-se à pura improvisação. Vários são os pintores mais caracteristicamente brasileiros que se destacam, ou começam a destacar-se, por essa orientação de trabalho. De mestre Mário Pedrosa é um recente artigo no Jornal do Brasil em que cavalheirescamente pretende defender outro mestre – Cândido Portinari – do que considera injustiça da minha parte contra o grande pintor brasileiro. Mas essa suposta defesa, escreveu-a Pedrosa turvado pela emoção. Daí talvez o artigo, prejudicado por numerosas incorreções, que intitulou de Sociólogos versus pintores. Em primeiro lugar, não é exato ter eu, quando moço, iniciado um “movimento literário” no Recife que tenha sido um movimento “tradicionalista” ao mesmo tempo que antimoderno. Ao chegar, em ano já remoto, ao Recife, não dos Estados Unidos, como afirma o brilhante mas impreciso Pedrosa, mas da Europa, a orientação que procurei opor aos “ismos” então em voga em nosso país foi a de valorizar ao mesmo tempo estes aparentes contrários: região, tradição e modernidade. Quanto à primazia que se pretende para o Recife em assuntos de pintura moderna no Brasil, não é – como supõe o ainda inexato Pedrosa – a de ter o Recife sugerido apenas “assuntos brasileiros” aos jovens pintores brasileiros mas muito mais do que isto: a modernização de técnicas da apresentação de tais assuntos. A substituição de quadros por murais. Gilberto.p65 76 27/05/2010, 16:01 77 PENSAMENTO CRÍTICO Não se diz que o pintor Portinari não tenha sido, como pintor, o iniciador do que o ilustre esteta que é mestre Pedrosa chama de “muralismo moderno brasileiro”. O que se afirma é ter partido do Recife a sugestão no sentido de iniciar-se no Brasil, com assuntos brasileiros, tratados com amplitude social e dando-se relevo ao homem de trabalho – inclusive o mestiço – essa espécie de muralismo. Primazia já reconhecida por um historiador e crítico de arte que se esmera em coar e peneirar os fatos antes de generalizar sobre eles: o professor Robert Smith. Outro ponto ferido com a incorreção pelo distinto esteta paraibano é o problema, levantado não por mim, mas pelo eminente sociólogo francês, Professor Roger Bastide, de vir sendo o Sul do Brasil uma região apenas “conservadora”. Generalização que me parece precária. Daí já ter eu lembrado renovadores brasileiros da pintura que têm sido homens do Norte e do Nordeste como Emílio Cardoso Ayres, os irmãos Rêgo Monteiro, Luís Jardim, Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres, Francisco Brennand, Aloísio Magalhães. Continuo a pensar assim e a insistir no fato de que esses renovadores têm realizado obras notáveis de renovação, menos por influência do Rio e de São Paulo, sobre eles, que pelo seu contato direto com a Europa e com os Estados Unidos: contato através do Recife. O caso das relações de Picasso com Cícero Dias, por um lado, e por outro, com Cândido Portinari, é assunto delicado. Sei que a preferência de Picasso por Cícero Dias é um fato que o ilustre esteta não deve pôr em dúvida. Mas não desejo nem devo insistir neste ponto. Se a ele aludi, foi para dar relevo ao que há de grave na omissão de um nome como o de Cícero Dias numa obra como a de mestre Roger Bastide. Quanto às palavras um tanto rudes, do distinto esteta paraibano radicado há anos no Rio, referindo-se ao mestre francês – “uma vez que o sociólogo se meteu a falar de nossa pintura e a interpretála, etc” – mostram que o ilustre Pedrosa continua a ser intelectual estritamente sectário, para quem certos assuntos só podem ser Gilberto.p65 77 27/05/2010, 16:01 78 GILBERTO FREYRE versados pelos membros de um seita de requintados no trato dos mesmos assuntos. Daí ignorar haver uma sociologia da arte que permite a um sociólogo da categoria de Roger Bastide tratar, como sociólogo, de pintura e de pintores, sem ser um metediço ou um intrometido numa especialidade que só como especialidade requintadamente estética pertence apenas aos estetas. Ou somente aos críticos de arte. Recebi um dia desses de São Paulo um retalho de jornal com interessante artigo do sempre mestre S. M.: desta vez pedagogicamente indignado com certa opinião de outro mestre – Cícero Dias – acerca das relações entre pintura e luz: luz regional. E também ao pobre de mim atribui o mestre paulista afirmações sobre o assunto que, se o eminente crítico de arte e de letras se desse ao trabalho de examinar de perto, seria obrigado a concluir que não são de modo algum afirmações mas sugestões: algumas até sob a humilde embora inquieta forma de perguntas. E parece que pelas convenções ainda em vigor o bom e velho ponto de interrogação continua a exprimir dúvida, curiosidade, indagação. E quem indaga não “endossa”. Não afirma. Não pontifica. Quem interroga busca, procura, investiga. Para mestre S. M. não há relação absoluta entre “regiões ensolaradas” e “pintura luminosa”. E creio que tem inteira razão neste ponto. Aliás, todos os meus desajeitados escritos sobre assuntos de relação entre natureza e cultura, entre meio físico e dinâmica cultural, trazem a marca de antigo repúdio, em mim confirmado por algum estudo de campo desde os dias de moço e não apenas por indagações de gabinete realizadas em idade já madura, a qualquer doutrina mais rígida de determinismo. Inclusive o determinismo ecológico. Dentro desta atitude, entretanto, me parece legítimo admitir-se que, ao contato com certas situações culturais, a qualidade de luz de uma região favoreça, de modo particular, nessa região, o desenvolvimento da pintura, em geral; e de certo tipo de pintura, em particular. Referindo-se à Espanha, por exemplo, críticos de arte dos melhores da Europa têm salientado o fato de que sua luz, e Gilberto.p65 78 27/05/2010, 16:01 79 PENSAMENTO CRÍTICO não suas cores – sua luz e não suas cores, note-se bem – é que tem feito dos pintores espanhóis precursores de arte moderna: inclusive no emprego de cinzentos iluminados, gris cendrés, em Graco, argentés em Velásquez. De Velásquez chegou a escrever Arman Jean, em página célebre, que conseguira pintar verdadeiros “hinos à luz”. Da influência de Velásquez sobre pintores europeus sabese que foi imensa, no sentido de uma técnica de iluminação, por ele, ao que parece, desenvolvida em estudos, pesquisas, buscas provavelmente estimuladas no grande peninsular – um tanto português e não apenas espanhol em sua “raça” e em sua cultura – pela luz das Espanhas. Aliás, o próprio mestre S. M. admite que a arte sendo, como é, “expressão de emoções”, a luz pode “ocasionalmente provocálas”. No caso da pintura espanhola, talvez se deva admitir que a luz é que vem dando constante ou recorrentemente a essa pintura, sua marca mais característica. Encontra-se predominância da técnica da iluminação (porventura resposta de pintores vários, através de várias épocas, e não de um só, num momento único, ao mesmo desafio de luz: a luz peninsular) não apenas no Greco e em Velásquez, como em Goya. Este chegou a dizer que na natureza “não existe cor”, do mesmo modo que “não existe linha”. Haveria apenas “sol e sombras”. É claro que a paixão pela luz pode surgir em pintores nascidos e criados em climas nevoentos, através de desajustamentos de artistas aos seus meios. Nem sempre o artista é um ajustado ao seu meio físico. Nem sempre as condições do seu meio físico explicam sua pintura. Ou seu sentido de cor. Ou mesmo de forma. Assim se explica também o fato de pintores e poetas brasileiros se sentirem seduzidos por bruma, neve, gelo da Suíça, lua de Londres, luzes de Paris, como característicos de paisagens para eles ideais ou messiânicas. E pode-se perfeitamente admitir que um brasileiro se afirme artista brasileiro na pintura de tais exotismos. Não será fácil, mas é possível semelhante afirmação de brasileirismo pela forma, a despeito da substância exótica. Gilberto.p65 79 27/05/2010, 16:01 80 GILBERTO FREYRE É notável, porém, que um Cícero Dias, depois de vinte anos de Paris (onde vem sendo considerado por mestre Picasso um artista de notáveis recursos), conserve sua fidelidade a um verde tropical que só se define na sua plenitude iluminado pelo sol ou pela luz de Pernambuco. Luz por um cientista alemão – Konrad Guenther – considerada diferente não só das luzes da Europa como de outras luzes dos trópicos. Talvez seja injusto mestre S. M. quando afirma que o Recife, com toda sua luz propícia, dá apenas dois ou três artistas de valor (Lula, Aloísio Magalhães, Cícero Dias), acentuando com uma suficiência que os fatos não parecem confirmar que os pintores de Pernambuco “emigram para São Paulo, ainda que sem luz, ou Paris”. Não conheço caso algum de pintor nascido e criado pintor em Pernambuco, que tenha emigrado para São Paulo ou em busca de ambiente ideal para sua arte – ambiente culturalmente ideal que compensasse no emigrado a perda do ambiente ecologicamente ideal. Cícero Dias foi para Paris. Precederam-no nessa associação do Recife com Paris, Emílio Cardoso Ayres, Fédora, Vicente e Joaquim do Rêgo Monteiro, Rosa Maria – que estudaram com mestres parisienses. Francisco Brennand – um dos melhores pintores jovens do Brasil e homem do Recife – e Aloísio Magalhães, estudaram em Paris e, como Fédora, voltaram ao Recife e à luz (para eles estimulante embora não determinante de pintura) de Pernambuco, onde Brennand e Fédora residem e trabalham. Teles Júnior foi profundamente ecológico em sua arte e em sua vida de homem do Recife. Manoel Bandeira (pintor), Lula Cardoso Ayres, também, seguem seu exemplo. Preferem eles, para sua arte, a luz de Pernambuco às luzes do Rio ou de São Paulo. Vida, forma e cor Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 Gilberto.p65 80 27/05/2010, 16:01 UM PINTOR BRASILEIRO FIXADO EM PARIS Embora o nome de Cândido Portinari tenha alcançado repercussão mundial, a arte dos pintores brasileiros não chegou ainda a ser considerada expressão tão característica da cultura que se vem desenvolvendo na América portuguesa – e com os seus pensadores, seus artistas, seus cientistas, seus místicos, seus políticos procurando interpretar essa mesma América em termos universais de pensamento, de arte e de ciência – como a música dos Villa-Lobos e a arquitetura dos Niemeyer. Os pintores brasileiros continuam, aos olhos de europeus e, principalmente, de angloamericanos, parentes melancolicamente pobres de compositores e de arquitetos. Os pintores, os escultores, os romancistas, os políticos, os ensaístas, os próprios pensadores e cientistas, com uma ou outra rara, raríssima exceção; um ou outro cientista como Manuel de Abreu; um ou outro ensaísta e ao mesmo tempo pensador como Euclydes da Cunha. Serão eles, pintores brasileiros, assim tão pobres em relação com aqueles seus já consagrados e até glorificados parentes – os compositores e os arquitetos? Serão eles tão inferiores aos compositores e aos arquitetos que não mereçam a atenção já despertada tanto na Europa como nos Estados Unidos pela pintura mexicana? Gilberto.p65 81 27/05/2010, 16:01 82 GILBERTO FREYRE Talvez, não. Vários são os modernos pintores do Brasil que se apresentam como intérpretes nada desprezíveis da paisagem brasileira. Da paisagem e das várias formas e cores de homem e de mulher, de adolescente e de criança, que a miscigenação vem criando nesta parte tropical do mundo, para regalo precisamente deles, pintores; embora para deleite, também – deleite de outra espécie – dos antropólogos. A Cândido Portinari – tão notável pelos seus retratos como pelos seus painéis – podem ser acrescentados não só alguns dos seus predecessores no desenvolvimento da moderna pintura de interpretação do Brasil de que ele se tornou mestre – Tarsila do Amaral, por exemplo, Emiliano Di Cavalcanti, os irmãos Rêgo Monteiro – como vários dos que, homens da sua geração e jovens de gerações mais novas, o vêm excedendo, por vezes, uns em audácias de modernidade – experimentos valiosamente técnicos – outros, em triunfos de profundidade no que se refere àquela interpretação: a de formas e cores de paisagens e a de formas e de tipos nacionais. Tipos mestiçamente brasileiros. Dentre esses, podem ser mencionados Pancetti, Guignard, Lula (Cardoso Ayres), Francisco Brennand, Aloísio Magalhães, Manabu Mabe, Carybé, Mercier. São, porém, legião. Ao Brasil de hoje não faltam bons pintores, embora a esses bons pintores faltem ainda aqueles que, excedendo Cândido Portinari em imaginação criadora, se imponham ao estrangeiro por um vigor incomum de criação a um tempo poética e sistemática em torno de assuntos, também a um tempo, originalmente brasileiros e amplamente universais em seus apelos ou em suas formas. Há em todos eles – os bons pintores modernos do Brasil, alguns dos quais talvez estejam para destacar-se dos seus companheiros por aquela combinação nova de virtudes – um afã de interpretação do Brasil em termos pictoricamente modernos que os torna inconfundíveis como expressões de uma mesma geração de artistas e de uma mesma geração de brasileiros. Mas há em cada um deles um intérprete a seu modo do que no Brasil é o que Camões chamaria “vária cor”. Vária cor e vária forma. Gilberto.p65 82 27/05/2010, 16:01 83 PENSAMENTO CRÍTICO Mesmo porque representam muito brasileiramente formações étnico-culturais diversas. Vêm não só de regiões diferentes como de condições socioeconômicas distintas. Um é filho de imigrante japonês; e japonês na sua própria estilização artística e moderna de temas brasileiros. Três ou quatro vêm de famílias patrícias do velho Norte agrário do país: a região dos hoje decadentes engenhos de açúcar e dos hoje quase de todo desaparecidos sobrados patriarcais de Salvador, do Recife, de Olinda, de São Luís do Maranhão. Enquanto Pancetti nasceu rústico e cresceu pobre: simples marinheiro, até. E tendo sido, como Portinari, filho de imigrante italiano, ao contrário de Portinari – sempre muito burguesamente correto e muito puritanamente monogâmico na sua vida familiar ainda que com tendências platônicas a revolucionário de extrema esquerda – viveu grande parte da sua vida entregue a doces e tropicalíssimas aventuras de amor com mulatas e negras da Bahia. A mesma Bahia que seduziu, absorveu e quase recriou à sua imagem o brasileiro de origem argentina que é Carybé. É curioso que só nos últimos anos, Salvador, pela própria sedução exercida pelos seus arcaísmos coloniais sobre os pintores mais novos, venha se destacando como o centro de pintura moderna no Brasil. O que se deve, em grande parte, a essa atração que seu ambiente, sua paisagem, a graça de suas mulheres – tanto as mestiças, do povo, as famosas baianas de xale e turbante, como as sinhás finamente, dengosamente aristocráticas – vêm exercendo sobre pintores, chegados a Salvador de outras partes do Brasil, e até do estrangeiro; e sobre artistas baianos ainda jovens. Mas não só essa irradiação do pitoresco baiano, suscetível de ser captado em termos supranacionais de expressão, pela pintura moderna, tem agido a favor do desenvolvimento, em Salvador, de uma nova consciência, ao mesmo tempo baiana e moderna em assuntos de pintura. Também a vem favorecendo a universidade. E quem diz, hoje, Universidade da Bahia diz um reitor, mais do que qualquer outro, no Brasil, sensível às responsabilidades de uma universidade moderna para com as artes: a da pintura, a da escultura, a da arquitetura, a da músi- Gilberto.p65 83 27/05/2010, 16:01 84 GILBERTO FREYRE ca, a do teatro. Todas as chamadas “belas-artes”. Compreendese assim que Salvador seja a terceira cidade brasileira a organizar museu de arte moderna – iniciativa patrocinada pelo próprio governo do estado e através da qual a Bahia se junta ao Rio de Janeiro e a São Paulo, onde já existem museus de pintura, tanto moderna como clássica, que se situam entre os melhores do continente americano. Para tanto vem sendo valiosíssima a contribuição de um particular notável pelo espírito público: o até há pouco embaixador do Brasil, em Londres, e por algum tempo senador da República, Assis Chateaubriand – jornalista famoso pela sua cadeia, espalhada pelo Brasil, de jornais e de estações de rádio e de televisão e que, sendo um assombroso homem de ação, é também um indivíduo sensível como um príncipe italiano da Renascença às graças da criação artística: principalmente as da pintura. Várias são as obras-primas de pintura moderna que hoje se encontram no Brasil, adquiridas na Europa por esse extraordinário Assis Chateaubriand. E com isto e com a obra educativa realizada pelos museus de pintura moderna e por algumas das escolas de belas-artes existentes no país, muito se tem desenvolvido no público brasileiro o gosto pelos pintores modernos; e entre os artistas jovens, a inclinação para se exprimirem – e interpretarem paisagens e tipos brasileiros – com aquelas audácias novas de traços e com aqueles arrojos também novos de cor que não implicam, necessariamente, em se alhearem os pintores, de sua terra ou de sua gente, para se tornarem supranacionais por cálculo ou por sistema. Não só no Rio e em São Paulo, nem apenas na Bahia e em Minas Gerais – não nos esqueçamos do pintor europeu Mercier convertido ao catolicismo pela mediação plástica de Minas Gerais – vem se desenvolvendo no Brasil uma pintura moderna em grande parte sob sugestões regionalmente brasileiras de forma, de cor e de luz: também no Recife. Aliás, é o Recife, no Brasil, por tradição já longa, uma cidade de pintores. Foram águas e árvores do Recife e dos seus arredores que o pintor holandês Franz Post principalmente pintou no Brasil, quando aqui esteve no século XVII, Gilberto.p65 84 27/05/2010, 16:01 85 PENSAMENTO CRÍTICO acompanhando o conde Maurício de Nassau. Cidade muito clara, talvez a luz do Recife venha sendo um estímulo particular aos pintores. Foi recifense Teles Júnior: um dos melhores paisagistas brasileiros do fim do século XIX e do começo do XX. Recifense, o talvez genial Emílio Cardoso Ayres. E em fixar com traço quase sempre já moderno aspectos ou sensações do Recife se têm especializado já nos nossos dias, além dos irmãos Rêgo Monteiro – e sem contarmos o exato, meticuloso, e no desenho conservador, admirável, Manoel Bandeira – Luís Jardim, Aloísio Magalhães, Ladjane Bandeira, Reinaldo, Elezier Xavier, Baltazar da Câmara, Mário Nunes. Note-se do Recife que, mais do que a capital da Bahia ou do que as cidades antigas de Minas Gerais, foi a cidade brasileira que mais prendeu à sua luz, à sua forma e à sua cor o russo, hoje brasileiro, Ismailovitch, que conta entre os seus melhores trabalhos os mocambos do Recife por ele amorosamente surpreendidos à beira de mangues e entre coqueiros, quer em flagrantes de um pobreza quase docemente franciscana, quer de “apagada e vil” miséria semelhante à de certos burgos do Oriente. Também do Recife é uma das pintoras modernas do Brasil que mais se destacam pelo que nela é – como nas romancistas inglesas – combinação de realismo com o senso poético da vida: Rosa Maria de Barros Carvalho, discípula por algum tempo de Cândido Portinari e superior a esse mestre admirável em imaginação poética. O que lhe falta – e que em Portinari é virtude exemplar – é aquela disciplina quase ascética no trabalho que o artista verdadeiramente criador precisa de ter igual ao artesão; e que não é virtude comum nem entre pintores nem entre artistas de outras especialidades na América chamada “latina”. Uns poucos dos modernos pintores brasileiros, em vez de absorvidos ou reabsorvidos pela Bahia e seduzidos pelas cores baianas – como Pancetti, Carybé, Célio Amado – ou retidos no Recife pela também sedutora luz recifense – o caso de Lula Cardoso Ayres e de Francisco Brennand – têm sido absorvidos na sua arte, nos seus motivos e até, em grande parte, nas suas pessoas – como tantos dos seus predecessores do século XIX – Gilberto.p65 85 27/05/2010, 16:01 86 GILBERTO FREYRE por Paris. Pela Europa. O caso de Joaquim do Rêgo Monteiro. O de Vicente do Rêgo Monteiro. O atual, de Cícero Dias. Entretanto, alguma coisa nesses déracinés retardatários se tem conservado irredutivelmente brasileira. É o caso, principalmente, de Cícero Dias. Daí o escritor Jorge Amado pretender promover muito breve uma exposição desse pintor brasileiro há vinte anos residente em Paris, no interior da Bahia: em Feira de Santana. Para o que me convoca, dada minha condição de velho amigo de Cícero, com possível influência não sobre sua pintura – sempre muito pessoal – porém sobre seus motivos de vida e talvez de arte, nos dias em que decidiu fixar-se no Recife e dedicar-se a uma pintura entre lírica e elegíaca de Pernambuco. O Pernambuco das casas-grandes, dos sobrados e dos engenhos, por um lado; o da plebe negroide ou africanoide, por outro. Mas, sobretudo, o da fusão desses dois aparentes contrários numa síntese particularmente brasileira. Democraticamente brasileira. Coloridamente brasileira. Cícero Dias para sempre se identificou, naqueles dias decisivos de formação da sua personalidade de homem e de artista, com um dos Brasis mais profundamente brasileiros dentre os que formam hoje o Brasil total a ser completado agora pela jovem Brasília como por um dente de ouro entre os dentes naturais de uma mestiça de outrora. Identificou-se com esse Brasil, confraternizando com a sua gente do povo. Vivendo – ainda que indivíduo de origem aristocrática, filho de senhor de engenho, neto de barão do Império – no meio dela. Participando das suas danças, das suas festas, das suas angústias, dos próprios ritos ainda secretos – e por algum tempo perseguidos pela polícia – dos seus restos de religiões africanas. Daí, ainda hoje, depois de vinte anos de Paris, Cícero Dias ser ainda, como pessoa e mesmo como pintor – pintor abstracionista! – alguém que se conserva sensível às suas raízes brasileiras e se faz compreender por brasileiros até do interior. A arte de Cícero Dias não é nenhuma intrusa nem em Feira de Santana nem em qualquer outra cidade do interior brasileiro. Os encarnados e os verdes da pintura de Cícero Dias vêm de tão Gilberto.p65 86 27/05/2010, 16:01 87 PENSAMENTO CRÍTICO dentro do Brasil que diante deles nenhum brasileiro, por mais do interior que seja, se sente diante de simples garatujas de um estranho ou de puros caprichos de um esteta sofisticado. São cores, as dessa pintura, que sozinhas exprimem aquele Brasil que um poeta de Paris, Eluard, descobriu haver tão inconfundivelmente em Cícero quanto a Espanha em Picasso. Pois ultimamente Cícero Dias vem sendo mais notado pelos críticos franceses que pelos brasileiros. Picasso e Cícero são, com efeito, dois dos mais modernos e dos mais universais pintores que atualmente trabalham em Paris. Nenhum deles, porém, deixou de ser da sua terra ou da sua região. Nenhum deles deixou de se comunicar, depois de fixado em Paris, com aldeias como as de Castela ou com feiras como a de Santana, para apenas se fazerem compreender pelos turistas elegantes que do mundo inteiro vão ver arte moderna, ainda quente de nova, em requintadas feiras internacionais como a de Bruxelas ou a de Leipzig. É que há em Cícero Dias, como em Pablo Picasso, além de um artista, um homem com raízes, que vão ao fundo de terras e de passados regionais. E essas raízes o prendem de modo particularmente amoroso a uma terra e a um povo sem o tornarem incapaz de se comunicar, como artista e como homem, através de Paris, com outros povos e com outras terras; e de desenvolver uma arte autêntica universal em seu poder de comunicação e vibrantemente moderna em sua técnica de expressão. Como o Cícero de mil novecentos e vinte e tantos, o de hoje continua da sua terra e do seu povo, sem que isto o venha impedindo de ser um dos pintores brasileiros de mais pura universalidade de expressão e de mais arrojada modernidade de técnica: uma modernidade que, nele, nunca parou em qualquer modernismo sectário. Que não cessou até hoje de ser modernidade. Mas nem essa sua modernidade nem aquela sua universalidade fizeram secar em artista tão complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, sua condição de brasileiro de província, nascido e crescido numa das regiões também mais complexas do Brasil: aquela em que, na gente, mais se vem misturado ao Gilberto.p65 87 27/05/2010, 16:01 88 GILBERTO FREYRE sangue europeu o do indígena e o do africano; e nas artes, nos costumes, nos alimentos, à cultura vinda da Europa, a encontrada nas populações nativas e trazida da África pelo negro. Um negro hoje brasileiríssimo; e cuja presença constante na pintura de Cícero marca nesse artista, nascido ainda em casagrande de engenho, sua capacidade de identificação amorosa com a gente, outrora escrava, a quem o Brasil deve tanto do que é mais brasileiro na sua música, na sua cozinha e, através não só de Cícero como de Cândido Portinari, de Di Cavalcanti, de Lula Cardoso Ayres, na sua pintura. Desde o fim do século passado que houve vozes como a do bravo Sylvio Romero que se levantaram para clamar pelo valor do negro como elemento essencial não só de trabalho, como de arte, dentro da civilização brasileira. Mas essa valorização só veio a ser realizada com um sentido menos de complacência da parte de brancos para com negros que de consciência integralmente brasileira da participação africana no desenvolvimento da civilização brasileira, pelo movimento regionalista. O qual, tendo partido do Recife, em 1924, ainda hoje é, sob novos aspectos, uma força de renovação e de criação dentro não só das artes – inclusive a literatura – como de outras atividades brasileiras de cultura. Foi ao contato das ideias e dos métodos de ação aparentemente contraditórios, desse movimento, empenhado em prestigiar regiões e tradições brasileiras capazes de sugerir a artistas e intelectuais, jovens e experimentais, desejosos de se libertarem de uma já esterilizante sujeição colonial à Europa ou aos Estados Unidos, novos rumos de criação e novas formas de expressão – rumos e formas que, sendo regionais, fossem nacionais, e, sendo brasileiras, fossem também universais, além de modernas – que Cícero Dias, a princípio influenciado pelo “modernismo” de Graça Aranha, sentiu que esse “modernismo” e o de São Paulo, sozinhos, não correspondiam, senão superficialmente, ao seu temperamento e à sua formação. Uma formação que, profundamente brasileira, era também particu- Gilberto.p65 88 27/05/2010, 16:01 89 PENSAMENTO CRÍTICO larmente regional e particularmente tradicional. Num temperamento que, sendo o de um experimental, seduzido pelo novo e pelo moderno, não deixava de ser o de um lírico. Adquirindo um novo sentido de expressão, e uma nova consciência de personalidade, Cícero começou a desenvolver-se, no seu atelier, num velho sobrado do Recife, num dos mais originais pintores modernos da América, à base de uma maior reaproximação com as paisagens, os mitos, as artes populares, as terras e, sobretudo, as populações rústicas, negroides, ligados à sua meninice. Nisto, sua reorientação se processou de modo muito semelhante à do escritor quase da sua idade, apenas um pouco mais velho, de quem no Recife, se tornou amigo fraterno: José Lins do Rêgo. Compreende-se, assim, que desde os seus primeiros triunfos como artista renovador da pintura brasileira, já depois de glorificado pelo Rio e de aplaudido por São Paulo, e de consagrado por Paris, Cícero Dias venha insistindo em expor seus quadros à gente da sua materna cidadezinha de Escada; em se conservar em contato com o que no Brasil é região, província, povo, campo; em querer a compreensão, para os seus encarnados e os seus azuis, não só do público das capitais, como do público de feiras como a de Santana, que é um público nascido e criado, como o próprio artista, dentro do que no Brasil é mais Brasil. A arte de Cícero Dias, hoje tão jovem e tão cheia de imprevistos como no seu amanhecer – embora necessitada de uma reaproximação íntima do pintor com o Brasil – é das que mais confirmam, com o que nela é matinal, o vigor, ainda de modo algum esgotado, daquele movimento partido do Nordeste, mas não sectariamente nordestino no seu modo de ser regional, que vem concorrendo há trinta anos para dar ao Brasil e ao mundo, com a pintura desse artista admirável e com outras interpretações plásticas do trópico brasileiro, romances também telúricos nas suas bases e ao mesmo tempo universais nos seus apelos; ensaios e poemas igualmente assim telúricos nas raízes e universais nas projeções; e prestigiando, com igual sentido de universalização, mas sem repúdio nem à terra materna nem às origens ibéricas (e quase Gilberto.p65 89 27/05/2010, 16:01 90 GILBERTO FREYRE mouriscas), ou às procedências africanas do que no Brasil, é mais brasileiro – um brasileiro, é claro, suscetível de enriquecer-se com bons e valiosos acréscimos italianos, germânicos, sírios, poloneses, israelitas, japoneses. Não só pintura e literatura, porém: também criações de músicas, de culinária, de arquitetura, de móvel – a estilização da rede ameríndia, por exemplo – de penteado, de trajo, de adorno pessoal. São criações que de regionais vêm se tornando potentemente universais, através de uma sempre desejada consagração nacional, que represente antes harmonização de diferenças que simples e simplista estandardização, de Norte a Sul do país, de estilos de vida brasileiros. Pois a força do Brasil está nessa sua capacidade de ser um só sendo também uma variedade de Brasis, que se completam pelos seus diferentes modos de ser uma vasta civilização moderna, desenvolvida por gente em grande parte mestiça, em clima ou em ambiente em grande parte tropical. Uma reabilitação ao mesmo tempo do mestiço e do trópico. Sem ser uma arte dirigida, a pintura de Cícero Dias é das que espontaneamente exprimem essa reabilitação, cheia como está, nas suas várias fases, de cores quentes e de formas novas, de mulheres, de animais e de paisagens: as recalcadas por uma civilização arrojadamente mestiça e pioneiramente moderna em espaço tropical. São cores e formas que hoje esplendem na pintura dos, ainda mais que Cícero, tropicais Lula Cardoso Ayres e Francisco Brennand. Para a definição da cultura assim tropical e assim mestiça do Brasil, em termos aparentemente apenas regionais, mas sempre potencialmente universais – sobretudo agora quando, passada a época dos grandes imperialismos nórdicos, os trópicos e os povos de cor situados nos trópicos começam a ser ativa e não passivamente meio mundo – ninguém contribuiu de modo mais vigorosamente pioneiro que Cícero Dias. Sua contribuição nesse sentido vem sendo a de um artista cujo gênio não se cansa da aventura de inovar. Nem se cansa dessa aventura nem se descuida da necessidade de aprimorar-se. Daí continuar jovem na sua arte, sendo já mestre na sua técnica. Gilberto.p65 90 27/05/2010, 16:01 91 PENSAMENTO CRÍTICO No momento em que se cogita de uma exposição de seus quadros em Feira de Santana, seus companheiros mais antigos de campanhas no sentido de fazer-se de arte, de literatura e de cultura, no Brasil, em vez de bizantinice de estetas ou requinte de acadêmicos ou capricho esotérico de antiacadêmicos, expressão de vida a que não falte a presença dos brasileiros mais teluricamente brasileiros das várias regiões do País, podem reafirmar sua convicção de ser essa arte, a literatura, a cultura capaz de dar ao homem, em geral, e ao brasileiro, em particular, sua mais elevada condição humana. Uma condição humana. Uma condição que para ser plenamente humana no que nela for geral não precisará nunca de deixar de ser regional nos seus particulares. Sob tal aspecto, Feira de Santana não é menos importante, como antecipação brasileira de uma cultura mais plenamente humana que a de hoje, que a grandiosa Brasília, cuja arquitetura urbana, arrojadamente moderna, é um dos maiores orgulhos dos brasileiros. Mas Brasília, sozinha, não nos resguarda, aos brasileiros, do moderno que, ao primeiro descuido, se torne modernice; nem do universal que pretenda ser a negação pura e simples do regional. É necessário que as Feiras de Santana completem Brasília; e a completem pelo que nelas é, além de realidade particularmente regional, passado do chamado “útil” ou “utilizável”; que semelhante passado existe ao lado do desprezível, além de inútil. Realidade e passado dessa espécie não faltam às cores inconfundivelmente brasileiras da pintura de Cícero Dias, depois de terem nutrido o desenvolvimento dessa sua pintura, de substâncias impossíveis de ser inventadas, em torres das denominadas de marfim, pelos estetas desdenhosos de povo, de massapê, de terra roxa, de negro, de índio, de mestiço, de fumo de rolo, de acarajé, de mocotó, de sarapatel, de xangô, de candomblé, de açaí. Vida, forma e cor Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 Gilberto.p65 91 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 92 27/05/2010, 16:01 LULA CARDOSO AYRES: SUA INTERPRETAÇÃO DO BRASIL Escrevendo sobre a pintura de Lula Cardoso Ayres, o crítico do Diário Carioca, Antonio Bento, destacou nos trabalhos do pintor pernambucano este aspecto que não deve ser esquecido: procurarem abrir novos caminhos de interpretação do Brasil. As palavras de Bento são outras e não tenho sob os olhos seu inteligente artigo. Mas creio que estou sendo fiel ao pensamento crítico. E como esse pensamento coincide com o meu, regozijo-me com a coincidência. Pois sou daqueles a quem repugna o critério de tal modo rígido de bastar-se a pintura a si mesma, que fora da “pureza pictórica” não haveria salvação. Tudo que fosse impuro. Desse ponto de vista, deveria ser tido por desprezível e vil nos trabalhos de um pintor: inclusive qualquer interpretação de um pedaço do mundo que demonstrasse a experiência ou revelasse o conhecimento do artista, da história e da paisagem da região. Tais puristas veem aí simples regionalismo, literatismo ou folclorismo de que a pintura deveria conservar-se rigorosamente pura. Mas julgando-se ultramodernos, do que sofrem quase todos os puristas assim exagerados, é de um complexo de pureza que lembra o das pessoas que acordam, passam o dia e vão para a cama lavando as mãos. Gilberto.p65 93 27/05/2010, 16:01 94 GILBERTO FREYRE Não há complexo de pureza pictórica nenhum no esforço de interpretação nova do Brasil, na aventura de pesquisa incessante, de experimentação constante, que vem sendo a atividade de pintor de Lula Cardoso Ayres nestes últimos quatro ou cinco anos. Sua pintura é a de quem vem procurando interpretar a seu modo um Brasil – o do açúcar – já descoberto pelo pensamento, pela ciência e pela arte de outros pesquisadores, mas do que o pintor pernambucano tem sabido aproximar-se por caminhos novos e seus. Por caminhos novos ou alargando picadas apenas abertas no mato quase virgem pelo pé nu de homens do povo como os que, no Nordeste, fazem bonecos de barro. Por caminhos novos ou chegando às margens de rios de engenho, a quartos de dormir das sinhazinhas das casas-grandes, ao escuro das senzalas cheias de figuras magras de negros, com a imaginação tocada pela literatura ou despertada, ou mesmo orientada, pela história da região do açúcar, mas mesmo assim com os olhos de pintor e não de subliterato nem de sub-historiador nem de subsociólogo. Pretender a crítica purista fazer da pintura arte tão soberana que se torne uma atividade de todo independente das outras formas de criação artística e dos outros métodos de interpretação do homem e da natureza de qualquer razão me parece pretensão vã e um tanto ridícula, senão mórbida, num mundo que volta a ser tão interdependente em suas atividades complexas como foi, outrora, em suas atividades simples. Repugna, num trabalho de pintor, a literatice sem que, por horror a essa literatice na pintura, se deva procurar fazer da pintura e da literatura inimigas de morte. Podem as duas tocar-se em mais de um ponto sem que desses contatos resulte a pintura diminuída pela sugestão literária sempre que o pintor tenha força de imaginação e de técnica para afirmar-se como pintor. É o caso de Lula Cardoso Ayres. Sua força como pintor vai se firmando de tal modo que seus contatos com outras formas de criação artística e com outros métodos de interpretação do Brasil não prejudiquem nela nem o sentido universal de sua arte nem a pureza essencial de sua técnica, que é a de pintor. Daí Gilberto.p65 94 27/05/2010, 16:01 95 PENSAMENTO CRÍTICO poder ser Lula poético sem que a condição poética de sua pintura prejudique sua autonomia de pintor em face de artes que se exprimam ou se afirmem por outros meios. É o mesmo caso de Cícero Dias: pelo menos do Cícero Dias de Família de luto, de Sobrados do Recife e de Cabriolet de engenho. Diário de Pernambuco Recife, 2 de outubro de 1946 Gilberto.p65 95 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 96 27/05/2010, 16:01 A ARTE DE LULA CARDOSO AYRES: SUA BASE REGIONAL Sei que há hoje críticos de estética – de belas-letras ainda mais do que de belas-artes – para os quais a crítica dessa espécie só se deve preocupar em apreciar ou julgar os puros valores estéticos, desprezando no artista ou na sua arte quanto seja biográfico ou histórico ou sociológico. Talvez se exagerem esses críticos, assim ortodoxos ao seu esteticismo como que quimicamente puro. Um artista raramente se revela de todo apenas na sua arte. Para haver uma exata compreensão dessa arte é preciso que ela nos seja apresentada como um desenvolvimento tanto no espaço como no tempo sociais. Por conseguinte, biográfica, histórica e até sociologicamente. Não se compreende senão em parte a pintura de Picasso, sem que se conheça a sua aventura africana e o que essa aventura significou para o grande espanhol: um espanhol por suas raízes ibéricas mais predisposto que outros europeus a tal aventura. A arte de Lula Cardoso Ayres é das que muito se deixam esclarecer pelo que nela tem sido desenvolvimento num espaço e num tempo especificamente culturais além de sociais. Esse espaço e esse tempo tendo agido sobre o artista, com uma constância raramente interrompida, provocaram nele uma profunda identificação com a gente e a paisagem da sua terra. Gilberto.p65 97 27/05/2010, 16:01 98 GILBERTO FREYRE Também com a sua época: uma época de renovação social e de experimentação artística. Mas sem que essa identificação tenha significado para ele puro folclorismo: ou submissão tal às sugestões vindas da arte popular ou da paisagem regional que sua arte tenha parado em simples reprodução dessas sugestões. Sua fase de residência no interior de Pernambuco foi para ele decisiva no sentido de aproximá-lo de fontes telúricas, populares e folclóricas de inspiração, até torná-lo um íntimo dessas mesmas fontes por outros conhecidas apenas turisticamente. A documentação fotográfica que então reuniu ele próprio com paciência quase germânica – influência de Moser? – de casas, paisagens e sobretudo de tipos característicos de homem, de mulher e de criança, surpreendidos na intimidade do seu cotidiano, do seu trabalho nos canaviais e das suas danças de dias de festa, do seu fabrico de figuras de cerâmica e de louça de barro, e fixados na raridade sugestivamente estética de seu mestiçamento, é qualquer coisa de notável. Ao valor artístico se junta, nesse documentário talvez único no Brasil, o interesse antropológico. Lula desenhou “realisticamente”, como ele próprio revelou numa nota autobiográfica em trabalho que escreveu sobre suas relações com um amigo recifense que lhe teria dado orientação regionalista à sua pintura os bichos fantásticos de bumbameuboi criados pela imaginação popular. Além dos urubus, das emas, dos sapos, dos cavalos e dos bois que eram uma imitação da realidade, havia “bichos” inteiramente criados pela imaginação como o bicho foiará que era a humanização da vegetação local, o jaraguá alma do outro mundo dos animais representada por caveira de burro, de boi, de cavalo com mantos pretos enormes sugerindo mortalhas, a caipora com uma urupemba na cabeça, uma saia para baixo e outra para cima amarrada sobre a urupemba formando um X. “A forma simplificada de caipora – explica Lula daquele trabalho – é muito frequente na minha pintura atual, esta forma que pode parecer unicamente geométrica ou ‘concreta’, teve o seu ponto de partida na caipora do bumbameuboi. Todas as formas abstratas da minha pintura atual têm o seu ponto de partida principalmente nas figuras do bumbameu- Gilberto.p65 98 27/05/2010, 16:01 99 PENSAMENTO CRÍTICO boi, as formas pretas alongadas são as mortalhas dos jaraguás, as ovais são as máscaras de cabaço usadas pelas Margaridas ou bailarinas, as sugestões de pássaros pretos são os urubus e as linhas irregulares tão usadas são composições como elemento dinâmico são as fitas que enfeitavam os chifres dos ‘bois’, as varas do vaqueiro ‘Mateus’ e as pastoras dos antigos pastoris.” Mais tarde, em 1943, faria Lula uma série de quadros de bumbameuboi com pretensões surrealista certamente influenciado pelo mistério noturno dessa representação “que era iluminada apenas por uma pequena luz de carbureto até que aparecessem os primeiros raios de sol que davam entrada ao ‘boi’ que morria logo depois e era cercado pelos urubus fantásticos”. E ele próprio salienta, nessa nota autobiográfica, que viria a pintar tudo isto “depois de passar por várias etapas desde o desenho realista à inteira libertação do realismo visual, utilizando as formas reais como ponto de partida para a estilização das formas aparentemente abstratas das minhas composições mais recentes”. O mesmo acontecera com as figuras do carnaval, com os maracatus, os cabocolinhos, as damas dos blocos. Enfim a sua pintura aparentemente abstrata seria o resultado de uma longa série de observações cuidadosas de realidade regional. Seus próprios mal-assombrados teriam base regional. Jornal do Commercio Recife, 29 de maio de 1960 Gilberto.p65 99 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 100 27/05/2010, 16:01 PAINÉIS DE MESTRE LULA Já com o pé no estribo para nova viagem à Europa – desta vez a Portugal, à Itália e à Bélgica – visito a estação monumental em construção no novo aeroporto do Recife. Como arquitetura, não me parece nenhuma maravilha. Dizem-me que foi até cometido pelo arquiteto o erro psicológico de não dar oportunidade às pessoas que compareçam ao bota-fora de um viajante amigo de verem o avião deixar o solo e tomar altura; têm de contentar-se essas amáveis pessoas em deixar os viajantes no interior da vasta, grandiosa, imensa estação. A ser exata a informação o erro psicológico é evidente. E arquitetura não é apenas estética nem somente engenharia: é também – ou deve também ser – psicologia. Psicologia e sociologia aplicadas à construção de toda espécie a serviço do homem. Mas não escrevo esta nota para comentar no novo monumento arquitetônico que vem dar grandiosidade à capital de Pernambuco e metrópole do Nordeste, qualquer aspecto da sua construção, na verdade imponente, que possa ser comentado por um simples estudante de sociologia ou de psicologia: sociologia ou psicologia aplicadas à arte eminentemente social que é a arquitetura. E sim para deixar aqui minha impressão dos painéis que estão sendo pintados no interior do novo edifício por mestre Lula Cardoso Ayres. Gilberto.p65 101 27/05/2010, 16:01 102 GILBERTO FREYRE Mais uma vez mestre Lula Cardoso Ayres se revela senhor da pintura mural inspirada em motivos folclóricos e em sugestões regionais. Seu painel já realizado é admirável pelo que combina de forma com movimento e cor. Cores vibrantemente tropicais. Ritmos recifenses de danças em que se afirma a presença de gentes primitivas nas alegrias do folclore e nas expansões regionais da arte popular: maracatu, bumbameuboi, caboclinho. Aliás, não seria fora de propósito que junto a cada painel se colocasse discreta e ligeiramente explicação em três ou quatro línguas, dos motivos regionais e folclóricos em que se inspirou o artista. É um painel, o já realizado por mestre Lula, que, visto à distância, é desde o primeiro olhar que nele se fixe uma vibrante expressão do Recife folclórico. A esse painel recifense se juntarão dois outros, um deles já em começo, uma evocação do carnaval e outra do “agreste”. Ambas animadas de figuras humanas: morenas, brancas, pardas, homens, mulheres, meninos. Enquanto no restaurante, as paredes serão animadas também de pinturas em grande escala, inspiradas em motivos igualmente regionais: peixes, lagostas, caranguejos, abacaxis, jambos, pinhas, maracujás, cajus, goiabas. Não poderia ser mais feliz o pintor Lula Cardoso Ayres na escolha de assuntos para suas pinturas murais numa estação de aviões destinada a intenso tráfego tanto nacional quanto internacional. Nem mais bem orientado quanto às formas e às cores em que vem exprimindo sua glorificação ou estilização de valores da região. É de esperar que o jardineiro-paisagista encarregado – segundo me dizem – de ajardinar o largo em frente – a vasta estação –, e também mestre Roberto Burle Marx, dê aos seus jardins igual arrojo de forma e de cor, afirmando neles a natureza regional em massas de vibrante colorido em vez de procurar fazer regionalismo requintado apenas para botânicos. Ou somente para curiosos de particularidades da flora do Nordeste, de interesse que pouco tenha à ver com o conjunto artísticopaisagístico que deve ser formado pelo vasto jardim. Gilberto.p65 102 27/05/2010, 16:01 103 PENSAMENTO CRÍTICO Aliás, para os curiosos de tais valores – botânicos, médicos, místicos, etc – o Recife tem hoje um jardim especializado – talvez único no Brasil: o do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Organizou-o há dois ou três anos o Instituto com a cooperação valiosa do então diretor do Estar Social da Prefeitura do Recife, o professor Gonçalves Fernandes e do seu notável auxiliar técnico, o professor Chaves Batista. O jardim a ser organizado no largo da nova e monumental Estação de Aviões deve ter outro caráter; e ser um conjunto vibrante de cores regionais. Em harmonia, portanto, com os admiráveis painéis de mestre Lula. O que não exclui a conveniência de nele se verem placas com os nomes das principais plantas da região utilizadas pelos seus efeitos de forma e de cor. Diário de Pernambuco Recife, 24 de março de 1957 Gilberto.p65 103 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 104 27/05/2010, 16:01 UM MURALISTA BRASILEIRO Graças ao professor P. M. Bardi, São Paulo acaba de ter novo contato com o pintor Lula Cardoso Ayres. Um pintor incessante na sua atividade de grande experimentador. O que talvez assinale mais expressivamente a atividade artística do pintor Lula Cardoso Ayres, desde que se instalou em sua já famosa casa de Boa Viagem – fase também marcada pela sua iniciativa, continuada depois, sistematicamente, pelo artista Augusto Rodrigues, de aceitar crianças como alunos de pintura: uma pintura livre, espontânea – é a sua especialização na arte do mural. E desta, a exposição de São Paulo não deu aos paulistas senão uma ideia vaga. Lula não se improvisou muralista. Através de esforço duro e forte é que acabou dominando essa difícil técnica até exprimirse, como se vem exprimindo, em murais que já se tornaram clássicos pelas suas qualidades épicas. Os murais vieram revelar na sua arte um novo aspecto: o aspecto épico. Embora continue a pintar quadros e a desenhar ilustrações, a principal atividade do pintor Lula Cardoso Ayres é hoje esta: a de criador de um novo tipo de mural épico, brasileiríssimo nas suas formas e nas suas cores tanto quando nos seus motivos. Não que esse épico signifique o convencionalmente heroico – de todo ausente da pintura de Lula – que, aliás, já não cor- Gilberto.p65 105 27/05/2010, 16:01 106 GILBERTO FREYRE responde ao moderno conceito de épico. Mas pelo que sugere de luta cotidiana do brasileiro sobre obstáculos ao seu desenvolvimento; pelo que evoca de confraternização de homens e mulheres de raças diversas e cores diferentes; pelo que valoriza das formas e das cores de Recife – cidade crescida à custa de tanta dor que nenhuma, no Brasil, a excede em martírio. Lula Cardoso Ayres é, hoje, o intérprete por excelência, na pintura mural e numa escala verdadeiramente épica, desse esforço brasileiro, dessa confraternização de raças caracteristicamente brasileira, desse martírio recifense: o martírio de uma velha cidade, agora em processo rápido de descaracterização, cujos sobrados angulosos, cujas igrejas magras, cujas ruas estreitas viverão para sempre, em sínteses de sua força dramática, nos murais, nos quadros e nos desenhos de Lula Cardoso Ayres. É pena que um muralista das virtudes épicas de Lula Cardoso Ayres não tenha sido até hoje convocado para abrasileirar com um dos seus painéis, impregnados do que o Brasil tem de mais secularmente brasileiro, algum exterior ou interior de edifício incaracteristicamente “modernista” ou sectariamente “interna-cionalista” de Brasília. Pintores murais como ele, como Cândido Portinari, como Guignard, como Francisco Brennand, não deviam estar ausentes de Brasília, já abrilhantada pela presença, num dos seus principais edifícios, de Emiliano Di Cavalcanti. Nada mais precário que o “modernismo” daqueles artistas, técnicos e críticos de arte, empenhados na construção de Brasília em plano de todo supranacional; e para os quais, como cidade projetada sobre o futuro, a nova capital do Brasil deve ser “internacionalista” ao ponto de ninguém poder dizer onde ela está situada: se no Brasil, se em Ceilão. Se no interior do Brasil, se no interior da Índia. Não somente isto: nem sequer caracteristicamente tropical se apresenta, em sua maior parte, a arquitetura de Brasília. Ao contrário: alguns dos seus arrojos, esteticamente sedutores, parecem animados de um verdadeiro sentimento de aversão ou de repúdio ao trópico. Qualquer coisa de freudiano parece colorir esse sentimento – um sentimento de consequências estéticas Gilberto.p65 106 27/05/2010, 16:01 107 PENSAMENTO CRÍTICO valiosíssimas, mas de consequências sociais nada satisfatórias: uma espécie de repulsa de filhos ao pai. O pai, neste caso, o trópico. Na pintura de Lula Cardoso Ayres, semelhante repulsa, se houve em sua fase de revolta contra o convencional, está hoje superada. Há entre o muralista e o trópico uma identificação profunda. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1960 Gilberto.p65 107 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 108 27/05/2010, 16:01 UM MURALISTA ÉPICO É imenso o documentário fotográfico recolhido por Lula Cardoso Ayres, não só no interior de Pernambuco como no Recife, naquela sua fase de pesquisa da realidade regional. No Recife, surpreendeu as últimas danças e os últimos tipos – rainhas e figuras menores de maracatus e de caboclinhos e de bumbasmeuboi – dos carnavais ortodoxamente populares e genuinamente folclóricos da capital de Pernambuco. Dos carnavais espontâneos e livres, que a intervenção, de governos e federações com adjetivos aparentemente turísticos, mas na verdade políticos, viria adulterar, tornando-os uns pobres carnavais dirigidos. Documentando-se sobre assuntos e sobre móveis e imagens de santos de casas-grandes e de sobrados antigos e fazendo desse modo sistemático e com um rigor de método e de ordem talvez adquirido de mestre Moser, Lula Cardoso Ayres preparava-se pela pesquisa e pelo estudo para a sua grande obra de interpretação arrojadamente artística, por um lado, acima de preocupações didaticamente etnográficas, por outro, de propósitos pedagogicamente folclorísticos, da gente do povo mestiça em fase se transformação. Também da gente senhoril em decadência, da área mais antiga e mais característica de cana-de-açúcar do Brasil. Foi uma fase de estudo intenso, de pesquisa paciente, de apuramento de técnica a serviço de novos motivos de arte: Gilberto.p65 109 27/05/2010, 16:01 110 GILBERTO FREYRE motivos regionais. Mas uma fase que tinha de ser superada pelo artista, sempre desejoso de estender a área da sua criatividade sobre a de puro conhecimento dos seus temas e de simples apuramento da sua técnica. Também desejoso de extrair da matéria regional por ele tão honestamente dominada – e sempre presente na sua arte – o máximo de universalidade compatível com essa regionalidade persistente. Semelhante superação vem se verificando em Lula Cardoso Ayres, desde o seu regresso da usina ao Recife; desde a sua fixação em Boa Viagem, em ateliê instalado na sua própria residência à beira-mar. O que assinala mais expressivamente a atividade artística de Lula Cardoso desde que se instalou em sua já famosa casa de Boa Viagem – fase também marcada pela sua iniciativa, continuada depois, sistematicamente, pelo artista Agostinho Rodrigues de aceitar crianças como alunos de pintura: uma pintura livre, espontânea – é a sua especialização na arte do mural. Não se improvisou muralista. Através de esforço duro e forte é que acabou dominando essa difícil técnica até exprimirse, como se vem exprimindo, através de murais que já se tornaram clássicos. Os murais vieram revelar na sua arte um novo aspecto: aspecto épico. Não que esse épico signifique o convencionalmente heroico – de todo ausente da pintura de Lula; nem este basta, de modo algum, ao moderno conceito do que seja épico. Mas pelo que sugere de luta cotidiana do brasileiro sobre obstáculos ao seu desenvolvimento; pelo que evoca de confraternização de homens e mulheres de raças diversas e cores diferentes: pelo que valoriza das formas e das cores do Recife – cidade crescida a custo de tanta dor que nenhuma no Brasil, a excede em martírio. Jornal do Commercio Recife, 22 de maio de 1960 Gilberto.p65 110 27/05/2010, 16:01 PORTINARI Dos nomes que o norte-americano associa agora ao Brasil nenhum é maior que o de Portinari. O que ele exprime do Brasil dá para nos garantir uma boa mancha de cor no mapa das culturas regionais de hoje. E quando um povo pode apresentar como seu, teluricamente seu, um Portinari, um Villa-Lobos, um Luís Jardim, um Cícero Dias, um Camargo Guarnieri ou um Celso Antonio – algum artista de extraordinário poder criador cuja música, pintura ou escultura entre pelos olhos ou pelos ouvidos do estrangeiro ignorante das línguas ou das literaturas exóticas com o viço, o gosto e a cor das terras de onde saíram – esse povo já deixou de ser “simples expressão geográfica” para tornar-se um começo, pelo menos, de afirmação de cultura. Um começo de cultura original e definida nas suas novas combinações de valores. O brasileiro de hoje não se sente mais, em Nova Iorque ou na Europa, o indíviduo de nação clandestina ou vaga que se sentia nos fins do século passado e nos começos do atual, quando nossas celebridades do dia – Carlos Gomez (com z), Santos Dumont, Antonio Conselheiro, Rio Branco, Nabuco, Vital Brasil, Rui Barbosa – eram indistintamente classificadas “sulamericanas”. Agora se faz a distinção. Sabe-se – é claro que por ora só nos meios cultos – que há um Brasil de Portinari e de Gilberto.p65 111 27/05/2010, 16:01 112 GILBERTO FREYRE Villa-Lobos; um Brasil diferente do resto da América chamada latina, um Brasil com seu conjunto de valores humanos e de cultura capazes de se destranharem em compositores e artistas originais e fortes e não passivamente coloniais, corretamente subeuropeus. Ao norte-americano de cultura acima da suburbana ou da rotariana o Brasil de hoje não faz pensar só em café, nem em touças de bananeira, nem no rio Amazonas, nem em castanhasdo-pará, mas no grande pintor que é Portinari, no grande compositor que é Villa-Lobos, em artistas cuja originalidade e cujo viço revertem a favor não simplesmente do Brasil, mas do conjunto americano de cultura, para o qual concorremos, dentro dos desejos de Walt Whitman, com valores tão claros, sólidos e autênticos que qualquer São Thomé da Ásia ou da Europa pode vê-los e apalpá-los. Era desses valores que Randolph Bourne, alongando em filosofia as intuições do velho Walt, queria o americano consciente e orgulhoso: cheio “de orgulho cultural”. E tão consciente deles que se desembaraçasse do complexo de “humildade cultural” diante de tudo que fosse europeu só pelo fato de ser europeu: poeta, igreja, pensador, estátua, jardim, compositor, pintor, escritor. Portinari nos dá direito ao orgulho de que falava Bourne. Para os que sofrem, entre nós, do complexo de humildade colonial diante da Europa, Portinari é mesmo uma espécie de valor terapêutico, semelhante ao de certas vitaminas que corrigem deficiências patológicas. Pois o fato de ter o Brasil produzido um pintor da força de Portinari, ilustradores da marca de Luís Jardim, Santa Rosa, M. Bandeira, compositores da riqueza de imaginação de Villa-Lobos, um escultor do poder de interpretação de Celso Antonio, nos autoriza a acreditar no que já chamei de vigor híbrido sociológico no campo das afirmações concretamente artísticas de culturas para não falarmos das abstratas e intelectuais. São vários os exemplos desse vigor híbrido que nos permite ver na floração artística do Brasil de hoje não a negação mas a afirmação de vantagens culturais da mestiçagem tal como a que se vem praticando no nosso país Gilberto.p65 112 27/05/2010, 16:01 113 PENSAMENTO CRÍTICO desde os tempos coloniais. Mestiçagem, miscigenação, interpenetração de culturas. Um Portinari menos brasileiro na sua formação, nos seus contactos de menino, teria se contentado em ser no Brasil a simples afirmação colonial do seu nome e de sua tradição de italiano. Um italianinho desgarrado nos trópicos. Um braço perdido entre pardos. O meio brasileiro agiu, porém, sobre o meninozinho ruivo de origem europeia com toda a força do seu sol, de suas tradições, de sua democracia de campina de subúrbio onde ruivos e pardos fraternalmente empinam papagaios e jogam futebol de bola de pano alheios a quanta convenção separa os meninos, em outros países socialmente menos democráticos, em brancos e pretos ou em europeus e nativos. Daí a sensibilidade desse pintor louro e de nome italiano aos assuntos mais íntima e complexamente brasileiros. Daí ser Portinari tão teluricamente do Brasil como Cícero Dias, quanto Villa-Lobos, quanto Luís Jardim ou Santa Rosa. Daí um observador arguto, como o poeta Vinicius de Morais ter surpreendido há pouco na Bahia imagens e trechos de paisagem que o fizeram exclamar: “isso é Portinari!” E na Bahia não há imagens nem trechos de paisagem que não venha das entranhas do Brasil; que não resulte de longos processos de interpenetração de sangue e de culturas por um lado; e de excessos mórbidos de endogamia, por outro. Com esses processos longos de abrasileiramento se identificou de tal modo Portinari que sua melhor pintura tem gosto baiano: o gosto mais íntimo e concentradamente brasileiro que pode ter uma iaiá fina, uma mulher do povo, uma paisagem, uma igreja – e não apenas um vatapá ou um caruru. O Jornal Rio de Janeiro, 16 dezembro 1942 Gilberto.p65 113 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 114 27/05/2010, 16:01 OURO COMO COR CARACTERÍSTICA Uma importante revista trimestral americana dedicou, recentemente, um número especial à “arte sul-americana”. Nesse número, a arte brasileira, de modo algum, foi tratada como aqueles que conhecem bem toda a sua complexidade desejariam. O Brasil é frequentemente vítima de excessos, de simplificação, quando se fazem apresentações panorâmicas da cultura da América Latina ou América do Sul, quer se dê ênfase à arte, à educação, à organização política ou à economia. A razão disso parece ser a extensão continental e a diversificação regional da vasta república de língua portuguesa. Os organizadores das apresentações panorâmicas deste ou daquele aspecto da vida ou da cultura latina ou sul-americana, parecem ser excessivamente cautelosos em evitar críticas por dar mais atenção, mais espaço ao Brasil, sendo a vasta, e diversificada nação que é, fica sendo uma espécie de mártir desta espécie de rígida uniformidade e estrita imparcialidade de tratamento: não mais de vinte páginas para cada república ou, para cada uma, um capítulo, e nada mais; ou ainda, cada república representada por dez pintores, ou cinco escritores ou três cientistas. Isso parece explicar porque o número recente sobre a “arte sul-americana, daquela importante revista trimestral dos Esta- Gilberto.p65 115 27/05/2010, 16:01 116 GILBERTO FREYRE dos Unidos, é tão incompleto e deficiente em relação ao Brasil. De fato, o capítulo dedicado à pintura brasileira está todo concentrado apenas em torno do Rio e de São Paulo. Por exemplo, o crítico de arte, que escreve com tanta ênfase sobre o Brasil, salienta que considera “inexistente, praticamente, o surrealismo num país onde o povo gosta tanto de sonhar e tem tanta imaginação”. Parece que ele nada sabe sobre Cícero Dias, pintor de Pernambuco, agora residente em Paris, onde se diz que Picasso o considera mais importante, como pintor brasileiro, que Portinari. O crítico parece nunca ter ouvido nada sobre Lula Cardoso Ayres – também de Pernambuco, e notável por sua imaginação criadora, bem como por sua interpretação dos mitos regionais e do afro-brasilianismo, como as danças de carnaval próprias do Recife – danças que estão atualmente sendo analisadas por uma antropóloga dos Estados Unidos, Katharine Royal Cate. Apesar disso, vê-se o crítico americano da revista dos Estados Unidos, que recentemente dedicou um número à arte sul-americana, expressar seu lamento pela relativa ausência de motivos folclóricos na arte brasileira contemporânea. Ele também parece nada conhecer de Francisco Brennand – outro pintor pernambucano de imaginação, que encontrou inspiração para algumas de suas pinturas em motivos populares como as poéticas devoções a alguns santos no Nordeste brasileiro – ou de Genaro, Cravo, Carybé, Jenner (Bahia). Tanto Recife-Olinda como Salvador têm, presentemente, grupos de jovens artistas plásticos de extremo interesse – alguns deles, com Adão Pinheiro, em estreita ligação com seus colegas da África negra. A esses significativos artistas do Brasil, nem paulistas, nem cariocas, nenhuma atenção é dada pelo crítico de arte, que diz ter coberto a “arte brasileira” para a revista americana que dedicou, recentemente, um número especial à “arte sul-americana”. O mesmo crítico, apresentando “a Semana de Arte Moderna” de 1922, em São Paulo, como o equivalente do “New York Amory Show”, nada diz sobre Vicente do Rêgo Monteiro, que, também em 1922, trouxe, diretamente, de Paris para o Nor- Gilberto.p65 116 27/05/2010, 16:01 117 PENSAMENTO CRÍTICO deste, “possibilidades e ensinamentos” da Europa em matéria de arte moderna, contribuindo assim para fazer do Recife um centro de modernização das artes plásticas, de importância nacional. Foi característica deste movimento de modernização de arte do Recife, além de sua tendência revolucionário-modernista, a ênfase dada aos valores regionais, tendência diferente da maior parte dos modernistas de Rio-São Paulo, que davam mais importância aos aspectos cosmopolitas do que aos “provinciais”, “regionais” ou “telúricos”. Isso também explica porque, no Nordeste, pintores modernos e revolucionários, como Cícero Dias, alternaram tendências à pintura imaginativa e tendências a um ousado realismo social permanecendo alguns de seus quadros entre as mais vigorosas expressões de crítica social revolucionária já vistas na arte brasileira. Estas são figuras significativas da moderna arte brasileira e nenhum crítico tem o direito de as desdenhar. Como artista brasileira, Ladjane Bandeira pertence ao Recife, a Pernambuco, ao Nordeste, sem ser por isso estreitamente provincial ou regional. Sua arte é moderna. Mas ela adiciona ao seu modernismo uma vívida sensibilidade aos temas e valores regionais. Há outros pontos de contato entre sua arte e a de outros pintores brasileiros modernos de outras regiões. Nesse, como em outros aspectos da cultura brasileira, evidencia-se como esta cultura, a despeito da sua extensão continental, combina unidade nacional com diversidade regional. Ladjane Bandeira interpreta, em suas pinturas, sugestões tanto regionais quanto nacionais, com um modo de ser moderna caracteristicamente seu. Ela tem personalidade. Pertence àquele grupo de artistas modernos que não são exemplo da falta de estilo que, para um crítico como Roland Barthes, é uma tendência atual observável ao menos na literatura contemporânea. (Com certeza antes de admitir isso, teríamos que concordar numa definição de estilo). Considerando estilo como expressão pessoal, no sentido de o artista ser, assim pessoalmente, desta ou daquela escola ou seita, região, país ou período, há um estilo em Ladjane Bandeira. Apesar Gilberto.p65 117 27/05/2010, 16:01 118 GILBERTO FREYRE de ela certamente não ser seguidora sectária de “ismo” algum, universal ou regional, em arte (pois independência de “ismos” rígida é uma de suas características) ela, contudo, impõe com um estilo que tem em si alguma coisa de oriental. Como na obra de Noêmia (São Paulo), o desenho é proeminente na arte de Ladjane Bandeira. Ela não é exemplo algum a favor da tese de que a arte brasileira, para ser autêntica, tem que ser de cores e formas exuberantes, com o desenho quase inteiramente negligenciado. Conceitos de tropicalismos estão sendo revistos, para que admitam autênticas expressões de arte tropical, que não correspondem à ideia estereotipada de serem os artistas tropicais sempre mais do que exuberantes, em seu abuso de cores violentas. As cores de Ladjane Bandeira são brasileiras e tropicais, sem ser tão enfática ou violentamente vibrantes como as de Cícero Dias, Di Cavalcanti ou Jorge Tavares. Ela usa ouro como sua cor mais característica: daí o seu muito especial tropicalismo brasileiro. É um tropicalismo mais de um tipo oriental sofisticado do que de qualidade negra ou ameríndia primitiva. Os críticos que não encontram “sonhos”, “imaginação” e “motivos populares” na moderna pintura brasileira, deviam procurar conhecer a arte de Ladjane Bandeira: seus diabos medievais abrasileirados, tocando violas brasileiríssimas; suas deusas do mar afro-brasileiras (Iemanjás) de um brilho dourado oriental, às vezes quase bizantino; suas recriações orientalescas de mitos próprios do Brasil tropical. Sugestões orientais não são presença exótica na arte ou na cultura brasileira. Muito cedo em sua existência pré-nacional, o Brasil começou a receber influências orientais, semíticas, indianas, chinesas. Na pintura de Ladjane Bandeira, no uso que faz não somente de ouro, mas de pedras coloridas, parecidas com rubis, esmeraldas, safiras, que representam os olhos, os brincos, as bocas das misteriosas deusas que ela gosta de pintar, pode-se perceber sua estima pelos arquétipos orientais, que nada tem de exótico para um brasileiro. Ela é uma artista brasileira moderna cuja arte tem um valor cultural representativo, além do puramente artístico. Já que Gilberto.p65 118 27/05/2010, 16:01 119 PENSAMENTO CRÍTICO esta nota não é escrita por um crítico de arte, mas por um antropólogo e escritor, é fácil entender por que este valor cultural representativo da arte de Ladjane é assinalado. Sua arte tem valor estético independentemente de qualquer outra coisa. Mas é também significativa por suas implicações culturais mais amplas O Cruzeiro Rio de Janeiro, 24 de abril de 1966 Gilberto.p65 119 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 120 27/05/2010, 16:01 MESTRE PORTINARI E SUA SAGRADA FAMÍLIA As revistas ilustradas vêm publicando, a propósito do cinquentenário do grande mestre brasileiro de pintura que é Cândido Portinari, reproduções a cores de sua recente Sagrada família. Principalmente do seu menino Jesus. Nota-se nessas pinturas – as últimas, em grande escala, do artista admirável – a tendência do pintor para integrar-se quase de todo na pintura chamada realista. E quem diz pintura realista diz pintura em quase perfeita harmonia com o ambiente, com o meio, com a realidade nacional e regional do pintor. Donde me parece pouco realista um menino Jesus pintado no Brasil, por pintor brasileiro e para a igreja brasileira, tão convencionalmente louro que parece nórdico ou eslavo; e não hispânico, muito menos brasileiro. Creio que mestre Portinari está quase na obrigação dentro do seu realismo, aliás, magnífico, de recriar sua Sagrada família, tornando-a “nossa”, nacionalizando-a, abrasileirando-as, de acordo com os característicos de tipo ou figura humana dominantes no Brasil. Visitei, há dois anos, na Europa, uma exposição de arte sacra missionária, organizada com material em grande parte pertencente à Propaganda Fide de Roma; mas também a museus e instituições portuguesas e espanholas. Uma exposição Gilberto.p65 121 27/05/2010, 16:01 122 GILBERTO FREYRE impressionante pelo que revelou de ressurreição cultural entre populações outrora abafadas, oprimidas e contrariadas em suas espontaneidades de traje ecológico, de habitação regional e de expressão nacional de sentimentos ou emoções através de várias artes – a escultura, a pintura, a cerâmica etc. – e hoje corajosa na afirmação de todos esses seus estilos não europeus, embora cristãos, de vida e de religião. Um dos aspectos mais fortemente significativos dessa ressurreição ou insurreição cultural pareceu-me a tendência revelada por artistas cristãos do Oriente e da África no sentido de recriarem velhas tradições católicas desenvolvidas na Europa dentro de estilos europeus e de acordo com os elementos dominantes na composição de raças e culturas europeias, adaptando as substâncias dessas tradições a formas orientais e africanas de arte. Formas igualmente desenvolvidas de acordo com situações étnicas e culturais, orientais e africanas. Daí toda uma série de cristos, nossas senhoras, meninozinhosdeuses, santos, anjos, recriados de acordo com essas outras situações étnicas e culturais. Amarelos, pardos, pretos, morenos. Trajados ao modo oriental ou à maneira africana. Como que nascidos de novo em suas formas, embora eternos ou constantes e comuns ao Oriente e ao Ocidente na sua substância cristã. Nunca uma exposição de arte me impressionou mais do que essa. Não apenas pelo seu lado estético, como pela sua significação sociológica. Compreende-se, assim, que eu lamente na Sagrada família do mestre extraordinário, desde janeiro cinquentão – e cinquentão glorioso – que é Cândido Portinari, o aspecto convencionalmente nórdico ou subnórdico de sua concepção do menino Jesus e dos pais do menino Jesus: concepção em conflito com a realidade brasileira. Uma realidade de modo algum nórdica. Não que não existam louros no Brasil. Existem e brasileiríssimos. Mas o tipo dominante de menino, mulher e de homem é no nosso velho Brasil o moreno. O tipo moreno, o que deve ser consagrado pela arte que pretenda ser, em nosso país, ao mesmo Gilberto.p65 122 27/05/2010, 16:01 123 PENSAMENTO CRÍTICO tempo realista, nacionalista e socialista, como é, segundo suponho, o caso da arte de mestre Portinari... Isso de mulheres louras é para a arte dos realistas flamengos. Ou para a dos realistas escandinavos. Ou para a dos realistas eslavos. Madonas, cristos e meninos jesus devem ser recriados por pintores brasileiros de acordo com a realidade brasileira. De acordo com o tropicalismo e o melanismo brasileiros. E não dentro de convenções europeias que nos coloquem na situação de passivos coloniais e inermes subeuropeus. Contra essa situação é que vem se erguendo a arte mais expressiva, mais corajosa e mais anti-imperialista do oriente e das Áfricas – mesmo quando cristã. Mesmo quando ortodoxamente católica. Outro não deve ser o sentido atual da arte mais genuinamente brasileira. Jornal do Commercio Recife, 7 de março de 1954 Gilberto.p65 123 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 124 27/05/2010, 16:01 PINTURA, BRASIL E TRÓPICO Os que hoje nas praias elegantes se expõem ao sol – é claro que protegidos por uma como que cortina macia de óleo ou loção contra queimaduras solares e deixando-se atingir na pele apenas pela quantidade exata de raios ultravioletas necessária àquele “belo queimado da pele” exaltado pelos modernos mestres de beleza e elegância, para os quais é não só feia como humilhante a chamada “cor de escritório” ou de “peru frio” dos brancos inteiramente brancos – devem lembrar-se de que, nesse processo de amorenamento de corpo, que representa uma das modernas e mais ostensivas homenagens da Europa aos trópicos, precedeu-os não nenhum Beau Brummel mas um missionário português do século XVI ávido de integrar-se na condição física de tropical: João de Brito. Pioneiro, por conseguinte, daquela condição lusotropical de corpo e não apenas de ânimo que fez um século depois desse missionário – hoje santo da Igreja – o padre Labat observar na África, também tropical, que ali se encontravam portugueses de várias cores: mas todos portugueses. Todos cristãos. Todos portadores de luso-cristianismo. Na verdade, lusotropicais como lusotropicais são atualmente os brasileiros de várias cores que compõem uma das populações mais étnicas e esteticamente diversificadas do mundo, com uma variedade de tipos de beleza de mulher e de formas de homem Gilberto.p65 125 27/05/2010, 16:01 126 GILBERTO FREYRE que torna difícil de dizer-se qual deles é o mais representativamente brasileiro. Todos, porém – desde o gaúcho ao paulista, do fluminense ao pernambucano, do baiano ao paraense, do mineiro ao alagoano – com a tendência para se estabilizarem numa cor tropical ou quase tropicalmente morena de pele ou de corpo, que parece ter-se já tornado tão representativa do Brasil, quanto a pele branca de neve, do homem e, principalmente, da mulher da Suécia. Daí a crítica que há pouco ousei levantar às virgens, aos santos, e às sagradas famílias que vêm pintando entre nós grandes mestres da pintura não só mural como de retrato. Suas virgens, seus santos, suas sagradas famílias vêm sendo sistematicamente louras, róseas, albinas; a negação, portanto, dos tipos de mulher, de homem e de menino predominantes no Brasil. Predominâncias que os pintores brasileiros de feitio realista e nacionalista estão quase na obrigação de comunicar aos seus murais e aos seus painéis de igreja, antes simbólicos de predominâncias nacionais que expressivos de exceções subnacionais. O cristianismo deve, no Brasil, refletir uma realidade que, condicionada pela predominância de nossa formação lusotropical, é étnica e culturalmente uma realidade extraeuropeia, caracterizada por predominâncias de tipo físico e de substâncias de cultura modificadoras de formas europeias de civilização e que nos vem afastando do que há de castiçamente europeu nas tradições do cristianismo medieval para nos aproximar de suas origens e projeções extraeuropeias. E as origens e projeções extraeuropeias do cristianismo nos aproximam das origens tropicais de muitos dos valores da nossa cultura lusotropical: inclusive a idealização de “vária cor” exaltada por Camões. “Vária cor” de homem, de mulher, de criança, de paisagem, de mar, de céu, de terra, de barro, que só nos trópicos se revela aos pintores na sua plenitude com a predominância, porém, das cores ardentes sobre as nuances excessivamente delicadas ou sutilmente “verlaineanas”. Não se pretende, é claro, para a pintura ou a música ou a literatura que se produza no Brasil, a situação de servas de um sentido rigidamente nacionalista de vida ou de convivência. Gilberto.p65 126 27/05/2010, 16:01 127 PENSAMENTO CRÍTICO Mas a verdade é que, dentro dos estilos nacionais de organização social que hoje condicionam o viver dos homens no Ocidente e no próprio Oriente nacionalizado nas suas culturas e até em algumas das suas subculturas, pintura, arquitetura, escultura, música, língua, literatura, sendo meios de expressão individual de artistas, são também sociais e ao mesmo tempo nacionais ou regionais em sua correspondência com a predominância de ambiente, caracterizadas por configurações nacionais ou regionais de cultura. Sendo assim, deixa de nos comunicar aquilo que Mário de Andrade chamava de “sensação de coisa nacional”, a Nossa Senhora que aqui se pinta hoje, para devotos brasileiros, sob a forma de uma bela mulher nórdica com seu meninozinho-Deus também branquíssimo, louríssimo, flamenguíssimo. É, como se nos confessássemos incapazes de assimilar o cristianismo à realidade social e cultural brasileira, como o vem assimilando às suas realidades sociais e culturais chineses, indochineses, japoneses, indianos, africanos. Revista Sul América Julho, agosto e setembro de 1954 Gilberto.p65 127 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 128 27/05/2010, 16:01 ARTE E CIVILIZAÇÕES TROPICAIS Estamos deficientes, os brasileiros, em várias artes e técnicas de adaptação do homem civilizado a condições tropicais de vida. Uma dessas artes ou técnicas – volto a este ponto – é a do vestuário. Outra – nova insistência que espero seja bem compreendida pelo leitor – é a da casa simples, barata, ecológica, tanto urbana como rural, para o trópico: problema na solução do qual arquitetos indianos, israelenses, colombianos, estão se adiantando aos brasileiros e recorrendo, mais do que estes, à cooperação de sociólogos, antropólogos e economistas. Na solução do problema do vestuário ecológico para o trópico, árabes, indianos e cubanos talvez estejam se adiantando aos brasileiros. Daí a importância dos experimentos do paulista Flávio de Carvalho em torno de um problema aparentemente só de higiene mas na verdade, também de arte; e arte de especial interesse para um antropólogo ou um sociólogo que, mais que tecnocraticamente sociológico, seja um humanista nas suas perspectivas. Creio que entre nós a camisa por fora das calças do matuto é uma sobrevivência indiana. Uso oriental adotado pelo português antigo, introduzido por ele no Brasil e que deve ser recuperado, pois o estudo científico do assunto muito condena o cinto ou o cinturão. O slack como o pijama é evidentemente tropicalíssimo no moderno trajo ocidental de verão que mostram que Gilberto.p65 129 27/05/2010, 16:01 130 GILBERTO FREYRE europeus do Norte e anglo-americanos começam a dar seu apoio, com um retardamento de séculos, ao português dos séculos XVI e XVII: pioneiros nesta como noutras espécies de tropicalismo. Devo dizer que me ocupei há pouco do assunto, perante uma elite mundial de sábios, alguns dos quais consideram hoje a ciência social brasileira tão original, nas suas contribuições para a ciência social geral, como a arquitetura dos Niemeyer e as músicas dos Villa-Lobos, para a arte moderna. Foi isto em trabalho apresentado à Reunião Mundial de Sociólogos, em Amsterdam, em 1956, à qual compareci – recordo de novo, tal foi a distinção que nessa reunião se dispensou ao Brasil – por ter sido, com o alemão Von Wiese, um dos quatro convidados especiais dos seus organizadores, para redigir um dos quatro trabalhos principais ou básicos da reunião. O professor Gurvitch, que era, como se sabe, russo, embora depois naturalizado francês e professor da Sorbonne, informoume que a parte daquele meu trabalho, redigido e publicado em inglês, sobre a sociologia ecológica dos trópicos – inclusive a sociologia do trajo – muito impressionara os sociólogos e antropólogos russos que pela primeira vez, desde 1913, se juntaram na Holanda, naquele ano, aos seus colegas de outros países, para a consideração em conjunto de problemas sociológicos e antropológicos. É claro que no Brasil essa espécie de participação brasileira, na reunião de sociólogos de Amsterdam, não teve a mínima repercussão. Aliás, o que se vem dizendo de melhor, há anos, entre nós, sobre esse e outros problemas de ecologia tropical, não tem tido a menor repercussão; e só a terá quando as ideias ou sugestões de pensadores e homens de ciência brasileiros forem adotadas pelo estrangeiro e consideradas originais por europeus e americanos. O Brasil é uma terra de bonzinhos que não chegam a apedrejar os seus profetas: requintam-se apenas em não tomar conhecimento deles, embora exaltando por vezes chantagistas e até escroques. Compreende-se assim que o engenheiro Flávio de Carvalho, ao meu ver, um brasileiro moderno tão importante como Oscar Niemeyer, te- Gilberto.p65 130 27/05/2010, 16:01 131 PENSAMENTO CRÍTICO nha dado às suas ideias sobre o trajo adaptável ao clima brasileiro um aspecto meio carnavalesco. O brasileiro médio não falha nunca em interessar-se pelo que lhe cheire ou a carnaval ou a mágica. Tanto adora os carnavais de toda espécie – os artísticos e os apenas acanalhados – quanto despreza aqueles esforços inteligentes e sérios que se desenvolvam sem guizos e sem passes de mágica. Basta que se considere a pouca atenção que se dá entre nós à obra de um Nelson Rodrigues, de um Cesar Lattes, de um Fróes da Fonseca, de um Osvaldo Gonçalves Lima, de um Nelson Chanes, de um Ruy Marques. E não me parece exagerado dizer-se de Oscar Niemeyer, de Lúcio Costa, de Carlos Drummond, e do próprio Villa-Lobos, de um Nelson Rodrigues, de um Guimarães Rosa, de um José Lins do Rego, que são hoje mais admirados no estrangeiro do que no Brasil, que tão pouco soube fazer justiça a um Vital Brasil ou a um Roquette Pinto. O paulista Flávio de Carvalho fez bem – repito – em juntar aos seus experimentos sobre o trajo, que são experimentos inteligentes e merecedores da melhor atenção brasileira, alguma coisa de carnavalesco. Como psicólogo, que era, conhecia o Brasil. E o Brasil precisa começar a interessar-se pelo problema do trajo ecológico para o trópico. Precisa aperceber-se da importância que há, para o brasileiro, em antecipar-se a outros povos na solução desse problema, como se antecipou, de modo inesquecível, na solução do problema da dirigibilidade dos balões e do próprio aeroplano. Mestre Flávio – pois foi incontestavelmente um mestre – poderia ter ido além dos seus arrojos individuais; e fundado em São Paulo um centro que se especializasse no estudo do problema sob vários aspectos – inclusive o da fibra mais conveniente para o tecido do trajo ideal para o trópico. Também o problema da cor ou das cores mais próprias para esse trajo poderia ir sendo considerado experimentalmente num tal centro. E o econômico. O psicossociológico do trajo duplo: um para o sexo masculino, outro para o feminino, sem serem esquecidos os trajos mais adequados à criança, ao menino, ao adolescente: talvez as principais víti- Gilberto.p65 131 27/05/2010, 16:01 132 GILBERTO FREYRE mas, nos trópicos, do vestuário antiecológico. Também os trajos de trabalho, entre nós, copiados passivamente dos europeus e anglo-americanos, precisam sofrer completa revisão, voltando-se à tentativa do por algum tempo presidente Jânio Quadros. Aliás, se o centro cuja conveniência ou necessidade aqui sugiro não se fundar em São Paulo, então no Seminário de Tropicologia que há anos funciona na Universidade Federal de Pernambuco, poderá se desenvolver, dentro do estudo comparado das diversas situações tropicais em que o homem desenvolve atualmente civilizações, rivais das europeias sob vários aspectos, pesquisas em torno do problema do vestuário para o trópico. Pois é problema que deve ser tão importante quanto o da casa, o do móvel, o do alimento, o das artes plásticas e o da recreação ecológica para o trópico: os principais problemas que continuarão a ser estudados nesse pioneiro seminário, com que o Brasil está avivando sua presença nos modernos estudos científicos e humanísticos sobre o homem e as suas civilizações. Avivando essa presença como centro de estudos ecológicos e antropológicos de caráter tropicológico: o primeiro esforço sério no sentido da sistematização de uma necessária tropicologia. Dentro dessa tropicologia é natural, que para nós, brasileiros, tenham particular interesse os estudos em conjunto de problemas comuns às populações e áreas do complexo por alguns de nós denominado luso-tropical, de civilização que, aliás, é parte de um complexo maior: o hispano-tropical. Problemas de sociologia da arte como o da casa, o do vestuário, o do móvel, o do transporte, o do penteado artístico ou estético são dos que mais continuarão a trair a atenção dos componentes de um instituto de tropicologia ao mesmo tempo que de Antropologia, como o já estabelecido no Recife. De especialíssimo interesse para o brasileiro, empenhado no estudo de tais problemas, é a contribuição que nos venha das áreas do Oriente e da África mais marcadas pela presença hispânica. Ou pela latina de modo mais abrangente e à qual se vem mostrando tão sensível o presidente Senghor do Senegal. Foi, em grande parte, em conjunto com essas populações e sob Gilberto.p65 132 27/05/2010, 16:01 133 PENSAMENTO CRÍTICO influências – as hispânicas, as latinas, além das negras e ameríndias – que se formou a população brasileira, do ponto de vista da adaptação dos seus estilos de casa, de vestuário, de móvel, de transporte, a condições tropicais de vida. De Angola já se tem dito que foi, por algum tempo, mais colônia do Brasil que de Portugal. Houve um sistema de relações entre as três áreas que pode ser, com efeito, denominado triangular. Essa figura de geometria sociológica chegou, porém, a reduzir-se a relações de tal modo complementares entre as duas mais fecundas áreas tropicais de formação portuguesa que a presença de Portugal, em relações assim intertropicais e complementares de gentes predominantemente lusitanas nos seus motivos de vida e nos seus estilos de civilizações, tornou-se apenas uma inspiração vinda de longe, embora sempre atraente. A civilização que mais atuou sobre a Angola, do século XVII ao começo do XIX, foi a luso-tropical, já firmada no Brasil, sem que com isto sofresse o sistema luso-tropical de comunidade em suas condições essenciais de todo político ou de conjunto cultural. Tal complementaridade brasileiro-angolana se estendeu a influências de caráter artístico. A Angola, ainda hoje, em suas subáreas mais antigas, o atesta. Suas igrejas e seus sobradões acusam, nessas áreas, influências brasileiras ao lado das puramente portuguesas. É outro assunto que está a merecer estudo sistemático e minucioso, o dessa influência de arte brasileira sobre as subáreas mais antigas da Angola: estudo que se realize sob critério humanisticamente sociológico ou antropológico-cultural ou histórico-social. Diante da necessidade de tais estudos, não há quem não se aperceba do fato de não ser luxo para o Brasil o desenvolvimento do ensino, nas suas principais universidades, de uma sociologia da arte, ou das artes, que comece por estender suas pesquisas de campo ao complexo hispano-tropical de civilização. Pois parece haver expressões de arte comum às várias áreas tropicais de formação espanhola ou portuguesa, ou latina, que, talvez só estudadas sob critério assim unificador, ou unificado, do que nelas sejam formas sociológicas, além de formas artísti- Gilberto.p65 133 27/05/2010, 16:01 134 GILBERTO FREYRE cas, adaptadas a substâncias étnicas e ou a solicitações econômicas, sociais, culturais e, até certo ponto, ecológicas, diversas, se apresentem em sua integridade. De certas expressões de arte religiosa ou de arquitetura doméstica ou civil que vem marcando há séculos a paisagem de subáreas mais antigas de Angola, é evidente que perdem sua integridade artística ou sua significação cultural aos olhos de quem insista em estudá-las à parte daquele complexo; ou em relação apenas com Portugal; ou em conexão somente com a Europa. Talvez em nenhum campo de estudos o critério de se estudarem as várias expressões de cultura de origem hispânica, no sentido ibérica, uma humanística e não apenas tecnocraticamente sociológica, que se encontram em diferentes áreas tropicais, sob o critério de constituírem expressões de um só complexo – o hispano ou latino-tropical – seja mais fecundo, do que no campo de sociologia da arte. Há nesse campo muito problema interessante a ser esclarecido por quem saiba ver em manifestações artísticas, além do que nelas seja, senão superiormente estético, estético tão somente, suas relações com os conjuntos regionais de cultura em que apareceram; nos quais floresceram ou vem florescendo; dos quais de algum modo dependeram – ou ainda dependem – para sua interpretação ou para sua compreensão. E não só com esses conjuntos regionais: também suas relações com os complexos transregionais de comunicação ou de cultura formados por esses vários conjuntos regionais, como é o complexo hispano ou luso-tropical de cultura ou de civilização livre de qualquer resíduo imperialista. Assim como valores de arte, sob o aspecto de novas combinações de formas europeias com substâncias – ou com substâncias já estilizadas em formas – orientais, de cultura, foram trazidas do Oriente para o Brasil por um ibero ou hispano como que de corpo e alma empenhado em fixar-se com amor, e não por simples ou pura sede de domínio imperial, em tudo que fosse terra quente ao seu alcance, valores de arte, sob o aspecto de novas expressões daquelas combinações já experimentadas ou realizadas no Brasil, foram levados pelo mesmo Gilberto.p65 134 27/05/2010, 16:01 135 PENSAMENTO CRÍTICO ibero, ou por seu descendente ou continuador brasileiro e às vezes mestiço, do Brasil para a África, especialmente para a Angola. Até ex-escravos africanos, de regresso à África, foram cúmplices desse ibero ou de seu descendente, nesse processo de transculturação, em que os valores dinâmicos, modificadores de culturas relativamente estáticas, foram valores já mistos: valores europeus adaptados aos trópicos, através de suas novas combinações de formas europeias com substâncias ou condições tropicais: ou através de novas combinações de formas europeias com formas potentemente, fecundamente, criadoramente tropicais. Da influência do Brasil sobre a Angola até o meado do século XIX, escreveu recentemente um estudioso inglês de coisas angolanas, que chegou a significar, a tal ponto, abrasileiramento do teor de vida luso-angolana que “life in Luanda was like life in a Brazilian city”. Daí sua generalização um tanto enfática de terem sido relações “extraordinarily close relations”, quando o fato nada tem de contrário às normas portuguesas de expansão europeia nos trópicos: apenas tornou evidente desde o século XVII, a capacidade, que madrugou no descendente de português antes de amadurecer no do inglês, de organizar-se, fora da Europa, em sistema transregional de cultura, quase independente de tutela europeia, embora persistentemente europeu em vários dos seus motivos de vida e nas suas mais características formas de arte. Isto pelo fato de até governadores gerais de Angola, nomeados por Lisboa, terem sido, no século XVII, brasileiros como André Vidal de Negreiros. Donde nada haver de estranho no fato de terem-se edificado em Luanda, além de igrejas – a de Nossa Senhora de Nazaré, por exemplo –, palácios e sobrados – o de Dona Ana Joaquina, construção já do século XVIII, entre outros – com alguma coisa de brasileiro no seu modo tanto externo como internamente artístico de serem igrejas, palácios e residências nobres de portugueses em terra tropical. Recebendo do Brasil valores de arte, em particular, e de cultura, em geral, que já representavam adaptações de civilização europeia a condições tropicais de clima e de existência, a Angola beneficiou-se da experiência portuguesa na América do Gilberto.p65 135 27/05/2010, 16:01 136 GILBERTO FREYRE mesmo modo que o Brasil já se beneficiara da experiência portuguesa no Oriente. Essas sucessivas apropriações, desde o século XVI, de valores já experimentados, no Oriente ou no Brasil, por novos e aventurosos grupos, mistos na sua cultura, parte europeia, parte tropical, representaram o começo de uma política cultural da parte dos portugueses, da qual pode-se hoje afirmar ter decorrido, por um lado, o que pode ser talvez considerado um quase “sistema português de política indígena”, que vem consistindo num processo de lenta integração de nativos dos trópicos no grupo social colonizador; por outro lado, o que venho denominando desde 1951, civilização luso-tropical. Inclusive – acentue-se – um conjunto de artes marcadas pelo mesmo caráter simbiótico e desenvolvidas, em grande parte, por transplantações sociologicamente culturais de uma área para outra, entre as várias que constituem a comunidade luso-tropical. O historiador inglês Charles Boxer, numa das suas melhores páginas de síntese do que foi a ação portuguesa no Oriente de 1500 a 1800, salienta terem os lusos se deixado influenciar na sua arte pelos estilos asiáticos de decoração de cerâmica e de móvel; pelos tapetes e tecidos; pelas sedas e porcelanas; e que vários objetos de arte oriental foram por eles trazidos do Oriente para as áreas por eles ocupadas na Ásia e na África. E também na América. Não devemos, entretanto, nos esquecer de que a marcha dessas influências parece ter sido principalmente no sentido não só Oriente-Europa como no sentido Europa orientalizada-trópico americano; e também no sentido direto Oriente-trópico americano, ao qual se seguiu a nada insignificante fase de abrasileiramento, também direto, da Angola pelo Brasil: a marcha no sentido trópico americano– trópico-africano, com a transferência, para a Angola, assim como para São Tomé, de valores de cultura – inclusive valores de arte – já experimentados no Brasil. A propósito do quê, temos que admitir a possível influência dos alpendres em frente ou em torno de igrejas e capelas portuguesas que se desenvolveram como que sistematicamente na Índia tropical como tendo sido a influência que principalmente se fez sentir em capelas brasi- Gilberto.p65 136 27/05/2010, 16:01 137 PENSAMENTO CRÍTICO leiras, no sentido da relativa generalização entre nós dos mesmos alpendres de feitio antes doméstico ou patriarcal que eclesiástico; e que o professor Robert Smith pretende terem refletido, no Brasil, sugestões apenas europeias, como a do Palácio Episcopal de Viseu, a da Universidade Jesuítica de Évora e a das residências jesuíticas de Elvas e Ponta Delgada. Dificilmente pode alguém ser enfático ou dogmático na caracterização de tais influências, tratando-se de um sistema de cultura transregional como foi o português, em que as tendências patriarcais de organização social e de definição cultural dos vários grupos de origem lusitana espalhados pelos trópicos em formas de adaptação de vida europeia à ecologia tropical ou quase tropical, por vezes superaram, em vigor, as tendências oficiais ou metropolitanas no mesmo sentido; e em que nem sempre foram diretas, de Lisboa ou Portugal, as influências civilizadoras que se manifestaram entre essas populações, sob a forma de combinações de valores europeus com valores ou, simplesmente, com condições tropicais de existência ou de convivência. Ao arquiteto Fernando Batalha, autor de A arquitetura tradicional de Angola (Luanda, 1950), não escaparam as semelhanças de arquitetura angolana com a brasileira. É assunto a ser estudado com maior minúcia. Da pesquisa para o esclarecer poderia encarregar-se um arquiteto-historiador como o próprio Fernando Batalha, a quem fosse dada a oportunidade de vir comparar seu conhecimento de igrejas e edifícios antigos da Angola com igrejas e edifícios antigos do Brasil, que ele viesse estudar de perto. O Museu de Arte, de São Paulo, bem poderia ter a iniciativa de facilitar esse estudo. O que parece a alguns de nós, que estudamos sob critério antropológico ou sociológico, histórico ou político, artístico ou humanístico, o complexo de civilização formado pelos vários grupos de portugueses descendentes de portugueses e continuadores ou modificadores de portugueses, fixados ou estabelecidos nos trópicos, é que nenhum aspecto desse complexo se deixa verdadeiramente esclarecer, a não ser quando estudado em relação com o todo de que faz parte. Isto é tão certo do que é imaterial Gilberto.p65 137 27/05/2010, 16:01 138 GILBERTO FREYRE como do que é material – inclusive sob a forma de arquitetura, escultura, pintura e até literatura – no mesmo complexo de civilização. Tais sugestões acompanham, com insistência, o homem de estudo brasileiro que considere a importância do estudo sociológico das Áfricas marcadas pela presença portuguesa para a análise e a interpretação, em conjunto, de tipo de civilização de que o Brasil parece ser hoje líder – a civilização luso-tropical. Líder, inclusive, das suas artes, atualmente em pleno desenvolvimento. Não é menor a importância com que se apresenta, ao mesmo homem de estudo, o Oriente português, do qual o Brasil recebeu valores ou inspirações de considerável interesse para o desenvolvimento de suas artes mais caracteristicamente tropicais. E ao qual deve dispensar atualmente atenções de caráter cultural. O Oriente português não foi ainda estudado sociologicamente, nem sequer historicamente, do ponto de vista de suas relações econômicas, em particular, e de cultura, em geral – algumas de verdadeira interdependência – com a América portuguesa: com o Brasil. É um estudo a ser feito por alguém que, conhecendo profundamente a situação brasileira e seus antecedentes europeus, ameríndios e africanos, se disponha a um convívio íntimo com aquele Oriente especificamente português e com as áreas suas vizinhas, para que, através desse convívio íntimo, acompanhado de estudo sistemático do assunto, possa o estudioso vir a distinguir e fixar as principais daquelas relações de interdependência, dentro das gerais, de influência recíproca, que se vêm verificando durante um período já de alguns séculos. Entre as relações de influência recíproca entre esses dois espaços – o Oriente e o Brasil – essenciais à compreensão do que foi a projeção da cultura portuguesa nos trópicos – projeção de que resultou o que alguns denominam hoje um tipo simbiótico de civilização, a saber, a luso-tropical, já de algum modo desenvolvida em várias partes da África – ocupam lugar importante as relações de troca ou intercâmbio de valores da natureza: árvores e plantas que o português transferiu do Ori- Gilberto.p65 138 27/05/2010, 16:01 139 PENSAMENTO CRÍTICO ente para a América tropical do mesmo modo que transferiu da América tropical para o Oriente plantas e árvores hoje tão em harmonia com as paisagens orientais, a ponto de nos darem a ideia de sempre terem florescido no Oriente. O caso do cajueiro, por exemplo, que aliás constitui, sob a forma de castanha beneficiada, uma das bases mais consideráveis do sistema atual de comércio da Europa e dos Estados Unidos com algumas das áreas orientais. A voltar ao estudo, ou à simples consideração, das relações de significado econômico, do Brasil com o Oriente – especialmente com o Oriente português – e de suas decorrências sociais e culturais com o aspecto artístico dessas decorrências como o nosso principal centro de interesse, terá o estudioso de procurar repercussões do cajueiro, do caju, da castanha do caju, como forma, cor, sabor, sobre as várias expressões de arte que se vêm desenvolvendo no Oriente como expressões de civilização luso-tropical. Tais repercussões é evidente que existem como, no lado do Brasil, existem as do coqueiro-da-índia, as da mangueira, as da caneleira, as da árvore de fruta-pão, as da carambola, as de outras frutas, plantas e árvores orientais, sobre expressões várias de arte, quer erudita, quer popular, sem excluirmos de arte as expressões de estética culinária, quer na elaboração de quitutes que possam ser considerados artísticos pelo primor de sua confecção, quer na apresentação e decoração, sob formas e cores atraentes, dos mesmos quitutes. Outras repercussões, sob formas diversas de arte de produto de natureza brasileira levado pelo hispano e em particular, pelo português para o Oriente, são as que se referem a caixas de rapé e a cachimbos. Merecem elas cuidadoso estudo do mesmo modo que está a merecer a repercussão de motivos brasileiros de natureza e de cultura em artes caracteristicamente orientais e luso-orientais como a da porcelana, a da escultura em marfim, a do leque, a do bordado. Por outro lado, ainda não se fez estudo sistematicamente sociológico ou antropológico da repercussão de motivos, símbolos e valores orientais, e das próprias artes orientais, de cerâmica, de bordado, de colcha, de tapete, de esteira, de sandália, Gilberto.p65 139 27/05/2010, 16:01 140 GILBERTO FREYRE de jarro, de habitação, de recreação, de decoração, de alimentos, de adorno pessoal (ouro, prata, lantejoulas, véus), de vestidos, de brinquedo de criança, de culto religioso, de liturgia social, de transporte, de cama, de móvel, em geral, sobre as várias formas de arte ligadas a diferentes atividades dos portugueses que primeiro se estabeleceram nos trópicos ou as diversas zonas de convivência ou aos diversos modos de existência humana, que se vem desenvolvendo dentro da civilização lusotropical do Brasil. Lembremo-nos que algumas dessas formas, antes de se desenvolverem no Brasil, madrugaram no Oriente fecundado pela presença hispânica, em geral, ou pela portuguesa, em particular. O português no Oriente foi, através da Inquisição, um opressor de populações e culturas orientais. Mas quase que só através da Inquisição e de métodos inquisitoriais de expansão católica, de doutrinação, de europeização, de catequese. Tal sistema e tais métodos representaram apenas um aspecto de presença luso-católica no Oriente; e não essa presença em sua totalidade, como tem pretendido alguns críticos mais veementemente antiportugueses e anticatólicos da ação lusitana naquela parte do mundo. O católico português quase sempre tolerou práticas, costumes e ritos acatólicos e orientais, alguns dos quais foram assimilados ao culto Católico e aos estilos portugueses de convivência, sob formas de adaptação à cultura e às tradições europeias. Tais assimilações ou contemporizações por vezes em combinações de interesses artísticos ou de valor estético, além do que representaram de vantajoso como acomodação social. Por terem adotado valores orientais de vestuário, adaptando-os a formas europeias, em alguns casos com um máximo de transigência com o exótico – “exótico” que já representava formas de vestuário ecológico, harmonizado a condições tropicais de vida – o português recebeu, no século XVII, críticas severas de ingleses, para os quais essa transigência significava desprestígio para a civilização europeia e para a raça branca nos trópicos. Aliás, não se compreende que estejam hoje reformadores do Egito e reformadores do clero católico – da Gilberto.p65 140 27/05/2010, 16:01 141 PENSAMENTO CRÍTICO sua indumentária – a quererem impor a homens do trópico as calças ocidentais até a sacerdotes quando está cientificamente provado que o trajo ecológico de homem para os países quentes é o que evite as mesmas calças e modernize de algum modo o camisolão, a toga, a própria tanga. Ou as saias-calças que se encontram em algumas áreas tropicais. A tolerância portuguesa de credos e costumes orientais diferentes dos católicos e europeus nunca representou falta de interesse, de simpatia, de preocupação pelas populações orientais, quer hindus, quer persas, quer maometanas, quer budistas. Houve sempre, da parte desse europeu ibérico, o afã de transmitir a esses grupos não europeus valores cristãos e europeus, considerados por ele essenciais ao bem-estar humano. Daí terem-se verificado, nas áreas do Oriente marcadas pela presença lusitana, em contraste com manifestações de intolerância teológica de parte do português numerosas combinações de valores europeus com não europeus, cristãos com nãocristãos, que tomaram o aspecto de novas expressões culturais, constituindo essas expressões grande parte do que se pode denominar hoje civilização luso-tropical. Ainda agora, porém, pode se ver no Oriente português muita diversidade dentro da unidade luso-tropical, que é uma unidade plástica, flexível, compreensiva e de modo algum monolítica ou hierática ou inflexível. Daí o pitoresco de que vários europeus se têm regalado ao tomarem contato com populações luso-tropicais do Oriente, em grande número vestidas de um modo que não sendo o europeu já não é puramente oriental, embora se vejam também indivíduos trajados puramente à europeia, outros, ortodoxamente à oriental, com cores simbólicas de diferentes castas e credos; e muitos, de fino, fresco e leve brancos. São ainda várias as túnicas ou os vestidos soltos, à maneira de túnicas ou de togas, ostentados pelos próprios indivíduos do sexo masculino. E não são poucos, dentre esses indivíduos, os que nos dão a impressão de ostentarem não só o trajo como o tecido ideal para os dias mais quentes naquelas terras tropicais. O que é sem dúvida exato do sari das indianas. Gilberto.p65 141 27/05/2010, 16:01 142 GILBERTO FREYRE A essa diversidade de costumes é evidente que chegou a corresponder considerável liberdade de expressão tanto religiosa como artística. E fato significativo a esse respeito foi o do túmulo – suntuosa obra de arte europeia – de São Francisco Xavier, em Goa, ser objeto de um culto cristão a que se tem associado orientais de outros credos, para os quais o santo católico teria sido, através de séculos, expressão de uma superioridade de espírito digna do seu respeito religioso. Entretanto, há cristãos ou católicos na Índia – indianos puros – que me pareceram de tal modo intransigentes em seu modo de se considerarem uma ilha no meio de um oceano de credos não cristãos, ou acatólicos, que não me foi difícil, em contato com eles, encontrar explicação para aqueles casos de intensa intransigência católica que foram no Brasil, enquanto aqui viveram jesuítas como padre Antônio Fernandes, indiano de Goa. Tanto a essa fé assim intransigente, como àquele cristianismo contemporizador – ao mais caracteristicamente português deve-se uma variedade de manifestações artísticas que, partindo do Oriente, têm vindo enriquecer ou influenciar a arte cristã noutras áreas de civilização luso-tropical. Um dos aspectos mais interessantes dessa arte mista ou simbiótica tem sido o que vem dando substâncias étnicas não europeias a símbolos e formas europeias de culto cristão. Inclusive a escultura e a pintura de Cristo, madonas, meninos jesus, santos, com característicos orientais de fisionomia e dentro de roupagens ou trajos orientais. Trajos não só opulentos como típicos de ofícios diversos – o de oleiro, o de cesteiro, o de tecelão, o de ourives, o de marceneiro, o de escultor em marfim – certo como é que no Oriente Português, tem havido, neste particular, alguma aculturação, evidente em trajos de camponeses e artífices, tocados, quando cristãos, de influências ibéricas, que devem remontar a dias remotos. Nesses dias, artífices europeus foram levados de Portugal para o Oriente, ao mesmo tempo que artífices orientais foram trazidos a Portugal para criar escolas de seus ofícios ou fazerem aprendizes europeus de suas especialidades. Distinguiram-se então os artífices, mestres na arte do móvel de madeira rendilhada, Gilberto.p65 142 27/05/2010, 16:01 143 PENSAMENTO CRÍTICO que se sabe ter influenciado o mobiliário brasileiro. Ainda hoje se vê na Índia portuguesa casas de residência como a da família Rebelo, perto de Goa, notáveis por seus móveis de madeira rendilhada, seus lustres, suas porcelanas de Macau, seus tapetes – luxos de nababos que do Oriente português e tropical se comunicaram senão sempre diretamente, através de Lisboa, à América igualmente lusitana e igualmente tropical. Sobre a arquitetura da parte portuguesa da América já é sabido ter sido considerável a influência de valores e de técnicas orientais assimiladas pelos portugueses, à base do que já havia de mourisco em sua arte de construção e em sua higiene doméstica adaptadas ao calor, à luz, ao clima tropicais ou quase tropicais. Talvez deva ser considerado luso-indianismo o já referido alpendre na frente ou em redor de igrejas ou capelas, muito frequente na Índia portuguesa e que no Brasil colonial caracterizou várias construções religiosas, dando-lhes condição ecológica e ao mesmo tempo aspecto menos de capelas que de acolhedoras residências patriarcais. O que não se comunicou do Oriente ao Brasil foi o costume dos cemitérios como que alpendrados ou cobertos por vastos telheiros, como proteção dos túmulos contra as fortes chuvas tropicais. Nem esse costume nem o de se atribuir uma importância tal aos túmulos de família que alguns são na Índia Portuguesa, como aliás noutras áreas orientais, monumentos nos quais particulares gastam somas consideráveis: verdadeiras fortunas. A alguns desses túmulos se juntam suntuosos monumentos comemorativos de mortos queridos, próximos a casas de residência de seus descendentes: tais os monumentos que se veem em frente à casa de velha família indo-portuguesa, os Menezes Bragança, que visitei em Goa; e que é, como a casa dos Rabelos, exemplo de uma arquitetura senhorial parenta da de casas-grandes assobradadas do Brasil. Notei que uma de suas dependências era a especialmente destinada a abrigar o palanquim da família: peça artisticamente trabalhada. Em visita a outra residência do interior de Goa – esta de hindu importante – observei guardar uma de suas dependências curioso andor, também artisticamente tra- Gilberto.p65 143 27/05/2010, 16:01 144 GILBERTO FREYRE balhado. O principal adorno simbólico desse andor era constituído por um grupo de cães em estado de ereção: manifestação de culto fálico. Visitando com vagar essas residências rurais e outras, urbanas e suburbanas – as hindus sempre embostadas, isto é, seu chão revestido de uma camada de bosta de boi à qual se atribuem virtudes misticamente profiláticas – pude observar que não são poucas as que se mantêm no interior fiéis a tradições hindus ou maometanas ou persas de arquitetura doméstica, com pátios internos no meio dos quais nunca falta, no caso das residências ortodoxamente hindus, pequenas não sei se diga hermas, onde se conserva planta profilática ou sagrada, que resguarda os moradores de influências maléficas da parte de estranhos. É um indianismo hindu que não se comunicou aos indianos cristãos nem desse se transmitiu ao brasileiro como se transmitiu o gosto pela canja – que é um caldo ou uma sopa indiana. O gosto indiano pelo véu, pela chinela, pelo foguete nas festas religiosas, em torno aos pagodes ou templos, e cívicas, nas praças públicas – orientalismo tão em voga na Índia portuguesa quanto no Portugal europeu, ainda que sua origem seja, ao que parece, chinesa – esses chegaram até ao Brasil. Aliás, é curioso notar-se o fato de ter-se derivado de pagode a palavra, hoje tão corrente em língua portuguesa, pagoderia, para significar festa ruidosa. Não há festa religiosa no Oriente a que falte o foguete, o fogo de artifício, o fogo de vista às vezes sob formas artísticas que foram adaptadas pelos portugueses às suas comemorações de santos católicos, de procissões, e de cerimônias cristãs. Vi procissões e cerimônias católicas na Índia portuguesa que, pelo esplendor dos seus roxos, dos seus vermelhos, dos seus amarelos, sob o forte sol tropical, me pareceram irmãs mais velhas de procissões e cerimônias católicas brasileiras. Vi imagens de santos quase do tamanho de homens. Imagens muito coloridas, que me fizeram pensar nas que nos restam, no extremo Sul do Brasil, das Missões Jesuíticas: algumas delas – nas Missões – ocas, de modo a permitirem que um homem de dentro delas se dirigisse aos devotos: autênticos santos de pau oco. No Oriente se Gilberto.p65 144 27/05/2010, 16:01 145 PENSAMENTO CRÍTICO houve tal combinação de arte cristã com astúcia missionária, não surpreendi exemplo dela entre as velhas imagens que pude examinar. Vi alfaias, paramentos, relicários, em velhas igrejas e em antigos conventos de Goa – alguns desses conventos e dessas igrejas, em ruínas – que me impressionaram pelo que há nelas ao mesmo tempo de orientalismo rico e de orientalismo artísticos – tanto quanto esse orientalismo se pode conciliar com a ortodoxia católica. Também esculturas em pedra e em madeira, nas quais se juntam orientalismos a tradições greco-romanas e cristãs de símbolos e de arte. Pode-se concordar com o inglês que denominou Goa “Roma do Oriente”. O que os portugueses aí levantaram sob a forma de igrejas e conventos grandiosos revela, da parte desse povo, uma capacidade para se afirmar nos trópicos campeão de arte monumentalmente católica que superasse em grandiosidade a dos chamados pagodes, quer hindus quer de outros credos, que parece só ter sido igualada pelos espanhóis no Peru e no México, onde esses outros hispanos procuraram também superar em arrojos de arte monumental religiosa os majestosos templos incas e astecas. Não foi só em Goa, é certo, que os portugueses assinalaram sua presença nos trópicos em construções monumentais ou grandiosas de valor artístico: também em Marrocos, na Abissínia, na África, em Macau e na América. Mas em Goa essas construções de valor artístico em escala monumental chegaram a uma grandiosidade que não há exagero em classificar – como já a classificou o Conde de Penha Garcia – de “prodigiosa”. Aliás, já no século XVII, o francês Pyrard de Laval havia destacado de Goa que o número de suas igrejas grandiosas era merveilleux, e: sua Santa Casa, única pelo que apresentava de monumental. É que em Goa definiu-se o ânimo do português de instalar-se em terras tropicais “com todas as suas tradições e toda a sua arte”, como acentuou já, em página notável, aquele mesmo geógrafo. Fixou-se o português em Goa como quem deitasse raízes nos trópicos: acentue-se desse esforço, pelo que nele se exprimiu em arquitetura e em monumentos de caráter Gilberto.p65 145 27/05/2010, 16:01 146 GILBERTO FREYRE permanente ou definitivo, que foi esforço no sentido de uma integração em meio tropical; e não de pura dominação política ou econômica ou tecnológica dessas nações como a holandesa, ou mesmo, com todos os seus méritos ao lado de suas expressões nem sempre simpáticas, a britânica ou francesa. No Oriente – são ainda reparos do Conde de Penha Garcia – os portugueses familiarizaram-se com “todos os segredos do luxo e da pompa asiáticos”, alguns dos quais – acrescentem-se ao geógrafo – eles assimilaram às suas constantes da arte de construir, transferindo-as para outras áreas tropicais por eles ocupadas não como transeuntes mas como residentes. Os arcos em ferraduras das casas marroquinas foram um desses elementos por eles assimilados; os estilos de telha e de telhado dos pagodes chineses, outro. Mas enquanto se processava essa assimilação de elementos de arte tropical ou oriental pelo luso, processava-se também o oposto: a transferência para os trópicos e para o Oriente de elementos de arte portuguesa – da de construção, da de culto religioso, da de vestuário, da de escultura, da de pintura, da de adorno pessoal – com tal vigor, que assim como São Paulo de Luanda, por exemplo, deu a Pierre Daye a impressão de um burgo lusitano integrado na África, Macau pareceu a Lord Nortchliffe, com suas casas predominantemente cor-de-rosa e verde, uma cidade da beira do Tejo transportada para o Oriente e ali integrada. Integrada porque quem diz presença portuguesa no trópico diz sempre tentativa de, em vários casos, integração europeia em espaço tropical. E não intrusão antiecológica europeia em espaço tropical. Este é decerto o característico principal das artes que os portugueses vêm desenvolvendo no Oriente, em particular, e nos trópicos, em geral: o de serem artes que, marcando a presença europeia ou cristã nessas terras, vêm também marcando a assimilação pela civilização cristã de substâncias não europeias de modo algum incompatíveis com as formas europeias de cultura, em geral, e de arte, em particular. Tornando-se por vezes teluricamente ecológicas: o caso da arte luso-tropical do Aleijadinho. Gilberto.p65 146 27/05/2010, 16:01 147 PENSAMENTO CRÍTICO Por que os santos todos brancos, anjos sempre louros, as Virgens Marias sempre alvas, o Cristo sempre ruivo? A arte lusotropical vem contribuindo, como talvez nenhuma outra, não só para desmanchar essa identificação absoluta do tipo norte-europeu de homem, de mulher, de adolescente, de criança, com as mais sagradas figuras ou símbolos do cristianismo como para substituí-la pela representação ou a simbolização do sagrado sob formas humanas etnicamente diversas. Essa diversidade vem significando maior plasticidade: maior plasticidade cultural e, dentro dela, maior plasticidade artística, na expressão das relações do homem com o Sagrado através de cores, formas de corpo, característicos de fisionomia que vem afastando de padrões europeus e medievais para darem à arte cristã a universalidade de espaço e de tempo que lhe convém. Se é exata a sugestão que aqui se faz no sentido de vir-se realizando semelhante contribuição da parte dos portugueses no Oriente e noutras áreas tropicais para a universalização da arte cristã, trata-se de contribuição deveras valiosa, quer sob o aspecto artístico, quer sob o aspecto social. Ou sociologicamente cultural. São assuntos, estes, que podem ter sido tocados por Mukerjee ao sugerir, do ponto de vista oriental, uma Sociologia Regional. Mas só em trabalhos realizados por brasileiros tomariam dimensão e profundidade antropossociais, além de ecológicos. Sobretudo através de reconhecimento e da identificação de valores que, de suas origens regionais, vêm adquirindo universalidade através, não de sua pureza, mas da sua transregionalização, através da miscigenação ou da transculturação, sem perda, quando regionais, do que neles possa ser identificado como telúrico. Daí o sociólogo norte-americano ter incluído uma ecologia telúrica de origem brasileira entre as, segundo ele, oito mais criativas e originais teorias psicológicas de nosso tempo. Vida, forma e cor Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 Gilberto.p65 147 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 148 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE FRANCISCO BRENNAND, PINTOR, E DO SEU MODO DE SER DO TRÓPICO Há artistas que são pura, rigorosa e até sectariamente artísticos. Vários são os Mallarmés que têm pretendido fechar a arte – inclusive a literatura – dentro de uma tal sistemática de pureza que o artista – inclusive o literário, assim fechado – não se exprimisse senão com fins puramente artísticos; e através de meios de expressão, além de exclusivamente artísticos, especificamente artísticos, com relação a esta ou aquela arte em particular. Não deixam de ter eles suas razões para se extremarem no purismo e no especialismo em que se extremam. Existe, na verdade, o perigo de se deixarem, artes e artistas, invadir e subjugar por motivos de tal modo extra-artísticos de atividades aparentemente artísticas, que a arte, assim aberta, se torne uma mistificação de arte. Em alguns casos, até antiarte. Pois há um ponto em que o artista, deixando de ser principalmente artista, corre o risco de tornar-se um antiartista pelo relevo que toma, na sua obra, sua política ou sua religião, seu patriotismo deliberado ou seu cosmopolitismo sistemático. Em Francisco Brennand não estamos diante de nenhum desses extremos. Ele não é nem purista da sua arte, por força Gilberto.p65 149 27/05/2010, 16:01 150 GILBERTO FREYRE desse purismo, levado a qualquer forma de abstracionismo, nem um indivíduo que se sirva de tal modo de sua arte para fins extra-artísticos que, com esses fins, siga, qualquer espécie de “realismo” ou de “figurativismo”, do tipo imposto pela Rússia Soviética aos seus artistas. O que há em sua pintura é uma arte específica – a da pintura – que não se fecha, entretanto, no afã de ser específica ou no empenho de ser pura, ao contato com outras artes, das quais possa receber sugestões artísticas. O que há nele – se acerto em minha interpretação desse artista tão complexo que não há exagero em enxergar-se em sua arte um empenho proustiano de busca de infância e, através da infância, das raízes totais do artista: inclusive as que prendem sua sensibilidade à natureza vegetal e animal de sua região – é um pintor para quem a pintura não sendo, por um lado, uma atividade à parte da sua vida, mas, ao contrário, impregnada dela, não se amesquinha nunca, por outro lado, dentro dessa mesma vida, num simples meio de expressão do que seja sua política ou sua religião. Do poeta Murilo Mendes ouvi uma vez, em Roma, quando juntos visitávamos, na cidade por excelência católica do mundo, o Cemitério Protestante onde repousam os restos de alguns dos maiores poetas da língua inglesa, que era Católico e se considerava poeta. Mas repugnava-lhe ser considerado “poeta católico”. Não: o que ele era era poeta e católico. Nunca fora nem era “poeta católico”. De Francisco Brennand pode-se dizer o mesmo: é pintor e dada sua particular sensibilidade a motivos católicos de Artes – os santos populares do Nordeste do Brasil, principalmente – suponho eu, católico; mas não pintor católico. A maneira entre medieval e moderna, entre barroca e personalista, por que interpreta tais assuntos não faz dele, de modo tão simples, um pintor católico. Como não é pintor Socialista nem pintor Realista nem pintor isto nem pintor aquilo. E sim, supremamente, pintor. Supremamente artista. Mas artista que tem predileções, interesses e até compromissos fora da arte, em geral: religiosos, filosóficos, ideológicos. Pintor que, fora da especialidade artís- Gilberto.p65 150 27/05/2010, 16:01 151 PENSAMENTO CRÍTICO tica que segue, tem interesse artísticos: pela cerâmica, por exemplo. Desses interesses e desses compromissos, alguns se refletem na sua arte. Ele os vem assimilando à sua especialidade artística. Mas sendo sempre supremamente artista e, como artista, supremamente pintor. No que não se requinta é em artista puro nem em pintor que, para ostentar seu especialismo artísticos, se fechasse a todo contato com outras artes e se extremasse num meio de expressão que, de tão especializado, se tornasse esotérico ou sectário. Há em Francisco Brennand um artista que é a negação de quanto purismo possa levar o purista ao esoterismo ou ao preciosismo; ou o artista a membro de uma casta asceticamente artística sem ligação voluptuosa, sensual, nem com a vida nem com a Natureza; nem com os homens nem com os animais e as plantas que o cercam; nem tampouco com as interpenetrações de formas e de cores de homens, de animais, de plantas das quais o artista mais potente ou mais amplo pode desenvolver novas interpretações de conjuntos de natureza e de vida de que ele próprio se sinta parte. Conjuntos mais líricos ou mais dramáticos em suas sugestões, quando assim complexos, do que quando discriminados cientificamente em seus vários elementos. Francisco Brennand despreza um tanto essa espécie de discriminação para dar-se quase todo àquelas sugestões, com uma disponibilidade que tem alguma coisa de franciscano. Alguma coisa de walthmaniano. Pois é uma pintura, a sua, que contém, como a do poeta célebre, multidões: multidões de sugestões. Mais do que isto: é uma pintura na qual o humano se exprime como continuação do animal e do vegetal com que coexiste na mesma região, sob aspectos inter-relacionados de forma ou de cor. Dentro da mesma região, da mesma natureza, com parte da mesma vida, embora cada pessoa, cada animal, cada planta tenha, para Francisco Brennand, o seu caráter ou a sua particularidade. É dentro desse conjunto de particulares que está permanentemente o artista de modo algum impessoal que é Francisco Brennand. Ele não é dos que procuram fazer arte objetiva, es- Gilberto.p65 151 27/05/2010, 16:01 152 GILBERTO FREYRE condendo-se atrás de composições geométricas. Francisco Brennand é, dentro da tradição hispânica a que pertence, um pintor autobiográfico que, sem ostentar sua pessoa ou exibi-la na sua arte, resvalando num personalismo exagerado, não a abafa nem a sufoca pelo terror, hoje convencional, em certos meios, ao subjetivismo ou ao autobiografismo. Sua pintura vem se desenvolvendo como um desenvolvimento da sua pessoa em relação com a sua terra e com a sua época. Biograficamente, portanto, autobiograficamente – para empregar-se a palavra exata. Nele a pessoa desde o fim da adolescência que é personalidade: personalidade crescentemente criadora. Tem ele hoje um sentido próprio do que sejam suas relações com a sua terra e com sua época. Viajou o bastante para que se apercebesse do que, na sua terra, é diferente de outras terras e do que, nela, é semelhante a essas mesmas terras. Já viveu o bastante e já estudou o bastante do passado brasileiro, em particular, e do humano, em geral, para se aperceber do que no tempo breve, curto, que um brasileiro ou um homem moderno, individualmente, vive é insignificante em comparação com o que ele pode viver através dos valores que escolha, para seu proveito, de outras épocas, assimilando-os quanto possível à sua pessoa e à sua arte; e projetando-se, assim enriquecido, sobre o futuro. É o que Francisco Brennand tem feito bravamente. É o que vem fazendo experimentalmente. Daí seu apego à sua terra, ou a sua ternura pela terra, ser profundo sem ser sectário: sectariamente regionalista ou mesmo telurista. Daí seu sentido de expressão artística ser moderno sem ser modernista. G. K. Chesterton escrevendo sobre a arte de pintar do seu compatriota Watts, destacou daquele honesto Vitoriano que seu principal característico fora considerar, saudável e lucidamente, a vida como um todo. É o que explica ter se guardado do esteticismo em que resvalaram alguns artistas ingleses do fim daquela época, a reagirem contra os extremos vitorianos de moralismo ou de utilitarismo nas artes, com outro extremo: a chamada “arte pela arte”. A essa espécie de arte Chesterton chamou “ultratécnica”; e sua negação da arte associada à vida e Gilberto.p65 152 27/05/2010, 16:01 153 PENSAMENTO CRÍTICO a outras formas de cultura lhe pareceu semelhante à cirurgia que, num requinte também ultratécnico, se esmerasse em ser pura operação cirúrgica, com o operador desprezando o indivíduo operado como um todo: um todo vivo e não morto. Complexo. Inter-relacionado. Talvez os vitorianos se exagerassem ao associar a sua arte – inclusive sua literatura – a um sentido ético de vida. Mas não – pensava Cherteston – em associá-la à vida, através do que um vitoriano ilustre chamou ele próprio de “razão imaginativa”. Razão, sim: mas imaginativa ao ponto de ter se tornado, nos artistas mais representativos daquela grande época de cultura britânica, poética. Poética no próprio Darwin. No próprio Huxley. Mas, por outro lado, racional no próprio Newman – um místico. Racional e até científica no próprio Browning. Ninguém mais diferente, na sua técnica de pintor, de um vitoriano, que o brasileiro de segunda metade do século XX Francisco Brennand. Mas não creio desviar-me para o absurdo, ao procurar interpretar-lhe a personalidade de homem alongado complexamente em artista, encontrando nele e no seu modo de ser pintor, alguma coisa de saudável e lucidamente vitoriano. Alguma coisa que talvez esteja no que nele me parece corresponder à ideia de imaginative reason de Matthew Arnold; e que se revela na própria casa onde Francisco Brennand mora com a família nos arredores do Recife; e na qual o escritor John Dos Passos descobriu, quando a visitou, há poucos anos, um misto de austeridade e de graça, tendo se deliciado tanto com os móveis como com a paisagem dominada ou disciplinada de algum modo pela casa; e admirado o fato de ali vir trabalhando quase sem boêmia, mas não sem imaginação poética, um dos maiores pintores modernos do Brasil. Quase sem boêmia, porém não sem a imaginação poética mais da arte dos boêmios que da dos artistas racionalmente metódicos nos seus trabalhos, é a arte de Francisco Brennand. A arte de um artista de todo consciente da sua arte. Severamente estudioso dela. Artesão. Mas, ao mesmo tempo, dado a arrojos Gilberto.p65 153 27/05/2010, 16:01 154 GILBERTO FREYRE romanticamente experimentais. Arrojos, esses, sempre à base do que nele é saber ou conhecimento dos clássicos e dos mestres, é certo. Porém arrojos e românticos. Viajado pela Europa, suas viagens não o reduziram a um simples aprendiz de mestres europeus, incapaz de pela imaginação e pela razão procurar para a sua pintura de formas e cores tropicais um sentido também tropical de expressão de vida, de natureza e de homem. Expressão dele próprio. Arte – repita-se – autobiográfica. Arte mergulhada na infância do artista: essa infância que é sempre a base do que há de mais autêntico num criador, seja qual for sua forma de criação. É o que Francisco Brennand vem fazendo. É como ele vem se autobiografando. E, através de sua autobiografia, revelando de sua gente e de sua terra multidões de cores e de formas regionais, brasileiras, tropicais, ignoradas em algumas das suas relações umas com as outras; e que só poderiam ter sido descobertas por alguém que à capacidade de analisá-la racionalmente no seu todo juntasse a de reconstituí-las e interpretá-las imaginativamente, poeticamente, em síntese desse todo assim previamente analisado. É como um pintor de síntese que Francisco Brennand vem se firmando um dos maiores pintores modernos do Brasil. Curioso que ele seja de Pernambuco. Porque de Pernambuco é também Lula Cardoso Ayres. De Pernambuco, Cícero Dias. De Pernambuco, Aloísio Magalhães. De Pernambuco, outros pintores, mais jovens, do Brasil, caracterizados pelo mesmo empenho de exprimirem em síntese suas reações a Pernambuco, ao Brasil, ao trópico. Por que tantos, de Pernambuco? Será que a luz – luz especialíssima que tanto impressionou, pelos seus efeitos de equilíbrio, pela sua claridade ou pela sua capacidade de projetar-se em variedades de cor, o pernambucano Joaquim Nabuco, o paulista Eduardo Prado, o alemão Konrad Guenther – vem atuando como um estímulo, entre indivíduos com a vocação para a pintura, a uma nova espécie de tropicalismo, em que a eloquência excessiva nas cores começasse a ser moderada por uma rein- Gilberto.p65 154 27/05/2010, 16:01 155 PENSAMENTO CRÍTICO terpretação do trópico como a claridade, como a nitidez, como a lucidez, como a harmonia, até; e não como desvario quase carnavalesco de impressões? É possível. Em Francisco Brennand, o melhor crítico da sua pintura – Ariano Suassuna – já descobriu um sentido de harmonia na luz e nas cores que o situa na mais sábia tradição dos antigos pintores do Mediterrâneo sem que por isto – acrescente-se a Ariano Suassuna – Brennand deixe de ser, nos seus arrojos experimentais, um tropicalista. Um artista em idílio com a natureza diferente da europeia. A verdade é que em Francisco Brennand se vem desenvolvendo um pintor que, mais do que puro intérprete de sua província ou de sua região, começa a ser um novo intérprete do trópico: de um trópico úmido cuja especialíssima luz é um desafio aos pintores e à sua capacidade de desenvolverem novas técnicas de captar essa luz, nos seus vários efeitos sobre formas e cores, libertando-se, assim, tanto de técnicas especificamente europeias como de técnicas convencionalmente tropicalistas. Novas técnicas de captação de luz tropical, tal como se apresenta em certas partes umidamente tropicais do mundo: um tanto diferentes das áridas e não apenas muito diferentes das temperadas. Há críticos de pintura para quem são duas as principais atitudes dos pintores para com a luz que sua arte procura captar em suas telas ou em seus painéis. Uns pintores se empenhariam em captá-la como um brilho sobre as figuras ou as coisas pintadas. Outros, em captá-la como um brilho através dessas figuras ou dessas coisas. Um brilho semelhante ao fulgor que ilumina as imagens nos vitrais góticos. Em tais atitudes talvez se exprimam mais do que técnicas de arte com relação à luz: filosofias de vida do artista. Seu sentido de relações de homem com as formas e com as cores que o rodeiam através do modo por que a luz, segundo ele, intervém nessas relações: brilhando sobre formas e cores, segundo uns; através delas, segundo outros. O primeiro, um sentido talvez exclusivamente, ou quase exclusivamente, estético. E com tendência a impressionista. O segundo, um sentido, além de estético, religioso. E antes expressionista que impressionista. Gilberto.p65 155 27/05/2010, 16:01 156 GILBERTO FREYRE Francisco Brennand vem captando a luz do trópico úmido, nos seus quadros e nos seus painéis, de um modo que escapa a qualquer dessas definições absolutas. Observam-se, no que ele pinta, efeitos de uma luz inconfundivelmente tropical que dá um brilho estético às formas e às cores pintadas. Mas que parece por vezes ir além: e atravessar poeticamente, religiosamente até, essas formas e essas cores, revelando de pessoas e de coisas intimidades que de outro modo não apareceriam; e intensificando nelas significados que, sem isto, não seriam, talvez, notados. Em vez de apenas avivar bizarrices – do ponto de vista europeu – de forma, e exotismos – do mesmo ponto de vista – de cor, seu tropicalismo vai além: busca intimidade dentro de excessos de luz que, por serem excessivamente luminosos, escondem muitas delas. Donde a importância da pintura de Brennand como uma série de revelações de intimidades escondidas dentro dos excessos de luz tropical. Um modo especialíssimo, personalíssimo, paradoxal, até, o seu, de ser tropicalista. Mas tropicalista ele é. Um dos maiores, um dos mais intensos, que tem havido na história das relações da arte com o trópico. O problema das relações do pintor – do pintor, do escultor, do arquiteto – com a luz regional é um dos mais intimamente ligados à pergunta: até que ponto é a arte independente das condições regionais de meio físico e de meio sociocultural em que se desenvolve ou em que se desenvolve o artista? Da mais nova teoria de luz dos físicos modernos dizem os seus intérpretes científicos que veio mostrar que as cores se apresentam diferentes conforme condições de luz não só regionalmente diversas como tecnicamente distintas: conforme a sua qualidade de luz de sol, de luz elétrica e de luz de candeeiro a óleo. Dessas condições diferentes de luz pode servir-se, em sua pintura, um pintor que não se afaste nunca do lugar ande nasceu: de qualquer delas, puras; ou de duas ou três, combinadas. Pode ele também ver as cores da figura humana ou as formas das paisagens conforme condições de luz regionalmente diversas; e adotar dessas condições a que corresponda mais harmoniosamente tanto ao seu temperamento como às suas afini- Gilberto.p65 156 27/05/2010, 16:01 157 PENSAMENTO CRÍTICO dades de cultura com esta ou com aquela condição ou tradição regional: a das suas principais raízes ou não. Pode ir além e combinar, numa pintura híbrida, luz, formas e cores de uma região com as de outra, dando predominância àquela com que estiver mais empaticamente identificado. Foi o que fez Gauguin. Também o que fez Amrita Sher Gil com relação à Índia, com cuja luz se identificou sem, entretanto, ter deixado de levar da Europa para a sua pintura alguma coisa de inconfundivelmente europeu. Mais: o que realizou George Keyt em seus experimentos no Ceilão não só de penetração de material europeu pela luz tropical – resultando esses experimentos em novas transparências de cores – como de combinações de formas ovoides, caracteristicamente orientais, com as triangulares, especificamente europeias. Experimentos interessantíssimos para o Brasil e para os artistas brasileiros, sem que, entretanto, deles venham tomando conhecimento nossas escolas de belas-artes, tão passivamente subeuropeias na sua orientação e no seu ensino. Recordados há pouco por um crítico de arte indiano em revista do seu país, publicada em língua inglesa, os recentes experimentos indianos em cores, relacionados com a luz do trópico, talvez alcancem entre nós alguma repercussão. Para eles já se vinha voltando há anos minha atenção: desde o meu contato, em Bombaim, com os trabalhos de jovens pintores indianos, com alguns dos quais parecem-se hoje evidentes as afinidades ou, antes as coincidências, de experimentos de Francisco Brennand. Contato acompanhado de longas conversas sobre o assunto com o então arcebispo católico de Bombaim e, depois cardeal, da Índia: um indiano – mosenhor Gracias – em sua origem, goês; e profundamente interessado, naquela época, em problemas de pintura de ponto de vista semelhante ao meu. Isto é, desejava o então arcebispo Gracias o encontro, no Oriente, de estímulos europeus modernos, quer de técnica, quer de arte, com condições tropicais de meio físico e de tradição cultural, para desse encontro resultarem novas interpretações e até abstrações de formas e de cores de homem e de paisagem. Gilberto.p65 157 27/05/2010, 16:01 158 GILBERTO FREYRE Precisamente o meu velho empenho. O que fez que comemorássemos nossa coincidência de ideias fumando, em Bombaim, charutos baianos, dos fabricados exclusivamente para os amigos por Lauro Passos; e dos quais eu, graças ao bom Lauro, levara alguns para o Oriente. Recordando tais conversas, sob uma luz – a de Bombaim – parenta da do Brasil, penso na crença dos antigos no genius loci. Haveria, para cada região, um deus ou um grupo de deuses. Esses deuses tornariam sagrada a região sob sua guarda: a região e o seu ethos. Apenas a esse ethos o bárbaro poderia aderir, identificando-se com deuses, que, regionais, não deixavam de ser universais; nem de acolher indivíduos de procedências estranhas. Precisamente o que faria a Espanha regionalmente castelhana com El Greco que, adventício, veio a ser, por empatia, intérprete profundo da luz não só física como metafísica de Castela; e realizar obra decisiva de interpretação de luz e de ethos particularmente regionais; e, ao mesmo tempo, tão universais nas suas sugestões como – diria Mr. Herbert Read – Oresteia e Antigone, dentre obras consideradas clássicas; e Wuthering heights, dentre as classificadas por alguns como românticas. Para Mr. Herbert Read – a quem se devem páginas tão inteligentes sobre o assunto – a identificação entre um artista e uma região só se verifica quando o artista não apenas sente como realiza fisicamente, sensualmente, o que na região é físico, além de ser ethos. Tal impregnação quase sempre inclui, nos pintores que se aprofundam em regionais, sendo também criadores de obras universais nas suas sugestões, a adesão a uma luz que corresponde ao seu modo não físico como ético de ser artistas. Por isto, talvez, é que o crítico inglês se refere a “shining lights that make our common glory, each in a local shrine”. Vida, forma e cor Rio de Janeiro, José Olympio, 1962 Gilberto.p65 158 27/05/2010, 16:01 EM TORNO DOS EXPERIMENTOS DE UM ARTISTA Os triunfos alcançados por arquitetos brasileiros na arquitetura monumental ou grandiosa são triunfos que dão hoje um relevo mundial à arte do nosso país. Relevo já alcançado pela música – principalmente pela de Villa-Lobos. Entretanto são várias as manifestações de arte nas quais o Brasil poderia, com igual sucesso, estar fazendo sentir sua presença na cultura do homem moderno: um homem cada dia mais voltado para o trópico. O mural é uma delas. O imóvel é outra. No mural, aliás, são cada dia maiores o triunfo do pintor Cardoso Ayres. Na cerâmica, os de F. Brennand. Não se compreende que estejam partindo da Europa, e não do Brasil, a estilização das curvas da rede ameríndia desde século XVI tão pela civilização luso-tropical, que se desenvolveu na América, ao seu conjunto de valores de uso cotidiano. Estilização em móveis modernos, arrojadamente modernos – leves e elásticos – e ao mesmo tempo higiênicos e artísticos, confortáveis e belos. Era uma estilização que já teria partido do Brasil, de artistas brasileiros, de pesquisadores brasileiros, se as nossas escolas de belas artes, em vez de puras academias de bom ensino apenas convencional – convencional e, sob alguns aspectos bacharelesco e rotineiro – viessem sendo também centros de experi- Gilberto.p65 159 27/05/2010, 16:01 160 GILBERTO FREYRE mentação em que o Brasil procurasse dar às criações modernidade e universalidade, se não total, pelo menos para todas as áreas tropicais do Oriente, da África, da Austrália, onde floresce ou começam a florescer civilizações modernas semelhantes a brasileira. Universalidade a valores e a técnica não só de construção como de móvel e de vasilhame aqui já há séculos desenvolvidas em formas simbióticas ou luso-tropicais de arte ou de quase arte. São formas essas em que se vêm combinando, para uso brasileiro, a primitividade ameríndia ou africana com a civilidade europeia ou hispano-árabe. Elas se ofereceram ao artista moderno com uma extraordinária riqueza de sugestões. Desses artistas nenhum me parece hoje mais atento ao que há de valioso em tais sugestões do que o pintor Aloísio Magalhães, que, da pintura, se vem espalhando por artes vizinhas – a gráfica principalmente – sob o vivo desejo de dar a essas artes uma expressão vigorosa e autêntica do Brasil tropical. Das suas formas e das suas cores de natureza, de terra, de água, de paisagem, de homem, de mulher: e também das suas formas e das suas cores já estabilizadas entre a gente do povo como cores brasileiras através de uma tradição de cultura antes folclórica que acadêmica. Esse é também o afã de outros pintores modernos do Brasil. Em Aloísio Magalhães, porém, semelhante afã se vem intensificando ultimamente num empenho sistemático de desenvolver uma arte gráfica tão representativa do Brasil e, ao mesmo tempo, tão universalmente moderna, quanto é a arquitetura de um Sérgio Bernardes ou a música esplêndida de mocidade desse que faleceu com o verdor dos adolescentes: Heitor Villa-Lobos. Daí merecer um especialíssimo elogio a iniciativa do até há pouco tempo diretor da Divisão Cultural do Itamarati, o ministro Meira Pena – autor de um sugestivo livro sobre urbanismo, em que o problema de Brasília é posto em foco de maneira inteligente e idônea –, de prestigiar na Suíça estudos e experimentos de arte gráfica daquele artista brasileiro, que já iniciou nos Estados Unidos trabalhos deveras interessantes numa especialidade ainda quase virgem da presença de um moderno Gilberto.p65 160 27/05/2010, 16:01 161 PENSAMENTO CRÍTICO ou de um renovador do nosso país. É que desses experimentos e estudos de Aloísio Magalhães, nos Estados Unidos e na Suíça, deve resultar um livro ilustrado em que se faça ao estrangeiro uma apresentação gráfica do Brasil que seja ela própria ao mesmo tempo nova, inédita, moderna e brasileira; expressiva ou representativa do Brasil. Será um livro, esse, do qual, sem exagero algum, se pode desde já dizer – à base dos experimentos já realizados pelo artista consciencioso que é Aloísio Magalhães – que marcará época no desenvolvimento da arte brasileira como arte de repercussão mundial. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 30 de abril de 1960 Gilberto.p65 161 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 162 27/05/2010, 16:01 REVOLUÇÃO NO TRAJO DO HOMEM Entre as revoluções do nosso tempo há uma que quase não se vê, tão fraco é o seu progresso. Refiro-me à revolução no trajo do homem. Ou no trajo do homem burguês, isto é, de cidade ou de burgo. Principalmente de cidade ou de burgo do Ocidente. Não se compreende que o homem de cidade do Ocidente continue em 1949 a vestir-se quase do mesmo modo que se vestia em 1900 quando, durante esse meio século, vêm sendo tão profundas as alterações nos seus outros estilos de vida. A verdade é que o trajo de hoje é um trajo arcaico. Não corresponde ao momento. Não se simplificou como a arquitetura, o mobiliário, o meio de transporte. Desapareceram, é certo, os punhos soltos e os colarinhos duros; e as ceroulas compridas e de fitas, vêm sendo substituídas pelas cuecas. Sobrecasacos e fraques vêm se tornando raridades. Nos trópicos, o trajo branco e esportivo vem substituindo o escuro e solene. O colete já não é cotidiano entre os nossos burgueses importantes que outrora se julgavam incompletos sem esse terrível intermediário entre a camisa e o casaco Mas tudo isso é pouco para uma época sacolejada, como a nossa, por uma série de contraditórias revoluções de efeitos radicais sobre os hábitos dos homens das cidades. Revoluções nos Gilberto.p65 163 27/05/2010, 16:01 164 GILBERTO FREYRE meios de transporte, nos métodos de educação e de recreação, nos sistemas de governos, na arquitetura, na pavimentação de ruas e estradas, na iluminação e na decoração do interior das casas, na higiene pessoal, doméstica e das cidades, nas relações entre homem e mulher e entre pai e filho, na cirurgia, na medicina, nos esportes, na conservação e preparação de alimentos, na refrigeração e no aquecimento dos edifícios, na representação gráfica do movimento, na irradiação da palavra ou do som. É estranho que o trajo do homem de cidade venha se mantendo no Ocidente, quase alheio a tanta alteração nos demais estilos de vida. Que venha se conservando quase o mesmo de há cinquenta anos, com o “slack” como fraca tentativa de simplificação de excessos de solenidades burguesas. Essa inércia é, talvez, um dos fracassos da Revolução Russa. A Francesa parece ter se revelado, neste particular, mais criadora, ou pelo menos, mais renovadora, que a sua rival moderna. E a indústria – ou Inglesa – ainda mais criadora que a Francesa ou que a Russa. É certo que a roupa feita vem superando, neste meio século, a que se faz sob medida. E que o linho, o brim, o algodão vem tomando o lugar da lã como material de trajo ou fato de homem de cidade nos trópicos europeizados. A... sem que daí tenham resultado alterações significativas nesse trajo: na sua estética e não apenas na sua higiene. Continua esse homem a vestir-se quase do mesmo jeito que o avô. A gravata continua desígnio de burguesia ou de civilização, sem que se justifique a sobrevivência de arcaísmo tão incômodo e tão contrário ao espírito de uma época, como a nossa, de domínio do funcional sobre o decorativo e do trabalhismo sobre o parasitismo outrora elegante e hoje desprezível. Botões em excesso continuam a decorar os casados masculinos, eles próprios antes decorativos que funcionais em cidades dos trópicos, durante os meses de verão ou de calor mais intenso. Com a idealização ou a glorificação da figura do trabalhador ou do operário, era de esperar que se tivesse verificado, nos últimos cinquenta anos, extrema simplificação do trajo burguês Gilberto.p65 164 27/05/2010, 16:01 165 PENSAMENTO CRÍTICO do homem do Ocidente. Sua alteração no sentido da proletarização estética de suas linhas. Não se verificou. Continua, nos seus aspectos principais, o que era há meio século. Sinal, talvez, de que à tendência à proletarização vem correspondendo movimento ou tendência no sentido de desproletarização e a favor da imitação do homem médio pelo proletário que se eleva social ou economicamente, na vida ou na comunidade. Tendência visível na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Suíça, na Bélgica, na Holanda, nos países escandinavos. Com a vitória do trabalhismo na Grã-Bretanha é possível que nos venham de Londres – centro, desde o triunfo da burguesia, de modas masculinas como Paris é, ainda, das femininas – alterações profundas no sentido da simplificação do trajo do homem. No sentido de uma simplificação inteligentemente higiênica e estética que ponha o trajo do homem no mesmo plano de arquitetura, de mobiliário e do meio de transporte modernos, isto é, no plano funcional. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 1949 Gilberto.p65 165 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 166 27/05/2010, 16:01 TRAJO, TRÓPICO E ANTI-IMPERIALISMO Em recente conferência proferida no Instituto de Arte Contemporânea do Museu de Arte de São Paulo, sob a presidência de um dos mais ilustres diretores do mesmo museu – o então deputado Horácio Lafer, agora ministro do Exterior – procurei destacar, mais uma vez, a importância, para o Brasil, do problema do vestuário: um vestuário ecológico para os trópicos. É assunto em que venho insistindo quase com a impertinência de um maníaco. Nós, brasileiros, estamos já contribuindo para o desenvolvimento de civilizações modernas nos trópicos com uma arquitetura de edifícios públicos, de igrejas e de residências adaptadas a condições tropicais de vida e de paisagem: contribuição de uma geração de homens entre os quarenta e os sessenta. Também estamos contribuindo para aquele desenvolvimento com jardins e parques de um novo tipo, igualmente adaptado a essas condições. E não deve ser esquecido o extenso uso brasileiro da rede, por nós adotada dos indígenas e que, modernizada, como vem sendo, pelo Brasil de hoje, é um modelo de higiene e de arte tropicais. Nem o uso do azulejo, que adotamos do português e este adotara dos mouros: outra tradição Gilberto.p65 167 27/05/2010, 16:01 168 GILBERTO FREYRE boa que está sendo esplendidamente modernizada pelo brasileiro de hoje. Sobretudo no Recife, e pelo artista admirável que é Francisco Brennand. Estamos, entretanto, deficientes em várias técnicas de adaptação do homem civilizado a condições tropicais de vida. Uma dessas técnicas é a do vestuário. Outra é a da casa simples, barata, ecológica, tanto urbana como rural, para o trópico: problema na solução do qual arquitetos indianos, israelenses, colombianos estão se adiantando aos brasileiros e recorrendo, mais do que estes, à cooperação de sociólogos, antropólogos e e economistas. Na solução do problema do vestuário ecológico, para os trópicos, árabes, indianos e cubanos talvez se estejam adiantando aos brasileiros. Daí a importância dos experimentos de Flávio de Carvalho. O português, nos seus primeiros contatos com o Oriente tropical, tropicalizou o seu vestuário, adotando usos indianos. Foi por isto muito criticado por outros europeus, para os quais a dignidade europeia exigia dos europeus nos trópicos que conservassem seus estilos de vestuário, embora esses fossem terrivelmente impróprios para os climas quentes. Infelizmente, o português não soube levar adiante sua obra de pioneiro neste sentido e acabou vestindo-se à europeia nos trópicos, no que foi imitado pela burguesia brasileira: sobretudo no século XIX. É a obra pioneira do português dos séculos XVI e XVII que o brasileiro deve hoje retomar, procurando desenvolver um trajo civilizado de homem e de mulher, adaptado aos trópicos: mesmo que a esse trajo ecológico tenham que ser sacrificados preconceitos europeus de ordem moral como o de que o homem, para ser homem, deve usar sempre calças. É um preconceito tolo em face dos estudos mais profundos que têm sido feitos do assunto e segundo os quais o trajo ideal para os trópicos é o solto, de preferência a toga, quando muito as pantalonas soltas. Creio que, entre nós, a camisa por fora das calças do matuto é uma sobrevivência indiana. Foi uso oriental adotado pelo português antigo, introduzido por ele no Brasil e que deve ser recuperado, pois o estudo científico do assunto muito conde- Gilberto.p65 168 27/05/2010, 16:01 169 PENSAMENTO CRÍTICO na o cinto ou o cinturão. O slack e o pijama são evidentemente tropicalíssimos no moderno trajo ocidental de verão que mostram que europeus do Norte e anglo-americanos começam a dar seu apoio, como um retardamento de séculos, ao português dos séculos XVI e XVII: pioneiros nesta como noutras espécies de tropicalismo. Devo dizer que me ocupei, há três anos, do assunto, perante uma elite mundial de sábios, alguns dos quais consideram hoje a ciência social brasileira tão original, nas suas contribuições para a ciência social geral, como a arquitetura dos Niemeyer e a música dos Villa-Lobos, em relação com a arte moderna. Foi isto em trabalho apresentado à Reunião Mundial de Sociólogos, em Amsterdam, em 1956, à qual compareci por ter sido um dos quatro convidados especiais dos seus organizadores, para redigir um dos quatro trabalhos principais ou básicos da reunião. Os outros três foram Von Wiesse, da Alemanha; Ginsberg, da Inglaterra; e Davy, da França. O professor Gurvitch, que é, como se sabe, russo, embora hoje naturalizado francês e professor da Sorbonne, informou-me que a parte do meu trabalho, referente à sociologia do trajo, interessou de modo especialíssimo os russos que, naquela reunião, reataram um contato, há longos anos interrompido, com os seus colegas do Ocidente. É que eles se aperceberam da importância da tropicalização do trajo do homem civilizado, residente nos trópicos, como um aspecto da desvalorização dos mesmos trópicos. Em qualquer parte do mundo, o trajo ecológico é uma expressão de anti-imperialismo. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1959 Gilberto.p65 169 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 170 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE BRASÍLIA Em carta à revista de São Paulo, onde apareceu uma versão portuguesa do artigo que me aventurei a escrever para The Reporter, de Nova Iorque, sobre Brasília, um apologista total – e talvez totalitário – da nova e, na verdade, sedutora cidade pretende apresentar a obra dos arquitetos Niemeyer e Costa como superior a qualquer crítica e invulnerável a qualquer objeção de caráter sociológico ou de ordem ecológica. As críticas e as objeções que naquele breve artigo, em língua inglesa, ousei fazer não ao bravo empreendimento do presidente Juscelino Kubitschek, mas à sua execução como obra apenas de arquitetura escultural, seriam, assim, de todo insignificante. Insignificantes e impertinentes. Continuador e antigo discípulo de sir Patrick Geddes, mr. Max Lock talvez seja a maior autoridade viva em problemas de planejamento regional – e não apenas urbanístico – que já se manifestou até hoje sobre Brasília. E o seu julgamento, destacando, como eu já destacara, o enorme erro de caráter ecológico representado pela indiferença de Brasília ao fato de ser uma cidade moderna situada no trópico e o erro, igualmente imenso, de caráter sociológico, de vir sendo a nova cidade (por mr. Lock também denominada de “arquitetura escultural”) construída exclusivamente e autocraticamente por dois arquitetos – esse julgamento do mestre britânico é bem mais duro e severo do que o meu. Suas palavras sobre “o Gilberto.p65 171 27/05/2010, 16:01 172 GILBERTO FREYRE divórcio entre os aspectos físicos e sociais” de Brasília e sobre a necessidade de vir a ser introduzido um “caráter mais humano e mais íntimo nas suas habitações” coincidem com as que eu já escrevera sobre o assunto. O “caráter íntimo” que falta às atuais habitações de Brasília não será conseguido enquanto não for retificado o excesso de vidro-mania que caracteriza a arquitetura da nova cidade, dando-lhe formas quase exclusivamente cenográficas, quando não exibicionistas. Aliás, não é certo que o emprego do vidro na arquitetura deva ser no Brasil – país tropical e intensamente luminoso – o mesmo que num país de clima frio, de pouco sol e de fraca luminosidade. Este é um dos mais gritantes erros de caráter ecológico que prejudicam Brasília. Negá-lo é pretender tapar o sol com a peneira. Os que hoje residem em Brasília sabem a que extremos de sofrimentos os está submetendo a vidro-mania dos construtores da nova cidade. Quanto ao fato de terem os dois arquitetos, construtores de Brasília, desprezado de todo – sem dúvida por não estarem rigorosamente em dia com os assuntos sociais relacionados com problemas de planejamento regional – as prováveis exigências sobre o desenvolvimento da nova capital brasileira, da época de automação para a qual caminhamos rapidamente – exigências sob a forma de maiores espaços para um vasto sistema urbano de recreação inteligentemente diversificada – é erro de caráter sociológico que dá de início a chamada “capital do futuro” um arcaísmo lamentável, patológico: espécie de velhice precoce a impedi-la de acompanhar saudavelmente o futuro. A não ser que Brasília seja submetida, desde agora, à severa revisão no seu critério de distribuição de espaços destinados a atividades públicas. Impõe-se quanto antes – se há empenho da parte do governo nessa retificação – o sacrifício de espaços já destinados ao proveito de particulares a essa negligenciada necessidade pública. A alegação de que, para fins recreativos, nesta época de automação intensa, bastará à Brasília o seu lago artificial – lago que dá com efeito à cidade sugestão lúdica, além de uma nota Gilberto.p65 172 27/05/2010, 16:01 173 PENSAMENTO CRÍTICO agradavelmente decorativa – é uma alegação de todo ingênua. Chega a ser cômica. Ingênua e um tanto cômica é também a suposição, da parte do apologista de Brasília que há pouco apareceu em Visão, de que só as cidades industriais serão atingidas pela automação. A automação não é processo que alcance apenas as fabricas, as usinas, as oficinas. Não alcança somente a agricultura. Não revoluciona apenas as técnicas de comunicação. Vai além. Atinge serviços urbanos, hospitalares, hoteleiros, domésticos, médicos, cirúrgicos, reduzindo, em todos eles, a participação do homem. Diminuindo, em todos eles, o trabalho humano. Todos sabemos que Brasília não é cidade destinada a atividades industriais. Nem por isto escapará, como cidade nova que é, ao destino de ser atingida rapidamente pela automação. E com a automação de suas atividades será necessário à sua população um sistema complexo de recreação diversificada de que não cogitaram de modo algum – como não cogitaram de outros problemas sociais – os construtores dos edifícios monumentais e dos conjuntos cenográficos que constituem a nova e, sob vários aspectos, sedutora capital do Brasil. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 26 de julho de 1960 Gilberto.p65 173 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 174 27/05/2010, 16:01 MAIS UMA VEZ, BRASÍLIA Noticia-se de Brasília que a imponente, na sua estética ou na arquitetura escultural, nova e grandiosa cidade brasileira, vai ter afinal um pouco do que desde o seu início lhe vem faltando: espaços para o lazer e para a recreação em número capaz de atender ao crescimento de sua população, quer de crianças, quer de adultos. Foi uma das enormes deficiências de caráter social ou cultural e mesmo biológico que salientei na construção da nova capital do Brasil, quando ainda nos dias heroicos do bravo, mas lamentavelmente desorientado, empreendimento do então presidente Juscelino Kubitschek. Meu alarme teve repercussão através de artigo em língua inglesa aparecido no semanário The Reporter, de Nova Iorque. Repercussão no estrangeiro. Porque dentro do país era então quase nenhuma a receptividade, na imprensa e entre congressistas, a reparos sobre Brasília que não fossem os absolutamente apologéticos. Meu próprio livro contendo algumas dessas críticas, Brasil, Brasis e Brasília, teve que ser publicado na Europa. Faltaram-lhe condições favoráveis ao seu aparecimento no Brasil. Pois em situações ditas liberais às vezes acontecem tais fatos: órgãos de publicidade ou de comunicação se fecharem à divulgação de umas tantas coisas ao se extremarem no apoio e na simpatia a Gilberto.p65 175 27/05/2010, 16:01 176 GILBERTO FREYRE figuras do seu especial apreço. Figuras ninguém diz que desmerecedoras desse apoio ou dessa simpatia. Tratados desdenhosamente de resto, aqueles meus reparos, em reunião de comissão parlamentar, por um dos arquitetos de Brasília, certo representante de Pernambuco foi assessorado por pessoa de inteligência superior à sua no sentido de ser apoiada crítica tão pertinente. Sua excelência, porém, não se sentiu com ânimo bastante para atitude que desagradasse os poderosos daqueles dias. Pelo que, muito antipernambucanamente, silenciou. Ou se fez solidário com aquele desdém pelas ideias de um seu conterrâneo não de todo cretino. Ideias de oportuna atualidade naqueles dias. Mas que só agora viriam a ser consideradas por um prefeito esclarecido e capaz de enfrentar o mito de ter Brasília surgido em tudo perfeita das mãos do presidente Juscelino e dos seus dois onipotentes arquitetos. Dois mestres admiráveis de arquitetura. Mas só da escultural. Só da cenográfica. Só da estética. Ignorantes de quanto fosse implicação social, cultural, humana, ecológica, na construção de uma cidade. Parabéns ao atual prefeito de Brasília. Ao menos uma das deficiências profundas na sua construção está sendo retificada ou corrigida. O que é alguma coisa. Estou, aliás, certo de que aos dois arquitetos exclusivamente estéticos a quem se deve a arquitetura, neste particular, admirável, de Brasília, não faltará ânimo para concordarem com tão justa retificação. Já devem estar convencidos de que os moradores de Brasília estão, por sua própria conta, recriando Brasília como cidade não só para ser vista, contemplada, admirada, fotografada, cinematografada, como para ser existencialmente habitada. Vivida. Diário de Pernambuco Recife, 21 de março de 1976 Gilberto.p65 176 27/05/2010, 16:01 BRASÍLIA E LÚCIO COSTA Em entrevista ao Jornal do Rio, de 27 de novembro de 1984, Lúcio Costa, mestre admirável, fixou suas impressões de uma Brasília por ele revisitada. Devo a Lúcio Costa a primeira e lúcida percepção de minha atitude para com o passado social do Brasil: uma atitude proustiana. Percepção depois repetida por vários brasileiros e não poucos estrangeiros. A antecipação de Lúcio Costa marcou uma afinidade, que nunca esqueci, de sua inteligência superiormente crítica com a perspectiva que se definiria, no livro Casa grande & senzala, como aquela nova maneira de fazer-se história do homem, consagrada, nesse livro brasileiro, por outro crítico notavelmente perceptivo: Blaise Cendrars. Lúcio Costa, ao revisitar Brasília, acaba de encontrar, na nova capital do Brasil, não a cidade de “um centro urbano requintado... igual do Champs Élysées ou Picadilly Center”, imaginado por ele, ao projetar a nova capital brasileira como vê-se que subeuropeiamente, uma futura Brasília, mas uma surpreendente – pode-se, talvez, dizer – quase outra Brasília. Pois “quem tomou conta dela foram esses brasileiros legítimos que construíram a cidade e estão instalados nela legitimamente. É o Brasil”. E acrescenta: “...e eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. Eles estão com a razão, eu é que estava errado. Eles tomaram conta daquilo que não concebido para eles. Foi uma Bas- Gilberto.p65 177 27/05/2010, 16:01 178 GILBERTO FREYRE tilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa, como poderia ser. Brasília está funcionando e vai funcionar ainda, cada vez mais. Na verdade o sonho foi menor do que a realidade”. Trata-se de depoimento importantíssimo. O principal autor do projeto elaborado para uma futura capital do Brasil, encomendada ditatorialmente, a ele ao brilhante arquiteto Oscar Niemeyer, pelo bravamente dinâmico Juscelino Kubitschek, confessa seu, para ele, agora errado, “europeísmo”. Europeísmo à base, na verdade, de um modelo estritamente centro-europeu: o de Le Corbusier. Um Le Corbusier nativo de uma Europa carente de luz e de sol. E por essa circunstância profundamente ecológica, obcecado pela necessidade de abusar de vidros em suas construções urbanas. Esse abuso de vidros, o mais ostensivo antibrasileiros, antitropicalismo, antiecologismo da Brasília projetada subeuropeiamente, por Lúcio Costa e por Oscar Niemeyer. Mestre Lúcio Costa – quem mais mestre do que ele? Só que os mestres também, por vezes, se equivocam. E Lúcio Costa se confessa um, em alguns pontos, equivocado. Ao revisitar, há pouco, Brasília, o sempre mestre Lúcio Costa soube elogiar o governo do Distrito Federal por entender ser necessário reavaliar Brasília. Segundo ele, “o governo do Distrito Federal resolveu, sabiamente, fazer uma avaliação da situação atual, confrontá-la com a ideia originalmente proposta e ver em que medida as coisas ainda podem ser alteradas, corrigidas ou de que forma as alterações foram válidas e resultaram fecundas”. Evidentemente um Lúcio Costa aberto a que se façam alterações da “ideia originalmente proposta”. O que nem sempre ocorreu. Lembro-me de como foram ásperas suas considerações às minhas críticas, de entusiasta da iniciativa de construir-se nova capital para o Brasil, do que, na Brasília le corbusiana, me pareceu antibrasileiro, antiecológico, antitrópico. Aspereza a que correspondeu atitude, igualmente intolerante, da parte do próprio admirável Juscelino Kubitschek. O presidente, sempre cordial comigo – fomos companheiros na Constituinte de 46 –, a certa altura da construção de Brasília, honrou-se com um convite extre- Gilberto.p65 178 27/05/2010, 16:01 179 PENSAMENTO CRÍTICO mamente honroso: o de visitar, como seu convidado, as obras, já, então, adiantadas, daquela construção. Aceitei o convite. Demorei dias em observação, a mais honestamente objetiva, do ponto de vista psicossociocultural, do que se estava edificando. Era a primeira vez que se ouvia, sobre uma obra de todo e ditatorialmente arquitetônica, um cientista ou observador de outra perspectiva. Mas convocado – ficou evidente – apenas para ser formalmente ouvido. Não para ser de fato considerado no que sugerisse, criticou, apresentou a divergência dos estetas ditatoriais. O que notei? A falta de harmonização com ecologia tropicalmente brasileira. A falta de espaços para fins solidários: cívicos, religiosos, recreativos. O desdém pelo que seria o lazer dos futuros moradores, mesmo tratando-se de cidade destinada mais a ser superiormente política que ativamente industrial. Pois a tendência, em relação com tempo-trabalho. Aumento desentendido por Costa e Niemeyer. Tendência certa, futuro à vista. Destino evidente que dois arquitetos magníficos, encarregados pelo insigne Kubistchek de criarem Brasília, de improvisarem Brasília, de agirem tão somente como arquitetos, de darem Brasília ao Brasil. Que escapou às previsões de artistas tão empolgados pela parte aliciantemente estética da sua missão. Exclusivamente lamentável. Falta de quem? Falta de um presidente a quem tocou a iniciativa, pode-ser dizer que gloriosamente histórica, de situar uma nova capital do Brasil, em centro estrategicamente socioeconômico do país. Iniciativa que teve desempenho perfeito do ponto de vista geométrico. A exclusividade lamentável verificou-se ao acreditar o arrojado estadista – arrojado e, no caso, mal-assessorado: sem bons Sanchos Panças, ao lado do Quixote empreendedor – que a execução do audacioso plano de se construir cidade à altura de iniciativa tão abrangente poderia ser tarefa urbanisticamente só estética, sob o comando único de dois magistrais arquitetos exclusivamente estéticos. Este o erro que fez de Brasília um monstro fascinante para os olhos, para a vista, para a sensibilidade. Monstro por suas profundas deficiências, carências, irregulari- Gilberto.p65 179 27/05/2010, 16:01 180 GILBERTO FREYRE dades socioecológicas. De onde a absoluta passividade com que foi adotado, para a construção da nova capital brasileira, repitase, o mais antibrasileiro, o mais antiecológico, o mais antitropical dos modelos. Esteticamente primoroso, sim. Mas a adaptação do projeto estético a circunstâncias brasileiras? Por que modelo inspirado por centro europeu imposto, sem mais aquela, ao trópico brasileiro? Por que o abuso de vidros, nos edifícios que deviam ser seguidos como modelos de arquitetura única, que tornaram difícil a vivência neles, brasileiramente à vontade, de futuros moradores? Por que a carência de espaços para lazer? Por que a carência de espaços para solidariedades urbanas? Estes os erros, na construção de Brasília, que vêm sendo atenuados e, de certo modo, corrigidos, por moradores como que cientificamente experimentais de Brasília. Erros, alguns dos quais, ao revisitar Brasília, o arquiteto magistral que é Lúcio Costa se apercebeu terem sido cometidos por ele e pelo igualmente admirável Oscar Niemeyer. Arquitetos e presidente da República aos quais não ocorreu, em tempo justo, ouvir cientistas sociais, humanistas, educadores, Villa-Lobos, Anísio Teixeira, Burle Marx, sobre aspectos não arquitetônicos da construção da futura capital do Brasil. O Estado de S. Paulo São Paulo, 3 de fevereiro de 1985 Gilberto.p65 180 27/05/2010, 16:01 ESPÍRITO E NÃO ESTILO Um ponto viva e elegantemente discutido no Primeiro Encontro Regionalista do Nordeste foi este: se o “estilo colonial” verdadeiramente se presta a toda espécie de construção. A meu ver houve erro no ponto de partida: o de considerar “estilo” o que é antes um “espírito” do que rigorosamente um “estilo”. Não há de modo nenhum “estilo colonial brasileiro” com a mesma forte, definida e rígida caracterização das “cinco ordens”. O que nós possuímos é um espírito de casa, é uma linha de ingênua beleza de casa que se faz precisamente notar pelo à vontade de suas desproporções e assimetrias. Pelo seu cair nonchalant para os lados. E nesse à vontade de linhas se sente a hospitalidade, a simplicidade, a meio-rústica fidalguia da gente brasileira. E, ao mesmo tempo, a simpatia com o clima, com a paisagem, com o forte sol tropical, pelo desabar do telhado em pirâmide e às vezes irregularmente, plasticamente, como se fora um enorme chapéu mole ou de Panamá. E são notas, sugestões, todas essas das quais poderá tirar um arquiteto de talento e, ao mesmo tempo, de sensibilidade, o melhor dos partidos. É por apresentar inconfundíveis qualidades e condições, não só de permanente simpatia com a paisagem e com o meio, como de plasticidade e de flexibilidade-não sendo propriamente um Gilberto.p65 181 27/05/2010, 16:01 182 GILBERTO FREYRE estilo, não tendo rigidez ou a definida sistematização de um estilo – que o espírito colonial de casa me parece a sugestão mais rica, mais forte, mais pura, mais fecunda para o desenvolvimento de uma linha nossa, de um traço nosso, de uma expressão de arquitetura nossa nas cidades do Brasil como o Recife, saídas dos primeiros séculos coloniais e, ao mesmo tempo, em contacto – contacto sempre a avivar-se, a intensificar-se – com as grandes atualidades comerciais, industriais, mecânicas que se vêm sucedendo desde quando o Brasil vem sendo Brasil. Porque a sugestão da linha colonial não é somente a de quase lírico intimismo que oferecem abalcoados como o de Megaípe ou portas de entrada que só se prestam à hospitalidade doce de casas de residência. Há também no espírito colonial certa sugestão forte de amplitude, um não sei que de largamente, de franciscanamente hospitaleiro – que a vários edifícios públicos – hospitais, hotéis, e a meu ver também a bares – deliciosamente se adaptaria numa cidade como o Recife. Seria, por exemplo, lamentável, que, no Recife, se levantasse a catedral da planta ou traçado que uma vez me mostraram. Do velho espírito, da velha linha doce, franciscana, das nossas igrejas, dos nossos conventos – daí é que nos deve certamente vir a sugestão para a catedral do Recife. A nota brasileira, a nota local é que a deve animar. O espírito colonial de casa ou edifício representa não a sobrevivência de uma época tristemente morta, mas um fio cuja energia criadora se interrompeu, sob a fúria de macaqueação do toscano, do Luís XV, do chalé suíço, do normando francês! Fúria que, no Recife, teve seus princípios com o afrancesado conde da Boa Vista. Voltar a essa energia brasileira interrompida, mas ainda rica de sugestões, é voltar a uma fonte de vida. A um ponto de apoio honesto, autêntico, vindo da nossa própria experiência. A um ponto de partida seguro. A uma raiz. Certo, há que afastar a ideia simplista – parenta da solução manuelina do senhor Pinto da Rocha – de ser o “colonial”, no sentido de estilo já fixo ou estratificado, a solução completa e Gilberto.p65 182 27/05/2010, 16:01 183 PENSAMENTO CRÍTICO fácil do problema de construção expressivamente brasileira. Semelhante simplismo só nos poderia conduzir a um perfil de construção tristonhamente parecido às máscaras de morte. Do “colonial”, o que vale é a sugestão, a nota de permanente simpatia com o meio brasileiro, a linha a ser continuada, ampliada, modernizada, livre, independente dos pontos e das vírgulas cronológicas. Diário de Pernambuco Recife, 21 de fevereiro de 1926 Gilberto.p65 183 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 184 27/05/2010, 16:01 CÍCERO DIAS E SEU “NONSENSE” Waldo Frank ficou maravilhado com um Cícero Dias que viu na casa dos meus compadres, o senhor e a senhora Antiógenes Chaves: uma figura de menino triste diante de uns sobrados velhos. Aquilo sim era pintor que punha a sensibilidade de adventício em comunicação com o mistério brasileiro. Impressão que teve também, na nossa casa de Santo Antônio de Apipucos, o professor William Berrien diante de uns desenhos de Cícero. Tanto que não tardou em pôr em movimento suas manhas de frade à paisana para conseguir que lhe oferecêssemos três das garatujas do pintorzinho de Escada. O pintorzinho da Escada que hoje tem a seu favor a admiração de um mestre como Picasso não precisa colecionar elogios simplesmente literários. Mas os dois que acabo de referir não são de todo desprezíveis: nem são dos que se tornaram fáceis e banais nestes dias de cortesias interamericanas. Entretanto há ainda quem suponha Cícero Dias um indivíduo apenas engraçado, cujos borrões divertem a vista quando cansada da pintura séria: séria, sensata, gramatical. Ignoram que ele é da classe do Walt Disney, anima-o igual poder poético e igual coragem de sobrepor-se à seriedade, ao bomsenso e à gramática da pintura. Seu pincel é quase uma vassou- Gilberto.p65 185 27/05/2010, 16:01 186 GILBERTO FREYRE ra de bruxo. Suas cores são outras tantas coisas de bruxaria. Seus azuis e encarnados são exclusivamente dele e do povo e do folclore e não das receitas certas e rígidas das escolas. O chamado filisteu costuma dizer diante das pinturas de Cícero Dias: “mas isto não tem senso nenhum!”. E não tem. Nenhum senso convencional. Raras as suas pinturas que se deixam caracterizar por um arremedo sequer de título como Dia de juízo dos usineiros e Família de luto. Quase todas são sugestões às vezes contraditórias. E sugestões em torno do mistério brasileiro do qual Cícero Dias não se desprende. A ausência de senso – bom ou comum – nada tem que ver com a beleza de expressão ou a força de sugestões de uma pintura, de uma escultura, de uma música, de um poema. “Isso não tem senso nenhum!” está longe de ser a crítica devastadora que o filisteu supõe. Ainda há pouco apareceu neste mesmo Recife triste, mas surpreendente de Cícero Dias o livro de um poeta de vinte anos. João Cabral de Melo Neto – que é outra negação magnífica de senso: de toda a espécie de senso convencional. Sua poesia é das que não têm senso convencional nenhum. Mas é da verdadeira, da boa e às vezes até roça pela grande. João Cabral de Melo Neto, como Cícero dos Santos Dias nos fazem pensar no que há de mais profundo no ensaio de Holbrook Jackson sobre nonsense (Southward ho! and other essays! ): o que o nonsense, isto é, a falta de senso convencional, o desprezo pelo bom-senso, a negação do senso comum, talvez seja um esforço consciente ou inconsciente do artista e do humorista no sentido de “novas maneiras de expressão da vida” (newer ways of expressing life). Não que se deva considerar o nonsense esforço deliberado para reformar a cultura humana e os seus valores atuais. Mas simplesmente porque libertandonos da tirania da coerência, da perspectiva, da gramática, pode concorrer para nos conservar vivos diante da vida e diante da sua transmutação de valores. Ninguém é mais vivo diante da vida do que Cícero Dias. Vivo, corajoso, pessoal, fiel a si mesmo, fiel aos seus amigos, fiel à sua pintura. Estivemos presos uma vez e outra vez enjoa- Gilberto.p65 186 27/05/2010, 16:01 187 PENSAMENTO CRÍTICO dos a bordo num velho rebocador que nos trouxe – a ele, a mim e a Carlos Leão – de Santos ao Rio de Janeiro, por um mar violentíssimo. Duas ocasiões memoráveis. Numa como noutra Cícero Dias se revelou o brasileiro esplêndido que é, ao mesmo tempo que o poeta extraordinário para quem o nonsense em vez de fim é na verdade um meio: um esforço no sentido de “novas formas de expressão da vida”, como diria o ensaísta inglês. “Novas formas de expressão da vida” é o que busca sua pintura toda de ousada experimentação, sem que entretanto o gosto de experimentar seja maior do que a força poética que transborda de tudo quanto é pintura, desenho ou palavra mais intensa de Cícero Dias. E a vida para ele como para esses outros poetas indiretos que são José Lins do Rego e Luís Jardim tem uma fonte donde corre com particular sabor: a região onde nasceram e se criaram e de que se tornaram os três maiores intérpretes vivos. O nonsense de Cícero Dias tem sentido: sentido poético. Diário da Manhã Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1942 Gilberto.p65 187 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 188 27/05/2010, 16:01 PARTE III “DANÇAR COM OS OLHOS”: REFLEXÕES SOBRE A CRÍTICA Ainda a propósito de críticos literários Querela entre pintores e escritores Críticos como criadores: a propósito de um gaúcho Um crítico na verdade criador Gilberto.p65 189 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 190 27/05/2010, 16:01 AINDA A PROPÓSITO DE CRÍTICOS LITERÁRIOS A Universidade do Recife, atualmente, orientada por um médico que é também um professor de belas-artes e um amigo das chamadas “letras humanas”, não comete desatino nem pratica desvario reunindo no Recife um congresso de críticos literários e de crítica literária que será também um congresso internacional de literatura comparada. Quem diz literatura comparada diz compreensão internacional. Diz internacionalismo da melhor espécie: tão necessário ao mundo de hoje. A literatura – escrevia há pouco, numa revista dos Estados Unidos, The Cea Critic, um professor de universidade daquele país – não pertence aos literatos, não é propriedade particular deles. Pertence ao povo. Pertence a toda uma sociedade: aquela que se exprime nessa literatura e que, até certo ponto, se orienta por essa literatura. O mesmo se pode dizer da crítica literária: ela é uma forma de esclarecimento e de orientação de gosto, de sensibilidade e de cultura de todo um povo; e não apenas recreio bizantino de um reduzido número de esnobes ou de acadêmicos. Sylvio Romero – talvez com todos os seus defeitos, o maior dos críticos literários que o Brasil já teve, o autor de uma monumental história da literatura brasileira que renovou súbita e profunda- Gilberto.p65 191 27/05/2010, 16:01 192 GILBERTO FREYRE mente a cultura nacional – nada teve nem de esnobe nem de acadêmico: era um homem profundamente humano. Um brasileiro da cabeças aos pés. Sua crítica literária, mais do que a de qualquer outro crítico, concorreu para aproximar o brasileiro das fontes populares, folclóricas e até rústicas de sua arte, e, particularmente, de sua literatura. Anos depois de Sylvio, Tristão de Ataíde concorreria notavelmente para libertar o escritor brasileiro do mau academismo e para integrá-lo, através do chamado “modernismo”, na sua língua viva, nos estilos correntes de vida, seus e da sua gente, no seu cotidiano. No mesmo sentido foi, com um sentido brasileiro, social e popular que faltou aquele “modernismo”, a ação dos iniciadores do movimento regionalista do Nordeste: um movimento que se estendeu, com ímpeto renovador, a vários aspectos da vida brasileira, partindo desta simples verdade: a de toda genuína cultura ser inseparável, em suas raízes ou em suas fontes, da vida vivida por uma gente situada. Homens, assim ligados à vida, à atualidade, ao cotidiano, às constantes existências e às tradições essenciais de um povo, não podem ser de modo algum considerados vãos literatos, com os quais nada tenha que ver um Estado ou uma Nação. Eles são, através de sua difícil e complexa especialidade, instrumentos, ao mesmo tempo, de coesão nacional e de compreensão internacional. Mais: lembremo-nos de que o moderno surto literário dos Estados Unidos, preparam-no críticos além de literários, sociais – Van Wyck Brooks e H. L. Meneken, entre eles – lucidamente ligados aos valores essenciais a uma nova cultura nacional, que eles contribuíram para libertar da excessiva submissão às culturas academicamente europeias em que vinha se eternizando. Hoje, os russos-soviéticos estão a fazer chegar seus foguetes à lua – brilhantes arrojos de ciência e de técnica nos quais já superaram os angloamericanos. Mas não conseguem produzir um Hemingway nem um Faulkner, muito menos um Rembold Niebuhr. É que a alfabetização da gente russa e a sua preparação para atividades técnicas – triunfos apenas quantitativos, tão admirados por certos sul-americanos – vêm se fazendo um tanto à Gilberto.p65 192 27/05/2010, 16:01 193 PENSAMENTO CRÍTICO revelia daqueles valores qualitativos de cultura que não florescem em países sem críticos da vida nacional: críticos sociais, críticos de ideias, críticos políticos, críticos literários, críticos de arte. Os grandes líderes russos-soviéticos começam aliás a sentir a necessidade, na sua admirável Rússia, dessa espécie de crítica e desse gênero de críticos, ao lado dos insignes cientistas, que vêm concorrendo para a grandeza atual daquela nação-império. Não há hoje pensador ou sociólogo, antropólogo ou psicólogo idôneo, voltado para o estudo de problemas atuais de educação, que não considere necessário opor-se ao furor tecnicista que vem prejudicando a cultura do homem moderno, ou para o simples ânimo alfabetizante da parte de certos homens públicos, um humanismo capaz de conciliar-se com as exigências ou as solicitações de uma época inevitavelmente técnica nas suas principais tendências de desenvolvimento e economia, nas suas principais preocupações de organização social. Capaz, também, de valorizar elites para missões criadoras e tarefas de comando. Mas que não deve deixar-se desumanizar nem pelo tecnicismo absorvente nem pelo economismo com pretensão a imperial nem, tão pouco, por um superficial ou demagógico populismo cultural. Contra os excessos de um e de outros, está o homem moderno obrigado a opor aquele sábio humanismo que o reintegre nas melhores tradições não só do saber como da sabedoria, quer ocidental, quer oriental. E para a valorização deste humanismo, muito poderá contribuir a crítica literária que seja, além de estética e filológica, filosófica e até sociológica. Filosófica e sociológica não nos seus principais objetivos, mas nas implicações de sua atividade a um tempo analítica e orientadora. Diário de Pernambuco Recife, 19 de junho de 1960 Gilberto.p65 193 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 194 27/05/2010, 16:01 QUERELA ENTRE PINTORES E ESCRITORES Não é só a chamada “querela das gerações” que agita hoje o meio intelectual e artístico do Brasil. Não é só a fúria dos de menos de trinta contra os de mais de quarenta – que não adulam os de menos de trinta com aqueles excessos de elogios melífluos a que os habituou o grande, mas sempre exagerado, Mário de Andrade. Também há uma querela das artes: a arte do pintor contra a arte do escritor. Há pintores cujo desdém pelos pobres dos intelectuais que eles fazem questão de chamar sempre “literatos” – vai a extremos verdadeiramente cruéis. O próprio Cândido Portinari, que é tão grande na sua arte quanto generoso de coração; costumava tratar tão de resto tais “literatos” que ia ao ponto de se revelar capaz de liquidá-los todos, um a um, com os terríveis punhais florentinos do seu desdém e do seu ódio. Hoje, amaciado, pela idade, e pela experiência, mestre Portinari se mostra menos áspero com os coitados dos “literatos” que se afoitam a escrever sobre pintura; e até admite que possam uma ou outra vez dizer alguma coisa de sensato ou inteligente sobre o sagrado assunto. Há, na verdade, quem escreva sobre pintura para só fazer renda ou bico com palavras. Mas não é só a pintura que serve Gilberto.p65 195 27/05/2010, 16:01 196 GILBERTO FREYRE de pretexto a essa espécie de bordado literário com que se divertem aspirantes à condição de escritor. Também a música, a arquitetura, a sociologia, a medicina, a filosofia são pretexto para tais atividades que, de literárias, têm apenas a aparência, faltando-lhes as bases, a raiz, o essencial. Pois o que faz o escritor é a capacidade de revelação ou sugestão pela palavra escrita da vida do homem. Essa capacidade dá-lhe o direito de ocupar-se, como escritor, da pintura e dos pintores, como Ruskin, da arte da cozinha, como Dumas, da política balcânica, como Rebecca West, da música, como Rolland, da arte da caricatura como Ramalho, da geografia regional como nosso Euclydes, sem que tais intervenções do escritor em especialidades técnicas tão diversas devam ser consideradas intrusões prejudiciais às áreas invadidas pelo intelectual. Ao contrário: dessas invasões ou intrusões tem resultado enriquecimento das mesmas especialidades e não apenas à “confusão” a que se referem os peritos da crítica da pintura obcecados por uma mística de exclusividade um tanto parecida à do “petróleo é nosso”. A verdade é que assunto nenhum é só dos técnicos, dos artistas ou dos especialistas fechados como padres de Tibet dentro desse assunto: é também do escritor que tenha o talento ou o gênio da revelação, a capacidade de descobrir ou de interpretar a natureza ou o homem. Capacidade [ ]7 da maioria dos especialistas ou técnicos. Havelock Ellis escreveu sobre a Espanha – inclusive sobre seus pintores – um livro que excede em penetração e sensibilidade o daqueles seus compatriotas especialistas em assuntos espanhóis. Arrepiaram-se esses especialistas com a invasão afoita. Mas com ela lucrou a literatura inglesa e lucraram os próprios espanhóis a quem Ellis revelou aspectos até então desconhecidos do caráter de uma gente ao mesmo tempo tão sonhadora e realista e, por isso mesmo, tão mais parenta da inglesa que da francesa. Não se passa coisa diversa com a pintura. Os melhores estudos sobre a arte de El Greco, por exemplo, permanecem os 7. Termo ausente do original. Gilberto.p65 196 27/05/2010, 16:01 197 PENSAMENTO CRÍTICO de escritores. Por eles El Greco parece que se exprime melhor do que por intermédio dos estreitos críticos de pintura. Talvez isto se verifique devido ao fato, salientado uma vez por Shopenhauer (a quem decerto impressionara os constantes fracassos dos especialistas da pintura nas suas tentativas de interpretação dos grandes mestres): o fato de falarem esses especialistas antes de ouvirem os mestres. Pelo que Shopenhauer deixou-nos a todos o conselho precioso: “diante de um grande artista – como, por etiqueta, diante de um rei – devemos nos conservar em silêncio até que o artista fale”. Até que ele fale pela boca de sua arte: pelas bocas dos seus quadros, das suas composições, das suas estátuas. São os escritores que melhor sabem ouvir o que dizem ou têm a dizer de mais profundo e de mais íntimo os artistas das outras artes. Os escritores e não os críticos puramente técnicos, atentos apenas a chinesices. Entre nós: foi preciso Taunay para que se revelasse a arte do compositor José Maurício. Foi preciso o escritor Oliveira Lima para que se tornasse claro o sentido da pintura de Teles Júnior. O Aleijadinho é outra revelação de escritores. Revelações de escritores são, entre os modernos, os pintores Tarsila, Manuel Bandeira, Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Rosa Maria. Na querela entre pintores e escritores, é preciso que o escritor não se deixe amedrontar ou intimidar pelos pintores ou pelos críticos especialistas que o tratam desdenhosamente ou de resto, como se fosse um intruso. O verdadeiro escritor não é intruso em assunto algum. Todos os assuntos são seus – ou podem tornar-se seus – contanto que correspondam ao seu temperamento, à sua vocação, às suas preferências naturais avançadas pelo estudo. Essas referências tanto podem ser pela música, como no caso de Romain Rolland, como pelas artes plásticas, como no caso de Ruskin. Ou mesmo pela arte da cozinha como no caso de Dumas. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1949 Gilberto.p65 197 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 198 27/05/2010, 16:01 CRÍTICOS COMO CRIADORES: A PROPÓSITO DE UM GAÚCHO Há qualquer coisa de paradoxal no fato de no Rio Grande do Sul virem surgindo bons e até excelentes críticos literários. Pois a ideia geral que se tem, no Brasil setentrional, do Rio Grande do Sul é a de uma terra de “gaúchos” derramados, verbosos, teatrais: incapazes, portanto, de ser bons ou razoáveis críticos. Engano. Talvez nenhum estado do Brasil tenha tido a sua história literária analisada melhor do que a do Rio Grande do Sul o foi por João Pinto da Silva. Do Rio Grande do Sul é o ensaísta Moisés Velinho, crítico admirável. Do Rio Grande do Sul é outro ensaísta a que não falta a inteligência crítica: o hoje acadêmico nacional Viana Moog. Do Rio Grande do Sul são vários jovens escritores, notáveis pelo talento ou a agudeza crítica. Um deles – talvez o mais notável – Paulo Heckel Filho. Não é ele crítico pedagógico. Serve-se da crítica para afirmarse, para aperfeiçoar-se, para exprimir-se, para definir-se através de opções, para esclarecer-se através de contrastes, para encontrar-se através de preferências ou repugnâncias, para explicar-se através das suas admirações e das suas negações. E essas admirações e essas negações são quase sempre as de um escritor sério, profundo e cheio de possibilidades; e não as de um simples fracassado na- Gilberto.p65 199 27/05/2010, 16:01 200 GILBERTO FREYRE queles gêneros de expressão geralmente considerados “criadores” em contraste com a crítica que seria um gênero “parasitário”. Tão poderosa me parece em Paulo Heckel Filho a inteligência crítica, tão ávida e necessitada de aventura não só de espírito como de personalidade inteira essa sua inteligência completada por uma extraordinária sensibilidade de artista, de criador, de experimentador no melhor sentido em que um escritor deve ser experimental, que me parece urgente seu contato com a Europa e com os Estados Unidos: com algum meio altamente universitário. Ou simplesmente com o meio intelectual de Paris ou de Londres ou de Roma ou de Nova Iorque ou de Oxford. Acabo de ler o último livro de Paulo Heckel Filho: A alguma verdade – crítica e autocrítica. E há anos – repito neste trecho o que já escrevi para O Cruzeiro – que um livro brasileiro de ensaísta, jovem ou já completo, não me comunica, como este, tanta riqueza de sugestões fortes. É um livro que nos põe em presença não apenas de uma inteligência excepcionalmente aguda na análise de valores literários, mas de uma personalidade com o gosto, a capacidade, a coragem de revelar-se, através de suas interpretações de obras alheias. De suas reações quase de expressionista a essas obras. Pois não se trata – repita-se – de um crítico pedagógico, mas de um inquieto, de um plástico, de uma espécie de escultor de si mesmo à maneira espanholíssima de Unamuno. Escultor de si mesmo e não escultor de personagens da novela ou de drama. Criador de romancistas e não simplesmente de romances. De poetas e não apenas de poemas. Escultor de novas gerações. É onde mais poderosamente se afirma a capacidade criadora de um crítico, cuja influência, aliás, pode chegar a ser imensa: em criar, em esculpir, em dar forma às ideias ou ao estilo de novas gerações. Em modificar gosto, alterar padrões, reformar convenções. A literatura norte-americana – que é hoje, queiram ou não queiram os antiamericanos sistemáticos, umas das mais fortes, vigorosas e originais do mundo – passou de “colonial” a autônoma ou criadora pela ação de seus grandes críticos Gilberto.p65 200 27/05/2010, 16:01 201 PENSAMENTO CRÍTICO criadores, desde 1910 empenhados em uma batalha magnífica. Críticos como Van Wyck Brooks, aos quais seria ridículo negar poder criador por terem se destacado como críticos. Críticos da vida e não apenas das letras e das artes. Críticos que se desenvolveram em contato com a Europa e não fazendo de seu americanismo um mau provincianismo. Pode alguém desenvolver-se em bom poeta e em bom romancista sem contatos, sem aventura, sem choques não só de inteligência como de personalidade com estrangeiros intelectualmente avançados e com alguma coisa de pósteros em relação ao país de origem de cada um. Sustento, aliás, a tese de que pode alguém ser romancista mesmo sem ser escritor; e mais de uma vez tenho citado o caso de Amando Fontes, que quase sem ser escritor ou intelectual, mas homem prático, é autor de pelo menos um bom romance: Os Corumbas. Mas só escritores, intelectuais de muitos contatos e experientes podem ser verdadeiramente críticos. Diário de Pernambuco Recife, 16 de junho de 1953 Gilberto.p65 201 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 202 27/05/2010, 16:01 UM CRÍTICO NA VERDADE CRIADOR Mais um livro do crítico Roberto Alvim Corrêa. E quem diz um livro de Roberto Alvim Corrêa diz qualquer coisa de extraordinário na atual produção literária do Brasil. Pois o maior encanto desse escritor brasileiro que o longo contacto com a Europa latina não desbrasileirou, mas, ao contrário, deve maior vigor e maior profundidade à sua condição de brasileiro, está em ser, ao mesmo tempo, crítico e artista. O que é tão raro que chega a ser estranho e até escandaloso. Há em literatura os que dançam e os que veem os outros dançar. Há críticos que apenas veem os outros dançar e quando têm o sentido de ritmo, a sensibilidade à música, dançam intensamente, mas só com os olhos. E dançar com os olhos nem sempre é menos do que dançar com os pés: às vezes é mais. Há no escritor autêntico que é Roberto Alvim Corrêa um sentido tão forte do ritmo ou da dança da vida, que ele é tão capaz, na sua crítica, de dançar com os pés à maneira dos dançarinos que contempla, como com os olhos, no estilo dos antigos sultões para quem o esforço mecânico da dança era digno apenas de escravos. A crítica permite aos grandes críticos serem ao mesmo tempo sultões e escravos na literatura: e em Roberto Alvim Corrêa é o que se sente: um dançarino capaz de dançar com o Gilberto.p65 203 27/05/2010, 16:01 204 GILBERTO FREYRE corpo inteiro, mas que prefere dançar apenas com os olhos, intensamente, retirando da contemplação da dança alheia ou coletiva um gozo que não é apenas contemplativo, mas criador. Foi Havelock Ellis quem escreveu da vida que era dança: e da literatura como expressão da vida pode-se escrever, com maior razão, o mesmo: que é dança. E dentro da literatura a crítica criadora é também dança, por ser, ao mesmo tempo, expressão e contemplação da vida. Mas contemplação ativa, de quem participa ritmicamente do drama e não apenas o considera com olhos distantes de turista literário. É assim que o escritor Roberto Alvim Corrêa é crítico: fazendo da crítica uma expressão intensa de vida e uma afirmação daquele personalismo que está a renascer na literatura inglesa entre os escritores mais jovens, com um vigor que significa clara repulsa aos excessos de coletivismo ou politicismo em que resvalaram tantos dos escritores hoje maduros. Dançando com os outros, mas parando para ver dançar a sua própria geração e comparando sua dança com as de outras gerações. Parando para ver dançar para melhor dançar, à sua maneira, com os olhos. Olhos de quem contempla, de quem critica, de quem escolhe, de quem aceita da dança coletiva ou alheia o que lhe convém à personalidade e repele o que repugna ao seu sentido de vida que não sendo um sentido individual mas coletivo – pelo que implica de adesão a valores do passado – é, isto sim, pessoal, pela seleção ou escolha que exerce sobre o coletivo ou o alheio. Ora, nenhuma atividade literária mais personalista, neste bom e alto sentido de personalismo que não deixa de ser social nem se afasta do humano do que acrítica que seja também criadora: crítica extraordinária ou incomum mais que existe e é o sal das literaturas. E é essa a crítica que o escritor Roberto Alvim Corrêa pratica hoje no Brasil com uma lucidez, uma sensibilidade, uma penetração que tornam os seus livros verdadeiros acontecimentos literários. Diário de Pernambuco Recife, 30 de maio de 1952 Gilberto.p65 204 27/05/2010, 16:01 PARTE IV “MANTER OS ARTISTAS”: SUGESTÕES PARA UM CAMPO DA ARTE Os artistas e a rotina Arte ou literatura paga Retrato de Portinari Uma revista de cultura Contra a burocratização da cultura As artes e o perigo do dirigismo Ainda a propósito de dirigismo nas artes e nas letras A propósito de uma política nacional de cultura Gilberto.p65 205 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 206 27/05/2010, 16:01 OS ARTISTAS E A ROTINA Carlos da Maia e o seu amigo Cruges foram uma vez a Sitiais. Corria o mês de abril – como num romance não de Eça, mas de J. de Alencar. E era cedo: as lojas ainda vazias; raras janelas abertas; numa delas, secando ao sol, um par de botinas de duraque; à porta do hotel, dois rapazes ingleses de knickbokers. Chegados aos Sitiais, Carlos e o maestro sentaram-se num muro baixo, diante dum velho jardim: “Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e árvores, sufocando-se numa prodigalidade de bosque silvestre, deixando apenas espaço para um tanquezinho redondo, onde uma pouca de água, imóvel e gelada, com dois ou três nenúfares, se esverdinhava sob a sombra daquela ramaria profusa. Aqui e além, entre a bela desordem da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguês, uma volta de ruazita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso...” Foi diante desse jardim tão português e tão cheio de boas sombras que o Cruges teve a ingenuidade de exclamar: “Que pena que isto não pertença a um artista!” Sorriu a Carlos da Maia. Sorriu e disse ao ingênuo maestro: “Os artistas só amam na natureza os efeitos de linha e cor; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que Gilberto.p65 207 27/05/2010, 16:01 208 GILBERTO FREYRE um craveiro não sofra sede, para sentir mágoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentos das acácias – para isso só o burguês que todas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nas árvores e nas plantas uma outra família muda, por que ele é também responsável.” Nunca pôs Eça numa boca de personagem palavras mais verdadeiras sob a falsa aparência de paradoxo. Na verdade, ninguém como o chamado “burguês” para cuidar dum jardim que talvez só o artista goze nos seus encantos mais íntimos. O “burguês” metódico, igual, correto. Aliás, critério pode ser estendido. Não se aplica exclusivamente a jardins. Os Cruges também dizem diante de pinacotecas metodicamente dirigidas, com o maior zelo, pelos burocratas das letras, pelos eruditos das artes: “Que pena que isto não seja dirigido por um escritor!” Enganam-se os Cruges. É verdade que alguém poderia alegar contra esta aplicação às pinacotecas e bibliotecas da filosofia do Eça, o exemplo de Columbano na direção do Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa. Mas injustamente. Dirigir um museu de arte contemporânea é questão de gosto. Por conseguinte, função artística. Um museu de arte contemporânea quase não é museu. Eu me refiro às pinacotecas que recolhem o consagrado, o estabelecido, o oficializado; e às bibliotecas a cujo patrimônio a incorporação do novo se faz automaticamente; e que são principalmente armazéns de matéria literária já em latas de conserva. Ora, para dirigir estas e parecidas instituições – das quais serei o primeiro a realçar a importância e a utilidade – é que me parecem muito mais aptos os puros eruditos, arqueólogos da arte, técnicos de pintura ou de conservação de mss., especialistas em catalogação ou no combate à traça e ao cupim – a burguesia das artes e das letras – que os artistas verdadeiramente criadores, indiferentes a umas tantas minúcias, rebeldes ao rame-rame burocrático e à rotina administrativa. Por mais paradoxal que pareça, ninguém como um burguês das artes ou das letras para a direção e administração dos luga- Gilberto.p65 208 27/05/2010, 16:01 209 PENSAMENTO CRÍTICO res destinados a conservar os quadros, as estátuas ou os livros: as glórias e os valores consagrados e tanto quanto possível fixos, das gerações passadas. Porque semelhante burguês, despreocupado de criar, pode entregar-se de todo à função, que não deixa de ser nobre e que é útil, grandemente útil, de conservar. E no caso de criador, duvido de sua competência e sobretudo de sua disposição mental, para dirigir uma pinacoteca ou uma biblioteca, um conservatório, ou um museu. Semelhantemente duvido da competência e da disposição mental de um grande jornalista para dirigir um grande jornal. A aptidão do grande jornalista não é de dirigir o grande jornal: é de praticar o grande jornalismo. A crônica. A reportagem. A entrevista. O inquérito. Em Assis Chateaubriand, por exemplo, a rotina de deveres de diretor de jornal está sempre prejudicando o grande jornalista, o perfeito repórter, o genial mestre da arte da entrevista. Mas em todo este assunto que venho procurando desenvolver – a inaptidão dos talentos criadores para conservar e administrar – o que me parece de valor prático é concluir pela necessidade e até urgência duma nova função do Estado: o inverso de sua função de caridade e assistência a velhos, dementes, etc. Cumpre ao Estado atual manter os artistas, cientistas e escritores reconhecidamente criadores, por meio de um imposto de admiração sobre a burguesia simplesmente conservadora. Artigo de 1924, publicado em Retalhos de jornais velhos Rio de Janeiro, José Olympio, 1964, 2ª edição Gilberto.p65 209 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 210 27/05/2010, 16:01 ARTE OU LITERATURA PAGA Tenho ouvido dizer mal do senhor Júlio Dantas simplesmente porque o admirável autor de A ceia dos cardeais apareceu, no Brasil, de empresário. É ou não lícito a um escritor tomar empresário? Melindroso assunto, mesmo abstraindo-se o espírito do caso individual do senhor Júlio Dantas. Mas um aspecto tão curioso e provocante da relação do ego com o não ego que me sinto irresistivelmente atraído a discuti-lo. Não visa a reminiscência de Kant dar a falsa impressão de que sou entendido em assunto de ética. Tenho dessa matéria – de sua parte especulativa – noções muito superficiais. Estudeia num severo compêndio que principia dizendo: “Conduct is 3/4 of life.” A matemática é de Mathew Arnold. O mestre que me iniciou na ética falava com o ar de quem estivesse sempre com sono. Só uma questão o excitava: o problema do matrimônio e assuntos correlatos. Eram, entretanto, os assuntos que eu e alguns amigos ouvíamos discutir com mais sono. Duvidávamos um tanto da autoridade do mestre. De quanto aprendi a respeito da ética de profissões restamme vagas lembranças. Lembra-me que o professor sonolento Gilberto.p65 211 27/05/2010, 16:01 212 GILBERTO FREYRE costumava dizer muito mal dos jornalistas. Principalmente do anonimato. E isto sem conhecer os jornais do Brasil e do Peru. Por que será que em certos países o público se sente ofendido nos seus melindres ao primeiro sinal de savoir vivre da parte de um artista? E acha ilícita a venda em retalho, em conferência e artigos, de literatura? Há duas respostas: 1ª – o público sente no artista alguma coisa de superior e o deseja fora do mundo e da sua vil mercancia; 2ª – o público vê no artista um como que objeto de luxo, de prazer, “espécie de prostituta”, como uma vez sugeriu R. L. S. A ser verdade a última possibilidade, o artista – plástico, musical ou literário – é um ser apenas tolerado. Não tendo jeito para funções mais nobres na vida é-lhe generosamente permitido ir escrevendo suas histórias, pintando suas telas, salpicando de colcheias, breves e semibreves, mínimas e semínimas, seu papel de solfa e plasmando no barro mole seus nus mais ou menos voluptuosos. Mas deve resignar-se a ser tolerado e nada mais. Querer o escritor, pelo luxo de sua literatura a retalho, preços na proporção dos de charque e carne verde é o requinte do mercantilismo. No caso da primeira possibilidade, deve o artista vibrar de gozo, colocado na excelsa classe dos mártires. A superioridade de sua função na vida – criar beleza e fazer pensar – exige dele a renúncia de todos os ganhos materiais. Se escreve um livro é em benefício do editor que reverte o grosso dos lucros, como no conhecido caso Flaubert e os virtuosos senhores Levy & Cia. Suas mãos devem conservar-se castas do vil metal. É um modo de ver, esse, belo e comovente, a favor do qual se podem reunir exemplos de escritores, compositores e artistas clássicos, cuja faculdade criadora o “vil metal” tem amolecido ou corrompido. Entre outros, os que, uma vez enriquecidos, têm mandado às favas o respeitável público. Há, entretanto, lugares em que se põe em prática um como protecionismo do talento implume. Li uma vez, já não me lembro onde, que se organizou na Austrália uma Genius Exploiting Company. O mais curioso dos sindicatos de que tenho tido no- Gilberto.p65 212 27/05/2010, 16:01 213 PENSAMENTO CRÍTICO tícia. Visava a exploração de gênios e talentos, não só em proveito dos mesmos como de um grupo de acionistas, cujas ações, as vitórias dos artistas amparados pela sociedade, haveriam de valorizar, dando-lhes dividendos. A este como protecionismo, opõe-se o laissez-faire nosso e de outras gentes. Neste caso laissez-faire quer dizer em bom português: deixar que o artista leve o diabo. A favor de semelhante política mui lindas coisas se podem dizer. Por exemplo: que o esforço martirizante a que o artista é obrigado para viver aguça-lhe o talento ou gênio. Mas, o certo é que à literatura mal paga, e hoje tão anêmica, da França, se pode opor a da Inglaterra, onde é regra ser o escritor muito bem pago. Isto desde Pope. Dickens com os seus The pickwick papers ganhou milhares de libras. Ia ficando podre de rico quando morreu. A Thackeray pagava o Cornhill por cada um dos seus artigos (da série Roundabaut Papers) a bagatela de cem libras. Kipling escreve hoje a um xelim por palavra. Os amigos em Londres do senhor Antônio Tôrres quase estouraram de espanto à notícia de que o escritor brasileiro apenas recebe 100$ por artigo. Entretanto, o senhor Carlos de Laet recebe 75$; e quanto ao senhor Oliveira Lima só ùltimamente começou O Estado de S. Paulo a pagar-lhe 100$ em vez dos 50$ da tabela. Nos Estados Unidos, James W. Riley chegou a escrever a $500 por palavra. Naquela terra, por muitos proclamada “sórdida e vil” habituei-me à sem-cerimônia dos escritores em escreverem a dinheiro e em tomarem empresários. Vi Tagore, com o seu ar de Cristo, aparecer de empresário. Vi aparecer de empresário, o místico Maeterlinck. E o socialista Wells. E o poeta Yeats, amigo de Wilde. Na tarde em que num teatro de Nova Iorque falava Chesterton, pediram-me $5 por um bilhete. O nosso Oliveira Lima fez conferências pagas em Williamstown. E vai agora fazêlas também muito bem pago, o argentino senhor Zeballos. Artigo de 1924, publicado em Retalhos de jornais velhos Rio de Janeiro, José Olympio, 1964, 2ª edição Gilberto.p65 213 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 214 27/05/2010, 16:01 RETRATO DE PORTINARI Engana-se quem pensar que o brasileiro Cândido Portinari é largamente conhecido na Europa. Sua fama europeia se limita a um pequeno grupo de conhecedores minuciosos da pintura moderna ou de conhecedores igualmente minuciosos do Brasil. É bem menor que a fama de Villa-Lobos como compositor. Ou a do jornalista Assis Chateaubriand. Sendo assim, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro agiria bem fazendo publicar em inglês e francês um resumo de Portinari, do escritor Antônio Calado. Esse livro não é só apologia de Portinari como pintor brasileiro: é também um brado não sei se digo patriótico a favor de todo artista jovem de talento que surja entre nós. Encarece as atenções que ele deve merecer dos governos e dos ricos de um país ainda imaturo como o Brasil. Está certo, certíssimo – salienta o escritor Antônio Calado – que o Brasil mande ao estrangeiro seus jovens técnicos “para aprenderem seus ofícios com os que sabem mais”. Mas sem olvidar seus jovens artistas que precisam hoje, como o próprio Cândido Portinari, com todo o seu gênio, precisou um dia, de um ano ou dois ou três de contato com a Europa. Não só de técnicos necessita o Brasil: também de artistas. Admita-se que um artista para cada grupo de cem ou mesmo de mil técnicos. Mas não nos deixemos nunca dominar pela ideia de que, cui- Gilberto.p65 215 27/05/2010, 16:01 216 GILBERTO FREYRE dando de formar técnicos, podemos nos dar ao luxo de desprezar artistas: vocações de artistas. Ou artistas já realizados. Todo esforço que o Brasil fizer para tornar conhecido dos europeus um artista brasileiro da grandeza de Cândido Portinari é um esforço a favor do próprio Brasil. Não há povo que se faça respeitar só pela sua técnica: seus artistas, seus pensadores, seus santos contam e muito. Muitíssimo, até. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1957 Gilberto.p65 216 27/05/2010, 16:01 UMA REVISTA DE CULTURA Com Cultura, a revista que o senhor Simeão Leal inteligentemente dirige para o Serviço de Publicações do Ministério de Educação e Saúde, já podemos nos gabar, no Brasil, de possuir uma revista nacional de cultura. Era um tipo de publicação que estava fazendo enorme falta desde o desaparecimento da Revista do Brasil. Era uma ausência humilhante para o nosso país: a ausência de uma revista nacional, de cultura. O que é preciso é que Cultura não fique nos primeiros números. Que se firme de modo a tornar-se uma instituição brasileira em vez de uma simples revista de doutos. Que adquira, como revista de cultura geral, as qualidades de consistência e de seriedade, de permanência e de solidez que caracterizam, como revista especializada ou técnica, a publicada há anos pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sob a direção do senhor Rodrigo M. F. de Andrade. Ou as que o Instituto de Geografia e Estatística, o Museu Nacional, a Prefeitura de São Paulo vem publicando há anos. Para tanto é preciso não só que a colaboração se mantenha de primeira ordem (dentro das possibilidades brasileiras, é claro), como também que as seções especializadas de ciência, história, arte, literatura, bibliografia se conservem realmente especializadas. O que já é possível no Brasil. Já temos especialistas ilustres em Gilberto.p65 217 27/05/2010, 16:01 218 GILBERTO FREYRE várias artes e ciências. Com eles é que se firmará a autoridade da revista dirigida pelo senhor Simeão Leal; e não baralhando-se especialidades ou improvisando-se competências como se cada número de uma revista intitulada cultura devesse nos surpreender com uma improvisação, mesmo brilhante. São aventuras interessantes e necessárias à vida intelectual de um país, mas que devem ficar para revistas de outro tipo. Não se compreende que uma revista realmente de cultura abra qualquer de suas portas para seções técnicas de bibliografia e de crítica – que são seções de responsabilidades não apenas individual, mas editorial – para um especialista em arqueologia, por exemplo, discorrer enfática e sentenciosamente sobre um livro de finanças. Um deve ser o critério de admissão de artigos de colaboração, sempre que o colaborador for alta figura intelectual; outro – bem mais restrito – o de admissão de artigos de crítica, em seções especializadas ou técnicas. Evita-se assim que, por camaradagem ou despeito em relação com o autor de publicação recente, abuse alguém do seu renome numa especialidade para, em seção técnica de ciência ou arte diversa da sua, aparecer com voz autorizada de crítico, elogiando o livro do amigo e depreciando os trabalhos dos estranhos. O senhor Simeão Leal sendo, como é, um intelectual que junta à lucidez e ao saber o escrúpulo até nas coisas miúdas, a tenacidade, a paciência, a constância, o método, se apresenta como homem ideal para dirigir uma revista do porte de Cultura. O único reparo que me animo a lhe oferecer é justamente este: quanto ao maior rigor do ponto de vista da competência especializada que deve ser seguido nas seções permanentes e técnicas de Cultura. E seria, talvez, conveniente que houvesse uma seção de revista das revistas brasileiras de estado ou região. Cultura se integraria, assim, numa de suas principais responsabilidades de revista nacional: a de refletir e coordenar as várias expressões regionais da cultura brasileira. Não precisa, entretanto, o senhor Simeão Leal – vigário no assunto – que alguém lhe ensine o Padre-Nosso. Ele o sabe como Gilberto.p65 218 27/05/2010, 16:01 219 PENSAMENTO CRÍTICO ninguém. E como vigário que conhece, além de seu Padrenosso e do seu latim, os caboclos da aldeia, saberá conservar-se vigilante contra as improvisações ou as intrusões de especialidade. Pois elas podem comprometer o programa ou a dignidade da revista que acaba de aparecer sob a sua direção inteligente de bom letrado que é também homem de bem. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 14 de maio de 1949 Gilberto.p65 219 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 220 27/05/2010, 16:01 CONTRA A BUROCRATIZAÇÃO DA CULTURA Uma das constantes da minha ação na Câmara dos Deputados tem sido a de colocar-me contra as tentativas de burocratização da cultura. Sob esses critérios tenho agido sempre no sentido do máximo possível de liberdade de criação intelectual e artística. Daí a atitude nítida da oposição que tomei contra o projeto de controlar-se policialmente, em nosso país, a literatura para crianças e adolescentes. Daí, também minhas reservas quando a medidas a serem tomadas pelo Estado no sentido do barateamento do livro didático através de sua burocratização ou oficialização. Defini-me sob o mesmo critério contra a ideia de locar normalmente ao parlamento iniciativa ou decisão em assuntos editoriais. Admitidas raríssimas exceções, de interesse nitidamente nacional, não me parece que o parlamento deva entrar em competição com órgãos técnicos do governo – o Instituto do Livro por exemplo – e com a atividade editorial das empresas particulares, para publicar ou reeditar obra de autores, ou que não precisem de caridade parlamentar para serem reeditados – o caso do grande mestre que foi e é João Ribeiro – ou que ofereçam interesses tão restritamente acadêmicos ou tão bizantinamente Gilberto.p65 221 27/05/2010, 16:01 222 GILBERTO FREYRE literários que sua publicação ou reedição deveria ser deixado aos institutos ou às academias. O que toca ao Congresso é estimular por meio de prêmios a inteligência ou cultura brasileira. E dentro desse critério é que vêm sendo instituídos vários prêmios para livros ou ensaios de interesse nacional. Ensaio sobre a Constituição. Livros didáticos. Ensaios sobre a vida, a obra e a personalidade de brasileiros eminentes como Joaquim Nabuco, cujo centenário comemorou-se em 1949. A tais prêmios devem juntar-se auxílios a editores que empreendam publicações de interesse para a cultura nacional nem sempre compensadores do seu esforço. Ao contrário: algumas vezes deficitárias. Nunca, porém, que esses auxílios cheguem à burocratização da cultura. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1950 Gilberto.p65 222 27/05/2010, 16:01 AS ARTES E O PERIGO DO DIRIGISMO A Secretaria da Educação da Prefeitura do Recife acaba de resolver a criação – dizem os jornais da cidade – de uma Comissão de Artes Plásticas. Para quê? Para ser “um órgão consultivo junto à referida secretaria”. Anuncia-se já a adesão de artistas a essa iniciativa nitidamente oficial e potencialmente antiartística. O que transparece de tal iniciativa? Temo que o seguinte: o propósito de estender-se às artes plásticas, em geral, o dirigismo municipal, estatal, oficial, que já vem há anos reduzindo o Carnaval do Recife a um Carnaval mais da Prefeitura que do povo do Recife. Menos de artistas livremente artistas que de artistas dirigidos na sua arte por artistas-políticos ou artistas-ideológicos. Sou insuspeito para comentar o assunto, dado o fato de que, em vários pontos, a orientação que deverá ser seguida pela “Comissão de Artes Plásticas” da Prefeitura do Recife coincide com ideias que desde jovem sustento. Pois visa – e nenhum objetivo mais simpático poderia animá-la – “fortalecer uma política de artes plásticas de cunho cultural, artístico, popular, regional, educativo”. Mais: visa “zelar para que as obras de arte (esculturas e murais) sejam realizadas em material” – porque a especificação de Gilberto.p65 223 27/05/2010, 16:01 224 GILBERTO FREYRE duradouro não compreendo bem – “compatível com o nosso clima e que fixem além da fauna e da flora brasileiras, e especialmente nordestina, os valores educativos, históricos e democráticos de nossa cultura”. Objetivo também simpático embora se aparente discutível o relevo que se dá a “material duradouro”. Mas são propósitos com que concordo. Propósitos com que concordo do modo mais cordial. Do modo mais sincero. Com o que não concordo é com a sistemática de relações de governo com artes que a iniciativa da Prefeitura do Recife parece consagrar: e que embora reconheça como válidos os valores “democráticos” brasileiros, entende, muito antidemocraticamente e um tanto totalitariamente, ser atribuição, agora de um governo municipal, amanhã do estadual, logo, do nacional, dirigir o Estado ou o governo, o artista, quanto aos seus temas – tais, tais e quais e não aqueles nem aqueles outros – quer quanto à sua função – a “educativa”. A rigidamente, sistematicamente, utilmente educativa. Um pouco mais e admite-se ser atribuição do Estado ou do governo impor ao artista – como acontece em países de filosofia, letras, religião e artes dirigidas – uma ideologia, um estilo, uma técnica que importem na burocratização dessas artes, através de sua ideologização. Aí é que me parece estar o perigo da nova iniciativa da Prefeitura do Recife, já culpada de vir oficializando o Carnaval do Recife, dirigindo-o, submetendo-o aos seus gostos e aos seus interesses, destruindo-lhe a espontaneidade, esvaziando-o dos seus valores verdadeiramente democráticos, populares, folclóricos, regionais, históricos. Aí é que está, decerto, o perigo: em estender-se às artes plásticas agora, amanhã, a outras áreas da cultura, o dirigismo, já há anos aplicado ao hoje moribundo – como expressão de ethos recifense com a participação ativa, entusiástica criadora dos recifenses – Carnaval popular democrático do Recife. Assunto a que voltarei em artigo próximo. Diário de Pernambuco Recife, 22 de setembro de 1963 Gilberto.p65 224 27/05/2010, 16:01 AINDA A PROPÓSITO DE DIRIGISMO NAS ARTES E NAS LETRAS A que está reduzido o Carnaval do Recife pelo dirigismo que o vem há anos oficializando? A um show de que a maioria dos recifenses não participa senão como passivos espectadores. Isto era resultado de quê? Do empenho da Prefeitura do Recife de “fortalecer” no Carnaval recifense uma “política” de Carnaval conveniente aos seus interesses políticos. Do empenho da Prefeitura do Recife de “zelar” para que as manifestações folclóricas artísticas, populares, democráticas dos clubes de Carnaval recifense sejam realizadas com material menos do gosto da população que do gosto dos estetas oficiais, menos em torno de motivos da escolha da gente do povo que dos selecionados pelos educadores, também oficiais, como “educativos”. Nas autênticas democracias, não se compreende dirigismo em assuntos nem de arte nem de religião. Em assuntos tecnológicos e econômicos, sim; nos artísticos e religiosos, não. Um dos maiores filósofos da nova época, o professor Macmurray, expôs com a máxima clareza, o assunto em livro sobre a distinção entre a sistemática democrática e a sistemática totalitária. A totalitária se faz de democrática apenas nos adjetivos de que Gilberto.p65 225 27/05/2010, 16:01 226 GILBERTO FREYRE usa e abusa; no que é substantivo em seu modo de ser organização social, é a negação da concepção democrática quer de vida, quer de cultura, quer de arte, quer de religião. Outro pensador ilustre – pensador e sociólogo – dos nossos dias, Robert Mac Iover, dá ainda maior nitidez à distinção entre as duas concepções de vida. Salienta ele que numa concepção – na totalitária – os valores-meios são os únicos; noutra, os valores-meios são uns – e têm a sua função importante a desempenhar – e os valores-fins, outros, com uma função ainda mais importante. Entre os valores-fins é que estariam a religião e as artes. Entre os valores-meios estariam a tecnologia e a economia, susceptíveis e, até necessitadas de ser, senão dirigidas, reguladas, pelo Estado, no interesse de populações em geral contra os abusos de particulares. Ora, quando se estende às artes essa direção ou essa regulamentação, da parte do Estado, o que sucede é a imposição, a publicações e a artistas, de concepções de arte, de literatura, de religião, de uns tantos ideólogos de ordinário sectários em seu modo de ser ideólogos; e para os quais isso de arte ou de religião ou de literatura é apenas valor-meio, a ser reduzido a servo da ideologia que eles, sectários, consideram a certa ou a definitiva. É bom que a prefeitura, o Estado, a Nação prestigiem artistas e intelectuais. Mas respeitando-os do mesmo modo que deve respeitar as religiões. Sem pretender impor a artistas, temas, técnicas, estilos. Sem procurar corrompê-los, reduzindoos a servas de que os ideólogos no poder suponham ser “a verdadeira arte” ou “a verdadeira literatura”. Diário de Pernambuco Recife, 29 de setembro de 1963 Gilberto.p65 226 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE UMA POLÍTICA NACIONAL DE CULTURA Está em discussão, já em fase final, no Conselho Federal de Cultura, a “política nacional de cultura”, sobre a qual o presidente da República entendeu que deve ouvir o mesmo conselho. Nem se compreenderia que à definição dessa política – definição que cabe ao presidente Médici – faltasse a palavra de um Conselho que reúne tão altas competências brasileiras. Não tendo estado presente à primeira reunião mensal em que surgiu o assunto – já Presidente do Conselho o ilustre professor e ex-ministro do Estado da Educação e Cultura, Moniz de Aragão – só tomei conhecimento da matéria quando já elaborado, em forma de esboço aberto a sugestões e acréscimos, o trabalho de coordenação do conselheiro Afonso Arinos. Trabalho magistral. Não é, porém, projeto. Nem o domina o propósito de sugerir-se ao presidente da República a criação de um Ministério da Cultura, nem como ideia do coordenador, nem como ideia do Conselho. Notei, em sugestões escritas de que o coordenador tomou conhecimento, considerando-as válidas, para aproveitamento em documento, da sua parte, definitivo, a deficiência do esboço no tocante às ciências do Homem. São ciências essenciais à análise, ao estudo, à interpretação que uma cultura nacional faça – como deve fazer – de si mesma, para manifestar-se em obras, quer de ciências, quer literatura ou de arte, que a defi- Gilberto.p65 227 27/05/2010, 16:01 228 GILBERTO FREYRE nam. Que a definam, identificado-a e caracterizando-a. Daí serem ciências que dificilmente podem ser sobre-estimadas, tratando-se de uma política nacional de cultura. Sem elas, não se concebe essa cultura senão como uma abstração. Ou como uma imitação de políticas alheias. Quando se reconhece a importância de tais ciências, o que principalmente se reconhece nelas como valioso é a sua parte dinâmica, viva, capaz de associar o chamado ”passado útil” de uma nação à sua atualidade e ao seu futuro. E não apenas o que nelas seja convencionalmente histórico, etnográfico, folclórico; ou simples registro de erudições ou requintes, por um lado, e expressões rústicas e pitorescamente populares, por outro. Daí a necessidade de, na concepção e, sobretudo, na execução de uma política nacional de cultura, procurarem os principais responsáveis, não traçar rumos à cultura a que tal política vise atender rumos que correriam o risco de resvalar em dirigismo oficial ou estatal – porém promover, da parte do Estado, facilidades à expressão criadora e ao amplo desenvolvimento da mesma cultura. Expressão criadora e amplo desenvolvimento de acordo com o ethos, as tradições e os destinos telúrica, ecológica e socialmente nacionais da comunidade. Para tanto, o Estado deverá servir-se do que de mais moderno lhe ofereçam a cibernética, as ciências, artes e técnicas de comunicação e informática. Mais: para tanto é preciso que sejam fortemente prestigiados os institutos de pesquisas sociais do tipo Joaquim Nabuco; os museus também indicados à pesquisa e não à simples conservação de valores, do tipo do Museu Nacional e do Goeldi; as fundações do tipo da Getúlio Vargas; os Museus de Arte como o de São Paulo. Mais ainda: é preciso que as universidades juntem aos seus cursos de educação da juventude os de atualização do saber das várias gerações idosas que, na atualização desse saber, estarão menos se reeducando que aculturando–se com relação a tempos novos. E nessa aculturação, juntando o útil ao lúdico, na sua maneira de encher o para elas, gerações idosas, cada vez mais extenso tempo livre. O cada vez mais largo ócio. Ócio ou lazer. Diário de Pernambuco Recife, 18 de fevereiro de 1972 Gilberto.p65 228 27/05/2010, 16:01 PARTE V “PROBLEMAS DA SOCIOLOGIA DA ARTE” Arte, ciência social e sociedade Sociologia, literatura e arte Problemas de sociologia da arte A favor da arte popular regional A propósito de artes populares Gilberto Freyre: “há artistas que são pura, religiosa e até sectariamente artísticos” Ainda a questão da arte pura Gilberto.p65 229 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 230 27/05/2010, 16:01 ARTE, CIÊNCIA SOCIAL E SOCIEDADE Uma escola de belas-artes que completa, como este ano, a do Recife, o seu primeiro quarto de século, sem desviar-se nem do seu programa modesto nem dos seus objetivos honestos, para simular grandezas que de ordinário só o tempo traz às instituições de sua espécie, é uma escola que merece a simpatia de todo brasileiro empenhado em concorrer para o verdadeiro desenvolvimento da cultura do seu país. Igual simpatia merece da parte dos brasileiros o esforço que vem desenvolvendo entre nós o Instituto dos Arquitetos, que precisamente agora reúne, em congresso de alcance nacional, nesta velha cidade, famosa durante mais de século, pelos seus sobrados com alguma coisa dos do Norte da Europa a distingui-los dos de puro feitio tradicionalmente português, arquitetos de vários pontos do Brasil e do estrangeiro, para inteligente troca de ideias em torno de problemas de arquitetura relacionados com os de urbanismo e de planejamento regional e nacional. Impossível nos esquecermos, a este propósito, os recifenses, que aqui e à sombra destes sobrados e do exemplo de ter sido o Recife a primeira cidade das Américas onde, no século XVII, e graças ao alemão Maurício de Nassau, se fez planejamento urbano–exemplo que mostra ser possível a uma cidade ou região Gilberto.p65 231 27/05/2010, 16:01 232 GILBERTO FREYRE assimilar valores estranhos sem descaracterizar-se – reuniu-se em 1926 um hoje meio esquecido Congresso de Regionalismo que foi, em grande parte, um congresso de arquitetos e de estudiosos de problemas de urbanismo e de planejamento. Eram homens voltados para o estudo desses problemas com critério ao mesmo tempo regionalista e tradicionalista; regionalista e modernista; e com um critério sociológico, e não somente técnico, de arquitetura urbana. Um desses arquitetos foi o então jovem, e hoje mestre Nestor de Figueiredo, a quem desde então muito deve à arquitetura brasileira. Quando um dia se publicarem os anais do esquecido Congresso, presidido pelo professor Odilon Nestor, há de ver-se que sua importância foi considerável: abriu, na verdade, novos rumos e novas perspectivas ao desenvolvimento nacional sob o critério de articulação inter-regional. Impossível pretender-se, como ainda agora pretende o professor Alceu Amoroso Lima, que semelhante regionalismo tenha sido mera repetição ou simples continuação do pernambucanismo político, ao mesmo tempo que sentimental, de Joaquim Nabuco. Ignorando o que o movimento regionalista do Recife teve de novo, de original e de amplo, o eminente crítico comete uma injustiça, além de resvalar num erro, aliás já destacado pelo jovem crítico, nosso conterrâneo, Renato de Campos. Foi desse movimento que partiu, no Brasil, a ideia do planejamento regional que corrigisse a tendência para o urbanismo simplesmente estético ou higiênico; e traçado sob a ilusão de serem as cidades independentes das regiões; ou as regiões, servas inermes das cidades. Também partiu dos regionalistas do Recife, desde 1924 preocupados com problemas brasileiros que somente anos depois deles viriam a ser postos em foco por intelectuais e artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, a ideia de ser necessário estudarmos no Brasil o problema de casa mais simples, quer para as cidades, quer para os campos, como problema que fosse resolvido dentro dos recursos das cidades ou das regiões; e honestamente e não cenograficamente no sentido da cenográfica. Gilberto.p65 232 27/05/2010, 16:01 233 PENSAMENTO CRÍTICO É problema que permanece sem solução no Brasil, esse da casa simples e barata: principalmente para o homem do campo. É prejudicado, por mais paradoxal que pareça, pelo fato de possuirmos uma arquitetura especializada no edifício grandioso que rivaliza em arrojos de modernidade com as melhores da Europa e da América. Quando há três ou quatro anos o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais quis trazer para o Brasil um técnico da ONU que nos comunicasse o saber já acumulado por estudiosos de vários países, como o nosso, tropicais subdesenvolvidos, em torno do assunto, o representante no Rio de Janeiro da mesma organização internacional, deu parecer contrário a essa justa pretensão brasileira. Tratava-se de um monsieur Laurencin, francês e amável; mas no caso, desorientado, embora extremamente simpático ao Brasil e aos brasileiros. Não se compreendia – alegava ele – que o Brasil, famoso pela sua arquitetura moderna, pleiteasse a vinda de um técnico da ONU, especializado em arquitetura. Ignorava o bom do francês que há arquitetura e arquitetura. Que a nenhuma especialidade se pode aplicar, mais literal e exatamente do que a esta, a sabedoria evangélica: “Na casa de meu Pai há muitas mansões.” Muitos tipos de casa. Muitos modos de construir. Muitas maneiras de uma casa ser casa, conforme uma variedade surpreendente de circunstâncias, condições, situações ecológicas e econômicas. Eco, em grego, quer dizer casa; é a raiz tanto da palavra “economia” como da palavra “ecologia”. E se a moderna arquitetura brasileira distingue-se pelas soluções que vem oferecendo, com segurança, a inteligência para a construção de certos tipos de casa ecológicos – os grandiosos ou os monumentais –, faltam-lhe ainda soluções para a construção das casas simples que tenham que ser construídas do modo mais econômico e mais ecológico que for possível. Sobre esta particularidade devemos procurar aprender com os arquitetos de outros países que têm estudado e, até certo ponto, resolvido o problema, sob este duplo critério – o ecológico e o econômico: arquitetos da Colômbia, da Venezuela, da União Indiana, do Estado de Israel. De muito temos que nos Gilberto.p65 233 27/05/2010, 16:01 234 GILBERTO FREYRE orgulhar, os brasileiros, quanto ao que alguns dos nossos compatriotas vêm realizando em diferentes artes: principalmente na de construir. Nada, porém, de perdermos a humildade necessária à intensificação e à ampliação de um esforço até hoje quase limitado à arquitetura especializada no edifício grandioso; e deficiente com relação à arquitetura econômica e simples, reclamada angustiosamente pela nossa situação de país pobre e subdesenvolvido. Está mais do que evidente que não é com cenografia que se resolverá problema tão sério como o da casa simples e econômica para as cidades e para as áreas rurais brasileiras; nem com associações, ligas, serviços, campanhas, cruzadas que se denominem belicosamente “contra o mucambo” ou “contra a favela”. Nunca, como nos dias que o Brasil atravessa, de desbragado aventureirismo, foram virtudes mais necessárias ao seu desenvolvimento, aquela modéstia e aquela honestidade que signifiquem, da parte tanto dos artistas quanto dos homens de ciência, dos de letras, dos de ação, dos de governo, dos da Igreja, não timidez exagerada nem excesso doentio de escrúpulo, mas consciência: a consciência dos que não se deixam levar pela vaidade de substituírem o esforço duramente criador pelo aparente, que tanto tenha de fácil quanto de falso. Quase se pode dizer da criação verdadeira que é sempre dor e não apenas glória – esta, todos sabemos que às vezes tardia: melancolicamente tardia. Aos homens de estudo que, dentro da Sociologia ou da Antropologia, procuram analisar principalmente as culturas ou as civilizações, não é de modo algum estranho o fenômeno chamado criatividade no seu aspecto sociológico: criatividade cujas hegemonias nem sempre são as mesmas. De modo que a predominância de ação criadora é ora de uma, ora de outra das províncias ou atividades que constituem o conjunto de uma civilização, sobre esse conjunto ou sobre esse complexo. Sabese assim, pelos historiadores da cultura ou da civilização europeia, que na denominada Idade Média dessa civilização, predominou, como atividade ou província criadora, a religiosa, enquanto no período grego, predominara, como província Gilberto.p65 234 27/05/2010, 16:01 235 PENSAMENTO CRÍTICO criadora, a artística completada pela filosófica e, de certo modo, pela científica; e, na época moderna da mesma civilização, vem predominando a atividade ou a província econômica, criadora, através de um capitalismo agora em crise, de valores de importância máxima na sua e em outras províncias. Não parece haver assim a predominância exclusiva, em todas as civilizações, ou em todas as épocas de uma civilização, do fator econômico. Acentuo de início este ponto para de início procurar salientar que não parece ser exata a generalização segundo a qual o que é arte, numa civilização, seria sempre a sobremesa ou o supérfluo, ou a cúpula, dessa civilização, em relação com seus valores básicos ou fundamentais. Desta generalização tem resultado o desdém com que certos homens públicos de hoje, considerando-se eminentemente práticos, tratam problemas de artes e artistas. É um desdém que resulta de sua falta de perspectiva histórica e do erro de tudo pretenderem considerar de acordo com predominâncias ou hegemonias de criatividade que, sendo transitórias, lhes parecem permanentes. A verdade parece ser esta: estamos numa fase de civilização que talvez venha a significar na história das culturas, o fim de uma hegemonia de criatividade – a da província econômica – e o começo de outra, em que as atividades não econômicas do artista, do pensador, do homem de ciência adquiram um elan criador que deixem na sombra a atividade do industrial ou do comerciante. É, na verdade, o que nos leva a crer na crescente automatização da vida civilizada no Ocidente europeu e na América Saxônica – automatização da qual resultam, cada dias mais, problemas menos de organização de trabalho que de organização do lazer. E a organização do lazer para ser realizada, através de meios técnicos de generalização das criações, por uma criatividade mais do artista que de industrial. Pelo menos é como me aventuro a interpretar suas tendências, depois de um contacto esclarecedor, o ano passado, com aquelas áreas superindustrializadas da Europa, onde a automatização começa a ser tão intensa quanto nas áreas superindustrializadas dos Estados Unidos. Sob certos aspectos, mais intensa, até. Gilberto.p65 235 27/05/2010, 16:01 236 GILBERTO FREYRE Quem diz organização do lazer em civilizações superindustrializadas ou industrializadas diz problemas que vão exigir o máximo de artistas e não somente de sociólogos, como o professor Lewis Munford nos Estados Unidos, especializados no estudo das relações das artes com a vida e o tempo sociais das comunidades. O máximo dos arquitetos, dos engenheiros especializados na ciência, que é também arte, de construção de pontes; dos escultores, dos pintores, dos compositores, dos artistas de teatro, de rádio, de televisão, de cinema; dos psicólogos e dos sociólogos, seus orientadores ou consultores, em algumas instituições de cultura de proporções monumentais, como hoje a BBC de Londres. Pois de todos muitos se exigirá para que o lazer dos homens se torne uma forma, quanto possível, superior, e não tediosa ou ociosa ou medíocre, de vida ou de viver; ou de esperar, como diria um místico espanhol, daqueles para quem viver é sobretudo esperar. Como estamos nos preparando, os povos do Ocidente, para essa nova fase de civilização em que a criatividade econômica vai ser, segundo os melhores indícios, superada pela científica e pela estética, sem que a religiosa deixe de ser chamada a desempenhar papel de importância máxima? A verdade é que quase não estamos nos preparando para ela, desviada como se acha nossa atenção desses problemas imensos, para o igualmente imenso, da sobrevivência da civilização moderna, através de uma política que nos resguarde da chamada guerra atômica. É um erro, a negligência com relação a essa preparação essencial para a paz, pois afinal o perigo da guerra atômica pode vir a ser afastado pelo bom-senso dos homens responsáveis pela política militar das grandes potências de hoje. E afastado esse perigo, a automatização avançará sem que os povos superindustrializados se encontrem sociológica a psicologicamente preparados para esses seus avanços. Nós não somos, os do Brasil, um povo superindustrializado. Somos um povo que se vem rápida e às vezes desordenadamente industrializando em algumas áreas, com sacrifício evidente de outras. Mas somos um povo, pela própria situação Gilberto.p65 236 27/05/2010, 16:01 237 PENSAMENTO CRÍTICO física do nosso território, em grande parte atlântico, sujeito a influências imediatas sobre nosso gênero de economia e nosso ritmo de vida, dos avanços de automatização nas áreas superindustrializadas da Europa e da América. Daí, também, povos como o brasileiro precisarem de começar a sua preparação para a nova fase de civilização em que, por mais paradoxal que nos pareça, o trabalho humano – o trabalho rotineiro da maior parte dos homens – perderá em importância para o lazer, deixando vazio ou oco um tempo psíquico ou um tempo social que terá de ser preenchido por novas substâncias de criação não só científica, como estética, ética, religiosa, filosófica. Correto esse prognóstico, vê-se que não exagero nem deliro quando ouso prever a superação da hegemonia econômica pela estética, e não somente pela científica, no novo tipo de civilização para o qual rapidamente caminhamos. E se caminhamos rapidamente para esse novo tipo de civilização, que fazem as escolas de ciências, de letras, de belasartes, de filosofia, de engenharia, que não tratam de caminhar para ele? Que fazem as escolas de belas-artes que não deixam sua atual rotina pedagógica por novos programas de estudo em que seja acentuada a necessidade de arquitetos, escultores, pintores, decoradores, compositores, cineastas, teatrólogos, procurarem construir, esculpir, pintar, decorar, compor, representar, pensando em homens cujo lazer vai aumentar enormemente, enquanto vai diminuir seu trabalho nos campos, nas oficinas, nas fábricas, nas usinas? Bem sei que essa antecipação não depende principalmente delas, escolas, mas em países como o Brasil, dos supremos poderes políticos que dirigem, até certo ponto, atividades culturais, científicas, estéticas. Mas nem por isto devem professores e estudantes de letras ou de filosofia, conservar-se inermes e à espera das papas ou dos mingaus que lhes venham dar de colher os bons dos papa-governos, às vezes tão demorados nas suas medidas e tão lentos nos seus métodos de atualização ou de modernização do ensino ministram aos seus filhinhos. Gilberto.p65 237 27/05/2010, 16:01 238 GILBERTO FREYRE Por que não partirem desta escola, no momento exato em que seu esclarecido diretor – tão dedicado às suas funções – e seus professores – entre os quais, homens da inteligência e do saber de um Luis Cedro e artistas do renome europeu de um Vicente do Rêgo Monteiro – e seus alunos comemoram o 25º aniversário da sua fundação, sugestões concretas no sentido dessa atualização ou dessa modernização, que possam ser úteis ao ensino de belas-artes no país inteiro? A verdade é que estamos deixando sem aproveitamento ou desenvolvimento artístico, no campo das artes aplicadas, sugestões que chegam até nós de uma experiência quase única no mundo de hoje: a de profunda interpenetração de uma cultura europeia e de duas, primitivas, à base de um máximo de reciprocidade nessa interpenetração. Faltam-nos, neste particular, na arte do móvel, na da escultura e mesmo na da pintura equivalentes dos Villas-Lobos na música e dos Niemeyer na arquitetura grandiosa, embora não devamos nos esquecer dos experimentos interessantíssimos, com relação à cerâmica, de um Lula Cardoso Ayres e de um Francisco Brennand. Não se compreende que sejam os europeus e não brasileiros os artistas modernos que vêm desenvolvendo a brasileiríssima rede, de origem ameríndia, em móveis leves, frescos, higiênicos: toda uma arte arrojadamente nova no seu material, mas fiel às cores, às formas, às curvas de uma concepção de arte funcional de gente primitiva da qual grande parte da nossa procede; e cuja arte, os artistas brasileiros vêm procurando incorporar à nossa através de valores apenas decorativos, quanto há esses, existenciais e funcionais, a desenvolver e modernizar. E por que não partir desta escola, do Congresso de Arquitetos que aqui se reúne animado pelo entusiasmo de jovens aqui recém-formados em arquitetura, um deles, Edison Lima, e desta cidade do Recife, sempre jovem, sempre pioneira e tantas vezes antecipada às outras do Brasil, em iniciativas de renovação intelectual, a primeira voz em conjunto, de mestres e de aprendizes, no sentido de se reorganizarem os cursos de belas-artes entre nós, considerando-se o novo tipo de civilização para a Gilberto.p65 238 27/05/2010, 16:01 239 PENSAMENTO CRÍTICO qual caminham os homens desta segunda metade de século: a primeira e difícil fase de era atômica e a primeira, também de era socialmente automatizada? Da minha parte, já que generosamente quisestes associar minha simples palavra de brasileiro do Recife às vossas comemorações de hoje, não hesitarei em fazer daqui uma sugestão: a de que esta escola se antecipe à de direito, à de engenharia, à de medicina, ao Seminário de Olinda, em ter, entre suas cátedras de ordem técnica, uma complementar, de natureza por assim dizer supertécnica, científica e ao mesmo tempo humanística, de sociologia e que, no caso específico desta escola se denominasse de “sociologia de arte” ou das “artes”; e fosse sociológica, principalmente com relação à arquitetura e ao urbanismo. Mas também com relação ao móvel, à cerâmica, à escultura, à pintura, à música, ao teatro, ao cinema. Não se compreende mais nem arquiteto, nem urbanista, nem escultor, nem pintor, nem decorador, a quem falte iniciação sociológica no trato dos problemas e no conhecimento dos fatos de convivência humana relacionadas com suas especialidades artísticas. Nenhuma dessas especialidades artísticas existe no vácuo: todas elas têm um ambiente ou um sentido social. Não que se pretenda submeter qualquer delas a uma simplista arregimentação ou ordenação científica: no caso, sociológica. Nem que se confunda sentido social com sentido socialista, solidarista ou comunista de vida ou de organização. De modo algum. Do que o artista precisa de se inteirar é do que há de social nas condições de criação de sua arte; nas condições de desenvolvimento e de expressão dessa arte; na sua adaptação a situações de convivência humana que variam com o tempo e com o clima sociais como variam com o tempo e com o clima sociais como variam com o tempo e com o clima físicos. Se, como acentua o historiador Paul Scherecker em ensaio que denomina de análise de estrutura de civilização, nem toda a civilização tem encontrado a beleza, procurada pelos artistas, no mesmo tipo de paisagem ou nas mesmas proporções do corpo humano, é que o social, o cultural, o tempo, o meio, influem Gilberto.p65 239 27/05/2010, 16:01 240 GILBERTO FREYRE sobre as artes, condicionando-as de modo que exige explicação psicológica ou esclarecimento sociológico. Esse esclarecimento, se pode iluminar nosso conhecimento do passado, poderá também nos preparar para novas condições de vida civilizada. E um aspecto deveras interessante dessas relações complexas do artista com o social é que puros pensadores ou puros poetas ou puros sociólogos podem se antecipar aos artistas propriamente ditos em atitudes artísticas para com a própria natureza, através de uma nova filosofia das relações gerais do homem com o espaço: com a paisagem, por exemplo; ou com o mar, em particular; ou com o trópico, de modo ainda mais particular. Sabe-se, assim, que data de Rousseau – o Rousseau do “contrato social” – o movimento de moderna aproximação de pintura, da arquitetura, da arte do jardim, com a paisagem agreste, sendo recentíssima, em arte, a pintura de paisagens agrestes. E no Brasil é evidente que as relações crescentemente amorosas do arquiteto, do jardineiro-paisagista e do próprio urbanista com a paisagem tropical, relacionam-se com a valorização brasileira do trópico que, em literatura, tendo principiado, um tanto retoricamente com José de Alencar, vem se purificando e intensificando, nos últimos anos, através do esclarecimento sociológico da relação dos valores tropicais com a vida, a economia, a arte brasileiras. Pintores, escultores e decoradores, além de arquitetos, urbanistas e jardineiros-paisagistas, devem conservar-se o mais possível em dia com essa valorização pela ciência ou pela filosofia ou pela literatura, de aspectos das relações do homem com o meio, negligenciados pelos nossos antepassados e que, parecendo constituir objetos exclusivos de estudo sociológico ou antropológico ou de preocupação apenas de intelectuais, pertencem também à chamada província estética. Foi inteirando-se de estudos antropológicos e, até certo ponto, sociológicos, de arte, de escultura, de pintura, entre povos chamados primitivos da África, que Pablo Picasso conseguiu dar à pintura, à escultura, à cerâmica moderna da Europa ou do Ocidente, novos rumos, libertando-as de convenções exclusivamente Gilberto.p65 240 27/05/2010, 16:01 241 PENSAMENTO CRÍTICO europeias; e acompanhando, assim, como artista de gênio criador, a sociologia moderna, no seu afã de libertar-se de convenções ocidentais – o mal do marxismo, o mal do próprio freudismo – para tornar-se ciência o mais possível do homem social diversamente situado. Ou muito me engano ou estamos, no Brasil, numa fase em que muitas são as oportunidades abertas ao artista para realizar obra nova, brasileira, original, contanto que ele, artista, tome contacto com esse meio, menos a esmo ou às cabeçadas que através de ciências que o esclareçam sobre as suas relações de homem com o meio: com o sol, com a luz, com as cores, com as formas, com as sombras características desse meio ou a ele peculiares. Cores e formas de plantas, de animais, de árvores, de montanhas, de morros, de paisagens e formas e plantas e de mulheres e de homens criados pelo trópico ou aqui recriados pela mestiçagem. De modo que seus estudos sociológicos e antropológicos deveriam ser estudos também de ecologia social. Ou mais especificamente: de ecologia tropical. O que não impediria os brasileiros revoltados contra essa ecologia ou inconformados com ela de se evadirem real ou ficticiamente do seu meio para realizarem obra artística a seu gosto ou de acordo com seu temperamento antitropical, através da exaltação das névoas ou das brumas. Nada de fazermos do tropicalismo, em geral, e do brasileiro, em particular, uma seita fora da qual não haja salvação para os homens nascidos nos trópicos. O mundo é vasto e muito diverso nas cores e nas suas formas, nos seus climas e nos seus ambientes. O puro fato de nascer um indivíduo no Brasil tropical não o obriga a ser, como artista, um entusiasta do sol forte, da luz crua e as cores quentes. O seu ideal de luz e de cor pode ser o boreal; e sua vocação pode ser a pintura verlaineana, toda de nuances, de cinzentos, de azuis claros, de cores chamadas frias em oposição às quentes. Assim como artistas europeus, inconformados com a Europa, têm encontrado em regiões tropicais suas regiões ideais, o mesmo pode suceder a brasileiros a quem repugnam as cores e Gilberto.p65 241 27/05/2010, 16:01 242 GILBERTO FREYRE as formas de mulheres e paisagens tropicais. O que sucede, porém, é que, revoltando-se contra o meio, eles realizam obra de quem não se achando integrado com esse meio, é provocado, excitado, estimulado pelo mesmo meio a reações como que antiecológicas. O reparo crítico que já ousei levantar, não à pintura, em geral, de mestre Cândido Portinari – artista que muito admiro e a quem pessoalmente muito estimo e cuja arte é, nos seus valores essenciais, uma pintura impregnada de tropicalismo brasileiro – mas à sua pintura religiosa ou católica, em particular, é que ela vem sendo, do ponto de vista sociológico, uma pintura antibrasileira e antitropical e até anticristã e anticatólica, por ser uma pintura em que nossas-senhoras e anjos louros, ruivos, alvos, albinos, venezianos, europeus. Pintura, por conseguinte – do ponto de vista da crítica ou da interpretação sociológica que se faça de um pintor e de uma arte, quando essa arte precise de ser de integração no mesmo meio e não de revolta contra ele – subeuropeia e até colonial, de artista que, como católico ou como pintor de imagens católicas, se conserva, no Brasil, europeu; e incapaz e conceber uma Nossa Senhora morena e até mulata ou um anjo, caboclo e até preto. Apresento tal fato para sugerir as possibilidades de uma sociologia das belas-artes, através da qual se pretenda não impor limites nacionais ou temporais a um artista, mas considerar a maior ou menor autenticidade das criações de um pintor ou de um escultor ou de um arquiteto, em relação com o seu meio, por um lado, e, por outro, com o seu tempo, conforme os fins a que se destinem suas criações. Um pintor brasileiro que sistematicamente só pinte figuras de madonas e de anjos sob a forma e as cores de mulheres e adolescentes nórdicos e ruivos e envolvidos em pelúcias e veludos europeus é semelhante a um arquiteto brasileiro que traçasse planos de residências, para o Brasil tropical, em forma de chalés suíços ou de cottages inglesas. Há relações entre as obras d’arte e o meio e o tempo sociais e até certo ponto físicos a que se destinam que são relações que podem ser esclarecidas e mesmo, de certo modo, senão orientadas, sugeridas, pelo sociólogo ou pela interpretação sociológica desse Gilberto.p65 242 27/05/2010, 16:01 243 PENSAMENTO CRÍTICO meio e desse tempo, sem que isto importe em admitir-se a conveniência de uma arte passivamente subordinada a qualquer espécie de ciência. O artista é livre para revoltar-se contra ciências e conveniência sociais, contanto que sua atitude seja de revolta; e não concorde em interpretar o sentimento católico ou a realidade ecológica na sua pintura para fins religiosos ou cívicos. Pode até chegar ao extremo de ser apocalíptico e desejar a destruição dessa realidade e do tempo social em que viva, assim com do próprio porvir que se esboce aos seus olhos. Nesses casos, porém, ele nada tem que ver com a interpretação nem daquela realidade nem de tempo social, desde que carrega dentro de si uma realidade e um tempo como que individuais e antissociais em relação com os dominantes. Mas quando sua atitude, de artista, em vez de ser de absoluta ou de radical ou de algum modo suicida revolta contra “meio” e “tempo” sociais, presentes ou vigentes, é de integração neles ou de identificação com eles, mesmo através de críticas violentas a algumas das suas constantes ou de suas tendências; e ele sente, como artista, a necessidade de interpretar esse “meio” e esse “tempo” como Velásquez interpretou a Espanha do seu tempo, como Le Corbusier vem interpretando o moderno tempo europeu e suas projeções sobre o futuro, como Lúcio Costa interpreta esse tempo e esse futuro condicionados pela situação tropical e pela herança ibérica, e sob alguns aspectos, como que moçárabe, do Brasil, então a obra artística é uma obra de relação com meio e com tempo, na qual há problemas de interpenetração que interessam particularmente ao sociólogo. Compreende-se assim que os sociólogos, como nos nossos dias Lewis Mumford, sejam sociólogos preocupados principalmente com os problemas dessa relação. E justifica-se a sugestão que aqui se faz no sentido de se estabelecerem em escolas como a de belas-artes do Recife cátedras de “sociologia das artes” ou da “arte”. Não há arte no vácuo, senão sob formas mórbidas e suicidas que, podendo ser interessantíssimas, são raríssimas; e que mesmo assim raras só aparentemente se realizam a inteira reve- Gilberto.p65 243 27/05/2010, 16:01 244 GILBERTO FREYRE lia de meio ou de tempo. Quase toda arte está em relação com um meio e com um tempo social – tempo que pode não ser propriamente o presente, mas o passado ou o futuro; e até arte sectariamente “saudosista” ou “futurista”. No momento, talvez o que mais nos indique uma sociologia da arte especializada na análise de relações entre arte e espaço e arte e tempo social, seja uma crescente, embora não sectária preocupação com o futuro social: um futuro que já faz sentir sua presença entre nós, através de exigências de transformação de modos ou estilos de vida a que tendem a se adaptar modos e estilos de arte. Uma dessas transformações – repita-se – é a que já começa a resultar da crescente automatização da vida e da economia humanas: redução de trabalho e aumento de lazer. Estamos diante de um futuro social em que o lazer significará tédio, angústia, suicídio, crime, se não o souberem encher com substâncias ricas de novos significados para a existência e de novos motivos para a ação do homem, uma arte, uma ciência, uma filosofia, uma religião que desde já se preparem para assumir a hegemonia de criatividade, exercida desde a chamada Revolução Comercial pelos príncipes da economia comercial e ultimamente pelos chamados reis das indústrias e das finanças. São príncipes já mortos e reis talvez moribundos, esses. Sua substituição ninguém pode dizer ao certo como se verificará no que se refere à coordenação de novas forças por novos coordenadores. Mas os indícios são no sentido daquela transferência de hegemonia de criatividade que venha a dar a gênios capazes de organizar o lazer dos homens a importância dos atuais ordenadores do seu trabalho. E fora a religião, nenhuma força se apresenta mais capaz dessa atividade criadora e até transfiguradora, do que a arte. Revista da Escola de Belas-Artes de Pernambuco Recife, Escola de Belas-Artes de Pernambuco, 1958.p. 17-30 Gilberto.p65 244 27/05/2010, 16:01 SOCIOLOGIA , LITERATURA E ARTE Quando há uns 15 anos, o grande ministro da Educação que foi, com todos os seus defeitos, Gustavo Capanema, atendendo a um pedido de estudantes, determinou que na faculdade de direito do Recife se instituísse um curso extraordinário de sociologia e que fosse eu o catedrático desse curso pioneiro, falei na velha escola de uma sociologia que era uma ciência nova para grande parte dos brasileiros de então, conhecedores apenas da sociologia dos Le Bon e dos Ingenieros. Minha sociologia era uma mistura de sociologia norte-americana, alemã, italiana e russa, sem que lhe faltasse, é claro, a indispensável sociologia francesa. Por conseguinte, estranha e até monstruosa aos olhos dos afrancesados menos pela influência do grande Durkheim, que pela do pequeno Le Bon. Quando falei, naquele curso, em “sociologia da rua”, em “sociologia da casa”, em “sociologia da cozinha”, em “sociologia do mercado” ou da “feira”, um professor de direito mais convencional e suas noções de sociologia, tanto quanto de direito, não se conteve e, entre estudantes, explodiu, indignado com a inovação: “por esse caminho, Fulano chega à sociologia do W. C.!” O que era possível. Perfeitamente possível dentro do critério de estudo sociológico que suponho ter inaugurado no Brasil. Gilberto.p65 245 27/05/2010, 16:01 246 GILBERTO FREYRE Como possível é, dentro dos seus limites, o estudo sociológico da fé religiosa: o que há de mais alto e espiritual no homem. Possível o estudo sociológico do gosto musical: tarefa a que vem se dedicando com paciência germânica meu amigo e colega da Universidade de Indiana, professor Muler, catedrático de sociologia. Possível o estudo sociológico do gosto literário. Sobre este assunto existe já um trabalho do professor Shucking, sociólogo de formação profundamente germânica. A pressão do meio sobre o indivíduo em todos os planos pode se exercer: na maneira do indivíduo comer como na sua maneira de defecar. No seu modo de comunicar-se com os deuses e no seu modo de comunicar-se com os animais. No seu modo de escrever e no seu modo de falar. A pressão do meio mostra o professor Shucking, no seu ensaio, que o sentimento estético é sensível de tal modo que o gosto literário ou artístico pode passar, em algum tempo, de “mau” a “bom”, segundo as influências que dominem o ambiente. Diz-se que Siebermam exclamou uma vez de certo quadro que lhe parecera à primeira vista obra de abominável mau gosto artístico: “Levem este quadro, senão eu começarei a gostar dele!” Que é então que dá permanência ao clássico em literatura como em pintura, escultura ou arquitetura ou música? Sua capacidade de resistir a influências simplesmente de época. A modas ou caprichos de momento. Por terem correspondido a caprichos desses, Byron, no mundo literariamente europeu, chegou a ser considerado “grande poeta”, a senhora Stone, “grande romancista” e, entre nós, Castro Alves, “grande poeta”. Hoje sabemos que os três foram principalmente grandes oradores, de imensa influência sobre as multidões alcançadas pelo seu extraordinário poder verbal e animadas dos mesmos fervores libertários do momento que os animavam. Mas não “grandes poetas” ou “grandes romancistas” no sentido em que Antero foi grande poeta na língua portuguesa ou Browning, na língua inglesa; ou Dickens, grandes romancista, a despeito de ter harmonizado, como a senhora Stone, com fervores literários da época e do meio. Essa coincidência pode ocorrer e tem ocorrido. Gilberto.p65 246 27/05/2010, 16:01 247 PENSAMENTO CRÍTICO Há, assim, no valor literário ou artístico, alguma coisa que escapa a influências puramente sociais de época e de meio. E que escapa também à interpretação puramente sociológica da arte ou das letras. O Cruzeiro Rio de Janeiro, 12 de maio de 1951 Gilberto.p65 247 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 248 27/05/2010, 16:01 PROBLEMAS DE SOCIOLOGIA DA ARTE Algumas das perguntas que me foram dirigidas por escrito, por estudantes ou ouvintes, após as minhas conferências sobre problemas de sociologia da arte considerados de ponto de vista brasileiro ou luso ou hispano-tropical, proferidas nas universidades do Recife e da Bahia e, mais recentemente, no Instituto de Arte Contemporânea do Museu de Arte de São Paulo, guardei-as para publicação. Publicação que inicio hoje. Não só das perguntas: também das tentativas de respostas. P – Para principiar, trata-se de um esclarecimento e não de uma pergunta. Dizia o conferencista, na última aula, que enquanto nas sociedades primitivas parece existir uma só arte, nas sociedades civilizadas a tendência vem sendo para existirem duas: a arte pura e a arte aplicada. Na qualidade de estudante de arquitetura gostaria de ouvir maiores esclarecimentos sobre o assunto e, se possível, a citação de exemplos. R – O que procurei salientar é que nas sociedades primitivas parece não ocorrer, senão muito excepcionalmente, arte que não corresponda a necessidades ou solicitações do grupo, não havendo, assim, de ordinário, base para se distinguir, nessas sociedades, uma arte rigorosamente pura, e como que separada da vida, de outra, aplicada ou útil, ligada à vida e ao próprio coti- Gilberto.p65 249 27/05/2010, 16:01 250 GILBERTO FREYRE diano, como experiência ou valor necessário. Salientei também o fato de ser uma arte, a chamada primitiva, que não se desprende de suas múltiplas correlações – religiosas, mágicas, rituais, econômicas, políticas, pedagógicas – senão em casos excepcionalíssimos: e, por conseguinte, atípicos, embora esses casos ocorram, havendo antropólogos e sociólogos que admitem a existência, entre certos primitivos, de arte pela arte – assunto sobre o qual recomendo aos particularmente interessados nas suas sutilezas, o livro do meu antigo mestre de antropologia na Universidade de Columbia, Franz Boas, intitulado Primitive art (1927) e também o mais recente, de sir Herbert Read, Arte and society (1952), devendo também notar-se que já F. J. Gillen encontrara entre os Arunta, da Austrália, pinturas que os primitivos, seus autores, explicaram ao antropólogo serem puramente lúdicas: desprendidas de fins ou de motivos práticos ou religiosos. Entretanto o comum é se encontrarem, entre grupos primitivos, tanto pinturas como outras expressões de arte, ligadas a fins sociais ou socioculturais, principalmente religiosos, políticos e informativos, com os chamados pictógrafos tendendo a se tornar artistas de uma linguagem escrita, ao mesmo tempo útil e estética. Isto, em contraste com as sociedades civilizadas, em que a tendência vem sendo, no Ocidente, para distinguir-se com demasiado rigor a chamada arte pura da denominada arte aplicada, embora a vários analistas do problema semelhante distinção pareça arbitrária. Pessoalmente, sou dos que pensam que arte é sempre, como arte, uma só e não concebo a chamada arte pela arte, em suas expressões absolutas, senão como perversão do impulso estético, considerado do ponto de vista sociocultural, em esteticismo sectário, quando não mórbido. Mais, sobre o assunto, se dirá domingo próximo. Pois tanto o espaço num jornal, como a capacidade de atenção de leitor de jornal, tem seus limites. Diário de Pernambuco Recife, 5 de março de 1961 Gilberto.p65 250 27/05/2010, 16:01 A FAVOR DA ARTE POPULAR REGIONAL Eu me regozijo com a professora Graziela Peregrino, do Instituto Nacional de Pesquisas Pedagógicas, pela sua iniciativa, promovendo esta pequena mas muito expressiva mostra da arte chamada popular. Vocês devem se mostrar felizes por terem esta oportunidade: a oportunidade deste contato com estes objetos tão simples, alguns tão rústicos, porém todos expressivos da capacidade do nosso povo – e nós todos somos povo – do povo brasileiro, da gente brasileira, para associar alguma coisa de arte ao seu cotidiano. Porque um dos característicos da arte chamada popular é que é uma arte utilizável, uma arte que está ligada ao cotidiano, ao dia a dia de toda a gente. Da gente que faz esta arte para incorporá-la à sua vida. O homem – e quando digo o homem digo a mulher – é um ser que está sempre à procura de alguma coisa de beleza que junte à sua vida. Alguma coisa de beleza nos objetos, no ambiente e, também, nas pessoas. Nós sabemos que a atração sexual é, em grande parte, baseada nessa tendência para se valorizar a beleza na pessoa humana. E a beleza tem muitas formas. Às vezes, o que se chama simpatia tem o toque da atração pela beleza. De modo que nós estamos sempre à procura dela para enriquecer a nossa vida. Sem beleza, sem arte, a vida seria realmente inexpressiva. Gilberto.p65 251 27/05/2010, 16:01 252 GILBERTO FREYRE Arte popular se diz para distinguir a arte do povo da dos eruditos. Vejo aqui, nesta mostra, estabelecida uma classificação entre cultura material e cultura não material. Não material ou espiritual. São conveniências para a caracterização de fatos. Porque na realidade há uma constante interpretação entre a arte popular e a arte erudita, entre cultura material e cultura não material ou espiritual. Quando o homem faz algum desses objetos de cerâmica, de madeira ou de palha, ele não está pensando apenas na matéria que as suas mãos transformam em alguma coisa de belo e útil. Ele está dando expressão a alguma coisa que não é apenas material: que é também espiritual. Que é afã espiritual dentro dele. Que é procura de uma expressão desse afã. De modo que toda cultura chamada material é também espiritual. Elas se interpenetram. Também toda cultura chamada popular tem alguma coisa de erudita. Alguma coisa que vem de uma sugestão erudita. Por outro lado, todas as grandes obras de cultura erudita têm alguma coisa de popular dentro delas. Se considerarmos as grandes tragédias dos gregos, veremos que, como a primeira grande afirmação de cultura erudita no nosso tipo de civilização, várias delas se baseiam em mitos de origem popular. Se considerarmos a obra de Shakespeare, veremos que vários dos seus dramas têm a origem popular, folclórica, rústica, que ele elevou a arte erudita. Assim também nossos grandes poetas brasileiros. Gonçalves Dias, sabemos que muito estudou – estudou cientificamente até – a cultura indígena do Brasil, que é uma cultura que podemos chamar “popular”, como cultura pré-alfabética, ou cultura pré-letrada ou cultura rústica que é. Dela o poeta maranhense muito se impregnou para alguns dos seus grandes poemas que fazem parte da literatura erudita do Brasil. O mesmo é certo de grandes poetas modernos como Manuel Bandeira e como Carlos Drummond de Andrade; vários de seus poemas estão impregnados de sugestões populares. Eu gostaria que vocês pensassem sempre nisso: que arte popular e arte erudita afinal formam uma mesma expressão de cultura e que cultura material e cultura imaterial ou não materi- Gilberto.p65 252 27/05/2010, 16:01 253 PENSAMENTO CRÍTICO al também fazem parte de um mesmo complexo de cultura. Precisamos cada vez mais de pensar em termos de inter-relação das coisas. No mundo em que vivemos raramente existem coisas segregadas, separadas, isoladas. Nós, como pessoas, nós como indivíduos, o que fazemos e o que pensamos, o que exprimimos em arte, em literatura, em filosofia, seja lá o que for, é, ao mesmo tempo, de cada um e do complexo a que cada um pertence. O Brasil pode ser considerado um dos países mais ricos dentre os países atuais, em cultura pré-alfabética capaz de dar espontaneidade a várias expressões de arte, entre nós. Uma espontaneidade tal que a gente até pode chegar ao paradoxo de desejar que não se acabe de todo com o analfabetismo entre nós. Porque há coisas que rebentam dos analfabetos, de sua cultura não alfabética, pré-letrada, que são verdadeiros valores de cultura. Nós precisamos nos libertar da ideia de que cultura é só cultura escrita ou que tenha uma expressão gráfica, escrita: em livro, em jornal, em revista. A verdade é que há uma cultura oral que é importantíssima. Eu sugeriria, a cada uma de vocês e a todas, que, nas suas próprias terras, nas suas próprias cidades, nas suas próprias vilas, prestassem mais atenção às pessoas rústicas e ouvissem mais as pessoas rústicas e até – ouso dizer – aprendessem mais com as pessoas rústicas. Com os próprios analfabetos. Lembro-me de que uma das minhas maiores experiências foi ter vivido, certa vez, numa pequena aldeia do Norte de Portugal, composta de gente quase toda analfabeta. O que aprendi no convívio com essa gente, a princípio retraída – sabem vocês como a gente rústica se fecha àquela que lhe parece erudita, e que, por vezes, parece que vai fazer graça, e vai fazer gracejo de suas coisas – foi valioso para mim. É preciso conquistar-se a confiança dessa gente para que ela se abra ao estranho. Uma vez conquistada a confiança quanta coisa se aprende do rústico, quanta coisa o analfabeto guarda que é cultura, é cultura oral, é cultura que não chega ao alfabeto. Mas o alfabeto não é tudo na cultura do homem. Gilberto.p65 253 27/05/2010, 16:01 254 GILBERTO FREYRE Nós, no Brasil, devemos procurar aprender o mais possível dos nossos rústicos. Vocês todas podem contribuir para isso, recolhendo objetos de arte popular e enriquecendo com eles nosso conhecimento da arte chamada popular das várias regiões do Brasil, cada uma das quais, como acentuou a professora Graziela Peregrino, tem a sua peculiaridade baseada no uso de material local. O material tipicamente local é muito importante. Noto aqui – nos objetos nesta mostra – uma certa ausência. Não vejo nenhum ex-voto, há? Não vi. A verdade é que o ex-voto é realmente uma das expressões mais interessantes de cultura brasileira. Está ligado à fé, está ligado à crença, está ligado à mística da nossa gente. Mas dentro dessa crença, dessa fé, dessa gratidão a Deus e ao santos, por uma graça obtida tem aparecido algumas das melhores expressões de arte popular do Brasil. O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais - que eu espero que vocês visitem e vejam o seu Museu Antropológico: um museu ainda em começo mas já um belo começo – vem se especializando nisso: em ex-votos. É uma das suas especializações. O ex-voto como arte, o ex-voto como expressão de cultura, o ex-voto como definição de atitudes brasileiras. Por algum tempo, se pensou que o ex-voto se referia apenas a partes do corpo humano. Se uma pessoa tinha um filho, tinha uma criatura querida, doente da cabeça, que se curava e essa cura era atribuída – e às vezes até com razão – a um santo ou a Deus e a Nossa Senhora, então se apresentava em barro ou em madeira, uma escultura daquela parte do corpo – a cabeça – como gratidão. Também podia ser uma mão ou uma perna quebrada, um fígado, um coração, outra parte do corpo. Os pesquisadores do Instituto Joaquim Nabuco descobriram que, além disso, há uma grande riqueza de material, nesse setor de arte popular, que não se refere a partes do corpo humano; e sim a casas, a pequenas casas, a animais, a plantas, a máquinas. Quem desejou possuir casa própria e fez uma promessa a algum “Santo” ou a Deus e conseguiu a casa própria, lá vem a miniatura da casinha, em sinal de gratidão. Às vezes são miniaturas de casas muito bem-construídas do ponto de vista artístico. O que é certo também de figuras de animais. Gilberto.p65 254 27/05/2010, 16:01 255 PENSAMENTO CRÍTICO Esses ex-votos mostram certa ternura da parte de vários brasileiros, para com animais de estimação, que tendo adoecido, foram recuperados – vacas, bois, carneiros. Está o Instituto Joaquim Nabuco juntando vários ex-votos dessa espécie; e também de máquinas, de casas de farinha, de engenhocas, de engenhos de rapadura e aguardente; e, ainda, de espigas de milho. Tais espigas referem-se a promessas ligadas a safras, colheitas, lavouras. Promessas que foram atendidas. Por aí vocês veem como é rico esse setor de cultura popular e como é expressivo de atitudes do brasileiro rústico para com, ao mesmo tempo, o sobrenatural e o natural. Para com o sobrenatural e para com a natureza que o cerca. Para com o seu cotidiano. Para com a sua vida de família e para com o seu futuro. E, ainda, como expressão de seus desejos ou de sua noção de que seja bem-estar humano. Se eu pudesse aproveitar este momento para fazer um apelo a vocês e seria que, encontrando, pelo interior ou qualquer parte do estado de Pernambuco ou do Nordeste com que estejam mais familiarizados, algum objeto deste, isto é, algum ex-voto, que não se refira ao corpo humano, porque este aspecto já está bem estudado, mas a animal ou planta ou coisas, não deixassem de trazê-lo ao Recife e o oferecesse ao museu do Instituto Joaquim Nabuco. Já falei bastante. Participo, com a maior alegria, do regozijo de todos aqui por esta mostra organizada por Graziela Peregrino. Graziela Peregrino tem uma noção lúcida do que seja a relação entre educação e cultura. Regozijo-me especialmente com ela. Mas felicito a vocês todas por estarem contribuindo para o êxito de uma promoção como esta. Trechos da gravação de palestra proferida no Centro de Treinamento Educacional do Centro Regional de Pesquisa Educacionais do Recife (Ministério da Educação e Cultura), no dia 5 de novembro de 1971, ao ser inaugurada no mesmo Centro uma mostra de arte popular regional. Diário de Pernambuco Recife, 27 de fevereiro de 1972 Gilberto.p65 255 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 256 27/05/2010, 16:01 A PROPÓSITO DE ARTES POPULARES Umas palavras a respeito de conteúdos psicossociais ou socioculturais de artes populares. Já se sugeriu dessas artes que, por iniciativa própria, não são, de ordinário, anticonservadores nem antitradicionais. Nem revolucionárias ou insurgentes. Mas sem que isto signifique que lhes faltem conteúdos dessa espécie e de outras espécies, para serem expressões de arte pela arte. Crítica social raramente tem faltado, como conteúdo, a artes como a da pintura e a da escultura popular; escultura em madeira e em barro. Crítica social que não raro assume forma de caricatura, procurando-se projetar sobre o criticado, o ridículo, o gracejo, a troça: pendores tão do artista popular em suas atitudes menos para com instituições que tende a respeitar – o governo, a igreja, o exército, a família, a pátria ou a nação, como instituições – do que para com agentes ou representantes dessas instituições que considere desleais os valores representados por essas instituições: maus governantes, maus sacerdotes e até bispos, maus soldados, más esposas, maus cidadãos. Porque nas suas críticas sociais, o artista popular tende a ser, além de conservador, moralista. Por outro lado, as artes populares especializadas na representação da figura humana podem exaltar não o cangaço, como Gilberto.p65 257 27/05/2010, 16:01 258 GILBERTO FREYRE instituição, porém cangaceiros, isto é, indivíduos ou pessoas, que, aos olhos da gente do povo, tenham se constituído nuns como heróis, sobretudo em suas resistências a policiais quase sempre impopulares aos olhos da mesma gente. Podem exaltar padres considerados santos ou quase santos; e nenhuma figura do Nordeste brasileiro mais glorificada pela arte popular de escultura do que o padre Cícero Romão. Podem também glorificar certos santos tradicionais como Santo Antônio, São João, São Pedro, São José, São Sebastião e até Jesus Cristo e a Virgem Maria e também anjos, identificando-os com seus próprios tipos étnicos ou ligando-os à natureza, às plantas ou aos animais da sua região: São João aos carneirinhos nanicos do Nordeste, por exemplo; São Sebastião aos mandacarus ou aos xiquexiques nordestinos, cujos espinhos, exagerados, em farpas, substituem em representações eminentemente ecológicas de sua figura de mártir, as flechas clássicas, europeias do martírio tradicional. E sem deixarem de acrescentar a essas glorificações não só de um novo estilo social, como de caráter ecológico, críticas sociais, não são raros os artistas populares que, maliciosamente, dão à fisionomia de demônios que esculpem ou pintam ao pé de Nossas Senhoras ou de santos fisionomias de pessoas importantes que considerem merecedoras do seu gracejo ou do seu motejo. Pode-se entretanto notar dos genuínos artistas populares, mestres dessas artes de representação ou de deformação de figuras conhecidas – representação ou deformação a qual, por vezes, acrescentam conteúdo de crítica ou de sátira social-, que não é característico dessa sua fusão de forma e conteúdo sacrificarem forma ao conteúdo. O crítico de arte popular moderna Robert Warshow nota, no seu The immediate experience – livro póstumo aparecido em 1962, sete anos após a morte súbita do autor em 1955 – que nos filmes de cowboy – os chamados western, por ele considerado expressão de arte destinada a consumo popular – os organizadores de cenas dramáticos não sacrificam as “aparências harmônicas” às “consequências desejáveis”, isto é, o estético ao ético. Sua conservação implica em registrar a tendência de tais organizadores ou diretores de filmes popula- Gilberto.p65 258 27/05/2010, 16:01 259 PENSAMENTO CRÍTICO res, para reconhecerem, na gente do povo, a tendência para exigirem das artes que sejam artes principalmente artes, embora também possam ser crítica social, lições de moral, exemplos de conduta, estímulos à coragem, à honestidade, à lealdade. Pode-se dizer das artes populares caracteristicamente brasileiras que nelas se encontra, de ordinários, a mesma tendência. Nas esculturas de barro dos Vitalinos e dos Severino de Tracunhaém encontra-se um pendor para aquelas “aparências harmoniosas”, mesmo quando dentro dessas aparências os artistas condescendem em introduzir – às vezes a pedidos de compradores mais ou menos sofisticados – o elemento anedótico, ou o desejável ou o didático de encomenda. Pelo que se pode, talvez, concluir do artista popular brasileiro que não fazendo, por um lado, arte pela arte, não faz, por outro, arte de tal modo a serviço deste ou daquele propósito não artísticos que as “aparências harmoniosas”, da expressão de Warshow, se percam de todo sob a busca de consequências desejáveis social, política ou religiosamente desejáveis. Nisto, aliás, a atitude do artista popular brasileiro coincide com a do genuíno artista erudito: também ele não tende a sacrificar a arte como forma ao conteúdo que a deforma. Jornal do Commercio Recife, 4 de junho de 1976 Gilberto.p65 259 27/05/2010, 16:01 Gilberto.p65 260 27/05/2010, 16:01 GILBERTO FREYRE: “HÁ ARTISTAS QUE SÃO PURA, RELIGIOSA E ATÉ SECTARIAMENTE ARTÍSTICOS” Alguém já me perguntou se, de tanto admirar Di Cavalcanti ou Pancetti ou Vicente do Rêgo Monteiro ou Cícero Dias ou Lula Cardoso Ayres, venho deixando de devidamente estimar ou apreciar a arte, que seria também admirável, de Francisco Brennand. Creio que não. Sou um entusiasta da arte de mestre Brennand. A seu respeito já escrevi todo um ensaio, divulgado pela revista alemã Humboldt: um ensaio em que procurei destacar o fato de não ser esse mestre nenhum purista ou extremista em sua concepção do que seja arte e sua relação com a vida. Um aspecto importante na maneira de se exprimir de qualquer artista. Há artistas que são pura, rigorosa e até sectariamente artísticos. Vários são os Mallarmés que têm pretendido fechar a arte – inclusive a literária – dentro de uma tal sistemática de pureza que o artista – inclusive o literário, assim fechado – não se exprimisse senão para fins puramente artísticos; e através de meios de expressão, além de exclusivamente artísticos, especificamente artísticos com relação a esta ou aquela arte em particular. O des- Gilberto.p65 261 27/05/2010, 16:01 262 GILBERTO FREYRE mentido de Brennand a essa espécie de purismo é vigoroso. Ele é tão escultor como pintor. Tão pintor como ceramista. Não deixam de ter os puristas suas razões para se extremarem no purismo e no especialismo em que se extremam. Existe, na verdade, o perigo de se deixarem, artes e artistas, invadir e subjugar por motivos de tal modo extra-artísticos, quer de atividade só aparentemente artística, quer de atividade ostensivamente extra-artística, que a arte assim aberta, se torne uma mistificação da arte. Em alguns casos, até antiarte. Pois há um ponto em que o artista, deixando de ser principalmente artista, corre o risco de tornar-se um antiartista pelo relevo que toma, na sua obra, sua política ou sua religião, seu patriotismo deliberado ou seu cosmopolitismo sistemático. Daí, talvez, a Rússia Soviética não ter produzido nenhum Picasso. Enquanto Picasso só foi grande artista por ter sido muito mais Picasso do que comunista. O comunista que nele foi apenas um modo espanhol de não ser um europeu convencionalmente burguês. Mas antes um anarquista em sua filosofia de vida que um comunista dos mediocremente sectários. Francisco Brennand, como artista esplendidamente criativo, é de difícil classificação. Um erro, me parece, etiquetá-lo como obcecado pelo sexo no sentido convencional. O que ele é, é erótico. E Eros é mais que sexo. Daí sua sensibilidade ao erótico naquelas formas de vegetação em que as plantas parecem imitar sexos de mulher ou de homem, como se o vegetal se prolongasse no humano. Jornal do Commercio Recife, 27 de julho de 1980 Gilberto.p65 262 27/05/2010, 16:01 AINDA A QUESTÃO DA “ARTE PURA” Volto hoje, à questão da “arte pura” – que é arte pura? – considerada do ponto de vista sociológico e a propósito de uma pergunta que me foi feita sobre o assunto. Com este pequeno artigo, termina a publicação de algumas perguntas – seguidas de tentativas de respostas – que me foram dirigidas por estudantes e ouvintes, após um curso, pioneiro, no Brasil, de sociologia da arte; e professado primeiro no Recife, depois em Salvador e em São Paulo. Emerson chegou a escrever “...a distinção entre belas-artes e artes úteis deve ser esquecida”. E antecipou-se, no século XIX, a admitir a associação da arte a inovações de indústrias então aparentemente antiartísticas como a estrada de ferro, as baterias galvânicas, as novas máquinas industriais. O meu amigo professor Horace Kallen, autor de livro tão interessante sobre a história social da arte, salienta que essas antecipações de Emerson vêm se realizando através da integração do aparentemente artiartístico no artístico e da arte chamada aplicada – a do móvel, por exemplo – na arte, destacando como exemplos dessa integração a arquitetura funcional e o móvel funcional, que veem absorvendo da escultura e da pintura, tidas por artes puras nas suas formas mais nobres, soluções no sentido de economia estética e, ao Gilberto.p65 263 27/05/2010, 16:01 264 GILBERTO FREYRE mesmo tempo, prática de linha e espaço. Essa integração viria se realizando sem submissão da arte à indústria ou à técnica, como ciências aplicadas, submissão que, segundo alguns, caracterizaria a arte aplicada em oposição à arte pura. A reintegração dessas divergências corresponderia a uma reintegração de arte com ciência, cujas relações interrompidas, no Ocidente, depois da Renascença, estariam sendo restabelecidas. O matemático francês Poincaré, em 1907, já observava a tendência para essa reintegração através de uma expressão de economia de esforço, que, sendo constante na ciência, seria também fonte de beleza nas artes. Haveria assim coincidência nos dois empenhos, o científico e o artístico, sem que nas relações de um com outro a arte, deixando de ser pura, para tornar-se aplicada sob a direção imperial da ciência ou da técnica ou da indústria, perdesse sua especificidade estética. Exemplo expressivo é o das modernas pontes monumentais construídas nos Estados Unidos em que a colaboração técnica dos engenheiros com a arte de artistas tem resultado em obras de arte consideradas, por alguns observadores, equivalentes de catedrais pelo que nelas é leveza, graça, rendilhado principalmente funcional e não apenas ornamental de linhas, ao mesmo tempo que monumentalidade, dentro de extrema economia de espaço. Em síntese, porém, arte da qual seria injusto dizer-se que fosse, em vez de arte tão somente arte aplicada, diferenciada da pura, como talvez fosse possível dizer-se da arte na Ponte de Brooklyn ou na Torre Eiffel, comparada com a arte de uma estátua grega ou com a da Monalisa guardadas em museus e, dentro de museus, potentemente artística é, dentro de um museu, uma miniatura de ponte moderna de Nova Iorque. Há nos museus uma diminuição de potência artística de objetos de arte plástica por lhes faltar não utilidade imediata, mas a relação com o ambiente ou o espaço ou a função que um sociólogo é tentado a dizer que é o seu complemento além de ecológico social ou sociocultural. Diário de Pernambuco Recife, 26 de março de 1961 Gilberto.p65 264 27/05/2010, 16:01 OUTROS TEXTOS DE GILBERTO FREYRE SOBRE ARTE A propósito de pintores e de suas relações com a luz regional Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 Lula Cardoso Ayres: uma interpretação integrativa de homem e coisas brasileiras Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 Civilização, religião e arte Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 O reflexo do nominalismo nas arte hispano-tropicais Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 Uma estética da miscigenação Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 Arte, literatura e sociologia: em torno do problema da interpretação da arte e da vida como forma Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962 Nominalismo, artes plásticas e trópico Arte, ciência e trópico. São Paulo: Martins, 1962, 2ª edição Arte, sociologia e trópico Arte, ciência e trópico. São Paulo: Martins, 1962, 2ª edição Gilberto.p65 265 27/05/2010, 16:01 266 GILBERTO FREYRE Em torno de uma arte simbiótica: a luso-tropical Arte, Ciência e Trópico. São Paulo: Martins, 1962, 2ª edição Perguntas e respostas em torno de problemas de arte ou cultura Arte, Ciência e Trópico. São Paulo: Martins, 1962, 2ª edição Precisa-se do Ceará O Jornal. Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1944 Ainda a propósito do espírito de nacionalidade do Brasil Diário de Pernambuco. Recife, 18 de outubro de 1952 A propósito da presença de mestre Mindlin no Recife Diário de Pernambuco. Recife, 15 de dezembro de 1959 O regional e o universal na pintura de Cícero Dias O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1960 Da arte e do trópico O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1964 Recordando Flávio de Carvalho Diário de Pernambuco. Recife, 21 de julho de 1973 Os últimos trabalhos de Vicente do Rêgo Monteiro Revista do Norte. n. 2, p. 7-8, Recife, 1925 Manifesto Regionalista de 1926: vinte e cinco anos depois Revista Região. Recife, 1952 Qu’é dos pintores... Que não vêm pintar? Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1952) A propósito de Manuel Bandeira Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1925) Literatura de desaforo Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1925) A propósito de Guilherme de Almeida Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1925) A exposição do sr. Pedro Bruno Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1925) Gilberto.p65 266 27/05/2010, 16:01 267 PENSAMENTO CRÍTICO O nordeste separatista? Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1926) Bom gosto e intolerância Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1924) Joaquim Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1924) Um museu que tenha atuação social Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1924) Cultura sob medida Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1923) A caricatura no Brasil: seus começos Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1922) Ronald de Carvalho, crítico Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1925) Cultura e aristocracia intelectual Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1923) A pintura de Cícero Dias: seu sur-nudisme Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1923) A tentativa de inquérito ao passado e à vida de uma região Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964, 2ª edição (artigo de 1928-1933) Cultura e museus Recife, 16 de outubro de 1984 Meu querido Lula Cardoso Ayres Diário de Pernambuco. Recife, 19 de julho de 1987 Gilberto.p65 267 27/05/2010, 16:01 268 GILBERTO FREYRE Regionalismo brasileiro Folha de São Paulo. São Paulo, 6 de setembro de 1978 Prefácio In: VALLADARES, Clarival do Prado. Lula Cardoso Ayres, revisão crítica e atualidade. Rio de Janeiro e Recife: Spala, 1978. Página IX – XV Sociólogos, pintura e pintores Diário de Pernambuco. Recife, 10 de agosto de 1958 Painéis de mestre Lula Diário de Pernambuco. Recife, 24 de março de 1957 Um escritor experimental O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 4 de maio de 1957 Mineiros na metrópole O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 18 de maio de 1957 A exposição do pintor Baltazar Diário de Pernambuco. Recife, 4 de agosto de 1977 A propósito de mestre Vicente Diário de Pernambuco. Recife, 20 de outubro de 1957 A propósito de um ensaio de crítica literária Diário de Pernambuco. Recife, 17 de novembro de 1957 Acerca da influência francesa no Recife Diário de Pernambuco. Recife, 8 de dezembro de 1957 Murais, história e folclore Diário de Pernambuco. Recife, 26 de janeiro de 1958 Pintores recifenses Diário de Pernambuco. Recife, 23 de março de 1958 O busto de Bandeira poeta Diário de Pernambuco. Recife, 30 de março de 1958 A Bahia e os pintores O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 19 de julho de 1958 Gilberto.p65 268 27/05/2010, 16:01 269 PENSAMENTO CRÍTICO Um país sem críticos O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 27 de outubro de 1958 A situação dos escritores na Rússia Soviética O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 4 de outubro de 1958 Trajos modernos para os tropicais 22 de setembro de 1958 Ainda a propósito de trajos modernos para os trópicos 23 de setembro de 1958 Em torno dos experimentos de um artista O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 30 de abril de 1960 Brasil, uno e plural Jornal do Commercio. Recife, 4 de janeiro de 1959 Complexidade e simplismo. Jornal do Commercio. Recife, 20 de dezembro de 1959 A propósito de Brasília O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 19 de março de 1960 Arte, região e tempo na pintura de Lula Cardoso Ayres Jornal do Commercio. Recife, 8 de maio de 1960 O professor Bardi e a exposição Cardoso Ayres em São Paulo Diário de Pernambuco. Recife, 8 de maio de 1960 Lula Cardoso Ayres: um aspecto de sua formação Jornal do Commercio. Recife, 15 de maio de 1960 Qual a brasileira típica? O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 28 de maio de 1960 Mestre Baltazar e seus retratos de gente antiga Diário de Pernambuco. Recife, 5 de junho de 1960 A propósito de críticos literários Diário de Pernambuco. Recife, 12 de junho de 1960 Sociologia da arte e sociologia da linguagem: sua aplicação no Brasil Jornal do Commercio. Recife, 21 de agosto de 1960 Gilberto.p65 269 27/05/2010, 16:01 270 GILBERTO FREYRE Contra os museus de arte sacra O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1952 Mestre Portinari, cinquentão O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 1954 A propósito de fotografias O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 12 de junho de 1954 O escultor Brecheret O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 24 de março de 1956 Mestre Lula Cardoso Ayres: seu novo triunfo O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1956 Campos de Aragão, pintor do Recife Diário de Pernambuco. Recife, 26 de junho de 1966 Arte nigeriana e arte brasileira O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 3 de julho de 1966 Ainda sobre duas artes afins O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 10 de julho de 1966 A casa de mestre Niemeyer em Brasília Jornal do Commercio. Recife, 4 de dezembro de 1966 Artistas baianos no Recife Diário de Pernambuco. Recife, 17 de janeiro de 1953 Três pintores Diário de Pernambuco. Recife, 6 de dezembro de 1953 Cícero Dias entre Paris e o Brasil O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1948 Revolução no trajo do homem O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 1949 Uma revista de cultura O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 14 de maio de 1949 Gilberto.p65 270 27/05/2010, 16:01 271 PENSAMENTO CRÍTICO O Recife salvo pelos artistas O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 18 de maio de 1949 A propósito de retratos O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1950 A propósito de telurismo O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 25 de março de 1950 História em quadrinhos O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 24 de junho de 1950 Um pintor do Recife O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1950 Regionalismo criador O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1950 Falsos críticos O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 1951 História em quadrinhos, nacionalismo e internacionalismo O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 9 de junho de 1951 Ainda a propósito de Lula Cardoso Ayres Jornal do Commercio. Recife, 7 de setembro de 1975 A propósito de uma exposição Diário de Pernambuco. Recife, 28 de setembro de 1975 Wellington Virgolino, pintor da morenidade brasileira Diário de Pernambuco. Recife, 16 de novembro de 1975 Em torno de um Centro de Referência Cultural Diário de Pernambuco. Recife, 7 de dezembro de 1975 Ainda em torno de Centro de Referência Cultural Diário de Pernambuco. Recife, 21 de dezembro de 1975 Voga de mestre Vicente Diário de Pernambuco. Recife, 27 de junho de 1976 Gilberto.p65 271 27/05/2010, 16:01 272 GILBERTO FREYRE Um pintor do trópico anfíbio: o Amazonas Diário de Pernambuco. Recife, 19 de setembro de 1976 Museus de um novo tipo Diário de Pernambuco. Recife, 10 de outubro de 1976 O depoimento de Lula Cardoso Ayres Diário de Pernambuco. Recife, 25 de dezembro de 1976 Artistas e comícios políticos Diário de Pernambuco. Recife, 21 de outubro de 1975 Iniciativas de estudantes Diário de Pernambuco. Recife, 17 de abril de 1946 Novos trabalhos de Cícero e Lula Diário de Pernambuco. Recife, 30 de janeiro de 1947 Omissões graves Diário de Pernambuco. Recife, 16 de novembro de 1947 O Brasil já tem museus Diário de Pernambuco. Recife, 13 de fevereiro de 1942 Mestre Carybé no Recife Diário de Pernambuco. Recife, 26 de março de 1972 Maria Carmen, mestra Diário de Pernambuco. Recife, 9 de abril de 1972 O pintor José Maria Diário de Pernambuco. Recife, 4 de junho de 1972 Arte bahiana no Recife Diário de Pernambuco. Recife, 27 de julho de 1972 A propósito da arte bahiana de hoje Diário de Pernambuco. Recife, 30 de julho de 1972 Ainda a propósito da arte bahiana de hoje Diário de Pernambuco. Recife, 6 de agosto de 1972 Gilberto.p65 272 27/05/2010, 16:01 273 PENSAMENTO CRÍTICO Os dois Cavalcantis Diário de Pernambuco. Recife, 10 de setembro de 1972 Ainda a propósito de Di Cavalcanti Diário de Pernambuco. Recife, 17 de setembro de 1972 Boletim, não: revista, sim Diário de Pernambuco. Recife, 21 de setembro de 1972 A propósito do nu Diário de Pernambuco. Recife, 25 de fevereiro de 1973 A exposição de Rosa Maria Diário de Pernambuco. Recife, 17 de junho de 1973 Ainda uma vez Picasso Diário de Pernambuco. Recife, 8 de julho de 1973 Daniel em Brasília Diário de Pernambuco. Recife, 22 de julho de 1973 Em louvor de Gina Diário de Pernambuco. Recife, 26 de agosto de 1973 Um inovador Diário de Pernambuco. Recife, 2 de junho de 1974 O Norte, a pintura e os pintores Tempo de Aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979 2ª edição. Carnaval e arte brasileira Jornal do Commercio. Recife, 12 de fevereiro de 1956 Exposições alemãs no Recife Jornal do Commercio. Recife, 4 de março de 1956 Um atelier de artistas jovens Diário de Pernambuco. Recife, 25 de março de 1956 Homenagem a Manoel Bandeira, mestre do desenho Jornal do Commercio. Recife, 27 de maio de 1956 Gilberto.p65 273 27/05/2010, 16:01 274 GILBERTO FREYRE Pintura, França e o Recife Diário de Pernambuco. Recife, 1 de julho de 1956 Em torno de uma nova pinacoteca no Recife Jornal do Commercio. Recife, 30 de março de 1975 Em torno de uma sugestão de mestre Aloísio Magalhães Diário de Pernambuco. Recife, 18 de maio de 1975 Ainda em torno de uma sugestão de mestre Aloísio Magalhães Diário de Pernambuco. Recife, 25 de maio de 1975 Regionalismo e síntese em arte Diário de Pernambuco. Recife, 5 de fevereiro de 1960 O livro belo Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1925) Sugestão da favela Tempo de aprendiz. São Paulo: Ibrasa, 1979, 2ª edição (artigo de 1926) Arte indiana no Brasil. O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 16 de julho 1949 Gilberto.p65 274 27/05/2010, 16:01 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. 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