A POLÍCIA MILITAR E A EXPERIÊNCIA DE CONSTRUÇÃO COMUNITÁRIA DO PLANO MUNICIPAL DE SEGURANÇA PÚBLICA NO MUNICÍPIO DE SARANDI NO ANO DE 2008 Ademir da Fonseca Junior1 [email protected] Orientador: Prof. Dr. Paulo Moreira da Rosa [email protected] Resumo Este artigo tem por objetivo analisar o processo de construção comunitária do Plano Municipal de Segurança Pública do Município do município de Sarandi no ano de 2008, bem como suas possíveis contribuições para a Segurança Pública e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida da comunidade local. Neste sentido, discute a participação da comunidade nos processos de diagnóstico e de busca de soluções para os problemas de Segurança Pública como forma de superação do sentimento generalizado de insegurança; Aborda a importância da organização comunitária e da aproximação da polícia com segmentos atuantes na comunidade; Analisa a importância do desenvolvimento de políticas públicas voltadas para redução dos fatores de vulnerabilidade social e de fortalecimento das ações de proteção social. Para tanto, foi realizada pesquisa exploratória a partir de revisão bibliográfica focando a Segurança Pública, a Educação Comunitária e a Policia Comunitária. Ao final conclui que a construção comunitária de um Plano Municipal de Segurança pode, a partir da reflexão sobre o cotidiano e da efetiva participação comunitária, desenvolver a qualidade de vida de uma comunidade, possibilitando melhoria da auto-estima do indivíduo e a valorização do grupo a que pertence. Palavras-chaves: Segurança Pública; Plano Municipal de Segurança; Polícia Comunitária. 1. INTRODUÇÃO A maioria dos governos estaduais concentra, na Secretaria de Estado de Segurança Pública, a formulação e a gestão das políticas públicas relacionadas à área de segurança. Atualmente, a participação dos municípios no desenvolvimento de políticas eficazes de prevenção e repressão à violência é fundamental e indiscutível. A proximidade com a população possibilita ao poder público municipal a capacidade de mobilizar e articular a comunidade para o problema. O diagnóstico, planejamento, prática e avaliação das ações de prevenção e combate a criminalidade e violência, feitas em parcerias com diversos setores da sociedade civil organizada (lideranças locais, associações de bairro, ONG etc.), criam um diferencial que atinge diretamente a comunidade. 1 Oficial da Polícia Militar do Paraná; Aluno do Curso de Especialização em Formulação e Gestão de Políticas Públicas. UEM – Escola de Governo. 2 A Polícia Militar tem procurado propagar a filosofia de Polícia Comunitária entre seus integrantes, de forma a evidenciar a missão preventiva da Corporação, o que passa necessariamente pelo aumento do capital humano e social das comunidades, pela melhoria das condições de sociabilidade e de organização do ambiente. O Município de Sarandi, na região metropolitana de Maringá, no Estado do Paraná, apresenta um cenário típico de periferia social, no qual grande parte da população é excluída, não só dos benefícios econômicos, como também, fundamentalmente, da possibilidade de ser protagonista dos fatos que afetam sua vida cotidiana. Este artigo objetiva analisar o processo de construção comunitária do Plano Municipal de Segurança do Município de Sarandi no ano de 2008, identificando possíveis contribuições para o desenvolvimento da Segurança Pública e para a melhoria da qualidade de vida da comunidade envolvida em sua elaboração. Neste sentido, discute a Educação e Organização Comunitária, a filosofia de Policia Comunitária em desenvolvimento na Polícia Militar do Paraná, a Segurança Pública, apresenta uma visão geral do município e mostra como ocorreu o processo de elaboração do Plano Municipal de Segurança de Sarandi. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 EDUCAÇÃO COMUNITÁRIA Segundo Sirvent (1984), a educação comunitária permite explorar novas estratégias de ação educativa e cultural visando à transformação da realidade e não a conservação e reforço do status quo. Transformação esta que é percebida, prioritariamente, como uma elevação da qualidade de vida da população mais carente. A denominação periferia social se aplica aos núcleos de população mais carente em suas condições de vida econômica e social. A autora faz referência àquela parcela da população excluída não só dos benefícios econômicos, como também, da possibilidade de ser protagonista dos fatos que afetam sua vida cotidiana (SIRVENT, 1984). Conforme Sirvent (1984), em termos gerais, a maioria dos setores socialmente periféricos carece de participação real na transformação de seu mundo e na superação das condições que afetam sua vida cotidiana. Surgem então, características psicossociais da população de adultos e jovens que podem inibir o surgimento de grupos protagonistas de sua 3 própria história, ou seja: baixo grau de treinamento para organização e para a ação comunitária; sentimento de impotência e de incapacidade para resolver os problemas do cotidiano; atitude de delegar ao poder constituído a solução de seus problemas; presença de uma mentalidade mágica e fatalista que atribui suas condições de vida a inferioridades intrínsecas ao grupo ou ao destino; problema de sistema de valores, conceitos e significados. A maioria das pessoas tem boa vontade e irão cooperar com as outras para facilitar a construção de consenso. Quanto mais grupos partilham valores, crenças e objetivos comuns, mais provavelmente irão concordar a respeito dos objetivos comuns, quando interagem para melhorar o local onde moram. (SENASP, 2008), Ainda segundo Sirvent (1984) as necessidades humanas de participação ou ser protagonista de sua própria história são, neste sentido, necessidades não materiais reconhecidas como condição e como resultante de um processo de transformação, dirigido ao aumento da qualidade de vida de uma população. Para Kowarzik (1983) a auto-realização do indivíduo tem como pressuposto necessário que ele se liberte de tudo que é apenas imediato, exteriorizando e objetivando a sua existência originária, transformando o horizonte ingênuo de sua experiência em um saber explicativo. Desta forma a participação real da população nas decisões que afetam sua vida cotidiana supõe ainda o reconhecimento de outras necessidades associadas que são, por sua vez, condição e resultante de um processo participativo: auto-valorização de si e da cultura do grupo ao qual pertence; capacidade de reflexões sobre os fatos da vida cotidiana; capacidade de criar e recriar não só objetos materiais como também e fundamentalmente, criar e recriar novas formas de vida e convivência social. À medida que aumenta o grau de carência social e econômica, diminui o reconhecimento das necessidades reais de um grupo social. O impacto da sociedade de consumo nos grupos de periferia pode gerar uma série de necessidades falsas, quer dizer, pode gerar carências sentidas pelos indivíduos, que os impulsionam para formas de conduta que não favorecem a solução de seus problemas cotidianos, muito pelo contrário, às vezes os acentuam. As motivações emergentes dos meios de comunicação de massa podem, por exemplo, inibir o reconhecimento de necessidades verdadeiras, tais como as de criação ou recriação que levam ao desenvolvimento pleno das potencialidades humanas (SIRVENT, 1984). Nesse sentido, Sirvent (1984) explica que a educação comunitária deve partir da diferenciação entre necessidades objetivas e necessidades subjetivas. Por necessidade subjetiva entendemos um estado de carência sentida e percebida como tal por indivíduos ou 4 grupos de indivíduos. Necessidades objetivas entendem as carências dos indivíduos e ou dos grupos que podem ser determinadas independentes da consciência que os indivíduos tenham delas. Tanto o reconhecimento de necessidades como a escolha de fontes de satisfação adequadas depende, em parte, do sistema de representações sociais em um grupo social. Entende-se por representações sociais o núcleo de conceitos, percepções, significados e atitudes que o indivíduo de um grupo social compartilha, em relação a eles mesmos e aos fenômenos por ele circundantes. É nesse sentido de que as representações sociais podem nos grupos periféricos podem atuar como fatores inibidores do reconhecimento de necessidades que levem ao desenvolvimento pleno das potencialidades humanas. Por exemplo, uma representação mágica ou determinista da vida é inibitória do reconhecimento da necessidade de refletir ou de criar sobre os fatos do que fazer cotidiano (SIRVENT, 1984). Sirvent (1984) esclarece que um processo de educação comunitária pode atuar como mecanismo facilitador de uma transformação social se: For dirigido ao reconhecimento das necessidades de participação, de valorização cultural, do pensamento reflexivo, de criação e de recriação em torno dos fatos do que fazer cotidiano; Objetivar a desmistificação e modificação de representações sociais inibidoras de um reconhecimento coletivo das necessidades próprias e legítimas de todo o grupo social; Desencadear processos de aprendizagem dos recursos e instrumentos mentais necessários para a busca criativa e elaboração comunitária de ações dirigidas à superação dos problemas da vida cotidiana. 2.2 A POLÍCIA COMUNITÁRIA NA POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ Polícia Militar do Paraná tem sua missão estabelecida na Diretriz Geral de Planejamento e Emprego da PMPR, na qual se encontra a seguinte afirmação: (...) no contexto sistêmico da defesa social, a Polícia Militar assume papel de relevância na preservação da ordem pública, prevenindo ou inibindo atos anti-sociais, atuando repressivamente na restauração da ordem pública, adotando medidas de proteção e socorro comunitários ou atuando em apoio aos órgãos da administração pública no exercício do poder de polícia que lhe couber. (POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ, 2004) 5 Polícia Comunitária, doutrinariamente na PMPR, é entendida como união das forças vivas da comunidade (a própria comunidade, a comunidade de negócios, as autoridades cívicas eleitas, as polícias todas, as outras instituições e autoridades e a mídia), mediante coordenação de policiais especialmente escolhidos, visando preservar a segurança pública, prevenindo e inibindo os delitos ou tomando as providências para a imediata repressão. É entendida também como uma filosofia de atuação da Polícia Militar, marcada pela intensa participação da comunidade na resolução dos problemas relativos à Segurança Pública. (POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ, 2004) A atividade de Polícia Comunitária é um conceito mais amplo que abrange todas as atividades voltadas para a solução dos problemas que afetam a segurança de uma determinada comunidade, que devam ser praticadas por órgãos governamentais ou não. A Polícia Comunitária envolve a participação das seis grandes forças da sociedade, freqüentemente chamadas de "os seis grandes". São eles a polícia, a comunidade, autoridades civis eleitas, a comunidade de negócios, outras instituições e a mídia. (BONDARUK e SOUZA, 2003). Para Scheremeta (2005) a Polícia Militar não é mero suplemento social, mas componente vital da sociedade, situada no vértice de causas e efeitos, como desaguadouro natural de ansiedade e tensões da comunidade, temos que o profissional de segurança pública, no caso o policial militar, tem sido um ponto de referência para a população. Porém, mais do que isso, a população deve ver na figura do policial militar, atuante e prestativo, um zeloso guardião da ordem e disciplina da vida social, digno da confiança e da admiração pública. A polícia não pode ter sucesso em atingir seus objetivos básicos sem o apoio operacional e político da sua comunidade. Assim, as instituições policiais devem estar abertas ás definições e prioridades dos problemas que a comunidade almeja solução. Desta Forma, o ponto de vista da comunidade tem um valor maior. (SENASP, 2008). 2.3 SEGURANÇA PÚBLICA A palavra segurança refere-se a uma condição em que os riscos reais ou imaginários não existem ou são reduzidos. O conceito de segurança está relacionado a uma série de outros conceitos como confiança, firmeza, convicção, garantia. Significa garantir a ausência de riscos e de perigos. (CNBB, 2009). 6 A segurança enquanto função essencial do Estado remete a estruturação material deste para cumprir tal função. Segurança implica também em percepção coletiva, o que remete à sua dimensão subjetiva. Os criminologistas chamam de insegurança objetiva o risco concreto de alguém ser vitimado e de insegurança subjetiva o medo de ser vitimado independente dos riscos concretos. Cumpre, pois, reconhecer a força dos meios de comunicação na potencialização ou minimização do medo coletivo. (CNBB, 2009). A segurança das pessoas é maior quando se consegue diminuir os riscos reais e, simultaneamente, administrar riscos, reais e imaginários, como no caso do medo. Deste modo, a insegurança moderna não é somente ausência de proteção, mas também o oposto, ou seja, uma busca sem fim por proteção e segurança, e a disputa sobre a capacidade efetiva que uma sociedade tem de colocá-los em prática. (SENASP, 2008). As inúmeras necessidades individuais para manutenção da vida humana, como alimentação, moradia, vestuário, entre outras, tem levado ao reconhecimento da impossibilidade de se sustentar à vida individual sem viver em sociedade. A existência humana diminuiu sua dimensão privada e aumentou sua dimensão pública, condicionando a segurança pessoal à segurança pública. (SENASP, 2008) Segundo a Constituição Federal do Brasil, a Segurança Pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, o que nos leva a inferir que além dos policiais, cabe a qualquer cidadão uma parcela de responsabilidade pela segurança. O cidadão na medida de sua capacidade, competência e de natureza de seu trabalho e em função das solicitações da própria comunidade, deve colaborar na segurança e no bem estar coletivo. O policial é uma referência muito cedo internalizada entre os componentes da comunidade. A noção de medo da polícia, erroneamente transmitida na educação e as vezes pela mídia, será revertida desde que o policial se faça perceber por sua ação protetora e amiga. A primeira imagem da polícia é formada na família. A polícia protetora e amiga transmitirá na família, imagem favorável que será transferida às crianças desenvolvendo-se um traço na cultura da comunidade que aproximará as pessoas da organização policial. (SENASP, 2008). O titular do poder de polícia, ou seja, a faculdade de impedir ou restringir atividades que ameacem o interesse da comunidade, é do Estado, o qual através da polícia de segurança age no combate a criminalidade. À Polícia de Segurança cabe a adoção de medidas preventivas visando impedir a prática de delitos e a garantir a ordem pública. As funções de Polícia de Segurança são em regra, exercidas pela Polícia Militar, a qual cabe a preservação da ordem pública através do policiamento ostensivo. A polícia Judiciária cabe a apuração dos fatos delituosos e são em regra exercidas pela polícia civil. (SENASP, 2008). 7 O crime e a violência são fenômenos presentes em qualquer sociedade, e não uma patologia a ser extirpada a qualquer custo. O seu enfrentamento deve ser feito em conjunto pelo poder público e a sociedade civil. Para tanto, é necessário a formulação de políticas públicas que atendam os anseios dos diferentes segmentos da sociedade de modo a promover a inclusão social, e não políticas governamentais de cunho particularista, que respondam apenas aos interesses de setores com mais poder e voz. (CNBB, 2009). 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para o desenvolvimento do presente estudo foi realizado pesquisa exploratória adotando os procedimentos técnicos de pesquisa bibliográfica. A pesquisa bibliográfica envolveu uma revisão de literatura sobre os temas Policia Comunitária, Educação Comunitária e Segurança Pública, bem como, buscou dados que caracterizassem o município de Sarandi. Também foram obtidos dados através de entrevistas com policiais e consultas a documentos oficiais disponibilizados pela Polícia Civil e Polícia Militar do município de Sarandi. 4. O MUNICÍPIO DE SARANDI 4.1 CONTEXTO HISTÓRICO Segundo a publicação da Prefeitura Municipal de Sarandi para divulgação do município (2008), a cidade de Sarandi foi traçada no mapa da Companhia Melhoramentos em 1947, ano da fundação da cidade de Maringá. Era o início da venda de lotes urbanos na região, que viria a constituir a localidade, a qual serviria de “centro de abastecimento” da Ferrovia Rede Viação Paraná/Santa Catarina. Entretanto, documentos e depoimentos relacionados à posse de terras evidenciam a presença de famílias na área rural desde a década de 30, vindo a aumentar consideravelmente na década seguinte. As primeiras famílias desbravam a terra, abriram clareiras e formaram as primeiras lavouras de café. Muitos destes pioneiros, anos depois, foram os primeiros moradores também na área urbana, contribuindo para o desenvolvimento da localidade. 8 Os primeiros habitantes eram, em sua maioria, imigrantes vindos do Estado de São Paulo e do Nordeste brasileiro, sonhando com as riquezas do Norte do Paraná. Eles adquiriram suas terras, abrindo a mata e formando grandes lotes rurais. Começava ai o plantio de café. Através de Lei Estadual nº 790, de 14 de novembro de 1951, Sarandi tornou-se Distrito Administrativo de Marialva. Em 1966, foi criado o Distrito Administrativo e Judiciário de Sarandi, através da Lei Estadual nº 5311/66. Na área urbana, em 1974, as loteadoras iniciaram a venda de terrenos. Porém a explosão imobiliária ocorreu em 1976. Na ocasião, um grande número de famílias deixou o campo por força da geada que dizimou os cafezais. O sucesso na venda de terrenos urbanos viabilizou a abertura de novos loteamentos. A partir daí, os cafezais começaram a ser erradicados para dar lugar aos loteamentos. Com a venda dos lotes demarcados, o fluxo de convergência de moradores ao novo núcleo habitacional intensificou-se, sobretudo, dada a proximidade com Maringá. Vale registrar que, historicamente, o município foi vítima da ação de despejo adotada pelo prefeito de Maringá, no período entre l.961 a 1.964, onde as pessoas eram conduzidas para fora dos limites da cidade. Nos anos de 1982 a 1987, a Prefeitura Municipal de Maringá entrou com a polícia e tratores na Favela do Cemitério, derrubando os barracos onde moravam várias famílias oferecendo-lhes uma indenização espúria para deixarem à área. Assim, seus pertences eram colocados em caminhões e deixados na beira da estrada em municípios vizinhos (PREFEITURA MUNICIPAL DE SARANDI, 2008). O acentuado crescimento econômico, a expansão da área urbana e o aumento na arrecadação de impostos impulsionam a eclosão de um movimento popular pedindo a emancipação política da localidade, que na época pertencia a Marialva. Um plebiscito popular em 1981 aprovou a criação do Município de Sarandi, de acordo com a Lei 7052/1982. A instalação do Município ocorreu em 1 de fevereiro de 1983. 4.2 ESTRUTURA DO MUNICÍPIO O município de Sarandi possui uma área de 113.350 km2 divididos em zona rural e urbana com 85 bairros. Localizado no norte do Paraná, a cerca de 410 quilômetros de 9 Curitiba, capital do Estado, é a vigésima segunda cidade paranaense em população e a segunda maior da micro-região 9, composta de 30 municípios (PREFEITURA MUNICIPAL DE SARANDI, 2008). Atualmente o município registra uma população de 87.747 habitantes, sendo 69.468 habitantes na área urbana e 1.924 habitantes na área rural, 35.522 homens e 35.870 mulheres, ostentando o segundo maior índice de crescimento populacional do Estado, número esse em torno de 6,8% ao ano (IBGE - 2008). Sarandi apresenta um Índice de Desenvolvimento Urbano de 0,768. O produto interno bruto (PIB) do município é de R$ 300.340.452,00 e o PIB per capita é de R$ 3.716,99 (IBGE, 2003). Segundo o mapa da pobreza e desigualdades dos municípios brasileiros (IBGE, 2003), o município de Sarandi apresenta uma incidência de pobreza de 48,67 %, figurando como o 18º município mais pobre entre os 399 municípios do estado do Paraná. Entre os municípios da região metropolitana de Maringá, Sarandi ocupa a primeira posição em incidência de pobreza. Maringá, a cidade pólo da região e circunvizinha de Sarandi, apresenta um índice de 33,85 %. A economia do município está baseada, principalmente, na prestação de serviços e fornecimento da força de trabalho à cidade de Maringá - pólo industrial e comercial da região atribuindo à Sarandi o título de cidade dormitório. Sem dúvida, esse é um quadro econômico que, precisa ser (des) construído, pois ao mesmo tempo em que trabalham os assalariados também consomem em Maringá, o que significa uma redução nas possibilidades de arrecadação do município. Do ponto de vista social, as conseqüências de baixa arrecadação somada à falta da política de desenvolvimento econômico ao longo dos anos em Sarandi, têm refletido drasticamente nas políticas públicas, afetando as áreas como a de saúde, educação, habitação, trabalho, assistência social, segurança e outras. No entanto, Maringá tem sido reconhecidamente elemento importante enquanto cidade pólo no sentido de atração de investimentos para a Região, bem como na sustentação econômica através dos postos de trabalho ofertados à população dos municípios vizinhos (PREFEITURA MUNICIPAL DE SARANDI, 2008). 4.3 A ESTRUTURA POLICIAL EM SARANDI Sarandi conta com uma Delegacia Regional de Polícia Civil, encarregada das atribuições de polícia judiciária, na qual atuam um Delegado, três Escrivões, oito 10 Investigadores e quatro Carcereiros. Na Delegacia de Sarandi funciona também a Cadeia Pública com capacidade para cinqüenta internos, mas com uma população carcerária de cento e sessenta internos (POLÍCIA CIVIL, 2008). A Polícia Militar atua no município articulada na forma de Pelotão de Polícia Militar, contando com trinta e dois policiais militares no total, os quais desempenham as atividades de Rádio Patrulhamento (atendimento de emergências policiais), policiamento e fiscalização de trânsito urbano, Plantão de Acidentes de Trânsito, Atendimento na Central do telefone 190. Guarda das instalações do Fórum local, policiamento em eventos de grande concentração de público, atividades de cunho administrativo e ações preventivas de abordagens, busca e identificação de suspeitos visando localizar armas e drogas ilícitas, bem como foragidos e procurados pela justiça (POLÍCIA MILITAR, 2008). A mobilidade da Polícia Militar se dá basicamente por meio de automóveis, raramente com motocicleta ou a pé. A cidade apresenta obstáculos que dificultam a mobilidade das equipes de emergência: linha férrea com apenas três travessias, rodovia BR 376 com apenas duas travessias e número reduzido de vias asfaltadas. 5. O PLANO MUNICIPAL DE SEGURANÇA 5.1 MOTIVAÇÕES INICIAIS Segundo consta no Plano Municipal de Segurança de Sarandi (2008) o Conselho Comunitário de Segurança do município em conjunto com a Prefeitura Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil, Conselho Tutelar e Corpo de Bombeiros desenvolveram, desde janeiro de 2008, uma série de ações integradas as quais obtiveram impacto positivo na redução da criminalidade violenta no município (redução do número de homicídios no ano de 2008). O poder público investiu na eficácia das intervenções locais e nos efeitos da prevenção como estratégia de redução da violência e da criminalidade. A redução do número de homicídios já é um ponto significativo, visto que este crime é um dos principais fatores responsáveis pela estigmatização da cidade como um local violento. 5.2 O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO PLANO DE SEGURANÇA A elaboração do Plano de Segurança para o município de Sarandi partiu de um amplo trabalho de reflexão com a comunidade visando conhecer as reais demandas dessa 11 comunidade relativas à segurança, bem como, construir coletivamente estratégias de intervenção. Para isso, foram realizadas doze plenárias em diferentes regiões da cidade, reunindo um total de oitocentos e cinqüenta e duas pessoas. As reuniões para elaboração do plano municipal de segurança aconteceram no transcorrer do ano de 2008. Cada reunião era antecedida de planejamento específico para mobilizar as principais lideranças de cada localidade, visando não apenas aspectos quantitativos da participação comunitária, mas principalmente qualitativo, na busca de participantes que contribuíssem efetivamente com a elaboração coletiva do plano. No planejamento das plenárias participavam representantes da Gerência de Recursos Comunitários da Prefeitura Municipal, que contribuíram, sobretudo, na identificação de lideranças comunitárias e na mobilização da comunidade em geral. A mobilização foi feita por meio de distribuição de convites impressos, cartazes em locais de circulação popular, carro de som, ligações telefônicas, visitas de policiais convidando a comunidade em residências, escolas, postos de saúde, igrejas e estabelecimentos comerciais. As plenárias aconteceram nas instalações de associações de moradores e de escolas públicas e foram estruturadas em dois momentos distintos: no primeiro, após a acolhida, os participantes compunham pequenos grupos dispostos em círculo, visando facilitar a interação verbal, a qual acontecia livremente e sob a mediação de uma pessoa escolhida pelo próprio grupo, a qual também anotava as idéias relevantes e apresentava verbalmente quando solicitado. Os grupos recebiam o desafio de refletirem e debaterem sobre os principais fatores que geram insegurança naquela localidade, as causas que desencadearam o surgimento desses fatores e as propostas de medidas para controle, redução e solução desses problemas de segurança. Após a reflexão e debate nos grupos, os mediadores apresentavam a todos os participantes as idéias de cada grupo. No segundo momento, representantes da Polícia Civil (delegado), Polícia Militar (comandante do pelotão), Corpo de Bombeiros (comandante do grupamento) e Conselho Tutelar, faziam a exposição das competências de cada órgão e das estratégias e resultados alcançados no município. O primeiro momento da plenária possibilitava o exercício de organização comunitária e do compartilhamento de dificuldades e anseios individuais, identificando aqueles que são de natureza coletiva. O segundo, visava o acesso a informações sobre os diversos órgãos de segurança, possibilitando construções de representações adequadas sobre o funcionamento, o agir, as dificuldades e os limites de cada órgão. 12 As plenárias resultaram em rico material, que sintetiza as dificuldades coletivas de moradores e de pessoas que atuam profissionalmente ou não, em diversas áreas da cidade. Com isso verificaram-se anseios e dificuldades peculiares de cada localidade e também aqueles que são compartilhados por todos que moram ou freqüentam o município. O resultado das plenárias foi compilado e debatido por representantes dos órgãos de segurança e também por representes de cada localidade escolhidos entre os voluntários durante as plenárias. Conforme consta no Plano Municipal de Segurança (2008), através das plenárias foram identificadas demandas características de determinadas regiões da cidade, bem como demandas comuns a todas as comunidades do município. A partir do comparativo do resultado das plenárias obteve-se um diagnóstico dos anseios da comunidade sarandiense. As principais dificuldades que desencadeiam insegurança podem ser classificadas em dois grupos distintos: 1º) Incidência de fatores de risco ao crime e a violência • Tráfico e uso de drogas ilegais; • Abuso de álcool; • Porte de armas de fogo; • Jovens desocupados; • Condições das vias e iluminação pública deficientes; • Terrenos baldios e construções abandonadas; • Imagem do município relacionada a produção de crime e violência. 2º) Deficiência dos fatores de proteção contra o crime e violência • Déficit de programas e áreas para prática de esporte, lazer e cultura; • Enfraquecimento das associações de moradores e de movimentos comunitários; • Deficiência do policiamento ostensivo nos bairros; • Atendimento deficiente da Central de Operações da Polícia Militar; • Ineficiência das polícias nas ações de prevenção, atendimento emergencial e investigativo; • Falta de políticas públicas voltadas para melhoria das condições de vida dos moradores do município; 13 • Desconhecimento ou ausência de programas ou entidades voltadas para tratamento do uso de drogas; • Desconhecimento sobre a atuação do Conselho Tutelar e de cada uma das polícias; • Cadeia pública com superlotação e localizada na área central e junto a escolas e creches. O Plano Municipal de Segurança (2008) tem como objetivo a redução da criminalidade como um todo, mas tem como foco a defesa da vida e da convivência pacífica entre os moradores de Sarandi. O sucesso do plano depende da participação do poder municipal em suas diversas instâncias, em parceria com a sociedade e com os demais órgãos de segurança que atuam no município. A implementação e gestão do Plano estão centralizadas no Conselho Comunitário de Segurança e nas diversas Secretarias Municipais. Sua execução, no entanto, é compartilhada entre todos os organismos envolvidos. O Plano Municipal de Segurança estabelece compromisso, desafios e objetivos para pautarem a atuação das Políticas de Segurança Pública no Município de Sarandi para o ano de 2009: 5.5.1 O compromisso Melhorar a qualidade da Segurança Pública no Município de Sarandi, de forma a desenvolver a qualidade de vida da população. 5.5.2 Os desafios 1. Formar uma rede de proteção social e segurança pública envolvendo as polícias, o poder público municipal através de suas secretarias, as organizações não governamentais, os grupos representativos da comunidade, visando uma atuação sistêmica e integrada na identificação e enfrentamento das demandadas. 2. Melhorar a qualidade dos serviços prestados pela Polícias Civil e Polícia Militar, através de dotação de equipamentos adequados as demandas, bem como no número e na capacitação do efetivo. 3. Desenvolver positivamente a imagem do município, desvinculando a imagem de Sarandi a notícias de crime e violência. 14 4. Produzir impacto positivo na comunidade através de ações preventivas e pautadas na filosofia de polícia comunitária. 5. Desenvolver políticas públicas voltadas para as populações mais socialmente vulneráveis, de forma a produzir qualidade de vida. 5.5.3 Objetivos 1. Dar continuidade e aprimoramento das Ações Integradas entre os diversos organismos do município, mais notadamente a AIFU – Ação Integrada de Fiscalização Urbana. 2. Dar continuidade e aprimoramento das Equipes de Integradas de Diligências, entre a Polícia Civil e Polícia Militar. 3. Realizar eventos visando fortalecimento das associações comunitárias e de moradores de bairros. 4. Dar continuidade e aprimoramento das reuniões para diagnósticos e enfrentamentos coletivos das demandas de segurança pública. 5. Mobilizar esforços para a transformação do pelotão da PM em companhia, dotando a de pessoal e meio adequados às demandas populacionais e de atendimentos policiais. 6. Mobilizar esforços para implantação da Delegacia da Mulher e de um novo Distrito Policial, dotando a Polícia Civil de pessoal e meios adequados. 7. Reestruturar o Conselho Comunitário de Segurança Pública, de forma que seja composto por representantes dos vários segmentos da sociedade civil, das polícias e dos órgãos públicos, inclusive das diversas secretarias municipais. 8. Implantar no município o PROERD – Programa de Resistência as Drogas e a Violência, desenvolvido por policiais militares nas escolas. O Plano Municipal de Segurança prevê monitoramento e avaliações periódicas realizadas através de reuniões mensais promovidas pelo Conselho Comunitário de Segurança e envolvendo os órgãos policiais, líderes comunitários, representantes das comunidades, a Prefeitura Municipal e o Poder Legislativo do Município. 6. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO Analisando o processo de elaboração do Plano Municipal de Segurança de Sarandi em 2008, percebe-se a tendência dos organismos policiais no sentido de assimilarem a filosofia de Polícia Comunitária, o que se dá não apenas por imposições institucionais, mas por 15 necessidades e iniciativas locais dos próprios gestores das instituições policiais atuantes no município. A impossibilidade das polícias de atuarem sozinhas em relação às demandas que deságuam na área da segurança pública, parece ter favorecido a aproximação da polícia com a comunidade. Além da defasagem estrutural dos organismos policiais, a forte influência de fatores ambientais, sociais, culturais e econômicos no comportamento humano que desencadeia o crime e a violência, aparece como fator fundamental para que a polícia busque apoio na comunidade. Verifica-se que apesar da filosofia de Polícia Comunitária fazer parte das Diretrizes prescritas para a atividade policial, mais notadamente da Policial Militar, a forma de atuação prática depende das peculiaridades, iniciativas e de redes de apoio locais. As pessoas que moram, circulam, trabalham, enfim, que vivem em determinada localidade, são afetados diretamente pelo cenário onde atuam. O Plano Municipal de Segurança, enquanto possibilidade de reflexão sobre o cotidiano e de participação efetiva na sua construção, reúne os componentes necessários para favorecer o desenvolvimento dos envolvidos no sentido de serem protagonistas de suas próprias histórias, afetando positivamente a qualidade de vida não só dos envolvidos, mas de toda a comunidade ao entorno. A polícia passa a assimilar uma nova forma de atendimento, direcionando esforços para ações de prevenção da criminalidade, obtendo eficácia pela organização do ambiente onde atua. O processo de diagnóstico comunitário possibilita ao policial perceber quais são as reais demandas que afligem a comunidade, sendo que a grande maioria delas só alcançarão solução através de ações que envolvam a participação direta da própria comunidade. A construção do Plano Municipal de Segurança envolveu a participação direta dos gestores da Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Conselho Tutelar e do Conselho Comunitário de Segurança, os quais além de ouvirem a comunidade, repassaram informações sobre as atribuições, formas de atuação e dificuldades das respectivas organizações. Essas ações tendem a possibilitar esclarecimentos e a corrigir na comunidade representações sociais distorcidas sobre a Polícia e a Segurança Pública. À medida que as pessoas são esclarecidas, tendem a emitir respostas mais adequadas, bem como compreender e colaborar com a polícia. O sentimento generalizado de insegurança tende a desaparecer a medida que a alienação dá espaço a reflexão e a conscientização. Outra importante contribuição do processo de elaboração do Plano Municipal de Segurança é a possibilidade de formação de redes de ações comunitárias que tendem a gerar o 16 comprometimento e participação da comunidade na Defesa Social e Segurança Pública do município. A imagem do município, tão vinculada a situações de crime e violência pode ser explorada de forma positiva, principalmente pela mídia, mostrando a experiência de organização comunitária e gerando notícias que valorizem a cultura, a organização, as condutas produtivas e as pessoas de bem, melhorando a auto-estima dos moradores de Sarandi. A Campanha da Fraternidade de 2009, promovida pela Igreja Católica, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, propõe o tema: Fraternidade e Segurança Pública. O objetivo da campanha é suscitar o debate sobre Segurança Pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, de forma que todos se empenhem na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos. (CNBB, 2009). Muitos dos objetivos específicos da Campanha da Fraternidade coincidem com os objetivos que nortearam o Plano Municipal de Segurança de Sarandi. A experiência do Plano Municipal em 2008, aplicada ao contexto atual da Campanha da Fraternidade em 2009, poderá ser utilizada como forma de ampliar a mobilização das pessoas e desenvolver a capacidade de reconhecer a violência na sua realidade pessoal e social para se sensibilizarem e assumirem responsabilidade para desenvolverem ações que visem a superação das causas e dos fatores de insegurança. Para a Polícia Militar, participar da elaboração de um Plano Municipal de Segurança ouvindo, falando e refletindo diretamente com a comunidade é uma oportunidade impar de criar um canal privilegiado de diálogo, formando uma parceria promissora entre poder público e sociedade civil organizada, a qual não se resume a atuar somente em relação aos efeitos e sintomas da criminalidade e da violência, mas efetivamente contribuir para o desenvolvimento da qualidade de vida e de uma cultura da paz. 17 REFERÊNCIAS BONDARUK, Major Roberson Luiz; SOUZA, Major César Alberto. Polícia comunitária – Polícia cidadã para um povo cidadão. 1. ed. Curitiba: AVM, 2003. CNBB (Conferência nacional dos Bispos do Brasil). Campanha da fraternidade 2009: texto-base. Brasília, Edições CNBB. 2009. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – www.ibge.gov.br. KOWARZIK, Wolfdietrich Schmied. Pedagogia dialética. Brasiliense, 1983. PLANO MUNICIPAL DE SEGURANÇA DE SARANDI, 2008. POLÍCIA CIVIL DO PARANÁ. Delegacia de Sarandi. Entrevista com o Delegado Maurício de Lima Filho. Sarandi, Dez. 2008. POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. Diretriz nº. 002/2004 – PM/3. Policiamento comunitário na PMPR. Curitiba, 30 abr. 2004. POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. 3ª Companhia do 4° BPM. Entrevista com o Capitão Marcio Antonio dos Santos. Sarandi, Dez. 2008. POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. Plano Especial nº. 002/2006 – PM/3. Aplicação do policiamento ostensivo volante no comando do policiamento do interior. Curitiba, 22 mai. 2006. PREFEITURA MUNICIPAL DE SARANDI. Revista de Divulgação do Município, 2008. RODRIGUES, Ana Lúcia. Radiografia da região metropolitana. Jornal da UEM, p. 3, Set. , 2005. SENASP (Secretaria Nacional de Segurança Pública). Curso nacional de promotor de polícia comunitária. Brasília-DF, 2008. SHEREMETA, Marcos Teodoro. A polícia comunitária na PMPR. PMPR, Fev., 2005. SIRVENT, Maria Teresa. Educação Comunitária. São Paulo: Brasiliense, 1984.