Por uma Cultura de Paz
Ângela Soares de Souza1
Gisele Bischoff Scherer2
Resumo
O presente artigo traz a experiência vivida na Escola Municipal de Ensino
Fundamental Grande Oriente do RS, desde 2004, em que se incentivou o protagonismo
juvenil com turmas de C30 como elemento desencadeador de uma cultura de paz através
do desenvolvimento de programas de rádio, produção de jornais e de documentários.
Palavras-chaves: paz, protagonismo juvenil, rádio web, jornal e documentários
Como plantar a semente da paz? O que é paz? Temos o conceito de paz a partir
do conceito da violência. Mas a paz é muito mais do que isso. Trazer a idéia de paz como
algo contrário à da violência é minimizar o seu significado. Optar por difundir uma cultura
de paz é acreditar que teremos que viver diferente. É aceitarmos as nossas limitações, as
nossas dificuldades, é admitir que temos muitos preconceitos. Principalmente, é entender
que nos acostumamos a encarar o mundo como queremos que ele seja, não como ele é.
Daí a nossa grande dificuldade de nos adaptarmos às mudanças que estão ocorrendo em
nossa sociedade.
A UNESCO define cultura de paz como o conjunto de valores, atitudes, tradições,
comportamentos e modos de vida fundados sobre uma série de aspectos, como, por
exemplo, o respeito à vida, ao princípio da soberania, aos direitos humanos, à promoção
de igualdade entre homens e mulheres e à liberdade de expressão; o compromisso de
resolver pacificamente os conflitos; os esforços desenvolvidos para responder às
necessidades planetárias; a promoção do desenvolvimento dos e entre os povos.
O conceito é bastante amplo e sabemos que existe a necessidade de “criar
referenciais não-violentos e fortalecer conexões”, de acordo com o material produzido por
Marcelo Rezende Guimarães, Coordenador da ONG Educadores pela Paz. Criar, então,
1 Ângela Soares de Souza é professora de História , com pós-graduação em História do RS. Atualmente atua na
biblioteca da EMEF Grande Oriente do RS.
2 Gisele Bischoff Scherer é professora de português/inglês e respectivas literatura, com pós-graduação em Língua
Portuguesa. Leciona português na EMEF Grande Oriente, na EMEM Emílio Méyer e no Colégio Concórdia de Porto
Alegre.
outros paradigmas e estabelecer ou estreitar laços entre um e outro passa a ser o nosso
desafio e uma necessidade. A nossa vivência em escolas da periferia de Porto Alegre
grita que isso é urgente, é uma questão de sobrevivência – nossa, professores – para que
tenhamos melhores condições no exercício da nossa prática pedagógica, mas também
de nossos alunos, que em meio as muitas dificuldades que enfrentam no seu dia-a- dia
possam ainda assim aprender os conteúdos de forma saudável e satisfatória.
Trabalhamos na Escola Municipal de Ensino Fundamental Grande Oriente do RS,
localizada na Cohab Rubem Berta II, em um bairro que apresenta três peculiaridades: foi
onde se deu a primeira grande ocupação, na década de 80, no RS; é considerado o maior
bairro do estado e apresenta altos índices de violência.
Em 2004, as turmas do 3º ano do III Ciclo (correspondentes à 8ª Série do
Fundamental) estavam atravessando vários desafios: estavam com três professores
afastados com licenças médicas prolongadas ( dois por problemas emocionais por terem
sofrido ameaças de alunos) e muitos alunos com históricos familiares conturbados e baixa
estima geral ( os alunos descreviam-se como “as piores turmas da escola”). Sabíamos
que estávamos vivendo um momento crucial. Ou desenvolvíamos algum projeto de ensino
diferenciado, que nos aproximasse da comunidade como um todo, ou perderíamos os
vínculos com os nossos alunos.
Primeiro, decidimos continuar com o jornal da escola. No ano anterior, ele havia
sido feito pelos alunos formandos para levantarem fundos para a sua formatura. Dessa
vez, decidimos que nos inseriríamos ao projeto de editoração da Rede Municipal de
Ensino. Dessa forma, a escola compraria o papel, o Dmae faria a impressão do jornal e
ele seria distribuído gratuitamente à comunidade escolar. Porém, a produção de artigos,
digitação e diagramação do jornal estavam previstas para o segundo semestre. Sabíamos
que alguma coisa tinha que ser feita ainda para o primeiro semestre em vista do momento
difícil que vivíamos.
Decidimos que iríamos trabalhar com programas de rádio em sala de aula –
programas feitos por alunos durante as aulas de português. Consultamos as turmas de
C30. Os alunos demonstraram interesse e satisfação. O problema que teríamos que
enfrentar é que não tínhamos como gravar os programas – eles teriam que ser ao vivo
para podermos transmiti-los durante os recreios.
Começamos a fazer os programas com duração de 10 minutos. Eles deveriam ser
sobre aquilo de bom que ocorria no bairro e na escola, sobre os talentos individuais ou
grupais que estavam construindo ações positivas. Começamos a falar muito em talentos e
defendíamos a tese de que todos eles tinham algum talento...
ARTE
Talentos
Talentos nascem,
Talentos são assistidos,
Talentos morrem,
Mas não são esquecidos.
Talentos se imortalizam,
Talentos saem,
Talentos brilham,
Talentos caem.
Mas o valor de um talento,
E trazer tristeza e felicidade,
Da Luxuria ou da Periferia,
Marcarão a eternidade.
Jackson Rodrigo
C 33
texto de aluno produzido para o jornal Correio do Oriente
No rastro dessas discussões, surgiu a idéia de fazermos oficinas ministradas pelos
alunos e destinadas ao Terceiro Ciclo da escola. As oficinas eram às quintas-feiras,
durante as reuniões pedagógicas dos professores. Tínhamos oficinas de grafite, de canto
(MC), de break e funk (dança). As oficinas foram um sucesso!
Em julho, um grupo de oito alunos participou do Fórum Mundial da Educação. A
seleção desses alunos foi feita por sorteio. Esse grupo ajudou a fazer a cobertura juvenil
do Fórum e se empenhou muito, mesmo durante o recesso de julho. Em agosto, fizemos
uma mesa juvenil na escola para que o grupo relatasse para as cinco turmas a
experiência vivida na Cobertura Juvenil. Aquele relato empolgou a todos. Estávamos
começando a fazer os artigos do jornal Correio do Oriente e a apresentar os programas
de rádio durante o recreio.
O entusiasmo e a dedicação eram gerais. Os problemas disciplinares haviam
diminuído bastante e os nossos alunos começaram a se apresentar fora da escola.
Tiveram duas apresentações: uma na EMEF Campos do Cristal e outra no Colégio
Concórdia de Porto Alegre. Nossos alunos dançavam, cantavam e faziam grafite. Criou-se
um sentimento de união e afeto entre as professoras e alunos. Eles descobriram que
tinham valor e sentiam orgulho disso.
Descobrindo uma qualidade em nós
Tudo começou com um convite da professora Gisele para irmos nos apresentar na
Escola Campos do Cristal. Tínhamos só quatro dias para ensaiar, mas mesmo assim tentamos.
Ensaiamos muito, inventamos coreografias e chegamos a pensar que não iria dar certo, mas
provamos o contrário. E chegou o tão esperado dia, sexta-feira, todos estávamos ansiosos, com
aquele friozinho na barriga. A professora Ângela nos levou. Chegamos lá e fomos muito bem
recebidos. A apresentação foi um sucesso, melhor impossível. Chegando de volta à escola, a
professora Gisele nos convidou para participar e organizar uma oficina de funk que vai acontecer
duas vezes por mês, às quintas-feiras, só para as C30 no início, depois para as C20 também.
Adoramos a idéia e acabamos descobrindo uma qualidade dentro de nós!
Jociani ( C34)
Texto produzido para o jornal Correio do Oriente
Em novembro, um grupo de alunos fez parte de um projeto de música da Smed e
acabaram gravando um CD. Em dezembro, o nosso jornal estava pronto para ser
distribuído. Todo o jornal havia sido feito por alunos. Tínhamos feito apenas a correção.
Tivemos a formatura e o ano acabou em paz. Porém os vínculos com aqueles alunos não
se perderam.
Através de contatos mantidos com a Smed, o Grande Oriente foi uma das escolas
da rede contemplada com a rádio web. O ano de 2005 chegou com esse novo desafio
para nós, professoras analfabetas nesse universo digital. Tínhamos que aprender a mexer
no programa, gravar, editar, salvar. Aprender a fazer páginas e a colocá-las na rede.
Tínhamos que criar a rádio poste ( um canal direto do computador para transmitir os
programas de rádio gravados para o pátio, durante o recreio). Para isso, a escola
precisava de um som novo. A direção investiu na idéia e, no segundo semestre, tínhamos
um novo som na escola e um computador exclusivo para a rádio web. As turmas de C30
haviam assumido que eram jornalistas e radialistas. O jornal estava indo para seu terceiro
ano e os programas de rádio, agora gravados, para o segundo ano. Os alunos oficineiros
do ano anterior continuaram fazendo suas oficinas, agora no Projeto Escola Aberta, aos
sábados. No final desse ano, fomos contempladas com 10 horas (5 horas para cada
professora), através de votação realizada nos três turnos da escola pelo segmento dos
professores, somente para desenvolver o projeto Por uma Cultura de Paz.
Chegou o ano de 2006. Decidimos manter o jornal e a rádio, mas começamos a
fazer também documentários. Através de um projeto chamado Oficina de Vídeo
Documental “Olhares da Cidade”, os nossos alunos fizeram um documentário sobre os
talentos do bairro nos diferentes estilos musicais.
Participaram do documentário um grupo de cantores de pagode, um de rock e
outro de rap; um grupo de dança funk e um dançarino de break Em todos os grupos,
tínhamos ex-alunos. Temos previsão de fazer um novo documentário no segundo
semestre, cujo tema será a cultura afro-brasileira no bairro. Estamos estreitando a
parceria com a Associação dos Moradores do Rubem Berta (AMORB) e lançaremos a
rádio web deles no segundo semestre. Eles ofereceram bolsas integrais de informática a
cinco alunos da escola a partir de julho.
Não vamos afirmar que não temos mais problemas na escola. Isso não é verdade. Nem
temos a pretensão de resolvermos tudo em tão pouco tempo. Sabemos que plantar uma
cultura da paz leva tempo, é um processo. Tudo o que conseguimos até aqui foi plantar
algumas sementes. Para nós, professoras Ângela e Gisele, esse projeto passou a ser
sinônimo de inclusão. Promover a inclusão dos nossos alunos como protagonistas de
uma Cultura de Paz é a nossa meta. Não queremos rotular os nossos alunos como
inteligentes ou não, disciplinados ou indisciplinados. Queremos saber quantos deles
topam desafios e querem desafiar-se. Quantos deles querem abandonar a postura
passiva e acomodada do aluno que não percebe o fascínio de aprender e queiram jogarse nessa aventura conosco
Construindo um caminho para a Paz
Pode ser na dança, no desenho, na música,
Pode ser qualquer estilo
Rock, pagode, rap.
Depois descobriremos juntos um lugar
Na quadra de futebol, na sala de aula, no pátio
Mostraremos para o pai, para o amigo
Para o professor, para o funcionário
O importante é criar as condições para criar
Inventar, inovar, reformar, alterar
E depois exibir
Onde der!
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Por uma Cultura de Paz - Prefeitura Municipal de Porto Alegre