UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
AVM FACULDADE INTEGRADA
Inclusão na Escola Tradicional:
Como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional?
Por: Renata Pinto Gomes Ferreira
Orientador: Profª Maria Esther de Araújo
Co-orientadora: Profª Giselle Böger Brand
Rio de Janeiro
2015
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE
Inclusão na Escola Tradicional:
Como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional?
Apresentação de monografia ao Instituto A Vez do
Mestre – Universidade Candido Mendes como
requisito
parcial
para
obtenção
do
grau
de
especialista em Educação Especial e Inclusiva.
Por: Renata Pinto Gomes Ferreira
2
RESUMO
A temática sobre a Educação Inclusiva vem sendo frequentemente
discutida nas áreas educacionais, sendo rodeada de muitas dúvidas,
questionamentos e posicionamentos distintos.
Decretos e leis como a Declaração de Salamanca, Declaração de
Direitos Humanos e LDB, entre outros, reforçaram o conceito de igualdade,
reformulando conceitos e nomenclaturas, a fim de acabar com os pré-conceitos
estabelecidos
acerca
dos
limites
e
capacidades
das
pessoas
com
necessidades especiais, assegurando uma educação de qualidade para todos.
Para assegurar que todos os seus alunos recebam uma educação de
qualidades, as
escolas devem fazer uma série de adaptações físicas,
curriculares, metodológicas e orientar seus professores e profissionais para que
saibam lidar com a diversidade que irão encontrar.
Dentro de uma metodologia tradicional, estas adaptações podem
parecer, muitas vezes, utópicas. Por isso, este trabalho visa orientar e
direcionar as escolas que trabalham sob
a perspectiva tradicional à se
reformularem e se adaptarem, de acordo com a nova legislação, sem que
percam suas identidades.
A partir de observações, relatos e entrevistas com profissionais de um
colégio tradicional particular, pretende-se chegar à uma maneira de se incluir
uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional.
Formação continuada, pré-disposição para novas mudanças, avaliações
contínuas e relacionamento aberto entre familiares, escola e alunos, são os
primeiros passos para o alcance de uma educação de qualidade para todos.
É um processo à longo prazo e ainda há muito o que fazer. É preciso
uma transformação geral, não só nas escolas, mas sim na sociedade como um
todo.
3
METODOLOGIA
Há muitas dúvidas e questionamentos a cerca da implementação da
Educação Inclusiva, principalmente, quando ela deve ser inserida em uma
perspectiva tradicional. Ao estudar e ler sobre o tema, pode-se chegar à
conclusão, “aparente”, de que Educação Inclusiva e Metodologia Tradicional
não combinam. Porém, pesquisando diversas opiniões a fim de ampliar esta
discussão, através de uma análise mais profunda de livros e documentos, de
autores como Durkheim, Rubem Alves, José Geraldo Silveira Bueno, Annete
Scotti Rabelo, Valeska F. Oliveira, Fátima Alves, Rosita Edler Carvalho e
Mazotta, entre outros, encontram-se outros posicionamentos.
Este trabalho está baseado em uma pesquisa qualitativa, onde a partir
de relatos e entrevistas semi-estruturadas com profissionais do Ensino
Fundamental I de um colégio particular que adota uma metodologia tradicional,
juntamente com pesquisa e análise bibliográfica e documental de livros e textos
diversos pretende-se, através deste estudo, encontrar um equilíbrio entre a
teoria e prática, a fim de que as escolas exerçam a lei, mas sem perder suas
identidades e essências.
4
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO........................................................................06
CAPÍTULO I - Educação Inclusiva..........................................09
1.1- Conceitos e Nomenclaturas
09
1.2 - Adaptações Necessárias
12
1.2.1 - Estrutura física
13
1.2.2 – Currículo e Metodologia
14
1.2.3 – Avaliação
15
1.2.4 – Profissionais
16
CAPÍTULO II - Escola Tradicional................................ ...........18
2.1 – Metodologia
18
2.2 – Sistema de Ensino / Vestibular
19
2.3 – As aulas
21
2.3.1 – Currículo
22
2.3.2 - O aluno
23
2.3.3 – Tecnologias
24
2.3.4 – Avaliação
25
2.3.5 – Adaptações Realizadas
27
CAPÍTULO III – Visão Inclusiva X Visão da Escola...... ...........30
3.1 - Quebrando barreiras
30
3.2 - Família
33
3.3 - Lado administrativo
35
3.4 – Equilíbrio
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CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................42
ANEXOS....................................................................... ...........48
BIBLIOGRAFIA.........................................................................52
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INTRODUÇÃO
Proposta Inclusiva. Atualmente, este tema vem sendo bastante abordado
e discutido entre educadores e pais de crianças com necessidades
educacionais. Por ser um tema, consideravelmente, novo, dúvidas e
questionamentos rodeiam os envolvidos – escolas, profissionais, familiares etc.
Já é lei. Todos devem ter acesso à Rede Regular de Ensino e possuem
o direito de conviver e frequentar as turmas regulares. Mas como?
São exigidas uma série de adaptações e preparações para que o aluno
com necessidade especial consiga, de forma qualitativa, ser inserido nas
classes regulares, e consequentemente, na sociedade.
Porém, se adaptar adequadamente às necessidades especiais de cada
aluno não é uma tarefa fácil para as escolas, principalmente, para aquelas que
possuem uma metodologia baseada em conceitos e conteúdos, como as
escolas tradicionais.
Isso quer dizer que as escolas devem rever toda a sua metodologia e
projeto político pedagógico? Sim, contudo, há algumas ressalvas.
Partindo do pressuposto de que a intenção da inclusão não é
uniformizar, e sim fazer com que se respeite a heterogeneidade existente entre
cada um de nós, é preciso levar em consideração, portanto, o projeto político
pedagógico e a filosofia das escolas também, e não apenas impor certas
normas e condições, e esperar que cumpram, sem um embasamento ou
método, como se todas as escolas regulares fossem iguais.
Sabe-se que é dever de todas as escolas garantir um ensino de
qualidade para todos os seus alunos. Isto significa oferecer os recursos e
materiais que forem necessário para que cada um de seus alunos possuam um
pleno desenvolvimento.
O acompanhamento escolar é função de todos que cercam a criança,
especialmente da sua família. É ela quem, supostamente, a conhece mais,
passa a maior parte do tempo com ela e é a sua referência de segurança.
Portanto, acredita saber o que é melhor para os seus filhos; e deveria saber
mesmo.
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Apesar da metodologia construtivista estar em ênfase e ter mais
afinidades com a proposta inclusiva de educação, muitos pais ainda acreditam
na metodologia tradicional, afirmando que esta é mais adequada para o seu
filho ou para o tipo de educação que desejam dar-lhe.
Já que o ideal é que haja diversos tipos de escolas com metodologias
diferentes para atender toda essa diversidade, a intenção das leis e decretos a
cerca da Inclusão Educacional e Social não é exterminar uma metodologia de
ensino específica e nem uniformizá-la.
Então, como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional?
A fim de responder esta questão, propõe-se uma reflexão para melhor
direcionar e orientar as escolas tradicionais com relação à esta nova visão
educacional, objetivando informar sobre as adaptações necessárias, quebrar
barreiras físicas e atitudinais dos profissionais que atuam sob uma perspectiva
tradicional, encontrar uma solução para a “dicotomia”: Visão Inclusiva X Visão
da Escola, e encontrar um equilíbrio para que possam realizar as devidas
adaptações sem que percam sua essência.
A partir de observações e entrevistas com profissionais do Ensino
Fundamental I (1º ao 5º ano) de um colégio particular que adota uma
metodologia Tradicional, pretende-se reunir materiais, métodos e maneiras de
se alcançar a Educação Inclusiva dentro da metodologia Tradicional.
No primeiro capítulo deste trabalho, aborda-se a temática da Educação
Inclusiva, destacando algumas nomenclaturas e conceitos, e aprofundando-se
nas adaptações necessárias para que a escola consiga prover uma educação
de qualidade para cada um de seus alunos, esclarecendo que tipo de
adaptações estruturais, metodológicas, avaliativas e pedagógicas devem ser
feitas.
O
segundo
capítulo
expõe
a
Educação
Tradicional,
relatando
experiências e fatos observados a cerca desta metodologia de ensino e suas
implicações, além de situa-la dentro do nosso sistema nacional de educação,
abordando temas como o Vestibular e o perfil das crianças de hoje.
Já no terceiro capítulo, as duas visões, Inclusiva e Tradicional, são
colocadas frente-a-frente, considerando temas como o preconceito, as
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barreiras e o lado administrativo, a fim de se encontrar um equilíbrio entre a
teoria e a prática, sem que as escolas percam suas identidades.
Afinal, por mais tradicional que a escola seja, ela deve acompanhar as
transformações sociais, e nada é mais atual do que a Inclusão.
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CAPÍTULO I
Educação Inclusiva
O primeiro passo para a inclusão é o respeito e o desejo de desenvolver
o indivíduo em todos os aspectos dentro do processo de aprendizagem.
1.1- Conceitos e Nomenclaturas
A partir do momento que assumimos que todos somos diferentes e que
cada um de nós possui especificidades, passamos a entender e compreender
melhor o outro, assegurando um ambiente saudável, onde todos aprendem a
respeitar as diferenças, eliminando barreiras e preconceitos.
“Incluir quer dizer que podemos deixar pertencer, adaptandoos em todos os aspectos, mostrando-os o que fazer, para que
e com quem utilizar o seu corpo, fazendo-o aprender por meio
de atividades não só específicas, mas transformadas e
adaptadas.” (FATIMA ALVES, 2004, p. 20)
O objetivo da inclusão educacional é justamente a inclusão social destes
indivíduos que possuem alguma necessidade específica. A Educação Inclusiva
promove, consequentemente, uma postura social inclusiva, acolhedora, nãodiscriminatória, onde todos respeitam as individualidades de cada um. Ela é
uma forma de construção de solidariedade entre uma criança com
necessidades especiais e seus colegas. Afinal, tendo acesso à educação e
frequentando escolas regulares, todos passarão a conviver juntos e se tornarão
cidadãos capacitados para o mercado de trabalho e para viver em sociedade.
Muitos desconhecem, mas integração não é o mesmo que inclusão.
Ambos os discursos reafirmam a inserção das pessoas com necessidades
especiais em grupos de convivência e socialização com pessoas ditas normais.
Porém, na integração, o sujeito é quem tem que se preparar para estar com os
outros, sendo avaliado e podendo ser ou não aceito no grupo, enquanto que na
inclusão, o sujeito é visto como potencialidade e há um esforço social para
ajudá-lo a desenvolver seu potencial. Em suma, na integração, o sujeito deve
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se adaptar ao meio, já na inclusão, o meio e os outros devem se adaptar ao
sujeito.
É difícil modificarmos a estrutura educacional sem modificar a sociedade
e as formas de pensar do cidadão. E, infelizmente, historicamente falando,
nossa sociedade sempre foi muito excludente, quando se trata da minoria, do
diferente, etc.
É necessário, portanto, criar serviços e propostas educativas abertas e
flexíveis que atendam às necessidades dessa transformação.
Uma grande mudança, ao meu ver, foi a substituição de termos como
“portador de deficiência” e “excepcional”, por “necessidades especiais”. Assim,
se passa a evidenciar o que podemos proporcionar para satisfaze-los, evitando
estigmas e quebrando preconceitos.
Espera-se que, aos poucos, esta transformação, ganhe força e
consistência para assim alcançarmos a verdadeira inclusão social. Contudo,
vale lembrar, que este é um processo a longo prazo, afinal, temos que
reformular e reestruturar toda uma sociedade, que durante anos foi, e ainda é,
excludente.
Com a Declaração de Salamanca, em 1994, o conceito de necessidades
especiais passa a abordar não somente aqueles alunos que possuem alguma
deficiência física ou mental, mas também aqueles que apresentam alguma
dificuldade no aprendizado, seja essa dificuldade temporária ou permanente.
Surge, então a expressão necessidades educacionais especiais (NEE),
que sugere a ampliação da população que requer atendimento educacional
especializado para além das deficiências, ou seja, passa a compreender
também as altas habilidades, os transtornos de desenvolvimento, como
esquizofrenia, autismo, dislexia e hiperatividade, entre outros.
Explicita-se que as NEE, “referem-se a todas as crianças e jovens cujas
necessidades decorrem de sua capacidade ou de suas dificuldades de
aprendizagem.” (Declaração de Salamanca, 1994, p. 18 apud CARVALHO,
2010, p. 45)
Na declaração é enfatizada a ideia de uma Escola Inclusiva, onde todas
as crianças devem aprender juntas; e a escola, como um todo, deve se adaptar
aos seus alunos, revendo seus currículos, cronogramas, estrutura física,
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métodos avaliativos, para que a criança se desenvolva da melhor maneira
possível e adquira uma educação de qualidade.
Desta forma, sugere uma união entre as instituições de Ensino Especial
e as de Ensino Regular, incluindo um sistema dentro do outro, e não à parte. É
a inclusão da própria Educação Especial dentro desta estrutura de “educação
para todos”. Seria um sistema único, capaz de prover uma educação de
qualidade para todos os seus alunos, seja qual for o comprometimento que ele
apresente ou esteja apresentando.
As Instituições de Ensino Especial específicas se transformariam em
centros
de
referência,
auxiliando
as
escolas
regulares
com
apoio
técnico/especializado e subsídios para melhor lhe dar com as especificidades
de cada aluno especial.
No Brasil, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB
9394/96) chegou para garantir e assegurar a Educação Básica à todos os
cidadãos brasileiros, reforçando a importância de cada segmento de Ensino:
- A Educação Infantil e o Ensino Fundamental, com a finalidade de
assegurar o desenvolvimento integral da criança, a sua socialização e a
preservação de sua individualidade;
- O Ensino Médio, a caminho da universalização da escola, como um
mecanismo social, com capacidade de unificar as experiências e construir
novos saberes necessários ao processo de formação de adolescentes,
jovens e jovens adultos.
A LDB (1996) tem por princípios básicos:
- O desenvolvimento da capacidade de aprender, para assim obter o domínio
da leitura, da escrita e do cálculo;
- A compreensão do ambiente em que vive, do sistema político, da tecnologia,
das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;
- O desenvolvimento e a aquisição de conhecimentos, habilidades e a
formação de atitudes e valores;
- O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana
e de tolerância recíproca, afim de prepara-los para a sociedade.
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Junto à Constituição Brasileira de 1988, consequentemente, dentro de
uma sociedade inclusiva, este direito também deve ser concedido àqueles que
possuem alguma necessidade especial, portanto, os Estados devem promover
um ensino qualitativo e quantitativo que atenda às necessidades de
escolarização de acordo com a diversidade da população brasileira.
Em 2001, a pedido da Unesco, os Ministros da Educação da América e
do Caribe se reuniram para desenvolver estratégias que melhorassem a
qualidade e a eficiência da educação, já que os sistemas educacionais não
haviam atingido os objetivos pré-estabelecidos.
Foi colocada, então, a necessidade da criação de um novo tipo de
escola, “mais flexível e altamente sensível aos desafios, e que tenha efetiva
autonomia pedagógica e administrativa” (UNESCO, 2001, apud MACHADO,
2005, p. 46), impondo a necessidade de os sistemas educacionais abrirem
oportunidades de aprendizado para cada criança, jovem e adulto.
Uma escola inclusiva, então, deve reconhecer e responder às
necessidades diversas de seus alunos, oferecendo os devidos suportes extras
para assegurar uma educação efetiva. O encaminhamento de crianças a
escolas especiais deve ser somente em caso de exceção, onde fique claro que
a educação regular é incapaz de atender às necessidades do aluno.
Cabe à escola, portanto, assegurar um processo educativo coerente às
necessidades educacionais de todos os seus alunos, tenham eles alguma
necessidade especial ou não.
1.2 - Adaptações Necessárias
Trocoli (2007) acredita que, a fim de incluir todos os seus alunos, o
professor deve proporcionar um ambiente escolar estimulante, planejamentos e
currículos flexíveis, diálogo aberto com os alunos e suas famílias, espírito de
cooperação e interação entre os alunos, utilização de diferentes recursos
materiais e avaliações contínuas, dentre outras características.
A escola, quanto organização, também deve possuir a mesma postura,
para que o trabalho do professor funcione, e vice-versa. Ela deve construir seu
projeto pedagógico coletivamente e oferecer recursos e suportes necessários
aos seus professores para melhor atender seus alunos. A metodologia deve
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envolver aulas dinâmicas que respeitem o ritmo diferenciado dos alunos.
Portanto, as escolas, como um todo, necessitam de uma série de
cuidados também, pois para atender às necessidades, além de preparar seus
educadores, é preciso eliminar barreiras arquitetônicas, ampliar o material
didático existente, adquirir materiais específicos para alunos que possuam
alguma necessidade, adaptar equipamentos escolares, adequar o currículo,
propiciar apoio psicopedagógico ao aluno e orientação a seus familiares.
1.2.1 - Estrutura Física
É necessária uma adaptação física no espaço e recursos oferecidos pela
escola, que envolvem desde rampas de acesso para cadeirantes e pessoas
com dificuldade de locomoção, até materiais pedagógicos específicos para
certas necessidades especiais.
São muitos os detalhes a serem pensados e considerados. Tudo pode
influenciar no processo ensino-aprendizagem do aluno. É importante oferecer
Iluminação adequada nas salas de aula, carteiras adaptadas, rampas de
acesso, portas e corredores mais amplos para facilitar a locomoção de todos,
banheiros adaptados, materiais e recursos de apoio, Tecnologias Assistivas,
etc.
As Tecnologias Assistivas
são
reconhecidas
por auxiliarem
no
desempenho funcional de atividades, facilitando as realizações de ações e
tarefas. A utilização desses recursos e aparelhos que contribuem para
proporcionar ou aumentar certas habilidades funcionais, promove uma vida
mais independente para as pessoas com deficiência, e, consequentemente, a
inclusão social das mesmas.
A acessibilidade à estas tecnologias é de extrema importância, pois elas
auxiliam na quebra das limitações das deficiências, possibilitando uma melhor
inclusão do indivíduo em ambientes ricos para a sua aprendizagem e seu
desenvolvimento, e acabando com possíveis preconceitos, tanto com relação
ao outro como a si mesmo.
Afinal, a partir do momento que lhe são dadas condições para interagir e
aprender
mais
facilmente,
o
indivíduo
com
deficiência,
terá
uma
desenvolvimento mais rápido e maior, aumentando assim, sua autoestima.
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As escolas inclusivas, portanto, deveriam ter acesso à estes tipos de
tecnologias, pois, através destes recursos facilitadores, o aluno terá mais
facilidade durante todo seu processo de ensino/aprendizagem. De acordo com
Trocoli (2007b), o uso de computador com pessoas que possuem alguma
deficiência, por exemplo, promove um ambiente de aprendizagem onde não há
riscos de bloqueios cognitivos e não provoca constrangimentos afetivos.
1.2.2 – Currículo e Metodologia
A organização da sala de aula deve ser dinâmica e flexível. Ela deve ser
bem estruturada, iluminada, com recursos visuais estimulantes, contudo, com
muito cuidado para não exagerar no excesso de informações, favorecendo a
distração e a desatenção dos alunos.
O professor deve estruturar também as aulas e as atividades escolares,
estabelecendo uma rotina diária e definindo claramente as regras e
expectativas para os alunos. Deve valorizar o processo, reforçando
positivamente os comportamentos adequados e as conquistas diárias de cada
aluno.
Para que ocorra uma devida inclusão educacional, é necessário uma
constante adequação curricular, onde o foco seja o aluno, ou seja, extrair de
seus alunos suas capacidades e habilidades, respeitando, sempre, o limite de
cada um.
Essa adaptação curricular envolve a utilização de novas estratégias,
novas técnicas de ensino, novas formas de avaliação e o incentivo à
participação da família no dia-a-dia da escola.
Devemos considerar as individualidades de nossos alunos, reformulando
planejamentos, currículos, objetivos, recursos materiais e métodos avaliativos,
atendendo, assim, as necessidades específicas de cada aluno, a fim de
alcançar uma educação de qualidade para todos.
O primeiro passo do professor é conhecer cada um de seus alunos: De
onde ele vem? Como sua família é estruturada? Qual o seu contexto social?
Quais suas habilidades e limites? Só assim o professor possibilitará uma
educação de qualidade para todos os seus alunos.
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Ao conhecer a realidade de cada um de seus alunos, o professor se
deparará com uma enorme diversidade.
Se o professor não estiver preparado para lidar com este fator,
provavelmente, se assustará ou irá ignora-lo. Ele deve estar preparado para
lidar com esta diversidade encontrada na sala de aula, e os conhecimentos
teóricos irão trazer apoios importantes, permitindo motivar suas ações.
O professor deve fazer da diversidade um mecanismo a favor do
processo
ensino-aprendizagem,
onde
todos,
professor
e
alunos,
se
beneficiarão. Afinal, conhecendo seus alunos, ficará mais fácil para o professor
selecionar os recursos mais favoráveis que irá utilizar a fim de facilitar e
incentivar o interesse e aprendizagem dos mesmos; e estes, por sua vez, se
sentirão mais motivados e irão usufruir dos recursos apropriados para facilitar
sua aprendizagem.
1.2.3 – Avaliação
Outra adaptação necessária é no sistema de avaliação que, em geral, é
muito em cima de conteúdos e teorias. O aluno recebe uma quantidade enorme
de informações e é avaliado a partir da quantidade de informações que
consegue “armazenar”.
Esta forma de avaliação é feita de maneira uniforme, não-flexível, com
um caráter classificatório, ao invés de individualizada, respeitando o tempo e o
limite de cada aluno.
Em uma educação inclusiva, a maior preocupação não deve ser a nota
que o aluno tirou, e sim o processo. Para isso, a avaliação inclusiva deve ser
diversificada, dando diferentes oportunidades e possibilidades, como por
exemplo, uma avaliação oral. Essa diversificação só complementa e enriquece
a relação aluno-professor, pois reforça o diálogo, a troca, a confiança e a
compreensão um do outro.
É preciso que haja uma constante reavaliação nas formas de avaliação,
levando em consideração as especificidades de cada aluno, porém, tomando
muito cuidado para que não haja uma prática paternalista e dissimuladora.
Trocoli (2007a) ainda propõe a realização, logo no início, de uma
avaliação diagnóstica, visando identificar as possíveis dificuldades do aluno
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frente às novas aprendizagens. Esta avaliação proporciona informações acerca
das capacidades do aluno antes de iniciar um processo de ensinoaprendizagem, averiguando se o aluno possui os pré-requisitos necessários
para continuar seu processo de desenvolvimento. Assim, com este diagnóstico,
os profissionais podem se preparar e preparar o aluno para as possíveis
dificuldades que este venha apresentar.
A avaliação pode ser muito mais útil do que tem sido na prática. Afinal,
ela pode fornecer informações aos profissionais para decidir sobre as
intervenções e redirecionamentos que forem julgados necessários em prol da
aprendizagem do aluno, podendo ser feita através da observação e do
questionamento, por exemplo.
1.2.4 – Profissionais
É extremamente necessária uma atenção à formação e treinamento dos
professores para atenderem à nova demanda.
O professor deve compreender que, independente de suas diferenças,
eles precisam aprender determinados conteúdos e construir uma série de
competências para viverem em sociedade, como cidadãos, e é seu dever
fornecer essa educação.
A sala de aula deve ser um local de troca, entre professor e aluno e
entre os alunos. Um lugar onde ocorra debates, reflexões e compreensão da
sociedade múltipla e complexa em que vivemos, desenvolvendo o lado crítico e
cidadão dos alunos.
Para isso, o professor e os outros profissionais da escola devem
enxergar cada aluno, identificar e entender suas habilidades e limitações para
assim melhor atende-lo em suas necessidades, sejam elas quais forem.
Depois de identificadas, a escola deve se adaptar, revendo seus
planejamentos, currículos, métodos avaliativos e orientando seu corpo docente.
No entanto, vale destacar que essas adaptações devem ser feitas
somente quando necessário. É preciso ter muito cuidado para não rotular e tirar
conclusões precipitadas sobre a capacidade e limite dos alunos.
Para que o aluno com necessidades especiais ou não se sinta motivado
e empenhado, ele deve se sentir seguro, confiante, e, principalmente, aceito.
16
Assim sendo, devem ser realizados trabalhos paralelos, como aceitação e
respeito às diferenças de cada um, desenvolvimento da autonomia, dentro de
seus limites, e valorização das conquistas. Desta forma, trabalhará a
autoestima do aluno, motivando-o a desenvolver e a querer aprender cada vez
mais.
O desafio está em trabalhar o processo ensino-aprendizagem sem dar
enfoque na reabilitação e nos aspectos clínicos da deficiência, por isso a
necessidade de pesquisa, especialização, formação inicial e continuada dos
profissionais de educação.
A formação continuada é imprescindível para a qualidade do trabalho do
professor e dos profissionais de educação, em geral.
Tem que haver esta vontade e motivação para a pesquisa e o estudo.
Antigamente, a principal função do professor era passar o conhecimento aos
alunos. Porém, mais tarde, autores como Jean Piaget e Lev Vygotsky, entre
outros, colocaram que o professor, na verdade, deve ser um mediador na
construção do conhecimento, exigindo constante reflexão, auto-avaliação e
estudo do seu trabalho.
O professor tem que estar antenado as mudanças e transformações
sociais, buscando novas especializações e conhecimentos, para assim, melhor
atender as necessidades existentes, e as que venham surgir, em sala de aula.
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CAPÍTULO II
Ensino Tradicional
Neste capítulo, pretende-se abordar a temática da metodologia
tradicional, a partir da análise, observação e entrevista com profissionais de
um colégio particular que adota a metodologia tradicional.
2.1 - Metodologia
O colégio analisado começou, na década de 60,
como um curso
preparatório para os concursos de admissão aos colégios Militar, de Aplicação
e Pedro II, e em seguida, tornou-se escola. Fundada por militares, utiliza-se de
métodos, técnicas e estratégias modernas, sem, contudo, abandonar o
tradicional, enfatizando os aspectos intelectuais, mas também a formação do
cidadão participativo, crítico, autônomo e ético.
Atualmente, é um colégio misto, particular, tradicional e tem como
objetivo a formação do cidadão consciente, responsável, crítico, participativo,
fraterno e solidário. Seu objetivo geral é proporcionar ao educando, em um
clima de amizade, bem-estar, diálogo e liberdade responsável, a formação
necessária
ao
desenvolvimento
para
o
exercício
da
cidadania
e
prosseguimento dos estudos, como consta em seu Projeto Político Pedagógico
(PPP).
Apesar de Tradicional, a proposta pedagógica do colégio adota
metodologia participativa, interrogativa e dinâmica, segundo a diretora
pedagógica. Porém, durante minhas observações, me deparei algumas aulas
extremamente conteudistas, onde a professora discursava e fazia anotações no
quadro, enquanto os alunos ouviam e copiavam.
Ao ser questionada sobre este fato, a diretora confirmou que o colégio
realmente segue uma metodologia tradicional-conteudista e que os alunos
realizam muita cópia de conteúdos, como forma de fixação, porém, conforme o
conteúdo vai sendo trabalhado, incentiva-se debates e a participação de todos.
Complementou, ainda, dizendo que o colégio é conhecido, justamente, pelo
seu tradicionalismo no bairro, e que a maioria das pessoas procuram o colégio
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sabendo desta filosofia adotada, ou por serem ex-alunos, ou por possuírem
parentes ou amigos que estudaram lá.
Na elaboração do PPP fizeram parte a Direção, a Orientação
Educacional, Coordenação de Turno, Coordenação Pedagógica e Corpo
Docente, sendo ele fruto de um trabalho democrático e participativo, realizado
em várias etapas, e seguindo as exigências decorrentes da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96). Nota-se que não houve a
participação dos alunos e das famílias em sua elaboração, como sugerido por
diversos autores que acreditam que o PPP deve ser construído por todos que
fazem parte da instituição escolar, como Gadotti, por exemplo, que coloca que
a escola deve ouvir os alunos, já que eles passam muito tempo dentro dela. “O
aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. [...] ele
precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola”
(GADOTTI, M. & ROMÃO, 1997, p. 75).
A participação do aluno nas decisões auxilia sua aprendizagem, pois ele
passa a se sentir valorizado e parte da instituição, tornando-se sujeito da
aprendizagem.
Para se construir devidamente o PPP, deve-se conhecer, diagnosticar e
avaliar a realidade da escola e de seu entorno. Portanto, cada escola deveria
ter autonomia para criar o seu próprio PPP, executa-lo e avalia-lo,
levando em consideração tais fatores, seus objetivos e metas. Contudo, por
ser um processo inconcluso, é preciso ressaltar que ele deve estar sendo
constantemente revisto e reavaliado, sem abstrair sua história e sua filosofia.
Afinal, “Mais do que um conjunto de objetivos, metas e procedimentos, [...] se
caracteriza por uma certa atmosfera de renovação educacional que a envolve.”
(GADOTTI, M. & ROMÃO, 1997, p. 19).
2.2 – Sistema de Ensino / Vestibular
Muitos condenam a metodologia tradicional, afirmando ser ultrapassada
e pautada nos conteúdos.
Acredita-se que o objetivo das leis de inclusão, ao assegurarem o
ingresso de todos à um ensino de qualidade, não seja uniformizar as escolas,
afinal, todo o tempo se afirma a existência das diferenças, da heterogeneidade
19
e como a diversidade é um fator enriquecedor. A educação Inclusiva propõe
que todos os alunos sejam atendidos respeitando suas individualidades.
Portanto, se existem diferentes tipos de aluno, há que existir diferentes tipos de
escola.
A principal característica do ser humano é a sua pluralidade. Cada um
de nós conhece e interpreta o mundo com olhares individualizados e muito
particulares. Como bem lembra Mazzotta (2001), “Todo aluno é especial e toda
escola é especial em sua singularidade.”
A visão construtivista tem muitas semelhanças com a proposta da
educação inclusiva. Ambas preveem um planejamento flexível, centrado nas
potencialidades e limitações de cada aluno, garantindo uma aprendizagem
global de qualidade. Por isso, podemos afirmar que é mais fácil uma escola
construtivista se tornar uma escola inclusiva, do que uma escola tradicional,
onde o planejamento é mais rígido e as avaliações são conteudistas, se tornar
inclusiva.
Contudo, como eliminar a preocupação com o conteúdo, se a forma de
ingresso às universidades é através de provas uniformizadas, onde se cobram
conteúdos extremamente específicos, que é o Vestibular?
Afinal, o nosso Vestibular mede, basicamente, o nível de informações e
conteúdos que o aluno adquiriu ao longo dos seus últimos três anos de
escolaridade no Ensino Médio, não levando em consideração o processo de
aprendizagem do mesmo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, além de realizar uma prova que
mede seus conhecimentos (Scholastic Aptitude Test ou SAT), as universidades
levam em consideração o histórico escolar do aluno, que contém seu
rendimento, atividades realizadas, participação e envolvimento com a escola,
etc. Além disso, são analisadas cartas de recomendação de profissionais do
colégio que o aluno frequentou, uma redação na qual o aluno se apresenta e
conta sobre sua trajetória pessoal e, muitas vezes, ainda é realizada uma
entrevista.
Como Dos Santos (2002) coloca, vivemos em uma cultura onde a
referência de boa qualidade é a quantidade de matérias e conteúdos dados e
exigidos nas avaliações e, a causa disto é por ainda possuirmos um sistema
20
cada vez mais seletivo conforme o avanço dos níveis escolares, culminando na
nossa forma de ingresso às universidades, o Vestibular.
A cobrança e expectativas dos pais para que seus filhos ingressem em
uma boa universidade está cada vez mais presente e prematura. É visível a
preocupação dos pais com relação ao ingresso de seus filho à uma boa
universidade. Todos querem um futuro brilhante para seus filhos, e acreditam
que estudando em uma universidade bem conceituada as chances aumentam.
Esta preocupação está aparecendo cada vez mais cedo. Pais já
escolhem as escolas que seus filhos estudarão de acordo com o índice de
aprovação no Vestibular, como mostra a fala de uma das coordenadoras
entrevistadas, relatando que já viu um responsável que procurava vaga para
matricular seu filho na Educação Infantil perguntar sobre a classificação do
colégio no ENEM e nos Vestibulares.
Primeiramente, os pais devem dialogar sobre a escolha filosófica e
metodológica que acreditam ser a ideal para o seu filho, que irá melhor atender
suas necessidades. A família deve pensar mais no presente momento, e, aos
poucos, ir analisando o processo de aprendizagem de seu filho, e
encaminhando e direcionando-o de acordo com suas ideologias.
2.3 – As Aulas
As aulas que seguem uma metodologia tradicional são conhecidas e
marcadas, popularmente, pelo uso do quadro negro e giz e um professor que
detém o conhecimento e o transmite aos alunos, porém, nem sempre são
assim.
O colégio analisado, por exemplo, apesar de seguir esta metodologia e
ser conteudista, vem se renovando e acompanhando as tendências e
transformações sociais.
A equipe pedagógica e administrativa tem tentado se modernizar, sem
abrir mão do que consideram ser importante para a formação de seus alunos.
A partir de observações e entrevistas realizadas no colégio específico,
faremos uma breve análise a cerca das aulas ministradas.
21
2.3.1 – Currículo
Segundo a Coordenadora Pedagógica entrevistada, os currículos de
cada ano/série do Colégio analisado, são planejados e programados de acordo
com os objetivos e competências a serem atingidos por cada faixa etária,
tomando
como
base,
os
conteúdos
estabelecidos
pelos
Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs). Contudo, alguns desses conteúdos são
aprofundados, com o objetivo de atender aos interesses e expectativas do tipo
de clientela que procura o colégio.
Quando questionada sobre a relevância e importância dos conteúdos
dados, a Coordenadora ressaltou que acreditam que o Ensino Fundamental é a
base do conhecimento e que os conteúdos desenvolvidos nesse segmento
darão ao aluno as competências necessárias para, no futuro, ele fazer suas
escolhas, ou seja, escolher que caminho deve seguir, de acordo com os
talentos e habilidades que desenvolveu.
Baseado na metodologia tradicional, após 50 anos de história, o Colégio
continua seguindo a linha tradicional e conteudista, cobrando resultados
satisfatórios. Porém, ao longo desses anos, essa metodologia foi se
modificando e evoluindo, acompanhando as mudanças e a evolução do mundo,
da sociedade onde vivemos e a forma de se encarar a Educação. Hoje, sem
abdicar de seus objetivos pedagógicos, o Colégio aborda os conteúdos a
serem trabalhados, levando o aluno a pensar, a desenvolver relações de causa
e efeito, evitando a memorização pura e simples, a tirar conclusões, a
desenvolver o pensamento crítico e o raciocínio lógico, complementou a
Coordenadora.
Para ela, o maior desafio da Inclusão em seu colégio, é inserir e incluir
devidamente todos os alunos, num contexto de escola tradicional, que exige
muito de seus alunos, cobrando resultados, sem que o aluno se ressinta e
acabe por desistir dele mesmo. “O desafio está em tentar criar estratégias que
o levem a atingir o sucesso, respeitando o seu tempo e as suas limitações e, ao
mesmo tempo, integrá-lo ao grupo ao qual ele pertence”.
A partir de sua fala, pode-se constatar a preocupação com relação às
adaptações curriculares mencionadas no capítulo anterior. Dentro de uma
metodologia tradicional, essa adaptação é ainda mais desafiadora, pois a
22
escola deve atender à todos, sem exceção. Como ela mesma colocou, a
maioria dos responsáveis procuram o colégio justamente por seguir uma
metodologia tradicional, são pais que exigem conteúdos, notas, resultados, etc.
E, muitas vezes, esse aprofundamento e quantidade de conteúdos, pode
prejudicar o aluno que apresente alguma necessidade educacional especial.
2.3.2 - O aluno
Muitos professores se queixam da falta de disciplina e de interesse dos
alunos. Mas será que a escola e seus profissionais não são responsáveis, em
parte, por estes problemas?
Obviamente, não podemos ignorar a realidade atual na qual se
encontram os alunos. Conforme o decorrer dos anos, nos deparamos com um
novo perfil de aluno: um aluno rodeado de tecnologia e informação. O acesso
às informações, através das tecnologias e mídias existentes atualmente, como
a internet, é cada vez maior e mais fácil.
A rapidez e facilidade de comunicação, pesquisa, informação, pode
gerar, ao mesmo tempo, um certo desinteresse ou uma falta de concentração,
afinal, são tantas novidades e possibilidades, que fica difícil de escolher e se
ater em uma só.
São tantos canais pra escolher, tantas fontes de pesquisa, tantas formas
diferentes de se comunicar, que é preciso direcioná-los e ensiná-los a filtrar o
que é bom ou melhor para determinada situação.
Outro fator extremamente influente no desenvolvimento da criança é o
ambiente familiar. É com a família que ela irá absorver seus primeiros
aprendizados, enxergando-a como modelo. Assim sendo, um ambiente
desestruturado, poderá prejudicar seu desenvolvimento.
A criança de hoje, possui pais trabalhadores, que passam a maior parte
de seu dia fora de casa trabalhando para prover necessidades básicas e
conforto para seus filhos e família. Muitos, mal encontram seus filhos
acordados durante a semana, outros são divorciados e tentam se dividir e
resolver suas diferenças. Estes fatores acabam por fazer com que eles queiram
compensar essa ausência e/ou falta de tempo com certos ¨mimos¨, e acabam
23
não estabelecendo limites e regras em sua educação, deixando por conta da
escola.
Não podemos ignorar tais fatores. Cada um deles influencia direta ou
indiretamente o desenvolvimento das crianças de hoje, e como educadores,
devemos olhar ao redor de cada criança, de cada situação, de cada
necessidade, a fim de melhorar o processo ensino-aprendizagem.
Contudo, tendo consciência deste novo perfil de aluno, os professores e
a escola deveriam se atualizar e aprimorar.
Esses estudantes conectados têm uma relação diferente com o tempo e
com o mundo, colocando desafios para a docência. Portanto, não há mais
espaço para as aulas onde o professor se coloca a frente do quadro e discursa
sobre o conteúdo. O professor deve procurar formas inovadoras de se lançar o
conteúdo, recorrer à recursos e materiais que chamem a atenção do aluno,
gerando interesse e motivando-o à querer aprender mais, à questionar e
dialogar sobre o assunto.
No meio de tanta informação, o professor deve estabelecer claramente
seus objetivos e regras, e a organização da sala de aula deve ser dinâmica e
flexível. Só assim, o professor conseguirá prender a atenção de seus alunos e
aumentar o interesse dos mesmos. Aulas desinteressantes geram indisciplina.
Somente conhecendo os alunos é que será possível saber o que lhes interessa
e, assim, diminuir a indisciplina.
2.3.3 – Tecnologias
O colégio possui uma variedade de materiais e recursos didáticos de
apoio, como mapas, computadores, televisão, aparelho de DVD, data show,
jogos pedagógicos, flanelógrafo, imantógrafo, fantoches, etc.
No entanto, muitas vezes não são tão utilizados. Inclusive, esta foi uma
das queixas que a coordenação fez. “São disponibilizados materiais para os
professores tornarem as aulas mais criativas, ilustrativas e dinâmicas, mas
muitos acabam se atendo no já conhecido, no que estão acostumados a fazer.”
Para o ano que vem, do colégio está providenciando uma sala
multimídia, onde haverá um quadro interativo, na qual os professores poderão
agendar, previamente, a utilização da sala. Ao saberem da novidade, muitos
24
professores, ficaram preocupados e assustados, demostrando um certo medo e
desconhecimento sobre o uso do material, não demonstrando tanta satisfação.
A própria administração do colégio, conhecendo seus professores,
confessou que será um desafio e que há a preocupação em saber se sala será
devidamente utilizada, afinal é um investimento alto.
Para isso, assim que estiver tudo instalado e pronto, chamarão um
profissional capacitado para ensinar os professores como utilizar o quadro,
sugerindo ideias e materiais, afinal a equipe pedagógica acredita que, apesar
de desafiador e de custo elevado, será bastante proveitoso para os alunos.
2.3.4 – Avaliação
As avaliações neste colégio são realizadas, divididas em 4 bimestres,
onde em cada bimestre os alunos do 1º ao 5º ano (dentro das séries
observadas) realizam testes e provas, expressos em graus numéricos de 0,0
(zero) a 10,0 (dez), da seguinte maneira:
- 1 teste de cada disciplina: Língua Portuguesa, Matemática, História,
Geografia e Ciências Naturais; com exceção do 1º ano, que possui somente
Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais e Integração Social.
- 1 Produção de Texto (2º ao 5º ano)
- 1 Leitura Oral (1º ano)
- 1 prova de cada disciplina, com peso 2.
O conceito adquirido na Produção de Texto, para os alunos do 2º ao 5º
ano, e na Leitura Oral, para os do 1º ano, são somados ao do teste de Língua
Portuguesa e dividido por 2, para se chegar à média do teste da disciplina.
A média bimestral de cada disciplina é, então, calculada da seguinte
forma:
Teste + (Prova x 2)
3
Não há um tempo mínimo nem máximo para a realização dos testes e
provas. Quando há casos de apenas um ou dois alunos permanecerem
fazendo o teste ou prova, estes são encaminhados para a Coordenação, onde
terminam com a supervisão da mesma.
Os alunos que não obtiverem média 5.0 possuem uma segunda chance,
a “Recuperação Paralela”. São oferecidas aulas de reforço após o horário da
25
escolaridade e, em seguida, fazem uma nova avaliação, na qual a nota
alcançada, caso seja maior do que a primeira, é convertida, a partir de uma
tabela pré-estabelecida pela Direção do colégio, e modificada no boletim.
Assim como sua metodologia, as avaliações são conteudistas,
englobando conceitos, nomes e datas importantes. Os testes costumam cobrar
os conteúdos aprendidos no bimestre e as provas, os conteúdos mais
significativos dados no ano.
Analisando alguns dos testes e provas, pude perceber que a quantidade
de conteúdos que exigem uma memorização da parte do aluno é realmente
grande, contudo, há também questões que fazem o aluno pensar, interpretar e
desenvolver sua escrita.
As atividades extraclasses, como inglês, espanhol, informática, música e
educação física não possuem uma avaliação concreta. Os rendimentos e
aproveitamentos dos alunos são observados pelos respectivos professores e
relatados à Coordenação, caso ocorra algo que fuja do usual.
Já na Educação Infantil (Maternal ao Pré-escolar II), as avaliações são
feitas através de um relatório individual, também bimestral, onde a partir de
observações das experiências cotidianas, são analisados os rendimentos dos
alunos de acordo com cada área do desenvolvimento, como características
pessoais, relacionamento com o grupo e professores, atenção e concentração,
coordenação motora e equilíbrio, linguagem oral e escrita, orientação temporal,
grafismo, coordenação viso-motora, interesse e curiosidade nas atividades
desenvolvidas, interesse em artes visuais e musica.
Com este relatório, os professores e educadores que lidam com o aluno
podem acompanhar seu desenvolvimento, interferindo caso seja necessário.
Além disso, tem como objetivo manter os pais informados sobre o desempenho
escolar de seu filho, para que possam acompanhar o processo de
desenvolvimento da criança e facilitar o diálogo entre os pais e os professores.
Pode-se perceber que a avaliação da Educação Infantil é mais
processual, porém conforme os alunos vão crescendo, o processo é,
praticamente, deixado de lado, valorizando os conteúdos adquiridos pelo aluno.
Quando perguntada sobre a quantidade de conteúdos dados, a
coordenadora pedagógica, afirma considerar tais conteúdos importantes para
26
os alunos, e que faz parte da filosofia da escola, que é conhecida pelo
aprofundamento de certos conteúdos. Ela acredita que a partir da fixação dos
mesmos, os alunos terão mais facilidades para aprender e compreender
conteúdos lançados nas séries mais avançadas.
A preocupação com o Vestibular é visível, já que o Colégio possui
turmas desde o Maternal da Educação Infantil até o 3º ano do Ensino Médio,
apesar desta pesquisa ter sido direcionada para as séries iniciais (Educação
Infantil e Ensino Fundamental I). Desta forma, promove uma certa preparação,
a longo prazo, se intensificando nas séries mais próximas ao exame.
Até mesmo porque a preocupação com o Vestibular vem aparecendo
cada vez mais cedo nos pais, como mostrou a fala de uma das Coordenadoras,
sobre casos de pais que vieram conhecer a escola para matricular seus filhos
na Educação Infantil e perguntaram qual era a porcentagem de alunos
aprovados nos vestibulares anteriores.
2.3.5 – Adaptações Realizadas
Questionados sobre a inclusão, os profissionais do colégio analisado,
demostraram ainda muitas dúvidas a cerca do tema e das adaptações
previstas.
O colégio já possui um profissional com habilitação em Educação
Inclusiva, que vem pesquisando e se atualizando para orientar e passar as
devidas informações aos outros profissionais do colégio.
Já existem alguns alunos com necessidades especiais cursando as
turmas regulares do colégio, porém nenhum caso extremo. Os graus de
necessidade eram leves e conseguiram se adaptar conforme as necessidades
iam surgindo, afirma a Coordenadora.
Pode-se citar como exemplo, uma aluna que apresenta dificuldades
motoras, tanto nos membros inferiores quanto superiores, contudo, se
locomove sem auxílio de equipamentos. Segundo a Direção, sempre houve
uma preocupação em relação à sua adaptação e envolvimento com os outros
alunos. Através de observações, verificou-se que a aluna se relacionava bem
com todos e demostrava gostar muito de estudar ali. Outra preocupação era
com a quantidade de cópia. Como dito antes, o colégio utiliza-se de uma
27
quantidade de cópia, relativamente grande, como forma de fixação do
conteúdo, e como a aluna apresenta dificuldades na coordenação motora fina,
muitas vezes, não conseguia acompanhar o andamento da turma. A solução
encontrada pelos professores que lidavam com ela, juntamente com os pais da
aluna, foi providenciar folhas digitalizadas com resumos e revisões para aluna,
assim como xerox de cadernos, quando necessário.
Além disso, a aluna também possuía um tempo maior para realizar as
avaliações. E quando ela apresentou um certo bloqueio com relação aos testes
e provas, foi realizada uma avaliação diferenciada para que ela obtivesse a
média em seu boletim. Segundo a Diretora, todas estas adaptações e decisões
foram tomadas junto à família e à psicóloga da aluna.
Há, também, caso de autismo leve nas séries iniciais. O aluno frequenta
a escola à 2 anos e todos que o conheceram em seu primeiro dia de aula,
ficam admirados com seu avanço, conta a Coordenadora da Educação Infantil.
Ela relatou que a mãe ainda não havia levado a criança à um especialista, e
que, juntamente com a professora e a orientadora educacional, a partir de
observações à respeito do seu comportamento, decidiram chamá-la e orientá-la
à procurar ajuda especializada. Passaram, assim, a trabalhar em equipe,
escola, família e profissionais especializados (neurologista e fonoaudióloga),
objetivando auxiliá-lo em seu desenvolvimento e socialização. Atualmente, o
aluno frequentará o Pré-escolar II, se relaciona muito bem com os outros
alunos e professores e alcançou um desenvolvimento cognitivo grande,
segundo sua professora.
Se tratando de um colégio conteudista, percebe-se que a preocupação
com relação ao acompanhamento dos alunos com NEE vai aumentando
conforme o avanço das séries. Muitos dos profissionais não acreditam que seja
possível uma inclusão efetiva dentro do colégio, dependendo das NEE que o
aluno apresentar.
Quando perguntados se sentem preparados para a inclusão, a maioria
afirma que não, que possuem muitas dúvidas a cerca da maneira de lidar com
as necessidades, com o preconceito e com as limitações. Poucos são os
profissionais que buscaram ou estão buscando informações e estudos sobre o
tema.
28
Todos os profissionais entrevistados afirmam que a inclusão educacional
é um grande desafio, mas que pode trazer muitos ganhos para a sociedade, de
maneira que ela favorece o respeito e igualdade entre os indivíduos.
A escola, além de transmitir conhecimentos, deve, também, preocuparse com a formação global dos alunos, preparando-os para uma sociedade
repleta de diversidades. A presença de crianças com necessidades especiais
nas turmas regulares beneficia a todos os alunos, pois cria um ambiente de
aprendizagem mais rico, formando-os para uma sociedade inclusiva.
CAPÍTULO III
29
Visão Inclusiva X Visão da Escola
A visão Inclusiva de Educação traz consigo uma série de referências,
imposições e condições que, muitas vezes, vão de encontro à visão da escola,
que se encontra “perdida”, sem saber por onde começar, ou até mesmo,
reformulando toda sua proposta, mas não necessariamente, incluindo,
devidamente, todos os seus alunos.
Neste capítulo, pretende-se melhor direcionar as escolas, em especial,
as que possuem uma metodologia tradicional, como é o caso do colégio
analisado nesta pesquisa, para que, aos poucos, se adaptem e alcancem uma
educação inclusiva de qualidade para seus alunos.
3.1 - Quebrando Barreiras
Além das barreiras físicas, já mencionadas no capítulo I, existem as
barreiras atitudinais que, geralmente, são mais difíceis de serem rompidas.
Além dos pré-conceitos estabelecidos, que disseminam a crença de que
estas crianças não são capazes de se desenvolver, não acreditando nas
potencialidades destes alunos, focando apenas em suas limitações, os
professores temem, também, por não se sentirem preparados para lidar com as
dificuldades de aprendizagem, e muitos se sentem desmotivados com a
desvalorização de sua profissão.
O perigo se encontra naqueles que são “obrigados” a aceitar esses
alunos em suas salas, transformando a presença deles em algo “impossível” de
resolver e acabam os “deixando de lado”, separados, excluídos da turma.
É necessário enxergar estes alunos além de suas limitações,
valorizando suas potencialidades. A predisposição dos professores frente à
diversidade existente na sala de aula está extremamente ligada à compreensão
das diferenças individuais. Só assim, o professor poderá aceitar, respeitar,
remover ou intensificar os obstáculos e promover uma educação inclusiva de
fato.
30
Cabe à escola promover este incentivo e orientar seus professores à
pesquisar, estudar e buscar conhecimento sobre o tema, dando-lhes os
devidos suportes necessários.
Qualquer mudança gera um certo estranhamento ou rejeição, num
primeiro momento. Mudar é difícil porque estamos acostumados a nos
acomodar, ao conhecido, e mudar nossas práticas usuais, requer reconhecer
limites e deficiências no nosso próprio trabalho. “Significa lançar olhares
questionadores e de estranhamento para práticas tão familiares que parecem
verdadeiras.” (BRUNO; GARRIDO, 2000, p. 10)
Ao questionarmos nossas práticas, nossos hábitos e valores, nos
deparamos com o nosso EU, nossa identidade, nossa maneira de pensar e
viver, gerando uma instabilidade, surgindo novos conflitos.
O educador deve estar em constante reflexão, se adequando e
readequando,
buscando
um
aperfeiçoamento.
Sempre
apoiado
pelos
coordenados, os quais devem propiciar “condições para o desenvolvimento
profissional, tornando-os autores de suas próprias práticas.” (BRUNO;
GARRIDO, 2000, p. 9)
Esta reflexão proporciona a auto-avaliação dos professores sobre suas
práticas, a troca de experiência entre eles e o aprofundamento de
conhecimentos relativos ao processo de ensino, segundo Bruno (2000).
Muitos são os professores que afirmam não terem condições para
buscar cursos ou workshops de aperfeiçoamento e formação continuada,
usando como desculpa falta de tempo, o cansaço, o desgaste, ou até mesmo o
valor de investimento. Infelizmente, não existem soluções prontas, os
profissionais de educação deveriam ter a consciência de que é preciso tentar
encontrar maneiras de adaptar-se às novas demandas.
Uma solução que tem se mostrado eficiente, segundo Bruno et al.
(2000), é a criação de grupos de formação contínua na própria escola, onde um
professor-coordenador assume a função de líder, mediando discussões e
debates sobre diferentes temas, constituindo-se um espaço coletivo de
crescimento pessoal e profissional. Desta forma, não há custos nem desgaste
de locomoção do professor, já que seu aperfeiçoamento se dará no próprio
cotidiano escolar.
31
Contudo, para que este projeto de formação contínua dentro da própria
escola dê certo, é muito importante que os professores sejam e se sintam
valorizados, respeitados e ouvidos. É dever do professor-coordenador estimular
e mediar o tempo, para que todos compartilhem suas experiências, aflições e
sugestões. Além disso, deve ter sua metodologia definida e seus objetivos bem
claros para que as discussões não mudem de percurso e se percam.
Portanto, para uma formação contínua eficiente dependemos das
condições oferecidas pela gestão escolar, mas também da atitude dos
professores diante do seu desenvolvimento profissional.
Como afirmado anteriormente, é muito difícil. Por isso, Bruno e Christov
(2000), colocam que, primeiramente, deve-se preparar o ambiente, afirmando
que é preciso gerar um clima de confiança para as discussões, a partir de um
envolvimento entre o grupo, de um diálogo aberto, e até mesmo de dinâmicas
de grupos que trabalham confiança e conhecimento do outro.
As reflexões podem ser feitas a partir de observações e análises sobre a
prática, registrando percepções, avanços, dúvidas e dificuldades. Esta reflexão
problematizadora proporcionará certa autonomia e compreensão sobre o fazer
pedagógico.
É importante ressaltar que buscar cursos e aperfeiçoamentos de
diversas formas é sempre produtivo. José Cerchi Fusari (apud BRUNO, 2000)
acredita que o ideal é que a formação contínua ocorra de forma articulada,
dentro e fora da escola. Afinal, a contribuição de outros centros de formação
pode ser muito útil para o dia-a-dia da das outras escolas.
Outra barreira levantada pelo professor, que, infelizmente, não podemos
negar a existência, como dito anteriormente, é o pré-conceito.
Muitos professores estão acostumados à estigmatizar seus alunos com
rótulos, que definem e acabam por segregar os alunos em capazes e
incapazes. Nas salas de aulas regulares com alunos com necessidades
educacionais especiais então, este fato é muito comum, afinal, estes
professores acreditam que estas estariam melhor assistidas nas Instituições
Especializadas.
32
Por isso também a importância do incentivo ao estudo contínuo, para
que
estes
professores
absorvam
novos
olhares
e
aprendizados,
desmistificando teorias que acreditavam serem verdadeiras.
Outro pré-conceito, muitas vezes estabelecido, é com relação às famílias
dos alunos. Alguns professores ainda possuem o pensamento de que a família
não deve ter participação no que diz respeito ao pedagógico da escola.
O professor não deve colocar uma barreira entre sua sala de aula e os
familiares de seus alunos. Ao contrario, devem trabalhar em conjunto.
Nos casos com necessidades especiais então, a participação e relação
com a família é extremamente importante. Temos que nos conscientizar que,
provavelmente, o processo de aceitação da deficiência dentro da família não foi
nada fácil, afinal não há como negarmos que há um choque e a perda da
idealização deste filho. Por isso, os cuidados começam desde o primeiro
momento em que a deficiência é diagnosticada.
Profissionais e família passam a trocar experiências e conhecimentos,
estabelecendo uma relação de confiança. A compatibilidade entre a equipe
profissional e a família é essencial para o pleno desenvolvimento da criança.
3.2 - Família
A aprendizagem e desenvolvimento começam antes mesmo da
escolaridade, é só observarmos as conquistas das crianças antes de entrar na
escola. Os estímulos familiares e ambientais são fundamentais para que a
criança tenha um bom rendimento em sua vida escolar. Portanto, a criança,
desde cedo, deve ser estimulada, com segurança, carinho e comunicação.
É importante estabelecer um laço afetivo, para que a criança se sinta
amada, segura e confiante, mas sem superprotegê-la, o que é muito comum
em casos de crianças com necessidades especiais. É preciso saber dosar este
acolhimento afetivo para que não prejudique o desenvolvimento da criança.
Ensiná-los a seguir e respeitar as regras é fundamental, afinal vivemos
em um mundo organizado por regras sociais, ou seja, estamos ensinando-os e
ajudando-os a se adaptar ao mundo e ter um comportamento socialmente
aceitável. Portanto, os pais devem estar atentos ao comportamento e reações
de seus filhos, desde a infância, porque à medida que eles crescem, os
33
comportamentos vão se cristalizando e tendem a se acentuar na adolescência.
O estabelecimento de limites e regras claras, objetivas e adequadas,
juntamente com essa estimulação precoce, auxiliará a sua adaptação no
ingresso ao ambiente escolar.
A presença ativa dos pais na educação inclusiva não se limita ao
ambiente escolar. Deve haver uma continuidade em casa, onde os pais,
orientados por profissionais habilitados, devem estimular seus filhos,
acompanhando, também, o seu desenvolvimento em todos os aspectos de sua
personalidade.
Nas escolas especiais, a criança terá a oportunidade de conviver com
outras crianças que também possuem necessidades especiais. Já em uma
escola inclusiva, ela estará inserida e conviverá com crianças diferentes.
Contudo, seja qual for a escolha, o envolvimento familiar será a base de sua
escolaridade e sociabilidade.
Uma coisa é certa: A criança com necessidades especiais deve ter
contato com as outras crianças. Portanto, se a escolha da família for colocá-la
em uma Instituição de Ensino Especializada, ela deve promover encontros com
crianças ditas normais, seja na pracinha, praia, ou em atividades extras, como
danças, artes, esportes, etc. Esta troca é muito importante para ambas as
crianças, afinal, aceitar e respeitar o diferente é o princípio básico para a
inclusão social.
Todas as crianças devem ser estimuladas o tempo todo, tendo elas
alguma necessidade educacional ou não. A reeducação deve estar presente
durante todo o desenvolvimento da criança, em especial, naquelas que
apresentem algum comprometimento. Devemos trabalhar suas habilidades
corporais, sociais, desenvolver sua autonomia e independência, facilitando,
assim, a aprendizagem. Consequentemente, a partir de às suas conquistas, as
crianças vão adquirindo sensação de prazer e alegria e se redescobrindo.
Todos - família e escola - devem fazer sua parte para contribuir para o
melhor desenvolvimento e educação da criança.
3.3 - Lado administrativo
34
Conversando com o diretor financeiro do colégio analisado, podemos
verificar, a partir de suas falas, sua preocupação à respeito dos gastos e custos
que a educação inclusiva pode trazer para dentro de sua escola. Olhando do
ponto de vista administrativo e financeiro, realmente é difícil calcular os gastos
que o colégio terá.
Primeiramente, se tratando de em colégio particular, se a escola deve se
adaptar completamente para receber possíveis alunos com necessidades
educacionais, isto gerará um investimento financeiro muito grande, que terá
que ser retirado das mensalidades dos alunos já matriculados. Para ele, é
inviável realizar todas as adaptações previstas, sem saber se haverá algum
aluno
com
necessidades
especiais
matriculado
e
quais
serão
suas
necessidades. “Não há como construir rampas de acesso, elevadores, comprar
carteiras adaptadas, materiais pedagógicos destinados à pessoas com
deficiência visual, contratar um intérprete de Libras, e chegar um aluno com
alguma outra necessidade, que não irá precisar de nada destas adaptações,
por exemplo. Acredito que a escola deve sim se adaptar às necessidades de
seus alunos, porém, à medida que estas necessidades forem aparecendo, até
porque, identificando quais são as necessidades especiais e adaptações
necessárias, a escola poderá prover melhores condições, materiais e
equipamentos para os determinados alunos.”
Ele sugere, ainda, que essas adaptações deveriam ser cargo do Estado
e não das escolas privadas, afirmando que como o Estado não consegue dar
conta desta estrutura, acaba passando a responsabilidade para as Instituições
Privadas, a fim de diminuir sua responsabilidade.
O Instituto Paulo Freire desenvolveu uma metodologia de cálculo do
custo-aluno-ano (CAA), que tornou-se uma importante ferramenta para
planejamento da educação. O estudo limitou-se às despesas efetuadas pelo
poder público para o provimento do ensino fundamental e levou em
consideração três grandes grupos de despesas: as educacionais, referentes
aos gastos com materiais que refletem diretamente sobre os atos pedagógicos;
as sociais, relativas aos programas de apoio ao estudante, como alimentação,
saúde e transporte escolar; e as de gestão, que dizem respeito à manutenção e
desenvolvimento dos órgãos gestores. Assim como também as despesas de
35
capital (depreciação, manutenção e custo de oportunidade) e as despesas
correntes, que dizem respeito à aquisição de serviços e bens duráveis.
Obviamente, estes cálculos devem estar sempre sendo revisto, e além
disso, esta metodologia foi realizada para os estabelecimentos de ensino
público, mas nada impede que as escolas particulares, sigam as instruções,
adaptando-as a cada realidade.
Para calcular o valor da mensalidade de cada aluno, o colégio analisado
utiliza uma planilha de custo desenvolvida pelo departamento administrativo,
onde são colocados todos os tipos de gastos mensais e o número de alunos
matriculados.
É verdade que as escolas precisam se planejar administrativamente e
financeiramente para que possam providenciar os recursos necessários para o
seu desempenho, porém, mesmo com a metodologia do CAA, a margem de
erro se torna ainda maior, se pensarmos na perspectiva inclusiva. O Diretor
afirma que “para dar conta de todas essas adaptações, precisaríamos
aumentar as mensalidades de todos os alunos, gerando descontentamento dos
pais. Não podemos correr este risco, já que além de sermos um colégio, somos
uma empresa, na qual uma das minhas funções é garantir que no final do mês,
conseguiremos pagar todas as contas e todos os profissionais.”
Segundo Gadotti & Romão (1997), a maior parte dos custos
educacionais se referem aos gastos com pessoal. Esta informação também foi
confirmada com o entrevistado, e, analisando por este lado, a contratação de
profissionais mediadores para acompanhar cada aluno com necessidades
especiais, também torna-se inviável. O diretor financeiro entrevistado coloca
que acredita que esta medida seria possível somente para os casos mais
extremos, onde realmente o aluno precisa de um mediador para se comunicar,
como é o caso dos alunos com déficit auditivo ou visual, por exemplo.
Uma sugestão dada por ele para este aumento de custos nas redes
particulares de ensino, seria o Estado, de certa forma, arcar com estas
despesas, através de isenção de impostos para estas instituições, fazendo com
que estas desviassem e investissem, assim, o valor que seria pago em
tributações para as devidas adaptações, por exemplo. “Infelizmente, se não
houver nenhum tipo de bonificação ou auxílio do Estado, não há como estar
36
100% preparado para receber este tipo de aluno, a não ser que os pais destes
se responsabilizassem por, pelo menos, parte dos gastos, o que também não
acredito ser o ideal.”
3.4 – Equilíbrio
Fica claro, então, que a constante reflexão sobre a prática é
fundamental. Segundo Mantoan (2002), só se alcança o sucesso quando o
educador e a escola assumem que a culpa de determinado aluno não
conseguir aprender, não é somente dele, mas também do modo como o ensino
é ministrado, de como ele recebe esta informação e de como é avaliado. A
adequação das práticas pedagógicas à diversidade dos aprendizes é uma
necessidade.
O professor sempre acaba usando como desculpas, a sua falta de
capacitação para incluir estes aluno, afinal, não sabe como preparar para a
diversidade humana.
Como é colocado por Abenhaim (apud MACHADO, 2005), deve-se
atender as necessidades à medida que elas surjam, a partir da necessidade de
cada sala, de cada escola. Capacitar os educadores, não significa possuir um
profissional especializado em uma necessidade específica, afinal nem todos os
alunos com autismo, por exemplo, apresentam as mesmas necessidades. “A
inclusão impõe um olhar para cada um como um ser em desenvolvimento, que
precisa de caminhos para desenvolver seu potencial.” (MACHADO, 2005, p.
52)
A pedagogia centrada no aluno permite identificar suas necessidades,
respeitando seus direitos de cidadania, de pertencer e de participar, que
Carvalho (2002) coloca.
Durkheim (1952) afirma, por exemplo, que a Educação não visa apenas
proporcionar o conhecimento, mas tem três funções complementares:
disciplina, pertencimento e autonomia; que estão extremamente relacionadas à
educação inclusiva.
- Disciplina: O aluno, dentro do processo de ensino-aprendizagem,
aprenderá à respeitar as regras e deveres estabelecidos, e principalmente,
respeitar as diferenças. Ao longo do processo, perceberá que cada um de
37
nós temos nossos limites, tempos e habilidades diferentes. Devemos
respeitar à todos; qualquer um está sujeito à uma necessidade especial,
seja permanente ou provisória.
- Pertencimento: O aluno deve se sentir seguro, respeitado, a vontade
dentro do grupo, em um ambiente de confiança. Em uma educação
inclusiva, isto é fundamental para que o aluno com necessidades especiais
não se sinta oprimido, desmotivado ou incapaz. As individualidades devem
ser identificadas e respeitadas entre todos. Reconhecer as diferenças sem
fazer com que elas se tornem algum obstáculo ou bloqueio.
- Autonomia: Se sentindo pertencente ao grupo, o aluno vai se desenvolver
mais, pois não terá nenhum tipo de bloqueio ou medo de errar, permitindose experimentar, perguntar, refletir, indagar, sobre qualquer assunto, e
assim desenvolver sua autonomia, dentro de seus limites. Para os
portadores de necessidades especiais, isso é extremamente importante,
pois passam a enxergar um mundo onde não dependem 100% de uma
outra pessoa, socializando-os e aumentando sua autoestima.
Sendo assim, é necessário um novo olhar sobre o que é trabalhado nas
escolas, o qual enxerga a escola como um espaço de crescimento e
desenvolvimento do indivíduo, não só oferecendo-lhe conhecimento, mas
também preparando-o para a vida adulta, para a sociedade, formando-o como
cidadão.
“Uma escola ressignificada dentro do paradigma inclusivo
necessita compreender, portanto, que não é a quantidade de
conteúdos que garante uma boa formação, mas sim todo um
conjunto de fatores: pedagógicos, culturais, sociais...” (DOS
SANTOS, 2002, p.3)
Sabemos que em uma perspectiva metodológica tradicional, há a
valorização dos conteúdos, principalmente por terem como preocupação o
Vestibular, como mostrou as entrevistas realizadas no colégio analisado.
Se pensarmos como Mantoan (2002), que afirma que em uma educação
inclusiva os alunos aprendem até o limite em que conseguem chegar, onde o
professor considera o desenvolvimento de cada um e explora suas habilidades
por meio de atividades distintas, à medida de seus interesses e necessidades,
realmente este tipo de educação se torna um grande desafio, praticamente
38
utópico, para as escolas regulares tradicionais. Contudo, assim como existem
os alunos que necessitam de certa liberdade de escolha e meios, existem
aqueles que necessitam de uma metodologia mais centrada, onde ele possa se
sentir seguro, para, aos poucos, desenvolver sua autonomia, como
demonstrado em algumas das falas de professores e coordenadores do colégio
observado e como é colocado na matéria Eberspacher para Gazeta do Povo
(2013).
As escolas tradicionais podem começar, portanto, partindo da realidade
de seus alunos, considerando suas experiências de vida cotidiana, para chegar
à sistematização do saber, colocando “as disciplinas acadêmicas como meios
e não fins em si mesmas.” (MANTOAN, 2002, p. 4) Desta forma, estariam
promovendo o respeito, facilitando a aceitação e as mudanças que vierem a ser
necessárias.
Ao conhecerem a realidade de seus alunos, os professores, além de se
depararem com a diversidade, irão conseguir entendê-los melhor, descobrir
seus interesses, tornando mais fácil de eleger o meio e o modo que melhor
atenderão seus alunos.
Dentro da perspectiva inclusiva, o professor, de maneira alguma, deve
encarar as necessidades surgidas como um problema insolúvel ou ignorá-las
como se não houvesse nada de diferente ali. Ele deve procurar conhecimento
sobre o aluno, através de conversas, pesquisas, estudos, e, principalmente,
trocas com outros profissionais que lidam com o aluno e com sua família.
A presença da família é necessária em todos os momentos. Portanto,
não seria diferente no momento do ingresso de seu filho à escola. A presença e
acompanhamento
dos
pais/família
na
educação
de
seus
filhos
são
fundamentais.
A família
assume
um
papel
importantíssimo
no
processo
de
aprendizagem e desenvolvimento de seu filho, afinal, é a primeira forma de
interação da criança com o mundo, e é com ela que ela vai adquirir suas
primeiras aprendizagens e percepções, construindo, aos poucos, suas
individualidades e autonomias. Ela é quem oferece a primeira formação e
acaba sendo uma referência para a criança. O distanciamento dela perante a
39
escola, pode provocar desinteresse e desvalorização da educação por parte da
criança.
A família tem que estar atenta à tudo que acontece na escola,
acompanhando
as
atividades
escolares
do
filho,
estabelecendo
um
relacionamento com seus professores e com as famílias dos outros alunos. No
caso de crianças com necessidades especiais, então, esse acompanhamento
dos pais deve ser ainda mais contínuo.
A escola, por sua vez, também deve cumprir sua parte, possibilitando um
diálogo de comunicação aberta com a família.
Esta relação Escola-Família é muito importante para entender e melhor
atender cada um de seus alunos. Tem que haver um acolhimento por parte da
escola e do professor para escutar as angústias, dúvidas, receios e exigências
dos pais perante a educação de seus filhos, e assim, trabalharem em conjunto
no processo ensino-aprendizagem. Com esta aproximação, elas passam a
pensar juntas, descobrindo novos caminhos e novas soluções para enfrentar os
obstáculos formados, a fim de alcançar o sucesso escolar para cada uma de
suas crianças.
Para que mudanças ocorram em sala de aula, é fundamental que a
Coordenação e Gestão Pedagógica estejam disponíveis, não há espaço para
uma gestão centralizada. Se a escola pretende oferecer uma educação
democrática, deve possuir uma gestão democrática.
Uma gestão democrática, por si só, promove a participação e o
envolvimento de todos.
Os professores devem se sentir à vontade também para sugerir
modificações curriculares, flexibilidade nos planos, etc. Eles é quem estão em
sala, convivendo com os alunos diariamente, identificando suas dificuldades.
Alguns professores tem medo de conversar sobre tais assuntos com a
Coordenação, por exemplo, acreditando que seria uma falha própria e
individual. Pôde-se observar esta situação na fala de uma das coordenadoras,
a qual afirma que uma das dificuldades que possui é fazer com que os
professores compreendam que devem procurar a Coordenação sempre que
tenham alguma colocação a fazer a respeito do planejamento. Mas será que
40
isto não ocorre porque a própria Coordenação criou uma barreira ou se
posiciona como detentora do saber?
Uma solução para este possível problema, seria a criação de grupos de
estudo de formação contínua, como colocado aqui, no subcapítulo 3.1Quebrando Barreiras. Afinal, criaria uma relação mais estreita, de confiança e
rotineira entre ambas as partes, e ao mesmo tempo, estariam utilizando este
tempo para pesquisarem e construírem novos conhecimentos.
A descentralização da gestão administrativa promove uma maior
autonomia pedagógica, administrativa e financeira de recursos materiais e
humanos das escolas. Todos participam, inclusive os alunos e a família. A
escola se torna um ambiente de troca, onde todos se sentem pertencentes.
41
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fica claro, então, que a Educação Inclusiva envolve à todos: escola,
professores, profissionais especializados, família, comunidade, sociedade, etc.
Cada um deve fazer a sua parte para alcançarmos a verdadeira educação de
qualidade para todos.
Em suma, para que haja uma educação de qualidade para todos, é
preciso preencher a escola com um ambiente saudável, seguro, confiável,
harmônico, aberto, livre e igualitário. Esta deve ser a imagem do escola. E isso
só é viável a partir de estratégias que possibilitem a relação e participação dos
alunos, da família, e do engajamento dos professores e funcionários.
Como afirma Abramovay et al. (2004), “A construção do bom clima na
escola passa, necessariamente, por um trabalho pautado no combate às
variadas formas de exclusão, tão presentes na sociedade.” (p. 93)
Se percebermos como a escola é um rico espaço de interação e
integração, podemos observar que simples situações cotidianas podem auxiliar
no desenvolvimento dos alunos, por isso, um bom clima é tão importante para a
qualidade do processo ensino/aprendizagem.
“Se o desenvolvimento individual depende da interação
social, a própria formação, o próprio mundo de significados em
que se existe, é função do viver com os outros. A aceitação do
outro é, então, o fundamento para que o ser observador ou
autoconsciente possa aceitar-se plenamente a si mesmo.”
(MATURANA; VARELA, 1995, apud CARVALHO, 2002, p. 23)
Ainda temos uma longa trajetória pela frente. Para alcançarmos esta
inclusão educacional e social, temos que reestruturar toda uma cultura que,
durante anos, acreditou que os portadores de necessidades especiais não
eram capazes de se socializar, estudar, aprender, trabalhar, etc.
É necessário quebrarmos algumas barreiras e preconceitos. É
importante termos consciência de que quando um individuo tem algum déficit
ou dificuldade, não significa que ele está restrito, e sim que terá um ritmo
diferente.
A postura dos professores e profissionais de educação é extremamente
influente no êxito do processo da Educação Inclusiva de qualidade. Estes
42
devem estar abertos e pré-dispostos à transformações, mudanças, novas
descobertas, formação constante e atualização.
A ideia de reuniões ou encontros na própria escola para pesquisar,
debater e estudar sobre determinados temas pode ser uma solução muito
eficaz, já que facilita a presença e minimiza o deslocamento e tempo dos
profissionais, e, ao mesmo tempo, pode gerar discussões e aprendizagens
bastantes ricas para a prática profissional, promovendo atualização e
transformação da mesma. Sem descartar, é claro, os cursos e palestras fora,
pois estas também podem trazer muitos ganhos para os encontros dentro da
própria escola, por exemplo.
Acredito que com a formação continuada, barreiras e pré-conceitos vão
sendo eliminadas, assim como a ideia do “aluno perfeito”, sem dificuldades,
normalmente idealizado pelo professor. Cada criança tem seu ritmo, tendo ela
alguma necessidades especial ou não, e o professor/educador deve conhecer
cada um de seus alunos, sem rotulá-lo, valorizando suas competências e não
suas limitações.
O professor não pode paralisar frente às limitações dos alunos, ele deve
intervir nas atividades que o aluno ainda não tem autonomia para desenvolver
sozinho, ajudando-o a se sentir capaz de realizá-las, melhorando, assim, sua
autoestima. Ao identificar as competências, ele encontrará alternativas de
ensino e condições favoráveis à participação do aluno nas aulas, auxiliando na
sua aprendizagem.
Pra isso, é necessário que haja um planejamento flexível, para que o
professor tenha autonomia e siga com o conteúdo à medida que seus alunos
forem aprendendo. Não adianta avançar com o conteúdo, se o anterior ainda
não foi devidamente compreendido pelos alunos.
Podemos concluir que uma Educação Inclusiva de verdade não existe
sem flexibilidade. É justamente por meio da adequação de práticas
pedagógicas que se alcança uma educação de qualidade que leva em conta a
diversidade de seus alunos.
Para atingir esse sucesso é necessário uma ampla visão dos
professores e educadores sobre seus alunos e sobre si próprios. É necessário
autocrítica e auto-avaliação a cerca de suas metodologias e métodos,
43
assumindo que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, como
afirma Mantoan (2002).
“Educar é uma luta constante, é sempre um novo recomeço” (GADOTTI
M. & ROMÃO, 1997, p. 87), por isso a importância do preparo profissional do
professor/educador. Ele tem que estar preparado para lidar com esta
diversidade, adotando uma proposta curricular flexível. Para Dos Santos
(2002), este profissional deve ser dotado de características, como criatividade
para
planejar
diversas
atividades,
competência,
mantendo-se
sempre
atualizado e incentivando seus alunos a fazerem o mesmo, experiência para
oferecer várias oportunidades de aplicação e realização do conteúdo aprendido
por seus alunos para melhor aprendizagem, investigação, se preocupando em
instigar em seus alunos a curiosidade e o prazer de descobrir, crítica,
entendendo que é essencial que o conteúdo ensinado seja dotado de
significação para a vida do aluno, e humildade, reconhecendo que não é o
único detentor do saber.
Os métodos avaliativos também precisam ser revistos. A avaliação
inclusiva, por exemplo, é diversificada, sendo oferecidas diversas formas e
oportunidades para o aluno mostrar o que aprendeu ao longo do seu processo
de aprendizagem. Esta forma de avaliar é muito enriquecedora para os alunos
e professores pois “possibilita que um processo de negociação entre aluno e
professor se instaure na relação pedagógica” (DOS SANTOS, 2002, p. 5),
promovendo a troca e o diálogo entre todos. Dentro do paradigma inclusivo,
uma boa formação não é garantida pela quantidade de conteúdos.
Se tratando de um colégio que adota uma metodologia tradicional, que
tem como um dos objetivos preparar para o Vestibular, como é o caso do
colégio analisado, obviamente que não há como deixar de lado os conteúdos,
mas acredito que há maneiras de, aos poucos, se adaptar à proposta inclusiva.
Até porque, ao levar em consideração os interesses, capacidades e limitações
dos alunos, a aprendizagem se torna mais prazerosa para eles, que passam à
ver significado naquilo que aprendem e ganham autoestima à medida que
percebem como evoluíram.
Acredito que se estamos caminhando para uma educação de qualidade
para todos, onde o principal objetivo é a formação para a cidadania, onde deve-
44
se valorizar o processo ensino-aprendizagem e não o resultado final, deve
haver uma mudança no nosso Vestibular.
Não adianta estabelecermos uma série de mudanças e transformações
no ensino, se lá na frente, o aluno irá se deparar com a mesma situação que
pretendíamos evitar no inicio.
Constantemente ouvimos e lemos críticas às avaliações conteudistas e
classificatória, defendendo a ideia de que o aprendizado é gradativo e que
devemos respeitar o tempo de cada um, e que, portanto, as avaliações
deveriam ser contínuas, avaliando, assim, todo o processo.
Concordo plenamente, porém, não podemos esquecer que a nossa
forma de ingresso às universidades é através dos Vestibulares. Provas estas
que são, em sua maioria, conteudistas e classificam o rendimento daquele
determinado aluno de acordo com as provas que realizou para ingressar em
determinado curso.
Buscamos um ideal, onde o sistema educacional não se resume a
ensinar somente conceitos e teorias, mas que também ensine a respeitar o
próximo e suas individualidades e admirar as habilidades de cada um. O
desenvolvimento da criança tem que vir em primeiro lugar, assim, ela estará
pronta para enfrentar os desafios de uma vida adulta.
Mantoan (2002) afirma que a escola prepara o futuro e que se as
crianças, desde cedo, conviverem e aprenderem a valorizar a diversidade,
“serão adultos bem diferentes de nós, que temos de nos empenhar tanto para
defender o indefensável.” (p. 10)
Ele ainda afirma que, em uma Educação de qualidade para todos deve
haver, valorização da diversidade como elemento enriquecedor do processo
ensino-aprendizagem, professores conscientes para promover a aprendizagem
de todos e valorização do processo de aprendizagem sobre o resultado.
Uma coisa é certa: não podemos “educar a todos” sem realizar as
devidas adaptações curriculares.
No entanto, para que essas adaptações sejam realizadas, é preciso uma
transformação geral, tanto no âmbito escolar como social. Afinal, a inclusão
escolar envolve à todos, dentro e fora da escola. Ou seja, exige uma
transformação cultural e social com relação ao “diferente”, para, assim,
45
podermos aceitar as diferenças e limitações do outro, sem preconceito ou
pena.
Para Rosita E. Carvalho (2010), devemos entender a educação especial
como:
“o conjunto de recursos que todas as escolas devem organizar
e disponibilizar para remover barreiras para a aprendizagem
de alunos que [...] necessitam de apoio diferenciado daqueles
que estão disponíveis na via comum da educação escolar.” (p.
19)
Esta proposta é uma das formas de se conceituar a educação inclusiva,
afinal, ela pressupõe adaptações a fim de alcançar uma educação de qualidade
para todos dentro da escola.
É de extrema importância que todos tenham a consciência que
Educação Inclusiva não é somente o ingresso de crianças com necessidades
especiais no sistema regular de ensino. É preciso haver toda uma preparação
para receber estes alunos. Isto não é democratização do acesso à educação.
Se não houver esta preparação prévia, as consequências podem ser ainda
piores para essas crianças.
Bueno (2001) questiona que não adianta colocar tais crianças nas
classes regulares e afirmar que estas atingiram níveis de determinadas
séries/anos, “se uma avaliação um pouco mais refinada comprova que estas
crianças não conseguiram incorporar um mínimo de conteúdo correspondentes
a essas mesmas séries?” (p. 05)
Ele acredita que deve-se analisar cada caso e verificar quais os riscos
efetivos que estes alunos correm ao serem incluídos no sistema regular de
ensino. E que somente os casos onde os riscos forem inexistentes ou muito
pequenos deveriam ser inseridos nas classes regulares. Portanto, nada justifica
o fim da Educação Especial, até porque, nosso sistema não está preparado
para receber essas crianças. “[...] nosso País ainda não reúne condições, em
razão de condições sociais e econômicas e de nossa diversidade regional, para
sua imediata implantação.” (BUENO, 2001, p. 07)
É necessário, portanto, uma mudança no Sistema Educacional como um
todo, mas, aos poucos, com a implementação de leis e decretos que favorecem
46
a socialização dos portadores de necessidades especiais, estamos buscando
uma sociedade mais solidária e menos preconceituosa.
A Educação Inclusiva promove, consequentemente, uma postura social
inclusiva,
acolhedora,
não-discriminatória,
onde
todos
respeitam
as
individualidades de cada um. Afinal, ela é uma forma de construção de
solidariedade entre uma criança com necessidades especiais e seus colegas.
Não podemos nos esquecer que o nosso sistema educacional tem como
objetivo alcançar uma Educação de qualidade para TODOS. Portanto, todas as
escolas devem se preparar e se adaptar a esta nova realidade, não sendo
necessário mudar totalmente sua metodologia, e sim, fazer as devidas
adaptações de forma que garanta que todos os seus alunos tenham acesso a
um aprendizado efetivo.
Uma escola inclusiva deve reconhecer e responder às necessidades
diversas de seus alunos, oferecendo os devidos suportes extras para
assegurar uma educação efetiva. O encaminhamento de crianças à escolas
especiais deve ser somente em caso de exceção,
onde fique claro que a
educação regular é incapaz de atender às necessidades do aluno.
Acredito que há sim como incluir alunos com necessidades especiais no
sistema regular de ensino, porém deve-se analisar cada caso, assim como a
família analisa e escolhe a metodologia que acredita ser a melhor para o seu
filho, tendo ele necessidade especial ou não.
“A grande mudança exige um esforço contínuo e paciente das pequenas
ações.” (GADOTTI M. & ROMÃO, 1997, p. 45)
47
ANEXOS - Entrevistas
Índice de anexos
Anexo 1 >> Perguntas sobre Educação Inclusiva;
Anexo 2 >> Perguntas sobre a Metodologia Tradicional empregada;
Anexo 3 >> Perguntas para o Diretor Financeiro/Administrativo.
Observação: Para as entrevistas utilizou-se a técnica de entrevista semiestruturada, objetivando um contato mais próximo entre o entrevistador e o
entrevistado.
48
ANEXO 1
Perguntas norteadoras sobre Educação Inclusiva para as entrevistas com os
profissionais do colégio analisado:
1) O que você sabe sobre educação inclusiva?
2) Você acredita que a Inclusão é algo viável dentro de uma escola?
3) Quais os benefícios da inclusão para os alunos?
4) A escola tem o dever de educar. Educar para a vida. Como você acredita
que a Inclusão favorecerá a nossa sociedade?
5) A inclusão é um tema discutido e debatido na sua escola, entre os
professores?
6) Como está sendo vista, na sua escola, a nova legislação à respeito da
inclusão de portadores de necessidades especiais na rede regular de
ensino?
7) Quais são as medidas que sua escola tem tomado para estar preparada
para uma Educação Inclusiva?
8) Há algum aluno com necessidades educativas especiais matriculado na
escola?
9) Que tipo de suporte e adaptações vocês realizam para atender suas
necessidades?
10) Que outros tipos de recursos e adaptações você acredita ser viável,
dentro de uma metodologia tradicional?
11) Com relação à Avaliação, quais adaptações você acredita serem
viáveis?
12) Acredita que seus profissionais estão capacitados para lidar com alunos
com necessidades especiais?
13) Você possui algum receio com relação à aceitação dos pais dos outros
alunos?
14) Pra você, qual o maior desafio em implementar uma educação inclusiva
na escola?
49
ANEXO 2
Perguntas norteadoras sobre a Metodologia Tradicional empregada para as
entrevistas com os profissionais do colégio analisado:
1) Fale um pouco sobre o PPP do colégio.
2) Como são feitas as avaliações?
3) E como são avaliadas as aulas extras, como inglês, música, informática,
educação física, etc.?
4) Como são planejados e programados os currículos e planejamentos de
cada ano/série?
5) Você considera que os conteúdos dados são importantes para a
formação dos alunos?
6) Como é estipulado os planos de aula? Há flexibilidade com relação ao
tempo ou, até mesmo, aos conteúdos programados?
7) Como é o diálogo entre a Coordenação e o Corpo Docente? Quais as
maiores dificuldades?
8) Vocês possuem matérias e recursos pedagógicos de apoio para os
professores? São, frequentemente, utilizados?
9) O Colégio foi fundado há mais de 50 anos. Quais as diferenças dos
currículos e metodologias do colégio daquela época e de agora?
10) Como é a relação dos pais com o colégio?
11) Com relação à inclusão, dentro da perspectiva tradicional, quais são os
maiores desafios?
50
ANEXO 3
Perguntas norteadoras para entrevista com Diretor Financeiro/Administrativo do
colégio analisado:
1) Existe algum cálculo de custo anual por aluno? CAA – cálculo custoaluno-ano (Paulo Freire)
2) Quais são os gastos mensais/anuais?
3) O que a inclusão influencia nos gastos/custos do colégio? Adaptações,
reformas, novas contratações de profissionais capacitados, novos
recursos materiais, etc.
4) Financeiramente/administrativamente falando, você acredita ser viável?
5) O
que
você
considera
ser
mais
complexo,
financeiramente/
administrativamente falando?
6) Administrativamente falando, quais seriam os pontos que o colégio
precisa de adaptar, para que a inclusão ocorra devidamente?
51
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Renata Pinto Gomes Ferreira