UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU AVM FACULDADE INTEGRADA Inclusão na Escola Tradicional: Como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional? Por: Renata Pinto Gomes Ferreira Orientador: Profª Maria Esther de Araújo Co-orientadora: Profª Giselle Böger Brand Rio de Janeiro 2015 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU INSTITUTO A VEZ DO MESTRE Inclusão na Escola Tradicional: Como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional? Apresentação de monografia ao Instituto A Vez do Mestre – Universidade Candido Mendes como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Educação Especial e Inclusiva. Por: Renata Pinto Gomes Ferreira 2 RESUMO A temática sobre a Educação Inclusiva vem sendo frequentemente discutida nas áreas educacionais, sendo rodeada de muitas dúvidas, questionamentos e posicionamentos distintos. Decretos e leis como a Declaração de Salamanca, Declaração de Direitos Humanos e LDB, entre outros, reforçaram o conceito de igualdade, reformulando conceitos e nomenclaturas, a fim de acabar com os pré-conceitos estabelecidos acerca dos limites e capacidades das pessoas com necessidades especiais, assegurando uma educação de qualidade para todos. Para assegurar que todos os seus alunos recebam uma educação de qualidades, as escolas devem fazer uma série de adaptações físicas, curriculares, metodológicas e orientar seus professores e profissionais para que saibam lidar com a diversidade que irão encontrar. Dentro de uma metodologia tradicional, estas adaptações podem parecer, muitas vezes, utópicas. Por isso, este trabalho visa orientar e direcionar as escolas que trabalham sob a perspectiva tradicional à se reformularem e se adaptarem, de acordo com a nova legislação, sem que percam suas identidades. A partir de observações, relatos e entrevistas com profissionais de um colégio tradicional particular, pretende-se chegar à uma maneira de se incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional. Formação continuada, pré-disposição para novas mudanças, avaliações contínuas e relacionamento aberto entre familiares, escola e alunos, são os primeiros passos para o alcance de uma educação de qualidade para todos. É um processo à longo prazo e ainda há muito o que fazer. É preciso uma transformação geral, não só nas escolas, mas sim na sociedade como um todo. 3 METODOLOGIA Há muitas dúvidas e questionamentos a cerca da implementação da Educação Inclusiva, principalmente, quando ela deve ser inserida em uma perspectiva tradicional. Ao estudar e ler sobre o tema, pode-se chegar à conclusão, “aparente”, de que Educação Inclusiva e Metodologia Tradicional não combinam. Porém, pesquisando diversas opiniões a fim de ampliar esta discussão, através de uma análise mais profunda de livros e documentos, de autores como Durkheim, Rubem Alves, José Geraldo Silveira Bueno, Annete Scotti Rabelo, Valeska F. Oliveira, Fátima Alves, Rosita Edler Carvalho e Mazotta, entre outros, encontram-se outros posicionamentos. Este trabalho está baseado em uma pesquisa qualitativa, onde a partir de relatos e entrevistas semi-estruturadas com profissionais do Ensino Fundamental I de um colégio particular que adota uma metodologia tradicional, juntamente com pesquisa e análise bibliográfica e documental de livros e textos diversos pretende-se, através deste estudo, encontrar um equilíbrio entre a teoria e prática, a fim de que as escolas exerçam a lei, mas sem perder suas identidades e essências. 4 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................06 CAPÍTULO I - Educação Inclusiva..........................................09 1.1- Conceitos e Nomenclaturas 09 1.2 - Adaptações Necessárias 12 1.2.1 - Estrutura física 13 1.2.2 – Currículo e Metodologia 14 1.2.3 – Avaliação 15 1.2.4 – Profissionais 16 CAPÍTULO II - Escola Tradicional................................ ...........18 2.1 – Metodologia 18 2.2 – Sistema de Ensino / Vestibular 19 2.3 – As aulas 21 2.3.1 – Currículo 22 2.3.2 - O aluno 23 2.3.3 – Tecnologias 24 2.3.4 – Avaliação 25 2.3.5 – Adaptações Realizadas 27 CAPÍTULO III – Visão Inclusiva X Visão da Escola...... ...........30 3.1 - Quebrando barreiras 30 3.2 - Família 33 3.3 - Lado administrativo 35 3.4 – Equilíbrio 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................42 ANEXOS....................................................................... ...........48 BIBLIOGRAFIA.........................................................................52 5 INTRODUÇÃO Proposta Inclusiva. Atualmente, este tema vem sendo bastante abordado e discutido entre educadores e pais de crianças com necessidades educacionais. Por ser um tema, consideravelmente, novo, dúvidas e questionamentos rodeiam os envolvidos – escolas, profissionais, familiares etc. Já é lei. Todos devem ter acesso à Rede Regular de Ensino e possuem o direito de conviver e frequentar as turmas regulares. Mas como? São exigidas uma série de adaptações e preparações para que o aluno com necessidade especial consiga, de forma qualitativa, ser inserido nas classes regulares, e consequentemente, na sociedade. Porém, se adaptar adequadamente às necessidades especiais de cada aluno não é uma tarefa fácil para as escolas, principalmente, para aquelas que possuem uma metodologia baseada em conceitos e conteúdos, como as escolas tradicionais. Isso quer dizer que as escolas devem rever toda a sua metodologia e projeto político pedagógico? Sim, contudo, há algumas ressalvas. Partindo do pressuposto de que a intenção da inclusão não é uniformizar, e sim fazer com que se respeite a heterogeneidade existente entre cada um de nós, é preciso levar em consideração, portanto, o projeto político pedagógico e a filosofia das escolas também, e não apenas impor certas normas e condições, e esperar que cumpram, sem um embasamento ou método, como se todas as escolas regulares fossem iguais. Sabe-se que é dever de todas as escolas garantir um ensino de qualidade para todos os seus alunos. Isto significa oferecer os recursos e materiais que forem necessário para que cada um de seus alunos possuam um pleno desenvolvimento. O acompanhamento escolar é função de todos que cercam a criança, especialmente da sua família. É ela quem, supostamente, a conhece mais, passa a maior parte do tempo com ela e é a sua referência de segurança. Portanto, acredita saber o que é melhor para os seus filhos; e deveria saber mesmo. 6 Apesar da metodologia construtivista estar em ênfase e ter mais afinidades com a proposta inclusiva de educação, muitos pais ainda acreditam na metodologia tradicional, afirmando que esta é mais adequada para o seu filho ou para o tipo de educação que desejam dar-lhe. Já que o ideal é que haja diversos tipos de escolas com metodologias diferentes para atender toda essa diversidade, a intenção das leis e decretos a cerca da Inclusão Educacional e Social não é exterminar uma metodologia de ensino específica e nem uniformizá-la. Então, como incluir uma metodologia inclusiva na Escola Tradicional? A fim de responder esta questão, propõe-se uma reflexão para melhor direcionar e orientar as escolas tradicionais com relação à esta nova visão educacional, objetivando informar sobre as adaptações necessárias, quebrar barreiras físicas e atitudinais dos profissionais que atuam sob uma perspectiva tradicional, encontrar uma solução para a “dicotomia”: Visão Inclusiva X Visão da Escola, e encontrar um equilíbrio para que possam realizar as devidas adaptações sem que percam sua essência. A partir de observações e entrevistas com profissionais do Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano) de um colégio particular que adota uma metodologia Tradicional, pretende-se reunir materiais, métodos e maneiras de se alcançar a Educação Inclusiva dentro da metodologia Tradicional. No primeiro capítulo deste trabalho, aborda-se a temática da Educação Inclusiva, destacando algumas nomenclaturas e conceitos, e aprofundando-se nas adaptações necessárias para que a escola consiga prover uma educação de qualidade para cada um de seus alunos, esclarecendo que tipo de adaptações estruturais, metodológicas, avaliativas e pedagógicas devem ser feitas. O segundo capítulo expõe a Educação Tradicional, relatando experiências e fatos observados a cerca desta metodologia de ensino e suas implicações, além de situa-la dentro do nosso sistema nacional de educação, abordando temas como o Vestibular e o perfil das crianças de hoje. Já no terceiro capítulo, as duas visões, Inclusiva e Tradicional, são colocadas frente-a-frente, considerando temas como o preconceito, as 7 barreiras e o lado administrativo, a fim de se encontrar um equilíbrio entre a teoria e a prática, sem que as escolas percam suas identidades. Afinal, por mais tradicional que a escola seja, ela deve acompanhar as transformações sociais, e nada é mais atual do que a Inclusão. 8 CAPÍTULO I Educação Inclusiva O primeiro passo para a inclusão é o respeito e o desejo de desenvolver o indivíduo em todos os aspectos dentro do processo de aprendizagem. 1.1- Conceitos e Nomenclaturas A partir do momento que assumimos que todos somos diferentes e que cada um de nós possui especificidades, passamos a entender e compreender melhor o outro, assegurando um ambiente saudável, onde todos aprendem a respeitar as diferenças, eliminando barreiras e preconceitos. “Incluir quer dizer que podemos deixar pertencer, adaptandoos em todos os aspectos, mostrando-os o que fazer, para que e com quem utilizar o seu corpo, fazendo-o aprender por meio de atividades não só específicas, mas transformadas e adaptadas.” (FATIMA ALVES, 2004, p. 20) O objetivo da inclusão educacional é justamente a inclusão social destes indivíduos que possuem alguma necessidade específica. A Educação Inclusiva promove, consequentemente, uma postura social inclusiva, acolhedora, nãodiscriminatória, onde todos respeitam as individualidades de cada um. Ela é uma forma de construção de solidariedade entre uma criança com necessidades especiais e seus colegas. Afinal, tendo acesso à educação e frequentando escolas regulares, todos passarão a conviver juntos e se tornarão cidadãos capacitados para o mercado de trabalho e para viver em sociedade. Muitos desconhecem, mas integração não é o mesmo que inclusão. Ambos os discursos reafirmam a inserção das pessoas com necessidades especiais em grupos de convivência e socialização com pessoas ditas normais. Porém, na integração, o sujeito é quem tem que se preparar para estar com os outros, sendo avaliado e podendo ser ou não aceito no grupo, enquanto que na inclusão, o sujeito é visto como potencialidade e há um esforço social para ajudá-lo a desenvolver seu potencial. Em suma, na integração, o sujeito deve 9 se adaptar ao meio, já na inclusão, o meio e os outros devem se adaptar ao sujeito. É difícil modificarmos a estrutura educacional sem modificar a sociedade e as formas de pensar do cidadão. E, infelizmente, historicamente falando, nossa sociedade sempre foi muito excludente, quando se trata da minoria, do diferente, etc. É necessário, portanto, criar serviços e propostas educativas abertas e flexíveis que atendam às necessidades dessa transformação. Uma grande mudança, ao meu ver, foi a substituição de termos como “portador de deficiência” e “excepcional”, por “necessidades especiais”. Assim, se passa a evidenciar o que podemos proporcionar para satisfaze-los, evitando estigmas e quebrando preconceitos. Espera-se que, aos poucos, esta transformação, ganhe força e consistência para assim alcançarmos a verdadeira inclusão social. Contudo, vale lembrar, que este é um processo a longo prazo, afinal, temos que reformular e reestruturar toda uma sociedade, que durante anos foi, e ainda é, excludente. Com a Declaração de Salamanca, em 1994, o conceito de necessidades especiais passa a abordar não somente aqueles alunos que possuem alguma deficiência física ou mental, mas também aqueles que apresentam alguma dificuldade no aprendizado, seja essa dificuldade temporária ou permanente. Surge, então a expressão necessidades educacionais especiais (NEE), que sugere a ampliação da população que requer atendimento educacional especializado para além das deficiências, ou seja, passa a compreender também as altas habilidades, os transtornos de desenvolvimento, como esquizofrenia, autismo, dislexia e hiperatividade, entre outros. Explicita-se que as NEE, “referem-se a todas as crianças e jovens cujas necessidades decorrem de sua capacidade ou de suas dificuldades de aprendizagem.” (Declaração de Salamanca, 1994, p. 18 apud CARVALHO, 2010, p. 45) Na declaração é enfatizada a ideia de uma Escola Inclusiva, onde todas as crianças devem aprender juntas; e a escola, como um todo, deve se adaptar aos seus alunos, revendo seus currículos, cronogramas, estrutura física, 10 métodos avaliativos, para que a criança se desenvolva da melhor maneira possível e adquira uma educação de qualidade. Desta forma, sugere uma união entre as instituições de Ensino Especial e as de Ensino Regular, incluindo um sistema dentro do outro, e não à parte. É a inclusão da própria Educação Especial dentro desta estrutura de “educação para todos”. Seria um sistema único, capaz de prover uma educação de qualidade para todos os seus alunos, seja qual for o comprometimento que ele apresente ou esteja apresentando. As Instituições de Ensino Especial específicas se transformariam em centros de referência, auxiliando as escolas regulares com apoio técnico/especializado e subsídios para melhor lhe dar com as especificidades de cada aluno especial. No Brasil, a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96) chegou para garantir e assegurar a Educação Básica à todos os cidadãos brasileiros, reforçando a importância de cada segmento de Ensino: - A Educação Infantil e o Ensino Fundamental, com a finalidade de assegurar o desenvolvimento integral da criança, a sua socialização e a preservação de sua individualidade; - O Ensino Médio, a caminho da universalização da escola, como um mecanismo social, com capacidade de unificar as experiências e construir novos saberes necessários ao processo de formação de adolescentes, jovens e jovens adultos. A LDB (1996) tem por princípios básicos: - O desenvolvimento da capacidade de aprender, para assim obter o domínio da leitura, da escrita e do cálculo; - A compreensão do ambiente em que vive, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; - O desenvolvimento e a aquisição de conhecimentos, habilidades e a formação de atitudes e valores; - O fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca, afim de prepara-los para a sociedade. 11 Junto à Constituição Brasileira de 1988, consequentemente, dentro de uma sociedade inclusiva, este direito também deve ser concedido àqueles que possuem alguma necessidade especial, portanto, os Estados devem promover um ensino qualitativo e quantitativo que atenda às necessidades de escolarização de acordo com a diversidade da população brasileira. Em 2001, a pedido da Unesco, os Ministros da Educação da América e do Caribe se reuniram para desenvolver estratégias que melhorassem a qualidade e a eficiência da educação, já que os sistemas educacionais não haviam atingido os objetivos pré-estabelecidos. Foi colocada, então, a necessidade da criação de um novo tipo de escola, “mais flexível e altamente sensível aos desafios, e que tenha efetiva autonomia pedagógica e administrativa” (UNESCO, 2001, apud MACHADO, 2005, p. 46), impondo a necessidade de os sistemas educacionais abrirem oportunidades de aprendizado para cada criança, jovem e adulto. Uma escola inclusiva, então, deve reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, oferecendo os devidos suportes extras para assegurar uma educação efetiva. O encaminhamento de crianças a escolas especiais deve ser somente em caso de exceção, onde fique claro que a educação regular é incapaz de atender às necessidades do aluno. Cabe à escola, portanto, assegurar um processo educativo coerente às necessidades educacionais de todos os seus alunos, tenham eles alguma necessidade especial ou não. 1.2 - Adaptações Necessárias Trocoli (2007) acredita que, a fim de incluir todos os seus alunos, o professor deve proporcionar um ambiente escolar estimulante, planejamentos e currículos flexíveis, diálogo aberto com os alunos e suas famílias, espírito de cooperação e interação entre os alunos, utilização de diferentes recursos materiais e avaliações contínuas, dentre outras características. A escola, quanto organização, também deve possuir a mesma postura, para que o trabalho do professor funcione, e vice-versa. Ela deve construir seu projeto pedagógico coletivamente e oferecer recursos e suportes necessários aos seus professores para melhor atender seus alunos. A metodologia deve 12 envolver aulas dinâmicas que respeitem o ritmo diferenciado dos alunos. Portanto, as escolas, como um todo, necessitam de uma série de cuidados também, pois para atender às necessidades, além de preparar seus educadores, é preciso eliminar barreiras arquitetônicas, ampliar o material didático existente, adquirir materiais específicos para alunos que possuam alguma necessidade, adaptar equipamentos escolares, adequar o currículo, propiciar apoio psicopedagógico ao aluno e orientação a seus familiares. 1.2.1 - Estrutura Física É necessária uma adaptação física no espaço e recursos oferecidos pela escola, que envolvem desde rampas de acesso para cadeirantes e pessoas com dificuldade de locomoção, até materiais pedagógicos específicos para certas necessidades especiais. São muitos os detalhes a serem pensados e considerados. Tudo pode influenciar no processo ensino-aprendizagem do aluno. É importante oferecer Iluminação adequada nas salas de aula, carteiras adaptadas, rampas de acesso, portas e corredores mais amplos para facilitar a locomoção de todos, banheiros adaptados, materiais e recursos de apoio, Tecnologias Assistivas, etc. As Tecnologias Assistivas são reconhecidas por auxiliarem no desempenho funcional de atividades, facilitando as realizações de ações e tarefas. A utilização desses recursos e aparelhos que contribuem para proporcionar ou aumentar certas habilidades funcionais, promove uma vida mais independente para as pessoas com deficiência, e, consequentemente, a inclusão social das mesmas. A acessibilidade à estas tecnologias é de extrema importância, pois elas auxiliam na quebra das limitações das deficiências, possibilitando uma melhor inclusão do indivíduo em ambientes ricos para a sua aprendizagem e seu desenvolvimento, e acabando com possíveis preconceitos, tanto com relação ao outro como a si mesmo. Afinal, a partir do momento que lhe são dadas condições para interagir e aprender mais facilmente, o indivíduo com deficiência, terá uma desenvolvimento mais rápido e maior, aumentando assim, sua autoestima. 13 As escolas inclusivas, portanto, deveriam ter acesso à estes tipos de tecnologias, pois, através destes recursos facilitadores, o aluno terá mais facilidade durante todo seu processo de ensino/aprendizagem. De acordo com Trocoli (2007b), o uso de computador com pessoas que possuem alguma deficiência, por exemplo, promove um ambiente de aprendizagem onde não há riscos de bloqueios cognitivos e não provoca constrangimentos afetivos. 1.2.2 – Currículo e Metodologia A organização da sala de aula deve ser dinâmica e flexível. Ela deve ser bem estruturada, iluminada, com recursos visuais estimulantes, contudo, com muito cuidado para não exagerar no excesso de informações, favorecendo a distração e a desatenção dos alunos. O professor deve estruturar também as aulas e as atividades escolares, estabelecendo uma rotina diária e definindo claramente as regras e expectativas para os alunos. Deve valorizar o processo, reforçando positivamente os comportamentos adequados e as conquistas diárias de cada aluno. Para que ocorra uma devida inclusão educacional, é necessário uma constante adequação curricular, onde o foco seja o aluno, ou seja, extrair de seus alunos suas capacidades e habilidades, respeitando, sempre, o limite de cada um. Essa adaptação curricular envolve a utilização de novas estratégias, novas técnicas de ensino, novas formas de avaliação e o incentivo à participação da família no dia-a-dia da escola. Devemos considerar as individualidades de nossos alunos, reformulando planejamentos, currículos, objetivos, recursos materiais e métodos avaliativos, atendendo, assim, as necessidades específicas de cada aluno, a fim de alcançar uma educação de qualidade para todos. O primeiro passo do professor é conhecer cada um de seus alunos: De onde ele vem? Como sua família é estruturada? Qual o seu contexto social? Quais suas habilidades e limites? Só assim o professor possibilitará uma educação de qualidade para todos os seus alunos. 14 Ao conhecer a realidade de cada um de seus alunos, o professor se deparará com uma enorme diversidade. Se o professor não estiver preparado para lidar com este fator, provavelmente, se assustará ou irá ignora-lo. Ele deve estar preparado para lidar com esta diversidade encontrada na sala de aula, e os conhecimentos teóricos irão trazer apoios importantes, permitindo motivar suas ações. O professor deve fazer da diversidade um mecanismo a favor do processo ensino-aprendizagem, onde todos, professor e alunos, se beneficiarão. Afinal, conhecendo seus alunos, ficará mais fácil para o professor selecionar os recursos mais favoráveis que irá utilizar a fim de facilitar e incentivar o interesse e aprendizagem dos mesmos; e estes, por sua vez, se sentirão mais motivados e irão usufruir dos recursos apropriados para facilitar sua aprendizagem. 1.2.3 – Avaliação Outra adaptação necessária é no sistema de avaliação que, em geral, é muito em cima de conteúdos e teorias. O aluno recebe uma quantidade enorme de informações e é avaliado a partir da quantidade de informações que consegue “armazenar”. Esta forma de avaliação é feita de maneira uniforme, não-flexível, com um caráter classificatório, ao invés de individualizada, respeitando o tempo e o limite de cada aluno. Em uma educação inclusiva, a maior preocupação não deve ser a nota que o aluno tirou, e sim o processo. Para isso, a avaliação inclusiva deve ser diversificada, dando diferentes oportunidades e possibilidades, como por exemplo, uma avaliação oral. Essa diversificação só complementa e enriquece a relação aluno-professor, pois reforça o diálogo, a troca, a confiança e a compreensão um do outro. É preciso que haja uma constante reavaliação nas formas de avaliação, levando em consideração as especificidades de cada aluno, porém, tomando muito cuidado para que não haja uma prática paternalista e dissimuladora. Trocoli (2007a) ainda propõe a realização, logo no início, de uma avaliação diagnóstica, visando identificar as possíveis dificuldades do aluno 15 frente às novas aprendizagens. Esta avaliação proporciona informações acerca das capacidades do aluno antes de iniciar um processo de ensinoaprendizagem, averiguando se o aluno possui os pré-requisitos necessários para continuar seu processo de desenvolvimento. Assim, com este diagnóstico, os profissionais podem se preparar e preparar o aluno para as possíveis dificuldades que este venha apresentar. A avaliação pode ser muito mais útil do que tem sido na prática. Afinal, ela pode fornecer informações aos profissionais para decidir sobre as intervenções e redirecionamentos que forem julgados necessários em prol da aprendizagem do aluno, podendo ser feita através da observação e do questionamento, por exemplo. 1.2.4 – Profissionais É extremamente necessária uma atenção à formação e treinamento dos professores para atenderem à nova demanda. O professor deve compreender que, independente de suas diferenças, eles precisam aprender determinados conteúdos e construir uma série de competências para viverem em sociedade, como cidadãos, e é seu dever fornecer essa educação. A sala de aula deve ser um local de troca, entre professor e aluno e entre os alunos. Um lugar onde ocorra debates, reflexões e compreensão da sociedade múltipla e complexa em que vivemos, desenvolvendo o lado crítico e cidadão dos alunos. Para isso, o professor e os outros profissionais da escola devem enxergar cada aluno, identificar e entender suas habilidades e limitações para assim melhor atende-lo em suas necessidades, sejam elas quais forem. Depois de identificadas, a escola deve se adaptar, revendo seus planejamentos, currículos, métodos avaliativos e orientando seu corpo docente. No entanto, vale destacar que essas adaptações devem ser feitas somente quando necessário. É preciso ter muito cuidado para não rotular e tirar conclusões precipitadas sobre a capacidade e limite dos alunos. Para que o aluno com necessidades especiais ou não se sinta motivado e empenhado, ele deve se sentir seguro, confiante, e, principalmente, aceito. 16 Assim sendo, devem ser realizados trabalhos paralelos, como aceitação e respeito às diferenças de cada um, desenvolvimento da autonomia, dentro de seus limites, e valorização das conquistas. Desta forma, trabalhará a autoestima do aluno, motivando-o a desenvolver e a querer aprender cada vez mais. O desafio está em trabalhar o processo ensino-aprendizagem sem dar enfoque na reabilitação e nos aspectos clínicos da deficiência, por isso a necessidade de pesquisa, especialização, formação inicial e continuada dos profissionais de educação. A formação continuada é imprescindível para a qualidade do trabalho do professor e dos profissionais de educação, em geral. Tem que haver esta vontade e motivação para a pesquisa e o estudo. Antigamente, a principal função do professor era passar o conhecimento aos alunos. Porém, mais tarde, autores como Jean Piaget e Lev Vygotsky, entre outros, colocaram que o professor, na verdade, deve ser um mediador na construção do conhecimento, exigindo constante reflexão, auto-avaliação e estudo do seu trabalho. O professor tem que estar antenado as mudanças e transformações sociais, buscando novas especializações e conhecimentos, para assim, melhor atender as necessidades existentes, e as que venham surgir, em sala de aula. 17 CAPÍTULO II Ensino Tradicional Neste capítulo, pretende-se abordar a temática da metodologia tradicional, a partir da análise, observação e entrevista com profissionais de um colégio particular que adota a metodologia tradicional. 2.1 - Metodologia O colégio analisado começou, na década de 60, como um curso preparatório para os concursos de admissão aos colégios Militar, de Aplicação e Pedro II, e em seguida, tornou-se escola. Fundada por militares, utiliza-se de métodos, técnicas e estratégias modernas, sem, contudo, abandonar o tradicional, enfatizando os aspectos intelectuais, mas também a formação do cidadão participativo, crítico, autônomo e ético. Atualmente, é um colégio misto, particular, tradicional e tem como objetivo a formação do cidadão consciente, responsável, crítico, participativo, fraterno e solidário. Seu objetivo geral é proporcionar ao educando, em um clima de amizade, bem-estar, diálogo e liberdade responsável, a formação necessária ao desenvolvimento para o exercício da cidadania e prosseguimento dos estudos, como consta em seu Projeto Político Pedagógico (PPP). Apesar de Tradicional, a proposta pedagógica do colégio adota metodologia participativa, interrogativa e dinâmica, segundo a diretora pedagógica. Porém, durante minhas observações, me deparei algumas aulas extremamente conteudistas, onde a professora discursava e fazia anotações no quadro, enquanto os alunos ouviam e copiavam. Ao ser questionada sobre este fato, a diretora confirmou que o colégio realmente segue uma metodologia tradicional-conteudista e que os alunos realizam muita cópia de conteúdos, como forma de fixação, porém, conforme o conteúdo vai sendo trabalhado, incentiva-se debates e a participação de todos. Complementou, ainda, dizendo que o colégio é conhecido, justamente, pelo seu tradicionalismo no bairro, e que a maioria das pessoas procuram o colégio 18 sabendo desta filosofia adotada, ou por serem ex-alunos, ou por possuírem parentes ou amigos que estudaram lá. Na elaboração do PPP fizeram parte a Direção, a Orientação Educacional, Coordenação de Turno, Coordenação Pedagógica e Corpo Docente, sendo ele fruto de um trabalho democrático e participativo, realizado em várias etapas, e seguindo as exigências decorrentes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96). Nota-se que não houve a participação dos alunos e das famílias em sua elaboração, como sugerido por diversos autores que acreditam que o PPP deve ser construído por todos que fazem parte da instituição escolar, como Gadotti, por exemplo, que coloca que a escola deve ouvir os alunos, já que eles passam muito tempo dentro dela. “O aluno aprende quando ele se torna sujeito de sua aprendizagem. [...] ele precisa participar das decisões que dizem respeito ao projeto da escola” (GADOTTI, M. & ROMÃO, 1997, p. 75). A participação do aluno nas decisões auxilia sua aprendizagem, pois ele passa a se sentir valorizado e parte da instituição, tornando-se sujeito da aprendizagem. Para se construir devidamente o PPP, deve-se conhecer, diagnosticar e avaliar a realidade da escola e de seu entorno. Portanto, cada escola deveria ter autonomia para criar o seu próprio PPP, executa-lo e avalia-lo, levando em consideração tais fatores, seus objetivos e metas. Contudo, por ser um processo inconcluso, é preciso ressaltar que ele deve estar sendo constantemente revisto e reavaliado, sem abstrair sua história e sua filosofia. Afinal, “Mais do que um conjunto de objetivos, metas e procedimentos, [...] se caracteriza por uma certa atmosfera de renovação educacional que a envolve.” (GADOTTI, M. & ROMÃO, 1997, p. 19). 2.2 – Sistema de Ensino / Vestibular Muitos condenam a metodologia tradicional, afirmando ser ultrapassada e pautada nos conteúdos. Acredita-se que o objetivo das leis de inclusão, ao assegurarem o ingresso de todos à um ensino de qualidade, não seja uniformizar as escolas, afinal, todo o tempo se afirma a existência das diferenças, da heterogeneidade 19 e como a diversidade é um fator enriquecedor. A educação Inclusiva propõe que todos os alunos sejam atendidos respeitando suas individualidades. Portanto, se existem diferentes tipos de aluno, há que existir diferentes tipos de escola. A principal característica do ser humano é a sua pluralidade. Cada um de nós conhece e interpreta o mundo com olhares individualizados e muito particulares. Como bem lembra Mazzotta (2001), “Todo aluno é especial e toda escola é especial em sua singularidade.” A visão construtivista tem muitas semelhanças com a proposta da educação inclusiva. Ambas preveem um planejamento flexível, centrado nas potencialidades e limitações de cada aluno, garantindo uma aprendizagem global de qualidade. Por isso, podemos afirmar que é mais fácil uma escola construtivista se tornar uma escola inclusiva, do que uma escola tradicional, onde o planejamento é mais rígido e as avaliações são conteudistas, se tornar inclusiva. Contudo, como eliminar a preocupação com o conteúdo, se a forma de ingresso às universidades é através de provas uniformizadas, onde se cobram conteúdos extremamente específicos, que é o Vestibular? Afinal, o nosso Vestibular mede, basicamente, o nível de informações e conteúdos que o aluno adquiriu ao longo dos seus últimos três anos de escolaridade no Ensino Médio, não levando em consideração o processo de aprendizagem do mesmo. Nos Estados Unidos, por exemplo, além de realizar uma prova que mede seus conhecimentos (Scholastic Aptitude Test ou SAT), as universidades levam em consideração o histórico escolar do aluno, que contém seu rendimento, atividades realizadas, participação e envolvimento com a escola, etc. Além disso, são analisadas cartas de recomendação de profissionais do colégio que o aluno frequentou, uma redação na qual o aluno se apresenta e conta sobre sua trajetória pessoal e, muitas vezes, ainda é realizada uma entrevista. Como Dos Santos (2002) coloca, vivemos em uma cultura onde a referência de boa qualidade é a quantidade de matérias e conteúdos dados e exigidos nas avaliações e, a causa disto é por ainda possuirmos um sistema 20 cada vez mais seletivo conforme o avanço dos níveis escolares, culminando na nossa forma de ingresso às universidades, o Vestibular. A cobrança e expectativas dos pais para que seus filhos ingressem em uma boa universidade está cada vez mais presente e prematura. É visível a preocupação dos pais com relação ao ingresso de seus filho à uma boa universidade. Todos querem um futuro brilhante para seus filhos, e acreditam que estudando em uma universidade bem conceituada as chances aumentam. Esta preocupação está aparecendo cada vez mais cedo. Pais já escolhem as escolas que seus filhos estudarão de acordo com o índice de aprovação no Vestibular, como mostra a fala de uma das coordenadoras entrevistadas, relatando que já viu um responsável que procurava vaga para matricular seu filho na Educação Infantil perguntar sobre a classificação do colégio no ENEM e nos Vestibulares. Primeiramente, os pais devem dialogar sobre a escolha filosófica e metodológica que acreditam ser a ideal para o seu filho, que irá melhor atender suas necessidades. A família deve pensar mais no presente momento, e, aos poucos, ir analisando o processo de aprendizagem de seu filho, e encaminhando e direcionando-o de acordo com suas ideologias. 2.3 – As Aulas As aulas que seguem uma metodologia tradicional são conhecidas e marcadas, popularmente, pelo uso do quadro negro e giz e um professor que detém o conhecimento e o transmite aos alunos, porém, nem sempre são assim. O colégio analisado, por exemplo, apesar de seguir esta metodologia e ser conteudista, vem se renovando e acompanhando as tendências e transformações sociais. A equipe pedagógica e administrativa tem tentado se modernizar, sem abrir mão do que consideram ser importante para a formação de seus alunos. A partir de observações e entrevistas realizadas no colégio específico, faremos uma breve análise a cerca das aulas ministradas. 21 2.3.1 – Currículo Segundo a Coordenadora Pedagógica entrevistada, os currículos de cada ano/série do Colégio analisado, são planejados e programados de acordo com os objetivos e competências a serem atingidos por cada faixa etária, tomando como base, os conteúdos estabelecidos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Contudo, alguns desses conteúdos são aprofundados, com o objetivo de atender aos interesses e expectativas do tipo de clientela que procura o colégio. Quando questionada sobre a relevância e importância dos conteúdos dados, a Coordenadora ressaltou que acreditam que o Ensino Fundamental é a base do conhecimento e que os conteúdos desenvolvidos nesse segmento darão ao aluno as competências necessárias para, no futuro, ele fazer suas escolhas, ou seja, escolher que caminho deve seguir, de acordo com os talentos e habilidades que desenvolveu. Baseado na metodologia tradicional, após 50 anos de história, o Colégio continua seguindo a linha tradicional e conteudista, cobrando resultados satisfatórios. Porém, ao longo desses anos, essa metodologia foi se modificando e evoluindo, acompanhando as mudanças e a evolução do mundo, da sociedade onde vivemos e a forma de se encarar a Educação. Hoje, sem abdicar de seus objetivos pedagógicos, o Colégio aborda os conteúdos a serem trabalhados, levando o aluno a pensar, a desenvolver relações de causa e efeito, evitando a memorização pura e simples, a tirar conclusões, a desenvolver o pensamento crítico e o raciocínio lógico, complementou a Coordenadora. Para ela, o maior desafio da Inclusão em seu colégio, é inserir e incluir devidamente todos os alunos, num contexto de escola tradicional, que exige muito de seus alunos, cobrando resultados, sem que o aluno se ressinta e acabe por desistir dele mesmo. “O desafio está em tentar criar estratégias que o levem a atingir o sucesso, respeitando o seu tempo e as suas limitações e, ao mesmo tempo, integrá-lo ao grupo ao qual ele pertence”. A partir de sua fala, pode-se constatar a preocupação com relação às adaptações curriculares mencionadas no capítulo anterior. Dentro de uma metodologia tradicional, essa adaptação é ainda mais desafiadora, pois a 22 escola deve atender à todos, sem exceção. Como ela mesma colocou, a maioria dos responsáveis procuram o colégio justamente por seguir uma metodologia tradicional, são pais que exigem conteúdos, notas, resultados, etc. E, muitas vezes, esse aprofundamento e quantidade de conteúdos, pode prejudicar o aluno que apresente alguma necessidade educacional especial. 2.3.2 - O aluno Muitos professores se queixam da falta de disciplina e de interesse dos alunos. Mas será que a escola e seus profissionais não são responsáveis, em parte, por estes problemas? Obviamente, não podemos ignorar a realidade atual na qual se encontram os alunos. Conforme o decorrer dos anos, nos deparamos com um novo perfil de aluno: um aluno rodeado de tecnologia e informação. O acesso às informações, através das tecnologias e mídias existentes atualmente, como a internet, é cada vez maior e mais fácil. A rapidez e facilidade de comunicação, pesquisa, informação, pode gerar, ao mesmo tempo, um certo desinteresse ou uma falta de concentração, afinal, são tantas novidades e possibilidades, que fica difícil de escolher e se ater em uma só. São tantos canais pra escolher, tantas fontes de pesquisa, tantas formas diferentes de se comunicar, que é preciso direcioná-los e ensiná-los a filtrar o que é bom ou melhor para determinada situação. Outro fator extremamente influente no desenvolvimento da criança é o ambiente familiar. É com a família que ela irá absorver seus primeiros aprendizados, enxergando-a como modelo. Assim sendo, um ambiente desestruturado, poderá prejudicar seu desenvolvimento. A criança de hoje, possui pais trabalhadores, que passam a maior parte de seu dia fora de casa trabalhando para prover necessidades básicas e conforto para seus filhos e família. Muitos, mal encontram seus filhos acordados durante a semana, outros são divorciados e tentam se dividir e resolver suas diferenças. Estes fatores acabam por fazer com que eles queiram compensar essa ausência e/ou falta de tempo com certos ¨mimos¨, e acabam 23 não estabelecendo limites e regras em sua educação, deixando por conta da escola. Não podemos ignorar tais fatores. Cada um deles influencia direta ou indiretamente o desenvolvimento das crianças de hoje, e como educadores, devemos olhar ao redor de cada criança, de cada situação, de cada necessidade, a fim de melhorar o processo ensino-aprendizagem. Contudo, tendo consciência deste novo perfil de aluno, os professores e a escola deveriam se atualizar e aprimorar. Esses estudantes conectados têm uma relação diferente com o tempo e com o mundo, colocando desafios para a docência. Portanto, não há mais espaço para as aulas onde o professor se coloca a frente do quadro e discursa sobre o conteúdo. O professor deve procurar formas inovadoras de se lançar o conteúdo, recorrer à recursos e materiais que chamem a atenção do aluno, gerando interesse e motivando-o à querer aprender mais, à questionar e dialogar sobre o assunto. No meio de tanta informação, o professor deve estabelecer claramente seus objetivos e regras, e a organização da sala de aula deve ser dinâmica e flexível. Só assim, o professor conseguirá prender a atenção de seus alunos e aumentar o interesse dos mesmos. Aulas desinteressantes geram indisciplina. Somente conhecendo os alunos é que será possível saber o que lhes interessa e, assim, diminuir a indisciplina. 2.3.3 – Tecnologias O colégio possui uma variedade de materiais e recursos didáticos de apoio, como mapas, computadores, televisão, aparelho de DVD, data show, jogos pedagógicos, flanelógrafo, imantógrafo, fantoches, etc. No entanto, muitas vezes não são tão utilizados. Inclusive, esta foi uma das queixas que a coordenação fez. “São disponibilizados materiais para os professores tornarem as aulas mais criativas, ilustrativas e dinâmicas, mas muitos acabam se atendo no já conhecido, no que estão acostumados a fazer.” Para o ano que vem, do colégio está providenciando uma sala multimídia, onde haverá um quadro interativo, na qual os professores poderão agendar, previamente, a utilização da sala. Ao saberem da novidade, muitos 24 professores, ficaram preocupados e assustados, demostrando um certo medo e desconhecimento sobre o uso do material, não demonstrando tanta satisfação. A própria administração do colégio, conhecendo seus professores, confessou que será um desafio e que há a preocupação em saber se sala será devidamente utilizada, afinal é um investimento alto. Para isso, assim que estiver tudo instalado e pronto, chamarão um profissional capacitado para ensinar os professores como utilizar o quadro, sugerindo ideias e materiais, afinal a equipe pedagógica acredita que, apesar de desafiador e de custo elevado, será bastante proveitoso para os alunos. 2.3.4 – Avaliação As avaliações neste colégio são realizadas, divididas em 4 bimestres, onde em cada bimestre os alunos do 1º ao 5º ano (dentro das séries observadas) realizam testes e provas, expressos em graus numéricos de 0,0 (zero) a 10,0 (dez), da seguinte maneira: - 1 teste de cada disciplina: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências Naturais; com exceção do 1º ano, que possui somente Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Naturais e Integração Social. - 1 Produção de Texto (2º ao 5º ano) - 1 Leitura Oral (1º ano) - 1 prova de cada disciplina, com peso 2. O conceito adquirido na Produção de Texto, para os alunos do 2º ao 5º ano, e na Leitura Oral, para os do 1º ano, são somados ao do teste de Língua Portuguesa e dividido por 2, para se chegar à média do teste da disciplina. A média bimestral de cada disciplina é, então, calculada da seguinte forma: Teste + (Prova x 2) 3 Não há um tempo mínimo nem máximo para a realização dos testes e provas. Quando há casos de apenas um ou dois alunos permanecerem fazendo o teste ou prova, estes são encaminhados para a Coordenação, onde terminam com a supervisão da mesma. Os alunos que não obtiverem média 5.0 possuem uma segunda chance, a “Recuperação Paralela”. São oferecidas aulas de reforço após o horário da 25 escolaridade e, em seguida, fazem uma nova avaliação, na qual a nota alcançada, caso seja maior do que a primeira, é convertida, a partir de uma tabela pré-estabelecida pela Direção do colégio, e modificada no boletim. Assim como sua metodologia, as avaliações são conteudistas, englobando conceitos, nomes e datas importantes. Os testes costumam cobrar os conteúdos aprendidos no bimestre e as provas, os conteúdos mais significativos dados no ano. Analisando alguns dos testes e provas, pude perceber que a quantidade de conteúdos que exigem uma memorização da parte do aluno é realmente grande, contudo, há também questões que fazem o aluno pensar, interpretar e desenvolver sua escrita. As atividades extraclasses, como inglês, espanhol, informática, música e educação física não possuem uma avaliação concreta. Os rendimentos e aproveitamentos dos alunos são observados pelos respectivos professores e relatados à Coordenação, caso ocorra algo que fuja do usual. Já na Educação Infantil (Maternal ao Pré-escolar II), as avaliações são feitas através de um relatório individual, também bimestral, onde a partir de observações das experiências cotidianas, são analisados os rendimentos dos alunos de acordo com cada área do desenvolvimento, como características pessoais, relacionamento com o grupo e professores, atenção e concentração, coordenação motora e equilíbrio, linguagem oral e escrita, orientação temporal, grafismo, coordenação viso-motora, interesse e curiosidade nas atividades desenvolvidas, interesse em artes visuais e musica. Com este relatório, os professores e educadores que lidam com o aluno podem acompanhar seu desenvolvimento, interferindo caso seja necessário. Além disso, tem como objetivo manter os pais informados sobre o desempenho escolar de seu filho, para que possam acompanhar o processo de desenvolvimento da criança e facilitar o diálogo entre os pais e os professores. Pode-se perceber que a avaliação da Educação Infantil é mais processual, porém conforme os alunos vão crescendo, o processo é, praticamente, deixado de lado, valorizando os conteúdos adquiridos pelo aluno. Quando perguntada sobre a quantidade de conteúdos dados, a coordenadora pedagógica, afirma considerar tais conteúdos importantes para 26 os alunos, e que faz parte da filosofia da escola, que é conhecida pelo aprofundamento de certos conteúdos. Ela acredita que a partir da fixação dos mesmos, os alunos terão mais facilidades para aprender e compreender conteúdos lançados nas séries mais avançadas. A preocupação com o Vestibular é visível, já que o Colégio possui turmas desde o Maternal da Educação Infantil até o 3º ano do Ensino Médio, apesar desta pesquisa ter sido direcionada para as séries iniciais (Educação Infantil e Ensino Fundamental I). Desta forma, promove uma certa preparação, a longo prazo, se intensificando nas séries mais próximas ao exame. Até mesmo porque a preocupação com o Vestibular vem aparecendo cada vez mais cedo nos pais, como mostrou a fala de uma das Coordenadoras, sobre casos de pais que vieram conhecer a escola para matricular seus filhos na Educação Infantil e perguntaram qual era a porcentagem de alunos aprovados nos vestibulares anteriores. 2.3.5 – Adaptações Realizadas Questionados sobre a inclusão, os profissionais do colégio analisado, demostraram ainda muitas dúvidas a cerca do tema e das adaptações previstas. O colégio já possui um profissional com habilitação em Educação Inclusiva, que vem pesquisando e se atualizando para orientar e passar as devidas informações aos outros profissionais do colégio. Já existem alguns alunos com necessidades especiais cursando as turmas regulares do colégio, porém nenhum caso extremo. Os graus de necessidade eram leves e conseguiram se adaptar conforme as necessidades iam surgindo, afirma a Coordenadora. Pode-se citar como exemplo, uma aluna que apresenta dificuldades motoras, tanto nos membros inferiores quanto superiores, contudo, se locomove sem auxílio de equipamentos. Segundo a Direção, sempre houve uma preocupação em relação à sua adaptação e envolvimento com os outros alunos. Através de observações, verificou-se que a aluna se relacionava bem com todos e demostrava gostar muito de estudar ali. Outra preocupação era com a quantidade de cópia. Como dito antes, o colégio utiliza-se de uma 27 quantidade de cópia, relativamente grande, como forma de fixação do conteúdo, e como a aluna apresenta dificuldades na coordenação motora fina, muitas vezes, não conseguia acompanhar o andamento da turma. A solução encontrada pelos professores que lidavam com ela, juntamente com os pais da aluna, foi providenciar folhas digitalizadas com resumos e revisões para aluna, assim como xerox de cadernos, quando necessário. Além disso, a aluna também possuía um tempo maior para realizar as avaliações. E quando ela apresentou um certo bloqueio com relação aos testes e provas, foi realizada uma avaliação diferenciada para que ela obtivesse a média em seu boletim. Segundo a Diretora, todas estas adaptações e decisões foram tomadas junto à família e à psicóloga da aluna. Há, também, caso de autismo leve nas séries iniciais. O aluno frequenta a escola à 2 anos e todos que o conheceram em seu primeiro dia de aula, ficam admirados com seu avanço, conta a Coordenadora da Educação Infantil. Ela relatou que a mãe ainda não havia levado a criança à um especialista, e que, juntamente com a professora e a orientadora educacional, a partir de observações à respeito do seu comportamento, decidiram chamá-la e orientá-la à procurar ajuda especializada. Passaram, assim, a trabalhar em equipe, escola, família e profissionais especializados (neurologista e fonoaudióloga), objetivando auxiliá-lo em seu desenvolvimento e socialização. Atualmente, o aluno frequentará o Pré-escolar II, se relaciona muito bem com os outros alunos e professores e alcançou um desenvolvimento cognitivo grande, segundo sua professora. Se tratando de um colégio conteudista, percebe-se que a preocupação com relação ao acompanhamento dos alunos com NEE vai aumentando conforme o avanço das séries. Muitos dos profissionais não acreditam que seja possível uma inclusão efetiva dentro do colégio, dependendo das NEE que o aluno apresentar. Quando perguntados se sentem preparados para a inclusão, a maioria afirma que não, que possuem muitas dúvidas a cerca da maneira de lidar com as necessidades, com o preconceito e com as limitações. Poucos são os profissionais que buscaram ou estão buscando informações e estudos sobre o tema. 28 Todos os profissionais entrevistados afirmam que a inclusão educacional é um grande desafio, mas que pode trazer muitos ganhos para a sociedade, de maneira que ela favorece o respeito e igualdade entre os indivíduos. A escola, além de transmitir conhecimentos, deve, também, preocuparse com a formação global dos alunos, preparando-os para uma sociedade repleta de diversidades. A presença de crianças com necessidades especiais nas turmas regulares beneficia a todos os alunos, pois cria um ambiente de aprendizagem mais rico, formando-os para uma sociedade inclusiva. CAPÍTULO III 29 Visão Inclusiva X Visão da Escola A visão Inclusiva de Educação traz consigo uma série de referências, imposições e condições que, muitas vezes, vão de encontro à visão da escola, que se encontra “perdida”, sem saber por onde começar, ou até mesmo, reformulando toda sua proposta, mas não necessariamente, incluindo, devidamente, todos os seus alunos. Neste capítulo, pretende-se melhor direcionar as escolas, em especial, as que possuem uma metodologia tradicional, como é o caso do colégio analisado nesta pesquisa, para que, aos poucos, se adaptem e alcancem uma educação inclusiva de qualidade para seus alunos. 3.1 - Quebrando Barreiras Além das barreiras físicas, já mencionadas no capítulo I, existem as barreiras atitudinais que, geralmente, são mais difíceis de serem rompidas. Além dos pré-conceitos estabelecidos, que disseminam a crença de que estas crianças não são capazes de se desenvolver, não acreditando nas potencialidades destes alunos, focando apenas em suas limitações, os professores temem, também, por não se sentirem preparados para lidar com as dificuldades de aprendizagem, e muitos se sentem desmotivados com a desvalorização de sua profissão. O perigo se encontra naqueles que são “obrigados” a aceitar esses alunos em suas salas, transformando a presença deles em algo “impossível” de resolver e acabam os “deixando de lado”, separados, excluídos da turma. É necessário enxergar estes alunos além de suas limitações, valorizando suas potencialidades. A predisposição dos professores frente à diversidade existente na sala de aula está extremamente ligada à compreensão das diferenças individuais. Só assim, o professor poderá aceitar, respeitar, remover ou intensificar os obstáculos e promover uma educação inclusiva de fato. 30 Cabe à escola promover este incentivo e orientar seus professores à pesquisar, estudar e buscar conhecimento sobre o tema, dando-lhes os devidos suportes necessários. Qualquer mudança gera um certo estranhamento ou rejeição, num primeiro momento. Mudar é difícil porque estamos acostumados a nos acomodar, ao conhecido, e mudar nossas práticas usuais, requer reconhecer limites e deficiências no nosso próprio trabalho. “Significa lançar olhares questionadores e de estranhamento para práticas tão familiares que parecem verdadeiras.” (BRUNO; GARRIDO, 2000, p. 10) Ao questionarmos nossas práticas, nossos hábitos e valores, nos deparamos com o nosso EU, nossa identidade, nossa maneira de pensar e viver, gerando uma instabilidade, surgindo novos conflitos. O educador deve estar em constante reflexão, se adequando e readequando, buscando um aperfeiçoamento. Sempre apoiado pelos coordenados, os quais devem propiciar “condições para o desenvolvimento profissional, tornando-os autores de suas próprias práticas.” (BRUNO; GARRIDO, 2000, p. 9) Esta reflexão proporciona a auto-avaliação dos professores sobre suas práticas, a troca de experiência entre eles e o aprofundamento de conhecimentos relativos ao processo de ensino, segundo Bruno (2000). Muitos são os professores que afirmam não terem condições para buscar cursos ou workshops de aperfeiçoamento e formação continuada, usando como desculpa falta de tempo, o cansaço, o desgaste, ou até mesmo o valor de investimento. Infelizmente, não existem soluções prontas, os profissionais de educação deveriam ter a consciência de que é preciso tentar encontrar maneiras de adaptar-se às novas demandas. Uma solução que tem se mostrado eficiente, segundo Bruno et al. (2000), é a criação de grupos de formação contínua na própria escola, onde um professor-coordenador assume a função de líder, mediando discussões e debates sobre diferentes temas, constituindo-se um espaço coletivo de crescimento pessoal e profissional. Desta forma, não há custos nem desgaste de locomoção do professor, já que seu aperfeiçoamento se dará no próprio cotidiano escolar. 31 Contudo, para que este projeto de formação contínua dentro da própria escola dê certo, é muito importante que os professores sejam e se sintam valorizados, respeitados e ouvidos. É dever do professor-coordenador estimular e mediar o tempo, para que todos compartilhem suas experiências, aflições e sugestões. Além disso, deve ter sua metodologia definida e seus objetivos bem claros para que as discussões não mudem de percurso e se percam. Portanto, para uma formação contínua eficiente dependemos das condições oferecidas pela gestão escolar, mas também da atitude dos professores diante do seu desenvolvimento profissional. Como afirmado anteriormente, é muito difícil. Por isso, Bruno e Christov (2000), colocam que, primeiramente, deve-se preparar o ambiente, afirmando que é preciso gerar um clima de confiança para as discussões, a partir de um envolvimento entre o grupo, de um diálogo aberto, e até mesmo de dinâmicas de grupos que trabalham confiança e conhecimento do outro. As reflexões podem ser feitas a partir de observações e análises sobre a prática, registrando percepções, avanços, dúvidas e dificuldades. Esta reflexão problematizadora proporcionará certa autonomia e compreensão sobre o fazer pedagógico. É importante ressaltar que buscar cursos e aperfeiçoamentos de diversas formas é sempre produtivo. José Cerchi Fusari (apud BRUNO, 2000) acredita que o ideal é que a formação contínua ocorra de forma articulada, dentro e fora da escola. Afinal, a contribuição de outros centros de formação pode ser muito útil para o dia-a-dia da das outras escolas. Outra barreira levantada pelo professor, que, infelizmente, não podemos negar a existência, como dito anteriormente, é o pré-conceito. Muitos professores estão acostumados à estigmatizar seus alunos com rótulos, que definem e acabam por segregar os alunos em capazes e incapazes. Nas salas de aulas regulares com alunos com necessidades educacionais especiais então, este fato é muito comum, afinal, estes professores acreditam que estas estariam melhor assistidas nas Instituições Especializadas. 32 Por isso também a importância do incentivo ao estudo contínuo, para que estes professores absorvam novos olhares e aprendizados, desmistificando teorias que acreditavam serem verdadeiras. Outro pré-conceito, muitas vezes estabelecido, é com relação às famílias dos alunos. Alguns professores ainda possuem o pensamento de que a família não deve ter participação no que diz respeito ao pedagógico da escola. O professor não deve colocar uma barreira entre sua sala de aula e os familiares de seus alunos. Ao contrario, devem trabalhar em conjunto. Nos casos com necessidades especiais então, a participação e relação com a família é extremamente importante. Temos que nos conscientizar que, provavelmente, o processo de aceitação da deficiência dentro da família não foi nada fácil, afinal não há como negarmos que há um choque e a perda da idealização deste filho. Por isso, os cuidados começam desde o primeiro momento em que a deficiência é diagnosticada. Profissionais e família passam a trocar experiências e conhecimentos, estabelecendo uma relação de confiança. A compatibilidade entre a equipe profissional e a família é essencial para o pleno desenvolvimento da criança. 3.2 - Família A aprendizagem e desenvolvimento começam antes mesmo da escolaridade, é só observarmos as conquistas das crianças antes de entrar na escola. Os estímulos familiares e ambientais são fundamentais para que a criança tenha um bom rendimento em sua vida escolar. Portanto, a criança, desde cedo, deve ser estimulada, com segurança, carinho e comunicação. É importante estabelecer um laço afetivo, para que a criança se sinta amada, segura e confiante, mas sem superprotegê-la, o que é muito comum em casos de crianças com necessidades especiais. É preciso saber dosar este acolhimento afetivo para que não prejudique o desenvolvimento da criança. Ensiná-los a seguir e respeitar as regras é fundamental, afinal vivemos em um mundo organizado por regras sociais, ou seja, estamos ensinando-os e ajudando-os a se adaptar ao mundo e ter um comportamento socialmente aceitável. Portanto, os pais devem estar atentos ao comportamento e reações de seus filhos, desde a infância, porque à medida que eles crescem, os 33 comportamentos vão se cristalizando e tendem a se acentuar na adolescência. O estabelecimento de limites e regras claras, objetivas e adequadas, juntamente com essa estimulação precoce, auxiliará a sua adaptação no ingresso ao ambiente escolar. A presença ativa dos pais na educação inclusiva não se limita ao ambiente escolar. Deve haver uma continuidade em casa, onde os pais, orientados por profissionais habilitados, devem estimular seus filhos, acompanhando, também, o seu desenvolvimento em todos os aspectos de sua personalidade. Nas escolas especiais, a criança terá a oportunidade de conviver com outras crianças que também possuem necessidades especiais. Já em uma escola inclusiva, ela estará inserida e conviverá com crianças diferentes. Contudo, seja qual for a escolha, o envolvimento familiar será a base de sua escolaridade e sociabilidade. Uma coisa é certa: A criança com necessidades especiais deve ter contato com as outras crianças. Portanto, se a escolha da família for colocá-la em uma Instituição de Ensino Especializada, ela deve promover encontros com crianças ditas normais, seja na pracinha, praia, ou em atividades extras, como danças, artes, esportes, etc. Esta troca é muito importante para ambas as crianças, afinal, aceitar e respeitar o diferente é o princípio básico para a inclusão social. Todas as crianças devem ser estimuladas o tempo todo, tendo elas alguma necessidade educacional ou não. A reeducação deve estar presente durante todo o desenvolvimento da criança, em especial, naquelas que apresentem algum comprometimento. Devemos trabalhar suas habilidades corporais, sociais, desenvolver sua autonomia e independência, facilitando, assim, a aprendizagem. Consequentemente, a partir de às suas conquistas, as crianças vão adquirindo sensação de prazer e alegria e se redescobrindo. Todos - família e escola - devem fazer sua parte para contribuir para o melhor desenvolvimento e educação da criança. 3.3 - Lado administrativo 34 Conversando com o diretor financeiro do colégio analisado, podemos verificar, a partir de suas falas, sua preocupação à respeito dos gastos e custos que a educação inclusiva pode trazer para dentro de sua escola. Olhando do ponto de vista administrativo e financeiro, realmente é difícil calcular os gastos que o colégio terá. Primeiramente, se tratando de em colégio particular, se a escola deve se adaptar completamente para receber possíveis alunos com necessidades educacionais, isto gerará um investimento financeiro muito grande, que terá que ser retirado das mensalidades dos alunos já matriculados. Para ele, é inviável realizar todas as adaptações previstas, sem saber se haverá algum aluno com necessidades especiais matriculado e quais serão suas necessidades. “Não há como construir rampas de acesso, elevadores, comprar carteiras adaptadas, materiais pedagógicos destinados à pessoas com deficiência visual, contratar um intérprete de Libras, e chegar um aluno com alguma outra necessidade, que não irá precisar de nada destas adaptações, por exemplo. Acredito que a escola deve sim se adaptar às necessidades de seus alunos, porém, à medida que estas necessidades forem aparecendo, até porque, identificando quais são as necessidades especiais e adaptações necessárias, a escola poderá prover melhores condições, materiais e equipamentos para os determinados alunos.” Ele sugere, ainda, que essas adaptações deveriam ser cargo do Estado e não das escolas privadas, afirmando que como o Estado não consegue dar conta desta estrutura, acaba passando a responsabilidade para as Instituições Privadas, a fim de diminuir sua responsabilidade. O Instituto Paulo Freire desenvolveu uma metodologia de cálculo do custo-aluno-ano (CAA), que tornou-se uma importante ferramenta para planejamento da educação. O estudo limitou-se às despesas efetuadas pelo poder público para o provimento do ensino fundamental e levou em consideração três grandes grupos de despesas: as educacionais, referentes aos gastos com materiais que refletem diretamente sobre os atos pedagógicos; as sociais, relativas aos programas de apoio ao estudante, como alimentação, saúde e transporte escolar; e as de gestão, que dizem respeito à manutenção e desenvolvimento dos órgãos gestores. Assim como também as despesas de 35 capital (depreciação, manutenção e custo de oportunidade) e as despesas correntes, que dizem respeito à aquisição de serviços e bens duráveis. Obviamente, estes cálculos devem estar sempre sendo revisto, e além disso, esta metodologia foi realizada para os estabelecimentos de ensino público, mas nada impede que as escolas particulares, sigam as instruções, adaptando-as a cada realidade. Para calcular o valor da mensalidade de cada aluno, o colégio analisado utiliza uma planilha de custo desenvolvida pelo departamento administrativo, onde são colocados todos os tipos de gastos mensais e o número de alunos matriculados. É verdade que as escolas precisam se planejar administrativamente e financeiramente para que possam providenciar os recursos necessários para o seu desempenho, porém, mesmo com a metodologia do CAA, a margem de erro se torna ainda maior, se pensarmos na perspectiva inclusiva. O Diretor afirma que “para dar conta de todas essas adaptações, precisaríamos aumentar as mensalidades de todos os alunos, gerando descontentamento dos pais. Não podemos correr este risco, já que além de sermos um colégio, somos uma empresa, na qual uma das minhas funções é garantir que no final do mês, conseguiremos pagar todas as contas e todos os profissionais.” Segundo Gadotti & Romão (1997), a maior parte dos custos educacionais se referem aos gastos com pessoal. Esta informação também foi confirmada com o entrevistado, e, analisando por este lado, a contratação de profissionais mediadores para acompanhar cada aluno com necessidades especiais, também torna-se inviável. O diretor financeiro entrevistado coloca que acredita que esta medida seria possível somente para os casos mais extremos, onde realmente o aluno precisa de um mediador para se comunicar, como é o caso dos alunos com déficit auditivo ou visual, por exemplo. Uma sugestão dada por ele para este aumento de custos nas redes particulares de ensino, seria o Estado, de certa forma, arcar com estas despesas, através de isenção de impostos para estas instituições, fazendo com que estas desviassem e investissem, assim, o valor que seria pago em tributações para as devidas adaptações, por exemplo. “Infelizmente, se não houver nenhum tipo de bonificação ou auxílio do Estado, não há como estar 36 100% preparado para receber este tipo de aluno, a não ser que os pais destes se responsabilizassem por, pelo menos, parte dos gastos, o que também não acredito ser o ideal.” 3.4 – Equilíbrio Fica claro, então, que a constante reflexão sobre a prática é fundamental. Segundo Mantoan (2002), só se alcança o sucesso quando o educador e a escola assumem que a culpa de determinado aluno não conseguir aprender, não é somente dele, mas também do modo como o ensino é ministrado, de como ele recebe esta informação e de como é avaliado. A adequação das práticas pedagógicas à diversidade dos aprendizes é uma necessidade. O professor sempre acaba usando como desculpas, a sua falta de capacitação para incluir estes aluno, afinal, não sabe como preparar para a diversidade humana. Como é colocado por Abenhaim (apud MACHADO, 2005), deve-se atender as necessidades à medida que elas surjam, a partir da necessidade de cada sala, de cada escola. Capacitar os educadores, não significa possuir um profissional especializado em uma necessidade específica, afinal nem todos os alunos com autismo, por exemplo, apresentam as mesmas necessidades. “A inclusão impõe um olhar para cada um como um ser em desenvolvimento, que precisa de caminhos para desenvolver seu potencial.” (MACHADO, 2005, p. 52) A pedagogia centrada no aluno permite identificar suas necessidades, respeitando seus direitos de cidadania, de pertencer e de participar, que Carvalho (2002) coloca. Durkheim (1952) afirma, por exemplo, que a Educação não visa apenas proporcionar o conhecimento, mas tem três funções complementares: disciplina, pertencimento e autonomia; que estão extremamente relacionadas à educação inclusiva. - Disciplina: O aluno, dentro do processo de ensino-aprendizagem, aprenderá à respeitar as regras e deveres estabelecidos, e principalmente, respeitar as diferenças. Ao longo do processo, perceberá que cada um de 37 nós temos nossos limites, tempos e habilidades diferentes. Devemos respeitar à todos; qualquer um está sujeito à uma necessidade especial, seja permanente ou provisória. - Pertencimento: O aluno deve se sentir seguro, respeitado, a vontade dentro do grupo, em um ambiente de confiança. Em uma educação inclusiva, isto é fundamental para que o aluno com necessidades especiais não se sinta oprimido, desmotivado ou incapaz. As individualidades devem ser identificadas e respeitadas entre todos. Reconhecer as diferenças sem fazer com que elas se tornem algum obstáculo ou bloqueio. - Autonomia: Se sentindo pertencente ao grupo, o aluno vai se desenvolver mais, pois não terá nenhum tipo de bloqueio ou medo de errar, permitindose experimentar, perguntar, refletir, indagar, sobre qualquer assunto, e assim desenvolver sua autonomia, dentro de seus limites. Para os portadores de necessidades especiais, isso é extremamente importante, pois passam a enxergar um mundo onde não dependem 100% de uma outra pessoa, socializando-os e aumentando sua autoestima. Sendo assim, é necessário um novo olhar sobre o que é trabalhado nas escolas, o qual enxerga a escola como um espaço de crescimento e desenvolvimento do indivíduo, não só oferecendo-lhe conhecimento, mas também preparando-o para a vida adulta, para a sociedade, formando-o como cidadão. “Uma escola ressignificada dentro do paradigma inclusivo necessita compreender, portanto, que não é a quantidade de conteúdos que garante uma boa formação, mas sim todo um conjunto de fatores: pedagógicos, culturais, sociais...” (DOS SANTOS, 2002, p.3) Sabemos que em uma perspectiva metodológica tradicional, há a valorização dos conteúdos, principalmente por terem como preocupação o Vestibular, como mostrou as entrevistas realizadas no colégio analisado. Se pensarmos como Mantoan (2002), que afirma que em uma educação inclusiva os alunos aprendem até o limite em que conseguem chegar, onde o professor considera o desenvolvimento de cada um e explora suas habilidades por meio de atividades distintas, à medida de seus interesses e necessidades, realmente este tipo de educação se torna um grande desafio, praticamente 38 utópico, para as escolas regulares tradicionais. Contudo, assim como existem os alunos que necessitam de certa liberdade de escolha e meios, existem aqueles que necessitam de uma metodologia mais centrada, onde ele possa se sentir seguro, para, aos poucos, desenvolver sua autonomia, como demonstrado em algumas das falas de professores e coordenadores do colégio observado e como é colocado na matéria Eberspacher para Gazeta do Povo (2013). As escolas tradicionais podem começar, portanto, partindo da realidade de seus alunos, considerando suas experiências de vida cotidiana, para chegar à sistematização do saber, colocando “as disciplinas acadêmicas como meios e não fins em si mesmas.” (MANTOAN, 2002, p. 4) Desta forma, estariam promovendo o respeito, facilitando a aceitação e as mudanças que vierem a ser necessárias. Ao conhecerem a realidade de seus alunos, os professores, além de se depararem com a diversidade, irão conseguir entendê-los melhor, descobrir seus interesses, tornando mais fácil de eleger o meio e o modo que melhor atenderão seus alunos. Dentro da perspectiva inclusiva, o professor, de maneira alguma, deve encarar as necessidades surgidas como um problema insolúvel ou ignorá-las como se não houvesse nada de diferente ali. Ele deve procurar conhecimento sobre o aluno, através de conversas, pesquisas, estudos, e, principalmente, trocas com outros profissionais que lidam com o aluno e com sua família. A presença da família é necessária em todos os momentos. Portanto, não seria diferente no momento do ingresso de seu filho à escola. A presença e acompanhamento dos pais/família na educação de seus filhos são fundamentais. A família assume um papel importantíssimo no processo de aprendizagem e desenvolvimento de seu filho, afinal, é a primeira forma de interação da criança com o mundo, e é com ela que ela vai adquirir suas primeiras aprendizagens e percepções, construindo, aos poucos, suas individualidades e autonomias. Ela é quem oferece a primeira formação e acaba sendo uma referência para a criança. O distanciamento dela perante a 39 escola, pode provocar desinteresse e desvalorização da educação por parte da criança. A família tem que estar atenta à tudo que acontece na escola, acompanhando as atividades escolares do filho, estabelecendo um relacionamento com seus professores e com as famílias dos outros alunos. No caso de crianças com necessidades especiais, então, esse acompanhamento dos pais deve ser ainda mais contínuo. A escola, por sua vez, também deve cumprir sua parte, possibilitando um diálogo de comunicação aberta com a família. Esta relação Escola-Família é muito importante para entender e melhor atender cada um de seus alunos. Tem que haver um acolhimento por parte da escola e do professor para escutar as angústias, dúvidas, receios e exigências dos pais perante a educação de seus filhos, e assim, trabalharem em conjunto no processo ensino-aprendizagem. Com esta aproximação, elas passam a pensar juntas, descobrindo novos caminhos e novas soluções para enfrentar os obstáculos formados, a fim de alcançar o sucesso escolar para cada uma de suas crianças. Para que mudanças ocorram em sala de aula, é fundamental que a Coordenação e Gestão Pedagógica estejam disponíveis, não há espaço para uma gestão centralizada. Se a escola pretende oferecer uma educação democrática, deve possuir uma gestão democrática. Uma gestão democrática, por si só, promove a participação e o envolvimento de todos. Os professores devem se sentir à vontade também para sugerir modificações curriculares, flexibilidade nos planos, etc. Eles é quem estão em sala, convivendo com os alunos diariamente, identificando suas dificuldades. Alguns professores tem medo de conversar sobre tais assuntos com a Coordenação, por exemplo, acreditando que seria uma falha própria e individual. Pôde-se observar esta situação na fala de uma das coordenadoras, a qual afirma que uma das dificuldades que possui é fazer com que os professores compreendam que devem procurar a Coordenação sempre que tenham alguma colocação a fazer a respeito do planejamento. Mas será que 40 isto não ocorre porque a própria Coordenação criou uma barreira ou se posiciona como detentora do saber? Uma solução para este possível problema, seria a criação de grupos de estudo de formação contínua, como colocado aqui, no subcapítulo 3.1Quebrando Barreiras. Afinal, criaria uma relação mais estreita, de confiança e rotineira entre ambas as partes, e ao mesmo tempo, estariam utilizando este tempo para pesquisarem e construírem novos conhecimentos. A descentralização da gestão administrativa promove uma maior autonomia pedagógica, administrativa e financeira de recursos materiais e humanos das escolas. Todos participam, inclusive os alunos e a família. A escola se torna um ambiente de troca, onde todos se sentem pertencentes. 41 CONSIDERAÇÕES FINAIS Fica claro, então, que a Educação Inclusiva envolve à todos: escola, professores, profissionais especializados, família, comunidade, sociedade, etc. Cada um deve fazer a sua parte para alcançarmos a verdadeira educação de qualidade para todos. Em suma, para que haja uma educação de qualidade para todos, é preciso preencher a escola com um ambiente saudável, seguro, confiável, harmônico, aberto, livre e igualitário. Esta deve ser a imagem do escola. E isso só é viável a partir de estratégias que possibilitem a relação e participação dos alunos, da família, e do engajamento dos professores e funcionários. Como afirma Abramovay et al. (2004), “A construção do bom clima na escola passa, necessariamente, por um trabalho pautado no combate às variadas formas de exclusão, tão presentes na sociedade.” (p. 93) Se percebermos como a escola é um rico espaço de interação e integração, podemos observar que simples situações cotidianas podem auxiliar no desenvolvimento dos alunos, por isso, um bom clima é tão importante para a qualidade do processo ensino/aprendizagem. “Se o desenvolvimento individual depende da interação social, a própria formação, o próprio mundo de significados em que se existe, é função do viver com os outros. A aceitação do outro é, então, o fundamento para que o ser observador ou autoconsciente possa aceitar-se plenamente a si mesmo.” (MATURANA; VARELA, 1995, apud CARVALHO, 2002, p. 23) Ainda temos uma longa trajetória pela frente. Para alcançarmos esta inclusão educacional e social, temos que reestruturar toda uma cultura que, durante anos, acreditou que os portadores de necessidades especiais não eram capazes de se socializar, estudar, aprender, trabalhar, etc. É necessário quebrarmos algumas barreiras e preconceitos. É importante termos consciência de que quando um individuo tem algum déficit ou dificuldade, não significa que ele está restrito, e sim que terá um ritmo diferente. A postura dos professores e profissionais de educação é extremamente influente no êxito do processo da Educação Inclusiva de qualidade. Estes 42 devem estar abertos e pré-dispostos à transformações, mudanças, novas descobertas, formação constante e atualização. A ideia de reuniões ou encontros na própria escola para pesquisar, debater e estudar sobre determinados temas pode ser uma solução muito eficaz, já que facilita a presença e minimiza o deslocamento e tempo dos profissionais, e, ao mesmo tempo, pode gerar discussões e aprendizagens bastantes ricas para a prática profissional, promovendo atualização e transformação da mesma. Sem descartar, é claro, os cursos e palestras fora, pois estas também podem trazer muitos ganhos para os encontros dentro da própria escola, por exemplo. Acredito que com a formação continuada, barreiras e pré-conceitos vão sendo eliminadas, assim como a ideia do “aluno perfeito”, sem dificuldades, normalmente idealizado pelo professor. Cada criança tem seu ritmo, tendo ela alguma necessidades especial ou não, e o professor/educador deve conhecer cada um de seus alunos, sem rotulá-lo, valorizando suas competências e não suas limitações. O professor não pode paralisar frente às limitações dos alunos, ele deve intervir nas atividades que o aluno ainda não tem autonomia para desenvolver sozinho, ajudando-o a se sentir capaz de realizá-las, melhorando, assim, sua autoestima. Ao identificar as competências, ele encontrará alternativas de ensino e condições favoráveis à participação do aluno nas aulas, auxiliando na sua aprendizagem. Pra isso, é necessário que haja um planejamento flexível, para que o professor tenha autonomia e siga com o conteúdo à medida que seus alunos forem aprendendo. Não adianta avançar com o conteúdo, se o anterior ainda não foi devidamente compreendido pelos alunos. Podemos concluir que uma Educação Inclusiva de verdade não existe sem flexibilidade. É justamente por meio da adequação de práticas pedagógicas que se alcança uma educação de qualidade que leva em conta a diversidade de seus alunos. Para atingir esse sucesso é necessário uma ampla visão dos professores e educadores sobre seus alunos e sobre si próprios. É necessário autocrítica e auto-avaliação a cerca de suas metodologias e métodos, 43 assumindo que as dificuldades de alguns alunos não são apenas deles, como afirma Mantoan (2002). “Educar é uma luta constante, é sempre um novo recomeço” (GADOTTI M. & ROMÃO, 1997, p. 87), por isso a importância do preparo profissional do professor/educador. Ele tem que estar preparado para lidar com esta diversidade, adotando uma proposta curricular flexível. Para Dos Santos (2002), este profissional deve ser dotado de características, como criatividade para planejar diversas atividades, competência, mantendo-se sempre atualizado e incentivando seus alunos a fazerem o mesmo, experiência para oferecer várias oportunidades de aplicação e realização do conteúdo aprendido por seus alunos para melhor aprendizagem, investigação, se preocupando em instigar em seus alunos a curiosidade e o prazer de descobrir, crítica, entendendo que é essencial que o conteúdo ensinado seja dotado de significação para a vida do aluno, e humildade, reconhecendo que não é o único detentor do saber. Os métodos avaliativos também precisam ser revistos. A avaliação inclusiva, por exemplo, é diversificada, sendo oferecidas diversas formas e oportunidades para o aluno mostrar o que aprendeu ao longo do seu processo de aprendizagem. Esta forma de avaliar é muito enriquecedora para os alunos e professores pois “possibilita que um processo de negociação entre aluno e professor se instaure na relação pedagógica” (DOS SANTOS, 2002, p. 5), promovendo a troca e o diálogo entre todos. Dentro do paradigma inclusivo, uma boa formação não é garantida pela quantidade de conteúdos. Se tratando de um colégio que adota uma metodologia tradicional, que tem como um dos objetivos preparar para o Vestibular, como é o caso do colégio analisado, obviamente que não há como deixar de lado os conteúdos, mas acredito que há maneiras de, aos poucos, se adaptar à proposta inclusiva. Até porque, ao levar em consideração os interesses, capacidades e limitações dos alunos, a aprendizagem se torna mais prazerosa para eles, que passam à ver significado naquilo que aprendem e ganham autoestima à medida que percebem como evoluíram. Acredito que se estamos caminhando para uma educação de qualidade para todos, onde o principal objetivo é a formação para a cidadania, onde deve- 44 se valorizar o processo ensino-aprendizagem e não o resultado final, deve haver uma mudança no nosso Vestibular. Não adianta estabelecermos uma série de mudanças e transformações no ensino, se lá na frente, o aluno irá se deparar com a mesma situação que pretendíamos evitar no inicio. Constantemente ouvimos e lemos críticas às avaliações conteudistas e classificatória, defendendo a ideia de que o aprendizado é gradativo e que devemos respeitar o tempo de cada um, e que, portanto, as avaliações deveriam ser contínuas, avaliando, assim, todo o processo. Concordo plenamente, porém, não podemos esquecer que a nossa forma de ingresso às universidades é através dos Vestibulares. Provas estas que são, em sua maioria, conteudistas e classificam o rendimento daquele determinado aluno de acordo com as provas que realizou para ingressar em determinado curso. Buscamos um ideal, onde o sistema educacional não se resume a ensinar somente conceitos e teorias, mas que também ensine a respeitar o próximo e suas individualidades e admirar as habilidades de cada um. O desenvolvimento da criança tem que vir em primeiro lugar, assim, ela estará pronta para enfrentar os desafios de uma vida adulta. Mantoan (2002) afirma que a escola prepara o futuro e que se as crianças, desde cedo, conviverem e aprenderem a valorizar a diversidade, “serão adultos bem diferentes de nós, que temos de nos empenhar tanto para defender o indefensável.” (p. 10) Ele ainda afirma que, em uma Educação de qualidade para todos deve haver, valorização da diversidade como elemento enriquecedor do processo ensino-aprendizagem, professores conscientes para promover a aprendizagem de todos e valorização do processo de aprendizagem sobre o resultado. Uma coisa é certa: não podemos “educar a todos” sem realizar as devidas adaptações curriculares. No entanto, para que essas adaptações sejam realizadas, é preciso uma transformação geral, tanto no âmbito escolar como social. Afinal, a inclusão escolar envolve à todos, dentro e fora da escola. Ou seja, exige uma transformação cultural e social com relação ao “diferente”, para, assim, 45 podermos aceitar as diferenças e limitações do outro, sem preconceito ou pena. Para Rosita E. Carvalho (2010), devemos entender a educação especial como: “o conjunto de recursos que todas as escolas devem organizar e disponibilizar para remover barreiras para a aprendizagem de alunos que [...] necessitam de apoio diferenciado daqueles que estão disponíveis na via comum da educação escolar.” (p. 19) Esta proposta é uma das formas de se conceituar a educação inclusiva, afinal, ela pressupõe adaptações a fim de alcançar uma educação de qualidade para todos dentro da escola. É de extrema importância que todos tenham a consciência que Educação Inclusiva não é somente o ingresso de crianças com necessidades especiais no sistema regular de ensino. É preciso haver toda uma preparação para receber estes alunos. Isto não é democratização do acesso à educação. Se não houver esta preparação prévia, as consequências podem ser ainda piores para essas crianças. Bueno (2001) questiona que não adianta colocar tais crianças nas classes regulares e afirmar que estas atingiram níveis de determinadas séries/anos, “se uma avaliação um pouco mais refinada comprova que estas crianças não conseguiram incorporar um mínimo de conteúdo correspondentes a essas mesmas séries?” (p. 05) Ele acredita que deve-se analisar cada caso e verificar quais os riscos efetivos que estes alunos correm ao serem incluídos no sistema regular de ensino. E que somente os casos onde os riscos forem inexistentes ou muito pequenos deveriam ser inseridos nas classes regulares. Portanto, nada justifica o fim da Educação Especial, até porque, nosso sistema não está preparado para receber essas crianças. “[...] nosso País ainda não reúne condições, em razão de condições sociais e econômicas e de nossa diversidade regional, para sua imediata implantação.” (BUENO, 2001, p. 07) É necessário, portanto, uma mudança no Sistema Educacional como um todo, mas, aos poucos, com a implementação de leis e decretos que favorecem 46 a socialização dos portadores de necessidades especiais, estamos buscando uma sociedade mais solidária e menos preconceituosa. A Educação Inclusiva promove, consequentemente, uma postura social inclusiva, acolhedora, não-discriminatória, onde todos respeitam as individualidades de cada um. Afinal, ela é uma forma de construção de solidariedade entre uma criança com necessidades especiais e seus colegas. Não podemos nos esquecer que o nosso sistema educacional tem como objetivo alcançar uma Educação de qualidade para TODOS. Portanto, todas as escolas devem se preparar e se adaptar a esta nova realidade, não sendo necessário mudar totalmente sua metodologia, e sim, fazer as devidas adaptações de forma que garanta que todos os seus alunos tenham acesso a um aprendizado efetivo. Uma escola inclusiva deve reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, oferecendo os devidos suportes extras para assegurar uma educação efetiva. O encaminhamento de crianças à escolas especiais deve ser somente em caso de exceção, onde fique claro que a educação regular é incapaz de atender às necessidades do aluno. Acredito que há sim como incluir alunos com necessidades especiais no sistema regular de ensino, porém deve-se analisar cada caso, assim como a família analisa e escolhe a metodologia que acredita ser a melhor para o seu filho, tendo ele necessidade especial ou não. “A grande mudança exige um esforço contínuo e paciente das pequenas ações.” (GADOTTI M. & ROMÃO, 1997, p. 45) 47 ANEXOS - Entrevistas Índice de anexos Anexo 1 >> Perguntas sobre Educação Inclusiva; Anexo 2 >> Perguntas sobre a Metodologia Tradicional empregada; Anexo 3 >> Perguntas para o Diretor Financeiro/Administrativo. Observação: Para as entrevistas utilizou-se a técnica de entrevista semiestruturada, objetivando um contato mais próximo entre o entrevistador e o entrevistado. 48 ANEXO 1 Perguntas norteadoras sobre Educação Inclusiva para as entrevistas com os profissionais do colégio analisado: 1) O que você sabe sobre educação inclusiva? 2) Você acredita que a Inclusão é algo viável dentro de uma escola? 3) Quais os benefícios da inclusão para os alunos? 4) A escola tem o dever de educar. Educar para a vida. Como você acredita que a Inclusão favorecerá a nossa sociedade? 5) A inclusão é um tema discutido e debatido na sua escola, entre os professores? 6) Como está sendo vista, na sua escola, a nova legislação à respeito da inclusão de portadores de necessidades especiais na rede regular de ensino? 7) Quais são as medidas que sua escola tem tomado para estar preparada para uma Educação Inclusiva? 8) Há algum aluno com necessidades educativas especiais matriculado na escola? 9) Que tipo de suporte e adaptações vocês realizam para atender suas necessidades? 10) Que outros tipos de recursos e adaptações você acredita ser viável, dentro de uma metodologia tradicional? 11) Com relação à Avaliação, quais adaptações você acredita serem viáveis? 12) Acredita que seus profissionais estão capacitados para lidar com alunos com necessidades especiais? 13) Você possui algum receio com relação à aceitação dos pais dos outros alunos? 14) Pra você, qual o maior desafio em implementar uma educação inclusiva na escola? 49 ANEXO 2 Perguntas norteadoras sobre a Metodologia Tradicional empregada para as entrevistas com os profissionais do colégio analisado: 1) Fale um pouco sobre o PPP do colégio. 2) Como são feitas as avaliações? 3) E como são avaliadas as aulas extras, como inglês, música, informática, educação física, etc.? 4) Como são planejados e programados os currículos e planejamentos de cada ano/série? 5) Você considera que os conteúdos dados são importantes para a formação dos alunos? 6) Como é estipulado os planos de aula? Há flexibilidade com relação ao tempo ou, até mesmo, aos conteúdos programados? 7) Como é o diálogo entre a Coordenação e o Corpo Docente? Quais as maiores dificuldades? 8) Vocês possuem matérias e recursos pedagógicos de apoio para os professores? São, frequentemente, utilizados? 9) O Colégio foi fundado há mais de 50 anos. Quais as diferenças dos currículos e metodologias do colégio daquela época e de agora? 10) Como é a relação dos pais com o colégio? 11) Com relação à inclusão, dentro da perspectiva tradicional, quais são os maiores desafios? 50 ANEXO 3 Perguntas norteadoras para entrevista com Diretor Financeiro/Administrativo do colégio analisado: 1) Existe algum cálculo de custo anual por aluno? CAA – cálculo custoaluno-ano (Paulo Freire) 2) Quais são os gastos mensais/anuais? 3) O que a inclusão influencia nos gastos/custos do colégio? Adaptações, reformas, novas contratações de profissionais capacitados, novos recursos materiais, etc. 4) Financeiramente/administrativamente falando, você acredita ser viável? 5) O que você considera ser mais complexo, financeiramente/ administrativamente falando? 6) Administrativamente falando, quais seriam os pontos que o colégio precisa de adaptar, para que a inclusão ocorra devidamente? 51 BIBLIOGRAFIA ABRAMOVAY, Miriam et al. Escolas Inovadoras: Experiências bem-sucedidas em escolas públicas. Brasília: UNESCO, Ministério da Educação, 2004. ALVES, Fátima. Inclusão: Muitos Olhares, Vários Caminhos e um Grande Desafio. Rio de Janeiro: WAK EDITORA, 2004. ALVES, Rubem. A escola com que sempre sonhei sem pensar que pudesse existir. Campinas: Papirus, 2001. BRASIL. Constituição de 1988. Constituição: República Federativa do Brasil. Brasília, Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. BRASIL. Ministério da Justiça/ CORDE. 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