Diálogos Acadêmicos - Revista Eletrônica da faculdade Semar/Unicastelo
RELAÇÕES ENTRE LITERATURA X HISTÓRIA
Antonio Sérgio Ferreira
(http: //lattes.cnpq.br/ 301A388F093C24DAD2A7D5B7B5CAB3E4)
Resumo
A literatura tem se servido da história para elaborar seu complexo ambiente de múltiplas
possibilidades e, a partir dessa intersecção, surge o chamado romance histórico
amplamente difundido no século XIX. O presente trabalho visa a lançar uma luz no que
disseram alguns teóricos sobre o assunto: Geórg Lukács, Linda Hutcheon, Maria Teresa
de Freitas, Roland Barthes e outros.
Palavras-chave: literatura, romance histórico.
Abstract
Literature has made use of History to elaborate its complex ambient of multiple
possibilities and from this intersection appears the Historical Novel thoroughly spread in
the 19th century. The present work seeks to throw a light on what some theoretical authors
such as: Geórg Lukács, Linda Hutcheon, Maria Teresa de Freitas, Roland Barthes and
others, said on the subject.
Key-words: literature, historical novel
Distinguir os campos de atuação da Literatura e da História constitui-se em questão
proposta desde a Grécia Antiga e tem suscitado diferentes entendimentos entre os
teóricos.
A dificuldade na diferenciação dos campos de estudo principia na própria limitação
terminológica que, frequentemente, afeta as ciências humanas. Neste caso, por um lado,
o mesmo termo - "história" - serve para designar os acontecimentos históricos, sua
determinação, a análise de suas relações e o registro escrito ou oral de tudo isso. Por
outro, uma única palavra - "literatura" - designa a produção de textos ficcionais de todo
tipo, bem como o estudo e a análise desse fenômeno. Ou seja, ambos os termos já
possuem, isoladamente considerados, um escopo complexo em que se reúnem uma
ciência e seu próprio objeto. Ao confrontá-los avultam dois aspectos essenciais que
tornam a determinação de seus campos de atuação uma zona cinzenta: o primeiro
decorrente da constatação de que os textos literários são fatos históricos (dentro do
sentido História e estória) e o segundo que trata da apropriação pela História de um
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instrumento característico da Literatura - o discurso.
Os textos literários são fatos históricos - uma vez que quem os escreveu estava
historicamente posicionado e influenciado pelo momento - e, ao mesmo tempo, muitas
vezes são representações da História. Por isso, é praticamente impossível pensar em
textos literários sem considerar o contexto histórico em que surgiram e a partir do qual
ganham seu significado último.
A historicidade da Literatura é, assim, relativa à sua própria essência e, de certo
modo, todo romance é histórico no sentido de estar relacionado a um determinado
contexto fático espaço-temporal. Essa relação, no entanto, deve ser superada na medida
em que a Literatura só se firma historicamente quando transcende sua própria
historicidade.
Outro ponto de contato entre Literatura e História nasce do fato de que todo texto
se subordina a uma categoria mais ampla, o discurso. Isso permite entender que o
historiador se serve de um instrumento que pertenceria prioritariamente ao universo da
literatura e permite-nos considerar a historiografia como um discurso menor, já que o texto
historiográfico aponta para a univocidade, contra a equivocidade própria do texto literário.
Nesse sentido, Aristóteles em sua obra Poética, contrapõe duas formas básicas de
narrativa: a histórica e a poética. A primeira tem por objeto o dado concreto e inscreve-se
no domínio da realidade efetiva, da experiência empiricamente verificável. A segunda,
pelo contrário, é definida como uma realidade demarcada do mundo objetivo e
transportada para o reino do possível: "Não é obra de um poeta dizer o que aconteceu,
mas o que poderia acontecer, e o que é possível acontecer, segundo o que é verossímil e
necessário" (Aristóteles, 2001, p. 252).
A ficção surge, portanto, no pensamento de Aristóteles, como o território da
verossimilhança, ou seja, daquilo que sem ser real é possível de se crer que tenha ou
possa ter acontecido. O verossímil não é mais, portanto, que uma analogia do verdadeiro,
e por isso pode-se dizer que a ficção é a capacidade de um fazer-crer, mercê do qual o
artifício é tomado como um testemunho autêntico sobre a realidade e a vida. Ou seja, a
arte da ficção manifesta-se como arte da ilusão.
Analisando a mesma temática, Hegel sustenta que o poeta pode corrigir a História,
concluindo que a Ficção é mais significativa que esta, pois constrói um universo funcional
sem acidentalidades. Para o autor, a Ficção pode chegar à substância íntima da coisa, o
que não pode ser alcançado pela História, que está comprometida com as classes
dominantes. A Literatura seria, portanto, o microcosmo capaz de representar o
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macrocosmo, ao passo que a História prende-se a fatos específicos de uma determinada
época.
Roland Barthes (1988, p.115) em seu Discurso da História a respeito da narrativa
historiográfica diz que “essa narração difere realmente, por algum traço específico, por
uma pertinência indubitável, da narração imaginária, tal como se pode encontrar na
epopéia, no romance, no drama”.
Barthes, no mesmo estudo, ainda aponta que:
Em nível de discurso, a objetividade - ou carência dos signos do enunciante –
aparece assim como uma forma particular de imaginário, o produto do que se
poderia chamar de ilusão referencial, visto que o historiador pretende deixar o
referente falar por si só. (1988, p.119)
Barthes sinaliza que História e Literatura se opõem radicalmente, pois, segundo
ele, a História tem compromisso com a verdade, verdade essa conforme a visão do
Historiador sobre o que deve ou não ser registrado.
No discurso histórico da nossa civilização, o processo de significação visa sempre
a “preencher” o sentido da História: o historiador é aquele que reúne menos fatos
do que significantes e os relata, quer dizer, organiza-os com a finalidade de
estabelecer um sentido positivo e de preencher o vazio da série pura. (1988, 154).
Por sua vez, o discurso ficcional leva em conta, basicamente, a verossimilhança.
Maria Teresa de Freitas (1989, p.109) discute a questão dos limites entre Literatura
e História e aponta que:
Os limites entre a representação e a criação sendo tênues, História e Romance
freqüentemente se confundem, e a fragilidade de fronteira entre esses dois
instrumentos de conhecimento do homem coloca alguns problemas que merecem
estudos.
Existe uma certa correspondência, ainda que em níveis variáveis, entre evolução
histórica e evolução literária, como exemplo, é sabido que as grandes mudanças da
História provocam, em geral, importantes inovações em Literatura, e o florescimento do
célebre “romance histórico” da era romântica, no século XIX, “representa o coroamento de
uma evolução, trazida pela Revolução Francesa, que fez da burguesia uma classe
encarregada de uma missão histórica” (FREITAS, 1989, p.109), e a fecundidade literária
coincide com os períodos de maior intensidade histórica.
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A atração que os temas da História exercem sobre escritores e poetas gera a
literatura de ficção, mitos, epopéia antiga, canções de gesta.
E, finalmente o romance, nascido em fins da Idade Média, seria, segundo inúmeros
teóricos da Literatura, o herdeiro direto da epopéia. A palavra em si designava de
início, simplesmente qualquer obra traduzida do latim, língua erudita, para o
romano, língua vulgar; assim, em fins do século XII, o termo ‘romance’ englobava
um conjunto de narrativas de aventuras heróicas em verso (Freitas, 1989, 110).
A autora ainda afirma que, desde o “nascimento” do gênero denominado
“romance”, existira aquela apropriação da matéria histórica, que é visível pela insegurança
material e intelectual, que dominava os homens da Idade Média e levava-os a se apoiar
em fontes seguras para suas criações ao lado da verdade religiosa, já dominante.
O verdadeiro romance que se apropria da matéria histórica como mote de sua
criação surge no Século XIX:
O século XIX é o século da História: mudanças radicais ocorrem, acontecimentos
grandiosos se acumulam, o ritmo de vida se acelera; ele será também o século do
romance histórico. Os laços entre Literatura e História se estreitam e se realizam
plenamente nessa nova forma romanesca: de um lado, a sensibilidade romântica
povoa a História de curiosidades e de horizontes novos; do outro, a grandiosidade
histórica invade a Literatura romanesca oferecendo-lhe rica e variada escolha de
temas e de personagens. (FREITAS, 1989, p.111).
Freitas ainda salienta que, nesse momento, as interações entre os dois campos de
conhecimento se mesclam e a distinção entre ambas as disciplinas torna-se praticamente
impossível.
A partir da segunda metade do século XIX, com o advento das teorias positivistas
no campo da História transformando-a em Ciência autônoma e isolada “a preocupação
com o rigor na utilização dos documentos, e a busca obsessiva de ‘objetividade’ no
tratamento dos temas, opõe diametralmente a pesquisa histórica à livre invenção
romanesca” (FREITAS, 1989, p.111).
Freitas coloca que a corrente positivista também atingiu a Literatura permitindo
mais uma vez a estreita comunicação entre ambos os universos:
Paralelamente, no entanto, também a Literatura se deixa contaminar pelo espírito
positivista, que se imporá, sobretudo nos postulados da escola naturalista: o
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romance torna-se aí uma espécie de “demonstração prática” de teorias científicas,
redigido a partir de documentos autênticos, e com o objetivo de descrever
“objetivamente” a realidade exterior. A busca de exatidão e de fidelidade ao real
será então uma preocupação comum aos dois domínios, que continuam, portanto a
se relacionar estreitamente. (FREITAS, 1989, p. 112).
A utilização da matéria histórica como tema da obra romanesca trata-se
especificamente de uma realidade qualquer no universo histórico; um acontecimento, uma
situação, uma personagem, que transforma em parte integrante de sua estrutura interna,
uma realidade estética.
Freitas apresenta duas maneiras fundamentais de se encararem as relações entre
Literatura e História:
No primeiro caso, enfatiza-se a possibilidade de se assimilar a obra literária ao
contexto histórico em que ela foi produzida; no segundo, trata-se da apropriação
pela Literatura da temática da História. São duas perspectivas de análise que
obviamente não se excluem, mas que exigem abordagens e instrumentos analíticos
específicos, conforme se esteja numa outra perspectiva. O estudo da integração –
ou, mais exatamente, da interação – da obra literária com o contexto no qual ela se
insere, parte da análise comparativa das duas séries numa visão totalizante e
evolutiva, que leva a explicações sociológicas de caráter amplo, podendo ser
aplicada a toda e qualquer produção literária de determinada época. Já o exame da
obra de ficção que utiliza um assunto histórico como tema de sua trama é mais
específico, e apresenta problemas particulares e aspectos polêmicos que merecem
uma análise mais profunda.[...] Isso significa que não se trata do problema de
ficções literárias que apenas aludem a situações históricas com objetivos os mais
diversos, nem das que simplesmente situam sua intriga num determinado contexto
sócio-histórico, que lhe serve de pano de fundo, numa preocupação de dar maior
realismo ao texto ou de retratar certos aspectos da sociedade no momento em
questão. Trata-se especificamente do romance que toma uma realidade qualquer
do universo histórico – um acontecimento, uma situação, uma personagem -, e a
transforma em sua própria matéria, ou seja, em parte integrante de sua estrutura
interna, fazendo dela uma realidade estética. (FREITAS, 1989, pp.112-113).
A arte não tem por objetivo representar o universo, é uma modalidade do
imaginário, e o imaginário não reproduz a realidade exterior, mas a transforma, e
transfigura-a, segundo Freitas, porque ela apresenta não o “real”, mas o “possível”, e a
tarefa do poeta não é contar efetivamente o que aconteceu, mas aquilo que poderia
acontecer.
Retomando Aristóteles, a poesia representa o possível não somente segundo o
“verossímil” (aquilo que poderia eventualmente acontecer), mas também segundo o
“necessário” (aquilo que pode vir a acontecer).
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O fato é que algumas obras literárias podem ser consideradas como aparelhos
registradores de insatisfações vagas, de temores difusos, de desejos e aspirações
de um grupo social ainda não formulados. [...] dos romances que se apoderam da
matéria histórica, os que melhor traduzem os motivos sociais e históricos não são
aqueles que retratam de maneira escrupulosa exata os acontecimentos, mas sim
aqueles que exprimem o que falta a um grupo, que mostram as possibilidades
subjacentes de determinadas situações ou acontecimentos, e tentam assim fazer
com que as virtualidades inerentes a uma época passem da potencialidade ao ato.
Estudar as relações entre Literatura e História não significa, pois buscar apenas o
reflexo de uma na outra. Mais do que a imagem, a Literatura seria antes o
imaginário da História. Isso significa que, se Literatura e História não são
independentes uma da outra, elas tampouco são ligadas por uma relação mecânica
de causa e efeito. (FREITAS, 1989, p.115).
Freitas diz: “Presença da História no romance – e não influência da História sobre
ele, é o que deve guiar o estudo fecundo das relações entre Literatura e História” (1989,
115).
A autora aponta, ainda, a existência de duas contradições, o confronto das duas
realidades, uma fictícia, outra verídica, e esse confronto possibilita a criação de um outro
plano de realidade que transcende de ambas. A História é assim transformada em meio
de criação de uma realidade alternativa, a artística.
A primeira contradição constitui justamente a característica específica que distingue
esse tipo de texto literário dos demais, e que nos permite situar a questão da
viabilidade da análise comparativa. Qualquer romance que se pretenda “realista” –
em oposição ao “fantástico”, que pertence a uma outra natureza dos fatos – ou
“representativo” - em oposição ao “auto-representativo”, que remete apenas a si
mesmo -, inscreve-se no campo da realidade exterior, e retrata uma situação
possível de acontecer, que será mais ou menos conforme a idéia que
convencionalmente se tem do real; todavia, essa situação é tida como fictícia pelo
leitor – ainda que ela tenha sido efetivamente real para o escritor, o que em nada
muda o estatuto do texto de ficção.[...].
A segunda contradição acima colocada leva-nos ao problema dos objetivos do
texto literário. Se a narrativa em geral vive de uma perpétua ambigüidade entre
diferentes ordens de realidade, se ela é sempre o resultado de um jogo entre a
realidade imaginada (a ficção) e a realidade concreta (o referente exterior), o
romance sobre a História repousará sobre um duplo jogo: um entre ficção e
realidade dentro da narrativa – que é o que constitui seu universo imaginário
interior, sua “diegese” –, e outro entre essa “diegese” híbrida, misto de ficção e
realidade, e a realidade exterior de existência comprovada à qual ela remete. Esse
duplo jogo, pelo simples fato de ser intencional por parte do autor, terá certamente
um significado específico [...] o texto literário que se apodera de uma série histórica
terá com certeza um significado distinto daquele que possui o texto histórico,
tentará passar um conhecimento de outra natureza, uma verdade de outra ordem.
(FREITAS, 1989, 116-117).
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Freitas (1986, p.14), em outro estudo intitulado Literatura e História, fala de
técnicas de autentificação do discurso histórico na Literatura.
Por ‘técnicas de autenticação’ entendem-se aqui as referências ou pontos de
ligação históricos que inscrevem a narrativa de ficção numa realidade extratextual
reconhecível. Trata-se, no caso em questão, dos elementos históricos principais,
autentificando-os duplamente já que os colocam num contexto igualmente
concreto.
São marcas que “quando utilizadas no discurso literário, têm como objetivo atribuirlhe um cunho realista” (FREITAS, 1986, p.14).
Freitas retoma um artigo de Phillipe Hamon, “Un discours contraint” (in Poétique
16) e aponta como características do discurso realista: a Localização Espacial, a Datação,
a Cronologia Longa, os Personagens Históricos, as Entidades e as Referências
Históricas, a Utilização de Documentos e as Notas de Rodapé.
A autora ainda afirma que:
A utilização dessas técnicas vem, portanto, juntar-se aos demais elementos
históricos dos romances [...]. Submetidos assim ‘a prova da verdade’, os romances
revelam-se de grande valor documental no que diz respeito a seu conteúdo
histórico. (Freitas, 1986, p.21).
A proposta de Freitas só é possível a partir de estudos anteriores de Lukács e
Hutcheon que analisaremos na sequência.
1.1.
Geórg Lukács e Linda Hutcheon – variações sobre o mesmo tema
Muito se tem falado e teorizado a respeito do romance histórico, porém, ninguém
talvez, tenha se debruçado com tamanha dedicação sobre o gênero como Lukács e
Hutcheon.
A visão de Lukács sobre o romance histórico iniciado por Walter Scott no século
XIX lança as bases de uma definição teorizadora sobre o assunto.
Já na pós-modernidade Linda Hutcheon teoriza sobre o romance histórico
retomando o pressuposto de Lukács e atualizando as visões sobre o gênero, chamando-o
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de “metaficção historiográfica”.
Este capítulo trata, portanto, das visões de ambos os críticos e teóricos do assunto.
Para falar sobre a teoria de Lukács, foram escolhidos três textos fundamentais: o
estudo de Letizia Zini Antunes - Teoria da narrativa: o romance como epopéia burguesa, o
texto de Jacques Ménard: Lukács et la théorie du roman historique – tradução de Fábio
Lucas Pierini e do próprio Lukács: The historical Novel.
Sobre a teoria de Linda Hutcheon foi escolhido o pressuposto do livro Poética do
Pós-Modernismo.
A respeito do pensamento de Lukács, Antunes toma como base a obra A teoria do
romance, escrita em 1915, no qual Lukács aceita plenamente a concepção de Hegel
segundo a qual o romance é um produto literário típico da sociedade burguesa; o
considera a expressão típica da cisão entre o eu e o mundo, que é o aspecto fundamental
dessa sociedade. Lukács retoma também a comparação hegeliana entre o romance e a
epopeia clássica grega para mostrar a diferença essencial que existe entre eles.
Na grande epopeia homérica “o indivíduo se encontra numa relação orgânica com
a sociedade à qual pertence e aprende intuitivamente o sentido da vida. Para Homero
como para seus heróis, o transcendente está ligado indissoluvelmente à existência
terrena” (ANTUNES, 1998, p.182). Ainda salienta que na vida moderna:
[...] é caracterizada por uma cisão profunda e sofrida entre a essência e a
substância, entre o eu e o mundo, entre a vida e o seu significado. A volta ao
mundo grego é impossível, uma vez que a grecidade e a época moderna são duas
etapas historicamente distintas da vida do espírito. (ANTUNES, 1998, p. 182).
Antunes afirma ainda que, de acordo com Lukács, o romance é a representação
artística típica da condição moderna de alienação, a epopeia de uma época em que o
sentido da vida não é mais conhecido intuitivamente. Ao contrário da epopeia que
apresenta a história de uma comunidade, o romance apresenta a história de um indivíduo.
A atuação desse “herói problemático” está ligada ao conhecimento de que nunca
alcançará seu objetivo porque, “nas condições sociais burguesas, não há possibilidade de
reconciliação entre o eu e a sociedade” (ANTUNES, 1998, p. 183). No romance o sujeito
assume seus valores pessoais e, portanto, entra em conflito com a sociedade que o
originou. Há uma tentativa desesperada de recompor a perda de sentido da vida social,
de tentar se reconciliar com a sociedade, mas essa reconciliação é impossível. O herói
será sempre um inadaptado “devido à desproporção que existe entre as aspirações da
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[C1] Comentário: Está
retomando “pensamento” ou
“obra”?
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alma e a objetividade da organização social” (ANTUNES, 1998, p. 183).
Há uma diferença entre as concepções de romance: para Hegel o romance deve
indicar o caminho da reconciliação entre o indivíduo e o mundo burguês, ao passo que
para Lukács essa reconciliação é impossível.
Lukács diz que “as características formais do romance manifestam as contradições
inerentes ao desenvolvimento do modo de produção capitalista, que é a base material da
civilização burguesa e, portanto, também de sua arte” (apud ANTUNES, 1998, p.185).
Para ele o romance só adquire suas características peculiares na burguesia, pois um é
reflexo do outro e vice-versa.
Antunes aponta que, segundo Lukács, algumas destas contradições seriam o
caráter antagônico das classes sociais e o caráter fetichizado das relações humanas,
existindo “um contraste inconciliável entre a vida individual e a vida social”. (ANTUNES,
1998, p. 185). A autora segue dizendo que, embora a vida capitalista liberta das relações
opressoras, acaba produzindo a degradação social do homem.
Para Lukács a história da literatura como da arte em geral não apresenta um
desenvolvimento isolado da História Material, uma vez que o processo de produção
humana leva ao desenvolvimento de forças produtivas.
Antunes, tratando do pressuposto de Lukács, afirma que um dos produtos da
sociedade é o Romance: narrativa que apresenta traços similares aos da epopeia
clássica:
[...] o que a moderna sociedade produz é o romance, uma forma nova de narrativa
épica que apresenta, no entanto, afinidades formais com a epopéia clássica, tais
como: a amplidão do material representado; a subordinação da representação ao
princípio da representação plástica, de maneira que fatos e homens aparecem
como figuras vivas da realidade objetiva; a representação, através da ação
encarnada em indivíduo, das relações do homem com a natureza e a sociedade,
quer dizer, não somente da consciência que o homem tem delas.(ANTUNES, 1998,
pp. 196-197).
Antunes, ainda referindo-se à obra de Lukács, aponta que desde o surgimento do
romance, percebe-se uma contradição que impossibilita a plena realização do mesmo:
[...] o romance é marcado, desde seu aparecimento, no séc. XVI, por uma
contradição essencial, que provém do fato de ele ser a epopéia de uma sociedade
prosaica, ou seja, organizada racionalmente, que não apresenta as condições
materiais para a criação épica plena, por ser uma sociedade baseada no
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antagonismo econômico das classes.(ANTUNES, 1998, p.187).
Em seu livro, The Historical Novel, Lukács faz um estudo minucioso sobre o gênero
narrativo iniciado por Scott.
Para compreender o romance histórico, precisa-se quebrar com a lenda reacionária
do Romantismo que nega ao Século das Luzes qualquer importância, pois a Revolução
Francesa, é sem dúvida, a grande mola propulsora das transformações ocorridas na
Europa sócio-culturalmente. É necessário conhecer os eventos de antes e depois da
Revolução Francesa para poder entender quais foram as bases sociais e ideológicas para
o surgimento do romance histórico.
As guerras napoleônicas fazem surgir, não apenas na França, mas também em
toda Europa, um senso de nacionalidade até então não experimentado. A vontade de ter
de volta sua independência e autonomia é o fator que desencadeia esse reavaliar do
passado em que a busca do passado histórico significava também buscar uma identidade
e orgulho nacionais. O homem desse período sente que sua história nacional faz parte de
um contexto muito maior.
A tendência de uma consciência histórica atinge seu pico com a queda de
Napoleão no tempo da Restauração e o espírito do historicismo acaba sendo reacionário
como forma de legitimar o processo de auto-afirmação pelo qual passavam as sociedades
europeias do século XIX.
Surge, então, uma reação contrária ao Século das Luzes e às ideias da Revolução
Francesa, levando a um período pré-revolucionário como forma de negar os eventos do
presente.
Lukács aponta que o que realmente interessa na análise do romance histórico é o
período depois da Revolução Francesa, pois, foi apenas a partir desse evento histórico
que as nacionalidades se firmaram e somente com o final do Iluminismo é que a
problematização da História passa a ser um objeto da Literatura.
Por outro lado, o Iluminismo alemão provoca uma reação contra as condições
sociais do país e promove uma volta ao passado histórico como fonte de renascimento
nacional.
Lukács segue dizendo que essa volta ao passado histórico faz surgir um “pseudohistoricismo” que promove a volta à Idade Média sob a justificativa de que a sociedade à
época medieval era mais idílica e harmoniosa.
Ménard, sobre o trabalho de Lukács, aponta que a constituição do romance
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histórico parte de determinações históricas precisas e que esta significaria uma fuga para
o passado, e talvez um repúdio ao presente. Lukács ainda vê que a ligação entre passado
e presente encontra-se diluída ou até mesmo diminuída na narrativa:
A constituição do romance histórico como gênero responde a determinações
históricas precisas. A representação histórica torna-se uma fuga para o passado e,
implicitamente ou não, um repúdio ao presente. A ligação entre passado presente
não é mais corretamente estabelecida por uma relação de correspondência, a
perspectiva histórica encontra-se por isso diminuída, até mesmo aniquilada. Esse
afastamento fundamental, esse corte entre um presente recusado e um passado
que se tornou doravante estranho exprime-se no “exotismo”, numa história reduzida
ao cenário, ao figurino...Não é, pois, uma forma particular de fidelidade à história,
que erigiria o romance histórico como gênero, mas, pelo contrário, uma falta de
fidelidade à história, sejam quais forem suas justificativa metafísicas ou estéticomorais, historicamente determinada por condições objetivas ou subjetivas: “A
questão propriamente dita do romance histórico enquanto gênero independente
surge apenas se a ligação correta e adequada com a compreensão justa do
passado falha, se ainda não existe mais”.(MENÁRD, s/d, p.02).
Para Lukács o romance histórico se define através de uma perspectiva histórica,
através da qual o leitor seleciona o que seria importante e significativo para a
compreensão da obra, pois ela define um “certo tipo de relação com o real”, afirmando-se
como concreta.
O autor afirma, ainda, que o processo de criação do romanesco que leva a uma
perspectiva histórica “exige a representação de tipos histórico-sociais” é o centro da
criação realista da literatura. Um tipo-histórico só é significante ao trazer em si marcas
reais do processo evolutivo histórico.
Ao dedicar-se ao processo de feitura do texto, tanto o romancista quanto o
historiador tentam captar o momento histórico ao qual estão vinculados, porém, há de se
notar que a perspectiva histórica não apenas relata os fatos, mas os torna vivos
poeticamente, escolhendo momentos decisivos na vida da coletividade, “ela concentra
para caracterizar”.
Lukács aponta que a totalidade histórica se prende especificamente aos
“fundamentos materiais da vida num dado período”, levando em consideração destinos
individuais em relação com o social.
Ainda para ele, a História, como decalque de uma realidade, está presente em dois
níveis do romance: intervindo nas perspectivas estéticas e como totalidade suscetível de
ser refletida.
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[C2] Comentário: Parece que
está faltando a conjunção “e”.
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Portanto, para Lukács, o romance histórico é o conhecimento que se serve do
presente para analisar e representar o passado. É uma poderosa arma para o progresso
humano e cumpre sua tarefa que é restaurar forças motivadoras da história humana.
Trata, pois, de demonstrar através de meios poéticos, os momentos históricos e seus
personagens, estruturando o amplo fundamento vital dos acontecimentos históricos em
seu entrelaçamento e complexidade, em seus variados efeitos recíprocos com as
personagens atuantes.
O tratamento do fato histórico na narrativa ficcional estabelecido por Lukács acaba
tomando outros rumos na pós-modernidade, uma vez que surge uma intenção
questionadora acerca dos fatos e fontes históricas e até mesmo da própria disciplina
História.
Portanto, o pós-moderno realiza dois movimentos simultâneos. Ele reinsere os
contextos históricos como sendo significantes, e até determinantes, mas ao fazê-lo,
problematiza toda a noção de conhecimento histórico. Esse é mais um dos
paradoxos que caracterizam todos os atuais discursos pós-modernos.
(HUTCHEON, 1991, p.122).
A pós-modernidade aponta que não existe apenas uma Verdade única e exclusiva
e sim várias Verdades no plural e que não existe falsidade por si só, mas sim verdades
alheias.
As obras pós-modernas questionam livremente a arte, no sentido de elas inserirem
valores atemporais e universais, questionando também a individualidade das narrativas
“em nome da multiplicidade e da disparidade”.(HUTCHEON, 1991, 123).
Hutcheon diz que a nova história literária não é uma mera “tentativa de preservar e
transmitir um cânone ou uma tradição de pensamento; ela mantém uma relação
problemática e questionadora com a história e a crítica literária” (HUTCHEON, 1991, p.
125). Segundo ela, ao narrar uma história ou ficção, há uma recíproca contaminação dos
elementos de ambos os campos de conhecimento, questionando, portanto, a
neutralidade, impessoalidade e transparência, típicas da historiografia.
Hutcheon chama de “metaficção historiográfica” as obras que exploram e
questionam os conhecimentos históricos presentes na narrativa ficcional:
A metaficção historiográfica refuta os métodos naturais, ou de senso comum, para
distinguir ente o fato histórico e a ficção. Ela recusa a visão de que apenas a
história tem uma pretensão à verdade, por meio do questionamento da base dessa
pretensão na historiografia e por meio da afirmação de que tanto a história como a
ficção são discursos, construtos humanos, sistemas de significação, e é a partir
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dessa identidade que as duas
verdade.(HUTCHEON, 1991, p. 127).
obtêm
sua
principal
pretensão
à
Há uma busca sistematizada de reorganização do novo, revisitação do que já está
pronto. Deslocar os fatos de lugar para atribuir-lhes um novo significado, claro, sob um
ponto de vista crítico. Hutcheon diz que toda a realocação é necessariamente paródica e
toda paródia é ambígua, porque a paródia apresenta a reverência e a recusa. As obras
pós-modernas inquirem sobre o deslocamento histórico, suas relações com a realidade
que produziu o fato no passado. Surge um movimento de “presentificação do passado”. O
pós-moderno olha para o passado com os olhos do presente, inquirindo sobre a dita
verdade por detrás dos fatos expressos.
Para Hutcheon o romance pós-moderno está inserido numa postura inquisidora
mais ampla sobre a representação: ficção/história, particular/geral e presente/passado.
Segundo ela, há uma contradição nessa postura, uma vez que desassociar uma das
partes da dicotomia acima se torna impossível, o pós-moderno propõe-se, então, a
explorar ambos.
Hutcheon reconhece as relações de proximidade entre História e Ficção:
Naturalmente, a história e a ficção sempre foram conhecidas como gêneros
permeáveis. [...] Não surpreende que tenha havido coincidências de preocupações
e até influências recíprocas entre os dois gêneros. No século XVII, o núcleo desses
pontos em comum em termos de preocupação inclinava-se a ser a relação entre a
ética (não factualidade) e a verdade na narrativa. (HUTCHEON, 1991, p. 143)
Hutcheon pensa que a metaficção historiográfica procura desmarginalizar o literário
através do confronto aniquilador com o histórico. Para ela, Ficção e História diferem em
suas estruturas, e caberia, portanto, à “ficção pós-moderna [sugerir] que reescrever ou
reapresentar o passado na ficção e na história é – em ambos os casos – revelá-lo ao
presente, impedi-lo de ser conclusivo e teleológico” (HUTCHEON, 1991, p. 147)
Hutcheon assume a importância de Lukács no processo de formulação do romance
histórico, porém alega que a validade dele reserva-se exclusivamente aos romances do
século XIX. Segundo ela, Lukács pensa no romance como síntese da História, criando um
microcosmo capaz de sintetizar a História.
Enquanto Lukács concebe uma visão edificante do herói, o herói-tipo, capaz de
encarnar as determinantes essenciais em termos sociais e humanos, a ficção pós-
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moderna
valoriza
os
ex-cêntricos
(marginalizados,
periféricos), até
mesmo os
personagens com registro histórico assumem um “status” deferente, particularizado:
Lukács achava que o romance histórico poderia encenar o processo histórico por
meio da apresentação de um microcosmo que generaliza e concentra (1962, 39).
Portanto, o protagonista deveria ser um tipo, uma síntese do geral e do particular,
de “todas as determinantes essenciais em termos sociais e humanos”. A partir
dessa definição, fica claro que os protagonistas da metaficção historiográfica
podem ser tudo menos tipos propriamente ditos: são os excêntricos, os
marginalizados, as figuras periféricas da história ficcional. (HUTCHEON, 1991, 151)
De acordo com Hutcheon, para Lukács, o romance histórico dá pouca relevância
ao detalhe, “que ele considerava como sendo ‘um simples meio de obter a veracidade
histórica, para deixar concretamente clara a necessidade histórica de uma situação
concreta” (HUTCHEON, 1991, pp.151-152). Hutcheon por sua vez afirma que a ficção
pós-moderna apresenta duas formas de contestar essa característica. Primeiramente, a
metaficção historiográfica “se aproveita das verdades e das mentiras do registro histórico”
(HUTCHEON, 1991, p.152), romanceando ou falsificando determinados fatos históricos a
fim de “ressaltar as possíveis falhas mnemônicas da história registrada” (HUTCHEON,
1991, p. 152). Em segundo lugar, percebe-se a forma como a ficção pós-moderna se
apropria do fato histórico com uma fonte de verificação palpável do mundo ficcional. O
deslocamento de personagens historicamente abonados em papéis secundários, para
Lukács, ainda representa uma terceira característica do romance histórico a fim de
legitimar o universo ficcional criado pelo autor, estabelecendo uma ponte entre ficção e
história.
Hutcheon afirma que as relações entre Ficção e História merecem um estudo mais
aprofundado, principalmente no que diz respeito a “questões que giram em torno da
natureza da identidade e da subjetividade: a questão da referência da representação; a
natureza intertextual do passado; e as implicações ideológicas do ato de escrever sobre a
história” (HUTCHEON, 1991, p. 156). A teórica de literatura segue dizendo que as
metaficções historiográficas são marcadas por duas formas de narração: múltiplos pontos
de vista ou a presença de um narrador onipotente. Ela ainda afirma que:
No entanto, não encontramos em nenhuma dessas formas um indivíduo confiante
em sua capacidade de conhecer o passado com um mínimo de certeza. Isso não é
uma transcendência em relação à história, mas sim uma inserção problematizada
da subjetividade na história. (HUTCHEON, 1991, p.156)
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Para Hutcheon uma das formas mais contundentes de trazer o passado histórico
para dentro do texto presente é através da paródia. Para ela:
No rastro dos recentes ataques feitos pela teoria literária e filosófica contra o
fechamento formalista do modernismo, a ficção pós-moderna certamente procurou
abrir-se para a histrória, para aquilo que Edward Said (1983) chama de “mundo”.
Porém, parece ter verificado que já não pode fazê-lo de forma sequer remotamente
inocente, e portanto aquelas paradoxais metaficções historiográficas antiinocentes
se situam dentro do discurso histórico, embora se recusem a ceder sua autonomia
como ficção. E é uma espécie de paródia seriamente irônica que muitas vezes
permite essa duplicidade contraditória: os intertextos da história assum um status
paralelo na reelaboração paródica do passado textual do “mundo” e da literatura. A
incorporação textual desses passados intertextuais como elemento estrutural
constitutivo da ficção pós-modernista funciona como uma marcação formal da
historicidade – tanto literária como “mundana”. (HUTCHEON, 1991, p. 163)
A paródia intertextual serviria, portanto, como marco da presença do passado no
texto literário presente, mas esse passado só pode ser conhecido através do próprio texto
– literário ou histórico.
Para Hutcheon, a metaficção historiográfica questiona qualquer conceito realista de
representação, “mas também quaisquer afirmações textualistas ou formalistas ingênuas
sobre a total separação entre a arte e o mundo” (HUTCHEON, 1991, 165).
Hutcheon afirma que “a intertextualidade substitui o relacionamento autor-texto,
que foi contestado, por um relacionamento entre o leitor e o texto, que situa o locus do
sentido textual dentro da história o próprio discurso” (HUTCHEON, 1991, 166), ela ainda
segue dizendo que “uma obra literária já não pode ser considerada original; se fosse, não
poderia ter sentido para seu leitor. É apenas como parte de discursos anteriores que
qualquer texto obtém sentido e importância” (HUTCHEON, 1991, p.166). De acordo com
ela, o pós-modernismo:
[...] procura nitidamente combater o que acabou sendo considerado como o
potencial do modernismo para o isolacionismo que separava a arte e o mundo, a
literatura e a história. Porém, muitas vezes ele o faz utilizando contra si mesmas as
próprias técnicas do esteticismo modernista. Mantém-se cuidadosamente a
autonomia da arte: a auto-reflexividade metaficcional chega a enfatizá-la. Contudo,
por meio da intertextualidade aparentemente introvertida outra dimensão é
acrescentada pela utilização das irônicas inversões da paródia: a relação crítica da
arte com o “mundo” do discurso – e, por intermédio deste, com a sociedade e a
política. Tanto a história como a literatura proporcionam os intertextos nos
romances aqui examinados, mas não se cogita nenhuma hierarquia, implícita ou
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não. Ambas fazem parte dos sistemas de significação de nossa cultura, e aí está
seu sentido e seu valor.(HUTCHEON, 1991, p.182).
BIBLIOGRAFIA
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BARTHES, Roland. “O discurso da História”. In: O Rumor na Língua. São Paulo,
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HEGEL, Georg Friedrich. Filosofia da história. Brasília: Universidade de Brasília, 1995.
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LUKÁCS, Georg. The Historical Novel. Nebraska: Nebraska University, 1993.
RIBEIRO, José A. Pereira. O romance histórico na literatura brasileira. São Paulo:
Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia / Conselho Estadual de Cultura, 1976.
(Coleção Ensaio, 86).
Sobre o Autor.
Antonio Sérgio Ferreira possui graduação em Letras pelo Centro Universitário Barão de Mauá (1993),
graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (2006) e mestrado em Estudos
Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2004). Atualmente é professor no
Ensino Fundamental da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e no Ensino Superior da Faculdade
Semar/Unicastelo - Sertãozinho. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Letras, atuando
principalmente nos seguintes temas: comparativismo, literatura x história, literatura x outras artes, literatura
x cinema, literatura x música, século XIX e semiótica.
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