ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA Coronel Aviador MAURO LUIZ XAVIER DA SILVA A BUSCA DA VERDADE COMO CONTRIBUIÇÃO PARA A PAZ SOCIAL Rio de Janeiro 2012 ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA MAURO LUIZ XAVIER DA SILVA A BUSCA DA VERDADE COMO CONTRIBUIÇÃO PARA A PAZ SOCIAL Rio de Janeiro 2012 MAURO LUIZ XAVIER DA SILVA A BUSCA DA VERDADE COMO CONTRIBUIÇÃO PARA A PAZ SOCIAL Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. ORIENTADOR: CMG RM1 José Cimar Rodrigues Pinto Rio de Janeiro 2012 C2012 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG. _________________________________ MAURO LUIZ XAVIER DA SILVA Biblioteca General Cordeiro de Farias Silva, Mauro Luiz Xavier da. A BUSCA DA VERDADE COMO CONTRIBUIÇÃO PARA A PAZ SOCIAL/ Coronel Aviador Mauro Luiz Xavier da Silva. - Rio de Janeiro: ESG, 2012. 42 f.: il. Orientador: CMG RM1 José Cimar Rodrigues Pinto. Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2012. 1. Paz Social. 2.Progresso. 3. Verdade Contas Públicas. I. Título. A minha família, pela compreensão e apoio aos momentos difíceis que passamos juntos ao longo de minha carreira. AGRADECIMENTOS Ao Comando da Aeronáutica, por me proporcionar a indicação ao CAEPE 1012. Ao Corpo Permanente da ESG, especialmente ao meu orientador, e aos demais professores e palestrantes do CAEPE 2012, pela valorosa contribuição ao aprendizado, que me permitiu compreender profundamente a realidade conjuntural do Brasil. Aos companheiros da Turma Programa Antártico Brasileiro – PROANTAR (CAEPE 2012), pela amizade sincera e o convívio sadio em todos os momentos. RESUMO Este estudo visou demonstrar a importância do apaziguamento dos fatos históricos controversos de uma sociedade por meio da busca de uma verdade consensual que aglutine forças antagônicas, a fim de que seja construída a Paz Social necessária para consolidar o Progresso. O trabalho abordou os cuidados que se deve ter na escolha dos membros das comissões destinadas a levantarem os acontecimentos relacionados às visões contraditórios dos momentos passados por aquela sociedade. Perfez-se por uma pesquisa exploratória, bibliográfica e documental. Delimitou-se aos aspectos relacionados à sociedade brasileira e a examinar as ideias de Nietzsche sobre o tema da verdade. Buscou evidenciar a impossibilidade de alcançar soluções consensuais através de conclusões carregadas por viés político-ideológico; e nos cuidados para que as pesquisas guiadas por sociólogos e historiadores não se contaminem com o subjetivismo tendencioso que causaria a perda do propósito da união de facções adversas. Os resultados se referiram na dificuldade do estabelecimento de uma verdade positiva, assim como à possibilidade de alcançar uma versão que harmonize toda uma sociedade. Palavras-chave: Paz Social. Progresso. Verdade. ABSTRACT The study aimed to demonstrate the importance of controversial historical facts appeasement of a society through the pursuit of a consensual truth that brings together opposing forces, in order to allow be built the needed Social Peace to consolidate the Progress. The work addressed the care that must be taken in the choice of committee members designed to survey the events related to conflicting visions of moments spent by that company. The study was performed by an exploratory, bibliographic and desk research. The context was delimited to the aspects related to the brazilian society and analysis of Nietzsche’s ideas about the truth like subject. It sought to show the impossibility of reaching consensual solutions through conclusions charged by political and ideological trends, and the care for that researches guided by sociologists and historians not be contamined by tendentious subjetivism that would cause the failure of the proposal of union from opposed factions. The results refered to the difficulty of establishing a positive truth as well reaching a possible and harmonic version that harmonize an entire society. Keywords: Social Peace. Progress. Truth. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................... 10 2 O QUE É A VERDADE?............................................................................. 15 3 A VERDADE POLÍTICO PARTIDÁRIO ...................................................... 19 4 A FUNÇÃO DO SOCIÓLOGO NA BUSCA DA VERDADE ....................... 24 5 HISTORIADOR: SUA ANÁLISE NA BUSCA DA VERDADE .................... 29 6 CONCLUSÃO ............................................................................................ 37 REFERÊNCIAS .......................................................................................... 41 1 INTRODUÇÃO O Manual Básico da Escola Superior de Guerra, em seu Volume I (2009), descreve que os Objetivos Fundamentais da Nação Brasileira são: Democracia, Integração Nacional, Integridade do Patrimônio Nacional, Paz Social, Progresso e Soberania. Os Objetivos Fundamentais de Progresso e Paz Social estão intimamente atrelados, sendo que para facilitar o atingimento sustentado do primeiro se torna necessário assegurar a conquista do segundo. Conforme o Manual citado anteriormente, a Paz Social é conceituada como: ―[...] um valor de vida, não imposto, mas decorrente do consenso, em busca de uma sociedade caracterizada pela conciliação e harmonia entre pessoas e grupos [...]‖. Logo, tal condição configura-se como facilitadora para atingir o Progresso é assegurar que reine a Paz Social no seio da nação, traduzido através dos sentimentos de união e solidariedade. Estes sentimentos serão totalmente alcançados quando as visões contraditórias de grupos antagônicos acerca de fatos da formação histórica de nosso país estiverem completamente apaziguadas. O Brasil passa atualmente por um processo de levantamento de fatos históricos, ocorridos no período dos governos militares, que suscitam visões conflitantes sobre a sua causa. Exemplos das visões supracitadas são as duas reportagens destacadas abaixo. ELIANE CANTANHÊDE escreveu, em 13 de maio de 2012, e publicado pelo Jornal Folha de São Paulo, a seguinte coluna intitulada ―A verdade que dói‖: ―BRASÍLIA - Conformismo‖. Essa é a palavra que melhor define a reação dos militares à composição da comissão da Verdade, que eles tanto rejeitam. Perdidos os anéis, vão tentar salvar os dedos: a Lei da Anistia. Os sete escolhidos por Dilma pessoalmente, quase solitariamente, têm destaque na carreira e densas histórias de vida. Gente de peso. São ex-advogados de presos políticos, como José Carlos Dias e Rosa Maria Cunha, militantes de Direitos Humanos, como Paulo Sérgio Pinheiro e Maria Rita Kehl, e juristas de ponta, como Gilson Dibb, Cláudio Fontelles e José Paulo Cavalcanti Filho. Parciais? Sim, sem dúvida. Todos têm lado – o mesmo lado, apesar de uns mais tucanos, outros mais petistas – e posições claras e bem conhecidas. Mas não há ali xiitas, nem juvenis, e nenhum está tecnicamente impedido pela lei que criou a comissão. Não há torturados ou parentes de desaparecidos. Perdida mais essa guerra, os militares agora alimentam uma dúvida (ou seria certeza?): para que vai servir mesmo a comissão da Verdade? Eles estão convencidos de que as histórias de torturas, mortes e desaparecimentos já são amplamente conhecidas. Tanto quanto as vítimas e os próprios algozes. Logo, desconfiam, ou sabem, que a comissão é a cortina de fumaça para produzir ações penais contra os agentes do Estado que exorbitaram durante a ditadura. Ou seja, contra os militares da época. Será, simultaneamente, o canal para catequizar a população para a tese de que, mais de 30 anos depois, já passou da hora de revogar a Lei da Anistia para processar e punir torturadores. Até porque tortura é crime imprescritível. Uns com raiva, outros com melancolia, esses militares alegam que todas as verdades sempre têm dois ou mais lados. Mas, na história, quem ri por último ri melhor e a verdade é sempre a do vencedor. No caso, de quem subiu a rampa do Planalto pela força do voto.‖ Outra visão sobre o mesmo fato foi o artigo intitulado ―O direito à verdade‖, publicada na Revista Veja, de 20 de maio de 2012, assinado por LAURA DlNIZ E RAFAEL FOLTRAM,: ―Livre do propósito revanchista com que foi proposta há três anos, a Comissão da Verdade nasceu para investigar os crimes cometidos durante o regime militar, sem excluir aqueles perpetrados por militantes da esquerda [...] [...] Como parece ser inescapável nessas ocasiões, a instalação da Comissão da Verdade deu ensejo a algumas inversões da verdade. A mais patente dessas inverdades, repetida tantas vezes que parece verdade, é que os opositores da ditadura militar reprimidos por ela lutavam pela redemocratização do país. Isso é uma resistente mentira histórica. Os membros das organizações clandestinas que pegaram em armas contra o regime lutavam pela instalação no Brasil de uma ditadura comunista nos moldes cubanos e soviéticos [...] [...] O sociólogo Paulo Roberto de Almeida, que pertenceu a grupos de insurreição armada contra o regime militar brasileiro, colocou a questão com muita clareza: "Como ex-integrante de dois desses grupos que se alinharam contra o regime militar, posso dizer, com pleno conhecimento de causa, que nenhum de nós estava lutando para trazer o Brasil de volta para uma ―democracia burguesa‖, que desprezávamos. Nós pretendíamos um regime revolucionário, que, inevitavelmente, começaria fuzilando burgueses e latifundiários‖. Essa é a verdade. É uma afronta à história tentar romantizar ou edulcorar as ações, os métodos, as intenções e as ligações com potências estrangeiras dos terroristas que agiram no Brasil no período militar [...]‖. Nesse contexto, a condução de qualquer processo de revisão histórica necessita de equilíbrio e austeridade, condições que, se não forem atingidas, não trarão a almejada contribuição para a Paz Social, uma vez que os pleitos levantados pelos grupos antagônicos poderão não vir a ser apaziguados. A questão central que move esta pesquisa é: como deveriam ser escolhidos os responsáveis para compor as comissões designadas a levantar informações sobre a verdade de fatos controversos da história de nossa nação, a fim de que sejam encontradas conclusões isentas que tragam a unidade nacional? A hipótese levantada para tal questionamento é que há a necessidade de formar comissões extrapartidárias para os estudos conjunturais de realidades controversas ocorridas nos períodos históricos da sociedade brasileira, a fim de que as mesmas sejam esclarecidas e, por conseguinte, as conclusões alcançadas tragam o consenso necessário para a consolidação da paz social almejado. Portanto, o objeto deste trabalho é identificar a melhor expertise para compor membros de uma comissão instituída no intuito de pacificar fatos controversos de um fato social. A importância desta problemática atende à consideração de que fatos históricos controversos são bandeiras de ordem de grupos sociais antagônicos que exercem pressões no seio da nação; e que a disputa da imposição da verdade particular de um dos lados aumenta o litígio entre as partes; tornandose imprescindível que os pontos de vistas sejam clareados por uma visão mais próxima do possível da realidade ocorrida, a fim de que nosso país consiga alcançar o equilíbrio social necessário à utilização unificada de todo o Poder Nacional com o propósito comum ao desenvolvimento. Diante do exposto, é preciso estabelecer não só o fórum adequado para estas discussões, mas, também, qual a melhor composição de seus membros, com o intuito de que os mesmos possam debater os assuntos polêmicos e trazer a tona, para a sociedade, as conclusões isenta e maduras. Assim sendo, o objetivo deste trabalho é demonstrar a necessidade de dotar as comissões designadas para a análise de fatos históricos nacionais controversos com profissionais qualificados, capazes de alcançarem conclusões isentas, visando alcançar a paz social. A metodologia utilizada foi a pesquisa classificada como exploratória, calcada em pesquisas bibliográficas, a fim de que seja alcançado o aprimoramento das ideias que conduzam ao objetivo do trabalho. Para os levantamentos das informações que consubstanciarão a conclusão do trabalho foram realizadas pesquisas bibliográficas em bibliotecas e sítios disponíveis na Internet. O trabalho partiu da definição filosófica sobre o conceito de verdade desenvolvida pelos expoentes do pensamento ocidental. Alcançado o propósito anterior, passou a demonstrar a dificuldade em se atingir um consenso sobre a realidade de fatos controversos ocorridos tomando-se por base uma visão ideológica partidária. O estudo prosseguiu analisando a função do trabalho do sociólogo e do historiador como profissionais pesquisadores que utilizam técnicas científicas para o levantamento da conjuntura social vivida pela sociedade em um dado instante histórico. Este trabalho de pesquisa se limitou ao âmbito da sociedade brasileira e na sua evolução histórica e cultural, estruturando o trabalho da seguinte forma: a) o primeiro capítulo introduzirá o problema central, o objetivo do trabalho, e a delimitação da pesquisa; b) o segundo capítulo será a conceituação sobre a verdade formulada por vários filósofos, e o consenso da impossibilidade de encontrar a verdade absoluta; c) o terceiro capítulo será dedicado à demonstração da dificuldade em se encontrar interpretações isentas e consensuais sobre fatos históricos controversos baseados na ótica ideológica partidária; d) o quarto capítulo irá expor a função do sociólogo nos estudos e pesquisas sobre a formação histórica da sociedade; e) o quinto capítulo irá apresentar a função do historiador nas pesquisas de fatos históricos; e f) o sexto capítulo sintetizará os conhecimentos apresentados nos capítulos anteriores, pretendendo concluir, ao final, sobre um modelo de composição de profissionais que precisam estar presentes em uma discussão sobre o levantamento de fatos controversos da história nacional. 2 O QUE É A VERDADE? Ao efetuar a pesquisa sobre o significado do vocábulo verdade nos dicionários Houaiss, Michaelis e Aulete; percebe-se que o mesmo assume diversos significados, entre eles: estar de acordo com a realidade; fidelidade a um padrão ou a uma origem; ser um caso; constância; sinceridade; e outros. Verdade pode, ainda, descrever o que é uma realidade, ou possibilidade de realidade, inserida sobre um conceito de valores. A verdade sobre a leitura de um fato ao ser submetido a um sistema de valoração se sujeita tanto a uma ótica pessoal, quanto a uma opinião imposta por grupos. Toda essa variedade acerca do significado do conceito de verdade decorre das diversas visões que podem ser exploradas sobre o tema. O dilema sobre a verdade originou uma gama de teorias sobre o assunto que, desde a antiguidade até os dias atuais, são objetos de estudos de filósofos. Para abordar este tema, a Filosofia desenvolveu várias escolas com o intuito de conceituar a verdade. São elas: a metafísica que se dedica a natureza da verdade; a epistemológica que se aprofunda no conhecimento; e a lógica que se atém a preservação da verdade. As teorias metafísicas da verdade se dividem nas verdades por correspondência (adequação), desmenção, desvelamento e pragmatismo. A definição como correspondência é a mais antiga visão sobre o conceito de verdade. Platão definiu que: ―Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso é aquele que diz como não são‖1. Aristóteles em seu tratado ―Da Interpretação‖, aborda a verdade como a adequação do objeto na realidade com a projeção que se encontra na mente. Para fundamentar seu pensamento, Aristóteles enunciou dois teoremas fundamentais: ―a verdade está no pensamento ou na linguagem, não no ser ou na coisa‖2; ―a medida da verdade é o ser ou a coisa, não o pensamento ou o discurso‖. Ele dizia: ―Negar aquilo que é, e negar aquilo que não é, é falso; enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é verdadeiro.‖3. 1 (Crtas., 385b; v.Sof,262 e Fil.,37c) 2 (Met. VI, 4,1027b25) (Met.,VI,4,1027 b 25) 3 Os críticos a esta escola se apegam ao fato da dificuldade em mensurar uma verdade definida pela expressão da correspondência do significado entre o que é e o dito. Segundo a visão desmencionista, a verdade é encontrada se, e somente se, o ente for o que é. Portanto, não seria necessária a colocação de aspas em sua proposição. Assim sendo, a proposição ―A grama é verde‖ é verdadeira se, e somente se, a grama é verde. A crítica à abordagem desmencionista leva em consideração que a proposição deva ser aprovada a todos os entes correspondentes aquela afirmativa. Para gêneros muito numerosos, ou com variações entre eles, ficaria improvável o atendimento à assertiva. Logo, este método encontra falhas em sua premissa básica. O desvelamento considera que a verdade está sempre em construção, onde o ser deve deixá-la se manifestar. Segundo a visão de Martin Heidegger, em Ser e tempo, parágrafo 44, a pessoa deverá estar sempre com mente aberta para que a verdade possa se manifestar. Portanto, a verdade jamais será absoluta. A escola desvelamencista, em seu pressuposto básico, afirma que a verdade é algo intangível, e é mutável. A vertente do pragmatismo, por sua vez, prega que a verdade deve ser auferida por meio de valores que são agregadas a ela; chegando ao ponto em que para ser verdade há a necessidade de que a mesma seja confundida com um consenso do grupo. Ou seja, não necessariamente a coisa é o que é, mas sim o que o grupo concorda que seja. A Teoria Epistemológica sugere a dificuldade de definir a verdade devido a sua forma da percepção do conhecimento. A percepção objetiva é facilmente determinada por comprovações de observação ou medições, como: a maça está sobre a mesa. Porém, a percepção subjetiva é intrínseca a cada indivíduo e a sua forma de reagir a estímulos, tornando imprecisa qualquer validação daquela verdade, como por exemplo: a água está quente. Como foi descrito, não existe uma forma consensual de conceituar a verdade, nem um método seguro em de obtê-la. Para Nietzsche, a verdade não passa de um ponto de vista. Em sua opinião, não há como conceituá-la nem defini-la; pois não tem como alcançar, com precisão, o seu oposto, a mentira. A verdade, para este pensador, é uma ilusão produzida pelo ser humano. A verdade sempre acompanhou o trabalho de Nietzsche. Ele realça o caráter revelador da ciência em contrapartida ao caráter redentor da arte; onde a verdade destruiria a existência e a arte deveria salvá-la. Em sua obra Sobre Verdade e Mentira (1873, tradução de Fernando de Moraes Barros), Nietzsche se volta contra as teorias filosóficas sobre a verdade. A busca pela conceituação da verdade seria um resultado da vaidade dos filósofos, que os afastou da realidade e os colocou em um patamar universal. Ao tomar consciência do caráter efêmero da verdade, os pensadores se desiludem e desesperam com tal constatação. Nietzsche entende que não há razão para o mundo se mostrar como ele realmente é. Como relatado na obra supracitada, à verdade e a mentira são invenções da sociedade e de sua correspondente linguagem. O ser humano desta sociedade chama de verdade tudo que auxilia na conservação daquela sociedade, e de mentira tudo que colocaria em risco a sociedade. Logo, verdade e mentira são produtos de conveniências atreladas à continuidade da paz social de sua sociedade. Portanto, a sociedade é que dita a sua verdade. Nietzsche acredita que na medida em que o homem deseja viver em sociedade, tornasse necessário diminuir ao máximo as tendências de conflitos e instituir uma paz. Para essa consecução, são fixadas ―verdades‖ que serão validadas pela linguagem. Os homens se afastam menos das mentiras do que os prejuízos que a realidade poderia trazer para a sociedade. Considerando a visão de Nietzsche como balizador deste estudo, fica clara a necessidade da sociedade apaziguar as tensões das visões sobre fatos contraditórios de grupos internos com verdades consensuais, a fim de que se atinja a paz social. Caso contrário, haveria a desestabilização social, que gerariam conflitos e, consequentemente, a desagregação societária. Entretanto, a dúvida está na capacidade de formar uma comissão com membros que atenda aos anseios desses grupos antagônicos, de forma que todos os lados se sintam representados, a fim de que acolham as conclusões consensualmente. 3 A VERDADE POLÍTICO PARTIDÁRIA Uma comissão baseado em uma ótica política traria algumas dificuldades de consenso. Para melhor entendimento, faz-se mister compreender os significados de Ideologia e Partido Político. O Conde de Tracy4, em 1801, criou o termo ideologia, dando a ele o significado de ciências das ideias. Embora, os filósofos da Antiguidade Clássica e da Idade Média já possuíssem o entendimento de tal conceito, compreendendo-a pelo significado do agrupamento de ideias e opiniões que regem uma sociedade. Contudo, o Conde de Tracy e seus seguidores logo sofreram a primeira crítica, oriunda de Napoleão, o qual o acusou e a seus seguidores de ―deformadores da realidade‖, alcunhando-os de ―ideólogos‖. Napoleão, num discurso ao Conselho de Estado em 1812, declarou: ―Todas as desgraças que afligem nossa bela França devem ser atribuídas à ideologia, essa tenebrosa metafísica que, buscando com sutilezas as causas primeiras, quer fundar sobre suas bases a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história.‖ 5 A ideologia é definida por duas vertentes. A primeira concepção é denominada por neutra; ou seja, a ideologia estaria ligada ao sentido de um conjunto de ideias como sinônimo de ao ideário comum, possuidora de um sentido neutro, isento. (Pompeo, Flávio Sposto, 13 de abril de 2008). A segunda concepção de definição da Ideologia é denominada de crítica. Para a Teoria Crítica, da Escola de Frankfurt, a ideologia encobre a realidade de um objeto, exaltando as qualidades que desejam ser realçadas e mascarando as demais. Para autores que adotam esta concepção, a ideologia é utilizada como uma forma de dominação pelo convencimento, alienando a consciência social. 4 Antoine-Louis-Claude Destutt, o conde de Tracy (Paris, 20 de julho de 1754 – Paris, 10 de março de 1836), foi um filósofo, político, soldado francês e líder da escola filosófica dos Ideólogos. Criou o termo idéologie (1801) no tempo da Revolução Francesa, com o significado de ciência das idéias, tomando-se idéias no sentido bem amplo de estados de consciência. 5 O que é ideologia, Chauí, pag 10 Chauí comenta que: ―Um dos traços fundamentais da ideologia consiste, justamente, em tomar as ideias independentes da realidade histórica e social, de modo a fazer com que tais ideias expliquem aquela realidade que torna compreensíveis as ideias elaboradas...‖; ―(as ideias) São, na verdade, expressões dessas condições reais, porém de modo invertido e dissimulado. Com tais ideias pretende-se explicar a realidade, sem se perceber que são elas que precisam ser explicadas pela realidade‖. Chauí, em seu livro ―O que é ideologia‖, declara que Karl Marx, em sua obra ―Ideologia Alemã‖, considerava que a ideologia mascara a realidade, Ele desenvolveu a teoria na qual a ideologia cria uma realidade falsa a fim de justificar a dominação oriunda da divisão entre o trabalho manual e intelectual. Desta divisão, os ideólogos passariam a modificar a compreensão das relações da produção, encobrindo as ideias a favor das classes dominantes. John B. Thompson formula sua teoria crítica sobre a ideologia, comungando com a visão de Marx, sobre o aspecto de sua utilização na prática da relação de dominação; embora discorde quanto do uso da ideologia para distorcer a realidade, afirmando que não necessariamente haveria a necessidade de falsear a consciência coletiva. Thompson, também, considera que não existe apenas o uso da ideologia apenas para a dominação entre classes. O autor enumera outras dominações na sociedade, como a entre pretos e brancos, homens e mulheres, naturais e estrangeiros e etc.... 6. Chauí destacou que para Augusto Comte, o criador do positivismo, a ideologia é uma organização sistemática do conhecimento científico, as quais foram produzidas por sábios que recolhiam opiniões e as corrigiam, eliminando elementos metafísicos ou religiosos caso existissem nestas opiniões. Assim a ideologia manipulava as ações dos homens, que eram submetidos a este poder ideológico o qual era dominado pelos burgueses, então caso fossem desrespeitados estes ideais o homem estaria agindo contras a ordem da sociedade, e de acordo com o lema positivista ―Ordem e Progresso‖, estaria também atrapalhando o progresso social. 6 Thompson, John B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa (em português). 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2000. 430 p. ISBN 9788532614841. Página visitada em 11 de março de 2012. Para Durkheim7 a ideologia é todo conhecimento da sociedade que não respeito o critério da objetividade científica sendo a da separação entre sujeito do conhecimento e objeto do conhecimento, separação que garante a objetividade porque garante a neutralidade do cientista, Durkheim tem a intenção de criar a sociologia como ciência, como conhecimento racional, objetivo, observacional e necessário da sociedade. Para isso é preciso tratar o fato social como uma coisa, exatamente como o cientista da Natureza trata os fenômenos naturais. Isto significa que a condição para uma sociologia científica é tomar os fatos sociais como desprovidos de interioridade, isto é, de subjetividade, de modo a permitir que o sociólogo encare uma realidade, da qual participa, como se não fizesse parte dela. A ideologia é um conjunto de ideais e valores, normas e regras, os quais manipulam os membros de uma sociedade, interferindo em seus meios de pensar e agir, com o intuito de conformar a sociedade de suas diferenças sociais, politicas e culturais. Desta forma, a ideologia tem a função de dar uma explicação racional a esta desigualdade, tentando estabelecer uma estabilidade entre dominantes e dominados. Independente da concepção que seja acolhida, a neutra ou crítica, elas possuem em comum a certeza que Ideologia é uma visão a cerca de um contexto, e que busca através desta visão explicar as relações sociais. Definido o que é Ideologia, cabe agora compreender o significado de Partido Político. Segundo R. Michels, o partido político é uma entidade de associação organizada através da participação voluntária, legalmente constituída, e orientada por uma ideologia a fim de influenciar ou ocupar o poder de um Estado politicamente organizado8. 7 Émile Durkheim (Épinal, 15 de abril de 1858 – Paris, 15 de novembro de 1917) é considerado um dos pais da Sociologia moderna, tendo sido o fundador da escola francesa, posterior a Marx, que combinava a pesquisa empérica com a teoria sociológica. É amplamente reconhecido como um dos melhores teóricos do conceito da coesão social. 8 (MICHELS, R., Sociologia dos Partidos Políticos, Brasília, UnB, 1982) Os partidos políticos foram se evoluindo através do tempo, sendo que o formato atual surgiu durante o Século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, com o desenvolvimento dos sistemas eleitorais a fim de concorrerem aos cargos parlamentares criados após o absolutismo. Logo, o partido político objetiva conquistar e exercer o poder político de um Estado. Sua legitimidade está em desenvolver essa busca pelo poder como representantes de uma ideologia que expressa os interesses de um grupo social ou de parte dele. Como o partido político é baseado em uma ideologia, o grupo que constitui seus representantes possuem uma visão própria sobre as relações sociais que convivem. Para conseguir atingir o poder, e perpetuar-se nele, o partido político deve neutralizar, ou extinguir, a visão ideológica do partido opositor, a fim de que o grupo que representa se torne hegemônico. Ao ser constituído uma comissão para apurar fatos controversos de um período histórico da sociedade baseado em componentes partidários, os resultados estarão carregados de ideias concebidas ideologicamente, as quais jamais poderão resultar em conclusões consensuais que tragam a paz social. O resultado poderá ser o oposto. O grupo que não tiver sido contemplado poderá acirrar ainda mais a contenda, proporcionando mais instabilidade social, que poderá ser o fator motivador de ações antagônicas ao desenvolvimento nacional. Mesmo que a referida comissão seja composta por representantes de partidos políticos opostos, as discussões serão dominadas por embates ideológicos, que sobrepujariam os levantamentos dos fatos controversos. Portanto, uma comissão com os propósitos de apaziguar uma sociedade não poderá ser conduzida por visões partidárias, sob o risco de não ser conclusiva ou, ainda, acirrar o desequilíbrio social. Como a comissão que busca clarear fatos controversos necessita ser apartidária, torna-se imprescindível encontrar profissionais técnicos que sejam capazes de cumprir a missão almejada. Assim sendo, este trabalho irá analisar as competências de historiadores e sociólogos na condução das comissões supracitadas. 4 A FUNÇÃO DO SOCIÓLOGO NA BUSCA DA VERDADE Carlos Benedito Martins define a Sociologia como o estudo do comportamento social, as interações e organizações humanas, objetivando sistematizar o entendimento do cotidiano da sociedade ―O que é Sociologia‖, 38.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Coleção Primeiros Passos). Para este eminente autor: ―A sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório‖. A sua posição é notavelmente contraditória. De um lado, foi proscrita de inúmeros centros de ensino. Foi fustigada, em passado recente, nas universidades brasileiras, congeladas pelos militares argentino, chilenos e outros do gênero. Em 1968, os coronéis gregos acusavam –na de ser disfarce do marxismo e teoria da revolução. Enquanto isso, os estudantes de Paris escreviam nos muros de Soborne que ―não teríamos mais problemas quando o último sociólogo fosse estrangulado com as tripas do último burocrata. O termo Sociologia foi criado por Auguste Comte em 1838. Comte almejava a unificação de todas as ciências relativas ao homem, como: a História, a Psicologia e a Economia. Porém, a Sociologia só desenvolveu seus fundamentos, e cresceu como ciência, através da institucionalização dos trabalhos de Karl Marx 9, Émile Durkheim e Max Weber10. A Sociologia surgiu no alvorecer da sociedade capitalista, Século XVIII. Neste período, o mundo sofria os reflexos dos ideais iluministas; as transformações econômicas, políticas e culturais trazidas pelas consequências das revoluções Francesa e Industrial; e as quedas das monarquias substituídas pela constituição dos Estados nacionais no Ocidente. Esta realidade alterou, radicalmente a relação social existente, transformando o sistema feudal da sociedade europeia, até então vigente, para o novo sistema capitalista burguês. 9 Karl Heinrich Marx (Tréveris, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883) foi um intelectual e revolucionário alemão, fundador da doutrina comunista moderna, que atuou como economista, filósofo, historiador, teórico político e jornalista. 10 Maximilian Karl Emil Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864 — Munique, 14 de Junho de 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia. Seu irmão foi o também famoso sociólogo e economista Alfred Weber Dentro deste novo contexto, a Sociologia desponta com a pretensão de compreender, cientificamente, as novas relações sociais que estavam sendo formada. Inicialmente, a sociologia, foi moldada pelas inspirações positivistas. Surgiu como alternativa intelectual às proposições iluministas e as demandas do proletariado, ligando-se aos movimentos conservadores, a fim de alcançar um estado de equilíbrio para aquela nova sociedade. O pensador Saint-Simon11 é reconhecido como um dos pioneiros do positivismo. Para ele, o progresso econômico gerado pelo capitalismo contribuiria para a coesão social. Entretanto, Saint-Simon acreditava que deveria partir das elites as iniciativas de melhorias na vida dos trabalhadores. Os pensamentos de Auguste Comte foram fortemente influenciados pelas principais ideias a Saint-Simon. Reconhecido como inteiramente conservador, Auguste Comte pregava a necessidade de estabelecer uma ordem que atrelada ao progresso edificaria a nova sociedade mais equilibrada. Durkheim também concordava sobre a necessidade que a ordem social deveria ser uma preocupação constante, e dedicou-se em definir esse marco como sendo o objeto de estudo da sociologia, estabelecendo um método de investigação. Todavia, Durkheim ao estabelecer relevada importância ao fenômeno da divisão do trabalho pela sociedade, chegou a conclusão que o não estabelecimento de regras claras relativas à esta relação seria a causa da anomalia social. Devido aos antagonismos presente nas sociedades capitalistas, que impediam um consenso entre os pensadores sobre o objeto e os métodos de pesquisa, propiciou a criação de distintas vertentes sociológicas. 11 Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon, (Paris, 17 de outubro de 1760 — Paris, 19 de maio de 1825), foi um filósofo e economista francês, um dos fundadores do socialismo moderno e teórico do socialismo utópico. Propôs a criação de um novo regime políticoeconômico, pautado no progresso científico e industrial, em que todos os homens dividissem os mesmos interesses e recebessem adequadamente pelo seu trabalho. Contrapondo a essa sociologia positivista, nasceu o pensamento socialista, que ao contrário do positivismo, apresenta uma crítica ao sistema capitalista. Este novo pensamento também recebeu relevante importância no escopo sociológico. Os filósofos socialistas, observando os trabalhadores como meios de produção, irão basear-se neste referencial teórico com o intuito de levar adiante as lutas de classes. Esta nova postura sociologia modifica o significado reflexivo da Sociologia para ações interventivas práticas. Os dois expoentes pensadores da ideologia socialista foram Marx (1818-1883) e Engels12 (1820-1903). Suas obras contribuíram para a estruturação das ciências sociais com o legado da aplicação do materialismo dialético ao estudo dos fenômenos da sociedade. Com o intuito de alcançar uma neutralidade científica, Max Weber (1864-1920), tenta isolar a ciência ―Sociologia‖ dos movimentos revolucionários. Weber não concebia que a economia dominasse as demais esferas da realidade social. Para ele, ocorriam outros fenômenos sociais que influenciavam as relações na sociedade, como: a burocracia estatal; e a importância da ética protestante para o sucesso do capitalismo. Os trabalhos desses pensadores contribuíram para a humanidade compreender o conjunto das relações daquela sociedade da época, e o entendimento do que há na ligação entre a biografia dos homens e os processos históricos. A Sociologia, portanto, tem a pretensão de observar os fenômenos que se repetem nas relações sociais e, assim, formular explicações gerais ou teóricas sobre o fato social. A Sociologia, também, se preocupa com aqueles eventos únicos, como por exemplo, o surgimento do capitalismo ou do Estado 12 Friedrich Engels (Barmen, 28 de novembro de 1820 — Londres, 5 de agosto de 1895) foi um teórico revolucionário alemão que junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo científico ou marxismo. Ele foi coautor de diversas obras com Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista. Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital, principal obra de seu amigo e colaborador. Grande companheiro de Karl Marx, escreveu livros de profunda análise social. Entre dezembro de 1847 à janeiro de 1848, junto com Marx, escreve o Manifesto do Partido Comunista, onde faz uma breve apresentação de uma nova concepção deahistória. Moderno, explicando seus significados e importância que esses eventos têm na vida dos cidadãos. Sendo uma ciência, a Sociologia pretende explicar a totalidade do seu universo de pesquisa. O conhecimento sociológico, por meio dos seus conceitos, teorias e métodos, constituem um instrumento de compreensão da realidade social e de suas múltiplas redes ou relações sociais. São objetos de estudos dos sociólogos os elementos estruturantes da sociedade, como: as etnias formadoras (raças, regionalismos), estratificações sociais (operários, militares, empresários, políticos), nos gêneros e suas interações, nas leis e suas transgressões, e as instituições vigentes (família, Estado, escola, religião). A pesquisa sociológica objetiva conhecer as relações sociais e aperfeiçoá-las, pois possibilita aos interessados compreenderem com mais propriedade as interações intergrupais, de forma particularizada, bem como a sociedade com um todo. Por tratar-se de uma ciência humanística, a Sociologia é uma forma de interpretar a consciência social e desenvolver espírito crítico sobre o assunto. Contudo, pelo conhecimento partir da própria sociedade, a pesquisa sociológica corre o risco de ser contaminada por visões e interesses de alguma parcela grupal componente da mesma ou de categorias sociais que, de forma dolosa ou não, induza viés ideológico em suas conclusões, desvirtuando a meta de neutralidade e objetividade característica da ciência. Portanto, caso o pesquisador sociólogo consiga abster-se de influências ideológicas dominantes do contexto social em que está inserido, poderá reproduzir com boa precisão as interações intergrupais que se sucederam no determinado momento em análise, e alcançar conclusões imparciais sobre fatos controversos ocorridos no período estudado daquela sociedade. 5 HISTORIADOR: SUA ANÁLISE NA BUSCA PELA VERDADE Qual seria a função do historiador? Trata-se de um questionamento antigo; porém, ainda válido e pouco debatido. A inquirição supracitada suscita ao levantamento das ferramentas que os historiadores utilizam, tais como: embasamentos teóricos; recursos; a seleção das metodologias de pesquisa; e de fontes. A dúvida inicial fomenta outras questões relativas ao assunto, tais como: Qual o passado estudado? Sobre quem é pesquisado? Para quem? O que motivou o historiador a debruçar sobre o tema? Qual é a vertente defendida, a dos "vencedores" ou a dos "vencidos"? Quais figuras, fatos, poderes, segmentos, personalidades míticas e imaginárias serão representadas? Leopold Von Ranke13, o pai da História Científica, no século XIX, pregava a possibilidade de construir a história focando-se exclusivamente pelo passado. O historiador deveria usar uma metodologia de pesquisa baseada nas análises documentais. Segundo este autor, este método garantiria a necessária imparcialidade, a fim de que o historiador chegasse à verdade histórica clara e objetiva. Esta linha de pensamento, conhecida como dos positivistas, almejava a construção da História que retratassem os vieses conservadores, pois, os fatos e eventos políticos estudados seriam os mesmos relatos, documentados e legitimados pelo Estado. A consequência deste propósito seria a obtenção de um alicerce de expectativas apaziguadas com as constatações do passado, a qual construiria o futuro próspero e produtivo. O maior intuito desta metodologia era enaltecer os feitos gloriosos para que estes influenciassem o presente e propiciasse um futuro, também, 13 Leopold von Ranke (Wiehe/Unstrut, 21 de Dezembro de 1795 — Berlim, 23 de Maio de 1886) foi um dos maiores historiadores alemães do século XIX, e é frequentemente considerado como o pai da "História cientifica". Ranke definiu o tom de boa parte dos escritos históricos posteriores, introduzindo ideais de vital importância para o uso do método cientifico na pesquisa histórica como o uso prioritário de fontes primárias, uma enfâse na história narrativa e especialmente em política internacional (Aussenpolitik) e um comprometimento em mostrar o passado tal como realmente foi (wie es eigentlich gewesen ist). próspero. Os atores principais da historiografia eram os ―grandes homens‖. Seus feitos eram enaltecidos pelas elites do Estado, perpetuando suas memórias por séculos. Ranke foi funcionário público do governo alemão, e incumbiu-se de fundar a raiz daquela nação. Assim sendo, necessitava de um fator que aglutinasse o povo. A solução encontrada foi o uso da História. Através dela, haveria a possibilidade de manipular o senso comum do presente pela exaltação aos grandes homens do passado, fazendo serem vistos como modelos a serem seguidos e ponto de ponto de unidade nacional. "Homem de poder ao lado do poder, o historiador tece as continuidades do espaço político que organiza a nova sociedade. Essa função do historiador, a reprodução do poder, vai perdurar durante muito tempo, até o começo do século XX, adaptando-se aos diversos regimes políticos." (François Dosse) Atualmente, a objetividade do conhecimento histórico sofre inúmeras críticas. Diversos pensadores, como Georges Duby14, coadunam com a ideia de ser a História uma ciência distinta da forma científica tradicional, pois a mesma não seria calcada em fatos comprováveis. Duby, diferentemente dos propósitos positivistas, entende ser improvável que a narrativa histórica seja pautada pela objetividade; afinal, já se manifesta a subjetividade nas pessoas que escrevem e relatam os fatos, contaminando qualquer tipo de documento com o juízo de valores e tendências de sua época. Ao escolher qualquer objeto para estudo, o historiador já determina, também, juízo de valor, tornando-se imparcial perante a escolha do tema a ser pesquisado. "O passado é uma construção e uma reinterpretação constante e tem um futuro que é parte integrante e significativa da História". (Jacques 15 Le Goff ) 14 Georges Duby (7 de Outubro de 1919 - 3 de Dezembro de 1996) foi um historiador francês, especialista na Idade Média. Deu início à sua carreira universitária em Lyon, no ano de 1949, tendo sido posteriormente membro da Academia Francesa e professor do Collège de France entre os anos de 1970 e 1992. Foi um especialista em história medieval, lançou mais de 70 livros e coordenou coleções importantes, como a História da vida privada. 15 Jacques Le Goff (Toulon, 1 de janeiro de 1924) é um historiador francês especialista em Idade Média. Autor de dezenas de livros e trabalhos; membro da Escola dos Annales, se empregou na antropologia histórica do ocidente medieval. Pelas constatações acima descritas, chegasse à conclusão que o conhecimento histórico se torna mutável, tendendo ao historicista. Entenda-se por historicistas, no sentido estrito, as perspectivas do entendimento de qualquer período da história, não de acordo com as ideias e os conceitos de hoje, mas com os instrumentos intelectuais disponíveis nesse tempo. Não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história.. A história não é objeto, é opção; não é estática, é movimento. (Castanheira Neves) Portanto, conforme entendido por Georges Duby, a tese histórica é pautada em um fato, que passa por uma proposição inicial; porém, após sofrer uma antítese é contestada, resultando em uma nova abordagem sobre mesmo fato. Desta forma, a História seria um ciclo de análises constantemente construída e modificada. Edward Hallet Carr16 critica a metodologia positivista de análise da objetividade História: A história consiste num corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante, como os peixes na tábua do peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servilos da maneira que o atrai mais. (Carr, p. 45). Carr apregoa a relação gerada entre a proximidade do historiador de seus fatos: a maior proximidade melhora a análise do objeto. Para o autor, o 16 Edward Hallett "Ted" Carr (Londres, 28 de junho de 1892 - 3 de novembro de 1982) foi um historiador, jornalista e teórico das relações internacionais britânico de esquerda, e um adversário do empirismo na historiografia. Como intelectual, Carr ficou conhecida por seu trabalho sobre a história da União Soviética, em que demonstrou uma visão simpática à história soviética de 1917 a 1929; por seus escritos sobre as relações internacionais; e por seu livro What Is History?, de 1961, em que estabeleceu princípios historiográficos radicais que rejeitavam as práticas e métodos históricos tradicionais.Educado em Cambridge, Carr começou sua carreira como diplomata, em 1916. Cada vez mais preocupado com o estudo das relações internacionais e da União Soviética, deixou o Foreign Office em 1936 para começar uma carreira acadêmica. De 1941 a 1946, trabalhou como editor assistente no London Times, onde ficou célebre pelos editoriais de esquerda, que escrevia exortando um sistema socialista e uma aliança anglo-soviética como base para a nova ordem do pós-guerra. Posteriormente, trabalhou em um enorme trabalho de catorze volumes sobre história soviética fato em si não fala por ele mesmo; ele só ganha legitimidade diante da História após o historiador o questiona. É o historiador quem decide por suas próprias razões que o fato de César atravessar aquele pequeno riacho, o Rubicão, é um fato da história [...]. (Carr, p. 47). Portanto, caberá ao historiador selecionar determinado fato como da História, e que realmente merece ser analisado e compreendido num contexto mais amplo. A questão de analisar os fatos, para os historiadores, está relacionada a dois pontos: teoria e prática. O campo teórico ainda se subdividiria em três ramificações: epistemologia, metodologia e ideologia. Para Jenkins, a epistemologia está vinculada ao conhecimento presente das sociedades, e nunca aos seus conhecimentos passados delas. O vínculo ao presente impossibilita interpretações consensuais sobre o passado; pois, serão levantadas várias interpretações sobre o mesmo fato pretérito. O entendimento histórico se torna múltiplo: um mesmo fato, mas vários historiadores. O campo metodológico permitirá a História um padrão inserido em uma vasta gama de discursos a respeito do mundo. A liberdade de escolha, por parte do historiador, sobre o conjunto de metodologias, por exemplo, ser mais prática ou mais particularizada, será determinante na inserção do fato à historiografia resultante, cuja forma de descrever e interpretar o seu modelo é que delimitará suas fronteiras. A metodologia é a ferramenta utilizada nas análises das fontes escolhidas pelos pesquisadores, para criticar e identificar um período histórico. Já a ideologia, poderá se apropriar dos fatos a fim de lhes conferir sentidos e significados às relações da sociedade em estudo ou ao seu redor. Alguns autores afirmam que a História sempre será utilizada para um propósito político, sejam como forma colaborativa para substanciar as ideologias, ou legitimando personagens, instituições, poder público, e doutrina social. Decorre da força histórica, descrita acima, a importância dada pelos antigos impérios e seus líderes quanto à narração das passagens de seu governo pelos arquivos oficiais, e conferindo sentido aos seus atos e a da coletividade. Le Goff preconizava a teoria de que a construção da verdade seria fruto mais muito maior de esforço criativo ao invés de descobertas factuais. Nesse sentido, o autor afirmava a inexistência da verdade no sentido absoluto na narrativa histórica; pois os discursos seriam influenciados por tradições culturais predominantes. Assim sendo, nenhum relato recuperaria totalmente os fatos ocorridos devido ao limitado conhecimento dos acontecimentos; afinal, os mesmos seriam traduzidos por versões parciais do momento relatadas por pequenas frações de atores comprometidos. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Keith Jenkins afirmava que: História não consistiria unicamente num estudo do passado, mas sim num estudo da historiografia do passado, pois o pesquisador analisa e interpreta uma obra escrita em um determinado período histórico, e não o passado histórico de maneira geral. Referencia ao final Todavia, Duby admitia que os trabalhos realizados pela escola positivista não deve ser desprezado. Segundo o autor: ―Esse material constitui, hoje, o meu principal alimento e eu tento reler, com outro espírito, os textos que a história positiva do século XIX utilizou para construir uma história dos acontecimentos.‖ (Duby, p. 12). Duby ainda afirma que: os historiadores devem utilizar todas as fontes que se julgarem necessárias, mas devem ter sempre em sua consciência que ―jamais chegaremos a uma verdade objetiva.‖ (Duby, p. 13). Nós bem sabemos como a Grécia do século V era vista por um cidadão ateniense; mas não sabemos praticamente nada de como era vista por um espartano, um corintiano, ou um tebano – para não mencionar um persa, ou um escravo ou outro nãocidadão residente em Atenas. Nossa imagem foi pré-selecionada e predeterminada para nós, não tanto por acaso mas por pessoas que estavam consciente ou inconscientemente imbuídas de uma visão particular e que consideravam os fatos que sustentavam esta visão dignos de serem preservados. (Carr, p. 49). Hallet Carr analisa que, apesar do esforço realizado pelos positivistas ao reunir a maior quantidade de dados e documentos, ―a história tem sido vista como uma enorme quebra-cabeças com muitas partes faltando.‖ (Carr, p. 49). Exemplificando a análise supracitada, embora exista um número significativo de fontes sobre o tema Mesopotâmia, o conhecimento em relação a esta sociedade continua limitado; afinal, são conclusões retiradas de fragmentos arqueológicos e em fontes iconográficas rupestres, o que não nos assegura afirmar sobre um todo baseado apenas em contexto segmentados. A dificuldade em se levantar uma verdade absoluta não se restringe as limitações documentais sobre um fato. Acontecimentos relevantes mais próximos de nossa época, dos quais existem vastas historiografias registradas, como a Conjuração Mineira ou o período Revolucionário Militar, dificilmente conseguiríamos conhecer qual seria a ―verdade absoluta‖ do período, ou seja, a sua história objetiva, devido aos trabalhos de pesquisas dos historiadores serem realizados de forma subjetiva sobre tais eventos. Portanto, os documentos refletem, unicamente, o ponto de vista de que certo escritor entende acerca de determinado acontecimento. A ―verdade‖ se restringe apenas para os que admitem a sua forma de interpretação ou o seu modo de entendimento. Partindo deste pressuposto, Duby declara que a história não passa de uma ficção: ―o historiador conta uma história, uma história que ele forja recorrendo a um certo número de informações concretas.‖ (Duby, p. 13). Segundo este autor, existem acontecimentos históricos que são escolhidos e distorcidos a serviço de certa ideologia. Daí decorre a relevância em saber a fonte do documento e, principalmente, questionar qual o tempo histórico do autor. Em primeiro lugar, os fatos da história nunca chegam a nós ―puros‖, desde que eles não existem nem podem existir numa forma pura: eles são sempre refratados através da mente do registrador. Como consequência, quando pegamos um trabalho de história, nossa primeira preocupação não deveria ser com os fatos que ele contém, mas com o historiador que o escreveu. (Carr, p. 58). Em consequência, Hallet Carr destaca que os fatos históricos e os documentos são instrumentos importantes para o historiador. Porém, eles em si não retratam a História. Torna-se necessário ao historiador que debruce sobre seu objeto, elabore indagações sobre ele, busque interpretá-lo, e pesquisá-lo sob a ótica das ciências auxiliares. ―A função do historiador não é amar o passado ou emancipar-se do passado, mas dominá-lo e entendê-lo como a chave para a compreensão do presente.‖ (Carr, p. 61). O historiador não deve teorizar o passado baseado em convicções ideológicas pré-concebidas,pois as interpretações históricas poderão ser utilizadas, mesmo que involuntariamente, como objeto político, a fim de legitimar ideologias ou consolidar a constituição de poderes em determinado grupo social. Há de compreender que as conclusões decorrentes de um estudo histórico poderão acarretar consequências éticas e políticas. Portanto, os historiadores precisam ser capazes de dominar as diversas metodologias relativas ao seu campo e as relacionadas a ciências sociais, e de tornar-se reflexivo ao interpretar os fatos históricos, a fim de que restrinja, ao máximo, os subjetivismos inerentes tanto aos seus aspectos pessoais quanto aos de seus objetos de pesquisa. Cabe ressaltar que apesar de todo o domínio técnico do processo da pesquisa histórica a subjetividade ainda ocorrerá. Esta constatação se deve ao fato que o profissional por trás do trabalho continua sendo um ser humano, dotado de raciocínio, e passível de conclusões parciais impostas por ideologias intrínsecas ao seu inconsciente e ao coletivo que em que vive. Portanto, as narrativas históricas sempre deverão ser utilizadas como instrumentos de estudos tomando-se o cuidado de se criticar quanto as suas fontes e o contexto ao qual foi redigido o relato. Como foi demonstrado, à quase uma impossibilidade de se alcançar a história positiva e isenta. Contudo, realça-se o fato de o historiador ser um cientista social preparado e treinado quanto aos desvios que podem ocorrer em suas pesquisas. Caso este pesquisador cerque das ferramentas que minimizem os erros em suas avaliações, as conclusões alcançadas serão as mais próximas aos fatos ocorridos ao contexto histórico estudado. Assim sendo, o historiador se torna o cientista mais preparado para alcançar conclusões mais próximas possíveis a uma realidade vivida em um período histórico, e esclarecer fatos controversos de uma sociedade; desde que o mesmo se imbua dos cuidados relativos ao afastamento das subjetividades intrínsecas ao ser humano. 6 CONCLUSÃO Este trabalho de pesquisa nasceu da minha inquietude quanto à necessidade de seja atingida a Paz Social no seio na sociedade brasileira, traduzido pela união e solidariedade de seus cidadãos, a fim de que se pavimentem os caminhos do Progresso Nacional. Para que a sociedade esteja unida, os fatos controversos da formação histórica da nação deverão ser apaziguados, e uma das formas de se atingir este objetivo é na constituição de comissões voltadas a este fim. Contudo, uma comissão como descrita acima precisaria ser composta por membros que pudessem traduzir os anseios das partes envolvidas, e que se propusessem a descrever os acontecimentos com a isenção necessária, para que os grupos antagônicos aceitem as conclusões das verdades alcançadas. Com o intuito de determinar como deveriam ser os membros na composição da comissão supracitada, esta pesquisa iniciou o estudo com o entendimento acerca do significado da verdade. O que ficou demonstrado é que o tema sobre a verdade persegue a humanidade deste os primórdios gregos, os quais criam que ela deveria ser única, pois ao contrário não a seria. Entretanto, os filósofos contemporâneos já admitem outras interpretações sobre o mesmo tema. Nietzsche afirma que a verdade é apenas um ponto de vista. Este autor sugere, ainda, que para o ser humano viver em sociedade torna-se necessário diminuir as tendências de conflitos, admitindo, para isso, aceitar ideias coletivas que atendam a este propósito, independentemente de sua veracidade. Esta teoria marcou o restante do trabalho, que ao procurar o perfil para a melhor composição dos membros das comissões consideradas responsáveis em desvendar os fatos controversos da sociedade, esbarrou no entendimento contemporâneo sobre o que seria a verdade. Inicialmente, foi pesquisada a possibilidade dos membros das comissões da verdade fossem caracterizados pelos vieses político partidário. Porém, ficou claro que este grupo luta pela tomada e perpetuação do poder, amparado por um pensamento ideológico que, por sua natureza, distorce a realidade para o melhor atendimento dos fins desejados. Este tipo de composição não atenderia ao propósito de apaziguar os grupos antagônicos de uma sociedade. O segundo perfil pesquisado para membros das comissões são os sociólogos, que possuem como objeto de estudo a explicação da sociedade através do entendimento de da realidade social e de suas múltiplas redes de relações. O sociólogo, então, procura conhecer as interações intergrupais, tanto de forma particularizada por seus subgrupos como, também, de uma sociedade no seu todo. Todavia, devido ao fato do entendimento sociológico partir da própria sociedade, existe o risco da pesquisa ser contaminada pelas ideologias reinantes de parcelas de sua população, o que desvirtuaria as conclusões e a neutralidade do objeto controverso em pesquisa. Logo, apesar do sociólogo ser um cientista social preparado para analisar as formas de interações da população, haveria a necessidade de que este pesquisador tivesse a atenção e o firme propósito em abster das impressões subjetivas a fim de alcançar o objetivo de chegar a conclusões que apaziguassem os grupos controversos. O trabalho prosseguiu em pesquisa levantando a possibilidade da comissão em questão ser conduzida por historiadores. Porém, ao contrário da visão positivista inicial que imperava ao estudo histórico, atualmente existe a compreensão que os relatos de fatos são totalmente contaminados tanto pela sua origem, quanto pelo seu pesquisador; pois, ao se revelar uma narrativa, ela é posta sob a ótica de um grupo que a propôs descrevê-la, segundo o seu entendimento. Mesmo que existam abundantes fontes de consultas, de diversas origens e interpretações distintas sobre o mesmo acontecimento, caberá o poder discricionário do historiador eleger esta ou aquela versão que será explorada. Assim sendo, caberá, unicamente, ao pesquisador histórico atentar para as técnicas de evitar o subjetivismo que distorceria as interpretações sobre um determinado objeto de estudo. Conforme o resumo da pesquisa descrito acima, ficou claro a dificuldade de se determinar uma verdade isenta sobre fatos históricos. Sempre existirá o risco sobre a contaminação das conclusões obtidas pela ótica a qual o pesquisador irá desenvolver o seu trabalho. Logo, qualquer comissão que seja montada para este fim, caso não exista um comprometimento de seus componentes, só atenderia a necessidade de legitimar a versão do grupo dominante. Se a comissão tiver um viés político, ficaria assegurada a parcialidade das conclusões alcançadas. Uma comissão sob o viés político só teria a finalidade de impor uma teoria acerca do fato contraditório. A solução acima descrita não traria o apaziguamento necessário das partes litigiosas em questão a ponto de se unirem para a construção de uma Paz Social que aglutinassem as forças nacionais de todas as partes para o progresso da nação. A comissão com sob uma interpretação sociológica teria uma forte tendência a se contaminar com as afirmações admitidas por aquela sociedade, podendo desvirtuar da consciência temporal vivida na época das ocorrências dos fatos contraditórios. Porém, se os pesquisadores conseguirem filtrar as propensões sociais, poderia efetuar um levantamento próximo do fidedigno e capaz de abrandar as discórdias no seio da sociedade. Portanto, segundo o resultado deste trabalho, apesar da impossibilidade de desvendar totalmente a veracidade dos acontecimentos, o historiador seria o cientista social mais apto a desvendar os acontecimentos que circundam um fato controverso da sociedade e, assim, alcançar um apaziguamento entre os grupos distintos; desde que o mesmo se proponha a utilizar todas as técnicas possíveis para minimizar o subjetivismo inevitável que cerca toda verdade social. REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 5 ed. Tradução Mauro W. Barbosa de Oliveira. São Paulo: Perspectiva, 2002. ______. A dignidade na Política. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993. BAZARIAN, Jacob. O problema da verdade. 4. ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1994. CANTANHÊDE, Eliane. A verdade que dói. Jornal Folha de São Paulo, 13 de maio de 2012. CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. CARR, Edward Hallet. Que é História?. 3.ed. 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