Introdução Fronteiras comuns do Sul (Ligia Chiappini) Mobilidade é um lema do nosso tempo que vale para produtos materiais e simbólicos mas também,e cada vez mais, para pessoas, entre elas, os estudantes universitários em todo o mundo. O Instituto Iberoamericano da Universidade Livre de Berlim vem colocando em prática esse princípio, de várias maneiras, entre as quais se destacam as excursões de pesquisa, que promove a cada ano com grupos de alunos e docentes, sempre para um lugar (País ou região) da América Latina. Em outubro de 2005, por iniciativa da área de Literatura e Cultura Brasileiras, organizamos uma excursão interdisciplinar com 12 estudantes e três docentes 1 , cujo tema geral “Mercosur/Mercosul: kulturelle, politische und wirtschaftliche Dimensionen eines Integrationsprojektes mit Blick auf die Grenzen”, deu margem a vários subprojetos de pesquisa nas áreas de Literatura, Etnologia, Sociologia, Teatro, Cinema. Este livro é um dos resultados da excursão que foi iniciativa da Brasilianística, que apesar de ser uma cátedra dedicada ao estudo da literatura e cultura brasileiras, se insere no contexto de um instituto voltado para os estudos da América Latina com abordagens pluri, inter ou transdisciplinares. Por isso a proposta foi fazer uma excursão que começasse e terminasse em São Paulo, mas percorresse mais de 5000 quilometros das fronteiras do Brasil com Uruguai, Argentina e Paraguai, entrando um pouco com a divisão do grupo , nas capitais, Montevideu e Buenos Aires e Córdoba, Assunción, A excursão, tinha como objetivo pesquisar as dimensões culturais, políticas e econômicas do projeto de integração do Mercosul, em distintos subprojetos interdisciplinares, os quais levariam em conta mais especialmente o desenvolvimento dessa integração nas regiões de fronteira, por contraste com os centros de cada país do bloco. A viagem durou um mês, de primeiro a trinta e um de janeiro de 2005. Dela participaram treza estudantes de diferentes disciplinas do Instituto Latinoamericano da Universidade Livre de Berlim, tais como Literatura e Cultura brasileiras e hispanoamericanas, Antropologia cultural, Politologia, Sociologia, História, Economia, sob coordenação da Profa. Dra. Ligia Chiappini e participação da Profa. Dra. Sabine Schlickers, da Universidade de Bremen e da Dra. Ute Hermanns, da Universidade Livre de Berlim. A esta devemos a coordenação do concurso de fotos que, na volta a Berlim, foi organizado e acabou dando como primeiro resultado uma exposição com o título de „Poesia das Fronteiras“. 2 1 11 estudantes de graduação, dos quais apenas uma não apresenta texto neste livro, mas foi guia do grupo no Paraguai e mediadora eficiente junto aos professores paraguaios, cujas contribuições transcrevemos em apêndice, Celina Molina. Uma doutoranda, Beatriz Pantin, juntou-se ao grupo a partir de Encarnación. Além dos estudantes e da organizadora deste livro, Profa. Ligia Chiappini, participaram desde o início da viagem a Profa, Sabine Schlickers, de Bremen e a Dra. Ute Hermanns, de Berlin, vinculadas, respectivamente, a dois outros projetos de intercâmbio, apoiados pelo DAAD e a CAPES, dentro dos programas Probral e Unibral. Ute Hermanns contribuiu também para este livro com o artigo sobre os cineastas do Mercosul e com as fotos selecionadas num concurso que concebeu e promoveu junto ao grupo (ver Interregno fotográfico logo após o seu texto). 2 A exposição foi montada em duas oportunidades na Alemanha. Primeiramente, na Longa Noite da Ciência, que o Instituto Latinoamericano promoveu em 13 de maio de 2006. Posteriormente, em Bonn, durante o Encontro sobre o diálogo Brasil-Alemanha, promovido pelo DAAD, no início de setembro do mesmo ano. Na Longa O grupo contou com o apoio financeiro do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e da própria Universidade Livre. Também recebeu recursos para custear a parte terrestre da viagem do Banco de apoio à reconstrução e desenvolvimento (KfW). 3 Os objetivos centrais da viagem foram cumpridos. Basicamente: a) O desenvolvimento dos projetos individuais iniciados ainda em Berlim, no seminário preparatório do semestre de verão de 2005. A reunião de material prévio e a proposição de hipóteses que deveriam ser confirmadas, negadas ou aprofundadas durante a pesquisa de campo in loco. Esses projetos, na volta da viagem, deveriam ser retrabalhados durante um novo seminário especialmente oferecido ao grupo e seus resultados seriam expressos em trabalhos finais de aproveitamento ou pequenas teses de mestrado. b) Os contatos acadêmicos, especialmente por meio da estreita coolaboração com Universidades e Institutos de Pesquisa, antes, durante e depois da viagem, foram de grande proveito para o grupo como um todo e para cada pesquisador ou pesquisadora individualmente. 4 c) Respostas às questões gerais norteadoras da pesquisa como um todo: Ao lado das questões específicas de cada projeto individual, buscávamos respostas para algumas questões gerais que se foram cristalizando antes e durante a viagem e serviram de orientação ao grupo como um todo. Entre elas o próprio conceito de mercosul cultural, que, senão desde os primórdios do acordo, pelo menos desde 1996 fez parte do esforço de integração. 5 As principais questões do grupo eram as seguintes: Noite da Ciência foi apresentado também um DVD de 30 minutos, intitulado “Viagem à região do Mercosul: fronteiras do Brasil, Uruguay, Paraguay e Argentina“, que foi realizado por Claudia Camilo, autora do texto sobre o futebol, neste volume. Uma parte do grupo participou também da mesa redonda sobre Mercosul e Fronteiras Norte e Sul, durante a mesma noite, discutindo com alunos e professoras recém chegados de uma outra excursão de pesquisa , desta vez, às fronteiras do México com os Estados Unidos. 3 Desse banco, agradecemos especialmente ao sr. Peter Klaus; do DAAD, ao Prof. Dr. Theodor Berchem e da FU à diretora do Instituto Latinoamericano, Profa. Dra. Marianne Braig. Sem eles esse projeto não teria sido realizado. 4 Entre as instituições visitadas, universitárias ou não, citem-se: USP (Universidade de Sao Paulo), Centro Itaú Cultural, FAAP, CENTRO ÁNGEL RAMA, Memorial da América Latina in SÃO Paulo; Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Univ. Federal do Rio Grande do Sul, Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins-Celpcyro, Pontificia Univ. Católica do Rio Grande do Sul, Goethe Institut in Porto Alegre, Grupo Tarca de Publicidade, Feira Campesina e Galpão Crioulo in Porto Alegre; Univ. de Santa Cruz, in Santa Cruz do Sul; Secretaria de Turismo und Secretaria de Cultura der Prefeitura und Univ. da Campanha, in Santana do Livramento ; Ministerio de Turismo de Uruguay, Secretaria de Turismo de Rivera; CTG Sinuelo Criollo, Secretaria de Turismo und Secretaria de Cultura in Uruguaiana, Secretaria de Cultura und Univ. de Paso de los Libres, Museu das Missões in São Miguel Univ. Católica de Encarnación, Univ. Católica de Asunción, Instituto de Filosofia de Asunción e GTZ de Montevideo. 5 Diar Amin analisa no seu texto o desenvolvimento institucional do mercosul cultural e nota que originalmente a integração foi pensada apenas na dimensão política e econômica. Assim, tanto no tratado de Assunsión quanto no de Ouro Preto não aparece o conceito de mercosul cultural. Só mais tarde, ao lado das questões sociais, foram integradas as questões culturais nos planos e providências integracionistas, surgindo, por exemplo, em 17.12.1996, o protocolo de integração cultural do Mercosul. ¾ Há realmente um Mercosul cultural e, se há, que relações ele mantém com o Mercosul econômico e político? ¾ Que consequências específicas tem o Mercosul para a situação econômica, política e, principalmente, cultural nas regiões fronteiriças visitadas? ¾ Em que medida o intercâmbio cultural, que é praticado desde muito tempo nas regiões fronteiriças, e independentemente da existência do Mercosul, pode servir de modelo para uma integração bem sucedida da região do Mercosul? O programa da excursão previu desde o início atividades e contatos, levando em conta essas questões gerais e a especificidade dos projetos individuais. Por isso foram organizados eventos acadêmicos e contatos com especialistas que pudessem servir ao aprofundamento da pesquisa como um todo. Para a coleta de material relativo aos projetos individuais foram contactados principalmente as seguintes instituições: Biblioteca do Memorial da América Latina, Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas der USP em São Paulo, diversas Bibliotecas e Arquivos das Instituições visitadas em outros estados do Brasil Sul e no Uruguay, Argentina e Paraguay. Também foram adquiridos muitos CD-Roms e Revistas, quando não os recebemos de presente de nossos generosos anfitriões em todos os lugares pelos quais passamos. Além disso, valiosos foram os contatos com Sociólogos, Estudiosos de Literatura, Geógrafos, Antropólogos, Historiadores, cineastas e especialistas em Comunicações, que nos atenderam seja em grupo seja individualmente, seja para aulas informais seja para entrevistas mais formalizadas. Cabe lembrar também as oportunidades inúmeras que os estudantes do grupo tiveram para ouvir palestras e participar de debates com esses e outros estudiosos, em simpósios e seminários, organizados por ocasião da nossa visita às diferentes Instituições nomeadas acima.Aí eles tiveram não apenas ocasião de conhecer várias pequisas sobre o Mercosul e os países da região, como igualmente de dar a conhecer aos estudantes e docentes locais muito da vida universitária alemã e de seus projetos. . A busca do cerne do Mercosul cultural acabou se colocando como questão guia para o grupo como um todo, o que levantou o problema da existência do Mercosul nesse nível, ao menos como conceito e mesmo que só como teoria, mas que é difícil de constatar na realidade e difícil de entender em que realmente ele consiste, bem como em que medida a aplicação do conceito ainda é adequada. Mercosul cultural consiste na verdade, em todo esforço, iniciativa, projeto, instituição e abordagem teórica, que tentam integrar culturalmente a América Latina, ou pelo menos, a América do Sul, onde as identidades regionais específicas permanecem fortes. Especial valor se atribui à diversidade cultural, à proteção das culturas próprias à região em face da mera comercialização cultural. De outro lado, trata-se de desenvolver uma concepção de cultura, que promova a convivência transnacional. O objetivo do Mercosul cultural é também iniciar e reforçar um movimento contra a tendência para uma ditadura cultural, liderada pelos Estados Unidos. Um exemplo desse esforço são as reuniões regulares dos ministros da Cultura da RCM (Rede Cultural do Mercosul) e os projetos que resultam delas. Problemática se mostra a situação financeira. Nas reuniões dos ministros da cultura são muitas vezes propostas linhas diretivas de integração cultural que, por falta de recursos, não podem ser implementadas. Nesse sentido, coloca-se a questão se existe realmente um mercosul cultural e, em caso positivo, em que medida os esforços do Mercosul Cultural de fato terá efeitos concretos na prática. Como exemplo podemos citar o Festival Internacional de Teatro em Córdoba, Argentina, que, como mostra Mirjam Rehmet, existiu de 1984 a 1994, aliás sob o nome de Festival de Teatro Latinoamericano. Depois, por causa da situação política foi interrompido. Em 2000 foi retomado, sendo computado nos protocolos dos ministros da cultura como um resultado positivo da integração cultural do Mercosul. Nessa reaparição do Festival aparece no título e na estrutura dramática a idéia do Mercosul Cultural. O título é tão placativo quanto inócuo: de um lado promete um acontecimento aberto para o mundo, como deve ser um festival internacional. Por outro lado, remete a um espaço fechado do Mercosul. Nem um nem outro lado é de fato o caso. O título Mercosul serve aqui mais como um rótulo geral, mas não funciona como limitador ou excluente. Uma outra questão é se cada país se identifica com o Mercosul cultural. O Uruguay parece sentir-se parte do Mercosul, talvez devido a sua situação geográfica e histórica específica. A interpenetração da própria cultura pela cultura dos países fronteiriços leva à identificação com uma cultura fronteiriça supranacional. A impressão que nos vem do Paraguay, ao contrário, é de uma insatisfação generalizada com a própria posição dentro do Mercosul cultural. A projeção de uma percepção falha e a visão de valores culturais, características e necessidades do Paraguay era notável em cada contato e em cada conversa que tivemos. Isso é evidente tanto na luta pela institucionalização do Guarani como língua do Mercosul, como também na ritualização das suas próprias tradições culturais. Já nas conversas e entrevistas que tivemos ao Norte da Argentina se pode perceber uma forte identificação com a cultura européia e um grande interesse nela. Como outro elemento dentro da própria cultura e da cultura latinoamericana nomeou-se a falta de recursos econômicos. Isso leva a uma identivação com a idéia de uma cultura não comercial, que, aliás, na própria Argentina é tratada com certa distância. Interessante é que em cada região fronteiriça a identificação com o Mercosul cultural domina com relação ao centro. Isso é também o caso do Brasil, embora ele, visto de fora seja um dos países mais fortes do Mercosul. Pois muitos brasileiros, devido a sua situação geográfica, o tamanho e a diversidade cultural e lingüística do País, freqüentemente tenham dificuldade em se identificar com o Mercosul. Desse modo a cooperação informal e o apoio à cultura própria e transfronteiriça dessas regiões periféricas pode ser uma espécie de modelo para a integração cultural em nível nacional. É problemático, aliás, avaliar e valorizar o trabalho de cooperação regional-transnacional como decorrência do Mercosul cultural. Aqui, como no caso do festival de teatro, analisado por Mirjam Rehmet, se utiliza uma estrutura já existente, para instrumentalizá-la e usá-la como bandeira, no sentido de uma identidade comum ainda não existente a nível do Mercosul. Deve-se ainda atentar nesse caso para o fato de que uma identidade regional-transnacional (como, por exemplo, na fronteira do Brasil com o Uruguai, que se baseia entre outras coisas, na figura do Gaucho-Gaúcho) representa também uma delimitação com respeito aos centros nacionais e, desse modo, não podem representar-se como uma única identidade mercosureña. Resumindo, pode-se dizer que constatamos que algumas entrevistas que fizemos durante a excursão foram chave para um entendimento mais profundo do Mercosul como processo, que, como tal, com todos os seus altos e baixos, continua a desenvolver-se. Contra todo ceticismo, podemos dizer que parece não haver volta para esse processo. Se comparamos o desenvolvimento do Mercosul com o da União Européia—como faz Lasse Holler no seu texto, percebe-se que a União Européia levou mais de 45 anos para atingir a fase constitucional da integração, estágio em que ainda se encontra, depois da derrota que representou o plebicito francês. Pois o Mercosul está entrando na terceira fase com pouco mais de 15 anos de existência. Importante é que o Mercosul, pelo menos na região do Prata, tem uma longa história de integração vivencial, para usar os termos de Maria Helena Martins, que constitui uma base sólida para uma integração cultural, antecedendo de muito o tratado meramente comercial e político. Também a Profa. e geógrafa Gladis Betancourt, salienta a importância do aspecto cultural, embora enfatizando o seu papel de impulsionar a integração quando esta trava nos outros dois níveis. A importância dessa dimensão para o sucesso da integração política e econômica tem sido cada vez mais reconhecida, como pudemos constatar durante a excursão, pois se no início ela era valorizada apenas pelas pessoas relacionadas com as áreas da cultura, hoje em dia o é também por representantes do mundo dos negócios. Isso esclarece a razão pela qual muitas firmas levam em conta esse aspecto, apoiando projetos culturais e também o motivo pelo qual algumas universidades de caráter mais técnico, como a Escola de comércio de Paso de los Libres reforçam as disciplinas de caráter cultural no seu currículo . A integração da América do Sul sempre deu prioridade ao setor econômico, mas acaba de consolidar um importante espaço para a integração política, com a tão esperada e anunciada instalação do Parlamento do Mercosul, finalmente realizada no final de 2006. Uma das tônicas da discussão aí foi a necessidade de enfrentar as assimetrias, internamente aos países do bloco, implantando medidas de desenvolvimento social, e entre eles, encontrando mecanismos compensatórios para o Paraguai e o Uruguai, países menores e com menos recursos que o Brasil e a Argentina e também do que o novo membro, recém admitido, a Venezuela. Tanto o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, quanto o presidente da câmara, Aldo Rebelo, deixaram claro em seus discursos que estão conscientes de que os ressentimentos que se acumulam caso isso não se efetive, ameaçam não apenas a existência do Mercosul e o desenvolvimento econômico dos países que o constituem, mas também a paz social e a democracia na região. 6 O senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional, também sublinhou a necessidade de explicitar os conflitos e divergências, para tentar superá-los, contrariando a visão simplista freqüentemente externada na Mídia, que interpreta qualquer divergência como sinal de desintegração. Para ele, as disputas entre os países devem estar previstas como tal, tanto as antigas como as novas que certamente surgirão e o Parlamento deve ser o lugar para expressá-las, estudá-las e administrá-las, quando não for possível resolvê-las. Nas palavras do senador, “Sonhamos com a integração completa, com moeda única e livre trânsito de pessoas e de empresas que deverão ter uma cidadania única, a sul-americana”. Para ele, como para Marco Aurélio Garcia 7 o Mercosul pode ser um motor para essa integração sulamericana. Da mesma opinião é Niko Schvarz, que assinala, citando a Marco Aurélio Garcia, a importância do Brasil na gestão de Lula, enquanto impulsionador do Mercosul, com a criação de novos instrumentos, entre os quais, o Parlamento ele próprio. Para ele, “el Mercosur está muy lejos de ser un "perro muerto", como algunos pretendieron, sino que está bien vivo y actuante, con posibilidades claras de ampliar su radio de acción. 8 De fato, a pouca identificação do Paraguai com o Mercosul se mostra como um problema central para o futuro do bloco. Mas se o Mercosul não se mantém sem o Paraguai, tampouco se mantém sem o Brasil e, mais especificamente, sem São Paulo, razão pela qual começamos e terminamos nossa viagem nessa cidade. Ao contrário das regiões fronteiriças, o centro do Brasil tem ainda dificuldades de identificar-se com o Mercosul. Isso vale também para a Argentina e até mesmo para os países menores, isto é, nas fronteiras domina uma identificação maior com o Mercosul do que nos respectivos centros. Essa observação, que volta e meia aparece em alguns dos textos deste livro, constava já do nosso relatório de viagem, que dizia textualmente: Embora o Brasil seja visto de fora como um dos países mais fortes do Mercosul, muitos brasileiros, devido à sua localização geográfica, ao tamanho do país e à sua diversidade cultural , bem como à diferença lingüística, têm freqüentemente dificuldade em se identificar com o Mercosul.. 9 Os resultados parciais desta pesquisa, aqui apresentados, deixam entrever os altos e baixos do Mercosul do ponto de vista cultural, que acompanham de certo modo os altos e baixos da integração econômica e política. Mas tornam mais visível assim mesmo o quanto a dimensão cultural é importante como baliza no tratamento do problema da integração regional na América do Sul, para dar “profundidade histórica e enraizamento mais profundo do que apenas uma questão de trocas comerciais, financiamentos mútuos, mercados a construir e a conquistar, políticas a administrar, 6 Luiz Cruvinel, “Para congressistas, Parlamento consolida o Mercosul”, in: Portal da Câmara dos Deputados, 14.12.2006; <http://www2.camara.gov.br/homeagencia/materias.html?pk=96672> (15.03.2007 16:30) 7 Entrevista que encerra o livro Cone Sul: fluxos, representações e percepções, Ed. Hucitec, São Paulo, 2006, org. de Ligia Chiappini e Maria Helena Martins. 8 Niko Schvarz, “Hacia el fortalecimiento del Mercosur”, in: La República, 8(1589), 10.09.2004; <http://www.larepublica.com.uy/lr3/larepublica/2004/09/10/mundo/153438/hacia-el-fortalecimiento-delmercosur/> (15.03.2007 11:30) – “Está muy lejos de ser un "perro muerto", como algunos pretendieron, sino que está bien vivo y actuante, con posibilidades claras de ampliar su radio de acción, como nos decía recientemente Marco Aurelio García…” 9 O relatório foi redigido quase integralmente por Sofie Schenkel, Mirjam Rehmet e Tzvetelina Kreuzer, sob orientação de Ligia Chiappini, sendo considerado pronto depois de passar pela leitura crítica do grupo todo. cujos jargões predominam hoje nas análises que flutuam na maior parte da mídia, sufocando os demais aspectos e deformando a percepção“. 10 Por isso este livro, começando pelos aspectos mais gerais da integração econômica e política, prossegue, perseguindo a integração solidária na educação e investigando os antecedentes, possibilidades e limites da integração cultural, da literatura ao rádio e ao cinema, passando pelo teatro e pelo futebol, sem deixar de tocar, mesmo que rapidamente, no que poderíamos chamar de integração perversa, como foi o caso da operação condor, na fase das ditaduras latinoamericanas, do século passado. 11 Assim, parafaseando Flávio Aguiar no artigo citado, podemos encerrar esta apresentação dizendo que, sem desconhecer a importância das medidas econômicas e políticas para consolidar a integração, a começar pela política energética que hoje dá margem a sangrentos conflitos no mundo, os textos aqui publicados pretendem contribuir modestamente para valorizar, contra a chamada agenda negativa, a „energia cultural”, positiva, de que dispõem os latinoamericanos, fator que não pode ser desprezado pelo Mercosul de hoje, muito menos pela sonhada União Sul(r)americana de amanhã. 10 Flávio Aguiar, “A Sarandi e outras Fronteiras” (Rezension des Buches Cone Sul: fluxos, representações e percepções, hg. v. Ligia Chiappini und Maria Helena Martins, São Paulo: Hucitec, 2006); <http://www.celpcyro.org.br/ASarandieoutrasfronteiras.htm> (15.03.2007 15:40) – “… profundidade histórica e enraizamento mais profundo do que apenas uma questão de trocas comerciais, financiamentos mútuos, mercados a construir e a conquistar, políticas a administrar, cujos jargões predominam hoje nas análises que flutuam na maior parte da mídia, sufocando os demais aspectos e deformando a percepção.“ 11 Da mesma forma poderiam ser analisadas algumas obras que começam a tratar um fenômeno mais recente mas igualmente perverso: do crime-negócio, que se processa em torno das drogas na fronteira do Paraguay, Argentina e Brasil, e que vem sendo perigosamente associado com os fluxos comandados por terroristas, de um lado, com ambições imperialistas que se voltam para a água do aquífero guarani, por outro. Mas isso é tema tão controverso e complexo que mereceria outra excursão e outro livro. No que diz respeito à literatura, Celina Molina pesquisou, entre outros, o romance de Augusto Casola, „Tierra de Nadie – Ninguém“. Infelizmente o trabalho não foi concluído em tempo para esta publicação. Mas como ela explica no seu relatório individual, trata-se de uma narrativa, que se passa na fronteira paraguaia-brasileira dos Amanbays e que se ocupa dos temas da honra, máfia da droga e ódios. Apesar de se tratar de uma literatura problemática do ponto de vista estético, vale a pena investigar mais, pois talvez a ficção, como já ocorreu em muitos casos, possa tambem neste trazer alguma luz aos obscuros e misteriosos meandros do que é tido aí por realidade.