Revista Espaço Acadêmico, nº 89, outubro de 2008 http://www.espacoacademico.com.br/089/89cunhajr.pdf Abolição inacabada e a educação dos afrodescendentes Henrique Cunha Júnior* Resumo: Este artigo examina a história dos movimentos negros no período histórico do pósabolição do escravismo criminoso, enfatizando a história da educação. O artigo faz um paralelo entre os conceitos de abolição inacabada e do projeto educacional inconcluso devido às conseqüências do projeto brasileiro de nação ocidentalizada e das dificuldades de implantação da Lei 10.639/03, que dispõe sobre o ensino da história e da cultura africana e dos afrodescendentes. Examinamos a sociedade brasileira, sob o viés do conceito de capitalismo racista, como uma sociedade conservadora, eurocêntrica e racista. O racismo é apresentado como aparelho ideológico de estado, tendo como propósito o controle social da população negra e é trabalhado como um sistema de dominação e não somente como uma relação de ódio entre raças. Em suma, temos que setores dominantes da sociedade brasileira engendraram um processo de eliminação da identidade africana, pressupondo a substituição da população e da cultura por população e cultura européias. Deste modelo de sociedade é que emergem as desigualdades sociais que afetam as populações de descendência africana e como reação, é que se apresentam as diversas instituições dos movimentos negros ao longo do século XX. Palavras -chave : História da Educação, população negra, movimento negro, abolição. 1 - O dever histórico ou o devir histórico. Estamos em meio às comemorações dos 120 anos de abolição do escravismo criminoso no Brasil. O tema foi pautado pelos movimentos sociais afrodescendentes como “120 anos de abolição inacabada”. A abolição foi um processo que deveria ter produzido uma revolução social e modificado de forma substancial a vida dos ex-escravizados, mas foi freada e ficou inacabada quando as políticas sociais em favor dos afrodescendentes. Nós também estamos com uma década de lidas e batalhas profundas para aprovação e implementação da Lei 10.639/03 sobre a história e a cultura de africanos e afrodescendentes na educação brasileira. Lei que resulta de um intenso conflito de opiniões entre o estado brasileiro e o movimento negro, e finalmente se inscreve como mais uma das conquistas desta militância. As disputas entre o estado brasileiro e o movimento social negro tiveram maior amplitude desde a Marcha Zumbi 300 anos, realizada em novembro de 1995 em Brasília, ocasião na qual se reuniram mais de 20.000 (vinte mil) ativistas, segundo nota do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal em apenas um dia de protesto. Dia este que a imprensa nacional fez por ignorar, como forma de ofuscar a importância do ato e de minimizar a sua importância política. A Lei 10.639/03 foi promulgada em janeiro de 2003, produzindo a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Até o presente a Lei não foi implementada de maneira condigna nos sistemas municipais e estaduais de educação. Tampouco obteve a devida atenção pelos programas de formação de professores e de graduação das universidades. As universidades brasileiras, de modo geral, praticamente ignoram a Lei, não movendo ações para dar suporte a sua implantação. Temos também por estes motivos, um processo educacional iniciado, mas ainda inconcluso. * Professor Titular da Universidade Federal do Ceará. Membro do Instituto de pesquisa da Afrodescendência – IPAD e do Núcleo de Africanidades do Ceará - NACE. Pesquisador Associado do NUPE – UNESP e Membrofundador da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros - ABPN. Assim, temos dois eixos de reflexão neste texto sobre a história da educação dos afrodescendentes: “Os 120 anos de abolição inacabada e os 10 anos de projeto de reforma educacional para os afrodescendentes inconclusa”. Pretendemos mostrar as formulações dos movimentos negros sobre a abolição e sobre a Lei 10.639/03 e discutir o conservadorismo da sociedade brasileira em relação aos temas de interesse da população afrodescendente. 2 - Os Temas de Interesse dos Afrodescendentes na Educação. O conceito de Temas de Interesse dos Afrodescendentes na Educação aparece com a elaboração dos pareceres do Conselho Nacional de Educação sobre a inclusão da história e da cultura de africanos e afrodescendentes na educação brasileira, elaborados pela professora Petronilha Beatriz e Silva no ano de 2003 (MINISTERIO DA EDUCAÇÃO, 2004). Os temas são múltiplos e vão desde apresentação de conceitos e conteúdos até as atitudes éticas que os sistemas de educação devem adotar no combate aos eurocentrismo e racismos na educação. A ética docente anti-racista, com respeito à pluralidade cultural, faz parte dos temas de interesse dos afrodescendentes na educação. A necessidade em explicitá-los e não se restringir aos conteúdos surge ao verificar que a prática racista “anti- negro” se proliferam sob diversos disfarces e dissimulações nos sistemas educacionais. São pelas várias e infundadas justificativas de falam sobre um fazer docente neutro, sendo que da neutralidade seria igualitário, e deste que se produzem os múltiplos descuidos na educação brasileira que causam prejuízo à população escolar negra. A principal prática neste contexto tem sido a negativa da existência de problemas racistas na educação brasileira. Prevalece o discurso do simulacro de uma educação democrática e pluralista, que elaborando uma ideologia de tratamento igualitário e não racista que não se preocupa com a avaliação dos resultados, ou ainda pior, imputando os resultados ruins aos modos de vida e aos valores dos afrodescendentes: “Eles são assim. Por isto não aprendem e não vão para frente”. Esta é uma expressão lapidar do racismo brasileiro, repetida milhares de vezes, de norte a sul e de leste a oeste do país. Com este pressuposto, a vítima é culpada da sua própria sorte, isentando os autores dos delitos contra alunas e alunos negros, resguardando os modelos eurocêntricos e racistas da devida crítica. Este modelo preserva o sistema atual de uma avaliação real sobre as suas práticas contrárias aos interesses dos afrodescendentes e a possibilidade de introduzir uma ruptura com a idéia de universalidade dos conhecimentos, possibilitando a manifestação da diversidade. Os temas de interesse dos afrodescendentes na educação formam uma síntese consistentemente elaborada para a necessidade em atentarmos para as especificidades (CUNHA JUNIOR, 1998) e (GOMES, 2000). Neste campo das especificidades de conhecimentos e práticas de vida, os territórios de maioria afrodescendente são áreas cuja análise histórica nos mostra como as desigualdades sociais e os processos de dominação, que afetam o desempenho social, cultural, político, psíquico e econômico dos afrodescendentes, são construídos sobre o espaço (CUNHA JUNIOR; RAMOS, 2007). Estes territórios evidenciam as deficiências das políticas públicas ao longo dos anos e já transitam por mais de um século, explicando a situação de vida da desta população. As escolas, como equipamentos públicos, também figuram como parte desses territórios, tornando a educação afetada pelas ausências de projetos pedagógicos e de políticas públicas específicas e efetivas para as populações negras. Temos que lembrar que são populações que constituíram um modo de vida próprio, com uma cultura particular e desenvolveram seus problemas históricos e sociais marcados pelas desqualificações impostas pela sociedade dominante. No entanto, foi este modo de vida que permitiu a realização de idéias e formas de sobrevivência e convivências próprias. O reconhecimento desta identidade e desta história é fundamental para compreendermos a diversidade de vidas e de necessidades educacionais destes determinados territórios. O racismo brasileiro se executa principalmente pelas tentativas de tornar estas realidades socialmente invisíveis e desqualificadas, sem 2 evidenciar os determinantes de raça, impondo-se de forma aparentemente silenciosa: para quem não está atento ao cotidiano da sociedade aparenta estar dissimulado. O racismo brasileiro é concreto nas situações históricas impostas aos africanos e a seus descendentes, fazendo parte de uma constante imposição de dominação econômica, cultural, social e política. Não se restringe apenas a um problema de classe social clássico, da relação entre possuidores de capital e despossuídos. Este racismo se executa, então, de forma e aparência silenciosa, sem as sistemáticas explicitadas de outros países com rígidos patrões raciais. Fato que leva por comparações a uma parcela da população não reconhecer a existência do racismo no Brasil. Os movimentos negros no Brasil têm uma atuação de reivindicação política e de consolidação de uma identidade negra. Estes movimentos assim definidos exis tiram ao longo de todo século XX no Brasil, tendo formulações próprias, mantendo elevado grau de originalidade e autonomia em relação à militância de mesma temática existentes em outros países. Os movimentos negros do século XX no Brasil têm raízes nos protestos e reivindicações sociais de maioria negra do século XIX, entre eles as organizações abolicionistas, as irmandades religiosas, os terreiros de Candomblé e Umbanda e também as revoltas sociais de diversas origens onde existia uma maioria afrodescendente em ação (NATAVIDADE; CUNHA JUNIOR, 2003) e (SILVA, 2000). Estes movimentos sociais negros do século XX transmitem um legado de experiências e conquistas sociais e políticas que vão moldando as militâncias negras do século XXI. As raízes dos movimentos negros durante o período histórico da pós-abolição são variadas e motivadas por distintas razões. Estas se orquestram no sentido da formulação de uma atitude de defesa de idéias da população negra. Um foco de origem dos movimentos sociais negros é resultante das ações sociais de luta pela abolição do escravismo criminoso e da insatisfação dos resultados práticos da abolição. Devemos considerar a importância desta organização à existência de bairros urbanos de maioria africana e afrodescendente em diversas cidades brasileiras, resultado das pressões das reformas urbanas e das visões racistas sobre as populações negras, incorporadas nas remodelações urbanas implantadas pelo estado brasileiro. Estes bairros motivaram a produção de um sistema de identidade social importante. Outra origem que deve ser considerada ao aparecimento destes movimentos sociais no meio negro foi o conjunto de políticas imigratórias européias que se configuravam como políticas racistas contrárias aos interesses e à estabilidade social, econômica e política das populações negras. Além destas organizações de protesto e formulação direta de luta política devemos considerar a existência de instituições culturais e religiosas que defendem, de certa maneira, a consolidação de uma expressão cultural negra. Expressão esta que a sociedade racista, sobre tudo os intelectuais, insurgiu contrariamente, sobretudo no início do século passada as definido como fonte do atraso social brasileiro. Os clubes sociais negros de festividades populares, como também os de manifestações religiosas foram perseguidos pelo estado e enxovalhados pela opinião pública. Existiram atos de linchamentos públicos, de prisões e lutas sociais ainda não totalmente relatados pela pesquisa social brasileira (TENORIO, 2006). As hostilidades contra a população negra no início do século XX eram de grande monta e se realizavam em todos os setores da vida nacional (LEITE, 1992), (MELLO, 1999), (BOAVENTURA, 1999), (FERREIRA FILHO, 1998). São aspectos que a história oficial do Brasil sempre tem procurado camuflar, dando a impressão que transição entre o escravismo criminoso e o capitalismo racista se fez de maneira pacífica e com negociações fechadas dentro das câmaras de deputados do Império (AZEVEDO, 1987). As instituições, religiosas ou laicas, defendiam à sua maneira a preservação da identidade e da cultura dos descendentes de africanos. A própria permanência destas instituições é uma forma 3 de consolidar expressões culturais e de inserção na sociedade brasileira. A solidariedade promovia uma contraposição às injustiças originando também formas de organizações que contribuíram para uma consciência coletiva militante, não necessariamente com as formas das ações e de protesto da atualidade, mas dentro dos moldes possíveis daquele momento histórico. Outras formas são as participações em organizações associativas e sindicais de trabalhadores de setores da sociedade, como ferroviários, portuários, saveiristas, remadores, gráficos e jornalistas, que influenciaram também a organização das comunidades de maioria afrodescendente e produziram lideranças dos movimentos negros (GARCIA, 2007). São infindáveis as citações que temos na história de organizações e modos de vida dentro da sociedade que promoveram ações que resultam em contribuições para fo rmação de um movimento social negro no período pós-abolição. Do confronto à situação social, de contínua produção de desigualdade social e de sistemática inclusão limitada que viveu a população negra, é que se organizam as militâncias negras. O combate aos preconceitos, às discriminações e ao racismo permite a explicitação de uma pauta de protestos e reivindicações que caracterizam suas ações distintas. Relembramos que o racismo é compreendido aqui como um modo de dominação, ligado ao controle social (CUNHA JR. / RAMOS, 2007). Não nos referimos ao racismo como um processo de ódio entre as raças, mas como um sistema de dominação e, portanto, de produção das desigualdades sociais entre as etnias. Um racismo que vai muito além das manifestações explícitas de rejeição e de discriminação da população negra. É também considerando aquele que abarca as políticas públicas dos estados e municípios, das organizações, dos serviços e oferta de empregos. Neste ínterim, a política de fomento à imigração européia foi, por exemplo, uma das políticas públicas contrárias aos interesses da população negra que teve na sua formulação a base racista de pensar o exescravizado com inadequado para o sistema de trabalho livre. Visão equivocada que, de certa maneira, se reproduziu no pensamento intelectual brasileiro (FERNANDES, 1978), (IANNI, 1962). Existiu um forte pensamento de idéias racistas que projetaram os africanos e seus descendentes como impasses ao processo de criação de sociedades de civilização (SANTOS, 2006). 3 - Demarcando o século XX com os movimentos de consciência negra. Durante o século XX, existe em todo território brasileiro, uma profusão de movimentos sociais de maioria negra com os mais diversos matizes sociais e políticos, muitos com discursos de protestos contra as injustiças sociais vividas pela “classe negra” na sociedade capitalista racista do pós-abolição, outros de caráter associativo em defesa da cultura de base africana e do exercício de formas de identidades negras através da cultura, muitos outros refletindo as lutas pela posse das terras e explicitando os conflitos fundiários resultantes da forma em que se realizou a abolição do escravismo criminoso no Brasil. O conceito de movimentos sociais de maioria afrodescendente, como expressão da amplitude dos movimentos negros, precisa ser revisto e trabalhado à parte dos conceitos de outros movimentos sociais elaborados depois da década de 1970 (GOHN,1997). Esta profusão de organizações sociais de maioria afrodescendente, formais e informais, e que consolidam expressões de cultura e identidade ou que realizam protestos contra as injustiças sociais vividas pela população negra, amalgamam um cadinho amplo de ações sociais que denominamos de movimentos negros no século XX (ALBUQUERQUE, 1999), (ABREU, 1996), (ASSIS, 1996). Durante o século XX, o “fazer militante”, em termos de protesto negro, teve dois momentos de síntese de notável expressão. Estes são a Frente Negra Brasileira, de 1930 a 1937, tendo continuidade sob outras siglas e formas de organização após 1937 (SILVA, 2007) e os 4 Movimentos de Consciência Negra, de 1960 a 1980, estes também com continuidade nos anos seguintes com diversas facetas, sendo a mais conhecida a de buscas por políticas públicas para a população negra e de inserção nos sistemas de administração pública como são os casos dos Conselhos de Participação das Comunidades Negras, nos estados e municípios, ou da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do governo federal, já no século XXI (SANTOS, 2006). Cabe não esquecermos dos conjuntos de ações intermediários a estes que ocorreram nas mais diversas regiões do país, a exemplo da União dos Homens de Cor que existiu em vários estados, entre os anos de 1940 e 1950 (SILVA, 2003). O primeiro ciclo de síntese importante dos movimentos negros, denominado como Frente Negra Brasileira, está bem caracterizado e definido de maneira bastante razoável na história dos movimentos negros. O segundo ciclo, síntese que denominamos de Ciclo de Consciência Negra, aparece de forma precária na literatura sobre movimentos negros e é muitas vezes confundido com a fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, o MNU de 1979. Também é confundido com as ações anteriores que o precedeu, que são continuidade do que foi o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial - MUCDR de 1978, surgido em decorrência das reuniões de avaliação do ato público nas escadarias do Teatro Municipal, em São Paulo, em 1978 (CUNHA JR., 2003). Embora com o título de unificado, o MUCDR e o MNU, nos seus nascedouros, já não abrigavam mais os grupos ditos mais radicais e nem os ditos mais conservadores, como alguns grupos que participaram da organização do ato público histórico de protesto de 1978 e não participaram por divergência políticas à linha impressa ao MNU. Dois pontos nodais distinguiam os alinhamentos. Uma linha que nós denominávamos na época de “esquerda branca” em que a população negra era incorporada pelas “esquerdas brancas” de forma genérica e considerada insuficiente para parte do movimento negro dissidente, dentro da ótica de classe trabalhadora ou de grupos populares. A outra dava lugar à cultura e aos trabalhos culturais nas ações dos movimentos negros. Partes dos grupos viam os trabalhos culturais como excessivos em proporção aos trabalhos políticos. Existia um debate se o cultural era ou não político. Este segundo período, denominado de Consciência Negra, é caracterizado pela ampla revisão conceitual sobre a dominação eurocêntrica e sobre a consciência da população negra em relação a sua cultura e situação sócio-econômico-política. Contestando a existência de uma democracia racial no Brasil, as relações étnicas brasileiras são passadas em revista, neste período, e pautadas as dificuldades enfrentadas pela população negra. São revalorizados todos os signos de expressão da cultura e das organizações de maioria negra. São estabelecidos os pontos de partida para a elaboração de um pensamento social negro tendo como base a cultura de base africana e o socialismo. A idéia de conscientização política da cultura e da situação de vida da população ganhou, neste período, contornos de reivindicação pelas políticas públicas do estado especificadas nos temas de interesse da população negra. Nesta proposta de consciência negra formulou-se uma variada pauta de ruptura conceitual como os movimentos negros passados (PEREIRA, 2000). Uma destas rupturas está na ênfase da especificidade da população negra em ruptura como os conceitos de universalidade. Esta ruptura conceitual salienta a especificidade dentro dos enfoques de classe social, diferenciando da problemática geral do povo brasileiro, dado à história do escravismo criminoso e do racismo. Também é evidenciada a diversidade no campo da cultura, afastando-se da possibilidade de universalidade da cultura. A especificidade da cultura negra no Brasil leva a um debate que, em síntese, demonstra que a universalidade da cultura é um campo ideológico da dominação ocidental. 5 Este período se caracteriza também pela existência de um número grande de pequenos grupos dentro do movimento negro e, sobretudo, por um imenso movimento social em torno da cultura negra. Os marcos revolucionários de consciência negra são de caráter epistemológico. A estrutura epistemológica dos argumentos de racismo ou não racismo na sociedade brasileira foram alterados. Não somente a teoria conformista de nação sem grandes conflitos étnicos é abalada, como as noções de possibilidade de unidade das denominadas classes trabalhadoras ou de movimentos populares brasileiros são postas em questão. Existe um argumento de razão instrumental sobre o eurocentrismo e sobre a produção de desigualdade capitalista, que não esta apenas na razão de sociedade classe no Brasil, mas principalmente na idéia de construção do ocidente judaico-cristão / greco-romano. Nesta revolução conceitual realizada entre os anos de 1960 e 1980, temos o nascimento da formalização do dia 20 de Novembro em contraposição à comemoração do dia 13 de Maio. Não se trata apenas de uma troca de datas, mas principalmente da concepção dos movimentos socia is. Enquanto que para as organizações anteriores, o 13 de Maio era uma grande vitória social brasileira, pelo qual a população lutou por séculos, para os movimentos mais recentes as conseqüências sociais reais do processo da abolição da escravatura era o que importava, ficando, portanto, o 13 de Maio despossuído de grandeza comemorativa e passava a ser visto como uma incorporação à ideologia de “igualdade racial brasileira”, fortemente combatida. Na cena pública de 1960 e 1970, os grupos denominados como conservadores e reacionários comemoravam o 13 de Maio com festa amplas e solenes, mesmo que protestando contra as situações de racismo. Os novos grupos, auto denominados de revolucionários, passaram a exaltar o 20 de Novembro. A crítica sistemática à forma pela qual foi realizada a abolição e a comemoração do dia 13 de Maio aparecem sistematizadas pelo Grupo Palmares, de Porto Alegre, em 1971, e ganha corpo pelo Brasil nos anos seguintes, resultando em 1995 no Dia Nacional de Consciência Negra e na proposta de transformá-lo em feriado nacional, em comemoração à data. A formulação de consciência negra levou a uma grande reflexão sobre os valores sociais e culturais e da importância destes na organização da população e da aquisição de consciência política na elaboração de um movimento político de grandes proporções. As décadas de 1960 e 1970 representam tanto o fim de grande número de organizações negras, quanto do aparecimento de novas. Um número elevado de organizações de curta duração floresce em todos os lugares do país e rapidamente desaparecem. No entanto, algumas organizações permanecem por um período longo e passam para a história, pela amplitude de suas ações. Alguns grupos têm destaque como o Ilê-Aiyê, na Bahia, fundado em 1974 (CARDOSO, 2001), o Centro de Cultura e Arte Negra - CECAN - de São Paulo e fundado em 1968 (MOTTA, 1986), o Simba, seguido do IPCN, no Rio de Janeiro (1974), a Federação das Entidades Negras do Estado de São Paulo (1975), o MNU (1979), o Grupo Negro da PUC-SP (1978). Os grupos pertencentes à Pastoral do Negro, fundada em 1983, são de grande importância na difusão das idéias do movimento negro, realizando uma rápida expansão na década de 1980, apresentando mais de 600 núcleos distribuídos pelo país. Tornou-se numericamente o maio r e mais importante setor dos movimentos negros, por quase duas décadas. Esta importância passa até hoje por despercebida na literatura sobre o período. Os eventos históricos têm continuidade com o avanço da institucionalização política das organizações militantes negras. Estas passam a reclamar e a formular políticas para o estado brasileiro. Este processo é reforçado pelo surgimento de Organizações Não-Governamentais dentro do movimento negro. A situação social, econômica e política da população negra nutre o enfoque de racismo no Brasil devido, principalmente, às desigualdades em relação à população branca pobre. Os 6 brancos pobres têm médias sociais melhores que a média da população negra. A crítica ao processo de instalação do capitalismo no Brasil é fundida e mesmo confundida, algumas vezes, com a crítica ao processo abolicionista. A manutenção da herança escravista é apontada como a marca do processo abolicionista inacabado. A análise da situação da população negra introduz uma ampla revisão da educação brasileira. Esta é vista como excludente pelas dificuldades de acesso a todos os níveis de educação e como reprodutora da sociedade racista pelo seu eurocentrismo e pelas suas práticas racistas. A ausência de conteúdos de interesse das populações negras é um dos marcadores do racismo na educação. Esta crítica à educação brasileira foi fundamentada pela idéia dos direitos culturais e da democracia pelo exercício da pluralidade cultural. As bandeiras levantadas sobre a educação para os afrodescendentes na década de 1970 foram pelo combate ao eurocentrismo (CUNHA JÚNIOR, 1992), pela necessidade da existência de expressões da identidade negra na educação, pelo combate aos estereótipos e pela eliminação das práticas discriminatórias anti- negro nos ambientes educacionais (SILVA, 1988). Nesta premissa é que a tradição religiosa de base africana entra na pauta da educação dos afrodescendentes (MACHADO, 1999). A crítica à educação produziu uma pauta específica de reivindicações educacionais para a população negra (PEREIRA, 2003). Nesta pauta destacamos a necessidade de inclusão da história e da cultura africana e dos descendentes de africanos e das ações de fundo para garantir a participação de afrodescendentes no ensino superior. O resultado desta pauta é que, alguns anos depois, o Estado brasileiro promove a existência de um grupo de trabalho e posteriormente uma secretaria no Ministério da Educação para abordar as questões relativas às populações negra e indígena. A Lei 10.639 de 2003, que introduz a obrigatoriedade do ensino da história africana e da história dos Afro-brasileiros na educação nacional é resultado último desta crítica educacional iniciada nas décadas de 60 e 70. As políticas de ações afirmativas na educação superior, em particular a política de cotas para negros, também têm estas raízes. As políticas educacionais para a população negra, como a aplicação da Lei 10.639/03, encontram grande resistência no sistema educacional e um enorme imobilismo do governo federal e dos estados em ações para sua efetiva implantação. As ações realizadas são tímidas, muitas vezes consideradas como não prioritárias e de ações não coordenadas com demais projetos de política pública. Assim ao conceito de “120 anos de abolição inacabada” podemos fundir o de “10 anos de processo educacional inconcluso”. 4 - Projetos políticos republicanos contrários aos interesses da população negra. A marca da sociedade brasileira foi sempre de um imenso reacionarismo e conservadorismo em relação à população de africanos e afrodescendentes. Além de sermos uma sociedade forjada na construção de um escravismo criminoso, a abolição foi realizada sem uma ampla revisão de direitos e necessidades da população negra. Ao contrário, as políticas republicanas sempre foram da “negação do Brasil” e da europeização do país. As políticas cultural e educacional são exemplos importantes deste esforço, onde nós encontramos uma constante “folclorização”, simplismos, desprezo e perseguição à cultura africana e afrodescendente. Fatos como a destruição de terreiros e internamento em manicômio dos seus líderes religiosos ou a criminalização da pobreza (RIBEIRO, 1995; NATIVIDADE, 2002). Também o foi a política econômica do estado ao instalar a imigração européia para substituição da mão-de-obra da população africana e dos descendentes pela européia, sobretudo nos círculos mais dinâmicos da economia ou ainda as 7 políticas eugênicas e higienista, como o objetivo de desafricanizar os espaços urbanos (FERREIRA FILHO, 1998). O pensamento nacional, tanto da direita como da esquerda, sempre procurou diluir ou diminuir a importância do significado da população africana e afrodescendente em todos os setores da vida nacional. As relações étnicas são sempre vistas como um problema de polícia. A violência urbana e a situação das populações negras na atualidade é um exemplo notório desta premissa policial regressiva. Fato que, ainda se discute a existência ou não de racismo na sociedade brasileira, mesmo em presença das fortes desigualdades sociais presentes entre negros e brancos. Nem mesmo estas desigualdades sensibilizam a consciência social da população ou os governos a refletirem sobre as pautas dos movimentos negros. A idéia de paraíso racial permanece quase que inabalada, ancorada na justificativa de que a mestiçagem resolveu os problemas das relações étnicas no Brasil. Permanece a confusão implantada que mistura os fatos biológicos, a mestiçagem, com os fatos políticos, a práticas de racismo. Dizemos que a mestiçagem não mestiçou as contas bancárias e nem as posses de terras e, portanto, não resultou em melhorias efetivas para a população negra. Os filhos nascidos da relação entre as escravizadas e os escravizadores continuaram escravizados. Esta é uma das marcas do conservadorismo brasileiro. A mestiçagem não deu mo tivo para o acesso à liberdade e à propriedade. Muito menos à dignidade humana roubada pelo escravismo criminoso. Da mesma forma que temos uma sociedade conservadora em termos de direitos para a população negra, temos a educação também restritiva e conservadora em relação a esta população. Assim, as discussões de Cotas para negros nas universidades brasileiras, bem como a aplicação da Lei 10.639/03, são marcadas pelos aspectos de um processo conservador. O Brasil sistematizou e naturalizou todas as formas possíveis de dizer não a população negra. Trata-se de uma sociedade que nega muitas vezes mesmo a existência do negro, como é o caso dos estados do Ceará ou do Rio Grande do Norte. Devido à naturalização empreendida a esta perseguição sistemática do “não ao negro”, não é caracterizado pela sociedade como prática racista. A educação brasileira faz par como os hábitos da história do racismo da sociedade brasileira como processo de negação do negro, seja pela invisibilidade, seja pela indiferença. Referências ABREU, M. 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