Mensurando a Consciência Ecológica do Consumidor: Um Estudo Realizado na Cidade de Porto Alegre∗ Autoria: Natalia de Sales Lages, Alcivio Vargas Neto Resumo: O objetivo principal deste estudo é mensurar o nível de consciência ecológica do consumidor brasileiro, mais especificamente da cidade de Porto Alegre, através da reaplicação e adaptação da escala desenvolvida no estudo de Straughan & Roberts (1999). A pesquisa, realizada na capital gaúcha, entrevistou uma amostra de 400 consumidores de diversos bairros da cidade. Além do objetivo principal, o estudo também analisou a relação entre variáveis demográficas e o nível de consciência ecológica do consumidor, e a robustez e a qualidade da escala utilizada, comprovadas através dos testes de confiabilidade e validade dos constructos de tal escala. Finalmente, também foi possível identificar que a consciência ecológica do consumidor é resultado do somatório de diferentes níveis ou subníveis de consciência relativos a distintas facetas da consciência ecológica. Palavras-Chaves: comportamento do consumidor, consciência ecológica e preocupação ambiental 1. Introdução O interesse e a preocupação sobre questões ecológicas e ambientais evoluíram por várias fases distintas, sendo intensificado a partir das décadas de 60 e 70, onde surgiram movimentos ecológicos como o referente aos problemas resultantes da poluição causada por grandes indústrias e para a conservação da energia (CUPERSCHMID & TAVARES, 2001; STRAUGHAN & ROBERTS, 1999; ROBERTS 1996). Entretanto, apenas nos anos finais do século XX, a observância dessas questões tornou-se uma fonte de vantagem competitiva por parte das empresas e foco de atenção para políticos, indivíduos e para a sociedade como um todo. Tornou-se uma questão mais aparente, prometendo estar presente por todo o século XXI (STRAUGHAN & ROBERTS, 1999). Toda esta evolução, e pressão política e social, que continua exercendo força nos dias atuais, resultam numa corrida contra o tempo, onde empresas e governos têm buscado formas alternativas de não apenas evitar a poluição decorrente da emissão de gases tóxicos e resíduos, mas também de evitar o desperdício de recursos e criar produtos e embalagens que não prejudiquem o meio ambiente e todo o ecossistema em que se vive. Desta forma, e não surpreendentemente, também houve uma evolução e um crescimento nas investigações acadêmicas sobre “assuntos verdes” e questões ambientais (STRAUGHAN & ROBERTS, 1999). Desta maneira, pode-se dizer que desde as primeiras grandes tragédias ambientais, as abordagens relativas às questões ecológicas têm se modificado positivamente nos setores industriais em nível global. Além disso, o conflito entre ambientalistas e empresários evoluiu para o reconhecimento de que uma cooperação é necessária para viabilizar soluções integradas, buscando o amadurecimento do debate para que possa resultar em propostas inovadoras com o intuito de otimizar o uso de recursos e minimizar a geração de resíduos e agentes poluentes (GRUPO GIGA, 1999). No contexto social e econômico brasileiro, segundo Dinato (1998), os consumidores ainda têm dificuldade de perceber os benefícios que podem ser gerados por uma gestão mais eficiente dos recursos existentes e que esse comportamento pode tornar-se uma fonte poderosa de incentivos para processos de inovação e de desenvolvimento. No Brasil, o 1 argumento mais freqüente para não se fazer uso de ferramentas relativas à conservação do ambiente por parte das empresas, é que o consumidor brasileiro não está preparado para identificar e valorizar os possíveis benefícios ambientais (DINATO & MADRUGA, 1997). Desta forma, procurando verificar como o consumidor brasileiro se comporta diante das questões e dos problemas ambientais que o mundo vem enfrentando, este trabalho busca responder o seguinte questionamento: “O consumidor brasileiro tem consciência ecológica?”. Assim, esta pesquisa proporciona uma oportunidade ímpar de conhecer um pouco mais a fundo o comportamento ecologicamente consciente do consumidor brasileiro, através da reaplicação da escala de Straughan & Roberts (1999). Portanto, este trabalho tem como objetivos mensurar o grau de consciência ecológica do consumidor de Porto Alegre; analisar a relação entre variáveis demográficas e o nível de consciência ecológica do consumidor; e avaliar a confiabilidade e a validade da escala ora reaplicada. Estruturalmente, este trabalho inicia-se com uma breve fundamentação teórica, na qual são referidos aspectos relevantes à compreensão do tema discutido e da própria escala a ser estudada. Seguindo-se a apresentação do método de pesquisa utilizado, e por fim, os resultados e conclusões do estudo, bem como limitações e sugestões para futuras pesquisas. 2. Fundamentação Teórica A preocupação ambiental tem assumido um papel cada vez mais relevante para as empresas e para a sociedade como um todo, não só pela crescente exigência dos governos através de legislação e normas específicas, mas também por pressões de mercado, advindas principalmente do consumidor, que está a cada dia mais informado, exigente e buscando uma melhor qualidade de vida. Como conseqüência dessas mudanças as empresas e profissionais de marketing enfrentam, neste contexto de preocupações ambientais e ecológicas, desafios relacionados e que vão além do desenvolvimento de ofertas competitivas (HANDELMAN & ARNOLD, 1999). Para a disciplina de marketing, estes desafios provocaram transformações em sua abordagem ao longo do tempo, o que permitiu emergir na década de 70 os conceitos de ‘marketing societal’ e ‘marketing ecológico’. Mais tarde estes conceitos, influenciados pelas constantes mudanças, foram unificados com o objetivo de compatibilizar a perspectiva técnico-econômica do mercado com uma ampla abordagem sócio-ambiental. Esta nova abordagem para a disciplina de marketing deu origem ao conceito de Marketing Ambiental que é definido como a “gestão holística dos processos responsáveis por identificar, antecipar e satisfazer as necessidades dos clientes e sociedade, de forma lucrativa e sustentável” (PEATTIE, 1995). Por volta da década de 80, em muitos países da Europa, propagou-se a conscientização de que os prejuízos causados ao meio ambiente – e por conseqüência à vida de cada indivíduo – poderiam ser amenizados por meio de práticas individuais e, principalmente, empresarias ecologicamente corretas (CALLENBACH et al. 1993). Nesta época o cenário alemão ocidental apresentou comportamentos que mudaram radicalmente o panorama político e social, que mais tarde afetariam todo o mundo. Dentre estes comportamentos, pode-se citar: uma rápida disseminação da consciência ecológica-ambiental por toda a comunidade; surgimento de protestos contra tecnologias poluentes ou destrutivas, como contra a utilização de energia nuclear; e o surgimento de partidos políticos em defesa do meio ambiente, intitulados como “Partidos Verdes” (CALLENBACH et al. 1993). Como conseqüência de todas essas mudanças e evoluções, as questões ambientais começaram a exercer grande impacto sobre as preferências dos consumidores, de forma que o que antes era visto pelas empresas de forma negativa e como uma questão marginal, passou a 2 ser visto como uma forma de se obter novos lucros e uma posição de vantagem competitiva (LUTZ, apud DINATO, 1998). As organizações que objetivavam uma associação direta da sua imagem corporativa ou da sua marca com a preocupação ética e ambiental fizeram uso do chamado “marketing verde” (FRUSE & COLEHOUR, 1994). Desenvolvendo, com este objetivo, produtos e serviços que tenham como propósito maior satisfazer as necessidades e desejos dos consumidores, oferecendo e mantendo uma melhor qualidade de vida Desta forma, a compreensão do comportamento consciente dos consumidores faz-se importante para o melhor desenvolvimento de estratégias de marketing adequadas ao contexto de preocupação ambiental, que continua tornando-se mais relevante a cada dia. Os consumidores “verdes” ou ecologicamente conscientes e responsáveis, são definidos ou representados por aqueles indivíduos que buscam para consumo apenas os produtos que causem o menor – ou não exerçam nenhum – prejuízo ao meio-ambiente. Ou seja, aqueles que buscam conscientemente produzir, através do seu comportamento de consumo, um efeito nulo ou favorável sobre meio ambiente e à sociedade como um todo (ROLSTON & BENEDETTO apud DINATO, 1998). A preocupação em identificar e entender quem é o consumidor de produtos ecologicamente responsáveis e quais são as suas características é anterior à questão do marketing ambiental. Alguns estudos realizados na década de 70 já se preocupavam em compreender este comportamento (KASSARJIAN, 1971; ANDERSON JR. & CUNNINGHAM, 1972; KINNEAR & TAYLOR, 1973; KINNEAR, TAYLOR & AHMED, 1974; MURPHY, KANGUN & LOCANDER, 1978). Anderson Jr. & Cunningham (1972), identificaram algumas características dos consumidores socialmente conscientes. No resultado desse estudo, os autores definiram os consumidores conscientes como indivíduos preocupados não apenas em satisfazer suas necessidades pessoais, mas também com o bem-estar da sociedade e do ambiente, e pertencentes a uma classe socioeconômica acima da média e com ocupações profissionais de reconhecimento e status. Paradoxalmente, apesar do perfil consumidor ecologicamente consciente ter sido identificado através de características sociais, econômicas e demográficas, Anderson Jr. & Cunningham (1972) afirmam que são as características sócio-psicológicas que mais fornecem subsídios para a definição de consciência social-responsável. Esta afirmação, só reforça o estudo de Kassarjian (1971), que revelou que as variáveis demográficas são ineficazes para a identificação dos consumidores ecologicamente conscientes. Kinnear, Taylor & Ahmed (1974), dando continuidade aos estudos anteriormente citados, também revelaram, assim como os estudos de Kinnear & Taylor (1973); Shrum et al (1995); e Straughan & Roberts (1999), que a identificação do “consumidor verde” é eficaz através da utilização de variáveis psicográficas ou comportamentais. Dentre as que têm sido identificadas como significativas estão: o conhecimento das questões e termos ambientais (ROBERTS & BACON, 1997; STRAUGHAN & ROBERTS, 1999); atitude pró-ativa frente aos problemas ambientais (SCHLEGELMILCH et al, 1996); exposição direta ao problema (KASSARJIAN, 1971; KINNEAR et al, 1974; YAM- TANG & CHAN, 1998); ideologia (orientação política) (STRAUGHAN & ROBERTS, 1999); redução da fidelidade a marcas (SHRUM et al, 1995); e descrédito na propaganda (SHRUM et al, 1995). Por outro lado, no entanto, uma questão recorrente nos estudos que tentam identificar o perfil deste consumidor é a ausência de relação direta entre consciência ecológica e o comportamento de compra (SHRUM et al, 1995; SCHLEGELMILCH et al, 1996; YAMTANG & CHAN, 1998). Follows & Jobber (2000) afirmam que a consciência ecológica não é fator determinante para um comportamento de compra ecologicamente responsável. A intenção de compra do 3 consumidor consciente ecologicamente é resultado de uma avaliação de trade-off entre as conseqüências ambientais e as conseqüências individuais da compra. Ou seja, forte peso das conseqüências individuais pode explicar porque alguns consumidores com alta consciência ecológica não manifestarem comportamento de compra pró-meio-ambiente. Sob este aspecto, o conhecimento das questões ambientais, apesar de ser considerado como um indicador da possibilidade de ação consciente do consumidor, não significa obrigatoriamente um comportamento de compra ecologicamente correto. Assim, compreender todos os comportamentos e características que determinam o consumo de um indivíduo socialmente consciente é relevante para que empresas e profissionais da área consigam oferecer produtos e serviços preocupados com as questões ambientais e planejar e implementar estratégias competitivas sustentáveis. Os produtos verdes, desenvolvidos como parte de uma ação de marketing socialmente responsável, são produtos ambientalmente corretos que não agridem o meio ambiente e a saúde humana. São, em geral, tidos como mais duráveis, não tóxicos, feitos de materiais reciclados e com o mínimo de embalagem possível. De acordo com Dashefsky (1997), existem dois tipos de produtos verdes: os “absolutamente verdes” e os “atualmente verdes”. Os produtos considerados “absolutamente verdes” são aqueles desenvolvidos, desde a sua concepção, para serem produtos ecologicamente corretos. Enquanto que os atualmente verdes são aqueles que não foram desenvolvidos com a preocupação primária de serem ecologicamente corretos, mas que posteriormente foram verificados como sendo não agressivos ao meio-ambiente. Por outro lado, no entanto, Ottman (1994) afirma que não existem produtos completamente verdes ou ecologicamente corretos, visto que o desenvolvimento e a produção de qualquer produto gera resíduos durante a sua fabricação, distribuição e durante o próprio consumo e descarte. Assim, Ottman afirma que existem quatro dimensões que devem ser consideradas para o adequado processo e desenvolvimento de produtos ecologicamente corretos e a não observância de alguma dessas dimensões pode implicar no desenvolvimento de um produto não ecologicamente correto em sua totalidade: − Aquisição e processamento de matérias-primas: conservação de recursos naturais; minimização dos resíduos e prevenção da poluição; uso de recursos naturais renováveis; uso sustentável de recursos naturais e uso de materiais recicláveis. − Produção e distribuição: uso mínimo de materiais; redução do uso de produtos tóxicos e da liberação de resíduos tóxicos; geração e manuseio de resíduos; uso de água; emissões de poluentes. − Produtos e Embalagens: eficiência energética; conservação de recursos naturais associados ao uso do produto; saúde do consumidor e segurança ambiental. − Uso e Descarte do Produto: reciclabilidade; facilidade de reutilização; durabilidade e biodegradabilidade. Além disso, outra questão a ser considerada, segundo Peattie (1995), é a relatividade do conceito produto verde. Sendo que este conceito não pode ser considerado absoluto e varia ao longo do tempo, entre os países e também entre os participantes dos processos da empresa e do ambiente de negócios. Devido a isto, alguns produtos lançados como verdes podem ser posteriormente identificados como agressivos ao meio ambiente. Peattie (1995) exemplifica esta situação com o caso do gás CFC (Cloro-Fluor-Carbono), que inicialmente foi lançado no mercado como um produto ambientalmente inerte, mas que atualmente é identificado como um dos principais responsáveis pelo buraco na camada de ozônio. Desta forma, com o objetivo de observar como o consumidor brasileiro, mais especificamente o consumidor porto-alegrense, comporta-se diante das questões relativas à preocupação ambiental, abordadas anteriormente, e de responder ao questionamento sobre se 4 o consumidor brasileiro possui consciência ecológica, faz-se uso da escala desenvolvida no estudo de Straughan & Roberts (1999), explicada a seguir. 3. A Escala de Straughan & Roberts (1999). O estudo de Straughan & Roberts (1999) refere-se a reaplicação e extensão da pesquisa conduzida por Roberts em 1996 e que teve como objetivo principal verificar a existência de correlação entre as variáveis demográficas e psicográficas com a consciência ecológica do consumidor. Robert (1996) propôs uma escala a partir de uma revisão da literatura existente e de estudos realizados anteriormente que tinham como propósito verificar as variáveis que afetavam o comportamento socialmente responsável durante o processo de decisão de compra dos consumidores. A pesquisa, realizada com 582 consumidores adultos, revelou o perfil dos consumidores ecologicamente conscientes da década de 90 e trouxe implicações para as estratégias de comunicação de marketing e para a academia. Assim, Straughan & Roberts (1999), com o propósito de examinar mais detalhadamente o papel das características psicográficas e demográficas sobre o comportamento ecologicamente consciente do consumidor, adicionaram ao estudo de Roberts (1996) novas variáveis que também poderiam caracterizar o perfil do “consumidor verde” em combinação com o constructo anteriormente desenvolvido. A escala desenvolvida e adaptada por Straughan & Roberts (1999) possui 30 variáveis operacionalizadas numa escala de 5 (cinco) pontos Tipo Likert com valores “Always True” e “Never True”. O estudo, realizado com uma amostra de 235 estudantes, encontrou consistência com o estudo anterior realizado por Roberts (1996) e revelou que as características psicográficas mostram-se mais efetivas na explicação do comportamento do consumidor ecologicamente consciente. Devido ao exposto anteriormente, a escala de Straugham & Roberts (1999) parece adequada para identificar o comportamento do consumidor brasileiro em relação às questões ecológicas, e a influência das variáveis demográficas e psicográficas neste comportamento. Assim sendo, o item seguinte apresenta os procedimentos metodológicos empregados para alcançar os objetivos ora propostos. 4. Método Visando atingir os objetivos do estudo, a pesquisa foi desenvolvida em três etapas distintas: uma fase exploratória, onde se buscou aprofundar o conhecimento em relação ao tema da pesquisa através de revisão da literatura e entrevistas com profissionais da área; a adequação da escala proposta por Straughan & Roberts (1999) ao contexto brasileiro; e elaboração do instrumento de coleta de dados. Posteriormente, uma fase descritiva, onde foi aferido o nível de consciência ecológica a partir da aplicação do questionário com consumidores de Porto Alegre. Desta forma, como já dito anteriormente, este estudo refere-se a reaplicação da escala de Straughan & Roberts (1999) e, conseqüentemente, sua avaliação no contexto brasileiro. Para melhor compreensão, reaplicação é uma “duplicação substancial de um projeto de pesquisa empírica já publicada que diz respeito ao aumento da validade interna do desenho de uma pesquisa” (HUBBARD & VETTER apud OKLESHEN & MITTELSTAEDT, 1998). 5 De acordo com Lynkken (apud OKLESHEN & MITTELSTAEDT, 1998), dentre os três tipos de reaplicação - reaplicação literal, reaplicação construtiva e reaplicação operacional -, este estudo refere-se a uma reaplicação operacional, na qual os pesquisadores usam o formato original da pesquisa, buscando comprovar a similaridade dos estudos no que diz respeito à validade e confiabilidade da escala no novo contexto analisado. Desta forma, a seguir são apresentados os procedimentos realizados durante o desenvolvimento do estudo. Revisão de Literatura: nesta etapa buscou-se a realização da revisão da literatura referente à consciência ecológica e identificação de uma escala para a sua mensuração, a qual permitiu identificar os trabalho de Straughan & Roberts (1999) e Roberts (1996) sobre consciência ecológica como sendo o referencial adequado para a mensuração e a reaplicação no Brasil. Este procedimento foi fundamental para verificar a validade do conteúdo quanto à adaptação ao contexto brasileiro. Tradução da Escala: Para que a escala proposta por Straughan & Roberts (1999) fosse aplicada no Brasil, foi necessária a sua tradução para língua portuguesa por professores e acadêmicos da área de marketing e, posteriormente, foi realizada a tradução para o inglês por outros professores e acadêmicos de marketing. Com isso, busca-se garantir uma precisão na tradução dos termos e seus significados (MALHOTRA, 2001) adaptando-a a realidade brasileira. Pré-Teste do Instrumento de Coleta de Dados: O pré-teste foi realizado em duas etapas, através de uma amostra total de 32 (trinta e dois) moradores da cidade de Porto Alegre. A escolha dos entrevistados foi por conveniência, sendo apenas controlado o fator idade (somente participaram do pré-teste, bem como da pesquisa propriamente dita, pessoas acima de 18 anos). O primeiro pré-teste foi realizado com 20 (vinte) pessoas, sendo identificado problemas de interpretação em algumas variáveis e de entendimento da escala de medição utilizada. Na primeira versão do questionário utilizou-se a escala tipo Likert, de 5 (cinco) pontos, onde o número 1 indicava que a afirmativa era “totalmente falsa” e o número 5 que a afirmativa era “totalmente verdadeira”. Como os resultados apresentaram comportamento dicotômico, optou-se pela utilização de uma escala bi-etápica de seis pontos e só no processamento de dados transformá-la em uma escala de 5 (cinco) pontos. Após o ajuste dos problemas identificados no primeiro pré-teste, foi realizado um novo pré-teste com 12 (doze) indivíduos, onde foi possível confirmar a adequação do questionário para a realização da pesquisa. Definição da Amostra e Procedimento de Coleta: A coleta de dados foi realizada através de pesquisa a domicilio, utilizando-se de um roteiro estruturado com uma amostra de 400 (quatrocentas) pessoas, maiores de 18 (dezoito) anos, residentes em diversos bairros da cidade de Porto Alegre com o objetivo de tornar a amostra representativa da população. A partir disso, foram escolhidas de forma aleatória, 80 (oitenta) quarteirões em 12 (doze) bairros e em cada quarteirão 5 (cinco) residências. 5. Resultados A utilização da escala proposta por Straughan & Roberts (1999) objetivou mensurar o grau de consciência ecológica do consumidor de Porto Alegre, bem como analisar a validade e confiabilidade da escala utilizada e a relação entre as variáveis demográficas e psicográficas 6 com o nível de consciência ecológica do consumidor porto-alegrense. Desta forma, a seguir são mostrados os resultados obtidos em relação aos objetivos propostos inicialmente, assim como as conclusões e considerações finais. 5.1. Consciência Ecológica No que se refere ao objetivo principal do estudo, avaliar o nível de consciência ecológica dos consumidores de Porto Alegre, avaliou-se 26 indicadores da escala de Straughan & Roberts (1999) conforme exposto na Tabela 1, onde os resultados estão listados em ordem decrescente com suas respectivas médias (M) e desvios-padrão (DP). Tabela 1 – Nível de Consciência Ecológica VARIÁVEIS Eu procuro, insistentemente, reduzir o consumo de energia elétrica. Eu prefiro produtos e alimentos sem agrotóxicos porque eles respeitam o meio ambiente. Eu compro produtos orgânicos porque são mais saudáveis. Quando eu conheço os possíveis danos que um produto pode causar ao meio ambiente, eu não compro este produto. Na minha residência eu separo o lixo seco do lixo orgânico. Quando possível, eu sempre escolho produtos que causam menor poluição. Quando eu tenho que escolher entre dois produtos iguais, eu sempre escolho o que é menos prejudicial às outras pessoas e ao meio-ambiente. Eu estou disposto(a) a pagar um pouco mais por produtos e alimentos que estão livres de elementos químicos e que prejudicam o meio ambiente. Eu não compro produtos e alimentos que podem causar a extinção de algumas espécies animais e vegetais. Eu procuro comprar eletrodomésticos que consomem menos energia. Quando eu compro produtos e alimentos as preocupações com o meio ambiente interferem na minha decisão de compra. Eu sempre faço um esforço para reduzir o uso de produtos feitos de recursos naturais escassos. Eu evito comprar produtos com embalagens que não são biodegradáveis. Sempre que possível, eu procuro comprar produtos com embalagens reutilizáveis. Eu não compro produtos para minha casa que prejudicam o meio-ambiente. Eu comprei lâmpadas mais caras, mas que economizam mais energia elétrica. Eu já troquei ou deixei de usar produtos por razões ecológicas. Eu sempre tento usar eletrodomésticos (por exemplo: máquina de lavar, chuveiros elétricos e secadoras) fora do horário de pico de consumo, que ocorre entre as 18h30 e às 21h30. Eu não compro produtos fabricados ou vendidos por empresas que prejudicam ou desrespeitam o meio-ambiente. Eu troquei as lâmpadas da minha casa por lâmpadas de menor potência para reduzir o consumo de energia elétrica. Eu normalmente compro o produto com preço mais baixo, mesmo sabendo que ele prejudica o meio-ambiente. Sempre que possível, eu compro produtos feitos com material reciclado. Eu já convenci amigos ou parentes a não comprar produtos que prejudicam o meio-ambiente. Eu tento comprar apenas produtos que podem ser reciclados. Eu procuro comprar produtos feitos papel reciclado. Eu procuro não comprar produtos que possuem grande quantidade de embalagem. M 4,43 4,40 4,29 DP 0,83 0,87 0,95 4,18 1,00 4,17 4,08 1,29 1,11 4,04 1,16 3,98 1,16 3,98 1,16 3,96 1,24 3,95 1,12 3,81 3,65 3,62 3,57 3,50 3,46 1,14 1,29 1,14 1,20 1,46 1,29 3,44 1,41 3,44 1,41 3,43 1,47 3,23 1,36 3,15 3,11 3,02 2,94 2,93 1,31 1,36 1,26 1,30 1,47 É possível observar na Tabela 1, que todas as variáveis, com exceção das duas últimas, apresentaram médias superiores ao ponto neutro 3 (três). 7 5.2. Definição de Dimensões através de Análise Fatorial Considerando que foram utilizadas 26 (vinte e seis variáveis) para aferir o nível de consciência ecológica do consumidor de Porto Alegre torna-se relevante procurar caracterizar, a partir do trabalho desenvolvido, quais são as reais dimensões psicográficas da consciência ecológica dos consumidores porto-alegrenses. Para esse fim, foi utilizado o procedimento estatístico de análise fatorial, com o método de rotação ortogonal de fatores VARIMAX, que permite agrupar um conjunto amplo de variáveis em um número menor de componentes, ou fatores, os quais podem ser caracterizados como as dimensões de atributo do objeto avaliado (HAIR et al, 1998). Na redução dos dados, foi possível identificar fatores representativos de um grande conjunto de variáveis, resultando num novo conjunto de variáveis – como mostra a Tabela 2. Para fins de interpretação, cada fator compreende variáveis que deram carga igual ou superior a 0,4, sendo que cada variável foi associada ao fator onde possuía maior carga. Tabela 2 – Análise Fatorial: Dimensões da Consciência Ecológica DIMENSÕES DA CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA FATOR 1: Dimensão “Produto” Eu não compro produtos fabricados ou vendidos por empresas que prejudicam ou desrespeitam o meioambiente. Eu não compro produtos para minha casa que prejudicam o meio-ambiente. Quando eu tenho que escolher entre dois produtos iguais, eu sempre escolho o que é menos prejudicial às outras pessoas e ao meio ambiente Eu já convenci amigos ou parentes a não comprar produtos que prejudicam o meio-ambiente. Eu sempre faço um esforço para reduzir o uso de produtos feitos de recursos naturais escassos. Quando possível, eu sempre escolhe produtos que causam menor poluição. FATOR 2: Dimensão “Reciclagem e Reutilização” Eu procuro comprar produtos feitos de papel reciclado. Sempre que possível, eu compro produtos feitos com material reciclado. Eu procuro não comprar produtos que possuem grande quantidade de embalagens. Eu tento comprar apenas produtos que podem ser reciclados. Eu evito comprar produtos com embalagens que não são biodegradáveis. FATOR 3: Dimensão “Alimentação e Saúde” Eu compro produtos orgânicos porque são mais saudáveis. Eu prefiro alimentos sem agrotóxicos porque eles respeitam o meio ambiente. Eu estou disposto a pagar um pouco mais por produtos e alimentos que estão livres de elementos químicos e que prejudicam o meio-ambiente. Quando eu compro produtos e alimentos as preocupações com o meio-ambiente interferem na minha decisão de compra. FATOR 4: Dimensão “Hábitos Domésticos” Eu procuro, insistentemente, reduzir o consumo de energia elétrica. Na minha residência eu separo o lixo orgânico do lixo seco. Eu procuro comprar eletrodoméstico que consomem menos energia elétrica. Sempre que possível, eu procuro comprar produtos com embalagens reutilizáveis. FATOR 5: Dimensão “Ação de Mudança” Eu já troquei ou deixei de usar produtos por razões ecológicas. Eu não compro produtos e alimentos que podem causar a extinção de algumas espécies animais e vegetais. Quando eu conheço os possíveis danos que um produto pode causar eu não compro este produto. FATOR 6: Dimensão “Consumo de Energia” Eu comprei lâmpadas mais caras, mas que economizam mais energia elétrica. Eu troquei as lâmpadas da minha casa por lâmpadas de menor potência para reduzir o consumo de energia elétrica. ,783 ,638 ,631 ,628 ,530 ,480 ,801 ,705 ,647 ,641 ,579 ,827 ,768 ,587 ,530 ,732 ,725 ,559 ,449 ,751 ,465 ,433 ,857 ,772 8 Inicialmente, os resultados apontaram a existência de 7 (sete) fatores/dimensões. Entretanto, duas variáveis que apresentaram duplicidade e carga fatorial menor que 0,4 foram excluídas. Assim sendo, uma nova fatorial foi realizada resultando em 6 dimensões que foram identificadas como mostrado nas Tabelas 2 e 3. Desta forma, de acordo com a sumarização e com base no conhecimento dos pesquisadores, entendeu-se que a consciência ecológica verificada no comportamento do consumidor pode ser caracterizada como uma atitude ecológica consciente ampla e geral, podendo ser representada por diferentes fatores ou dimensões. Assim, pode-se dizer que a consciência ecológica geral é resultado de diferentes níveis ou subníveis de consciência relativos a distintas facetas da consciência ecológica. Ou seja, a “consciência geral” seria um somatório de consciências específicas, como apresentado na Tabela 3. Cabe salientar, no entanto que o último nível de consciência ecológica, nomeada de dimensão “Consumo de Energia”, pode ser resultado da influência das campanhas, realizadas recentemente (anos de 2001/2002), a favor da redução do consumo de energia. Tabela 3 – Dimensões do Comportamento de Consumo Ecologicamente Consciente. DIMENSÕES DO COMPORTAMENTO DE CONSUMO ECOLOGICAMENTE CONSCIENTE PRODUTO RECICLAGEM E REUTILIZAÇÃO ALIMENTAÇÃO E SAÚDE HÁBITOS DOMÉSTICOS AÇÃO DE MUDANÇA CONSUMO DE ENERGIA DESCRIÇÃO Consciência em relação a produtos, relacionada com a preocupação do consumidor em comprar ou consumir apenas produtos que não gerem, de alguma forma, prejuízos ao meio-ambiente ou de empresas que não apresentem descaso com questões ambientais. Dimensão da consciência ecológica onde o consumidor apresenta uma preocupação em utilizar apenas produtos que possam ser reciclados ou que de alguma maneira sejam reutilizáveis. Dentro desta dimensão, as variáveis caracterizam um consumidor que apresenta uma preocupação direta com a origem dos alimentos que consome, incluindo as preocupações quanto ao uso de agrotóxicos e os seus prejuízos ao meio ambiente; e os cuidados com os danos provocados à saúde humana por alimentos nocivos. Comportamento ecológico observado nos hábitos domésticos e familiares. Comportamento ecológico manifestado através do conhecimento e informações no sentido de reduzir o consumo de recursos escassos e/ou prejuízos à natureza. Comportamento de troca relacionado a produtos e/ou hábitos decorrente de informações ou campanhas específicas. Neste caso, nota-se o impacto evidente das recentes campanhas (2001/2002) visando à redução do consumo de energia através da troca de lâmpadas. Para finalizar a análise dos resultados da fatorial, foi possível identificar a variância explicada total de 62,34%. Sendo que o primeiro fator, representado pela “dimensão de produto”, é identificado como a dimensão que explica a maior parte da variância da consciência ecológica (14,35%). Na seqüência, aparece a dimensão de “reciclagem e reutilização” (12,38%), seguida das dimensões de “alimentação e saúde” (11,20%), “hábitos domésticos” (9,31%), “ação de mudança” (8,35%) e, por fim “consumo de energia” (6,74%). Entretanto, é importante observar que existem itens ou variáveis a serem ainda identificadas para que possam responder pelos 37,66% da variância não explicada da consciência ecológica no comportamento do consumidor objeto deste estudo. 9 5.3. Confiabilidade da Escala Com o propósito de verificar a coerência interna de cada dimensão analisada, utilizou-se o método de confiabilidade da consistência interna do conjunto de itens que formam a escala, fazendo-se uso do coeficiente alfa (Alfa de Cronbach). O Alfa de Cronbach, é a média de todos os coeficientes meio-a-meio que resultam das diferentes maneiras de dividir ao meio os itens da escala. O coeficiente varia de 0 a 1, e um valor menor ou igual a 0,6 indica confiabilidade insatisfatória (MALHOTRA, 2001). Assim, o coeficiente alfa foi calculado para cada uma das seis dimensões de níveis de consciência encontradas no estudo, conforme mostra a Tabela 4. Também é possível notar que a maioria das dimensões obteve coeficientes bastante satisfatórios e que a escala, como um todo, obteve um alfa de 0,8963; ou seja a escala apresenta um bom índice de confiabilidade. Entretanto, a dimensão “ação de mudança”, que obteve um coeficiente abaixo de 0,6, chama a atenção para a possibilidade de inadequação da dimensão, ou pelo menos, da forma em que está constituída, na condição de representante da consciência ecológica do consumidor de Porto Alegre. Tabela 4 – Índices de Confiabilidade DIMENSÃO ALFA Produto 0,7995 Reciclagem e Reutilização 0,7924 Alimentação e saúde 0,7824 Hábitos Domésticos 0,6617 Ação de Mudança 0,5192 Consumo de Energia 0,7294 ESCALA 0,8963 5.4. Relação entre as Dimensões de Consciência Ecológica e Variáveis Demográficas. Após a análise fatorial foram realizados cruzamentos utilizando análise de variância, através da ANOVA, entre os fatores e as variáveis demográficas de caracterização da amostra. Nesta análise foi possível identificar que havia diferenças significativas entre as médias da amostra em alguns fatores; devido a isso, com o propósito de verificar mais detalhadamente quais grupos apresentavam comportamentos distintos entre si, foi realizado o teste Turkey HSD entre as dimensões de consciência ecológica encontradas na fatorial e a caracterização da amostra. Cabe ressaltar que o teste Turkey adota desvios-padrão e médias padronizadas, sendo 1 (um) e 0 (zero), respectivamente. Assim, para simplificar a apresentação, aqui serão expostas apenas variáveis em que se identificou diferença significativa entre os grupos, ou seja, significância (SIG.) menor (<) que 0,05. É possível observar que, de acordo com estudos anteriores, as variáveis demográficas exercem apenas uma tênue influência sobre o comportamento ecológico do consumidor. Dentre as variáveis demográficas estudadas, as únicas que apresentaram diferenças significativas para algumas dimensões foram o estado civil, a renda e a escolaridade . Tabela 5 – Dimensão Alimentação e Saúde x Renda DIMENSÃO SIG RENDA até R$ 500 ,004 R$ 1.001 – R$ 2.000 até R$ 500 ALIMENTAÇÃO E SAÚDE ,003 R$ 2.001 – R$ 3.000 até R$ 500 ,001 Acima de R$ 3.000 N 40 74 40 44 40 64 MÉDIA -,544730 ,1387371 -,544730 ,2339401 -,544730 ,2028478 10 Nos estudos de Anderson & Cunningham (1972); Anderson et al (1974); Roberts (1996), Roberts & Bacon (1997) e Straughan & Roberts (1999), a renda influencia de forma positiva e é preditora do comportamental ambiental. A justificativa mais comum é que indivíduos com níveis de renda mais elevados estão mais dispostos a pagar pelos custos associados a causas ambientais e ao desenvolvimento e oferta de produtos não prejudiciais ao meio ambiental e, conseqüentemente, às suas vidas. Tabela 5. O nível de escolaridade é outra variável demográfica que tem sido relacionada com o comportamento e atitudes ecologicamente corretas (AAKER & BAGOZZI, 1982; ANDERSON et al, 1974; ROBERTS, 1996; ROBERTS & BACON, 1997 & STRAUGHAN & ROBERTS, 1999). Esses resultados, suportam a maioria dos estudos analisados durante a etapa exploratória que afirmam ter encontrado uma relação positiva entre nível educacional e preocupação ambiental e comportamento de consumo ecologicamente consciente. Ou seja, quanto mais alto for o nível de escolaridade do consumidor maior será sua preocupação e consciência ecológica, como mostra as Tabelas 6 e 7. Tabela 6 – Dimensão “Alimentação e Saúde” x Nível de Escolaridade DIMENSÃO SIG ESCOLARIDADE N 2º Incompleto 23 ,024 3º Incompleto 43 ALIMENTAÇÃO E SAÚDE 2º Incompleto 23 ,048 3º Completo 56 MÉDIA -4,1403737E-02 ,2704435 -4,1403737E-02 ,1820208 Tabela 7 – Dimensão “Hábitos Domésticos” x Nível de Escolaridade DIMENSÃO SIG ESCOLARIDADE N 3º Incompleto 33 HÁBITOS DOMÉSTICOS ,008 3º Completo 56 MÉDIA ,2704435 ,1820208 A variável “estada civil”, além das variáveis renda e escolaridade que não foram analisadas no estudo de Straughan & Roberts (1999), também apresentou uma relação com o nível de consciência ecológica. Nesse estudo, a hipótese que se levanta está relaciona ao fato de que os solteiros da população analisada são em sua maioria jovens de 18 a 24 anos; sendo assim, desprendidos de regras e ordens, uma vez que a diferença foi manifestada na dimensão “hábitos domésticos”, conforme Tabela 8. Tabela 8 – Dimensão “Hábitos Domésticos” x Estados Civil DIMENSÃO SIG ESTADO CIVIL Solteiros ,003 Casados HÁBITOS DOMÉSTICOS Solteiros ,002 Viúvos N 83 169 83 36 MÉDIA -,3624158 7,906422E-02 -,3624158 ,3442600 6. Conclusões e Considerações Finais Em vista de todas as preocupações ecológicas emergentes nos dias de hoje e do fato de ainda existirem poucos estudos nesta área realizados no Brasil, preocupados em entender como o consumidor se comporta diante de questões referentes à preocupação ambiental, este estudo buscou avaliar o nível de consciência ecológica dos consumidores porto-alegrenses através da adaptação e reaplicação da escala de mensuração do comportamento do consumidor ecologicamente consciente de Straughan & Roberts (1999). 11 Através da reaplicação do estudo anteriormente citado, esta pesquisa foi realizada na cidade de Porto Alegre com uma amostra de 400 respondentes. Com isso, foi possível alcançar os objetivos previamente propostos, no sentido de melhor conhecer o grau de consciência ecológica e comportamento ambiental do consumidor de Porto Alegre. Desta forma, serão apresentadas aqui as principais conclusões encontradas neste estudo, bem como algumas de suas limitações e indicações para futuras pesquisas. 6.1. Consciência Ecológica Apesar do elevado desvio padrão apresentado nas variáveis, 92,31% dos indicadores utilizados para a mensuração da consciência ecológica apresentaram comportamento de tendência positiva; ou seja, as médias das variáveis mantiveram-se acima do ponto 3 da escala. Além disso, um outro indicador desta tendência, é revelado através da média geral de todas as variáveis, verificada como sendo 3,6831. Constatou-se, ainda, que 46,55% das variáveis pesquisadas estão acima deste valor. No entanto, em conformidade com os estudos realizados anteriormente, esta consciência ecológica positiva relata uma baixa relação entre variáveis comportamentais e as variáveis demográficas (ANDERSON JR. & CUNNINGHAM, 1972; KINNEAR & TAYLOR, 1973; KINNEAR, TAYLOR & AHMED, 1974; SHRUM et al, 1995; STRAUGHAN & ROBERTS, 1999). Neste estudo também foi possível identificar seis dimensões comportamentais, ou como especulado nesta pesquisa, níveis ou subníveis, relacionadas à consciência ecológica e comportamento ambiental do consumidor. Algumas destas dimensões identificadas, vão ao encontro das dimensões definidas por Ottman (1994) para o desenvolvimento de produtos ecologicamente corretos que envolvem diretamente a participação do consumidor. A dimensão identificada como consciência “Reciclagem e Reutilização” que se refere à preocupação em utilizar apenas produtos que possam ser reciclados ou de alguma maneira sejam reutilizáveis, está relacionada com a dimensão “Uso e Descarte do Produto” de Ottman (1994). As dimensões “Produto” e “Alimentação e saúde” estão relacionadas a dimensão “produto e embalagens” de Ottman (1994) que fazem, principalmente, referência a conservação dos recursos naturais associados ao uso do produto e saúde do consumidor. Já no que se refere à dimensão de consciência de “hábitos domésticos”, foi identificada relação com o comportamento verificado por Schlegelmilch et al (1996) como “atitude próativa frente aos problemas sociais”, ou seja que a atitude em relação às questões ambientais é o mais consistente preditor do comportamento de compra ecologicamente responsável. Também em conformidade com outros estudos, a dimensão de consciência de “Consumo de Energia”, expressa com fidelidade os estudos de Kassarjian (1971), Kinnear et al (1974) e de Yam-Tang & Chan (1998). Esses estudiosos identificaram como um dos fatores relevantes para a conscientização a respeito da questão ambiental e um propulsor para uma atitude ecológica no consumidor a sua exposição direta ao problema. Nesta pesquisa, nota-se o impacto evidente da recente crise energética brasileira e que resultou no estabelecimento de cotas de consumo e campanhas educativas a respeito do uso de energia elétrica. Cabe ressaltar que o Rio Grande do Sul não foi incluído no regime de cotas de consumo, entretanto, devido à comunicação de massa com amplitude nacional promovida pelo governo federal, integrou-se neste esforço. Para finalizar a avaliação dos resultados encontrados na análise fatorial, a dimensão “Ação de Mudança”, que se refere à racionalidade na utilização de fontes de energia e recursos naturais escassos, também encontrou apoio em estudos passados que identificam o conhecimento das questões ambientais como um fator relevante na consciência e no comportamento ambientalmente correto (ROBERTS & BACON, 1997; STRAUGHAN & ROBERTS, 1999). 12 6.2. Avaliação da Escala Através da análise fatorial realizada para a verificação do constructo, verificou-se que a escala utilizada para identificar a consciência ecológica e o comportamento de compra apresentou junto à população de Porto Alegre uma variância explicada de 62,35%, donde conclui-se que ainda existem fatores ou dimensões, não cobertos por este estudo, que também podem explicar o comportamento consciente dos porto-alegrenses. Entretanto, este valor é plenamente satisfatório, especialmente se comparado com os resultados obtidos por estudos similares realizados no Brasil, como de Cuperschimid & Tavares (2001) que ao mensurar a atitude em relação ao meio ambiente obteve variância explicada de 41,5% e o estudo de Straughan & Roberts (1999), no qual é baseada originalmente a escala utilizada nesta pesquisa, que obteve variância explicada do comportamento ecologicamente consciente do consumidor de 32,8%. Além disso, como já dito no inicio deste capitulo, foi possível identificar a confiabilidade da escala utilizada neste estudo com um coeficiente alfa de Cronbach de 0,8963. 6.3. Limitações do Estudo e Sugestões para Futuras Pesquisas Os resultados apresentados neste estudo denotam importantes contribuições tanto acadêmicas quanto gerenciais, principalmente no que diz respeito a mais uma faceta do conhecimento do comportamento do consumidor e pelo fato de representar uma soma aos estudos anteriormente realizados. Entretanto, o presente estudo, como toda pesquisa das ciências sociais, apresenta algumas limitações quanto a sua aplicação. A primeira limitação deste estudo diz respeito à população analisada, uma vez que se limitou a investigar apenas consumidores da cidade de Porto Alegre – capital do Rio Grande do Sul, um dos estados precursores do movimento ecológico no Brasil. No Rio Grande do Sul, em 1970, a administração estadual fundou uma das primeiras instituições públicas no Brasil para questões relativas ao meio ambiente (CCEE Coordenadoria do Controle do Equilíbrio Ecológico). Esta vanguarda do Rio Grande do Sul manifesta-se hoje, dentre outras formas, no fato de que no ano de 2001 a capital do estado, Porto Alegre, em conjunto com Aracaju e Brasília, foi uma das primeiras cidades brasileiras a engajar-se com mais de 770 cidades européias na campanha mundial, iniciada pelo ministério do meio ambiente francês em 1998, “Na cidade, sem carro” (FALCÃO, 2001). Outra limitação, refere-se a possibilidade deste estudo ter sido afetado pela maciça campanha de comunicação do governo federal quando da crise de abastecimento de energia elétrica em 2001, período em que a pesquisa foi realizada. Estas campanhas podem ter influenciado os resultados de comportamento positivo dos consumidores em relação às questões pesquisadas. Desta forma, recomenda-se para futuros estudos a replicação desta pesquisa para a avaliação da evolução dos assuntos aqui investigados e comprovação dos resultados. Outra sugestão é a sua replicação em outras cidades do Brasil, visto as questões já levantadas que fazem referência às peculiaridades encontradas na sociedade de Porto Alegre. Além dessas questões, é interessante a realização de novos estudos para a identificação de outras dimensões para que possa ser ampliada a capacidade de explicação de variância desta escala, especialmente se considerarmos o incremento que foi obtido em relação a estudos anteriores. Por fim, identificar quais variáveis que não as demográficas afetam este comportamento também pode ampliar largamente a compressão do comportamento do consumidor. 13 BIBLIOGRAFIA AAKER, D.A. & BAGOZZI, R. P. “Attitudes Toward Public Policy Alternatives to Reduce Air Pollution”. Journal of Marketing, vol. 1, 1982. p. 85-94. ANDERSON, W. T. Jr, HENION, K. E. & COX, E. P. III. “Socially vs Ecologically Responsible Consumers”. AMA Combined Conference Proceedings. vol, 36, 1974. p. 304311. ANDERSON JR, W. Thomas; CUNNINGHAM, Willian H. “The Socially Conscious Consumer”. Journal of Marketing, v. 36, July, 1972. p. 23-31 CALLENBACH, E; CALLENBACH, F; GOLDMAN, L; RUDGER, L. MARBURG. Gerenciamento Ecológico. São Paulo: Cultrix, 1993. CUPERSCHMID, Nair & TAVARES, Mauro. “Atitudes em Relação ao Meio Ambiente e a sua Influência no Processo de Compra de Alimentos”. In: Anais do Encontro Nacional da ANPAD. Campinas, 2001. DASHEFSKY, Steven. Dicionário de Ciência Ambiental: Guia de A a Z. 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