Sublimação e o duplo efeito da leitura de Clarice Lispector Débora Ferreira Leite de Moraes A crença no efeito terapêutico ou perigoso dos livros é tão antiga quanto o surgimento deles. Uma lista interminável de fogueiras poderia iluminar um cenário de censura que não se limita à nossa época e tampouco ao Ocidente. Em 213 a. C., Chi Huang-Ti, imperador chinês, promoveu uma queima de todos os livros do seu reino. 1 O poder da Igreja na idade média foi laureado com o Index (Índice dos livros proibidos) publicado pela Inquisição. Para manter o poder do Estado, os grandes ditadores também limitaram o alcance da leitura. A propaganda nazista, por exemplo, incluiu imagens da queima de livros feita em Berlim, em 1933. Na ocasião, uma multidão entusiasmada foi ludibriada pelo discurso dos censores: Contra a exacerbação dos impulsos inconscientes baseada na análise destrutiva da psique, pela nobreza da alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud” declamou um dos censores antes de queimar livros de Freud. (MANGUEL, 1997, p. 316) Assim como Freud, Marx, Zola, Hemingway e Proust foram para a fogueira por meio de suas obras. Mais recentemente, em 1981, “a junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote do Chile porque o general achava (com bastante razão) que o livro continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade instituída.” (MANGUEL, 1997, p. 320). A literatura colocada em oposição à moral e ao lado da transgressão e do pecado, como detentora da capacidade de perverter o leitor, encontra ressonância não só neste panorama histórico, mas também nos textos que a compõem. Madame Bovary, personagem de Flaubert, era impedida de ler determinadas obras porque os romances poderiam corrompê-la e envenená-la. O livro poderia deixar a marca roxa da morte naqueles que ousassem tocar as folhas proibidas em O nome da rosa, de Umberto Eco. Não há dúvida que, em vista deste cenário, os efeitos da leitura poderiam ser descritos do ponto de vista da impregnação, do envenenamento do leitor. 1 Outros exemplos da destruição de livros ao longo da história podem ser encontrados no livro Uma história da leitura de Alberto Manguel. Trad. Pedro Maia Soares – São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 2 Este potencial de contaminação2 poderia ser apurado como veneno, mas também como remédio 3. Michèle Petit (2009), antropóloga francesa, aborda a leitura por meio das transformações do leitor em contextos de crise social. O trabalho de mediadores de livro, contadores de história e o uso da literatura no âmbito terapêutico contribuem para a ideia da leitura como bem-estar, como possuidora de possibilidades benéficas para o sujeito. Casos citados por esta autora apontam para o efeito reparador da leitura literária. Podemos encontrar depoimentos de prisioneiros que se acalentaram por meio de textos literários ou pelos indícios que a memória guardou da leitura. Primo Levi recitava Dante para Pikolo, em Auschwitz. Para Jean-Paul Kauffmann, preso no Líbano, a leitura perdurava em forma de rastros que lhe conduziam a uma espécie de liberdade enquanto estava encarcerado: Reconstituir a intriga do O vermelho e o negro, Eugénie Grandet ou Madame Bovary não era o objetivo que eu perseguia. Recriar a lembrança de uma leitura, reconhecer em mim os rastros que perduraram, recuperar a impregnação, eis a meta que estabeleci. Dar significado àquilo que eu lia era secundário. Procurava embeber-me do texto, não a sua interpretação [...] Eu jamais tinha devorado [um texto] com tamanha intensidade. Esquecia a cela. Enfiado no fundo da minha leitura, produzindo em mim mesmo um outro texto. Fruição estranha, equivalia a uma reconquista provisória de liberdade (KAUFFMANN apud PETIT, 2009, p. 16, grifo meu) Mesmo que haja formas de censura e vetos para determinados livros nas instituições prisionais, há como impedir as fantasias e devaneios decorrentes da leitura literária? O cerceamento da liberdade civil parece não atingir o livre-arbítrio próprio da imaginação. Como reflete Kauffmann, ao embeber-se do texto, o efeito perdura como impregnação e, desta maneira, transforma o leitor. O poder de transformação da leitura é o que nos interessa neste trabalho, especificamente do ponto de vista da Psicanálise. Mas antes de entrarmos no campo engendrado por considerações psicanalíticas, visitaremos, mesmo que brevemente, autores da Crítica Literária, que também se preocuparam com o efeito da leitura. 2 O termo contaminação está aqui sendo usado de acordo com a metáfora do remédio e do veneno que será abordada, com maior detalhe, em outra seção, diante de considerações do âmbito psicanalítico. 3 Mais adiante levantaremos uma hipótese de ordem econômica: a dosagem da substância pode ser crucial para qualificarmos sua consequência como remédio ou veneno. 3 A questão do efeito Preocupados precisamente com a recepção estética e o efeito da leitura de uma obra ficcional, Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser representam, no âmbito da crítica literária, o que ficou conhecido genericamente como “Escola de Constança”. No final da década de 1960, na Alemanha, estes autores inauguram um campo específico de interesse: a leitura. Eles “não mais se concentravam tanto na significação ou na mensagem, mas sim nos efeitos dos textos e em sua recepção” (ISER, 1996, p. 10). Desta forma, representam um deslizamento de uma tradição hermenêutica - advinda de uma orientação semântica, que buscava no texto uma significação oculta ou a intenção cifrada deixada pelo autor -, para uma ênfase na recepção, na leitura e no efeito proporcionado pelo texto. A inquietação com a leitura, em sua dimensão coletiva e histórica, é solo das indagações de Jauss (1994, p. 23, grifos do autor): A relação entre literatura e leitor possui implicações tanto estéticas quanto históricas. A implicação estética reside no fato de já a recepção primária de uma obra pelo leitor encerrar uma avaliação de seu valor estético, pela comparação com outras obras já lidas. A implicação histórica manifesta-se na possibilidade de, numa cadeia de recepções, a compreensão dos primeiros leitores ter continuidade e enriquecer-se de geração em geração, decidindo, assim, o próprio significado histórico de uma obra e tornando visível sua qualidade estética. Segundo este autor, devemos apreciar uma obra literária não só em seu teor estético, mas, além disso, na história de seu nascimento, sua função social e sua recepção. A leitura de um livro, deste ponto de vista, é sempre renovada pelo contexto em que se insere a obra e o leitor. Iser (1996), conhecido por sua teoria do Efeito Estético, tem como norteador para exploração teórica o fato de que o que o texto provoca no leitor já está pressuposto em sua elaboração e, portanto, pode ser encontrado em sua estrutura formal. Para discutir esta questão, propõe o constructo teórico de leitor implícito: o leitor implícito não tem existência real; pois ele materializa o conjunto das preorientações que um texto ficcional oferece, como condições de recepção, a seus leitores possíveis. [...] os textos só adquirem sua realidade ao serem lidos [...] Apenas a imaginação é capaz de captar o não dado, de modo que a estrutura do texto, ao 4 estimular uma sequência de imagens, se traduz na consciência receptiva do leitor. [...] A concepção de leitor implícito descreve, portanto, um processo de transferência pelo qual as estruturas do texto se traduzem nas experiências do leitor através dos atos de imaginação. (ISER, 1996, p. 73-79, grifo meu) Essa implicação da imaginação, como possibilidade aventada pela estrutura formal do próprio texto ficcional, nos remete à subjetividade já que pressupõe que o leitor precisa participar criativamente da composição dos sentidos do texto por meio justamente de suas fantasias. E se há um sujeito-leitor convocado ao devaneio criativo, neste ponto podemos encontrar a possibilidade de diálogo com o campo psicanalítico. Se o próprio texto contém um potencial suscitador de fantasias e se é só no ato da leitura que esse potencial pode se atualizar, então é plausível se perguntar se cada leitura é singular e dependente exclusivamente da capacidade de fantasiar de seu leitor. Freud, em “Escritores criativos e devaneios” (1908/1996, p.154), compara o ato de criar com o ato de brincar da criança e com as fantasias e devaneios do adulto, indicando que na escrita estaríamos falando de uma atualização das fantasias do escritor. Birman (1996) propõe uma inversão desta formulação ao afirmar que o texto, ao ser lido, promove uma atualização das fantasias do leitor. Também para Barthes (2008), o prazer da leitura está relacionado às fantasias promovidas a partir dela. Talvez possamos pensar no efeito da leitura justamente a partir desta condição. Umberto Eco (2008, p.1), também representante da Crítica Literária que se ateve aos estudos sobre a leitura e o leitor, postula que uma obra literária pode oferecer “de um lado, uma livre intervenção interpretativa a ser feita pelos próprios destinatários e, de outro, apresentar características estruturais que ao mesmo tempo estimulassem e regulassem a ordem das suas interpretações.”. Segundo esse autor, trata-se de movimentos cooperativos que fazem com que o leitor preencha os espaços vazios que o texto oferece; que permite que o destinatário tire do texto aquilo que ele não diz; que faz com que possa intertextualizar o texto; imaginar e fantasiar a partir da trama que se apresenta. Embora o ato da leitura seja o responsável pela atribuição do sentido e, não obstante, Eco considere o texto criativo como uma obra aberta, há limites, segundo este autor, que devem ser considerados e que se encontram no próprio texto. “Entre a intenção inacessível do autor e a intenção discutível do leitor está a intenção transparente do texto, que invalida uma interpretação insustentável” (ECO, 2005, p. 93). 5 O efeito de contaminação Com relação aos efeitos da obra de arte, Freud afirma em “O Moisés de Michelangelo” (1914/1996, p. 217, grifo meu) que o artista “visa é despertar em nós a mesma atitude emocional, a mesma constelação mental que nele produziu o ímpeto de criar”. Para o psicanalista “isso não pode ser simplesmente uma questão de compreensão intelectual”. A compreensão fica em segundo plano para dar caminho para o efeito agenciado pelas fantasias do espectador ou, no caso deste trabalho, do leitor. Como vimos anteriormente no relato de Kauffmann dar significado àquilo era secundário. O importante era embeber-se do texto. Embeber-se4 é sinônimo de encharcar-se, infiltrar-se, fazer penetrar por (um líquido). Ler, deste ponto de vista metafórico, seria se deixar penetrar por um texto, encharcar-se dele. O efeito de contaminação parece presumível. Do veneno impregnado no livro de O nome da rosa ao veneno dos livros lidos por Madame Bovary, o que fica para nossa reflexão é o poder de transformar estados, de alterar o leitor, de encharcá-lo de palavra. Uma transformação inevitável e irreversível. De acordo com Mijolla-Mellor (2008, p.3, grifo meu) 5 “a fantasia que sustenta a atividade da escrita é, conscientemente ou não, aquela de contaminar o leitor, de o perverter, ou então, de lhe revelar as pulsões análogas que irão se desvendar nele durante a leitura.” É importante considerar que se estabelece uma espécie de pacto entre escritor e leitor. Com Freud (1919/1996, p. 267) podemos pensar que “adaptamos nosso julgamento à realidade imaginária que nos é imposta pelo escritor”. É neste campo oferecido pelo escritor, por meio de seu texto, que o leitor se infiltra e se deixa infiltrar. Nessa vertente relacional entre leitor e texto, Freud em “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana” (1901/1996, p. 121) afirma que “é a predisposição do leitor que altera a leitura e introduz no texto algo que corresponde a suas expectativas ou que o está ocupando”. O leitor projetaria, assim, nos textos, o seu desejo de ali encontrar ressonância de suas próprias questões. Ao mesmo tempo, em contrapartida, é também o texto que 4 5 Ferreira, A. B. H. Minidicionário da Língua Portuguesa. 1 edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Material fornecido no colóquio “Razão, loucura e criação” realizado em abril de 2008 no Instituto de Psicologia da USP. 6 provoca o leitor: num segundo grupo de casos, é muito maior a participação do texto no lapso de leitura. Ele contém algo que mexe com as defesas do leitor – alguma comunicação ou exigência que lhe é penosa – e que, por isso mesmo, é corrigida pelo lapso de leitura, no sentido de um repúdio ou uma realização de desejo. (FREUD, 1901/1996, p. 122) Cabe observar que nem o texto se oferece como papel em branco passível de qualquer projeção de fantasias, nem tampouco se apresenta fechado às associações feitas durante a leitura. Essa interação como potencial de efeitos, esse espaço de criação estabelecido pela experiência de leitura ocupou-me no mestrado6. Nesta ocasião, sugeri que à criação literária da escrita poderíamos somar uma criação literária da leitura. Remédio ou veneno? Uma vez que foi justificada a hipótese metafórica de contaminação, cabe a pergunta: o que faz com que a contaminação seja benéfica ou devastadora? Sabemos, por meio da tradição popular, que a dose é que faz com que determinada substância possa ter efeito de remédio ou de veneno. É, portanto, um problema de quantidade, uma questão de ordem econômica. A composição da substância permanece a mesma, o efeito é que é mutável de acordo com a quantia que se ingeriu. A palavra pharmakon7 guardaria os dois lados deste campo semântico ambivalente: aquilo que pode curar ou matar. O caráter interpretativo envolvido na leitura de qualquer texto ficcional, considerando que a abertura para a participação do leitor é iminente e inevitável, aponta para o fato de que o texto literário convoca o leitor para uma produção criativa. Ainda que especificidades possam ser reservadas para a criação literária escrita em relação ao que estou chamando como criação literária da leitura, um denominador comum parece nos dizer sobre os efeitos de remédio e/ou de veneno na produção estética: a implicação da problemática da sublimação. 6 Mestrado intitulado “Ensaio para uma metapsicologia do leitor literário: uma leitura de Água viva de Clarice Lispector”, defendido em 2011, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, sob a orientação da profa. Dra. Ana Maria Loffredo. 7 Estamos usando este termo de acordo com Le Poulichet (1989). 7 A dupla faceta da sublimação Presente desde o início do percurso freudiano, as indicações sobre a sublimação podem ser pinçadas ao longo de sua obra. A palavra surge pela primeira vez na carta 61 para Fliess, datada de 2 de maio de 1897 8. É mencionada no caso Dora, em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (FREUD, 1905 [1901]), mas aparece, pela primeira vez, de forma mais consistente em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (FREUD, 1905). A partir desta primeira menção, sabemos que ao longo dos textos freudianos a concepção de sublimação sofreu transformações, configurando-se como uma verdadeira problemática no campo psicanalítico. Concebida como um dos quatro destinos pulsionais (FREUD, 1915/1996), inicialmente a sublimação aparece como uma energia “desviada do uso sexual e voltada para outros fins” (1905, p.167). No artigo “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908/1996, p. 174, grifo do autor) Freud define: “A essa capacidade de trocar seu objeto sexual original por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de sublimação”. Voltada para as atividades socialmente e culturalmente valorizadas, de acordo com esta vertente teórica inicial, a sublimação, por meio da dessexualização, transformaria o objeto de erótico em sublime e estaria no pólo oposto à sexualidade. Contudo, principalmente após a conceituação da pulsão de morte, a concepção de sublimação passa por mudanças significativas. Na leitura de Birman (2010, p. 534, grifos do autor): Nesse contexto, erotizar e sublimar se oporiam à crueldade e à destrutividade, no equilíbrio sempre instável que seria estabelecido entre a pulsão de vida e a pulsão de morte [...] se inicialmente a sublimação e a erotização estariam inscritas em pólos opostos no psiquismo, posteriormente estariam bem mais próximas e inscritas no mesmo pólo psíquico, ambas buscando a afirmação da vida contra a morte. Trata-se, no caso deste ponto de vista, de alocar de um lado a sublimação e a erotização e, de outro, a destrutividade e a crueldade. É notório considerar que essa 8 FREUD, S. Extratos dos Documentos Dirigidos a Fliess (1950[1892-1899]). Trad. sob direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 1) 8 concepção, que enfatiza a sublimação em seu aspecto erótico e benéfico, não é unívoca 9. Para os propósitos deste artigo, vale lembrar que algumas considerações de Carvalho (1999), por exemplo, nos mostram que outros caminhos, distintos daquele que enfatiza a veste erótica da sublimação, podem ser percorridos para rastrear os indicativos sobre esta temática nos artigos freudianos. O trabalho de Carvalho faz referência a uma poética do suicídio, mais nomeadamente, a dois escritores suicidas que nos remetem, de imediato, à possibilidade de “fracasso” da sublimação: Paul Celan e Sylvia Plath. O intuito de Carvalho é justamente problematizar as concepções de sublimação vistas como apaziguamento pulsional, “destino nobre” para a solução do conflito entre a sexualidade e as pulsões agressivas. Ainda que “a sublimação dê a impressão de ser uma saída menos sofrida para os conflitos psíquicos do que a repetição desgastante do sintoma, fica evidente que é uma alternativa que não pode ser prescrita pra ninguém. Pelo contrário, o profundo sofrimento emocional relacionado à criação literária aparecia como marca na vida dos escritores” (CARVALHO, 1999, p. 11). Longe de ser prescrita como remédio e de ter uma função terapêutica, a escrita, deste ângulo de visão, nos direciona para outros elementos na problemática da sublimação a partir da segunda tópica freudiana. Segundo Carvalho (1999, p. 12 -13): Nesse novo desenvolvimento teórico, a angústia do desamparo, surgida na relação do sujeito com o vazio e o inominável, é vista como elemento incessante e mobilizador do processso criativo [...] Muito antes de afastar-se da destrutividade, essas formas de sublimação alimentam-se dela, porque a carregam em seu próprio seio. Estas considerações apontam para a existência de limites na economia da sublimação. Além disso, abre-se aqui a questão do desamparo como elemento mobilizador do processo criativo. Esta autora nos adverte que “a escrita testemunha o perigo máximo do desamparo primordial” (CARVALHO, 1999, p.19). Em 1923, em “O Ego e o Id”, Freud nos apresenta subsídios importantes para a discussão sobre os efeitos indesejáveis da sublimação. A análise atenta deste artigo rearranja a operação da sublimação em termos metapsicológicos e amplia a rede de articulações dentro da teoria freudiana. Neste novo contexto, “em outras palavras, a rede compreende o narcisismo, a identificação e a dessexualização” (GREEN, 2010, p.240). 9 Reporto-me, por exemplo, ao dossiê Sublimação, publicado pela Revista Psicologia USP. São Paulo, julho/setembro, 2010, 21 (3). 9 Nas palavras de Freud: Em verdade, surge a questão, que merece consideração cuidadosa, de saber se este não será o caminho universal à sublimação, se toda sublimação não se efetua através da mediação do ego, que começa a transformar a libido objetal sexual em narcísica e, depois, talvez, passa a fornecer-lhe outro objetivo.[...] se, por exemplo, ela não pode ocasionar uma desfusão dos diversos instintos que se acham fundidos. (FREUD, 1923/1996, p. 43, grifo meu) De acordo com a teoria freudiana, a pulsão de morte pode ter diversos destinos: tornar-se inócua por sua fusão com componentes eróticos; ser desviada para o mundo externo em sua forma agressiva ou ser direcionada para o próprio individuo. A questão que se sobrepõe quando tratamos da sublimação, tendo em vista a implicação de uma dessexualização e, portanto, de uma desfusão pulsional, é que “após a sublimação, o componente erótico não mais tem o poder de unir a totalidade da agressividade que com ele se achava combinada, e esta é liberada sob a forma de uma inclinação à agressão e à destruição” (FREUD, 1923/1996, p. 67). Assim, como efeito da sublimação, teríamos a desfusão pulsional, ou seja, o desligamento entre as pulsões e, consequentemente, a pulsão de morte desfusionada, liberada. O potencial destrutivo e os efeitos mortíferos da sublimação são ressaltados por Silva Junior (2003, p.33) que afirma que “com a grande virada nos anos vinte, a sublimação tomará uma direção inesperadamente maléfica no discurso freudiano”. As consequências negativas da sublimação também são indicadas por Mijolla-Mellor (2010, p. 507): a dessexualização, não acontece sem consequências negativas [...] o objetivo do eu na sublimação está de acordo com Eros, mas as consequências imprevistas e involuntárias de sua ação também trabalham a serviço da pulsão de morte porque, desligada, ela torna-se perigosa. Este perigo não só aponta para as consequências indesejáveis da sublimação como também para os limites desta operação. Voltemos ao nosso objeto. Se na criação literária escrita o testemunho do perigo máximo do desamparo originário é apontado por Carvalho em sua articulação diante do irrepresentável, podemos supor que também na criação literária da leitura haja uma convocação para uma participação criativa desta mesma ordem, diante deste mesmo vazio inominável. Essa condição coloca a criação literária, seja pelo escritor, seja no que 10 concerne às fantasias do leitor “no ponto enigmático e limite entre o sintoma e a sublimação” (CARVALHO, 1997, p. 82). No caso da escrita trata-se, em última instância, se pensada a partir da noção de sublimação, de transformar um sofrimento particular em um bem comum, público, socialmente e culturalmente reconhecido. Talvez esta seja uma das diferenças fundamentais entre a criação literária escrita e a criação literária da leitura, já que na leitura individualizada e silenciosa, a experiência singular não se torna pública necessariamente. Além disso, podemos pensar que o leitor encontra amparo no texto que lê e assim “permanece em sua leitura a uma distância que permite um certo grau de objetividade” (CARVALHO, 1997, p.85). Mas será que, quando arremessado para o espaço comum de vazio que deu origem à escrita daquele texto, o leitor está livre do efeito de envenenamento que contaminou o escritor? Há que se pensar que além das leituras benfazejas que se beneficiam desta distância e da criatividade imaginativa do leitor para uma alterabilidade benéfica e produtiva, há também as leituras iatrogênicas, já que “nas mãos do leitor o livro pode ser fator de perturbação e mesmo de risco” (CANDIDO, 2004, p.176). E se pensarmos que uma das intenções do autor é exatamente a de contaminar o leitor e de fazer habitar um mesmo espaço de toxidez, e considerando que o “espaço literário é o espaço do hiato, do vazio, da falta” (CARVALHO, 1997, p. 83), há aqui um lugar comum que nos remete ao início destas considerações: o pharmakon. A leitura literária, como processo criativo, assim como a escrita, poderia curar ou matar. O duplo efeito de Clarice Para ilustrar esta ambiguidade e ambivalência do efeito da leitura, dois livros de Clarice Lispector são paradigmáticos: A Paixão segundo G.H. e Água viva. No âmbito deste trabalho não será possível aprofundar a análise destas obras e vamos apenas tematizar alguns pontos. É possível dizer, de forma geral, que nestes textos, a escritora conduz o leitor pelo reino da irrepresentabilidade que, paradoxalmente, é representada pela palavra. Em A Paixão segundo G.H. o “instante” e a “coisa” aparecem como uma insinuação do que virá em Água viva. Em Água viva a confissão é explícita: “Quero a profunda desordem orgânica [...] Transmito-te não uma história mas apenas palavras que vivem de som”. (1998a, p.25). O leitor é convocado para uma travessia com 11 tropeços por uma narrativa não linear e construída a partir de silêncios recorrentes que apontam para o caráter mortífero da repetição. De acordo com Rosenbaum (1999, p. 23): Reconhecemos em Clarice esta escrita tão volátil e hesitante que tende ao silêncio quanto mais almeja representar. A palavra, veremos, é alvo também de ataques sádicos de uma consciência desconfiada da própria veracidade de sua narração. Esse jogo, do qual o leitor é tantas vezes objeto, perpassa a obra da autora. Durante a leitura desta escrita volátil e desconfiada, não há consolo, mas o arremesso para o mal-estar de fragmentos dissociados. O estranhamento é instantâneo na leitura de episódios como a hesitação e a ingestão da barata em A Paixão segundo G.H.; a busca pelo “it”, a “coisa mole” que é engolida assim como a placenta em Água viva. A falta de referências e de ancoradouros envolve visceralmente o leitor, que aos poucos se desorienta diante deste tipo de escrita. A advertência é dada: “Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é.” (1998a, p.42); O estado de desamparo, oferecido para o leitor como lugar de habitação, é iminente em cada página “estou sem guia e é de novo escuro” (1998a.p.41). Sobre a especificidade da escrita clariciana, a definição de Green (1994) sobre o que ele chamou de escrita do corpo nos parece exata: a representação para de organizar fantasia construída para se fragmentar em estados corporais fugazes, inatingíveis, onde o escritor costuma tropeçar na comunicação pelo escrito de uma realidade intransmissível, porque nem a palavra nem a escritura conseguem revelar o seu equivalente. [...] é o estado do próprio corpo em sua mais violenta manifestação (GREEN, 1994, p. 29, grifo meu). Se retomarmos a perspectiva de contaminação literária e reconhecermos o espaço comum que enreda escritor e leitor, podemos supor que a escrita do corpo proporciona uma leitura do corpo neste mesmo espaço de toxidez. A experiência de encontro com os textos de Clarice promoveria, assim, por meio de um arrebatamento desorganizador, um efeito violento de desnorteamento durante a leitura. Todavia, Se o leitor consegue tolerar a “zona de enigma” do texto, ponto que tem equilíbrio frágil, de incerteza, fora de qualquer controle, poderá realizar o inesperado encontro com uma das zonas de sombra que ele mesmo abriga em sua interioridade. É neste momento que o leitor é também autor. (CARVALHO, 1997, p.82, grifo meu). 12 Soma-se, portanto, ao efeito de envenenamento um potencial de remédio justamente aludido por este lugar criador que, na mão inversa, também é oferecido ao leitor. Os espaços vazios, de silêncio recorrente, os ataques sádicos à palavra, a escrita do corpo em sua mais violenta manifestação, também abrem espaço para a criatividade daquele que lê. Resgato aqui consideração de Rosenbaum (1999, p. 127) “O que faz Clarice Lispector nos textos estudados? O mal migra do pólo convencional que lhe atribui uma valoração negativa para um outro que lhe resgata o sentido de criação”. Ao que parece a inoculação de uma dose específica de veneno é necessária para a cura. À mercê da quantidade que define a substância como veneno ou como remédio, o leitor dos textos claricianos conta com a possibilidade de um efeito de envenenamento criador e, portanto, de um veneno como remédio. Referências Bibliográficas BARTHES, R. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2008. BIRMAN, J. Por uma estilística da existência: sobre a psicanálise, a modernidade e a arte. São Paulo: Ed. 34, 1996. ________. Fantasiando sobre a Sublime Ação. In: BARTUCCI, G. (Org.) Psicanálise, arte e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002. p. 89-130. CARVALHO, A.C. Uma poética do suicídio: fracasso da sublimação? Psicanálise Universidade, São Paulo, n. 11, p. 9-24, 1999. ___________. Escrita: remédio ou veneno? Percurso, São Paulo, n. 18, p. 79-86, 1997. CHARTIER, R. As revoluções da leitura no Ocidente. In: ABREU, M. (org.) Leitura, história e história da leitura. Campinas: Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2000, p. 19-31 COMPAGNON, A. 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