AVALIAÇÃO DE PROPRIEDADES MECÂNICAS DE MADEIRA POR MEIO DE ULTRA-SOM. Fabiana Goia R. de Oliveira Doutoranda – EESC / LaMEM/PGrCEM/ Universidade de São Paulo – FAPESP ([email protected]) Marcela Candian Iniciação Científica / Universidade Federal de São Carlos - FAPESP Francieli Fernanda Lucchette Iniciação Científica / Universidade Federal de São Carlos - CNPq Carlito Calil Jr. Prof. Titular LaMEM / Universidade de São Paulo Almir Sales Prof. Dr. DECiv / Universidade Federal de São Carlos Resumo. Os avanços tecnológicos têm permitido melhorar o aproveitamento das propriedades da madeira e de seus derivados. Dentre esses avanços, pode-se destacar a técnica de ultra-som, uma importante ferramenta com potencial para melhorar a qualidade e a competitividade da madeira. Esta avaliação é baseada na relação entre a velocidade do som, o módulo de elasticidade e a densidade da madeira. Pesquisas realizadas com técnicas de ultra-som evidenciam a eficácia deste método para determinar as propriedades mecânicas da madeira, a validade desta técnica é testada por meio da comparação com resultados obtidos em ensaios destrutivos, os quais fornecem parâmetros de correlação significativos. O objetivo deste trabalho foi investigar o uso da técnica de ultra-som para avaliar o módulo de elasticidade dinâmico (Ed ) através da comparação com ensaio de flexão estática (MOE). Foram utilizadas 600 peças de pinus com dimensões 3,5 x 13,5 x 260cm. Os resultados deste estudo demonstram uma forte relação entre as propriedades determinadas por emissão ultra-sônica e flexão estática, o que indica que esta técnica de avaliação não destrutiva pode ser usada para avaliar peças de madeira com resultados confiáveis. Palavras-chave: madeira, avaliação não destrutiva, ultra-som. 1. Introdução De acordo com BODIG; JAYNE (1982), a madeira apresenta grande variabilidade em suas propriedades, o que é resultado em parte, das condições de crescimento das árvores. As propriedades físicas da madeira também são influenciadas pela estrutura interna complexa, resultando em um comportamento anisotrópico. Além da variabilidade natural e anisotropia, a madeira também apresenta como características a porosidade e a não homogeneidade. Segundo BUCUR (1983), o tronco da árvore consiste em cascas concêntricas que conferem uma simetria cilíndrica para a madeira, podendo ser considerada um sólido ortorrômbico com três planos perpendiculares de simetria: a direção radial, do centro da árvore até seu perímetro; a direção tangencial, tangente aos anéis de crescimento; e a direção longitudinal, paralela ao eixo da árvore. Figura 1. Eixos principais da madeira. Fonte: RITTER (1992) Atualmente, a caracterização das propriedades da madeira é feita por meio da avaliação destrutiva de corpos-deprova, o que pode resultar na variabilidade dos resultados devido a fatores como uma amostragem inadequada ou problemas na confecção do corpo-de-prova. 02 a 06 de Junho de 2003 / June 2 to 6 2003 Rio de Janeiro - RJ - Brasil É possível uma caracterização eficaz da madeira por meio de métodos não destrutivos, nos quais não se faz necessária a extração de corpos-de-prova, uma vez que a avaliação é feita na própria peça ou estrutura. A avaliação não destrutiva é definida como sendo a ciência de identificar as propriedades físicas e mecânicas de uma peça de determinado material sem alterar suas capacidades de uso final, ROSS et al. (1998). JAYNE (1959) iniciou a hipótese fundamental para a avaliação não destrutiva da madeira, propondo que a armazenagem de energia e as propriedades de dissipação da madeira, que podem ser medidas por meio não destrutivo, são controladas pelos mesmos mecanismos que determinam o comportamento estático deste material. A nível microscópico, as propriedades de armazenamento de energia são controladas pela orientação das células e pela composição estrutural, fatores que contribuem para a elasticidade estática. Tais propriedades são observáveis como freqüência de oscilação na vibração ou transmissão da velocidade do som. Desse modo, as medidas das taxas de deterioração de vibrações livres ou atenuação de ondas acústicas são usadas para observar a propriedade de dissipação de energia na madeira. Segundo BUCUR (1995), em materiais homogêneos e isotrópicos como aço, plásticos e cerâmicas, a avaliação não destrutiva detecta falhas surgidas no processo de fabricação. Na madeira, essas irregularidades ocorrem naturalmente e a influência dessas sobre as propriedades mecânicas pode ser avaliada através de métodos não destrutivos. De acordo com OLIVEIRA; SALES (2002), os métodos não destrutivos apresentam vantagens em relação aos métodos convencionais para caracterização da madeira: possibilidade de avaliar a integridade estrutural de uma peça sem a extração de corpos-de-prova; maior rapidez para analisar uma grande população e versatilidade para se adequar a uma rotina padronizada numa linha de produção. Segundo ERIKSON et al. (2000), a avaliação não destrutiva é uma importante ferramenta para a caracterização da madeira, podendo ser utilizada pelas indústrias para melhorar o controle de qualidade dos processos através de uma maior uniformidade na matéria prima e em seus derivados. Cada uma das técnicas não destrutivas apresenta vantagens e desvantagens que afetam seu uso. A aplicação adequada das técnicas possibilita uma avaliação mais confiável das propriedades do material garantindo sua integridade para o uso estrutural. De acordo com ROSS (1999), várias tecnologias, como raio-x, análise química, propriedades vibracionais e transmissão de ondas sonoras, são usadas para avaliar a madeira de modo não destrutivo. O ultra-som é caracterizado por freqüências acima de 20000 Hz. Entre as vantagens de sua utilização, vale destacar o baixo custo de aquisição do equipamento se comparado ao das máquinas de classificação automática, e o treinamento relativamente simples da mão de obra para utilização do equipamento, possibilitando que o método seja facilmente difundido em revendedores e indústrias de madeiras e derivados, OLIVEIRA (2001). O comportamento mecânico da madeira é determinado pela caracterização de nove constantes: três módulos de elasticidade de Young, três módulos de elasticidade transversais e três coeficientes de Poisson. O módulo de Young é o principal parâmetro elástico e apresenta grande número de trabalhos científicos desenvolvidos. Os termos da matriz de rigidez [C] podem ser determinados pelas medições com ultra-som e os termos da matriz de flexibilidade [S] por ensaios estáticos. A madeira é considerada um material ortotrópico e possui três eixos de simetria elástica (longitudinal, radial e transversal). A matriz de rigidez para estes materiais contém nove constantes independentes: seis termos diagonais (C11 , C22 , C33 , C44 , C55 e C66 ) e três termos não diagonais (C12 , C13 e C23 ). Os três módulos de elasticidade de Young são proporcionais à rigidez corrigidas dos coeficientes de Poisson. Assim, para corpos-de-prova longos (considerados infinitos), o fator de correção é 1, sendo que deste modo, o CLL pode representar o módulo de elasticidade dinâmico (Ed ). De acordo com WANG; CHUANG (2000), a relação do módulo de elasticidade é: [C] -1 = [S] e o módulo de elasticidade relacionado com a matriz de flexibilidade é E11 = 1/S11 usando os valores corrigidos do coeficiente de Poisson. Quando as peças são maiores que 50 centímetros, pode-se assumir que os valores experimentais são correspondentes ao módulo de elasticidade sem necessidade de correção (CLL = Ed ). A aplicação e medição de ondas acústicas consiste no posicionamento de dois transdutores acelerômetros sobre o material a ser avaliado. A onda acústica é introduzida no material por um dos transdutores e captada pelo outro transdutor, sendo a contagem de tempo, em microssegundos, realizada pelo próprio instrumento de ultra-som. Segundo HALABE et al. (1996), a velocidade de uma onda ultra-sônica depende do modo de vibração (nas direções longitudinal e transversal) e das propriedades do material. A velocidade de propagação longitudinal em uma direção ao longo do comprimento de uma barra esbelta (considerando-se uma barra com dimensões laterais muito menores que o comprimento de onda) é dada pela equação: V= Ed ρ Onde: Ed – módulo de elasticidade dinâmico; ρ – densidade da madeira; V – velocidade de propagação da onda ultra-sônica. (1) A velocidade de propagação de uma onda longitudinal através de um corpo nas três direções é: V= E d (1 − µLT ) ρ (1 + µLT ) (1− 2 µLT ) (2) Onde: µ LT – coeficiente de Poisson correspondente à direção longitudinal. A escolha entre as equações (1) e (2) depende da magnitude do comprimento de onda quando comparado com as dimensões da peça analisada. De acordo com o autor, a equação (2) foi derivada para um material isotrópico e é apenas uma aproximação para um meio transversalmente isotrópico como a madeira. A propagação das ondas ultra-sônicas na madeira depende principalmente das propriedades mecânicas da parede celular. Segundo KABIR et al. (2002), a densidade da parede celular é razoavelmente constante, mas há variação do módulo de elasticidade devido à variações na estrutura da parede celular, desse modo, pode-se esperar um intervalo de valores para a velocidade de propagação. Na madeira, os fatores que influenciam a propagação de ondas ultra-sônicas são: propriedades físicas do substrato, características geométricas da espécie (macro e microestruturas), condições do meio (temperatura, umidade) e o procedimento utilizado para tomada das medidas (freqüência e sensibilidade dos transdutores, seu tamanho, posição e características dinâmicas do equipamento), BUCUR; BÖNHKE (1994). De acordo com MCDONALD et al. (1990), altas correlações têm sido observadas entre os módulos de elasticidade obtidos a partir das técnicas de ondas acústicas (Ed ) e flexão estática (MOE). É mais difícil relacionar MOR com Ed , pois a presença de defeitos e a inclinação das fibras têm efeito mais significativo no MOR do que na velocidade longitudinal da onda. Como os defeitos na madeira afetam a inclinação das fibras, qualquer método que seja sensível a isso, terá alto potencial para determinar a resistência da madeira. HALABE et al. (1995) obtiveram baixos coeficientes de determinação (r2 ) para regressões entre MOR e Ed para a espécie southern pine. Os baixos valores de r2 ocorrem também porque a tensão induzida na madeira durante os ensaios dinâmicos é muito pequena, ou seja, as medições dinâmicas são baseadas nas propriedades mecânicas apenas no limite elástico. O módulo de ruptura (MOR) acontece em maior tensão e depois do limite elástico resultando em pobre correlação com os parâmetros dos ensaios não destrutivos. Também deve-se notar que o comportamento do MOR pode ser afetado significativamente pela presença de nós nas extremidades. Os valores do módulo de elasticidade obtidos no método de ultra-som são usualmente maiores que os encontrados na flexão estática. Segundo SIMPSON, WANG (2001), isso pode ser explicado considerando-se a madeira um material viscoelástico e altamente amortecedor. Na vibração de uma espécie de madeira, a força elástica restaurada é proporcional ao deslocamento e a força dissipativa é proporcional à velocidade. Portanto, quando a força é aplicada com curta duração, o material se comporta como um sólido elástico, enquanto que para uma longa duração o comportamento é igual ao de um líquido viscoso. Este comportamento é mais proeminente no ensaio de flexão estática (longa duração) se comparado ao ensaio de ultra-som. Assim, o módulo de elasticidade determinado no método de ultra-som é usualmente maior que aquele obtido na flexão estática. O objetivo deste trabalho foi a obtenção de correlações entre o ensaio dinâmico por meio de ultra-som (Ed ) e o ensaio estático de flexão (MOE) em peças de dimensão estrutural, visando o estudo da viabilidade de aplicação do método de ultra-som na avaliação de propriedades da madeira das espécies pinus taeda e pinus elioti . 2. Procedimento experimental Foram utilizadas 600 peças com dimensões 3,5cm x 13,5cm x 260cm das espécies pinus taeda e pinus elioti. A secagem das peças foi feita ao ar e o controle de umidade foi realizado por meio de verificações de diferenças de massas de pequenas amostras retiradas das pranchas, atribuídas como sendo correspondentes às perdas de água das amostras, com conseqüente alteração do teor de umidade da madeira. Foram realizados ensaios para a avaliação das seguintes propriedades físicas e mecânicas: → densidade aparente a um teor de umidade em torno de 12% : ρ ap,12% (kg/m3 ); → módulo de elasticidade na flexão estática: MOE (MPa); → módulo de elasticidade dinâmico: Ed (MPa). Os ensaios não destrutivos precederam os estáticos visando minorar possíveis variabilidades ocasionadas pela deformação introduzida no ensaio de flexão. Os ensaios dinâmicos foram feitos com o equipamento de ultra-som SYLVATEST com transdutores de 22 kHz, Figura 2. Foram feitas duas leituras da velocidade de propagação da onda; o módulo de elasticidade dinâmico (Ed ) foi calculado a partir da média das leituras e da densidade aparente, conforme equação (1). Aplicou-se gel medicinal nos topos das peças ensaiadas para garantir o contato entre a madeira e os transdutores. Este gel permite uma melhor transmissão da onda ultra-sônica na interface, evitando que ocorram interferências no sinal. Figura 2. Equipamento de ultra-som SYLVATEST. 3. Resultados e discussões Na Tabela 1, têm-se a média e o coeficiente de variação das propriedades determinadas nos ensaios estáticos e dinâmicos para as peças de pinus taeda e pinus elioti. Tabela 1. Valores médios e coeficientes de variação. ρ (kg/m3 ) VLL (m/s) Ed (MPa) MOE (MPa) Média 556 4939 13856 13150 CV (%) 16,5 8,8 29,3 30,9 Os valores médios obtidos para as propriedades estudadas estão compatíveis com os usualmente encontrados na experimentação com coníferas cultivadas no Brasil. Os resultados nos ensaios dinâmicos (Ed ) foram superiores aos ensaios estáticos (MOE). Com os pares de valores dos módulos de elasticidade dinâmico e estático, obtidos para cada uma das peças, realizou-se a regressão linear, apresentada no gráfico a seguir. MOE (MPa) 30000 MOE = 0,9102x + 538,74 2 R = 0,83 20000 10000 0 0 10000 20000 30000 Ed (MPa) Figura 3. MOE em função de Ed . 4. Conclusões O lote ensaiado apresentava-se muito heterogêneo, com distorções de fibras e elevada quantidade de nós, o que aumentou a variabilidade dos resultados obtidos. Vale salientar que o comportamento do ultra-som foi bastante satisfatório, demonstrando-se sensível às diferenças anatômicas das peças e levando a resultados coerentes. O coeficiente de determinação obtido (r2 = 0,83) é altamente significativo, permitindo afirmar que o método não destrutivo por meio de ultra-som pode ser utilizado para avaliar as propriedades mecânicas de coníferas com dimensões estruturais. Deste modo, este método não destrutivo pode ser utilizado na classificação de peças estruturais de madeira de pinus taeda e pinus elioti. 5. Agradecimentos Os autores agradecem à FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) pelo suporte financeiro e ao LaMEM (Laboratório de Madeiras e Estruturas de Madeira) pelo apoio para o desenvolvimento deste trabalho. 6. 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The speed of transmission is sensitive to the material’s quality-determining factors; hence, this technique is an important industrial tool to improve the quality control of processes. The specie used in the experimental procedure was pinus. Tests were carried out to determine the properties of apparent density at 12% humidity content (ρ ap,12%) and modulus of elasticity in static deflection (MOE). Ultrasound tests were also performed to find the dynamic modulus of elasticity (Ed ), for purposes of comparison with the static findings. The results and analyses lead us to conclude that the nondestructive ultrasound method can be employed to obtain reliable evaluations of the mechanical properties of wood. Key words: wood, nondestructive evaluation, ultrasonic.