Da Razão e da Mística: as heterodoxias de Espinosa e de Agostinho da Silva Romana Brázio Valente “Espinosismo puro jamais o houve em Portugal, desde a pura e simples controvérsia do pensamento ortodoxo às modificações operadas pelo realismo e pelo idealismo”. Pinharanda Gomes, Pensamento Português, p.32 O pensamento português, na sua contemporaneidade, desde sempre rendeu culto ao sistema filosófico de Baruch de Espinosa (relembremos, a título exemplificativo, como alguns autores portugueses sentiram afinidades com as doutrinas espinosistas: a concepção brunina de Deus, o panteísmo de Alberto Caeiro, o Uno-Unificante de António Sérgio, o conceito de Absoluto em Teixeira de Pascoaes, a teoria criacionista de Leonardo Coimbra, a onto-cosmologia de José Marinho, a visão paradoxalmente transcendente e imanente de Deus no pensar de Agostinho da Silva, o Deus Dançante de Eudoro de Sousa) mas, sobretudo, sempre se mostrou fascinado com o modo de vida errante (e tão assumidamente pragmático) e com a experiência religiosa do judeu de ascendência portuguesa. Contudo, por mais que os pensadores portugueses se revejam na filosofia de Espinosa, o que é certo é que, em Portugal, o pensamento se constrói de uma forma heterogénea, heterodoxa e, como ressalva Agostinho da Silva, heteronímica1. Pensar em Português é pensar inspiradamente (e, portanto, nunca em termos de forma e de conteúdo) na companhia de Descartes, de Espinosa, de Leibniz ou de Heidegger. De tal forma que se chega a apontar a fraca veia filosófica dos pensadores portugueses, ou até mesmo a inexistência de uma propensão filosófico-científica nas humanidades em Portugal2. Agostinho da Silva chega até a afirmar que o único filósofo português é Espinosa: “A meu ver só temos um filósofo português, que era Espinosa, nascido na Holanda por acidente”3. Uma afirmação desta natureza levanta questões polémicas e dilemáticas: porque é que, segundo Agostinho, Espinosa é o único filósofo português? 1 SILVA, A., Entrevista com Agostinho da Silva, (Filosofia, nº 2, Dez. 1985) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989, p.78: “Espero que Portugal venha a ser mais do que um país de filósofos. Que venha a ser uma pátria que tenha todas as filosofias como heteronímicas”. 2 SILVA, A., A minha meta é o ponto sem dimensão, (entrevista a Antónia de Sousa in Diário de Notícias, 20/07/1986) in Dispersos, p.149: “Em primeiro lugar, eu não acho que haja filosofia portuguesa, ouviu? Ou digo assim: ainda não há filosofia portuguesa, porque aquilo que se tem chamado até hoje filosofia portuguesa é uma parte, daquilo que eu penso que um dia será a filosofia portuguesa”; SILVA, A., Reflexão à margem da literatura portuguesa, Lisboa, Guimarães Editores, 1996 (3ª ed.), p.77: “Porque o destino de Portugal não era o de ser filósofo; contemplar pelejas de longe, para delas ter ideia de conjunto, ficava para filósofos europeus ou então para pensadores portugueses, à maneira de Sanches ou de Spinosa, que circunstâncias especiais lançavam longe dos campos de batalha”. 3 SILVA, A., Agostinho, Ensine-nos, (entrevista a Lurdes Féria, in Diário de Lisboa, 19/04/1986) in Dispersos, p.118. 1 Será pelo simples facto de ter ascendência portuguesa? Ou porque o pensador luso-brasileiro o considera o máximo representante da Filosofia que Portugal conceptualizará no Futuro4, isto é, filosofia da acção, filosofia da vida5, filosofia do quotidiano6, filosofia da liberdade? Nesse aspecto, Espinosa seria o símbolo da Filosofia Portuguesa por excelência, independentemente de ser português ou não7. Contudo, no nosso entendimento, o problema mantém-se porque uma exposição que se apresenta desta forma não é facilmente aceitável e demonstrável (como pode existir no universo da Filosofia Portuguesa um filósofo que não pensa em português?8 A primeira premissa a considerar é: ou não é Filosofia Portuguesa aquilo que ele pensa, é antes de outra nacionalidade ou universal; e a segunda é: ou o filósofo pensa de forma universal e, portanto, é português – o que nos parece é que aceitar estas premissas, jogando com uma Filosofia do Futuro, lança-nos para uma falsa e hipotética questão, impossível de solucionar porque o autor não nos oferece pistas suficientes para a resolvermos, a não ser que queiramos recair no âmbito da especulação (afinal de contas, o pensamento de Espinosa é português ou é universal? No espírito de Agostinho parece que é português, logo, paradoxalmente, universal. Ou será o inverso?). Tomemos como exemplo a seguinte citação de Agostinho da Silva: “Bastaria a este respeito que nos lembrássemos de como, no maior dos pensadores portugueses, Spinoza – e aí lhe fez mal o viver na Holanda – é uma Ética, more geometrico demonstrata, apenas uma exposição, para uso de europeus, limitada portanto, do inteiro universo que era aquele judeu que a sinagoga repelia e o cristianismo não aceitava, aquele operário e ascético irmão, se só irmão, de tudo e de todos, e do que é nada e do que nada somos”9. Neste excerto podemos apontar algumas aporias: o que leva Agostinho a afirmar que a vivência de Espinosa na Holanda lhe fez mal? Caso vivesse em outro país, onde os judeus tinham mais liberdade, não pensaria ele de igual forma? Não seria o judeu expulso pelos seus companheiros ortodoxos em outro território? E se a Holanda lhe fez mal, qual seria o país ideal para viver e agir? Acaso seria Portugal, de onde os judeus tinham sido expulsos? Para 4 Vf. SILVA, A., Dispersos, p.149. SILVA, A., Agostinho, Ensine-nos, p.119: “Para ele (Espinosa) o importante (recusou ser professor da universidade) não era expor, mas agir filosoficamente”; SILVA, A., Com Agostinho à procura do Futuro de Portugal, (entrevista a Victor Mendanha, in Correio da Manhã, 31/05/1986 e 1/06/1986) in Dispersos, p.126: “Ele (Espinosa) não pensou, apenas, uma determinada filosofia e a escreveu, como foi coerente com ela e procedeu, sempre, como se não existisse outra maneira de viver senão essa”. 6 SILVA, A., Agostinho, Ensine-nos, p.110: “Admiro muito as filosofias seguidas no quotidiano, como o caso de Espinosa, que não se limitou a pensar e a escrever uma filosofia”. 7 SILVA, A., Ensaio para uma teoria do Brasil, (in Espiral, Ano III, nº 11-12, 1966) in Dispersos, p.271: “Deste modo, e continuando, num mundo renascentista, a linha medieva, o português fazia de todo o mundo a sua catedral; por outro lado, fornecia as bases essenciais de uma filosofia como a de Spinosa, tão singular, apesar de tudo, na linha do pensamento europeu”. 8 Na realidade não pode haver, por parte do filósofo, uma abstracção da situação ambiental, educacional, social e cultural em que se encontra, embora a sua meta seja o universal. Para Agostinho, independentemente da sua nacionalidade, o pensador deverá almejar o universo. Se as outras filosofias não o contemplam, pelo menos a portuguesa deverá fazê-lo. Contudo, o pensador português encontra, nos escritos e na vida de Espinosa, já estas orientações. Talvez por isso considere Benedictus de Espinosa um filósofo português: SILVA, A., Resposta a «Inquérito sobre a Filosofia Portuguesa», (in «Parábola», Diário do Minho, nº 8, 11/12/1971) in Dispersos, p.549: “Português que viva apenas para Portugal, como acho queria o Velho do Restelo, não tem significado algum nem vale a pena existir no mundo; temos de viver para o universo, ou seremos inúteis; a nossa filosofia deve poder abranger, dilatando-a a outros povos, a liberdade que a América defende no melhor de sua gente (...)”. 9 SILVA, A., Nota sobre Cultura Portuguesa (1986), in Dispersos, p.803. 5 2 estas interrogações, o autor português não dá soluções. Resta-nos, assim, hipostasear. Contudo, este método não nos fornece garantias hermenêuticas, apenas nos confirma a densidade e a complexidade do pensamento do autor, que, na sua maioria, não é explicitamente directo. Afinal, o que é que ele pretende colocar em análise quando afirma que a Ética é uma obra somente para europeus? E que a mesma obra não exprime a essência de todo o pensar e agir de Espinosa? Talvez não seja abusivo assentarmos que se, de razão, a Ética é um texto tipicamente europeu, a saber, tradicionalmente filosófico na sua exposição, o que é certo é que o seu conteúdo transcende a sua metodologia. É óbvio que nenhuma obra encerra o pensamento, a acção e a vida do autor na sua essência e integralidade, no entanto, no caso de Espinosa, a Ética é o seu texto de maior expressão e profundidade, escrito para a Europa mas também para lá dela, cremos, pela natureza que encerra, até para o Universo inteiro. A afirmação de Agostinho apresenta-se-nos polémica no sentido em que critica o método utilizado pelo filósofo holandês sem atender ao seu propósito. Nesta obra, Espinosa concebe uma das mais originais ideias de Deus e um panteísmo que, ainda nos dias que correm, tem fervorosos seguidores. Para concluirmos: se Agostinho se mostra defensor da filosofia espinosista, chegando até a considerá-la como símbolo da Filosofia Ideal Portuguesa, porque caracteriza a Ética de uma forma tão redutora? Não mais nos resta acrescentar que são contradições naturalmente agostinianas, ou paradoxias, como o autor tanto gostava de frisar. Para além deste limite só os filosofemas poderão auxiliar, todavia, optamos pelas aporias de Agostinho). No entanto, porque não considera Agostinho, por exemplo, o Padre António Vieira como expoente maior do pensamento português? Não é Vieira o ícone máximo da filosofia da acção e da vida? Não agiu ele consoante aquilo que pensou e escreveu? Se Agostinho, em múltiplos contextos, se mostra apologeta do pensamento do jesuíta10, porque não o escolhe como representante da Filosofia Portuguesa, afinal, também do Futuro, da Acção e da Liberdade, optando, antes, por Espinosa? Será porque Vieira não é um filósofo no sentido estrito da palavra? Será porque Espinosa é um herdeiro tradicional da Filosofia ocidental e Vieira o não é? Se assim for, Agostinho da Silva, e contrariando muitas das suas teses, está a demonstrar a sua vertente sergiana (ou seja, positivista, metodológica, filosófica, pragmática e técnica), curiosamente aquela que julgamos que ele nunca perdeu, independentemente de ter ultrapassado em grande parte a influência que António Sérgio teve na sua formação intelectual. Mas as dúvidas continuam: porque pensa Agostinho que Espinosa nasceu na Holanda por acidente? Será apenas porque a sua família, de origem judaica, fugiu de Portugal por causa da Inquisição? Quererá com isto dizer que se a sua família tivesse permanecido em Portugal, Espinosa teria escrito e vivido de maneira similar? Até que ponto um pensador é condicionado pelo seu meio 10 Citamos, a título de exemplo, apenas alguns dos textos em que Agostinho se refere positiva e enaltecidamente ao Padre António Vieira: Considerando o Quinto Império, Ecúmena, Quinze Princípios Portugueses, O Espírito Santo das Ilhas Atlânticas, Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro, Dez notas sobre o culto popular do Espírito Santo, Mais dez notas o culto popular do Espírito Santo (in Dispersos), Reflexão à margem da literatura portuguesa. 3 ambiente e pelas pessoas que o rodeiam? Será que a comunidade judaica de Amsterdão e os estudos que o jovem Benedictus encetou no seu seio não influenciaram o seu espírito e o seu modo de vida?11 Por mais que, como defendem alguns comentadores de Espinosa – tal como é o caso do nosso Joaquim de Carvalho -, o autor judeu tenha tido um contacto estreito com a língua e a cultura portuguesas, o que é certo é que o filósofo, mesmo transcendendo as fronteiras espaciais da cognição experiencial e da linguística, pensava como um europeu do centro e não como um europeu da Ibéria. Mesmo que para Agostinho, Espinosa fosse representação de Liberdade, Acção e Futuro, é inevitável que a sua estrutura mental não fosse a de um europeu do além-Pirenéus. E sabemos quão difícil é, para o autor luso-brasileiro, aceitar esta formulação: “Não creio que a verdadeira cultura e a verdadeira humanidade e o verdadeiro futuro do mundo estejam para lá dos Pirenéus; não creio que aquilo a que se deveria chamar a Europa, excluindo cuidadosamente não só a Península Ibérica, mas igualmente o Sul da Itália, daquilo a que hoje se chama Europa, não creio que a Europa da gente loira, ordenada e filosófica seja muito mais do que isso, ordenada e filosófica, e possa ver-se livre, a não ser por uma transformação que lhe atingiria o próprio cerne, daquele feitio utilitário, prático e mecânico, que a América do Norte, sua herdeira, levou às últimas consequências”12. Ora, para Agostinho da Silva, Espinosa era muito mais do que um indivíduo loiro, ordenado e filosófico. Espinosa soubera desenvolver, inspirado por Descartes13 (ainda que este, no entender de Agostinho, tivesse ousado ultrapassar a criação divina14), um espírito livre, para lá da opção metódico-geométrica. Todavia, e contrariando Agostinho da Silva, temos alguma dificuldade, por aquilo que expusemos até ao momento, em aceitar Espinosa como filósofo português. No nosso entender, Benedictus de Espinosa pensava como um geómetra além-pirenaico, por mais que a geometria fosse um método para demonstrar a metafísica15, e não como um poeta ibérico. Ainda que, de um ponto de vista do conteúdo, tanto o europeu do norte como o do sul se preocupe com o grund e com o firmamento16, na realidade, a estrutura formal é díspar. Neste aspecto, estamos a equacionar a eterna polémica que tem envolvido o pensamento português nos últimos tempos: os portugueses, por temperamento ou por falta de vocação, expressam-se filosoficamente através da poesia e não através da lógica sistemática. Se, por um lado, isto é entendido, por uma corrente 11 SILVA, A., Entrevista com Agostinho da Silva, p.70: “Bom, provavelmente o Espinosa foi mais maltratado na Holanda, pela Sinagoga, do que teria sido em Portugal”. 12 SILVA, A., Reflexão à margem da literatura portuguesa, pp.24 e 25. 13 SILVA, A., As folhas de São Bento e outras – Reflexões sobre Descartes, (publicação de autor, Rio de Janeiro, 10/1965) in Dispersos, p. 359: “(...) Descartes jamais mora, acampa, e nos podemos rir um pouco dos que acham ter ele abandonado a vida militar: abandonou o desbragamento, a matança e a brutalidade; ficou fiel ao não ser sedentário. (...) Mostrando com a geometria analítica de que genialidades era capaz, revelou-se, no método, guerreiro e cristão, numa unidade de que Erasmo teria gostado e que nestes tempos as Igrejas perigosamente deixam esquecida; (...)”. 14 ibidem, p.357: “(...) Descartes falhou na física por sacrilégio; quis ultrapassar por sua criação humana a criação divina; voou com as asas de cera que são as de todos nós quando não temos paciência, ou nos toma o orgulho, de não esperar que a eternidade de Deus se nos torne compreensível através de nossas lentas inteligências temporais”. 15 SILVA, A., ., Entrevista com Agostinho da Silva, p.73: “Uma das grandezas de Espinosa consistiu em levar a geometria analítica às suas últimas consequências metafísicas”. 16 À maneira grega mas, como defendia Álvaro Ribeiro, também extraordinariamente portuguesa. 4 determinada de pensadores, como uma forma maior de expressão, por outro, há quem considere, como é o caso de António Sérgio17 e de outros autores de cariz mais positivista e racionalista, esta linha de pensamento não só menor, como delirante e inconsequente. Por aquilo que analisamos até então, somos levados a equacionar a possibilidade de Agostinho da Silva sentir uma grande afinidade com o pensamento de Espinosa (tal como constataremos mais à frente, a obra de Agostinho revela algumas influências do sistema filosófico de Espinosa, mormente no que diz respeito à formulação do conceito de Deus), diríamos até que, mais do que se sintonizar com as doutrinas espinosistas, o pensador português sente um forte apelo pela postura de vida que o judeu exerceu. De facto, o que interessa a Agostinho não é tanto aquilo que Benedictus de Espinosa pensou e escreveu mas, antes, aquilo que o filósofo produziu materialmente, aquilo que ele conseguiu fazer da e na sua vida, contagiando os outros. Agostinho da Silva demarca-se da metodologia espinosista quando afirma “Não me impressiona muito a constância na busca, ou construção, da geometria analítica, nem a lógica do método, (...)”18, contudo, aproxima-se do autor judeu quando admira o seu modo de vida ( fascina-o a simplicidade de um homem que troca a vida académica pela tarefa de polir lentes), o seu amor à liberdade e à acção, o seu desprendimento face aos azares da vida. Talvez Agostinho admire mais o Espinosa homem do que o Espinosa filósofo, talvez Agostinho, ainda que em nenhum momento se compare, em termos de genialidade, com Espinosa, se reveja, enquanto homem pragmático e libertário, no pensador holandês. Se o nosso pensador português, relativamente ao seu percurso biográfico e às suas opções de vida, se assemelha ao Padre António Vieira, não é menos certo que, quando comparado com Espinosa nos mesmos parâmetros, lhes possamos tecer analogias. No que concerne à estratégia assumida perante os azares da vida e à opção de caminho a seguir depois dos projectos ansiados terem, involuntariamente, falhado, podemos relacionar Espinosa e Agostinho. Vejamos: quando, segundo Joaquim Montezuma de Carvalho19, Baruch de Espinosa é expulso da Sinagoga e, mais tarde, considerado ateu pelos cristãos, não reage impulsivamente, demonstrando até não ter rancor pelo sucedido, limitando-se a seguir o rumo da sua vida, dedicando-se à escrita e ao polimento de lentes (no fundo, está a viver aquilo que pensa e que acredita), poder-se-á estabelecer uma ponte com Agostinho da Silva. Também o pensador luso-brasileiro, quando é preso 17 Reparemos nas críticas que António Sérgio faz, nos Ensaios (Edições Sá da Costa), à generalidade da literatura e do pensamento portugueses, mormente ao romantismo e ao saudosismo. Para este autor, o pensamento português não exprime filosoficamente nada através destes estilos, deverá, ao invés disso, enveredar por um método rigoroso e positivista, diríamos até cartesiano, que concederá ao pensar português mais concretude, pragmatismo e profundidade. 18 SILVA, A., As folhas de São Bento e outras – Reflexões sobre Descartes, p.357. 19 CARVALHO, J. MONTEZUMA DE, Posfácio – Das relações entre Joaquim de Carvalho e Espinosa, in ESPINOSA, B., Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992, p.492: “É um paradoxo, mas apetece-me anunciá-lo: «Abençoada hora em que Dom Manuel I, Rei de Portugal, expulsou os judeus! E abençoada hora em que os judeus daqui expulsos vieram, em Amsterdão, a expulsar Espinosa de sua sinagoga e comunidade! Há dores e tragédias que se transubstanciam em infinitas virtudes. Em Espinosa se sublimaram todos os desastres. Nele não há uma expressão de enxovalho. (...) Outro qualquer diria cobras e lagartos de católicos e judeus. Espinosa não exibe garras (...)»”. 5 pela polícia política e proposto à pena de excomunhão por um jornal católico20, não reage negativamente. Sai do país e vai construir, no Brasil, aquilo que não o deixaram construir em Portugal21. A tal ponto que considera o Brasil como o centro de onde Portugal pode renascer para um tempo humanamente melhor, muito similar àquele que ficou para trás na era medieval portuguesa (“(...) Portugal, depois do século XV, só vai ser grande naquilo em que continua a ser medieval; no resto se empequenece”22), isto é, democrática, popular23, pré-absolutista e defensora do Reino do Espírito Santo: “Possivelmente, a permanência de D.João VI no Brasil teria decidido de vez a possibilidade de um mundo português feito de nações independentes e livres com seu centro de gravidade não mais em Portugal, mas no Brasil. (...) que tome o Brasil sobre si, como parte de seu destino histórico, a tarefa de, guardando o que Portugal teve de melhor e não pôde plenamente realizar e juntando-lhe os outros elementos universais que entraram em sua grande síntese, oferecer ao mundo um modelo de vida em que se entrelaça numa perfeita harmonia os fundamentais impulsos humanos de produzir beleza, de amar os homens e de louvar a Deus: criar, de servir e de rezar”24. Assim como Joaquim Montezuma de Carvalho profere “Bendita a hora em que os judeus foram expulsos de Portugal”, também Agostinho da Silva, em algumas entrevistas, afirma que se a Faculdade de Letras do Porto não tivesse fechado ele ter-se-ia tornado um professor sedentário e estagnado25 e que se Salazar não o tivesse demitido do ensino oficial em Portugal por não ter assinado a Lei Cabral26, em 1935, e não o tivesse mandado prender, jamais ele teria construído aquilo que acabou por construir no Brasil. Os dois pensadores têm a capacidade de, a partir do infortúnio em que a sua vida se tornou, de inverter o processo negativo e criar um rumo novo, poder-se-á até dizer que do 20 SILVA, A., Carta ao Director do Jornal “Acção”, dact., Lisboa, 30/04/1943 (Arquivos da Associação Agostinho da Silva – Lisboa): “Como o Exmº Senhor Sousa Tavares saiba o Diário do Minho pediu contra mim condenação eclesiástica e excomunhão maior, reservada ao Sumo Pontífice, speciali modo, creio eu; se o Sumo Pontífice me condenar, sem que nenhum membro da Igreja me tenha esclarecido e feito o possível por que eu abandone os meus erros, que atitude tomarão os católicos?” 21 Assim como os portugueses do século XVI foram obrigados a emigrar porque já não conseguiam viver num país que se havia apartado dos ideais cristãos medievais de liberdade e fraternidade, também Agostinho se vê impelido a emigrar em nome da sua própria liberdade: SILVA, A., Reflexão à margem da literatura portuguesa, pp. 97 e 98 – “Para dizer tudo numa palavra, Portugal, para os verdadeiros portugueses, se tornava um país inabitável. (...) os outros, os que emigravam o mais que podiam, esses eram os reais portugueses, os portugueses tradicionalistas, os portugueses; (...)”. 22 SILVA, A., Reflexão à margem da literatura portuguesa, p.65. 23 SILVA, A., Entrevista ao programa Zip-Zip – RTP (25/08/1069), in Dispersos, p.22: “A cultura portuguesa, a que foi nossa até ao século XV e até ao século XVI, e que a seguir circunstâncias, sobretudo de carácter estrangeiro, perturbaram o seu curso – mas que está ainda plenamente viva no Brasil, onde o povo a soube conservar melhor do que no próprio Portugal – (...)”. 24 SILVA, A., Reflexão à margem da literatura portuguesa,, pp. 102 e 142. 25 SILVA, A., Entrevista com Agostinho da Silva, p.47: “Foi uma grande perda em geral, é claro, mas do ponto de vista pessoal poupou-me à condenação de ficar no Porto para me tornar professor universitário e passar o resto da vida fixado apenas ao estudo do grego e do latim. Assim, ao extinguir a minha Faculdade, a ditadura acabou por me prestar um bom serviço, compelindo-me a uma variedade de vida e de interesses de que eu não poderia ousar supor a existência se tivesse prosseguido uma carreira universitária no Porto”. 26 ibidem, p. 50: “O grande gesto de recusa da declaração terá sido uma manha interior para me escapulir, em beleza, de situação que, na realidade, me era insuportável. Se a não tivesse atalhado, provavelmente seria hoje um velho melancólico, fumando cigarros tristes nos fundos de algum café e achando que o país está acabado e não há nada para fazer – exactamente o contrário do que hoje sou e penso”; SILVA, A., Vida Conversável, org. Henryk Siewierski, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p.101: “(...) eu não fui exilado -, nenhum governo me mandou embora. Foi a mim que me apeteceu embarcar porque também já não podia respirar o ar de Portugal”. 6 mau conseguem produzir o bom. Na realidade, podemos comparar os caminhos biográficos de Espinosa e de Agostinho, assim como o fizemos também em relação a Vieira, mas o que se nos apresenta pertinente é o estudo das afinidades que o pensador português sente em relação à doutrina de Benedictus. Ainda assim, queremos, antes de avançarmos para essa questão, apontar algumas similitudes que unem os dois autores e que se situam numa esfera que ousamos qualificar de fundamental. A saber, a postura religiosa com que abraçam a vida e a práxis. Quando interpelado acerca das suas idiossincrasias místicas, Agostinho da Silva responde “Interesso-me por tudo o que é documental e concreto. A mística não se pode dividir em ocidental e oriental; houve-a dos dois lados, ainda que assumissem aspectos diferentes. Muitos evidentemente se viram aflitos com a Inquisição e outras coisas repressivas. S.João da Cruz esteve preso uma porção de tempo, e Santa Teresa de Ávila viu-se atrapalhada com os confessores. Hoje são santos. Aprenderam a regular o sono, os jejuns, as penitências, tal como os orientais adquiriram uma técnica de reflexão”27. Ao dar uma resposta desta natureza, o autor está a informar-nos que é um concretista, um racionalista, mas que não descura a vertente mística. No fundo, tal como Pseudo-Dionísio, Agostinho crê que todas as pesquisas devem explorar a Razão até ao limite e, só quando ela já não der respostas suficientes, se deve optar por um processo que equacione a mística como metodologia, ou seja, auto-intitula-se de racionalista-místico: “«A minha vida pião / tem esta característica: / vai da mística à razão / e da razão para a mística»”28. Ora, há hermeneutas de Espinosa que proferem o mesmo relativamente ao filósofo holandês. Apesar de ser estruturalmente um geómetra, na realidade, Baruch de Espinosa é um filósofo que se caracteriza por apresentar na sua obra um pendor religioso assaz forte, dir-se-á até mesmo místico. Ao fim e ao cabo, no pensamento de Espinosa, o método está ao serviço, não da religião em si mesma, mas de Deus. De Deus que aponta caminhos que não se inserem em teologias filosóficas e em igrejas hierarquizadas. Deste modo, porque não interpretar a Ética à luz da Cabala? Não será a Ética tão simplesmente um tratado cabalístico?29 Certamente não podemos descurar todos os ensinamentos que Espinosa apreendeu na sua juventude, principalmente aqueles que recebeu dos professores da comunidade judaica de Amsterdão, da qual fazia parte Menasseh Ben Israel30, professor que influenciou Espinosa na construção de uma teoria cosmológica que tendemos a caracterizar de 27 SILVA, A., Agostinho, Ensine-nos, p.117 SILVA, A., Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, org. Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.154. 29 CARVALHO, J., Introdução, in ESPINOSA, B., Ética, p.56: “No século XVII, Watcher aproximou o espinosismo da Cabala, ideia que Leibniz levou tão longe que na sua refutação da Ética chegou a identificar os modos eternos e infinitos da teoria da substância com os sephirot dos cabalistas; no século passado, M. Joel procurou estabelecer que o espinosismo é o remate de uma longa evolução da teologia hebraica e a síntese das tendências intelectualistas e místicas dos judeus da Idade Média (...)”; CARVALHO, J. MONTEZUMA DE, op.cit., p.483: “(...) essa semente portuguesa que produziu um dos homens mais geniais e santos (e porque não igualmente místicos? Se é havido por um embriagado de Deus?) de todos os tempos”. 30 É curioso relembrarmos que foi o mesmo Menasseh que também teve contacto com o Padre António Vieira quando este esteve na Holanda (aliás, uma das acusações que o Santo Ofício faz, no processo inquisitorial de Vieira, é que o jesuíta teria feito amizades entre a comunidade judaica de Amsterdão, sobretudo com Menasseh). Relembramos também a influência que o professor judeu incutiu no pensamento do padre português: a visão místico-teológica do mundo. 28 7 holística. Espinosa, herético por excomunhão, embora se torne um homem sem religião (mas, que, no entanto, apreende Deus em qualquer parte, logo, em toda a parte. Em síntese, como descreve Agostinho da Silva em A Doutrina Cristã: “Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belos de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; (...)”31), pode ser caracterizado, tal como faz Joaquim Montezuma de Carvalho, como um embriagado de e por32 Deus33. Finalmente, podemos concluir que Espinosa se serve da geometria, não para provar a existência de Deus, tal como faz Descartes, mas para fazer a apologia da Natureza (Substância) como Ser Absoluto: Deus sive Natura34. Espinosa, assim como Agostinho defende no jornal O Estado de São Paulo35, em 1947, é o exemplo da necessidade de conciliar a ciência com a mística: no fundo, Espinosa é um monge cientista: “A totalidade é-nos desconhecida? Claro, racionalmente, pois é evidente. A ciência e o racional só servem para chegar às fronteiras do irracional, para mais nada”36. Regressemos, por ora, ao propósito a que nos havíamos lançado há poucas páginas: para lá da afinidade que Agostinho sente em relação ao modo de vida que Espinosa abraçou e até para lá de algumas semelhanças que conseguimos descortinar nos decursos biográficos dos dois pensadores, quais são os ecos que Benedictus deixou no pensamento do autor luso-brasileiro? Ou seja, que ideias espinosistas vingaram na obra de Agostinho? Em poucas palavras podemos assentar que, naquilo que intitulamos de pensamento ecuménico e paradoxal de Agostinho da Silva, existe um fragmento que denota influências profundamente espinosistas, mormente no que diz respeito ao início da década de 40. Essas sintonias prendem-se com a noção de Deus, com o conceito de Substância. Quando em A Doutrina Cristã, Agostinho da Silva escreve “Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo 31 SILVA, A., Doutrina Cristã, Lisboa, Edição de Autor, 1943, pp. 4 -5 (reeditado em Textos e Ensaios Filosóficos I, org. Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 1999, pp.81-82). 32 Acrescento nosso. 33 Em Portugal, o exemplo da obra de Teixeira de Pascoaes, da qual os textos O Bailado e As Sombras são um exemplo significativo, também sofre um forte apelo pela embriaguez de e em Deus. 34 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, I, appendice, trad. Charles Appuhn, Paris, Éditions Garnier Frères, s.d, I, Appendice, pp.103, 105 (Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992, p.169: “(...) pelas demonstrações em que fiz ver que tudo o que existe provém de certa necessidade eterna e da suma perfeição da Natureza”; ibidem, I, prop. XXIX, scolie, p.81 (trad. portuguesa: I, prop. XXIX, p.151: “(...) deve entender-se por Natureza naturante o que existe em si e é concebido por si, ou por outras palavras, aqueles atributos da substância que exprimem uma essência eterna e infinita, isto é, Deus, enquanto é considerado como causa livre”). 35 SILVA, A., Ciência e Mística, in O Estado de São Paulo, 6/03/1947. 36 SILVA, A., A nossa obrigação é ser poeta à solta (in Jornal de Letras, entrevista a Carlos Câmara Leite, 15 de Setembro de 1986), in Dispersos, p.159. 8 de Deus, e o mais belos de todos”37, está a escrever explicitamente o mesmo do que Espinosa escreve no Tratado Teológico-Político “(...) fiquei seriamente decidido a empreender um novo e inteiramente livre exame da Escritura, recusando-me a afirmar ou a admitir como sua doutrina tudo o que dela não ressalte com toda a clareza. (...) comecei por perguntar, antes de mais, o que é a Profecia, como se revelou Deus aos profetas, porque foram estes escolhidos por ele, isto é, se foi por terem pensamentos sublimes acerca da natureza e de Deus ou em virtude apenas da sua piedade. Resolvidas estas questões, facilmente pude concluir que a autoridade dos profetas só tem algum peso no que diz respeito à vida prática e à verdadeira virtude. Quanto ao resto, pouco nos interessam as suas opiniões”38. O que os dois pensadores querem dizer é que Deus está além dos livros sagrados e das igrejas, que qualquer lugar é um templo divino e que pouco valerá ao ser humano aprisionar-se nas superstições. Espinosa foi condenado pelos judeus e cristãos do seu tempo por defender estas ideias, Agostinho por alguns membros da Igreja Católica Portuguesa que, em 1943, desempenhavam funções e pela Polícia Política da Ditadura de Salazar. Ainda em A Doutrina Cristã, o pequeno folheto que Agostinho publica em 1943 – que consideramos ser a obra do autor com conotações espinosistas mais profundas -, afirma “Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica”39, isto é, defende a importância que a liberdade tem para a construção individual e social do ser humano, almejando, explícita e obviamente, a instauração da democracia (não nos esqueçamos que foi a publicação de A Doutrina Cristã que desencadeou a problemática do autor com a Igreja Católica e com a PIDE, embora Agostinho já tivesse processo político nos arquivos da PIDE há algum tempo). Em A Doutrina Cristã, o pensador português faz a apologia da liberdade de expressão e da democracia, tal como Espinosa o faz no Tratado Teológico-Político: “Sendo assim, quanto menos liberdade de opinião se concede aos homens, mais nos afastamos [de nosso estado natural e da forma mais natural de governo [a democracia], e, por conseguinte, mais violento é o poder]”40. As intenções de ambos, ainda que se expressem de forma onto-teológica, visam, simultaneamente, operar uma transformação ética e política. No fundo, embora os dois estejam preocupados com o Espírito, não esquecem que o seu aperfeiçoamento depende das melhorias sociais, culturais e económicas. Trata-se, no fundo, de agir em prol da contemplação e contemplar em prol da acção. Espinosa e Agostinho são dois oleiros de Deus: “Os homens de acção são os oleiros de Deus; e não te esqueças de que até pensar é agir”41; “Daí se segue que a potência de pensar é igual à sua 37 SILVA, A., A Doutrina Cristã, pp. 4 -5. ESPINOSA, B., Traité Théologico-Politique, in Ouevres, trad. Charles Appuhn, Paris, Garnier-Flammarion, 1965, cap. VII, pp. 142-143 (Tratado Teológico-Político, trad. Diogo Pires Aurélio,Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988, p.113). 39 SILVA, A., A Doutrina Cristã, pp. 5-6. 40 ESPINOSA, B., Traité Théologico-Politique, cap. XX, p.334 (trad. portuguesa, p.371). 41 SILVA, A., Pensamento à Solta, p.155. 38 9 potência actual de agir”42. Se, em Deus, ser e agir são a mesma coisa, no Homem o mesmo deverá proceder-se. Para além da afinidade que Agostinho sente em relação à relevância dada ao conceito de acção no pensamento de Espinosa, (na realidade, os nossos dois autores são dois homens da práxis), o autor português recebe também, na construção da sua doutrina onto-teológica, ecos espinosistas. Embora não exclusivamente. Como temos vindo a defender, a noção agostiniana de Deus, sobretudo no que se refere à sua fase madura, constrói-se a partir de inúmeras tradições filosóficas: de orientais clássicas a ocidentais medievais e contemporâneas. Nesta perspectiva, e partindo do pressuposto que Espinosa é um dos maiores filósofos da modernidade, é natural que, pelo seu pensamento, Agostinho se tenha embriagado. O fascínio do pensador luso-brasileiro por Benedictus advém da originalidade com que este concebe a ideia de Deus. Tão próxima, afinal, do seu pensamento, no que conta à apologia de um panteísmo cosmológico (no início da década de ’40) e tão próxima também, da última fase intelectual do autor, quando ele defende uma visão dual da manifestação da Divindade: Transcendência e Imanência. Na sua obra Ética, Espinosa aprofunda e explicita de vez a acepção de Deus, logo, de Substância43, que havia esboçado em textos anteriores. Neste documento, o pensador holandês confirma as perspectivas monista e determinista44 de Deus: “Afora Deus, não pode ser dada nem ser concebida nenhuma substância”45 e “Na Natureza nada existe de contingente; antes tudo é determinado pela necessidade da natureza divina a existir e a agir de modo certo”46. O que Espinosa quer dizer é que tudo o que existe, existe em Deus47, ou ao jeito de Agostinho, tudo o que existe é Deus sendo48, e que Deus é a causa primeira de tudo49, Deus determina tudo o que existe. Quando Espinosa escreve Deus, está, como já explicitámos, a escrever Substância, na medida em que esta é aquilo que existe em si e por si mesma é concebida50, tendo como principais atributos51 a infinitude52, 42 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, II, prop. VII, corollaire, p.127 (trad. portuguesa, p.203). ibidem, I, prop.XI, p.37 (trad. portuguesa, p.115: “Deus, ou por outras palavras, a substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente”). 44 Ao mesmo tempo em que é determinista, Deus também é livre: ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, I, prop.XVII, corollaire II, p.59 (trad. portuguesa, p.133: “Só Deus é causa livre. Com efeito, só Deus existe pela única necessidade da sua natureza e age somente pela necessidade da sua natureza só ele é causa livre”). 45 ibidem, I, prop.XIV, p.45 (trad. portuguesa, p.121). 46 ibidem, I, prop.XXIX, p.79 (trad. portuguesa, pp.149-150). 47 ibidem, I, prop.XVIII, démonstration, p.65 (trad. portuguesa, p.137: “Tudo o que existe, existe em Deus, pelo que Deus é causa das coisas que nele existem”). 48 SILVA, A., Pensamento à solta, p.151: “Vai sendo o que sejas até seres o que és, que é Deus sendo (...)”. 49 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, I, prop.XVI, corollaire III, p.57 (trad. portuguesa, p.131: “Resulta em terceiro lugar que Deus é absolutamente causa primeira”). 50 ibidem, I, def. III, p.19 (trad. portuguesa, p.100: “Por substância entendo o que existe em si e por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não carece do conceito de outra coisa do qual deva ser formado”). 51 ibidem, I, def. IV, p.19 (trad. portuguesa, p.100: “Por atributo entendo o que o intelecto percebe da substância como constituindo a essência dela” e I, prop. XIX, demonstração, p.138: “Em seguida, cumpre que se entenda por atributos de Deus o que exprime a essência da substância divina, isto é, o que pertence à substância (...)”). 52 ibidem, I, prop. VIII, p.27 (trad. portuguesa, p.111: “Toda a substância é necessariamente infinita”). 43 10 a eternidade53 e a indivisibilidade54. A temática do determinismo desenvolvida pelo filósofo holandês coloca-nos algumas questões: como é que podemos conciliar o determinismo de Deus com o tema da liberdade? Se Espinosa afirma que Deus é determinista e que só Ele é livre, então, cabe aos homens apenas serem determinados por Deus, ou seja, todas as suas acções são por Si determinadas55, não existindo espaço para a liberdade humana. Embora criticável, esta inferência seria perfeitamente plausível se, na própria Ética, Espinosa não contrapusesse o argumento: “O homem livre, isto é, aquele que vive segundo o ditame da Razão, não é levado pelo medo da morte, mas deseja directamente o bem, isto é, deseja agir, viver e conservar o seu ser segundo o princípio da procura da utilidade própria; e, por conseguinte, em nada pensa menos que na morte, mas a sua sabedoria é meditação da vida”56. O que Espinosa expõe no excerto citado é que a partir do momento em que se seguem os ditames da Razão, poder-se-á ser livre, isto é, poder-se-á agir e viver segundo a sua consciência. Então, não é este argumento contraditório com aquele que citámos anteriormente? Mesmo que o Pensamento seja um dos atributos infinitos de Deus57? Como tornar compatível o determinismo divino com a liberdade dos homens? Parece existir uma contradição, também apontada por Agostinho da Silva: “(...) Spinoza, que fez uma Filosofia que é, porventura, a mais coerente das Filosofias que jamais foram postas em tratado, e que é uma Filosofia inteiramente, digamos, determinista. Tudo está regulado, tudo é mecânico no mundo, cada um que surja à luz do dia ou cada acontecimento que se dá, tem a sua causa perfeita e é, naquele momento e naquele mesmo espaço que tinha que eclodir. E, no entanto, esse homem, quando lhe matam amigos que ele estimava muito e que estavam no poder (...) saiu para a rua como se não fosse determinista, gritando que eram vilíssimos ou assassinos, que mereciam tudo até à morte, como se ao assassinado não competisse, por destino, ser assassinado e ao assassino não competisse por destino assassinar. Era um português legítimo, albergava o ensino contraditório, dava uma filosofia coerente como esmola aos filósofos europeus (...). Era possível teorizar o determinismo, mas o português que o fazia se reservava o seu direito pleno de ser contraditório quando isso lhe conviesse”58. Para Agostinho da Silva, Espinosa era propositadamente contraditório, descrevendo essa atitude como expressividade máxima do ser-se português. Porventura também por isso, isto é, pelo facto do judeu encarnar o espírito da contradição 53 ibidem, I, prop. VIII, scolie II, p.31 (trad. portuguesa, p.111: “Por conseguinte, é forçoso admitir que a existência de uma substância, assim como a sua essência, é uma verdade eterna”). 54 ibidem, I, prop. XIII, p.43 (trad. portuguesa, p.120: “A substância absolutamente infinita é indivisível”). 55 ibidem, I, prop. XXVI, p.75 (trad. portuguesa, p.145: “Uma coisa que é determinada a qualquer acção foi necessariamente determinada a isso por Deus; e a que não é determinada por Deus não pode determinar-se por si própria à acção”). 56 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, trad. Charles Appuhn, Paris, Librairie Garnier Frères, s.d., IV, prop. LXVII, démonstration, p. 133 (trad. portuguesa, pp.423-424). 57 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, II, prop. I, démonstration, p.119 (trad. portuguesa, p.199: “É por isso que o Pensamento é um dos atributos infinitos de Deus, o qual exprime a essência eterna e infinita de Deus, isto é, Deus é uma coisa pensante”). 58 SILVA, A., Um modo de entender Portugal (in A identidade portuguesa – cumprir Portugal, Lisboa, Instituto Dom João de Castro, 1988),in Dispersos, pp. 870-871. 11 (tão peculiar do pensamento português), Agostinho o considere não só legitimamente português, como representante maior da Filosofia Portuguesa. A perspectiva monista da Substância defendida por Espinosa interessa a Agostinho da Silva, não num sentido estrito (até porque, tal como pretendemos mostrar nesta tese, no pensamento religioso de Agostinho, para além de Deus, também existe o Nada: “Por outras palavras: suspeito que Deus, ao criar o mundo, criou simultaneamente o nada”59 – esta afirmação é contraditória, no entanto, com outras feitas pelo mesmo autor. Em escritos que o sintonizam com o taoísmo e o budismo-zen, ou até mesmo o ecumenismo, o pensador português parece demonstrar que, por um lado, é o Nada que cria Deus60, e por outro, que Deus e Nada61 são a mesma coisa), onde a única substância que existe é Deus, mas numa apologia do Espírito como única entidade ou força que percorre, de igual forma, todo o Cosmos. Nesta óptica, o Espírito é a centelha cosmologicamente única, una, transversal e transantinómica. No fundo, a mónada agostiniana é o Espírito62, não enquanto Deus (tal como a Substância é para Espinosa), mas enquanto sopro divino (venha ele de Deus ou do Nada63). Assim sendo, também Agostinho é defensor de um monismo espiritual, embora a sua manifestação seja sempre dual64 ou contraditória / paradoxal. Dizemos monismo do Espírito, na perspectiva em que é Ele que suporta o movimento do Cosmos, em que é Ele que preside a todas as religiões. Contudo, a sua manifestação jamais é una, é, ao invés disso, plural (tão somente porque é o resultado de uma díade – união do Pai e do Filho –; o Espírito é a Trindade, no entanto, não deve ser entendido como terceiro elemento, na medida em que é o resultado de uma reunião, o Espírito é a superação da união Pai / Filho). Se, através da leitura da obra de Espinosa, podemos afirmar que no princípio e para sempre é o Um, no pensamento de Agostinho somos conduzidos a inferir que no princípio não era e continua a não-ser para sempre (Nada) ou no princípio era o dois65 – dir-se-á que o processo de criação é contínuo66, 59 SILVA, A., Entrevista com Agostinho da Silva, p.72. SILVA, A., Quadras Inéditas, Lisboa, Ulmeiro, 1997, p.79: “Oculto no que aparece / e nos semelha real / vive o que é nada e só é / fonte nossa e fim total”; p.80: “O mais simples alicerce / traz logo a casa traçada / se eu quiser chegar a Deus / começarei por ser nada”; p.97: “Por muito que te possuas / não gabes os feitos teus / se a Deus lhe faltasse o nada / seria menos que Deus”. 61 SILVA, A., Pensamento à solta, p.146: “Ser ou Nada são os dois nomes que dou ao mesmo alguma coisa, ou nenhuma, que não tem nome; à qual pôr um nome é sacrilégio”; Pensamento à solta, p.163: “Mecânica clássica e mecânica quântica são, realmente, partes distintas do segredo de Deus; ou, se assim o queres do Nada”. 62 SILVA, A., Goa – Cadernos Teológicos (Publicação do Autor, 1971(?)), in Dispersos, p.472: “(...) o Espírito Santo é o centro abstracto, o ponto simultaneamente ideal e existente, só pensado e real, em que se encontram todas as religiões; como o ponto importante e indispensável de uma roda é exactamente aquele que nela se não move, assim toda a criatividade religiosa vem do Espírito, nenhuma religião é sem ele concebível e todas a ele se dirigem; mas como a Ilha Encantada de que falam contos e poetas, só ouvimos o mar bater-lhe se o não escutamos e só a ela chegamos se a não buscarmos, ocultar-se-ia o Espírito se dele fizéssemos o centro de uma religião (...)”. 63 O mesmo já não poderemos afirmar de Espinosa. No seu pensamento não há lugar para o Nada, já que Deus é o Tudo e o Todo, é a única substância que existe. 64 SILVA, A., Pensamento à solta, p.156: “Tudo é duplo e dúplice: mas o pender para um lado tomas logo como volta completa”. 65 SILVA, A., Pensamento à solta, p.174: “Quando a verdade é que cada um só existe no par. Como o um só existe por abstracto corte do dois. Poderia substituir-se «No início era o Logos» por «No início era o Dois»”. 66 SILVA, A., Sobre a ideia de Deus (in PINHARANDA GOMES, Teodiceia Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Sampedro, 1974), in Dispersos, p.614: “(...) que no momento em que o mundo explode de Deus, ou Deus explode em Mundo, deixe ele de existir como Absoluto e, portanto, como Deus; é, já, a Trindade; (...) A complicação agora é que 60 12 embora não germinal como pensava Santo Agostinho - mas que através da manifestação do Espírito existe a dualidade (até Deus tem o seu par (ou contraditório): que, numas vezes, é o Diabo e, em outras, é o Nada67, quer isto dizer que Deus ora existe, ora não existe68. Deus tanto pode ser Deus, como pode ser o Nada). O Espírito, a que o pensador português chama de Absoluto69, ainda que tenha uma acção determinista (a partir do momento em que tudo abrange e a tudo preside), é, acima de tudo, um propulsor de liberdade. Se há acções que o homem não pode definir, prever e calcular, estão, por assim dizer, já determinadas, de outro modo, é-lhe dada a possibilidade de optar, de mudar e escolher a sua própria acção, a sua própria vida. Agostinianamente pensando, definir-se-á este conceito de liberdade como salto: “Não é criminoso porque se quer, não há à nossa volta o mundo que se quer: mas não é impossível que, por se querer, por uma concentração suprema do espírito, se não possa pular de quantum e nos transformemos a nós e ao mundo. O universo, a nós nos incluindo, não é estático: vai e vem, sobe e desce: perder o quantum que se deseja é o mesmo que perder, por falta de pontualidade ou de atenção, o vaporzinho de Cacilhas ou a barca de Niterói (...)”70. Desta forma, “(...) só cumprindo-se inteiramente o homem, se pode inteiramente cumprir o Espírito; (...)”71. Quando o Espírito se manifesta dualmente através de Deus, ou seja, quando concede, no seio do seu determinismo, liberdade ao Universo, e especificamente aos homens, está a expressar-se de uma forma imanente. O Espírito e / ou Deus, enquanto díades e dualidades, são simultaneamente transcendentes e imanentes. Deus é transcendente quando, determinista, cria o Universo e lhe é omnipotente e omnipresente. Deus é imanente quando permite ao Universo (e aos elementos que o compõem, de entre eles os homens) que re-crie livremente o seu caminho, a sua acção e a sua vida. Neste sentido, Deus é presente ao Universo, ou melhor, faz-se presente, inclui-se no Universo, a ponto penso que esta explosão não se deu de uma vez para sempre, mas se está dando a cada momento (...) que tempo e eternidade coincidem, que Deus e a Trindade são simultâneos e que, em física, a expansão e a contracção do universo se dão ao mesmo tempo. (...) Poderíamos então supor que o determinismo é seguro em cada e para cada momento do mundo e que, de cada um desses momentos, posso eu dar uma imagem matemática, mas que, ao retrair-se o universo, ao passar a Trindade a Deus, ao passar o relativo ao absoluto, restabelece-se como lei a liberdade e o que depois surge pode ser totalmente diverso”; SILVA, A., Pensamento à solta, p.162: “Se a criação é contínua, é contínuo o Criado; justapostas a liberdade e a lei”. 67 SILVA, A., Sobre a ideia de Deus, p.615: “Que Deus absoluto seria esse, que totalidade seria essa, se não pudesse aí haver aquilo a que chamamos mal e aquilo a que chamamos bem, se não houvesse a gazela que sofre a dentada do leão e o leão que da gazela vive; para todos existe o Diabo, em bicho o predador, em planta o ruminante, em homem o que chamamos vício; para Deus não; nada, para Deus, é isto ou aquilo, embora o possa ser para a Trindade; tudo, para Deus, só é, sem isto nem aquilo; para o Pai é o Diabo (...)”; SILVA, A., Outros Textos, in Ir à Índia sem abandonar Portugal / Considerações / Outros Textos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p.95: “(...) primeiro, que logo vem à memória, porque há serpente na Bíblia, e veneno na serpente; depois, e gosto meu que moro em mato brasileiro, porque a serpente desliza num esplendor de cores, numa gracilidade de movimento, numa contida força, músculo puro, que de Deus vêm, que são Deus; seria a serpente até, pois não estão as de Creta nas mãos da desnuda deusa, a melhor aproximação que pode haver de símbolo a uma pura, ou a mais pura, teologia: Deus e o Diabo juntos; só que, no capim, latentes”. 68 SILVA, A., Sobre a ideia de Deus, p.614: “(...) Deus, simultaneamente, existe e não existe”; Pensamento à solta, p.157: “O homem perfeito seria teísta e ateísta pois que é Deus ser e não ser; se perfeito, já não homem, pois que Deus”. 69 SILVA, A., Barca D’Alva, Educação do Quinto Império, fascículo 2, Fundação António Conselheiro (assinado João Cascudo de Morais, publicação do autor, Lisboa, 1971), in Dispersos, p.492: “(...) pensamos que esse, o do Absoluto, a que os portugueses medievais chamavam Espírito Santo, é o ponto a que todos devemos rumar, no mar de relativo que nos coube em sorte, e que só o Absoluto pode ser centro ecuménico, (...)”. 70 ibidem, p.615. 71 SILVA, A., Educação de Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1990, p.25 (reeditado em Textos Pedagógicos II, org. Helena Briosa e Mota, Lisboa, Âncora Editora, 2000, p.104). 13 de se confundir com ele, a ponto de ser tão divino como humano: “Todo o Deus que me apareça será Homem, pois que em tempo e espaço”72; “(...) divino e humano te vejo e quero”73. No pensar de Espinosa Deus ou a Substância também é, simultaneamente, transcendente e imanente: “Daqui resulta que Deus é causa eficiente de todas as coisas que podem cair sob um intelecto infinito”74; “Resulta em segundo lugar que Deus é causa por si, e não por acidente”75; ”Deus é causa imanente de todas as coisas, e não causa transitiva”76. Deus é, deste modo, presente ao mundo e à Natureza77, tal como o é no pensamento de Agostinho da Silva. Formula-se, com toda a legitimidade, a existência de um panteísmo no pensamento de Espinosa e aventa-se a possibilidade de emergir uma simpatia panteísta nas obras de Agostinho, sobretudo, como já enunciámos, na década de 1940. Relativamente a Espinosa, tendemos a afirmar que o seu panteísmo se constrói e fundamenta, em grande parte, a partir das leituras da tradição cabalista e que, no que a Agostinho concerne, as suas afinidades com as doutrinas panteístas advêm da leitura de Espinosa e da sua predilecção por São Francisco de Assis (na realidade, de um ponto de vista ortodoxo do cristianismo, o Santo não pode ser considerado um panteísta, no entanto, os seus ensinamentos apontam um sentido tanto universalista como naturalista da religião cristã e de Deus) . Na sua filosofia, Espinosa defende explicitamente uma doutrina panteísta: Deus sive Natura. Poder-se-á dizer, tal como defende Joaquim de Carvalho, que “A Natureza é Deus desenvolvendo-se segundo leis que lhe são intrinsecamente necessárias”78. Deus, enquanto substância única e absoluta, exprime-se em tudo o que existe, logo, manifesta-se estruturalmente através da Natureza, melhor dizendo, é a Natureza cumprindo(-se) as leis divinas. Deus é, portanto, a Natureza ou a Natureza é Deus. Todavia, a manifestação de Deus ou da Natureza não é sensitiva, como no panteísmo de Alberto Caeiro79, é, ao invés disso, racional80: “O pensamento é um atributo de Deus; por outras palavras, Deus é uma coisa pensante”81. Para além de ser uma coisa pensante, Deus é o próprio pensamento, deixa-se caracterizar por um dos seus atributos infinitos, se quisermos, pelo seu atributo infinito. A partir do momento em que Deus é o pensamento por excelência, tudo o que o constitui e tudo o que de 72 SILVA, A., Pensamento à solta, p.161. ibidem, p.154. 74 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, I, prop. XVI, corollaire I, p.57 (trad. portuguesa, p.130). 75 ibidem, I, prop. XVI, corollaire II, p.57 (trad. portuguesa, p.130). 76 ibidem, I, prop. XVIII, p.65 (trad. portuguesa, p.137). 77 Este tema é discutido de uma forma muito específica e pormenorizada na obra: GIOVANNONI, AUGUSTIN, Immanence et finitude chez Spinoza – Études sur l’idée de constitution dans l’Éthique, Paris, Éditions Kimé, 1999. 78 CARVALHO, J., op.cit., p.27. 79 CAEIRO, ALBERTO, O Guardador de Rebanhos, in Poemas Completos de Alberto Caeiro, org. Teresa Sobral Cunha, Lisboa, Ler Pessoa, 1994, V, p. 49: “Mas se Deus é as flores e as árvores / E os montes e sol e o luar / Então accredito nelle, / Então accredito nelle a toda a hora, / E a minha vida é toda uma oração e uma missa, / E uma communhão com os olhos e pelos ouvidos”; ibidem, VI, p.50: “Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecessemos, / Por isso se nos não mostrou... / Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á flores na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos...” 80 A temática do racionalismo espinosista foi-nos também orientada, para além das leituras dos escritos de Espinosa sobre o assunto, pela obra: AAVV, Spinoza – puissance et impuissance de la raison, coordonné par Christian Lazzeri, Paris, Presses Universitaires de France, 1999. 81 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, II, prop. I, p.119 (trad. portuguesa, p.199). 73 14 si é dependente e por si é determinado (o caso dos homens82), deve usar a Razão não só para se aperfeiçoar, mas também para O poder conhecer e a Si chegar. O caminho para chegar a Deus é um caminho racional83. No fundo, Deus é somente a estrutura racional que permite a inteligibilidade do Universo e da Natureza. Embora a concepção filosófica de Espinosa seja panteísta, o que é certo é que, como já referimos, o panteísmo que ele professa é de natureza racional, tão diferente daquele que Alberto Caeiro proclama e pelo qual é associado muitas vezes a Espinosa, ou seja, defende-se que Caeiro manifesta, nos seus escritos, influências espinosistas assaz marcantes. De facto, não se pode negar a afinidade que o Mestre Caeiro sente por Benedictus, contudo, consideramos que o panteísmo explicitamente expresso nos versos do heterónimo pessoano é de teor sensitivo e sensorial e não racionalista ou idealista84. O exemplo de Agostinho da Silva apresenta-se, na nossa perspectiva, de modo desigual. O autor, movido pelo interesse que tem no pensamento e na vida de Espinosa, expressa nos seus escritos influências do panteísmo defendido pelo filósofo holandês, que não estão, todavia, presentes em todo o percurso intelectual de Agostinho. Na nossa visão, o pensador português revela um interesse pelo panteísmo no início da década de 40 e manifesta-o escrevendo a Doutrina Cristã (1943): “1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel”85 – neste excerto podemos verificar que Agostinho está em perfeita consonância com Espinosa. Também para o autor português, Deus é tudo o que existe (posteriormente, o autor parece manter a mesma opinião: “Todo o mundo é de Deus; privá-lo da propriedade pela propriedade privada é puro sacrilégio”86); Deus é simultaneamente imanente e transcendente; Deus, enquanto Universo (ou Natureza, na linguagem de Espinosa) é Espírito e Matéria (reparemos como Espinosa escreve de uma forma similar: “(...) Deus é uma coisa pensante”87; “(...) Deus é uma coisa extensa”88), Deus é um todo indissolúvel – este último argumento aponta para a temática do monismo. Deus é a única entidade que existe, a única substância que subjaz e abrange todo o Universo. Seguindo a perspectiva de Espinosa, Agostinho da Silva confirma ainda “A visão 82 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, IV, appendice, cap. VII, p.149 (trad. portuguesa, p.432: É impossível que o homem não seja uma parte da Natureza e não siga a ordem comum desta”). 83 ibidem, IV, prop. XXXVI, démonstration, p.69, (trad. portuguesa, p.391: “Agir por virtude é agir sob a direcção da Razão, e tudo o que nos esforçamos por fazer pela Razão é compreender; e, por conseguinte, o bem supremos daqueles que seguem a virtude é conhecer a Deus (...)”). 84 CAEIRO, ALBERTO, op. cit., II, p.44: “Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”; ibidem, V, p.48: “Há metaphysica bastante em não pensar em nada / (...) Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos / De todos os philosophos e de todos os poetas”. 85 SILVA, A., Doutrina Cristã, p.3. 86 SILVA, A., Pensamento à solta, p.151. 87 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, II, prop. I, p.119 (trad. portuguesa, p.199). 88 ibidem, II, prop. II, p.121 (trad. portuguesa, p.199). 15 mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo (...)”89 – o ser humano é apenas uma parte da Natureza, do Cosmos que unifica tudo o que existe. Contudo, nesta fase, o panteísmo do pensador português aparenta estar muito próximo de uma panteísmo sensorial, mais afastado, por isso, do pensar de Espinosa: “(...) entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belos de todos”90. Se, em 1943, Agostinho da Silva explora uma vertente panteísta que se constrói a partir da filosofia de Espinosa, o que é certo é que nas décadas seguintes o autor envereda por postulados que não incluem necessariamente as premissas colocadas em a Doutrina Cristã (porventura estão já assimiladas a um nível tão profundo que não necessitam de ser exteriorizadas), mas aprofundam a ideia de Deus que pode ser comparada, no que conta a uma visão racional de Deus, à noção explorada por Espinosa. Quando Agostinho da Silva profere “Penso, como ser pensante, que nada existe senão o pensamento, o qual me pensa como ser pensante”91, “Se pões sujeito ao pensar / à parte o pões de pensar”92 e “Deus é só o pensamento livre de tempo e de espaço, sendo suas maiores expressões a da lei científica, a da obra de arte, a da consciência moral”93 está a assentar o mesmo do que Espinosa quando defende que Deus é pensamento. Deste modo, quando Deus se manifesta de uma forma transcendente, poder-se-á constatar que Deus é pensamento puro, a suprema isenção de paixões94, no entanto, quando Deus é imanente, extensão pura (isto é, indivisível e infinita), é, pelo menos no pensar de Agostinho, o ente absoluto que se funde no humano para melhor se exprimir. Se o Homem, através da Razão (pelo menos até que ela forneça respostas plausíveis), se aperfeiçoa e chega a Deus, Este, con-fundindo-se no Homem, reconhecer-se-á não só como ente racional mas também como ser sensitivo (e é, neste aspecto, que Agostinho diverge de Espinosa: embora Deus seja pensamento puro, quando se manifesta através do Homem – Deus é o Homem sendo -, como res extensa, Deus é um ser sensorial, Deus é corpo e sangue). Apesar de tudo, tanto para Espinosa como para Agostinho, o intelecto do Homem não possui a mesma natureza do intelecto divino; ambos têm consciência que, embora sendo seres pensantes, existe um pensamento maior que, não só os pensa, como os engloba: “Ora o intelecto de Deus é causa da essência e da existência do nosso intelecto; por conseqüência, o intelecto de Deus, enquanto é concebido como constituindo a essência divina, difere do nosso intelecto tanto em razão da essência como na da existência, e não pode ter de comum com ele senão o nome, 89 SILVA, A., Doutrina Cristã, p.4. ibidem, vf. 4 -5. 91 SILVA, A., Pensamento à solta, p.146. 92 ibidem, p.165. 93 ibidem, p.165. 94 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, vol. II, V, prop. XVII, p.197 (trad. portuguesa, p.459: “Deus está isento de paixões e não é afectado por nenhuma afecção de alegria ou de tristeza”). 90 16 como pretendíamos”95. No fundo, o caminho racional é um caminho de salvação. Para os dois pensadores, a Razão não só concede conhecimento, como salva. Ao pensar-se de uma forma direccionada e estritamente racional poder-se-á chegar a Deus. Conclui-se, assim, que Agostinho da Silva abandona estruturalmente (entenda-se que, em termos de conteúdo, mensagem e espírito, o autor não desconsidera nenhum dos pensamentos que de si se apoderam, pelo contrário, tende sempre a incluí-los) o panteísmo professado em a Doutrina Cristã mas retoma-o sempre ao longo do seu percurso intelectual, fundindo-o com as teorias que, no momento, surgem no seu espírito. Poder-se-á até afirmar que Agostinho da Silva não descura nenhuma das doutrinas que se vão revelando no seu pensar e que ele consegue gerir a convivência entre aquelas que até são logicamente contraditórias. No seu pensamento, tanto se faz apologia do idealismo96 como do experimentalismo97 inglês, há reciprocidade entre a filosofia da acção e a filosofia da contemplação98. Aparentemente apontadas como dilemas paradoxais, estas filosofias conjugam-se no sentido em que juntas se superam. Afinal, o idealismo cumpre-se no experimentalismo, a contemplação cumpre-se na acção. O paradoxo agostiniano é uma síntese superadora. Poder-se-á até aventar que o Paradoxo é uma falsa questão: no momento em que a dualidade / pluralidade se funde, supera-se em unidade. O fito que subjaz aos dois pensadores é de natureza espiritual, afinal de contas, o fim do Homem consiste em conhecer Deus: “É que a beatitude não é outra coisa que o contentamento do espírito que provém do conhecimento intuitivo de Deus. Ora, aperfeiçoar a inteligência também não é outra coisa que conhecer a Deus (...)”99; “Para o homem existe apenas uma obrigação: a de atingir a plenitude de Deus. E só por um meio o alcançar: o de, ao longo da vida, se tornar no homem que é”100. Contudo, conhecer (a) Deus não exige, por parte do Homem, nenhuma missão extraordinária: para Espinosa, o Homem deverá deixar-se conduzir pelos ditames da Razão (isto fará de si um Homem virtuoso, feliz e santo) e estar atento aos pormenores simples da vida (“Quanto mais compreendermos as coisas singulares, tanto mais compreendemos a Deus”101); para Agostinho da Silva conhecer Deus apenas exige do Homem que ele seja aquilo que é (“(...) o de ao longo da vida se tornar no homem que é”) e que se construa enquanto homem de acção, afinal, os homens de acção são os oleiros de 95 ibidem, I, prop. XVII, scolie, p.63 (trad. portuguesa, p.137). Sublinhemos como, ao longo do seu percurso intelectual, Agostinho defende a primazia da Razão ou da Ideia (inicialmente, e devido à sua formação académica, quando enfatiza e enaltece a importância da cultura grega, posteriormente, quando, porventura influenciado por António Sérgio, passa a propor o primado da Razão ou do Pensamento). SILVA, A., Pensamento à solta, p.146: “O paradoxo fundamental do universo, aquele que inclui as galáxias e as antigaláxias, ser ele pensamento que a si próprio se pensa; para provar mais: que não tem sujeito pensador”. 97 SILVA, A., Filosofia Nacional, in O Estado de São Paulo, 9/03/1958: “(...) dos filósofos estrangeiros, insistiríamos nos ingleses e, sobretudo, no problema que parece fundamental quanto ao pensamento nosso: o das relações entre Aristóteles e Platão, que tão desgraçadamente tem dividido a filosofia católica”. 98 Lembremos as afinidades que Agostinho sente pelo pensamento oriental (mormente o taoísmo e o budismo-zen), o qual é defensor da teoria da inacção. SILVA, A., Pensamento à solta, p.161: “Talvez o budismo Zen vá à frente de tudo; (...)”. 99 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, IV, appendice, cap. IV, p.147, (trad. portuguesa, p.431). 100 SILVA, A., Pensamento à solta, p.162. 101 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, V, prop. XXIV, p.211 (trad. portuguesa, p.466). 96 17 Deus. Quer em Espinosa, quer em Agostinho, se os homens realizarem activamente o pensamento que a eles chega lançado pelo Absoluto (no fundo, os homens realizam aquilo que o pensamento divino concebe), estarão conhecendo e chegando a Deus. Nesta perspectiva, a Razão tem uma dimensão salvífica. Como já expusemos, o objectivo das obras espinosista e agostiniana é a divulgação espiritual e teológica: o fim do Homem é conhecer (a) Deus. No entanto, os meios que engendram essa ascese são de natureza ético-pedagógica. Quando Espinosa profere que “(...) tem ainda a vantagem de nos ensinar em que consiste a nossa suprema felicidade ou beatitude, isto é, apenas no conhecimento de Deus, pelo qual somos induzidos a realizar apenas actos inspirados pelo amor e pela piedade”102 e Agostinho proclama “Muito problema se tenta resolver por meio da política: a chave, no entanto, a tem a santidade”103 estão a defender que o ser do homem se cumpre na beatitude e na santidade, mas que esse cumprimento só se realiza através da interacção com os outros homens. Afinal, por mais que a missão espiritual e o conhecimento de Deus sejam tarefas individuais, interiores e íntimas (convidativas ao silêncio e à solidão – pelas quais Agostinho da Silva sentiu afinidades na década de 50, chegando até, curiosamente, a mostrar um forte interesse pelos ideais beneditinos104, na medida em que vêem na solidão um dos principais meios para atingir Deus), é a interacção e a partilha com os outros que revelam a natureza mais profunda e essencial do Homem. Para Espinosa, o ser humano só ascende a Deus se for guiado pelas máximas da Razão, isto é, se agir virtuosamente: “Agir por virtude é agir sob a direcção da Razão (...); e, por conseguinte, o bem supremo daqueles que seguem a virtude é conhecer a Deus (...)”105. Ora, uma acção virtuosa é uma acção boa106, logo, enquanto se está a dirigir para Deus (porque segue as ordens da Razão), o Homem age eticamente, pratica o Bem107 (porque se esforça em fazer acções boas; não deseja apenas o seu bem mas também deseja o dos outros, poder-se-á até dizer que, ao agir eticamente, ao praticar boas acções, o Homem está, ao mesmo tempo, a desejar o seu Bem e o Bem dos outros108) e une-se àqueles que o rodeiam109: a tarefa do Homem, embora primacialmente ontológica e religiosa, desdobra-se em vertentes de cariz ético, piedoso (a que agostinho da Silva denomina de caridoso110) e amistoso. No 102 ESPINOSA, B., Éthique, vol. I, II, prop. XLIX, scolie, p.237, (trad. portuguesa, p.261). SILVA, A., Pensamento à solta, p.152. 104 Para além daqueles que o próprio autor expressa nos seus textos, Pedro Agostinho da Silva confirmou-nos, em entrevista (Salvador da Bahia, Brasil, 20 e 21/07/2002; 23/01/2004; 8/02/2004), que, de facto, na década de 50, Agostinho sentiu um forte apelo pela teologia beneditina. 105 ESPINOSA, B., Éthique, vol. II, IV, prop. XXXVI, démonstration, p.62 (trad. portuguesa, p.391). 106 ibidem, IV, appendice, cap. III, p.147 (trad. portuguesa, p.431: “As nossas acções, isto é, aqueles desejos que são definidos pela potência do homem, ou seja, pela Razão, são sempre boas (...)”). 107 ibidem, IV, prop. XXXVII, scolie I, p.75 (trad. portuguesa, p.393: “Quanto ao desejo de fazer o Bem, que nasce do facto de vivermos sob a direcção da Razão, chamo-lhe Piedade”). 108 ibidem, IV, prop. XXXVII, démonstration, p.71 (trad. portuguesa, p.392: “(...) logo, o Bem que cada um que segue a virtude deseja para si, desejá-lo-á também para os outros (...)”). 109 ibidem, IV, prop. XXXVII, scolie I, p.75 (trad. portuguesa,p.393: “Depois ao desejo que leva o homem, que vive sob a direcção da Razão, a unir-se aos outros pela amizade, chamo-lhe Honestidade (...)”). 110 SILVA, A.,Vida Conversável, p.33: “Caridade Significa ver no outro a graça, charis, que está oculta pela sua miséria, pela sua falta de educação, pela sua deformidade física mesmo”. 103 18 fundo, um propósito que se caracteriza de forma interior, realiza-se através da exteriorização. A interioridade cumpre-se na e através da comunidade. Nesta demanda o Homem preserva-se livre. A liberdade é uma estádio social e comunitário: “(...) mas, na medida em que se esforça por conservar o seu ser segundo o ditame da Razão, isto é, na medida em que se esforça por viver livre, deseja ter em conta a vida e a utilidade comum e, consequentemente, deseja viver segundo as leis da Cidade”111. No pensamento de Espinosa, o Homem realiza-se, enquanto tal, por meio da comunhão com os seres que o circundam (não só com os humanos mas também com toda a Natureza englobante). Conhecer (a) Deus é, afinal, uma missão ética, social e pedagógica – é uma responsabilidade convocar os outros para o seio de Deus, ainda que isso não implique culto a um livro sagrado específico, a uma Igreja ou a um oráculo. Orientam-se os outros, assim como cada um se orienta a si próprio (é por este motivo que intitulamos a demanda de pedagógica), no sentido de viverem racionalmente e com o objectivo de descortinarem a inteligibilidade da Natureza. Da mesma forma, Agostinho da Silva sublinha a importância da ética e da pedagogia para a afirmação da espiritualidade, contudo, propõe soluções do foro espiritual e religioso muito bem definidas: construção do Reino do Espírito Santo. Para o autor português pensar a religiosidade implica necessariamente pensar a ética112 e a educação113. No entanto, diferenciadamente de Espinosa, Agostinho concebe um Reino espiritual que congrega todos quantos terão como meta a santidade114, a igualdade social, cultural e económica115 e a liberdade116: “O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as ideologias, apenas porque acima de tudo amavam a liberdade e a consideravam, não ao medo, às restrições e à força, como o grande motor do mundo; (...) e o reino que desejam para homens que não sintam obrigação alguma que não seja a de se aproximarem quanto possível da divindade de ser livre, livre no viver, livre no saber, livre no criar”117. A instauração deste Reino é a manifestação exteriorizada da ascensão interior e individual: quando o Espírito se cumprir, cumprir-se-á a edificação dessa sociedade nova. Nesse tempo, humanidade e divindade serão, não só conciliáveis, como permutáveis: o Homem será Deus e Deus será o Homem. Esse tempo é, interiormente, agora. 111 ESPINOSA, B., Éthique, vol.II, IV, prop. LXXIII, démonstration, p.143 (trad. portuguesa, p.429). SILVA, A., Pensamento à solta, p.150: “Existirá o um sem o outro?”. 113 SILVA, A., Educação de Portugal, p.39 (Textos Pedagógicos II, p. 117): “(...) o grande trabalho, o tal imenso desafio que se nos apresenta é o de educar o povo, insistindo em que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo, não é tentar influir de qualquer modo em sua orientação futura, mas dar meios de expressão à sua capacidade criadora e de comunicação, (...)”. 114 ibidem, p.76 (Textos Pedagógicos II, p.149): “(...) de que o supremo destino do homem consiste em ser santo e deus, portanto livre”. 115 ibidem, p.21 (Textos Pedagógicos II, p.102): “Em primeiro lugar, uma afirmação quanto ao campo económico: é preciso que haja para todos a segurança da subsistência; (...)”. 116 ibidem, p.9 (Textos Pedagógicos II, p. 91): “ (...) não tens essencialmente de amar nos outros senão a liberdade, a deles e a tua; têm, pelo amor, de deixar de ser escravos, como temos nós, pelo amor, de deixar de sermos donos do escravo”; SILVA, A., Pensamento à solta, p.150: “Não há liberdade minha se os outros a não têm”. 117 SILVA, A., Educação de Portugal, p.11 (Textos Pedagógicos II, p. 93). 112 19 “Também sei fazer conjecturas. Há em cada coisa aquilo que ela é que a anima. Na planta está por fora e é uma ninfa pequena. No animal é um ser interior longínquo. No homem é a alma que vive com ele e é já ele. Nos deuses tem o mesmo tamanho E o mesmo espaço que o corpo E é a mesma coisa que o corpo. Por isso se diz que os deuses nunca morrem. Por isso os deuses não têm corpo e alma. Mas só corpo e são perfeitos. O corpo é que lhes é alma E têm a consciência na própria carne divina.” Alberto Caeiro, Também sei fazer conjecturas, in Poemas Bibliografia Textos de Espinosa: • Éthique, vols. I e II, trad. Charles Appuhn, Paris, Éditions Garnier Frères, s.d • Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992 • Traité Théologico-Politique, in Ouevres, trad. Charles Appuhn, Paris, Garnier-Flammarion, 1965 • Tratado Teológico-Político, trad. Diogo Pires Aurélio, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 Textos de Agostinho da Silva: 20 • Agostinho, Ensine-nos (entrevista a Lurdes Féria, in Diário de Lisboa, 19/04/1986) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • A minha meta é o ponto sem dimensão, (entrevista a Antónia de Sousa in Diário de Notícias, 20/07/1986) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • A nossa obrigação é ser poeta à solta (in Jornal de Letras, entrevista a Carlos Câmara Leite, 15 de Setembro de 1986), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Carta ao Director do Jornal “Acção”, dact., Lisboa, 30/04/1943 (Arquivos da Associação Agostinho da Silva – Lisboa) • Ciência e Mística, in O Estado de São Paulo, 6/03/1947 • Com Agostinho à procura do Futuro de Portugal, (entrevista a Victor Mendanha, in Correio da Manhã, 31/05/1986 e 1/06/1986) in Dispersos, org. 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Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Entrevista com Agostinho da Silva, (Filosofia, nº 2, Dez. 1985) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • O Espírito Santo das Ilhas Atlânticas, (in Vida Mundial, 21.1.1972), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro, (in Cultura Portuguesa, nº 2, 1982), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Feira de Anexins, (in «Artes e Letras», suplemento do Diário de Notícias, 8.03.1973), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Filosofia Nacional, in O Estado de São Paulo, 9/03/1958 21 • As folhas de São Bento e outras – Reflexões sobre Descartes, (publicação de autor, Rio de Janeiro, 10/1965) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Goa – Cadernos Teológicos (Publicação do Autor, 1971(?)), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Mais dez notas o culto popular do Espírito Santo (in Os Impérios do Espírito Santo na Simbólica do Império, II Colóquio Internacional de Simbologia, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1985) in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Um modo de entender Portugal (in A identidade portuguesa – cumprir Portugal, Lisboa, Instituto Dom João de Castro, 1988),in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Nota sobre Cultura Portuguesa (1986), in Dispersos, org. Paulo Borges, Lisboa, ICALP, 1989 • Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, org. Paulo Borges, Âncora Editora, 1999 • Quadras Inéditas, Lisboa, Ulmeiro, 1997 • Quinze Princípios Portugueses, (in Espiral, Ano II – nº 8-9, Inverno de 1965), in Dispersos, org. 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Henryk Siewierski, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994 Outros textos: • AAVV, Spinoza – puissance et impuissance de la raison, coordonné par Christian Lazzeri, Paris, Presses Universitaires de France, 1999 • ALQUIÉ, F., Le rationalisme de Spinoza, Paris, PUF, 1981 • CARVALHO, J., Introdução, in ESPINOSA, B., Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992 • CARVALHO, J. MONTEZUMA DE, Posfácio – Das relações entre Joaquim de Carvalho e Espinosa, in ESPINOSA, B., Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1992 22 • CAEIRO, ALBERTO, Poemas Completos de Alberto Caeiro, org. 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