Estudo da necessidade de formação profissional dos trabalhadores operacionais da rede hoteleira de Itajaí e Balneário Camboriú Larissa Regis Fernandes 1- Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina - IFSC RESUMO A exigência dos consumidores em relação à qualidade é crescente hoje no setor de hospitalidade. No entanto, em uma área cujo histórico é de empirismo, ainda são escassos os profissionais qualificados para atender à demanda. Neste contexto, o presente estudo objetiva identificar a necessidade de formação da mão-de-obra operacional da hotelaria de Itajaí e Balneário Camboriú. Para tanto, a abordagem da pesquisa foi quantitativa e qualitativa e os procedimentos adotados foram inicialmente a revisão bibliográfica, seguida de entrevistas junto a colaboradores da área. Como resultados, a maioria dos trabalhadores reconhece a importância da formação e muitos apresentam grande interesse por continuar seus estudos, sendo que os cursos de curta duração foram considerados os mais adequados às exigências das funções que exercem atualmente. Palavras-chave: Qualidade, Formação profissional, hotelaria. ABSTRACT It is now growing in the hospitality industry to consumer demand for quality. However, in a sector which is of historical empiricism, still lacks skilled workers to meet demand. In this context, this study aims to identify the need for training of manpower for operating the hotel Itajaí and Balneário Camboriú. Therefore, the research approach was quantitative and qualitative and procedures were initially review followed by interviews with employees in the area. As a result, it was the most workers recognize the importance of training and many show great interest in continuing their studies, and the short courses were considered the most suited to the requirements of their duties today. Keywords: Quality, professional training, hotel. 1 INTRODUÇÃO 1 Mestre em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI; Bacharel em Turismo e Hotelaria pela UNIVALI; Docente de cursos de Graduação em Turismo de 2001 a 2008. Desde 2008 professora do curso Técnico em Hospedagem e pesquisadora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina – IFSC. Contato: [email protected]. O turismo é considerado um grande propulsor de desenvolvimento e gerador de emprego o renda, o que justifica o crescimento da atividade e o interesse de empresários de diversos segmentos em investir na área. De acordo com Ansarah (2002), o turismo é um dos setores com maior potencial de crescimento na atual economia nos próximos anos. Em Santa Catarina, no Vale do Itajaí, destacam-se dentre os municípios que exploram a atividade turística, Balneário Camboriú e Itajaí, sendo que no primeiro esta é a principal fonte de renda e no segundo, vem ganhando cada vez mais importância, principalmente em razão do porto, no qual percebe-se aumento gradativo dos cruzeiros marítimos. No entanto, apesar da necessidade de ofertar mão-de-obra especializada, as empresas hoteleiras nos dois municípios objetos desde estudo ainda são formadas por estruturas funcionais familiares e empregam poucos trabalhadores com formação na área. Segundo Trigo (2000), a elevação da qualidade dos serviços turísticos, dos padrões de segurança, da lucratividade e da eficiência depende em boa parte de formação profissional. Dentro do exposto, a presente pesquisa tem como objetivo identificar a necessidade de formação profissional da mão-de-obra operacional atuante na hotelaria de Itajaí e Balneário Camboriú. Um dos pontos de interesse que motivaram a elaboração da pesquisa foi a possibilidade de expansão da atuação do Campus Continente do Instituto Federal de Santa Catarina, o qual oferta cursos no contexto do eixo temático Lazer e Hospitalidade. Desta forma, inicialmente faz-se uma revisão bibliográfica acerca dos temas qualidade e formação profissional, para então serem apresentados os resultados da pesquisa realizada nos meios de hospedagem de Balneário Camboriú e Itajaí, os quais apresentam a realidade local em relação à necessidade de formação dos trabalhadores que desenvolvem e prestam serviços nos meios de hospedagem locais. 2 A QUALIDADE ENQUANTO PREMISSA PARA A COMPETITIVIDADE DAS EMPRESAS TURÍSTICAS As empresas de turismo encontram atualmente o grande desafio de adequar seu perfil às necessidades dos clientes, cada vez mais exigentes, de modo que sua qualidade seja reconhecida no mercado. Este desafio é considerado grande em razão de que, em tempos onde o acesso à informação é fácil, o consumidor tem como parâmetros produtos de todo o mundo, o que o torna mais exigente e difícil de satisfazer. Nesta perspectiva, Castelli (2005), comenta que a empresa que não consegue responder às necessidades e desejos cambiantes dos seus clientes, está sujeita a entrar em um processo doloroso de desintegração. Para evitar o “colapso” em meio à competitividade do mercado, é necessário flexibilidade e, principalmente, que o produto oferecido seja de qualidade. Por que qualidade? Porque qualidade compensa. Sem ela, as empresas não conseguem mais sobreviver dentro das exigências do mundo contemporâneo. Muitas empresas já se aperceberam disso e passaram a investir em qualidade. (CASTELLI, 2005, p.15) Andrade (2007), referindo-se ao papel da qualidade enquanto força competitiva das empresas hoje, comenta que a necessidade de prestar serviços de qualidade e de alcançar os níveis de excelência no segmento de turismo nunca foi tão grande, já que é crescente a competição entre as empresas concorrentes, o que leva à melhoria contínua das atividades ligadas ao turismo. No entanto, para atender a um mercado exigente, o setor de serviços, cujos empreendimentos dependem do elemento humano para “fabricar” seu produto, só conseguirá oferecer qualidade se igualmente preocupar-se com a qualificação dos seus colaboradores. Conforme Ansarah (2000), a possibilidade de oferecimento de um turismo prazeroso e de qualidade a uma demanda cada vez mais exigente, é diretamente proporcional à capacidade de bom atendimento e motivação do capital humano em buscar a satisfação do cliente. O turismo abrange tarefas complexas, que exigem a atuação de profissionais especializados, com conhecimento e formação na área. De acordo com Trigo (1993, p.29), “no setor de prestação de serviços, especialmente no turismo, a posse de informações revela-se de uma capacidade estratégica inigualável”. Desta forma, é possível afirmar que o conhecimento proveniente da qualificação dos colaboradores garante às empresas a prestação de serviços com qualidade. Ainda sob esta perspectiva, Quevedo (2007) comenta que, dentro da nova realidade que as empresas de turismo vivenciam, a ênfase deve ser voltada à gestão dos ativos intangíveis, sendo preciso desenvolver na equipe de trabalho uma postura voltada para o aprendizado, focada na aquisição e uso da informação e do conhecimento. Em meio a uma gama de empresas, dentre as quais os meios de hospedagem, que vem atuando de longa data muitas vezes sem preocupar-se ou mesmo valorizar a formação ou qualificação de seus colaboradores, surgem empreendimentos que reconhecem que a prestação de serviços de qualidade é diretamente proporcional ao conhecimento que o profissional tem acerca de suas atividades. Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força produtiva direta, não apenas um elemento decisivo do sistema de produção [...] Dessa forma, a qualidade dos serviços prestados depende de profissionais capacitados, isto é, que possuam as competências requeridas para o trabalho. Essa mudança faz com que existam pessoas muito melhor preparadas e atualizadas (FRANZONI, 2007, p.95-96) Voltando o olhar ao segmento de hospedagem, entende-se que a mão-de-obra operacional, por ser aquela que atende diretamente ao cliente e, portanto, oferece os serviços simultaneamente à sua compra, deve receber uma formação contínua. Beni (2002, p. 95), afirma que o “sistema de turismo é destacadamente dinâmico e extremamente inovador, gerando continuamente necessidades de novas especializações para atender aos serviços que vão se produzindo”. Destacada a importância da formação profissional dos trabalhadores da área de turismo e hospitalidade e, mais precisamente, dos meios de hospedagem, objetos deste estudo, o item a seguir procura aprofundar a compreensão sobre as demandas da mesma. 3 A FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DE TURISMO E HOSPITALIDADE O turismo, que no Brasil por muito tempo foi explorado principalmente por famílias, as quais tocavam seus pequenos empreendimentos e valorizavam principalmente a experiência e a vivência dos seus colaboradores na área, hoje passa por um cenário de mudanças, onde o conhecimento empírico não é mais suficiente se dissociado de uma visão científica e teórica da atividade. Este cenário, não limitado às características do país, ao contrário, reflete uma tendência mundial que atende às transformações sociais e econômicas atuais. O mundo globalizado da sociedade do conhecimento trouxe mudanças significativas ao mundo do trabalho. O conceito de emprego está sendo substituído pelo de trabalho. A atividade produtiva passa a depender de conhecimentos e o trabalhador deverá ser um sujeito criativo, crítico e pensante, preparado para agir e de adaptar rapidamente às mudanças dessa nova sociedade (Silva; Cunha, 2002, p.77). A reflexão acerca da formação do profissional atuante nos meios de hospedagem deve contemplar tanto as necessidades do mercado, quanto dos próprios trabalhadores da área, sendo que a conversão dos interesses dos dois grupos de atores sociais (empresas e colaboradores) para um fim comum deve ser alcançada, para que se tenha um equilíbrio e a esperada qualidade na prestação de serviços. Nesta perspectiva, entende-se que a formação deve ser orientada para que o trabalhador desempenhe melhor suas atividades e tenha igualmente uma melhoria em sua qualidade de vida. A educação, em suas dimensões conceitual e prática, tem assumido um papel estratégico para a formação dos trabalhadores, seja do ponto de vista empresarial, que pretende atrela-la às demandas do mercado, seja para os trabalhadores, que a vêem como uma estratégia capaz de potencializar a valorização de sua própria força de trabalho a ser negociada no mercado de trabalho (FIDALGO, FIDALGO, 2007, p.28). Ao refletir sobre a qualificação profissional na hotelaria, Silva (2006), comenta que deve-se ter muito cuidado, no sentido de visar a formação de bons profissionais que atendam às expectativas do mercado, sendo que a hotelaria moderna fez surgir um novo tipo de profissional, especializado, que não limita-se a somente saber receber um cliente. Em contrapartida, mesmo reconhecendo que a educação e a formação profissional são moldadas conforme o reflexo da sociedade e, por isso, deve ter foco no mercado, é notório que a mesma tem um papel ainda maior, de inserir o indivíduo nesta sociedade. Shroeder (2007) entende a educação enquanto um processo de humanização, sendo que por meio dela o homem tem a oportunidade de inserir-se na sociedade, a qual exige cidadãos capazes de criar e de enfrentar os desafios dos diferentes contextos sociais. Nesta mesma perspectiva, a qual entende que o papel da educação vai além de atender às demandas empresariais, Freire (2007, p.30) coloca que “quando o homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias”. Independente da motivação é fato que é crescente o número de empresas e trabalhadores que buscam pela formação profissional, bem como o número de instituições que oferecem cursos com o intuito de atender a esta demanda. Na tentativa de explicar o porquê a educação profissional vem sendo cada vez mais valorizada pelos colaboradores da área de hospedagem, Fidalgo e Fidalgo (2007, p. 26), afirmam que, A necessidade de manutenção do emprego, o temor cada vez mais crescente da substituição por outro indivíduo mais competente ou mais ajustado e a introjeção dos novos discursos empresariais por grande parte da classe-que-vive-do-trabalho são alguns dos fatores de conduzem à expansão da busca pelo desenvolvimento eficiente e eficaz do ofício, ao desdobramento flexível e dinâmico e a uma constante atualização e aprimoramento intelectual e emocional. Tão importante quanto discutir sobre a importância da educação profissional dos trabalhadores, o que atualmente encontra cada vez mais espaço, é a forma e o nível no qual esta educação deve chegar ao trabalhador. Ao observar superficialmente o cenário nacional em relação à formação na área de Turismo e Hotelaria, identifica-se que os egressos dos muitos cursos superiores de Turismo e Hotelaria que atuaram na última década encontram dificuldades de inserir-se no mercado, o que leva a concluir que o perfil proporcionado pelos cursos superiores muitas vezes não é compatível ao que se espera de um profissional da área, principalmente em se tratando dos trabalhadores operacionais. Corroborando com a necessidade de uma formação mais adequada aos trabalhadores da área de Turismo e Hospitalidade, estudo anterior realizado pela pesquisadora, o qual consistiu em um fórum com empresários de vários segmentos da atividade turística de Itajaí e região, revelou que os mesmos destacam a necessidade da profissionalização da mão de obra operacional local, de forma a prepará-la para as funções específicas demandadas pelas empresas (Fernandes, Gaio, 2006). De acordo com pesquisa do Instituto de Hospitalidade (2001), as principais competências requeridas dos profissionais operacionais na área de hospedagem são o conhecimento de línguas estrangeiras, iniciativa, criatividade e habilidades práticas, sendo que estas podem ser adquiridas e desenvolvidas por meio da formação profissional técnica. Silva (2006) comenta que na área da hospitalidade a qualidade dos serviços depende de profissionais capacitados, que possuam as competências requeridas para o trabalho. Desta forma, entende-se que a formação oferecida aos trabalhadores da área deve voltar-se às necessidades da função desempenhada pelos mesmos, ou seja, em muitos casos o ensino técnico é mais pertinente do que o ensino superior, como no caso a formação da mão-de-obra operacional dos meios de hospedagem. Nesta perspectiva, o Ministério da Educação elaborou os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de Nível Técnico, (MEC, 2000) e sua emergência deu-se, segundo o documento, em decorrência de um conjunto de fenômenos que caracterizam o mundo atual, por meio dos quais o mercado de trabalho vem se reconfigurando e colocando novas exigências para os profissionais da área de Turismo e Hospitalidade. Sobre as premissas da educação profissional, Manfredi (2002, p. 153 apud MTb/Sefor, 1995, p.9), discorre que, A formação profissional deve enfatizar o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos básicos, específicos e de gestão, voltados para o desenvolvimento de um indivíduo que é, ao mesmo tempo, trabalhador e cidadão, competente e consciente. De acordo a autora (idem), o governo brasileiro, com o intuito de ampliar a oferta de educação profissional, criou o PLANFOR (Plano Nacional de Formação), o qual esclarece os objetivos da educação profissional brasileira: qualificar ou requalificar trabalhadores, proporcionando sua inserção ou re-inserção no mercado de trabalho, bem como a melhoria em sua qualidade de vida e na produção de bens e serviços. A educação profissional no Brasil, entendida enquanto complemento à Educação básica, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 9.394/96, artigos 36 (§2), 39 a 41 e regulamentada no decreto 5.154/4 (BRASIL, 2005), pode ser ofertada nas seguintes modalidades: a) formação inicial e continuada; b) educação profissional técnica de nível médio e c) educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação. Os cursos de formação inicial e continuada são oferecidos a pessoas alfabetizadas e compreendem um período de menor duração. Já os cursos técnicos incorporam carga horária maior e exigem que o aluno já tenha concluído o ensino médio. Por fim, os cursos de tecnologia e pós-graduação completam o itinerário formativo e permitem uma formação mais ampla, já que são cursos superiores. Desta forma, dentre os cursos oferecidos no eixo tecnológico Turismo e Hospitalidade estão o Tecnólogo em Hospedagem e o Técnico em Hospedagem, sendo que este permite muitos desdobramentos e formações mais pontuais, as quais são contempladas pelos cursos de Formação Inicial Continuada (FICs), como os de línguas aplicados à área e os voltados às operações específicas dos meios de hospedagem, como recepção, reservas e governança. O ideal, em se tratando da área de hospedagem, seria que o profissional tivesse uma formação técnica progressiva, iniciando com as formações iniciais e partindo então para os técnicos, tecnólogos e especializações, o que lhe permitiria atingir paulatinamente os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias à sua atuação. 4 METODOLOGIA O presente estudo pretendeu responder à seguinte questão: existe necessidade de formação profissional dos colaboradores operacionais da rede hoteleira de Itajaí e Balneário Camboriú? Desta maneira, a resposta foi buscada por meio da pesquisa quantitativa. No entanto, os resultados também permitiram uma leitura qualitativa. Segundo Richardson (1999, p. 79) “o aspecto qualitativo de uma informação pode estar presente até mesmo nas informações colhidas por estudos essencialmente quantitativos”. Para atender aos objetivos, o estudo teve inicialmente caráter exploratório, o qual pode ser identificado por meio da coleta de dados junto aos meios de hospedagem e da pesquisa bibliográfica, e posteriormente descritivo, etapa na qual a pesquisadora fez a leitura e análise dos dados coletados, que refletiram a realidade encontrada. Em se tratando da coleta de dados, foi utilizado o levantamento. De acordo com Dencker, (1998, p.127), “o levantamento consiste na coleta de dados referentes a uma dada população a partir de uma amostra selecionada dentro de critérios estatísticos”. Para tanto, foram elaborados questionários, os quais foram destinados a um funcionário operacional de cada um dos meios de hospedagem de Balneário Camboriú e Itajaí que compuseram a amostra. Os questionários foram semi-estruturados, ou seja, formados por questões ora abertas e em sua maioria fechadas, com o intuito de responder ao problema de pesquisa. A aplicação dos instrumentos de coleta de dados foi feita por meio de entrevistas com os atores objetos da pesquisa, sendo que os contatos mostraram algumas dificuldades, pois, em se tratando dos funcionários operacionais, houve grande dificuldade de coletar a opinião quando estes atuavam em setores como eventos ou governança. Desta forma, não foi possível coletar informações de maneira equitativa dos principais setores dos meios de hospedagem focos do curso de Hospedagem do IFSC e, portanto, de interesse para a pesquisa: recepção, reservas, eventos e governança. Os questionários foram impressos e tabulados com o auxilio do programa Microsoft Excel. Quanto à população da pesquisa, consistiu nos meios de hospedagem situados em Itajaí e Balneário Camboriú cadastrados nas Secretarias de Turismo locais. Em razão de não haver tempo suficiente para fazer uma pesquisa censitária, foi feita uma amostra estratificada, proporcional ao número de meios de hospedagem em cada um dos dois municípios. A escolha da amostra, por sua vez, foi aleatória. Pretendia-se levar em conta uma margem de erro de 5% (26 hotéis em Itajaí e 88 em Balneário Camboriú), o que não foi possível em razão da falta de tempo para levantamento de dados. Com o início dos contatos, ocorreu de alguns hotéis não atenderem ao telefone, possivelmente ou por não estarem mais atuando ou, principalmente, por estarem temporariamente fechados, já que muitos abrem somente para a alta temporada e os contatos ocorreram de março a novembro. Assim, foram contatados 20 hotéis em Itajaí, dos quais 13 responderam à pesquisa, 3 estavam fechados e 4 não responderam. Já em Balneário Camboriú foram contatados 79 hotéis, dos quais 12 estavam fechados e 16 não responderam à pesquisa. A análise dos dados foi calçada por informações coletadas por meio da pesquisa bibliográfica, a qual foi realizada em livros da área e principalmente em artigos científicos e outras pesquisas acerca do tema. A seguir serão apresentados os resultados obtidos pelo contato com os profissionais da hotelaria em Balneário Camboriú e Itajaí. 5 RESULTADOS Durante o período de março a novembro de 2009 foram aplicadas noventa entrevistas, o que compreendeu o levantamento de informações acerca de 45 meios de hospedagem, sendo 32 em Balneário Camboriú e 13 em Itajaí. Em cada hotel foi entrevistado um gestor e um funcionário operacional, com o intuito de identificar a opinião de ambos quanto à necessidade de formação profissional para a mãode-obra operacional dos meios de hospedagem. A opção de entrevistar estes dois grupos de atores sociais foi em razão de que muitas vezes não basta o funcionário querer qualificar-se, já que as particularidades do trabalho na área de hospedagem podem inviabilizar a realização da formação, o que demanda que o hotel apóie o funcionário, principalmente no que tange à flexibilização do horário de trabalho deste. No entanto, para fins deste trabalho, a análise tomará como foco somente a óptica dos trabalhadores operacionais dos hotéis. 4.1 Opinião dos trabalhadores quanto à necessidade de formação profissional As entrevistas foram aplicadas junto aos trabalhadores operacionais tendo inicialmente a permissão do gestor. Desta forma, responderam ao questionário 42 trabalhadores operacionais, já que três dos gestores contatados não permitiram que os funcionários colaborassem com a pesquisa, pois estes estavam ocupados e em horário de trabalho. A primeira indagação foi em relação à função que estes exercem (Figura 01), sendo que como resultado obteve-se que 77% dos entrevistados atuam como recepcionistas, 7% como camareiras, 5% como garçons, 5% como auxiliares de reservas e 2% em cada uma das seguintes funções: auxiliar comercial, auxiliar administrativo e chefe de recepção. Função 2% 5% 5% Recepcionista 2% 2% 7% Aux. reservas Garçom Aux. Com. Camareira Aux. Adm. 77% Chefe de recep. Figura 01 – Função no meio de hospedagem A razão da maioria dos entrevistados serem recepcionistas deve-se primeiramente porque este é um setor que emprega um grande número de trabalhadores e, principalmente, à dificuldade de entrevistar funcionários de outros setores, como reservas, eventos e governança, os quais em muitos hotéis são difíceis de localizar. Da mesma forma, quando a pesquisadora solicitava ao gestor autorização para entrevistar um funcionário, muitos indicavam o recepcionista, já que em muitos hotéis é ele quem realiza a triagem das ligações telefônicas. Quanto ao tempo de atuação na área (Figura 02), a maioria (38%) respondeu trabalhar na hotelaria há menos de 2 anos, seguidos por 33% que trabalham de 2 a 5 anos, 12% de 6 a 10 anos, 7% de 16 a 20 anos, e por último, ambos com 5% de representatividade, de 11 a 15 anos e mais de 21 anos. Tempo de atuação na área 5% 5% 7% Até 2 anos 38% 12% de 2 a 5 anos de 6 a 10 anos de 11 a 15 anos de 16 a 20 anos 33% Mais de 21 anos Figura 02 – Tempo de atuação na área Desta forma, apesar da média de tempo de serviço ser alta, é possível observar que a maioria dos trabalhadores atua há pouco tempo na área. Haja vista que o parque hoteleiro em ambos os municípios é antigo (a atividade turística apresenta grande representatividade na economia local a partir da década de 70) e que as empresas são em sua maioria de pequeno porte e familiares, pensa-se que a pouca permanência e a rotatividade dos colaboradores nos hotéis se dá em razão da falta de possibilidade de crescimento profissional e dos baixos salários da área. Em se tratando de formação, a maioria dos trabalhadores dos hotéis (52%) possui qualificação na área de hospedagem, sendo que os 48% restantes não possui. Dos qualificados, 14% possuem curso de qualidade no atendimento, 63% são graduados em Turismo e Hotelaria (um deles possui pós-graduação), 18% possuem curso de recepcionista de hotel e 5% de reservas (Figura 03). Qualificação na área 18% 5% 14% Qualidade no atendimento Grad. em Turismo e/ou Hotelaria Recepcionista 63% Reservas Figura 03 – Qualificação na área Dos profissionais que já realizaram cursos na área de hospedagem, a maioria (73 %), o fez por iniciativa própria. Somente 23% dos colaboradores receberam incentivo do meio de hospedagem, sendo este ou flexibilidade de horário, ou o curso foi realizado no próprio hotel com parceria entre o hotel e uma entidade formadora. A leitura dos dados permite verificar que os hotéis participantes da pesquisa incentivam cursos de curta duração, realizados em parceria com entidades formadoras. Nenhum hotel apoiou cursos de graduação. Pode-se dizer, no que tange à qualificação profissional dos trabalhadores operacionais, que o cenário de Itajaí e Balneário Camboriú é positivo, o que pode ser explicado pela proximidade da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, uma das pioneiras em inserir cursos na área de Hotelaria do país. A UNIVALI oferece cursos de graduação e também oferece esporadicamente cursos de qualificação de curta duração, em parceria com outras entidades, como sindicatos. Quando indagados sobre a importância da qualificação para sua atuação profissional (Figura 04), 95% dos trabalhadores respondeu que a formação é importante e auxilia no desempenho de suas atividades, contra 5% que respondeu que a formação não contribui para sua atuação na área da hotelaria. A formação dos profissionais entrevistados é, em sua maioria, a graduação. Como reflexo, alguns colaboradores qualificados que atuam nos setores operacionais dizem que sua formação não contribui com a atuação prática possivelmente porque a graduação proporciona uma visão mais holística e não pontual (operacional) das atividades do meio de hospedagem. Dos entrevistados que consideram a formação profissional importante, a maioria (51%) pensa que os cursos de curta duração são os mais adequados à realidade dos meios de hospedagem, seguidos por 34% que pensa ser a formação técnica a ideal e 5% que pensa ser cada um dos tipos de formação: graduação, pós-graduação e cursos em todos os níveis, dependendo do setor em que o profissional atua (Figura 04). Nível de qualificação necessária à mão de obra operacional do hotel 5% 5% 5% Cursos de curta duração Formação técnica 51% 34% Graduação Pós graduação Todos os níveis Figura 04 – Nível de qualificação necessária à mão de obra operacional do hotel Quanto às maiores necessidades em relação à qualificação, a maioria dos entrevistados (57%) respondeu necessitar de cursos de línguas, seguida por 10% dos entrevistados que necessitam de formação em operação em recepção e 7% em cada um dos enfoques a seguir: atendimento, operação em governança e operação do sistema de automação. 7% dos entrevistados não sente necessidade de formação e 5% gostaria de qualificar-se em gestão (Figura 05). Uma análise das respostas permite verificar que o mercado hoje necessita de profissionais com domínio de outros idiomas e que conheçam bem a operação do setor em que atuam. Percebe-se também que o nível dos cursos que os entrevistados consideram mais adequado à sua atuação profissional (curta duração e técnico), são justamente os que oferecem uma formação de qualidade nas áreas mais deficientes (línguas e operação). Necessidade em relação à formação Linguas Atendimento 7% 5% Op. Sistema de automação Não há necessidade 10% 7% 7% 57% 7% Op. Em recepção Op. em governança Gestão Figura 05 – Necessidade em relação à formação Os colaboradores que tem alguma necessidade em relação à formação foram indagados sobre sua disposição em realizar um curso dentro de sua necessidade, sendo que 81% mostraram-se dispostos e 19%, mesmo reconhecendo que têm necessidade de qualificarse, não têm interesse em realizar qualquer formação, principalmente porque não pretende continuar atuando na área de hotelaria. Quanto ao horário mais conveniente para realização da formação, 32% dos trabalhadores responderam ser o noturno, 29% a tarde, 24% a manhã, 12% turnos alternados e 3% fins de semana. Assim, percebe-se que a maioria dos trabalhadores da recepção prefere o turno noturno, sendo que os demais setores, como a governança, foram unânimes quanto à preferência da tarde para realização do curso. Quando indagados sobre se o hotel apóia a qualificação dos colaboradores, a maioria dos entrevistados (64%) respondeu positivamente, contra 18% que respondeu negativamente e 18% que não soube responder. A forma do apoio, por sua vez, dá-se principalmente em dispensa no horário de trabalho, seguida por apoio financeiro e ambos. Desta forma, o resultado das entrevistas com colaboradores aponta que há demanda para cursos de qualificação profissional em Balneário Camboriú e Itajaí, principalmente os de curta duração e focados para alguma função ou atividade pontual no meio de hospedagem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Balneário Camboriú vive notadamente da atividade turística e do comércio, o que faz com que a qualificação da mão de obra local seja importante para que o município torne-se competitivo. Itajaí, da mesma forma, vem tratando o turismo como uma fonte importante de renda, tendo também a necessidade de oferecer serviços qualificados. Uma leitura dos resultados da pesquisa aponta que a média do tempo de trabalho na área dos colaboradores operacionais é razoável. No entanto, alguns trabalhadores possuem grande experiência profissional em detrimento de outros, já que a realidade aponto para a alta rotatividade dos colaboradores operacionais. A maioria dos trabalhadores envolvidos na operação dos empreendimentos apresenta alta qualificação, considerando os parâmetros nacionais. No entanto, esta formação é principalmente em nível de bacharelado, o que não elimina a necessidade de uma formação voltada à prática e ao saber fazer. É interessante observar que, os trabalhadores, em sua maioria, afirmou ter algum tipo de formação, o que denota sua preocupação com a qualificação. Já quando indagados sobre se realizaram a formação com apoio ao hotel ou por conta própria, a segunda opção foi apontada pela maioria dos entrevistados. Os cursos de Formação Inicial e Continuada, de curta duração e em nível de qualificação, foram considerados os mais adequados pelos trabalhadores operacionais, sendo que os cursos técnicos foram apontados em segundo lugar. Em relação aos horários, o mais adequado foi considerado o período noturno. Os trabalhadores apontaram ter maior dificuldade no domínio de uma língua estrangeira, seguido da operação de setores específicos, como recepção. Isso explica-se em razão de que a maioria dos entrevistados atua no setor de recepção, o qual faz atendimento direto ao cliente, sendo que os dois municípios recebem grande número de estrangeiros, principalmente de países do Mercosul. Com o intuito de abranger as necessidades apontadas pelo grupo de atores sociais, sugere-se cursos que mesclem a operação de alguns setores do hotel com o ensino de línguas em nível instrumental, que dê condições ao trabalhador de comunicar-se com o cliente, aumentado sua eficiência e a qualidade do seu trabalho. Desta forma, os resultados das entrevistas com colaboradores apontam que, muito embora haja um grande número de pessoas com formação, há demanda para cursos de qualificação profissional em Balneário Camboriú e Itajaí, principalmente os de curta duração e focados para alguma função ou atividade pontual no meio de hospedagem. RERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Antônio. Separata requalificar recursos humanos. In: Correio do Turismo, n. 8, jan-jun, 2000. ANDRADE, Pedro Paulo Jr. Os impactos de novas tecnologias na organização do trabalho em empresas do setor turístico. In: Turismo na Era do Conhecimento. Quevedo, Mariana (org). Florianópolis, Pandion, 2007. ANSARAH, Maria. Gomes. 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